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ANA ALVIM

“Por tanto gostar do campo...

Grande tema

...e sentir um grande aborrecimento na escola, mais por gosto do que por necessidade, por cá fiquei nesta vida que não troco por nada”.

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Quando a carrinha da ADRACES se aproximou do portão duma propriedade privada dos arredores da Zebreira, um potro, que perto da entrada pastava, relinchou-nos as boas vindas. Uns olhos particularmente repletos de vivacidade e até de alguma malandrice, espreitaram com curiosidade quem se aproximava. Filipe já nos esperava, mas uma ponta de desconfiança sobressaía por entre o seu jeito descontraído, talvez porque esteja pouco habituado a que lhe façam perguntas sobre a sua vida. Filipe Jesus Alves Monteiro nasceu na Zebreira, concelho de Idanha-a-Nova, há 22 anos atrás. Desde sempre se lembra do pai trabalhar aquelas terras, umas próprias outras de renda, semeando cereais e criando ovelhas. Filipe sempre se sentiu atraído por aquela liberdade de correr campos fora atrás do gado e, quando o Pai se sentiu diminuído pela doença, surgiu a oportunidade para mais facilmente justificar a conciliação da escola com o trabalho de pastor. Para além de alimentarem os animais com os recursos que o seu pedaço de terra ia produzindo, partiam logo de manhã cedo para a meia dúzia de hectares a que vão tendo direito da Herdade da Zebreira, um conjunto de vastíssimos terrenos que foram doados à Junta de Freguesia local, mas que, todos os anos, são distribuídos e utilizados pelos agricultores e criadores de gado da povoação. Depois o rapaz voltava para ir à escola e regressava aos campos pela tardinha para recolher as ovelhas com o pai. Aos poucos, o ensino começou a passar para segundo plano na vida do jovem Filipe. “Estudei só até ao sexto ano em Idanha-a-Nova, tinha eu uns 15 anos. Não porque tivesse dificuldades em aprender, mas porque sentia um grande aborrecimento em lá andar”, confessa o pastor, acrescentando que, na altura, o pai não gostou muito da ideia, mas que “lá acabou por aceitar”. Entretanto, a situação de saúde do pai piorou, acabando por

ter de se reformar por invalidez. A mãe, desde então, teve de deitar mãos ao trabalho para que os filhos nunca passassem necessidade. Actualmente, está a trabalhar através de um programa operacional nas piscinas municipais da localidade. O irmão mais novo de Filipe encontra-se a frequentar o oitavo ano e ajuda na pastagem dos animais sempre que pode. “A vida não está fácil. O país está a atravessar uma grande crise”, diz Filipe, acrescentando que a criação de gado não é já o negócio rentável de há alguns anos atrás. Ainda assim afirma que é pastor “mais por gosto do que por necessidade”. “Desde pequeno que lido com as ovelhas, pelo que me afeiçoei aos animais”, revela, enquanto vai dando uma espreitadela às ovelhas e às suas crias que descansam sob a frescura das árvores frondosas da quinta. E se lhe surgisse uma oportunidade na vida para sair para uma grande cidade e ganhar muito mais dinheiro do que na Zebreira? Aí Filipe é peremptório: “Não largava esta vida por nada. Gosto do campo. E mesmo o meu irmão, que tem mais estudos do que eu, não sei se aceitaria”.

“Quero concluir o nono ano para tirar o curso de jovem agricultor” O negócio do pai, ao qual Filipe pretende dar continuidade, detém um espólio de 200 ovinos. A fonte principal de rendimento é o leite de ovelha, que vendem a 75 cêntimos o litro. Filipe ainda se lembra de vender o leite a 180 escudos, “mas o preço de venda tem descido muito, afectando gravemente os produtores”. O processo de ordenha ainda é todo feito à mão, não há qualquer recurso a meios mecânicos, uma vez que na “Herdade ainda não há electricidade”. Em uma hora e meia ou duas horas no máximo, pai e filho conseguem cerca de 91 litros de leite para venda. Outra parte do rendimento da actividade é obtida pela venda de borregos, a 25 euros cada. O jovem pastor salienta que é também uma fonte de receita muito importante, na medida em que consegue desfazer-se de mais de 100 destes animais por ano. E se nem tudo na vida de quem se dedica à criação de gado são rosas, Filipe deixou claro que não pretende desistir do sector. Pelo contrário, tem já planos para que o negócio na família possa chegar ainda a bom porto. “Quero concluir o nono ano para tirar o curso de jovem agricultor. Só vou conseguir evoluir isto se tiver um conhecimento maior na matéria”, revela, com um sorriso de quem sabe perfeitamente o que diz. Aliás, a sua pretensão em retomar os estudos em nada tem que ver com o facto de se querer tornar mais intelectual perante os outros ou de ter sucesso junto das raparigas. Até porque “a mim não me têm faltado namoradas, graças a Deus”, graceja, com um ar malicioso a timbrar-lhe o olhar. •

Viver 2 - A Juventude da BIS  

Encarar os jovens como sérias esperanças para evitar o despovoamento absoluto e a subsequente desertificação da Beira Interior Sul foi o des...

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