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e-Boletim Comemorativo 2011 Propriedade do Regimento de Artilharia N.º 4 Direcção, Redacção e Administração Rua D. José Alves Correia da Silva Cruz D’Areia 2410-120 Leiria Telefone: 244822026/434400 ra4@mail.exercito.pt Director Cor Art José da Silva Rodrigues Articulistas TCor Art Avelar TCor Art Lourenço Cap Art Jesus Ten Art Carqueijo Alf RC Pinheiro Alf Art Silva SCh Art Lopes SAj SMat Bizarro 1Sarg Eng Sá Santos 1Sarg Art Fernandes 1Sarg SMat Ferreira 1Sarg Art M. Santos 2Sarg Art Leal 2Sarg Art Silva 2Sarg Art Santos CbAdj RC Ribeiro 1Cb RC Martins 1Cb RC Alves 1Cb RC Duarte Sold RC Lourenço Revisão de Texto Dr.a Sara Sofia Gonçalves Projecto Gráfico e Paginação 1Sarg Art Anjos Das Neves, RA4 Professor Leonel Brites, ESECS/IPL Dr. Vitor Castanheira Fotografia 1Sarg Art Anjos Das Neves, RA4 CbAdj RC Marta Oliveira, RA4 SOIS, RA4 Ricardo Graça Coordenação, Acabamento e Edição 1Sarg Art Anjos Das Neves, RA4 Depósito Legal 278676/08

SUMÁRIO 5

Editorial

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Três anos de GAC/BrigRR

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BtrACamp/NRF17 - Aprontamento...

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Chefe de PCT

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BtrACamp/NRF17 - Observação...

30

CMDT Sec Obús

34

Seis anos de camuflado...

44

Serviços Gerais

48

HSST

52

Logística em Emergência

58

Khodâ hâfez wa tashakor!

62

Afeganistão

68

KFOR

76

Basquetebol

90

SITREP

110

Orgulho à Pátria

Tiragem 100 Exemplares

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Armas

- Escudo de ouro, um leão de negro, animado, lampassado e armado de vermelho; franco-cantão de vermelho com uma flor-de-lis de prata; - Elmo militar, de preta, forrado de vermelho, a três quartos para a dextra; - Correia de vermelho perfilada de ouro; - Timbre: dois canhões passados em aspa, sustendo um castelo, tudo de prata; - Condecorações: circundando o escudo, o Colar de Oficial da Ordem Militar a Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito; - Divisa: num listel de branco, ondulado, sotoposto ao escudo, em letras de negro, maiúsculas, de estilo elzevir ”FORTES E LEAIS”.

Simbologia e alusão das Peças

- O LEÃO evoca os campos de batalha de Flandres onde, durante a 1ª Guerra Mundial, as Batarias do ROC praticaram brilhantes feitos de armas e evidenciaram excepcional valor e a coragem e decisão que o 1º GBA demonstrou por ocasião da Batalha de 9 de Abril, opondo com o seu fogo, tenaz resistência ao avanço do inimigo, até ao total esgotamento das suas munições; - A FLOR-DE-LIS alude à cidade de Leiria onde, em 1926, o ROC e o 2º Grupo do RA2 originaram o Regimento de Artilharia Nº 4, que, no ano seguinte, se transformou em Regimento de Artilharia Ligeira Nº4 e, em 1975, passou a designar-se Regimento de Artilharia de Leiria; - O TIMBRE recorda o Regimento de Obuses de Campanha de Castelo Branco, origem do Regimento de Artilharia de Leiria e cujo comportamento em combate acresceu lustre e glória ao historial do Exército Português; - A DIVISA ”FORTES E LEAIS” exprime a intenção de cultivar em permanência a força de ânimo como factor essencial para poder cumprir com lealdade.

Os Esmaltes significam

- OURO: a força de ânimo demonstrada nos feitos de armas praticados; - PRATA: a riqueza do historial do seu comportamento em combate; - NEGRO: a constância demonstrada nas horas amargas da adversidade.

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EDITORIAL

C

umprindo-se, neste ano, o 84º aniversário do Regimento de Artilharia Nº4, dá-se continuidade à publicação do seu Boletim, apenas na sua versão digital. Contudo, pela relevância que vem assumindo desde 2008, como linha de transmissão de experiência e de conhecimento feito em diversas áreas, constitui-se naturalmente como um veículo de participação alargada e de troca de conhecimentos, elucidativa da actividade diversificada do Regimento. A Área Operacional constitui, naturalmente, o eixo principal de actividade do Regimento, materializada no cumprimento da missão superiormente atribuída. Diariamente, todos aqueles que aqui servem desenvolvem a sua actividade na busca constante das melhores performances no exercício das suas competências, em proveito de um todo capaz de levar mais além o nome do Regimento. A exploração e rentabilização do Sistema Automático de Comando e Controlo constitui ”Área de Excelência” e de ”Continuidade”, potenciador da capacidade operacional. É, sem dúvida, um elemento deveras diferenciador do produto operacional único atingido na Artilharia, e aqui, em proveito da FOPE. A ”Dupla Valência” em ”obuses vs morteiros” constitui também um objectivo a concretizar, a curto prazo, e certamente uma mais-valia que, também ela, será positivamente diferenciadora. Nesta senda diferenciadora foi, pela segunda vez, atribuída ao Regimento a responsabilidade de aprontamento e treino de uma BtrACamp a disponibilizar para a Nato Response Force 17 (NRF17). Desta missão, mais uma vez realizada com sucesso, destaca-se o profissionalismo, o elevado sentido de missão e a determinação de todos os que servem o Regimento, em geral, e que integram a BtrACamp, em particular, sendo expressos alguns testemunhos neste boletim. É pois, com enorme satisfação que manifesto publicamente o reconhecimento pela dedicação e elevado sentido de missão de todos os militares e civis que aqui servem, e que seguramente com a determinação, espírito de bem servir e a competência que os caracteriza, irão estar à altura dos novos desafios que se avizinham, permitindo encarar o futuro com optimismo e continuar a escrever com galhardia as páginas do nosso Regimento.

O COMANDANTE

José da Silva Rodrigues Cor Art

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Três anos de GAC/BrigRR Um balanço INTRODUÇÃO

O

Grupo de Artilharia de Campanha (GAC) sediado actualmente no Regimento de Artilharia Nº 4 (RA4), em Leiria, foi oficialmente criado a 1 de Janeiro de 1994, decorrente da transferência das Tropas Pára-quedistas da Força Aérea para o Exército, da extinção do Regimento de Comandos e da activação da Brigada Aerotransportada Independente (BAI) com militares de ambas as forças. Constituía, assim, a unidade de Artilharia orgânica desta Brigada. A 1 de Maio de 2005, no âmbito do processo de transformação do Exército, era extinto o GAC da BAI, sendo este transferido para a Brigada Ligeira de Intervenção, que viria posteriormente a ser designada por Brigada de Intervenção (BrigInt). Porém, sendo então necessário conferir uma capacidade de apoio de fogos autónoma à Brigada de Reacção

Rápida (BrigRR), a 1 de Julho de 2008, nos termos da Directiva N.º 13 de 2008 de S. Exa. o General Chefe do Estado-Maior do Exército, o GAC da BrigInt, sediado no RA4, foi oficialmente transferido para a BrigRR, continuando até à presente data neste Regimento, o qual tem precisamente por missão garantir o seu aprontamento. Assim, as próximas linhas, em jeito de balanço, são dedicadas aos três anos do GAC como unidade operacional da BrigRR.

PESSOAL E EQUIPAMENTO PRINCIPAL Inicialmente, para cumprir a sua missão, o GAC/BrigRR estava organizado numa estrutura típica de unidade da sua natureza, com um Comando e Estado-Maior, uma Bateria de Comando e Serviços (BtrCS) e três Baterias de Bocas-de-Fogo (BtrBF) M119 105mm Light Gun. Mais tarde, a 29 de Junho de 2009, a sua organização e conceito de emprego seriam alterados com a integração de uma Bateria de Morteiros Pesados, ficando definido que o GAC pode ser empenhado fazendo uso

dos Sistemas Obus 105mm ou Morteiro pesado conforme as necessidades de apoio específicas da BrigRR nas diversas tipologias de missão que lhe forem atribuídas.

Destaca-se a situação particular do Pelotão de Aquisição de Objectivos

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da Bateria de Comando e Serviços que apenas continuou a dispor permanentemente activada a Secção de Topografia, enquanto que os restantes meios necessários à sua activação serão provenientes da Bateria de Aquisição de Objectivos, sediada na EPA, quando em treino ou emprego operacional. Desde a sua transferência para a BrigRR até ao presente, o efectivo do GAC tem rondado os 265 militares, com um valor médio de 25 oficiais, 68 sargentos e 172 praças, sendo o quantitativo de militares do sexo feminino aproximadamente 20%. O Quadro Orgânico em vigor contempla 33 oficiais, 86 sargentos e 241 praças, num total de 360 militares, 39 no Comando e Estado-Maior, 102 na BtrCS e 73 em cada uma das BtrBF, mantendo-se não activada a 3ª BtrBF por não serem colocados no Regimento os efectivos que possibilitam o seu levantamento. No que respeita aos equipamentos principais, o mesmo Quadro Orgânico contempla 105 viaturas, 18 obuses e 12 morteiros, dispondo o GAC de apenas 65 viaturas, 16 obuses (2 encontram-se evacuados no Regimento de Manutenção, com abate à carga do RA4) e 2 morteiros pesados. A organização actual, com a Bateria de Morteiros Pesados, permite ao Comandante da BrigRR uma maior flexibilidade no apoio de fogos prestado, considerando a facilidade de utilização e o volume de fogos que os morteiros possibilitam na fase inicial de uma operação e a profundidade ao combate e precisão garantidas pelos obuses M119 Light Gun numa fase posterior.

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Sistema Automático de Comando e Controlo (SACC) No âmbito do seu processo de reequipamento, o GAC/BrigRR foi dotado do SACC no sentido de garantir a automatização da Direcção Técnica e Táctica do Tiro e do correspondente Planeamento e Coordenação do Apoio de Fogos, do Targeting e do permanente acompanhamento da situação do Grupo. Embora o processo de implementação deste sistema remonte ao ano de 2005, com o levantamento dos componentes do sistema no Depósito Geral de Material do Exército, só em Dezembro de 2008 o RA4 recebeu as viaturas IVECO 40.13 concebidas com um Shelter próprio para operar o Sistema Advanced Field Artillery Tactical Data System, vulgarmente conhecido por AFATDS, dotadas, por isso, com o sistema rádio táctico de comunicações GRC-525, que permite a comunicação digital necessária ao completo funcionamento do sistema. Assim, em Março de 2009, no primeiro Exercício da série ”TROVÃO” desse ano, o SACC foi utilizado pela primeira vez na Direcção Técnica e Táctica do Tiro, em fogos reais, e desde então a sua utilização tem sido sistemática em todos os exercícios subsequentes, constituindo o cálculo manual dos elementos de tiro e a comunicação por voz meramente meios alternativos. Todavia, o empenho colocado nesta contínua utilização do sistema, a persistência na busca dos conhecimentos e na experimentação destes, de forma a permitir potenciar o seu funcionamento, têm colocado em evidência fragilidades que muito têm dificultado a sua completa operacionalização. A implementação deste sistema tem assim sido condicionada por problemas nas comunicações entre os

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vários subsistemas, onde a transmissão de dados utilizando o rádio GRC-525 não tem apresentado a fiabilidade esperada, provocando um excessivo dispêndio de tempo e de recursos em sucessivas tentativas para encontrar soluções que anulem estas contrariedades, em detrimento do efectivo treino dos operadores. Estamos, contudo, convictos que estes reveses irão ser ultrapassados, estando presentemente a trabalhar em parceria com a empresa construtora do rádio, a EID, e a

Direcção de Comunicações e Sistemas de Informação, no sentido da sua célere resolução. Desta forma, constituindo o Comando, Controlo e Coordenação um componente essencial do Sistema de Apoio de Fogos, o recurso ao seu processamento automático é uma realidade em qualquer força moderna, sendo esta realidade efectiva no GAC da BrigRR e considerada, desde 2006, ”Área de Excelência” do RA4.

Treino Operacional Decorrente da sua missão, o GAC prepara-

-se para executar operações em todo o espectro das operações militares, no âmbito nacional ou internacional, de acordo com a sua natureza e consequentes possibilidades. Destacando-se a condução de toda a tipologia de operações em todo o espectro de operações militares, o calendário de actividades anual tem englobado necessariamente um treino diversificado, garantindo não só as competências necessárias para a execução dos procedimentos próprios de operações especificamente de Artilharia, mas também para a condução das referidas operações em todo o espectro das operações militares, com particular relevo para as operações de resposta a crises. Este treino, ministrado a todo o GAC, tem decorrido na sequência e por inerência da responsabilidade atribuída ao RA4 para aprontar, em Janeiro de 2009, a Bateria de Artilharia de Campanha

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(BtrACamp) disponibilizada para a NATO Response Force (NRF) 14 e, em Outubro de 2010, a BtrACamp disponibilizada para a NRF 17. Esta última terminou a 30 de Junho a sua fase de treino multinacional, encontrando-se actualmente no seu período de Stand-by, que se estende, caso não seja empregue, até 31 de Dezembro deste ano. Coube assim ao RA4, e particularmente ao GAC/BrigRR, pela primeira vez na Artilharia Portuguesa, a missão de aprontar uma BtrACamp para integrar a Componente Terrestre de uma NRF. Este desafio foi reconhecidamente correspondido com elevados níveis de treino e prontidão, quer aquando da NRF 14, quer agora com a NRF 17, credenciando ambas as Baterias no final da sua fase de treino nacional como

forças verdadeiramente aptas para serem projectadas e realizarem operações conjuntas e combinadas, de cariz expedicionário, em qualquer tipo de terreno e ambiente. Ainda no âmbito do seu treino operacional destacam-se particularmente, entre outros exercícios conduzidos pelo GAC, os da já referida série ”TROVÃO”, de escalão Grupo, conduzidos no Campo Militar de Santa Margarida (CMSM), com a finalidade de praticar todos os procedimentos que permitem ao GAC garantir, de forma eficaz, a capacidade de apoio de fogos de Artilharia em todo o espectro das operações; os exercícios da série ”APOLO”, de escalão Brigada e que têm como audiência primária de treino as suas unidades operacionais e os exercícios da série ”EFICÁCIA”, da responsabilidade do Comando

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das Forças Terrestres, conduzidos também no CMSM, permitindo exercitar os Grupos de Artilharia de Campanha e as componentes de Apoio de Fogos das Unidades Escalão Batalhão de Manobra do Sistema de Forças do Exército no planeamento, controlo e conduta de operações terrestres. Estes exercícios, especialmente os da série ”APOLO”,

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têm permitido com regularidade o treino de operações aerotransportadas utilizando o avião C130 e o helicóptero EH 101 Merlin, pelo que podemos afirmar que ao nível do GAC/ BrigRR existe um know-how consolidado dos procedimentos próprios deste tipo de actividade. Torna-se ainda particularmente importante referir que o facto de a BrigRR estar afiliada ao Allied Rapid Reaction Corps (ARRC) tem exigido uma constante adaptação à doutrina e


procedimentos desta unidade, com implicações directas no treino operacional do GAC. O emprego de um conceito de apoio de fogos alargado constitui referência na actuação das unidades do ARRC em operações a que esta grande unidade designa por híbridas, abrangendo os Fogos Letais e os Fogos Não Letais, compreendendo estes últimos as actividades de Cooperação Civil-Militar, Operações Psicológicas, Relações Públicas, Key Leader

Engagement e Force Posture, Presence and Profile. Esta doutrina

e procedimentos, baseada nos Efeitos e num conceito de apoio de fogos em sentido lato, determina a necessidade de uma permanente adaptação das tácticas, técnicas e procedimentos em vigor, exigindo, por isso, uma constante preocupação dos quadros do GAC em actualizar os seus conhecimentos doutrinários.

unidade. Garantindo desta forma a nobreza da nossa missão – fornecer o apoio de fogos, quando necessário, de forma precisa, oportuna e contínua – servimos abnegadamente a BrigRR e o Exército continuando a honrar os que nos antecederam e fazendo jus à insígnia ”Fortes e Leais”.

Bibliografia ALMEIDA, Pedro Melo Vasconcelos de -

Implementação do SACC. Boletim 2009, Leiria: Regimento de Artilharia N.º 4, 2009, 6-11 ROSA, Manuel Maria Barreto - O Grupo de

Artilharia de Campanha da Brigada de Intervenção. Boletim 2008, Leiria: Regimento de Artilharia N.º 4, 2008, 11-15 SANTOS,

Álvaro

António

Moreira

dos

Lições Aprendidas. Operacionalização do Sistema

Conclusões Passados três anos como unidade integrante de uma Brigada de Tropas Especiais sentimo-nos plenamente integrados e, por que não dizer, igualmente «especiais», pois cumprindo o apoio solicitado com rigor, de forma pronta e determinada, e com elevado espírito de bem servir, somos reconhecidos pela entrega, competência e profissionalismo colocado naquilo que fazemos, cujos resultados se traduzem em elevados padrões de desempenho e na efectiva capacidade operacional da nossa

Automático de Comando e Controlo. Boletim 2010, Leiria: Regimento de Artilharia N.º 4, 2010, 30-35 DIRECTIVA N.º 13/CEME/08, de 11 de Janeiro de 2008.

TCor Art Avelar Comandante do GAC

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BtrACamp/NRF17

Aprontamento, Treino e Prontidão

A

12 de Junho de 2009, na cimeira de Ministros da Defesa em Bruxelas é criado um novo conceito para as NATO Response Force (NRF), fruto das dificuldades em implementar o conceito de NRF previsto no MC477, de 10 de Abril de 2003, bem como das alterações no contesto estratégico internacional que tem levado os países Aliados a empenharem um volume considerável de Forças nas Real World Operations (RWO). Neste novo conceito de NRF, a força deve continuar a ser capaz de realizar operações em todo o espectro de missões e em qualquer

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parte do mundo. Esta é uma Força de emprego imediato para a defesa dos países da Aliança, no âmbito do art. 5º, ou para ser empregue como primeira força a ser projectada para um TO, como precursora de uma força de maior dimensão, seja no âmbito de operações no quadro do art. 5º ou outro. Pode ainda ser empregue em apoio de agências civis no quadro de uma operação de assistência em consequência de uma calamidade natural. Assim, este novo conceito de NRF apoiase nos dois Joint Force Commands (JFC) ou no Joint Command Lisbon (JCL) e a sua estrutura assenta nos seguintes três pilares:


- um elemento de Comando e Controlo de nível Operacional que compreende o QuartelGeneral (HQ) estático do JFC designado e de um elemento projectável que dele é destacado – um Deployable Joint Staff Element (DJSE), com grau de prontidão de cinco dias Notice To Move (NTM);1 - a Immediate Response Force (IRF) que integra as Forças e os HQ de nível táctico, nomeadamente das Componentes Terrestre2 , Aérea, Naval e de Operações Especiais, num grau de prontidão de 7 a 30 dias NTM e com um efectivo total de cerca de 14.000 militares; - a Response Forces Pool (RFP) que agrega os restantes HQ, Forças e Capacidades atribuídas à NRF, em volume, natureza e estados de prontidão, em termos e condições mais flexíveis, dependentes da vontade das Nações e de acordo com os compromissos operacionais da NRF previstos para cada momento. O grau de prontidão varia entre três níveis: 10 dias NTM ou inferior, de 10 a 30 dias NTM e de 30 a 60 dias NTM. Podemos assim concluir que neste novo conceito existem dois tipos de forças: as IRF, forças qualificadas que estão sujeitas a um ciclo de treino mais intenso, porque têm uma prontidão maior; e as RFP, que têm condições de prontidão mais baixas, fruto da sua flexibilidade e da vontade das nações contribuintes. Concentremo-nos então nas IRF, onde se insere a nossa Bateria de Artilharia de Campanha (BtrACamp), cujo ciclo de treino inclui uma fase de aprontamento de responsabilidade nacional, com duração de seis a doze meses, seguido de uma fase de aprontamento conjunta

e combinada, da responsabilidade da OTAN, com a duração de seis meses, e finalmente, uma fase de Stand-by que pode chegar a um período de 12 meses. É neste contexto que, em finais de Outubro de 2010, a Brigada de Reacção Rápida (BrigRR) recebe a missão de aprontar uma Bateria de Artilharia de Campanha disponibilizada para a NATO Response Force 17 (BtrACamp/NRF17), cabendo naturalmente ao Regimento de Artilharia N.º 4 (RA4) concretizar esta tarefa aproveitando as competências operacionais do seu Grupo de Artilharia de Campanha (GAC),. De acordo com a Directiva N.º 43 do Comando das Forças Terrestres, de 20Out10, esta Bateria tem um efectivo de 120 militares, distribuídos por uma Secção Comando, uma Secção de Transmissões, 4 Secções de Observação Avançada, uma Secção de Topografia, uma Secção de Manutenção, uma Secção de Reabastecimentos, com uma Equipa de Alimentação e 3 Equipas de Munições, e por último a Bateria de Tiro, a 6 Secções de Bocas de Fogo.

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Assim, ao nível do GAC/BrigRR, esta tarefa foi planeada considerando a 2ª Bateria de Bocas-de-fogo como unidade base da BtrACamp/NRF17, recebendo das restantes Baterias do GAC e da Bateria de Comando e Serviços regimental, o pessoal e o material necessário para completar a Estrutura Operacional de Pessoal (EOP) e Material (EOM) da BtrACamp/NRF17. Dando então cumprimento à Directiva N.º 10 do GAC, referente ao aprontamento da Força, iniciámos logo em Novembro o Inprocessing dos militares do Grupo que reuniam condições para a integrar, levantando também as necessidades de formação, uma vez que muitos dos militares que haviam integrado a BtrACamp/NRF14 já tinham saído das fileiras ou se encontravam na Força Nacional Destacada no Teatro de Operações (TO) do Kosovo. Estas necessidades de formação, principalmente ao nível de condutores mas também em outras áreas, não sendo primordialmente de Artilharia, são fundamentais num TO internacional, nomeadamente a formação em Combate em Áreas Edificadas (CAE), Controlo de Tumultos e contra Improved Explosive Device (C-IED). Iniciámos o nivelamento da Técnica Individual de Combate com o intuito de colocar todos os militares a ”falar a mesma linguagem”, comunicar com o mesmo gesto e, inclusivamente, distribuir o material pela mochila da mesma forma. Este período levounos ao nivelamento da Técnica de Combate de Secção para que os militares que compõem os diferentes órgãos da Bateria se começassem a entrosar melhor. Terminámos estas semanas

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com uma prova topográfica realizada no pinhal de Leiria, com estações de avaliação dos conhecimentos adquiridos. Na última semana de Novembro de 2010 realizámos o primeiro exercício de Bateria, o ”TROVÃO 102”, que se constituiu como um ponto de partida. Este exercício envolveu a

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realização de fogos reais de Artilharia e tiro de armas ligeiras com adaptação ao tiro instintivo. Embora tivessem já sido demonstradas capacidades foram sobretudo levantadas necessidades, quer em termos de materiais, quer ao nível da formação


adequada para muitas tarefas, que não fazem parte da missão convencional de uma força de Artilharia mas dos requisitos operacionais de uma força disponibilizada para a NATO. Com o início do ano de 2011 iniciámos também um novo período de formação, desta vez em Operações de Apoio à Paz. Através de actividades realizadas no exterior da Unidade foram criadas, durante duas semanas, situações muito próximas da realidade vivida pelas forças destacadas no exterior do território nacional, nomeadamente execução de check-points, operações de cerco e

busca, escoltas e operações de defesa de um ponto sensível. Ao aproximar-se Fevereiro, reiniciámos o treino das missões típicas de uma força de Artilharia, pois não nos podemos esquecer do nosso core business. Assim, foram revistos os procedimentos tipicamente artilheiros, nomeadamente, de pontarias, procedimentos radiotelefónicos, bem como novos procedimentos, fruto da implementação do Sistema Automático de Comando e Controlo da Artilharia. Ao chegar Março, chegou também a ”hora da verdade” com a Avaliação Operacional (Combat Readiness Evaluation – CREVAL). Para nos aproximarmos de um alto nível de desempenho, foram organizados dois exercícios da serie ”PINHAL”, realizados na Área de Atribuição de Missão (AAM), localizada na região do pinhal de Leiria. Nestes exercícios foram levados a cabo treinos de reacção a ataques, através de um sistema de alarmes, bem como o treino relacionado com a ocupação e defesa da AAM e a saída da mesma

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para ocupar uma posição de Artilharia. Desta forma, foi fácil demonstrar à Equipa de Avaliação da Inspecção Geral do Exército as capacidades adquiridas e treinadas, tendo em vista atingir os requisitos internacionais a que a força está obrigada. Conseguimos assim o objectivo de nos ser atribuído o statement of Combat Ready. Terminámos assim um ciclo de treino, demonstrando logo em Maio, aquando do Exercício ”EFICÁCIA 2011”, que os resultados de reconhecido valor conseguidos na CREVAL não tinham sido pontuais, mas sim o culminar de um treino exigente e determinado, sendo uma vez mais apreciada como elevado nível a nossa participação. De salientar ainda a participação de seis militares da Bateria no Exercício ”NOBLE LIGH 2011”, durante o mês de Abril, realizado no NATO Rapid Deployment Corps na Turquia, para certificação da 66ª Brigada do 3º Corpo de Exército Turco. Neste exercício, no modelo de Postos de Comando (CPX), a Bateria representou o GAC em apoio directo à Brigada, dando resposta aos incidentes injectados pelo Comando da Componente Terrestre, bem como pela própria Brigada, de acordo com o guião estabelecido pela direcção do exercício. Antes de entrarmos no período de Stand-by realizámos o treino de

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CAE, C-IED e Controlo de Tumultos, utilizando como formadores os militares que no decorrer do aprontamento frequentaram cursos de formação nestas áreas. Olhando em retrospectiva, a missão foi cumprida, mas nem tudo foi fácil nesta caminhada. A dificuldade em manter o pessoal, uma vez que foram muitas as colocações, trocas e rescisões, não permitiu manter o efectivo constante como era desejado. Encontrando-se parte do material e equipamento da BtrACamp/NRF 17 em Stand-by noutras unidades, pronto a ser levantado de acordo com um plano próprio, não foi possível efectuar a formação adequada para o operar. A dificuldade em combinar o serviço diário da unidade com a necessidade de um treino mais apurado, como neste caso se exigia, limitou de alguma forma o nível de treino atingido. A indispensabilidade de garantir que o GAC/BrigRR mantivesse entretanto o seu grau de prontidão levou à não colocação de todos os militares sob comando completo do comandante da Bateria, o mesmo acontecendo com os materiais e viaturas. Esta situação, dificultando obviamente o comando e controlo daqueles, impôs um desafio ainda maior, superado através de uma imensa capacidade de adaptação e abnegação de todos militares que integram a BtrACamp/NRF 17. Também a escassa formação de base dos quadros de artilharia nas áreas de CAE, C-IED e Controlo de Tumultos, confinou o número de instrutores a utilizar nestas áreas. Com maior ou menor dificuldade a missão atribuída pelo Exército ao RA4 está a ser levada a

cabo com empenho, determinação e vontade de bem servir. A Bateria de Artilharia de Campanha disponibilizada para a NRF17 é assim uma realidade, tendo atingido com sucesso, a 17 de Março, a sua certificação nacional, a 30 de Junho, a Full Operational Capability, iniciando em 01 de Julho a fase de Stand-by, pronta para servir em nome de Portugal, onde e quando for determinado.

1

O JFC deverá ter capacidade de constituir

uma Operational Liason and Recoinnaissance Team (OLRT) com NTM de 48 horas.

2

O HQ da componente terrestre (LCC HQ)

será constituído com base no HQ de um dos Corpos de Exército nacionais mantidos em elevada prontidão – NRDC HQ.

Referências: (1) DIRECTIVA OPERACIONAL N° 006/CEMGFA/10, (2) DIRECTIVA N° 192/CEME/10, (3) DIRECTIVA N° 43/CFT/10, (4) DIRECTIVA N° 10/GAC/10.

Cap Art Jesus CMDT/BtrACamp/NRF17

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Chefe de PCT

Da AM para uma experência operacional

A

pós o fim do Mestrado Integrado em Artilharia na Academia Militar fui confrontado com a possibilidade de exercer uma das funções especificamente atribuídas a um Alferes de Artilharia, as de Chefe de PCT. Chegado ao Regimento de Artilharia N.º 4, a minha primeira função foi a de Chefe do PCT integrado na Bateria de Artilharia de Campanha disponibilizada para a NATO Response Force 17. No início não tinha noção do desafio que iria enfrentar, embora já tivesse sido alertado de que o quotidiano numa Unidade era muito diferente do de uma Escola Militar.

22 Regimento de Artilharia N.º 4

Quando tomei conhecimento da minha colocação, e posteriormente das minhas funções, verifiquei que o factor sorte se encontrava do meu lado, porque dos sete elementos do meu curso só dois assumiram as funções de Chefe de PCT, um no Grupo de Artilharia de Campanha na Brigada Mecanizada e eu, no Grupo de Artilharia de Campanha da Brigada de Reacção Rápida (GAC/BrigRR). Assim, ao ingressar no Quadro Permanente, poder desde logo aplicar os conhecimentos adquiridos ao longo da formação académica constituiu para mim um grande desafio, não só porque permitia


consolidar esses conhecimentos, como também constituía uma oportunidade de melhorá-los significativamente. Destaco os meus primeiros exercícios da serie ”TROVÃO” e ”EFICÁCIA”, realizados pelo GAC/BrigRR, que constituíram um marco relevante e decisivo para a minha formação militar Como tónico para a minha motivação verifiquei que o Regimento de Artilharia N.º 4, e particularmente a sua Estrutura Operacional, é a única unidade de Artilharia onde o Sistema Automático de Comando e Controlo (SACC) é empregue de forma constante e consistente em todos os exercícios de fogos reais. Este sistema proporciona um conjunto de vantagens inquestionáveis relativamente ao sistema manual, das quais destaco a velocidade de processamento de dados com a consequente celeridade no ataque aos objectivos, a par da efectivação das medidas de coordenação subjacentes aos diversos níveis de decisão. Ao Chefe de PCT de Bateria cabe operar o subsistema do SACC designado por Battery Computer System (BCS). Ao contrário do cálculo manual, que envolve a utilização de vários impressos, a leitura de valores na prancheta de tiro, a leitura de valores nas tábuas de tiro (numéricas e/ou gráficas) para, por fim, efectuar o cálculo dos elementos de tiro, este subsistema utiliza um conjunto de algoritmos que em questão de poucos segundos apresenta e disponibiliza os elementos de tiro para atingir um objectivo. O BCS sendo um subsistema do SACC, como foi referido, está interligado aos outros subsistemas como é o caso do

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Foward Observer System (FOS), subsistema que equipa os Observadores Avançados e pelo qual são enviados os pedidos de tiro e as respectivas correcções. Por outro lado, o BCS

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também está ligado ao Gun Display Unit (GDU), subsistema terminal do SACC que se encontra em cada uma das Secções de Bocas-de-Fogo, para receber os elementos de tiro que irão


posteriormente ser introduzidos no aparelho de pontaria do obus. Completo a referência aos subsistemas do SACC realçando o papel do

Advanced Field Artillery Tactical Data System (AFATDS). Operado pelo Elemento de Apoio de Fogos de Brigada e Batalhão, é através dele que são efectuadas a direcção táctica e técnica do tiro e a respectiva coordenação do apoio de fogos. Considerando que durante o curso da Academia Militar não foi ministrada formação de Batery Computer System, refiro que senti algumas dificuldades iniciais na utilização deste equipamento, que rapidamente fui obrigado a ultrapassar sob pena de prejudicar o cumprimento da missão da minha Bateria. O conhecimento transmitido pelos oficiais mais antigos foi determinante para que eu pudesse responder pronta e eficientemente aos exigentes padrões de desempenho do GAC e do Regimento. Verifiquei ainda que quando se está no terreno, em exercícios de fogos reais, existem muitos aspectos que fogem naturalmente ao ambiente académico, e cuja experiência e treino constituem o complemento fundamental à formação do Oficial de Artilharia. Porém, o domínio com rigor das diferentes técnicas de tiro aprendidas é fundamental para, por vezes, em determinada situação táctica, poder abreviar alguns passos sem comprometer a precisão nem a segurança. Outra vertente da responsabilidade como Chefe de PCT, e não menos importante, é a preocupação com os militares que se comanda e com os materiais à sua responsabilidade, pois o Chefe de PCT deve

garantir sempre a máxima operacionalidade deste órgão vital da Bateria. Concluo, salientando a minha enorme motivação e satisfação pelas funções assumidas no Regimento de Artilharia N.º 4, e em particular na sua estrutura operacional. A aprendizagem sistemática e consistente no treino operacional e a vivência na Unidade tem permitido consolidar e melhorar significativamente nas diversas vertentes o processo de formação do Oficial de Artilharia iniciado na Academia Militar. Determinação e vontade são algumas das qualidades determinantes na formação do Oficial de Artilharia, ao que se junta o enquadramento de excelência na actividade e treino operacional. Assim, uma passagem por este GAC que utiliza de forma natural e sistemática as Novas Tecnologias como elemento de vanguarda, é sem dúvida uma oportunidade e um desafio a todos os jovens Oficias, que certamente lhes trará mais-valias inquestionáveis e consequente enriquecimento da Arma de Artilharia.

Alf Art Silva Chefe PCT/BtrACamp/NRF17

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BtrACamp/NRF17

A Observação Avançada

N

o mês de Outubro de 2010, chegou ao Regimento mais um desafio e, como tem vindo a ser habitual, para ser alcançado com grande empenho e dedicação. Desta vez, este desafio recaiu em particular nos militares da 2ª Bateria de Bocas-de-Fogo do Grupo de Artilharia de Campanha (GAC), apoiados por todo o Regimento. Coube ao Regimento de Artilharia N.º 4, mais uma vez, preparar uma Bateria para as NATO Response Forces. Assim, o GAC desenvolveu um conjunto de actividades para fazer face às novas exigências. Se por um lado o treino foi conjunto, por outro as diferentes subunidades da BtrACamp/NRF17 desenvolveram o treino de secção de forma a responder eficientemente aos desafios que lhes foram impostos. Os Observadores Avançados (OAv’s), como parte integrante da Bateria, efectuaram o seu treino no âmbito operacional na diversidade de missões para cumprir, como também no âmbito dos procedimentos de Artilharia. Os Observadores Avançados necessitam de ter um profundo conhecimento sobre os materiais de que dispõem para assim desempenharem a sua função de forma eficaz e eficiente, sendo indispensável muito treino para o conseguir. Desde o Forward Observer System (FOS), ao Goniómetro-Bússola, passando pelos binóculos, bússolas, cartas topográficas, GPS, rádios, aparelhos de visão nocturna e outros, todos estes equipamentos desempenham um papel fundamental. São eles que permitem

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localizar com precisão no terreno os objectivos; fazer um estudo completo do terreno, permitindo um esboço panorâmico,

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conciso e preciso. Assim, através destes meios, o observador é capaz de detectar, localizar e identificar objectivos a bater; efectuar pedidos de tiro; regular o tiro sempre que necessário e controlar os tiros à sua voz, se adequado. Actuamos de forma a fazer chegar o pedido de tiro ao ”cérebro” do Sistema de Artilharia de Campanha, o Posto Central de Tiro, para que este possa calcular os elementos de tiro que são transmitidos posteriormente às bocas-de-fogo de forma precisa e em tempo oportuno. O sucesso deste processo resulta do treino diário dos Observadores Avançados. Sem dúvida, o treino tem sido feito com a orientação propícia à missão a que se destina e isto está patente nos vários exercícios que realizámos no âmbito da BtrACamp/NRF17: ”TROVÃO 102”, ”PINHAL111”, ”PINHAL112”, ”CREVAL” e ”TROVÃO 111”. Todos os exercícios de campo têm como objectivo aperfeiçoar as técnicas e praticar procedimentos inerentes ao tiro. Estes exercícios não


foram excepção. Todos os militares foram devidamente treinados para situações específicas: instalação em terreno não preparado; execução e interpretação de sinais de combate; comando de secções em fogo e movimento; comando de secções em travessia de áreas perigosas; reacção a emboscadas, etc. Depois do treino em conjunto da Bateria, em que são injectados vários incidentes e em que temos que colocar em prática aquilo que aprendemos no âmbito do aprontamento, as Secções de Observadores Avançados separam-se do resto da Bateria, de forma a dar continuidade a mais uma sessão de fogos de Artilharia. Chegando ao Posto de Observação, os OAv´s procedem à identificação do local e localizam os objectivos sobre os quais irão pedir fogo. É com empenho que esta actividade decorre, pois é o que nos vai proporcionar avaliar os conhecimentos adquiridos e as técnicas treinadas, por forma que o objectivo batido, o seja com a precisão e o rigor a que estamos habituados. Nos exercícios de campo, o dia-a-dia de um observador é bastante dinâmico. O acordar é marcado pela adrenalina, que resulta de um conjunto de tarefas que temos que realizar de forma eficaz e em pouco tempo. É necessário testar comunicações rádio, colocar o FOS em condições de funcionamento, localizar com precisão mais um objectivo, preparar pedidos de tiro e utilizar os meios de transmissão adequados. Depois de estar tudo pronto, dáse início ao tiro que só termina quando o dia acaba. Pelo meio, como é evidente, estão as

refeições. Tomamo-las alternadamente para que o tiro não seja interrompido, estando sempre uma equipa pronta a actuar. Devo admitir que, por vezes, existe uma ”luta” entre equipas, pois ninguém quer abandonar aquela que pode ser a grande Eficácia do dia. Apostam-se cafés, de forma séria fazem-se “brincadeiras”, pois com fogos reais não se brinca, mas no fundo actuamos de modo a atingir o mesmo objectivo: mais um sucesso para o Regimento de Artilharia N.º 4. Sem dúvida, todos os exercícios se pautaram pelo rigor, precisão, organização, profissionalismo e empenho. Em termos gerais, podemos afirmar que as Secções de Observadores Avançados da BtrACamp/NRF17, aproveitaram todos os exercícios para aperfeiçoar as suas técnicas e procedimentos, alcançando resultados bastante positivos, quer ao nível da condução do tiro, quer ao nível da utilização do subsistema FOS. De forma intensa e determinada continuaremos a treinar porque o treino é fundamental para um bom desempenho, e um bom desempenho contribui sem dúvida para a grandeza e o prestígio do Regimento de Artilharia N.º 4.

Alf Rc Pinheiro OAv/BtrACamp/NRF17

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CMDT Sec Obús

Da ESE para uma experiência operacional

F

inalizado o Curso de Formação de Sargentos do Quadro Permanente do Exército, chegou a hora da colocação numa unidade de Artilharia, o Grupo de Artilharia de Campanha (GAC) do Regimento de Artilharia Nº4. Foi na 2ª Bateria de Bocas-de-Fogo que iniciámos o comando de uma secção de Obuses, percurso natural de quem entrou agora para o Quadro Permanente na categoria de

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Sargento. Foi-nos logo atribuída uma secção e encetámos o processo de preparação desta. Como recém-chegados, importava conhecer e ambientar os homens da secção à nossa maneira de trabalhar, e importava, claro, adaptarmo-nos também ao modo de trabalhar da Bateria, pois nela já existem diversos procedimentos. Destaca-se a utilização com eficiência do Sistema Automático de Comando e Controlo (SACC), nomeadamente um dos seus


componentes, o Gun Display Unit (GDU), para a recepção dos elementos de Tiro. Foi aqui que vimos no terreno, pela primeira vez, todo este sistema em funcionamento. Como comandantes de secção destacamos a experiência adquirida nos Exercícios de Fogos Reais realizados desde a nossa apresentação no GAC/BrigRR, sendo estes o ”TROVÃO 102”, em Novembro de

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2010, o ”TROVÃO 111”, em Março de 2011, e o ”EFICÁCIA11”, em Abril último. Nestes exercícios foram postos à prova alguns procedimentos específicos no comando da secção, tais como controlar os serventes municiadores na preparação das munições ao verificar se as cargas que são introduzidas na granada estão conforme a ordem dada, verificar se a graduação de espoleta introduzida está bem introduzida e controlar o servente apontador ao confirmar o correcto apontar da boca-defogo. Estes exercícios têm como objectivo garantir o treino operacional no âmbito do tiro real, nivelando procedimentos ao nível da secção e da própria Bateria, proporcionando condições em tudo semelhantes a uma situação de combate. O aprontamento da BtrACamp/NRF 17 proporcionou-nos diversas experiências tais como o treino de missões tipicamente de Infantaria mas adaptadas às secções de bocas-de-fogo, como Técnica Individual de Combate (TIC), Técnica de Combate de Secção (TCS), Operações Art.º V no âmbito da Artilharia de Campanha, Operações Não Art.º V nomeadamente Operações de Resposta a Crises. No desenvolvimento do aprontamento da BtrACamp, integrado numa situação táctica, foi dada a oportunidade de efectuar o helitransporte da Bateria de Tiro para uma posição, com o intuito de fornecer apoio de fogos continuo e oportuno a um Batalhão de Comandos. Este exercício veio enriquecer a nossa experiência como Comandantes de Secção visto ter sido a primeira vez que executámos este método de

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transporte, exigindo elevada responsabilidade na segurança do pessoal e do material de forma a garantir a continuidade no cumprimento da missão. Consideramos a experiência operacional adquirida nos diversos exercícios do aprontamento da BtrACamp/NRF 17 bastante enriquecedora e proveitosa, mesmo considerando as situações mais exigentes em que foi pedido um esforço adicional às secções, derivado do elevado ritmo de treino e, por vezes, com escassez de pessoal. Sem sombra de dúvidas que as novas competências adquiridas e a destreza no cumprimento das complexas funções do Comandante de Secção de Obuses foram significativamente melhoradas, tendo sido dado o primeiro e decisivo passo na formação do Sargento do QP ao serviço da Artilharia e do Exército Português.

2Sarg Art Leal CMDT Sec/BtrACamp/NRF17

2Sarg Art Silva CMDT Sec/BtrACamp/NRF17

2Sarg Art Santos CMDT Sec/BtrACamp/NRF17

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Seis anos de camuflado... Três perspectivas!

Todos os militares do Exército Português envergam, durante o período que servem o seu país, a mesma farda, que apesar de estadear distintos brasões, consoante a Unidade ou a Especialidade, ostentam todas elas o peso da nossa Nação. A cada militar ela transmite diferentes experiências, vivências e perspectivas. Durante seis anos o camuflado torna-se a segunda ”pele” do militar que com ele passa por todas as etapas da sua estadia na Instituição, desde a incorporação até ao custoso adeus. Apresentam-se, assim, contadas na primeira pessoa, as vivências enquanto militares da Cabo-Adjunto Ribeiro, da 1º Cabo Alves e do 1º Cabo Duarte, militares que recentemente terminaram o seu vínculo à Instituição Militar, tendo servido no RA4. 34 Regimento de Artilharia N.º 4


CABO-ADJUNTO DIANA RIBEIRO

F

Incorporação e chegada ao RA4 ui incorporada no dia 24 de Outubro de 2004 numa recruta feita com a farda n.º3, ao estilo de antigamente. Após o término da fase de instrução estava em mim a vontade, curiosidade e admiração pelo camuflado. Em Março de 2005, após a especialidade feita na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas, apresentei-me no Regimento de Artilharia N.º 4, passando assim pela tão aguardada experiência de vestir o camuflado. Fui colocada na 2ª Bateria de Bocas-deFogo (Btrbf) onde até à data ainda não havia sido colocada nenhuma militar feminina, porque a 1ª Btrbf do GAC da então Brigada Aerotransportada Independente (BAI) era constituída essencialmente por militares páraquedistas, não sendo comum a integração de elementos femininos. Na 2ª Btrbf fui colocada numa Secção de Obus com a função de servente municiador/ auxiliar do comandante de secção (S5). Desta feita, verifiquei que os três meses de especialidade não foram suficientes para adquirir todo o conhecimento técnico e táctico inerente à minha função, sendo que aos poucos, com muito esforço e com a ajuda dos restantes camaradas que integravam a minha secção, me inteirei desta nova realidade. Especialidade de Artilharia Ao chegar a Vendas Novas para frequentar a especialidade de Operadores de Bocas-de-Fogo, embora tivesse sido a opção para seguir no meu percurso militar, tinha muito pouco conhecimento

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sobre do que se tratava. Foram três meses de instrução, que englobou o Obus M119 Light Gun 105mm, o Obus M114 155mm, o Obus M101 A1 105mm e outro armamento pesado e ligeiro. Desde logo percebi que ser artilheiro não era tarefa fácil pois o ”ferro” era bastante pesado. Posso dizer que cheguei ao fim da especialidade ainda com a dor de costas quando pela primeira vez que lhe tomei o peso. Na primeira experiência de tiro real fiquei sem ouvir durante um bom tempo, mas nada de preocupante. Passados estes meses só queria voltar a fazer tiro, vontade que se realizou aquando da minha colocação no RA4. Vivência na caserna Durante todos estes anos mantive-me sempre no mesmo quarto da caserna feminina, onde foram entrando e saindo camaradas, que de todas as formas e feitios deixam saudades.

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Viver com mais pessoas ao nosso lado traz algum conforto e união, pois criam-se laços de amizade e companheirismo que nos aproximam, sendo quase um ambiente familiar, pois é ali que passamos grande parte dos nossos dias e noites, tornando-se na nossa casa. Foi na caserna e no meu quarto que passei muitas noites de convívio com as camaradas, numa forma de nos divertirmos e assim esquecermos o dia de trabalho, muitas vezes doloroso. Foi ali que passei grandes momentos que jamais esquecerei.

1º CABO ANA ALVES Incorporação e chegada ao RA4 Vir para o Exército sempre foi algo que me suscitou algum interesse e curiosidade. No dia em que fui chamada para ser incorporada no


Regimento de Infantaria N.º 2 em Abrantes, despoletou-se em mim um sentimento de ansiedade, acompanhado de algum receio pelo que iria encontrar na minha nova caminhada. A primeira semana foi um choque: a farda, as botas sempre bem engraxadas e o cabelo bem apanhado, para não falar no frio horrível que se fazia sentir no mês de Janeiro de 2005. Em Abril desse ano após a recruta, fui colocada no Regimento de Artilharia N.º 4, o que me deu um maior alento pois estava mais perto de casa. Contudo, ”gelei” quando soube qual seria a minha Bateria. A mítica 1ª Btrbf/GAC/BAI, onde ”reinava” a tropa pára-quedista, sendo eu a primeira mulher a entrar nesta Bateria como servente de Ligth Gun. Ganhar o respeito num meio constituído maioritariamente por homens foi trabalhoso e cada dia representava uma conquista. Vivência na caserna Viver durante todos estes anos numa camarata feminina num quarto com mais cinco pessoas é algo que decerto não vou esquecer e que provavelmente não irei viver mais, pois a vida fora daqui é diferente. Inicialmente o meu quarto era constituído por três camaradas, passando a serem seis no final de 2005. Por lá passaram algumas raparigas, o que felizmente foi sempre muito bom pois sempre nos demos muito bem. Ao dividirmos um espaço tem que haver, obrigatoriamente, um respeito mútuo, não só dentro do quarto, mas também em relação aos quartos vizinhos. Respeitar sempre os horários foi fundamental para que tudo corresse às mil maravilhas, tal como gerir a limpeza das áreas comuns.

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Aqui na caserna feminina e no meu quarto vivi grandes momentos com as minhas camaradas e amigas (os petiscos, as brincadeiras, as conversas e até as confidências), que ficaram e que certamente irei guardar para sempre na minha memória.

1º CABO MÁRCIO DUARTE Incorporação e chegada ao RA4 O que me levou a alistar no Exército foi o facto de pretender concorrer à GNR, uma vez que sendo militar poderia aceder à percentagem de vagas destinadas a esta Instituição. Para além disso, também me senti atraído pelo factor experiência e espírito de aventura. Foi então que a 10 de Janeiro de 2005 me apresentei em Abrantes, no RI2, para iniciar a minha recruta. Não sabia ao certo que experiência iria vivenciar, não estava habituado a ver tanta gente fardada, tudo aconteceu de forma extremamente rápida. Experimentei fardas e botas, recebi material e forneci informação pessoal. Comecei os treinos de ordem unida, os treinos físicos e instruções. De início foi tudo muito complicado, mas com o tempo ambientei-me. No entanto, o que mais me custou foram as baixas temperaturas. Foi então que escolhi a minha especialidade: Artilharia. Assim, no final da recruta, rumei ao RA4. Fiquei extremamente feliz por ter sido colocado na minha área de residência, mas quando parecia que o pior já tinha passado apercebi-me que afinal estava errado. Fui colocado na famosa 1ª Btrbf, onde recebi toda a minha formação como artilheiro.

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Cursos No ano de 2007 tive a oportunidade de frequentar ao Curso de Condutor Militar de Categoria ”C”, ficando apto a desempenhar funções de condutor de uma Secção de Bocas-de-Fogo. Mais tarde frequentei o Curso de Condutor Militar de Categoria ”C+E”. Para a frequência destes cursos tive que me deslocar ao Regimento de Cavalaria N.º 3, em Estremoz, e à Escola Prática dos Serviços, na Póvoa de Varzim. A oportunidade que me foi dada de tirar a categoria ”C+E” foi uma mais-valia para a minha vida civil e uma recompensa pelo trabalho até então efectuado.

DA MESMA MANEIRA QUE AS MESMAS SITUAÇÕES CONSEGUEM TOCAR DE FORMAS DIFERENTES OS DIFERENTES MILITARES, QUE VESTEM O MESMO CAMUFLADO, O INVERSO TAMBÉM ACONTECE, HAVENDO PERSPECTIVAS IGUAIS PARA SITUAÇÕES SEMELHANTES.

1º CABO ANA ALVES E 1º CABO MÁRCIO DUARTE Especialidade de Artilharia A nossa especialidade de Obus M119 Light Gun 105mm foi já no Regimento de Artilharia N.º 4. Foi um mês passado no parque

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junto à enfermaria, com entradas e saídas de posição, adquirindo técnicas para sermos bons serventes e termos uma boa preparação para os exercícios. Éramos 10 militares, 6 mulheres e 4 homens. As mulheres sentiram alguma dificuldade pois o material era pesado e bastante robusto. Mas com aplicação e um bom desempenho todos superaram mais um obstáculo sem grande dificuldade.

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CABO-ADJUNTO DIANA RIBEIRO E 1º CABO ANA ALVES Ser mulher no Exército No Regimento de Artilharia N.º 4, em 2005, éramos somente 27 praças femininas, sendo a maioria de secretariado e condutoras. Desta forma, a nossa chegada à Artilharia trouxe alguma surpresa. No quarto comentavam-se as nódoas negras causadas por aquele material robusto e pesado. Sentimos as dificuldades redobradas inerentes ao meio, lutando diariamente pelo enquadramento e pela igualdade de género. Estávamos cientes da nossa menor robustez física e resistência, juntandose a isto a pressão psíquica diária, que era enorme. Como resultado, todos estes factores aumentaram a nossa vontade de aqui chegar e vencer. Não foi fácil para nós, mas também não o foi para os nossos camaradas masculinos. Como já mencionámos não haviam mulheres nas secções, havendo assim diversas situações que tiveram que mudar, nomeadamente o comportamento diário e a reestruturação do convívio. Nunca fomos beneficiadas por sermos mulheres,

pelo contrário… Antes de provarmos a nós mesmas que conseguíamos, tínhamos que provar a eles que éramos capazes. Foi um trabalho contínuo da nossa parte, mas com o passar do tempo até eles se sentiram orgulhosos, porque viram que nunca desistimos perante qualquer dificuldade. Aprontamento/Missão Ao fim de dois anos o nosso trabalho foi recompensado com a possibilidade de integrarmos uma força multinacional. Foi então que em Março de 2007 rumámos ao Regimento de Infantaria N.º 14, em Viseu, para o aprontamento no 2º Batalhão de Infantaria, na Companhia ALPHA COY. Aqui permanecemos seis meses de aprontamento, onde conhecemos novos camaradas, assim como novos conhecimentos técnicos para a eficácia desta missão. Nesta companhia tínhamos a função de apoiar as Companhias Operacionais da Força, participando em exercícios que viriam a retratar o que nos iria esperar no Teatro de Operações. Em Setembro de 2007 partimos para o Kosovo com alguma tristeza por quem deixávamos cá, mas com muita ansiedade pela chegada ao país onde iriamos permanecer durante seis meses. A língua estranha, a cultura e o clima continental, com Verão quente e Inverno rigoroso, foram sem dúvida alguns dos aspectos que nos fizeram sentir saudades da Pátria, pois tudo era diferente do que até então conhecíamos. Sobreviver seis meses numa missão requer alguma sanidade

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CABO-ADJUNTO DIANA RIBEIRO, 1º CABO ANA ALVES E 1º CABO MÁRCIO DUARTE mental e gerência de sentimentos, sendo muito importante, nas alturas menos boas, o apoio mútuo. Tínhamos a facilidade de comunicar diariamente com a família através da internet e do telemóvel, o que também nos ajudava a amenizar as saudades. Esta experiência no exterior do território nacional foi sem dúvida única e muito enriquecedora. Tudo o que vivemos e presenciámos fez-nos evoluir não só como militares mas também como mulheres, pois passámos a olhar para o futuro de uma forma diferente, tendo sempre em mente o princípio de nunca desistir perante as dificuldades. Regressámos ao RA4 em Março de 2008.

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O dia-a-dia/exercícios O nosso dia-a-dia no quartel não difere muito da vida diária de outros quartéis, com formaturas, horários a cumprir e trabalhos a efectuar. No entanto, o Grupo de Artilharia de Campanha sempre teve imensa actividade operacional, fazendo inúmeros exercícios de campo. Para estes exercícios eram destinados o primeiro e último trimestre do ano, sendo que no Verão éramos empenhados em actividades fora do quartel, tais como o Plano ”LIRA”, que se destinava à prevenção e rescaldo de incêndios. Desta forma fomos várias vezes empenhados, o que nos permitiu conhecer alguns pontos do país e sobretudo a amabilidade e


respeito da população perante os militares. Em 2009, o GAC recebeu a missão de aprontar uma Bateria para a NATO Response Force 14 (NRF14), que foi destinada à 1ª Btrbf, sendo este aprontamento inédito na Artilharia. Foi um ano e meio de grande actividade e inúmeros exercícios, criando-se uma Bateria de excelência. Com enorme agrado fomos conhecidos por ”Snipers da Artilharia” e ”Bateria Fantasma”, que tanto aparecia no imenso nevoeiro de mato serrado, como desaparecia sem deixar rasto. Despedidas Estamos na recta final do nosso Regime de

Contrato e é com nostalgia que iremos deixar o camuflado e as amizades aqui criadas. Ficam as saudades do convívio e do trabalho diário, mas rumamos à vida civil com a convicção de que jamais esqueceremos os anos aqui passados e ostentando o sentimento de dever cumprido. Esperemos que nestas linhas tenhamos conseguido transmitir o privilégio e o prazer de ter vestido um camuflado durante seis anos. Até sempre camaradas. Queremos agradecer a todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, nos transmitiram conhecimentos que contribuíram para o nosso crescimento pessoal e profissional. «Arti... Arti... Arti... Artilharia».

CbAdj RC Ribeiro Servente Apontador de Obús

1Cb RC Alves Servente Apontador de Obús

1Cb RC Duarte Condutor

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Serviços Gerais

Perspectiva de um militar

O

rganicamente, o Pelotão de Serviços Gerais pertence à Bateria de Comando e Serviços do Regimento de Artilharia Nº 4, e de acordo com o seu quadro orgânico contempla um efectivo de vinte e um elementos divididos da seguinte forma: um oficial, dois sargentos e dezoito praças. O Pelotão dos Serviços Gerais tem a missão genérica de preservar e manter o bom estado de conservação da Unidade, em complemento (se quisermos assim entender) da missão do Pelotão de Guarnição e Segurança que tem a sua missão mais vocacionada para a segurança. Com parcos recursos, assumimos a responsabilidade da execução de tarefas que vão deste a manutenção de espaços verdes (corte de relva, desbaste dos arbustos e corte das árvores para preparação da lenha, limpeza das áreas respeitantes à Bateria de Comando e Serviços e outras) à manutenção das infraestruturas, rede de canalizações e esgotos e à recuperação de mobiliário e demais trabalhos de carpintaria, entre outros. A actividade não finda com as tarefas quotidianas, é habitual reforçarmos a Secção de Alimentação e organizarmo-nos em equipas de montagem de tendas e tribunas para engalanar a nossa Unidade e apropriá-la para eventos e festividades como o dia do Regimento. Também colaboramos noutro tipo de actividades fora ”dos muros”, como na Peregrinação a Fátima no dia treze de Maio e na organização de toda a logística das provas desportivas que já são apanágio e motivo de reconhecimento exterior. Periodicamente,

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deslocamo-nos aos prédios militares à guarda do Regimento para efectuar trabalhos de manutenção (Qta. da Matinha, ex-DRM, excarreira de tiro de Marrazes e ex-hospital militar- Capuchos). A utilidade da nossa ”existência” e o mérito com que somos reconhecidos provam a relevância destas actividades, determinantes nas condições de bem estar e vivência interna, e que, conjugadas com a componente operacional numa harmoniosa existência das duas áreas, tem catapultado o Regimento para patamares de excelência superiormente reconhecida. Todos os trabalhos referidos e demais omitidos por o extenuar do leitor não ser, em último, o nosso objectivo, são efectuados por militares não especializados apenas com algum conhecimento em determinadas áreas e muito querer. Servem actualmente no Pelotão de Serviços Gerais, um Sargento, três cabos e onze soldados, desdobrando-se em múltiplas organizações, para o cabal cumprimento da missão que ostensivamente acresce de tarefas, num período complexo e bem sentido por todos aqueles que diariamente cumprem a sua missão neste Regimento. Trabalhamos com orgulho, rigor e espírito de sacrifício, estando certos que este contributo juntamente com o de todos os camaradas nas diferentes áreas permitirá que o Regimento se constitua naturalmente como uma Instituição de referência. Deixei agora, no mês de Maio, e depois de ”dobrar” todos os contratos possíveis para um militar em Regime de Contrato, num ano em que as dificuldades financeiras se fazem

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sentir sobremaneira no cumprimento da nossa missão, onde se prevê para o Comando o aumento natural das preocupações com o serviço de manutenção do Quartel, face aos escassos recursos disponíveis. Deixo uma série de camaradas que comigo conviveram e que junto trabalhámos todos os dias em prol de um objectivo comum, com os quais aclamei a humildade como a principal ferramenta do ofício. Deixo o Regimento de Artilharia Nº 4 em Leiria, que servi quase toda a minha vida militar e que nunca, por isso, esquecerei. Deixo o Pelotão de Serviços Gerais com a convicção que prevalecerá no Regimento até ao fim dos seus dias, qual motor de uma máquina em esforço em que só padecerá, assim que se silencie. Deixo tudo isto com orgulho e muita saudade, mas estou certo que aqueles que ficam saberão dar continuidade ao trabalho desenvolvido, e que por natureza é infindável. Viva o Pelotão de Serviços Gerais.

1Cb RC Martins Serviços Gerais

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HSST

Uma nova cultura no ExĂŠrcito

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A

vertente humana sempre esteve ligada à indústria apesar de nem sempre ser tratada como sua componente principal. Até meados do Século XX, devido à importância da produtividade, nunca se deu grande relevo às condições de trabalho, mesmo que fosse implicada a doença ou até a morte dos trabalhadores, factores motivados pela ausência de leis, por parte do Estado, que protegessem os trabalhadores, assim como do pouco valor que era dado à vida humana por parte das empresas. A partir das décadas de 50/60 começaram a notar-se as primeiras tentativas de adequar os trabalhadores de acordo com as suas capacidades, e daí extrair todos os benefícios para as suas empresas. Iniciou-se então em Portugal um processo de regulamentação legal da actividade empresarial, no que diz respeito aos riscos para a Segurança e Saúde dos trabalhadores, decorrentes da sua actividade. O conceito da prevenção consiste num conjunto de técnicas e/ou comportamentos destinados a evitarem ou minimizar os riscos laborais, consequentemente diminuindo a probabilidade da ocorrência de acidentes de trabalho e de doenças profissionais. A higiene do trabalho incide principalmente no ambiente de trabalho, de forma a criar um conjunto de metodologias não médicas para a prevenção de doenças profissionais, tendo como principal campo de acção o controlo dos agentes físicos químicos e biológicos presentes nos componentes materiais do trabalho. A segurança do trabalho propõe-se a

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combater de um ponto de vista não médico os acidentes de trabalho, quer eliminando as condições inseguras do ambiente de trabalho, quer educando os trabalhadores a utilizarem medidas preventivas. Em 1989 foi publicada a Directiva 89/391/CEE para os países membros da Comunidade Europeia de modo a uniformizar regras relativamente à melhoria da segurança e da saúde dos trabalhadores durante a sua actividade laboral, chamada de ”Directiva Quadro da SHST”. Na Directiva 89/391/CEE (DirectivaQuadro), cujo teor foi transposto para o Dec. Lei 441/91, o artº 2º prevê a possibilidade de isentar a sua aplicação às Forças Armadas, às polícias e órgãos da Protecção Civil, determinando contudo que seja assegurada aos trabalhadores destas entidades a aplicação de medidas que visem garantir a segurança e a saúde dos respectivos trabalhadores. Os militares no cumprimento da sua missão estão sujeitos diariamente a serem expostos a várias situações de risco inerentes à sua condição militar. Estas situações por vezes dependem de factores ou acções externas ao próprio exercício profissional, o que não impede que não se tornem em situações de penosidade e insalubridade, mas que estão directamente ligados à execução da sua actividade, o que pode originar o aparecimento de acidentes de trabalho e doenças profissionais. Convêm nunca esquecer que as condições de trabalho se tornam penosas quando exigem uma sobrecarga física ou psíquica e insalubres quando as condições ambientais

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ou os meios utilizados no exercício da própria actividade podem ser nocivos para a saúde do trabalhador. Partindo do princípio que prevenir é sempre mais barato do que curar, a SHST será sempre um investimento, pois segundo dados estatísticos as consequências directas e indirectas dos acidentes de trabalho custam a Portugal cerca de 3000 milhões de Euros por ano. Só no ano 2000 registaram-se cerca de 220 mil acidentes de trabalho (participados), dos quais quase 300 foram mortais, o que implicou que nesse ano se perdessem mais de 3,3 milhões de dias de trabalho em consequência destes acidentes. As Forças Armadas, apesar da lacuna legislativa, têm procurado colmatar esta situação apostando na prevenção dos acidentes e na área da formação do seu pessoal no que respeita à SHST, procurando a implementação destes serviços através da colocação de trabalhadores designados nas Unidades militares, bem como reforçando as inspecções nesta área tão crítica. O Exército criou Gabinetes de Prevenção de Acidentes e tem apostado na formação de militares nesta área da SHST. Neste aspecto, o Gabinete de Prevenção de Acidentes da Brigada de Reacção Rápida tem exercido um papel fundamental ao nível das Unidades, através da realização de acções de formação e sensibilização a vários níveis, inspecções nas Unidades, reuniões com os diversos elementos das Unidades de forma a existir uma maior uniformização ao nível de procedimentos a adoptar.

Ao nível do Regimento de Artilharia Nº4, a Secção de Prevenção de Acidentes sob dependência directa do Comando, e de acordo com o estabelecido pelo Gabinete de Prevenção de Acidentes (PA) da BrigRR, tem efectuado uma grande diversidade de actividades, de onde se destacam palestras, actividades de inspecção em diversas áreas de funcionamento, reuniões e relatórios, de modo a garantir em efectividade a introdução desta nova cultura na vivência dentro da instituição militar. O Sargento-Chefe Lopes e o 1º Sargento Santos foram os militares do RA4 que frequentaram o XVII Curso de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, que decorreu na UALE, entre 22 de Fevereiro e 3 de Março de 2011.

SCh Art Lopes Gab. Prevenção de Acidentes

1Sarg Eng Sá Santos Gab. Prevenção de Acidentes

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Logística em Emergência No RA4

O

Curso de Especialização Tecnológica, mais conhecido por CET, é um curso de nível 4 com uma duração de 2 anos que comporta uma componente geral e outra científica. Com disciplinas de carácter geral, o inglês técnico ou a gestão de recursos humanos, tem uma vertente tecnológica, mais específica, que retrata matérias ligadas às funções logísticas, como por exemplo a função logística de manutenção ou a de transportes, e ainda a disciplina de topografia. Por fim, temos a componente de formação em contexto de trabalho, que no meu caso é o desenvolvimento da função logística de manutenção, realizada

52 Regimento de Artilharia N.º 4

nas oficinas do Regimento de Artilharia Nº 4 (RA4). Quando me inscrevi no Curso de Especialização Tecnológica (CET), mais especificamente ”Logística em Emergência”, nunca pensei que este estivesse tão ligado às Forças Armadas. Um estudante de Logística em Emergência fica qualificado com habilitações técnicas fundamentais para colaborar com todos os Agentes de Protecção Civil (APC), nomeadamente: - Planear, organizar, preparar e agir em diferentes contextos de intervenção; - Dominar os princípios e procedimentos operacionais relacionados com o transporte,


reabastecimento, manutenção, evacuação e hospitalização; - Aplicar os princípios de segurança de pessoas e bens; - Colaborar na elaboração de mapas operacionais; - Elaborar propostas inovadoras em função das dificuldades encontradas; - Aplicar princípios de gestão de equipas e saber lidar com situações de relação de conflito; - Conhecer os recursos materiais e humanos ao dispor das operações; - Saber trabalhar em equipas multidisciplinares, fomentando as tarefas em equipa;

- Transmitir informação de forma escrita, verbal e gráfica, com rigor técnico, para audiências de diferentes tipos. Mas o que se entende por ”Logística em Emergência”? Logística, na sua forma empírica, é uma ciência de planeamento, de execução de movimento e sustentação das forças. Não é mais que um conjunto de operações realizáveis por forças de apoio para sustentação das forças operacionais de manobra, e também apoio logístico necessário ao socorro das populações afectadas por acidentes graves, catástrofes ou calamidades. Apoio esse que pode ser efectuado de duas formas: directo ou no órgão de apoio. A Logística em Emergência enquadra-se na Lei de Defesa Nacional, lei que refere a liberdade

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e segurança das populações e dos seus bens, bem como a organização da Protecção Civil, a assistência às populações e a salvaguarda dos bens públicos e particulares. Para isso mesmo, muito têm contribuído as Forças Armadas, uma vez que são APC, para a protecção da população através da vigilância das áreas florestais e no socorro em inundações, como foi o caso recente do Aluvião da Madeira, e na defesa das populações em matéria de protecção Nuclear Radiológica Biológica e Química (NRBQ). Neste âmbito, sendo o RA4 uma Unidade Militar pertencente às Forças Armadas, tem a seu cargo uma área de intervenção. Assim, quando lhe é atribuída uma missão relacionada com este campo de acção, esta terá que ser planeada a três níveis. Nível estratégico, operacional e táctico. Para uma resposta pronta e adequada foram criados os Planos ”VULCANO”, ”LIRA” e ”ALUVIÃO”, que determinam a forma de apoio a ser prestada à população, bem como a vigilância das zonas florestais, nos casos de acidentes graves, catástrofes ou calamidades.

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Quando solicitado, e atendendo às suas capacidades, com conhecimento do escalão superior podem ser executados outros tipos de apoio como fornecimento logístico. É exemplo disso o fornecimento de água às populações através dos nossos depósitos flexíveis de água. Ainda nem sonhava frequentar este CET já colocava em prática alguns destes novos conhecimentos, tal como a montagem de um campo para apoio aos peregrinos que se deslocam anualmente ao Santuário de Fátima, por ocasião das celebrações do dia 13 de Maio. As questões relacionadas com a localização das tendas para pernoitarem, onde colocar os depósitos de água, as viaturas que servem de apoio e que têm de parquear em local próprio por razões de segurança ou ainda a escolha do melhor lugar para as latrinas, são rigorosamente planeadas e nada é montado ao acaso, exigindo


um estudo detalhado para que a decisão seja a mais correcta relativamente ao apoio a prestar. Pude ainda verificar que a manutenção praticada no RA4 não difere quase nada daquela que me foi ministrada na disciplina de logística em emergência e que é praticada por grandes empresas nacionais. Também elas preferem a manutenção preventiva do que a manutenção correctiva. A manutenção correctiva é efectuada após a ocorrência de uma avaria (pós-avaria). Este tipo de manutenção tem um elevado custo e acontece após a avaria ou a perda de desempenho de um equipamento. A manutenção preventiva realiza-se em equipamentos que não se encontram avariados, logo, visa evitar a avaria e assim sendo os custos são menores.

No cumprimento de determinada missão somos sempre os últimos a sair e também os últimos a chegar, ficando para trás sempre que ocorre uma avaria mecânica. Os militares da oficina do RA4 têm um lema: Nada nem ninguém pode ficar para trás. Para isso temos a nossa viatura oficina, mais conhecida por ”o Hotel”, que foi melhorada ao longo dos anos tendo em atenção o bem-estar da sua guarnição. Equipada com máquina de café, televisão, rádio, camas e até um frigorífico, comporta ainda pequenos sobressalentes, tornos e outros tipos de ferramentas. Na fase de planeamento, considerando os dias de duração da missão, faz-se um plano de carregamento com tudo o que se pensa ser necessário, carrega-se a viatura com os sobressalentes mais comuns, ou seja, com material de consumo corrente, tais como lâmpadas, correias, parafusos, anilhas e outros. Levamos também pequenas peças, sobressalentes, que devido à nossa experiência, sabemos que poderão ser empregues numa pequena reparação. Quando é imprescindível

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algum sobressalente que por várias razões não exista no momento, temos duas opções: - Existência do sobressalente na unidade - pede-se autorização ao comando para nos deslocarmos ao Regimento e voltar com o respectivo material; - Existência de uma Unidade de Apoio de Serviços ou do próprio Serviço de Material na proximidade da ocorrência – pratica-se a ”troca directa”, entrega do sobressalente avariado recebendo outro novo. Tratar da logística da oficina torna-se um trabalho aliciante pois muitas vezes é preciso ”batalhar” muito para conseguir o que se pretende. Por isso, para o curso de Logística em Emergência foi de extrema importância a visita efectuada ao RA4, pois podemos ver a capacidade de resposta que o mesmo possui ao nível da manutenção e em outras áreas, para intervenções nas três situações anteriormente citadas. A nós, técnicos de logística em emergência, compete saber onde estão os meios, de que forma se levantam e qual a sua aparência operacional, para um emprego no momento certo e em tempo oportuno, no apoio às populações necessitadas.

SAj SMat Bizarro Chefe de Oficina

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Afeganistão

O Apoio por detrás da Missão

N

a sessão de 9 de Julho de 2009, o Conselho Superior de Defesa Nacional deliberou, no quadro da nova estratégia da NATO para o Afeganistão, reforçar a contribuição nacional no ano de 2010 com uma força de escalão companhia, análoga à que operou naquele país entre Agosto de 2005 e Julho de 2008. Neste seguimento, uma vez que já tinha feito uma missão no Afeganistão, em 2006, a apoiar uma força destacada do Centro de Tropas Comando (CTC), fui convidado pelo Sargento-Mor Matias para integrar esta missão, a quem já havia acompanhado na missão precedente. A experiência vivida anteriormente foi tão positiva que não tive qualquer dúvida em aceitar. A fase de preparação decorreu no CTC, na Serra da Carregueira, incluindo um exercício no Campo de Tiro de Alcochete, em que se desenvolveu a simulação de um apoio efectivo. Um último exercício foi realizado em Beja, no qual todas as forças funcionaram ao nível de secção e no acompanhamento de patrulhas, perspectivando as contingências que nos esperariam no Teatro de Operações (TO). Este contingente foi agrupado numa Força Conjunta designada por Quick Reaction Force (QRF). Era constituído por um Comando, uma Secção de Comando, uma Unidade de Manobra de escalão Companhia, um Destacamento de Apoio de Serviços do Exército e, ainda, uma Equipa de Controladores Aéreos Avançados (TACP) da Força Aérea Portuguesa (FAP). Esta Força Conjunta insere-se na International Security Assistance Force (ISAF), que é uma Força de Estabilização de Paz

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mandatada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, encarregue de proteger Cabul e as áreas circundantes da actividade hostil de diversas organizações/grupos, implementando a segurança da Administração Transitória do Afeganistão, liderada por Hamid Karzai. A projecção da QRF portuguesa no TO do Afeganistão teve início a 15 de Fevereiro e terminou a 31 de Março de 2010. O seu objectivo prendia-se com o cumprimento de missões em toda a sua área de responsabilidade, à excepção do Aeroporto de Cabul, que estava a cargo do contingente Belga e Búlgaro. Na qualidade de elemento de apoio, avançámos antes do grosso da força. Fomos transportados pelo Hércules C-130 da FAP, fazendo escala em Atenas e no Azerbaijão. À chegada a Cabul relembrei logo a experiência das condições atmosféricas. Embora não seja muito sensível a alterações

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de temperatura, as nossas forças tiveram de se habituar a executar as suas missões com amplitudes térmicas de 25º, que incluíam a evacuação de pessoal, as escoltas, a vigilância e reconhecimento, as patrulhas, as operações aeromóveis e o apoio a eventos governamentais, entre outras. Contudo, o apoio logístico foi superiormente prestado por uma empresa espanhola – a TECNOVE – que nos garantia todas as condições indispensáveis, quer ao nível da alimentação, quer na parte de lavandaria, quer mesmo ao nível do fornecimento de material. No âmbito da minha função, estava responsável pela reparação das viaturas no aquartelamento e por assegurar o acompanhamento de patrulhas. No que respeita aos acompanhamentos, em consequência das alterações das Rules Of Engagement (ROE)1 relativamente à missão


em que tinha participado quatro anos antes, não houve necessidade de me empenharem. Por seu turno, ao assumir as funções deparei-me com o facto das forças nacionais estarem a utilizar viaturas cedidas pelo Exército Americano, que implicava a sua manutenção, de onde posso salientar a pintura de treze viaturas, num total de vinte que nos foram atribuídas. Mas nem tudo foi fácil. Quando me encontrava a meio do tempo que nos estava destinado para o cumprimento da missão tive de interromper a minha estadia no TO. Os ossos do ofício levaram-me a fazer umas ”férias” forçadas no Hospital da Estrela, em Lisboa, porque quando estava a auxiliar um camarada a reparar uma arca congeladora, desprendeu-se uma válvula de alta pressão que embateu no meu braço esquerdo, fazendo romper o tendão flexor do polegar da minha mão esquerda. O resultado deste incidente foi um conjunto de peripécias. Desde uma ida ao Hospital de KAIA2 – no qual me informaram que tinha de ser operado – passando por uma videoconferência entre KAIA e Bagram (entre os quais distam 60 quilómetros), onde me informaram que poderia haver hipóteses de ser operado, à própria ida até Bagram em coluna militar, uma vez que o helicóptero que deveria fazer a ligação teve um problema, e conclusão do médico em Bagram, informando-me que não faria a operação por questões de riscos de infecção. Em suma, tive de voltar a Portugal, a 2 de Julho, para realizar a dita intervenção cirúrgica, da qual regressaria, para terminar a missão, a 8 de Agosto. Em termos pessoais, senti-me realizado pelo desempenho da minha função em locais que

carecem de uma atenção redobrada e uma atitude profícua de quem a desempenha, obrigando ao entrosamento dos conhecimentos técnicos da função, com os saberes inerentes à estadia numa zona onde há sempre perigos à espreita. É ainda importante destacar que, uma vez terminada a actividade da QRF, a 24 de Setembro, e tendo regressado por isso a 29 de Setembro de 2010, o período de seis meses em que pude estar presente como Sargento Mecânico foi duplamente produtivo: Produtivo a nível pessoal – porque me enriqueceu em diversas áreas particularmente pela vivência num cenário de elevado risco e a nível institucional – o reconhecido esforço, a dedicação e o empenhamento de todos no cumprimento da missão, pelas Forças Nacionais Destacadas, tem vindo a enaltecer e a honrar, cada vez mais, o nome da nossa Pátria – Portugal.

1

Regras de empenhamento – São regras

transmitidas aos elementos que executam missões no

quadro

das

Forças

Nacionais

Destacadas,

balizando a sua postura no TO.

2

KAIA é a sigla da zona circundante ao

Aeroporto de Cabul – Kabul International Airport.

1Sarg SMat Ferreira CMDT Sec Man/2ªBtrbf

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Khodâ hâfez wa tashakor! (Adeus e obrigado!)

A

Operacional Mentoring and Liaison Team/Kabul Capital Division 01/03 (OMLT/KCD

01/03), assim como as suas duas antecessoras, integrou a estrutura operacional da International Security Assistance Force (ISAF) com a missão de garantir a assessoria à KCD do Afghan National Army (ANA), a partir de 12 de Abril de 2010, no Teatro de Operações (TO) do Afeganistão. A sua missão consistia, primariamente, em treinar, orientar e ensinar os procedimentos de Estado-Maior da KCD, a fim de garantir o emprego operacional dessa Unidade do ANA. A minha nomeação para esta força, constituída por 17 militares (9 Oficiais e 8 Sargentos), teve lugar no âmbito das funções de Sargento Mentor para a Área de Pessoal (G1 NCO Mentor). A fase de aprontamento, durante a qual se tentou que fossem contempladas as actividades de preparação inerentes a uma ida para um TO tão exigente como o do Afeganistão, teve a duração de três meses, decorreu na Unidade de Aviação Ligeira do Exército (UALE) e contou com duas semanas de exercícios finais e uma Avaliação de Prontidão para Combate (CREVAL) no Regimento de Infantaria Nº13 em Vila Real. A chegada ao TO ocorreu no dia 25 de Março de 2010, após dois longos e desgastantes dias de viagem num C-130 da Força Aérea Portuguesa (FAP), com escalas em Thessaloniki (Grécia) e Baku (Azerbeijão), e três meses de ansiedade no decorrer da preparação. A chegada a Cabul e à zona militar do Aeroporto Internacional de Cabul (KAIA – Kabul International Airport), foi apenas

62 Regimento de Artilharia N.º 4

o início de uma das melhores experiências profissionais, senão a melhor, em doze anos de serviço militar. No aeroporto fomos recebidos ansiosamente pelos camaradas da OMLT KCD 01/02 que, volvidas três semanas, regressariam a Portugal. Nessas três semanas decorreu o nosso processo de integração no TO do Afeganistão com o Induction Course (os cursos de C-IED - contra engenhos explosivos improvisados e COIN - contra insurgência), a fase de Left seat – Right seat (passagem de serviço) e a Transferência de Autoridade (TOA – Transfer Of Authority) da OMLT KCD e do Portuguese Senior Nacional Representative (Militar Português mais antigo presente na FND) no TO.


No dia 14 de Abril de 2010 despedimo-nos dos camaradas da OMLT KCD 01/02 que regressavam a casa para junto das suas famílias. Agora era connosco! Seguiram-se seis meses de trabalho intenso em perseguição dos objectivos traçados pelo Comandante da OMLT KCD 01/03 e Senior no TO, o Cor Inf Moura Pinto e por todos nós na respectiva área funcional (Branch) de trabalho. Assim, na área de Pessoal (G1 Branch), equipa de trabalho constituida por mim e pelo G1 Mentor e meu Chefe directo, o Maj Inf Arménio Santos, salientavam-se os seguintes objectivos iniciais para desenvolver em prol da mentoria: - Uniformizar os procedimentos em toda a Divisão, na elaboração de Relatórios de Pessoal; - Exercer influência para a implementação do sistema informático PIMS (Personnel Information Management System idêntico ao nosso GRH); - Acompanhar e aconselhar alterações aos Quadros Orgânicos de Pessoal da Divisão; - Orientar na elaboração dos Job Descriptions do Branch G1 da Divisão; - Acompanhar as situações relativas a pagamentos, promoções e nomeação dos militares da Divisão. Muitas destas actividades foram efectuadas em ligação com o IJC (ISAF Joint Command) e outras entidades ligadas à estrutura da ISAF, como por exemplo as ETT’s (Embedded Trainnig Teams – equipas de instrução) dos Kandak’s (Batalhões) da Divisão. Infelizmente, devido às constantes indefinições do Ministério da Defesa Afegão (MoD) quanto à mudança da Divisão, a implementação do

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sistema informático PIMS foi um objectivo não terminado. É ainda de realçar o conjunto de actividades de coordenação em que o Branch G1 participou, designadamente uma reunião, realizada em Camp Eggers , a qual reuniu a totalidade dos mentores G1 de todos os Corpos de Exército e, obviamente, da Divisão de Cabul pertencentes ao ANA, bem como os seus mentorados. Para além das actividades inerentes à mentoria da KCD, com saídas diárias para a Divisão, as responsabilidades de cada Branch, muito pelo afastamento físico da nossa OMLT relativamente ao Módulo de Apoio (ModAp), abrangiam ainda outras tarefas de carácter administrativo. Deste modo a equipa do Branch G1 era ainda responsável por:

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- Providenciar o transporte, de e para o aeroporto civil de Cabul, de todos os militares e civis nacionais, através do serviço de transporte interno de KAIA e/ou em grande parte recorrendo a uma viatura blindada e a um condutor (um de nós) com acesso autorizado aos APRONS e à parte interna do aeroporto; - Tratar de todos os processos relativos a visitas de entidades VVIP, ao TO; - Tratar dos cartões de acesso de todos os militares que ficavam em KAIA; - Contratar e entrevistar novos intérpretes; - Tratar de todo o processo de credenciação de intérpretes. Com tantos afazeres, os seis meses passaram de forma tão célere que rapidamente demos por nós no aeroporto a aguardar pelos


camaradas da OMLT KCD 01/04. Faltavam então três semanas para regressar a Portugal. Era agora tempo de lhes passar a missão e de realizar a cerimónia de Transferência de Autoridade. No dia 22 de Outubro de 2010 estávamos de novo a bordo do C-130 da FAP para regressar a Portugal. Cada minuto passado no avião parecia horas e mais longa a viagem ficou quando, chegados a Baku, fomos forçados a pernoitar no aeroporto, devido a uma súbita e inesperada alteração na legislação do Azerbaijão, que nos obrigava a solicitar os vistos com antecedência. Mas só faltava mais uma paragem e mais um dia e meio para regressar a Portugal e, se em outras alturas esta situação poderia provocar algum transtorno, nesta apenas significava mais uma pequena dificuldade que nos separava de casa. No dia seguinte fizemos a paragem em Thessaloniki e no dia 24 de Outubro de 2010 aterrávamos em solo

Nacional de regresso às nossas famílias. Como disse um dia o Coronel Moura Pinto, nosso Comandante, ”É importante irmos dezassete, mas é ainda mais importante regressarmos os dezassete”. E assim foi! Experiência Pessoal Quando me ofereci para esta missão era já a quinta vez que o fazia no sentido de integrar uma FND e a segunda vez que me oferecia para o TO do Afeganistão. A minha família há muito que estava preparada para a eventualidade de eu integrar uma missão no exterior do país. Era pois uma preocupação a menos para mim, era até mesmo uma vantagem, por sentir o apoio da minha mulher e dos meus pais. Também há muito que ansiava por esta oportunidade e em onze anos de serviço já tinha visto algumas escaparem incompreensivelmente. Foi por isso que depois de ter sido nomeado tentei manter a calma e esperar pela partida para o TO. Só quando embarquei no avião é que realmente acreditei que tinha chegado a minha vez. À chegada ao TO rapidamente me apercebi da dura realidade que iria encontrar: os blocos massivos de betão e o arame farpado a conferir protecção eram algo bastante comum e não se limitavam apenas ao perímetro do aeroporto de Cabul. O perigo seria algo sempre presente. Apesar da relativa segurança que sentia em todos os deslocamentos para fora de KAIA, a verdade é que a primeira vez que saí do perímetro do aeroporto, aquando da nossa deslocação para Camp Wharehouse (base onde estava grande parte do Contingente Nacional: Módulo de Apoio e Force Protection, OMLT de

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Guarnição, a Quick Reaction Force composta por uma companhia de Comandos e, mais tarde, o NIC ou Célula de Informações Nacional) para cumprir o Induction Course, parecia que o meu coração ia saltar fora e em treze quilómetros feitos de viatura, que demoraram cerca de vinte minutos, fiquei mais cansado do que se tivesse corrido dez quilómetros! Como em tudo na vida, foi apenas uma questão de habituação e rapidamente as saídas de um perímetro considerado bastante seguro se tornaram usuais e o receio inicial deu lugar a um relativo à vontade, sem nunca descurar uma constante atenção aos procedimentos. A cultura e tradições locais, apesar de não serem um entrave, foram algo a que me

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demorei a acostumar e eram algo sempre presente quando lidávamos com o povo afegão. Mesmo os nossos intérpretes, bastante mais ocidentalizados que a grande maioria da população, mantinham grande parte dessas tradições. Não quero com isto dizer que eram más as tradições, eram apenas diferentes de tudo o que já tinha visto. Algumas passei a admirar, outras pareciam-me algo impossível de ainda existir no século XXI, mas era este o seu modo de vida e, acima de tudo, tinha que ser respeitado. As relações pessoais eram algo que demorava um certo tempo a conseguir, nunca foi fácil ganhar a confiança dos militares afegãos e duvido que tivéssemos conseguido ganhar a total confiança de algum deles. Para quebrar


esta barreira, ajudou o facto de ter tentado aprender algumas palavras e expressões básicas em Dhari. Era, efectivamente, bastante importante manter uma boa relação pessoal para que se atingisse uma boa relação de trabalho. Com os tradutores a convivência era mais fácil. O facto de já terem trabalhado com as equipas anteriores e, alguns deles, com equipas de outras nacionalidades, permitiu um relacionamento bem mais acessível. Possuírem uma educação superior à grande maioria da população, tendo acesso a outro tipo de informação, veio facilitar a manutenção de uma relação pessoal mais próxima dos parâmetros a que estamos acostumados e, no fim, penso que deixei alguns amigos, pelo menos assim quero acreditar. O facto de estarmos em KAIA tinha as suas desvantagens, pelos motivos que já mencionei, mas também tinha vantagens: a base era maior, estávamos mais perto da Divisão, os edifícios eram praticamente novos e estávamos integrados num ambiente multinacional que nos permitia conhecer e interagir com outras culturas. No total chegaram a ser 54 as nacionalidades presentes em KAIA. Também aqui era importante manter uma boa relação pessoal com os militares que íamos conhecendo e, principalmente, com quem trabalhávamos, assim todos os processos administrativos se tornavam mais fáceis. Em jeito de conclusão, foi uma excelente experiência pessoal e profissional e não poderia terminar sem dedicar uma palavra de apreço a quem comigo conviveu durante aqueles sete meses, em especial a todos os

que compunham a OMLT KCD 01/03 na pessoa do seu Comandante, o Coronel Moura Pinto e do Sargento-Mor Mentor, o Sargento-Mor António Duarte. Um agradecimento especial também ao Regimento de Artilharia N.º4 por todo o interesse e apoio demonstrado pelo seu Comandante, Coronel José da Silva Rodrigues, e por todos os militares do Regimento. Quando, finalmente, regressei a Portugal, no dia 24 de Outubro de 2010, lá estavam eles à minha espera, a minha esposa, os meus pais, os meus sogros, os meus amigos, ou seja, a minha família. Seria para mim muito mais difícil passar estes sete meses sem o apoio de todos eles. Por toda a paciência, o meu muito obrigado. Muito mais poderia dizer sobre esta missão e sobre a minha vivência num país tão diferente do nosso, mas cada pessoa vive as situações à sua maneira. Bastante melhor que ler emoções e situações vividas pelos outros, é sermos nós a vivê-las e a senti-las. Foi isto, juntamente com a experiência militar em ambiente hostil, que levaram a voluntariar-me para esta missão. Lanço-vos um desafio: se puderem façam o mesmo. Eu fui, gostei e espero um dia repetir. Por tudo isto digo, ”Khodâ hâfez wa tashakor!” e quem sabe, até um dia…

1Sarg Art M. Santos Sarg. Reab. BtrCS/GAC

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KFOR

Militares do RA4 nas FND

E

nquanto membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Portugal garante um Batalhão no Teatro de Operações

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(TO) do Kosovo que se constitui como Reserva Táctica (TACRES) do Comandante do Kosovo Force (KFOR). Tendo sido atribuída a missão ao


1ºBatalhão de Infantaria Pára-quedista (1BIPara) de se constituir como TACRES/KFOR entre Setembro de 2010 e Março de 2011, foime dada a oportunidade de, em conjunto com vinte e oito militares do Regimento de Artilharia Nº 4 (RA4), integrar esta força. Pretende-se com este artigo, de uma forma sucinta, retratar aquela que foi uma das nossas melhores e mais enriquecedoras experiências militares, bem como explanar a situação que se vive actualmente no Kosovo.

INTEGRAÇÃO/APRONTAMENTO Recebida a confirmação que iríamos iniciar o aprontamento, para integrar a Força Nacional Destacada (FND) KFOR, deparámo-nos com aquela que, eventualmente, poderia ter sido uma grande dificuldade mas que acabou por ser rapidamente suprimida – a participação dos militares do RA4 repartidos pela Companhias Alfa e Charlie e Estado-Maior e não integrados num pelotão constituído. Iniciado o período de treino extremamente rigoroso, com vista à preparação do Batalhão, os militares do RA4, a par dos conhecimentos previamente adquiridos durante o treino da Bateria de Artilharia de Campanha disponibilizada para a NATO Response Force 14, acabaram por se revelar elementos essenciais contribuindo com a sua disponibilidade, prestável colaboração e camaradagem para aligeirar as adversidades de todos os militares do 1BIPara. A metodologia utilizada na preparação da força baseou-se no treino faseado, com

ênfase, inicialcialmente, na vertente individual e, posteriormente, na Secção, passando pelo Pelotão e pela Companhia e culminando no Batalhão como um todo. Ao nível do Estado-

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-Maior, designadamente nas funções que me foram cometidas, a preparação foi centralizada na compreensão da forma de funcionamento e procedimentos a adoptar na Secção Logística. Cada uma das fases de treino foi objecto de validação através da realização de pistas, provas práticas, circuitos de avaliação e exercícios. No final da preparação a força foi submetida a uma avaliação por parte da Inspecção Geral do Exército. Num sempre presente e diligente esforço de passagem da profunda experiência do 1BIPara neste TO, o treino e preparação da força versou matérias tão vastas como o controlo de tumultos, combate em áreas edificadas, segurança de pontos sensíveis, observação e vigilância, patrulhas, escoltas, postos de controlo, armamento e tiro, defesa NBQ, topografia, transmissões, entre outras. Simultaneamente, vários militares frequentaram cursos e estágios de qualificação com vista a obterem as competências necessárias ao desempenho das suas funções específicas. Complementarmente, foram realizadas várias palestras de sensibilização, em áreas como a gestão do stress, o alcoolismo, entre outras. Paralelamente ao treino, ao nível do Estado-Maior do Batalhão, foi desenvolvido um esforço contínuo no sentido de ultrapassar todas as dificuldades que caracterizam a preparação e aprontamento de uma força nacional. Destaca-se, designadamente, o nível do preenchimento da Ordem de Batalha, o acompanhamento da situação vivida no TO e a projecção da força para o TO.

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O TEATRO DE OPERAÇÕES DO KOSOVO O território do Kosovo, com uma área de 10.908 km2, situa-se na Península Balcânica e faz fronteira com a Sérvia, Montenegro, Albânia e Macedónia. As suas principais cidades são Pristina, a capital, Prizren, no sudoeste, Pec, no oeste e Mitrovica, no norte. No que se refere ao relevo, existem duas grandes planícies (a bacia de Metohija na parte ocidental e a planície do Kosovo na parte oriental) envolvidas por terreno montanhoso. Relativamente à sua hidrografia, os principais rios são o Drin Blanc, o Erenik, o Sitnica e o Ibar e os maiores lagos são o Radonjić, Gazivoda, Batlava e Badovac. Demograficamente, existem duas etnias principais, kosovares albaneses (KOA), que constituem cerca de 90% da população e

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kosovares sérvios (KOS), que constituem cerca de 6% da população. Esta divisão demográfica predispõe a que as línguas mais faladas sejam o albanês e o sérvio. No que se refere à KFOR, esta foi implantada no território do Kosovo em 12 de Junho de 1999 na sequência da Resolução 1244 de 10 de Junho de 1999 do Conselho de Segurança das Nações Unidas e ao abrigo do Capítulo VII da Carta das Nações Unidas. O objectivo inicial era dissuadir a hostilidade e ameaças contra o Kosovo por forças Jugoslavas e Sérvias, estabelecer um ambiente seguro, garantir a segurança e a ordem pública, desmilitarizar o Exército de Libertação do Kosovo, apoiar o esforço humanitário e coordenar e apoiar a presença civil internacional. Actualmente, a


KFOR persiste numa activa contribuição para a manutenção de um ambiente seguro no Kosovo, no intuito de beneficiar todos os cidadãos. Num território em que a situação se define como volátil, o grau de ameaça caracterizase como baixo, apesar de ainda existir um relativo clima de tensão entre KOA e KOS, subsistir o crime organizado e perdurar o risco de espionagem. É ainda de realce o facto da população possuir ainda muito armamento, aspecto que é facilmente visível em dias festivos nos quais ocorrem numerosos disparos para o ar.

RETRATO DE UMA EXPERIÊNCIA Terminado o período de aprontamento

da força, era hora de sermos projectados para o Kosovo. A projecção foi efectuada no mês de Setembro em dois voos separados por duas semanas de modo a possibilitar a rendição do 2º Batalhão de Infantaria Pára-quedista (2BIPara). Deixadas as famílias para trás, ainda dentro do avião foi-nos permitido apercebermo-nos do relevo do Kosovo minutos antes de aterrarmos. No deslocamento entre o aeroporto e o campo Slim Lines (situado em Pristina) onde ficaríamos alojados nos seis meses seguintes, constatámos que o país onde estávamos era muito diferente da nossa terra natal, não só pela paisagem, marcada por casas inacabadas ou parcialmente destruídas, como também pelo aspecto empobrecido de grande parte da população e pela música que ecoava das mesquitas.

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Depois de instalados e de todos os aspectos de natureza administrativa terem sido finalizados, chegou a altura de cada um desempenhar as funções para as quais foi preparado em Território Nacional (TN). Decorrente da missão específica do Batalhão de TACRES/KFOR foram desenvolvidas coordenações com vista a realizar operações de reconhecimento e exercícios com os Multinational Battle Groups1 de modo a conhecer o modo de actuação dos mesmos em caso de necessidade de emprego nas suas áreas de responsabilidade. Para além das operações definidas pelo comando da KFOR, foram realizados com frequência exercícios e treinos de tarefas críticas com o intuito de manter o nível de operacionalidade da força, nomeadamente o treino de controlo de tumultos por ser considerado como uma das tarefas mais críticas a ser efectuada. A participação na missão de apoio à paz constituiu uma das experiências mais gratificantes, possibilitando não só conhecer o modo de actuação bem como os meios das forças dos outros contingentes presentes no TO. A integração de elementos húngaros no 1BIPara, decorrente da redução de forças da KFOR no TO, constituiu uma experiência igualmente enriquecedora permitindo trabalhar mais de perto com outros contingentes. A permanente necessidade de realizar coordenações com outras forças e a vivência interna do Batalhão realçou a percepção da importância do domínio da língua inglesa neste ambiente operacional. O clima rigoroso constituiu um dos

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maiores obstáculos, obrigando a força a lidar com temperaturas negativas e neve que caracterizam o Inverno nos Balcãs. A avaria de um aquecedor numa casa de banho, durante a noite, implicava o congelamento da


água no sistema de canalização, pela manhã. Não obstante todas as operações, exercícios e treinos que foram sendo efectuados, constituiu preocupação do Comando do batalhão a realização de um plano de actividades na área

do moral e bem-estar de modo a que fosse atenuado o cansaço psicológico que ia sendo acumulado com o decorrer da missão. Terminada a nossa permanência no TO foi altura de regressar ao território nacional no mês de Março. A retracção foi efectuada em dois voos havendo tempo para que, nas duas semanas que decorreram entre os mesmos, fosse realizada a transferência dos materiais bem como de experiências acumuladas ao 2º Batalhão de Infantaria Mecanizado (2BIMec) que nos rendeu. Finalmente, é de destacar todo o apoio que nos foi prestado pelos militares do 1BIPara e que nos permitiu não só ultrapassar dificuldades mas também encontrar um TO à imagem do que nos vinha sendo espelhado durante o aprontamento.

1

Actualmente existem cinco Multinational

Battle Group que partilham o território do Kosovo (o MNBGNorth, o MNBGSouth, o MNBGEast, o MNBGWest e o MNBGCentre). Este artigo contou com a colaboração do 1Sarg Art Pexirra, do 1Sarg Art Brites e do 1Sarg SMat Silveiro.

Ten Art Carqueijo CMDT BtrCS/GAC

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Basquetebol

Um militar na arbitragem

M

uito ainda antes de sequer pensar o que seria na vida a nível profissional, com os meus 16 anos de idade, ao mesmo tempo que jogava Basquetebol, frequentei em Leiria um curso de Juízes de Basquetebol. Este gosto por arbitrar já vinha da escola quando me oferecia para arbitrar jogos inter-escolas. Passados estes 22 anos na arbitragem tenho muitas histórias para contar, muitos bons momentos e alguns maus momentos. Desde 2000, pertenço ao grupo de árbitros de 1ª Categoria Nacional. De uma forma natural e tendo em conta os resultados nas provas físicas, teóricas e nas observações que me realizavam, ascendi ao grupo restrito de árbitros de 1ª Categoria Nacional, posição essa que me encontro nas últimas 10 épocas. Neste período, além de árbitro fui formador regional e, até à minha partida para o Afeganistão, responsável por todos os Árbitros no Distrito de Leiria, desempenhando as funções de Presidente do Conselho de Arbitragem de Leiria, conseguindo com o esforço dos colegas árbitros e Oficiais de Mesa o contributo para promoções de Árbitros regionais a Árbitros Nacionais de 2ª Categoria e a Oficiais de Mesa Nacionais. Ser árbitro é ter o prazer de estar dentro de campo e poder participar numa modalidade de que gosto. Quando me dizem que sou alto, e eu tenho 1,85 m, por vezes, para não dizer muitas vezes, sinto-me pequeno no meio dos jogadores. Já passei bons momentos e maus

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momentos na arbitragem, mas isso faz parte da minha evolução como árbitro. Esses maus momentos são analisados para que no futuro não se repitam, pois errar irei sempre errar, está inerente à condição de árbitro. Para ser árbitro não basta ter um apito, aos mais novos transmito-lhes a minha experiencia, em que ”apitadores” são todos que têm o apito e arbitrar jogos com elevado nível de exigência já não é para qualquer um. Para ser árbitro tem que se ter algumas características e qualidades que se devem perseguir para atingir o topo.

QUALIDADES DE UM BOM ÁRBITRO Embora a arbitragem implique conhecimento técnico, ser um árbitro eficaz é definitivamente uma arte. E a arte evidenciada por um árbitro no palco da competição depende, em grande medida, das suas qualidades pessoais. Podemos supor que estes importantes atributos da arbitragem já foram identificados e amplamente utilizados como critério na avaliação dos árbitros. Mas, se 100 peritos em arbitragem apresentarem as suas listas hierarquizadas das qualidades essenciais de um árbitro podemos esperar encontrar


100 listas distintas. Deste modo, não vou ordenar por importância as qualidades do árbitro competente nem apresentar uma lista exaustiva das qualidades essenciais. As características que os árbitros de TOP, os melhores, apresentam em comum são: • Consistência; • Comunicação; • Capacidade de decisão; • Equilíbrio; • Integridade; • Capacidade de julgamento; • Confiança; • Prazer/motivação. Os jogadores e os treinadores esperam que os árbitros sejam consistentes: as suas decisões devem ser as mesmas em circunstâncias idênticas ou similares, devendo aplicar as regras igualmente para as duas equipas. A inconsistência na arbitragem é frequentemente criticada por treinadores e jogadores. Eu e os meus colegas árbitros reconhecemos a importância da consistência no nosso trabalho. A experiência demonstra que a falta de consistência levanta, para além de outros, estes problemas: • Os jogadores estão constantemente a tentar adivinhar o que é permitido e o que não é; • Os treinadores ficam frustrados e deixam de confiar na competência dos árbitros; • Os árbitros tentam ”compensar” as decisões, punindo a equipa ou o atleta por erros anteriores de arbitragem. Os jogadores simplesmente não sabem o que esperar quando um árbitro oscila nas suas

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decisões. Se um árbitro ignora uma falta mas assinala mais tarde o mesmo comportamento, treinadores e atletas sentem-se confusos. Esta incerteza resulta muitas vezes em ansiedade, frustração, fúria e, eventualmente, em comportamentos físicos negativos por parte de quem se sente enganado. Uma das grandes ameaças à consistência é a tendência do árbitro para equilibrar as coisas. À primeira vista, pode parecer o mais justo a fazer. Contudo, tentar equilibrar as coisas apenas piora a situação distorcendo o jogo com decisões incorrectas tomadas deliberadamente. Corrigir um erro ao compensar são na realidade dois erros. A verdadeira consistência resulta não de tentar equilibrar as decisões mas da aplicação uniforme da interpretação das regras a cada acção competitiva separadamente. Não existem duas situações competitivas exactamente iguais; cabe ao árbitro aplicar esta interpretação uniforme no decurso dos acontecimentos. Isto assegura que as decisões dos árbitros sejam entendidas como consistentes e justas. Em síntese, a interpretação e o julgamento adequados são as principais fontes de consistência. Esta consistência dentro do jogo, que implica a interpretação uniforme das regras durante o acontecimento, é determinante para uma arbitragem eficaz. Contudo, a consistência de um árbitro em diversos jogos é igualmente importante. Isto é, um bom árbitro aplica as regras correctamente e similarmente jogo após jogo. Alcançar a consistência necessária para

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arbitrar ao alto nível requer duas capacidades. A primeira implica a demonstração de técnica, conhecimento das regras e a manifestação das qualidades previamente descritas. Muitos árbitros são inconsistentes simplesmente porque ainda não dominam suficientemente a interpretação das regras, o posicionamento e as técnicas de arbitragem específicas do jogo. Devemos melhorar as nossas lacunas nestas áreas antes de conseguir alcançar a consistência na nossa arbitragem. O segundo requisito para alcançar um alto nível de consistência implica as competências mentais e emocionais. A arbitragem consistente requer um estado mental estável. Oscilações no desempenho encontram-se frequentemente relacionadas com inconsistências psicológicas. A capacidade para atingir o adequado enquadramento psicológico e mantê-lo ao longo do jogo é fundamental para uma arbitragem eficaz. A comunicação é a qualidade de nos relacionarmos eficazmente com os outros. Uma boa comunicação com os outros é desejável em qualquer actividade humana e talvez ainda mais importante na arbitragem. Os árbitros devem tentar estabelecer uma boa comunicação tanto com treinadores como com jogadores. Enquanto árbitro, não estamos a tentar vencer um concurso de popularidade, mas também não estamos à procura de inimigos. A chave para estabelecer uma boa comunicação é a eficácia na comunicação. Se comunicarmos eficazmente com atletas e treinadores é mais provável que eles cooperem connosco e questionem menos as nossas decisões. Os árbitros podem também melhorar

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a comunicação tratando os jogadores e treinadores com cortesia e respeito, devendo esperar o mesmo tratamento por parte de treinadores e atletas. Embora se deva ser amigável ao arbitrar, devemos manter a distância apropriada dos jogadores para dissipar qualquer dúvida em relação à neutralidade da nossa posição. Estar acessível e disposto a ouvir a questões dos queixosos mas não permitir aos jogadores interromper o decurso do jogo com questionamento contínuo. Evitam-se debates longos reiniciando o jogo logo que possível. As decisões de um árbitro devem ocorrer simultaneamente à acção observada, ou o mais rapidamente possível. Isto não significa que se deva tomar todas as decisões sem hesitar. Pode-se precisar fazer uma pequena pausa para compreender o que se acabou de ver. Mas uma pausa demasiado longa dá aos atletas e treinadores a impressão de incerteza, sendo maior a probabilidade de questionarem uma decisão demorada. Decisões de julgamento não são alvos de protesto formal. Deste modo, pode-se evitar controvérsias tomando decisões rápidas e determinadas. Quanto mais duvidosa é a decisão mais importante se torna a determinação com que a mesma é tomada. Torna-se imperativo uma acção decidida e clara. Deste modo, ao tomar este tipo de decisão, um árbitro deve dar a impressão de estar absolutamente certo do que viu. A competição desportiva é geralmente excitante e a acção é frequentemente veloz, mudando rapidamente. Por outro lado, devido à importância que as pessoas na

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nossa sociedade depositam nas competições desportivas, frequentemente, as emoções de atletas, espectadores e treinadores encontramse elevadas, especialmente nas fases iniciais e finais de uma competição. Um árbitro deve manter-se calmo e equilibrado, independentemente do que pode acontecer. Embora não se possa controlar as emoções dos outros, espera-se que seja capaz de controlar as próprias emoções independentemente das circunstâncias. Ao falar com árbitros colegas mais experientes, eles referem terem tido melhores performances quando foram capazes de se manter descontraídos e calmos. A capacidade para permanecerem descontraídos é

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extremamente importante para os árbitros na medida em que estes se encontram sempre sobre pressão por parte de treinadores, jogadores e adeptos. Independentemente da qualidade da arbitragem, um árbitro torna sempre infelizes 50% dos treinadores, jogadores e adeptos. Contudo, muitos árbitros tentam agradar a todos. Esta abordagem é fútil e perigosa. Colocar toda a pressão em nós para tomar sempre a decisão ”correcta” apenas aumenta a nossa probabilidade de esgotamento e de nos tornarmos demasiado auto-críticos. Estarmos descontraídos permite-nos não termos medo de cometer erros, desapontarmos pessoas ou perder o controlo. Quando


os árbitros descrevem as suas melhores performances não recordam terem medo de falharem numa decisão ou de serem criticados por treinadores e atletas. Em vez disso, dizem terem-se sentido sempre calmos e tranquilos. Quando a mente não está preocupada com as consequências negativas da falha/fracasso, podemos focalizar-nos na tarefa que temos em mãos. Os árbitros devem manter o autocontrolo durante todo o tempo, especialmente durante os momentos de alta tensão, quando discussões, lesões, faltas e reacções violentas têm maior probabilidade de ocorrer. Um árbitro que se mantem equilibrado e controlado, enquanto demonstra autoridade e liderança, evita que tais situações críticas resultem em incidentes desagradáveis. Durante os momentos de

tensão os gestos e movimentos devem ser deliberados sempre que possível. Certa dose de excitação é normal quando se arbitra, mas é importante manter as emoções e acções sobre controlo, nunca permitindo que coloquemos em risco a nossa eficácia enquanto árbitro. A integridade decorre de arbitrar um jogo de forma imparcial e honesta, independentemente das reacções de jogadores, treinadores e espectadores; do tempo que resta; do resultado; de decisões anteriores; ou de outras fontes potenciais de influência. A melhor salvaguarda para manter a integridade está exposta na expressão, ”Arbitrar conforme tu vês”. É extremamente importante proteger a integridade tanto dentro como fora do terreno de jogo. Embora provavelmente estejamos conscientes das nossas responsabilidades

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enquanto árbitro, devemos estar igualmente preocupados em manter o respeito dos outros pela nossa integridade fora dos recintos de jogo. Isto implica nunca expressar a nossa opinião sobre jogadores e equipas que possamos vir a arbitrar no futuro e nunca apostar, independentemente da importância da aposta, no resultado de qualquer jogo que possamos arbitrar. Finalmente, revelamos a nossa integridade pessoal pelos compromissos que rejeitamos. Arbitrar um jogo que possa comprometer os nossos valores, tais como quando um familiar ou amigo próximo está envolvido quer como treinador ou jogador, poderá ser complicado para o árbitro. Existe sempre a possibilidade de informar as autoridades competentes da situação e evitar arbitrar esse jogo. O bom julgamento começa com a exaustiva e completa compreensão das regras e regulamentos que regem um desporto em particular. Uma vez estabelecido, o conhecimento das regras serve de guia para determinar a legalidade do jogo. Então, o correcto julgamento adquirido através da experiência permite enfrentar as exigências de uma variedade de situações. O árbitro que continua a estudar as regras e analisa a experiência com o objectivo de melhorar provavelmente tornar-se-á competente. Devese repetidamente arbitrar para desenvolver a capacidade de julgamento, tal como um atleta deve praticar técnicas para desenvolver as capacidades físicas requeridas. Quando os árbitros descrevem situações em que efectuaram bons julgamentos

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invariavelmente referem que se encontravam: • Totalmente concentrados no jogo, encontro, ou acontecimento; • Abstraídos das distracções ou capazes de bloqueá-las eficazmente; e • Despreocupados com as decisões anteriores e as reacções subsequentes dos protagonistas. Os bons árbitros sabem que os pensamentos irrelevantes distraem e prejudicam a eficácia. Um lapso na concentração pode levar a uma má decisão que pode resultar na diferença entre quem ganha e quem perde uma competição. Muitos acontecimentos desportivos duram de 2 a 3 horas, pelo que não é uma tarefa fácil manter-se concentrado durante todo o tempo. Felizmente, a concentração é uma competência que pode ser praticada e melhorada. Os árbitros competentes têm confiança neles próprios e nas suas capacidades. Esta autoconfiança transcende qualquer jogo ou situação em particular. Os árbitros confiantes mantêm o controlo em situações adversas. Isto não significa que não experimentem sentimentos de insegurança, mas não perdem a confiança neles próprios só porque tomaram uma decisão errada ou experimentaram outros contratempos. Todos os árbitros têm jogos que prefeririam esquecer, mas os árbitros confiantes não deixam que os mesmos afectem a sua genuína crença de que são bons naquilo que fazem. Embora a confiança possa também ser ilusória, um árbitro bem-sucedido mantém uma atitude positiva independentemente

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das circunstâncias. Tais árbitros não estão preocupados com os acontecimentos que não podem controlar; em vez disso têm confiança que irão ter o melhor desempenho possível na medida das suas capacidades. Se um árbitro vai para um encontro com a expectativa de um fraco desempenho e sem acreditar nele próprio, é melhor preparar-se para um longo jogo. Os árbitros de TOP têm enorme prazer no seu trabalho. Esta sensação de prazer e divertimento encontra-se fortemente ligada à atitude mental positiva e a sentimentos de energia. Uma boa arbitragem requer trabalho intenso, dedicação e prática. Tudo isto deriva de um nível elevado de motivação que se encontra intimamente ligado ao prazer. Se o prazer que um árbitro tem ao arbitrar diminui faltar-lhe-á motivação para praticar e trabalhar intensamente a sua actividade. O ponto comum entre árbitros que se afastaram da actividade é o de terem perdido o prazer em arbitrar devido às intensas pressões que lhes eram colocadas e à falta de reconhecimento pelos seus esforços. Não tenho dúvidas em afirmar que me considero um bom árbitro, tornando-me ao longo destes anos na arbitragem um árbitro mais maduro, ponderado, calmo nas decisões que tomo em campo, mas, infelizmente, não atingi o patamar de excelência dos ”árbitros de Topo”, um grupo restrito em que só os melhores lá chegam. Tenho o prazer de manter os meus níveis de sucesso e também poder acompanhar árbitros mais jovens para que a regeneração da arbitragem seja feita com árbitros mais capazes a fim de manter elevados níveis

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demonstrados pela arbitragem portuguesa a nível internacional. Que influência tem a arbitragem na minha vida como militar? Pelo contrário, considero que ser militar é que tem influenciado o meu desempenho na arbitragem. Uma das condições inerentes à condição de militar é o desempenho físico. Com 39 anos, arbitrando a um nível de jogos de grande intensidade, as excelentes condições que o Exército me proporciona a ter níveis satisfatórios na condição física permiteme estar em campo bem preparado para analisar as situações com mais certeza. Não poderão as características de um bom árbitro aplicar-se a u m bom militar?

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Ou mesmo nas características de um outro qualquer bom profissional? Eu penso que sim, pois se as aplicarmos no dia-a-dia, além das características pessoais e profissionais que o militar possui a todos os níveis de Comando, iremos ter sucesso se formos consistentes, comunicativos, com boa capacidade de tomar decisões, com equilíbrio, íntegros, com boa capacidade de julgamento e confiança, características anteriormente referenciadas de sucesso para liderar todos os intervenientes em campo e atingir a excelência no desfecho final dos jogos, e posteriormente ser reconhecido como ”um bom Árbitro”. A resistência mental e psicológica que apurei ao longos destes 18 anos na vida militar permite-me sem perder a calma, a confiança e sobretudo o discernimento, resolver as mais diversas e atribuladas situações que possam ocorrer dentro de um recinto desportivo. Em campo já ouvi por diversas vezes em voz de surdina ”olha que ele é militar”, associando que pelo facto de ser militar, está intrínseco que sou disciplinador e autoritário. A minha forma de estar em campo é muito profissional, e na área da disciplina prefiro não a impôr, mas sim conquistá-la, mantendo um bom relacionamento com todos os intervenientes. Muitas vezes torna-se difícil esta conquista, tendo que a impôr de forma clara a que todos a entendam. Considero-me um árbitro exigente, não admito faltas de respeito e que os agentes desportivos façam algo de ilegal. Amado por uns e odiado por outros,


conquistei a imagem que tenho ao longo destes anos. Se a minha saúde me permitir e tiver sempre condições físicas para poder estar apto a desempenhar a função de juiz de Basquetebol pretendo continuar até ao limite de idade, que será os 50 anos. Tenho a noção que será difícil, e nestes últimos 22 anos na arbitragem são milhares de quilómetros percorridos, muitas horas dentro de um pavilhão e, principalmente, muito tempo ausente da família. Se a profissão militar por alguns motivos tem esse ”afastamento” da família, por esta paixão e prazer em ser árbitro, fim-de-semana a fimde-semana continuamente, são jogos em que sou nomeado para todo o país e ilhas, em que muitas vezes saio à hora de almoço e regresso já à noite. Se por muitas vezes a família de um militar é sacrificada pelo esforço adicional pela ausência de um marido, ou de um pai, seria de impossível ser Árbitro Nacional de 1ª Categoria sem o apoio da minha família. À minha família, o meu obrigado…

1Sarg Art Fernandes Sargento Auxiliar da SOIS

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SITREP

2010/2011 Visita de uma delegação de Oficiais das Forças Armadas Moçambicanas, a 1 de Junho de 2010.

Comemoração do 83 aniversário do RA4, com actuação da OLE a 22 de Junho, XII Grande Prémio de Orientação a 26 de Junho, Missa pelos Artilheiros a 30 de Junho, Cerimónia Militar a 1 de Julho e Concerto da Banda Sinfónica do Exército a 8 de Julho de 2010.

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Comemoração do Dia Mundial da Bandeira, a 9 de Junho de 2010.

Decorreu, no dia 6 de Julho de 2010, na Enfermaria da unidade, uma recolha de potenciais dadores de medula Ăłssea, levada a cabo pelo Centro de Histocompatibilidade do Centro.

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Cerimónia de passagem à situação de reserva de disponibilidade da 2º Sarg RC Ângela Lopes, a 8 de Julho de 2010.

Visita dos alunos do ATL de Regueira de Pontes ao RA4, a 8 de Setembro de 2010.

Cerimónia de passagem à situação de reserva de disponibilidade da Furr RC Armanda Coelho, da CbAdj RC Tânia Dias, da 1Cb RC Paula Fontes e do 1Cb RC Filipe Enxuto, a 9 de Setembro de 2010.

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Cerimónia de tomada de posse do Comandante da 2ªBtrbf, Ten Art Albino Jesus, a 23 de Setembro de 2010.

Promoção, ao posto de Major, do Cap Art Carlos Roque, a 9 de Setembro de 2010.

Promoção, ao posto de Capitão, do Ten Art Elton Feliciano, do Ten Art Albino Jesus, do Ten Art Carlos Lawrence, e do Ten TManMat Miguel Agostinho, a 13 de Outubro de 2010.

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Cerimónia de promoção, a Sargento-Mor, do SCh Art Carlos Teixeira e do SCh Art António Tenreiro; a Primeiro-Sargento, do 2Sarg Art David Pereira; e a Segundo-Sargento, do Furr Art Rui Leal, da Furr Art Sara Silva e do Furr Art Fábio Santos, a 22 de Outubro de 2010.

Cerimónia de Juramento de Fidelidade do Alf Art Diogo Silva, do 2Sarg Art Rui Leal, da 2Sarg Art Sara Silva e do 2Sarg Art Fábio Santos.

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Comemoralção do Dia dos Finados, a 2 de Novembro de 2010.

Cerimónia de comemoração do Armistício da Grande Guerra, a 11 de Novembro de 2010.

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Cerimónia de passagem à disponibilidade de Sargentos-Mores e Sargentos-Ajudantes.

Exercício ”TROVÃO 102”, entre 22 e 26 de Novembro de 2010, no Campo Militar de Santa Margarida.

Comemoração do Dia do Armistício na Marinha Grande, a 13 de Novembro de 2010.

Rastreio Toxicológico, a 18 de Novembro de 2010.

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Palestra da Direcção dos Serviços de Pessoa (DSP), a 19 de Novembro de 2010.

Visita de alunos do Curso Logística em Emergência, do IPL, ao RA4, a 30 de Novembro de 2010.

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Comemoração do Dia da Artilharia, no RA4, a 3 de Dezembro de 2010.

Colheita de sangue a 18 de Dezembro de 2010.

Cerimónia de promoção, a Major, do Cap Art Sérgio Gião, e a Sargento-Ajudante, do 1Sarg SMat José Rodrigues e do 1Sarg Art Luís Ventura, a 6 de Dezembro de 2010.

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Controlo de Alcool, a 16 de Dezembro de 2010.

Apresentação de Boas Festas ao Comandante, a 20 de Dezembro de 2010.

Festa de Natal do RA4, a 20 de Dezembro de 2010.

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Cerimónia de promoção, a Segundo-Sargento, do Furr RC Hugo Silva e da Furr RC Ana Sousa, a 3 de Janeiro de 2011.

Cerimónia de tomada de posse do Comandante da BtrCS do RA4, a 18 de Janeiro de 2011.

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Comemoração do 88º aniversário do Núcleo de Leiria da Liga dos Combatentes, a 5 de Fevereiro de 2011.

Campeonato desportivo militar de Orientação da Brigada de Reacção Rápida, entre 15 e 17 de Fevereiro de 2011.

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Exercício PINHAL, do GAC, a 24 de Fevereiro de 2011.

Avaliação de Desempenho da BtrCS, do RA4, a 24 de Março de 2011.

Visita dos alunos da CERCILEI ao RA4, a 24 de Março de 2011.

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Palestra subordinada ao tema ”Protocolo entre o Exército Português e a Seguradora Império Bonança”, a 25 de Março de 2011.

Realização do Exercício ”TROVÃO 111”, entre 28 de Março e 1 de Abril de 2011, no Campo Militar de Santa Margarida.

Encontro convívio de Oficiais do extinto Regimento de Infantaria 7, a 2 de Abril de 2011.

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Comemoração do 93º aniversário da Batalha de La Lys e a 75ª romagem ao Túmulo do Soldado Desconhecido, a 9 de Abril de 2011.

Reunião de Segurança/Prevenção de Acidentes, no RA4, a 12 de Abril de 2011.

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Reunião dos Comandantes de Artilharia, a 13 de Abril de 2011.

Visita do Agrupamento de Escuteiros 522 de Coz Alcobaça - ao RA4, a 18 de Abril de 2011.

Recepção a militares vindos do Kosovo, a 18 de Abril de 2011.

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Visita de jovens do Centro Paroquial de Assistência do Juncal, a 14 de Abril de 2011.

Exercício ”EFICÁCIA 11”, que decorreu entre 28 de Abril e 3 de Maio de 2011, no Campo Militar de Santa Margarida.

Cerimónia de passagem à situação de reserva de disponibilidade, de Praças do RA4, a 4 de Maio de 2011.

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Exercício ”APOLO 11”, que decorreu no Campo Militar de Santa Margarida, de 3 a 6 de Maio de 2011.

Apoio aos peregrinos que se deslocavam, a pé, para Fátima, a 4 de Maio de 2011.

Visita dos alunos do Colégio de S. Miguel ao RA4, a 17 de Maio de 2011.

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Entrega de prémios do Decatlo do RA4, que decorreu de 16 a 19 de Maio de 2011.

Entrega de condecorações a militares do RA4, a 25 de Maio de 2011.

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Palestra sobre a Educação Física, realizada a 25 de Maio de 2011.

MarCor da BtrCS, do RA4, a 26 de Maio de 2011.

TCor Art Lourenço Chefe da SOIS

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ORGULHO À PÁTRIA

MILITARES DO REGIMENTO

Orgulhoso daquele que lhe é fiel Que dela vive com emoção Sem nunca esquecer o perdão No dia em que foi cruel

Eis os que completam a unidade Aqueles que demonstram a sua vivacidade São fiéis à sua missão Sabem que sempre a cumprirão

Olhar para a Pátria é olhar o futuro Mesmo que o coração seja duro Sentir esperança nos que a servem É como sentir saudade daqueles que a perdem

Com vigor e aprumo servem o Exército Com todo o contingente militar Sabem que tem muito para dar Militares com espírito de sacrifício Orgulham-se do seu ofício

O orgulho não se compra O orgulho nasce dentro daquele que a ama.

No brasão se exprime a sua força No comando o controlo e coordenação No campo de batalha demonstram toda a formação Mesmo com todas as condições e adversidades Demonstram que são audazes.

Sold RC Lourenço Serviços Gerais

110 Regimento de Artilharia N.º 4


Condutor que as nossas peças Vais levar à posição Tem coragem, não esmoreças, Sossega o teu coração. Galopa sob a metralha, Voa a caminho da glória P’ra sairmos da batalha Com os loiros da vitória. O 4 de Artilharia Há-de ter glória imortal Caindo morto ou vencendo Em honra de Portugal. Serventes das guarnições Sorrindo afrontem o p’rigo, Façam rugir os canhões Contra o assalto inimigo. Estoirem com ele à granada, Amachuquem-lhe as fileiras Para que a sua avançada Não passe as nossas fronteiras. O 4 de Artilharia Há-de ter glória imortal Caindo morto ou vencendo Em honra de Portugal. Portugal no pensamento, Nós havemos de marcar Como um bravo Regimento Que ninguém faz recuar. Aos vivas à Pátria querida Nós juramos bem guardá-la Com risco da própria vida De quem tente conquistá-la. O 4 de Artilharia Há-de ter glória imortal Caindo morto ou vencendo Em honra de Portugal.


e-Boletim 11  
e-Boletim 11  

Boletim Comemorativo do 84º aniversário do Regimento de Artilharia N.º 4, correspondente ao ano de 2011, sob a direcção do Coronel de Artilh...

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