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Revista produzida pelos alunos do Curso de Jornalismo PUC-Campinas, Nº 1 Ano 1

CARTAS NA MESA Em entrevista exclusiva, o jornalista e editor Mino Carta abre o jogo sobre política, ditadura e seu desafeto pelos irmãos Civita 1


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Apresentação

Sobre revistas Olá, caro leitor. Seja bem-vindo a primeira edição da revista Beta, elaborada pelos alunos do 4° ano de Jornalismo da PUC-Campinas para a disciplina “Edição e Produção Editorial”. A revista possui o nome Beta, pois essa é a segunda letra do alfabeto grego, que nos setores de informática é usada para designar um dos estágios mais importantes no desenvolvimento de softwares, onde novos recursos são adicionados e testados para que eventualmente possam ser corrigidos. Neste caso, não é só a revista que está sendo testada, mas também toda a equipe que a produziu. A intenção deste trabalho laboratorial é analisar o mercado editorial de revistas, o modo como são feitas atualmente, seus conteúdos e formas, mas também levantar questões pertinentes sobre os rumos do jornalismo. Em nossa primeira versão da Beta trazemos uma entrevista com o reinventor de revistas no Brasil e um dos mais importantes críticos do jornalismo: Mino Carta. Jornalista criador de revistas como Veja, Isto É e Carta Capital. Ele fala abertamente sobre política, ditadura e seus desafetos. Para quem sempre quis saber como são feitos e porque as revistas se utilizam de infográficos, a reportagem A linguagem do Futuro irá tirar as suas dúvidas sobre essa união entre arte e informação. O sempre presente debate sobre jornalismo online ou impresso também tem espaço nessa revista sobre revistas. Para isso, confira nossa entrevista com editor da revista científica ComCiência, Rodrigo Bastos Cunha. Além disso, a Beta traz crônicas e artigos sobre a produção editorial. Boa leitura! Artur Vergennes

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Expediente

Artur Vergennes Arnold Fruneaux Caroline Santos

Julio Cesar

Laís Russo

Rayssa Fagundes Leandro Bettiol

Amanda dos Reis Danilo Zanini

Fernando Zanaga

Isabela Palhares Bruno Moreira Monique Ribeiro Renata Cunha

Vice-Diretora Profa. Maura Padula

Professor responsável pela publicação: Adauto Marin Molck MTB: 22.242

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Thaís Ferreira Vanessa Bispo

Thalita Galluci

Larissa Straci

Ingrid Emerick Juliana Andrade Ubiratan Maia

Equipe de Fotos

Diretor da Faculdade de Jornalismo: Prof. Lindolfo Alexandre de Souza

Equipe de Reportagem

Diretor do CLC Prof. Rogério E. R. Bazi

Amanda Cotrim

Michele Bury

Equipe de Edição

Revista laboratorial produzida pelos alunos do sétimo semestre da Faculdade de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, do Centro de Linguagem e Comunicação (CLC) no ano de 2012, como requisito para aprovação na disciplina Edição e Produção Editorial.


Índice

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ARTIGO - Segmentar para sobreviver CRÔNICA Vai Curintia!

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REPORTAGEM A linguagem do Futuro

22 REPORTAGEM - Imersão na ponta do dedo

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ENTREVISTA Mino Carta

REPORTAGEM Especialíssimas

REPORTAGEM Esporte em revista 5


Artigo Diagramação: Leandro Bettiol

Fotógrafa: Ingrid Emerick

Segmentar para sobreviver

“O sol nas bancas de revista, me enchem de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia”. O verso de Caetano Veloso já retratava a sensação trazida pelo passeio descompromissado por uma banca de revista. Tanta informação, questiona o compositor, quem lê tudo isso? Afinal, quem lê tanta revista? A expansão do mercado de revistas mostra que há público para isso. As editoras não dariam um tiro no pé, ao lançar um título que não será consumido. As revistas, por sua natureza, já atraem o público. Essa constatação já foi dada pelo teórico Albert Kientz há cerca de 30 anos, quando se referia especificamente ao caso das revistas femininas. E olha que naquela época, as publicações nem eram tão atraentes assim. Com o tempo, as editoras perceberam que não dava para tratar leitores como massa. As

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revistas começaram a se segmentar cada vez mais. A segmentação é altamente positiva, visto que oferece mais aprofundamento, qualidade, imerge o leitor no assunto e seleciona um público bem refinado. Os hard-news disparam informações a todo o momento. Os sites remetem a tantos links que o internauta se perde e não absorve nenhum dado. Nesse sentido, a revista vai direto ao ponto: conversa diretamente com o leitor que se interessa por aquele assunto. Além disso, como é um público bem escolhido, para essas pessoas o visual e o conteúdo do jornal diário, formado basicamente pela informação momentânea não basta. A loucura é tanta que algumas editoras já estão lançando revistas só para cabelos curtos. É a segmentação da segmentação. Devem-se atender as exigências de um público ávido por informações que interessam, otimizando o tempo disponível. Afinal, perder tempo com informação generalista é passado. Caro leitor, você tem um cardápio incrivelmente variado no mercado para escolher. Também nem tudo é perfeito.

Vanessa Bispo

Sempre há riscos. Segmentar demais significar limitar. Segmentar indica que o público seleto é exigente. Portanto, trás implicações na hora de produzir. O jornalista deve ser especializado. Dominar a linguagem daquele clã. Imaginem um economista, leitor da revista Exame, se deparar com um texto evasivo sobre protecionismo. Todo cuidado é pouco, o público exige e os jornalistas têm que atender a expectativa com risco da informação passar e não cumprir seu papel básico, informar. Essa opção pela escolha, personaliza o conteúdo mais do que na internet. Nas revistas até a propaganda é dirigida. É claro que os magnatas da mídia cientes da promissão do negócio estão apostando cada vez mais em publicações dirigidas. Segundo a Associação dos Editores de Revistas (ANER), entre 2009 e 2010, ou seja, no período de um ano, houve um aumento de 273 títulos, saltando dos 4.432 para os 4.705 títulos. Nos últimos 10 anos houve notável crescimento na diversidade de alternativas, confirma a associação. Especialistas projetam que até 2020 surgirão, no Brasil, 200 novos títulos. Como as publicações, as bancas também são um mosaico de cores e conteúdos. Decifra-me ou devoro-te. O mercado te decifra e você leitor devora o que te oferecem. Simples assim!


Reportagem

A realidade das bancas Reportagem: Fernando Zanaga , Bruno Moreira, Vanessa Bispo de Freitas e Isabela Palhares Edição: Artur Vergennes Diagramação: Arnold Fruneaux “Meu Deus, isto aqui é minha vida”, diz emocionada Terezinha Elena Cassiano sobre a Banca do Bosque, da qual é proprietária há 36 anos. A mineira, ou melhor, nas próprias palavras, “Mineira, mas sou campineira. A cidade me acolheu muito bem”, já foi empregada doméstica, cozinheira e zeladora, até se tornar jornaleira. Com o dinheiro que conseguiu com a banca de revistas criou sua família: viúva desde 2000 após um casamento de quarenta anos, tem dois filhos e quatro netos.

Em 1976, Terezinha Elena Cassiano trabalhava como zeladora em três prédios em Campinas. Neste mesmo período, seu filho foi diagnosticado com bronquite. Por recomendação do médico, o garoto, então com sete anos, começou a nadar todos os dias nas piscinas do Guarani Futebol Clube, na sede do time na Avenida Princesa D’Oeste. Certo dia voltando da natação acompanhado da mãe disse, “Mamãe, vamos comprar essa banca?” A banca ficava quase no mes-

mo local em que se encontra a Banca do Bosque, abaixo do viaduto conhecido como Laurão. “Era uma banca antiga, tinha 1.5m por 2m. Estava quase falindo, quase não tinha nenhuma revista à venda”, relembra a atual proprietária. Após conversar com o marido, decidiram ouvir o filho. Venderam um Fusca que tinham e usaram também um dinheiro guardado. Conseguiram. O começo foi difícil, mas aos poucos conseguiram recuperar a confiança dos distribuidores tali

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zar o espaço. Todos da família trabalhavam, inclusive o filho, ainda uma criança. A banca foi engrenando. “Meu Deus, isto aqui é minha vida”, diz emocionada Terezinha Elena Cassiano sobre a Banca do Bosque, da qual é proprietária há 36 anos. A mineira, ou melhor, nas próprias palavras, “Mineira, mas sou campineira. A cidade me acolheu muito bem”, já foi empregada doméstica, cozinheira e zeladora, até se tornar jornaleira. Com o dinheiro que conseguiu com a banca de revistas criou sua família: viúva desde 2000 após um casamento de quarenta anos, tem dois filhos e quatro netos. Em 1976, Terezinha Elena Cassiano trabalhava como zeladora em três prédios em Campinas. Neste mesmo período, seu filho foi diagnosticado com bronquite. Por recomendação do médico, o garoto, então com sete anos, começou a nadar todos os dias nas piscinas do Guarani Futebol Clube, na sede do time na Avenida Princesa D’Oeste. Certo dia voltando da natação acompanhado da mãe disse, “Mamãe, vamos comprar essa banca?” A banca ficava quase no mesmo local em que se encontra a Banca do Bosque, abaixo do viaduto conhecido como Laurão. “Era uma banca antiga, tinha 1.5m por 2m. Estava quase falindo, quase não tinha nenhuma revista à venda”, relembra a atual proprietária. Após conversar com o marido, decidiram ouvir o filho. Venderam um Fusca que tinham e usaram também um dinheiro guardado. Conseguiram. Ontem Uma tradição foi criada - a cada sete anos a família aumen-

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tava um pouco a banca, através quase seis meses sem receber alde reformas. Hoje, segundo a gumas revistas. Terezinha voltou dona, a banca têm 60 metros a trabalhar com a filha, Heloísa, quadrados e é toda feita de inox. na banca. Hoje, cada uma trabaA cada sete anos, Terezinha não lha 8 horas por dias. “Faz cinco deixa de pensar, “Eba, o que vaanos que não almoço em casa”, mos fazer?” confidencia. No final da década de noventa, Durante estes 36 anos, Terezia banca atingiu seu auge. Tinham nha conta que nunca perdeu uma oito empregados, capa de revista e funcionavam com as enchen24 horas por dia, tes que sempre em uma época foram constanGostaria de voltar tes no local, até em que nada em para Minas Gerais, que uma reforCampinas abria 24 horas. Os fima realizada mas tenho medo de lhos cresceram, vender. É uma banca pela prefeitura casaram, tiveram há pouco mais tradicional. filhos e seguiram de cinco anos em frente. O maacabou com as rido faleceu em enchentes na 2000. Terezinha Avenida Princesa Elena Cassiano decidiu voltar para D’Oeste. Nunca tiveram probleMinas Gerais. Morou durante sete mas com assaltos. anos em uma pequena chácara em Poços de Caldas. Tirava suas Hoje primeiras férias desde 1976. “A minha vida é isso”, repete Voltou em 2007 com a banca a proprietária. “Gostaria de volpraticamente falida. Conseguiu tar para Minas Gerais, mas tenho quitar dívidas com funcionários medo de vender. É uma banca e distribuidoras - muitas tinham tradicional.” Hoje a Banca do parado de enviar revistas. Ficou Bosque trabalha com 1500 títu-


Amanhã Nestes 36 anos Terezinha Elena Cassiano já viu muita coisa. Sobreviveu a todas as enchentes que assolaram a região por décadas e sem perder uma única revista. Já presenciou inúmeros acidentes de carros e dois suicídios - pessoas se jogaram do Laurão. Casais já se formaram entre seus clientes. Uma cliente e amiga teve os primeiros enjoos da gra-

videz na Banca do Bosque. Avós, pais e filhos da mesma família são fregueses. Os filhos gostariam que ela parasse de trabalhar, mas Terezinha resiste. Ela sabe que faz parte da história de Campinas. Esta mineira adotou a cidade e esta a acolheu. Ela é a memória da cidade e uma personagem assim como

Olha. Já vendi mais, viu? No geral mesmo, sem uma específica.

los, além de vender brinquedos, óculos para emergências - autorizados pela ANVISA - livros, cigarros, salgadinhos, sorvetes e refrigerantes. “O cliente vem compra um cigarro, uma água, mas uma capa de revista chama a atenção. Talvez ele não tenha o dinheiro na hora, mas volta outro dia para comprar”, justifica Terezinha. O público da banca provém da classe mais abastada, devido à localização em uma parte nobre da cidade, e este geralmente vai de carro. Este público tem preferência pela Caras. “Recebo às quartas pela manhã e às vezes na hora do almoço já acabaram. As semanais de fofoca vendem bem”, conta a jornaleira. Segundo ela, Playboy, Quatro-Rodas e Claudia vendem bem desde sempre. Sobre os jornais, Terezinha acha que por causa da Internet, as pessoas pararam um pouco de comprar jornal. “Eles já vêem tudo em primeira mão. Mas o Notícia Já! saí bem. Do Correio Popular, vendo de 300 a 400 por domingo.” Ela ressalta que o produto que mais falta são figurinhas em época de Copa do Mundo . “Nesta última Copa cheguei a vender 7 mil figurinhas até a hora do almoço. Imagine na Copa no Brasil.”

a Banca do Bosque. Afinal, “ Meu Deus, isto aqui é minha vida.” Outras praças “Olha. Já vendi mais, viu? No geral mesmo, sem uma específica. Acho que a internet tirou muita gente da banca. Lá tem tudo de graça, né?”. Não foi exatamente com essas palavras, mas é isso que quiseram dizer Cláudio Duarte Josué, 44 anos, Eduardo Olivério Sachetto, 42 anos, donos de bancas de jornal e revistas de Americana e Santa Bárbara d’Oeste, quando questionados sobre a situação da venda de revistas em seus estabelecimentos. Cada um com características próprias, localização e públicos diferentes, mesmo sem nenhum estudo ou levantamento estatístico, apenas com a bagagem dos anos de experiência, afirmam que manter-se no ramo anda difícil e esperam pela sacada de alguma redação que impulsione a venda avulsa de conteúdo impresso – neste caso não apenas as revistas – e levem novamente

o leitor à banca. Cláudio Duarte Josué está no mesmo ponto há duas décadas. É uma banca pequena, na Avenida Antonio Lobo, centro nervoso de Americana, lado oposto ao terminal de ônibus. Os cavaletes em que os jornais diários ficam expostos disputam espaço com a calçada e os pedestres. Herança do pai, que morreu há sete anos, é tratada com carinho por Josué, apesar dos tempos difíceis. “Há mais facilidade para se conseguir informação hoje. Eu mesmo tenho um notebook aqui na banca e mal abro algum jornal ou revista. Dou só uma olhada nas capas”, conta. Pelo movimento agitado no local onde fica, aposta em publicações populares para atrair seus clientes. “Essa aqui é a que mais sai”, afirma, ao apontar para a revista Ti-Ti-Ti. À espera de dias melhores também está Eduardo Olivério Sachetto, dono de banca na Avenida Paschoal Ardito, no São Vito, bairro lembrado pelo tradicionalismo de seus moradores. O mesmo vale para os clientes, de acordo com Sachetto. Apesar do mesmo problema apontado por Josué – queda nas vendas pós-internet –, ele consegue manter o estabelecimento em ordem graças à fidelização de seu público. “Sei o nome da maioria das pessoas que compram aqui. Você pode ver a banca vazia agora (12h30 de uma segunda-feira), mas tem gente que tem até o horário de vir aqui como ritual”. A revista que mais vende, ainda segundo, ele “é a cara do pessoal que mora por aqui”: Veja. “Aquela sequência de capa vermelha na eleição, rapaz, vendeu tudo”, explica, ao se referir ao período eleitoral de 2010, em que a pu

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O público da banca de Terezinha provém da classe mais abastada, parte nobre da cidade de Campinas

blicação do Abril produziu uma sequência de matérias de capa colocando em xeque o PT e a então candidata à presidência Dilma Rousseff. Amplo cardápio Junto a um supermercado, no Jardim do Bosque, em Hortolândia, fica discretamente instalada uma banca de jornal. Ela existe há cinco anos. Sob os cuidados dos novos proprietários há três anos e meio. O casal Moacir dos Santos e Edileuza Amorim oferecem aos leitores um amplo cardápio de títulos. A variedade da banca impressiona. “Em Hortolândia, as pessoas não gostam muito de ler. Os livros ficam parados. As revistas, em geral, vendem mais. Dos jornais, o que mais agrada é o Notícias Já. Os textos curtos e a linguagem ralé atraem público”, afirma Santos. “Atravessando a ponte que cruza o Rio Atibaia em Sousas, distrito

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de Campinas, logo é possível ver uma banca de jornal no canto da Praça Beira-Rio, em frente alguns banquinhos de madeira parecem convidar quem está passando a comprar um jornal e aproveitar a tranquilidade. No entanto, Márcio Domingos, jornaleiro há 16 anos, diz que nos últimos anos poucas pessoas têm parado em sua banca. Aos domingos as vendas aumentam, pais levam os filhos para andar de bicicleta e compram algum jornal ou revistas, as famílias quando saem da missa também sempre param para ver alguma coisa. Mas nos outros dias, o movimento é pequeno. Ele não fica sozinho, muitos velhinhos vão todas as manhãs na banca conversam com ele, folheiam os jornais, comentam sobre as notícias, mas, infelizmente, não compram nada. “Estou aqui há 16 anos, muitas pessoas me conhecem e por isso vem aqui leem o

que interessa e vão embora”, explica. Mas Márcio não fica bravo com essas situações, o que o deixa incomodado são as distribuidoras. Segundo ele, as editoras parecem querer complicar ainda mais as vendas das bancas, limitando a distribuição das revistas e jornais que mais saem, alterando o horário de entrega das publicações e em alguns casos, até mesmo distribuindo exemplares gratuitamente em frente à banca. O jornaleiro explica que as editoras preferem incentivar as assinaturas, o que acaba compensando por ser mais cômodo e rápido, além dos descontos que muitas vezes são oferecidos. E mais uma vez Márcio lembra “as pessoas têm pressa, parar na banca para escolher uma revista é um tempo que elas não podem perder. A minha grande inimiga na verdade é a pressa.”


Crônica Diagramação: Arnold Fruneaux

Entrar em uma banca de jornal desconhecida me causa o mesmo nervosismo do que a primeira visita à casa de uma nova namorada. Eu não sei como me portar, aonde me colocar, os locais onde estão as coisas importantes, o que evitar. É como andar em um campo minado. As chances de um final feliz são mínimas. Muitos ao lerem este texto, devem pensar que é um exagero meu. Mostrolhes que não. Nestes dias, fui ao centro da Cidade com a minha mãe. Eu iria levar um produto eletrônico para conserto. Coisa de cinco minutos. Mas minha mãe resolveu comprar algumas roupas, não somente para ela, mas para toda a família. Acompanhá-la em seu ritmo é impossível, e minhas exortações para irmos embora não surtiam nenhum efeito. Resolvi recorrer a Deus. Sentei-me nos bancos da Catedral Metropolitana e ali fiquei. Uma, duas horas. Vi pessoas em lágrimas, outras rezando fervorosamente – e, eu ali. Sentado. Só sentado. Percebi um grupo de senhoras já de muita idade ao fundo. Achei que elas me encaravam de maneira pouca amistosa – será que me reprovavam por estar na casa de Deus sem fazer nada? Afinal, fui só para dar uma sentadinha e apoiar as costas. De todo jeito, esses olhares – na minha visão – me tiraram da Catedral e deram o prosseguimento a esta crônica. Já meio desorientado e sem ter muito que fazer, entrei na primeira banca de jornais que me apareceu. Assim como quando entro na casa de uma

Vai Curintia!! nova namorada, tento fazer uma imagem mental da minha casa, e meus primeiros movimentos são assim determinados. A banca inóspita é igual e me lembro da banca que religiosamente frequento. Assim, ao adentrar no desconhecido dou dois passos para a esquerda, estes mesmos passos me levariam na “minha banca” `a seção de quadrinhos e de pesca, o que me daria um tempo para observar o ambiente e determinar qual o posicionamento dos temas das revistas. Para minha surpresa, ao erguer os olhos dou de cara com revistas de pornografia da mais pesada – homens, mulheres, homens que querem ser mulheres, mulheres que querem ser homens, látex, etc. Quem me viu neste momento, me viu corar e me afastar sutilmente desta seção. Se os olhares das velhinhas da Igreja captaram este momento, aposto que estariam dizendo: “Eu sabia, era um pervertido”. Continuo desorientado sem saber aonde ir. Seção de revistas de carros, nenhum perigo, olho as capas e ok. Passo reto pelas revistas de novela e pelas femininas. Paro nas de temática musical. Olho a capa, folheio algumas, mas logo as devolvo à prateleira. Olho as semanais, as de cultura. Nada me atrai muito, mas já fazia um bom tempo que estava ali e resolvo comprar uma de esportes, caso tenha que esperar mais pela minha mãe. As filas de bancas sempre são curiosas. Eu gosto de observar o que as pessoas estão comprando e tentar decifrá-las. Neste fatídico dia, um rapaz a

Fernando Zanaga

minha frente estava com uma Caros Amigos em baixo do braço. Logo pensei: deve ser de algum centro acadêmico de um curso de humanas e quer uma leitura na qual identifique ideias como as dele, estas últimas, lhes transmitidas por algum professor. Voltando à visita da casa da namorada, por analogia, seria o mesmo que ao conhecer um sogro, e usar uma camiseta do Che-Guevara (caso se saiba antecipadamente que o pai é afiliado do PSTU, deve-se reconsiderar). Na frente deste rapaz, uma senhora carrega duas revistas de fofocas. Ou tem um consultório de dentista ou é dessas pessoas que dizem que leem muito. E quando você pergunta o que, responde na maior cara de pau: Caras, eu penso. Finalmente chega a minha vez. O caixa pergunta seco: - Dinheiro ou cartão? - Cartão. - Débito ou crédito? -Débito, por favor. Neste meio tempo, até a máquina do cartão processar a compra o caixa olha a revista e comenta que esse ano o Corinthians vai. - Vamos ganhar a Libertadores. Esse ano é nois, mano. Transação aprovada. Eu timidamente pego a revista. E para me despedir do simpático corintiano, vocifero: - Vai Curintia!!! Como na primeira visita à casa da namorada, tudo o que sinto ao sair desta banca é um misto de vergonha e alívio. Que bom que acabou...

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Reportagem

Revistas da RMC: Falta dinheiro e espaço Editoras são unânimes na afirmação de que é difícil manter as publicações voltadas para a região Reportagem: Amanda dos Reis, Laís Russo e Thalita Sotero Edição: Leandro Bettiol Fotógrafia: Amanda dos Reis Diagramação: Leandro Bettiol

A Região Metropolitana de Campinas (RCM) é constituída por dezenove municípios paulistas, mais de 2,5 milhões de habitantes e soma um Produto Interno Bruto de 100 bilhões de reais. Mesmo possuindo uma forte economia e apresentando uma infraestrutura que proporciona o desenvolvimento de toda a área metropolitana, em termos de produtos jornalísticos, mostra uma carência de revistas de conteúdo jornalístico, que retratem o perfil da população. Devido a esse panorama, realizou-se um levantamento de dez revistas na RMC que se encaixavam nos padrões de um produto jornalístico, das quais quatro, de maior abrangência na região, se dispuseram a falar com a equipe da Beta para uma pesquisa mais aprofundada, que resultou nesta reportagem. Dentre os veículos selecionados estão a Revista RMC (ou Revista Campinas), voltada para matérias culturais e a Terra da Gente, abordando temas ambientais, produzidas em Campinas e distribuídas na RMC. A

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Trifatto, de Piracicaba, que traz reportagens sobre moda, também distribuída na região e a Mais Circuito Regional, de Pedreira, voltada para variedades, com distribuição para o Circuito das Águas. É preciso citar nesse cenário a revista Metrópole, umas das principais publicações que se encaixa como jornalística e é produzida em Campinas, que se diz forte na prestação de serviço. Circula gratuitamente aos domingos, em 32 cidades, encartada no jornal Correio Popular. As matérias abordam gastronomia, beleza, saúde, educação e moda, demonstrando que mesmo sendo um encarte dominical ao lado de outra revista puramente publicitária do grupo, a Panorama RAC, a Metrópole é de conteúdo comportamental jornalístico. Nesse mesmo sentido encontramos, ainda em Campinas, a Terra da Gente, publicação do Grupo EPTV, que como explica o seu diretor executivo, Valdemar Sibinelli, as principais dificuldades encontradas são descobrir um público que demande

Fora da Região Metropolitana

um produto novo no mercado e mantê-lo financeiramente, independentemente de essa publicação ser regional ou nacional. O aspecto financeiro é um problema comum entre as produções regionais, o que ajuda a explicar as diferenças de volume quando colocadas lado a lado com as da capital. O editor da Revista RMC, Renato Leodário, conta que todos os anos ele tem de correr atrás


de Campinas, a revista Trifatto, de Piracicaba, é exemplo de jornalismo de comportamento e bem estar

de patrocínio, incentivos fiscais e culturais para produzirem seu material. Ele afirma que a RMC já captou verba junto ao Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet, lei federal de incentivo a cultura e da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo. O editor executivo Sibinelli, da Terra da Gente, conta que a revista tenta ser conhecida pelo potencial leitor-assinante, numa tentativa de se desvencilhar da

publicidade, fator que Leodário, diz ser “impossível manter sem anunciantes”. Outro desafio para a Terra da Gente é uma certa dificuldade para manter o conteúdo de interesse nacional, uma vez que o programa de televisão, precursor da publicação impressa, tem uma audiência forte nas cidades em que é transmitido: Campinas, Ribeirão Preto, São Carlos e Varginha-MG. Porém, não che-

ga às grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro e aí é feito um trabalho de divulgação nas bancas e também da marca visual, que conta sempre com um bicho na capa e, ainda, pelo conteúdo ambiental. Além da parte financeira e de autonomia, também não existe espaço para informar ao leitor tudo o que a região tem a oferecer. É o que afirma a diretora editorial da revista Trifatto,

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Reportagem Mara Ferraz, que se justifica dizendo que é grande a produção de coisas boas da região. Mara afirma que os anunciantes são estáveis e que a qualidade é desafiadora, pois na revista todas as matérias, reportagens e os editoriais de moda são feitos pela equipe. “Nós não captamos pautas e matérias de outros veículos, tudo é produzido em Piracicaba.” Outro problema para as publicações regionais é a falta de profissionais. A diretora executiva e de marketing, Priscilla Ragio, aponta a escassez de pessoas capacitadas principalmente no setor comercial, afirma que isso atrapalha o desenvolvimento do produto. Priscilla diz ainda que as revistas feitas na capital do Estado não conseguem abranger com propriedade as discussões regionais e Sibinelli, da Terra da Gente, concorda. “Quando lemos revistas nacionais, perdemos espaço para discussões de problemas locais.” Para ele, sua equipe tem vantagem por poder desfrutar de uma redação que compartilha os recursos materiais e humanos com outros veículos, reduzindo custos. A Trifatto, no mercado desde 2007, a RMC, de 2003 e a Mais, de 2007, são gratuitas, já a Terra da Gente, de 2004, tem o custo de R$ 10,00. Sobre a periodicidade, as duas primeiras são bimestrais e semestrais, respectivamente, enquanto as duas

últimas são mensais. As tiragens variam. A Revista RMC tem saída de 30 mil exemplares, enquanto a Terra da Gente, 25 mil, a Trifatto, 50 mil e a Mais, 10 mil. Comparadas à revista Veja, produzida em São Paulo, que detém a maior circulação nacional, com estimados 800 mil, as regionais deixam a desejar, pois somadas, não chegam a 15% do valor da menina dos olhos da Editora Abril. O mercado é e sempre foi acirrado, segundo Renato Leodário, da RMC. Ele conta que segundo pesquisa realizada pela ANER, Associação Nacional de Editores de Revistas (www.aner. org.br), em 2001 eram 2243 títulos de revista no Brasil e, em 2010, passou para 4705. Porém, ele diz que falta incentivo para

Na Região Metropolitana de Campinas, as revistas regionais possuem grande interesse em expandir seu mercado, para aumentar o número de leitores

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as produções encontrarem o que vai diferenciar uma publicação da outra. Para Sibinelli é difícil manter uma revista segmentada no mercado regional, por isso o grande interesse dessas revistas em expandir suas circulações. Mara Ferraz, da Trifatto, completa dizendo que o interior esta lendo mais, o que é positivo para aumentar os produtos e o consumo de revistas jornalísticas. Fato constatado em pesquisa do Instituto Pró-livro, de 2011, que afirma que dos cinco mil entrevista-dos, 49% leem mais do que no passado, contra 28% que leem menos e 20%, o mesmo tanto. Ainda, 53% preferem ler revistas, a maioria, seguida por jornais, com 48%.


Artigo Diagramador: Leandro Bettiol

Imparcialidade é utopia e discurso, senso comum Textos objetivos e imparciais. Com referência no Positivismo, o jornalismo neutro e isento, para que puramente e simplesmente sejam noticiados os fatos tais como eles são, é o discurso que permeia levianamente o senso comum. Há linhas de pensamentos e estudos fundamentados na corrente de pensamento citada, que permeiam o exercício jornalístico, ou melhor, o jornalista e o cumprimento de seu papel nas redações. É como se ele fosse uma espécie de “Robocop” da verdade, que estará levando as informações ao público de modo que somente este, unicamente faça suas múltiplas interpretações. A realidade que cai muitas vezes no esquecimento é de que o jornalismo é produzido por pessoas e, como tal, os seus profissionais são frutos de referências adquiridas por toda a sua vida, de interpretação de cada fato, entrevista e informações recebidas, principalmente em sua essência é um ser subjetivo. Logo, tratar a imparcialidade como um ideal de imprensa e de credibilidade para o jornalista é discurso simplista e incoerente. Ao se deparar com as magazines, mais conhecidas como revista, embrenha-se num universo um tanto quanto particular

em relação aos outros veículos de comunicação. Já em sua origem no Brasil, logo após a criação do jornal diário, a revista Ensaios de Literatura, de 1812, trazia claramente em seu editorial a defesa do absolutismo monárquico português. Assim, o seu leitor teria conhecimento de qual viés político seria retratado nos textos ali presentes, não tendo e nem existindo problemas nisso. A parcialidade, não a manipulação, deixa muito claro sob de que aspecto está sendo escrito, falado e para quem está sendo direcionada a informação, ela apaga a neblina que perpetua a origem de reportagens, matérias, suas afirmações, implicações e desdobramentos. Mascarar “verdades absolutas”, justificando como jornalismo investigativo, ouvir os dois lados da história, aliás, toda história apresenta múltiplas faces e lados; é tão perigoso quanto à imposição de um discurso, principalmente porque tais publicações se apropriam do discurso da imparcialidade, quando suas intenções são exatamente o contrário. Afinal de contas, afirmar que as revistas semanais são a verdadeira realidade dos fatos é uma forma de impor uma opinião para a sociedade. Esta produzida por

Thalita Galluci

uma empresa de comunicação, antes de tudo, conta com uma ideologia que pode ser plena para uns ou para outros, mas não para todos. Em “A Ordem do Discurso (1996)”, Michel Foucault, afirma que todo discurso pode ser instrumento de controle, assim, a relação de poder e saber implica na produção de efeitos de verdade. A “verdade” para o filósofo francês é um conjunto de procedimentos regulados para a produção, distribuição e funcionamento do discurso. Assim, o discurso jornalístico produz e reproduz, por relações de poder e vontade de verdade. Oferecer ao leitor de qual viés é pautado tal veículo é mais do que ético, é dar a oportunidade ao seu público de questionar, criticar, interpretar, agregar e não simplesmente aceitar. Ultimamente vemos que as revistas estão caminhando para a clareza de suas linhas editoriais, o que é muito positivo. Em sua concepção, seguindo pela linha da segmentação e tematização, já é possível saber como pensam e de que maneira seus jornalistas produzem o veículo. Isso enfaticamente não significa tendencioso, muito menos apresenta apenas um lado e versão, mas sim deixa muito claro qual parte da verdade será contada.

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Crônica Diagramação: Rayssa Fagundes

É bela, mas maltrata os seus Dia 21 de maio e espero pela carona para ir a São Paulo, em busca da entrevista que estampará a capa do projeto da classe de estudantes do 4º ano de jornalismo da PUC-Campinas – uma revista sobre revistas. Um carro prata para na beira da pista próxima à minha casa. Reconheço meus colegas e vamos embora, rumo a cidade que nunca dorme. Para alguém que não tem o hábito de ir para a capital, estar ali já seria muito animador, mas se os planos incluem uma entrevista com Mino Carta, hoje dono e editor-chefe da revista Carta Capital, é de se ficar ansiosa Mas meu foco não é contar sobre a entrevista ou sobre a experiência com o mestre, pai de tantas revistas de sucesso. Quero compartilhar as sensações que senti ao chegar em São Paulo e aproveitar cenas, lugares e cores que a metrópole oferece para quem lá estiver. O movimento caótico não impede que eu olhe pelas janelas de forma despreocupada. Quero captar detalhes e cada movimento diferente. Para alguns isso pode ser uma atitude caipira. Será mesmo? Acho mais caipira ter vontade de fazer algo e se limitar, só por não ser algo convencional para os demais. Teve vontade de fazer? Se não for errado ou desonesto, faça. A vida não é muito longa para que as pessoas passem por ela se policiando sobre o que dizem e fazem. Creio que se dar ao direito seja fundamental em certas situações e nesta especificamente, me dei o total direito de aproveitar aquelas horas entre mais de 10 milhões pessoas que tornam as ruas movimentadas e cheias de caras, estilos e vidas di-

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ferentes. Chegamos com alguma folga no horário e por isso podemos procurar uma vaga ou estacionamento com calma. Quase não consigo disfarçar para o funcionário do estacionamento minha estranheza pelo preço ali cobrado: R$ 18 por hora. Não esperava por esse valor, depois disso, vi que a inflação e os impostos sobrecaem sobre qualquer produto ou serviço mesmo. “Estamos na Avenida Paulista Monique, é assim para pior!”, diz um de meus colegas – tudo bem, mas precisa mesmo de tudo isso? Depois deste roubo – digo, estacionamento – começamos a caminhar em busca de um café quente para combater o frio e organizar os últimos detalhes antes de ficarmos frente a frente com Mino Carta. Andamos mais um pouco e me deparei com um prédio moderno, com um belo jogo de luzes. “Estamos em São Paulo, você vê coisas que só existem aqui mesmo, relaxa” alguém do grupo me diz, percebendo minha expressão de curiosidade. Resolvemos entrar na Starbucks. Preços altos, café famoso, mas para mim, com pouco sabor – bebida aguada. Esperava mais. Percebo que seja em ônibus urbanos ou cafeterias famosinhas, onde as pessoas vão sempre muito bem vestidas, não há educação na maioria das pessoas. As atendentes que registram os pedidos não ouviram “Boa tarde” ou “Obrigada” de nenhuma das quatro pessoas à minha frente. Todas simplesmente fizeram seus pedidos como se conversassem com máquinas. Café com leite aguado tomado, tudo certo para a entrevista. São

Monique Ribeiro

quase 18h, seguimos para a Carta Capital e após um pouco mais de uma hora de conversa, estávamos para fora do prédio, perplexos, pálidos e ainda com uma sensação de “Jura que isso aconteceu com a gente, mesmo?”. Tirar Mino Carta do seu eixo sereno não era previsto, mas aconteceu. Confesso, fiquei com uma mescla de medo e vergonha, não pela pergunta feita, mas de todos aqueles olhos da redação que caíram sobre nós, ao sair em passos largos após um sonoro “Passem bem!”. Depois daquele acontecimento só um brinde e uma porção de fritas para voltar aos nossos ânimos normais. Já era hora de voltar para casa. Na caminhada até o estacionamento foi quando mais me surpreendi. Durante o dia não vi nenhum morador de rua, mas foi só escurer que eles se multiplicaram. Estava muito frio e mulheres se acomodavam com crianças de colo pelas calçadas, sem expectativa nenhuma no olhar. Aquilo mexeu muito comigo. Saí da cidade que nunca dorme pensando naquelas pessoas que não têm o que comer ou para onde ir e nas atendentes que raramente recebem um cumprimento digno. Não se pode fechar os olhos para esses problemas e fingir que não têm nada ver comigo. Não é possível que pessoas e mais pessoas insistam na ideia de que atendentes, frentistas e outros profissionais não tenham o direito de ter um minuto de atenção e educação. Estas são pessoas como qualquer outra que conhecemos. Não creio que temos o direito de mal tratá-las ou julgá-las. Ninguém tem esse poder, na realidade.


Entrevista

Repórter: Thaís Ferreira Editora e diagramadora: Caroline Pereira Fotógrafa: Thaís Ferreira

A gente é da

Terra

Uma conversa com o editor executivo, Valdemar Sibinelli

Na Era da Informação, o conhecimento é, além do melhor capital, a condição para que cada indivíduo se conscientize do seu papel no equilíbrio ambiental. A divulgação de assuntos relacionados ao meio ambiente se torna cada vez mais importante para a população entender que não estamos sós, nem somos os “donos” desta casa comum, que é o Planeta Terra. Para falar sobre a importância desse tipo de informação trazida à sociedade, conversamos com Valdemar Sibinelli, editor executivo da revista Terra da Gente, da Editora Globo; uma publicação com amplitude nacional, especializada em biodiversidade, nas relações do homem com a natureza e na defesa do uso sustentável dos recursos naturais.

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β: Qual é a proposta da revista Terra da Gente? Valdemar Sibinelli: A Terra da Gente nasceu para o público em maio de 2004, com a proposta de ampliar, através da mídia impressa, o objetivo do programa de TV Terra da Gente (à época com sete anos) de levar conhecimento ao leitor e, consequente, compromisso com o meio ambiente; objetivo sintetizado no slogan “Conhecer e Conservar para Compartilhar a Vida”. β: Como é fazer uma revista especializada em vida selvagem? Sibinelli: Não é fácil, por vários motivos. A matéria-prima geralmente está longe da redação, da cidade, está espalhada por todo o Brasil, pelo mundo. Não dá para marcar dia e hora para entrevistar os bichos e nem sempre a natureza colabora com as “incursões” nela. As fontes de informações capacitadas e confiáveis não são muitas, geralmente pesquisadores, sempre ocupados com o magistério ou “sumidos” durante os trabalhos e pesquisas de campo. Também há uma carência de jornalistas especializados em temas ambientais. Por fim, tem o desafio de informar de maneira cientificamente correta, mas compreensível para o leitor – que pode ser o pesquisador, o estudante de Biologia ou áreas afins, mas também pode ser o operário, a dona de casa, o adolescente. β: A quem a revista é destinada? Sibinelli:O público alvo e potencial não é limitado por sexo, idade, raça, nível socioeconômico e cultural ou outras circunstâncias pessoais e grupais, já que todas as pessoas são, ao mesmo tempo, agentes de transformação e destinatários das mudanças ambientais. O conteúdo da Terra da Gente se presta a muitos olhares, dependendo do nível de interesse.

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Redação da revista Terra da Gente: veículo possui pauta própria

β: Qual a relação da revista com o Programa Terra da Gente? Os assuntos abordados são os mesmos? Sibinelli: A relação é de “filiação”, o objetivo final é o mesmo – a conscientização ecológica – mas os meios e os assuntos são diversos. Cada veículo tem sua pauta própria. No programa de TV, os assuntos são “amarrados” a partir do fio condutor da pesca esportiva. Na revista, cada assunto é independente, autojustificável. Do programa de TV a revista aproveita, mensalmente, uma matéria de pesca esportiva, e mesmo assim com enfoque diferenciado, com mais informações e menos descrição das pescarias. β: Qual a diferença de fazer matérias para um veículo de circulação nacional, para um regional? Como deve ser o tratamento das matérias em cada um deles? Sibinelli: A diferença está na amplitude do interesse e da importância dos assuntos abordados. Uma reportagem sobre uma espécie da fauna e da flora sempre desperta

a curiosidade e o interesse do leitor, mesmo que aquela espécie não ocorra no estado ou no bioma onde ele mora. Em relação a outros assuntos ambientais é preciso sempre perguntar: o que isto interessa ao leitor do Sul, do Sudeste, do Centro-Oeste, do Nordeste e do Norte? Um exemplo prático: a construção de uma barragem no rio Piracicaba ameaça uma área ribeirinha chamada Tanquã, um mini- Pantanal entre Piracicaba e a vizinha Anhembi. Isso é importante e relevante para a comunidade local, principalmente a colônia de pescadores, mas não para outras regiões e estados. Mas se a comunidade se unir e evitar a barragem para salvar o Marrecão, espécie de ave mais comum no Sul e, em SP, só registrada no Tanquã, aí o assunto ganha relevância nacional, como exemplo a ser repetido pelo Brasil agora de como a união da comunidade pode salvar um ecossistema ou uma espécie da extinção local. Foi o que aconteceu, por exem plo, no Vale do Cariri, no semiárido nordestino, no Ceará,


onde a comunidade salvou o amealguns no Exterior. açado Soldadinho-do-araripe e agora tem emprego e renda graças ao β: Como é feita a cobertura das turismo de observação de aves. O matérias? ecoturismo como viabilidade ecoSibinelli: Por todos os meios disponômica de um proníveis, preferencialToda pessoa jeto de conservação mente com a prede um recurso natusença do repórter. trabalha ral é algo que pode Nada como mosmelhor e ser implantado em trar, dar “voz” às rende mais qualquer parte do pessoas, valorizar quando faz Brasil. personagens. Como o que sabe e revista mensal, não β: Quais são as refazemos cobertura gosta do que vistas concorrentes do factual, embora faz. da Terra da Gente? possamos repercuSibinelli: Começam a surgir uma ou ti-lo de forma analítica. O conteúdo outra revista eletrônica com o mesda Terra da Gente tem prazo de valimo viés ecológico. Entre as impresdade bem esticado. sas, a mais conhecida é a National Geographic, mesmo tendo ela um β: Quais os critérios utilizados para leque maior de assuntos, um foco a seleção das reportagens? mais aberto. Sibinelli: Os critérios são importância e interesses amplos, do ponto de β: Qual é o alcance da revista? vista geográfico e do leitor, e prefeOnde ela é mais vendida? rencialmente matérias propositivas, Sibinelli: A Terra da Gente tem asque contraponham a um problema sinantes e venda em banca em touma experiência das as regiões do Brasil, com uma de solução que concentração maior nas áreas que pode ser replirecebem o sinal da EPTV, no intecada em outros rior de SP e sul de MG, pela marca lugares com projá conhecida anteriormente graças blemas iguais ou ao programa de TV e onde a revista similares – como ganha divulgação nas emissoras do a “salvação” do grupo. De todas as revistas brasileiSoldadinho-doras de circulação nacional, a Terra -araripe. Enquada Gente é a única que vende mais drar-se no perfil em banca no interior de SP do que da revista tamna Capital. Além da venda em banbém é condição ca e dos assinantes, a revista chega essencial. Há estambém às escolas, como material paço para matéde apoio paradidático, num kit que rias de educação, inclui vídeos produzidos pela EPTV. cultura, turismo, folclore, desde que tenham um viés β: De onde surgem as ideias de ambiental, alguma relação de caupauta? sa e efeito das relações do homem Sibinelli: As ideias para as pautas com a natureza. vêm de várias fontes: pesquisas internas, noticiário factual, sugestões β: Como é o ritmo de uma revista de leitores, assinantes e jornalistas de publicação mensal? colaboradores por todo o Brasil e Sibinelli: Como publicação mensal,

procuramos trabalhar com tempo suficiente, desde a pauta à edição. Até porque a revista não tem um quadro de repórteres exclusivos – a não ser um editor executivo e uma editora. Nossos repórteres são colaboradores internos ou externos. Os internos são os jornalistas das praças EPTV (Campinas, Ribeirão Preto, São Carlos e Sul de Minas). Os colaboradores externos são os “frilas”, não exclusivos. Em qualquer época do mês estamos sempre trabalhando em cima de duas ou três edições: ao mesmo tempo que se está fechando a próxima edição, começa-se a receber material para a edição posterior, afina-se a pauta para daqui a dois, três meses. Parte-se de um planejamento quadrimestral que vai sendo afunilado mês a mês. São necessárias várias revisões para não haver erro de conteúdo nem de forma. Há muitas informações e nomes científicos de espécies de fauna e flora que demandam atenção redobrada. β: A revista Terra da Gente se mantém fiel ao seu propósito inicial ou, com o tempo, houve mudanças? Sibinelli: O propósito inicial nunca mudou. Mas em nove anos e às vésperas da edição nº 100, naturalmente ocorreram alguns ajustes finos, principalmente no visual, agora mais clean, com leitura mais agradável e mais destaque para fotos e infográficos. Fauna e flora, durante alguns anos só brasileiras (até a edição 73), agora estão “globalizadas”, mantendo a prioridade para as espécies nativas.

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Reportagem

A linguagem do

Conheça a infografia, recurso utilizado na produção de matérias que facilita a transmissão de informação Ao folhear uma revista ou um jornal, é comum deparar-se com ilustrações gráficas que favorecem a simplificação dos fatos expostos na reportagem em questão para aqueles que geralmente não têm tempo o suficiente para ler a matéria inteira. Esse facilitador que costuma estampar as páginas de veículos famosos como a Superinteressante e Galileu é conhecido como infográfico. Com a evolução da tecnologia e a necessidade de se obter informações de maneira mais rápida e prática, os infográficos tornaram-se uma ferramenta indispensável na produção de matérias jornalísticas. Tal recurso envolve um conceito moderno em que se aliam imagem e texto, oferecendo ao leitor uma melhor percepção sobre o assunto tratado. O termo “infográfico” origina-se da junção de duas palavras em inglês, “informational graphics”, e contribui na representação de informações técnicas como números, mecanismos e/ou estatísticas, transmitindo a informação

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FUTURO Reportagem: Renata Cunha Edição: Artur Vergennes Ilustração: Ingrid Emerick Diagramação: Rayssa Fagundes ao leitor em pouco tempo e espaço. Normalmente, os infográficos são utilizados nas editoriais de Saúde, Ciência e Tecnologia. A infografia é a segunda área a ser vista durante a leitura, empatando com a fotografia. Ambas só perdem para o título da notícia, que é a primeira a se perceber em uma matéria ou reportagem. No Brasil, a infografia começou a dar seus primeiros passos perto do final dos anos 90. A linguagem já era reconhecida na Europa, principalmente na Espanha, pelos jornais El Mundo e El País. “Na mesma época, o então diretor de redação da revista Superinteressante, Eugênio Bucci, entrou em contato com os espanhóis e os convidou para ministrar palestras e workshops para vários profissionais da Editora Abril”, conta o diretor de infografia da Abril, Luiz Iria. “Foi onde eu me identifiquei com a infografia e resolvi seguir carreira. Trabalho com infográficos a mais de 15 anos”, completa. Segundo Iria, a infografia se tornou marca registrada em re-

vistas como Superinteressante e Mundo Estranho, por exemplo. “Seus leitores já são bastante familiarizados com o recurso, pois eles entendem e apreciam cada vez mais”, declara o diretor. Pesquisas feitas pela Editora Abril em revistas que usam infografia mostram um alto índice de leitura nos infográficos, provando que o leitor já aderiu e aprovou a linguagem que vem crescendo a cada ano. Iria ainda afirma que, com a chegada dos tablets, tem início um mundo novo de inúmeras possibilidades para a infografia oferecendo interatividade e movimento. Para criar um infográfico é preciso que haja um processo de planejamento desde o momento do primeiro layout até a sua edição final. De acordo com Luiz Iria, esse processo era desconhecido antigamente e os trabalhos eram feitos na base da intuição e sem a integração do repórter com o designer.


“As revistas mensais como SupeFuriatto, é preciso que o autor da rinteressante e Mundo Estranho matéria seja o fornecedor de inforlevam de duas a três semanas para mações para que o infográfico seja produzir uma infografia. Depenproduzido. A partir daí, o trabalho dendo do tema, podemos planejar fica a cargo do editor, do coordeo trabalho para ser finalizado de nador de arte e do ilustrador. “Já dois a quatro meses”, conta Iria. tivemos casos em que um único O diretor ainda infográfico foi feito por revela que 90% três ilustradores e com dos infográficos Os leitores já ajuda de mais um repórfeitos hoje em dia são bastante ter e um editor”, afirma são digitais, senFuriatto. “Tragéfamiliarizados do indispensável dias costumam ser com o recurso, o uso do computador os pontos potenpara agilizar o processo eles entendem ciais da infografia”, e apreciam cada de trabalho. “Programas completa. vez mais como o Photoshop, por A infografia coexemplo, possibilita o meçou a ser usada uso de layers (camadas) pelo Grupo RAC no onde é possível deixar todos os eleinício da década de 90, seguindo mentos visuais do infográfico sepauma tendência mundial de inforrados, podendo mudá-los de lugar mação. Em 1996, seu uso passou a facilmente”, explica Iria. ser ainda maior com a informatizaDe acordo com o editor de arte ção da editoria de arte. Em seguida Rede Anhanguera de Comunicada, seus profissionais de ilustração ção (RAC) de Campinas-SP, Osvaldo passaram por especializações na

área e, até então, a infografia vem sendo usada cada vez mais por veículos como Correio Popular, revista Metrópole e Diário do Povo, além dos portais online. Passo a passo Para que o editor de arte inicie a produção de matérias com infográficos, é preciso que, primeiramente, o repórter faça a apuração, além de trazer também referências visuais para as ilustrações. Na reunião de pauta, são definidas quais as informações que irão compor o infográfico. A partir daí, o ilustrador faz um rafe, um rascunho da arte, onde são acertados os últimos detalhes e mudanças. “Com o rafe aprovado, o texto é editado ali mesmo, enquanto o ilustrador começa a finalizar o trabalho”, afirma Luiz Iria. Quando às ilustrações já estão prontas o designer aplica os textos já editados e está pronto para publicar.

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Matéria de Capa

cabeça era pedida pelo próprio “Minha Geisel, o que me honra extremamente Italiano naturalizado brasileiro e um dos principais nomes do jornalismo do país. Este é Mino Carta, entrevistado desta edição. Ele recebeu a Beta no prédio onde fica localizada a redação de uma de suas criações, a revista Carta Capital. Ao longo de uma hora, Mino dá uma verdadeira aula de política e jornalismo, tecendo críticas dos, que talvez sejam, dois assuntos que mais resumem sua vida. Criador de publicações como Veja, Istoé, Quatro Rodas e Carta Capital, tornou-se um verdadeiro mito do mundo das revistas. O senhor de 78 anos e rosto bondoso não se assemelha a sua fama de ranzinza. Conhecido por seu temperamento forte (o sangue italiano talvez explique) e críticas nada veladas a diversas personalidades, Mino Carta não economiza palavras quando o assunto é a veracidade das reportagens de sua revista. Contudo, a simples presença de Mino Carta intimida e assusta, mas a entrevista tem de começar. Colocamos o gravador em cima de sua mesa. Segurando um copo de refrigerante light, o jornalista elogia a atitude: “grande ideia”. Afinal, não é muito agradável realizar uma entrevista – no formato “ping pong” – e impor um gravador na altura da boca do entrevistado. Após explicar o motivo da entrevista e onde ela seria veiculada, senhor Mino retribui: “Estou às ordens!”- e sorri.

Reportagem: Amanda Cotrim, Danilo Zanini, Monique Ribeiro Fotografia: Ubiratan Maia

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Edição: Rayssa Fagundes Diagramação: Michele Bury


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βeta: Quais os dias mais tranqüilos na redação da Carta Capital? E quando acontece o fechamento? Mino Carta: Segunda e Terça feira são os dias mais tranqüilos. Na quarta feira é mais pesado. Nós fechamos na madrugada de sexta e já estamos nas bancas ao mais tardar ao meio dia de sexta. O resto do país é sábado.

Brasil é que sofreu algo monstruoso que foram os três séculos e meio de escravidão. Então isso está erradicado na alma brasileira né. O povo brasileiro é incapaz. Certas pessoas descambam para a criminalidade, que é totalmente natural, mas não tem a capacidade de ter o sentimento da cidadania. Nós somos incapazes de entender o que quer dizer ser cidadão..

β: Quando a Carta Capital desapareceu naquela edição do estado de Goiás, de quem foi o erro? MC: Foi talvez um acerto do serviço de segurança do governador Marconi Perillo. A revista foi praticamente apreendida nas bancas, comprada né? Eles foram lá, como nos tempos da ditadura, que acontecia muito com a Veja. Quer dizer, uma apreensão nas bancas. Iam às bancas e compravam o reparte de cada banca. Uma ação muito eficaz, bem organizada.

β: O que deve ser feito para que os brasileiros tenham essa consciência? MC: Nós tivemos a pior elite do mundo. Os brasileiros são os herdeiros da casa grande. Eu acho que a tragédia brasileira são três séculos e meio de escravidão e uma elite cafajeste, vulgar, prepotente, arrogante, incapaz, incompetente, muito incompetente, muito ignorante. Nossa elite é uma tragédia.

β: O senhor é italiano, mas, com tantos anos morando no Brasil, se considera mais brasileiro ou mais italiano? MC: É que as raízes são muito fortes, né? Eu me acho mais italiano. Embora eu tenha chegado aqui com doze anos. Mas eu percebo o Brasil como um país meu, tanto quanto a Itália, mas muitas vezes eu não entendo os brasileiros. β: O que você não entende no Brasil? MC: A infantilidade né, um país infantil. Festeiro, estupidamente festeiro. Mas o problema do

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β: O senhor escreveu que se a gente tivesse mais acesso a leitura, a mídia nativa poderia nos controlar mais, né? MC: Eu acho que não há povos melhores e povos piores. Assim como raças melhores ou raças piores. As circunstâncias históricas são diferentes. Digamos, um belo dia a nação brasileira, que a meu ver não existe ainda, existirá e será muito adequada a um país excepcional que é o Brasil. Isso causa até mais tristeza, mais melancolia, mais frustração o fato de que estejamos vivendo nele, um país único, não existe no mundo um país igual ao Brasil em termos de beneficies ofertadas de gra-

ça pela natureza. Não existe um país tão único, com tanto espaço ainda e pouca gente pra ele. É que essa elite é tão calhorda que ela permitiu o inchaço das cidades, sair do campo. Então, há uma péssima distribuição da população brasileira dentro do território brasileiro, tão ruim quanto à distribuição de renda. A nossa distribuição de renda nos coloca ao nível da Nigéria e de Serra Leoa. β: Diminuiu no nosso último governo 68%. MC: (Risos) Isso é uma piada, desculpe. O fato que tenha diminuído, e realmente, pode ter até um pouco diminuído, quer dizer, analisado de um estreito ângulo econômico as classes sociais mudaram. A classe E progrediu para D, a classe D progrediu para C. Isso é inegável. Mas nós não temos uma burguesia. A nossa classe média não existe, é uma piada. Não adianta você ter algum dinheiro, aliás com três mil reais você no Brasil é classe média, isso me faz gargalhar. β: A Coréia cresceu em cima da classe média, né? MC: Sim, mas tudo isso é vendido no Brasil de uma forma profundamente errada. A classe média é uma classe que lê, é uma classe que tem a consciência da cidadania e que nos países europeus é a maioria da população. β: Mudando um pouquinho a comparação agora, entre Brasil e Itália... MC: Não, esquece a Itália. Por


em Abu Dhabi.

que a Itália tem milhares de anos de experiência, então é diferente. Eu não acho que essa comparação é honesta, é justa. Embora eu ache que o Brasil deveria ter aspirações consonantes a sua extraordinária capacidade, a sua incrível potência natural. A Itália é uma piada perto do Brasil. A Itália é um país pedregoso. Tem um pouco de terra fértil num certo ponto, entende? É só isso. Não tem recursos naturais, zero recursos naturais. Se comparamos com a Itália a França já tem muito mais área fértil, mas são pequenos. Se você junta toda a Europa não chega a ser o Brasil. Em termos de território... Então não se compara. Hoje em dia será profundamente injusto. β: Na hora de lidar com o crime organizado, qual a diferença do estado italiano e do brasileiro? A Itália tendo que lidar com a máfia e a gente tendo que lidar com o caso Cachoeira.

MC: A máfia está aqui também, não se iludam. Está aqui, por exemplo, esse caso do Cachoeira, se vocês viram a última edição, as ligações mafiosas são evidentes. β: A imprensa está a serviço de quem, afinal das contas? MC: Dessa gente que mora acima do shopping Cidade Jardim. β: Por dinheiro ou por ideologia? MC: Por dinheiro? Não, para não mudar coisa alguma, pra deixar como está, porque pra eles está ótimo. O que de certa forma é ideológico. β: Ou essa mídia é tão alienada que ela também não tem consciência? MC: Não, digamos que Tavinho Frias (dono da Folha de S.Paulo) que é um cretino, Roberto Civita (dono da Editora Abril) que é mais cretino, ainda são pessoas que vivem dessa maneira, são senhores que gostariam de morar

β: Apharteid mais ou menos? MC: É isso. β: E volto a perguntar: já que o senhor disse que talvez um dia existirá uma nação brasileira, como? MC: Tenho certeza de que o Brasil será uma nação, ele será um país a altura efetivamente das suas potencialidades. Certas coisas amadurecem naturalmente. Veja a história da Comissão da Verdade. Primeiro: por que não fazer uma comissão da verdade usando pessoas que realmente estão envolvidas, que entendem qual é o problema, sabem como é importante a memória, até para que certos erros não sejam repetidos. E por que chama pilantras notórios? Nelson Jobim na comissão da verdade? Paulo Sérgio Pinheiro na comissão da verdade? José Carlos Dias na comissão da verdade? Isso é uma piada! Ou a Dona Dilma está confusa ou enganada, está sendo enganada ou está tudo errado. De alguma forma a Dilma está compactuando. Ela chama gente que não tem condições e que defende o seguinte: “não, temos que investigar os dois lados”. β: Você fundou a Veja, a IstoÉ, Quatro Rodas, participou de várias outras. Jornais também, como o Jornal da Tarde e o Jornal da República. Qual a mágica para fazer uma publicação funcionar e ser um sucesso de mercado? MC: A Quatro Rodas foi um sucesso de mercado realmente. Era um momento muito oportuno, porque estava nascendo a indústria automobilística brasileira e, a meu ver, foi um

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erro, foi uma escolha péssima que inclusive privou o Brasil, quer dizer, evitou que o Brasil se abastecesse de um setor muito grande, importante, que começa com a ferrovia e acaba com transporte fluvial. Essa seria uma solução muito boa para o Brasil, fizeram estradas que, enfim, foi um erro. Mas de qualquer maneira a Quatro Rodas nasceu num momento em que nascia a indústria automobilística. Foi um sucesso realmente. β: Em sua opinião, é uma das únicas publicações que tem credibilidade na Editora Abril? MC: Ah, não tenho dúvida. Esse sucesso se deveu, a meu ver, em primeiríssimo lugar, havia esse entusiasmo pelo nascimento da indústria automobilística brasileira, que inclusive era anunciado na revista Quatro Rodas, então a sobrevivência era garantida. O Jornal da Tarde foi uma parada complicada, levou tempo para se firmar e chegou ao apogeu quando eu não estava mais lá. Eu sai em 1968 para dirigir a Veja e seu melhor período foi entre 69 e 72. Agora, aquele era um jornal completamente distinto dos outros jornais, que tinha uma preocupação enorme com a estética, tanto na diagramação quanto na escrita. Claro que não podia se distanciar das posições do Estadão, que é um jornal conservador. Havia uma preocupação feroz com texto e com a aparência também, a forma é importante. Então fomos pioneiros na paginação, no uso de fotos. A Veja, foi pior ainda.

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Ela começou tirando 700 mil exemplares e chegou a 100 mil na quarta edição. A situação era a seguinte: a empresa comunicava as agencias de publicidade que a tiragem era 80 mil, eu pensava que fosse 40 mil e na verdade eram 20 mil. Porque o que fez a Veja foi a censura. A censura foi muito importante para o desenvolvimento da revista. β: Com dinheiro? MC: Não, não. A censura veio violentíssima no final de 69 e ficou até a minha saída. Permitiu que a assessora saísse da revista, permitiu que a Editora Abril ganhasse 50 milhões de dólares, empréstimo da Caixa Econômica Federal, isso não sou só eu que conto, mas o próprio presidente da Caixa que conta isso no livro das memórias dele. Minha cabeça era pedida pelo próprio Geisel, o que me honra sobremaneira. A censura feroz chamou atenção para ela com as apreensões em banca. β: Foi por causa da primeira capa? MC: Eu fui para a Abril exigindo autonomia total, ao contrário do que eu tinha no Estadão. E como os Civitas são uns coitados, que nesse tempo ainda achavam que magnífico era tomar caipirinha de vodka e olhar as palmeiras encantadas, não foi difícil. Mas eu me esbaldava. A primeira capa foi uma terrível brincadeira, mas também não adiantou nada, foi um fracasso. A revista levou três anos para chegar em um ponto de

equilíbrio, de despesa e faturamento. β: Se arrepende de alguma coisa nesse período, que não teria feito? MC: Ao contrário, me orgulho muito. A Veja foi uma aventura complicada. Não me refiro aos riscos políticos. A própria revista sofreu muito no começo, levou tempo para se firmar. Quando eu sai, a revista virou governista, naturalmente, porque era o que eles queriam, e a partir de então eu tive que inventar os meus empregos. Então teve a IstoÉ, que foi outro grande sucesso. Depois o Jornal da República que foi um fracasso, esculpido por Michelangelo em dia de grande inspiração. Depois foi a Senhor, que foi um relativo sucesso. E agora a Carta Capital que foi uma aventura longa e complicada. São revistas que eu inventei para poder garantir um salário. β: Em relação à escolha de pautas, a diagramação da revista, o que mudou da Veja daquela época e a Carta Capital agora? MC: Eu fui para a sabendo o que os Civitas queriam, eles tinham uma ideia inicial, no fundo eles queriam um news magazine americano, algo próximo da Time. Essas eram revistas que pretendiam parecer escritas pela mesma pessoa de fio a pavio. Eram textos muito uniformes e esse era o objetivo. Eu exigia autonomia, digamos assim, ideológica, política porque já estávamos na ditadura, a revista foi lançada em setembro de 68. Se eu fosse um Civita, eu


O reinventor de revistas A jornada é cheia de batalhas e percalços e, em meio a duas guerras mundiais e uma ditadura rígida, ele nasceu. Sua história começou em 6 de setembro de 1933 na cidade italiana de Gênova. Seu nome, na verdade, é Demétrio Giuliano Gianni Carta, filho de Giannino Carta. Seu irmão, Luis Carta, é dois anos mais novo que ele e, o apelido pelo qual a maioria das pessoas o conhece, Mino, se deve ao irmão mais novo, que quando criança não conseguia pronunciar seu nome corretamente. Mino Carta não é a figura mais simpática que alguém pode entrevistar, porém não é a pior de todas. Ele fez o possível para ser cordial e receptivo. Sua aparência – a magreza, a baixa estatura e os cabelos brancos fizeram com que, por um segundo, se acreditasse ainda mais nessa primeira impressão. Mudou-se os conceitos assim que aquele senhor começou a falar. Só pelo fato dele ter fundado a revista Veja, a IstoÉ, a Quatro Rodas e a Carta Capital, ele já é uma personalidade muito importante do mundo das revistas. Saiu da editora Abril para fundar o Jornal da Tarde, mas deixou a promessa de retornar para fundar uma revista semanal. Mais tarde, esse projeto se tornaria realidade com a revista Veja. O envolvimento da família de Mino Carta com a família dos Civita começou cedo. A família de Roberto Civita estava em busca de um jornalista experiente e por isso, eles buscaram na Itália Giannnino Carta para ser consultor do jornal Folha de S.Paulo. O pai de Mino havia sido demitido do Secolo XIX por apoiar a resistência italiana no regime de Mussolini, e mesmo com propostas de emprego na terra natal, a família decidiu aceitar o convite e partir para São Paulo. Uma verdadeira aventura para a época. Com isso o caminho da família Carta na imprensa paulistana começou a ser trilhado. A história dele na revista Veja começou logo depois da passagem pelo Jornal da Tarde. Ele não queria lançar a revista no mesmo momento que os Civita desejavam. Ainda não era o momento mais oportuno. Pelas lembranças que ele descreve, era a temida época da ditadura militar.

No entanto, mesmo contra sua vontade, ele foi convencido. Ajudou na criação da revista semanal para qual foi designado. Nesse momento, ele olha e diz “Tenho para mim que o jornalista deve ter uma busca canina pela verdade factual.” Enquanto todas perguntas eram respondidas por aquele senhor de gênio forte, típico italiano, veio a saudades. Sentimento de falta da velha Itália – sua nação, seu berço. Para o tão experiente jornalista é inevitável falar daquele país sem que lembranças venham à sua mente. Ele está no Brasil desde seus 12 anos, mas é irredutível ao dizer que pretende morrer em outros ares. Pretende morrer em sua terra. Depois da saída da redação da revista Veja, 15 dias depois, seu irmão Luis, sócio de Daniel Alzugaray, o chamou para juntos formarem a Editora Três. Depois seu irmão saiu da sociedade e ele fundou e começou a dirigir a revista IstoÉ. A ideia foi um verdadeiro sucesso. E então sugeriu ao seu sócio, Daniel Alzugaray que juntos fundassem um jornal. Em 1979 nascia o Jornal da República, que foi um fiasco do ponto de vista comercial, apesar da liberdade dada aos profissionais e uma grande preocupação com os textos. As dívidas da Editora Três só aumentavam e até a revista IstoÉ estava ameaçada. Fernando Salles, um banqueiro, comprou a editora dos dois e depois, Daniel recomprou a Editora Três. Em 1994 Mino Carta fundou a Carta Capital.

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não teria feito a revista Veja, por mim estava tudo ótimo, virava um instrumento interessante, mas para eles foi um erro que demonstra como eles não sabiam onde estavam. Era óbvio que as coisas realmente estavam encrespando muito. 68 foi um ano de grande agitação mundial e o Brasil não escapou a isso, tanto que vem o golpe dentro do golpe, o AI-5, que conferiu a ditadura poderes ilimitados. Então a Veja teve problemas terríveis. Não sei se vocês sabem essa história da censura, ela é muito mal contada. O Estadão foi censurado porque era uma briga deles com o regime, porque eles queriam que o poder acabasse na mão do Lacerda e os generais não queriam. Então surgiu um impasse, Lacerda foi cassado e o Estadão passou a ser censurado com direito a censura em redação e a preencher os espaços vagos com versos de Camões. A Folha nunca foi censurada. Ela emprestou veículos ao banco. O imbecil do Otavinho disse “sim, é verdade, mas meu pai não sabia”. Seu pai era um imbecil também. O pai tem que saber, obviamente, porque estava longe de ser imbecil. E era um sujeito muito interessante de certos pontos de vista, o velho Frias. O Jornal Brasil não foi censurado. O Globo menos ainda, uma amizade feroz, completa, total, deslumbrada entre Roberto Marinho e Armando Falcão, ministro da Justiça. Nunca foram censurados. Quem foi censurado de verdade: a Veja, que tinha que reverter o material de terça a sábado para os censores e então aos sábados,

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como o censor tem direito a um certo descanso nós tínhamos que remeter o material para a casa dos censores, que era um serviços de kombis, cuidava desse transporte de material e voltava rasurado, ofendido, humilhado. β: E além da Veja? MC: E depois todos os outros alternativos. Muitos deles eram censurados de uma maneira ainda pior. Tinha que remeter o material para Brasília. Essa história é bem enrolada. Os professores de jornalismo não ensinam essas coisas, talvez porque não saibam, fazem parte da nossa elite, embora coitados, ganham tão mal, né. β: Você acha que a universidade também tem esse papel de manter aquele jornalista que depois vai ocupar um cargo no Estadão, na Folha, numa TV Globo? MC: Você se refere aos cursos de jornalismo que foram inventados na ditadura? Eu sou contra os cursos de jornalismo, embora a essa altura eliminá-los não é bom porque está no hábito. Eu em princípio sou contra curso de jornalismo, acho que pode ser ótimo como pós-graduação, você completa com estudo de história e faz uma pós-graduação em jornalismo, pode ser muito bom. Nos EUA certamente tem escolas desse tipo excelentes, mas a obrigatoriedade do diploma é a grande sacanagem e porque eles queriam tirar a moçada das calçadas, bares, a moçada que, rejeitada, porque deveria

ter tentado direito ou sei lá, letras, história e geografia e não tinha conseguido entrar, ia pras calçadas pra discutir, pra se irritar e isso era um risco. Foi assim que inventaram as escolas de comunicação e é algo muito corporativo, não é bom, até mesmo porque jornalismo se aprende na redação, na prática. Agora sim, você tem que ter além do talento, você precisa você gostar de escrever, ler muito, porque a leitura é fundamental para saber escrever, conhecimento da história, do país e do mundo. Essas coisas são indispensáveis, a história do pensamento é importante para o jornalista. β: Importante também a história do próprio país, né? MC: A história do país e do mundo. Essas coisas no Brasil são letra morta, eu faço palestras em universidades e fico espantado, desculpe, com a ignorância dos vossos colegas. Não conhecem a história do Brasil e mesmo a mais recente, exatamente a história da censura brasileira durante a ditadura. As pessoas acham que todo mundo foi censurado, tem uma noção vaga, uma névoa. β: Essa comissão da verdade a princípio... MC: Por hora não me convence absolutamente. β: Eu queria entender melhor quando o senhor diz que não dá para ouvir os dois lados da história da Ditadura Militar para tentar chegar a um denominador comum.


MC: Quem foi morto, quem foi torturado? β: Quem morreu, morreu, não está aqui para contar a história, mas os familiares sim. MC: Sim, por exemplo, tem quem foi torturado e não morreu. Comigo trabalha desde sempre, na Quatro Rodas, um diretor de arte chamado Jorge Benigno Duque Estrada. Ele foi preso e está vivo. β: E por que ele foi perseguido, na época? MC: Porque ele estava numa estúpida aventura com uma turma da cultura comandada por Vlado Herzog. Aquela turma toda, tirando o Duque Estrada, que continua fiel a seus ideais, todos viraram tucanos. O Herzog, hoje, estaria com o Fernando Henrique Cardoso. Isso mostra inclusive como essa ditadura foi estúpida, puramente estúpida. Mataram gente no Tibet, torturaram estupidamente... todos tucanos. Rubens Paiva, que atiraram de um helicóptero para o mar, hoje estaria com Fernando Henrique Cardoso, que é um pilantra absoluto.

um pilantra? MC: Porque é um hipócrita, um medíocre intelectual. Qual é o livro que vocês leram do Fernando Henrique? Qual? Quero saber qual? Qual é o livro que você se debruçou e absorveu aquelas ideias magníficas? β: O governo do FH não foi importante para o início de alguns ajustes sociais? Não acha que isso seja verdade? MC: Não é verdade. Foi o governo que ele comprou votos para virar presidente pela segunda vez, o governo que a privataria tucana explodiu de forma violenta, ganharam dinheiro a rodo. β: Mas o próprio presidente envolvido? MC: Roubou pra burro. É ai que está, nós publicamos matérias terríveis sobre essa história. A história da privataria tucana. Mas acho que é essa a história que vocês deveriam conhecer. Pilantra da pior qualidade, hipócrita inte-

gral, ladrão. β: FHC roubou o país enquanto foi presidente? MC: Ele é amigão do Daniel Dantas. β: Uma frase que Lula disse numa entrevista coletiva do José Dirceu para a imprensa “a gente está esperando muito dos talentos do José Dirceu” e o governo Lula, pelo menos denunciam que o José Dirceu armou um esquema, se aproveitou de toda uma estrutura deixada pelo PSDB, montou uma estrutura para manter o PT no poder... MC: Inclusive Valdemiro Diniz, que trabalhava com os tucanos e passou a trabalhar com o José Dirceu. O José Dirceu é um outro pilantra. β: Quem é que se salva na política? MC: Ah, eu acho que o Lula é um sujeito melhor na pratica, embora ideologicamente ele

β: Crê que sim? O pai do Marcelo Rubens Paiva? Ele estaria com Fernando Henrique? MC: Sim, mas é lógico, ele era tucano na alma. β: Então não eram os comunistas os perseguidos? MC: Aos olhos da ditadura eu era um comunista, eu sou apenas um anárquico, que é diferente (risos). β: Na sua opinião, por que o Fernando Henrique é

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tantemente. Eu acho que nós praticamos jornalismo honesto. Não é necessariamente objetivo. O jornalismo objetivo não existe. β: A revista é uma mídia que, declaradamente, tem um posicionamento, e vem mostrando seu apoio em suas publicações... MC: Nós apoiamos, isso surpreende. O Brasil é um país ignorante, surpreende que nós apoiemos Lula quando ele é candidato ou Dilma. Apoiamos de caso pensado, no que se trata do melhor candidato naquele momento. Isso acontece fora do Brasil normalmente. O New York Times define na hora de ter uma eleição americana, estará certamente com Obama, dirá: somos a favor de Obama.

seja nada. Eu acho que o Lula é um cara interessante e certamente esse foi um bom presidente. β: O Lula estaria no partido errado? Ele é comunista? MC: Não, acho que ele nunca foi petista. Ideologicamente o Lula não é nada. Ele é um homem da conciliação, é um moderado, é uma pessoa legal. Eu gosto muito do Lula, sou amigo dele ha 35 anos. β: Existe uma foto do senhor com ele, depois que ele saiu da prisão. MC: Eu estava com ele quando ele foi preso, estava com ele quando foi solto, eu gosto do Lula. β: Seus opositores falam que a Carta Capital chega a ser uma revista lulista, uma extensão do PT. Tem aquele caso que no meio do mensalão, você foi ao palácio, tomou um café com o presidente né, o que você diz para os opositores? MC: É ridículo (risos). Olha, com o FHC nós não tivemos publicidade, do governo. β: Por quê? A revista não quis? MC: Porque ele não quis. Quando o Lula se elegeu ele me chamou e disse “o que que eu posso fazer por você?” Ele inclusive chamou o Zé Dirceu. Eu disse “não, você não precisa fazer nada, eu quero a isonomia. Nossa publicidade é cobrada a preços muito inferiores ao dos demais tudo bem, mas se você der um anúncio pra Veja, dê para nós. Se vocês dão um anúncio para a Época, dê para nós também. Elegeram o Fernando Collor, foram chapa branca da

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ditadura, mas não me façam rir, bando de calhordas, velhacos, covardes, ignorantes, burros até. Um dos princípios básicos do jornalismo é a fidelidade canina a verdade factual e a verdade factual é aquele que é o fato, é aquilo que não se nega. Agora o que surpreende é tanta preocupação com a gente, mas porque será? Será que é porque nós somos bons demais? β: Qual é o posicionamento editorial da revista Carta Capital, se fosse para defini-la? MC: Acho que a função é saber quem pratica jornalismo e quem não pratica jornalismo. A imprensa brasileira e a mídia em geral é um partido político, é o verdadeiro partido político no Brasil e manipula o público cons-

β: O Jornal O Estado de São Paulo também fez isso... MC: Acabou fazendo isso tarde. Uma semana antes da eleição. Mais certo é você se definir quando começa a campanha eleitoral e dizer para o leitor “nós achamos que esse é o melhor candidato”. No Brasil eles fingem que são isentos, mas não são. Eles são a voz branca do poder contingente. A crítica é constante. No caso do Lula existe uma componente claríssima de ordem de classe, não se admite que nenhum metalúrgico vire presidente da república. Agora, nós somos muito críticos com relação a um monte de coisas do governo. É uma vergonha o que o Brasil fez no Caso Batiste. E não digo isto porque sou italiano. Digo isto porque o cara era um terrorista de quinta, é um ladrãozinho de arrabaldes romano que acabou metido numa ‘turmeta’ de doidos. Os doidos


provavelmente eram sinceros e ele descobriu um jeito de justificar a sanha dele. No Brasil houve quem sustentasse que Batiste era igual a quem pegou em armas contra a ditadura. Não, ele pegou em armas contra um estado democrático de direito. β: Quem pagou o pato foi o delegado Protógenes, então? MC: É. Eu, por exemplo, acho que o relatório do Protógenes tem muita falha, deu sopa para o azar. Ele ofereceu de mão beijada argumentos com o relatório que tem suas falhas, mas a história é inacreditável. Eu espero que esse julgamento daquilo que se chama mensalão, seja um julgamento justo. Por hora a imprensa já decidiu que houve um mensalão e que todo mundo deve ser punido. Mas como, sendo que o julgamento não houve? Eu espero que seja um julgamento extenso, e serenamente aguardo o desfecho. Houve a pratica de outros crimes tão graves quanto o mensalão. Porque uso de caixa dois é crime! O uso de dinheiro lavado é crime! Isso eu não tenho dúvidas de que acontece, eu tenho certeza até as entrangas. Agora um mensalão entendido como pagamento mensal, como uma espécie de mesada, não foi provado. Porque se agarrar a isso e não dizer que o que aconteceu que é o muito mais provável? Já bastaria, dá e sobra. Eles se agarraram a idéia de mensalão porque um desqualificado como Roberto Jeferson disse que tinha uma mesada.

β: No caso da reintegração de posse da favela do Pinheirinho, muitos vídeos caíram na internet de pessoas que resolveram fazer reportagens com objetivo de ouvir as pessoas pois a mídia reproduz o discurso da polícia, das autoridades e não ouviu a população... MC: Menos a Carta Capital, que fez reportagens sérias sobre o caso Pinheirinho. β: Nesse sentido, onde entraria a democratização da mídia? MC: Veja o problema da mídia do Brasil é o mesmo da democracia brasileira. Raimundo Paulo já dizia: eles querem um país de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo. E essa que é a nossa mídia. No Brasil, ela está na mão de gente que tem direito a tudo, jornal, revista, televisão... O que for. Isso não existe em outros países, inclusive nos Estados Unidos. Você pode ter jornal, mas não pode ter televisão e assim por diante. Essa que, a meu ver, é uma das medidas que devem ser tomadas no Brasil, para que você tenha uma mídia que se aproxime de um conceito democrático e que impede o monopólio. Hoje, a Globo tem tudo na mão. Isso não existe lá fora. Agora como você limita o poder de uma pessoa? Pela lei. Quem faz a lei? O legislativo, o congresso brasileiro onde metade deles são donos de rádio, televisão e jornal, então essa lei não vai sair nunca. β: Assim que eles se elegem já “pegam” uma para eles.

MC: Evidentemente! β: Para fechar, comentando com algumas pessoas que acompanham a carreira do Sr depois de muitos anos no jornalismo, uma passagem pela revista Veja que é polemica até hoje, pessoas comentam que Mino Carta tem algum ressentimento pela revista. Queria saber se o senhor tem algum ressentimento? MC: É ridículo! A Veja que eu dirigi era completa distinta da de hoje. Era um verdadeiro trabalho de equipe. É claro que sempre tem meia dúzia ou dez carregam o piano e aqueles que sabem tocar o piano, como em na maioria das redações. Não tenho raiva dos Civita. Rancor, não sei. β: Pena... MC: Não, menos ainda, nenhum desses sentimentos suaves. O Civita cederam a imposição da minha cabeça, entregaram minha cabeça para a ditadura! (socos na mesa) Não me façam essas perguntas sem estarem informados! Eles entregaram minha cabeça em um período extremamente arriscado da vida deste país, foi isso! Então não é que eu tenho raiva. Eu por duas vezes tentei bater no Roberto Civita que fugiu! Podem escrever! (socos na mesa) Ele fugiu às duas vezes. Eles entregaram minha cabeça para a ditadura por 50 milhões de dólares e para tirar a censura de lá! (socos na mesa) Então não me façam essas perguntas por que elas são profundamente velhacas! Passar Bem! (socos na mesa).

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Artigo Diagramação: Caroline Pereira

Uma nova realidade O ano era 1966. Falta de democracia, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime. O Brasil está em plena ditadura militar. Entre mortos e feridos, surge no mercado impresso uma revista caracterizada pela ousadia, irreverencia e criatividade. A revista Realidade, lançada pela Editora Abril, tem sua primeira edição esgotada em três dias. Foram 250 mil exemplares vendidos. Começa uma nova realidade para a reportagem na imprensa brasileira. Caracterizada pela diversidade de assuntos, a revista incorporou o new journalism americano para

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as páginas brasileiras. No novo estilo, podia-se de tudo: textos literários, em primeira pessoa, diálogos, descrições detalhistas, humanização da reportagem. Tudo muito diferente. E a receita deu tão certo, que até hoje, nenhuma publicação impressa conseguiu fazer metade do barulho que fez a extinta Realidade. Passados 46 anos do lançamento da Realidade, muitos veículos se inspiram na publicação que teve seu fim declarado em 1976. Mas até os dias de hoje, ninguém conseguiu repetir o sucesso da revista, que teve seu ápice entre 66 e 68. É claro que os tempos eram outros. Temas polêmicos como guerras, drogas, virgindade, entre outros, eram discutidos em pleno regime militar. A TV ainda não tinha sido apresentada para boa parte da população brasileira e a contracultura ganhava cada vez mais força no país. Hoje, a quantidade de veículos é extremamente maior do que na época, a população tem acesso à notícia em tempo real e

Larissa Straci o contexto social é praticamente o oposto. Porém, problemas de ordem social e econômica ainda existem, e são muitos. Alguns veículos até tentam. A revista Carta Capital inova em alguns temas e apresenta polêmicas, porém trata basicamente de economia e política e não tem o foco voltado para o comportamento da sociedade. A Caros Amigos também apresenta temas polêmicos, utiliza-se de personagens, porém não aprofunda os assuntos abordados e muito menos apresenta os dois lados da notícia, como faria a Realidade. Talvez a revista Piauí seja a que mais se aproxima da proposta da Realidade. É uma publicação de fôlego, onde o repórter utiliza sua sensibilidade para escrever. O formato e a criatividade das capas também se cruzam em alguns momentos. Porém, as revistas semanais, cada vez mais homogêneas e empobrecidas pela simplificação dos processos de produção, se caracterizem pela falta de pautas interessantes e de criatividade. Talvez nos dias de hoje, uma Realidade não fizesse tanto sucesso como em seu auge. Talvez fizesse. Porém, a dedicação dos repórteres, a busca pelo aprofundamento da notícia, pelo personagem que humaniza a história e pela prática do mais puro jornalismo, com certeza será um diferencial para os veículos, não importa a época.


Entrevista

A qualidade do conteúdo da revista on-line tem que ser a mesma que a impressa Reportagem: Isabela Palhares Edição: Artur Vergennes

Fotos: Juliana Andrade Diagramação: Arnold Fruneaux

A revista Comciência é uma publicação eletrônica de jornalismo científico voltada para os estudos em divulgação científica e cultural. Através dessa abordagem pretende analisar e explicar a dinâmica das relações entre ciência e sociedade, com periodicidade mensal, traz a cada mês um dossiê de reportagens com um tema central. É produzida no Laboratório de Jornalismo (Labjor) da Unicamp, referência nacional e na América Latina pelos estudos e análise do jornalismo. Além da Comciência, produzem também a publicação Ciência e Cultura, sem periodicidade definida, e Conhecimento e Inovação, trimestral. No Labjor foi desenvolvido o projeto e criado o site do Obsevatório da Imprensa. Conversamos com o editor da Comciência, Rodrigo Bastos Cunha, sobre as revistas eletrônicas e do jornalismo científico. β: Você acha que pensar na edição de uma revista on-line é mais complicado do que uma impressa, por ter que chamar a atenção do leitor na internet, onde há mais “competição” pela concentração? Rodrigo Cunha: Algumas tarefas certamente são bem mais simples. A edição de textos, em si, pode ser muito facilitada por ferramentas que permitem a inserção dos textos pelos repórteres e a edição pelos editores em bases on-line que podem ser acessadas a qualquer momento e de qualquer lugar. Em relação

ao desafio de chamar a atenção do leitor, talvez seja uma tarefa complicada tanto para as revistas on-line quanto para as impressas. Se você reparar nas mudanças editoriais que aconteceram em várias revistas e jornais nos últimos anos, vai ver que os veículos impressos tentaram incorporar alguns elementos da internet, até mesmo em termos gráficos, visuais. No caso de uma revista como a nossa, que é de livre acesso e não busca a competição, em termos de mercado, a principal preocupação é com a qualidade do conteúdo, que seria a mesma se

ela fosse impressa, e com o aproveitamento das vantagens que o suporte on-line permite, como a inserção de links e possibilidade de todo o conteúdo já publicado poder ser acessado através de mecanismos de busca como o Google. β: Porque a opção de manter a revista apenas on-line? Rodrigo Cunha: O custo é muito menor do que o de um veículo impresso. A ComCiência surgiu como oficina para os alunos da Especialização em Jornalismo Científico, que é gratuito e ofe

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necessariamente o formato de uma revista, com periodicidade e seções fixas. São blogs, páginas pessoais que comentam ou indicam outras publicações.

recido pela Unicamp. Para manter uma revista impressa nos mesmos moldes, a necessidade de apoio institucional seria bem maior. A periodicidade do veículo e até mesmo a sua longevidade poderiam ficar dependentes de se ter ou não uma verba institucional de apoio. Já para manter um veículo exclusivamente on-line, a necessidade de recurso é bem menor. Com isso, já passamos de uma centena de publicações em pouco mais de dez anos de história. β: Vocês já pensaram em disponibilizar a revista para ipads e outros leitores eletrônicos? Rodrigo Cunha: Todo tablet ou smartphone pode acessar a revista a partir de seu navegador. Houve um projeto piloto em parceria com a Itautec para a adaptação dos conteúdos para dispositivos menores, mas ele não foi adiante. Isso aconteceu antes mesmo

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do surgimento dos tablets. Como o preço desses equipamentos é relativamente alto e eles ainda são restritos a uma parcela pequena da população, não vale tanto a pena para um veículo não-comercial como o nosso investir em criação de conteúdo exclusivo para outras plataformas. Porque é isso que faz diferença quando se pensa em conteúdo para tablet, por exemplo. No caso de um veículo impresso, sua versão digital não pode ser uma mera reprodução do conteúdo que saiu em papel. β: Como é o mercado de revistas científicas no Brasil? Você acha que há muita concorrência? Rodrigo Cunha: O mercado tem aumentado um pouco, tanto em termos de interesse do público quanto em número de publicações. Mas ainda são poucas as revistas. Na internet, surgiram muitas iniciativas que não seguem

β: Qual é o público alvo de vocês, são os universitários? Rodrigo Cunha: A maior parte das pessoas que acessam uma revista de jornalismo científico on-line como a nossa está envolvida, de alguma forma, com a formação científica e a produção do conhecimento científico, seja como aluno de graduação ou pós-graduação, seja como pesquisador e professor universitário, mas também temos leitores entre os profissionais de mídia (e, portanto, também podemos “pautar” outros veículos, inclusive TV), entre professores e estudantes do ensino básico e entre tomadores de decisão nas políticas de ciência e tecnologia (trechos de textos publicados na ComCiência já foram reproduzidos, por exemplo, em proposições de textos legislativos). β: Você disse que há a vantagem da inserção de links nos textos, vocês linkam para qualquer site ou texto que seja interessante para a compreensão da reportagem? Rodrigo Cunha: Não. Não basta o site ou texto ser interessante. Para não “poluir” nossos textos com muitos links, selecionamos endereços que possam complementar para o leitor aquilo que está sendo abordado. Se o leitor quiser se aprofundar sobre o assunto pode acessar esses textos mais longos e eventualmente mais técnicos. A indicação de outros textos complementares se resolve com links internos, pra própria ComCiência.


Em Campinas: Associação Hospitalhaços Conheça: www.hospitalhacos.org.br Escreva: apoio@hospitalhacos.org.br Ajude: Banco do Brasil, Agência: 2857-6, conta: 11.551-7

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Reportagem

A interatividade dos tablets amplia a experiência imersiva do leitor-internauta

Imersão na ponta do dedo

Revistas em tablets unem o melhor do impresso e do digital; particularidades do aparelho e oferecem experiência diferenciada de leitura interativa Repórtagem e diagramação: Júlio César Hermenegildo e Vanessa Bispo Editor: Artur Vergennes Fotografo: Ingrid Emerick Prestes a completar dois anos de existência no Brasil, os tablets, como o Ipad (que já está na sua terceira geração) estão conquistando cada vez mais adeptos para esta nova tecnologia digital. Segundo o Yankee Group, esse é o produto que mais rápido alcançou a marca de um bilhão de dó-

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lares em vendas na história, ultrapassando um milhão de usuários. Para adequar-se ao crescimento e a modernização, revistas nacionais de grande porte, tendem a digitalizar suas publicações na nova tecnologia. Para o designer da Aps Feira e Evento, Jean Pluvinage, isso acontece,

pois, por enquanto, uma revista digital bem-feita ainda está restrita às grandes editoras. Esse é o caso da revista Veja, que desde 2009, posta também no formato digital, as matérias que saem no periódico impresso. “A Veja tem um aplicativo que facilita o leitor a acessar todo o


conteúdo produzido por nós”, afirma o diretor de fotografia da revista, Ismael Canosa. O aplicativo já atingiu a marca de 240 mil downloads e está, aos poucos, tornando-se um “grande sucesso”. Apesar do sucesso, Canosa aponta alguns desafios para a publicação no tablet. “O maior desafio para Veja é pensar em recursos que sejam personalizados para o tablets e que utilizem mais os recursos disponíveis na plataforma digital”, diz. Convergência de mídias Veículos de comunicação tradicionais, ou seja, disponíveis no material impresso, como os jornais e revistas, são obrigados a adaptar-se a esta nova era digital. “Os meios impressos precisam melhorar principalmente Conteúdos apresentados no tablet são mais interessante que em PDF o seu conteúdo, para abastecer o seu público-alvo especifico”, aos 360° do tablet, e o eixo de impresso”, afirma Canosa. Além afirma Pluvinage. Uma publicaleitura duplo, ler da esquerda de todo o conteúdo da edição ção digital tem como principais pra direita e de baixo para cima. impressa da Veja, o aplicativo características, atenta o diagra“Juntando tudo isso, temos uma proporciona diferenciais como mador, a multimidialidade (víderevista digital para tablet, que interação com o leitor, por meio os, áudios e animações), interaoferece uma experiência bem de figuras animadas, imagens tividade e a hipertextualidade. maior do que um simples PDF com mais apelo, vídeos incorUnindo os dois meios o tablet estático”, finaliza. porados dentro das matérias, torna-se uma plataforma atragaleria de fotos cheias de imaente. “Um tablet Experiência imersiva gens que podem ser visualizadas reúne os melhoEm Veja, sedo tamanho desejado, além de res elementos de Com todos gundo Canosa, muitos links que remetem as páuma publicação os conteúdos disginas de Veja para qualquer ouos recursos impressa, de uma ponibilizados são tra página da web. disponíveis, publicação digital pensados para Pluvinage comenta que, desa informação e elementos úniserem diferentes sa forma, o leitor ganha muito fica mais cos dos tablets”, nos tablets. “Proem imersividade, em uma narcompleta ressalta Pluvinaduzimos conterativa imersa. “Essa experiência ge. Esses “eleúdos exclusivos na qual o leitor complementa as mentos únicos”, nessa plataforma, informações textuais e fotográfiaos quais se refere Pluvinage. de uma forma mais dinâcas com gráficos interativos, vísão principalmente o layout dumica. Por exemplo, os infográfideos, áudios, tudo para deixar a plo, uma página na vertical e oucos incluem recursos interativos, informação mais completa postra na horizontal que se adapta algo que não é possível no meio sível”, ressalta.

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Reportagem

Entrevista

Repórter: Larissa Straci Editora e diagramadora: Caroline Pereira Fotógrafa: Thaís Ferreira

Especialíssimas Cada vez mais segmentadas, algumas revistas encontraram na especialização a saída para ganhar mercado e atingir o público interessado

As revistas estão se especializando cada vez mais no Brasil. Um dos motivos é a evolução da internet que cumpre o papel de informar com agilidade muito maior do que a revista, embora sem a mesma profundidade. Como solução, as publicações impressas buscaram uma saída para sobreviverem: a segmentação. “A saída para revistas menores é de fato se especializar

para atingir um público específico e aprofundar seus temas, procurando sempre preservar a autonomia dos textos e a qualidade das informações”, afirma a repórter da revista Combustíveis& Conveniência, Rose Guidoni. Como consequência, surgem temas cada vez mais curiosos. Você já se imaginou lendo uma revista sobre guindastes, postos de com-

bustíveis ou trens? Pois é, elas existem e possuem grande número de leitores. Em uma pesquisa realizada pela nossa redação, detectamos as revistas com os temas mais curiosos (veja páginas 41 e 42) e entrevistamos repórteres e editores, levantando dados interessantes sobre as redações. Conheça um pouco sobre a história e o cotidiano de algumas

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revistas especializadas. Mercado impresso Na pesquisa entre as revistas mais curiosas, encontramos a Combustíveis&Conveniência, especializada em postos de combustíveis. Ela está no mercado editorial há 11 anos e já ultrapassou a marca de 100 edições. Entre o público leitor estão proprietários de postos de combustíveis, distribuidores, sindicatos, entidades do setor e funcionários da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Com periodicidade mensal, a publicação é distribuída apenas para assinantes, sua tiragem é de 25 mil exemplares e ela se mantém através da publicidade. Quatro jornalistas fazem parte da redação da Combustíveis. A publicação é editada pela Fecombustíveis, federação de âmbito nacional formada por sindicatos de revendedores de combustíveis. O primeiro exemplar da edição circulou nos meses de abril e maio de 2002. “O país acabava de passar pela desregulamentação do mercado de combustíveis. Antes, os preços e margens eram controlados pelo governo e com a desregulamentação o empresário teve de aprender a gerenciar melhor seu posto, a concorrência surgiu e os preços caíram. Por tudo isso, a Fecombustíveis considerou que a informação seria uma ferramenta estratégica e um diferencial para os empresários do segmento”, afirma Rose Guidoni, repórter com mais tempo de casa. Rose explica que não tem dificuldades para encontrar pautas e quase sempre derruba algumas sugestões por falta de espaço. “Na área de combustíveis, assunto é o que não falta: novos combustíveis, preços, concorrência, irregularidades, equipamentos, além de questões que afetam indiretamente o negócio do leitor”.

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Altos e baixos Imagine uma revista que fale somente sobre guindastes. Pois é, ela existe. A ideia de uma publicação tão inusitada foi uma solicitação de empresários que atuam neste segmento, explica Wilson Bigarelli, editor da Revista Crane Brasil, especializada em elevação e movimentação de cargas.“Por que vocês não fazem uma revista sobre guindastes, com ênfase em novas tecnologias, treinamento e segurança operacional? Daí nasceu a Crane Brasil, que tem congêneres nos Estados Unidos, Europa e Ásia”, comenta ele. Com este tema um tanto curioso, imagina-se que a equipe tenha dificuldade em encontrar pautas variadas. Mas não é. Bigarelli revela que é relativamente fácil, pois os produtos temas da revista (o guindaste e a grua) são bastante comuns na paisagem urbana e amplamente utilizados em setores da economia. O desafio para a pequena redação da Revista Crane, composta por cinco jornalistas, é encontrar sempre um enfoque novo visando o interesse do leitor. Para Bigarelli, a pauta fica mais difícil de ser realizada quando as fontes envolvidas interferem no trabalho dos jornalistas: “o mais comum é pedir para “ver o texto antes da publicação”. Como não fazemos esse tipo de concessão, a matéria simplesmente não sai”. Assim como o tema da Crane, seu público leitor é bastante restrito: são os locadores de guindastes e seus clientes. Devido a isso, a publicação se sustenta basicamente da publicidade. Com tiragem de cinco mil exemplares, a revista está no mercado há três anos e mantém uma periodicidade bimestral. Nos trilhos da informação Outra publicação especializada num “nicho” bastante especifico é a Revista Ferroviária, destinada a um público mais técnico, como

engenheiros ferroviários, empresários e operários. A revista, que discorre sobre a situação atual do transporte ferroviário, metroviário e metropolitano no Brasil, se interessa também pela preservação do material ferroviário de interesse histórico. A Revista Ferroviária foi lançada em janeiro de 1940 e se caracteriza como a publicação mais antiga do Brasil divulgada por uma editora privada e com circulação regular. Publicada pela Editora Ferroviária, que pertence exclusivamente à própria revista, a principal fonte de captação de recursos é a publicidade. Com uma redação composta por dois repórteres, uma subeditora, uma editora e pelo diretor, a tiragem é de 8.000 exemplares e sua periodicidade é bimestral. Segundo o repórter Filipe Lopes, a revista não passa por dificuldades para encontrar novas pautas, mesmo depois de tantos anos de circulação. “O setor ferroviário brasileiro está em grande ascensão, oferecendo diversos assuntos a tratar”, afirma ele. Na opinião do repórter, para uma publicação especializada durar tanto tempo no mercado, ela deve manter sempre uma linha editorial séria, imparcial, fiel ao mercado e próxima ao leitor. “A Revista Ferroviária completa neste ano 72 anos de circulação ininterrupta, sendo a única revista metroferroviária do país. Isso reflete a nossa credibilidade com os leitores”, completa. Umas das justificativas para a existência deste “leque” amplo de revistas segmentadas no mercado se dá pelo tempo cada vez menos ocioso que os leitores disponibilizam. “Se sou um administrador de empresas, tenho que me focar em revistas especializadas no meu setor, já que nos dias de hoje, é impossível ler todos os jornais e publicações”, explica Lopes.


Cada vez mais

ESPECIALIZADAS

Conheça mais publicações com temas bem específicos

Revista Vegetarianos Quando surgiu: 2006 Conteúdo: receitas, informações sobre nutrição e saúde, lançamento de produtos vegetarianos e orgânicos Público: vegetarianos ou não, pessoas que buscam qualidade de vida Periodicidade: mensal

Revista Reciclagem Moderna Quando surgiu: 2005 Conteúdo: notícias sobre o ramo de negócios da reciclagem Público: profissionais da reciclagem Periodicidade: bimestral

Revista Pulso Quando surgiu: 1999 Conteúdo: notícias sobre relógios e instrumentos de escrita de luxo Público: sofisticado e exigente, interessado pelo produto Periodicidade: bimestral

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Revista Incêndio Quando surgiu: 1998 Conteúdo: artigos na área de prevenção e combate a incêndios Público: profissionais bombeiros Periodicidade: 45 dias

Revista do Parafuso Quando surgiu: 2006 Conteúdo: notícias gerais e técnicas sobre elementos de fixação Público: profissionais e fornecedores de elementos de fixação (parafusos, porcas, arruelas, anéis elásticos, pinos, rebites, grampos) Periodicidade: bimestral

Revista Leite Integral Quando surgiu: 2006 Conteúdo: informações sobre a pecuária leiteira Público: produtores e leite Periodicidade: mensal (11 edições/ano)

Revista Tubos & Cia Quando surgiu: 2004 Conteúdo: informações sobre o setor de tubos, válvulas, conexões e componentes Público: profissionais que atuam neste mercado Periodicidade: 45 dias

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Reportagem

Das academias e competições para as páginas da revista Editora de Campinas investe no segmentação esportivo visando esportistas de todo o país Música eletrônica ditando o ritmo. Pesos sendo levantados por braços ligeiramente sarados. O cabelo balança acompanhando o movimento de corrida na esteira. Num canto da sala, a professora anima “Vamos lá galera: um, dois e três. Muito bom!”. Para quem frequenta academia, sabe que essa rotina é familiar, com algumas variações, dependendo do estabelecimento. Num imóvel lilás, na esquina da rua dos estudantes, em Hortolândia, um grupo de amigos se prepara para dar início aos exercícios. Eles comentam que estão

Repórter: Ingrid Conrado, Júlio César Hermenegildo e Vanessa Bispo Editor e diagramador: Júlio César Hermenegildo Fotografa: Ingrid Conrado

ali, não por vaidade, por querer um corpo sarado, mas por recomendação médica. Outros decidiram entrar para a academia para ampliar os amigos ou acompanhar familiares. Alguns são atletas mesmo, querem melhorar o condicionamento físico e ter um corpo admirado. Para esses atletas, profissionais ou não, o mercado de revista oferece várias opções. Música eletrônica ditando o ritmo. Pesos sendo levantados por braços ligeiramente sarados. O cabelo balança acompanhando o movimento de corrida na esteira.

Num canto da sala, a professora anima “Vamos lá galera: um, dois e três. Muito bom!”. Para quem frequenta academia, sabe que essa rotina é familiar, com algumas variações, dependendo do estabelecimento. Num imóvel lilás, na esquina da rua dos estudantes, em Hortolândia, um grupo de amigos se prepara para dar início aos exercícios. Eles comentam que estão ali, não por vaidade, por querer um corpo sarado, mas por recomendação médica. Outros decidiram entrar para a academia para ampliar os amigos ou acom

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panhar familiares. Alguns são atletas mesmo, querem melhorar o condicionamento físico e ter um corpo admirado. Para esses atletas, profissionais ou não, o mercado de revista oferece várias opções. Runner’s e Men’s Health são referências no assunto. As publicações da editora Abril são adaptações das estrangeiras de mesmo título. Em Campinas, a editora Multiesportes lançou duas revistas de abrangência nacional e que foram concebidas sem inspiração em outros títulos já existentes.

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Editor-chefe da SuperTreino, Rafael de Marco: revista para praticantes

por colaboradores. Para rechear o periódico, textos da revista americana Muscle and Fitness são traduzidos e adaptados. As duas revistas são parceiras, em termos de conteúdo.

Equipamentos de exercício só interessam aos proprietários de academia que não corresponde ao nosso público

Para atletas Nos dizeres do editor da revista SuperTreino (ST), Rafael De Marco, a publicação campineira se difere de revistas como a Men’s Health, pois foca no atleta que pretende praticar musculação, enquanto o periódico da Abril coloca o homem esportista no centro, inclusive, sugerindo roupas, perfumes e desodorantes. No início, a revista era patrocinada por uma empresa de suplementos, por isso levava o mesmo nome do produto. Como a empresa não investia mais, desistiu da parceria, a editora resolveu manter a revista, mas mudou o nome para SuperTreino. Apoiada no tripé – musculação, fitness e nutrição – a publicação bimestral aborda assuntos como rotina de exercícios para atletas, dicas de nutrição, especialistas costumam responder as dúvidas dos leitores e sempre uma personalidade em musculação é entrevistada. Além do editor, os conteúdos são produzidos por uma única jornalista. Artigos são escritos

Cada edição apresenta uma sequência diferente de treino. Assim, trabalham com grupos musculares diferenciados em cada número, se na última edição os exercícios estavam voltados para o bíceps, na edição seguinte o tríceps será explorado. O editor ressalta que 60% das vendas são em bancas. A tiragem é de 50 mil exemplares. “É um nú-

mero satisfatório, chama atenção. A SuperTreino é o carro-chefe da editora”, comenta. Ele explica que a editora tem uma filosofia de estimular os atletas a conseguirem o corpo que desejam, por meio de esforço e disciplina e não pelo uso de substâncias proibidas. Por isso, não se aborda temas como anabolizantes ou suplementos vetados no Brasil. De Marco também atenta sobre a relação com as propagandas. “São sempre as mesmas empresas que anunciam. A maioria é de suplementos, o produto que mais vende entre os atletas. Equipamentos de exercício só interessam aos proprietários de academia que não corresponde ao nosso público”, enfatiza. Idas e vindas A editora Multiesportes nasceu em 1990 sob o nome de Interesportes, já que a pretensão era fazer a cobertura de esportes para o Interior. Aliás, o antigo


nome da editora era também o nome de uma revista. Como a revista não sobreviveu, mas a editora sim, o nome foi reformulado. A primeira publicação foi a SuperAção que retratava todos os esportes. A revista durou quatro anos. Apesar de ter a simpatia do público, não era viável comercialmente, não gerava receita, foi extinta. Hoje, além da SuperTreino, outro periódico é a Corredores SA, especializada em corrida para profissionais e amadores. É a primeira em formato pocket do segmento e tem tiragem de cinco mil exemplares. Segmentar é preciso De acordo com o jornalista Edson Rossi, que já trabalhou e ocupou cargos de chefia em várias publicações da editora Abril, ao segmentar define-se melhor o público e a conversa com os leitores acaba sendo mais eficiente e produtiva. “A segmentação é uma forma de refinar o público e isso ajuda na hora de entregar uma revista com mais profundidade e afinidade. Por outro lado, ao segmentar, o público diminui. Menos gente vira público, perde em audiência”, explica. O editor da SuperTreino comenta que a abrangência nacional da publicação deve-se a isso, é preciso conquistar mais público, se fosse só para o Interior seria muito restrito. Para Rossi, com a segmentação adquire-se mais profundidade, qualidade e por isso, a revista torna-se especializada. Segundo ele, o cenário é de expansão. “Vão aparecer cada vez mais veículos ainda mais segmentados. Será preciso também um corpo de jornalistas mais bem prepa-

rados para atuar de forma qualificada com a segmentação se aprofundando”, ressalta. Receptividade A proprietária de uma banca de revistas, Edileuza Amorim, diz que das revistas de esportes, a mais vendida é a SuperTreino. “Entre os homens é a revista mais vendida. Eles adoram. Gostam dos exercícios. Querem ficar como os homens da capa”, afirma. O atleta Ítalo Pita gosta desse tipo de publicação: “elas me atualizam sobre suplementação e novos tipos de treinos, além de traçar estratégias para atingir o objetivo relacionado ao condicionamento físico. Com elas também fico sabendo dos eventos esportivos”, ressalta. Ele afirma que apesar da revista ajudar na rotina de treinos, não segue por completo as dicas, seleciona apenas os conselhos que acredita

serem inovadores e que irão potencializar a sua rotina, enquanto atleta. “A revista pode atrapalhar a partir do momento que o atleta fica preso as instruções dadas e não se permite experimentar outras coisas, só porq u e não está na revista. No entanto, elas trazem informações que se utilizadas da maneira correta, potencializarão o treino de qualquer atleta”, conclui. Já para a personal trainer, Simone Moitinho, são poucas revistas que de verdade podem axuliar o trabalho do personal. “Em geral, só ajuda quando a revista publica algum estudo novo sobre determinado musculo ou suplementação”, afirma Moitinho, que procura sempre aplicar em seus alunos, os excercicios que aprendeu quando fez a faculdade de Educação Fisica, ou através de seus colegas de profissão.

Joyce Cerasoli (esq.) e Julianne Cerasoli (dir.) compõe a equipe da revista

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Ensaio Fotográfico

É fato que as revistas são um grande meio de distração. Entretêm e chama a atenção das pessoas. O motivo principal é porque elas “cobrem funções culturais mais complexas que a simples transmissão de notícias. Entretêm, trazem análise, reflexão, concentração e experiência de leitura”. (SCALZO, 2008)

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“Tem pessoas que vem aqui na banca, só pra folhear as revistas, ler fofocas nas capas, ou simplesmente para admirar as capas. Eu, particularmente, passo meu dia lendo revistas aqui na banca e aprendo muito.” Tereza Mekaro

Diagramadora: Rayssa Fagundes Fotógrafa: Juliana Andrade

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Ensaio Fotogrรกfico

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“Ler revistas é algo que distrai. Quando leio, sinto que não tenho problemas e começo a me sentir vivendo a história dos outros. É um momento único” Silvana Souza Beluna Freire

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Artigo Diagramação: Rayssa Fagundes

A Reforma Editorial Era no tempo dos militares.Os meirinhos da mídia do século passado são tão privilegiados quanto os de hoje. É claro que tanto nos tempos dos reis quanto na era dos generais, ser governista é extremamente lucrativo, e, sobretudo confortável. O que atrapalham no século XXI são as chatas redes sociais que agora passam a cobrar a atividade jornalística. Finalmente a imprensa desce do trono e senta lado a lado com o poder, e passa a ser cobrada também. Os tabus na “imprensa da Casa Grande” (termo utilizado por Mino Carta, o entrevistado desta edição) passam a ser fiscalizados com maior atenção. Observem o caso do livro Privataria Tucana, mesmo censurado na grande mídia, as redes sociais e mídias alternativas garantiram o esgotamento da primeira edição logo no primeiro dia. E neste momento em que o nome da revista Veja circula na CPI e no universo político, o público-consumidor exige respostas e uma imprensa renovada, compromissada com a verdade factual, não na tentativa de criar, mas zelar por ela. O pedagogo francês Allan Kardec, no século XIX, alertava que crises precisavam suceder para que a humanidade progredisse. Hoje o que está acontecendo não é a manutenção de uma imprensa compromissada com partidos políticos e interesses econômicos egoístas, mas sim uma pressão biossocial, para que ela se renove e atenda melhor seu público. Para isso Mino Carta prega três mandamentos: o primeiro é a busca cani-

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na pela verdade factual, o segundo um espírito crítico e o terceiro é a fiscalização do poder. Hoje ferramentas como Youtube e redes sociais são usadas para fiscalizar e denunciar até a mídia televisiva, anteriormente ilesa por não existir nenhuma mídia capaz reproduzi-la e difundi-la em massa. As gafes todas estão na “nuvem”, basta apenas digitar no Google. Um exemplo é o documentário “Muito Além do Cidadão Kane”, que mostra as relações da Globo com a Time-Life. Ou talvez a matéria da TV Globo ocultando o movimento das Diretas Já, ou, até mesmo, o comentário infeliz do jornalista Boris Casoy sobre os garis. Está tudo lá no Youtube, bastam uns cliques. Os grandes empresários da mídia da zona de conforto tentam a todo custo manter o “sistema velhaco” (outro termo de Mino Carta), que garantem a manutenção da exploração do mercado. Para esse mister, a imprensa se torna promíscua com poder, apoia ou agride, desde que não interfira nos seus negócios. Os governantes alimentam o sistema de “paitrocínio” na imprensa sustentando publicações que não dariam lucro sem a publicidade estatal. É só conferir as propagandas de uma revista ligada ao PT, como a Caros Amigos, ou se perguntar por que o governo de Serra é o maior comprador da revista Nova Escola, da editora Abril. Assim, todos os dias surgem notícias que tal publicação apoia o governo tal e outra publicação critica outro estadista ou na pior das hipóteses,

Danilo Zanini o jornalista profissional que estuda quatro anos, entre assuntos de economia e ética, em razão dos problemas empresariais, omite o interesse público para elevar o privado. Mesmo com os vícios que lhes são próprios, a pressão biossocial irá exigir uma renovação, seja nas mídias sociais, seja nas letras vivas de um jornalista como Mino Carta ou nas universidades, onde se observam até professores que acabam revelando seu pessimismo com o jornalismo feito hoje. Os sinais estão chegando, as organizações Globo tiveram que publicar suas normas e regras, e a revista Veja na edição “A imprensa ascende à luz” teve que se justificar ao seu público que tipo de jornalismo está produzindo. Agora basta o público manter a vigilância e o trabalho em prol do progresso; e já nesta primeira edição da revista Beta irá se afinar com as milhões de vozes no Brasil. Esse é o espírito que nos guia. A imprensa, para sobreviver, precisará mudar, afinal a credibilidade é o que legitima seu trabalho. Mas a esperança continua na frase do falecido Chico Xavier: “O diamante no lodo não deixa de ser diamante, sem perder o valor que lhe é próprio diante da vida”. Portanto, mesmo na era dos corruptos, remanescentes de um Brasil corrompido iremos observar o raiar de um novo dia, em que o carbono irá se transmutar e desenvolver-se em diamante, e a imprensa irá resgatar o mesmo espírito de tua criação: o de zelar pelo seu leitor.


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Revista Beta - N1  

Uma revista sobre revistas

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