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atirando pedrinhas na poça

Atirando pedrinhas na poça (umas pequeninas outras grandes, umas sérias, outras brincalhonas) Por: Abel Cuncas

ILUSTRAÇÃO PEDRO LINO / ISTO É

Despovoamento

Conversa escutada à porta da Padaria da Aldeia às 7,15 da manhã Ai comadre...isto é uma tristeza, ando tão descorçoada...tão descorçoadinha, inté na me apetece comer! — Que foi mulher... nã me assustes, tiveste más notícias? — Lá isso não...o meu Jorge passou cá ontem... graças a deus tão todos de boa saúde. — Deu-te alguma coisa ruim? — Nã mulher... nã é nada disso, olha... se queres saber é por causa das conversas do Jorge. Parece que o patrão ofereceu uma semana de férias a ele e aos colegas numas praias do estrangeiro, nem me perguntes onde ficam, só sei que eram praí numa terra para onde o Salazar mandava os políticos que não gostavam dele, vê lá tu, ainda diziam mal do homem! Bem, mas o que me deixou mesmo triste foi o que ele me contou, nem queiras saber, diz o Jorge que lá nessa terra as mulheres andam sempre cheias, (assim mesmo... que deus me perdoe) cada uma tem mais de meia dúzia de filhos, que as crianças parecem formigas pelos carreiros daqueles montes..., e nós, mulher? Há mais de um mês que não vejo uma criança cá na aldeia, inté parece que já estamos no outro mundo! — Lá isso é mulher, tens toda a razão, já nem me alembra dum baptizado...vê lá tu! — O meu Jorge diz que o Presidente vai mandar vir mulheres dessa terra para ver se começa a haver gente aqui por estas bandas... Eu cá por mim acho bem! — Oh comadre... isso é que não..., lá está bossemecê a modos que a fugir com o rabo à seringa, salvo seja! Temos que assumir as nossas responsabilidades, olhe que estes políticos fazem as coisas sempre ao contrário, mas atão nã está a ver...eles têm que mandar vir é os homens de lá. Homens...mesmo que sejam padres, gente com força para amanhar esses campos abandonados e dar consolo à gente, olhe que viúvas e enjeitadas como nós, há por aí muitas… muitas comadre! Anime-se mulher! •

ILUSTRAÇÃO PEDRO LINO / ISTO É

Auto-crítica — Santas noites, Ti Jaquim! Atão ainda nas leituras! Desta vez é que fica doutor de tanto ler... Há uma semana que cada vez que passo o vejo aí sentado, vai ter de comprar óculos. (Três meses depois....) — Éh... Ti Jaquim... alevante-se homem, que já estamos quase no Inverno e você aí agarrado às leituras! (Seis meses depois...) — Venham ajudar, ninguém se dá conta que o Ti Jaquim está quase no fim...?! — Alto lá....agradeço a sua preocupação, mas ainda falta muito para chegar ao fim, deixem-me descansado! — Mas... Ti Jaquim, ganhe juízo homem, que raio de leitura é essa que lhe interessa tanto e nunca mais acaba? — Então não está a ver...ainda falta muito, ainda não acabei de ver as fotografias...gosto muito, agora posso dizer que tenho um objectivo na vida, uma razão para viver pelo menos mais uns dez anos...hei-de acabar de ler isto tudo antes de morrer! — Mas, por Deus, o que é que demora tanto tempo a ler? — Há, então ainda não sabe.... é um granda livro... sobre nós todos, chama-se OS VELHOS DA RAIA e o seu VIVER pelas veredas das nossas vidas. É bonito. — Está bem, mas abrigue-se, vá para ao pé da lareira, senão ainda morre antes de acabar de ler! •

Viver 2 - A Juventude da BIS  

Encarar os jovens como sérias esperanças para evitar o despovoamento absoluto e a subsequente desertificação da Beira Interior Sul foi o des...

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