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80 anos do Rรกdio Botucatuense


80 anos do Rรกdio Botucatuense


ADRIANA MARIA DONINI (org.)

8080 anos do Rádio Botucatuense 1ª edição

Botucatu Cata-vento Comunicação Adriana Maria Donini (editora) 2019


80 a-

Rádi

no do

Coleção História da Comunicação Editora: Adriana Maria Donini Imagens da capa: Adriana Donini/Alexander Lesnitsky (Pixabay) Contato: comunicacatavento@gmail.com

Textos de responsabilidade dos autores

Ficha catalográficaFicha

80 anos do rádio botucatuense / organizadora, Adriana Maria Donini – 1. ed.- Botucatu: A. Donini, 2019. 84 p.: il. Inclui bibliografias Recurso digital (5,9 MB) 1.Rádio em Botucatu. 2. História. 3. Comunicação I. Adriana Maria Donini


Sumário Apresentação ..................................................................................

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Relatos A PRF-8 do meu tempo .......................................................................

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Joel Carlos da Silva Coelho

Vivências no rádio ...............................................................................

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Marcelino Domenico

Sonho convertido em realidade ............................................................

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Nélson Camargo

Radioteatro .........................................................................................

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Joel Carlos da Silva Coelho

Da técnica à produção e locução: breve histórico de minha trajetória ................................................................................... 25 Rubens Roberto Herbst

Recordações de minha atuação profissional na PRF-8 ........................... 27 Benedito Santa Rosa

Lembranças no aniversário de 80 anos da PRF-8 .................................. 30 Silvio Carlos Daré

53 anos de rádio .................................................................................. 35 Waldir Duarte Florêncio

Esportes em Botucatu No Ar ................................................................ Benedito José Gamito

De ex-funcionário a contador de histórias .......................................... Haroldo Amaral

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Memórias de três décadas de trabalho no rádio ................................... 44 Walter Cesar Pianucci Pereira (Cesar Júnior)

Entrevistas Odayr Marsano - trajetória de sucesso no rádio e como compositor Adriana Donini .......................................................................................

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Oduvaldo de Oliveira: criador do “Galeria dos Mirins” e atuação na área esportiva .................................................................................... Adriana Donini

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Perfis Plínio Paganini: o símbolo da Rádio Emissora de Botucatu .................. Equipe Catavento Comunicação

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Vanderlei dos Santos: vasta trajetória na Rádio Municipalista ............. Equipe Catavento Comunicação

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Apresentação Em nível nacional, alguns setores e associações, como é o caso do grupo “Rádio e Mídia Sonora”, da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação (Intercom) reconhecem a Rádio Pernambuco como sendo a responsável pela primeira transmissão radiofônica, em 6 de abril de 1919. Portanto, há 100 anos. Diferentemente de publicações que consideram o pioneirismo de transmissões que ocorreram na festividade alusiva aos 100 anos da Independência do Brasil, em 1922, e como primeira emissora a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que começou a funcionar em 23 de abril de 1923. No município de Botucatu, as tentativas de instalação de uma rádio tiveram início em 1934. A inauguração da pioneira Rádio Emissora de Botucatu ocorreu há 80 anos, em 30 de outubro de 1939. Dessa maneira, 2019 é ao ano de seu Jubileu de Carvalho. Inicialmente, à rádio foi atribuído o prefixo PRF-8, anunciado com suspense na noite de sua inauguração. Apesar de essa sigla ter deixado de ser empregada na radiodifusão, em Botucatu, a população não conseguiu dissociá-la da Rádio Emissora e continuou denominando-a por PRF-8 ou simplesmente F-8. Ter uma emissora no município foi uma conquista importante e a sociedade local passou a estar em sintonia com esse canal de comunicação, seja pelo aparelho de rádio, promoção de eventos em parceria ou participação em atividades realizadas no auditório da emissora. As principais atuações e fases da história da PRF-8 nesses 80 anos foram radioteatros e radionovelas; programas de auditório infantis, para jovens e adultos; produções jornalísticas e de entretenimento; transmissões externas em geral e esportivas; realização de eventos comemorativos ao Dia das Mães; festividades nos aniversá6


rios da rádio; Olimpíada Infantil; Dia do Sertanejo; e envolvimento em campanhas sociais. Até 1962, quando ocorreu a inauguração da Rádio Municipalista, a F-8 era a única emissora de Botucatu, portanto, esse período de 23 anos, contribuiu para que a Rádio Emissora firmasse elo com a população. Quarenta anos depois, o município viu surgir mais uma novidade: a inauguração da primeira emissora de Frequência Modulada (FM), que teve início em abril de 1979. A concessão da Cultura FM como foi denominada - também pertencia à família Paganini, que estava à frente da F-8 desde o final dos anos 1950. Inclusive, as duas rádios passaram a funcionar no mesmo prédio e vários funcionários atuavam nas duas empresas. Em 30 setembro de 1989, foi inaugurada a Clube FM e, em abril de 1994, a Criativa FM. Ampliando-se, dessa maneira, os canais de rádio no município. Em 2018, a F-8 passou a integrar rede de emissoras de rádio e ser denominada de Jovem Pan News F-8. Atualmente, além dessas emissoras, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) também operam no município a Associação de Rádio Comunitária de Botucatu e a Associação de Radiodifusão Comunitária do Brito de Rubião Júnior. Existem ainda várias web rádios. Com o surgimento de novas tecnologias, há sempre preocupação com a sobrevivência de mídias anteriores, porém, o rádio, em geral, passou por modificações para se adaptar a novos contextos, explorando utilização de plataformas e permanece entre os principais meios de comunicação. A edição de 2018 do Book de Rádio do Kantar Ibope Media apontou 86% de audiência do rádio tendo por base medição realizada em 13 regiões metropolitanas, sendo que três em cada cinco ouvintes escutavam esse meio de comunicação diariamente no período do estudo. (KANTAR IBOPE MEDIA, 2018) No cotidiano profissional, as pessoas que atuaram ou tra7


balham no rádio vivenciaram vários momentos, tristes e engraçados e que são importantes registros das histórias das emissoras, objetos de estudo a pesquisadores e escritores. Considerando esses aspectos e os 80 anos do rádio em Botucatu, celebrados em 2019, a Cata-vento Comunicação abriu chamada pública para envio de textos que abordassem a trajetória desse meio de comunicação em nível local. Os textos recebidos retratam várias vivências, como sonho de trabalhar em uma emissora, a maneira de ingresso no rádio, descrição de programas que os autores comandavam. O foco maior das contribuições foi em relação à Rádio Emissora de Botucatu, canal em que iniciaram suas carreiras. Tendo em vista a importante contribuição de textos redigidos e encaminhados por José da Silva Coelho (in memoriam), mesmo sendo em período anterior a essa chamada, o conselho editorial decidiu incluí-los nesta publicação. Este livro está dividido em duas partes. Na primeira, intitulada Relatos, são apresentadas vivências no meio radiofônico. A segunda contempla duas entrevistas e perfis de dois diretores que tiveram maior permanência no comando das emissoras mais mencionadas ao longo da publicação. Esperamos que esta obra, comemorativa aos 80 anos do início do rádio em Botucatu, contribua para a composição e divulgação da história desse meio de comunicação no município e de seus personagens. Referência Bibliográfica KANTAR Ibope Media. Book de Rádio 2018. Disponível em: h tt ps :/ / www. kan ta r ib op em e dia. com/ wp -con te nt / uploads/2018/09/Book-de-R%C3%A1dio-2018_Final.pdf. Acesso em set. 2019.

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Relatos


A PRF-8 do meu tempo Joel Carlos da Silva Coelho Acho que sempre participei da PRF-8. Quando menino, morava no prédio ao lado, onde funcionava a Associação Comercial. O quintal da minha casa formava um grande corredor no lado de cima e esse corredor confrontava com o quintal da emissora e eram separados, de fora a fora, por um muro. Do meu quarto, que dava para esses corredores, eu me mantinha razoavelmente informado sobre o que acontecia na Rádio. Por exemplo, eu via com frequência, trepando no muro, o Santos Heitor consertando os aparelhos da emissora, em uma oficina localizada no porão do prédio da F-8. Às vezes, eu escutava os ensaios da Escolinha do Professor Caetano, realizados em uma sala que dava para o corredor da Rádio e para o meu corredor, numa época em que Chico Anysio nem sonhava, acho eu, com a Escolinha do Professor Raimundo, ou seja, lá por volta de 1948 ou 49. Carlos Bauer Filho era o Professor Caetano e seus alunos eram Plínio Paganini, Oliveira Neto, o Bibelô, Mauricio de Oliveira e Ernesto de Oliveira, dentre outros. Não tenho certeza se o Odair Marzano chegou a participar do grupo. Muitas vezes, me pilhei às gargalhadas, sozinho em meu quarto, ouvindo o ensaio daquela escolinha. Também me especializei em participar dos programas de auditório da emissora, via telefone. Era comum nesses programas que se fizessem perguntas para serem respondidas pelos presentes e também pelos ouvintes que, de casa, podiam ligar para emissora e, acertando as respostas, fazer jus a prêmios. Lembro de uma vez em que perguntaram para os ouvintes de _________ ¹ Texto redigido pelo autor em 24 de julho de 2012. Joel Carlos da Silva Coelho faleceu em 9 de abril de 2018. 10


casa o que significava”Alvarenga”. Não consegui consultar o dicionário em tempo hábil, mas guardei o significado. No programa seguinte, fui ao auditório. A mesma pergunta foi feita aos presentes e eu a respondi, causando muita admiração. Afinal, eu era um menino de apenas 8 ou 9 anos. Na verdade, sempre frequentei a emissora, até porque, como disse, éramos vizinhos. E foi assim que um dia acabei fazendo um teste para participar do elenco de radioteatro, sendo aprovado. Era por volta de 1954. Depois fui contratado como locutor. Em 1957, por indicação do Armando - do Duo Guarujá (Armando e Nilce) - eu e o Jaime Contessote, que não era locutor da emissora mas participava dos programas de auditório cantando em dupla com Serrinha, fechamos um contrato com a ZYN-2, Rádio Difusora de Jacarezinho, no norte do Paraná, por um salário bem alto na época, para atuarmos como locutores daquela emissora. Poucos meses bastaram para descobrir porque a emissora ia buscar seus locutores tão longe: não havia quem aguentasse seu diretor na época. Deixamos aquela emissora e foi uma luta para receber nossos haveres. Mas voltamos para Botucatu e para a F-8. Jaime, que adotou nome artístico de Jaime Fernando, foi então, como eu, contratado como locutor da emissora, ao lado de Neder Adib, Ademar Potiens, Ary Simonetti e Santos Heitor, entre outros. E também, como eu, se engajou no elenco de radioteatro, revelando-se um ator de primeira grandeza, pois era dono de uma belíssima voz e de um talento inato para representar. Devo dizer que a PRF-8, naqueles tempos, funcionava nos moldes de uma grande emissora de rádio do Rio e de São Paulo. Afora seu expressivo elenco de radioteatro, que teve diretores como Mário Costa Novo e Mário Emilio Ferrari, apresentava programas de estúdio, de auditório, musicais, noticiários e programas esportivos diários, além de produções difíceis de serem vistas em emissoras do interior. Já recebia notícias de agências internacionais, graças às engenhocas do Santos Heitor, e mais de uma vez furamos as grandes 11


emissoras do Brasil. Mantinha sob contrato uma equipe de locutores e apresentadores que se desdobravam produzindo e apresentando as mais variadas atrações. Destaque para os programas de auditório, onde se apresentava um ótimo Regional, que contava com músicos e cantores como Nicácio Carvalho, Adão Astolfi, Jaime e Serrinha, Mary e Zanza, Marlene Moreira, Ruth Selps, Dirce Miranda e outros. Chegou a contar com a participação, em programas especiais, como o “Nos Domínios do Folclore” - que criei e apresentei - com um conjunto musical liderado pelo ilustre professor Gastão Dal Farra, sanfoneiro dos bons, onde cantava - e muitíssimo bem sua linda filha Maria Lúcia Dal Farra. Sua equipe esportiva, de alto gabarito, era chefiada por Oduvaldo de Oliveira, que também narrava jogos, e não só de futebol, uma vez que a emissora era equipada para transmitir dos estádios, ginásios e pistas esportivas, o que fazia com relativa frequência. Nessa equipe, colaboravam Luiz Carlos dos Santos, Ademar Potiens e Ary Simonetti, os dois últimos jornalistas de alto conceito também à frente de outros programas da emissora e com expressivas participações nos jornais locais. Santos Heitor, o faz tudo, encarregado da área técnica da emissora, era o mestre da mesa de som e da contrarregra, além de apresentador do inesquecível “Colar de Tangos”. Mas não consigo esquecer do Tuta, que era Down e uma pessoa maravilhosa. Também operava a mesa de som e não me lembro de uma vez em que tenha errado. Adalberto Matos era o discotecário. Sofria de um mal degenerativo da musculatura, mas isso não o fazia triste ou arredio. Ao contrário, era um profissional competente, afável e sempre pronto a quebrar os nossos galhos. Ninguém ganhava muito e algumas funções eram exercidas gratuitamente, como a atuação no radioteatro, mas a emissora sempre pagou em dia, refletindo, aliás, o comportamento comercial irrepreensível da família Paganini. Não posso deixar de lembrar, com imensa saudade, do Octacílio, do Domingos, do Ozônio e do Élcio, 12


irmãos do Plinio Paganini, que me deram profusos exemplos de conduta, de educação, de honestidade e de cavalheirismo. Conviver com eles marcou profundamente a minha vida. A área administrativa da F-8 era enxuta e eficiente. Plinio era o chefe, Élcio Paganini era o diretor comercial e apenas dois funcionários: Eunice, de cujo sobrenome não me lembro, mas apenas da sua impecável eficiência, e Luiz Carlos dos Santos, datilógrafo brilhante, completavam o quadro. Todos os anos, Plinio Paganini fazia questão de comemorar o aniversário da PRF-8 e, naquelas oportunidades, costumava trazer de São Paulo os ex-funcionários da emissora que, como Mauricio de Oliveira, Ernesto de Oliveira e Oliveira Neto, o Bibelô, eram contratados das grandes emissoras de rádio e de televisão de São Paulo. Era comum que com eles viessem artistas para participar dessas festas de aniversário. Vim com eles em uma dessas viagens e jamais me esquecerei do show que o sambista Germano Matias deu no ônibus e, depois, na sala de ensaios do radioteatro. Em 1962, depois de estar desligado da emissora por um bom tempo, fui contratado para instituir e implantar o sistema de “cardex”, colocando ordem na pauta de publicidade e evitando falhas na emissão dos textos, spots e jingles, e, logo em seguida, fui alçado à condição de Diretor Assistente, tendo recebido das mãos de Plínio Paganini o cartão de identidade correspondente a esse cargo. Guardo-o até hoje. Meses depois, por ter sido aprovado em concurso nacional do Banco do Brasil, deixei a emissora para nunca mais voltar. Nesse tempo a emissora já mudara de cara, aderindo ao convencionalismo das suas congêneres do interior, até porque era necessário para manter o seu equilíbrio financeiro. Nem sei quantas vezes subi e desci aquela escada de madeira na entrada do prédio. Mas a verdade é que ainda a subo e desço quando lembro, com saudades, dos meus tempos na F-8. De alguns nomes não me recordo, seja em razão do decurso dos 50 anos já pas13


Arquivo npdiario.com

sados, seja porque a idade também veio para mim e a memória não é mais a mesma, mas guardo a todos, que enriqueceram a minha vida e o meu passado, como um precioso bem que Deus me concedeu.

Joel Carlos da Silva Coelho

Arquivo Marcelino Domenico

Carteira de identificação da época em que Joel Coelho atuava como Diretor Assistente na PRF-8

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Vivências no rádio Marcelino Domenico Lembro-me da tarde em que, Edson Moreno e eu, descíamos a Rua Marechal Deodoro. Acho que não tínhamos rumo definido. Na porta da F-8 um cartaz anunciava teste para locutores. Era só fazer a inscrição e comparecer no domingo próximo. Assim fizemos. Creio que no máximo dez rapazes compareceram e aguardavam sua vez para ler e falar algo a seu respeito. A “banca examinadora” estava composta por Plínio Paganini (diretor, não era o proprietário ainda); Ary Simonetti e Professor Agostinho Minicucci. Foram três os selecionados: Edson, Jair Sena e eu. Na semana seguinte, começamos a “treinar” numa sala próxima à discoteca, em uma mesa de som toda de madeira, muito bonita, mas que havia sido substituída por uma de metal. Não tenho certeza, mas acredito que foi por aqueles dias que a Rádio trocou seu equipamento e instalou aparelhos STP, a joia da época! Após um mês, mais ou menos, de preparação, o Plínio me colocou para “praticar” junto com o José Simeão (irmão do Oliveira Neto) que abria a Rádio às 6 horas e estava deixando a emissora para cuidar de sua carreira; suponho, no Banco do Brasil. Na F-8, como em quase todas as rádios do interior, naquela época, o pessoal fazia um pouco de quase tudo. Não existia apenas o locutor ou o operador de som. Podia ser necessário alguém interpretar uma personagem num radioteatro e lá se ia. Se fosse preciso escrever um texto comercial ou mesmo um programa, lá se ia... Se o contrarregra faltasse, chamava-se alguém e ele estava substituído. As emissoras interioranas formavam radialistas e não apenas locutores ou produtores. Eram as verdadeiras escolas de rádio. Fiquei na F-8 até quase final de 196l. Quando retornei da minha primeira ida a São Paulo - e isso é outra história - recebi, na 15


mesma semana, o convite do Jaime Contessote para trabalhar com ele e Edson Moreno na Rádio Municipalista. Nem existia a rádio ainda e já éramos funcionários (como se trabalhássemos na Empresa Teatral Peduti). Enquanto o Jaime acompanhava o Sr. Emilio Peduti em suas andanças, nas quais dava contas do que a Prefeitura realizava, ia promovendo o “municipalismo”; o Edson cuidava do que se relacionasse com o setor técnico; e eu, fiquei encarregado de compor o que hoje se chama de grade de programação. Cuidei, desde a distribuição de programas, da programação musical até a organização da discoteca e demais arquivos que pudessem servir para o setor artístico. Permaneci na Municipalista até o final de 1964. Quanto ao cotidiano no rádio, a cordialidade reinava em todos os cantos. Nunca ouvi de quem quer que seja uma reclamação, nem de alguém nem de algo que não estivesse agradando a esta ou aquela pessoa. Todos se consideravam, além de colegas, verdadeiros amigos. Em relação aos colegas, daria um livro, tantas são as boas lembranças que guardo. Mas, limito-me apenas a citar nomes, já que alguns talvez tenham caído no esquecimento de muitas pessoas: os Irmãos Paganini (Plínio, Otacílio, Elcio - mais presentes na F-8); Santos Heitor (responsável pela parte técnica, mas que também fazia locuções); aquelas pessoas das vozes características e marcantes: Ary Simonetti, Ademar Potiens, Neves Ribeiro (Dindo), Neder Adib, José Simeão, Elza Sarzi, os irmãos Contessote (Jaime, Jair e Valter); Joel Carlos Coelho; (José Carlos) Queiroz Guimarães; os irmãos Amaral Castro (Nélio e Sergio); os narradores de futebol e animadores de programas de auditório: Oduvaldo de Oliveira e Elias Francisco; Luiz Carlos dos Santos, os irmãos Quinteiro (José e Silvio); Francisco de Assis; os irmãos Figueiroa (João Carlos e Carlos Eduardo); José Sena; Cesar Dorini; Rubens Herbst (o Rubão); Santa Rosa; Vicente Lofiego; Naur Rodrigues; Nelson Camargo; os irmãos Moreno (Edson e Antonio); os Camalionte (Luiz “Borboleta” e seu filho Airton); Nhô Tião; João Cicino; João Galvani; Chico Arias; Geraldo Tancler; Antonio Serra (Serrinha); Pedro Rocha; Renê Alves de 16


Almeida; José Carlos Cassano; Ademir Potiens (Bili), Bahige Fadel; e, desculpem-me, se esqueço de alguns... Sobre o ingresso em emissora de São Paulo, um dia, lá pelas 9 horas, resolvi fazer um teste na Rádio Eldorado, umas das rádios que eu apreciava muito. Para minha surpresa, nem bem terminei, a pessoa que me ouvia do outro lado foi dizendo: “Pode começar amanhã, às 6 da manhã? Se puder, venha e traga seus documentos”. Mas lá fiquei por pequeno período. A Gazeta estava precisando de uma voz como a minha para a sua FM, dirigida por Alvaro Soares, o criador da ABC FM (apenas músicas instrumentais). Passados alguns meses, como fazia apenas FM, fui tentar a AM da Jovem Pan. Por volta das 9 h,oras quando fiz um teste com o José Pereira, diretor de redação na época, uma nova surpresa: “Pode começar ao meio dia?” Depois vieram as rádios USP, Globo, Excelsior (hoje CBN) e Transcontinental. Trabalhei como anunciador na Gazeta e como noticiarista na Pan, Globo e Excelsior. Na Rádio USP, além de noticiarista, cheguei a produzir e apresentar alguns programas, como “Aqui Jazz”, “Instrumental Brasileiro”, “Concertos pela Manhã”, “Sessão de Choro”, etc, além de participar como narrador de vários outros. Na Transcontinental, fiz uma temporada como anunciador e outra como apresentador de estúdio. Estive também, por pouco tempo, na Band FM. Na HBO (TV) fiz chamadas de filmes e spots institucionais. Arquivo Marcelino Domenico

Marcelino Domenico durante apresentação do Jornal da Excelsior

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Arquivo Ademir Lopes Dionisio

Em pé, da esquerda para direita: Trio Guarani, Odair e Thomaz, Duo da Prata, Trio Princesa da Serra, Zé Boa Vida, Rincão e o locutor Marcelino Domenico

Arquivo Marcelino Domenico

Marcelino no Sistema Globo de Rádio época em que atuava em “O Globo no Ar”

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Sonho convertido em realidade Nélson Camargo Na segunda metade do século 20, grande parte da juventude era estimulada a desenvolver atividades relacionadas à vida familiar, unir-se a grupos religiosos e sociais e, ainda, a atividades escolares e recreativas, para encaminhamentos esportivos, artísticos, teatrais, radiofônicos e outros. Embora trabalhando no comércio de Botucatu, dediquei outro tempo para integrar-se a um grupo religioso da Igreja Nossa Senhora Menina, onde havia orientação teatral e locucional. Como já tinha pretensão de ser locutor de rádio, comecei a apresentar um programa de calouros no galpão dessa igreja católica da Vila Maria, como atividade do grupo teatral. Num desses programas realizados aos domingos, fui abordado por um diretor da Rádio Emissora de Botucatu (Octacílio Paganini) para que participasse de um concurso de locutores na semana seguinte. Quando lá cheguei, verifiquei que havia 45 postulantes. A grande surpresa foi quando saiu o resultado. Fui classificado em segundo lugar mas, para exercer a atividade, havia necessidade de fazer um curso de seis meses para aprender a pronunciar palavras, dar ênfase nas letras R e S, tonalidade de voz, timbre correto, dicção, e ainda recursos corretos para desenvolver improvisação e parcimônia na transmissão das palavras. Antecedendo ao término desse curso, fui integrado ao cast de novelas da emissora, que eram apresentadas às segundas-feiras, à noite, atuando sempre em papeis relativos ao timbre de voz e idade. Concluído o curso, fui escalado para o horário noturno, ao lado de Santos Heitor, no programa “Colar de Tangos”, somente na apresentação de textos comerciais. Após alguns meses, passei a trabalhar de manhã das 7h às 8h, já como apresentador do programa que levava o nome “Crespúsculo 19


Mexicano”, falado em espanhol. Passados 90 dias, por ordem do presidente Jânio Quadros, foram proibidos, no Brasil, programas em língua estrangeira. Com o passar dos anos na emissora, integrei diversos horários da programação. Sertanejo, comentarista esportivo, animador em programas de auditório ao vivo, transmissor de outras atividades na cidade, em outras localidades. No transcorrer dos anos de locução radiofônica, representei Botucatu na TV Tupi, em 1968, no programa “Cidade Contra Cidade”, comandado pelo Sílvio Santos. Em 1974, quando frequentava curso superior (Ciências Humanas), fui convidado como universitário para participar do programa “Sua Majestade o Ibope”, na TV Tupi. A partir dos anos 80, passei a participar também da FM Cultura, com o programa “Cultura à tarde juntinho com você”, onde meu filho Nedilson Camargo iniciou também. Ele fazia locução na F-8 e na Cultura. Após o horário da FM, na Rádio Emissora eu apresentava o programa “Girando a Cidade”, que contava com músicas e entrevistas via telefone, diariamente. Como havia concluído o Nedilson e Nelson Camargo curso superior, ingressei na Secretaria de Ensino do Estado de São Paulo. Por lei, o ocupante de cargo público não podia manter outra atividade remunerada. Em decorrência dessa deliberação, optei por cancelar as atividades radiofônicas nas emissoras de rádio citadas. Embora fora das emissoras, continuei como apresentador e comunicador de cerimonial; atuando em sessões solenes e bailes de formaturas escolares; palestras; como comentarista em celebração religiosa (missas) em várias igrejas. Em síntese, essas atividades 20


citadas preencheram meu ego, pois aprendi e convivi em diversas entidades sociais do nosso país. Embora com o avançado da idade, ainda exerço algumas atividades inerentes.

Fotos: Arquivo Nelson Camargo

Nélson Camargo no estúdio da F-8

Nélson Camargo e o apresentador Luiz Camalionte “Borboleta”

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Radioteatro Joel Carlos da Silva Coelho¹ Por volta de 1954, a PRF-8 possuía um respeitável “cast” de radioteatro. O pessoal ensaiava na grande sala à direita de quem chegava ao topo da escada de entrada do prédio. Nessa época, o diretor era Mário Emilio Ferrari, que também se apresentava em eventos sob o codinome de Professor Oilime (que simplesmente era Emilio de trás para a frente), realizando números de magia. Era um homem agradável, alto e encorpado, com bigodes e cabelos pretos, que convivia muito bem com as pessoas, especialmente as que compunham a sua equipe teatral. Antes dele, e antes de mim, fora diretor o inesquecível Mário Costa Novo. Não me recordo de todos os participantes, mas entre eles ressaltava a figura extremamente querida, simpática e eficiente do Luiz Carlos dos Santos, um negro de seus 17 anos que era funcionário do escritório da emissora e também encarregado de datilografar e montar os “scripts” de cada estória. Na verdade, apresentava -se uma estória completa, com começo, meio e fim, a cada semana e em uma única apresentação. Participavam do elenco vários artistas, mas a mais brilhante, sem dúvida, era Mara Machado, de tradicional família de Botucatu. De baixa estatura, rosto bonito e cabelos longos, possuía uma voz belíssima e uma incrível facilidade para representar. Eram dela, sempre, os papéis centrais e ela dava conta de cada um deles com absoluta competência. Marlene Moreira, que também cantava, e muito bem, e outras, de cujos nomes agora não me recordo, completavam o time feminino. Entre os homens, Ademar Potiens e Ary Simonett i, Joel _________ ¹ Texto redigido pelo autor em 23 de dezembro de 2012. Joel Carlos da Silva Coelho faleceu em 9 de abril de 2018. 22


Acervo PRF-8

Carlos (Joel Carlos da Silva Coelho), que integrava também o corpo de locutores e apresentadores da emissora, além do próprio Mario Emilio, e, mais tarde, já por volta de 1957, de Jaime Fernando (Jaime Contessote). Por fim, de vez em quando, a presença do inesquecível Plinio Paganini, diretor e um dos proprietários da emissora. A contrarregra era sempre de Santos Heitor (Heitor Titon), cargo que ele acumulava com a técnica de som, escolhendo títulos e trechos para acompanhar cada apresentação semanal, a exemplo das modernas trilhas sonoras. Os ensaios se davam às quintas e sextas e as apresentações, se não me engano, eram sempre às segundas-feiras, às 20 horas, e contavam uma estória completa durante meia hora. Os participantes nada recebiam pelo trabalho. Todos se satisfaziam unicamente em participar de uma equipe que era realmente muito boa no que fazia. Era muito expressiva a audiência do Radioteatro F-8, tanto que seus integrantes eram frequentemente indagados, na rua, sobre assuntos como o tema da próxima estória, etc. Um dia ainda me animo a contar as gafes que ocorriam. Acho que delas ninguém escapou, dos técnicos ao diretor e aos atores. Vamos esperar que minha memória refresque...

Rui Ribeiro e Mara Machado durante participação em radioteatro

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Fotos: Arquivo Rádio Emissora de Botucatu

Em pé, da esquerda para à direita: Rui Ribeiro, José Alvarado, Ciro Guimarães, Genaro Lobo, Plínio Paganini, Jorge Adib, Octacílio Paganini, Mário Costa Novo. Sentadas: Nildem, Ivone, Maria, Zelma e Clara

Equipe de radioteatro de 1959

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Da técnica à produção e locução: breve histórico de minha trajetória Rubens Roberto Herbst Iniciei minhas atividades no meio radiofônico na Municipalista, em meados dos anos 1960, após convite de Mário Perini. A função exercida no começo era de auxiliar técnico. Como aprendiz de operador de áudio, minha participação era das 22h às 2h. Porém, em pouco tempo, fui transferido para atuar como operador de áudio em programas de maior audiência, veiculados das 18 horas às 22 horas. Entre os apresentadores desses horários estavam Jair e Jaime Contessote; Luiz Valter Rossetto; José Roberto Quinteiro; Bahige Fadel (Fadel Júnior) - que era responsável pelo “Fora da Bossa”; Oswaldo Mário - que comandava o “Encontro com a Saudade”; e Mário Perini, em produção sertaneja ao vivo. Na sequência, assumi a parte técnica de horários nobres como “A Marreta” e “Juventude em Brasa” - com Luiz Valter Rossetto; e o “Programa da Turma”, também apresentado pelo Fadel. Aliás, foi esse locutor que me apelidou de Rubão. Em 1969 é que passei a trabalhar na F-8, na área técnica e em produção, inclusive fazia efeitos sonoros manuais para radionovelas. Dois anos depois, a experiência adquirida nas rádios de Botucatu possibilitou que eu fosse contratado em empresas de comunicação de São Paulo. De 1971 a 1975, fui funcionário das seguintes emissoras: Rádio e TV Record, Rádio Bandeirantes, Rádio Mulher, TV Excelsior. Também trabalhei no Estúdio de Dublagem AIC. Em 1976, recebi convite para retornar a Botucatu e voltei para a Rádio Emissora. Passei a acompanhar diversas transmissões realizadas pela F-8, como de jogos e variadas coberturas jornalísticas. Fui responsável pela seleção musical e outras atividades de 25


preparação que antecederam a inauguração da Cultura FM, também da família Paganini. A FM começou a funcionar em 1979 e estava sediada no interior da F-8. Assim, passei a atuar nessas duas rádios. Em 1992, tive nova oportunidade de trabalhar em São Paulo como contratado das rádios CBN e Globo. Permaneci nessas emissoras até me aposentar, em 1998. De volta a Botucatu, não consegui permanecer fora do meio radiofônico e ingressei novamente na rádio onde comecei, ou seja, a Municipalista. Em 2005, passei a apresentar um programa de grande audiência na F-8: “A Volta do Sucesso”, no qual eram veiculadas músicas que se destacaram no passado. Fui ainda responsável pela produção do “Arquivo”, que abrangeu transmissão de gravações digitalizadas do acervo da Rádio Emissora; pelo “História das Copas” e de especiais sobre a história de Botucatu. Dessa maneira, tive a oportunidade de vivenciar o rádio até 2016, o que equivale a uma trajetória de mais de 50 anos. Fotos: Arquivo Rádio Emissora de Botucatu

Rubens Herbst e Gilberto Silva, que era apresentador de programas sertanejos

Herbst e Adalberto Matos

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Recordações de minha atuação profissional na PRF-8 Benedito Santa Rosa No inicio dos anos 1960, através de meu irmão Adalberto Matos, funcionário da Rádio Emissora de Botucatu na época, fui conhecer as instalações da PRF-8. Sonhava em fazer parte do quadro de funcionários da rádio, quando fui convidado para ser auxiliar discotecário ao lado do Adalberto, que seria depois o programador musical da emissora. Serviço que tratava-se de catalogar milhares de discos existentes na época, tais como 78 rotações (quebráveis), compactos simples e duplos e os famosos LPs de vinil, além de ouvi-los para serem tocados nas 18 horas diárias de programação da emissora. No decorrer do tempo, veio o aprendizado técnico. Acabei me tornando sonoplasta (técnico de som), sob a supervisão do mestre Santos Heitor Titon. Exercendo ambas as funções, sempre bem orientado, ouvindo, aprendendo com zelo e responsabilidade, passava a respirar rádio. Vivia a rádio que foi verdadeira faculdade para a maioria daqueles que militam até hoje nas emissoras locais. Participei de testes de locução comercial, leituras de textos e de pautas noticiosas e como apresentador-animador de auditórios, sob olhar e ouvidos atentos do “reitor" Plínio Paganini. A partir daí, fui convocado para assumir a apresentação do programa mais tradicional e conhecido dos ouvintes: "No Reino da Gurizada". Foram cinco anos sem interrupção, com grandiosa audiência e sucesso absoluto. Neste programa, crianças com até 12 anos de idade se apresentavam cantando, declamando, dançando ou executando algum instrumento musical. A cada domingo era conhecido o "rei" e a "rainha" do "No Reino da Gurizada". Os garotos competiam-se entre si, o mesmo acontecia com as garotas. Para os vencedores, os melhores prêmios eram entregues. Com muita animação e excelentes patrocinadores, 27


eram realizadas brincadeiras e concursos com muitos brindes distribuídos, aos domingos, às 10 horas. Dessa maneira, a produção “No Reino da Gurizada" era a maior festa da infância botucatuense. Sinto orgulho de fazer parte da história da gloriosa PRF-8, Rádio Emissora de Botucatu, que completa 80 anos. É gratificante ter pertencido ao quadro de funcionários de uma geração capacitada, de tantos amigos e colegas que tornaram-se grandes radialistas de renome no rádio local e nacional. Cumprimento a todos que mantêm a nossa querida Rádio Emissora de Botucatu viva, ativa, permanente. Nos lares, como sempre: “a primeira no coração da cidade”, “a tradicional da família botucatuense”. Vida longa, F-8!

Benedito Santa Rosa atuando como operador de som

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Fotos: Arquivo Benedito Santa Rosa

José Sena e Santa Rosa

Uma das edições do programa “No Reino da Gurizada”. Rivaldo Corulli (centro) sendo coroado como vencedor, após anúncio de Santa Rosa (microfone)

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Lembranças no aniversário de 80 anos da F-8 Sílvio Carlos Daré Em se tratando da rádio PRF-8, todos deveriam dedicar alguns minutos de suas vidas para refletir sobre ela e porque não, escrever algumas palavras contando um pouco sobre sua história, como integrantes dela ou ouvintes. E que histórias tem essa emissora em toda Botucatu e região. Neste mês de outubro de 2019 ela completa 80 anos de serviços prestados a nossa comunidade. Ela viveu a glória, o apogeu com a força e o dinamismo da juventude. Depois, como alguém com muita experiência e vontade incontida de evoluir sempre . No auge da “Era do rádio”, ela destacou-se no interior como uma referência de comunicação em radiodifusão, com excelente e diversificada programação para todos os públicos e gostos, contando com grandes profissionais que cativavam todos os ouvintes. Fosse com noticiário, fosse com programas musicais ou grandes coberturas, ela estava sempre à frente; e quem gosta de rádio esteve sempre sintonizado na F-8. Muitos anos depois, por determinação, seu prefixo foi alterado para ZYK-564, mas a PRF-8 nunca deixou de existir nas mentes dos ouvintes que continuaram a chamá-la F-8. Eu, ainda na infância, já gostava de rádio e ouvia a F-8, bem como outras rádios de São Paulo e Rio de Janeiro. Aliás, ainda criança, ganhei de presente de aniversário um rádio portátil à pilha Mitsubishi (com capinha de couro e tudo mais). Foi um dos melhores presentes que ganhei. Quando ele não estava ligado, era um outro, de cabeceira, que estava. Ficava maravilhado ao ouvir locutores de programas como “Ritmos de Boate”, da rádio Globo do Rio de Janeiro, um dos precursores dos “DJs” de hoje - que na época era Disk Jockei - chamado Big Boy ou em SP com o gênio Hélio Ribeiro 30


que passou por várias emissoras. Então, no final de 1971, início de 1972, tive a imensa satisfação de ingressar na F-8 como aprendiz de técnico de som ou operador de som, como se trata até hoje. Mas a concorrência era grande e depois de tempos é que pude assumir a mesa de som (como era chamado o equipamento técnico) pois era exigido um grande estágio e sempre supervisionado de perto por alguém experiente. Começava-se fazendo horário noturno para depois ir para o horário diurno, sem ser aqueles programas chamados âncoras, como o noticiário de toda manhã que ainda esta no ar “O Palanque”, cujo locutor principal era nada menos que um dos proprietários, Dr. Plínio Paganini. Ele foi um dos maiores entusiastas do rádio e esteve sempre à frente de sua emissora cuja experiência, conhecimento e dedicação, levou a F-8 ao patamar que chegou. Por trás, existiam os outros irmãos como os senhores Élcio e o Octacílio, além dos funcionários como o chefe de escritório sr. Alfredo Pires Machado. Posteriormente, foi criado o Grupo Paganini que consistia nas rádios AM e FM, jornal “O Diário de Botucatu” e ainda uma imobiliária. Tive o privilégio de trabalhar na AM (F-8) na FM (Cultura Estereofônica) e no jornal (como revisor), que anteriormente era um bissemanário e foi transformado em diário. Existiam muitas pessoas em atividade o tempo todo formando uma família. Além daquelas que subiam as escadarias da F-8 para visitar as instalações ou para solicitarem serviços nos escritórios ou ainda procurar o Plínio que ficava numa sala logo na entrada. Ali ele atendia a todos, indistintamente com os mais variados pedidos. Nós funcionários, apelidamos sua sala como “a tenda dos milagres”. Mesmo não estando em horário de trabalho, sempre estávamos lá para conversar com amigos, prestar alguma informação, participar de alguma atividade ou simplesmente matar o tempo, tal era o ambiente agradável que ali existia. Trabalhei como técnico, repórter policial, em coberturas externas, propaganda na rua com aquela inconfundível Kombi azul 31


com duas cornetas de som. Fiz muitos amigos, técnicos, locutores, discotecários, jornalistas, tipógrafos, pessoal dos escritórios e ainda lembro me de todos mas são tantos que seria imprudente citar nomes. Muitos ainda mantenho contato e tantos outros já se foram... Entretanto, os âncoras não poderiam deixar de ser mencionados como Valter Contessote (programas sertanejos), Elias Francisco, Silvio Bicudo, Carlos Ramanzini, José Roberto Pereira, Claudio Santos e minha referência, Adalberto Matos (chefe da discoteca, programador e locutor). Técnico e locutor tinham um perfeito entrosamento e se entendiam apenas com um olhar, um gesto, uma expressão, mesmo separados pelo vidro do estúdio pois tudo acontecia ao vivo, em tempo real, sem recursos tecnológicos, com equipamentos velhos que quebravam constantemente, apresentavam defeitos e tínhamos que improvisar. Havia dois pratos para tocar os discos de vinil e os comerciais eram gravados em acetato pelo Rubão e tínhamos que mudar com frequência as rotações dos mesmos de 33 para 78 e, às vezes, para 45; sendo que essas mudanças eram feitas através de um elástico que escapava do eixo que girava sempre na mesma rotação ou afrouxava com o uso e a música saía da rotação certa, ou ainda os braços manuais dos toca discos perdiam os contrapesos, as agulhas que também perdiam a qualidade do som, etc., tínhamos que improvisar conforme os problemas iam acontecendo. O mestre do som, Santos Heitor (Titon), estava sempre pronto e nos socorria rapidamente com suas “mandrakarias”. Era um abnegado que não descansava porque concertava aparelhos em sua sala no porão, fazia transmissões externas, as manutenções e ficava de plantão para resolver os problemas técnicos que surgiam. As coisas eram difíceis e, talvez por isso, nos atraiam tanto, esses desafios nos proporcionavam satisfação pessoal. A concorrência nos motivava. Tínhamos que fazer melhor que a outra emissora e isso também era nosso combustível. 32


No inicio dos anos 80 deixei essas atividades para me dedicar a outra profissão e, depois de 35 anos, agora aposentado, tive a oportunidade de voltar a atuar na F-8, não como operador mas como apresentador do programa “A Volta do Sucesso”, juntamente com o seu criador Rubens Roberto Herbst, o Rubão. Embora o rádio atual seja totalmente diferente, muito mais prático, rápido, com tecnologia avançada, computadorizado, etc., ainda é rádio e era a F-8 tão querida nos dando oportunidade de sentir novamente aquelas emoções do tempo da juventude. Mas, desta vez, foi por pouco tempo (mais ou menos um ano) devido a problemas particulares, afastei-me novamente. Entretanto, esse período foi muito importante em minha vida porque deu-me grande satisfação por participar novamente da rotina da radiodifusão, pois o tempo passa muito rapidamente, nós envelhecemos, mas o amor por essa arte permanece. Agora, ao completar 80 anos, quem conheceu sua pujança, aplaude e se emociona ao lembrar que essa velha senhora foi tão importante para sua cidade e já faz parte da história de Botucatu e de outras cidades desta grande região, e será eternizada mesmo quando deixar de transmitir. Parabéns PRF-8! Fotos: Arquivo Silvio Carlos Daré

Documento da época em que Silvio Carlos Daré atuava na F-8 e que ele guarda com carinho

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Rubens Herbst (Rubão) e Silvio Daré apresentando o programa “A Volta do Sucesso”

Homenagem publicada pelo Diário de Botucatu quando Daré deixou de trabalhar nas empresas de comunicação do Grupo Paganini após aprovação em concurso público

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53 anos de rádio Waldir Duarte Florêncio Final de 1966. Pelas mãos de Plínio Paganini, vim de Itatinga para Botucatu. Fui orador da minha turma de formandos no antigo Ginasial. O Plínio foi nosso Patrono e me convidou para um teste na PRF-8. Assim, começava a minha história no Rádio de Botucatu, em dezembro de 1966. Portanto, já se passaram 53 longos e maravilhosos anos vividos ao lado de inesquecíveis companheiros radialistas, como Plinio Paganini, Elias Francisco, Santos Heitor, Adalberto Matos, Carlos Alberto Meluzzo, Neder Filho, Anuar Nicolau Tomé, Miguel Dias Filho, Antonio Eurico, Dito Santa Rosa, Claudio Martins, Clóvis Martins, Renato e Rivaldo Coruli, Hélio de Souza, Antonio José Pires (o camisa 10), José Roberto Pereira, Haroldo Amaral, Renato Prado, Hélio Donato, Rene Alves de Almeida, Nelson Camargo, Francisco Oliveira, Zé do Laço, todos de grandes lembranças da nossa F -8. Na PRF-8, tanto quanto outros profissionais, aprendi a fazer de tudo no rádio. Comunicador jovem fui apresentador dos programas “Waldir Duarte – Alegria da cidade”; “Manhãs botucatuenses”, “O Chiado é o Sucesso”, no período noturno das 22h às 23h, com músicas da saudade. No jornalismo, apresentei todos os programas da grade jornalística da rádio. Finalmente, cheguei no O “Palanque” (o grande objetivo de todos nós da Rádio). Dividi a bancada com Plínio Paganini, Elias Francisco e Antônio Moreno. Mais tarde, já em outros tempos, com Edmundo Paganini, Francisco Paganini, Claudio Martins, Caio Paganini, Val Pinheiro, Haroldo Amaral. Por três anos, ou pouco mais, fui produtor e apresentador único do programa “O Jornal da Cultura”, veiculado pela FM Cultura diariamente, das 8h às 9h. 35


O rádio me transformou em político. Fui vereador durante três mandatos, sendo duas vezes presidente da Câmara de Botucatu. Hoje participo de um projeto de “O Palanque”, na Rádio Jovem Pan News F-8, ao lado dos companheiros Renato Acerra e Toninho Zorzella, e que vai ao ar diariamente das 10h às 12h.

Ronda pela Várzea de Botucatu

Waldir Duarte durante comemoração dos 68 anos da F-8

Waldir Duarte (centro) recebe título de Honorário da Associação Atlética Ferroviária (AAF) . Uma das cabines de transmissão do estádio do clube tem o nome do radialista

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Esportes de Botucatu No Ar Benedito José Gamito Reavivar a história da nossa querida Rádio Emissora de Botucatu em seus 80 anos de vida é uma tarefa difícil. Falar de um de seus mais tradicionais programas é mais difícil ainda. O primeiro campo futebolístico de Botucatu foi construído por volta de 1904 no local onde está localizada a linda igreja da Catedral e o primeiro time foi o Esporte Clube Botucatuense. Em 1918, foi inaugurada a Associação Atlética Botucatuense (AAB) que passou a ter um campo na Avenida Dom Lúcio. Depois, em 1939, teve início a Associação Atlética Ferroviária (AAF) e a Rádio Emissora de Botucatu (F-8), que logo teve a preocupação de levar aos lares informações do futebol amador e também profissional da AAB e AAF. Para o amadorismo, o ano de 1943 foi marcante, pois a Liga Botucatuense de Futebol passou a ser vinculada à Federação Paulista de Futebol. Nos anos 1950, quando tinha por volta de oito anos de idade, eu e meu saudoso pai, sr. Manoel Gamito, não perdíamos uma edição do programa “Esportes no Ar”. Naquela época, o horário dessa produção era das 18h30 às 19h. Minha lembrança é de que o locutor voluntário era o saudoso ex-vereador e fotógrafo Progresso Garcia. As informações eram principalmente da Liga do Futebol Amador, que teve muitos times como Associação Atlética Ferroviária; Associação Atlética Botucatuense; Clube Atlético de Vila Maria; Atlético Clube Lageado; Clube Recreativo Esportivo Bairro Alto; Esporte Clube Inca; Boa Vista Futebol Clube; Sete de Setembro Futebol Clube; Rodoviário Atlético Clube; Esporte Clube Inca; Boa Vista; Esporte Clube Alvorada; Botucatu Atlético Clube, Blasi Futebol Clube; Pardinho Futebol Clube; Serve Tudo Futebol Clube; Duratex; A. Caio; Staroup; Botafogo da Barra Bonita; Esporte Clube Vitoriana; 37


União Operária Futebol Clube; Bandeirantes; Esporte Clube Colorado; Atlético Botucatu; Esporte Clube Grêmio; Sociedade Amigos do Tanquinho; Botucatu Futebol Clube; Sarta Moita; Banho de Lua, Associação Atlética Anhembiense; Clube Atlético Juventude; Esporte Clube Jardim Bom Pastor; Esporte Clube Vila Mariana; Unidos do Bairro Futebol Clube; Moldmix; Esporte Clube Bancários; Veteranos da AAB; Clube Atlético Fortaleza; Desportivo Municipal; Omareal; Vila Antártica; e Policial Botucatuense. (CEARA, 2004) A Liga existiu até 2003 quando perdeu o vínculo com a Federação Paulista de Futebol. Hoje a categoria amadorismo é mantida pela Prefeitura Municipal. Com tantos clubes, pode-se imaginar a audiência do programa “Esportes no Ar”. Fui locutor esportivo por mais de 30 anos . Primeiro, na Municipalista, com o Bola na Rede e, depois, na F-8 com o Esportes no Ar. Em 2019, após unificação da gerência das duas emissoras, agrupamos também as denominações, passando a se chamar “Bola na Rede – Esportes no Ar”. Procuramos manter a tradição dos programas com notícias antigas, gols saudosistas, entrevistas com veteranos, além, é claro, de informações dos times atuais que disputam dezenas de campeonatos, mantidos pela Secretaria de Esportes da Prefeitura Municipal de Botucatu. Enfim, encerro com o pensamento da saudosa poetisa Valmi Tereza Cassemiro que um dia escreveu sobre a história da Rádio F-8: “A missão do rádio não é fácil. O microfone tudo aceita, porém, o ouvinte, não.” Foram necessários garra e respeito humano para mantermos o nome da F-8. Caso contrário, seria impossível comemorar todos esses 80 anos.

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Gamito (à esquerda) e Renê Alves de Almeida (à direita) atuando como repórteres

Gamito durante evento comemorativo aos 68 anos da F-8 celebrados em 2007

Referência bibliográfica CEARA, Nivaldo. Os campeões amadores de Botucatu. Botucatu: Edição do autor, 2004. 39


De ouvinte a ex-funcionário contador de histórias do trabalho Haroldo Amaral Sempre, no entardecer, ouvíamos na rádio F-8 a “Hora da Ave Maria” ou a “Hora dos Anjos”. Não precisava nem olhar no relógio, eram seis horas da tarde, à noite iria chegar ao meu reino, então um quintal, no Bairro Alto - na antiga Rua São Paulo - perto do Ginásio de Esportes. Nessa hora já tinha tomado banho de bacia, pois não existia água encanada e nem energia elétrica. A luz vinha da lamparina de querosene e a água da casa de um poço. Depois da 'reza' começava o programa de música caipira, com Walter Contessote, com quem íamos até a “Voz do Brasil”. Em meados dos anos 1970, ia, às vezes, ao auditório da rádio para ver os cantores sertanejos que se apresentavam no programa do Zé do Laço. No inicio de 1984, trabalhava na Rádio Municipalista e recebi, no final de novembro, um convite para uma conversa, na 'sala do Plínio'. Final de tarde me apresentei no balcão e fui levado até a tal sala, onde estava o Plínio Paganini, a quem já conhecia, mas até então eu nunca estivera em sua sala. Foi uma surpresa. Era uma bagunça. Ele fez um 'prólogo' sobre a história da rádio, falamos de política e, ao final, ele fez uma proposta salarial e me convidou para trabalhar na “Central Informantes”. Conversei com o Vanderlei dos Santos e o 'seu Mauricio' - então diretor da Municipalista - e em novembro estava fazendo serviços no programa “O Palanque”, com Plínio Paganini, Elias Francisco, Waldir Duarte, Agostinho Minicucci, Rubão e o 'Camisa 10'. Também em “O Mundo em Marcha”, com Rivaldo Corulli e, um mês mais tarde, atuando junto com Renato Prado. Foram anos de aprendizado e situações bizarras. No carnaval 40


de 1985, foi minha estreia ao vivo na rádio, na transmissão dos desfiles. Fiquei circulando com Elcio Paganini nos clubes e na cidade, no famoso 'batmóvel', aquele Opalão três marchas, que tive o prazer de dirigir inúmeras vezes. Depois dos desfiles de rua, permaneci trabalhando no famoso Bailão do Vartão, no Paratodos, onde funcionou por muitos anos a Biblioteca Municipal. Permaneceu comigo o Camargo, como operador, e Santos Heitor, que foi responsável pela instalação dos equipamentos. "Pode falar", orientou Heitor. Coloquei fone de ouvido, sintonizado na F-8 e lá fui descrevendo os carnavalescos, quase todos fantasiados de boiadeiros, pois tinha muito chapéu no recinto. A sonorização era do César Titton. Chovia muito e tinha vento forte. Dentro do Bailão do Vartão, num canto onde estávamos, começou a entrar água e molhou todo o chão... Na primeira entrada ao vivo, levei um choque de deixar os olhos vendo um clarão azul. - Heitor, Camargo, tá dando choque!, reclamei. O mestre Santos Heitor adiantou-se ao Camargo, acendeu uma 'lanterninha', pegou o microfone, mexeu em tudo e disse que não estava dando choque. Acreditei. Estiquei o braço para pegar o microfone e mais choque. "Ca****" 'seu' Heitor, tá dando choque. Lá foi o Heitor, pegou o microfone, mexeu aqui e ali e nada de choque. Me devolveu o microfone e levei mais choque. Estávamos em cima de uma poça d'água e só eu sentia o choque. O carnaval, não iria parar por conta de um radialista que levou choque de estalar azul nos olhos... Santos Heitor olhou em volta e retirou aquelas cadeiras de festa cedidas por cervejarias. Era uma azul da Brahma, na qual estava sentado. Trocou por uma de madeira e mandou subir em cima. Já estava preparado para mais um choque quando, para minha surpresa, não levei. -Que será que era, hein 'seu' Heitor? - Ihhh, rapaz, essa sua botina molhada, deve ser daquelas com 41


prego, né? Subi os pés e olhamos. Lá havia vários pregos que seguravam um solado de botina, que era de pneu de veiculo. - Então é isso! disse Santos Heitor, com aquele jeito de quem matou a charada e completou: "Você está fechando corrente e, por isso, está dando choque", terminou a avaliação, enquanto eu subia na cadeira e sentava-me no encosto. Assim foram três horas de transmissão até por volta da meia noite e meia. A chuva continuava e, vez em quando, levava choques e, numa delas, queimou a minha boca. De choque em choque, foram muitos anos atuando no jornalismo, acompanhando as mudanças do Brasil, de 1984 até a virada do século, óbvio, com algumas idas e vindas para a Municipalista, jornais da cidade e de outras regiões, etc. No jornalismo, trabalhei com grandes nomes, como Renato Corulli, que chefiava a "Central Informantes"; Tony D'Angelo; Wagner Pires de Camargo (Carrapato); Jayme Contessote Junior; Marcos Ferraz; Lindalva Campos; Erica Svícero; José Roberto Pereira; Helio Donato; Celso Mucio; Waldir Duarte; Elias Francisco; entre tantas outras e outros talentosos profissionais, além de Jota Pires (Camisa 10), Rubão e Gergilin, na parte técnica. Nesse período, tivemos coberturas memoráveis, com entradas ao vivo dos Estados Unidos, em parceria com a Voz do Brasil e BBC de Londres. Duas vezes por semana, ao vivo, e por meio de boletins gravados todos os dias. Na primeira guerra do Iraque, descobrimos um botucatuense morando em Israel, e no Kibutz onde ele estava - próximo a um vilarejo e sob ataque de mísseis lançados em resposta ao ataque das nações lideradas pelos EUA - dava para ouvir ao longe as bombas. Transmitimos em cadeia com a Nova Cultura FM que fazia parte do grupo Paganini. Era mais de onze da noite de uma sexta-feira e assim fomos até 2 horas da manhã, com informações captadas no satélite, direto da CNN. Era um luxo poder realizar essa captação na 42


época. Renato Albino, um dos apresentadores do programa “Vitrine Viva”, fazia a tradução do inglês. Naquele dia, ainda ligamos para uma botucatuense que residia nos Estados Unidos e relatou a tensão que os americanos estavam vivendo. Praticamente todos dentro de casa, acompanhando via CNN e ABC News, o ataque da coalizão militar. Eles tinham passado por treinamento relacionado a ataque de mísseis e químico, o tal antrax, que se acreditava ter os iraquianos. Em minha última passagem pela F-8, Waldir Duarte, eu, Caio Paganini, Maurício Seródio e Toffoli (na técnica), renovamos um antigo programa e a emissora ia até determinado bairro, montava um estúdio aberto e a população falava sobre os problemas desse local. Era tão popular o programa que muitos vereadores acompanhavam as demandas e apresentavam nas sessões. Diversas vezes, iam até o bairro assistir ao programa e anotar in loco o problema, além de manter contato com os munícipes. Vida longa à nossa Rádio Emissora de Botucatu. Vida longa aos profissionais do Rádio e que venham outras histórias de outros protagonistas, ampliando ainda mais esses quase cem anos. Arquivo Clube FM

Haroldo Amaral no estúdio da Clube FM, emissora em que trabalha atualmente

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Arquivo F-8

Nos microfones, Caio Paganini Burini, exdiretor da F-8, e Maurício Seródio. Ao fundo, Haroldo Amaral. Época em que apresentavam “O Palanque”


Memórias de três décadas de trabalho no rádio Walter Cesar Pianucci Pereira (César Júnior) Era um dia qualquer do mês de março de 1990. Tinha acabado de completar o Tiro de Guerra e, como todo bom jovem brasileiro de minha idade, estava à procura de emprego, tão escasso naqueles tempos como nos dias atuais. Minha mãe precisou ir ao banco resolver alguns problemas e pediu que a levasse com nosso carro: um fusca 69 vermelho bordô. Circulei por diversas ruas mas, já naquele tempo, encontrar uma vaga para estacionar era um suplício. Após muitas tentativas, encontramos um local na Rua Marechal Deodoro, próximo ao número 320. Minha mãe desceu e resolvi ficar esperando. De maneira dispersa, fiquei observando o movimento e deixando meus pensamentos me levarem para alguma atitude que pudesse ser solução na minha vida, pois precisava e muito começar a trabalhar. Nesse intervalo de tempo, olhei do meu lado esquerdo e vi uma placa escrita “Rádio F-8”. Claro que a primeira vista me pareceu impossível a ideia de se quer tentar alguma coisa mas, como se tratava de uma estação de rádio, nada poderia me impedir de pelo menos perguntar se eles não sabiam de algum lugar que estivesse precisando de alguém para trabalhar. Desci do carro e subi as tradicionais escadas daquele prédio tão antigo e querido, sem saber que estava dando meus primeiros passos para a minha primeira e única profissão por toda vida. A porta da sala de Plínio Paganini estava aberta e, quando pedi licença para entrar, lá estava ele no local que mais amava na vida, atrás de uma mesa totalmente desorganizada e cheia de papéis e pastas de trabalho. Este era e sempre foi seu mundo. Receoso, tímido, meio sem jeito, perguntei se poderia falar com ele. Plínio olhou para mim e disse: “Sente-se”. Me acomodei no sofá e expliquei minha situação e que procurava trabalho. Se fechar 44


meus olhos me lembro como se fosse hoje. Enquanto explicava minhas necessidades, ele continuava mexendo nos papéis como se ignorasse minha presença mas, na verdade, estava ouvindo tudo. Depois que terminei de falar, fez-se um silêncio e, em seguida, Plínio pegou um telefone e disse: “Heitor, sobe aqui”. Em poucos minutos entrou na sala o “mestre” Santos Heitor, uma das figuras mais carismáticas e queridas do rádio. Paganini disse: “Esse moleque tá querendo trabalhar, arruma alguma coisa pra ele”. O mestre, então, combinou comigo que no outro dia, às 6h30, era pra eu estar na rádio que iria aprender técnica. Pra quem não conhece, rádio é um local onde sempre trabalham em conjunto locutores e técnicos, cada um com sua função. Ao locutor cabe a função de falar, animar o programa, fazer os comerciais e, em alguns momentos, atender os ouvintes. Ao técnico ou operador, ficam as obrigações por tudo que vai ao ar, desde a voz do locutor, comerciais, músicas, fundos , vinhetas e etc. No outro dia, antes do horário marcado, já estava na rádio. Entrei pela primeira vez e fiquei maravilhado com o que eu vi. O estúdio da Rádio Emissora de Botucatu, apesar de simples, era muito bem montado. Do lado direito do operador ficavam os dois pratos (toca-discos) que estavam acomodados em duas mesas distintas de forro azul. Do lado esquerdo, duas cartucheiras. Na frente do operador ficava a mesa de som. Na F-8 essa mesa era um equipamento Scala de 10 canais analógicos com botões de volume. Até hoje essa empresa Scala fabrica esses equipamentos para rádios e outros eletrônicos de altíssima qualidade. Só para se ter uma ideia, na Rádio Municipalista, onde trabalho, ainda é uma mesa Scala de 12 canais e botões deslizantes, sempre muito resistente. Assim que cheguei na rádio, lá estava sentado na operação de som aquele que seria meu primeiro professor: Antônio J. Pires, o conhecidíssimo camisa Dez. Pensa num “cara gente boa”. Em uma semana ficamos amigos e ele passou muitos macetes. Não era simples. Trabalhar em rádio exige atenção, rapidez, perspicácia e, prin45


cipalmente, criatividade, muita criatividade. Percebi que seria uma tarefa árdua, complicada. Logo cheguei à conclusão de que precisaria de outro horário para aprender a operar. Comecei a frequentar o período da noite. Nessa minha segunda empreitada, conheci aquele que seria meu segundo e último professor: Carlos Roberto Jardim, o Carlão. Com muita paciência, esse meu grande amigo (até hoje) foi o primeiro que deixou eu sentar na cadeira e operar. Meu Deus! Foi talvez o dia mais tenso da minha vida. Na minha frente estava Nedilson Camargo, apresentador do programa “Lembranças”, que ia ao ar das 22h às 24h, de segunda à sexta-feira. Não vou contar em detalhes como foi porque o texto ficaria enorme mas, posso afirmar, que foi meio “trágico”. Errei bastante, mas Carlão estava sempre por perto me ensinando. Em pouco tempo, fui evoluindo e, com menos de um mês, já tinha bastante noção de como trabalhar e operar numa emissora de rádio. Gostaria de fazer um parêntese importante aqui. Naquele tempo, nos anos 90, tenho muito orgulho de dizer que ainda pertenci - nos momentos finais, é verdade - a uma geração de “ouro” do rádio. Não tinha internet, Youtube, Google, mídias digitais, nada disso. Tudo se concentrava na rádio. Ainda sou, com orgulho, de uma geração onde as duas únicas maneiras de o cidadão ouvir sua música preferida eram ou comprando o disco ou pedindo para o locutor tocar no programa dele e ficar rezando para que o mesmo não falasse no meio da canção. Quando se queria saber uma notícia ou ocorria um crime de grande repercussão, quase que a cidade inteira ligava o rádio para saber os detalhes. Tudo que se falava no rádio, tinha um peso “monstro” e a responsabilidade era muito forte. Não que hoje também não seja dessa maneira. Mas a tecnologia quebrou muito esta magia do rádio. Após esta pequena explicação, fica claro o porquê que eu “tremi” como vara verde para operar no programa do Nedilson Camargo. Um erro seria percebido por muitas pessoas, pois naquele 46


tempo cada programa tinha uma audiência ímpar, afinal muitos trocavam a televisão pelo rádio e não importava o horário. Fui evoluindo e, em poucos meses, já não tinha mais segredos na operação de som. Mas ainda não havia uma vaga disponível para eu trabalhar. Foi nesse meio tempo que aconteceu algo comigo que me marcou profundamente. Nedilson Camargo era filho de outro grande locutor: Nelson Camargo, que apresentava o programa da tarde. O técnico deste saiu, ficando disponível uma vaga. Alguns operadores passaram pelo horário, mas nenhum se encaixava com a personalidade do programa. Um dia, eu estava sentado em uma das cadeiras do auditório da F-8, quando o Nelson saiu bravo do estúdio, pois não estava nada contente com o operador daquele dia, passou por mim, foi até a sala do Plínio e, quando os dois saíram após conversar, ele disse: “Plínio, quero que esse rapaz faça amanhã a técnica”. Sabe aquela conhecida frase “o coração quase saltou pela boca?” Pois é! Foi bem parecido o que ocorreu comigo. Eu me lembro que tive uma tremedeira e fiquei assustado olhando para os dois. Então, o Plínio apenas disse: “Amanhã, duas horas da tarde, você começa”. Quem disse que eu dormi aquela noite? A todo momento vinha na cabeça essa oportunidade. Eu não podia dispensar, pois se fizesse um péssimo trabalho, o professor Nelson pediria minha cabeça rapidinho. Mas estava confiante que tudo sairia bem. E saiu. Fiz tudo certo e me lembro de ter errado bem pouco. Não precisou muito tempo para que eu assumisse definitivamente o horário e ficasse como operador titular, onde trabalhei muito tempo. Com o passar dos anos, eu fui ga- Heitor Titon com quem César teve os primeiros aprennhando experiência e, ao mesmo tempo, Júnior dizados no rádio 47


mais obrigações. Eu assumi, além da minha função de operador, a função de auxiliar técnico do “mestre” Santos Heitor e, coube a minha pessoa, a responsabilidade de armar e desarmar os aparelhos para transmissões externas. A rádio F-8 tinha alguns desses equipamentos que, na verdade, em termos bem simples, eram pequenos amplificadores de som com duas funções: receber o som da rádio através de linhas telefônicas como retorno e transmitir a voz do locutor, também por linhas telefônicas, de onde ele estivesse. Desde que (naquele tempo), a Telesp tivesse instalado essas quatro linhas no local. Eu escrevi “quatro” linhas, por que na realidade o retorno era um fio com duas polaridades e o fio transmissor idem. Entre todas as transmissões externas que fiz, lembro com nostalgia e saudosa lembrança a famosa cobertura de São Paulo da lista de aprovados para a Faculdade de Medicina em Botucatu. Pertenci há um tempo em que a rádio era a única maneira de o calouro saber com antecedência se passou ou não na faculdade. Se não fosse pela rádio, a perspectiva e apreensão poderiam durar um tempo maior até que ele soubesse do resultado final. Conclusão, como estamos falando de um tempo em que não existia internet, imagine, você leitor, o tamanho da audiência da emissora. Certa vez, numa dessas viagens, deu quase tudo errado. Plínio Paganini saiu atrasado de Botucatu por causa de alguns imprevistos e fomos para São Paulo, eu, Renato Carrá e Haroldo Amaral. Chegando na capital paulista, eu armei toda aparelhagem para transmissão, mas nada funcionava. A Telesp, naquele dia, estava com problemas e eu não conseguia chegar com meu som em Botucatu, apesar de estar recebendo o retorno no local. Como último recurso, ligamos por telefone na rádio e a transmissão foi feita quase toda dessa maneira. Um dos grandes diferenciais da linha era a qualidade do som. Não era “à toa” que a emissora sempre pedia com antecedência as linhas para transmissão, pois a qualidade do som era bem superior que o telefone convencional, principalmente naquela época. No final do dia, confesso que fiquei muito frustrado por não ter 48


obtido êxito na transmissão, mesmo sabendo que a culpa não foi minha. No retorno para Botucatu - chovia no momento - bem no início da Rodovia Castelo Branco, ainda em São Paulo, tinha um engarrafamento de veículos. Plínio, que dirigia o carro, foi surpreendido não dando tempo de frenagem e bateu fortemente na traseira de um veículo. Em seguida, outro carro veio atrás e deu com tudo na traseira do Voyage. A pancada foi muito forte e até hoje agradeço a Deus por ninguém ter se machucado apesar da gravidade do acidente. Provavelmente, devido ao nervosismo que tinha passado pela transmissão totalmente desastrosa, eu apresentava no momento do acidente um quadro de febre e indisposição. Nesse momento, naquelas famosas coincidências do destino, passou do nosso lado o carro da Rádio Municipalista, que já tinha no comando Vanderlei dos Santos. Imediatamente foi oferecida ajuda. Plínio, Haroldo e Renato resolveram ficar, mas devido a meu estado febril, pediram para que a maior concorrente da F-8 me levasse para Botucatu. Me lembro que, na famosa “zebrinha” da Muni - apelido este por causa das cores preta e branca do veículo da emissora - estavam, além do Vanderlei, Rubens Roberto Herbst e Tuca Campos. Outro episódio que recordo com saudades foi a minha primeira locução no rádio. Sabe quem foi o responsável? Pois é! Haroldo Amaral! Existia na F-8 um programa jornalístico de muito sucesso chamado “O Mundo em Marcha”, que ia ao ar às 12h, de segunda a sábado. Certo dia, estava eu chegando na rádio, por volta das 10h, quando o Haroldo disse: “Eu quero que você grave o tempo pro Mundo em Marcha”. Se existiu uma prova que eu não tinha problemas de coração, provavelmente essa foi uma delas. Eu, falar no rádio? Não era qualquer um que colocava a voz nos microfones. Os mais antigos contam que, nos áureos tempos, o “caboclo” chegava a anunciar para a família inteira ficar ouvindo ele dizer a “hora certa”. Nos anos 90, já não tinha essa exigência tão ferrenha, mas ainda carregava a tradição que pra falar no rádio, só com experiência e traquejo. Olhei para o Haroldo e fiquei sem saber o que falar. Então fiz 49


a pergunta errada para a pessoa certinha, que queria me ensinar a ser radialista. “Mas como eu faço?” Meu querido amigo Haroldo Amaral, que tenho um carinho de irmão muito grande até hoje por esta figura, olhou para mim e simplesmente disse: “Se vira cara! Problema seu! Eu quero o tempo!”. Lá vou eu para a redação da Rádio Emissora, peguei o jornal do dia, folheei até chegar no tempo e temperatura, sentei em frente à máquina de escrever e comecei a redigir o texto. Bom, o que vem a seguir foi uma verdadeira piada. Após ter elaborado a redação do tempo, peguei um gravador, aquele de fita K-7, e iniciei a gravação. Creio que fiquei aproximadamente uma hora tentando gravar, mas nunca ficava do jeito que queria. Nesse tempo, errei o português umas dez vezes, tremi mais que vara verde, não gostava da gravação e voltava para fazer de novo, errava a concordância, “comia” uma palavra, não gostava da minha voz, não ficava seguro no começo da gravação, e assim foi. Quando se aproximava do horário de entregar a fita, Haroldo chegou pra mim e disse: “E aí rapaz? Pronto? Cadê?”. Bom, imagine você leitor como foi essa gravação. Que tragédia! Fiquei na redação ouvindo o rádio esperando chegar minha vez. Então, o locutor que apresentava o programa (desculpem não me lembro quem foi) anunciou: “Agora, o tempo, com Cesar Júnior”. Por que meu Deus! Quando ouvi, tive vontade de chutar o rádio. Que horrível! A voz estava feia, a locução totalmente insegura, tinha cometido erros de português. Resumindo: uma tragédia! Fui pra casa frustrado, triste, achando que tinha perdido minha oportunidade de ouro de me transformar em locutor de rádio, isso por que o primeiro pensamento que vem na cabeça é que, no outro dia, com certeza, iriam arrumar outro pra informar o tempo. No dia seguinte, cheguei na emissora e a primeira coisa que eu fiz foi me preocupar em ficar o mais longe possível do Haroldo. Mas não teve jeito. Assim que me viu falou: “Grava o tempo pra mim”. Bons tempos esses. Haroldo Amaral teve muita paciência co50


migo, e nunca eu deixei de ter minha participação no programa. Com o tempo, esse grande amigo foi dando algumas dicas que se transformaram em resultados. Outra história bem legal que ocorreu comigo foi com a Festa de Santo Antônio que ocorria na igrejinha de Rubião Junior. A Rádio F-8 era responsável pelo sistema de som do local. Só que naquela época o som de festas e quermesses gerado pela emissora era com os alto-falantes estilo “corneta”. Para se ter uma ideia de qual equipamento eu escrevo, são os mesmos alto-falantes que muitas vezes a vemos instalados nos carros que vendem ovos e pamonhas nas ruas. No porão da rádio tinha uns 10 desses. Cabia ao Santos Heitor e seu auxiliar técnico armar toda a parafernália para que gerasse o som e as músicas que animariam a festa. Só que não era tão simples assim. Com quatro dias de antecedência, Plínio deixava o carro da rádio a nossa disposição, uma Kombi de cor amarela. Já no período da manhã, carregávamos o veículo com os falantes e um amontoado de fios e apetrechos e rumávamos para Rubião fazer a instalação do equipamento. Só que essa tal “instalação” consistia em subir nos postes de luz e amarrar uma “corneta” no ponto mais alto que a escada alcançasse. Esta escada era de madeira, pesava bastante e era do modelo que puxava uma corda e a mesma dobrava de tamanho. Que sofrimento! Cada poste em que nós parávamos em frente, eu abria a escada, colocava o alto-falante nas costas, subia o mais alto que pudesse e, no bolso da calça, levava em alicate de corda e um pedaço de, aproximadamente, um metro e meio de fio de telefone usado para transmissão, um pouco mais grosso que o convencional. Quando chegava no ponto mais alto, encostava o suporte do falante no poste, partia no meio o fio. Com um pedaço amarrava a parte de cima desse suporte e, com a outra, a de baixo. Com o equipamento fixado, descascava um pedaço de fio fino de energia, ligava no pequeno amplificador cilíndrico na parte de trás da corneta, descia da escada e carregávamos a mesma até o próximo poste. Repetia 51


o procedimento sucessivamente até ligar todas as cornetas. Me lembro que essa ligação levava um ou dois dias. Depois de tudo armado, no dia da quermesse, eu era o responsável pela animação da festa com as músicas e locução. Por um lado era muito cansativo, mas por outro, recompensador. Os festeiros sempre mandavam churrascos e guaranás para onde me encontrava. Na época eu não gostava desse compromisso. Confesso que cumpria essa obrigação meio que contrariado. Mas hoje, quando olho para trás, me dá muita saudade. Bons tempos de juventude no rádio. Acho que se, fosse possível, gostaria de ver meu amigo Heitor de novo e, se precisasse instalar essas cornetas, hoje faria com muita alegria. Existe algo que aprendi no rádio que carrego comigo com muito orgulho. Em decorrência de minha experiência e paixão pela música de qualidade, eu creio que possuo um bom conhecimento musical. Eu gosto bastante de Flash Back e o programa que hoje apresento na Rádio Municipalista é minha cara. Mas tudo no rádio tem um mestre. E esse mestre musical que merece todo meu respeito é meu querido amigo Luiz Antônio Matheus Vieira o “Bolinha”. Esse grande profissional tinha dois programas na Rádio Emissora de Botucatu. Aos sábados, o “Vozes do Brasil”, onde eram tocados os maiores sucessos da MPB e, aos domingos, o “Balanço Modulado”, que veiculava os sucessos do passado nacionais e internacionais. Foi com meu amigo Bolinha que aprendi a admirar a boa música. O mestre Luiz Antônio Matheus Vieira tinha total confiança no meu trabalho. Quando se assumia um programa musical, o operador de áudio recebia um papel que tinha como conteúdo a sequência das músicas que seriam veiculadas. Essa seleção - termo usado para este papel, datilografado, na época - também era feita para os programas do Bolinha exibidos aos finais de semana. Tenho orgulho de escrever que, com o passar do tempo, essa seleção não se fez mais necessária pois o “mestre” passou a confiar muito no meu gosto musical, fican52


do sob minha responsabilidade. Existem passagens que são inesquecíveis e marcam profundamente nossos corações e, com essas marcas, levamos lembranças gostosas que perduram para sempre. Um dos maiores ícones da história do rádio botucatuense foi Adalberto Matos. Este radialista foi um fenômeno por onde passou e líder de audiência. Até hoje, quando se fala de Adalberto Matos, se lembra da voz lindíssima que ele tinha, o carisma para apresentar programas e das maiores qualidades que um profissional da comunicação poderia ter. Para se ter uma ideia de quem estou escrevendo, na época que o Adalberto apresentava programas de rádio, bastava ele tocar uma música e a mesma virava sucesso imediato, pelo menos em Botucatu e aonde a F-8 alcançava. Infelizmente esse grande profissional tinha uma doença degenerativa que o obrigou, aos poucos, ir se afastando do rádio. Quando ele estava mais debilitado, um técnico ia uma vez por semana em sua casa e gravava a locução dele para o programa “Sucesso Mesmo”, que ia ao ar aos domingos e era composto de músicas classificadas da semana. Mesmo neste dia da semana, este programação tinha muita audiência. Quero aqui fazer uma pausa e dizer com muita emoção que eu era adolescente e nem sonhava trabalhar no rádio e ouvia esse programa dominical. Lembro com muitas saudades de minha mãe e do meu pai que ligavam o rádio e nós não íamos dormir sem antes saber qual era a primeira colocada da semana. Sabe, eu fecho os olhos e me recordo de um tempo que não volta mais. Me lembro daquela voz linda do Adalberto anunciando de três em três músicas quais seriam suas posições naquela semana. Na sala de minha casa, minha família se reunia. Minha mãe fazendo tricô, meu pai sentado numa poltrona de cor amarela, e eu, em outra. Ficávamos conversando e ouvindo as belas músicas daquele tempo. Não tinha aquele fanatismo pela televisão, não existia internet e celular para dividir a família. Era muito fácil trocar os programas de TV pelo rádio. Hoje meu pai é falecido. Minha mãe enfrenta problemas de saúde relativos à 53


idade mais avançada. Agradeço a Deus o dom da memória e essas lembranças que nunca ninguém pode tirar de nós. Uma dessas recordações, que jamais na minha vida vou esquecer e nunca contei para ninguém, é que um dia eu saí da Rádio F-8 e, quando descia a rua Marechal Deodoro, vi o Adalberto Matos sentado no banco de passageiros de uma Kombi azul, que era da sua família. Alguém da sua casa precisava resolver algo no centro e ele tinha vindo junto. Ele me viu, conversamos um pouco e, quando estava saindo, ele me disse: “Você um dia ainda será um grande radialista”. Vindo de quem veio, posso dizer que vou carregar comigo este incentivo para sempre. Saudades de você, meu irmão Adalberto. Um dos amigos com que aprendi muito e ainda aprendo é Luiz Henrique Paes de Almeida. Trabalhei com ele na F-8 por muito tempo e confesso que é aquele tipo de locutor que você faz amizade e tem consideração como irmão. Luiz Henrique é um grande radialista e atualmente tem um programa de muita audiência, aos sábados, na Rádio Municipalista chamado “Sábado Feliz” e, por coincidência, sou o técnico dele. Cito aqui o nome desse meu grande amigo porque com ele adquiri muito conhecimento sobre locução e na área musical. Luiz apresenta hoje programa que toca grandes sucessos nacionais e internacionais. Lembro-me com saudades dos velhos encontros de rock no Kamikaze Bar que ficava no mesmo prédio onde hoje funciona uma autoescola, no começo da Rua João Passos. Esse foi um dos momentos mais marcantes da Rádio F-8 que nunca vou me esquecer. O Tom Martins, assim como eu, gostava de rock. Através de um patrocínio, Tom conseguiu que ficássemos todos os domingos, à tarde e início da noite, nesse lugar, cobrindo os eventos que aconteciam. O proprietário do local trazia aos finais de semana bandas de rock e passávamos momentos inesquecíveis ali. Me lembro de um show feito por uma banda de rock de Botucatu que tocou músicas do Led Zeppelin e arrasaram. Infelizmente, o Tom Martins já nos deixou. Um mal súbito tirou essa grande pessoa de nós e com muita saudade 54


dedico essas linhas ao meu grande amigo. Eu curto Rock and Roll desde minha adolescência e trago estas raízes comigo até hoje. Minhas bandas preferidas são Deep Purple, Iron Maiden, Saxon e Scorpions. Fora do Rock, eu também gosto de Flash Back internacional, alguns sucessos nacionais e tenho como ídolo (nunca em comparação com Deus, eu digo ídolo terrestre) o Christopher Cross. Me orgulho muito da minha coleção musical. Tenho toda ela guardada em um HD externo. Na última análise que fiz estava com quase 40 mil músicas. Do grupo Bee Gees tenho todos os discos. O mesmo do Christopher Cross, Genesis, Phill Collins, Demis Roussos e muitos outros. A música infelizmente nos dias atuais perdeu o sentido e isso é muito triste, pois mostra uma degradação de valores e poesia. Não assisto televisão com frequência e todas as informações que tenho são pelos sites de notícia que leio constantemente. Os únicos momentos que ligo a TV para entretenimento é para acompanhar as corridas de Fórmula 1, pois eu também me considero fanático por automobilismo e acompanho quase tudo desse esporte. Minha paixão por corrida de carros e motos foi tanta que durante alguns anos apresentei na Municipalista um programa chamado “Momento Paddock”, que ia ao ar, aos domingos, das 14h às 15h e, no qual, eu analisava as corridas e passava a pontuação dos principais campeonatos automobilísticos do mundo. Mesmo com todo meu gosto pelo Rock, poucas pessoas sabem mas eu apresentei dois programas sertanejos e guardo com muito carinho em meu coração esses momentos. Ainda hoje muitos falam com saudades do locutor da F-8 Zé do Laço que, no passado, foi líder de audiência do horário das manhãs tocando música sertaneja raiz. O que pouquíssimos não sabem e quero registrar isso com muito orgulho é que, acreditem, eu fui o locutor que substituiu o Zé por alguns meses até o Plínio encontrar alguém quando o ele não estava mais à frente desse programa. Aliás, essa foi minha sina durante esses 30 anos no rádio. Eu 55


sempre fui um “tapa buracos” nas duas emissoras em que fiz parte. Substitui o professor Nelson Camargo nas tardes da F-8 por muito tempo, cheguei a fazer parte da bancada de “O Palanque”, apresentava o programa do Clóvis Carmoni cada vez que ele precisava faltar e assim sempre foi. Esse lado versátil que eu tinha, me rendeu o apelido interno de “Coringa” . Da mesma maneira, na Municipalista, eu apresentei quase um ano o programa do professor José Maria Leonel, quando o mesmo teve problemas sérios de saúde e ficou afastado. Somente em 2015, com o falecimento do meu grande amigo e companheiro Carlos Roberto Vieira, o Kaká, foi que o Vanderlei dos Santos me deu a oportunidade única de ter meu próprio programa, cargo esse que assumi e até hoje apresento “A Tarde é Nossa”, todos os dias, de segunda à sexta, das 14h às 17h, com músicas Flash Back de primeiríssima qualidade. Tenho lembranças gostosas da F-8. São aqueles bons e velhos tempos que não voltam mais. Ainda hoje, quando fecho os olhos me lembro do meu professor Antônio José Pires “o camisa Dez”, do Elias Francisco, apresentando o programa “Peça o que Quiser”, do Clovis Carmoni e seu “Comunicação Total”, do Walter Contesotte, o conhecidíssimo Wartão, e seu programa da tarde sertanejo, além de tantos outros amigos que passaram pelo rádio. O rádio é a história da minha vida. Foi minha única profissão. Hoje tenho uma participação intensa na Rádio Municipalista desde repórter policial até locutor de programa e operador de áudio. Mas tudo começou na F-8, e quem não iniciou ali sua história? A Rádio Emissora de Botucatu foi um marco em Botucatu e verdadeira escola para quem queria aprender a trabalhar no ramo. Com o falecimento de Plínio Paganini, a emissora passou por diversas direções até ser adquirida por Vanderlei dos Santos que graças a sua luta e dedicação diária, não deixou que a memória desse importante veículo de comunicação morresse. Algumas pessoas me perguntam. Se você se chama Walter César Pianucci Pereira, por que é conhecido por César Junior? Foi o 56


mestre Santos Heitor o responsável pelo meu nome no meio. Heitor já tinha um filho que o ajudava em alguns eventos e se chamava César Titton. Quando percebei que não iria desistir da minha jornada, bem no começo, o mestre me chamou num canto e disse: “Precisamos arrumar um nome pra você bem popular. Que tal César, seu segundo nome?” Achei interessante e concordei. O mestre então concluiu: “Pra não confundir com meu filho, que tal César Junior?” Pois é! Carrego comigo com muita emoção esse meu nome do meio do rádio. Santos Heitor gostava muito de mim e certas horas me tratava como se fosse um filho. César Junior veio por que um dia esse mestre com “M” maiúsculo quis homenagear o filho dele e colocou Júnior como razão dessa homenagem. Hoje César Titton não está mais no meio de nós, pois um trágico acidente tirou essa grande pessoa para sempre. Mas eu posso dizer que carrego um pouquinho dele comigo. Hoje estou com 50 anos. Olho para trás e vejo tudo que se passou na minha vida em relação a rádio. Já são 30 anos de dedicação extrema a esta profissão que você praticamente se anula e passa a viver em função dela. Foram inúmeros momentos de alegria, mas já tive momentos de tristeza também. Quero agradecer aqui neste livro duas pessoas que fizeram parte de minha vida e que sou grato: Plínio Paganini e Vanderlei dos Santos.

César Junior no estúdio da Rádio Municipalista

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Entrevistas/ Perfis


Odayr Marsano: trajetória de sucesso no rádio e como compositor Ele começou sua carreira na Rádio Emissora de Botucatu (PRF Arquivo Revista Radio-Teatro -8) e teve oportunidade de trabalhar na Voz da América, nos Estados Unidos, na Tupi do Rio, entre outros canais. Odair Marsano (como utilizava o nome no meio artístico) também se destacou como compositor, versionista e ator. Em 1959, teve sua primeira composição gravada: o rock balada "Um Milhão de Vezes", com Paulo Rogério, para o cantor Carlos Gonzaga, pela RCA Victor. Essa composição alcançou o 2º lugar do Billboard. Em 1959, foi o responsável pela versão “Hino Ao Amor (Hymne À L'Amour)", de Edith Piaf e Marguerite Monnot. Nesta entrevista, concedida em 2012, à Adriana Donini e Rubens Herbst, Odayr Marsano conta um pouco de sua trajetória, inclusive, na área musical, como compositor e ator. Inicialmente, eu gostaria de saber quando e de que maneira o senhor começou no rádio botucatuense? As datas estão meio perdidas nessa minha memória cansada, mas eu comecei muito cedo. Eu era um garotinho, participava de um programa infantil porque, na ocasião, eu era tido como um grande cantor mirim e, na moda, a voz era a do Vicente Celestino. Vicente Celestino era o mais popular cantor, digamos assim, da sociedade 59


brasileira na época. E eu, garoto, imitava o Vicente Celestino. E devia imitar com alguma perfeição porque era constantemente convidado pra festas, reuniões, e era o grande sucesso, o esperado sucesso de um programa infantil da PRF-8, Rádio Emissora de Botucatu, cujo diretor eu tenho assim uma grata memória, Angelino de Oliveira, autor de músicas extraordinárias, e que eu tive a felicidade de conhecer. Esse programa, na época, tinha um nome específico? Ele tinha um nome sim. Eu não estou bem lembrado do título do programa, mas era um programa especificamente de cantores mirins. Mas não era No Reino da Gurizada? Eu acho que era No Reino da Gurizada. Eu tenho a impressão. Não posso lhe afirmar com certeza, mas era o programa ali ainda... como é o nome desta rua? Eu me lembro só que a gente tinha que subir uma escada e a rádio ficava assim no segundo andar. Moraes Barros? Moraes Barros. Isso mesmo. Exatamente! E aquela citada escada que eu lhe disse ficava superlotada, não havia lugar para ninguém entrar a partir de uma determinada hora porque, aos domingos, era a grande atração da PRF-8 esse programa infantil. Me lembro até do maestro que acompanhava os cantores na época, professor Germano Hansen. Ele que me acompanhava nas minhas apresentações em Botucatu. Lembra de outras crianças que se apresentavam nessa época? 60


Olha, se não me engano, Norma Liguori. Norma Liguori, que depois teve um problema na garganta e precisou parar de cantar...Terezinha Paes..., se não me engano. O senhor foi apresentador também do Programa Gentilezas. Gostaria que falasse um pouco sobre essa produção. Eu me lembro do Fifa que era um locutor muito querido, eu me lembro do Martins também, José Martins - se não me engano - que eram locutores. Maurício de Oliveira - meu colega de rádio aqui em São Paulo - e, enfim, eram pessoas já adultas, e eu garotão, eu queria fazer parte. Então, quando faltava um locutor - quando um locutor por algum impedimento não podia comparecer - eu era o chamado locutor adoc, corria para substituir o locutor e, assim, eu fui ganhando uma posição dentro da Rádio Emissora PRF-8, Rádio Emissora de Botucatu, e cheguei a apresentar o Programa Gentilezas. O programa Gentilezas nada mais era do que o oferecimento de músicas. Você pagava [...] e você dedicava músicas. É... Joaquim dos Santos oferece à Maria Adelaide como prova de muito carinho e amor e aí entrava uma música, tocava-se uma música inteira que era dedicada a fulano de tal por fulano de tal. Eu apresentava esse programa. Também participei de um programa esportivo comandado por Maurício de Oliveira. Mais tarde, inaugurou-se na PRF-8 o programa estudantil. Nesse sim eu participei direto como apresentador e cantei também nesse programa. Enfim, foi um programa de muito sucesso em Botucatu por volta desses anos todos. O senhor chegou a participar da inauguração da rádio? Não, da Rádio PRF-8 não. Eu participei da inauguração da Rádio Municipalista, que era de propriedade da família Peduti. O senhor Emílio Peduti - que eu tive a felicidade de conhecer- e a emis61


sora era ali no Teatro Casino, em frente a uma praça muito grande, perto da Prefeitura. Eu fiz a apresentação dessa emissora em Botucatu. Rádio Municipalista, que era a concorrente da PRF-8, cujos proprietários eram Octacílio Paganini e Plínio Paganini, que funcionavam também como gerentes, diretores e programadores porque, em realidade, a emissora não tinha um roteiro de programação. A programação era uma colcha de retalhos com várias apresentações, várias inserções ao longo do dia. E em relação ao radioteatro? Isso foi o que marcou definitivamente a minha carreira, os meus primeiros passos no terreno da arte de interpretar. O radioteatro em Botucatu foi fundado pelo saudoso professor Genaro Lobo. Genaro Lobo, de saudosa memória, meu querido e grande amigo, que foi o homem que me encaminhou. Eram peças completas das quais participavam os alunos. Ele era professor de uma cadeira na Escola Normal Oficial de Botucatu e era um apaixonado do teatro e ele, então, comandava um grupo de estudantes e formou com eles um grupo teatral na PRF-8. Apresentávamos peças completas das quais eu participava como primeiro ator, como galã sempre e esse microbiozinho foi crescendo, crescendo, e me ajudou sobremaneira ao longo da minha vida porque, em realidade, o cantor foi apagado ficou lá na minha infância, digamos assim, e eu dei lugar ao ator. Trabalhei Foto do Odair Marsano de como ator, apresentador e locutor tanto 1943 e que passou a integrar a Galeria de Artistas da F-8 em rádio quanto em televisão. Eram peças completas começavam e 62


terminavam no mesmo dia, na mesma apresentação e aí um grupo de colegas, de atores, faziam parte. Eu me lembro do nome de uma atriz, só lembro do primeiro nome dela: Cacilda. Éramos, digamos assim, o galã e a heroína das peças do professor Genaro Lobo. E quanto às temáticas dessas peças como eram mais ou menos? Lembra de alguns temas que eram abordados? Era o amor, sempre. As histórias eram baseadas também nas novelas apresentadas pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Era uma espécie de febre no Brasil. O Brasil ouvia a Rádio Nacional por causa das suas novelas e o tema era sempre esse. Era o amor, era o ciúme, o perdão, enfim, os temas que até hoje perduram no rádio e na televisão. Da época do grupo de estudantes, que dia da semana, as peças eram apresentadas? Era durante a semana, um dia da semana lá era reservado para a apresentação das peças do professor Genaro Lobo, do teatro da PRF-8. Como foi sua ida para São Paulo? O meu grande sonho era participar de um rádio maior. E esse sonho eu segui a ponto de me prejudicar um pouco. Eu fui pra São Paulo para fazer Engenharia e acabei abandonando porque eu participei de um concurso pra locutores na Rádio São Paulo e ganhei o primeiro lugar. Eu e um colega de nome Carlos Henrique que se tornou também muito famoso, participando depois de publicidade de uma organização muito famosa: Casa Sendas. Na Rádio São Paulo fui contratado como locutor, mas com o afastamento do maior galã da Rádio São Paulo, José Martinez, eu fui guindado ao posto de galã. 63


Eu me candidatei, consegui o lugar dele e comecei a fazer parte do primeiro time de novelas da Rádio São Paulo. Daí para o sucesso foi um salto muito rápido porque, segundo informações que eu tenho da época, a minha voz era muito parecida com a voz de um querido saudoso e famoso ator da Rádio São Paulo que tinha ido embora para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro e deixado uma lacuna na Rádio São Paulo: Nélio Pinheiro. Parece que as nossas vozes eram muito semelhantes e quando eu participei da primeira novela na Rádio São Paulo os telefones não paravam de tocar dizendo: “O Nélio Pinheiro voltou, eu quero falar com o Nélio Pinheiro”. E era eu. Isso me frustrou um pouco, frustrou a minha vaidade de artista. Eu falei: ué, mas eu não sou esse Nélio, eu sou eu e daí pra diante, aos poucos, eu fui marcando a minha presença dentro do rádio. Cresci como ator e nunca em minha vida eu cheguei a interpretar um segundo papel, só fiz sempre, sempre, primeiros papeis, enquanto o rádio dominou com suas radionovelas. Logicamente, com o advento da televisão, as radionovelas foram relegadas a um segundo plano, mas eu ainda gozei muito desse prestígio do radionovela porque trabalhei muitos anos na Rádio São Paulo. E na sequência? Da Rádio Nacional de São Paulo, eu fui para Rádio Nacional do Rio de Janeiro, onde trabalhei em muitas novelas ao longo da minha vida, com nomes famosos do rádio: Mário Lago, Paulo Gracindo, Ísis de Oliveira, Floriano Faissal, enfim, todos esse grandes artistas do rádio e da televisão, que ainda hoje estão na televisão, foram meus colegas. Mercê do meu prestígio de rádio, eu fui convidado, fiz um teste e fui para a Voz da América, nos Estados Unidos. Trabalhei alguns anos na Voz da América, em Washington, mas a saudade do Brasil me trouxe de volta e eu voltei pra Rádio Tupi onde estou até hoje. 64


Em relação à música “Hino ao amor”, que também projetou bastante o seu nome, gostaria que comentasse sobre essa experiência. Eu sempre fui apaixonado pela música. A música sempre teve um lugar destaque dentro do meu coração, da minha alma, do meu espírito, de alguma forma, desde criança. A Rádio Nacional de São Paulo era uma espécie de sucursal da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, filial. Havia um intercâmbio muito grande entre o que se fazia na Rádio Nacional do Rio de Janeiro e na Rádio Nacional de São Paulo, o que deu a ela um impulso violento, extraordinário, logo nos primeiros meses de sua vida porque os atores vinham para trabalhar em São Paulo. Alguns ensaiadores famosos do radioteatro vinham para São Paulo pra ensaiar o elenco da Rádio Nacional de São Paulo e eu estava lá nessa ocasião de grandes atrações musicais porque o rádio na época não era só novela. O rádio também era auditório. E entre as atrações de um determinado ano, qual foi a atração? A vinda ao Brasil da Edith Piaff. Eu que era já era fã da Edith Piaff, fiquei encantado, maravilhado e, como funcionário da emissora, coisa que não era permitido a ninguém isso - somente aos funcionários - eu sentava no auditório da Rádio Nacional para assistir aos ensaios da Edith Piaff. Fechando os olhos, tenho a figurinha dela vestindo um vestido preto, com uma gola bem coladinha no pescoço, sem nenhum decote, magrinha, baixinha, interpretando e os seus gestos bonitos com os braços. À medida que ela cantava, ela acompanhava a melodia erguendo os braços pro alto, etc. E ela tinha um manager que a acompanhava em tudo. Diziam, isso eu não pude testemunhar, mas que ela não comia nada sem que antes ele provasse. A Rádio Nacional de São Paulo era filiada à TV Paulista Os espetáculos eram transmitidos também pela televisão, e era proibido que se fizessem tomadas com close nela em determinadas posições. As câmeras só podiam fazer tomadas em plano aberto. Então, eu ficava no auditório assistindo os ensaios da Edith Piaff. E quantas e quantas vezes eu 65


vi esse manager dela interromper a interpretação, dizendo: “não, não, não, esse gesto não, levanta mais os braços, nessa altura, levanta mais os braços, faça isso, faça aquilo”. Ele corrigia e dava à ela, digamos assim, os caminhos necessários para que sua apresentação fosse marcante, bonita, expressiva e pudesse conquistar o público, conforme ela conquistou. E entre as músicas cantadas e apresentadas pela Edith Piaff lá estava o “Hino ao amor”, que eu ouvia embevecido, apaixonado que era, e foi das músicas que mais eu gostei . Na ocasião, além da participação das novelas na Rádio Nacional de São Paulo, eu participava também das peças. Existia um teatro que ia ao ar, aos sábados, na TV Paulista, que hoje é TV Globo. Era um teatro completo, começava a terminava. E um dos autores de uma dessas peças, famoso, grande escritor José Castellar, um dia chegou pra mim - notando a minha admiração, o meu entusiasmo pela Edith Piaff, durante o tempo em que ela permaneceu aqui nas suas apresentações na Rádio Nacional de São Paulo e TV Paulista - ele me disse: “Eu estou precisando, eu quero...você teria condições de fazer uma letra para Hino ao amor? Eu vou querer esta letra, eu vou querer esta música para a Wilma Bentivegna, que era uma cantora famosa na época e era atriz também. Era uma peça curta de televisão e, no final, ela descia uma escadaria vestida de noiva e cantando o Hino ao amor. Ele me contou, disse: “olha, ela desce uma escada assim, cantando Hino ao amor, você faria uma letra pra mim?”. Eu falei: Oh, meu Deus, é comigo mesmo! Isso é uma honra pra mim, deixa comigo. E eu fiz: se o azul do céu escurecer e a alegria na terra fenecer... e vai por aí afora. E daí nasceu o Hino ao amor, que já na sua primeira apresentação foi um sucesso muito grande, muito marcante e surgiram vários convites pra Wilma Bentivegna gravar a música Hino ao amor e eu, logicamente, participava de shows, de apresentações em circos, em clubes, em associações, sempre acompanhando a Wilma Bentivegna e o Hino ao amor. O Hino ao amor chegou a fazer um sucesso tão grande que eu morava numa rua em São Paulo e essa rua aos sábados tinha uma feira, dessas feiras li66


vres. E uma determinada barraca lá vendia discos, eram discos de 78 rotações e tocavam insistentemente. Era comum baterem à minha porta, tocar a campainha e dizer: “Ah, seu Odair, o senhor tem prestígio lá na Odeon (Odeon foi a companhia onde a Wilma Bentivegna gravou o Hino ao amor), o senhor podia arrumar mais uma cota pra mim. Tá difícil, eu não consigo mais uma cota. Eu não tenho prestígio, mas se o senhor pedir”. Então, veja aonde chegou o sucesso do Hino ao amor. Tocava em feiras, em associações, barraquinhas, foi um estouro. Daí pra diante eu fiz outras letras, outras músicas, outras versões e fiquei por aí. O Hino ao amor teve umas 10, 12 gravações, inclusive com a Isa Matarazzo, a Dalva de Oliveira. Enfim, muitas, muitas gravações. Enfim é um pouquinho da história do Hino ao Amor. Nasceu de um pedido que o José Castellar me fez para apresentação da Wilma Bentivegna na participação de uma pequena novelinha que ela estrelava na TV Paulista, que hoje é TV Globo.

Arquivo Rádio Emissora de Botucatu

Odayr Marsano (2º à esquerda) com outras crianças participantes de programa infantil da PRF-8 em 1940

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Oduvaldo de Oliveira: criador do “Galeria dos Mirins” e atuação na área esportiva Adriana Donini

Apresentador de programas de auditório, programador, repórter esportivo. Essas foram as principais atividades exercidas por Oduvaldo de Oliveira, radialista que atuou em Botucatu e também na capital na época de ouro de rádio. Em entrevista, concedida em 2009, o então professor aposentado Oduvaldo, natural de Laranjal Paulista comentou como iniciou no rádio, falou sobre a ideia da criação do programa de calouros “Galeria dos Mirins” e também a respeito de transmissões esportivas realizadas em outros municípios. Ele ainda relembrou a atuação de alguns profissionais daquela época com os quais conviveu e sua atuação na Rádio Piratininga, em São Paulo, na década de 1960. Oduvaldo de Oliveira faleceu em 16 de março de 2012. Quando e de que maneira o senhor iniciou no rádio em Botucatu? Desde os meus tempos de menino, em Laranjal Paulista, ouvia 68


com aquela narração rápida, o locutor Pedro Luís (o maior nome do rádio esportivo brasileiro). Em minhas brincadeiras, em casa, imitava o narrador fazendo sempre o jogo São Paulo e Corinthians. Para provocar meu pai - que era corintiano - nas minhas narrações, o São Paulo sempre ganhava. Chegando em Botucatu, que tinha uma rádio, vi a oportunidade para tornar verdadeira a minha brincadeira de menino. Fui colega de escola de Ademar Potiens que, praticamente, me levou, mas o meu primeiro trabalho, ainda calouro, foi trabalhar na transmissão do Carnaval ao lado de Neder Adib (um dos principais nomes da rádio na época-1957). Acho que dei certo nesse início porque depois do Carnaval fui escalado para trabalhar com o Neder, aos domingos, na apresentação do programa infantil "No Reino da Gurizada". A parte de esportes da rádio não era muito sistematizada. Havia um programa diário, por volta das 18h10 até 18h30. Eram dadas as notícias da Botucatuense e Ferroviária, algumas notícias dos clubes de São Paulo retiradas do jornal ”A Gazeta Esportiva” e um noticiário dos clubes amadores da cidade. Basicamente só se falava sobre futebol. Ademar Potiens era o chefe da equipe. Na transmissão de um jogo, Plínio Paganini abria a transmissão, fazia os comentários que antecediam o jogo. Depois Ademar narrava um pouco. Plínio assumia e narrava outra e, no fim, sobrava um pouquinho para mim. Fiquei decepcionado com a minha primeira narração. Mas como a rádio foi fazer um jogo em Avaré no domingo seguinte e eu fui chamado para participar do trabalho, me senti fortalecido, e tive um desempenho melhor, na minha opinião. Na verdade, o Plínio me incentivou e falou "vá em frente, o negócio é assim mesmo". Assim, eu segui o conselho do chefe e segui em frente. Este foi o meu início no rádio de Botucatu. Quais os principais programas que apresentou? Na verdade, eu fui polivalente. Participei de vários programas da rádio. Como disse anteriormente, trabalhei ao lado de Neder Adib em 69


"No Reino da Gurizada" e foi por um bom tempo. Num determinado domingo, assumi a apresentação do "No Reino da Gurizada" em substituição ao Neder que foi convocado para o Serviço Militar e não poderia mais trabalhar no domingo pela manhã. Foi a minha grande oportunidade. Aos poucos, me familiarizei com a nova função e fui estabelecendo algumas modificações no programa. Tinha muita gente boa que se apresentava. O auditório, com capacidade para 120 pessoas sentadas, tinha sempre 120 em pé se acotovelando nos espaços laterais. Havia um patrocinador forte, a Lacta. Cada criança que entrava no auditório ganhava um bombom Lacta. Os vencedores do programa ganhavam produtos Lacta. Havia muita dedicação das pessoas que participavam na retaguarda do programa. O sanfoneiro João Cicino, responsável pelo acompanhamento, era muito entusiasmado, paciente e dedicado. Aos poucos, foram aparecendo alguns destaques que apresentavam boas qualidades de ritmo, voz, etc. Gostaria que falasse sobre a produção "Galeria dos Mirins", incluindo o horário e dia da semana que esse programa era apresentado e como funcionava o ensaio dos cantores. Conversei com o João Cicino e pedi sua opinião sobre um programa que abrisse espaço para aqueles destaques do "No Reino da Gurizada" e ele achou boa a ideia. Fomos selecionando as crianças para um novo programa. Estava nascendo a "Galeria dos Mirins". A direção da rádio ainda não sabia da ideia. Quando tudo estava organizado falei para o Plínio Paganini. Ele gostou e disse para preparar o programa que ele queria ver. Informei que o programa estava pronto e ele foi assistir a um ensaio. Gostou e passamos a estudar um dia da semana. Teria que ser à noite. Havia o problema da segurança das crianças. Voltariam muito tarde para casa. O problema foi resolvido assim: após cada programa, a perua da rádio entregaria cada criança em sua casa. Assim foi feito. Um novo problema: essas 70


crianças se apresentando em horário noturno num programa de auditório. Com autorização, por escrito, dos pais a rádio assumiria a responsabilidade pelas crianças. O Juizado de Menores autorizou e o projeto seguiu adiante. Acabava de nascer a “Galeria dos Mirins” que por alguns anos brilhou nas noites de quarta-feira. Com o patrocínio do Café Tesouro, o programa foi tomando seu espaço. Entrava no ar às 20 horas e terminava às 21 horas. Quais os principais calouros que se destacaram naquela época? Manoel Francisco (um garoto que cantava principalmente músicas de Ivon Curi), Inês de Paiva, Maria Luiza, Lurdinha Salaro, Sônia Maria, Nilson Moressi, Inês Lino, Roseli Corvino, Maria Deusa, Jandira Panhozzi, Irina Balbino, Sinval Queiroz, Vilma Faria, Aparecido Alves, Roberto Zeminian, Ivani Quadros, Verdete Ferreira, Ana da Silva Leite, Ana Lúcia Passos Fernandes. Desses citados um destaque especial para Aparecido Alves e Vilma Faria. Só hoje, depois de tantos anos, estou fazendo esse destaque. No dia a dia todos eram iguais e tratados como iguais. Todos tinham uma ficha catalogada com o repertório que cantavam. Ali estava registrado nome da música, ritmo, tom. Eram todos amadores, mas em determinadas datas recebiam presentes oferecidos pelo patrocinador do programa: a Casa Costa. O ensaio do programa era às terças-feiras, a partir das 17h30. O repertório de cada um era escolhido pela direção do programa. A "Galeria dos Mirins" tinha no acompanhamento musical o Regional Tabajara formado por João Cicino (acordeon), Serrinha (violão), Geraldo (pandeiro) e Vicente Lofiego (Bongô e Maracas). Depois de um tempo, juntou-se ao grupo Airton Camalionte (violão). Os apresentadores do programa vestiam terno preto. No palco, todos do regional usavam terno e gravata. Comente sobre sua atuação nas áreas jornalística e esportiva. 71


Jornal propriamente dito fiz muito pouco. A minha maior participação foi no jornalismo esportivo. Como disse anteriormente, herdei o programa “No Reino da Gurizada”. Aconteceu o mesmo com o programa “Esportes no Ar”. O titular de esportes, Ademar Potiens, por motivos particulares, foi morar em Tatuí e o Plínio passou para mim a direção dos programas esportivos. Depois de um período de adaptação comecei a exercer plenamente a nova função. Demos uma cara diferente para o programa e as transmissões esportivas. O esporte botucatuense estava vivendo uma fase promissora no ano de 58. Tínhamos a Ferroviária na 2ª divisão e a Botucatuense na 3ª divisão. Os dois com bom desempenho em suas divisões. Despontava uma equipe de atletismo com alguns destaques e grande desempenho nos Jogos Regionais, brotava uma equipe de basquete feminino que se destacou em todo o estado, a natação do BTC se destacava, o E.C.Centenário, sob o comando de Palmiro Biazon, surgia para reforçar o nosso atletismo já forte na Botucatuense, sob o comando do professor Guimarães. A nossa várzea estava forte com grandes campeonatos. Era um prato cheio para se aproveitar bem. Fiz um acerto salarial com a rádio e deixei o meu trabalho na Romani Mori. Fui morar na Rua Amando de Barros e passei a viver intensamente a F-8. Nossas transmissões passaram a ter uma cara parecida com as grandes emissoras. Sempre em nossa retaguarda a confiança que nos assegurava Santos Heitor, o diretor técnico da emissora. Em nossas transmissões, o trabalho seguro e eficiente de José Senna, Nacer Rodrigues e Vicente Lofiego. Enfim, o mérito da missão cumprida pertencia a todos nós. Não havia vaidades, mas muita responsabilidade. Agora registro de maneira muito especial um grande amigo que conheci em Laranjal Paulista e um dia apareceu na rádio. Havia mudado com a família para Botucatu e estava ainda se adaptando na cidade. Por uma dessas coisas que aconteceram comigo na rádio, num belo dia, antes da chegada desse amigo, a emissora ficou sem programador. Lá vem o Plínio e pede para eu fazer o trabalho até ele conseguir outra pessoa. Confesso que não me agra72


dava o trabalho, mas nunca fui de desprezar oportunidades. Sabia que não tinha condição necessária para o serviço mas, a título de colaboração, aceitei o encargo. Agora volto ao amigo de quem estava falando. Era Adalberto Matos. Eu vi ali a oportunidade de deixar a função de programador. Adalberto passou a frequentar a rádio e a sala onde eu fazia a programação. Com a amizade que tínhamos, passou a dar alguns palpites muito bons e melhores do que eu fazia. Não tive dúvidas. Conversei com o Plínio e sugeri que o Adalberto ocupasse o meu lugar. O Plínio aceitou, o Adalberto deu certo e eu fiquei livre da função de programador. A rádio ganhou muito com a troca. O Adalberto passou a acumular a função de plantão esportivo durante nossas transmissões. Era trabalhador, dedicado e gostava das coisas bem feitas. Nunca faltou ao trabalho. Aos poucos, foi desempenhando com sucesso seu trabalho de programador e deu uma vida nova para as seleções musicais da rádio. Teve um programa diário que começava ao meio dia e terminava uma hora, diariamente. Esse programa era a marca registrada do Adalberto. Chamava-se “Sequência de Sucessos”. Aí eram apresentados os principais sucessos nacionais e internacionais que a emissora possuía. A equipe de esportes estava organizada. Contávamos com João Ribeiro e Francisco de Assis na condição de comentaristas; José Roberto Quinteiro como segundo narrador; Adalberto Matos, era o plantão. Durante as apresentações dos programas contávamos ainda com Mércio Moreira, Roberto Moreira, Ademir Potiens. Num segundo período de nossa estada no rádio de Botucatu, contamos com Cesar Cassano, Elias Francisco, Ademar Potiens (que havia voltado), Gilberto Silva, e lançamos o repórter de campo Carlos Figueiroa copiando bem um estilo do repórter das grandes emissoras. Com a equipe estruturada, como passou a ser a atuação em transmissões esportivas? No início do ano de 1960, deixei a Rádio Emissora de Botucatu 73


e fui trabalhar em Presidente Prudente. Um belo dia, em agosto de 1961, recebi um telegrama do Plínio com esta afirmação: "Quero você de volta. Abra a parada". Dei o retorno, discutimos condições financeiras e voltei. Chegando em Botucatu, fiquei sabendo da novidade: a Rádio Municipalista estava em vias de ser instalada na cidade. Expressão do Plínio para mim:"Estou me cercando com meus amigos para enfrentar a nova realidade". Dentro dessa condição de funcionário e amigo, participamos de uma grande reunião que tinha por objetivo se preparar para receber a concorrência. Nessa reunião concluiu-se que a rádio deveria ter uma programação geral reorganizada. A Emissora comprou outro telefone para deixar o anterior disponível para entrar no ar a qualquer momento. Passou-se, copiando as emissoras de São Paulo, a colocar o ouvinte no ar participando do programa. Enfim, realizou-se uma modificação geral que foi batizada de Linha RE-62. Uma programação moderna, diferenciada, levando alguns programas para dentro da casa do ouvinte. Foi um fato que marcou minha passagem por Botucatu. Ainda nesse ano, a seleção brasileira se preparava para a Copa do Mundo no Chile. O Brasil tinha jogo marcado para o Maracanã, como parte dos preparativos. Falei para o Plínio: Vamos fazer o jogo da seleção no Maracanã. Ele topou a parada arrumou patrocínio, viajamos de avião de Botucatu ao Rio de Janeiro. Saímos de Botucatu num avião do Alcides Cagliari e, em São Paulo, pegamos a ponte aérea para o Rio. Isto em 62 para emissora do interior era uma proeza. Fizemos o jogo. "Os caipiras" se portaram bem. A nossa audiência foi enorme porque a cidade estava curiosa para saber como os "caipiras" se comportariam. E nós fomos bem: estava eu, o comentarista Cesar Cassano e Luis Carlos nas reportagens com um transmissor portátil que interferia na Tupi do Rio. O Brasil ganhou de 6 a 0, mas nós fizemos o grande gol do rádio de Botucatu. Felizes com o sucesso do Rio de Janeiro fomos para o Pacaembu com Ademar Potiens e João Ribeiro. Antes da partida Ademar prometeu: “Vou pegar uma saudação do narrador da Rádio Nacional de Portugal para Botucatu”. E cumpriu a palavra. O 74


narrador português, todo emocionado, mandou um abraço para o povo de Botucatu. Gostamos de navegar em novos mares e, em seguida, lá estávamos nós, na Vila Belmiro, em Santos, fazendo o jogo pela Libertadores da América entre Santos e Peñarol, do Uruguai. Foram três jornadas internacionais que determinaram nossa liderança no esporte de Botucatu. Tínhamos uma concorrência na cidade, mas sabíamos da nossa liderança. Quando falo nossa, estou me referindo ao conjunto, à rádio. Éramos uma equipe que jogava certinho. A maior satisfação que tivemos aconteceu na cidade de Salto. A Botucatuense faria um jogo decisivo com a Saltense. Para transmitir o jogo todos dependiam da linha telefônica. Em Salto, não havia circuito telefônico disponível para atender as duas emissoras de Botucatu ao mesmo tempo. Então, a companhia telefônica não deu linha para ninguém. A PRF-8 continuou anunciando que transmitiria o jogo. Santos Heitor garantiu que faríamos o jogo. Não sei qual foi o mistério mas eu fui para Salto, Santos Heitor foi junto, a transmissão saiu. A Botucatuense empatou e nós demos um banho na concorrência. Costumo dizer que fui um privilegiado. Vivi uma fase de ouro de esporte botucatuense. Se considerarmos os tempos, as dificuldades que existiam em quase tudo, os equipamentos limitados da época, tivemos um desempenho bom. Como foi trabalhar na época do regime militar? Trabalhei na Rádio Piratininga durante aquela fase dura da Revolução de 64. A rádio era de propriedade do Senador Miguel Leuzzi que não era simpatizante dos militares. Na véspera da revolução, eu fui a Ribeirão Preto fazer um jogo entre Botafogo e São Paulo. Acabamos o jogo e com a perua da rádio voltamos a São Paulo. A viagem era demorada e cansativa. Chegamos em São Paulo e fui direto para casa descansar. No dia seguinte,por volta das 11 horas, fui para a rádio porque tínhamos programa ao meio-dia. Na entrada da rádio fui barrado por agente do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) que pediu minha identificação. Atendi, fui autorizado a entrar. Fui direto para nossa sala de trabalho e encontrei meu chefe, 75


Wilson Brasil. Ele conversou comigo, informou que a rádio estava sob intervenção federal e que eu deveria retornar para minha casa. Seria chamado quando as coisas normalizassem. Praticamente, para mim, foi a revolução. Recebemos uma orientação da emissora sobre o comportamento de cada um e as novas regras que deveriam ser seguidas.

Como se deu a sua transferência para São Paulo e quais trabalhos e funções realizou depois de atuar em Botucatu? Chegou a hora em que eu sentia que precisava deixar Botucatu. Tinha feito quase tudo que um radialista poderia ter feito. Influenciado pelo professor Agostinho Minicucci, percebi que era hora de procurar outros ares. Estava inscrito em concurso de ingresso da Secretaria de Educação do Estado, mas os movimentos políticos impediam a realização dos concursos. Foi então que decidi: Vou tentar a sorte em São Paulo. O meu amigo Wilson Marcondes estava trabalhando em São Paulo já há algum tempo e disse que conseguiria um teste para mim. E conseguiu. Fiz o teste na Rádio Piratininga que estava se preparando para lançar uma equipe esportiva. Fui aprovado e contratado. Fiz a minha estreia no Maracanã, num jogo entre Vasco da Gama e Fluminense. O goleiro do Vasco era o Marcelo, que havia sido goleiro da Ferroviária de Botucatu. Tive um bom desempenho, mas o meu objetivo, por uma questão de segurança, era ingressar no magistério. Afinal o salário de um professor correspondia a dois terços do que eu ganhava no rádio. Mas a vida era mais tranqüila. Eu já tinha viajado tanto. Foram poucos os fins de semana que tive junto aos amigos. Estava na hora de parar um pouco. Finalmente o esperado concurso de ingresso saiu. Eu havia feito em Botucatu o Curso de aperfeiçoamento. Os portadores desse curso tinham direito a um terço das vagas. Concorri com esse um terço sobre um quinto das vagas que eram reservadas para o candidato do sexo masculino. Fui trabalhar em Santo André. Deixei o rádio de São Paulo. Afinal tinha atingido parte do meu objetivo. Trabalhei na Rádio Clube de 76


Santo André ajudando Luiz Lombardi (esse mesmo do Silvio Santos) num programa à tarde (desinteressante e desestimulante).Fiz concurso no SESI (Serviço Social da Indústria). Fui professor do SESI por 13 anos.Pela manhã, eu trabalhava no SESI, durante à tarde trabalhava no Estado e, à noite, fiz Curso de Pedagogia na Escola de Ensino Superior Senador Flaquer, de Santo André, pensando em mudar a minha vida. Agora eu queria ser Diretor de Escola. Consegui o meu objetivo. Passei no concurso. No mês de fevereiro de 1979, assumi a direção do Grupo Escolar do Jardim Santa Cristina, em Santo André. Em 1980, me transferi para Itatiba onde aposentei em 1991.

Arquivo João Carlos Figueiroa

Oduvaldo de Oliveira com participantes do “Galeria dos Mirins” . Da esquerda para a direita (atrás): Vicente Lofiego, Jandira Pagnozzi, Nilson Moressi, Silsa Giraldella e Oduvaldo de Oliveira. Da esquerda para a direita (frente): Verdette Ferreira, Marle-ne Marcelino, Roseli Corvino, Manoel Francisco, Ivani Quadros e Deusa Corvino

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Plínio Paganini: o símbolo da Rádio Emissora de Botucatu Equipe Cata-vento Comunicação Toda vez que se menciona a história do rádio em Botucatu e, principalmente da pioneira PRF-8, o nome de Plínio Paganini se faz presente. Nascido em Botucatu em 18 de novembro de 1927, ele começou vendendo jornais dentro de trens e na porta do Mercado Municipal (Mercadão). Inicialmente, estudou no Grupo Escolar “Dr. Cardoso de Almeida” e concluiu o Curso de Formação Ginasial e Colegial na Escola Técnica de Comércio Nossa Senhora de Lourdes. Formou-se em Direito pela Fundação Karnig Bazarian, de Itapetininga (SP) Por intermédio de seu irmão, em 1941, passou a trabalhar na Rádio Emissora de Botucatu, como serviços gerais. Depois assumiu o cargo de assistente de estúdio. Sua próxima conquista foi se tornar locutor esportivo e, depois, apresentador. Mas não parou por aí. Em 1956, passou a ser gerente da emissora. Por meio de sociedade com os irmãos Octacílio, Domingos, Élcio e Ozônio, se tornou um dos proprietários da Rádio Emissora de Botucatu. Paganini demonstrava intensidade no seu gosto pelo rádio. Ele se desdobrava para, com recursos limitados, criar e sempre buscar o patamar de emissoras de maior porte instaladas nos grandes centros. Mesmo na função de gerente, continuou atuando como repórter em todas áreas. Assim, a Rádio Emissora teve uma fase de glória ao cobrir principais eventos em âmbitos local, regional e, várias vezes, também nacional. Ele, junto com Edson Moreno e Elias Francisco, deram início 78


ao programa “O Palanque” que teve início em 1 de março de 1964. Deu início à Olimpíada Infantil, que hoje recebe seu nome. No mês de maio, estava sempre à frente da promoção dois eventos promovidos para homenagear as mães. Um deles consistia em gravações com crianças em escolas e, outro, era realizado ou na Praça Coronel Moura (Paratodos) ou no estádio da Associação Atlética Ferroviária. Paganini se envolvia com diversos segmentos da sociedade, fosse no âmbito de assistência social - recebendo diariamente pessoas em sua sala ou promovendo campanhas - com integrantes dos meios empresarial e comercial, igrejas, movimentos culturais e a comunidade em geral. No dia de Natal, também tinha o hábito de percorrer as ruas de Botucatu com um caminhão distribuindo balas, acompanhado de “Zé da Lala”,que se vestia de papai Noel. Ele foi um dos criadores da Caminhada da Fé, evento que ocorre anualmente na madrugada da sexta-feira santa. Nos primeiros anos, os participantes da referida Caminhada iam em todas as igrejas católicas do município. A proximidade de Paganini com a população facilitou seu ingresso no meio político. Em 1954, foi eleito como vereador. Ocupou o cargo de prefeito em duas oportunidades. A primeira, após o falecimento de Emílio Peduti - do qual era vice -, de 1962 a 1963. O seu segundo mandato foi de 1974 a 1978. Entre as conquistas de sua gestão estão a vinda Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) para Botucatu, a aquisição do prédio da Diretoria Regional dos Correios e Telégrafos para a instalar a prefeitura e a construção do viaduto Bento Natel, em parceria com o governo de Estado de São Paulo. Foi ainda repórter esportivo, gerente, diretor e proprietário do jornal “Correio de Botucatu” até 1977. Criou o “Diário de Botucatu”. Quando percebeu que uma inovação havia surgido no meio radiofônico, ou seja, a Frequência Modulada (FM) buscou e conse79


guiu uma concessão, instalando a Cultura FM, inaugurada em abril de 1979. Plínio Paganini faleceu em 3 de janeiro de 1997, deixando sua contribuição para a história da comunicação local. Fotos arquivo Rádio Emissora de Botucatu

Plínio Paganini em sua “famosa” sala

Írmãos Paganini: Domingos, Élcio, Plínio, Octacílio e Ozonio

Elias Francisco (microfone), Plínio Paganini, Armando Delmanto, Dom Vicente Marchetti Zioni e Élcio Paganini

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Vanderlei dos Santos: vasta trajetória na Rádio Municipalista Equipe Cata-vento Comunicação Há 34 anos na Rádio Municipalista, Vanderlei dos Santos, atualmente, por meio de sua empresa VS Propaganda, além desta emissora gerencia, desde 2018, também a Rádio F-8, que se tornou integrante da rede de rádios Jovem Pan News. Ele concilia ainda a atuação na área de comunicação com a profissão de advogado. Por estar tanto tempo na Municipalista, a sua identidade no meio radiofônico é bastante associada a essa emissora. No entanto assim como tantos profissionais de rádio de Botucatu - também começou sua carreira na PRF-8, como auxiliar técnico. “Eu comecei no rádio em 1973. Eu era auxiliar de repórter. Fui ajudando o Heitor e fui convidado a fazer mesa. Fui para a mesa de som”, lembra. Mas como Vanderlei dos Santos se transformou em locutor? Segundo ele, a conquista dessa atuação teve início de maneira despretensiosa. “Um dia, o Adalberto Matos (ex-locutor) estava fazendo aniversário e pediu para que o pessoal da rádio fosse lá (no estúdio) e falasse, e eu falei. A partir daí, as pessoas desconfiaram que eu poderia fazer locução. Em abril de 1974, eu comecei a fazer locução, aos sábados e domingos, na F-8”, conta Santos a respeito do início de sua carreira como locutor. Em 1975, ele saiu da emissora em que iniciou sua trajetória e ingressou na Municipalista. No novo local de trabalho atuou em várias funções e produções. No período militar ele era incumbido, por exemplo, de submeter a programação musical para aprovação da Polícia Federal. Com o tempo, conquistou a confiança da família Peduti e assumiu o cargo de gerente. Há décadas como âncora do programa “A Marreta”, ele se tornou um profissional bastante conhecido da socie81


dade. Ele é o comentarista de assuntos abordados nessa produção expondo diariamente suas opiniões acerca de diversos assuntos. Nos principais acontecimentos de Botucatu e região ele sempre procurou estar presente reportando os fatos e, em cada finalização das entradas ao vivo, costuma dizer: “Fiquem ligados porque rádio ligado é povo informado!” Em sua administração, ele priorizou a promoção de festividades e shows nos aniversários da Municipalista. Vários moradores devem se recordar de bolos distribuídos na praça Emílio Peduti, em frente à Municipalista, e que tinham as extensões da idade que a emissora completava. Santos foi o responsável por anunciar diversos shows históricos que ocorreram em clubes, como dos cantores Nélson Gonçalves e Jessé. A associação entre rádio e campanhas sociais é outro elo que ele estabeleceu. Como proprietário da VS Propaganda ele atua na área de outdoors e paineis eletrônicos. O seu contato com diversas situações cotidianas talvez tenha sido o estímulo para que ele se tornasse também advogado. Santos considera que o rádio lhe proporcionou aprendizado e foi essencial para suas conquistas. “O rádio para mim foi uma grande escola. No rádio, você é obrigado a fazer muitas coisas. Aquilo que você faz na prática, vivenciando o dia a dia”, diz. “Sou muito grato. convivi com pessoas boas, pessoas que me deram a oportunidade de aprender, admirei muita gente que passou nesse percurso. Tive muita experiência boa na minha vida no rádio. Tudo que eu tenho, tudo que eu sou, eu sou muito grato, porque eu devo tudo ao rádio. O rádio só fez bem pra mim, pra minha vida. Tive o privilégio de passar pelo rádio”, acrescenta

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Fotos: Rádio Municipalista /VS Propaganda

Vanderlei dos Santos atua como âncora do programa “A Marreta”

Entrevista realizada pelo diretor da Rádio Municipalista com o cantor e compositor Guilherme Arantes, em 2017

Santos durante apresentação do show da dupla Zezé di Camargo & Luciano, realizado, em Botucatu, em 2017

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Sobre os autores Adriana Maria Donini - Mestre em Comunicação pela Unesp e graduada em Jornalismo pela USC. Autora do livro “No ar: rádio em Botucatu, anos 1950 a 1970”. Benedito José Gamito - Graduado em Geografia e Pedagogia. Foi professor de escolas públicas e particulares. Radialista há mais de 30 anos. Benedito Santa Rosa - Graduado em Administração de empresas. Servidor público estadual aposentado. Ex-radialista. Haroldo Amaral – Apresentador do programa “Jornal da Clube Gente”, da Rá dio Cl ube FM. Editor do site Botuca tuonl in e (www.botucatuonline.com) . Redator do jornal “Leia Notícias”. Radialista desde 1984, tendo atuado, além da Clube FM, nas rádios F-8, Municipalista e Cultura FM. Joel da Silva Coelho (in memoriam) – Graduado em Direito pela ITE. Trabalhou no rádio em Botucatu nas décadas de 1950 a 1960. Expresidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Santo Antônio da Platina (PR), município em que também foi vice-prefeito. Marcelino Domenico – Trabalhou em emissoras de São Paulo como Rádio USP, Excelsior e Globo, além de F-8 e Municipalista, em Botucatu. Músico. Atuou como auxiliar do cantor Frank Aguiar. Nelson Camargo - Graduado em Ciências Humanas, com especialização pela Unicamp e Universidade Estadual de Londrina (UEL). Foi professor de. Trabalhou na Rádio Emissora de Botucatu e na Cultura FM. Rubens Herbst – Trabalhou nas rádios Municipalista, F-8, Cultura FM, CBN e Globo e nas emissoras de TV Record, além do estúdio de dublagem AIC, em São Paulo Sílvio Carlos Daré – servidor público estadual aposentado. Trabalhou na Rádio Emissora de Botucatu e nos jornais “Diário de Botucatu” e “Correio de Botucatu”. Waldir Duarte Florêncio – apresentador do programa “O Palanque”. Foi vereador. Atuou nas rádios F-8, Municipalista, Cultura FM e em estúdios de dublagem em São Paulo. Walter Cesar Pianucci Pereira – atua nas áreas técnica e de locução na Rádio Municipalista. Trabalhou na Rádio Emissora de Botucatu. 84


Autores Adriana Maria Donini Benedito José Gamito Benedito Santa Rosa Haroldo Amaral Joel Carlos da Silva Coelho Marcelino Domenico Nélson Camargo Rubens Roberto Herbst Silvio Carlos Daré Waldir Duarte Florêncio

Foto: Ernest Davis/Pixabay

Walter Cesar Pianucci Pereira

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80 anos do Rádio Botucatuense  

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