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tribuna da cidadania ADRACES

Uma vida ao compasso da música Tem 77 anos, mas quem olha para o seu rosto já algo esculpido pelas tramas da vida, porém banhado por uma jovialidade luminosa no olhar, não lhe adivinha a idade. Dono de uma visão extraordinária e fora do comum para a música, recusa-se prontamente a admitir que nasceu com um dom. Prefere antes arriscar que a sua vida o presenteou com uma pequena habilidade, que em nada pode ser comparada aos verdadeiros génios da música, como Mozart, Richard Wagner ou Tchaikovsky. A sua força de carácter reside desde sempre na sua humildade genuína, que lhe permite admirar os melhores, sem reservas, mas que não o impede de seguir o caminho da exigente perfeição. Assim é Joaquim Cabral, mestre da Banda Filarmónica de Louriçal do Campo. Depois de uma infância calcorreada pelos ritmos calmos que caracterizam as vivências da aldeia, Joaquim Cabral entra, aos nove anos, como aprendiz na Filarmónica da terra que o viu nascer, Louriçal do Campo, no concelho de Castelo Branco. Na altura, o seu pai pertencia à Comissão de Apoio para a criação da colectividade e daí provém o seu primeiro contacto com a música. Mas não foi uma caminhada fácil. As artes musicais não eram encaradas como uma fonte válida de sustento, antes resultavam de espíritos sonhadores. “Não tenho posses para te manter a estudar numa escola de música”, costumava dizer-lhe o pai, que ensinou o filho a ser pedreiro e o obrigou a desenvolver a actividade até atingir a maioridade. Joaquim desdobrava as horas do dia para que, além de fazer a vontade ao pai, conseguisse praticar, nos tempos livres, o seu sonho na Filarmónica. Com somente 15 anos era um aluno que não passava despercebido ao ouvido sensível dos mais conhecedores. Os mestres e os regentes que iam passando pela Banda já não dispensavam a sua ajuda para dar aulas de solfejo e de como tirar cavas das partituras aos elementos menos experientes do grupo. “Ó rapaz,

tenho aqui esta partitura...tira-me lá um papel para trombone”, “Ó moço, vai lá dar lição àquele menino”, pediam-lhe, amiúde. Daí a substituir o regente da Banda em caso de ausência foi um pequeno passo. Estava na flor da idade dos seus 18 anos. Entretanto conheceu uma moça da terra. A sua alma preencheu-se, o amor tomou-lhe o coração. Casou. Quando já tinha a sua filha mais velha, contava ele 24 anos, surgiu a oportunidade de ingressar na Banda da Companhia de Carris de Ferro de Lisboa. Foram tempos difíceis, esses. Esteve três longos meses longe da sua esposa e da menina, ainda pequena. Foi o tempo necessário para que conseguisse estabelecer uma nova vida na capital portuguesa, digna de receber os seus dois tesouros. A Banda da Companhia de Carris contribuiu de forma decisiva na formação musical de Joaquim Cabral. O estudo e treino intensos permitiram que o jovem se aventurasse pelos caminhos da composição. Começou por escrever algumas partituras simples e a instrumentá-las. Aos poucos ganhou a confiança suficiente para que não deixasse morrer o gosto, contando, hoje em dia, com uma vasta panóplia de músicas da sua autoria, desde marchas de rua a marchas fúnebres. A sua estada de 10 anos em Lisboa permitiu ainda o aperfeiçoamento em clarinete e em outros instrumentos de sopro habituais nas Filarmónicas. Mas o destino quis que ele volvesse ao seu território raiano. O regresso ficou escrito em 1964, quando a Banda do Instituto de São Fiel procurava um novo regente e o convidou a concorrer ao cargo. Joaquim Cabral entrou e aí permaneceu até à data da sua aposentação. Durante esse período de tempo, concluiu igualmente com aproveitamento o 5º Ciclo de Aperfeiçoamento de Regentes, promovido pelo INATEL, em Lisboa. Esse foi, talvez, o seu ciclo de vida mais intenso e produtivo, uma vez que foi também convidado como regente para as Filarmónicas do Retaxo, de Idanha-a-Nova, de Silvares



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