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CHANTAGEM DA PAIXÃO Miranda Lee Título original: BLACKMAILED INTO THE ITALIAN'S BED

Uma noite inesquecível... Jordan lutou para esquecer Gino Bortelli, um italiano arrogante e sexy que foi seu amante dez anos atrás. Apesar da separação ter sido traumática, Jordan ainda sonhava com o toque de Gino. Homem algum havia sido capaz de fazê-la ter sensações tão apaixonantes como ele fizera... Infinitos sonhos de prazer... Os desejos inconfessáveis de Jordan são atendidos: Gino está de volta! Mais experiente, mais rico e mais sexy do que nunca, ele ainda tem o poder de fazê-la se derreter. E mais: ele sabe de algo que Jordan prefere manter em segredo, e está disposto a usar isso para tê-la de novo em sua cama! Será Jordan capaz de se negar a atender aos desejos do homem de sua vida?

Digitalização: Simone Ribeiro


Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Revisão: Crysty

CAPÍTULO UM

Gino estava em pé diante da janela do quarto do hotel, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça e o olhar fixado lá embaixo, nas ruas da cidade. O tráfego congestionado praticamente arrastava-se, e as calçadas estavam cheias de funcionários que saíam dos edifícios comerciais, todos ávidos para chegar em suas casas para o fim de semana, independentemente de onde ficassem seus lares. Ele imaginou onde seria a casa dela, e se era casada. Seu coração bateu descompassado ao pensar nisso, pois não queria que ela fosse casada. Mas, com certeza, seria. Uma garota como aquela, tão bonita e tão inteligente. Algum homem esperto já teria se interessado, sem dúvida, há dez anos pelo menos. Ela, provavelmente, também tinha um casal de filhos. Seu celular tocou e o fez afastar-se apressadamente da janela para atendê-lo, enquanto olhava para o relógio: 17h30. Esperava que fosse da agência de detetives, não Claudia. Não queria conversa naquele momento. — Gino Bortelli — respondeu, com leve sotaque italiano. — Sr. Bortelli? — Gino suspirou com alívio ao ouvir uma voz masculina incisiva, no outro lado da linha. — Aqui quem fala é Cliff Hanson, da firma Investigações Confidenciais. — Estou satisfeito em receber notícias suas, sr. Hanson — replicou Gino no mesmo tom incisivo. — O que tem para me contar? — Acredito que localizamos a srta. Jordan Gray, que o senhor estava procurando, sr. Bortelli, embora não seja um nome tão incomum quanto tínhamos imaginado. Mas há somente uma srta. Jordan Gray atualmente morando em Sidney, que tem a idade e a descrição física que nos forneceu. — Então ela não é casada? — perguntou Gino, tentando não demonstrar ansiedade no tom da voz. — Não, ainda é solteira, sem filhos. E o senhor estava certo, ela é advogada. Trabalha para Stedley & Parkinson. É uma firma de advocacia americana que tem filial no centro financeiro aqui de Sidney. — Eu conheço a empresa — disse Gino, atordoado pela notícia. Ele tinha estado no escritório deles naquela mesma tarde, assinando um contrato. Por Deus, eles poderiam ter se encontrado lá!

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Na verdade, ela é a responsável pela área de litígio civil da empresa. Ganhou uma disputa contra uma grande companhia de seguros recentemente. Um sorriso malicioso aflorou no rosto de Gino. — É bem o feitio dela. Jordan detestava seguradoras. Os pais dela tinham tido uma ação de seguro rejeitada depois que a casa deles havia sido virtualmente destruída por uma tempestade e a seguradora camuflara uma cláusula importante, com letras minúsculas impressas no contrato da apólice. O pai de Jordan havia tentado lutar contra eles através do sistema legal e isso lhe custara cada centavo que ele possuía, e também alguns mais, que ele não tinha. Depois de perder sua apelação final, ele morrera de infarto, motivado pelo estresse, deixando a esposa e a filha completamente desamparadas. — Você tem um endereço, e um telefone residencial para me dar? — perguntou ele. — Um endereço sim, mas ainda não o número do telefone residencial. Advogadas como a srta. Jordan usualmente bloqueiam seus números nas listas telefônicas. — Dê-me o endereço, então — disse Gino, sentando-se em frente a uma escrivaninha que continha tudo que um homem de negócios, longe de casa, pudesse precisar, inclusive acesso à internet. Gino pegou sua caneta Mont Blanc e anotou o endereço de Jordan num bloquinho. Era um apartamento em Kirribilli, um dos bairros afastados perto do porto, ao norte de Sidney, não muito longe da ponte. Rasgou a página e a colocou dentro da carteira. — Ela mora sozinha? — foi a pergunta seguinte, já com a garganta apertada. — Ainda não sabemos, sr. Bortelli. Estamos trabalhando nessa investigação há poucas horas. Precisamos de um pouco mais de tempo para preencher os detalhes da vida amorosa da senhorita em questão. Há muita coisa que podemos descobrir através da Internet e chamadas telefônicas. — Quanto tempo mais? — Possivelmente apenas algumas horas. Tenho um dos meus melhores operadores de campo rastreando a srta. Gray quando ela deixar o trabalho ao fim da tarde. Conseguimos obter uma foto recente através da carteira de motorista dela. Nosso funcionário está, no momento, posicionado em frente à saída do edifício onde a moça trabalha. Gino pestanejou, preocupado diante da invasão de privacidade de Jordan. — Isso é necessário? — É, se o senhor quiser conhecer a situação pessoal da moça ainda esta noite, conforme revelou. Sim, ele queria. Tinha agendado o primeiro vôo na manhã seguinte para Melbourne.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Quando havia voado para Sidney no dia anterior, Gino não tivera a intenção de contratar um detetive particular para encontrar Jordan. Mas durante sua viagem de táxi do aeroporto para o hotel, localizado no centro, as lembranças que vinha tentando enterrar na última década haviam ressurgido com muito ímpeto. A necessidade de saber o que tinha lhe acontecido havia ultrapassado o bom senso. Não fora capaz de dormir na noite anterior, pensando nela. Pela manhã, sua curiosidade havia se transformado numa compulsão. Um telefonema para um amigo policial em Melbourne imediatamente forneceu-lhe o número do telefone de uma conceituada agência de detetives particulares em Sidney. Às 10h desta manhã já estava aguardando notícias sobre o paradeiro da estudante do primeiro ano de direito com a qual ele tinha vivido alguns poucos meses idílicos, anos atrás. Supondo que descubra que não há homem nenhum na vida dela, o que pretende fazer com essa informação?, perguntou-se com uma careta. Você pediria Claudia em casamento neste fim de semana? Chegou até a comprar as alianças. Por favor, pense bem no que está fazendo, correndo atrás de uma namorada antiga, que provavelmente não pensou em você todos esses anos. Eu apenas quero vê-la mais uma vez. Para ter certeza que ela é feliz, Nada mais, pensou ele. O que haveria de mal nisso? — Mantenha-me informado o tempo todo — disse bruscamente. — Manteremos, sr. Bortelli.

CAPÍTULO DOIS

Jordan olhou para o relógio da parede e desejou que fosse 17h50, quando, tranqüilamente, iria para casa. Estava no costumeiro happy hour na sala de reunião da diretoria, como sempre fazia todas as tardes de sexta-feira, das 17h às 18h. Era uma tradição em todas as filiais da Stedley & Parkinson, que havia sido introduzida pela matriz, e a primeira prática nos Estados Unidos fora há quarenta anos. Empregados que não compareciam — ou saíam mais cedo — eram mal-vistos pelos poderosos da empresa. Normalmente, Jordan não se importava com aquele encontro no final da tarde, mas esta semana em particular tinha sido longa e difícil, tanto profissional quanto pessoalmente. Conversar futilidades estava além de seus limites naquele dia, razão pela qual havia se servido de uma taça de vinho branco e se recolhido a um canto da sala.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Escondendo-se? Jordan levantou os olhos quando Kerry aproximou-se, carregando uma bandeja de salgadinhos. Kerry era a advogada preferida do chefão... a garota mais agradável no escritório, a mais íntima e uma das melhores amigas de Jordan. Uma ruiva natural, com um rosto bonito, olhos azuis suaves e pele clara, repleta de sardas. — Não estou com vontade de conversar — disse Jordan, pegando uma quiche da bandeja. — De que são essas quiches? — De espinafre e champignon. São excelentes e não engordam. Jordan enfiou o pequeno salgado na boca e o devorou em segundos. — Humm, são realmente deliciosos. Vou pegar mais um. — Fique à vontade. Então, qual é o problema? Não me diga que o Loverboy viajou hoje, deixando-a sozinha por duas semanas inteiras. Jordan pestanejou quando Kerry chamou Chad de Loverboy, embora este fora seu apelido desde o primeiro dia que entrara no escritório, com seu sorriso americano largo, aparência de astro de cinema e esbanjando charme para todos os lados. Não houve uma única garota no escritório que não quisesse sair com o filho e herdeiro universal de Jack Stedley... inclusive a própria Kerry. Mas Jordan tinha sido a escolhida, era Jordan quem o estava namorando nos últimos meses. — Vamos lá, me conte — acrescentou Kerry num sussurro conspiratório. — Não sou fofoqueira como algumas garotas por aqui. Jordan sabia que aquilo era verdade. Uma das boas qualidades de Kerry era a discrição. Algumas vezes, Kerry também tinha seus maus momentos, com um casamento no passado e diversos namorados... o último tendo rompido com ela bem recentemente. Mesmo assim, sempre era otimista em relação à vida, o que Jordan admirava e freqüente mente invejava. Jordan olhou para os bondosos olhos azuis da amiga e decidiu fazer o que muito raramente fazia: confidencias. — Chad me pediu em casamento na noite passada. — Uau! — exclamou Kerry, antes de dar a Jordan um olhar especulativo. — Então, qual é o problema? Você deveria estar nas nuvens. — Eu recusei. — Você o quê! Espere aí — disse Kerry, correndo para entregar a bandeja com os salgados para uma das outras garotas distribuir e pegar uma taça de champanhe antes de

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) reunir-se a Jordan novamente, com um olhar severo no rosto. — Não acredito no que estou ouvindo. O Garoto de Ouro a pediu em casamento e você disse não? Está insana? — Eu não disse exatamente não — replicou Jordan. — Mas também não disse sim. Apenas pedi um tempo para pensar. Disse que daria minha resposta quando ele voltasse dos Estados Unidos. ficar.

— Mas por quê? Achei que era louca pelo homem. Ou tão louca quanto você pode — E o que isso significa?

— Oh... você sabe. Você é superinteligente, Jordan, e muito reservada. Nunca irá perder a cabeça por causa de um homem, como eu. Jordan suspirou. Kerry estava certa. Ela não era o tipo de perder a cabeça por um homem. Mas havia perdido uma vez, e nunca mais o esquecera. — O que está acontecendo, Jordan? — persistiu Kerry. — Não pode ser o sexo. Você me disse que ele é bom na cama. — Ele é sim — repetiu, como se tentando convencer-se que não havia nada faltando em matéria de sexo. Na verdade, não teria pensado que estava faltando alguma coisa, a não ser pelo relacionamento antigo que tivera com Gino. Chad conhecia todas as artimanhas na cama, mas simplesmente não podia fazê-la sentir-se como havia se sentido com Gino. Nenhum homem seria capaz disso, desconfiava Jordan. — O que você está escondendo de mim? — perguntou Kerry com gentileza. Jordan deu um suspiro resignado. Este era o problema em fazer confidencias. Era como atirar uma pedra num lago, fazendo surgir círculos que se alargavam. Kerry não descansaria até Jordan lhe contar a verdade. Ou, pelo menos, uma versão que a convencesse. — Houve um homem certa vez — começou ela, titubeante. — Um italiano. Oh, isso foi anos atrás, no meu primeiro ano na universidade. Vivemos juntos alguns meses. — E? — Bem, ele... ele era... incrível. — Entendo. Obviamente, você estava loucamente apaixonada por ele. — Sim. — E o que sente por Chad não se compara? — Não. — Não Chad ou qualquer outro namorado que tivera depois. — Esse italiano foi seu primeiro amante?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Sim, foi. — O primeiro e o melhor, pensou ela. — Isso explica tudo, então — disse Kerry, com satisfação no tom de voz. — Explica o quê? — E impossível para uma garota esquecer-se completamente do primeiro amor. Não, se ele foi bom na cama, o que presumo que tenha sido. — Ele era simplesmente maravilhoso. — Sabe, Jordan, ele, provavelmente, não foi tão maravilhoso como você pensa. A memória pode nos trair. Por anos depois de meu divórcio achei que fui uma boba em deixar meu marido. Mas, então, o encontrei uma noite numa festa, e percebi que ele não passava de um pobre coitado e que eu estava muito melhor longe dele. Aposto que seu namorado italiano a deixou, não foi? — Não exatamente. Cheguei um dia em casa, da universidade, e encontrei um bilhete, dizendo que o pai dele estava seriamente doente. Disse que sentia muito, mas tinha de ir para a casa da família, e desejou-me um futuro feliz. — Não prometeu escrever ou coisa assim? — Não, e também não me deixou um endereço para contato. Só depois de sua partida percebi o quão pouco sabia sobre ele... que nunca falava sobre a família, ou telefonava para eles. Pelo menos, não enquanto eu estava por perto. Imaginei, mais tarde, que ele, provavelmente, esteve aqui na Austrália para um trabalho temporário e nunca houve realmente intenção de ficar. — Esta é uma outra razão pela qual você acha difícil esquecê-lo — murmurou Kerry. — Pena que ele teve de voltar para a Itália, caso contrário, você teria sido capaz de conhecê-lo melhor e ver que o homem não era, nem de perto, tão maravilhoso quanto pensava. Provavelmente, agora, seja gordo e careca. — Somente se passaram dez anos, Kerry, não trinta. Além do mais, os homens italianos raramente ficam calvos — ressaltou Jordan, recordando-se dos exuberantes cabelos pretos, espessos e ondulados de Gino. — E jamais se permitiria ficar gordo. Freqüentava a academia de ginástica com assiduidade, todas as noites, tão logo terminava seu trabalho num cantei ro de obras. Foi ele quem me levou a fazer exercícios físicos. Jordan corria alguns quilômetros na maioria das manhãs, e levantava pesos três vezes por semana. — Qual era a função dele, num canteiro de obras? — perguntou Kerry. — Era operário. — Um operário? — repetiu Kerry descrente. — Você prefere um operário a Chad Stedley? — Gino era muito esperto — defendeu Jordan —, e excelente cozinheiro.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Bravo! Parabéns para ele — zombou Kerry com desdém. — Case-se com Chad e poderão sair para jantar fora todas as noites. Ou contratar um chef cordon bleu pessoal. Ouça, não me importo se este Gino era Einstein e Casanova numa só pessoa! Você tem de se mexer, garota. Não pode deixar que um velho fulgor estrague seu futuro. E seu futuro é tornar-se a sra. Chad Stedley. Se quiser meu conselho, tão logo Chad ligue para você, digalhe que pensou sobre a proposta de casamento e sua resposta é sim, sim, três vezes sim! Jordan deu um suspiro profundo. — Gostaria que isso fosse tão fácil. — Mas é fácil. Seria? Jordan podia ver bom senso nos argumentos de Kerry, independentemente do que sentia por Gino, ele era história do passado. Se olhasse para as coisas com lógica, saberia que deixar as lembranças de Gino estragar o relacionamento que poderia ter com Chad seria muita estupidez. Jordan tinha muitos defeitos, mas não era tola. — Sim, você está certa — disse com firmeza. — Estou sendo boba. Farei exatamente o que você disse — decidiu, e sentiu-se instantaneamente melhor. Não tinha lido, em algum lugar, que qualquer decisão era melhor do que nenhuma? — Graças a Deus. Você finalmente está agindo com bom senso. Ouça, todo mundo está começando a sair agora. Não é minha vez de ajudar a limpar tudo, portanto, que tal irmos juntas a algum lugar sofisticado, comemorar com um drinque? — sugeriu Kerry. — Não estou vestida para ir a lugares elegantes — respondeu Jordan, sentindo-se diferente de Kerry, cujo vestido vermelho de lã era tão adequado para boates elegantes como para o escritório. — Não venha com essa conversa novamente — disse Kerry fitando o terninho azulmarinho listrado de Jordan. — Na próxima vez que formos às compras juntas, não vou dar ouvidos a nenhuma de suas desculpas tipo: "Sou uma advogada e tenho de me vestir de modo conservador." Assim mesmo, se você soltar os cabelos e desabotoar dois botões dessa sua blusa de professorinha do interior, nem tudo estará perdido. Quando chegarmos lá, entraremos no toalete e daremos um jeito em você. — Chegarmos lá, onde? — Que tal o Rendezvous Bar? Está menos sofisticado depois que o reformaram. O lábio superior de Jordan contorceu-se. — Está também ganhando reputação de espelunca. Kerry sorriu. — Sim, sei disso. Jordan franziu o cenho. — Você é incorrigível, sabe disso, também? — Não. Faço mais o tipo desesperada.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Oh, não venha com essa — disse Jordan. — Uma garota tão bonita como você nunca será desesperada. Kerry sorriu de novo. — Realmente adoro passar o tempo com você, amiga. Sempre faz com que me sinta bem. Quer ir comprar roupas amanhã? — Desculpe, mas não posso. Tenho de trabalhar. — No sábado? — Pior ainda. O fim de semana todo. Ela ainda não tinha terminado de revisar o caso Johnson, o que não a deixava muito satisfeita. Kerry apontou um dedo para Jordan. — Somente trabalho e nenhuma diversão fazem de você uma garota melancólica e chata. — Razão pela qual concordei em ir tomar um drinque com você — replicou Jordan, pegando o braço livre da amiga. — Portanto, pare de me aborrecer, mulher, e vamos embora daqui.

CAPÍTULO TRÊS

Gino desligou o telefone, atônito com o que Cliff Hanson acabara de lhe contar. Aparentemente, Jordan deixara o edifício do escritório às 18hl0, e com uma amiga caminhara para a Wynyard Station. O homem que a tinha seguido presumiu que ela tomaria um trem para casa. Em vez disso, ela e sua companheira haviam entrado no Regency Hotel e estavam naquele exato momento sentadas no maior dos dois bares, bebendo um drinque. O mais surpreendente era que Gino também estava no mesmo Regency, hospedado. Pela segunda vez naquele dia o destino tinha colocado Jordan no seu caminho, e eles poderiam ter se encontrado. Dessa vez, entretanto, Gino sabia do fato, por isso havia pedido ao detetive, através de Hanson, para sentar-se junto à porta e ficar de olho em Jordan até que ele próprio chegasse. Gino podia sentir a descarga de adrenalina no corpo quando pegou a carteira do criado-mudo e a colocou no bolso interno da jaqueta de couro. Por um momento hesitou, preocupado com o que aconteceria quando a encontrasse depois de todos aqueles anos.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Jordan ficaria contente por vê-lo? Ou não? Era impossível calcular como reagiria. Ela o amara e ele a tinha ferido, não havia dúvida com relação a isso. Ele sabia muito bem que Jordan não era uma mulher que perdoava e esquecia facilmente as mágoas. Todavia, o relacionamento deles ocorrera há dez anos... tempo suficiente para curar um coração partido. Gino fez uma careta quando se dirigiu à porta do quarto. Atravessaria aquela ponte quando chegasse ao local, porque nada, a não ser a morte, o impediria de ir ao bar falar com ela. Ainda assim, estava feliz por ter tido tempo para tomar uma ducha e trocar o terno formal italiano que usou durante o dia, por algo confortável. Roupas esportivas combinavam mais com o Gino que Jordan havia conhecido, não o Gino no qual se transformara. O que vinha a ser aquilo exatamente?, perguntou-se enquanto descia de elevador para o andar térreo. Nada além de um homem que não sabia mais se divertir, sobrecarregado de responsabilidades com a família. Um homem que dentro de alguns momentos pediria em casamento uma garota italiana que não o amava. Se ao menos não tivesse feito a promessa impulsiva ao próprio pai no seu leito de morte! Mas havia feito, não tinha retorno. Aquelas últimas palavras ecoavam na cabeça de Gino quando saiu do elevador e se encaminhou ao bar do hotel. Sem retorno, pensou. O que havia compartilhado com Jordan no passado já não existia mais. Se fosse honesto consigo mesmo, perceberia que aquilo nunca tinha sido verdadeiro. Vivera uma fantasia. Apenas um interlúdio sensual que terminara no momento que recebera o telefonema revelador da doença do pai. Tudo que havia restado era a culpa, e o fantasma dos prazeres vividos... Nessa noite, ele enfrentaria a culpa e tentaria se livrar de todos os fantasmas. Um segurança que trabalhava na porta do bar olhou com desconfiança quando Gino se aproximou, mas não o impediu de entrar. A sala era imensa, com tapete azul-marinho, luzes no teto estilo discoteca e um resplandecente bar central. Havia diversas áreas para escolher onde sentar, mas muitos freqüentadores estavam aglomerados perto do canto esquerdo, onde um trio de jazz tocava soul. Somente um pequeno número de pessoas estava sentado às mesas na área perto da entrada, designada para não fumantes. Gino logo localizou o detetive... um homem de aparência comum, trinta e poucos anos, que passaria despercebido no meio da multidão.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Ela está ali — disse ele, apontando em direção a uma mesa localizada na extremidade da pista de dança. Quando Gino olhou através da fumaça para a garota pela qual fora apaixonado, percebeu que provavelmente não a teria reconhecido se passasse por ela. Não com aqueles lindos cabelos louros, presos na nuca, vestida com aquele terninho estilo masculino. O que tinha acontecido àquela garota feminina que conhecera? Ela também estava mais magra, o rosto, afinado. Todavia, ainda era bonita. Bonita e triste. Ambas: sua beleza e sua tristeza faziam com que parecesse uma outra pessoa. — Daqui em diante, assumirei a situação — disse ele de forma brusca ao detetive. — Pode ir para casa. — Tem certeza, senhor? — Absoluta. O homem deu de ombros, bebeu o resto da cerveja num gole e partiu. Gino permaneceu sentado algum tempo, observando Jordan. Ela olhava repetidas vezes para uma ruiva de vestido vermelho, que estava dançando de rosto colado com um rapaz alto de boa aparência. Obviamente, aquela era a colega com a qual ela havia chegado. Também era óbvio que Jordan não estava feliz por ter ficado sentada ali sozinha. Tão logo a banda parou de tocar, a ruiva voltou para a mesa, acompanhada pelo parceiro. Depois de uma rápida conversa com Jordan, a ruiva e o homem foram embora, de braços dados. Quando Jordan começou a beber rapidamente seu cálice de vinho quase cheio, Gino achou que era tempo de informá-la de sua presença, pois ela, obviamente, também pretendia ir embora. A distância de sua mesa até a de Jordan parecia infindável, enquanto o coração de Gino batia mais forte a cada passo. Um instante antes que chegasse, ela colocou o cálice de vinho vazio sobre a mesa, então se curvou para a esquerda e pegou a bolsa da cadeira ao lado. Estava de costas para Gino quando ele disse: — Olá, Jordan. — As palavras pareciam pesar em seus lábios. Ela se virou, erguendo o queixo, e ao vê-lo seus olhos azuis arregalaram-se de surpresa. Não... não de surpresa, mas sim de choque. — Oh, meu Deus! — exclamou ela. — Gino! Choque, mas não amargura, nem ódio, percebeu ele, sentindo-se aliviado.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Sim — respondeu ele com um sorriso caloroso. — Sou eu, Gino. Posso me sentar? Ou você está aqui com alguém? — Sim. Não. Não, não mais. Eu... — Jordan fez uma pausa, completamente intrigada. — Você quase perdeu seu sotaque italiano! Incrível ela notar aquilo, pensou Gino ao sentar-se à mesa. Sempre fora uma garota observadora, com uma mente ardilosa. Quando a conhecera, ele havia acabado de retornar de seus quatro anos numa universidade em Roma e seu sotaque ficara mais acentuado durante a permanência na Itália. Aquele reencontro seria mais embaraçoso do que ele imaginara. Não saberia como explicar a observação de Jordan, sem revelar o quanto a enganara todos aqueles anos atrás. Não tinha outra opção senão mentir. — Estou de volta à Austrália há um bom tempo. — E não pensou em me procurar? — perguntou ela meio indignada. — Eu não podia imaginar que você esperasse por isso — disse Gino cautelosamente. — Pensei quê tivesse seguido com sua vida. — Eu segui — disse ela, meneando a cabeça. Um gesto típico de Jordan, mas não teve o mesmo efeito de quando usava os cabelos soltos. — Você é advogada? — perguntou ele, fingindo não saber. — Sim — disse ela. — Sua mãe deve estar muito orgulhosa de você. — Mamãe faleceu alguns anos atrás, de câncer. Outra razão para Jordan parecer triste e solitária. — Sinto muito. Ela era uma boa mulher. — Ela gostava de você também. — Jordan suspirou, parecendo ausente por um momento, antes de voltar a olhá-lo. — Então, o que você está fazendo hoje em dia? —Ainda estou trabalhando no negócio de construção — replicou ele, detestando-se por continuar enganando Jordan. Porém, o que mais podia fazer? Aquilo não ia levar a lugar algum. Não poderia. Era apenas... o fim. Todavia, quando a fitou no fundo nos olhos, aqueles olhos azuis adoráveis e expressivos, não sentiu que era o fim. A sensação era a mesma do primeiro dia em que a conhecera.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) A vontade de tentar ressuscitar aquele sentimento era intensa, assim como a curiosidade sobre a vida amorosa de Jordan. Tudo bem, então ela não estava casada. Isso não significava que não tivesse um amante, ou um namorado, com quem morasse. — Notei que você não está casada — observou ele, apontando para a delicada mão esquerda sem aliança. — Não — replicou ela suavemente, após leve hesitação. Gino imaginou o que aquilo significava. Teria ela se casado e agora se divorciado? — E você? — perguntou Jordan. — Posso me casar qualquer dia desses — comentou ele, dando de ombros. — Você sempre jurou que não se casaria até pelo menos os 40 anos. — Fiz isso? — Definitivamente, fez. Gino decidiu parar com a conversa sobre ele e mudou de assunto. — O que faz aqui sozinha? — Eu não estava sozinha — respondeu ela. — Estava com uma colega de trabalho, que encontrou um velho namorado aqui, e ele a convidou para jantar. Os dois acabaram de sair. — Você não se importou? — Por que me importaria? Viemos aqui somente para um drinque. Já é tarde e eu ia para casa, de qualquer modo. — Por quê? Ainda é cedo. Há alguém especial esperando por você em casa? Namorado? Parceiro? Os olhos dela brilharam de raiva. — Esta é uma pergunta muito pessoal, Gino, que não sinto vontade de responder. — Por que não? Os olhos azuis estavam demonstrando irritação quando Jordan meneou a cabeça. — Você me encontrou por acaso depois de dez anos e pensa que tem o direito de questionar minha vida particular? Se estivesse tão interessado, deveria ter me procurado quando voltou para a Austrália. — Eu estava morando em Melbourne — disse ele, como desculpa. — E daí? É apenas uma viagem curta de avião. — Você realmente queria que eu a contatasse, Jordan? Seja honesta.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) A expressão dela a traiu. Jordan teria gostado disso, mas não tanto quanto ele. — Você poderia ter escrito — disse ela com raiva. — Tinha meu endereço, enquanto eu não sabia onde você estava, exceto que estava na Itália. — Achei que era melhor dar-lhe um tempo livre para encontrar alguém mais... adequado do que eu. Jordan sorriu. — Você foi cruel para ser magnânimo, então? — Alguma coisa assim. Ela ainda o olhou, furiosamente. Gino esquecera o quanto ela podia ficar zangada quando alguém não estava sendo correto. Jordan não tolerava mentiras... ou mentirosos. Ele admitia ter errado muito todos aqueles anos. Não que importasse o que ela pensava a seu respeito. O que realmente importava era se ela estava feliz ou não. O que via agora o preocupava. Jordan parecia cansada, estressada e frustrada. Se morasse com alguém, ou tivesse um namorado, essa pessoa não a estava fazendo muito feliz. — Então, não há nenhum homem especial na sua vida no momento? — repetiu ele. Ela desviou o olhar por um instante e então o olhou novamente. — No momento, não exatamente. Ouça, eu... — Gostaria de dançar comigo? — perguntou Gino, antes que ela se dirigisse à saída. A banda tinha recomeçado a tocar blues num ritmo lento e sensual. Jordan o olhou, mas agora não com tanta raiva, com algum medo, como se ele tivesse convidado para caminhar à beira de um penhasco. Talvez ela achasse que ele a estivesse pressionando. Não estava. Apenas queria encontrar um meio de enfraquecer-lhe as defesas, para que ela se abrisse sobre sua vida pessoal. Jordan era uma boa dançarina, e ele também. No passado, adoravam sair para dançar. — Pelos velhos tempos — acrescentou ele, levantando-se e estendendo a mão. Jordan olhou para a mão de Gino por um longo momento, como se estivesse decidindo.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Finalmente, levantou-se, tirou o casaco e dobrou-o sobre a bolsa na cadeira, então lhe deu a mão. Como aquelas mãos eram suaves, pensou ele, enquanto a conduzia para a pista de dança, de madeira encerada. Suave e alva, com dedos longos e elegantes e unhas perfeitamente tratadas. Ela sempre preferira unhas pintadas, lembrou-se Gino. Tanto as das mãos como as dos pés. A cor preferida era vermelha, mas Jordan tinha muitos frascos de esmaltes, de todas as cores imagináveis. Naquela noite, os dedos das mãos estavam pintados com esmalte incolor, que combinavam com sua blusa branca. Agora que ela havia tirado o casaco, Gino podia ver que Jordan continuava adorável, apesar de estar mais magra: os seios ainda eram atrevidos, a cintura estava mais fina do que nunca e a barriga como de uma atleta. A mãe dele costumava dizer que Jordan não tinha quadris bons para gerar filhos, do jeito que as garotas italianas tinham, mas Gino sempre gostara e achara atraente a forma delgada de Jordan. Adorava suas coxas, as pernas delgadas e longas, gostava também dos cabelos louros, e da pele, macia e alva. O corpo era parecido como de um anjo. — Ponha seus braços em volta do meu pescoço — pediu ele. — Você sempre foi dominador, para não dizer mandão — replicou ela, mas fez o que ele havia pedido, deslizando as pontas dos dedos sob a gola da jaqueta de couro e colocando-as sobre a pele sensível da nuca de Gino. Ele engoliu em seco quando começou a sentir aquele contato. Não era o que pretendera, quando a convidara para dançar. Mas sentia-se excitado, mal podendo se controlar. Espalmando as mãos sobre os quadris dela, manteve seu baixo ventre a meia distância do dela... coisa não muito simples de fazer, uma vez que Jordan começou um movimento oscilante devido ao ritmo lento da música. Gino desconfiou que suas boas intenções estivessem fadadas a fracasso. — Você é real, não é? — murmurou ela de repente. — Não uma invenção de minha imaginação. — Sou muito real — disse Gino. Assim como minha excitação é real, ele pensou. A cabeça de Jordan inclinou-se de modo charmoso para um lado e ela o olhou. — Espantoso — murmurou ela —, você não parece ter engordado. Ele tentou não rir. Se ela soubesse...

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Por que eu estaria gordo? — A maioria dos homens ganha peso depois dos 30 anos. Com quantos anos você está agora, 35? — Trinta e seis. Você perdeu peso. — Um pouco. — Continua muito bonita. Os olhos azuis tinham um laivo de reprovação. — Por favor, Gino, não. — Não, o quê? — Não me elogie. — Você costumava gostar que eu a elogiasse. — Eu costumava gostar de você fazendo uma porção de coisas. Gino gostaria que ela não tivesse dito aquilo. Suas palavras eram lembranças vivas, que deveriam permanecer enterradas. Entretanto, ressuscitavam algo que ele vinha tentando negar o dia inteiro, lutando para controlar desde que a convidara para dançar. Gino ainda a queria... a despeito dos anos que haviam passado, a despeito de tudo. Queria levá-la para seu quarto, lá em cima, naquele exato momento, retirar aquelas roupas pouco femininas, soltar-lhe os cabelos e, simplesmente, possuí-la, como dez anos atrás. Jordan era virgem, então, um fato que ele não percebeu até que era tarde demais. Sua inocência o tinha chocado, mas a paixão rapidamente havia eliminado qualquer dúvida. A paixão ainda estava ali: Gino podia vê-la nos olhos ardentes e na face corada de Jordan. E isso estava sobrepujando sua consciência! — Algumas coisas não mudam — murmurou ele. — Tudo muda, Gino. Nada permanece o mesmo. — Você acha? As mãos dele mudaram de posição, uma deslizando pelas costas dela, a outra, descendo para seu traseiro, dando-lhe condições de puxá-la mais para perto. Quando seus corpos entraram em contato mais íntimo, uma onda de desejo o invadiu, acabando com o pouco de controle que lhe restava.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Isto não mudou, querida — sussurrou ele com voz rouca.

CAPÍTULO QUATRO

Jordan afastou-se e, então, tentou parar de dançar, Gino percebeu, mas manteve o corpo apertado contra o dela, enquanto movia os quadris de um lado para outro. Era impossível ignorar seu estado de excitação. Gino tinha uma estrutura física impressionante. Lembranças vieram à mente de Jordan sobre a primeira vez que fizera amor com ele, ou tentara fazer. Nunca esqueceria o olhar de surpresa de Gino quando percebeu que ela era virgem. Jordan havia implorado para ele não parar, e ele não parara, a penetração inicial provocando um grito de dor. Ela havia se entregado àquela nova experiência, impaciente para tê-lo novamente, tão logo fosse possível. Após tomarem banho juntos, ficaram deitados na banheira, com água quente, acariciando-se. Alguns momentos depois, Gino a enxugou e carregou-a de volta à cama, fizeram amor de novo, não parando até Jordan adormecer profundamente. Naquela noite, ele não procurara mais seu delicado corpo, dando um tempo para ela recuperar-se. Na manhã seguinte, quando fizeram amor, Jordan foi receptiva, e o desejo de Gino era selvagem e lascivo. Ela atingiu o clímax de modo rápido e maravilhoso. Depois disso, sempre atingia o orgasmo quando faziam amor. Sentir o corpo rígido pressionar sua barriga fez com que ela se recordasse de como era quando consumavam o ato de amor. Jordan reprimiu um gemido, enterrando a cabeça sob o queixo dele para esconder seu rosto envergonhado. — Estarei aqui este fim de semana — murmurou ele, tocando-lhe os cabelos presos com os lábios. — Estou hospedado neste hotel. Jordan meneou a cabeça. — Não acredito em destino. As coisas não são predestinadas, Gino. As pessoas têm livre-arbítrio e fazem suas próprias escolhas. — E o que você escolheria, Jordan, se eu lhe pedisse para subir ao meu quarto? Jordan entreabriu os lábios, incrédula. Que arrogância, que presunção! Mas, oh... a paixão que vislumbrava nos olhos negros de Gino a excitava, lembrando-a de sua extraordinária virilidade e espantosa resistência sexual. Quando viviam juntos, era

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) natural para Gino fazer amor com ela por horas a fio, com mínimos intervalos entre os atos sexuais. Costumava dizer que nunca estava completamente satisfeito. Gino nunca era o primeiro a ir dormir. Geralmente, ela é quem arranjava um pretexto para dormir, exausta, mas feliz. — Para que, exatamente? — perguntou ela, mesmo tremendo por dentro, só de pensar em subir com ele para o quarto. — Por conta dos velhos tempos? Desculpe-me, mas não sou garota de uma noite de prazer, Gino. Nunca fui e você deve se lembrar disso. — Lembro-me de tudo o que se refere a você — disse ele, a voz vibrando com a mais sedutora emoção. — E não estou atrás de uma noite de prazer, quero que você fique o fim de semana inteiro comigo. Quero também uma oportunidade para que possamos conversar. Explicar por que não voltei para você todos esses anos. O coração de Jordan disparou no peito. — Você... você quis voltar para mim? — É claro. Eu a amei. Não duvide disso. A última resistência de Jordan começou a enfraquecer. — Não me interprete mal — acrescentou ele. —Não quero conversar esta noite. Esta noite é para nós, Jordan. Você e eu juntos novamente, como no passado. Não negue. Diga si. Si, Gino, como eu lhe ensinei no passado. A cabeça de Jordan pareceu rodar. Aquele era um outro aspecto no qual fora, com Gino, diferente de qualquer outro homem desde então. O jeito que ele era capaz de fazê-la submeter-se à sua vontade. Não como uma escrava açoitada, mas desejosa, de maneira devassa. Ela se entregava ao papel de ser sua mulher e rendia-se à possessividade e proteção dele. Com Gino, sempre se sentia segura e totalmente amada. Ela havia ficado desolada e desesperada quando ele partiu. Naquele ano, foi mal nos exames e teve de repetir o ano. Não tivera mais namorado durante os outros anos de universidade. Então, quando finalmente havia começado a namorar novamente, descobrira que os homens eram gentis e doces, mas um pouco fracos. Homens que ela podia dominar e dispensar quando as coisas ficavam sérias demais, simplesmente porque não iria casar-se com nenhum deles. Como poderia, se não os amava? Então Chad entrara em sua vida. Um homem sorridente, charmoso e bem-sucedido, que a tinha impressionado pela inteligência e sofisticação. Além disso, sexo com ele era bastante agradável. Jordan pensara que o amava... até que ele lhe fez uma proposta de casamento, e de repente teve de encarar a idéia de uma vida inteira dormindo ao seu lado.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Para ser bem honesta, havia algo irritantemente clínico na maneira de Chad fazer amor... como se ele estivesse seguindo um livro sobre sexo. Algumas vezes, ela fingia um orgasmo, a fim de que ele não lhe perguntasse se tivera um. Gino nunca lhe perguntara. Sabia que ela tinha tido. Jordan tremeu só de pensar quantas vezes atingiria o clímax se subisse para o quarto do hotel com ele. — Venha cá — decidiu Gino por ela. — Vamos. Tirando os braços dela do seu pescoço, pegou-lhe a mão esquerda e começou a conduzi-la para a saída. — Minhas coisas! — protestou Jordan e indicou a mesa onde, por sorte, sua bolsa e o casaco ainda estavam sobre a cadeira. Ele fez uma careta quando a observou pegar o casaco do terninho. — Por que você usa roupas tão sérias? Ela olhou para o traje que ele usava. Jeans preto justo, uma camiseta branca e jaqueta de couro preto. Gino sempre fora do tipo que usava jeans e camiseta. Era uma vestimenta que combinava com seu corpo alto e másculo. — Advogadas usam roupas como esta para trabalhar — disse Jordan, sem acrescentar: Especialmente as que se pareciam com ela. Advocacia ainda era um mundo dos homens, não importa o que as feministas pensavam. Até mesmo clientes mulheres preferiam um advogado do sexo masculino. — Você fica melhor de vestido — replicou ele, pegando-lhe o cotovelo e conduzindo-a em direção à saída. — Ou pelo menos uma saia. Você não deveria usar calça, Jordan. O corpo de Jordan foi tomado por uma onda de calor quando se recordou que, depois de ter vivido por algum tempo com Gino, ele a tinha proibido de usar calcinha. No princípio, havia protestado contra isso, mas Gino conseguira convencê-la e, então, Jordan passara a sair de casa sem nada por baixo da roupa. Oh, meu Deus!, como ela se sentia ardente, na verdade, muito excitada. Felizmente, do lado de fora do bar o ar era muito mais frio. Jordan conseguiu respirar suavemente enquanto Gino a levava ao longo do saguão do hotel, que era de mármore. Se ia fazer aquilo, era melhor fazê-lo de maneira bem consciente, não por que estava visivelmente excitada, mas porque era o que desejava, pois já estava sexualmente envolvida. Tentou se convencer de que Gino poderia ter se transformado num conquistador insensível, com o único intuito de levá-la para a cama naquela noite.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Mas não estava certa. Ele parecera tão sincero há pouco. Sincero e muito apaixonado! Ao mesmo tempo, Jordan estava desesperada para encontrar respostas para aquelas dúvidas relacionadas a Gino, que a vinham incomodando nos últimos dez anos. Ele havia prometido explicar tudo pela manhã. Entrementes... Era exatamente o "entrementes" que a estava deixando tão confusa. Realmente iria fazer aquilo? Ir para a cama com Gino, dez minutos após reencontrá-lo? Seu coração bateu descompassado quando o fitou. Ele era tudo que Jordan se recordava e mais... mais bonito, mais maduro e até mesmo mais dominador. Ela não acreditava na capacidade de ser seduzida tão rapidamente naquele dia, mesmo por Gino. Mas ele a seduzira, de modo estarrecedor. Jordan sabia que se passasse a noite com seu antigo amante, Chad seria história. Ao longo dos anos, tinha tido uma pequena chance de se esquecer de Gino enquanto ele fazia parte do passado. Agora, de modo algum poderia esquecê-lo. Todavia, talvez não tivesse de perdoá-lo dessa vez. Talvez eles pudessem retomar o caso de onde haviam interrompido. Oh, assim ela esperava. — O que você está fazendo aqui em Sidney? — perguntou Jordan, quase correndo para acompanhá-lo. — E por que está hospedado aqui? É um hotel muito caro. — Não faça perguntas, Jordan — replicou ele, num tom de voz impaciente. —Não agora. Deixe isso para amanhã cedo. Ela abriu a boca e depois a fechou novamente. Na verdade, não queria conversar. Mas não queria pensar, também. E silêncio encorajava as pessoas a pensarem. Pensar trazia dúvidas e aborrecimentos. Jordan podia imaginar o que Kerry pensaria se a visse agora. Diria que estava louca! Quando chegaram aos elevadores, um deles estava vazio, aguardando. Gino não perdeu tempo em colocá-la dentro, inserindo seu cartão-chave e apertando o botão do décimo andar. No momento em que as portas se fecharam, ele a puxou ferozmente para seus braços. — Não posso esperar mais um segundo — disse num murmúrio rouco, já beijando a boca de Jordan. O que fazia o beijo de um homem ser diferente do de outro?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Jordan já havia tentado analisar isso uma vez, quando beijos de outros homens não a faziam sentir o mesmo que com Gino. Agora sabia: não era apenas uma questão de técnica, ou a forma sensual da sua boca. Era a paixão atrás daqueles beijos, aquela avidez descompassada que vinha não somente de seus lábios e de sua língua, mas de todo o seu corpo. Jordan estava ofegando quando ele afastou a boca. — Eu jamais deveria tê-la deixado — disse ele. — Jamais! O elevador tinha parado e as portas se abriram. Dois casais estavam esperando para entrar, elegantemente vestidos para uma noite de sexta-feira na cidade. Quando saíram, as mulheres olharam para Gino, os homens, para Jordan. Ela encolheu-se um pouco quando se olhou no espelho. Parecia desgrenhada... algumas mechas dos cabelos haviam se soltado, os lábios estavam sem batom, os olhos, dilatados e brilhando com desejos que não haviam sido satisfeitos. Gino lhe deu a mão e a conduziu ao longo do corredor acarpetado, parando em frente ao quarto 107. Quando curvou a cabeça para inserir o cartão-chave novamente, Jordan notou que os cabelos de Gino estavam mais curtos do que antigamente. Imaginou se ele ainda era um operário de construção. Talvez agora, fosse um contramestre. Outro pensamento lhe veio à mente, quando Gino abriu a porta e acenou para que ela entrasse. Certamente, ele devia ter uma namorada em Melbourne. Homens como Gino não viviam como celibatários. Apesar do ciúme que esta idéia provocou, Jordan conteve a língua, não querendo estragar o momento. Tudo que precisava saber, por enquanto, era que ele não era casado e que ainda a desejava, da mesma maneira que ela o desejava. Mas você ainda o ama?, surgiu a pergunta intrigante quando Gino a colocou dentro do quarto e fechou a porta. Jordan não era mais uma adolescente romântica. Tinha aprendido, na última década, que se apaixonar não era tão fácil, quando se conhecia mais da vida e dos homens. No momento em que Gino pôs as mãos sobre seus ombros e a posicionou de costas contra ele, Jordan percebeu que não importava se ainda o amava ou não. Seus desejos haviam chegado ao ponto que não tinha mais volta. Era a mulher de Gino novamente. Pelo menos por aquela noite. Não, pelo fim de semana inteiro.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Um tremor erótico percorreu sua coluna quando Gino tirou-lhe o casaco. — Você quer ir ao banheiro primeiro? — sussurrou ele. — Não — respondeu ela. Sem o casaco, ele a fez girar e começou a lhe desabotoar a blusa. Quando seus mamilos intumesceram, Jordan fechou os olhos. — Abra os olhos — ordenou ele, e ela obedeceu, um pouco relutante. — Fique com eles abertos. Quero que veja que é Gino que está fazendo amor com você. — Você acha que eu não saberia que era você, mesmo com os olhos fechados? O sorriso dele tinha uma conotação presunçosa. —Você não me esqueceu? — Lembro-me de tudo sobre você, Gino — disse ela, repetindo as palavras que ele dissera no bar. Os olhos dele inflamaram-se quando tirou a blusa dela e, depois, o sutiã. — Então você se recordará de que nem sempre sou um amante paciente. A boca de Jordan ficou seca. Às vezes, no passado, quando ela chegava em casa, vindo do trabalho, ele levantava a saia dela e a tomava rapidamente, de pé mesmo. Sem preliminares. Apenas seus corpos entrelaçando-se enquanto dizia como havia pensado em fazer amor com ela o dia inteiro. Suas palavras um tanto ríspidas e sem paixão a tinham excitado muito, como suas ações, num espaço de tempo impressionantemente curto. Ela deu de ombros ao pensar que era isso o que ele faria agora. Embora ainda estivesse usando algumas peças de roupa que impedia que acontecesse naquele momento. — Você não deveria cobrir seu corpo lindo com essas roupas — disse Gino, enquanto abaixava o zíper da calça e a puxava pelos quadris. Quando a calça caiu no chão, Jordan pisou na peça ficando ali, quase nua, a não ser pela calcinha creme de algodão, meias de seda até os joelhos, presas por ligas pretas. — Ridículo! — resmungou ele. — Tire-as. Livre-se de tudo! Ela poderia fazer o que ele ordenara se o próprio Gino não tivesse começado a se despir, jogando para o lado sua jaqueta de couro e tirando rapidamente a camiseta por sobre a cabeça.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) A nudez repentina do peito largo a fez olhar fixamente para o corpo dele, seu coração batendo acelerado enquanto os olhos praticamente o devoravam. Ele estava mais magro do que dez anos atrás... mais magro, porém absolutamente maravilhoso. — Você quer que eu faça isso? Assim? — perguntou ele, enquanto baixava o zíper do jeans e atirava-o no chão, removendo a cueca em seguida. Jordan engoliu em seco. — O quê? Gino deu-lhe um olhar frustrado antes de sentar-se na beira da cama e livrar-se dos sapatos e das meias. Agora, totalmente nu, permaneceu sentado, enquanto seus olhos escuros percorriam o corpo tenso de Jordan. — Você está mais magra — ele comentou. — Você também — retrucou ela, desesperada para encontrar forças para lutar contra a onda de fraqueza que a estava invadindo. — E seus cabelos estão mais curtos. — Os seus também? — Não. — Então, solte-os. Jordan permaneceu parada, não querendo obedecer cegamente, como costumava fazer. Os olhos escuros de Gino faiscaram. — Se você não os soltar, então eu os soltarei. Jordan ergueu as mãos para abrir a fivela que prendia o coque e os cabelos cascatearam sobre os ombros. — Agora venha cá — chamou ele, abrindo as pernas, deixando que ela fitasse aquelas partes do corpo dele que ela vinha tentando não olhar. Jordan afastou-se. O que ele queria que ela fizesse? de si.

— Ponha seu pé direito aqui — disse ele, apontando uma pequena área da cama diante

Ela sentiu os músculos retesados afrouxarem-se e adiantou-se para fazer o que Gino sugeriu. Ele tirou-lhe os sapatos e os jogou para o lado, então deslizou as meias de seda pelas pernas delgadas, enquanto seus dedos acariciavam as panturrilhas. Depois lhe acariciou os tornozelos, e as sensíveis solas dos pés.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Humm — sussurrou ele, quando as pernas dela estavam nuas. — Unhas das mãos com esmalte incolor, esmalte vermelho nas unhas dos pés. Fico imaginando se seus colegas conhecem a verdadeira Jordan. O outro pé, por favor. — E quem é a verdadeira Jordan? — perguntou ela, lutando para manter a voz firme enquanto ele dava ao outro pé o mesmo tratamento erótico. — Você é uma exibicionista reservada, assim como uma sedutora. Jordan fez uma careta quando levou o pé na direção de Gino, pressionando-o contra o peito largo. — Esfregue seu pé em mim — disse ele. Quando ela o faz, ele emitiu um gemido rouco. — Está vendo? — disse ele, segurando-lhe o tornozelo e depositando seu pé de volta no chão. Jordan não via nada, sua mente não alcançava a realidade daquele mundo selvagem e erótico, onde desejo e prazer reinavam. — Chegue mais perto — ordenou ele. Quando ela obedeceu, ele desceu a calcinha dela até os tornozelos e, então, se curvou para lhe beijar a barriga. O estômago de Jordan se contraiu sob os lábios sensuais, enquanto entrelaçava as mãos nos cabelos de Gino. Gemeu quando ele passou a língua no seu umbigo, ofegou quando as mãos dele escorregaram entre suas pernas, deliciou-se quando os dedos fortes deslizaram dentro dela. A cabeça de Gino, de repente, se ergueu. — Não chegue lá ainda — ele preveniu, mesmo enquanto continuava a mais íntima exploração do seu corpo. — Oh, Deus, Gino. Não posso. Eu... por favor... por favor. — Agora é você que está sendo impaciente. Gosto disso. Gostaria de me sentir dentro de você agora? Diga-me o quanto quer isso. Diga-me. — Seus olhos estavam incendiados e brilhantes, enquanto a fitavam. — Pare de me atormentar — protestou Jordan. — Mas estou gostando disso. Excita-me vê-la assim tão desesperada. — Acabe logo com isso, pelo amor de Deus! Ela estava na cama sob ele antes que pudesse dizer outra palavra qualquer. Erguendolhe as pernas sobre seus ombros, penetrou-a profundamente.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — É isso o que você queria? — murmurou ele, enquanto se movimentava. — Sim — sussurrou ela. — Sim. —Agora você pode chegar ao êxtase — disse Gino, justamente quando ela entregava-se a um orgasmo que a deixou mais inconsciente do que já estava. Sem conseguir dominar seus sentidos, vagamente o ouviu gritar de prazer. Estava perdida, tinha a sensação de uma semente viscosa inundar seu ventre, exultante ao sentir o corpo de Gino pulsando em seu interior. Foi somente algum tempo depois, quando seus corpos finalmente ficaram quietos, que o cérebro de Jordan percebeu que Gino não tinha usado preservativo. Não que isso fosse um desastre total, pois ela estava tomando pílulas anticoncepcionais, mas a preocupação real era sua própria negligência... e, mais precisamente, a falta de cuidado dele. — Gino — disse ela, empurrando-lhe os ombros de leve. — Sim, sim, já sei. Sou pesado. — Não é isso. Eu estava pensando... você... você não usou preservativo. Ele apoiou-se nos cotovelos e olhou para ela. — Está me dizendo que eu poderia tê-la engravidado? — Não. Gravidez não me preocupa, pois estou tomando pílula. — Juro que não sou um risco para sua saúde — assegurou-lhe Gino. — Escute aqui, você está com fome? Eu estou. — Estou faminta — confessou ela. — O menu de serviço de quarto está ali, sobre a mesa. Numa pasta de couro. Dê uma olhada enquanto vou preparar um banho para nós. — Espere — disse ela. — Preciso ir ao banheiro primeiro. — Não a estou impedindo. — Mas eu não... — Ela fez uma pausa, pensando como teria vergonha de ir ao banheiro na frente de Chad. Quando morara com Gino, não escondiam nada um do outro. Mas não estava mais morando com Gino, lembrou-se a tempo. Estava morando sozinha. Uma mulher independente, que gostava de privacidade. — Desculpe-me, Gino, mas preferiria usar o banheiro sozinha. Ele a fitou com surpresa, mas deu de ombros.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Como quiser. Jordan se apressou, sentiu-se levemente tola por sua atitude. A poucos momentos, tinha deixado que ele a tocasse nos lugares mais íntimos, que lhe tirasse a roupa e fizessem sexo. E, o pior, deixado que ele a visse tendo um orgasmo. Agora, de repente, se sentia tímida e recatada. Parecia que eles não poderiam retomar exatamente do ponto onde haviam parado. Afinal de contas, dez anos haviam se passado e Jordan sentia-se outra pessoa, mesmo se ele não tivesse mudado nada. Gino estava totalmente nu, esperando do lado de fora do banheiro, e ela colocara um dos roupões do hotel. — Todo seu — disse ela, passando por ele sem encará-lo. O menu do serviço estava sobre a mesa, onde ele dissera, e ao lado havia uma passagem aérea. Jordan olhou para a passagem por um longo tempo sem saber o que fazer, e, então, pegou-a.

CAPÍTULO CINCO

Gino ficou maravilhado quando viu a banheira cheia de sais de banho, transformando a água transparente em verde-claro, soltando algumas bolhas perfumadas. Pela primeira vez em anos ele estava alegre e feliz. Tudo porque encontrara Jordan novamente. Era como se os últimos dez anos tivessem desaparecido. Sentia-se jovem e invencível. Jordan ainda era sua mulher... havia sido desde o primeiro dia em que a vira. Naquela época, ela estava trabalhando como garçonete em uma cantina italiana de estrada, perto da Universidade de Sidney, bem em frente do local da construção onde Gino estava empregado. Embora naquela época especial de sua vida estivesse tentando não se lembrar de tudo que fosse italiano, o delicioso aroma das massas, seus pratos favoritos, havia lhe dado água na boca, e, finalmente, ele se rendera à tentação e fora jantar na cantina. O destino fez com que se sentasse a uma das mesas servidas por Jordan. A química sensual entre eles tinha sido instantânea e excitante. Gino acabou comendo mais do que pretendia, somente para poder continuar conversando com a linda garçonete loura, que também não foi capaz de tirar os olhos dele. Haviam flertado abertamente, e

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Jordan o servira com o máximo de atenção, fazendo com que Gino a achasse impressionantemente sedutora. Quando ela lhe confidenciou, depois da terceira xícara de café, que sua companheira de apartamento tinha decidido abandonar a universidade e voltar para casa, deixando-a sozinha com o aluguel, Gino aproveitou a oportunidade, dizendo que estava procurando um lugar para morar e perguntando se ela concordaria em dividir o apartamento com ele. Então, Jordan lhe propusera que se mudasse no dia seguinte, deixando-o bastante excitado, mesmo antes de entrar no apartamento. Naquele encontro, eles haviam se beijado em menos de meia hora. Uma coisa levou à outra, rapidamente, com Gino agradecendo à sua estrela da sorte por ter ido àquele restaurante. Descobrir que Jordan tinha apenas 19 anos e era virgem, fora um choque imenso, mas, logo em seguida, um prazer ainda maior. Ela se transformara na amante perfeita de suas fantasias... A juventude e inexperiência de Jordan permitia a Gino viver o papel de homem mais velho. E o fato de ela demonstrar tanta paixão mesmo sabendo que ele era apenas um operário, o encantara. Gino tinha revelado o poder sexual que ela exercia. Que homem não teria? Ela era incrivelmente bonita, com uma mente brilhante e enorme força de caráter. Todavia, nos seus braços, era de uma submissão total. Não passiva... Jordan era apaixonada demais para agir desse modo. Os dois não tinham sido capazes de se separar desde então, e o sexo rapidamente se transformara em vício. Aparentemente, isso não mudara. Ele mal podia esperar que Jordan chegasse àquela banheira para que se amassem novamente. Uma batida à porta fez o coração de Gino disparar de susto. Fechou as torneiras e foi abrir a porta. Lá estava Jordan, o objeto de seu desejo, com o rosto adorável expressando raiva e as mãos enfiadas nos bolsos do roupão branco. — Sei que concordei que as explicações podiam esperar até amanhã cedo — disse ela —, mas foi antes que eu visse isto... O estômago de Gino se revolveu quando ela puxou do bolso uma passagem aérea, completamente amassada. Gino esquecera que o tinha deixado naquela bendita mesa, ao esvaziar os bolsos do terno antes de mudar de roupa naquela tarde. — Esta passagem é para amanhã cedo — gritou ela antes que ele pudesse dizer uma palavra sequer. — Na verdade, muito cedo, o que desmente que você ficaria aqui por todo o fim de semana,

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Eu não tomaria esse vôo, Jordan. Não após encontrar você. Telefonaria para a agência de passagens e mudaria o vôo para domingo. — Você ainda mentiu para mim, Gino. — Apenas torci um pouco a verdade. — Torceu a verdade? — repetiu ela, o olhar gelado. — E como descreveria dar a alguém um nome falso? Porque esta passagem foi emitida em nome do sr. Gino Bortelli. — Jordan, eu... — Presumo que é seu nome verdadeiro — interrompeu ela violentamente. — Bortelli? Não Salieri, como me disse dez anos atrás. Gino tentou se manter calmo, mas um verdadeiro pânico tomou conta de sua mente. — Salieri é o nome de solteira de minha mãe. Eu o usei temporariamente quando vim para Sidney, por necessidade de privacidade. — Necessidade de privacidade? — repetiu ela. — Como assim? As pessoas poderiam reconhecê-lo como o quê, exatamente? Um astro do rock escondendo-se? — Não, como Gino Bortelli. — Desculpe-me, Gino. Não sou tão esperta assim. — Minha família é muito influente no ramo de construções. Não queria favores especiais quando cheguei a Sidney. Eu ainda não tinha me formado em engenharia na Universidade de Roma e... — O quê? — gritou ela. — Você está me dizendo que é engenheiro formado? Pensei que fosse um operário. — E eu era um operário quando conheci você. Jordan o olhou, totalmente confusa. — Mas por quê? Isto seria como se eu ainda trabalhasse como garçonete, mesmo sendo advogada. Gino suspirou, então pegou o outro roupão pendurado na porta do banheiro. Parecia não fazer sentido ficar nu naquele momento. A noite erótica que planejara estava definitivamente encerrada. — Podemos ir para o quarto? — sugeriu ele, depois de vestir o roupão e atar o cordão em volta da cintura. — Preciso de um drinque. Passou por ela e foi para o quarto, dirigindo-se para o minibar.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Quer uma taça de vinho? — ofereceu Gino, olhando para Jordan, quando ela relutantemente o seguiu. — Há meia garrafa de vinho tinto aqui, e não parece tão ruim. — Não, obrigada. O que quero saber é por que mentiu para mim sobre tantas coisas. — Talvez você deva se sentar — sugeriu ele, indicando o sofá em frente à televisão. Jordan não se sentou, passou pelo sofá e ficou de pé perto da janela, os braços cruzados e os olhos ainda céticos. Gino serviu um cálice de vinho e tomou um gole antes de virar-se para ela. — Depois de estudar por anos, eu estava cansado. Cansado de ser pressionado pelos meus pais para ser um excelente empreendedor. É um fenômeno bastante comum nas famílias italianas. Exigi ficar um ano fora, para poder ser eu mesmo, e não o filho único de meu pai. Queria ganhar meu próprio dinheiro. Ser totalmente independente. Viver uma vida mais simples, menos estressante. Esta é a razão pela qual decidi trabalhar como operário, e por que mudei de nome. Porque não queria que meu patrão reconhecesse o nome Bortelli e me tratasse de modo diferente. Jordan franziu o cenho. — As pessoas reconheceriam o nome Bortelli mesmo aqui na Austrália? Este era o momento que Gino estava temendo. Mas a verdade tinha de ser dita... especialmente se quisesse continuar vendo Jordan. E ele queria, muito. — Acho que houve um mal-entendido anos atrás — começou ele com cautela. — Não vim exatamente para Sidney direto de Roma. Depois que me formei, fui primeiro para a casa de minha família. — Então, em que cidade da Itália vive sua família? — Minha família não vive na Itália, Jordan. Eles imigraram para Melbourne logo depois que nasci. É lá que moram. Melbourne. Ela o olhou com expressão atônita. — Você está dizendo que é australiano? — Tenho dupla cidadania. Italiana e australiana. — Por que não me contou isso dez anos atrás? — Agora eu desejaria ter contado. Mas, na ocasião, estava também cansado de ser italiano. Precisava de uma mudança. Precisa encontrar-me. Então, depois que a conheci, apenas precisava de você. Jordan o fitou novamente, com um olhar gelado. — Precisava de mim somente até que sua família o chamasse, Gino. Então você me descartou como um papel velho.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Gino suspirou. Ela não entendia. Jamais entenderia o que era ser o filho único de uma família italiana. "Se algo me acontecer, Gino", seu pai costumava dizer isso o tempo todo, "então cabe a você tomar conta da família, de sua mãe e de suas irmãs. E dos negócios, é claro." — E quanto a este fim de semana, Gino? — questionou Jordan. — Foi a mesma coisa? Você precisava de uma mudança, portanto veio para Sidney? Porque Sidney está cheia de garotas bobas, ansiosas, querendo fazer sexo? — Vim a Sidney a negócios — esclareceu Gino, ofendido pelas acusações dela. — Eu ia voltar para Melbourne amanhã, lembra-se? — Desculpe-me — disse Jordan com sarcasmo. — Esqueci momentaneamente, após todas essas revelações espantosas. Então você me encontrou e pensou: "Uau! Aí está a boa velha Jordan... a tola que faz sexo comigo de todas as maneiras possíveis, que acredita em tudo que falo. É só atirar o anzol e puxar a linha e, presto", você está certo. Mordi a isca. — Pare com isso! — exclamou Gino, apavorado com o rumo que as coisas estavam tomando. — Parar com o quê? Parar de lhe dizer como as coisas são realmente? As mulheres não lhe tratam assim em Melbourne? Não, é claro que não. Você é um magnata lá. Elas, provavelmente, rastejam aos seus pés. Você tem uma namorada, Gino? Obriga-a a sair de casa sem calcinha? Faz com ela o mesmo que costumava fazer comigo? Gino sentiu seu próprio humor alterar-se. Tinha tentado ser paciente, explicar, mas Jordan parecia determinada a torcer tudo na mente, tentando fazer o que uma vez haviam compartilhado parecer feio e sórdido. — O que, pelo amor de Deus, está errado com você? — disse ele. — Por que está tentando estragar tudo que tivemos? Ouça, sinto muito por não ter lhe contado a verdade na ocasião, mas tive minhas razões. E lamento tê-la deixado da maneira como deixei, mas meu pai estava morrendo e eu tinha de ir para casa. — Então, por que não voltou depois que seu pai morreu? Diga-me. Obviamente, possuía recursos para isso. Todavia, escolheu não voltar. Que espécie de amor era aquele, Gino? — Você realmente quer saber? — Sim, quero. Gino podia ver que tudo estava perdido. Então, o que importava se lhe contasse mais uma verdade desagradável? — Não voltei porque você não era italiana. — Ela quis dizer algo, mas as palavras não vieram. — Prometi ao meu pai no leito de morte que, quando me casasse, seria com uma italiana. — Você só pode estar brincando — Jordan deixou escapar.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Infelizmente não. — Gino sabia muito bem que se tivesse voltado para Jordan, provavelmente esqueceria sua promessa e se casaria com ela. Jordan meneou a cabeça, incrédula. — E você se casou? — perguntou ela num sussurro. — Casou-se com uma italiana? — Você acha que eu mentiria sobre algo como isso? — Não tenho idéia sobre o que você mentiria, Gino. Não o conheço. Nunca conheci. O homem com o qual convivi, e pelo qual me apaixonei, não era real. Era um homem simulado, um amante de história de amor. O verdadeiro Gino é um estranho para mim. Então, pergunto novamente: você é casado? — Já lhe disse que não. — Mas tem uma namorada, não tem? — Sim — ele mordeu o lábio —, tenho. — Então você é tanto impostor como mentiroso! Gino estremeceu. Ninguém havia lhe falado daquela maneira em toda a sua vida. Seu choque se aprofundou quando ela repentinamente desamarrou o roupão e o tirou, deixando-o cair no chão. Por um longo momento, ela ficou ali, totalmente nua, com o queixo erguido enquanto o olhava observando-a de cima a baixo. Quando sua virilidade automaticamente respondeu, os dedos de Gino apertaram automaticamente a taça de vinho. Não sabia o que ela pretendia, mas desconfiava que se fizesse qualquer movimento para tocá-la Jordan gritaria. — Você gosta do que vê, Gino? — disse ela finalmente, de modo desafiante. Gino cerrou os dentes com força. A Jordan que tinha conhecido dez anos atrás nunca fora uma devassa. A Jordan à sua frente agora estava fazendo uma ótima imitação de uma meretriz. Perversamente, isso o fez querê-la mais ainda, — Dê uma boa olhada, porque você nunca mais vai me ver desse jeito. Não que se importe — continuou ela, enquanto recolhia as roupas. — Você voará para casa e para sua namorada, e não pensará mais neste nosso pequeno entreato, nada mais que um interlúdio casual prazeroso. Sequer se sentirá culpado. Ela não poderia estar mais errada. Ele jamais seria capaz de tirar aquela noite da mente... ou ela. E culpa seria sua companheira constante de agora em diante. Quanto a Claudia... Gino sabia que teria de romper o relacionamento. Ela era uma boa garota, mas queria se casar.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Depois daquilo, casamento estava definitivamente fora da agenda de Gino. Se não podia casar-se com Jordan, então não se casaria com mais ninguém. Num curto espaço de tempo, Jordan estava toda vestida, exatamente como quando ele a encontrara naquela noite. Exceto pelos cabelos soltos. — Nunca me esquecerei de você, sabe disso — murmurou ela. — Nunca. Uma amiga me disse que era porque tínhamos uma relação inacabada. Disse também que era uma pena eu não poder analisá-lo por inteiro, de modo que chegasse à conclusão que você não era tão maravilhoso quanto eu imaginava. E ela estava certa. Você não é. Oh, ainda é formidável no sexo... alimente seu ego. Sabe exatamente como enlouquecer uma mulher na cama. Mas isso é um talento relativamente pequeno comparado a outras coisas. Quero um homem que saiba o que quer, e lute por isso. Que saiba contornar as pedras do caminho. Você, obviamente, não é essa espécie de homem. — Como sabe? — Eu sei — replicou ela com pequeno tremor nos lábios. — Ações falam mais alto do que palavras, Gino. — Você está cometendo um grande erro — disse ele, enquanto Jordan se dirigia à porta. Ela tocou a maçaneta, então parou e o olhou com frieza. — Não, estou terminando um grande erro. Simplesmente está tudo acabado agora — declarou ela, abrindo a porta. — Ciao.

CAPÍTULO SEIS

Jordan decidiu ir embora sem derramar uma lágrima sequer. O orgulho a impediu de desmoronar no hotel ou durante a viagem de táxi para casa. Mas, no momento em que ficou sozinha, com a porta da frente seguramente trancada, tudo desabou à sua volta. Suas pernas, de repente, enfraqueceram, e ela caiu no chão. Os joelhos bateram no piso de cerâmica, e o grito não foi de dor física, mas de desespero emocional. — Oh, Gino — ela soluçou, com as mãos no rosto. E assim permaneceu, como se estivesse rezando. Mas não estava rezando e sim chorando, desesperadamente, porque agora não havia mais ilusões.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Durante todos aqueles anos pensara que a lembrança de Gino havia feito seus relacionamentos com outros homens deterioraram, e talvez isso fosse verdade. Mas fora uma lembrança doce, pois sempre acreditara que Gino a amara. Mas, não, ele apenas a desejara fisicamente, como nesta noite. Não queria algo duradouro, apenas sexo. Tal descoberta havia sido cruel demais, e saber que Gino fora apenas uma ilusão foi pior ainda. Não era um imigrante italiano batalhador, tentando ter uma vida melhor através de trabalho árduo. Na verdade, era um príncipe brincando de plebeu ali em Sidney... com ela. Esta noite tinha sido uma pequena amostra do que ele havia feito dez anos antes. Tudo bem, provavelmente ele adiaria o vôo para domingo, entretanto o motivo seria totalmente egoísta. Afinal de contas, por que ela não o aceitaria sem o menor questionamento? E, sinceramente, no que se referia a Gino, Jordan aceitava tudo sem questionar. Em apenas 15 minutos, tinha subido para o quarto dele, pronta para tirar as roupas, pronta para qualquer coisa que ele desejasse. Se Jordan não tivesse encontrado a passagem aérea, ele teria se aproveitado dela o fim de semana inteiro e depois voado para Melbourne, para sua verdadeira vida e sua atual namorada. Pensando nisso, levantou-se e enxugou as lágrimas. Oh! Cristo, o que estava fazendo, chorando por um homem como aquele? Gino não passava de um vigarista. Enquanto se dirigia para o quarto, dizia a si mesma que jamais iria deixá-lo estragar sua vida. Estava convicta que nunca deixaria. Quando Chad ligasse, pela manhã, aceitaria sua proposta de casamento e faria o máximo possível para nunca mais pensar em Gino. Contudo, tais resoluções eram fáceis de tomar, conscientizou-se enquanto tirava a roupa e entrava no chuveiro, o difícil era colocá-las em prática. Seu corpo, especialmente o corpo nu, continuava fazendo-a lembrar-se de Gino, os efeitos posteriores à relação sexual tórrida conspirando para que continuasse pensando em quão bom havia sido. Somente passando de leve a esponja ensaboada entre as pernas fez com que sua barriga se retesasse e a respiração ficasse oprimida. Isso costumava acontecer quando ela havia morado com Gino: ficava em constante estado de excitação desejando-o o tempo todo. E, como agora, sempre precisava aliviar a tensão sexual que ele a fazia sentir. Jordan deixou cair a esponja e, então, vagarosamente, deslizou as costas pelos azulejos molhados até sentar-se no chão do boxe do banheiro. Entrelaçou os joelhos com os braços, inclinou a cabeça para a frente e, mais uma vez, rendeu-se às lágrimas. — Oh, Gino — murmurou. — Gino...

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81)

O persistente toque do telefone despertou-a do delicioso torpor que a dominara na noite anterior, graças aos analgésicos que tomara... pílulas fortes para quando tinha enxaqueca. Infelizmente, o remédio sempre a deixava um pouco tonta na manhã seguinte. Rolando na cama com um gemido, pegou o aparelho ao lado da cama e colocou-o entre a orelha e o travesseiro. — Sim? — Um alô não muito receptivo. — Jordan? É você? O som da voz de Chad a fez sentar-se e tirar os cabelos desalinhados dos olhos. Ao olhar o relógio de cabeceira, ficou chocada. Eram quase 10h! — Sim, sou eu — disse ela mais ativamente. — Você já chegou? — Acabei de chegar. Pensei em ligar para você antes de enfrentar o tráfego de Nova York. Você parece sonolenta. Eu a acordei? — Mais ou menos. Eu... humm... fui dormir tarde ontem. — O que esteve fazendo até tão tarde? Uma ponta de culpa fez Jordan se sentir agradecida por Chad não poder vê-la. Não que ele fosse tão intuitivo, Chad era o tipo de homem que só via o que queria ver. Honestamente, pensava que a recusa dela à sua proposta era apenas questão de tempo. Não tinha dúvidas que Jordan diria sim, até mesmo deixara o anel de noivado com ela... uma herança de família que havia pertencido à avó dele. — Trabalhando — mentiu ela. — Tive de rever o caso Johnson no domingo, lembra-se? — Você se tornou um pouco obcecada por esse caso, não acha? — Não. — Sua cliente era uma jovem cujo marido tinha sido morto num acidente de trem. Choque e sofrimento a levaram a entrar em trabalho de parto prematuramente, fazendo com que perdesse o bebê. Quando o governo finalmente lhe oferecera uma compensação, muitos anos depois, não tinham incluído nada pela dor e perda do bebê, chamando seu filho de feto, não um ser humano. Johnson procurara Jordan, não com o objetivo de receber uma fortuna, mas apenas para obter justiça. Jordan esforçava-se em obter justiça para sua cliente. E obteria... se pudesse pôr a cabeça no lugar e preparar um bom argumento naquele fim de semana. — Você trabalha demais, Jordan. — Gosto do meu trabalho, Chad. — Era mais do que gostar. Sentia-se vazia quando não estava trabalhando. — Pensou sobre o que eu lhe pedi noites atrás?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) O coração de Jordan disparou. Sabia que mais cedo ou mais tarde ele tocaria no assunto. — Sim — disse ela. — E então? Ali estava. O momento da verdade. Ela teria coragem de assumir suas convicções? Ou enfraqueceria deixando Gino estragar seu futuro? Jordan tinha escolha: poderia assumir um relacionamento que havia sido desastroso desde o começo ou escolher um novo relacionamento, que tinha tudo para dar certo. Tudo bem, nem tudo, mas pelo menos o que realmente importava. Sexo maravilhoso não era tudo na vida, raciocinou. Além do mais, Chad não era um amante incompetente, de modo algum. O problema se houvesse um, estava em seu próprio comportamento em relação ao sexo. Gino a tinha programado para não se entregar totalmente a qualquer outro homem. Ele, somente ele, poderia fazê-la perder a cabeça e o controle. Na noite anterior ele havia provado isso. Mas esse fenômeno só ocorria quando ele estava por perto. Gino não estava por perto agora, e não estaria novamente. Já era tempo de parar de se esconder atrás de sua paixão desvairada por um homem que, por sua própria declaração, jamais se casaria com ela. Jordan estaria com 30 anos no próximo ano. Em dez anos, estaria com 40. Mais do que hora de tomar uma decisão. — Sim, Chad — disse ela com firmeza —, vamos nos casar.

CAPÍTULO SETE

Gino estava no último andar de seu arranha-céu em construção, caminhando ao longo da viga mestre, quando seu celular tocou. Ele esperou até que alcançasse um local com relativa segurança antes de tirar o aparelho do bolso. — Gino Bortelli — disse ele, passando um braço em volta de um poste, a fim de obter apoio. O vento era bastante forte naquela altura. — Que história é essa de você romper seu noivado com Claudia? — disse sua mãe, quase gritando. Gino deu um suspiro. Os boatos na comunidade italiana eram rapidamente espalhados e, geralmente, corretos.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Não é um problema muito grande, mamãe. Ela não era a mulher certa para mim e eu não era o homem certo para ela. Nada mais que isso. Concordamos em seguir caminhos separados. você.

—Não foi dessa maneira que recebi a notícia, Gino. Claudia está muito chateada com

Muito chateada porque não se casará com o dinheiro dos Bortelli, seria mais adequado dizer. Gino havia ficado espantado por Claudia demonstrar tanta maldade e tanto ódio, quando lhe dissera que estava tudo terminado entre eles. De repente, ela lhe mostrara seu verdadeiro caráter, usando uma linguagem tão obscena que todos no restaurante puderam ouvir. Não parecera ter nenhum tipo de mágoa no coração, apenas ambição frustrada. Após Claudia ter esbravejado furiosamente, todos os clientes do local olharam para eles, fazendo com que Gino desejasse ter escolhido um lugar mais discreto e reservado para acabar com o relacionamento. Isso tinha sido no domingo anterior... dois dias atrás. Gino surpreendeu-se por sua mãe ter descoberto em tão pouco tempo. Talvez ele próprio devesse ter lhe contado, mas desde que retornou para Melbourne, no sábado, não quisera ter qualquer contato com a família. Em primeiro lugar, era por causa deles que tinha deixado Jordan, e não fora capaz de voltar para ela. A família o sufocara emocionalmente, de tal maneira, que ele não queria mais se casar ou ter filhos. Os últimos dez anos haviam sido saturados com responsabilidades e infindáveis pressões, sempre colocando as necessidades da mãe e das irmãs em primeiro lugar, nunca as dele mesmo. Mas agora bastava. — Claudia está mais apaixonada por meu dinheiro do que por mim, mamãe — disse firmemente. — Confie em seu filho quanto a isso. Ouça, não posso continuar conversando agora, pois estou trabalhando. — Antes de desligar, decidiu o que vai fazer com o terreno abandonado em Sidney? Aquele que seu pai comprou anos atrás. — Tudo encaminhado. Vai ser uma torre de vinte andares, com apartamentos nos dez andares superiores, escritórios nos dez inferiores, lojas no térreo e garagem no subsolo. Assinei o contrato com o arquiteto na última sexta-feira. — Isso é bom, Gino. Seu pai vai adorar. — Como ele vai adorar alguma coisa, mamãe, se está morto? — Gino! Como pode dizer uma coisa tão ruim? Não tem fé? Seu pai está nos observando lá do céu. E ficaria muito orgulhoso de você.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Gino meneou a cabeça. Não havia argumentos contra a fé da mãe, portanto, não se importou. — Ele iria ficar ainda mais orgulhoso — acrescentou ela —, se você se casasse e perpetuasse o nome Bortelli. — Tenho somente 36 anos, mamãe. Ainda tenho muito tempo para isso. Ouça, realmente preciso ir. — Você virá para o jantar no próximo domingo? Sua mãe programava grandes encontros familiares no último domingo de cada mês, e Gino usualmente comparecia. Gostava de brincar com os sobrinhos e as sobrinhas. Mas detestou a idéia de ser bombardeado por perguntas sobre Claudia, por que não estavam juntos. — Não posso, mamãe. Desculpe-me, preciso ir a Sidney para uma reunião com o arquiteto. Ele quer me mostrar algumas plantas preliminares. Não era verdade, mas sua mãe não iria saber disso. Portanto, teria de ir a algum lugar. Talvez esquiar. Adorava a neve, e ainda havia bastante nos campos de esqui. Ficava muito cansado durante o dia, o que era bom, pois garantia que mergulharia no sono no instante que deitasse a cabeça no travesseiro. Não vinha dormindo bem desde que voltara de Sidney, a cabeça constantemente atormentada com as possibilidades. E se não tivesse feito aquela promessa boba para o pai? E se tivesse sido capaz de voltar para Jordan sem se sentir cafajeste? E se tivesse contado toda a verdade, antes de terem subido para o quarto do hotel na noite da sexta-feira passada? O último questionamento foi facilmente respondido: e se estivesse excitado demais para arriscar perder a oportunidade de fazer sexo com Jordan, ela o rejeitando depois das explicações? Seu desejo tinha transcendido o bom senso. Estaria ainda apaixonado por ela?, perguntou-se. Ou apenas queria fugir, como fizera anos atrás? Ela havia declarado que nunca o esquecera, e Gino acreditava naquelas palavras. Como poderiam esquecer a vida fantástica que tinham vivido juntos, cheia de paixão e prazer? Mas, além do sexo maravilhoso, havia afeição verdadeira. Ele não apenas usara Jordan, tinha realmente se importado com Jordan... e ela com Gino. Mas agora eram pessoas diferentes. Ela era mais cínica e menos confiante. E Gino era... bem, tinha sido apanhado pelas suas mentiras anteriores.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Ainda assim, daria qualquer coisa, faria qualquer coisa para estar com ela novamente. — Você deveria passar mais tempo com sua família, Gino — reclamou a mãe. Gino cerrou os dentes tão fortemente que as veias do pescoço saltaram. — Tenho de ir, mamãe. Ciao. Ele fez uma careta quando desligou o celular, lembrando-se que a última vez que tinha ouvido a palavra italiana que significa até logo fora dita pelos lábios de Jordan, quando ela saíra do quarto do hotel... e de sua vida. Ele olhou para a cidade que se agitava lá embaixo. Estava no topo do mundo, por assim dizer. No topo do mundo tanto financeiro como profissional. Tinha mais dinheiro do que necessitava, uma cobertura luxuosa e um carro extravagante: nada menos que uma Ferrari. Quanto às Construções Bortelli... embora já fosse uma empresa bem conhecida do ramo de construções quando ele a assumira, sob sua direção a empresa adquirira uma reputação invejável, por rentabilidade e qualidade. O trabalho árduo e decisões certas sobre o negócio tinham feito todos os membros da família Bortelli milionários, e ele mesmo estava perto de se tornar um bilionário. Mas todo o sucesso não contava, se não conseguisse ser feliz. As várias acusações e insultos de Jordan ainda invadiam sua mente, talvez por serem verdadeiras. Tecnicamente, tinha mentido e enganado, mas não era o covarde que ela pensava. Sabia muito bem o que queria: queria Jordan. Mas qual era o sentido em persegui-la quando ela não era receptiva às suas atenções? Gino não conseguia encontrar uma maneira de tê-la ao seu lado, a não ser se a raptasse ou aprisionasse em algum esconderijo. Infelizmente, não podia ver Jordan submissa, como uma daquelas reféns que se rendiam gentilmente ao seu amo. No dia em que havia ficado nua na sua frente e lhe dissera que ele jamais a veria daquele jeito de novo, Gino acreditara. Com um suspiro, dirigiu-se ao elevador de serviço que o levaria para o térreo novamente. Era final de expediente para todos os operários, exceto para o chefe portanto, tinha de voltar para seu escritório na cidade e descobrir que rotina administrativa da Construções Bortelli estava funcionando. Meia hora depois de tirar o capacete, Gino estava sentando à sua mesa com uma caneca de café forte à direita e uma pilha de correspondência diante dele. O relógio de parede marcava 17h. Ele pegou um envelope que sua secretária não tinha aberto, no qual estava escrito "confidencial". Gino pestanejou, pensando que podia ser uma correspondência de Claudia.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Não, concluiu enquanto rasgava o envelope. Ela não escreveria, ela mandaria um email. Garotas como Claudia nunca escreviam cartas quando podiam se utilizar da tecnologia. Gino percebeu que olhava para uma folha de papel com relevo em ouro. Era um convite de Stedley & Parkinson. O sr. Frank Jones, o diretor da filial em Sidney, estava convidando o sr. Gino Bortelli — e sócio — para um jantar de novos clientes, na noite do próximo sábado, na sala de reunião da diretoria da empresa. A hora marcada era 19h30; o traje: black-tie. Um endereço de e-mail era indicado para a confirmação até sexta-feira. Gino olhou para o convite por vários segundos, sem respirar. Então, inspirou profundamente, dando um leve suspiro. O destino, aparentemente, tinha conspirado para lhe dar uma última chance. Sem dúvida, Jordan, que era a estrela do departamento de litígio, da Stedley & Parkinson, tinha ganhado recentemente alguns clientes. Se assim fosse, certamente ela seria obrigada a comparecer ao jantar. O coração de Gino disparou só em pensar em rever Jordan... especialmente numa situação onde ela não poderia nem pensar que ele estaria lá propositadamente. O reencontro pareceria ser mera coincidência, o que, de certo modo, era. Ele não levaria uma acompanhante, é claro. Não possuía mais uma companheira. Ele não levaria Claudia para qualquer lugar próximo de Jordan, de qualquer maneira. Gino se perguntou se Adrian tinha recebido o convite. Não, provavelmente não. Adrian lhe contara que havia usado Stedley & Parkinson para trabalho judicial antes, o que significava que não era um novo cliente. Todavia, era provável que tivesse ido a um jantar como aquele antes, e, assim, poderia lhe dar uma idéia de que tipo de jantar seria, e especialmente quais os funcionários da Stedley & Parkinson que deveriam comparecer. Pegando o celular, Gino procurou o número de Adrian na agenda. — Adrian Palmer — ele respondeu imediatamente. Embora fosse um dos arquitetos jovens mais conceituados da Austrália, Adrian não tinha uma secretária ou um escritório próprio. Trabalhava em seu luxuoso apartamento, situado no centro comercial de Sidney. — Olá, Adrian. Gino Bortelli falando. — Gino! Estava justamente trabalhando na planta para seu novo edifício. Acho que você vai ficar muito satisfeito.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Isso é ótimo, Adrian. Ouça, recebi um convite pelo correio de Stedley & Parkinson. — Para um de seus jantares oferecido a novos clientes, presumo. — Sim. Você já compareceu a algum? — Sim. No mês passado, na verdade. Eles oferecem esses jantares uma vez por mês. Você deve ir, Gino. A comida é sempre excelente, assim como o vinho. — Aqui diz black-tie. Não é um pouco formal para um jantar numa sala de reunião da diretoria? — Isso se deve ao sr. Stedley, o dono americano, que é sócio da Ivy League, uma associação americana de prestígio social muito elevado. Acredita fortemente em rede social de comunicação. Encoraja também seus empregados a se socializarem. — Parece que você conheceu o homem. Não me diga que ele vem dos Estados Unidos para freqüentar esses jantares. — Não. Mas conheci o filho dele, Chad Stedley, que está fazendo um estágio aqui na filial de Sidney. Colocaram-me sentado ao lado do rapaz no jantar. Ele tem uma boa conversa. Contou-me a história de sua vida durante a refeição. Tinha uma namorada maravilhosa. Uma das advogadas da empresa... Jordan, ou coisa assim. O coração de Gino quase parou de bater, e ele sentiu uma leve tontura. Jordan tinha dito que não havia nenhum homem especial em sua vida. Entretanto, um mês atrás, era a namorada desse Chad Stedley? Poderia somente tirar duas conclusões dessa charada: ou ela havia rompido com Stedley desde então, o que era uma possibilidade, considerando a dificuldade dos relacionamentos nos dias atuais, ou mentira na noite da sexta-feira anterior. O que não parecia possível Jordan abominava mentiras. — Jordan Gray? — perguntou Gino. — Sim. Esse era o nome dela. Você a conhece? — Conheci, tempos atrás. — Está brincando? Uma antiga namorada? — Alguma coisa como isso. — Este mundo é pequeno, não é? — murmurou Adrian. — Parece que sim. — Nesse caso você deve pensar duas vezes antes de levar sua namorada atual ao jantar. Conhece as mulheres. E essa Jordan é realmente atraente. — Não tenho namorada atual — admitiu Gino. — Estava pensando em ir sozinho.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Entendo. Bem, se eu fosse você, não contaria em reatar com essa Jordan — avisou Adrian. — Soube pelo herdeiro e filho do Stedley que o noivado estava muito próximo. — Um noivado! — exclamou Gino, antes que pudesse evitar. — Sim. Se isso o preocupa, então, talvez fosse melhor você não ir. Preocupá-lo? Não era a palavra exata. Uma imensa onda de fúria estava se formando em seu horizonte. Se Jordan havia mentido para ele... Um namorado já não era bom, mas se ela pretendia apenas fazer sexo com Gino e depois voltar para seu noivo, ele não tinha certeza se podia lidar com isso. — Não, não — disse Gino, fingindo indiferença. — Sem problema, fique tranqüilo. Faz anos desde que Jordan e eu nos relacionamos, mas eu não me importaria de revê-la e ter uma conversa sobre os velhos tempos Além de uma conversa sobre tempos recentes, pensou furiosamente, isto é, sobre a noite da última sexta-feira. — Nesse caso, seja discreto. Chad Stedley faz o tipo controlador. Pode não gostar que o ex-namorado de sua garota reapareça na vida dela. — Ele parece encantador — zombou Gino. — Chad é milionário. — E o que isso tem a ver? — Mulheres submetem-se a tudo para se casar com um milionário. — É a voz da experiência falando? — perguntou Gino. — Por Deus, não. Sou rico, mas não milionário. Ainda. Contudo, você já deve ter conhecido algumas mulheres do tipo "caçadoras de fortuna". Os Bortelli fizeram parte da lista das cem famílias australianas mais ricas no ano passado. — Ah! — disse Gino. — Você nos investigou? — Sempre gosto de conhecer as pessoas com quem estou fazendo negócios, Gino. — Muito sensato de sua parte. — Se você vier a Sidney, poderia aparecer por aqui e dar uma olhada na minha planta preliminar. — Não me decidi se irei ainda. Talvez prefira ir esquiar. — Isso poderia ser uma atitude mais sábia. — Sim — concordou Gino —, poderia. — Mas não estava se sentindo sábio.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Se Jordan tivesse mentido para ele... Havia somente uma maneira de descobrir o que acontecera antes de sábado à noite. Colocaria a empresa de detetives confidenciais de volta ao trabalho. Eles teriam três dias e meio para descobrir se Jordan tinha rompido com o tal do Chad Stedley ou não. Imaginava que era mais do que tempo suficiente, poderia também descobrir se Jordan compareceria àquele jantar. Ao mesmo tempo, mandaria um e-mail aceitando o convite do sr. Frank Jones para o jantar.

CAPÍTULO OITO

Jordan, relutante, se aprontou: o mesmo vestido preto curto que usara da última vez, os mesmos sapatos e as mesmas jóias. Felizmente, os cabelos não precisavam ser arrumados. Tinha ido ao salão de beleza naquela manhã, lavado os cabelos e, depois, secado, deixando-os levemente ondulados. Levou menos de dez minutos para se maquiar: apenas base, um toque de blush, batom e duas camadas de rimei. Raramente usava muita maquiagem. Por volta das 18h30, estava pronta. O táxi estava programado para as 19h, o que lhe dava meia hora para fazer o que tivesse vontade. Assistir um show na televisão por meia hora? Tomar um cálice de vinho branco e tentar relaxar? A segunda opção venceu. Havia uma garrafa de vinho suave, doce, já aberta, no refrigerador, que Chad teria abominado, mas que ela gostava. Serviu-se de uma pequena taça e, passando pela sala de estar, dirigiu-se para o terraço da frente. Jordan abriu a porta de vidro, sentindo um pequeno tremor quando se expôs ao ar frio da noite. Felizmente, não havia muito vento, a brisa do mar era agradável. Escurecera há algum tempo, as luzes davam uma visão mágica aos dois marcos mais famosos de Sidney, que podiam ser admirados do seu apartamento, no 17° andar. A ponte, à direita, parecia uma imensa jóia em forma de cabide, enquanto o teto em forma de vela da Opera lembrava um filme de ficção científica. Ela suspirou quando bebeu o vinho e se inclinou contra o parapeito. Estava tão distraída que nem percebeu a vista encantadora da noite à sua frente.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Não queria ir àquele jantar mensal para novos clientes, mas não podia escapar. Não, a menos que tivesse uma razão muito boa. Quando em seu telefonema pela manhã dissera a Chad que não queria ir sem ele, seu noivo tinha ficado lisonjeado, mas insistira: — Você ganhou um novo cliente este mês, não ganhou? — Sim — admitiu ela. Um jovem exaltado que queria processar a empresa por demissão injusta, depois de o chefe ter descoberto que ele era homossexual. — Então você tem de ir, querida. Regras são regras. Apenas não se esqueça de usar seu anel de noivado. Deixe todos os homens lá saberem que você está comprometida. Jordan havia desligado o telefone um pouco insegura da decisão de se casar com Chad. Durante a semana, em seus telefonemas, ele havia se tornado muito mandão e exigente. Realmente achava que ela deixaria de trabalhar depois que estivessem casados e morando nos Estados Unidos? Como se ela pudesse! Também tinha ficado confusa quando ele não fora muito enfático ao cumprimentá-la por ganhar o processo e enorme quantia de dinheiro para Sharni Johnson. Não parecera ter se importado muito com seu sucesso. Nos últimos tempos, Chad estava indo a festas diferentes todas as noites, com os amigos "maravilhosos", como os designava, e Jordan duvidava que tivesse dito a qualquer uma das mulheres que encontrava que estava comprometido. Chad gostava de ser o centro das atenções. Jordan não era ciumenta, mas ficava ressentida com o comportamento dele. Sentiu-se culpada por esse último pensamento. Afinal de contas, não tinha se comportado exatamente como uma menina inocente desde que Chad havia viajado. Mais de uma semana se passara desde que fora ao quarto de Gino, mas a lembrança de sua atitude ainda era intensa. Tinha sido provocante nas mãos de Gino, mas rapidamente voltara a ser a pequena boba inocente que fora dez anos atrás. Ele dizia "Venha comigo", e Jordan ia. "Deixe-me sozinho", e ela o deixava. Aquele era o modo de agir de Gino. Ele ordenava e ela obedecia... E como Jordan adorava aquilo! Felizmente, o destino tinha aparecido para resgatá-la, na forma daquela passagem aérea, antes que tivesse se comportado ainda mais tolamente.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Mas algum dano já havia sido causado, um dano no qual uma mulher experimentava aquele nível de excitação sexual, e o êxtase que inevitavelmente se seguia. Difícil voltar à realidade depois disso. Difícil esquecer. Esquecer tinha sempre sido seu problema no que se referia a Gino. Vamos encarar isso, Jordan, a voz da realidade fria e dura falava mais alto: você nunca vai esquecer aquele homem. Pode se casar com Chad e ir morar nos Estados Unidos, colocar um oceano entre vocês, mas Gino vai sempre estar lá, em sua cabeça. Jordan gemeu, pegou o cálice e tomou o resto do vinho de um gole só. Então virou-se e entrou na sala para pegar a bolsa e as chaves. No último momento, lembrou-se do pedido de Chad: que usasse o anel de noivado que ele lhe dera, mas que ainda não tinha usado... mesmo depois de ter aceitado a proposta de casamento. Aquele esquecimento significaria alguma coisa? Não era um anel que teria escolhido, pensou Jordan, quando correu até o quarto e o retirou de uma gaveta. Era exagerado demais: um imenso rubi circundado por duas fileiras de diamantes, e, além de tudo, o aro era de ouro amarelo. Ela gostava de ouro branco, ou prata, e também de simplicidade. Obviamente, Chad não tinha escolhido aquele anel, concluiu. Era uma herança de família. A jóia pertencera à avó dele, que após falecer a deixara em testamento para ser dado à noiva de Chad. Jordan tinha ficado sensibilizada com a atitude, mas, quando colocava o anel, imaginou se poderia competir com a família poderosa e tradicional de Chad... sem mencionar todos os seus amigos "maravilhosos". Amigos que pareciam ser superpoderosos. Uma coisa seria viver com ele ali, na Austrália, pois as coisas eram muito naturais e à vontade, mas como seria a vida na América? Jordan nunca estivera nos Estados Unidos. Sua única viagem ao exterior tinha sido para a Europa, e, a maior parte do tempo, permanecera na Itália. Nenhuma missão lá. Tinha estupidamente pensado que poderia encontrar Gino na Itália, mas não encontrara, é claro. Como poderia ter encontrado se estava procurando pelo nome errado? Jordan cerrou os dentes. Gino novamente. Pensar em Gino confirmou sua decisão de casar-se com Chad. Tudo bem, então Chad não era perfeito. Era um pouco arrogante e, obviamente, muito mimado pelos pais ricos e indulgentes. De modo algum era um trabalhador compulsivo como ela, mas não chegava a ser cafajeste enganador.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Enquanto Gino... — Chega de Gino—murmurou ela, ao sair do apartamento. — Vou me casar com Chad e ponto final.

CAPÍTULO NOVE

Kerry geralmente aguardava com ansiedade os jantares para novos clientes, mas esta noite preferiria estar longe daquele local, junto com Ben. Havia se encontrado com ele na noite da última sexta-feira, e descobrir que ainda estava solteiro tinha sido uma surpresa muito agradável. Ben era seu único "ex" com quem ela realmente lamentava ter rompido a relação. Eles não tinham sequer discutido. Ben simplesmente precisara viajar. Agora estava de volta à Austrália e, obviamente, reataria com Kerry, do ponto onde tinham se separado. Eles haviam passado o fim de semana juntos, e também algumas noites daquela semana, e hoje Ben queria levá-la a um concerto. Mas, como advogada assistente de Frank, Kerry era obrigada não somente a comparecer ao jantar, mas a ajudar como anfitriã no evento. Frank era viúvo, não tinha namorada nem sabia como organizar qualquer coisa. Sobrava sempre para Kerry providenciar tudo: contratar o serviço de bufê, comprar vinho, escolher o menu e, depois, se certificar de que tudo corria bem, sem imprevistos. Naquele mês, ela escolhera um novo serviço de bufê, caro, mas altamente recomendado. Eles também tinham providenciado tudo, inclusive flores naturais para ornamentar a mesa. O chef era muito conceituado, trabalhara em diversos hotéis cinco estrelas. Os garçons também eram profissionais experientes e especializados, não mão-deobra terceirizada como alguns serviços de bufe usavam. Mesmo assim, Kerry ainda achava que teria sido menos trabalhoso ir a um restaurante. Mas Stedley & Parkinson preferiam a intimidade e a privacidade de sua sala de reunião de diretoria. Certamente, a sala de reunião era bem equipada para tal ocasião, tendo uma cozinha anexa excelente com dois toaletes do lado de fora, no corredor. O salão propriamente dito era muito espaçoso e impressionava pela opulência, com uma mesa imensa de mogno, na qual 24 pessoas se acomodavam confortavelmente. O assoalho era de madeira envernizada e as paredes brancas — um ambiente perfeito para as obras australianas coloridas de arte gráfica que as decoravam.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Kerry podia entender por que Frank escolhia realizar os jantares ali. Apenas se ressentia com o trabalho que tais jantares davam, motivo pelo qual tinha encontrado aquela nova firma de serviço de bufê que fazia praticamente tudo, exceto determinar onde cada convidado se sentaria. Obviamente, essa tarefa não era tão fácil quanto parecia. Certas tensões entre os empregados da Stedley & Parkinson tinham de ser levadas em conta, mantendo advogados rivais em posições bem afastadas. E havia também uma abundância de homens, mesmo entre os novos clientes. Kerry ficara aliviada ao saber que Jordan iria ao jantar, e a colocara entre o sr. Bortelli, que não estava acompanhado, e o sr. McKee, cliente de Jordan, que também não levaria uma acompanhante. Ao todo, 18 pessoas estariam no jantar: seis advogados, seis novos clientes importantes, quatro dos quais estariam acompanhados, Frank e ela. É claro que nem todos os novos clientes foram convidados. Somente os realmente ricos, ou cujos casos poderiam render publicidade para o escritório. Os novos clientes de Jordan eram sempre convidados, porque ela era responsável por casos que a mídia e o público achavam interessantes. Enquanto Kerry andava pela sala, certificando-se de que todos os cartões com os nomes estavam nos lugares certos, imaginou se Jordan usaria alguma coisa diferente naquele mês. No jantar anterior, ela usara o mesmo traje do mês anterior... como sempre: uma roupa clássica, um tedioso vestido preto, com um decote alto, mangas longas e uma saia reta não muito colante, que cobria demais suas belas pernas. O colar de pérolas de duas voltas que também sempre usava com o traje, apesar de apropriado, era muito sem graça, entretanto, os sapatos não eram tão ruins: pretos, clássicos e de saltos altos. Todavia, agora que Jordan estava noiva do Príncipe Encantado, deveria melhorar consideravelmente seu guarda-roupa, mudando seus trajes: de professorinha do interior para outros mais modernos e adequados a uma princesa. Homens como Chad Stedley esperavam que suas esposas brilhassem mais do que qualquer outra mulher. Jordan podia não ter percebido isso ainda, mas estava prestes a entrar num novo mundo, onde a moda e a aparência seriam fundamentais para seu sucesso como sra. Chad Stedley. Não podia mais sair vestida da maneira como estava acostumada. Deveria fazer algumas compras apropriadas antes que Chad voltasse dos Estados Unidos. E Kerry era justamente a garota adequada para acompanhá-la e lhe dar boas idéias. — Oh, está tudo tão encantador! Kerry ergueu a cabeça, já com um sorriso no rosto. — Não exagere — disse ela, vendo Jordan. — Gosto de seus cabelos. — Mas era uma pena quanto ao vestido, pensou com pesar.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Os convidados ainda estão no escritório de Frank, tomando drinques e aperitivos — murmurou Jordan. — Sim... e por que você não está lá? — Passei pela porta e não tive vontade de entrar e conversar amenidades sem nenhum conteúdo. Então deixei a bolsa na minha sala e vim direto conversar com você. Kerry sorriu. — Covarde. Você apenas não quer... Oh, meu Deus! Você está usando o anel de noivado. Deixe-me dar uma boa olhada nele. Oh, é fabuloso! Certamente, foi Chad que o escolheu. Conheço você, Jordan. Teria escolhido um diamante solitário, não muito grande, incrustado numa armação simples. Jordan meneou a cabeça para a amiga. — E você está certa. Este anel, na verdade, é uma herança de família. — Como ele entregou isso a você? Pelo correio internacional? — Não. Ele o deixou comigo antes de viajar para o exterior. — Porque sabia que você diria sim. — Como ele poderia saber? Kerry olhou com malícia para a amiga. — Porque milionários como ele não aceitam recusas. — Não vou me casar por causa do dinheiro, Kerry. — Sei disso. Vai se casar porque o ama e porque, finalmente, desistiu daquele rapaz italiano. Falando de italianos... espero que não tenha nada contra italianos em geral, porque, no jantar, eu a coloquei sentada ao lado de um. — Oh! — Ele é um novo cliente de Henry. Contratos e fusões de empresas. Não esperava que aceitasse o convite, pois ele mora em Melbourne, mas aceitou. O coração de Jordan deu um salto. Não podia ser Gino, de modo algum. O destino seria tão cruel? — Ouvi dizer que ele é um rapaz muito bonito — acrescentou Kerry. — E muito rico. É construtor. Constrói somente grandes edifícios. Jordan sentiu o coração disparar. Oh, não, pensou, com uma mistura de descrença e desgosto. Só podia ser Gino.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Felizmente, Kerry estava ocupada checando os cartões com os nomes e não a olhava. Jordan não queria que a amiga ligasse as coisas. E poderia ligar, se visse que ela estava preste a entrar em pânico. — Esse italiano tem um nome? — perguntou ela, no tom mais casual possível. — O quê? Oh... Bortelli. Gino Bortelli. Ouça, adoro você, mas tenho de ir, Jordan. Posso ouvir vozes vindo do corredor. Preciso avisar ao organizador do bufê que o pessoal está chegando. Ela se apressou em sair sem sequer olhar para Jordan, o que foi bom. Por Deus, Jordan não sabia como não havia desmaiado. Seu rosto empalideceu quando ouviu aquele apavorante nome. Chegou a tropeçar e segurou-se no encosto da cadeira mais próxima, com medo de se virar e olhar para a porta principal. As vozes estavam bem próximas indicando que as pessoas começavam a entrar na sala. — Ahh... então, aí está você, Jordan. — Uma voz masculina soou em seus ouvidos. Jordan piscou. Era Frank... o chefe de Kerry, e seu também. Impossível fazer qualquer coisa a não ser virar-se embora soubesse que Frank não estaria sozinho. Teria ao seu lado um novo cliente muito importante: o rico sr. Gino Bortelli. Apesar de estar mentalmente preparada para o encontro, mesmo assim Jordan ficou atordoada ao ver Gino, vestindo elegantemente seu terno preto magnífico, complementado com uma camisa branca e gravata borboleta preta. Atordoada, também, pelo que viu nos seus olhos negros. Não surpresa, como teria imaginado, se aquele encontro fosse apenas um arranjo cruel do destino, porém o que viu foi frieza e satisfação. A percepção de que ele sabia sobre sua presença ali, naquela noite, foi instantânea. A única pergunta que não entendia era como aquilo acontecera. Jordan não revelara onde trabalhava. Gino deveria estar tão chocado quanto ela, mas não estava, em absoluto. E o que isso significava? De qualquer modo, ela esboçou um sorrido educado, mas sua mente estava confusa com perguntas que não conseguia responder. — Olá, Frank — disse ela, não olhando para o homem ao lado dele. — O sr. McKee estava procurando por você — disse Frank, levemente irritado. — Verdade? Onde ele está? — Teve de ir para casa. Disse que começava a sentir uma enxaqueca.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Que pena — disse Jordan, pensando que também poderia ter inventado aquela desculpa. Desse modo, poderia escapar daquela situação difícil contudo, fugir de cenários difíceis nunca fora seu estilo. Gostava de enfrentar as coisas de cabeça erguida e era o que estava fazendo naquele momento. Com muita força de vontade, finalmente conseguiu fitar Gino. — E quem é este cavalheiro, Frank? — perguntou ela friamente e sentiu alguma satisfação quando viu os ombros de Gino ficarem tensos. Mas, de maneira alguma, Jordan lhe daria a oportunidade de dizer qualquer coisa constrangedora na frente do chefe dela. E talvez dissesse, se Frank percebesse que os dois já se conheciam. — Um novo cliente extremamente importante — replicou Frank de modo pomposo. — Sr. Gino Bortelli, diretor da Construções Bortelli, uma das empresas de construção civil mais conceituadas de Melbourne. Henry o atendeu na semana passada, elaborando um contrato. Ah, então esta era a razão pela qual ele tinha ido a Sidney. Jordan imaginou se alguém havia mencionado o nome dela, enquanto Gino estivera no escritório, assinando o tal contrato. Não, isso não seria possível. Até a noite de sexta-feira passada Gino nem sequer sabia que ela era advogada, muito menos onde trabalhava. — Felizmente, Gino dará à Stedley & Parkinson a honra de nos deixar representá-lo em todos os seus negócios futuros em Sidney — acrescentou Frank. Jordan estava acostumada com as bajulações de Frank em relação a clientes ricos, mas dessa vez seu chefe parecia estar se excedendo. — Infelizmente Henry ficou doente no último momento — continuou Frank antes que Jordan ou Gino pudessem dizer uma única palavra. — Então, estou apresentando o sr. Bortelli a todos. Jordan é uma das nossas melhores advogadas, Gino. Ela adquiriu uma reputação excelente nos poucos anos que está conosco. — Não me bajule, Frank. Como vai, sr. Bortelli? — disse Jordan, sem estender a mão. — Muito bem, obrigado — replicou Gino, com um gesto de cabeça frio. — Eu o deixarei nas boas mãos de Jordan. Pareço me recordar que Kerry colocou vocês dois lado a lado. Mas não se empolgue muito, Gino. Nossa Jordan recentemente ficou noiva. De Chad Stedley — disse ele, enquanto se afastava. — Filho e herdeiro de nosso sócio da matriz americana. — Parabéns — cumprimentou Gino com um tom de voz educado, mas havia certo desprezo em seus olhos.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Jordan sentia-se culpada. Felizmente, Frank tinha ido embora e ela já estava mostrando aos convidados seus lugares em volta da mesa. — Então, esta é a maneira que vamos atuar hoje à noite, Jordan? — continuou Gino de modo sarcástico. — Como se fôssemos totais estranhos? Jordan lhe deu um olhar longo e frio. — Todos estão se sentando para jantar, sr. Bortelli. Sugiro que façamos o mesmo. Por aqui, por favor. Gino a seguiu ao redor da mesa, onde Jordan indicou uma cadeira, bem ao lado da sua. Felizmente, ninguém fez nenhum movimento a fim de remover os assentos vazios ao lado de cada um deles, significando que a conversa não seria ouvida facilmente. Também felizmente, Kerry estava sentada à esquerda de Frank, do mesmo lado da mesa onde Jordan estava, mas, desse modo, não participaria da conversa dos dois. Depois de todos já estarem acomodados e as entradas terem sido servidas — camarões empanados com salada verde —, Jordan decidiu parar com o jogo e ir direto ao assunto. — Sua vinda aqui hoje não é uma coincidência, estou certa? —Contratar Stedley & Parkinson como meu representante legal foi uma coincidência. — Mas você sabia que eu estaria aqui hoje? — Sim. O nível de frustração de Jordan aumentou. — Você programou isso? — Não. Jordan tentou pensar: Gino sempre tivera dificuldade de aceitar não como resposta, ela o rejeitara naquela noite de sexta-feira, talvez ele a tivesse colocado sob investigação? Descoberto onde trabalhava? Descoberto sobre Chad? — Deve ser difícil para você — disse Gino calmamente —, com seu noivo no exterior. Deve sentir saudades dele. O coração dela bateu forte. — Como sabe que Chad está no exterior? — Talvez Frank tenha me contado. — Ele não contou. Contou? Você deve ter mandado me investigar. — Meu Deus, como você é desconfiada. Não é à toa que é advogada.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — O que você quer de mim, Gino? Ele colocou o garfo da entrada sobre o aparador de talher e sorriu. Era um sorriso malicioso e provocante que fez o coração Jordan disparar, não de raiva. — O que sempre quis quando estou perto de você Jordan — murmurou, os olhos pretos sensuais de repente se transformando: de frieza antártica para calor tropical. Quando as mãos começaram a tremer, Jordan também descansou o garfo. Afastando o olhar, pegou sua taça de vinho. Segurando a haste com força, levou o cálice aos lábios e sorveu grande quantidade da bebida, num só gole. A ação permitiu que recuperasse a compostura, mas seu coração ainda estava batendo descompassado. Finalmente, virou-se para encará-lo, com expressão firme. — Não fiquei noiva antes da última noite de sexta-feira — disse ela. — E acha que isso a isenta de culpa? — devolveu ele. — Acusou-me de ser mentiroso e enganador, Jordan. Enquanto, o tempo todo, você era a mentirosa e a trapaceira. Sei exatamente o que aconteceu naquela noite. Você pensou que poderia desfrutar de um italiano rústico enquanto seu amante rico estava longe, Mas quando descobriu que eu não era quem você pensava, despejou toda a culpa em mim. Até mesmo me chamou de covarde. Ninguém me chama de covarde, Jordan, e desaparece depois. Jordan sentiu uma leve tontura, pelo ataque agressivo daquelas palavras. Mas Gino ainda não tinha terminado. — Já pensou o que aconteceria se eu contasse ao seu precioso Chad o que você fazia enquanto ele estava longe? Duvido que continuaria usando esse anel por muito tempo. Ou trabalhando aqui na conceituada empresa Stedley & Parkinson. Eles são bastante conservadores, não são? Novamente o rosto de Jordan empalideceu. Ainda bem que estava sentada. Tremendo, ela pegou o cálice de vinho novamente e tomou outro gole, dando a si mesma tempo para se refazer. — Então esta é a finalidade desta noite, não é? — Ela espetou o garfo e comeu outro camarão. — Nada mais que vingança, tipicamente italiana. — É verdade — concordou ele. — Seria bom você se lembrar que feriu meu orgulho e minha honra. — Você chama de honroso mandar me investigar? — Um homem tem de fazer o que acha que é preciso. — E o que você tem de fazer, Gino? — Tenho de encontrá-la novamente, Jordan — disse ele, o tom de voz demonstrando a mais sedutora paixão. — Esta noite.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Jordan sentiu-se chocada e ofegou profundamente, lançando a Gino um olhar ferino. — Sonhar não faz mal a ninguém. Ouça, eu lhe disse na outra noite e estou dizendo novamente: tudo está terminado entre nós há dez anos. Sexta-feira passada foi um grande erro meu. Gino deu um sorriso frio e confiante. — Se você não fizer como eu peço, contarei a seu noivo amado o que aconteceu naquela noite. De qualquer modo, não acho que ele levará em conta que, tecnicamente, vocês não estavam noivos na ocasião. — Você não passa de um cafajeste malvado. — Fale baixo. Você não gostaria que o velho e querido Frank a ouvisse xingar um novo cliente tão importante para a empresa, gostaria? Jordan lhe deu outro olhar antes de pegar o cálice de vinho de novo, e o tomou com uma velocidade que fez diversas pessoas a olharem com surpresa. Nunca bebia tanto naqueles jantares da empresa. Nunca fizera nada que alguém pudesse remotamente criticá-la. Jordan sabia que o ultimato de Gino era maldoso sem nenhuma preocupação com o seu futuro bem-estar. Ele a desejava sexualmente, e seu maior desejo não era somente de lhe tirar a roupa, mas também destruir seu orgulho. A despeito disso tudo, Jordan desconfiava que, no final, acabaria fazendo o que ele queria... não para mantê-lo calado, mas porque, bem no fundo, também queria passar a noite com ele. Ela devia estar louca. Ou isso, ou ainda estava apaixonada por Gino. Mas como podia amar um homem que era capaz de fazer uma coisa tão horrível como chantageá-la a fim de levá-la para a cama? Não, não era amor que estava fazendo seu sangue ferver nas veias. Aquilo era luxúria. Uma luxúria tão excitante e tão poderosa que ela não tinha chance de resistir. Sexualmente, era atrevida nas mãos dele. Sempre tinha sido, e sempre seria. Ao mesmo tempo, não podia permitir que Gino desconfiasse de sua fraqueza, que ele a fazia uma vítima perfeita para seu voraz apetite sexual. Deveria fazê-lo pensar que ela o desprezava por estar fazendo aquilo. Entretanto, Jordan não estava tão certa que conseguiria. A ousadia de Gino a excitava quase tanto quanto o desejo dele. Meu Deus, estava desesperada com aquela ameaça.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Chantagistas são notórios por nunca ficarem satisfeitos — disse ela. — Se eu fizer o que você quer, o que o impedirá de exigir mais e mais depois que esta noite terminar? — Dou-lhe minha palavra que se passar a noite comigo irei para casa em Melbourne amanhã cedo e nunca mais a importunarei. — Perdoe-me se não confio muito em sua palavra. — Que opção você tem? — Posso contar a Chad o que aconteceu na sexta-feira passada. Talvez ele entenda. — Eu não entenderia — disse Gino. Nem Chad, ponderou Jordan. — Não é pedir muito, é? — prosseguiu Gino. — Uma noite comigo em troca de uma vida inteira como sra. Chad Stedley. — O que o impediria de causar problemas em meu casamento no futuro? — perguntou ela. — Nada além de minha palavra. Mas presumo que, uma vez casada, você se mudará para Nova York. Por mais que eu aprecie tê-la à minha disposição esta noi te duvido que viajaria para tão longe para repetir a performance. — Sua família sabe que você é um homem insensível e sem consciência? O rosto dele se transformou. — Deixe minha família fora disso. — Com prazer. — Então, qual é sua resposta, Jordan? Temos um acordo ou não? Jordan fez uma careta, depois cerrou os dentes. Por que ele era o único homem que fazia seu coração disparar daquele jeito? Que outra pessoa seria capaz de fazê-la esquecer seu orgulho? Ou despertar-lhe desejo pelas coisas estranhas que Gino lhe fazia? Jordan sentia-se enfurecida por ser tão fraca em relação a ele. Normalmente, era uma pessoa forte, determinada e independente. Se fosse outro homem, ela o mandaria para o inferno. — Já pensou que eu o odiarei para sempre por fazer isso? — Valerá a pena — replicou ele friamente. O que valeria a pena?, perguntou-se Jordan. Uma imagem lhe veio à mente. Na sextafeira, de pé, nua na frente de Gino, jurando que ele jamais a veria daquele jeito novamente.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Palavras audaciosas, corajosas e tolas. Palavras que Gino estava determinado a fazê-la se arrepender de ter dito. O garçom levou embora os pratos vazios, depois de completar as taças de vinho novamente. Ainda vinho branco, porém mais suave do que o servido para acompanhar o coquetel de frutos do mar. Tudo indicava que o prato principal seria algo leve. — Eu deveria mandá-lo para o inferno — disse Jordan quando o garçom se afastou. — Você deveria, mas não quer. Fará o que eu quero. — Não esteja tão seguro disso. — Mas estou, porque não sou o único aqui que é insensível e sem consciência, para não dizer ambicioso. Oh sim, não esqueçamos a ambição. —Você não sabe nada sobre a mulher que sou. — Nem quero saber. Antigamente, talvez eu quisesse, mas agora prefiro conhecer você no sentido bíblico. Então está combinado, futura sra. Stedley? Você negociará a total entrega de seu corpo hoje em troca de meu silêncio. — Entrega total? — repetiu ela, chocada e excitada ao mesmo tempo. — Não mencionei isso? — Não — disse ela, tremendo por tanta excitação. ele.

— Não lhe pedirei para fazer qualquer coisa que não tenha feito comigo antes — disse

Jordan reprimiu um gemido. Aquilo não significava muito, ou, melhor, absolutamente nada. A vida sexual com Chad nunca havia sido tão cheia de aventuras como com Gino, nem mesmo remotamente parecida. — Você tem dez segundos para selar o acordo — disse ele —, ou farei o que prometi. Imediatamente. Tenho o número do telefone privativo de seu noivo na memória do meu celular. Jordan teria pensado que era um blefe, se fosse qualquer outro homem. Mas sabia que Gino não estava blefando. — Nesse caso — disse ela, sentindo o estômago se contrair quando tentou imaginar quais seriam as conseqüências da ameaça de Gino —, está combinado.

CAPITULO DEZ

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Quando ela concordou, ficou claro para Gino o que ele desconfiara a semana inteira: a garota doce, sensual e sincera que conhecera e amara, tinha se transformado numa mulher insensível, oportunista e interesseira. Jordan não amava Chad Stedley. Como poderia amá-lo se havia ido para a cama com ele na sexta-feira? Entretanto, estava usando o anel de noivado de Stedley. No momento que descobrira sobre o noivado, Gino havia ficado aborrecido. Não, aborrecido não fazia justiça às suas emoções. Tinha ficado totalmente furioso. Estava lá naquela noite, sem qualquer plano definido na cabeça. Queria apenas olhar bem nos olhos de Jordan e dizer-lhe que sabia que espécie de mulher ela era. Mas, assim que a vira, ali, de pé, de costas, extremamente sexy naquele vestido preto, o desejo consumiu todo o seu corpo. Quando Jordan se virou, ele não gostou da maneira incontrolável que a desejava, apesar de tudo. Fazer chantagem para levá-la para a cama não estava em seus planos, contudo, mudou de idéia quando ela o insultou de modo arrogante, fingindo que não o conhecia. Aquele havia sido o momento no qual resolvera se vingar. Usaria a própria ambição de Jordan contra ela, mesmo tempo em que satisfaria seu incontrolável £Mesmo assim, Gino ficara chocado quando ela concordara com sua proposta. Chocado e em total estado de excitação. Inclusive agora, estava tão excitado que se veria numa situação constrangedora se não estivesse sentado à mesa. — Espero que esteja feliz agora — murmurou ela. Feliz? Não, não estava feliz, em absoluto. Como poderia estar se a única razão de Jordan ter concordado em ir para a sua cama era para poder se casar com outro? Deveria mesmo fazer isso? Gino percebeu que o rosto de Jordan estava corado. Seria de raiva ou de pura excitação? A química sensual entre eles tinha sido eletrizante Naquela sexta-feira, a química ainda fora enorme. Não havia razão para pensar que alguma coisa mudara apenas porque ela descobrira que ele não era exatamente quem achava que fosse. Jordan podia detestá-lo, mas sob seu ódio havia um desejo tão insidioso e irresistível como o dele. Gino mal podia esperar tê-la para si... tê-la de pé nua, do modo que ela dissera que nunca mais ficaria... tê-la fazendo todas as coisas que ele lhe ensinara dez anos atrás. A chegada do prato principal apenas abrandou levemente a paixão que havia se manifestado em Gino. O garçom comunicou que era peixe grelhado, com molho de tomate e pepino, acompanhado de batata-doce assada e salada verde.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Gino começou a saborear a refeição com prazer. Seu apetite era sempre voraz quando o nível de testosterona estava elevado, percorrendo seu corpo. Por sua vez, notou que Jordan apenas tocou na comida, mas tomou muito vinho. Ótimo, pensou, pois ela era ainda mais sexy e cooperativa quando estava levemente embriagada. Ou costumava ser? — Quando? — sussurrou ela de repente. Ele não virou a cabeça para falar. — Quando o quê? — murmurou, espetando o garfo num pedaço do delicioso peixe. — Quando isso tudo começa? E onde? Ele a deixou esperar pela resposta até que terminasse de saborear o peixe. — Tão logo possamos escapar daqui. Reservei uma suíte no Regency Hotel. Uma de suas suítes especiais para lua-de-mel! Ele pôde sentir os olhos de Jordan se incendiarem. — Como você ousou? — perguntou ela ofegante. — Como ousei o quê? — Reservar uma suíte para lua-de-mel. Na verdade, ele não havia reservado a suíte nupcial com qualquer motivo premeditado. Certamente, não tinha imaginado que Jordan iria compartilhar a suíte com ele, mas no Regency estava acontecendo uma grande convenção naquela semana e as únicas vagas disponíveis eram duas suítes nupciais. Gino tentara reservar antecipadamente, pois não queria aborrecer-se, indo para outro hotel. Mas não ia revelar isso a ela. De certo modo, sua reserva de uma suíte tinha mexido com os nervos de Jordan. E isso era bom. —A suíte é chamada de French Bordello — ele lhe disse, com um sorriso malicioso. — Achei-a bastante apropriada. Jordan meneou a cabeça. — Você é realmente perverso. — E o que você é, Jordan? — replicou ele friamente. — Inocente? — Não — concordou ela. — Se eu fosse, não teria nada a ver com você. Deveria tê-lo mandado para o inferno, pensou Jordan em silêncio quando olhou mais uma vez para o prato. O fato de Gino forçá-la a ir para sua cama por chantagem era uma coisa bastante desagradável, e reservar uma suíte nupcial era tão insensível que beirava o sadismo. Ele devia saber que, tempos atrás, ela daria tudo para compartilharem uma suíte de lua-de-mel e

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) tornar-se a sra. Gino Bortelli, que aquele tinha sido seu sonho dourado. Entretanto, tornarse amante de Gino Bortelli por uma noite era um pesadelo. Contudo, a perspectiva a excitava de um modo insuportável. Suas mãos tremiam quando pegou a faca e o garfo, e o estômago doía tanto que não podia comer. Gino continuava jantando, notou Jordan, saboreando os alimentos com prazer. Entretanto, seu apetite desapareceu. Cruzando os talheres, pegou o cálice e sorveu o vinho vagarosamente. — Não é de admirar que esteja magra — disse Gino. — Você não come. Jordan o ignorou e continuou bebendo seu vinho. Mas não demorou muito para começar a sentir-se levemente tonta, portanto, colocou o cálice na mesa, pegou novamente o garfo e fez um esforço para conseguir ingerir algum alimento. — Assim está melhor — murmurou Gino, e ela o fitou com um olhar de desprezo. — É de admirar que eu possa comer com o que me espera esta noite? — Por quê? Estou excitado como nunca — argumentou ele. — Como pode querer ir para a cama com uma mulher que o detesta? — Isso é uma coisa que você deveria aprender sobre os homens, Jordan. Eles não precisam amar ou até mesmo gostar de suas parceiras sexuais para apreciá-las na cama. — Você já pensou que o que vai fazer esta noite é o mesmo que extorsão? Gino deu uma risada seca. — Lembrarei de suas palavras quando você implorar por mais. Jordan respirou fundo, tanto pela arrogância dele como pela onda quente de desejo que de repente inundou seu corpo. Depois do que havia acabado de ouvir, Jordan finalmente aceitou que Gino nunca a amara de verdade. Ela havia sido apenas um objeto sexual, mero brinquedo. O que ele realmente adorara era ser capaz de possuir seu corpo virgem, e torná-la objeto de suas loucas fantasias. O caso deles não tinha nada a ver com amor, apenas com sexo. E a noite de sexta-feira tinha sido apenas sexo. Assim como esta seria. Os pensamentos de Jordan endureceram seu coração, mas não diminuíram seu desejo. Ainda queria dormir com ele, e sentia-se descontente por isso, fazendo com que odiasse a si própria quase tanto quanto o odiava. — Você não tem alma — ela murmurou. — Então, nós combinamos — ele respondeu.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Por que você não pára de falar e me deixa comer? — Fique à vontade. Cada pedaço do peixe que comia parecia um sacrifício, mas era melhor comer do que beber, ou... discutir alguma coisa com Gino. Quando o garçom chegou para retirar os pratos... todos já haviam terminado suas refeições e Jordan tinha conseguido comer bastante, e tomara dois cálices de vinho. No momento em que Frank se levantou e brindou a todos os novos clientes, foi uma trégua abençoada, mas Jordan não gostou muito quando brindaram também ao seu sucesso no caso Johnson daquela semana. Isso a fez recordar que não haveria muitos sucessos semelhantes num futuro próximo, pelo menos não na Stedley & Parkinson. Ter permitido que Gino a levasse para a cama através de chantagem significava o término de sua vida ali... porque significava também o término de seu noivado com Chad. Em sã consciência, não podia passar a noite à disposição de Gino e depois se casar com Chad, que não merecia aquela traição. O que significava que teria de telefonar-lhe na manhã seguinte e desmanchar o noivado, e também pedir demissão da Stedley & Parkinson na segunda-feira. Como poderia continuar trabalhando naquelas circunstâncias? Era melhor que saísse agora, com sua reputação ainda intacta. Diria a Frank que a pressão do trabalho e o desgosto com o rompimento do eram grandes demais, e que precisava parar de trabalhar por algum tempo. Dessa maneira, poderia sair com boas referências. Talvez saísse de férias para algum lugar bem longe Não Itália. China, talvez. Algum lugar diferente. Enquanto permanecia ali, fazendo planos, sua mente voltava-se para Chad, com certa relutância. Ele iria ficar muito aborrecido com a notícia, mas sobreviveria. Jordan confortouse com o pensamento de que não eram muito apaixonados. — Você já escolheu uma data para seu casamento? — perguntou Gino de repente, tocando-lhe as costas chamando-a de volta à realidade. Jordan o encarou fixamente. — Acho que disse que não queria conversar. — Melhor do que ficarmos quietos, perdendo nosso tempo. — Não concordo com você. — Espero que não seja um casamento forçado por gravidez, espero que não tenham se descuidado.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — O quê? Não seja ridículo. — Por que ridículo? Chad Stedley é um bom partido. Você não seria a primeira garota a armar uma cilada para caçar um marido rico através da gravidez. — Ganho um salário muito bom. Não preciso de um marido rico. — Conhece o famoso ditado: "Você nunca é rica demais ou magra demais." — Podemos encerrar esta conversa, por favor? — Ótimo, mas preciso perguntar uma coisa antes que façamos sexo. Jordan pestanejou diante das palavras de Gino, do que eles estariam fazendo mais tarde... Mais uma vez naquela noite, agradeceu aos céus que ninguém ouvia a conversa deles. As cadeiras vazias ao lado de cada um havia sido uma bênção, assim como o arranjo de flores entre os dois e as pessoas do outro lado da mesa eram muito convenientes. — O que é? — perguntou ela com um suspiro irritado. — Chad usa preservativo quando faz sexo com você? — Você usa preservativo quando dorme com sua namorada? — ela replicou. — Sempre. Agora responda a pergunta. Jordan não queria responder, mas não via outra saída. — Sim. — Achei que ele realmente usara. Jordan piscou. — Por que diz uma coisa como essa? — Como o quê? — Como se pensasse que Chad me trai. — Bem, você o trai. — Sexta-feira passada foi a única vez. — E hoje à noite? — Não pode contar esta noite. Você está me forçando. — Ah, sim. Então estou — disse Gino, mas o tom de voz era sarcástico, como se soubesse muito bem que ela estava querendo tanto quanto ele. Jordan se deu conta da mais terrível verdade: que tipo de pessoa era ela para fazer aquilo? Tudo bem, iria romper o noivado. Isso, pelo menos, era a coisa certa a ser feita,

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) entretanto, iria passar a noite com um homem que não se importava com ela e que tinha uma namorada em Melbourne. Ambos estavam tecnicamente sendo infiéis aos seus parceiros. Gino estava certo: ela era tão má quanto ele. Quando reabriu os olhos, a sobremesa estava na sua frente... uma espécie de mistura de chocolate com creme chantilly e morangos decorando o prato. O garçom também havia colocado vinho em seu cálice. Primeiro pegou a taça de cristal, esperando afogar seus escrúpulos no álcool. Enquanto Gino, ela observou pelos cantos dos olhos, já estava saboreando a sobremesa. No memento em que Jordan pegou o garfo de sobremesa, ele havia terminado. — Você pretende continuar trabalhando depois que se tornar sra. Chad Stedley? Jordan suspirou novamente. Gostaria de poder dizer a Gino que ficasse calado, mas duvidava que ele obedecesse. — Jamais desistirei de trabalhar. — Nem mesmo quando tiver um bebê? Jordan cerrou os dentes. — Nem mesmo assim. — Você quer filhos? Jordan detestava a maneira como seu coração disparava. — Por que essa curiosidade? — perguntou. Ele não queria casar-se com ela, ou ter filhos. Tudo que queria era sexo. — Apenas curiosidade. — Pois controle sua curiosidade. Fizemos um trato, que inclui apenas acesso ao meu corpo, não à minha alma. Ou aos meus objetivos. Agora, se não se importa, gostaria de encerrar esta conversa até o final do jantar. Concordei em fazer o que você me pede. Sinta-se feliz com isso. — Não me sentirei feliz até que você esteja nos meus braços novamente. Jordan deu um gemido. Por que ele tinha de dizer coisas como aquelas? E por que ela respondia de modo tão impensado? Fechou os olhos, pensando que nunca seria feliz outra vez. Não se fizesse aquilo. Estar com Gino novamente a destruiria. Já podia sentir isso... a obstrução de sua vontade, a ansiedade de se render a ele. Era muito grande o poder que Gino exercia sobre ela. Colocou o garfo de lado, sabendo que não seria capaz de comer mais nada.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Homens como você deveriam ser castrados — ela murmurou. Gino riu baixinho. — Nesse caso, o que fariam as mulheres como você? — Teriam alguma paz em suas vidas. — Isso me parece muito chato. Pelo menos você não ficará entediada esta noite. Vai se sentir mais viva do que nunca. — E você, Gino, o que sentirá? Ele sorriu. — Isso já é uma inquirição. Advogadas realmente gostam de interrogatórios. Meus sentimentos serão somente meus e não os compartilho com mulheres que me detestam. — Assim mesmo você espera que eu compartilhe sua cama? O quão perverso é isso? — Extremamente perverso — sussurrou ele, inclinando-se em direção a ela, fazendo com que sentisse sua respiração quente. — Pensarei no seu ódio quando você ficar nua diante de mim. E quando implorar para fazer sexo comigo... Como implorará, Jordan, minha doçura, porque conheço você, conheço suas necessidades secretas e seus desejos. Você pode me detestar mas bem no fundo, na parte mais íntima, para as verdades mais secretas, você me quer tanto quanto eu a quero. Não, talvez não tanto. Aqui, dê-me sua mão e veja o que já fez comigo. Jordan encolheu-se na cadeira quando ele pegou a mão dela e puxou, pressionando-a entre suas pernas. — Pare com isso — sussurrou ela, afastando a mão. — Não serei humilhada por você, Gino. Quero que me trate com respeito. Se ultrapassar a linha da decência apenas uma vez, o acordo estará desfeito. Eu mesma contarei a Chad que passei uma única noite com um namorado antigo e assumirei as conseqüências. Fui clara? — Perfeitamente. — Também não tenho intenção de sair deste jantar em sua companhia. Irei ao Regency por conta própria. Deixe meu nome e um cartão-chave suplementar na recepção do hotel. — Mas eles pensarão que você é uma garota de programa se eu fizer isso! — protestou ele. — Não estariam tão errados, não acha? — Direi que minha esposa chegará depois, de um vôo atrasado de Melbourne. — Não, de modo algum — disse Jordan. — Não fingirei ser sua esposa. — Você se tornou muito teimosa. — Sou uma mulher adulta agora, Gino, não uma garota boba.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Eu preferia a garota boba. — Tenho certeza que sim. Então, o acordo está desfeito? Você não quer mais nada comigo, agora que descobriu a teimosa que sou? Ele a olhou por longo tempo. — Pare de tentar provocar uma briga, Jordan. Ambos sabemos que nenhum de nós quer isso. Agora coma sua sobremesa, que está deliciosa. — Não posso mais comer — disse ela, afastando —Você precisa se alimentar, mocinha. Vou alimentá-la com prazer, tão logo este jantar termine. — Em seus sonhos. — Não, na suíte French Bordello, no Regency — murmurou ele de modo malicioso. — Numa cama king-size. A noite toda.

CAPITULO ONZE

Jordan estava de pé atrás de sua mesa, olhando vagamente pela janela para a cidade lá embaixo, quando a porta da sua sala se abriu. — Tinha certeza que a acharia aqui — disse Kerry. Jordan voltou-se e deu um pequeno sorriso para a amiga. — Por quê? — Porque você está muito anti-social. Não via a hora de escapar do jantar hoje, não é? — Não estava com muito apetite esta noite. — Mas a comida estava boa, não estava? — Muito boa. — Jordan olhou para o relógio. Tinha de ir embora logo. Gino a avisara para não se atrasar, e eleja havia saído há dez minutos. — Como foram as coisas com o sr. Bortelli? — O quê? — Jordan a fitou. — Oh, não tão mal. Ele gostou da comida. — Ele não avançou o sinal com você, certo? Jordan empertigou-se. — Por que você diz isso?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Apenas um pressentimento. Você parece... agitada. Por um décimo de segundo Jordan ficou tentada a contar tudo a Kerry, mas não podia. —Ainda estou tensa depois da semana passada. O caso Johnson foi muito desgastante. Eu... eu tirarei umas férias brevemente. — Acho que seria uma boa idéia. Por que não surpreende Chad voando para os Estados Unidos? Jordan meneou a cabeça. — Não. Não quero fazer isso. — Você não está indecisa sobre se casar com ele, está? Jordan engoliu em seco. — Na verdade, estou. — Oh, Jordan — exclamou Kerry. — Sim, sei que sou uma boba. Provavelmente, mais boba do que você imagina. De repente, os olhos de Jordan se encheram de lágrimas. Tinha de sair dali. Vacilando muito, abriu a gaveta da mesa e pegou a bolsa de onde a colocara antes do jantar. Quando olhou novamente para Kerry, já estava controlada. — Preciso ir para casa e dormir. Vejo você na segunda-feira. — Cuide-se — gritou Kerry quando ela saiu da saía apressadamente, Não havia ninguém no elevador quando Jordan desceu, dando-lhe a oportunidade de tirar seu anel de noivado e colocá-lo na bolsa. De maneira alguma podia usar o anel de Chad enquanto estivesse com Gino. De qualquer forma, Gino também não permitiria isso. O segurança no saguão perguntou se ela queria que chamasse um táxi. A caminhada até o Regency era relativamente curta, somente dois quarteirões, mas aos sábados à noite qualquer caminho na cidade podia ser perigoso... especialmente para uma mulher sozinha. Jordan normalmente teria tomado um táxi, mas não dessa vez. Inspirou o ar frio da noite e fez uma prece silenciosa, pensando no risco que correria. Se alguém a assaltasse, então era o que merecia. É claro que ninguém a assaltou, e em menos de dez minutos estava empurrando as portas giratórias do hotel. Seu coração estava batendo violentamente e o rosto, corado.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Outra olhada no relógio e viu que passava das 22h30. Seus sapatos de salto alto faziam ruído no assoalho de mármore do saguão enquanto ela se apressava... passando pelo segurança diante da porta do bar Rendezvous, pelo bistrô e pelas butiques. Jordan chegou ao balcão da recepção e não gostou de ser atendida por um recepcionista. Estava esperando que fosse uma mulher. — Ah, sim... srta. Gray — disse ele, com um sorriso afetado e malicioso, e lhe entregou a chave magnética. — O sr. Bortelli disse que era para você subir diretamente. A suíte French Bordello fica no 12° andar. — Obrigada — replicou ela friamente, esperando que seu rosto não estivesse tão quente como sentia. A subida para o 12° andar parecia surreal, as emoções conflitantes que sentia ameaçando subjugá-la. Seu cérebro continuava lhe dizendo para não fazer aquilo. Ainda podia dar meia-volta e ir para casa, mas seu corpo se recusava a obedecer. De repente, estava parada diante da porta da suíte French Bordello, com uma placa de letras douradas. Deveria bater ou simplesmente entrar? Jordan ergueu o punho da mão direita e bateu. Apenas alguns segundos, porém agonizantes, se passaram antes que a porta se abrisse. Gino estava ali, com seus olhos negros brilhando. Ela notou que ele havia tirado o paletó e a gravata-borboleta, e abrira o primeiro botão da camisa branca. — Você demorou — murmurou ele. — Vim a pé. — Você, o quê? — disse ele pegando sua mão, puxando-a para dentro a fim de fechar a porta. — Não sabe que se arriscou muito, mocinha? Jordan deu de ombros e afastou a mão da dele, então parou quando estava prestes a adentrar o quarto. — Por Deus! — exclamou, meneando a cabeça diante da decoração da suíte. O decorador teria copiado de um bordel trances verdadeiro?, perguntou-se. As cores eram muito vivas para o gosto de Jordan, a mobília, ornamentada demais. Ao mesmo tempo, não podia negar que quem quer que tivesse decorado aquele lugar, criara um ambiente antiquado e sensual: tapete vermelho-escuro, paredes com lambris de madeira, dois sofás de brocado dourado — na verdade, um horror —, com pés entalhados em forma de boca de leão. Mesas com tampo de mármore, cortinas de veludo dourado nas janelas, luzes difusas de abajures cujas bases eram figuras de mulheres nuas em latão. O quarto era separado da sala de estar por portas duplas, no momento abertas, dando a Jordan uma visão da cama king-size que Gino havia mencionado.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) No quarto, as cores eram inversas: o tapete dourado e as paredes cobertas com papel vermelho-escuro, e a cortina de veludo da mesma cor. — Isso significa que você gostou ou não? —perguntou Gino. — Não é exatamente o meu gosto — replicou ela — Mas há gosto para tudo. — Espere até ver o banheiro. Uma tensão nervosa de repente a fez sentir a bexiga cheia. — Acho que preciso vê-lo agora mesmo. — Fique à vontade — disse Gino. — Sozinha — acrescentou ela. Não havia televisão, observou quando passou pela sala, nem um minibar. Entretanto, havia um gabinete antigo em um dos cantos que podia esconder alguma coisa. Uma garrafa de champanhe francês, já aberta, estava colocada num balde de prata sobre a mesa com tampo de mármore rosado, assim como morangos, caviar e trufas de chocolate. Seria uma providência de Gino ou do hotel? O quarto era tão suntuoso quanto parecia a distância. A colcha e os travesseiros eram de cetim vermelho e dourado, e também os lençóis. A base dos abajures era esculpida em forma de mais mulheres nuas, em várias poses. Uma garrafa de vidro elegante estava ao lado do abajur, cheia do que parecia ser alguma espécie de loção para o corpo. O banheiro era conforme Gino comentara: mármore negro dominava o ambiente, cobrindo o chão, as paredes e o teto. As pias gêmeas eram do mesmo mármore, as cubas, também. O vaso sanitário, o bidê e a banheira para hidromassagem eram de cor creme, as torneiras e outros acessórios eram dourados. As toalhas eram escarlate, assim como os tapetinhos do piso. Havia velas douradas acesas, parecendo vaga-lumes numa caverna escura. Jordan não podia imaginar o que Gino tinha em mente para aquele banheiro mais tarde. Ela se virou enquanto lavava as mãos na pia, agradecendo intimamente que a luz difusa não a deixava ver a excitação nos seus olhos refletida no espelho. Penteou os cabelos, mas não se incomodou em retocar o batom. Não havia motivo para isso. Não estaria em seus lábios por muito tempo. Saiu do banheiro e voltou para a sala de estar, onde Gino estava de pé, na janela, de costas para ela. Ele se virou ao som dos seus passos. Estava segurando um cálice de champanhe e sua testa um pouco franzida. — Estive pensando — começou ele. — O quê?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Estava errado em chantageá-la e obrigá-la a ir vir aqui. Não era o que eu pretendia fazer quando fui àquele jantar hoje. Não é o que quero. Jordan nunca ficara tão espantada em sua vida. — O que você quer, então? — Ainda quero você, Jordan. Isso não mudou, mas quero que fique comigo por sua própria vontade. Não quero forçá-la ou mesmo seduzi-la. Quero o que tivemos juntos um dia. Você... pronta a se render a mim. Não quero que me deteste amanhã cedo. E não quero detestar-me também. Jordan apenas olhou para Gino, completamente aturdida pela inesperada reviravolta. — Acho que você não sabe o que quer, Gino. Ouça, se isso o fizer se sentir melhor, então eu vim aqui por minha própria vontade. Não porque você me chantageou. Você tem alguma espécie de poder sobre mim, admito. Apareceu por acaso, estalou os dedos e a tola da Jordan veio correndo. Mas não se iluda pensando que podemos reatar o que tivemos um dia — continuou ela. — por uma simples razão: eu não o amo mais. Como poderia amar um homem que mandou me investigar pelas costas? Mas, mesmo assim, ainda me entrego ao desejo que sinto por você, pois estava certo no que disse no jantar hoje: você sabe do que gosto, conhece todos os meus pequenos segredos. Portanto, aqui estou — acrescentou, começando a abrir o zíper do vestido —, fazendo o que jurei nunca mais fazer. Mas não por causa de sua ameaça de contar a Chad. Espero que depois de eu ter cumprido meu acordo com você, esta noite, seja capaz de sair daqui amanhã cedo e ter uma vida decente com um homem que se importa comigo e queira se casar.

Gino a observou, assustado, mas altamente excitado quando ela tirou o vestido e o deixou cair no chão ficando só de calcinha, não uma peça comum, mas muito sexy, de seda preta, com ligas presas às meias cor da pele. Os olhos azuis fitaram os dele de modo atrevido enquanto tirava os sapatos e, depois, cada uma das ligas Com um movimento arrogante, mexeu nos encantadores cabelos louros, encaminhou-se para a mesa do café e pôs um dos pés sobre ela, deslizando as meias pelas pernas, antes de atirá-las no chão. Gino sentiu uma pontada no estômago só em pensar que Jordan poderia fazer uma performance como aquela para o noivo. Não, é somente comigo que ela faz isso. Depois das meias, Jordan tirou o colar de pérolas que atirou para o lado, tão descuidadamente quanto as meias de seda. Quando começou a tirar a calcinha de seda Gino quase perdeu o fôlego. Jordan sorriu somente quando acabou de tirar a calcinha. Um sorriso provocante. — Não pareça tão espantado — murmurou ela, quando finalmente estava nua na frente dele. — Era o que você queria, não era?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) A mão de Gino agarrou a haste do cálice com tanta força que por pouco não o quebrou. — Não — disse ele. — Não assim. Calce os sapatos novamente. — Agora era a vez de Jordan parecer assustada. — Essa é a, maneira que fantasiei quando estávamos jantando. Isso é o que quero, como entrada — acrescentou. Mas não era o que ela queria. O que ela queria era ser plenamente possuída por ele. Gino não parecia mais chocado. Sua expressão era fria e implacável. — Faça isso! — ordenou ele. Os pés de Jordan encontraram os sapatos. A altura dos saltos mudou sua postura. O ângulo formado pelos pés a fez endireitar os ombros e encolher a barriga, deixando assim os seios inclinados para a frente. Os olhos negros de Gino estreitaram-se quando ele a olhou de cima a baixo, com uma expressão tão dura quanto excitada. Gino saberia se ela estava se sentindo diferente em pé, ali, nua, equilibrando-se nos saltos? Sentindo-se mais exposta? Mais... excitada? Sim, era claro que sabia. Sabia que ela estava ali, tremendo de desejo, pensando no que viria a seguir. Sabia que ela se excitava com suas ordens e exigências. — Assim está melhor — disse ele, com uma expressão de triunfo nos olhos. —Agora venha aqui...

CAPITULO DOZE

Jordan caminhou vagarosamente para ele, cada passo evidenciando a consciência de seu corpo. Quando parou na frente de Gino, seus lábios estavam entreabertos e as batidas do coração aceleradas, a respiração ofegante, o estômago contorcido de tensão. — Aqui — disse ele, e levou sua taça aos lábios dela. — Creio que você poderia fazer isso melhor tomando um drinque. Levantou a taça e a observou beber tudo de uma vez. O champanhe efervesceu no estômago de Jordan e a deixou levemente tonta... mas não por causa do álcool. Ela não se recordava de ter se sentido tão excitada alguma outra vez, ou tão hipnotizada. Aquilo era diferente de dez anos atrás. Diferente da sexta-feira anterior.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Esta noite, ia ser uma experiência que mudaria sua vida para sempre. Quando Gino atirou a taça vazia sobre um dos sofás e depois passou o dorso da mão direita pelos botões rosados e já intumescidos dos seios dela, um tremor violento percorreu a coluna de Jordan. — Você tem idéia de quanto é sexy? — murmurou ele, enquanto deslizava os dedos pela barriga retesada. — Mas parecerá até mais sexy se entreabrir as pernas um pouco. Quando ela apenas assentiu com um gesto de cabeça, ele deu um sorriso um pouco frio. — Pensei que tínhamos concordado em uma entrega total para esta noite. Entrega total significa sem pudor, sem reserva. É claro que se você mudou de idéia sobre querer que eu a possua inteiramente, esta é sua chance. Coloque sua roupa e vá embora. Eu não a impedirei. Mas se decidir ficar, fará as coisas do meu modo. — A aspereza na voz de Gino a chocou, mas, ao mesmo tempo, a excitou. — Parece que você perdeu a língua — continuou ele. — Porém, já que está aqui, presumo que concorda com minhas condições para esta noite. Jordan engoliu em seco, depois lambeu os lábios ressecados. — Aquilo também — disse ele com os olhos negros fixos na boca entreaberta de Jordan —, porém somente mais tarde, depois que tenhamos tomado um banho relaxante. Você fica aqui onde está até que eu encha a banheira de água. — Gino... não — gritou ela, com sua excitação já atingindo o ponto máximo. — Não, o quê? — replicou ele. — Não me deixe desse jeito. Não posso suportar mais. Ele a olhou com algo semelhante a raiva. Mas, então, seus olhos revelaram um fulgor de desejo explícito. Com um gemido torturado, Gino puxou-a para si envolvendo-a em um abraço rude, beijando-lhe os lábios sensuais com muita paixão. Jordan se derreteu, emitindo um gemido lascivo, glorificando-se na selvageria daquele beijo. Se ele tivesse sido temo, talvez ela começasse a chorar. Daquela maneira rude, perdiase na paixão selvagem de Gino, assim como na sua própria. Os botões da camisa de Gino estavam pressionando dolorosamente seus seios nus, mas ela não se importou. Abençoou a dor... e a loucura. Logo a língua dele, quente, na sua boca, não era o bastante. Precisava dele em seu interior. Necessitava ser possuída como jamais tinha sido. De alguma maneira, suas bocas se separaram e a respiração de Jordan era ofegante como a de um atleta.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Faça isso por mim — suplicou ela. A expressão ardente nos olhos de Gino provocaram um arrepio ao longo da coluna. — Aqui? — Sim. — Ela praticamente soluçou. Gino a segurou pela cintura e a ergueu do chão, carregando-a para junto da janela, onde a deixou de pé, o traseiro e os ombros pressionados contra o vidro frio. Jordan gemeu quando ele levantou seus braços para cima e para os lados. — Agarre-se às cortinas — ordenou ele. — E não saia. As mãos dela tremiam quando seguraram as pontas dos pingentes de veludo. Como estava parecendo, parada, ali, como num sacrifício pagão? Será que poderia ser vista das janelas do edifício em frente? As pessoas estariam observando? — Abra as pernas — ordenou Gino enquanto tirava a camisa e a jogava no chão. Jordan fechou os olhos, então fez o que ele mandou. Suas mãos apertaram mais o veludo das cortinas, tanto que foi um milagre elas não se desprenderem. A sensação da respiração de Gino em seu rosto a fez reabrir os olhos. — Quero que você veja, meu amor — murmurou ele inclinando-se para passar a ponta da língua em volta da boca sensual. — Veja e testemunhe tudo. — Eu... não sou seu amor — murmurou ela, tremendo quando uma das mãos de Gino deslizaram entre as suas pernas. — Esta noite você é. — Não— negou ela, mesmo ardendo de desejo. — Isso me diz o contrário — sussurrou Gino com a boca perto da de Jordan. — Isso me diz que esta noite você é minha. Os olhos negros encontraram os dela enquanto a mão continuava com a exploração mais devastadoramente íntima. Jordan tentou lutar contra os sentimentos que o toque habilidoso evocava, procurou não se derreter com tal ação, para que ele não a visse daquela maneira. Mas era um esforço inútil. Seu corpo inteiro contorcia-se, prestes a atingir um clímax. Gino parou de manipulá-la e ela deu um grito de protesto. — Tenha paciência — murmurou ele, e afastou-se para se despir na frente dela. Os ombros de Jordan se curvaram, os braços erguidos começando a doer. Mas a visão de Gino nu lhe causou um calafrio novamente.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Gosta do que vê? — perguntou ele, enquanto voltava para ela. Jordan não podia mais falar. Simplesmente, o queria dentro de seu corpo. Não se importava mais se alguém os estivessem observando... não se importava com nada, a não ser com o sexo poderoso possuindo-a plenamente. E Gino a preencheu, de modo um tanto rude, inserindo-se no corpo delicado com tanto vigor que ela foi momentaneamente erguida do chão. Ele pressionou as mãos contra o vidro ao lado da cabeça de Jordan a boca afagando os cabelos louros enquanto a penetrava, o peito largo forçando os sensíveis mamilos. Jordan nunca tinha experimentado um sexo tão apaixonado e tão primitivo. Nem mesmo com o próprio Gino, anos atrás. Aquele ato a deixou completamente aturdida, tonta. Estava ali, mas, ao mesmo tempo, não estava. Gino tinha dito que queria que ficasse de olhos abertos e testemunhasse tudo. Aquilo era exatamente o que queria que ela fizesse: que fosse tanto participante como observadora. Sou realmente eu ali, nua contra a janela, uma mulher condescendente aos caprichos desse homem? Estou condenada, pensou histericamente. Condenada! — Gino — gritou ela quando atingiu o orgasmo. — Oh, Gino... Gino a ouviu chamar pelo seu nome, sentiu a pele de Jordan se contraindo ao redor de seu membro, sentiu o poder do orgasmo dela. Não podia mais se controlar, então deixou a mente explodir juntamente com o corpo, e seus pensamentos mergulharem no infinito. Ela ainda o amava para deixá-lo fazer tais coisas, raciocinou ele, de modo selvagem, no calor do momento. Tinha de amá-lo. A garota que conhecera anos atrás não poderia ter mudado tanto. E se Jordan o amasse, então, não amava Stedley. Ela iria se casar apenas porque estava ficando mais velha e queria ter filhos. Mulheres sempre querem filhos. Ele próprio poderia lhe dar filhos, se era isso que ela queria tão desesperadamente. Eles poderiam planejar algo... algum acordo: poderiam ser amantes, ou viver juntos. Não tinha feito promessa no leito de morte de que não pudesse morar com uma mulher que não fosse italiana. O bom senso havia voltado quando ela se desprendeu das cortinas e começou a se agachar. Jordan não precisava, necessariamente, amá-lo para apreciar o que tinha acabado de acontecer, raciocinou Gino, quando a ergueu nos braços. Ela não era a mesma garota que fora um dia. Tinha mudado. Ele também havia mudado, não havia?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Ela dissera antes no que era baseada a relação dos dois: totalmente em sexo. Uma espécie de sexo que envolvia uma atração irresistível, que não tinha nada a ver com amor, mas com desejo: um desejo que obcecava e dominava. Gino cerrou os dentes. Já se sentia obcecado e possuído. Jordan, por sua vez, tinha expressado a esperança de que uma noite com ele a curaria de seu desejo. Quando Gino a carregou para o quarto, jurou que não deixaria isso acontecer.

CAPÍTULO TREZE

Jordan tremeu de frio quando Gino a colocou sobre o acolchoado de cetim. — Vou preparar aquele banho agora — disse ele tirando-lhe os sapatos e depois embrulhando-a fortemente no acolchoado de matelassê. — Não durma — acrescentou, dando-lhe um rápido beijo na testa antes de encaminhar-se para o banheiro. Jordan olhou para ele enquanto se dirigia ao banheiro sem entender sua súbita mudança de atitude. Para onde tinha ido o amante implacável de momentos atrás? Ou era apenas uma manobra para levá-la a uma submissão futura? — Não vai demorar—disse ele, quando voltou para o quarto, segurando um balde de gelo e duas taças de champanhe. Fez uma segunda viagem à sala e trouxe dois pratos de guloseimas para acompanhar a bebida. — Não posso deixá-la morrendo de sede e fome, posso? — observou Gino com um sorriso malicioso enquanto voltava para o banheiro. Uma dúvida na cabeça de Jordan foi imediatamente esclarecida. Não era ternura verdadeira, era uma ardilosa sedução. Como era tola em esperar algo diferente. — Tudo pronto! — anunciou ele, no seu terceiro retorno do banheiro. — Falta somente uma coisa, meu amor. Você. Jordan fez o possível para não se excitar quando ele tirou o acolchoado e depois a ergueu da cama. Mas sentir o corpo nu apertado contra o de Gino não a acalmara. ... O banheiro parecia romântico e antiquado ao mesmo tempo, com as velas, o champanhe e a banheira de hidromassagem cheia de água até a borda, com bolhas aromáticas.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — É melhor você prender seus cabelos — sugeriu ele — Ou ficarão molhados. Jordan deu um nó nos cabelos, no alto da cabeça, sem desviar os olhos dele. — Você é tão bonita — murmurou Gino e beijou-lhe os lábios suavemente. Jordan piscou, depois ofegou quando ele entrou na banheira de hidromassagem com ela nos braços. — Oh, tenha cuidado. — Não a deixarei cair, pode confiar em mim. Havia bolhas de sabonetes na água, deliciosamente quente, e Jordan suspirou com alívio quando Gino finalmente a fez sentar-se sobre suas coxas, com as costas contra ele. — Está se sentindo confortável? Jordan engoliu em seco. — Você está? Ele riu. — Tenho a impressão de que, em breve, não estarei. Mas me preocuparei com isso mais tarde. Isso é como nos velhos tempos, não é? Tomávamos banho juntos uma porção de vezes, naquela época. — Não quero falar sobre os velhos tempos, Gino. — Ótimo. Ouça... beba um gole de champanhe — disse ele, levando a taça aos lábios dela. — "Champanhe... para brindar um encontro" — cantou Gino. — Conhece essa música? Jordan estava prestes a abrir os lábios quando uma repentina onda de rebeldia a invadiu. — Prefiro eu mesma usar minha taça, obrigada — Tudo bem, tome esta. Ele lhe deu a taça, mas não pegou a outra para si mesmo. Em vez disso, apanhou a esponja que estava na beira da banheira e esfregou a barriga de Jordan Quando moveu a esponja para os seios dela, Jordan arfou, derramando champanhe quando se afastou um pouco do peito de Gino. — Relaxe — murmurou ele, esfregando-lhe as costas. — Você gostará disso, prometo. Apenas deite de costas, beba seu champanhe e tire os braços do meu caminho. Parecia tolo dizer-lhe para parar, porque, é claro ela gostava daquilo... especialmente quando a esponja lhe tocou os mamilos intumescidos.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Logo cada músculo de seu corpo estava contraído. Tentou beber um pouco mais de champanhe, mas nada a fazia relaxar. — Conte-me sobre aquele caso que você ganhou — disse Gino. Jordan virou a cabeça e o fitou com olhos espantados. — Você... você não pode estar falando sério — disse ela. — Por que não? — Porque não posso pensar, muito menos falar quando estou me sentindo dessa maneira. — Sim, pode. Tente — insistiu ele, movendo a esponja sobre a barriga novamente e depois mais paia baixo. — Oh! — Jordan gemeu quando seus quadris se arquearam para a frente. — Por Deus, mocinha — murmurou Gino, pressionando seu corpo contra o dela. — Relaxe agora — insistiu novamente, enquanto a deixava na posição sentada. — Deite-se de costas e não se mova. Quero primeiro ouvir sobre esse caso que você ganhou. — Como posso contar? Não posso nem pensar. — Você pode, e me contará. Jordan não podia acreditar naquilo. Estava desesperada para se mover, mas ele a conservava imóvel, com as mãos comprimindo seu corpo. — Qual indenização você obteve para a ação no final? — perguntou ele, depois que ela relatou toda a história. — Três milhões. — Uma quantia considerável. — Sharmi ainda não ficou feliz, porque não era uma questão de dinheiro. Era questão de justiça. Dinheiro não deixa as pessoas felizes. — Mas ajuda. — Creio que sim. — Ela gostaria que Gino parasse de falar. — Você não se casaria com um homem pobre. Jordan suspirou. — Eu teria me casado com você dez anos atrás, quando pensei que fosse pobre. — Isso foi quando você era jovem e ingênua. Quando era uma garota romântica. — Você acha que não sou mais romântica?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Como pode ser romântica se vai se casar com Stedley? Você não o ama, eu sei disso. Jordan não estava gostando do rumo que aquela conversa estava tomando. — Podemos mudar de assunto, por favor? — Perguntou ela, tensa. — Não vim aqui para falar de Chad Se eu o amo ou não, é irrelevante. Chad me ama e quer se casar comigo... o que é mais do que posso lhe dizer, uma vez que tudo que você quer comigo é sexo. E sexo excêntrico, diga-se de passagem. — Você chama isso de excentricidade? Um capricho meu? — Sim. Como foi aquela cena contra a janela. Você sempre foi excêntrico, Gino. Fazendo-me sair sem calcinha, fazendo sentir-me uma devassa. — Você adorou tudo aquilo. Oh, por que ela tocara naquele assunto? Só de pensar naquelas coisas ele ficava mais excitado ainda. Impossível permanecer imóvel. Impossível continuar sendo paciente. — Você está se mexendo — repreendeu ele, forçando-a a ficar quieta. — Eu quero me movimentar. Vou me movimentar. Pronto, estou me movendo, e você não pode me impedir.

Impedi-la? Gino não queria impedi-la, não mais. Queria fazê-la esperar, a fim de atormentá-la. Mas era ele quem tinha passado daquele ponto sem retorno. Sua cabeça estava latejando, enquanto o corpo agonizava. Mas Jordan ainda tremia violentamente, com inegável prazer, gemendo em êxtase. O azar é dela, pensou Gino com ironia, enquanto seu próprio corpo explodia num orgasmo total.

CAPÍTULO QUATORZE

Jordan acordou, tinha plena consciência de que estava na cama king-size, e sua última lembrança era de Gino a carregando de volta para lá, enrolada numa imensa toalha de banho. Nada mais que a toalha. Ela devia ter adormecido tão logo encostou a cabeça no travesseiro. O quarto não estava escuro. Gino tinha deixado o abajur da cabeceira aceso, mas não estava na cama. Ela estava sozinha sob os lençóis de seda.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) As luzes continuavam acesas na sala de estar e Jordan ouviu um barulho vindo de lá. — Gino? — chamou, enquanto se levantava, apoiando-se no cotovelo. — Gino, onde você está? Ele apareceu à porta entre a saleta e o quarto com uma toalha vermelha felpuda enrolada na cintura. O brilho do amanhecer refletia em sua face, dando-lhe um leve ar ameaçador. Sentindo-se de repente vulnerável, Jordan puxou o lençol sobre os seios nus, o que fez Gino franzir o cenho e pestanejar. — Quanto... quanto tempo estou dormindo? — perguntou ela. — Não há muito tempo. Ele entrou no quarto e sentou-se na beira da cama, então soltou o coque dos cabelos dela. As mechas caíram sobre os ombros. Gino as penteou com as mãos. — Eu estava esperando pacientemente que você acordasse — murmurou ele e, então, se curvou para a frente e beijou os lábios dela, levemente no início depois com mais paixão. Como de costume, aqueles beijos faziam o coração de Jordan disparar. Quando ele a deitou nos travesseiros e jogou os lençóis para os pés da cama, ela não fez a menor tentativa de impedi-lo. Mas no momento que Gino pegou o frasco de loção perto do abajur, seu corpo todo se retesou. — Para que é isso? — ela exigiu saber. — Nada para ficar alarmada — respondeu ele calmamente. — Diz aqui no rótulo que isso é a loção do amor, destinada a intensificar todas as atividades sexuais. Propaga qualidades afrodisíacas, perfume exótico e um gosto delicioso. E, antes que pergunte, não, eu não o comprei. Estava aqui quando cheguei, como cortesia do gerente do hotel. Jordan engoliu em seco quando ele começou a desatarraxar a tampa, — Não fique tão preocupada. — Eu... não estou certa se quero que você use essa coisa em mim, Gino. Ele franziu o cenho. — Por que não? — Não sei. — Mas Jordan sabia. Estava com medo que pudesse gostar muito da experiência. Aquilo a deixaria ainda mais atraída por ele do que o normal. Temia que o deixasse fazer coisas que pudesse se lamentar mais tarde.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) O súbito medo e vulnerabilidade nos olhos dela comoveram Gino. Ao mesmo tempo, ele se recusava recuar. Afinal de contas, tinha sido para aquilo que ela fora até o hotel, certo? — Por que você não o usa em mim, então? Os olhos de Jordan pareciam assustados diante de tal sugestão, mas não de medo dessa vez, e sim de surpresa. Ele se recordou que sempre fora o ativo na cama e nunca o parceiro passivo quando faziam amor. Jamais. Quem sabe? Talvez gostasse de ser comandado. — Aqui está... pegue — disse ele, entregando-lhe a loção antes de tirar a toalha da cintura. Olhar para baixo fez as sobrancelhas de Gino se erguerem. Não tinha percebido até aquele momento que estava ficando excitado novamente. — Sou todo seu para fazer o que desejar — disse ele, e se deitou ao lado dela, colocando as mãos atrás da cabeça. Oh, sim, pensou quando sentiu sua excitação aumentar ainda mais o seu volume. Iria gostar muitíssimo daquilo.

Jordan sentou-se e olhou para o corpo excitado de Gino, sem saber por onde começar. No passado, tinha reagido apenas ao comando dele e nunca para seu próprio prazer. O pensamento de ter o corpo inteiro de Gino à sua disposição estava lhe dando um sentimento de prazer mais excitante do que jamais imaginara. — Você não me impedirá? — perguntou Jordan num tom de voz rouco. — Manterei minhas mãos exatamente onde estão — prometeu ele. —Você não parece precisar de qualquer loção afrodisíaca — observou Jordan. — Mas disse que isso era bom, não disse? O coração dela começou a bater loucamente, então ela se ajoelhou ao lado de Gino e deixou pingar a loção cremosa sobre ele. Gino ofegou fortemente. — E frio? — perguntou ela com prudência. — Mais ou menos. — Acho que é o suficiente — disse Jordan. — Concordo — murmurou Gino, ainda ofegante.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Agora você não tem de reclamar, e sim de se deliciar — repreendeu ela enquanto colocava a loção sobre o criado-mudo. —A idéia foi sua, lembra-se? — Talvez eu tenha me enganado. — Não pela sua aparência. Ele gemeu quando Jordan se curvou e deslizou a língua sobre seu corpo nu. Eles tinham razão, pensou ela, meio estupefata. A loção cremosa tinha um sabor muito bom... algo entre azeitonas e maçãs. Definitivamente, era um afrodisíaco também, pois a fez desejar fazer amor com ele com sua própria boca. Uma onda de calor corou sua pele quando curvou a cabeça sobre ele novamente. Então, começou a manuseá-lo, usando tanto a boca quanto as mãos. Ele gemeu e torceu os quadris de um lado para o outro, mas não procurou impedi-la. Jordan estabeleceu um ritmo implacável com a boca, chocando-se pelo quanto gostava de ouvir os sons torturantes que ele começou a fazer. O movimento continuou até Gino gritar o nome dela. — Há alguma coisa errada, querido? — perguntou Jordan sentando-se e afastando os cabelos que haviam caído sobre seu rosto corado. —Você está tendo uma performance esplendida — disse ele, completamente ofegante e com voz rouca. — Sugiro que mude para algo novo. Jordan arqueou as sobrancelhas diante das ultimas palavras de Gino, que a fizeram ficar um pouco ressentida. Isso é o que venho tentando fazer desde que você me deixou, Gino. Mudar para algo novo. Todavia, aqui estou eu, na cama com você novamente. E è tudo uma terrível perda de tempo. Seus próprios pensamentos a enfureceram... principalmente porque sabia que era incapaz de ir embora. Ela o queria dentro de si novamente. Ao mesmo tempo, gostava da tensão que via no rosto de Gino. Agradava-lhe saber que poderia fazê-lo sofrer, torturá-lo, mesmo se fosse apenas fisicamente. Jurou prolongar aquele ato, fazê-lo esperar. — Tenho de ir ao banheiro, querido — disse ela. — Hão demorarei. Continue deitado de costas e relaxe.

Relaxe! Gino fez uma careta quando ela desceu da cama e se dirigiu ao banheiro caminhando sobre o tapete dourado. Como poderia relaxar?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Ele tentou dar um suspiro profundo, seus olhos fixos na porta do banheiro, querendo que ela se abrisse, desesperado para que Jordan voltasse logo. Mas quando a porta finalmente se abriu, e ela voltou ao quarto, não foi para a cama, em vez disso, calçou os sapatos e retornou ao banheiro. Um minuto depois, estava de volta, com uma taça de champanhe na mão e com um andar vagaroso e sexy enquanto caminhava para a cama. Enquanto a observava, o desejo de Gino de tocá-la era tão grande que suas mãos instintivamente começaram a se mexer. — Ponha as mãos atrás da cabeça — ordenou ela. A atitude imperativa de Jordan o deixou perplexo, fazendo-o obedecer imediatamente. Todavia, mesmo enquanto o sangue corria mais rápido por suas veias, ficou ansioso pelo momento no qual poderia tomar novamente o controle... quando poderia, mais uma vez, lhe mostrar quem era o "senhor" ali. — Estou começando a ver que há mais prazer em comandar do que em ser comandada — sussurrou ela com um sorriso malicioso nos lábios. Se havia alguma esperança secreta da parte de Gino, de que ela pudesse estar ali naquela noite por outras razões que não sexo, desapareceu diante daquele sorriso. Gino praguejou baixinho quando Jordan subiu na cama e sentou-se sobre ele, ainda de salto alto e a taça de champanhe nas mãos. Naquele momento, seu nível de excitação ultrapassou a linha do prazer, entrando num terreno que beirava a dor. — Espere — avisou ele. — Não. Seja um bom menino e mantenha essas mãos exatamente onde estão. O ritmo da pulsação de Gino acelerou enquanto Jordan permanecia ajoelhada, prendendo o olhar dele enquanto repetidamente punha o dedo no champanhe e depois na boca de Gino. Finalmente, colocou a taça de lado, segurou-lhe as mãos e o puxou para cima de si, não o deixando solto, até que tivesse sido totalmente coberta pelo corpo dele. Gino gemeu diante do calor e da umidade dela. Não esperava que Jordan se inclinasse e o beijasse naquela situação. aquele intuito que estavam ali, afinal de contas. Porém, tinha sido a ternura que mudara seus pensamentos naquele momento, ou a maneira como ela nome dele? O que quer que fosse... o coração de Gino pareceu se abrir, sentimentos que vinha tentando reprimir.

Não era com daquele beijo murmurou o rompendo os

Quando ele gemeu, Jordan abruptamente encerrou o beijo. — Suponho que seja isso que você quer — disse rispidamente.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Gino quis negar, dizer-lhe que não era o que ele queria. Esforçou-se ao máximo para não atingir o clímax, não querendo que ela o visse perder o controle. — Rendição total, Gino — disse Jordan enquanto vagarosamente mudava para um ritmo mais sensual. — Este é o nome do jogo. Eu sei, porque já fizemos isso... Você me comandou. Não quer se render... você tem medo que, de algum modo, nunca mais será o mesmo. E talvez esteja certo. Eu nunca mais serei a mesma. Sou uma pessoa diferente para qualquer outro homem. Gino ouviu as palavras e entendia o que ela estava dizendo. Mas se ele a tivesse arruinado para qualquer outro homem, então também ele estava arruinado para qualquer outra mulher. Jordan sempre estivera ali no fundo de sua mente. Talvez não se amassem mais, entretanto, poderiam dar a si mesmos uma outra chance. O que ele tinha de fazer era lhe contar toda a verdade. Confessar que nunca a esquecera, também. Contar-lhe que não a tinha encontrado por acaso que a havia perseguido deliberadamente. Mas nenhuma palavra saiu de sua boca naquele momento. Somente gemidos de prazer. Gino se controlou até que ela atingisse o clímax Depois disso, não havia mais disputa, as costas erguiam-se da cama, enquanto seus corpos estremeciam como um só ser. Em determinado momento ele tirou os braços doloridos de trás da cabeça. Mas' então, já estava exausto. Queria abraçá-la, falar com ela, mas isso eram sentimentos, e a carne era muito fraca. No momento que Jordan saiu de cima dele uma névoa já havia começado a tomar conta de sua mente. Em breve, Gino não pensaria ou sentiria qualquer coisa.

Jordan se deitou quieta na cama, sem se mover ou falar, até que ouviu o som da respiração profunda de Gino. Somente então deu uma olhada para o lado, aliviada ao ver que ele adormecera rapidamente. Ela ainda ficou imóvel por longo tempo, com os olhos brilhando, enquanto imaginava o que iria fazer. Finalmente, levantou-se, recolheu as roupas da sala silenciosamente e vestiu-se. Em seguida, foi até a elegante escrivaninha em estilo francês que ficava no canto da sala e usou a caneta dourada e o papel perfumado para escrever um bilhete para Gino. Feito isso, levou o papel para o quarto, e o deixou encostado em um abajur. Depois de um rápido olhar triste para o rosto adormecido de Gino, pegou a bolsa e os sapatos e partiu.

CAPÍTULO QUINZE

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81)

Gino acordou com a claridade da manhã e também por estar sozinho na cama. Levantou a cabeça do travesseiro e seus olhos percorreram o quarto todo. — Jordan? — chamou. — Onde você está? Não obtendo resposta, saiu da cama e foi até o banheiro. Nem sombra de Jordan! Foi para a sala, mas também não a encontrou. A percepção de que ela havia ido embora o deixou doente de raiva. Jordan poderia ter esperado para partir de manhã em vez de fugir como um ladrão noturno. Caminhando pelo quarto em direção ao banheiro ele encontrou o papel dobrado encostado na base do abajur. Apressadamente, desdobrou o papel e o abriu.

Querido Gino, Decidi partir dessa maneira porque não quis uma daquelas cenas da manhã seguinte. Esta noite foi excelente, mas não há futuro para nós. Somos apenas passageiros de navio numa noite quente, como éramos dez anos atrás. Por favor, não me procure, pois estará perdendo seu tempo. Tenho planos para meu futuro, e neles você não está incluído. Vá para sua casa em Melbourne e case-se com aquela namorada italiana. Ela é italiana, não é? Claro que é. Ciao. Jordan.

Gino, literalmente, desmoronou ao lado da cama. Um coração despedaçado não descreveria seus sentimentos, embora fosse algo assim. Ele tinha cometido um erro em não contar a verdade a Jordan na noite anterior. Que coisa! Poderia, pelo menos, ter confessado que havia rompido com Claudia. Mas, é claro, suas emoções estiveram muito confusas na noite anterior, assim como suas intenções para com Jordan. Desde o momento que chegara naquele jantar de negócios, seus pensamentos haviam mudado de rumo diversas vezes, deixando-o indeciso.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Mas agora tinha certeza. O fato de Jordan tê-lo deixado daquele jeito definira rapidamente seus sentimentos. Releu o bilhete, tentando entender as entrelinhas, procurando encontrar algum fio de esperança de que ainda poderia ter alguma chance com ela. Mas não podia realmente encontrar nenhuma. Ela dizia que não tinham um futuro juntos, o que o fez recordar-se de sua promessa ao pai no leito de morte. Claramente, Jordan queria casar, e ele não podia lhe oferecer isso. Nada naquele bilhete o fez sentir-se bem, exceto o trecho sobre a namorada italiana, onde a frase parecia revelar ciúme. Por que ficar enciumada se ela não se importava? O coração de Gino deu um salto inesperado, mas não deveria ousar ter tanta esperança. Entretanto, aquilo foi tudo que precisava para tomar uma atitude. Não deveria voltar para Melbourne até que tivesse explorado todas as possibilidades. Se houvesse a mínima chance de Jordan ainda se importar com ele, agarraria. Não sabia que horas eram, mas deveria ser bem tarde na manhã. Hora de tomar um banho, se barbear, aprontar-se e ir para a porta de Jordan.

No meio da manhã, Jordan estava totalmente desgostosa consigo mesma. Tinha chorado desde que chegara em casa. Não havia dormido e estava sem comer nada até aquele momento. Talvez, se telefonasse para Chad e tomasse aquela terrível atitude de romper o noivado, pudesse se sentir melhor. Era perto da hora do almoço em Nova York... não no meio da noite ou algo assim. vida.

Sentindo-se péssima, Jordan resolveu fazer uma das piores ligações telefônicas de sua

Quando Chad não respondeu imediatamente, sua primeira reação foi de alívio. Mas no momento que uma mulher respondeu, o alívio foi rapidamente substituído por irritação. — Posso ajudá-la? — disse a mulher com uma voz monótona. — Posso falar com Chad, por favor? — Chad, querido, é para você. Chad querido finalmente entrou na linha. — Alô. — Chad. Sou eu, Jordan.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Jordan... — Sim, sua noiva. Lembra-se de mim? — zombou ela. — Ahh! — O que significa isso? — Eu ia ligar para você — disse ele, com o tom de voz mais culpado que Jordan já tinha ouvido. E, como advogada, já havia ouvido muito aquele tipo de voz. — Quem é a mulher que atendeu à chamada? — Caroline. — Posso saber quem é Caroline? — Nós fomos noivos, antes de eu vir para a Austrália. Tivemos uma briga e pensei... bem, pensei que ela não me amasse mais. — Mas ela o ama? — Sim. — E você ainda a ama? — Sim, amo. Sinto muito, Jordan. Jordan não sabia o que dizer. — Ouça — continuou Chad —, antes de Caroline e eu voltarmos, eu já havia começado a desconfiar que pedir você em casamento tinha sido um erro. Quero dizer, homens como eu... basicamente, necessitam de uma mulher que queira ser esposa e mãe, e que desistam de sua carreira. Você é uma mulher formidável, Jordan, e realmente gostei de nosso tempo juntos, mas a verdade é que não é o que quero de uma esposa! Não era o que ele queria de uma esposa. — Você quer uma esposa americana? — disse ela, com a voz tão leve quanto seu espírito. — Sim. Esta é a questão. Quero uma esposa americana. — Como Gino queria uma esposa italiana, pensou Jordan. — Sinto muito, Jordan — acrescentou ele. Jordan não queria as desculpas dele. Não queria mais nada de Chad. Jamais. — Sobre o anel — continuou ele. — O que quer que eu faça com ele? — Você se importaria de mandá-lo para mim via correio internacional tão logo seja possível? Caroline e eu vamos dar uma festa de noivado no próximo fim de semana.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Jordan piscou e meneou a cabeça. Por que será que as atitudes dos homens jamais deixariam de espantá-la? — Certamente. Sem problema. Será a primeira coisa que farei pela manhã. — Você está aborrecida comigo, creio. Puxa vida, como você é intuitivo! — Na verdade, não estou, Chad. Estou aliviada. — Aliviada? — Sim. Quando, e se eu me casar, será com um homem que realmente me ame. Adeus, Chad. Jordan desligou antes que ele pudesse dizer qualquer outra palavra. Então, afundou numa cadeira próxima e chorou, inconsolavelmente. Não por Chad, mas pelo fato de que nenhum homem a amava ou a queria como esposa. Tudo que os homens queriam dela era sexo, nada mais do que sexo. Ao meio-dia, ainda estava sentada na mesma cadeira, chorando em silêncio, afogada em lágrimas. Estava também com pena de si mesma. — Chega — murmurou, e dirigiu-se para o banheiro a fim de tomar a segunda ducha do dia. A primeira tinha sido para se livrar do cheiro de sexo. Esta era para lavar suas lágrimas para sempre. Ficou sob o chuveiro por longo tempo, erguendo o rosto para o jato de água quente, deixando-a cair como cascata pelo corpo. Depois, secou os cabelos com uma toalha e pegou o roupão cor-de-rosa que mantinha pendurado atrás da porta do banheiro. Finalmente, achou que merecia um café com torradas e se dirigiu para a cozinha, imaculadamente branca. Tinha acabado de ligar a chaleira elétrica e colocado duas fatias de pão na torradeira quando o interfone do edifício tocou. Jordan gelou, pois mesmo antes de atender o interfone sabia quem era. — Quem é? — perguntou. — Sou eu, Gino. Jordan sentiu o coração disparar. — Como soube onde eu moro? — ela exigiu saber, mas recordou-se a tempo. — Oh, sim, esqueci que você mandou me investigar. — Deixe-me entrar, Jordan. — Não tenho outra opção, pois sei que não irá embora, irá?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Não. Ela apertou o botão que liberava a fechadura da porta de entrada no andar térreo, suspirando e voltando para a chaleira, que já estava fervendo, e para as torradas, que saltavam, já prontas. Resignada, afastou a torradeira e pegou uma outra caneca. Pensou em escovar os cabelos ou vestir outra roupa qualquer, mas decidiu não se importar. Deixaria que Gino a visse em seu pior estado, com olhos inchados e vermelhos e sem uma gota de maquiagem. Assim poderia dar uma olhada nela e ir embora. A batida à porta foi alta e firme. Quando Jordan segurou a maçaneta, contudo, sentiu seu estômago contrair-se. O que ele queria dela ainda? Se tivesse vindo para mais sexo, ficaria decepcionado, pois não poderia forçá-la a fazer mais nada, não agora que Chad era história do passado. Ela respirou fundo várias vezes e, então, abriu a porta, adotando uma máscara de pedra no rosto quando seus olhos depararam com os de Gino. Ele parecia ótimo, pensou. Os olhos limpos, o traje impecável, pronto para seduzir. Mais uma vez, parecia sexy de um modo pecaminoso. Havia algo em Gino quando estava de jeans justo e jaqueta de couro preta que virava a cabeça de qualquer garota. Meu Deus' como era bonito! Mas ela era não mais uma garota, lembrou-se, era uma mulher adulta, com vontade e pensamentos próprios. Era hora de usar isso. — O que você quer, Gino? — disse rispidamente, — Pensei que o bilhete que lhe deixei dissesse tudo. Os olhos dele procuraram os dela. — Você esteve chorando — murmurou Gino com expressão preocupada no rosto. — Por quê? — Mulheres choram muito — respondeu ela. — Por todos os tipos de razões. Choram à toa. Não sabia? — Você nunca chorou quando vivemos juntos. — Eu era feliz na época. — E não é mais? A porta de um apartamento próximo se abriu e fez Jordan retrair-se.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — É melhor você entrar — disse ela rapidamente, não querendo que qualquer dos vizinhos ouvisse a conversa deles. Gino não perdeu tempo em aceitar a oferta, entrando com passos confiantes. Lutando contra um sentimento de perdição, Jordan fechou a porta e se encaminhou para a sala de estar.

Gino ficou impressionado com o tamanho e com a qualidade daquele apartamento, mas chocou-se com a decoração. Era tão severa, quase como uma igreja. Sem contar o assoalho de madeira, o restante era tudo preto e branco. Sem toques de cores vivas, sem fotos ou quadros nas paredes, totalmente brancas, para não dizer branco-hospital. Nenhum enfeite sobre as mesinhas, laqueadas de preto. A mobília da sala era de couro preto, sem nenhuma almofada fofa e colorida para dar uma sensação de calor ou conforto. O único tapete no chão não era peludo ou macio, mas áspero, com desenhos geométricos em preto e branco. Um horror! O lugar era extremamente frio. Era daquela forma que Jordan se sentia naqueles dias? A razão pela qual era tão infeliz? Gino se determinou a descobrir. Determinou-se também a finalmente lhe contar a verdade. — Gostaria de tomar um café? — perguntou ela educadamente. — Eu estava fazendo café quando você apareceu. Ele virou-se para ver que Jordan havia mantido distância, as mãos apertando a gola do roupão cor-de-rosa, num gesto de defesa que o fez sentir-se culpado Assim como a evidência de lágrimas em seu rosto Ele causara aquilo. Deixara-a com medo e triste — Sim, por favor — replicou ele. — Tomo... — Preto e forte, com um pouco de açúcar — continuou Jordan. O coração dele transbordou de alegria. — Você lembra. Os olhos dela de repente brilharam. — Como poderia esquecer? Você praticamente vive à base de café. — Sou italiano. Adoramos nosso café. — Não me recorde. Gino franziu o cenho.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Que eu adoro café? — Não, que você é italiano! — disse ela, e se encaminhou para a cozinha, que se via da sala de estar Gino a seguiu para sentar-se à mesa branca, meneando a cabeça quando viu que absolutamente tudo na cozinha era branco, muito sério. — E o que significa isso? — perguntou ela ríspida-mente, sem voltar-se enquanto fazia o café. — O que significa o quê? — O modo que está meneando a cabeça. Posso ver seu reflexo pelo espelho da tampa do fogão. — Eu estava me perguntando por que a obsessão por branco. Ela se virou rapidamente. Não era uma boa idéia quando estava segurando duas canecas cheias de café expresso, mas conseguiu não derramar nada. — Branco é uma cor muito prática. Combina com tudo. — Tudo, contanto que seja preto? — Chad adorava minha casa. — Isso diz o bastante sobre um homem murou Gino, antes de perceber uma coisa. — Você abou de dizer adorava e não adora. Gostaria de me dizer o que isso significa?

Jordan deu um gemido. Não tinha intenção de contar a Gino sobre Chad. Não, a menos que ele tentasse chantageá-la novamente. Mas o segredo estava revelado agora, portanto, não fazia sentido tentar mentir, afinal de contas, nunca soubera mentir. — Liguei para romper com Chad esta manhã—confessou ela com calma —, mas ele rompeu primeiro. — Ele rompeu o noivado? — Sim. Descobriu que queria uma esposa americana. Chama-se Caroline. Concluí que ele passou a última noite com ela. — E esta é a razão pela qual você esteve chorando. — O que você acha? — Acho que é melhor para você não se casar com alguém que não a ama. Jordan dirigiu a Gino um olhar de reprovação enquanto carregava o café para a sala. — Palavras de um especialista no assunto.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Ela colocou as canecas sobre a mesa e voltou para a cozinha a fim de buscar alguns biscoitos de choco— Se você fosse minha noiva — disse ele —, eu jamais olharia para outra mulher, muito menos dormiria. As palavras dele irritaram Jordan instantaneamente. — Bem, isso é improvável de acontecer, não é? Eu ser sua noiva. Ouça, você teve sua chance de se casar comigo dez anos atrás, Gino, e não quis. Deixou-me e nunca nos deu uma segunda chance, até que simples mente voltou a me encontrar por acaso. — Isso não é verdade — negou ele com veemência. — Nenhum dia se passou sem que eu não pensasse em você. Por que acha que nunca me casei. Vou lhe dizer por quê. Porque, se eu não podia tê-la como esposa, não queria ninguém mais. Esta é a verdade. Quanto a não ter voltado para nos dar uma segunda chance, e ter ficado afastado por dez anos foi porque eu sabia que não poderia lhe oferecer o que você merecia, E está errada sobre o nosso reencontro acidental na noite de sexta-feira passada. Não foi por acaso. Jordan olhou para Gino, sem saber o que pensar sobre aquelas declarações apaixonadas que acabara de ouvir. Os olhos dele brilharam quando fitaram os dela e enquanto fechava as mãos em punho sobre a tampa de mármore do balcão. — Evitei vir a Sidney a negócios esse tempo todo., sempre delegando e mandando alguém no meu lugar quando necessário. Sabia que não seria capaz de lidar com a situação perto de você. Mas dez anos se passaram. Namorei essa garota por um tempo e minha família estava me pressionando para que eu me casasse com ela. Eu estava ficando mais velho e parecia ridiculamente romântico deixar a lembrança de um caso me impedir de casar e ter meus próprios filhos. Sabia que não amava Claudia, mas disse a mim mesmo que casamentos italianos nem sempre eram uma questão de amor, mas de afeição e compatibilidade. Convenci-me de que poderia dar certo. Jordan estava espantada com o quanto os pensamentos e sentimentos de Gino eram semelhantes aos seus. Aquela viagem que fizera para a Itália a tinha feito sofrer muito, quando pensara que Gino estivesse em algum lugar perto, porém fora de alcance. Os olhos dela imploravam por compreensão, e ele prosseguiu: — Eu sabia que não podia me casar até que tivesse feito uma última viagem a Sidney, para ver o quanto me afetaria estar em sua cidade. "Lá estava aquele terreno abandonado no meio de Sidney que papai havia comprado antes de morrer, e não tinha feito nada com ele. Disse à minha mãe que agora era a hora certa de construir naquele terreno. Mas, na verdade, era apenas uma desculpa para vir aqui e ver como me sentiria. No momento que sobrevoei a cidade, naquela sexta-feira, as lembranças tornaram conta de mim e soube que não poderia partir sem pelo menos descobrir o que tinha acontecido a você. Pensei que, provavelmente, estivesse casada, uma garota bonita como você! Então, fiquei atônito aliando a agência de detetive particular que contratei me relatou que você era agora advogada, e solteira. "

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) "Fiquei mais aturdido ainda quando soube onde você trabalhava. Céus, eu tinha estado lá naquela mesma tarde! Essa proximidade quase me deixou louco. Soube, então, que precisava vê-la, por mim mesmo. Então, mandei que a seguissem quando você saiu do trabalho naquela noite, e por isso fui parar naquele bar. Não foi coincidência, Jordan, foi tudo planejado por mim." Jordan não sabia o que pensar, ou sentir. Ele tinha de estar contando a verdade. E assim mesmo... — Por que não me contou nada sobre isso naquela noite de sexta-feira? — Eu gostaria de ter contado, mas não estava certo de como você se sentia a meu respeito. Disse a mim mesmo que queria vê-la novamente e ter certeza que estava feliz. Mas, então, dançamos e perdi a cabeça por sua causa... como de costume. E claro, havia aquele pequeno problema adicional de eu a ter enganado há dez anos. Desconfiava que você não fi caria tão excitada com isso. E, uma vez que eu a tinha em meus braços, não quis correr o risco de enfrentar sua rejeição. O que você fez, Jordan. Rejeitou-me tão logo descobriu. Foi embora e aceitou a proposta de casamento de outro homem. — Você poderia ter me dito tudo naquele jantar! — declarou ela, determinada a não aceitar o que ele dizia sem questionar. Jordan tinha aprendido, nos anos que trabalhava como advogada, que as pessoas torciam a verdade a favor de seus próprios fins egoístas o tempo todo. — Depois que descobri que você estava noiva de outro homem? — contestou ele. — Convenhamos, Jordan, seja razoável! Tenho meu próprio orgulho. — E eu tenho o meu! — Pelo amor de Deus! Não podemos parar com essa discussão ridícula? Vim para conversar com você e fazê-la ver a verdade. — A verdade não é necessariamente a mesma para pessoas diferentes. — Você fala como advogada. — Uma advogada que está cansada de ser ludibriada. Suas ações falam mais alto do que suas palavras, Gino. — Minhas ações me trouxeram aqui hoje, Eu poderia ter voado de volta para Melbourne esta manhã e não pensar mais em você... como acabou de dizer. Mas não viajei. Vim para conversarmos. O mínimo que pode fazer é me escutar. — Se não tenho outra escolha. — Não vou embora até ter dito tudo o que tenho para dizer. — Neste caso, venha e tome o café enquanto ainda está quente.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) A boca de Gino se afinou em frustração quando se levantou e caminhou até a mesa para pegar as canecas. — O que você está fazendo? — perguntou ela, enquanto o seguia com o prato de biscoitos. — Levando isso para seu terraço. Este lugar aqui me dá calafrios. — Hum. Você não tem noção do que está na moda em termos de decoração. Esta é a última palavra em minimalismo. — Isso é coisa de Nova York! Mas você é australiana, Jordan. Vive numa terra de cores e contrastes... todas as cores do arco-íris. Como suporta viver neste lugar, sem cores? Pelo menos do terraço podemos ver a água azul cintilante e sentir o calor do sol. — Como você ousa vir aqui e criticar minha casa! Não sabe que existem diversos tons de branco? — Ouso porque me importo com você. — Desde quando? — Desde o primeiro momento que a vi. Agora pare de discutir comigo, Jordan, e seja útil. Não posso abrir essa bendita porta de vidro estando com ambas as mãos ocupadas. Ela obedeceu sem retrucar, a expressão demonstrando incômodo, ele notou. Da parte de Gino, sentia-se mais esperançoso do que desde que acordara naquela manhã e havia lido aquele recado horrível. Um sorriso aflorou em seu rosto quando chegou à sacada. O terraço era muito melhor do que o interior A decoração exterior não era tão má: um jogo de mesa e quatro cadeiras em ferro preto, trabalhado com as indefectíveis almofadas brancas, e havia um par de vasos com palmeiras anãs nos cantos. O dia estava agradavelmente quente, sem vento a despeito de ser agosto. Havia muitos barcos ancorados no porto. Os assim chamados "barquinhos para amantes" surgiam nos seus passeios pela baía em dias como aquele. — Aqui é muito melhor — disse Gino, colocando as canecas sobre a mesa e sentandose em uma das cadeiras. O comentário dele pareceu desativar a perturbação dos olhos azuis de Jordan. — Temos de conversar baixinho — disse ela, sentando-se também. — Não quero que os vizinhos nos ouçam discutindo. — Não tenho a mínima intenção de discutir. — Sério? — Realmente não!

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Que maravilha — disse ela, de modo zombeteiro. — Mas talvez devêssemos aproveitar nosso café primeiro. Então, se as coisas ficarem um pouco acaloradas, podemos voltar para a sala.

Jordan sorveu seu café em silêncio, enquanto Gino o tomou num gole só, e comeu diversos biscoitos. O apetite dela tinha mais uma vez desaparecido, e suas emoções estavam em total confusão. Mas estava determinada a não se tornar vítima dos encantos de Gino ou da sua repentina declaração de amor de que se importava com ela. Se era verdade, então que ele demonstrasse isso, e não somente na cama. — Tenho uma proposta a lhe fazer — Orno começou a dizer. — Estou certa que tem. — Não, não essa espécie de proposta. — Então, de que tipo? — Quero que venha para Melbourne comigo quando eu voltar. Quero que fique comigo, na minha casa. — Jordan o olhou com espanto. — Sei que não acredita que eu realmente me importo com você. Já disse mais de uma vez que tudo que quero de você é sexo. Quero lhe provar que não é bem assim. Você terá seu próprio quarto durante sua estadia. Não haverá sexo. Apenas um processo no qual nos conheceremos novamente. Dessa forma, poderemos descobrir se o que sentimos um pelo outro é amor ou apenas luxúria. — E se for amor? Você se casará comigo? — Atravessaremos essa ponte quando chegarmos nela. — Eu... eu não sei, Gino. — Ela havia prometido a si mesma não se render aos desejos dele dessa vez Prometeu ser forte, mas, e se Gino a amasse como ela o amava? Jordan engoliu em seco, um aperto na garganta por ter de admitir o que vinha tentando ignorar toda a vida. Ainda amava aquele príncipe encantado ali na sua frente. Sempre amara e sempre amaria. Impossível fugir agora. Não era tão forte assim. — Tudo bem — disse ela calmamente, apesar de estar tomada pelo medo de ser magoada, até mesmo com mais intensidade, desta vez. De algum modo, a alegria no rosto de Gino fez o medo de Jordan diminuir. — Quer dizer que você irá para casa comigo hoje? — Não hoje, Gino. Tenho de ir trabalhar amanhã, e uma porção de coisas a fazer. Tenho clientes e casos

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) E um anel que precisa ser devolvido a Chad, pensou ela. — Por que não pede demissão? Advogadas boas como você são necessárias em todo lugar. Pode arranjar um emprego em Melbourne tão facilmente como em Sidney. — Mas posso não ficar em Melbourne. As coisas podem não dar certo entre nós. — Darão. Jordan meneou a cabeça, não sentindo a mesma segurança dele. — Ouça, eu ia pedir demissão de qualquer maneira — admitiu ela. — Então, iria para o exterior por algum tempo. Sinto-me cansada, Gino, muito cansada. — Sim, posso ver isso. tom gentil da voz dele a sensibilizou, assim como a ternura em seus olhos. — Não vou prometer nada. — Não tem de prometer. — Se você tentar me seduzir, partirei imediatamente. — Não tentarei. — Uma semana — disse ela finalmente. — Darei a você uma semana. — Isso não é muito tempo. — É pegar ou largar. — Combinado, então.

CAPÍTULO DEZESSEIS

— Então, o que está acontecendo? — perguntou Kerry, assim que Jordan saiu da sala de Frank na segunda-feira pela manhã. — Você não parece muito feliz. Durante a noite inteira Jordan tinha imaginado o que diria a Kerry, finalmente se decidindo que sua amiga merecia saber a verdade. — Você pode sair para uma xícara de café? — convidou ela. Kerry franziu o cenho. — O assunto é tão ruim assim?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Não é ruim, apenas sobre mudança de vida. As sobrancelhas de Kerry arquearam-se mais ainda. — Mudança de vida? De que maneira? Jordan deu um suspiro profundo e então disse, vagarosamente: — Acabei de pedir minha demissão. — O quê? — Kerry se levantou da cadeira num salto. — Oh, meu Deus, Jordan, por que, exatamente? — Não posso lhe contar tudo aqui. — Que razão você deu a Frank? — Que Chad tinha rompido nosso noivado durante o fim de semana e eu precisava tirar umas férias. — Não acredito que Chad tenha feito isso! — Sim, fez. Mas, se não tivesse feito, eu teria. Finalmente me dei conta que não o amava o suficiente para me casar com ele. Kerry fez uma careta. — Não é por causa daquele sujeito italiano novamente, é? Jordan não sabia se ria ou chorava. A noite inteira tinha feito o possível para sentir-se positiva sobre a possibilidade de um futuro com Gino, mas bem no fundo do coração sabia que as coisas não funcionariam. Ele nunca se casaria com ela, e por sua vez, Jordan nunca viveria com um homem como concubina, era muito antiquada para isso. Ao mesmo tempo, não podia se imaginar casando com outro homem, então, por que não agarrar a felicidade enquanto ela durasse? — Não quero falar mais nada até que estejamos longe de ouvidos e olhos curiosos. — Tudo bem. Vou apenas dizer a Frank que estarei fora da minha mesa por um pequeno tempo. Direi que você está perturbada e vou levá-la até lá embaixo para uma xícara de café, que você está precisando de um colo amigo. — Boa idéia — disse Jordan, pensando que aquilo não estava muito longe da verdade. Assinar sua demissão tinha sido uma das coisas mais difíceis que já fizera na vida. Contudo, Frank havia sido muito compreensivo, prometendo arrumar outro advogado para assumir os casos dela, os quais, felizmente, eram mínimos no momento. Jordan tinha passado as últimas semanas no caso Johnson.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Alguns minutos depois, estava sentada no café tomando um cappuccino com sua amiga Kerry, que estava muito impaciente para ouvir a história toda. — Antes que você tire suas próprias conclusões — começou Jordan —, decidi não me casar com Chad não por causa de uma lembrança. Encontrei o italiano novamente. — Você se encontrou com ele? Onde? Jordan já tinha resolvido não mencionar nada sobre o encontro original deles no Rendezvous Bar. —No jantar para novos clientes no sábado passado. Você me colocou sentada justamente ao lado dele. Kerry ficou embasbacada. — Não me diga que é Gino Bortelli! — Sim. — Oh, meu Deus... mas... mas ele não é um operário de construções. É um homem rico e bem-sucedido! Pelo que ouvi dizer, a família é cheia de dinheiro. Jordan suspirou, e então explicou o que tinha acontecido, anos atrás. — Entendo — murmurou Kerry, não parecendo tão impressionada. — Agora sei por que você agia de modo tão estanho, para não dizer bizarro, naquela noite. — Os olhos dela de repente se arregalaram quando perguntou: — Você passou a noite com ele, não passou? — Sim — admitiu Jordan. — E o domingo também, tenho certeza. — Não. Somente conversamos no domingo. Foi quando me pediu para ir para Melboume com ele e eu disse que sim. — Oh, Jordan, não seja tão boba. Gino a usou todos esses anos e continuará usando. Homens como ele mudam de namoradas com tanta freqüência como mudam de carros. — Você não está me dizendo nada que já não sei, Kerry. Mas tenho de fazer isso. Não há outra escolha. — Você o ama tanto assim? Ela assentiu com a cabeça, enquanto as lágrimas marejaram seus olhos. Kerry suspirou. — Se você um dia quiser voltar, Frank a contratará novamente num segundo. Sabe disso, não sabe? Ele a acha fenomenal. Todos nós achamos. — Obrigada pelas palavras, mas não voltarei. Se as coisas não derem certo com Gino, vou viajar para o exterior por um período. Posso obter um emprego em Londres. Meu pai nasceu lá, portanto, tenho cidadania britânica, também.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Isso é um adeus, então? — Sim, sem sentimentalismos. — Jordan hesitou ao falar, pois nunca tinha sido o tipo de pessoa que mantinha contato com velhas amigas. Quando se mudava, era para valer. Depois do seu caso original com Gino e a morte da mãe, havia se transformado numa completa solitária. — Entrarei em contato — ouviu a si mesma dizer. — Prometo.

CAPÍTULO DEZESSETE

No exato momento que a viu caminhando em direção ao portão de desembarque, Gino quis ir ao seu encontro e abraçá-la. No entanto, se conteve e apenas acenou, sorriu e se aproximou vagarosamente. Jordan não devolveu o sorriso, e seu olhar era frio. — Olá — disse ele com o ar brincalhão de sempre, enquanto intimamente se perguntava se ela mudara de idéia. — Oi — disse ela simplesmente. — Fez uma boa viagem? — Mais ou menos. Gino fez o possível para ignorar a atitude não muito calorosa. Mas não era fácil. — Tenho um carro esperando — murmurou. — Vamos pegar sua bagagem. Tem muitas malas? — Somente uma. Espero que tenha trazido bastante roupa quente. Quase morri quando o piloto disse que a temperatura exterior estava a 13 graus. Os olhos de Gino percorreram o severo terninho preto de executiva. Tudo bem para um escritório, mas não para Melbourne, num chuvoso dia de inverno. — Ainda está muito frio aqui, mas minha casa tem cale facão. Ele puxou uma conversa superficial enquanto se dirigiam à esteira de bagagem, perguntando como tinha sido a demissão dela e se não houvera nenhum problema. Nenhum, aparentemente, mas a linguagem corporal de Jordan continuava tensa e negativa.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Esperou que ela relaxasse quando percebesse que a intenção dele era verdadeira, no que dizia respeito a não terem sexo naquela semana, apenas companheirismo. Gino temera que aquilo fosse quase impossível: conseguir manter as mãos longe de Jordan, nem sequer tocá-la. Mas valia o sacrifício, se conscientizou naquele momento, se aquilo significasse convencer Jordan de sua sinceridade. — Aquela é a minha — disse ela, apontando para uma mala preta de tamanho médio. Gino a pegou com facilidade, sorrindo ao começarem a caminhar para a saída. — Você realmente viaja com pouca bagagem. Jordan continuou sem sorrir, a face encantadora tensa e os olhos nada felizes. — Não possuo muitas roupas. — Amanhã vamos comprar algumas coisas novas e bonitas para você. Afinal, Melbourne é a capital da moda da Austrália. — Primeiro você critica meu apartamento — disse ela —, agora, minhas roupas. — Não há nada de errado com suas roupas — mentiu ele. — Mas preto, definitivamente, não é sua cor. — Não quero que você me compre nada — disse ela com firmeza. — Ótimo. Só pensei que você gostaria. A maioria das mulheres adora comprar roupas... especialmente quando alguém está pagando. Jordan parou de andar e os olhos azuis lampejaram. — Não faço parte da maioria, e não sou sua amante. Ainda. Se e quando eu concordar em fazer tal papel em sua vida, então você poderá me vestir como quiser. Até lá, tem de me aceitar como sou. Foi a vez de os olhos pretos lampejarem. — Eu pensei que não teria de aceitar você de qualquer jeito. A face dela corou repentinamente. — Você sabe muito bem o que eu quis dizer. — Não posso dizer que sei. Quando me ofereci para levá-la para comprar roupas, minha intenção não era vesti-la como eu gostaria, mas para recordá-la que você é uma mulher bonita que ficaria mais linda ainda em roupas femininas. Parece que esqueceu disso completamente. — Eu já lhe disse que mudei.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Não para melhor, parece. — Não fiz toda esta viagem para discutir com você, Gino. — Mentira, você estava pronta para uma briga no momento que desceu daquele avião. Parecia uma guerreira romana com armadura e lança. Aquela acusação, embora em tom jocoso, deixou Jordan perplexa. Mas percebeu que ele estava certo: suas defesas mentais haviam surgido no momento que o vira, parecendo soberbo num terno cinza de executivo, que combinava com o sobretudo preto de lã, e um cachecol enrolado elegantemente em volta do pescoço. De repente, sentiu-se desajeitada e fora de moda. Ficara mais à vontade com o Gino de dez anos atrás, o que usava jeans e camiseta e falava com sotaque italiano. — Eu não deveria ter vindo — disse ela. — Não seja ridícula. Você se sentirá ótima tão logo eu a leve para casa e pegue dois cálices de vinho para tomarmos juntos. Até mesmo farei seu jantar, como costumava fazer. Gostaria disso? Ela piscou e o olhou. — Você ainda cozinha? — Não com muita freqüência, hoje em dia, mas cozinharei para você. A intenção de Gino era proporcionar-lhe alguma alegria, e Jordan finalmente sorriu. — Posso escolher a refeição? — Somente se prometer me deixar levá-la às compras amanhã. Ela inclinou a cabeça de maneira charmosa para um dos lados, e seus olhos azuis brilharam. — O Gino de dez anos atrás não era tão bom negociante como você. — Não precisava ser, embora você fosse bastante persuasiva, às vezes. Sempre foi uma teimosa incorrigível, Jordan. — E você sempre teve um ego inflamado. — Bom Deus... vai começar outra vez. Recuso-me a falar com você novamente, mocinha — disse ele, pegando a mala com a mão direita e segurando-lhe o braço com a esquerda. — Haverá total silêncio deste momento em diante, até que eu a coloque em segurança no meu carro e no caminho para casa. —Você não precisa me impressionar, Gino. — Foram as primeiras palavras de Jordan depois daquilo, quando ele a acomodou no assento traseiro de uma limusine branca. — Você terá tudo que precisa — replicou Gino.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Quero que saiba que não perdeu em termos financeiros, não se casando com Stedley. Jordan lançou um olhar irritado para Gino. — Pode ser que não tenha prestado atenção, mas ganho muito bem como advogada. Meu apartamento já está pago. E tenho um carro muito bom na garagem. — Mas um guarda-roupa patético. — Agora quem é que está provocando uma briga? Gino sorriu. — Eu precisava repetir isso. — O que o faz um especialista em moda feminina, afinal de contas? — Tenho seis irmãs. — Seis! — Sim, duas mais velhas e quatro mais jovens. Todas são loucas por roupas, assim como minha mãe. Mamãe sempre me levava junto quando ia fazer compras, pois papai se recusava ir, e ela queria uma opinião masculina na qual pudesse confiar. — Por que você nunca me disse nada sobre sua família enorme, todos esses anos? — perguntou Jordan. — Por que me deixou pensar que fosse filho único? Gino sabia que tinha de fazê-la entender o motivo de sua mentira. Mas não seria fácil. — Você tem idéia de como é ser o único filho homem numa casa italiana? — Realmente não. — Eu era o filho homem e herdeiro de meu pai... a pessoa que assumiria os negócios quando ele se aposentasse ou morresse. Desde que me lembro, meu pai falava sobre meu dever e minha responsabilidade em relação à família. Se algo lhe acontecesse, eu seria o provedor, o protetor. Ele nunca questionou se eu queria algo diferente da vida, simplesmente determinando que eu seria engenheiro, como ele. Ao mesmo tempo, fui encorajado a me firmar às minhas raízes e à cultura italiana. "Esta é a razão pela qual fui mandado de volta para a universidade em Roma. Fiquei lá com um casal de tios até que me formei, vivendo e respirando o modo de vida italiano. Minha tia sempre me apresentava às garotas italianas em idade adequada para se casarem. Estou certo que pensava que as moças eram todas virgens, inocentes e doces. Mas não eram. Nem uma sequer." — Entendo — disse Jordan, parecendo pensativa. — Não me interprete mal, elas eram todas muito boas e atraentes. Mas não me apaixonei por nenhuma. Certamente, não queria me casar com nenhuma, embora pudesse

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) ter escolhido. Quando terminei meu curso na Itália, estava com muitas saudades da Austrália e totalmente saturado de todas as coisas italianas. Tinha nascido em Roma, mas mudei para a Austrália com o ano de idade. A Austrália era meu país e meu lar. E também não agüentava mais sempre ser apresentado como o filho de Giovanni Bortelli. Nunca sabia se as pessoas gostavam de mim por mim mesmo ou por causa do meu pai. Quando finalmente voltei para meu verdadeiro lar e meu pai quis que eu entrasse direto nos negócios com ele, rebelei-me. Já havia tido bastante espaço, então lhe disse que precisava de algum tempo... precisava estar livre da pressão de ser filho dele. "Meu pai relutou, mas concordou em me dar um ano para isso. Provavelmente, porque podia ver que, se não concordasse, eu pegaria um avião e jamais voltaria. Recusei-me a lhe contar para onde estava indo, mas contei para minha mãe. Não onde eu estava morando, mas onde trabalhava. Foi assim que ela soube onde eu estava para me contatar quando papai ficou doente. — Gino segurou a mão de Jordan nas dele. — Eu não tinha intenção de feri-la — disse com sinceridade —, mas eu era apenas um adolescente, Jordan, brincando de homem. Fui totalmente egocêntrico. Gosto de pensar que sou um homem de verdade agora, capaz de compaixão e preocupação com os outros. Não quero feri-la novamente. Prometo." Jordan queria acreditar. Acreditava nele, realmente, ou acreditava nas suas boas intenções. Mas sabia também que Gino a feriria. A história estava escrita para se repetir, como sempre. A família italiana de Gino era ainda um obstáculo imenso para eles, para a descoberta da felicidade, assim como a promessa ao pai no leito de morte. Gino jamais iria contra aquela promessa e se casaria com ela. Mas nada disso parecia importar quando ele segurava sua mão e olhava fundo nos seus olhos, da maneira como estava fazendo agora. — Está tudo bem, Gino — murmurou ela ternamente. — Entendo o que aconteceu há dez anos e perdôo você. — Você não tem idéia do que significa para mim ouvi-la dizer isso. — Sua mãe sabe sobre mim? — Não. — Vai lhe contar? — Sim. — Quando? — Hoje, se você quiser. — Não, não quero que faça isso. Não ainda. Ela virou a cabeça para olhar pela janela do carro. Tinha começado a chover... uma chuva fina.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Nunca estive em Melbourne antes — disse ela finalmente. — Você gostará daqui. Ela se voltou para fitá-lo. — Como pode ter certeza? Gino sorriu. — Porque vivo aqui. Jordan teve de rir. — Você é muito arrogante. — Seguro, não arrogante. — O que é uma palavra? Como diz Shakespeare: "Uma rosa não seria uma rosa se tivesse outro nome?" — arrematou ela sorrindo. — Você é advogada, deveria saber que há uma grande diferença entre segurança e arrogância. — Como você me descreveria? — perguntou ela. — Quantas palavras posso usar? — Tantas quantas precisar. O que pensou de mim na primeira noite que nos conhecemos? — Humm. Minha primeira impressão foi de que você era bonita. — Que coisa profunda! Gino sorriu. —A percepção masculina quando se conhece uma mulher é inevitavelmente superficial. É uma coisa hormonal, mas no fim da noite eu sabia que você também era inteligente, trabalhadora e generosa. — Bajulador. — Não terminei ainda. Depois que passei a morar com você, rapidamente descobri que possuía uma combinação única de qualidades. Docemente inocente, contudo, capaz de grande sensualidade. Determinada e teimosa ocasionalmente, mas na maioria das vezes terna e compassiva. O que mais me impressionou, contudo, foi sua lealdade. Sempre soube que seu amor era meu. Nunca me preocupei que você pudesse olhar para outro homem. Não enquanto estivesse comigo. O último elogio de Gino a fez perder a fala. Na verdade, nunca houvera outro homem para ela, mesmo depois que ele partira. Essa era a razão pela qual estava ali, sacrificando tudo somente para estar ao seu lado. — E agora, Gino? O que sou agora? — Ainda é você mesma, Jordan — disse ele gentilmente. — Por baixo. — Por baixo do quê?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Por baixo de uma fachada formidável que desenvolveu através dos anos. Você é ainda uma mulher compassiva e afetiva, Jordan. Pude ouvir isso na sua voz quando me contou sobre o caso Johnson. Mas ser advogada a deixou também um tanto cínica. — É impossível não ser cínica. As coisas que vi e ouvi, Gino. As pessoas são sujas. — Não. Algumas pessoas são sujas, Jordan, mas muitas são boas. Não deixe a minoria descolorir sua vida. Sei que aquela companhia de seguros fez a coisa errada por seu pai. Mas vingança, enquanto só satisfaz temporariamente, pode ser autodestrutiva ao longo do tempo. Francamente, acho que já é tempo de você dar uma trégua à justiça. — E isso que estou fazendo, não é? — Quero dizer, por mais tempo do que uma semana. Jordan sabia o que ele queria dizer: queria que ela ficasse lá, morasse com ele, se transformasse em sua esposa de fado. Mas Jordan queria se casar de verdade. — Vamos dar um passo de cada vez, Gino. — Ótimo — murmurou ele. — Posso perfeitamente fazer isso.

CAPITULO DEZOITO

— Adoro sua casa, Gino. Gino tirou os olhos da comida que estava fazendo, dando um sorriso sem graça. — Está apenas dizendo por dizer. — Não, estou sendo sincera. — Não acha que é eclética demais? E atravancada? — Em absoluto. Jordan podia ver agora porque ele tinha detestado tanto seu apartamento. A cobertura de Gino não tinha nada de minimalismo. Em todos os lugares, havia o calor das cores. As paredes eram pintadas em suave tom de amarelo, os pisos eram cobertos com tapetes verdes e a mobília era uma mistura louca de moderno e antigo... que provavelmente não combinavam, mas que algum decorador sugerira. Havia almofadas de todos os tecidos e estampas espalhadas pela sala, além de uma porção de peças de decoração e diversos portaretratos.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) A cozinha era imensa, a maior parte revestida de madeira, provavelmente cedro, até mesmo os tampos dos bancos. A coifa acima do fogão era de cobre batido, os utensílios de aço inoxidável e o piso de lajotas de ardósia. Todos os utensílios imagináveis de cozinha estavam pendurados em ganchos de cobre, sob os armários, colocados lá porque Gino disse que detestava ficar procurando coisas em gavetas. Havia uma grande pia de mármore rosa e um fogão tão sofisticado que dava medo usar, no qual Gino agora cozinhava o mais delicioso molho à bolonhesa que Jordan já provara. Ele costumava fazer aquele molho especial para ela, todos os sábados, durante o tempo que tinham morado juntos. Uma receita secreta, de família, que passava de mãe para filhos. Somente o aroma do molho já era suficiente para dar água na boca. — Mais vinho? — perguntou Gino, colocando de lado a colher de pau e levantando a garrafa de vinho tinto que comprara. — Eu não deveria — disse ela, mas levantou seu cálice vazio. — Por que não deveria? — Você sabe como fico quando bebo. — Fique tranqüila — disse ele, enchendo a taça dela. — Não deixarei você mostrar seu lado travesso para mim. — Não deixará? — Absolutamente. Honro o que falei, Jordan, preciso lhe provar que há mais do que apenas sexo entre nós. Tenho esperança que até sexta-feira você estará convencida disso. — Sexta-feira? Até lá não é uma semana. Serão apenas quatro dias. Ele deu de ombros e sorriu. — Calculei que quatro dias são meu limite com você sob o mesmo teto.

Na quinta-feira à noite, Gino estava definitivamente no seu limite. Não que eles não tivessem passado alguns dias maravilhosos juntos. Gino havia tirado a semana de folga do trabalho e passado todos os momentos acordados com Jordan. Tinham ido fazer compras, com Jordan se rendendo e o deixando comprar algumas adoráveis roupas femininas. Almoçavam fora, mas ficavam em casa todas as noites, com Jordan felicíssima por ele cozinhar para ela. Depois, assistiam à televisão ou simplesmente sentavam-se e conversavam. Gino falara mais nos últimos dias do que em anos, não fazendo segredo de nada ao contar a Jordan tudo sobre sua vida e família. O que não tinha feito, era amor com ela.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Dormir se provara terrivelmente difícil a cada noite. Não somente por causa da frustração sexual, mas devido à frustração associada ao futuro dos dois juntos. Queria pedir Jordan em casamento, mas como poderia, sem ficar atormentado? Desejava, por Deus, nunca ter feito uma promessa tão estúpida para o pai. Mas, é claro, não tinha pensado claramente na ocasião. Agora estava aprisionado numa situação que parecia não ter solução. Nenhuma com a qual Jordan se sentiria feliz. Ela estava numa idade na qual queria casamento e maternidade. Oferecer-lhe um relacionamento sem casamento era uma proposta de segunda categoria. Ao mesmo tempo não havia possibilidade de deixá-la ir embora. Gino permitira isso uma vez. Não o faria novamente. Amava-a muito, e a queria com loucura. Talvez fosse hora de parar de falar e lhe mostrar o quanto a amava.

— Espero que o sabor esteja tão bom quanto o aroma — disse Jordan, enquanto carregava uma travessa fumegante para a sala de jantar. Na quinta-feira, tinha decidido que era sua vez de cozinhar. Cozinhar não era seu forte, mas tinha se tornado competente, embora sua capacidade para produzir pratos diferentes fosse limitada. Jordan escolheu fazer seu prato favorito, macarrão frito com cogumelos, à moda japonesa, e vinho branco para acompanhar. Pôs a mesa na sala de jantar, embora as outras refeições noturnas tivessem sido feitas sem muito formalismo, tanto no balcão da copa como em frente à televisão. Uma procura nos diversos armários de cozinha a fizeram encontrar jogos americanos, guardanapos, copos e louça de cerâmica. Ela havia escolhido duas peças do jogo americano amarelo e guardanapos do mesmo tom, taças de cristal lisas e pratos de cerâmica brancos decorados com flores amarelas. Gino não disse uma palavra quando ela colocou a travessa quente na pequena toalha no centro da mesa... o que, sem dúvida, não era o que ele faria. Pensando nisso, lembrou-se que Gino não tinha se sentado no balcão da copa também, enquanto ela cozinhava, dando a desculpa que queria assistir ao noticiário na televisão. Algo estava errado, percebeu Jordan, com uma ponta de desconfiança, talvez um pressentimento. Ou seria a célebre intuição feminina? Todavia, não podia adivinhar o que era, afinal, eles tinham sido bem felizes juntos naquela semana.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Você está muito quieto esta noite — observou Jordan quando se sentou em frente a Gino e desdobrou seu guardanapo. — Humm — foi a resposta que não informava nada, enquanto Gino parecia pensativo, servindo-se em silêncio. Jordan tomou um gole de vinho antes de se servir de uma pequena porção, o apetite desaparecendo de repente. — Em que você está pensando? — perguntou ela, depois de ter tentado engolir algumas garfadas do macarrão. A pergunta pareceu assustá-lo. Gino franziu o cenho, pôs o garfo de lado e a olhou. — Em nós. — O que, sobre nós? — Acho que deveríamos deixar essa conversa para depois que comermos. — Não concordo. Os olhos de Gino endureceram um pouco diante do tom de voz dela. — Muito bem. Eu estava pensando no quanto a amo. Jordan ficou boquiaberta. Como uma declaração de amor, aquela tinha sido feita de uma maneira muito pouco romântica. — Não é somente desejo sexual — continuou ele com firmeza —, é amor. Sempre foi amor. Jordan não sabia o que dizer. Ele simplesmente a desarmara. — E você? — ele exigiu saber. — Como se sente em relação a mim? Ela piscou e umedeceu os lábios. Gino. Acho que sabe como me sinto a seu respeito, — Quero ouvi-la dizer as palavras. — Eu o amo — confessou ela, o coração se aquietando finalmente ao expressar seus sentimentos. — Nunca deixei de amá-lo. Ele gemeu, então se levantou e os olhos negros instantaneamente queimaram de desejo. — Você não pode esperar que eu fique aqui sentado, comendo calmamente, depois do que disse, pode?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Não — replicou ela com o desejo que tentara controlar a semana inteira. Gino deu a volta na mesa e a pegou nos braços. — Há mais que quero dizer — murmurou ele enquanto a carregava para o quarto. — Temos mais coisas a decidir, porém não neste momento. Preciso fazer amor com você, Jordan. Fazer amor, não sexo. Você também quer isso, não quer? — Sim — sussurrou ela, o coração inundado de emoção. — Oh, sim.

Gino aninhou-a junto a seu corpo depois do ato de amor, atônito pela paixão e pelo poder da união dos dois. Não houvera estímulos sexuais preliminares. Nada além de rapidamente tirarem as roupas e ocorrer uma fusão imediata de seus corpos impacientes. Tudo tinha terminado em segundos, ambos gritando ao atingir o clímax juntos. — Você precisa saber que quero me casar com você — declarou ele com os lábios bem perto de seus cabelos. — Mas não posso. — Eu sei — disse ela tristemente. —Isso não é certo—continuou ele com um gemido. — Quero que seja minha esposa.

Jordan percebeu a dor na voz de Gino e soube que tinha de fazer algo. Segurou-lhe o rosto nas mãos e ergueu-lhe a cabeça de modo que seus olhos pudessem se encontrar. — Serei sua esposa — murmurou ela. — De qualquer maneira que for possível. Eu o amarei, tomarei conta de você e terei seus filhos, se é isso o que quer. Ele arregalou os olhos. — Você terá filhos meus? Mesmo que não possa lhes dar meu nome? — Não há razão pela qual não posso ter seu nome, Gino. Isso é uma simples questão de mudá-lo legalmente. Tudo que estaremos perdendo é uma folha de papel. Nosso amor é mais forte do que isso, não é? Jordan ficou chocada quando os olhos dele começaram a brilhar. — Você é verdadeiramente uma mulher maravilhosa. — Uma mulher comum apaixonada por um homem maravilhoso. Poderemos fazer as coisas darem certo se nos amamos, Gino. — Sim, você está certa. Todavia, ele não parecia totalmente feliz.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Suponho que está preocupado com sua mãe —disse Jordan —, e com suas seis irmãs. Preocupado com o que elas vão pensar. — Elas se acostumarão à idéia. Jordan desconfiava que a família de Gino sempre olharia com desprezo para o relacionamento deles. Não era comum aos italianos viver junto sem a benção da Igreja. — Quando você vai lhes contar? — perguntou ela. —Amanhã. Depois que formos comprar as alianças. — Comprar alianças? — Não é somente porque não teremos aquele bendito pedaço de papel que não podemos usar anéis de compromisso. —Anéis, no plural? — É claro. Um anel de noivado e uma aliança para você. E uma aliança para mim. Quero que todos saibam que sou comprometido. Jordan lutou para conter as lágrimas. — Eu gostaria disso. Ele sorriu. — Sabia que você gostaria — disse ele, beijando-a com ternura.

CAPÍTULO DEZENOVE

— Feliz com os anéis? — perguntou Gino quando saíram de uma das joalherias mais elegantes de Melbourne. — São encantadores — replicou Jordan, sem ser capaz de tirar os olhos do anel de noivado. Era maravilhoso, apesar de muito simples. Um solitário de diamante numa armação de ouro branco. A aliança de casamento era ainda mais simples, também em ouro branco, o que formava um conjunto estonteante. A aliança de Gino, em contraste, era mais larga e feita com ouro amarelo, com pequenos diamantes ao longo do aro. Combinava com seu estilo extravagante e ostensivo, pensou ela.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Eles estavam voltando para onde Gino havia estacionado o carro quando o celular dele tocou. Jordan ficou parada sob os fracos raios de sol, admirando seus anéis enquanto Gino atendia ao telefone. — Eu lhe disse que não gostei dos andaimes deles — murmurava Gino, parecendo bastante irritado. — Não, preciso ver isso pessoalmente. Estarei aí em vinte minutos. Problemas no trabalho — disse para Jordan, desligando o celular. — Ouça, poderei ficar lá por algumas horas, portanto eu a deixarei em casa primeiro. Que horas são agora? Doze e trinta. Estarei de volta ao redor das três ou quatro da tarde. Você pode aproveitar para dormir um pouco, pois não dormiu muito na noite passada — acrescentou ele, com um brilho malicioso nos olhos. — Você também não. — Dormi mais do que precisava nas últimas noites, posso lhe assegurar. — Ainda vamos visitar sua mãe esta noite? — Claro que sim. Telefonarei para ela do trabalho e combinarei qualquer coisa. Jordan sentiu o estômago se contorcer. — Talvez ela não queira me ver. — Não atravesse suas pontes até que chegue nelas, Jordan.

Por volta das 15h Jordan começou a olhar as horas. A preocupação com a noite pela frente a havia impedido de se concentrar em qualquer coisa, e dormir estava fora de questão. Às 16h, sua agitação estava além do suportável. Não gostava de ligar para o celular de Gino. Ele tinha prometido estar em casa tão logo pudesse, mas, mesmo assim, deixara o número, e parecia tolice da parte dela se preocupar quando uma simples ligação apaziguaria sua mente. Digitou o número do celular e esperou que ele atendesse. O celular tocou algumas vezes, então caiu na caixa postal, dizendo que a ligação não poderia ser completada naquele momento, mas que deixasse uma mensagem que o telefonema seria respondido assim que possível. Jordan hesitou, então desligou, pensando que, provavelmente, Gino estava dirigindo e voltando para casa naquele exato momento.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Dez minutos mais tarde, desejou ter deixado um recado. Gino ainda não chegara. Jordan estava prestes a ligar novamente quando o telefone tocou. Com um suspiro de alívio, correu para atender. — Gino? — É Jordan? — uma voz feminina perguntou com distinto sotaque italiano. — Sim. — Aqui é Maria Bortelli, a mãe de Gino. — Oh... — Jordan não sabia o que dizer. Teria Gino passado na casa da mãe para vê-la antes de vir para casa? Se fosse isso, então, por que não era ele ao telefone? — Sei que Gino gostaria que eu lhe telefonasse. Ele me ligou para contar sobre você. —Entendo — disse Jordan. — A senhora não está preocupada com o nosso relacionamento, está? — Preocupada com a união de vocês? Não, não. Não é por isso que estou ligando. Houve um acidente, Jordan, em um dos locais de construção de Gino. O coração de Jordan disparou de medo. — Que espécie de acidente? Meus Deus, por favor, diga-me que Gino está vivo. Digame que ele está bem. — Gino teve uma queda horrível. Um dos andaimes cedeu, por baixo dele. Os médicos estão fazendo exames no momento. O capacete caiu na queda. — Ele está consciente? — Não. Jordan deixou escapar um grito torturado. Se Gino morresse, o que ela faria? Ele era sua vida agora, a razão do seu viver. — Você deveria vir — disse a sra. Bortelli. — Gino gostaria que estivesse aqui, com ele. — Sim, claro — disse Jordan, com o coração batendo fortemente. — Pegarei um táxi. Dê-me o endereço. A viagem até o hospital foi muito demorada, as ruas estavam congestionadas com o trânsito da tarde. O táxi a deixou na entrada, e Jordan atravessou as portas de vidro, seus olhos já procurando pelos elevadores. A sra. Bortelli tinha lhe dito para qual andar deveria se dirigir. Finalmente, localizou os elevadores num canto do saguão.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Quando Jordan correu para lá, não pôde deixar de notar uma mulher em pé ao lado das portas do elevador, olhando-a. Tinha acerca de 70 anos, talvez, elegantemente vestida, com cabelos castanhos ondulados e olhos negros. — Jordan? — perguntou ela. — Sim? — Sou Maria Bortelli. — Os olhos escuros iguais aos de Gino estudaram Jordan de cima a baixo, e um sorriso caloroso surgiu como surpresa. — Você é tão bonita quanto Gino falou. Jordan ficou tão estupefata que não sabia o que dizer. — Venha. — A sra. Bortelli lhe pegou o braço. — Ele levaram Gino para o centro cirúrgico, e ele está agora num outro andar, não no que eu lhe disse. — Cirurgia? Que espécie de cirurgia? — Cirurgia cerebral. Há algum sangramento que precisa ser estancado. Quando Jordan cambaleou, a sra. Bortelli a segurou firmemente. — Sei perfeitamente como se sente — murmurou gentilmente. — Eu me senti do mesmo modo assim que me contaram. Mas disse a mim mesma para não me preocupar. Meu Gino é forte e está em boas mãos. Estive na capela do hospital, rezando por ele. Jordan nunca tinha sido muito devota. Sempre acreditara que Deus ajudava aqueles que se ajudavam. Mas desconfiava que estava prestes a se acostumar com a prática. — Foi meu filho que comprou- esses anéis para você? — perguntou a mãe de Gino no caminho para o elevador. Jordan ergueu a mão para ver seus anéis de noivado e casamento. — Sim — confirmou. — Esta manhã. Quão felizes eles estavam e agora... — Gino contou-me sobre a promessa que fez ao pai. — Verdade? — Foi tolice dele. — Ele sabe disso agora, mas não quer desonrar a promessa. A sra. Bortelli meneou a cabeça. — Ele é um bom filho, mas não é correto negar a você um casamento de verdade. Todavia, teremos de resolver isso. Gino a ama e se recusa casar-se com qualquer outra pessoa.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) As portas do elevador se abriram e as duas mulheres entraram no corredor largo, o cheiro típico de hospital enchendo o ar. —A senhora não se importa que eu não seja italiana? — perguntou Jordan. — Por que deveria me importar? — O pai de Gino, obviamente, se importaria. — Giovanni era muito mais velho e antiquado do que eu. Nosso casamento foi arranjado, não uma união por amor. Prometi a mim mesma que meus filhos so mente se casariam por amor. Esta é uma promessa que nunca deixarei de honrar. Amor é muito mais importante do que um pedaço de papel. — Estou muito feliz que a senhora pense dessa maneira. Quando a mãe de Gino sorriu, Jordan pôde ver de onde Gino puxara sua aparência e seu charme. — Você e Gino terão filhos bonitos juntos. — Se tivermos a chance — disse Jordan, a emoção de medo a dominando novamente. — Oh, sra. Bortelli — sussurrou, dando vazão às lágrimas e deixando-as escorrer pela face. — Eu o amo muito. — Posso ver isso, minha querida. Venha — disse ela, dando-lhe o braço. — Ele não sairá da cirurgia tão cedo. Vamos para a capela do hospital, rezar um pouco mais.

Gino sabia que estava sonhando. Tinha de ser um sonho, porque Jordan e ele tinham acabado de se casar numa velha igreja, que não reconheceu. Jordan parecia um anjo vestido de branco, um anjo lindo de Botticelli. Estava radiante e sorria-lhe enquanto caminhavam de braços dados ao longo da nave criada ao ar livre, sob os raios de sol brilhantes. Não era Melbourne, percebeu quando olhou para o caminho de pedras antigas numa cidade que reconheceu. Estavam em Roma. Era aquilo, percebeu Gino no sonho. Aquele era o caminho. Por que não tinha pensado nisso antes? Lutou para acordar, mas não conseguiu se livrar do cobertor que o estava prendendo. Por que não podia acordar?, pensou, frustrado. O que havia de errado com ele?

A enfermeira do hospital observava Gino cuidadosamente. — Você não deveria acordar ainda — disse ela, quando ele começou a pestanejar fortemente.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Quando ele começou a murmurar e tentar levantar a cabeça, ela pôs as mãos gentis, porém firmes, em seus ombros. — Fique quieto — sussurrou. — Tudo foi bem com a operação, mas você precisa descansar mais. — Jordan — chamou ele, abrindo os olhos. — Quer que eu diga a Jordan que você está bem? Ele virou a cabeça de um lado para o outro. — Diga-lhe... diga-lhe que há um modo — gaguejou Gino, e adormeceu novamente. Naquele momento, o dr. Shelton entrou e a enfermeira ficou aliviada que seu paciente não estava mais delirando. Enquanto o médico examinava os sinais vitais do paciente, a enfermeira contou o que aconteceu. O dr. Shelton franziu o cenho. — Espantoso — disse ele. — Ele não deveria ter voltado por pelo menos mais meia hora. Você disse Jordan? — Sim. — Homem ou mulher? — Ele não falou, mas aposto que é uma mulher. O médico sorriu. — Esta também seria minha aposta.

Jordan sentou-se na saia de espera, cercada pelas outras mulheres da vida de Gino. Suas seis irmãs tinham aparecido em vários intervalos durante as duas últimas horas, todas muito ansiosas sobre o estado do irmão amado. Jordan ficara sensibilizada pelo amor e preocupação delas, e totalmente surpresa pela aceitação calorosa que recebera. Nenhuma das irmãs de Gino a fez sentir-se intrusa pelo fato de não ter ascendência italiana. Haviam ficado surpresas, mas também fascinadas, quando ela lhes contou sobre seu caso com Gino anos atrás. A irmã caçula, Sophia, considerou a história mais romântica que já ouvira. Todas tiveram a mesma opinião da mãe: que fora muita tolice de Gino fazer aquela promessa ao pai. Mas todas sabiam que o irmão não quebraria a promessa. A história romântica havia distraído todas por alguns momentos, mas, então, um silêncio de preocupação se instalou. O médico, vestido com jaleco verde, entrou na pequena sala de estar. Era um homem alto e magro, por volta dos 50 anos, com um rosto longo e olhos azuis amáveis.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) A sra. Bortelli imediatamente se levantou. — Meu filho vai ficar bom, doutor? Ele segurou as mãos dela entre as suas e sorriu. — Gino vai ficar bom — anunciou ele, para um suspiro de alívio coletivo de todas as irmãs. Jordan, contudo, fechou os olhos e agradeceu a Deus por ter atendido suas preces. — Estancamos o sangramento e removemos o sangue invasor. Um exame mais profundo nos mostrou que o cérebro não foi danificado. Ainda está inconsciente, mas deve acordar dentro de uma hora. Agora, há uma senhora aqui chamada Jordan? Jordan se levantou. — Sou eu. — Tenho um recado do meu paciente para você. — Um recado? Mas... mas... como? — Ele voltou a si por alguns segundos e pediu à enfermeira para dizer-lhe que há um modo. Isso faz algum sentido para você? — Sim — disse ela, assentindo com a cabeça e chorando ao mesmo tempo. — Sim, faz perfeito sentido.

CAPÍTULO VINTE

Jordan surgiu bela e radiante sob o sol de fim de tarde, de braços dados com Gino. — Nunca pensei que veria esse dia chegar — murmurou ela. — Oh, Gino, estou tão feliz que sou capaz de explodir. — Felicidade lhe faz bem. — Ele inclinou-se para lhe beijar o rosto. Ela virou a face e o beijou de volta, na boca. Depois de trinta segundos, o fotógrafo pigarreou. O casal feliz se separou, a noiva corando e o noivo sorrindo. — Quero todos aqui, por favor — comandou o fotógrafo italiano, agitando os braços com gesto teatral. — Esta é a única desvantagem dos casamentos italianos — murmurou Gino enquanto todos os convidados tentavam se agrupar nos degraus da velha igreja. —Algumas vezes fazem Ben Hur parecer uma pequena produção em comparação à festa.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Não sei o que você quer dizer — murmurou Jordan com uma risadinha. Além dos noivos, a cerimônia de casamento tinha seis madrinhas e seis padrinhos, cinco pequenos pajens e sete garotinhas carregando cestinhas de flores. Sem contar a mãe do noivo e o tio de Gino, Stefano, que gentilmente tinha conduzido a noiva pelo corredor da igreja. — Se tivéssemos feito esse casamento em Melbourne, ele seria ainda maior — disse Gino. — Provavelmente, duas ou três vezes maior. — Falando em convidados, muito obrigada por patrocinar a viagem de avião para Kerry e Ben — disse Jordan, acenando para sua amiga e o noivo dela. — Foi muita generosidade sua. — Não poderia ter todos sentados ao meu lado na igreja agora, poderia? — Sem mais conversa, por favor — ordenou o fotógrafo. —Apenas sorriam. Todos sorriram enquanto ele fotografava sem pressa. Quando as fotos finalmente terminaram, Jordan foi cercada por todos os convidados solteiros esperando um beijo da noiva. — Chega! — exclamou Gino, e a conduziu degraus abaixo para a limusine que os aguardava para levá-los ao local da recepção... um palacete encantador que dava para o rio Tiber. Mais fotografias foram programadas para serem feitas nos jardins luxuosos, cheios de deslumbrantes fontes. — É tão bom ter minha noiva linda só para mim — sussurrou Gino com um abraço possessivo, quando estavam sozinhos no assento traseiro da limusine. — Minha noiva italiana maravilhosa. — Não ainda — disse ela. — Temos de esperar seis meses para requerer cidadania italiana pelo matrimônio. — Isso é apenas um outro pedaço de papel — disse Gino. — Já somos italianos em espírito. Todos dizem isso. Jordan sorriu. — Adoro a Itália e os italianos. Toda a sua família faz eu me sentir tão amada! — Você é uma mulher digna de amor — declarou Gino, beijando-lhe o rosto com incrível ternura. O coração de Jordan disparou. — Você não disse onde está me levando, para nossa lua-de-mel.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Esta noite, ficaremos em Roma, então amanhã vamos velejar num cruzeiro através do Mediterrâneo, num iate luxuoso. Espero que seja do seu gosto. — Qualquer lugar com você é do meu gosto, Gino. Gino sorriu para a mulher que amava mais que a própria vida. — Você vai ser a mãe mais bonita do planeta. — Sim — replicou ela, com repentina expressão travessa nos olhos azuis. — Dentro de oito meses. Gino perdeu o fôlego. — Você já está grávida? Ela apenas tinha parado de tomar pílulas no mês anterior. — Não é realmente uma surpresa, é? Você nunca me deixa em paz. — Você não se importa em tornar-se mãe assim tão cedo? — Está brincando? Estou perto dos 30 anos. Já passou da hora, não acha? — É a hora certa — disse ele. — Dez anos atrás não teria sido, Jordan. Eu não teria sido um bom pai. Agora serei mais paciente e menos egoísta. — Eu também precisava crescer — admitiu ela. — Agora quero levar uma vida mais tranqüila, como esposa e mãe. — A risada de Gino a assustou. — O que significa essa risada? — A quem está enganando, Jordan? Você nasceu para ser advogada... assim como nasci para ser engenheiro. Interrompi meu destino por um tempo, mas, na verdade, adoro tudo que se refere à construção... assim como você adora obter justiça para seus clientes. Logo ficará entediada em ser apenas esposa e mãe. — Você acha? — Ela admitia que nos últimos meses, às vezes, sentira falta do tribunal, da adrenalina que percorria seu corpo quando ouvia que os jurados chegavam ao veredicto, e sentia falta da espécie de satisfação que alcançava quando ganhava casos como o de Sharni Johnson. — Sim, acho. Ouça, quando retornarmos a Melbourne, por que não abre seu próprio escritório de advocacia? Poderá trabalhar nas horas que quiser e pegar somente os clientes que achar que vale a pena. Jordan sorriu. — Você me conhece muito bem. — Na verdade, conheço — concordou ele com aquele brilho de sabedoria nos olhos. — Portanto, meu amor, o que você está usando por baixo desse vestido de casamento maravilhoso?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Isso só eu sei, e não é para você descobrir—disse ela de modo travesso. — Não até esta noite. Gino estudou-a com tanta intensidade que a fez corar. — Acho que já sei. — Você é um homem indomável e me estimula a fazer coisas indomáveis, também. — E não negue que você ama isso. — Amo você. Gino deu um suspiro de triunfo. — Nunca me cansarei de ouvi-la dizer isso. — Eu o amo — repetiu ela, com os olhos faiscando quando lhe ofereceu os lábios.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81)

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HISTÓRIA BÔNUS *************************************************************************

O AMOR DE UM PRÍNCIPE Carol Marinelli Título original: THE PRINCE'S HOUSEKEEPER BRIDE

CAPÍTULO UM

— Você precisa cuidar da aparência, Alisa! — Alisa fazia o possível para não se chatear com as observações pertinentes da cozinheira Maria. — O príncipe Benito exige que seus funcionários estejam impecáveis, — Eu me esforçarei — Alisa garantiu. — Foi difícil chegar, tive que conseguir alguém para cuidar de Marietta às pressas... — Não use sua filha como desculpa, Alisa — disse Maria. — Uma mulher em sua posição desafortunada tem sorte de receber uma chance de trabalhar como governanta para o príncipe Benito. Você deve andar com os cabelos bem penteados e talvez um pouco de maquiagem. — Farei isso, Maria — disse, dirigindo-se ao corredor. Alisa precisava deste emprego. Mesmo que para seguir o exaustivo esquema de trabalho do príncipe Benito tivesse que ver Marietta muito pouco enquanto estivesse em Niroli, valeria a pena. Alisa percebeu que sua mão tremia ligeiramente ao bater à porta do quarto. Como criada do palácio, estava acostumada com a realeza e sua existência luxuosa, mas sempre a distância. Até agora!

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) O príncipe Beníto chegara a Niroli há apenas três dias. Hóspede do primo, o adorado príncipe Luca Fierezza, Benito tornou sua presença bem conhecida. Nos corredores do palácio, havia rumores de suas noitadas repletas de jogos e festas. A primeira a sofrer as conseqüências de suas atitudes imprudentes foi a fiel e esforçada criada da villa, Bianca, demitida por supostamente ter expressado insatisfação diante das excessivas solicitações de sua última namorada, Victoria. A segunda foi a própria Victoria, de quem o príncipe se separou, depois dela ter mostrado insatisfação diante das excessivas solicitações dele. Alisa esperava não ser a terceira vítima. Duas batidas suaves na porta, uma pausa e Alisa entrou, prendendo a respiração enquanto segurava a bandeja. — Seu café, sua alteza. Aparentemente, ele não gostava de conversar. Alisa fora instruída a saudá-lo brevemente, servir o café enquanto ele acordava, colocando o bule sobre a mesa, e abrindo as cortinas em seguida. Não era o status real que mexia com Alisa. Na verdade, era algo mais básico que fazia com que, aos 21 anos, tremesse diante dele. Nunca estivera no quarto de um homem antes, pelo menos não com o proprietário presente. Nunca tinha visto um homem dormir. Benito estava deitado na ampla cama, travesseiros jogados ao chão, a mão pendurada. Mesmo na penumbra, ele era ainda mais bonito do que nas fotos que vira. Ombros largos, cabelos escuros, a perfeição de suas bochechas e do nariz romano, assim como lábios carnudos, ligeiramente abertos. Suas sobrancelhas lindamente arqueadas ficaram ligeiramente franzidas com a intrusão, enquanto Alisa servia o café-da-manhã.

MAS ONDE estava? Ainda de ressaca, ele abriu um dos olhos, mas em vez de verificar, Benito continuou deitado, aproveitando o suave e doce aroma feminino que sentia, a voz suave que o despertava, observando dedos longos ligeiramente trêmulos servindo o café. — Que horas são? — Onze. — A voz dela agora vinha do outro lado do quarto. Benito virou em direção ao som e observou enquanto ela abria a cortina. Cachos escuros, presos para trás, caindo sobre o uniforme, cujo tecido servia para acentuar braços e pernas macios e, agora não saindo da letargia, Benito imaginou como ela seria de frente. — Gostaria que eu enchesse a banheira agora? Quando ela virou, a luz do sol que vinha por trás dela tornou seu rosto quase indecifrável, mas à medida que caminhava na direção dele, o que ele podia ver se tornava delicioso. Uma mecha cacheada emoldurava seu belo rosto, olhos escuros o observavam timidamente, sua boca rosada se movia de maneira desajeitada enquanto ela falava com ele, e o excesso de pano do vestido não ocultava a esplêndida curva de seus seios.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Desejando não estar de ressaca, Benito trouxe os joelhos para si e ela se inclinou, oferecendo o café. Ele notou que seus olhos escuros não eram negros, mas sim de um verde-escuro, e a fragrância feminina momentaneamente obscurecia o forte cheiro do café, provocando um efeito ainda mais perturbador. — Gostaria de tomar banho? — ela perguntou. Pegando a xícara da mão dela, Benito decidiu que precisava sair mais. Três noites dormindo sozinho e já estava sentindo atração pela empregada. — Por favor. — Deseja mais alguma coisa? Um sorriso muito safado preencheu os lábios dele, ao pensar em algo terrivelmente impróprio — ela era linda! Benito quase tirou as cobertas e disse a ela exatamente o que queria, e pela primeira vez em 25 anos, ruborizou diante de seus pensamentos maliciosos. — Arrume o banheiro. — Ele a dispensou com a mão. — Há muitas coisas de mulher lá. Quero tudo limpo. Estou cansado de olhar para aquele lixo. Jogue fora, por favor. — Claro. Enquanto arrumara o banheiro dele, adicionava óleos e trocava toalhas, Alisa se olhou no amplo espelho, praguejando sobre os cachos desarrumados e imaginando como poderia cuidar da aparência sem ter os instrumentos necessários para isso. Todo o seu dinheiro era direcionado para pagar o aluguel, comprar o remédio de Marietta, livros para a escola noturna e comida. E se ela não jogasse aquilo no lixo? Tirando a tampa de um batom, Alisa, perdida em seus pensamentos como uma criança brincando com a maquiagem da mãe, segurou-o perto da boca, tentada a experimentá-lo. — O que está fazendo? Ela deu um salto, culpada. Alisa não sabia há quanto tempo ele a estava observando, apenas com uma toalha enrolada na cintura. Ele caminhou por trás dela e olhou seu reflexo, observando cada detalhe de sua reação enquanto ela corava, envergonhada, não apenas por ter sido apanhada, mas pelo que estava por vir. Seu período como criada acabava de chegar ao fim.

CAPÍTULO DOIS

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81)

— Desculpe-me! — O olhar culpado de Alisa cruzou com o dele. — Eu não ia... — Ela sabia que aquilo parecia errado, que fora pega quando pensava em roubar. — Eu nunca... — A voz dela desapareceu, enquanto ele ficava parado em silêncio, observando-a. — Apenas achei que era uma pena desperdiçar tudo isso quando me pediram para cuidar melhor da aparência. — Quem disse que você precisa cuidar da aparência? — A cozinheira... todos eles. Eles dizem que para trabalhar com o senhor, devo me empenhar mais. — Ela baixou os olhos cheios de lágrimas. — E eu não tenho nenhuma maquiagem... — Então pode experimentar. — Os olhos azuis a fixaram pelo espelho, sorrindo de forma maliciosa. — Quem sabe se você melhorar a aparência, eu mantenho seu emprego? Canalha. Alisa queria sair dali, mas não tinha alternativa. Ela nunca havia usado um batom e achou a textura estranha sobre os lábios. — Gostei. — Ele a virou, pegou o batom da mão dela e passou suavemente nos lábios de Alisa. Ela fechou os olhos, envergonhada, certa de que ele estava rindo dela interiormente e que faria algo que pioraria seu vexame. Que diabos ele estava fazendo? Ele não se importava de ela pegar a maquiagem. Afinal, não precisava dela! Benito sabia que deveria tê-la mandado embora, mas ela era tão adorável... Aqueles olhos arregalados e amedrontados e o arfar de seus seios o haviam excitado, e agora ali estava ela, com a pele macia encostando na palma da mão dele. E aquela boca! Macia e carnuda, rosa e iluminada. E ele estava ali, nu, enrolado na toalha, em frente àquela beleza. Quando ela abriu os olhos, ele sentiu uma enorme vontade de beijá-la e retirar todo o batom. — Veja. — Ele a virou para o espelho e observou enquanto ela via a transformação. Ele sentiu um tremor quando ela suspirou, passando a língua pelos lábios. — O que você acha? — O que você acha é que importa. — Ele observou enquanto uma lágrima surgia no canto do seu olho. — Desculpe-me. Garanto que isso não acontecerá novamente. — Bom. — A voz dele de repente ficou firme. — Qual é o seu nome? — Alisa. — Bem, Alisa, você não precisa usar batom para... — Ele não concluiu o que ia dizer, o que pensava parecia impróprio. — Isso é tudo.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Ele ficou parado, enquanto ela saía correndo do banheiro. Desesperada, ela esqueceu de fechar a porta. Mas ele não a chamou novamente. Em vez disso, respirou fundo e apoiou o corpo na porta por um momento. Ela era realmente linda. Entrando na banheira, Benito tentou bloquear os traços dela de sua mente, mas mesmo com os olhos fechados, via seu rosto, aqueles lábios a apenas centímetros de distância. Ardendo de desejo, Benito saiu da banheira e pegou o telefone. — Pronto, Luca — disse, saudando o primo. — Por que você está ligando tão cedo? — Não quero passar o dia na cama. — Você quer andar de barco? — Não, acho que vou ao cassino, quero ver como anda meu investimento. — Claro — concordou Luca. — Vou pedir ao contador para separar os livros. — Não é nisso que estou interessado. Serei claro: é uma pena passar o dia sozinho na cama. — Então você e Victoria realmente terminaram! Você sabe que haverá muitas outras mulheres dispostas a ajudá-lo. —Bom—respondeu Benito, desligando o telefone. Luca era quase um irmão. Pelo menos era como um irmão deveria ser, Benito pensou. Seu irmão, o rei Alessandra de Conatarini, era mais uma figura paterna e desaprovadora que amigo e confidente Luca. Desde que nascera, seu pai e Alessandra estavam ocupados demais governando o país para se preocuparem com ele. Somente sua irmã, Francesca, se importara verdadeiramente, convidando-o para ficar na ilha de Niroli e ensinando a ele como um príncipe deveria se comportar. Ele pegou o interfone para solicitar o transporte e parou momentaneamente, diante do farto brunch que Alisa arrumava. — Eu almoçarei tarde hoje. Também devo voltar tarde. Se voltar. Ele pôde notar que os olhos dela estavam inchados de chorar. Isso o comoveu. — Deixei umas roupas no cesto perto da minha cama. Você pode cuidar disso corretamente. — Certamente, sua alteza real.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Benito — corrigiu ele. — Quando estou em casa, gosto de ser chamado de Benito.

Recolhendo as toalhas que Benito espalhara, Alisa começou a arrumar a cama. Mas enquanto ajeitava os travesseiros, terminou por levar o tecido macio ao rosto, sentindo o cheiro dele, reproduzindo os detalhes em sua mente. Não o medo e a humilhação, mas a sensação. A sensação daquele homem maravilhoso que a tocara, a respiração dele perto do seu rosto, a pele nua que forçava Alisa a fechar os olhos, que fizera o estômago dela se contrair com a proximidade. Pensamentos ousados, vergonhosos e desconhecidos inundavam sua mente confusa, enquanto ela o imaginava deitado naquela cama. Não seja tola, Alisa se reprimiu. Ela não tinha nem sequer o direito de se divertir com tais pensamentos. Ele era um príncipe real. Podia ter — e tinha — a mulher que quisesse. Com um suspiro, ela pegou o cesto pesado e o levou para seu próprio quarto. Mas ao segurar uma blusa, arregalou os olhos, maravilhada ao imaginar o conteúdo abaixo dela, todos os perfumes, todos os cremes, todas as maquiagens que vira estavam ali e agora eram dela. As palavras de Benito ecoavam em seus ouvidos enquanto Alisa cuidava das tarefas e antecipava a noite. Antecipava a visão do rosto dele quando ele chegasse, imaginando um olhar masculino de aprovação em seus olhos quando visse a mudança nela.

CAPÍTULO TRÊS

A luz fraca do quarto dificultava o estudo. As palavras pareciam borradas e a cabeça de Alisa pesava de exaustão. Ela tinha que ficar acordada. Precisara cumprimentar o príncipe e esperar que ele não percebesse a ausência de Alberto, o mordomo, que tinha ido encontrar sua mulher que estava doente. Alisa decidiu sentar-se no corredor. A luz era melhor e se dormisse, acordaria com o barulho do carro. — Sua alteza! — disse Alisa quando ele abriu a porta. — Onde está Alberto? E eu já disse que prefiro que me chame de Benito. — Posso lhe oferecer alguma coisa... Benito? Um jantar leve?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Você pode me responder a minha pergunta. Onde está Alberto? — Em casa. — Ela estava desesperada. — Sei que não está certo, mas a esposa dele passou muito mal hoje à tarde. Ele voltará amanha cedo. — Se a esposa dele adoeceu de repente, claro que ele deve se dedicar a ela. — disse Benito, encaminhando-se para o saguão e Alisa o seguiu. — Ela já está doente há algum tempo e hoje piorou. — O livro tremia em sua mão. — Ela tem apenas uma ou duas semanas de vida. Espero que compreenda... — Você acha que porque sou da realeza não tenho sentimentos? — Claro que não. — Alberto pode voltar ao trabalho quando estiver pronto. Se isso causar problemas com o palácio, eu interfiro. Até que ele volte, não preciso de um mordomo. — Não. — A palavra escapou da boca de Alisa. Seu coração pulava no peito e seus olhos escureceram, mas prosseguiu com o comentário. — Isso não ajudaria Alberto. Sei que tem boa intenção, sua alteza, quer dizer, Benito, mas o senhor não entendeu. — Eu. Não. Entendi. —Alisa certamente o enfurecera. — Chego em casa e não tenho mordomo, minha empregada está quase dormindo com a cabeça em um romance — ele pegou o livro e o sacudiu no ar — e em vez de demitir os dois, eu arranjo uma solução. — Eu estava estudando. — Alisa tentou pegar o precioso livro, mas ele o segurou no alto. — Por favor, preciso do livro. — Para quê? — Eu disse que estou estudando. — Turismo. — Ele franziu a testa. — Você sonha alto! Por isso que não se relaciona com os empregados? — devolveu o livro, viu seu ar reprovador. — Tenho visto a forma que a equipe olha para você, vejo que você prefere ir para o quarto em vez de... — ele deu de ombros. — Acha que é boa demais para eles? — Não, mas é assim que eles pensam — Alisa admitiu. — Dizem que eu deveria estar feliz com o que tenho, honrada por trabalhar no palácio. — Você acha que está acima disso? — Claro que não. Agradeço pelo meu trabalho, mas... um dia, espero fazer uma coisa melhor. Por favor, Benito. —Alisa apertou os olhos, não podia acreditar na confusão que havia causado. Não conseguia pensar em encarar Alberto de manhã... e esse pensa mento deu-lhe forças para continuar. — Sua oferta para Alberto é incrivelmente generosa... — Não receberei ordens de uma empregada. Mas continue. Diga o que não entendi.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — A-Alberto precisa trabalhar — ela gaguejou. — Se ele tirar folga, não será pago e agora, mais do que nunca, precisa do dinheiro. — Certamente ele quer ficar com a esposa. — Querer e precisar são coisas diferentes. — De alguma forma as palavras o atingiram, mas não do jeito que ela pretendia. — Claro que são. — Ele passou a falar lentamente, a raiva tinha sumido, mas ele ainda representava perigo. — Você é a estudiosa aqui. Diga, qual é a diferença? — Não sei. — Alisa umedeceu os lábios. — Querer é desejar, ansiar... — E precisar? — Precisar... — ela podia sentir sua face ardendo ao perceber que estava sendo examinada. — Continue. — Precisar tem a ver com obrigação, com o que é necessário. Houve um silêncio interminável e o coração dela disparava no peito. O destino de Alberto estava nas mãos de Benito. — Você pode cobrir a ausência dele sem que eu precise informar ao palácio? — Claro. — Alisa respirou profundamente, imaginando se ousaria falar com ele agora sobre Marietta. Contai- a ele que ela tinha que passar em casa todas as noites para dar-lhe um beijo e os remédios, mas Alberto precisava tanto disso que ela achou melhor não falar. — Quando eu estiver fora — ela sentia seu coração bater enquanto ouvia as exigências dele —, você pode usar o computador. — Ela não conseguiu conter a surpresa. — Obrigada. Eu realmente agradeço muito. — Vá dormir agora. Ela sabia que devia agradecer e se retirar, mas ficou parada a centímetros dele. Benito falou primeiro. — Ainda não decidi se a maquiagem fica bem em você. Alisa riu levemente. — Eu também não. Parece muito trabalhoso e meu travesseiro... — ela se interrompeu, mas Benito a incentivou. — Continue.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Esqueci de retirar o batom uma noite... — ela não continuou, sabia que de alguma forma eles ultrapassavam uma barreira, especialmente quando fixaram o olhar um no outro, principalmente quando, após uma longa pausa, Benito revelou o que pensava. — Travesseiro de sorte.

CAPÍTULO QUATRO

— Ande, Marietta — disse Alisa, abraçando a irmã, que tossia muito. — Você tem que tomar o remédio. Alisa virou-se para a vizinha e amiga Bella e disse: — Ela precisa ir ao médico. — Você já deu o remédio — Bella falou. — Ela está apenas com saudades de você. — Também estou com saudade — suspirou Alisa, apertando a irmã em seus braços. — Amanhã, depois da missa, passaremos a tarde toda juntas. — Você parece cansada. Está muito ocupada? — Não muito. Benito permitiu que eu use o computador, então tenho estudado bastante. — Por que ele está lhe fazendo tantos favores? — Porque ele é... gentil — disse, Alisa desviando o olhar de Bella. Ela se esforçou para lembrar a si mesma de que ele era um príncipe e ela, uma mera empregada, e que nada aconteceria, mas a oportunidade de falar sobre ele era muito tentadora. — Ele é muito gentil, às vezes, Bella, apesar de todas as fofocas sobre ele. — Um homem acostumado a ter tudo o que quer! — Bella comentou. — Tome cuidado, Alisa. — Como se ele fosse olhar para mim! — Você é jovem e linda. E tem um coração de ouro, do tipo que ele usaria e jogaria fora sem pestanejar. — Talvez — Alisa concordou. — Eua conheço, Alisa. Você é sonhadora. Uma noite nos braços dele não será o bastante para você. Você precisa de mais do que a esmola que o príncipe Benito lhe ofereceria.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Você precisa ver como ele vive, Bella... Nunca vi tanto desperdício. Por que ele tem tudo e Marietta, nada? — Ela tem você — respondeu Bella sabiamente. — Quando você terminar os estudos, poderá dar a ela tudo o que deseja, o que os seus pais gostariam que vocês tivessem. Ao ouvir sobre os pais, Alisa se emocionou. Ainda sentia muita falta deles, mesmo depois de cinco anos. — Eles teriam tanto orgulho de você. Teria sido tão mais fácil deixar Marietta com as autoridades... em vez disso, você a assumiu como uma filha. — Eu não teria conseguido sem você. — Alisa abraçou a amiga mais velha. — Eu retribuirei. Assim que puder, pagarei sua operação de vista. — Sonhando novamente! — Ótimos sonhos — Alisa comentou. — Preciso ir. Estarei sozinha à noite, e se ele voltar e não tiver ninguém... — É sábado à noite — Bella riu. — Por que Benito ficaria em casa?

Entrando no saguão escuro, Alisa quase gritou quando o viu sentado em uma cadeira com uma expressão sombria no rosto. — Tive que preparar meu próprio jantar! — Ele olhou para ela de forma acusatória. — Voltei para uma casa vazia, sem empregados. Quase liguei para o palácio! Ela devia ter pedido desculpas para manter seu emprego, mas os soluços de Marietta ainda ecoavam em seus ouvidos. E a vergonha de desejá-lo tanto... Em vez de assustá-la, a reação dele a enfureceu. — Pobre Benito — disse em tom de deboche. — Teve que abrir a própria porta, acender as luzes sozinho e depois preparar o jantar! — Isso não é maneira de falar comigo. — Ele se levantou, pegou o pulso dela e a trouxe para si. — Sou seu chefe. — Não agora — Alisa retrucou. — Portanto, não me humilhe insistindo para que eu peça desculpas, se vai me dispensar um segundo depois. Não me arrependo de ter ido em casa por meia hora para dar um beijo de boa-noite na minha... minha filha. — Você tem uma filha? — Tenho uma vida, alteza. Uma vida que o senhor está prestes a destruir. Portanto, chega. Ele devia... Benito sabia exatamente o que devia fazer. Mas a raiva que o corroía agora não era por isso. Ela tinha um marido esperando em casa, sentindo falta daquele corpo esguio todas as noites, assim como Benito sentiria sua falta.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Droga, ele tinha ido para o cassino, passara as últimas três noites tentando aproveitar a glamourosa Niroli, mas sem conseguir. Pensava apenas em Alisa. — Você precisa deste trabalho? — Ele a encarou. — Claro. — E se eu permitir que você vá dar boa-noite para sua filha todos os dias? — Ele viu a esperança que brilhara nos olhos dela desaparecer quase instantaneamente, ao estabelecer uma condição. — E depois voltar para me beijar? Se qualquer outra tivesse dito aquilo, ela teria achado um absurdo, mas encarando-o, o calor dos dedos dele em seu pulso, sentiu um calor percorrer todo seu corpo. Ela continuou parada, quando os lábios dele encontraram os dela, movendo-se gentilmente em sua carne resistente, enquanto a mente dela implorava por razão. Ele era hábil. Se tivesse se movido rápido demais, ela teria se afastado, teria dado um tapa em seu rosto com as mãos tensas, mas em vez disso, sua cabeça inclinou-se ligeiramente para trás enquanto os lábios dele percorriam seu pescoço. Ele beijou a pele dela lentamente, dirigindo-se para sua orelha. Ela ficou arrepiada. — Ou — disse ele —Seu beijo. Dessa vez, não falou de modo implicante, toda a sua boca estava na dela, sua língua era deliciosa. O corpo de Alisa estava em chamas, faltava pouco para ficar colocada ao corpo de Benito. Sua mão soltou o pulso dela e penetrou nos cachos de Alisa enquanto ele a devorava, sua masculinidade rígida e forte contra o corpo dela. Era uma delícia se perder pela primeira vez em tanto tempo, não pensar, simplesmente sentir... — Eu quero você — ele sussurrou entre beijos. — Desde aquela manhã em que a vi pela primeira vez... Eu a desejei. Não a demitirei se você... As palavras dele a levaram do êxtase ao inferno, os termos ofensivos da oferta finalmente foram entendidos. Sem fôlego e com raiva, ela o empurrou. — Não serei sua puttana! — Ela disse com fúria enquanto saía pela porta. — Eu limpo o seu chão, alteza, e só. Tremendo de ódio, ela bateu a porta do quarto, tirou o uniforme e pulou na cama, cobrindo-se com o lençol, chocada com as palavras dele e pensando no seu significado. Pelo bem de Marietta, talvez devesse ter atendido às necessidades óbvias dele. Necessidades óbvias dela, Alisa fechou os olhos, horrorizada. As palavras que ele murmurara no calor da paixão podiam ter sido dela mesma. Ele tinha acabado com a intimidade porque pronunciara a verdade impossível. Desde aquela manhã em que a vi pela primeira vez... Eu a desejei. Ela também o desejava.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Mas queria mais do que uma noite com ele. Ela queria o impossível.

CAPÍTULO CINCO

Navegar era uma das paixões de Alisa. Havia um pequeno barco que podia ser usado pelos funcionários do palácio. Enquanto Marietta ia à aula de catecismo, Alisa aproveitou a oportunidade para esquecer os problemas. Navegar no oceano, sentindo o vento nos cabelos, normalmente era um alívio... mas não hoje. Saindo do barco e amarrando-o, Alisa pensou no que faria pelo resto da manhã. Estava com medo de voltar para a villa e ouvir seu destino, mas não sabia como poderia fingir estar contente para Bella e Marietta. Na noite passada, ela desejara as mãos de Benito sobre ela, desejara que ele quisesse fazer amor com ela e não havia dúvida de que seria recompensada. Então por que não fora em frente? Porque queria mais do que isso. Não apenas sexo, mas um amante e alguém igual a ela.

Usando apenas uma bermuda, Benito usou o iate para ir ao cassino. Estava acordado desde o amanhecer, sabendo que devia demitir Alisa. Mas não queria. Ele podia ver a raiva nos olhos dela, o desgosto em sua face, e sentiu vergonha de si mesma. Pela primeira vez em sua vida indulgente, Benito pensava em sua vida e não gostava do que via. Suas maneiras frívolas, as incontáveis mulheres, as festas, o jogo. Claro que ele ganhava seu próprio dinheiro, tinha negócios em todo o mundo, e não vivia apenas da realeza. E na noite passada, com filha ou não, com marido ou não... ele a desejara. Inicialmente, ele não a reconhecera arrastando um pequeno barco. O short caqui acentuava suas pernas longas e bronzeadas. Ela usava sandálias gastas e a parte de cima de um pequeno biquíni vermelho que deixava pouco para a imaginação. Mas ele a reconhecer pelos cabelos encaracolados. Seu lindo rosto parecia confuso enquanto ela estava perdida em seus pensamentos. Ela franziu a testa quando ele a chamou. — Alisa, quero conversar.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Por quê? — Ela olhou para ele diretamente. — Acho que não há muito a dizer. Estou voltando para a villa agora, não há dúvida que devo ir embora. — Eu não a demiti. — E eu não mudei de opinião quanto as solicitações da última noite. Ele a chamou com um breve aceno e somente uma tola teria recusado-se a segui-la, portanto entrou no barco, olhando para baixo e concordarem. — Eu não estava pensando ontem à noite... Minhas palavras... minhas ações. Sei o quanto pareci leviano, mas a verdade era que eu queria mais que um beijo. — Você deixou isso bem claro! —Alisa retrucou, corando. — Sim, eu queria isso, mas queria você também, Alisa. Queria conversar com você, conhecê-la melhor. — Não há muito para conhecer. — Não acredito... Vejo o quanto tem orgulho, o quanto trabalha! — Ela olhou para ele, confusa. — Vejo desgosto em seus olhos quando você olha para mim. Também pensei ter visto... — ele fechou os olhos. — Pensei que pudesse haver algo entre nós. Certamente estava errado. — Não estava. — A voz dela estava trêmula por causa das lágrimas. Emoção, frustração, confusão foram saindo quando ela revelou a simples verdade a ele. — O custo de apenas uma noite com você seria muito alto para mim. — E se não fosse apenas uma noite? — Suas palavras a atingiam. Ela estava tonta com o que ele oferecia. — E se eu vier a Niroli com mais freqüência... Ele a abraçou agora, seus dedos enxugavam as lágrimas de Alisa enquanto ela imaginava um futuro como amante de Benito. — Eu poderia cuidar de você. — As pessoas iriam... — As palavras dela sumiram quando ele pressionou seus lábios com o polegar. Todos os nervos do corpo dela gritavam pela mesma atenção, o ar estava repleto de luxúria, ela mal podia respirar. — Se eu beijá-la agora, Alisa, isso será necessidade ou desejo? — Você já sabe a resposta. — Ela fechou os olhos, quase com raiva dele pelo fogo que ele acendia, enfraquecendo seu corpo e sua mente com desejo. — Diga. — Desejo. — Os lábios úmidos e carnudos ofereceram a resposta, o que disse foi praticamente imperceptível, antes da boca de Benito encontrar a dela, cada célula do corpo dela em alerta quando ele a devorava lentamente. O gosto dele era, tão proibido que só podia ser divino.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Cuidarei de você. — Benito beijava seu pescoço agora, beijos quentes, fervorosos, sua cabeça divagava conforme desejos adormecidos ganhavam vida. A língua dele circulava as pontas das orelhas dela e se movia para baixo, os seios dela inchavam contra o peito nu de Benito e ela quase ficou sem ar quando ele clamou por um bico rígido e o sugou profundamente. — Eu cuidarei de você... — Os dedos dele brincaram com o zíper do short dela, depois deslizaram para dentro, brincando com sua parte íntima, enquanto sua boca fazia mágica e a outra mão puxava o short dela para baixo. — Posso vê-la quando eu vier a Niroli. Podemos ser discretos. Não havia nada de discreto no que faziam. Talvez ela pudesse ser sua amante, talvez pudesse ser ama algumas noites, adorada por esse lindo homem, ser cuidada pela primeira vez. Ele a conduziu à cabine, beijando-a enquanto caminhavam, pele com pele, sua boca passeava pelo corpo dela. Seus desejos se correspondiam, mãos nervosas os livravam das roupas, pernas quentes cediam sob o peso dele sobre ela. Mas o desejo, mesmo que fosse intenso, não podia preparar o corpo de uma virgem para sua primeira vez. Bateu em seu peito quando ele a penetrou sem conseguir liberar o soluço preso em sua garganta, dividida entre desejo e agonia, quando ele se acomodou mais profundamente em seu espaço mais íntimo. — Não... — a palavra relutante era um soluço, um grito abafado, enquanto suas coxas se contraíam em um reflexo arrependido, enquanto ela tentava acomodá-lo. — Eu machuquei você? — Ele parou imediatamente, ficando impressionado diante das lágrimas dela. — Pensei que quisesse... — Eu queria... — ela murmurou. — Eu quero... — Ela chorava agora, assustada e dolorida, mas ainda desejando-o. — Nunca fiz isso antes. — Ela sabia quais eram as perguntas que ele queria fazer. — Não contei a verdade sobre Marietta. Ela não é minha filha. — Soluçando, ela tentou se cobrir. — Ela é minha irmã. — Sua irmã? — Ele olhou para ela, confuso. — Por e você mentiria para mim? Por que disse que ela a sua? — Porque a tomariam de mim! — Ela olhou para e com o rosto inchado, os olhos implorando por compreensão. — Mas você e seu marido certamente podem... — Não tenho marido! Eu a crio sozinha. — Quando? — Como se ela estivesse pegando fogo, ele a soltou. Então repetiu a pergunta que Alisa sempre fizera a si mesma. — Quando cuida dela?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Tenho que trabalhar. — Alisa engasgou. — Tenho que pagar os remédios dela. Benito, ela não é saudável, precisa de medicamentos... — E isso é alguma surpresa? — Ele a olhava com aversão A rispidez na voz dele a magoou. — Você nunca está com ela. E no seu único dia de folga, você sai para navegar e se divertir... Vestindo-se e chocada com a reação dele, ela correu para fora do barco, mas não tinha como esconder a verdade. Suas palavras terríveis a perseguiam enquanto corria pelo píer até que, tonta e sem fôlego, ela chegou na igreja para pegar a irmã. Talvez seja melhor para ela ficar sem você.

CAPÍTULO SEIS

Benito não queria pensar na vida dela, pois teria que repensar a própria vida. Caminhando pela villa, ele pensava em como demiti-la, como já fizera antes com tantos funcionários por uma gota de vinho ter caído em seu terno ou porque o fogo não estava aceso quando chegou. Ele trabalhava muito! E eles também. Ele merecia respeito. Porquê? — Porque sou da realeza! — ele gritava, olhando para as águas do Mediterrâneo, para as ilhas onde passara a infância. Sozinho. Não era sozinho... Havia babás, mordomos, empregadas... Mas seus pais e seu irmão nunca estavam disponíveis. Francisca, sua irmã, havia tentado. Mas quando alguém realmente se importara com ele? Quem cuidava da irmã de Alisa? Benito fechou os olhos arrependido, furioso consigo mesmo, com ela, com todos. Ele apertou o copo vazio ao lembrar do soluço de Alisa quando ele a penetrara.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Alisa alguma vez o desejara verdadeiramente? — Príncipe Benito — A voz dela não o acalmava agora. Ele se virou para olhá-la com a expressão totalmente fechada. — Compreendo que deva me demitir. Só pedirei que não revele... imploro para não revelar a verdade sobre minha irmã. — Existem regras, Alisa. A realeza de Niroli assiste o povo. Sua irmã terá educação, alimentação adequada... —Alguém vai dar um beijo de boa-noite nela? — perguntou Alisa. Ele não respondeu. — Ninguém vai amá-la mais do que eu. Não concordo que ela vá ficar melhor bem alimentada e sem amor. — Ela não pode contar com você. — Minha vizinha me ajuda. — Sua vizinha? — Benito ironizou. — Bella é uma boa mulher. Ela vai perder a visão em dois anos, porque não pode fazer a cirurgia de que precisa. Vou cuidar dela assim como ela cuida de Marietta agora. — Há um hospital. A Família Real cuida do povo... — O hospital não faz a cirurgia de que Bella precisa. A sua família pagará pelo transporte para o continente, pelas consultas e depois pela operação dela? Você opta por não ver a desigualdade, Benito, bem a escolha é sua. Acredite na propaganda, se isso o faz dormir melhor à noite. — Durmo muito bem à noite. Eu vou embora depois do baile, no sábado. Você vai continuar a trabalhar para mim até lá, mas com uma condição: irá ao baile comigo. — Não! Você sabe que isso vai me prejudicar. Nunca mais poderei trabalhar aqui se for a esse baile. Se você for embora logo depois, toda Niroli saberá... — Essa é minha intenção! Eu lhe darei dinheiro suficiente para que não precise trabalhar por uns dois anos, para que possa estudar à noite e cuidar de Marietta. — Por que se importa com ela? — Lágrimas rolavam pelo rosto de Alisa. — Você nem a conhece. — Ela me faz lembrar uma pessoa. Então qual é a resposta? Aceita a oferta? — Suponho que eu tenha que passar a noite com você depois? — Claro. Mereço uma compensação. — Eu também! Portanto você pagará a cirurgia de Bella! — Você não está em posição de exigir nada!

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Oh, posso não estar na melhor posição agora... — Lentamente, ela caminhou até ele, odiando-o pelo que tentava esconder sob toda aquela pompa. Ela pressionou os lábios sobre os dele, puxou a mão dele e colocou sobre ela, seus dedos resistentes, sua respiração tensa enquanto ele tentava parecer imóvel, mas a força de seu desejo dizia o contrário enquanto ela o provocava. — Como você sabe, não sou muito experiente. Acho que terá que me mostrar sua posição preferida depois do baile. — A voz dela era um sussurro enquanto ela o tocava, brincando com o zíper por um momento e, depois de um suspiro, quebrando todo o contato. Ela não queria saber se suas ações pareciam despudoradas, Alisa sabia que tinha algo que o príncipe Benito queria muito e tinha toda intenção de usar esse poder a seu favor.

CAPITULO SETE

Olhando para o vestido de gala sobre a cama, Alisa pensou que naquela noite dormiria com o príncipe Benito e lhe daria o que prometera e o que desejava. Por mais que brigasse com ele, ela ainda o queria. — Alisa? — Duas batidas na porta e era Benito. Ela queria tanto dizer a ele como se sentia. Mas naquela noite, era apenas mais uma para ele... Quando ele abriu a porta, maravilhoso em trajes formais, ela parou de pensar em dizer a verdade. Por que Benito se importaria com a possibilidade dela amá-lo? Ele já sabia que ela era linda. Mas vendo-a naquela noite, com aqueles olhos de jade brilhando sob a maquiagem, a boca bem pintada, ela estava mais do que linda... Estava parecendo pertencer à realeza. Mesmo que o mundo dela fosse menor que o seu, mesmo que ela lhe tivesse oferecido seus serviços naquela noite, sua intenção era nobre. Alisa era uma mulher que se sacrificaria pela família. Enquanto o carro se dirigia ao palácio, Benito pensou que desejava poder dizer o mesmo sobre ele. O povo aplaudia e saudava a realeza na rua. Saudava Alisa. Os rumores corriam de boca em boca. Uma empregada dormia com o príncipe. Uma pobre empregada com uma filha bastarda roubara o coração do príncipe Benito.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) O escândalo foi esquecido quando ele a conduziu pela escadaria do palácio, pedindo que ela virasse e acenasse. — Eu já lhe disse como está linda? — Nunca. — Ele observou enquanto ela forçava um sorriso ao acenar para a multidão. Ele nunca havia se odiado tanto. Naquela noite, Benito observou que ela era uma aspirante a princesa, mas assim que ele partisse, aquele mesmo público a julgaria. Amanhã ela seria uma prostituta.

Eles eram o casal mais bonito. Alisa conversou ligeiramente com alguns dignitários. Pela primeira vez, Benito se questionou o impossível. Ele poderia tê-la como esposa? Pela primeira vez na vida, Benito não estava pensando em si mesmo ou em seus deveres reais. Estava pensando nela. Queria saber se aquela mulher teimosa e orgulhosa poderia aceitá-lo. — Preciso conversar sobre nosso acordo — Benito falou. — Achei que estaríamos muito ocupados para conversar. —Alisa, não... — Os olhos dele imploravam para que ela o ouvisse, enquanto dançavam. — Uma noite não será suficiente para mim. A pausa na dança foi providencial. Com os olhos lacrimejando, Alisa saiu rapidamente. Benito a encontrou no canto do salão, e ofereceu champanhe a ela — Você não vai ficar longe de mim. — Vou tentar lembrar qual é o meu lugar. Mas você terá que me ajudar, Benito. Eu devo continuar fazendo sua cama ou me deitar nela? — Não fale desse jeito! — Mas é assim que eu me sinto! — Benito! Come ‘sta? — O príncipe Luca Fierezza não percebeu que havia interrompido uma discussão e iniciou uma conversa com Benito. — Signora Moretti, desculpe-me pela interrupção — Giovanni, um dos garçons, se aproximou de Alisa. — O que houve?

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Temos uma ligação para a senhora... Sua vizinha está ligando do hospital. Ela sabe que não devia atrapalhar sua noite mas... Marietta foi hospitalizada. O único pensamento de Alisa foi chegar até a irmã. Não importava se estava em um grande baile. Não importava se aquele era seu passaporte para um futuro melhor. Sem Marietta, não haveria futuro. Quando ela saiu do salão de baile, por um momento pensou em avisar a Benito aonde estava indo, mas qual seria a importância? Ela podia vê-lo conversar com Luca, dois playboys juntos. Por que se importariam com o mundo real? Benito queria seu corpo, não seus problemas. Ele havia deixado isso bem claro.

— Ela parece chateada! — Luca debochou enquanto Alisa saía do salão de baile. — Muito cuidadoso, Benito. Normalmente você espera amanhecer para dizer a elas que acabou. — Eu estava tentando dizer justamente o oposto. Infelizmente para mim, resolvi me apaixonar pela única mulher em Niroli que não se impressiona com o meu título. — Ela volta logo. Ser amante do príncipe tem suas mordomias. — Não quero que ela seja minha amante. — Benito sorriu diante da expressão de choque do primo. — Então por que ainda está aqui? — Eu nunca corri atrás de uma mulher. — Você nunca precisou fazer isso... — Desculpe, alteza — disse Giovani —, eu nunca interrompo nessas ocasiões, mas quando soube que o estado de saúde da criança era crítico, não tive escolha... — A criança! — Benito ficou pálido. — Marietta? — Ela parou de respirar.

Benito conhecia bem o hospital, ou, achava que conhecia. Nunca esqueceria a face incrédula da enfermeira quando entrou na ala pediátrica. — Pensei que ela tivesse parado de respirar, que ela... — Ela parou. — Alisa segurou a mão da irmã com força. — Mas está melhor agora.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Onde está o médico? — Não sei. — O que ele disse? — Não sei. Ele lutou para manter a voz firme. — Ele deve ter dito algo! — Não para mim! Não estamos na ala da realeza. A enfermeira disse que Marietta deve descansar. Se eu a tivesse trazido antes... — Não é sua culpa. — Pela primeira vez, Benito percebeu a senhora mais velha sentada na cadeira. Ele a viu olhar para Alisa. — Eu falei para você esperar. — E eu estava no baile e... — Alisa não terminou, não conseguiu. Seus olhos se fecharam em arrependimento, enquanto médicos e enfermeiros rodeavam a cama de Marietta, agora que a realeza estava presente. Benito finalmente viu a desigualdade a que Alisa se referia. Olhando para Marietta enquanto ela lutava para respirar, ele se questionava por que aquela pequena vida valia menos.

CAPÍTULO OITO

Vendo Marietta corada e feliz em seu quarto particular, Alisa sabia que tinha sido precipitada ao declinar a oferta de Benito para ser sua amante. — Volte para a villa — Benito sugeriu. — Tome um banho e descanse... — Não quero deixá-la. — O príncipe Benito está certo — Bella insistia. — Está aqui há dois dias. Precisa descansar. Descansar! Alisa sorriu diante do comentário inocente de Bella. Os olhos de Benito estiveram sobre ela a manhã toda. Barba desfeita, vestido de calça e camiseta pretas, ele parecia tão pensativo, tão tenso, que ela podia sentir a energia masculina encher o quarto. Cama podia estar na agenda de Benito para ela, mas dormir certamente não estava.

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) Parecia surreal entrar pela porta da frente. Também era estranho esperar enquanto Bianca lhe preparava um banho. — Pensei que ela tivesse sido demitida. — Eu a chamei de volta. — Parece que você tem muitos com quem ser caridoso! —Alisa disse com sarcasmo. — Tenho muito a acertar. Alisa não prestou atenção no comentário enquanto ia para o banheiro. Ela merecia um banho quente, depois de dois dias com a mesma roupa, maquiada e com fixador nos cabelos. Ela não estava pronta para a maratona sexual que Benito queria, seu corpo estava exausto. Alisa gostaria de recuperar o fervor daquele momento no barco, relembrando aqueles momentos. Em pouco tempo estaria nos braços do homem que amava. Saindo do banho, ela dispensou o roupão e se enrolou na toalha. Ao pentear os cabelos, suspirou e rezou para que Benito gostasse dela do jeito que era. — Obrigada... por ter cuidado de Marietta. — Nervosa, ela parou diante dele. — Por ter cuidado de mim. Na ponta dos pés, ela encostou os lábios sobre os dele e o abraçou, esperando que ele retribuísse e não tornasse as coisas tão difíceis. Ela tentou apimentar o beijo, atiçando os lábios dele com a língua, tentando abrir aquela boca rígida. — Pare! — A voz dele era firme. Ele a afastou. — O quarto de hóspedes está sendo preparado. — Não entendo — Alisa disse. — Pensei que quisesse... — Não quero que seja uma obrigação. — Ele praticamente gritava. — Não é assim que a noiva de um príncipe deve se comportar... — Noiva? — Ela riu diante da impossibilidade disso. — Eu disse a você que queria conversar... — Ia me pedir em casamento? — O que achou que eu fosse dizer? Sei que tenho sido egoísta. Entendo suas dúvidas. Só posso dizer que mudarei. Que agora vejo que tenho ignorado os verdadeiros deveres reais. Quero você ao meu lado, Alisa. Quero que me mostre o certo e o errado. Vou me mudar para Niroli... Vou cuidar de Marietta, da cirurgia de Bella... Ela não podia aceitar isso. Benito estava lhe oferecendo esmolas. Se não fosse tão impossível, tão inadequado, ela poderia acreditar que ele...

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Chantagem da Paixão – Miranda Lee (Paixão 81) — Eu amo você, Alisa. — Suas palavras foram como um beijo. — Amo você pelo que é, porque daria tudo o que tem para tornar as outras pessoas mais felizes, porque me faz rir e me faz ver o que é certo... — Não posso. Benito fechou os olhos, desolado, e não viu o sorriso dela. — Como você sabe, não ligo muito para o que é certo, então espero que entenda que não posso ir para o quarto de hóspedes agora! Ele a amava. As mãos que tremiam agora se dirigiam ao lindo rosto dele. A energia sexual que ela julgava impossível encontrar fluiu por suas veias. — Não está certo... — ele fechou os olhos enquanto ela beijava o rosto dele. Ela ouviu o gemido dele de frustração, quando não conseguiu resistir. — Como minha futura esposa, você deve ficar no quarto de hóspedes... Quem era essa mulher? Alisa imaginou, enquanto tocava o peito dele sob a blusa. Quem era aquela mulher ousada que tinha o príncipe Benito implorando por misericórdia? Ela insistiu. — Uma princesa não pode gostar disso? — Você vai adorar. — Sua promessa a deixava trêmula. A toalha estava no chão agora, servindo para que ele se ajoelhasse e repetisse o pedido. Depois, com cada movimento de sua língua, com cada toque calculado das mãos dele, garantindo que dessa vez ele seria gentil ao penetrá-la, Alisa estava completamente pronta. O cuidado dele era desnecessário, mas delicioso. — Senti sua falta. — Penetrando-a profundamente, a alma de Alisa sentiu-se curada. — Senti sua falta por toda a minha vida. — Eu também... — Sem sequer perceber, ela tinha sentido falta de ser importante na vida de alguém. Com cada movimento terno, ele a completou. O bálsamo do clímax foi compartilhado, mas, de alguma forma, privado. Os dois tinham um lar pela primeira vez.

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[miranda lee] chantagem da paixão  
[miranda lee] chantagem da paixão  
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