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te organizado pelo exterior, à escala europeia ou mesmo internacional, por agências de viagens, agências imobiliárias, promotores, investidores privados, grupos financeiros. Cada município age à sua escala e vê-se despojado de meios para influenciar o fenómeno. As conclusões da BASE Sud Audois deixam em evidência que a grande partição reside entre residências secundárias e residências principais. Exerce-se uma verdadeira concorrência ao espaço rural. Esta ameaça a possibilidade de se instalar, principalmente na agricultura, para as crianças do país, para as dos migrantes das primeiras vagas e ainda mais para as dos novos residentes, até criar vivas tensões entre elas devido à disposição da terra nos estabelecimentos actuais. A ideia de um espaço em plena natureza a preservar é muitas vezes evocada pelos presidentes das câmaras. Ela raramente é referida à cultura, é vista sobretudo numa especialização de territórios com vista a dar resposta às procuras de lazer.

A energia do local de vida escolhido As decisões desenvolvem-se em casa. A maioria das escolhas de migração é voluntária. O acaso é predeterminado. Resulta de uma vida de pesquisa: os jovens que querem aliar a actividade à natureza, as separações conjugais, a reforma como alguns momentos na vida. Permitir-se a isso, experimentar, viver uma experiência diferente. Excepto no caso de uma grande precariedade ou de a viatura ficar avariada e, já que não há forma de ir embora… O território é um espaço, incutido desde o início no imaginário: um regresso à casa de família,

«o perfume dos anos 50», longe do barulho e das exigências cansativas», «horas nas florestas», o sonho de possuir uma casa no meio da natureza, o sonho de uma criança de 9 anos, um projecto de adolescente. Os migrantes estão dispostos a correr riscos, a reconsiderar a sua vida. Não é de admirar que isso origine novos casais, quando a decisão dá lugar a uma ruptura afectiva. As capacidades pessoais demonstradas para «ter uma boa vida» no território são inúmeras, algumas provêm da energia interior da tenacidade, da autonomia, da paciência, da francofilia. Uma amizade é, em muitos casos, a primeira relação que decide o local de chegada. Muitas são escolhas bem reflectidas de investir ali o seu capital, o seu poder de compra, o seu saber fazer.

As diferenças entre o território idealizado e a realidade Entre o território imaginado como «ideal para si» e o território tal como ele é, existem diferenças, subestimadas no início e que podem originar um regresso. As constatações são muitas vezes severas para o meio local: falta de acolho, falta de informação, pessoas fechadas, pequenos poderes. Na criação da sua actividade, os novos residentes sentem-se pouco ajudados. O problema do alojamento vem no topo da lista de preocupações expressas. O dos serviços públicos locais vem logo depois, principalmente no que toca à educação de crianças e jovens ou a meios de transporte. «As empresas não estão interessadas na relação com o cliente», «a qualidade ou a qualificação não são procuradas», enquanto existe uma clientela solvível cuja escolha de vida

se inscreve nesta conduta. «Não existe uma base organizada do meio envolvente dos projectos que são levados a cabo». O território é «um potencial enorme orientado sem originalidade em torno de uma indústria turística bastante convencional». Outros aplicam-se bem a fazer esforços para se adaptarem e acham que o meio local é acolhedor. «Aqui sou conhecido pelo presidente da Câmara, o que nunca consegui em 50 anos de vida na Holanda na pequena cidade onde habitava». Alguns aprendem a falar francês, aprendem o funcionamento dos sistemas de acção locais para lá conseguirem um lugar, participam na vida municipal ou associativa, organizam-se em redes paralelas, informais ou não. Alguns acham mesmo, comparativamente, que esse território é mais acolhedor do que os outros. Como não existe emprego – ou quase não existe –, são muitos os novos residentes que desejam criar as suas actividades. Muitas vezes estão ligados ao turismo e ao alojamento no meio rural, menos frequentemente do que antes com a escolha por uma actividade agrícola. Estas contribuem, no seu conjunto, para a organização de um novo potencial de uma economia turística difusa. Sem meios financeiros, sem poder de compra no início, é mais difícil do que há dez anos conseguir um estabelecimento económico viável.

As relações, mesmo informais, as redes sociais são essenciais Para conseguir um bom estabelecimento, não é preciso estar sozinho(a). É um motor da organização das solidariedades. Muitas vezes existentes antes da migração, as redes

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Teorias e práticas de desenvolvimento local

JEAN-GUY UBIERGO

Viver 2 - A Juventude da BIS  

Encarar os jovens como sérias esperanças para evitar o despovoamento absoluto e a subsequente desertificação da Beira Interior Sul foi o des...

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