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ANA ALVIM

A história dum espelho mentiroso?

A 24 de Fevereiro passado, um grupo de jovens frequentadores de um curso de Agentes de Desenvolvimento Local, promovido pelo Centro Municipal de Cultura e Desenvolvimento da Câmara Municipal da Idanha, apresentou durante a cerimónia de encerramento do curso, no Centro Cultural Raiano, um espectáculo aplaudido de pé por uma assistência que encheu o auditório. Nessa altura, os jovens anunciaram a sua disponibilidade para ficar no Concelho e dar aproveitamento e utilidade àquilo que tinham aprendido, se pudessem contar com o apoio local indispensável, apoio ali mesmo prometido. Decorridos 5 meses da apresentação desse espectáculo, a que chamaram – “Espelho meu”, solicitamos a alguns desses jovens que nos dissessem “o que lhes vai na alma”. Três deles acederam a comentar a sua própria situação, os textos que se seguem são de sua autoria. Sois vós, boa gente? E eu serei para ti Alguém que também sente O que faz falta aqui

agente de desenvolvimento e dinamismo. Com o 12º ano concluído, e com conhecimentos adquiridos no curso de A.D.L. estava esperançado de que lhe surgiriam algumas oportunidades de emprego na área em que mais se sente enquadrado: Animação Social. Como jovem residente desde sempre neste Concelho, tem plena consciência das dificuldades e potencialidades da comunidade, essencialmente das necessidades da juventude visto que nela se insere. Embora tenha já vivido a vida normal de uma adolescência e sendo ainda um jovem, tomou consciência de que para continuar fixado neste seu ambiente é necessário ganhar modo de sustento para si. Contudo, quando procura uma forma de se estabelecer e auto-sustentar, encontra alguns entraves. Continua desempregado e não encontra grandes apoios para resolver a sua situação, existe ainda uma “falha” no apoio aos jovens. Não possui agregado familiar, mas sabe que, para se manter no concelho e constituir vida futura, a casa dos pais não é suficiente, sente cada vez mais necessidade de que se lhe apresentem novos projectos, onde se possa sentir útil e realizado a todos os níveis.

(do diálogo com o espelho, no espectáculo “Espelho meu”)

Pedro Barreira, um jovem de 22 anos, nasceu e foi criado em Idanha-a-Nova. Hoje, e após todas as suas vivências de adolescente, acredita que faz falta a este Concelho uma nova mentalidade, mentalidade essa que se encaminha para que haja um maior desenvolvimento cultural e social. Esta sua perspectiva de vida levou-o a frequentar um curso que lhe poderia proporcionar mais conhecimentos nesta área, pois a sua intenção era poder contribuir como

Aos 27 anos de idade, Filipa Fonseca tomou a decisão de se afastar de uma vida no stress da grande Lisboa para se fixar numa freguesia do concelho de Idanha-a-Nova, freguesia onde tem raízes, quer familiares quer de uma infância e adolescência. Regressou ao seu local casada e com duas filhas, procurando estabelecer-se e dar às suas crianças uma melhor qualidade de vida. Após alguns anos fora pensou que voltar seria uma forma de se garantir e de estabelecer uma vida profissional e social futura.

Contudo, deparou-se com uma realidade muito diferente da que perspectivara. Embora existissem indicadores de que os jovens seriam apoiados e incentivados a estabelecerem-se com qualidade, por forma a rejuvenescer um concelho envelhecido, a perspectiva inicial foi deturpada. A dificuldade em encontrar emprego, tanto para si, como para o seu cônjuge, obrigou-os a uma mudança de hábitos e algumas restrições. Filipa Fonseca frequentou neste concelho o curso de Agentes de Desenvolvimento Local, ganhando novamente a crença de que novos horizontes se lhe abririam, pois tudo indicava que este concelho iria apostar em pessoas formadas na área do desenvolvimento para alcançar um dinamismo concelhio. Continua hoje a gostar do local onde se fixou. Contudo afirma que não encontrou qualquer tipo de apoio, nem para ela, nem para o seu cônjuge, o que implica também a forma de viver dos seus filhos. Continua esperançada ainda de alguma forma; esperança essa que está cada vez mais desvanecida com o passar do tempo, insistindo todavia na permanência no concelho. Raquel Maurício, 28 anos de idade, mudou-se há cerca de um ano e meio para uma pequena freguesia do Concelho de Idanha-a-Nova. Após ter concluído a sua licenciatura na Universidade de Évora, optou por não voltar para as suas raízes numa vila algarvia e escolheu uma aldeia no Interior para se fixar e iniciar uma nova vida. Veio para este local, pois acompanhou o namorado que é filho de alguém que possui raízes locais. Gostou do concelho, do modo de vida local e das pessoas e foi isso que a levou a insistir na permanência num meio novo e quase desconhecido para si. A sua intenção era encontrar um emprego onde se pudesse realizar pessoal e profissionalmente. Após ter procurado e não ter encontrado, optou por frequentar um curso no Concelho, de forma a se qualificar um pouco mais na área social e do desenvolvimento. Neste momento está empregada a exercer a função de técnica num local que lhe proporciona um contacto directo com a comunidade, onde pretende ajudar para a melhoria de vida de uma população envelhecida e privada de certos cuidados. Pretendendo manter-se neste Concelho espera, após término do seu contrato, continuar a trabalhar nesta área social e cultural e ser uma mais-valia para o desenvolvimento social e comunitário. Hoje sente-se de alguma forma realizada e espera que esta sua nova “casa” lhe possa continuar a proporcionar condições para se manter e fixar por tempo indefinido. •

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Grande tema

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