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ADRACES

Testemunho do vivido O artigo que se segue é da autoria de Cecília Fraga, que acedeu ao nosso convite para nos ir comentando, em cada número da VIVER, as suas impressões, sobre a sua integração e a dos seus companheiros, na Vida de Vila de Rei e em Portugal.

Inovadores e pioneiros

Diário de um mundo sem fronteiras

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Uma música já disse: tão longe e tão perto…Há pouco mais de dois meses na minha “nova” pátria, Portugal, já consigo ter certeza de que tomei a decisão certa. As coisas ainda não estão totalmente acomodadas, mas o mundo não foi construído em um único dia e uma nova vida também não poderia ser estruturada em tão pouco tempo. Mas essa história começou muito antes… A mudança de vida parecia inevitável. As forças do universo estavam a meu favor. Apesar da vontade, não fazia nada para procurar a mudança e quando menos esperava veio a proposta de me inscrever num programa para mudar para Portugal. Um projecto audacioso, em uma pequena cidade, no Interior do país. Em pouco tempo meu currículo estava misturado a outros mais de setecentos. Como que por milagre, fui seleccionada. Foram sete meses de espera e angústia para tornar o sonho em realidade. A demora me fez hesitar várias vezes, mas a vontade de recomeçar foi maior, não deixei meus medos tomarem conta da situação e segui em frente. Não foi fácil deixar meu país, família, amigos, emprego, toda uma história. Muitos ainda me perguntam, por quê? Mas a resposta não é tão difícil. Profissionalmente já tinha atingido um grau aceitável. Muito pouco poderia melhorar na cidade onde estava. Seria preciso deixar o interior para ir buscar um centro maior, talvez Curitiba, São Paulo, uma capital. Decididamente, esse não era meu projecto. Na verdade, nasci em São Paulo, capital, e já havia deixado a cidade grande por um local onde a qualidade de vida fosse melhor. Maringá é assim. Um lugar lindo, com alta qualidade de vida, mas poucas oportunidades na minha área profissional e eu já havia conquistado meu espaço. Queria mais. Era hora de mudar. Pessoalmente nada me prendia no Brasil a não ser laços afectivos. Divorciada, com dois filhos, precisava de um lugar que me desse tranquilidade. O convite

parecia ser especialmente destinado a mim. No dia quatro de Maio chegamos em terras lusitanas. Pouca bagagem, muita esperança. Trouxemos apenas o necessário, já que não foi possível trazer todos os nossos pertences. Junto com a gente, outras três famílias, ainda pouco conhecidas por nós. Havíamos sido apresentadas cerca de três meses antes, quando iniciaram as reuniões das famílias seleccionadas. Quatro destinos, quatro esperanças diferentes. A dificuldade parecia começar. Fomos todos para mesma casa, oito adultos e seis crianças. Para meus filhos, uma adolescente de 14 anos e um menininho de três, que completou quatro há poucos dias, foi uma experiência muito boa. Eles nunca tinham convivido com tantas pessoas, fora os períodos de férias, quando nossa família se reunia. Muita bagunça, brigas, confusões, alegrias. Uma mistura de sentimentos. Ficamos instalados em um quarto pequeno, com três camas e um guarda-roupas, ou guarda-fatos como vocês dizem, e uma cómoda. Uma loucura. Mal couberam nossas coisas, que são poucas. A boa vontade de algumas pessoas foi o que nos ajudou. Nos deram roupas, cobertas e carinho. Fazia frio além da conta quando chegamos e não estávamos preparados. Como mulher independente, dona do meu nariz, tive que aprender a depender dos outros e a contar com o apoio de pessoas desconhecidas. Sorte que essas mesmas pessoas se tornaram amigas, companheiras na dificuldade. Como se diz por aí, uma mão lava a outra. Não é fácil imaginar tudo isso. Talvez aqueles que algum dia também já enfrentaram uma grande mudança, como aqueles que vieram de Angola, que também passaram por muitas dificuldades. Foram dois meses até que consegui uma casa, uma morada, em Vila de Rei. Uma casa só nossa, minha e dos meus filhos. Um espaço nosso para dormir e acordar quando queremos. Fazer comida do jeito que gostamos. Limpar a casa, sem atrapalhar ninguém ou ser atrapalhada. Coisas normais do dia-a-dia. Com poucas condições, mas muita coragem e apoio de muitas pessoas, mudamos. De novo um recomeço. Novas adaptações. Voltar a morar somente nós três, longe da confusão de ter muitas pessoas juntas, mas também do amparo nas dificuldades. E assim vamos tocando nosso destino. Ou melhor, administrando meu sonho de uma vida melhor, mais saudável, segura, tranquila, com oportunidades profissionais e pessoais para mim e para meus filhos. Um mundo novo, sem fronteiras... •

Viver 2 - A Juventude da BIS  

Encarar os jovens como sérias esperanças para evitar o despovoamento absoluto e a subsequente desertificação da Beira Interior Sul foi o des...

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