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Um país, enquanto sentimento e representação, é a articulação que cada cidadão faz da imagem de um determinado território associado a um sentimento de pertença. Enquanto entidade política, um país resulta de um espaço geográfico cuja ocupação social é administrativamente gerida pelos governos que o representam enquanto Estado. Na composição do tecido social de um país há geralmente, por via dos efeitos das dinâmicas sociais determinadas por razões económicas e políticas, assimetrias demográficas e de distribuição populacional que conduzem os países à desertificação, vulnerabilizando as suas populações pela fragmentação da sua identidade nacional, das identidades regionais e da própria identidade cultural que desagrega progressivamente o sentimento de pertença essencial à integração social e à participação cívica. Em termos de assimetrias demográficas, a gravidade do problema pode chegar a casos extremos como o é, na actualidade, o da China onde o número de mulheres é de tal modo baixo (em consequência da política de natalidade assente no filho único e da valorização cultural da existência de nascimentos masculinos que conduziu à prática abortiva das crianças de sexo feminino que as tecnologias permitem prever) que está em risco a sua capacidade de reprodução social (problema que agrava a sua já imensa massa de emigrantes e que leva a situações sociais de risco como o sequestro e tráfico das mulheres existentes, naturalmente proibido e penalizado pelas autoridades). Este exemplo é útil para percebermos a importância da relação entre a legislação existente e as práticas sociais correntes. Em Portugal, são, contudo, as dicotomias entre o rural e o urbano e entre o interior e o litoral que mais e melhor reflectem, em termos de assimetrias demográficas, a problemática do envelhecimento populacional e, em termos

de distribuição populacional, a da desertificação. O principal problema que se coloca ao nosso país e, em particular, às nossas regiões do interior é, por isso, uma questão de revitalização social que remete, por um lado, para a problemática da saúde mental pública e, por outro, para a do repovoamento. Quando falo em saúde mental pública, neste contexto, refiro-me ao facto do envelhecimento populacional fazer emergir representações sociais negativas resultantes de baixos níveis de auto-estima provocados pelo ambiente depressivo da anomia social, do isolamento e da frequência da morte e da doença como fenómenos sociais próprios das sociedades envelhecidas. A persistência destas ocorrências sistemáticas e sem padrão alternativo na vivência colectiva dada a ausência de jovens e crianças cujas dinâmicas atenuam o impacto social da morbidez introduzida pela elevada taxa de idosos socialmente inactivos e cuja representação social dominante é nos nossos dias a da inutilidade social, cria condições endémicas de reprodução psicossocial de estados depressivos que justificam, no caso concreto de Portugal, o elevado consumo de medicamentos direccionados para estas patologias bem como fenómenos extremos de suicídio que, em certas regiões do país, se configuram como comportamentos culturais.

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Grande tema

Compreender a Desertificação Contributo Para uma Estratégia de Fixação Populacional

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Encarar os jovens como sérias esperanças para evitar o despovoamento absoluto e a subsequente desertificação da Beira Interior Sul foi o des...

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