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Dois dedos de crônica por Adriana Andre Rodrigues Dia a dia Amanhecia. Não havia ninguém na rua, as últimas lâmpadas públicas – e que de tão amareladas, deixavam pálidos os que por elas eram iluminados - se apagavam e as “aleluias” que antes eram atraídas pelas lâmpadas, agora vagarosamente iam se dispersando. Um silêncio fúnebre abafava a rua e o que eu ouvia era apenas os meus próprios passos de operário da vida, que caminhava pela madrugada solitária, rumo ao enfadonho trabalho. Uma leve neblina cobria os tímidos raios de sol e uma doce brisa soprava, levando, talvez, os resquícios da agitada noite passada. Ainda havia na rua poças de água, suja, da costumeira garoa. Aos poucos as janelas iam se abrindo, podendo ver as moças tapando com suas densas maquiagens, as marcas do profundo sono da mocidade inconsequente e os rapazes acordando com a famosa ressaca, do pileque da noite anterior; as mulheres apressadas e porque não dizer descabeladas, arrumando suas “formidáveis” crianças para a escola e preparando-se para a lida dentro ou fora de casa, os homens (os que podiam), mascaravam sua sordidez e angústia com finos ternos, saindo de suas casas, alinhados, suntuosos, deixando pra trás sua real condição. Logo a rua fazia-se movimentada, e as pessoas em meio ao correcorre, cruzavam-se umas com as outras e se de repente as percebia (sim, porque poderiam estar facilmente distraídas com seus celulares, tablets, ou fones de ouvido ou porque poderiam estar simplesmente indiferentes.), cumprimentavam-se roboticamente, falsamente, como todos os dias. A neblina ia dando lugar ás espessas nuvens de poluição, o silêncio era quebrado pelo barulho do vai e vem dos veículos e das pessoas em polvorosa, e o perfume da manhã recém- nascida era substituído pelo medonho cheiro de gente apressada, sem tempo, fatigadas com a correria que a busca ambiciosa pelo dinheiro e status faz com que trabalhem, trabalhem. E ao fim de um dia cansativo, essas pessoas recolhiam-se ás suas casas, suadas, estressadas, doentes, infelizes; sem refletir e achando tudo normal, preparavam-se para começar tudo outra vez na manhã seguinte, uma vida tediosa, disfarçada de desenvolvimento e progresso, a vida rotineiramente interminável e monstruosa da sociedade moderna; marionetes facilmente manobradas pelo sistema capitalista. E se alguém, por ventura, perguntasse para um desses transeuntes frenéticos da grande e turbulenta “avenida capital”, como vai a vida? Resignadamente responderia: Está bem graças a Deus, agente vai “empurrando” com a barriga!


Dois dedos de crônica