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As oportunidades, somos nós que as criamos!

ANA ALVIM

Cresceu a ouvir falar de histórias contadas à volta do madeiro de Penamacor, das freguesias do concelho, da raia e dos contrabandistas. Gabriela Teixeira Ferreira tem 31 anos e uma vida passada na Alemanha, mas com o coração na raia portuguesa. Apesar de ter nascido na Alemanha, esta filha de emigrantes portugueses nunca se sentiu emigrante, porque cresceu aprendendo a amar a Beira, mesmo sem nela viver. Na nossa língua comunicava em casa com a família, e na escola, uma vez por semana, Gabriela Ferreira aprendia o significado da palavra saudade. Os pais emigraram nos anos 70. Lá longe, nunca deixaram de honrar o passado, dando à Gabriela o conhecimento histórico, cultural e afectivo de Penamacor, mantendo sempre vivo o objectivo de voltar. Apesar de ter nascido na Alemanha nunca ali foi registada. No Bilhete de Identidade Gabriela sempre foi portuguesa e diz nunca se ter sentido estrangeira. Depois de 30 anos passados na Europa Central, Gabriela Ferreira nunca sentiu que fosse olhada como emigrante. A história de vida da Gabriela é sustentada pela determinação e vontade de uma jovem que sabe para onde quer caminhar e que nunca hesitou em voltar à terra dos progenitores que adoptou como sua. Afinal, Penamacor era o lugar recôndito onde vinha passar férias, que ouvia falar diariamente e que guardava saudades da família aqui deixada. Foram essas referências que a fizeram regressar 30 anos depois. Está há pouco mais de um ano na vila raiana e por cá está a construir um projecto de vida junto do marido e da filha de dois anos. O amor à terra levou a que criasse o seu próprio posto de trabalho. Em Penamacor apostou e quer vencer numa luta que trava diariamente contra o despovoamento. É ela quem o diz: – “Falta gente, é bem verdade, mas os que ficaram podem e devem dar o contributo para a tão falada qualidade de vida”.

Primeiro veio o marido da Gabriela para “orientar” a vida. Ângelo Ferreira foi o primeiro a abrir o caminho que diz não ter retorno, porque a jovem entende não querer voltar para a Alemanha. Ela veio a seguir, carregada de sonhos, ideais e projectos, diferente de tantos outros na determinação de viver em Portugal e organizar a sua vida em Penamacor, terra onde quer ver crescer a filha, em paz e segurança. É uma mulher simples como a terra onde vive e que escolheu como destino profissional. Os grandes conceitos da moda e o consumismo exagerado passam-lhe ao lado porque do que gosta realmente é de se sentir bem consigo própria, sem rótulos ou marcas que teimam em ditar as sociedades contemporâneas. Em Penamacor, conjuntamente com um primo, decidiu abrir uma empresa ligada às novas tecnologias, à informática e artes gráficas. Num modesto primeiro andar, a empresa “AGISPEN” está no seu primeiro ano de vida. Gabriela sabe que ainda há um longo caminho a percorrer mas não é isso que a faz desistir. Na Alemanha, o trabalho dedicado ao longo de quase 10 anos, numa empresa de informática onde assumia funções de liderança, serviu-lhe de passaporte para o projecto actual. Lá, num dia e lugar que nunca esqueceu, conheceu aquele que hoje é seu marido. Já lá vão 8 anos desde o inesquecível dia 1 de Agosto, o dia em que casou, na capela de Nossa Senhora do Incenso. “Vim para cá com a humildade de fazer algo pela terra”, diz a jovem que deixou na Alemanha amigos e família, dois irmãos, cunhadas e dois sobrinhos, um deles que ainda não teve oportunidade de conhecer. Quem sabe se, no próximo ano, não volta à terra que pisou, mas só para visitar. Para a Gabriela, Penamacor tem algo de especial, “a vida ainda está em ordem”, como fazem questão de dizer alguns amigos alemães que a convite do casal visitaram a vila. • Jaime Pires

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Grande tema

Uma jovem luso-descendente regressou da Alemanha para procurar em Penamacor a sua oportunidade!

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