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Autor: Ademir Giotti Obra de literatura infanto-juvenil Publicação virtual e digital em julho de 2013


INTRODUÇÃO O garoto de calção branco é uma história de um garoto que ama a vida, que gosta de jogar futebol, estudar, tomar banho na cachoeira, que vive em contato com a natureza. Que gosta de estar na companhia de sua avó paterna e sua avó materna, e de seu melhor amigo, o Oscar, que é um garoto da mesma idade sua, que juntos vivem grandes emoções. São marcas e lembranças da infância e adolescência desse garoto, daqueles tempos que não voltam mais. Ademir Giotti Autor


CAPÍTULO I O sol cálido do meio-dia pairava sobre a minha cabeça como se eu estivesse dentro de um grande favo de luz. Quando andava sem camisa aparecia um vermelhidão no corpo que me esbraseava, por isso raramente ficava sem camisa em dia de sol. Meus cabelos anelados e flavos brilhavam como trigo maduro ao sol. Tirei a camisa e limpei o suor que corria do peito, com o rosto vermelho e arroxeado, como um tomate, por ter ficado muito tempo exposto ao sol. Sentia o mormaço daquele sábado de primavera que mais parecia verão. Caminhei de braços abertos até o centro do gramado do campo de futebol. Os raios vermelhos e amarelados do sol iluminavam meu rosto e tocavam meu calção branco, diáfano, espargindo luminosidade e formando pontinhos minúsculos no calção, que de tão branco, doía nos olhos. Era um calção novo, branquinho em folha. Se havia momentos da vida de alguém em que o mais importante era estar fazendo o que realmente se estava fazendo, acabava de ser eu. Jogar bola. O sorriso não deixava disfarçar o contentamento. Era um garoto animoso naquela idade em que garoto e bola não desgrudam. Pensava em jogar bola, driblar, marcar gols, a todo instante, a todo segundo, era o que dominava a minha mente. Havia jogado bola com os meninos dos arredores naquele aprazível sábado. Como fazia em tantos outros sábados. Estava esfalfado e coberto de suor de tanto correr atrás da bola. O campo de futebol no potreiro não tinha as marcas oficias do Estádio Olímpico do Grêmio, mas dava pra jogar bola. Eu adorava parar a bola em cima da risca e fazer gol de calcanhar. Oscar tinha feito um gol de barriga, no momento que eu tinha jogado de goleiro. Mas a maior parte do tempo eu tinha jogado de atacante. Um tucano do bico amarelo-alaranjado tomava banho do sol.


Outro tucano seu filhote pulava de árvore em árvore a procura de alimento. Em seguida capturava insetos em um cupinzeiro e formigas no ar. Deite-me na grama de barriga para cima na sombra de um louro-pardo. Era lindo demais quando tinha a florada branca, atraiam abelhas e o meu olhar. A sombra dava lugar ao calor sufocante. O sítio era dos meus pais, ficava localizado no Passo do Sol, distante quatorze quilômetros da cidade de Chopinzinho, Sudoeste do Paraná. Os nonos paternos também tinham um sítio ali. A casa deles ficava a quinhentos metros da casa dos meus pais. Descendente de italianos tinha por hábito de chamar a avó de nona. A nona Emma falava quase só em italiano. O meu corpo parecia querer correr, pular, gritar, nadar, mergulhar. Era pura sensação de felicidade infantil, mas eu já era um garoto. Bem-te-vis cantarolavam. Procurei-os com meu olhar curioso na copa de uma canela branca, logo os vi lá em cima, peito amarelado, asas cinza e bico comprido, olhavam atentamente para todos os lados, saltavam para outro galho, davam um canto mais forte, olhavam para um lado, para outro e, batiam as asas para outra canela mais alta ainda. O céu cerúleo ficou fosco e nebuloso. Soprava um vento muito forte, balançando a galhada das árvores. Os pássaros que cantavam nos seus galhos refugiavam-se nos ninhos. Um casal de papagaios voava baixinho. Queria ver se encontrava o ninho, mas a mãe me chamou. A nona Lúcia, minha nona materna e o tio Aldir tinha vindo passear lá de Galvão, Santa Catarina.

CAPÍTULO II No pinheiro em frente à casa cantavam pela manhã e á tarde


um mundo de maviosos sabiás, pombas, bem-te-vis e tantos outros pássaros. -Tudo bem, André? - Cumprimentou-me a nona Lúcia, tendo o olhar benévolo, com seu cabelo preto e liso, esvoaçando ao vento devido à tempestade que se aproximava. -Tudo, nona! E com a senhora, tudo bem? - Estou ótima! -Nona, hoje joguei muita bola. Marquei até um gol de calcanhar. - Mas como você cresceu, André! - Observou-me a nona, abanando as mãos em seu vestido de um amarelo como o sol quando está levemente encoberto por nuvens. - É nona, já sou um garoto! - O que me conta de bom? Tem alguma novidade? - Tenho sim, Nona! Quero ver se encontro um ninho de papagaio. A nona vai com eu e a nona Emma procurar o ninho do papagaio? - Sim! Muito bem, André! Ontem e anteontem pensei muito em você! - Obrigado, nona! - Agradeci abraçando-a. - Pelo jeito a nona gostou da ideia? - Gostei e muito! -Plantei as sementes de melão, melancia, abóbora, moranga, que a senhora trouxe. - Disse com aprazimento, esfregando a mão no meu rosto em que ardia uma espinha. - Quando tiver melancia madura à nona vem me visitar? - Venho sim. -Na safra do feijão colhi as vagens que ficavam enroscadas nos galhos e nas ramagens de árvores caídas no solo no meio da roça. Debulhada as vagens colhi quinze quilos de feijão. Com o dinheiro comprei esse calção branco para jogar bola. –Disse, esfregando a mão no calção. - Que bom, André. Percebi que você gosta muito de jogar bola. Começou a chover copiosamente, chovia a cântaros, com


lufadas de vento de minuto em minuto. A água da chuva corria célere por voçorocas. Relâmpagos iluminavam o céu, a floresta e o gramado como “flashes” imensos a cada poucos minutos. Um trovão deixou no ar um silvo agudo. O céu mais parecia um manto branco cobrindo a terra. O calor não diminuiu com a chuva. Choveu muito. Caíram toneladas e toneladas de gotas d’água e vento. Observava com a nona o tamborilar de gotas da chuvada caindo sobre o telhado. Pássaros e aves voavam tão alegres, que pareciam saudar a chuva na verde relva molhada. Eu gostava de chamar os passarinhos piando baixinho. Por um lapso de segundo ocorreu uma rajada de vento com a velocidade de um vendaval. Arrancou um angico pela raiz. Nunca se vira tanta água descendo dos céus como naquele dia.

CAPÍTULO III A amoreira em frente à fachada da casa da nona Emma tinha mais de quatro metros de altura, com a copa bem ampla. As folhas de coloração verde-clara. As amoras com a polpa vermelho escura. Bem maduras eram deliciosas. - Nona, estão caçando passarinho na amoreira! - Vociferei, ao ver um garoto sem camisa, vestindo somente um calção verde. - André, fique aqui com a nona! - Pediu ela da cozinha. - Nona, eu quero ir lá ver o que o garoto está fazendo! Expliquei, enquanto a nona colocou água esquentar numa chaleira de ferro casco preto, cevou bem a erva socada no pilão, derramou água na cuia com a bomba prateada. A nona ficou na sala tomando chimarrão e conversando com o nono. - Os passarinhos não vem comer amoras com você aí! Não quero que cace passarinho! - Exclamei, ao chegar junto do garoto e ver que era o Oscar, meu amigo.


- Eu não estou caçando, só estou comendo amoras. - Oscar, você está com o bodoque escondido no calção?Perguntei desconfiado. - Não! - Defendeu-se denodado, mas percebi que estava mentindo. - André, vem fazer o lanche da tarde! - Convidou a nona. -Vamos na casa da nona! – Convidei-o. - A Emma chamou só você! Me deixe quieto aqui!- Pediu o garoto, ávido e risonho. - Faça como eu, pode comer amoras, mas não caçar passarinho! - Falei, observando beija-flores colhendo néctar das flores onde borboletas multicores brincavam em meio às flores. Peca, o cão de estimação dos nonos acuava e latia em frente à porta. A nona levou comida para o cão. Café à vontade, pairando no ar o aroma gostoso de café puro, encorpado e forte feito na hora, acompanhado de umas broas quentes com aquele cheirinho, muito bem feitas. Da janela da casa dava para ver a plantação de milho. Belas espigas cresciam. Quando o sol atingia seu esplender, a plantação parecia cabelos de anjos dourados balançando ao vento. - A nona nasceu na Itália? - Perguntei ao servir meu prato com uma fatia de queijo, salame e broa. - Não. Nasci no interior de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Foram meus pais que vieram da Itália. Percorreram mais de dez mil quilômetros de navio pelo oceano Atlântico, da Itália até o Brasil. - Nona, de que região da Itália eles eram? - Deixe eu pensar um pouco pra lembrar! - Pediu a nona pensativa. -Eu vou ajudar a nona lembrar. Da Calábria, Toscana, Lombardia? - Já vou lembrar! - Da Ilha de Sicília ou da ilha de Sardenha? - Calma, André! - De Roma, Milão, Turim, Cosenza, Bréscia, Messina,


Pescara, Ascoli, Veneza, ... - Veneza! – Exclamou a nona. - Muitos parentes ficaram na Itália, tios, primos, nem todos vieram ao Brasil. - Nona, olhe um ninho na touceira de noz-moscada! Exclamei, ao ver pela janela um casal de sabiás pousarem no ninho feito de folhas e pequenos galhos. - Os sabiás estão com o bico cheio, distribuindo a comida aos pequenos! - Analisou a nona, se apoiando na janela e segurando a xícara de café na mão. Olhávamos as dezenas de canários que se agruparam em torno dos miolinhos de pão que nona jogou no jardim. Bebia as palavras que saiam da boca da nona. Me dominava com sua presença e afeição. As pombas voavam dos pombais, ruflando as asas, sacudindo as penas, todas em bando e em revoada, com suas plumagens plúmbeas, purpúreas, aniladas e pardas. Despediam-se do dia e acolhiam a noite.

CAPÍTULO IV No jardim em frente à casa da nona Emma o que chamava atenção era uma plantação de figo-da-índia, os cactos com troncos retorcidos e recobertos por musgos. Alguns dias depois fui ver se tinha figos maduros. - Venha me ajudar a encontrar figos maduros! - Pedi ao Oscar, ao vê-lo sentado em um galho da amoreira. Tentou subir nos cactos, mas aranhou o peito nos espinhos. Conseguiu colher um figo bem maduro, mas bicado por pássaros. Repartiu comigo o figo. A polpa do figo era amarelo-ouro, meio porosa, cheia de sementinhas porosas. Doce, com leve toque ácido, mas bem refrescante. Um sabiá bicava amoras maduras. Oscar mirou o bodoque e acertou-o. O sabiá com a asa quebrada não conseguia voar. Corria


por entre as touceiras de capim tentando se esconder. Oscar corria para pegá-lo. Eu também corria. Pisei nos pedregulhos. Resvalei. Caí como se tivesse levado uma rasteira. Como estava sem camisa esfolei o peito e a barriga. Levantei-me ainda chorando de dor e fui desolado a sombra da uvaieira. Consegui tirar o sabiá vivo do Oscar. Soltei nas touceiras de caraguatás, onde se escondeu. Acabei aranhando o braço nas folhas dispostas em roseta e serreadas. - Oscar, não é pra caçar passarinho! -André, posso te falar uma coisa? -Pode! - Eu não sou igual a você, eu não quero ser igual a você, eu penso diferente de você. Dá pra você entender? Eu gosto de caçar passarinhos, se você não gosta é problema seu. Só não quero que fique enchendo o meu saco. - Eu não concordo que você cace passarinhos, hoje, amanhã, nunca. Nunca vou concordar. Nada vai fazer mudar a minha opinião sobre isso. Entendeu? Eu não estou enchendo o teu saco. Só acho errado isso que você faz. Quero que os pássaros vivam livres na natureza. Livres para voar, para cantar, para fazer seus ninhos. - Pare com isso, André! Eu tô fora! Que conversa é essa pra cima de mim! André, você está pegando demais no meu pé! Tá me deixando nervoso! - Oscar, tenho mais pra te dizer! Você é um garoto livre para jogar bola, estudar, correr, tomar banho na cachoeira, livre para viver. E por que é que os pássaros não podem ser livres para vir aqui na amoreira comer amoras? Já pensou na dor que um pássaro sente ao ser atingido por uma pedra? Já pensou se o pássaro ferido tem seus filhotes no ninho esperando comida e não mais poderá retornar ao ninho? O garoto ouviu em silêncio e de cabeça baixa. -Não é mais pra caçar passarinho. Espero que saiba que esse não é pro seu bem. Tem que ser amigo dos pássaros. Não é mais pra armar arapuca por ai na mata.


- Eu não vou falar mais nada! - Disse Oscar e foi embora.

CAPÍTULO V Alguns dias depois eu e Oscar estávamos sentados no círculo central do campo de futebol no potreiro. Tínhamos a mesma idade. Nossa amizade não era precoce. De todos os meus amigos em quem eu mais confiava era no Oscar. Me dava motivo para eu confiar nele. Era bonzinho, maneiroso e maneável. Porém tínhamos divergências, eu não gostava que ele caçasse passarinho. Divertimo-nos um tempão batendo bola. - Você, já gosta de jogar bola com esse calção branco. – Observou Oscar, apoiando a mão em meu ombro. - Não sei o que gosta mais, de jogar bola ou do calção? - Gosto de jogar bola e também do calção. É muita emoção. - Vou te perguntar de novo, gosta mais de jogar bola ou do calção branco? - Gosto de jogar bola com o calção branco. - Entendi. - Oscar, eu gosto de jogar bola com você de companheiro, nós dois nos acertamos bem nos passes e toques de bola. Já fizemos muitos gols. - É isso ai! André, lembra do gol que eu fiz de barriga em você, quando jogava de goleiro? - Lembro! Pare de me humilhar! - Não estou te humilhando, estou lembrando do golaço que fiz. Gol de peito! Oscar pegou a bola e fez várias embaixadinhas. Fiquei ali observando-o. Cansados de bater bola fomos tomar banho em uma cachoeira. Eu e Oscar fizemos um desafio para ver quem aguentava ficar mais tempo respirando debaixo da água. Divertimos-nos muito, com muito prazer. A água estava ótima


para banhar-se. - André, o que você tá pensando com essa cara de crânio? Quis saber Oscar, apoiando a mão em meu ombro, quando saímos da água e nos dirigíamos para o pomar lá em casa. - Eu, a nona Lúcia e a nona Emma, vamos procurar o ninho do papagaio. - André, bem de amigo, bem de amigão, deixe eu ir junto? Pediu Oscar, vigoroso, simplicidade no sorriso, com seu modo mansinho e olhar confiante. - Pô, meu! Deixo sim! -Temos que achar o ninho do papagaio. Ontem passei “de molho”! Ao deitar, depois de ter recebido conselhos para um chá de casca de laranja com mel, tomei o dito chá. Adormeci num instante. Tudo para ver se me livro desta gripe. – Comentou Oscar, trepando em uma laranjeira, indo rápido pelos galhos abertos até aos ramos mais finos, que sacudia com robustez, para derrubar laranjas longe da mão ávida. Uma perna aqui, outra acolá. O garoto não se importava com os espinhos agudos que ao se encostar riscavam a pele deixando riscos avermelhados pelo corpo. - Mas agora você está bem? – Perguntei, quando desceu e me alcançou uma laranja. -Tô inteiro! - Respondeu animado se pondo a rir afetuoso. Pô, meu! Não tem gripe que me derrube!

CAPÍTULO VI Fui com a nona Emma ao jardim. Desabrochavam botões de rosas em tons vibrantes, com pétalas de diferentes formatos. O gato que sempre dormia debaixo do fogão a lenha saiu correndo da cozinha, pegou um inseto em uma roseira e revirou-o,


jogando-o para cima, deitou-se sobre ele até ele parar de se mexer. Um pássaro tênue e argênteo pousou em um galho da bergamoteira. Era possível sentir o perfume das belas flores, das begônias, dos gerânios, das rosas. Olhava a chuva que despencava interminável e potente, com seu frescor acariciando o chão e tudo em volta. Os pingos reluziam nas pedras e arrastavam pequenas folhas das árvores. Um cheiro de terra, musgos e mato impregnavam docemente o ar úmido. Algumas gotas caiam sobre meu rosto, arrepiando-me. Vinha um cheiro bom de nanás maduros plantados a beira da cerca de arame para cercar o gado. Eu sentia o afago e absorvia o odor. Respirava fundo, enchia as narinas. Uma juriti com voo rasante pousou em um imbuzeiro e foi atacada por um gavião ferrenho. - Vai fazer o que, André? - Eu já sei o que vou fazer! Já volto nona! - Disse, com o vento esborrifando gotículas da garoa e dos pingos grossos de chuva que caiam no meu rosto. O tempo não estava para brincadeira. O céu parecia despejar todo de uma vez. O vento forte sacudia as árvores. Os raios cortavam o céu. E eu tentando acudir a juriti embaixo da chuva forte. A chuva torrencial com um pouco de vento me acalcava forte como um soco, mas deliciosa como uma carícia. Os pingos desciam sobre mim, ensopando em segundos meu rosto, meus cabelos e todo meu corpo, fazendo pesar à roupa permeável. Fiquei completamente encharcado e tendo o corpo tocado pelo sopro do vento. Deixou-me molhado até os ossos. Uma sensação de alegria me invadia e pulava rindo e balançando os braços paro o contato frio e quente. A juriti se defendeu como pode. Escondeu-se nas folhas enormes no ápice de uma palmeira, onde um pica-pau batia o bico no tronco indiviso e liso. O cacho de coco maduros balançava ao vento. O gavião pousou em uma folha da palmeira. Não gostei nada, porque ele pretendia atacar a juriti. Queria defendê-la. Mas como? Precisava bolar um plano o mais depressa possível para evitar que


a juriti fosse devorada pelo gavião. Comecei a correr em direção à palmeira. Resvalei em um pedregulho e acabei caindo como se tivesse levado uma rasteira. Esfolei os cotovelos. Quando levantei a juriti voou no potreiro e pousou entre as folhas delgadas de uma pitangueira. E o gavião foi atrás. A chuva amainou, mas o céu continuou encoberto. Bandos com dezenas e centenas de canários, rolinhas e tico-ticos ciscavam ao redor do cocho de sal, onde o gado perfilava-se para comer. Um touro com o cupim berrava empurrando os bezerros e novilhos. O gavião tomado de sanha encontrou a juriti e tentou pegá-la, mas a pomba escapou soltando penas e escondeu-se nas folhas oblongas e obtusas da uvaieira. Subi firmando os pés nos ramos tetrágonos. A juriti voou ao chão e corria por entre as touceiras de capim no banhado. A nona me chamou. Retornei correndo. Levei uma bela bronca da nona, por causa da minha roupa, manchada e enlameada. - André, você está todo molhado e sujou toda a roupa! - Queria acudir a juriti do gavião. Cheguei-me a pia. Enchi de água as duas mãos formando cumbuca, enxaguei a boca. Cuspi fora. Atirei-me à cadeira. Iria cair. E cobrindo o rosto com as mãos, comecei a soluçar. De imediato a nona me cercou. Queria saber o motivo de tanto pranto. Saiu correndo da sala e logo voltou trazendo um copo d’água. Com as mãos tremulas, segurei o copo oferecido e absorvi um grande gole no momento, sentindo nos lábios o frescor da louça. Aos poucos fui sorvendo a água e me recompondo. - O que houve, André? Está me escondendo alguma coisa? Seja sincero com a nona! - Nona, tenho um espinho cravado no meu calcanhar! Declarei, fazendo embasar o vidro da janela pelo hálito quente. - Você me deu um susto. E que susto! Eu disse para você ter cuidado! Eu te ajudo. E onde tinha espinho pra você ter pisado em cima?


- Não tenho ideia, não lembro de onde pisei em um espinho! Balbuciei, desenhando uma árvore com os dedos no embasado do vidro e apagando o desenho com a costa da mão. - Vou tirar o espinho com a agulha. E passar mertiolate. Fui para casa. Passei pela sala onde a mãe fazia seus bordados e crochês. Ela estava bordando uma toalha de mesa retangular, com desenhos de girassóis e orquídeas. E uma colcha de seda, havia muitas rosas bordadas. Como eu gostava ficar debaixo das cobertas comendo pipocas e tomando chocolate quente em dia de chuva. A casa ficava mergulhada numa sombra constante do verde-escuro dos pomares e sinamões. Do limoeiro, da limeira, da ameixeira, das bergamoteiras, das laranjeiras, das pereiras. Os patinhos nadavam e mergulhavam em torno da lagoa. As galinhas cantavam em uníssono. Procuravam os poleiros para se agasalhar. Algumas dormiam nos galhos mais baixos das árvores. Profundas sombras cobriam as bananeiras e as florestas ao longe. O pai chegou do bananal com um cacho de bananas amarelinhas. Algumas de tão maduras já despencavam. A mãe disse que ia aproveitar para fazer doce de banana.

CAPÍTULO VII A mãe ascendeu à lamparina a querosene para iluminar a casa. Fui buscar gravetos para ascender o fogo no fogão a lenha e dividir a lenha em gravetos finos, para conseguir labaredas. A chaleira assobiava a fervura, onde a lenha crepitava ligeira, soltando gostoso e acalentador bulício. O fogo era de um afogueado vivo, quase intenso, típico de madeira seca, do cerne de angico. Junto à lareira a mãe preparou a janta. Pegou a panela de ferro onde a polenta acabara de ser cozida, mexendo-a com uma


espátula por meia hora, virou-a e espalhou-a sobre o talher. Tinha carne de frango frita, nhoque, queijo, salame, torresmo. Raditi temperado de vinho vermelho, toucinho e lardo. O cheiro dos temperos tomava conta da cozinha. A mãe cortou fatias de polenta com a linha. Quando eu servia meu prato derramei molho na toalha branca. Levantei-me da mesa e fui à sala. - André, vem cá! - Chamou-me a nona Lúcia. -Não vou não! - Esquece o molho derramado. Vem servir teu prato! - Pediu, vindo até a sala. -Nona, eu não quero ir à mesa. - Então eu sirvo o prato pra você. Pode ser? -Pode. O lobo, cão de estimação, farejava e abanava a cauda. Levei um pouco de comida pra ele. Depois da janta a mãe ficou sentada na beirada da janela sempre olhando para o céu, muito admirada com os vaga-lumes retouçando no escuro. Ficou longo tempo a consultar a noite silenciosa. E com o passar do tempo raiava no céu cor de anil, novas estrelas de minuto em minuto, com aqueles pontinhos minúsculos brilhando. A abóbada celeste recamada de cetim azul cavava-se no alto, profundo e luminoso. Estrelas de luz mortiça apareciam cintilando como cabeças de alfinete de prata. A lua nova assemelhava-se a um fino anel dourado. Antes de ir dormir rezava a Ave Maria em italiano que a nona Emma tinha me ensinado: “Ave Maria, piena di grazia, il Signore è con te. Tu sei benedetta tra le donne e benedetto è il frutto del tuo seno, Gesù. Santa Maria, Madre di Dio, prega per noi peccatori, adesso e nell’ ora della nostra morte. Amen “. Eu deitava cedo e acordava cedo. Custava a pegar no sono. Fiquei pensando em encontrar o ninho de papagaio. Isso me contagiava e muito. Ouvia o coaxar das rãs no banhado.


CAPÍTULO VIII No crepúsculo do amanhecer minúsculos traços vermelhos amarelados, réstias de sol que eram cobertas pelo nevoeiro, mas com seus raios brilhavam com intensidade aquecendo a terra e derretendo o orvalho. No sítio o dia começava muito cedo. As folhas secas caiam na frente do portão do potreiro. O tênue alvorecer espiava das janelas. Levantei-me animado. Sentei na borda da cama. Assistia o nascer da aurora, cada vez mais viva, a colorir de laranja o Leste. Vesti a camisa do Grêmio e o calção branco. O dia prometia muito. Ia procurar o ninho do papagaio com a companhia da nona. Isso sim me animava. O gramado amanheceu repleto de poças de água. A grama nascia e os galhos abriam suas brotações. Como era boa a sensação de correr pela manhã e pisar em todas as pequenas ou grandes poças d’água que encontrasse por aí. A mãe foi fazer a ordenha das vacas: a Malhada e a Pintada. Tratou-as com espigas de milho pequenas e papuã colhido no meio da plantação de milho já com as espigas maduras. O gado mugia no curral. Era hora de tratá-los. Enchi os comedouros dos bezerros com pasto verde ceifado há pouco, e com o milho quebrado, misturado com farelo de trigo e sal. O cão lanoso corria atrás de bácoros no banhado. No chiqueiro uma porca amamentava sua ninhada em meio ao zonzonear das moscas. No terreiro, patos, angolas, perus, galinhas caipiras, cantavam, ciscavam e esgravatavam no chão. A mãe trouxe o leite e pôs coalhar para fazer o queijo. Eu fui correndo até a casa da nona Emma. - Bom dia, Nona! - Disse eu, com o rosto aberto num grande sorriso, indo ao seu encontro. - Bom dia, André! - Respondeu ela, debulhando uma espiga de milho com as mãos e tratando as galinhas que tinham as penas brancas, amarelas e carijós. - André, dormi bem durante a noite.


Cheguei a sonhar com o ninho do papagaio. -E como era o ninho? - Era no oco de uma árvore. Tinha dois filhotes de papagaios no ninho e vinham com o bico aberto esperando a comida. Em seguida o casal de papagaios chegou com os bicos cheios de comida e a distribuíam aos seus filhotes que se calaram para comer. - Então hoje é o dia que vamos encontrar o ninho do papagaio! Eu vim ver se a senhora pode ir junto com eu e a nona Lúcia. - Tem que ser agora, André? Bem que eu queria ir. E acho que vou acabar indo mesmo. Se você esperar um pouco! A nona foi ao poleiro e colheu os ovos das galinhas e pôs em uma cesta. Observou uma galinha e a seguiu até o ninho em uma touceira de capim. Ali chocava nove ovos e os pintinhos começavam a bicar os ovos para nascer. - André, chame o Peca! Um furão atacou uma galinha carijó. Ele se escondeu na capoeira. O Peca, pelagem amarelada chegou farejando. Estava sempre alerta aos chamados para caçar, brincar e para comer. Retornei para casa correndo. A nona Lúcia cortou fatias de polenta e as colocou sobre a chapa quente do fogão, acompanhando o queimado das pontas e passando a virá-las um a um, ora tostando de um lado, ora o outro. Aí tirava as lascas mais tostadas da chapa e colocava-as nos pratos. Esquentava o leite e passava o café preto pelo coador de pano. O café da manhã foi servido com polenta sapecada na chapa, pão, leite, nata, queijo e salame. O pão de trigo, branco por dentro, como o miolo, e dourado por fora. Meu estômago acolhia o calor saboroso do café com leite e polenta com nata.


CAPÍTULO IX A primavera estava repleta de flores. A nona Lúcia me chamou naquela manhã ensolarada. Segurava o cabo do machado na mão junto a um tronco de grápia caído ao chão! Eu estava com o Oscar sentado nos galhos de um areticumzeiro, havia areticuns amarelinhos. Comíamos areticuns. -Tô aqui nona! Aqui no areticumzeiro com o Oscar! Colhendo areticus. - Traz um areticum pra nona! -Levo sim, nona! Ela trajava um vestido azul da cor do céu. - Fique aqui me fazendo companhia! -Pediu ela, brotando um sorriso em seu rosto rosado, quando lhe entreguei um areticum. -Sim! O Oscar me disse que tinha que ir para casa e eu fiquei ali com a nona. - Estou cortando essas lascas de grápia para fazer lenha! Ainda tenho que ir preparar a macarronada. -Macarronada! - Exclamei com o paladar aguçado. -Vou preparar macarronada a moda italiana. Muito tomate, molho com carne de frango e bastante queijo ralado! - Vai ser uma delicia comer essa macarronada. - Que saudade do tempo que eu tinha a tua idade e morava em Araranguá! - A nona nasceu e cresceu na roça que nem eu? - Sim! É da roça que sai o pão! Andava de pé no chão no meio das plantações de milho, arroz feijão, pegava sol e chuva. Eu achava confortável aquela presença ao meu lado dialogando os caminhos das ideias. Essas coisas me apreciavam tanto. Tinham gosto de vida pura. Estar com a nona era estar acompanhado mesmo que a nona estivesse em silêncio. - Gosto de ver o sol quando se põe atrás das árvores, todas as coisas parecem ficar douradas! - Disse a nona, enchendo um cesto de lenha.


- O pôr do sol é muito lindo. -André, eu gosto do cheiro de terra molhada, da terra que é lançada a semente, que nasce, cresce, produz fruto. Sinto um fascínio pela terra, gosto de semear, de plantar, de colher! Declarou a nona me alcançando uma lasca de grápia para ascender o fogo. - A nona tem um poço de recordações? Olhou-me lúcida e respirou fortemente. Eu já sabia a resposta da nona. - Falar dos meus sonhos, do meu passado, é vida vivida, como os anos passaram em minha vida! Tudo o que fizemos na vida tem que ser com amor. É necessário ter a mente aberta para acolher as experiências. É triste e dolorido se despedir das pessoas que amamos que partem muitas vezes para não mais voltar, porque vão para o além. A nona caminhava em direção a um pé de ipê amarelo. Os olhos fixos para o alto, continuou caminhando, cada vez mais próxima, um galho a sua frente. Acariciou as flores. - André, eu gosto das flores amarelas. Como são lindas as flores dos ipês. Toda vez que você ver um ipê amarelo florido lembre-se da nona!- Pediu, mantendo o olhar por um certo tempo no ipê. - Nona, vou lembrar da senhora, sim! Oscar retornou e cumprimentou-me. Toda a vez que nos encontrávamos ele vinha me dar um aperto de mão. Enquanto a nona tinha ido preparar a macarronada eu e Oscar fomos olhar a grápia. Mirins começaram a sair de um pequeno oco. Aquelas lascas de lenha amareladas inalavam um aroma suave. - O que houve com você, André? - Oscar, olhe aquele oco ali! - Gritei apontando o dedo. - O que é que você acha que é? - Tem mirins! Acho que tem mel. Eu vou abrir o oco com o machado! – Disse, pegando o machado que a nona tinha deixado ali para a tarde continuar a cortar lenha.


Os alvéolos cheios de mel escorriam por entre os dedos de Oscar que me alcançou um favo. - Pode chupar mel, André! O mel dos mirins é puro, saboroso e delicioso! - Eu digo o mesmo que você, Oscar! Fiquei ali com o Oscar chupando mel à vontade. Grudei a língua ao céu da boca ao chupar os favos de mel açucarados. Chupei mel até não conseguir mais. Ainda sobraram favos. - Oscar, ainda bem que os mirins não dão ferroadas! - Os mirins não são como as abelhas. O mel deu sede. Muita sede. A garganta ardia de tanto mel. Fui procurar água. Vi uma revoada de pássaros quando entrei na mata limpa onde tinha uma nascente de água.

CAPÍTULO X Dias depois eu caminhava descalço pelo gramado verde como um tapete colorido, respirava o perfume da manhã clara e transpassada de azul. A nona Lúcia e a nona Emma me seguiam. Observamos o ninho da pata que por alguns dias tinha aquecido pacientemente seus ovos, após a longa espera, os ovos se abriram um após o outro, e das cascas rompidas surgiram, engraçadinhos e miúdos, nove patinhos amarelos que, imediatamente, saltaram do ninho. Eu sentia uma alegria como um novelo que começa e se desenrolar com facilidade. O cheiro suave e refrescante trazido pelo vento nos fez ter louçania. Ouvimos rugidos. Primeiro um, em seguida outro, e depois outro. Cada qual mais forte. Mas não nos apavoramos. Era um bando de bugios saltitando de galho em galho em uma guabirobeira. O João de barro com seu filhote de plumagem parda


pousaram em uma uvaieira, onde estava o ninho em formato de forno, construído com barro úmido e misturado a ciscos e palha. Quero-queros se abaixavam no gramado com um penacho na região posterior da cabeça e um par de esporões ósseos no encontro das asas, ameaçando atacar quem se aproximasse deles. Tico-ticos saltitavam e esgravatam alimentos no solo, em folhas secas, por meio de pequenos pulos. Outro tico-tico estava no ninho feito de capim seco e raízes. Um bando de curicacas voava alto com o pescoço levemente encurvado para baixo. Via-se de longe a grande mancha branca sobre o lado superior da asa. O glorioso sol ia luzindo no céu. Esparzia sobre a terra a sua alegria dourada. Quanto mais alto mais se elevava a brilhar. Já era passado do meio-dia, dia quente, daqueles insuportáveis. E nada de encontrar o ninho do papagaio. Decidimos que a tarde iriamos voltar ao potreiro para procurar. A mãe capinava nas plantações de verduras. A lâmina da enxada brilhava como relâmpagos de prata ao sol. Um preá corria por entre as touceiras de capim. A teia de aranha com seus fios parecia tecerem um tapete entre as folhas de uma palmeira. A maitaca com penas verdes, bico amarelo, usava as patas para segurar o coco e levá-lo até a boca. O grugrulejar do peru e da perua na sombra de um pessegueiro quebrava o silêncio do almoço que a nona Lúcia preparou. O pai me chamou quando eu descansava na sombra das laranjeiras. Alcançou-me o buçal para eu ir pegar o cavalo que ele costumava tratar com milho. Enquanto ele arrumava os arreios para encilhar o animal. Relinchos longos e sonoros dos cavalos Pampa, zaino, tordilho e alazão, que se empinavam e se viravam no solo. O plincar dos cascos nas pedras. O alazão que já era domado para toda lida, com os olhos chispando, suas longas crinas esvoaçavam ao vento, relinchava e sacudia a longa e cintilante cauda. Pôs-se de repente a galope,


num ímpeto inflamado, as orelhas sacudidas, marginando toda a cerca. A cauda veloz levantava e atirava pêlos. Estancou o seu galope e passou a trotear. Aí consegui pegá-lo. Depois de encilhar o animal o pai colocou os pés no estribo e montou. Saiu galopando pela estrada. Subi em uma pitangueira para brincar. Quando tinha frutos maduros na floresta o chão coalhava-se de fruta. Eram pitangas, cerejas, guabirobas, ingás, guabijus.

CAPÍTULO XI A tarde brilhava como em tom de porcelana ao som estridulo das cigarras. E a procura pelo ninho do papagaio continuou. Por onde pisávamos formigas carregavam cascas de frutos caídos ao chão. Uma perdiz saiu cacarejando da capoeira de vassourais, debaixo de ramos secos. Depois de uma pequena corrida voou rente o solo por alguns metros e se escondeu nos capins. Eu caminhava sobre a tora de grápia ao chão. A madeira era lisa e de tanto passar resvalei. Tombei no chão e de boca. Sangrou. Apoiei as mãos na cabeça com medo e vergonha. Eu vivia machucado, era por um escorregão, tombo, aranhão nos espinhos, dor no pé ou no tornozelo, por jogar bola descalço ou por chutar o chão. A mão machucada por jogar de goleiro e defender chutes fortes. Mas eu não era um garoto levado. - O que que foi? - Perguntou a nona Lúcia, vindo me ver apressada. - Machuquei a boca! - Disse eu, deitado de bruços. - Nona Lúcia, não precisa ter dó de mim. Sei que eu não devia correr sobre a tora de grápia. - Mas você é um garoto!


- É mesmo, nona! Não vai me xingar! - Levante, deixe eu ver tua boca! Sentei no gramado. - Temos que passar remédio! - Não precisa, nona! A dor já vai passar. - Claro que sim! Tua boca está sangrando! -Não, nona! - Sim, André! André, como você é um garoto teimoso! -Não! Bebi um pouco de água no cantil e deitei-me na grama, na sombra de uma canela, onde um bando de gralhas picaça crocitavam na copa. Os meus ouvidos se aguçavam e ficavam ouvindo o tum-tum do meu coração. Ventava muito e eu gostava do som do vento raspando nas orelhas.

CAPÍTULO XII Fiquei admirando o céu. Olhava distante para a paisagem de árvores, onde a selva ainda não havia sido desmatada. Tudo era verde, imensamente lindo e intocado. O céu de um anil profundo, ao longe se fundia aos dosséis dos pinheirais sem fim. Separandoos apenas a tênue linha do horizonte. Oscar chegou e sentou ali do meu lado. Cochilei. Lembrei-me de uma tarde que eu e Oscar fomos ao pinheiral. Naquela tarde o vento começou a soprar bem forte. Quanto mais soprava mais o frio ia aumentando. Comecei a tiritar de frio. Sentia o corpo gelado. Esfregava uma mão na outra tentando me aquecer. Ajustei o casaco ao corpo, um casaco de lã azul, cor de piscina, de tricô feito à mão. Oscar trajava um casaco marrom com detalhes azuis, forrado de lã por dentro. Subíamos por um outeiro oval chupando laranjas bem maduras que o Oscar havia colhido. Oscar seguia na frente. Os


raios de sol deram lugar às esmaecidas réstias de luz que se esgueiravam tímidas, através das folhagens das árvores. Olhávamos fixamente até a copa de um pinheiro por alguns instantes. Devido à virtualidade dos galhos, das folhas verde escuras pontiagudas, da forma cônica das copas, que mais pareciam taças, do tronco cilíndrico de altura elevada, o pinheiro proporcionava um colorido especial a natureza e a brindava com seu monumento. Ao esplendor da tarde o pinheiral verde se vestia de vagos tons alaranjados. No pinheiro gostava de aproximar-me de seu tronco e afagá-lo, olhar o céu através de sua copa enorme e luminosa. Um serelepe se alimentava com um pinhão. Depois saltitava entre os galhos a uma distância de vários metros. Uma pinha estourou ao sol espalhando-se num arredor de cerca de cinqüenta metros a partir da planta mãe. - André, vamos sapecar pinhão na brasa? - Convidou Oscar, todo contente. - Vamos sim! - Concordei, ajudando a colher os pinhões, preparando o aceiro, amontoando a grimpa e ascendendo o fogo que logo crepitou. - André, eu já colhi mais de vinte pinhões. - Enumerou ele, antes de colocá-los nas brasas. - Eu colhi menos que voce! - Disse, depois de contar quinze pinhões colhidos enbaixo do taquaral. Oscar se aranhou nos xaxins e taquaruçus para colher pinhões bem maduros. Degustamos os pinhões à medida que iam se tostando. Descascamos com as próprias unhas e dentes. - Como é gostoso comer pinhão assado na brasa! - Exclamou Oscar ao descascar um pinhão e colocá-lo na boca. Um papagaio voava na cúpula ensombrada e frondosa do pinheiral nos enchendo de admiração. Decidimos observá-lo mesmo que à distância. Para se desviar de um galho, de um tronco caído, os olhos já se apertavam. O ar estava impregnado do cheiro das folhas caídas ao chão. As árvores eram tão juntas umas das


outras, nos dando a impressão que não iríamos conseguir passar entre elas. À medida que íamos subindo o cansaço ia aumentando. O suor corria das têmporas. Eu retia com esforço o muco do nariz, passava a língua de leve na polpa dentária. Já estávamos com dor no pescoço de tanto olhar pra cima, na copa das árvores. - Como é gostoso respirar o ar fresco da floresta. Isso me faz tão bem! - Comentou Oscar. O silêncio era cortado pelos sons do vento e o alarido de pios dos pássaros. Que fascinante andar pela floresta adornada por majestosos pinheiros. Passado algum tempo não encontramos mais nenhum vestígio de papagaio. Quando a noite se aproximava retornávamos apresados. O vento minuano soprava encolhendo as folhas das árvores. Era hora de se agasalhar. Acordei com a nona Lúcia na minha frente. Oscar continuava ali do meu lado. - O que a senhora quer? - Perguntei com a boca entreaberta. - Está, tudo bem com você, André? - Sim, nona! O ferimento na boca não sangrava mais, só latejava. Algumas vacas branco e preto pastavam sossegadas debaixo de árvores que lhes serviam de sombra e aprisco, apenas abanavam o rabo para espantar as moscas. - Um casal de papagaios pousou no tronco de uma canela branca. Me acompanhem. - Pediu a nona. Quando os papagaios voaram seguimos por uma trilha até chegar a um minúsculo álveo. Era tão bonito o treme-treme da água clara iluminada pelo sol. Encontramos uma anta comendo brotos, folhas, casca de árvores. Era engraçado ver uma pequena tromba móvel na ponta do focinho da anta com listras e manchas claras, parda avermelhada. Tomamos água cristalina. Íamos ladeando devagar ouvindo o gorgolejo possante de águas encachoeiradas, todo espraiado, solene, quase sempre puro e de águas claras a refletir, como que


em espelho animado e corredio. O estridular do pica-pau de topete vermelho que bicava no tronco de uma palmeira. Eu fiquei admirado ao ver suas penas com o formato de um “V” branco nas costas. Já outro pica-pau produzia um forte zunido com as asas em voo. Cansados de procurar o ninho do papagaio fomos à casa da nona Emma. A nona foi no quintal e colheu uma moranga. E começou os preparos para fazer tortéi no jantar.

CAPÍTULO XIII No domingo estava indo para a catequese na Capela Nossa Senhora da Salette, na comunidade do Bugre, distante quatro quilômetros. Ao passar pela casa da nona o cheiro de café pairava no ar. A nona me viu pela janela. - André, na volta venha aqui comer cucas. Vou assar uma fornada de cucas! - Que bom, nona. - Quando vai fazer a Primeira Comunhão? Já faz mais de dois anos que você vai à catequese. - Ainda não sei te dizer, nona! No caminho ao longe sentia os sinos a tocar na Capela que fui batizado. Que emoção que sentia no coração. Após a catequese eu mesmo toquei o sino para a celebração dominical. Sentei-me na primeira fila de bancos na Capela. Dali podia contemplar Nossa Senhora no altar. Terminada a celebração saí em silêncio. Passei em um bar onde comprei balas e chicletes com o dinheiro que tinha ganhado do pai. No retorno demorei mais de quarenta minutos. A paz assimilada na capela acompanhou-me durante todo o trajeto. Pela tarde descansava deitado no gramado em frente à casa


da nona. Ouvi a nona me chamar. Ao chegar à sala à nona chamou-me em seu quarto. Estava sentada na cabeceira da cama olhando para um ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Segurava nas mãos um rosário com as contas azuis. - André, vou te dar esse rosário! Para você sempre lembrar da nona e sempre rezar para Nossa Senhora. Eu amo Nossa Senhora e a Igreja Católica. - Obrigado, nona! - Sábado que vem tem missa na Capela Nossa Senhora Aparecida, lá na comunidade da Água Branca. Você vai com a nona? -Vou sim! Retornei pra casa todo contente. Guardei o presente com carinho. No dia seguinte a nona Emma me chamou com a mão no cabo da enxada, abanando o chapéu de aba larga feito da palha de trigo, na roça, onde plantava pipoca em meio à galhada de árvores já transformadas em húmus. - Que que foi, nona! - Arapuás voam da forquilha de um pé de erva-mate. Tome cuidado, André. - Dói picada de arapuá? - Perguntei, correndo descalço no meio de tocos e pedras. -Dói, sim. E como dói! Ao chegar junto da nona sentei-me sobre uma grande pedra. - André, não sente nas pedras quentes do sol. O céu estava limpo depois de uma manhã de garoa e céu nublado. O sol ardia impetuoso no rosto, tocava a pele dourada dos melões, das melancias, com a casca rajada de verde-claro, que molhavam a minha boca. O vento leve e suave apenas movia as folhas das árvores, sacudia os talos de cebolinha, as folhas de alface, da hortelã, da salsa, espalhando um cheiro muito verde. - O que a nona vai colher? -Alface, repolho, cenoura, ...


Quando retornávamos da roça, a nona olhou que o céu ficou nublado e disse: - Que bom que vai chover com a terra molhada as sementes germinam rápido. Veio uma chuva fina no meio do silêncio que se findava. A noite demorou a cair. Os relâmpagos transformavam a noite em dia claro. Pela manhã, seguia com a mochila nas costas pela trilha que dava acesso a estrada, aonde eu ia para a Escola Rural Pero Vaz de Caminha. A primeira aula era de Geografia. Os alunos tinham que apresentar a redação sobre o tema: Cadê nossas florestas? Cada aluno ia à frente dos colegas e lia sobre o que tinha escrito. Chegou a minha vez. Escrevi uma pequena redação. Tímido e com o rosto todo vermelho, as orelhas iam esquentando, comecei a ler: “A floresta é a morada, a casa, o habitat dos animais, das aves e dos pássaros. Se as florestas forrem derrubadas, como a onçapintada, o leão-baio, o macaco, o tamanduá bandeira, o ouriço, a anta, a cutia, a paca, o serelepe, o veado, o sabiá, o tucano, o bemte-vi, a arara, o papagaio, o periquito, a maitaca, a pomba, o nambu chororó, e tantos outros pássaros, aves e animais vão sobreviver? Pensem sobre isso, pensem mesmo sobre as florestas. As florestas são o futuro desse país.”. Recebi aplausos dos colegas. O professor me elogiou muito sobre a redação.

CAPÍTULO XIV Chegou o verão. E mais uma vez a visita da nona Lúcia. - E agora o que faremos?- Perguntei a nona Lúcia ao chegar ao tronco da grápia. - André, você olha os ocos das árvores aqui por perto pra ver se encontra o ninho do papagaio.


- A nona não é de perder tempo, não é? Em uma cabriúva avistei um papagaio. Fiquei quieto por um tempão. Mas ele voou pra longe na floresta. Uma cutia de cor vermelho alaranjada tentava se esconder em uma touceira de taquaruçu. A nona Emma chegou. Oscar não demorou a chegar e deu a ideia entrarmos na floresta. Nas árvores frondosas os passarinhos chilreavam. Tinha pés de aroeira, amoreira, peroba, corticeira, açoita-cavalo. Mas de repente ecoou um rugido fortíssimo. Nos olhamos os quatro espantadíssimos. Olhamos para os lados e em volta prestando atenção. O Lobo, tinha pousado com as pernas retorcidas sobre o corpo ergueu a cabeça e lentamente umedeceu os beiços e começou a latir. - Nona, será que tem bicho feroz nessa floresta? - Perguntei, com voz de espanto. - Temos que descobrir o que é! - Exclamou Oscar, demonstrando muito medo. - Aqui nessa mata não deve ter onça pintada, leão baio, lobo guará. Podemos encontrar paca, cutia, anta, capivara, irara, furão, que não são animais ferozes. - Comentei chegando junto do Oscar. - Calma, num precisa se assustar. Um barulho nas folhas ao chão. Algo estava escapando ao nosso controle. O Lobo colocou uma pata em pé e soltou um resmungo. A nona Emma acariciou o espaço amplo e macio entre suas orelhas. - Nona Lúcia! Nona Emma, vamos subir nesse angico inclinado! - Exclamei, apontando o dedo para a árvore a nossa frente. - Vamos, é perigoso ficar aqui no chão. Desde o chão até os galhos mais altos subimos apavorados. - Estou com medo! - Exclamei, sentindo um arrepio, pensando no que poderia acontecer, arregalando os olhos e sentindo uma fraqueza nas pernas. O urro ia se aproximando. O Lobo latia com intensidade. Comecei a suar como mangueira de jardim. - Tenho medo! Muito medo! - Exclamou Oscar, arregalando


os

olhos. - Estou sentindo uma fraqueza nas pernas. - Calma! - Pedi apoiando a mão no ombro de Oscar. Cuidado! Bastante atenção. Olhei pra trás e me senti tão longe, nunca tinha imaginado que ia ser assim. As lágrimas de emoção vieram fartas escorrendo sobre o rosto queimado pelo sol. Percebia que o tempo já não passava. Tinha que encontrar um jeito de sair dali. Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. O céu encaneceu num ocaso todo salpicado de nuvenzinhas brancas.

CAPÍTULO

XV

Deitei-me e apoiei as mãos atrás da cabeça, esfregando nos espinhos. Observava o chão. E surgiu um animal feroz mostrando os dentes. E seu filhote o seguia. - É o leão baio! - Exclamou a nona Lúcia, segurando-me pelas mãos. - É uma leoa com seu filhote, um leãozinho. O leão baio é perigoso? - Claro que é! Olhe os dentes e as unhas que ela tem! - Disse a nona Lúcia, observando a coloração pardo avermelhada com variações para amarelada e pardo escura da leoa. - A leoa deve ser tão braba como uma onça pintada! Argumentou Oscar, com olhar de preocupação. - O leão baio também é chamado de onça parda, suçuarana, puma, onça vermelha! – Explicou a nona Lúcia. O meu coração batia tão forte que parecia pular do peito. Pingava medo dos poros mesmo sendo destemido. “ Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, ... ”, rezávamos implorando aos céus a proteção. - Nossa Senhora, interceda por mim, pelo André, pela nona Emma, pela nona Lúcia.


O Lobo encarou a leoa, e os dois se mostraram os dentes, prontos para travarem uma batalha. Eram do mesmo tamanho, mas os dentes e as unhas da leoa eram muito maiores e afinadas. A leoa lambeu as patas dianteiras. O pânico pareceu dominar-nos. A ansiedade apavorou-nos. O bramido de um veado despertou atenção para a floresta. O ziziar de insetos nos deixava em alerta. - Lobo! Sai daí, Lobo! – Raiava, temendo que a leoa atacasse e matasse o cão. Mas o Lobo não obedecia. O chirriar de uma coruja, ali bem próximo, nos remetera para mais um momento de susto. -A sensação que eu tenho é a mesma quando estava no escuro do quarto e acordava apavorado após um pesadelo. Sentia aquele suor gelado pelo corpo, e com medo me cobria com o lençol para me proteger. Declarou Oscar, muito assustado. Eu estava com os pés doídos, exausto, cansado. Senti uma coceira no joelho, depois na orelha, nas costas. Achei que ia morrer se não me cocasse. Apertei os dentes com força tentando me controlar. Eu perdi a respiração e quase desmaiei. Um arrepio terrível me atravessou o peito. Minhas mãos já estavam doloridas de tanto me firmar no angico. E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fiz. Depois de reunida na boca ardente engolia lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que eu, que me tomava agora o corpo todo. Entre o voo e gorjeio dos pássaros escutava-se o ruído das sementinhas que o passarinho estava bicando. O vento brindava entre as flores silvestres, brancas e tenras. O vasto céu ficou como uma safira translúcida, transmudada em esmeralda. O Lobo latia alto de tanta raiva, ficava dando voltas para traz e para frente, esperando uma chance para atacar. Os olhos em chamas, a baba escorrendo da boca. - Lobo! Saí dali! - Gritei tentado evitar o que foi inevitável, a leoa saltou sobre o Lobo. Dentadas e mais dentadas. Houve um momento que os dentes


da leoa se fecharam na orelha do Lobo. Até que a leoa soltou o Lobo com sangue escorrendo de muitos cortes e dentadas, com a pata traseira bem machucada. Com uma orelha toda mordida e rasgada. Uivando e ganindo saiu pela mata. A leoa com o leãozinho foi se afastando para dentro da mata.

CAPÍTULO XVI Descemos do angico. Eu andava meio desengonçado por uma trilha pedregosa e esbarrancada. Um tamanduá bandeira com as patas longas garras e a sua língua grande capturava formigas em um formigueiro para se alimentar. O gecar dos lagartos no caraguatazal. - Temos que sair da floresta. E o que é que você me diz, André? - Deixo que a nona Emma e a nona Lúcia tomem a decisão! Disse, esticando os braços e as pernas. - Mas acho que não podemos ficar aqui. -André, temos que ficar sem fazer barulho. - Alertou a nona Emma. - Mas o que é que a gente vai fazer? - Oscar quis saber, com ar de quem poderia começar a chorar a qualquer momento. - Calma, não fica assim. Tudo vai dar certo. Vamos andando com cuidado. - Analisou a nona Lúcia, retirando um galho de espinhos enroscado em seu vestido. Será que a leoa sumiu pela floresta? - Pode ser que sim, pode ser que não! - Falei, dando um tapinha no ombro de Oscar, tentando acalmá-lo, mas eu devia estar mais assustado do que ele. - Acho que temos correndo risco de vida! - Exclamou Oscar, colocando a mão no peito. - André, coloque a mão no meu peito pra sentir as batidas do meu coração. - Pediu ele, tremendo.


- Calma! - Tentei tranquiliza-lo ao colocar a mão eu seu peito e sentindo que seu coração pulsava muito forte.- Teu coração parece que vai saltar pela boca! Você não pode cair no desespero. O momento é difícil, mas nós vamos sair dessa. - Tenho medo de morrer! - Reclamou, lacrimogêneo com uma cara de choro quase completa. - Não pense assim. Vou tirar essa ideia de sua cabeça. Num lampejo de coragem decidimos seguir pela mata. Chegamos a um banhado. Entreabri os lábios e coloquei-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga, saciando meu corpo. A água cochichava debaixo da mata, fazendo redemoinho nos esteios, borbulhando e espumando, rolando sobre o pedregulho e desviando-se das pedras. O sol coando-se através da água espessa, iluminando a profunda beleza verde-ouro. O carreiro se encurvava. Caminhava firme e prumado. Encontramos uma amoreira silvestre vermelha de frutos maduros. Comemos algumas amoras apressados aguçando o paladar. Comecei a respirar pesado. Punha a mão no peito dentro do qual o coração pulsava. Encostei-me numa árvore quando já tínhamos se afastado uns cem metros, num lugar onde as árvores eram mais fechadas. Sem poder fazer nada, suando e suando o tempo todo, tremendo da cabeça aos pés. Saímos andando na ponta dos pés por um caminho no meio das árvores, se abaixando para não raspar a cabeça nos galhos. Eu tropecei numa raiz e fiz barulho. Deitei ao chão e fiquei parado. Levantei-me, estiquei o pescoço e fiquei escutando. Passou muito tempo sem barulho. Cipós por toda à parte se entrelaçavam dificultando a passagem. Paramos e examinamos ao redor em busca de um lugar melhor para avançarmos na subida. - André, olhe teu calção rasgado de tanto esfregar nos espinhos. - Eu vou tomar mais cuidado. Aqui tá cheio de espinhos. Dói


os

aranhões. -Vamos sentar nesse tronco de cedro. Tenho cuca de nozes na cesta. Disse a nona Emma. A nona sentou-se e repartiu a cuca. - Tá gostando da cuca, André? - Perguntou ela, quando eu comi um pedaço. -Tô. Quer mais um pedaço? - Quero sim, nona! Só falta um pouco de água pra poder fazer digestão. - Disse, com algumas gotas de suor aparecendo na testa e com falta de fôlego. - Corre, André! André! Gritou a nona Lúcia, ao vermos a leoa escondida em uma touceira de capim, se alimentando com uma paca que acabara de ter caçado. - Nona, eu já estou com medo, não me assuste ainda mais! Exclamei, enroscando o calção em um galho de espinhos, aquilo que ainda tinha sobrado do calção. A leoa lentamente se aproximava de mim. Cada passo que a leoa dava era um grito desesperador que eu soltava. Tentava a todo custo desenroscar o calção e não conseguia. Desespero, dor e aflição. O calção já ensopado de sangue. Oscar me ajudava. - Não estou conseguindo desenroscar o calção! - Falei, com os lábios tremendo como se estivesse grudado num fio elétrico. O calção era de náilon e o espinho era tipo um anzol. De tanto eu e o garoto puxar conseguimos desenroscar o calção. A leoa já estava a poucos metros de nos alcançar. Aí corremos muito. Já havíamos se distanciado muitos metros quando caí sentado com a cabeça cheia de sementes de capim. - Que que é isso, André! - Perguntou Oscar, diante do silêncio que foi quebrado por suas fungadas. - Cansaço, muito cansaço! - Expliquei com o rosto todo vermelho, batendo em uma teia de aranha enorme que se espalhava desde os ramos mais baixos até ao chão da floresta. Estou sentindo dor no tornozelo direito! - Reclamei esfregando com a mão e sentando esbaforido.


Cruzei os braços sobre o peito, prendi e soltei o lábio inferior, soprei um pouco, tentei sorrir, olhando ofegante para todos os lados e para trás, procurando disfarçar o nervosismo e o medo, tentando me distrair. Uma brisa suave soprou a franja do boné do Oscar, que tirou da cabeça o boné amarelo como um melão.

CAPÍTULO XVII Apressamos o passo, mas olhando para a sanga fiz uma observação para Oscar. - Acho que em vez de sairmos da floresta estamos adentrando mais e mais. - Como assim, André? Como tem certeza disso? - Fique de costas pra direção que a sanga nasce. E estenda os dois braços. Pra que, André? -É pra saber as margens direita e esquerda da sanga. Do teu lado direito fica a margem direita da sanga e do teu lado esquerdo fica a margem esquerda da sanga. - André, com isso você quer dizer que em vez de descermos pela sanga temos de subir? - É isso ai. E é o que temos que fazer agora. Continuamos pisando na argila mole. A trilha continuava a subir. Andamos por um bom tempo. O suor molhava todo o meu corpo. Um sopro forte do vento arrepiou-me, penetrando na roupa molhada de suor. O fôlego não dava para muitos passos. Enormes pedras encaixadas umas nas outras em forma de abóbada começaram a aparecer e dificultavam ainda mais a subida. Caminhávamos sobre pedras com enorme equilíbrio e agilidade. Pisava firme e sentia a aderência da pedra. Senti tontura e colei o corpo na pedra, depois engatinhei até a beirada da rocha íngreme e estreita. Sentei e fiquei a olhar a paisagem.


- Onde estamos? - Perguntou o garoto, receoso, amolecido pelo ar da floresta. - Estenda o braço direito para a direção que o sol nasce! – Pedi a Oscar. O garoto obedeceu rapidamente. Aí expliquei: - Estendendo o braço direito na direção que o sol nasce fica o leste, estendendo o braço esquerdo na direção que o sol se põe fica o oeste, a tua frente fica o norte e as costas o sul. - Entendi, André. Para retornarmos ao potreiro, ao campo de futebol, temos que seguir na direção leste. É isso aí, garoto! Subia me agarrando a arbustos e cravando os dedos em pequenas ranhuras, mas mesmo assim levava escorregões. Ao lado um enorme buraco. Coloquei meu pé direito e mãos abaixo de minhas nádegas. Pulando moitas, desviando-se dos galhos dos arbustos, subindo e descendo pedras. Uma irara desceu de uma corticeira com a cabeça voltada para baixo. Um animal saiu da toca. - Nona, será que é uma paca? - Perguntei ao ver o animal sair da toca com seu pelame eriçado, vermelho com manchas brancas, mas ao ver a nossa presença foi se esconder na água. - É uma paca mesmo! - Analisou a nona Emma, demonstrando cansaço, já com seus 80 anos de idade. Um tatu saiu da toca, farejou e voltou a entrar. Nona, vamos correr! -Por que, André? - Tem uma onça pintada dormindo no galho de uma guajuvira. - Não é onça pintada! - Afirmou a nona Lúcia, observando o animal. - Não precisa ter medo. É uma jaguatirica! - Mas é muito parecida com a onça pintada. Parece, mas não é. A nona tem certeza? - Tenho, André. Pode confia na nona. A onça pintada é bem maior que a jaguatirica. A pelagem de coloração de fundo amarelado ou pardo


acinzentado, com manchas pretas arredondadas, confundia mesmo com uma onça pintada. Um quati saiu aos saltos pelo chão com a cauda erguida. Com suas garras e focinho em forma de trombeta escavava a procura de alimento. Em meio há muitas árvores surgiu outra trilha, bem mais estreita. Nos embrenhamo-nos nela. Para nosso alivio, tinha uma enorme descida. Chegamos ao final da descida, num ziguezague de retas e curvas. Uma palmeira com um cacho de cocos bem maduros balançavam ao vento. Oscar pegou torrões e fez partir via aérea, indo acertar o cacho de cocos. Aí se deliciou com os cocos maduros que caíram ao chão. Mas descuidou-se em pisou em uma toca de tatu esfolando o joelho. Chegou a derramar lágrimas. Passamos por muitos pés de erva-mate, vimos vários ninhos de passarinhos.

CAPÍTULO XVIII Saímos da floresta e chegamos ao bananal. Tinha cachos de bananas maduros e também verdes. Eu e o Oscar comemos duas bananas. - Olhe um papagaio! - Exclamou a nona Lúcia, apontando o dedo para um pé de canela branca no meio do bananal. É mesmo, nona! O papagaio com voo rasante rumava em direção ao campo de futebol. - André, vou segui-lo pra ver se ele vai pro ninho! - Mas será que o papagaio vai pro ninho mesmo? Ou será que vai acontecer o mesmo com os outros papagaios, que se escondem e não conseguimos encontrar o ninho? - Vamos tentar, André! Não custa tentar, Já que andamos o dia todo procurando o ninho do papagaio.


- Vamos sim, nona! - Disse, apoiando sua ideia, enquanto Oscar me alcançava uma banana bem madura.- Eu acho que temos que ir mesmo! Quem sabe agora que já se aproxima à noite o papagaio vai direto pro ninho! A cada metro percorrido minha cabeça ia imaginando o que dizer se encontrasse o ninho do papagaio, depois de todas as emoções vividas durante o dia. O papagaio pousou sobre o tronco da grápia e ficou ali quase imóvel. Observávamos a distância na sombra de touceiras de canade-açúcar. Oscar tirou uma cana-de-açúcar e descascava os gomos com os dentes para chupar a cana. Ofereceu-me um gomo, chupei, o caldo estava bem doce. Havia abelhas nas folhas da cana. Levei uma picada no queixo. Senti muita dor. O garoto levou duas picadas no lado direito da face, deixando manchas avermelhadas. A nona Lúcia não perdeu de vista o papagaio e logo falou baixinho: - O papagaio voou para um mourão da cerca. Vamos nos aproximar dele. - André, senti vontade de jogar bola. - Declarou Oscar, passando a mão de leve no rosto onde levou as picadas. - Eu também. Chego a sentir cócegas nos joelhos. - Então vai buscar a bola para nos dois jogar. Nem que seja só para bater pênaltis. Um bate e o outro defende. Pode ser? Mas e o papagaio? - A senhora Emma e a senhora Lúcia cuidam do papagaio. Eu já estou desanimado de procurar o papagaio e você, André? - O que a nona acha de eu e o André jogar bola? - Você sabe o que fazer, André. Eu vou ficar aqui com a Lúcia mais alguns minutos. Se o papagaio for para o ninho eu chamo vocês. – Falou a nona Emma bem animada. Então vai buscar a bola, André! - Já volto! - Disse ao garoto e saí correndo, retornando em menos de dez minutos. Fomos à trave. Eu tirei a camisa e fiquei só de calção branco.


O garoto também tirou a camisa e ficou só com seu calção verde. Tanto no meu corpo como no de Oscar se via claramente os aranhões que levamos nos espinhos. Bati cinco pênaltis até sentir dor no pé de não aguentar mais chutar. O garoto até que defendia bem, mas converti quatro pênaltis em gols. O garoto também bateu cinco pênaltis. Três converteu em gols. Um pênalti ele bateu rasteiro e eu fui certo no canto e defendi com a mão direita. O outro pênalti acertou no travessão. Quando Oscar tomava posição para cobrar o sexto pênalti seguido, o pé direito já encostava a bola a nona Lúcia nos chamou. - Vamos lá! Vamos atender o chamado da nona. Acho que a nona encontrou o ninho do papagaio. - Eu também acho que tua nona encontrou o ninho do papagaio, senão não iria nos chamar assim. Saímos correndo e o suor escorria pelo corpo. Ao me aproximar da nona Lúcia, sorridente disse-me: - André, eu e a Emma encontramos o ninho do papagaio. - Onde nona? Onde? - Perguntei sorrindo e surpreso. - Ga, ga, ga, ga"- Pedinchavam os filhotes de papagaios.Krik-kiakrik-krik-krik! Rak-áu! - Pedinchou o papagaio, com seu penado verde, escondendo o bico em baixo da asa. - Nona Emma! Nona Lúcia! - Exclamei, bem forte, admirado. Passamos alguns instantes extasiados observando os papagaios. Até que se recolheram no ninho. Os olhos da nona Lúcia e da nona Emma brilhavam triunfantes. - André, procuramos o papagaio por tantos lugares, ocos de árvores no meio da mata tão longe daqui, e encontramos o ninho aqui no potreiro perto da grápia, do lado do campo de futebol. Por essa eu não esperava. –Proferiu a nona Lúcia com regozijo. André, como foi legal tua companhia. Esse dia nunca mais vou esquecer. Vou sempre lembrar com carinho do nosso passeio pela floresta, encontrando pássaros, aves, animais, frutos, a beleza das flores, o verde das folhas, o ar puro da floresta, a água cristalina das nascentes, o gramado, o sol, o azul do céu.


- Eu digo o mesmo que a Lúcia! - Argumentou a nona Emma com júbilo. - Agora vamos deixar os papagaios repousarem. Como é bom ter dentro de si o grande amor pelo chão materno. André, é linda tua terra natal, maravilhosa, fascinante, querida e amada. - Nona Emma e nona Lúcia, foi bom, mas tão bom ter a companhia de vocês. Foram tantas emoções que certamente esse dia eu também nunca mais vou esquecer. A nona Lúcia e a nona Emma me abraçaram tanto que eu derramei lágrimas de emoção. Aí iam retornando para casa, enquanto eu e Oscar fomos à grápia. O sol já estava se pondo no horizonte avermelhado e alaranjado. Chegando ao oco da grápia ainda encontramos mel dos mirins. Eu e o Oscar chupamos mel à vontade. Estava lambuzado de mel que escorria sobre meu corpo e o calção. - Senti vontade de bater mais um pênalti! - Disse Oscar, segurando a bola. - André antes de eu ir embora vamos bater o pênalti? - Então vamos bater mais um pênalti cada um! - Concordei correndo em direção ao campo de futebol, fiquei fremente a esmaecida claridade do sol que descambava. Esfreguei as mãos lambuzadas de mel no meu calção. Com o pé esquerdo chutei a bola rasteira e com força no canto direito. O garoto foi certo no canto, chegou a esfolar o joelho no chão, mas eu fiz o gol. Já o pênalti do garoto acertou o travessão e picou em cima da linha. - Oscar, promete pra mim que não vai mais caçar passarinho? - Prometo! Bem de amigo, bem de amigão. O garoto veio até mim, me estendeu a mão e perguntou: - Você entende a minha originalidade de garoto? - Quem pode ser o melhor amigo de um garoto como eu? - Um garoto da mesma idade sua. Quero que me aceitem por eu ser eu mesmo. Mas eu sou eu mesmo. Nasci aqui no Passo do Sol. Aqui me vi bebê, criança, menino, piá, garoto. André, você é o meu melhor amigo! - Oscar, você também é meu melhor amigo! - Declarei ao


apertar a sua mão tomado de emoção. -Sabe o que você é, André? - O que que eu sou, Oscar? - André, você é o garoto de calção branco! - Exclamou Oscar, com um sorriso vivo. - Oscar, eu não vou falar mais nada! Fiquei ali apoiando a mão no ombro de Oscar. Riamos de emoção, de alegria, de felicidade, de sermos tão amigos. A nona Emma e a nona Lúcia me acenavam com a mão ao longe. Mais um aperto de mão com o garoto, no instante que o sol tinha um tom róseo e dourado, se afundava atrás da serra, até ser apenas uma mancha avermelhada no céu.

O garoto de calção branco 002  
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