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CAPÍTULO 8

Criatividade

Este é um livro sobre administração para profissionais liberais. Você descobrirá que não precisa fazer tudo o que está escrito aqui, mas se realizar no seu cotidiano algumas pequenas modificações baseadas no que você leu, uma grande melhoria será alcançada. Você recebeu idéias provenientes das melhores fontes da administração moderna. Neste capítulo, vamos deixar um pouco de lado o que existe por aí e nos concentrar no que você pode fazer para criar suas próprias inovações e melhorias. Ao fim deste capítulo, você descobrirá que a geração de uma nova idéia para lidar com um problema, longe de ser um ato de iluminação realizado por alguns poucos e abençoados gênios, é um hábito que pode ser aprendido. Antes de começarmos, um aviso: a criatividade é um tema espinhoso. Muitas vezes achamos que indivíduos criativos podem nos “iluminar” com sua genialidade, ensinando-nos como chegar aos seus pés. De outro lado, existem dezenas de gurus autoproclamados, que nada mais fazem do que repetir crenças e hábitos sem nenhum fundamento, e como veremos, um dos mais utilizados e recomendados, o

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famoso brainstorming, é uma das melhores coisas que você pode fazer se quiser continuar no mesmo lugar. Gordon Mackenzie trabalhou na Hallmark por 30 anos. Acredito que qualquer pessoa que se aposente enquanto ocupava o cargo de “Paradoxo Criativo” merece estar em um texto sobre criatividade. Gordon passou vários anos enforcando alguns dias de trabalho por ano para ir a escolas falar sobre criação artística às crianças. Em seu livro, ele relata que sempre ao entrar em uma sala, após uma curta apresentação, costumava perguntar: “Quantos artistas há nessas salas? Será que eles poderiam levantar as mãos.” O padrão era sempre o mesmo: 1a série: todas as crianças pulavam em suas cadeiras, levantando e balançando as mãos o mais alto possível. Todas eram artistas. 2a série: cerca de metade das crianças levantavam as mãos, na altura dos ombros e com as mãos paradas. 3a série: no máximo um terço das crianças levantavam as mãos, timidamente. Ao chegar à 6a série, Gordon relata que apenas uma ou duas crianças levantavam as mãos, um pouco, olhando em volta, com medo dos olhares de seus colegas. O que aconteceu? A explicação a que ele chegou é que a sociedade, do berço ao túmulo, exerce uma pressão no indivíduo para que ele seja normal. Não que seja ruim ser normal, a vida em sociedade tem suas vantagens. Além disso, podemos pagar o preço, abrindo mão de um pouco de nossa criatividade e individualidade para podermos conviver uns com os outros. O problema é que a sociedade humana, por empurrar uma noção de normalidade às crianças, acaba se tornando avessa às mudanças. Aqueles que escapam da forma, intenci176


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onalmente ou não, freqüentemente viram alvo de ridicularizações e execrações públicas, chegando até a punição por parte de outros membros da sociedade (sejam pais, professores, cônjuges, irmãos e chefes, entre outros). Palavras de Gordon: “não é de admirar que no 6o ano quase ninguém quer admitir seu gênio criativo”. A pressão para ser igual aos outros é, simplesmente, forte demais... Mas será que a conclusão do artista condiz com o que os estudiosos do assunto dizem? O pensamento de Barry M. Staw, por exemplo, pode chocar alguém acostumado a ver a idéia da criatividade tão freqüentemente defendida por aí afora. Mesmo assim, o professor atesta que quando os custos da criatividade são realmente calculados, pessoas e empresas tendem a evitá-la. Staw chama a atenção para um processo chamado de “celebração do vencedor”, ou seja, o fato de ser extremamente comum a divulgação dos casos de sucesso, e o sutil “esquecimento” dos milhares de fracassos que antecederam aos vencedores. É muito simples: quando um empreendedor tem sucesso, um cientista anuncia uma revolução ou um investidor ganha muito dinheiro, essas pessoas viram notícia. Biografias e livros de auto-ajuda são escritos e milhares de pessoas procuram imitar quem chegou ao topo, buscando também para si uma parcela desse sucesso. A questão do professor é só uma: dada a escolha, será que a maioria das pessoas realmente gostaria de ser mais criativa? Ser criativo envolve riscos. Ser criativo compreende abrir mão da normalidade e de caminhos seguros traçados por outros, seguindo por trilhas inóspitas que levam a iniciativas com grandes chances de falha. Pessoas criativas freqüentemente são reconhecidas por desafiar autoridades e conven177


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ções na tentativa de tornar suas idéias reais. Ao receber um não, pessoas criativas passam por cima de seus superiores ou redefinem suas idéias para chegar aos resultados visados. Apesar de o termo criatividade ser cercado por uma aura romântica, trazendo a imagem do gênio inspirado de um Leonardo da Vinci ou de um Albert Einstein, a verdade é que a produção criativa é um trabalho que demanda bastante tempo e pode se tornar altamente absorvente, demandando grandes sacrifícios pessoais. Será que a maioria das pessoas está disposta a tudo isso? A verdade é que a maioria dos cientistas nunca chega a uma grande descoberta, a maioria dos novos negócios vai quebrar em seus primeiros anos de existência, e grande parte das tentativas de criatividade dentro das grandes empresas resulta em demissões... Por isso, quando se consideram as dificuldades e as chances de fracasso, não é de admirar que a grande maioria das pessoas decida (com justa causa) levar uma vida “normal”, sem criatividade. Voltamos ao problema da sociedade. Para entendê-lo precisamos do conceito de instituição. Quando você entra num hospital, você espera que ele se pareça com um hospital, com médicos, enfermeiras e todas as outras coisas que você encontraria em um hospital. Dizer que todos possuímos a mesma imagem mental de um hospital, é similar a dizer que o hospital é uma instituição em nossa sociedade. Toda organização que quiser ser reconhecida como um hospital nessa sociedade, deve corresponder às expectativas que temos de como deve ser essa instituição. As instituições estão por todo lugar nas sociedades humanas. Instituições que provêem serviços educacionais, o governo e os conselhos profissionais são apenas alguns dos mais 178


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citados exemplos. Pode-se dizer, inclusive, que uma cerimônia religiosa de uma determinada tribo, ao persistir no tempo e mudanças na própria tribo, foi institucionalizada. Como parte da sociedade, as instituições possuem alguns objetivos. Um deles é a legitimação de práticas e padrões dentro de um determinado domínio (o modo como são feitas as coisas em um hospital, por exemplo). Um reflexo disso é que uma instituição busca uniformizar os pensamentos e comportamentos de seus membros. Procedimentos, políticas de contratação, demissão e promoção de pessoal, cultura, rituais de aprovação e desaprovação (prêmios ou avaliações negativas), entre outros, fazem parte do arsenal de que as instituições modernas dispõem para proteger o status quo, de quebra modelando o indivíduo à sua imagem. Todos nós conhecemos a conversa: jogue pelas nossas regras, e será recompensado. Vá contra a nossa vontade e arcará com as conseqüências. Não é à toa que o “paradoxo criativo” da Hallmark encontrou na sociedade o grande talhador da criatividade humana. Se a sociedade, com suas instituições, molda nossa individualidade, colocando sobre nós suas regras, punições e recompensas, como fazer para reter nossa criatividade, continuando a usufruir do lado bom (recompensas) e minimizando as chances de que venhamos a experimentar seu lado ruim (punições)? O truque é cruzar as fronteiras aos poucos. É aí que a inovação útil aos negócios ocorre. É perto da fronteira do conhecido que você encontrará meios de trazer mais valor para você e seu cliente. Esqueça as terras desconhecidas, elas podem parecer interessantes, mas o custo pode ser alto demais. 179


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Quando você cria o hábito de cruzar as fronteiras aos pouquinhos, com o tempo você chegará a um lugar onde nenhum homem esteve antes (pelo menos nenhum de seus concorrentes). A vantagem da abordagem gradual é que você pode ir testando passo a passo a resposta às suas idéias. Caso tropece pelo caminho e introduza algo que não foi bem recebido, é fácil dar um passo atrás e voltar à área de segurança. Com a abordagem gradual, a inovação se torna um hábito (quantas vezes você deixou aquela grande idéia genial para depois?), e pouco a pouco, grandes mudanças podem ser alcançadas. Mas o que é uma grande mudança, e o que é uma pequena mudança? Como se sabe se estamos cruzando a fronteira do que é aceitável na medida certa, e que nossas ações serão bem recebidas pelo nosso público? É aqui que entra o nível de conhecimento que você tem de seu público-alvo. O professor de marketing Bernd H. Schmitt, da Universidade de Columbia, conta a experiência do lançamento do relógio G-Shock, da Cassio, em Nova York. A Cassio queria que o relógio ficasse marcado pela sua resistência e seu design moderno. Para o lançamento, 200 profissionais da imprensa e 500 das mais influentes pessoas da cidade, como modelos, estilistas e artistas, foram convidados para uma festa de tema sadomasoquista, na qual o relógio seria lançado. Convites aveludados, modelos usando couro (e, é claro, relógios G-Shock) e shows ao vivo numa boate da moda especialmente decorada com o tema foi o que essas pessoas encontraram. Claro, você pode pensar que tudo isso foi uma aposta louca e arriscada. Mas para o público da alta roda de Nova York do final dos anos 90, a festa foi um tiro certeiro. Claro que a Cassio utilizou outras estratégias e eventos para promover o mesmo produto em 180


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diferentes públicos e situações. Mas uma festa sadomasoquista para lançar um relógio, gerando mais de 75 milhões de impressões gratuitas na mídia, é um grande exemplo de como vale a pena conhecer nossos clientes, e saber até onde podemos levá-los sem exagerar. Bem, chegamos ao ponto em que falar é fácil, difícil é ter as tais idéias. Vamos então discutir sobre a origem, e o que você pode fazer para tornar mais freqüentes as visitas de sua musa inspiradora. Nosso primeiro passo, no entanto, é acabar com a noção romântica do gênio criativo. Dean Keith Simonton, um psicólogo americano que estudou a origem do gênio criativo, relata que ao estudarmos a história da humanidade, é comum definirmos civilizações através das obras de seus grandes gênios criativos. Da Grécia, lembramos de Sócrates, Platão e Aristóteles, ao pensar em Europa, podemos lembrar de Galileu e Mozart. O conhecimento de muitas pessoas ocidentais sobre a China antiga restringe-se ao que leram ou ouviram falar das obra de Sun Tzu e Lao Tze. Muitas vezes, imaginamos esses personagens com uma mistura de inteligência superior e perfeição. Pensamos nos gregos antigos como gênios iluminados, agraciados com um dom superior a que somente podemos aspirar. Mas será que essa imagem corresponde à realidade? Já aprendemos sobre a tendência humana de celebrar o vencedor, ou seja, quando alguém dá certo, essa pessoa atrai a atenção de todos nós, enquanto os milhares de casos fracassados desaparecem nas sombras da história. É esse mesmo processo que está ocorrendo aqui, só que, em vez de celebrar o vencedor entre as pessoas, também estamos celebrando as idéias vencedoras de nossos gênios. 181


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Pessoas criativas erram. Erram muito. Erram muito mais do que qualquer outra pessoa. O que ocorre é que seus sucessos são lembrados, e seus fracassos são desculpados e esquecidos. Na verdade, pretendo mostrar agora para você que o que chamamos de criatividade, geralmente é apenas o reflexo da produtividade de um indivíduo: Simonton descreve uma pesquisa que chegou à chamada “regra das chances iguais”. Se você pegar uma lista de produções de um artista, cientista ou qualquer outro que trabalhe com criações, organizá-la em ordem cronológica e distinguir seus feitos entre sucessos e fracassos (por exemplo, um conto que vira clássico e um que nunca chega a ser editado), perceberá que o passar do tempo não possui efeito na taxa de sucessos sobre fracassos. Essa taxa geralmente vai variar aleatoriamente, ou seja, sem um padrão durante a vida, independente do ganho de experiência da pessoa em sua área (daí o nome “regra das chances iguais”). O que, então, influencia a chance de sucesso criativo? Algo que pode ser observado na maioria dos casos é que, nos períodos em que mais fracassos foram gerados, também mais sucessos foram alcançados. Ou seja, quanto maior a produtividade de alguém, maior sua probabilidade de ter sucesso num trabalho criativo. Claro, existem alguns poucos gênios que realizaram poucas e fantásticas criações em todos os campos de atividade humana. Da mesma forma, existem indivíduos com níveis altíssimos de produtividade gerando porcaria atrás de porcaria. Mas, para a grande maioria de nós, podemos considerar a regra válida. Desse princípio também podemos concluir que os maiores criadores também são aqueles que mais erram mais. O 182


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medo de errar, portanto, pode ser um de seus maiores adversários na hora de criar. Lembre-se bem disso! Agora que você já aprendeu que o primeiro passo para se tornar mais criativo é perder o medo e começar a tirar suas idéias do papel, vamos falar sobre alguns métodos utilizados e recomendados por alguns dos melhores estudiosos e praticantes da área. Cabe lembrar que métodos nada mais são do que técnicas utilizadas e desenvolvidas por e para pessoas diferentes. Algumas pessoas trabalham melhor em grupo, outras, precisam se isolar. Alguns ouvem música, outros precisam de silêncio absoluto. Quando buscam por idéias, certas pessoas mergulham cada vez mais em seu problema, buscando gerar o maior número de soluções possíveis. Outras dedicam-se a outras atividades do dia-a-dia, enquanto ainda outras vão passear no parque e esperam que as idéias surjam naturalmente. Eu poderia gastar um livro inteiro dedicando-me a discutir diferentes técnicas de geração de idéias, mas a verdade é que o que funciona para uma pessoa, pode não funcionar para outra. Tentarei, por isso, mostrar aquelas mais abrangentes. Leia o texto, aplique aquilo que funciona para você, jogue o resto fora, adicione elementos, misture, sublinhe, risque, seja criativo!

A IMPORTÂNCIA DOS PRAZOS

A visão que temos da pessoa criativa está ligada à da iluminação espontânea. Não podemos forçar uma boa idéia. Mesmo pessoas criativas precisam esperar que suas idéias estejam prontas. Se faltar inspiração, nada resta a fazer senão esperar pela volta da musa. Connie Gersick, da Universidade da Cali183


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fórnia, passou algum tempo estudando a influência de prazos na criatividade. Analisando grupos, encontrou um padrão interessante. Ao reunir alguns grupos e pedir que realizem uma atividade criativa, ela percebeu que durante a primeira metade do tempo, o grupo parece divagar. Ao chegar mais ou menos na metade do tempo, é comum alguém dizer algo como: “o tempo está acabando”. Nessa segunda fase, o grupo parte, de modo mais pragmático, para a criação do produto final. Durante o primeiro período, não existe um padrão definido, alguns grupos podem parecer parados enquanto seus membros pensam em soluções, outros podem discutir dezenas de soluções, enquanto outros podem parecer apenas divagar. Não importa o que ocorra aqui, o que parece acontecer é que nessa primeira etapa as pessoas estão se preparando e entendendo a tarefa de criar alguma coisa, e definindo com o que essa nova coisa será parecida. O aviso de transição também não possui um padrão. Pode ocorrer um pouco antes, um pouco depois, pode ser pessimista (“já gastamos metade do tempo”) ou otimista (“ainda temos metade do nosso tempo”). Nessa hora as pessoas percebem que é tempo de partir para a ação. Na segunda etapa, ocorre a resolução do problema propriamente dito. Isso não quer dizer que você deva forçar suas metas pessoais o máximo possível. O período de incubação é extremamente importante. É nesse período que você vai entender melhor o problema em questão, gerar algumas idéias iniciais e imaginar como seria a solução. A vantagem de se impor uma data limite é que você se força a sair dessa etapa e partir para a ação. A idéia de que a criatividade não pode, ou não deve, ser apressada é errônea. Como vimos, encontrar boas soluções e 184


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realizar diversas pequenas criações é um caminho muito melhor a ser seguido do que ficar esperando pela solução perfeita. Muitas idéias não saem do papel exatamente por isso. Auto-impor-se datas para tirar seus projetos do papel pode ser uma estratégia muito valiosa para alcançar resultados concretos, mas tenha cuidado para não ser ganancioso demais e criar prazos inalcançáveis (que só irão gerar angústia e mal-estar).

ORBITE, NÃO SAIA VOANDO

Gordon Mackenzie, da Hallmark, descreve as empresas modernas como um emaranhado de regras e padrões. Quando uma empresa começa a funcionar, não há necessidade de regras, pois o dono está presente em todos os processos. Conforme a empresa vai crescendo, o proprietário sente a necessidade de criar diretrizes para seus funcionários seguirem, pois já não é possível estar presente em todas as etapas da empresa. Gordon usa a metáfora da bola de pêlos. A primeira regra é como o primeiro fio, a segunda vem e prende-se à primeira e assim por diante, até termos um emaranhado semelhante a uma bola. Segundo Gordon, a maioria das pessoas fica presa a esse emaranhado, e por isso sua capacidade de criar coisas novas é destruída. Alguns poucos aventuram-se a sair do emaranhado, mas esses correm o risco de se tornarem revolucionários demais, e sofrer as conhecidas punições, com avaliações desfavoráveis, perda de confiança e até demissão. O truque é orbitar a bola de pêlos, de tal modo que você nem fique preso demais aos processos existentes, nem saia voando e correndo o risco de sofrer as punições de quem se diferencia demais. 185


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No caso de profissionais liberais, podemos ver a bola de pêlos como os padrões e as associações de cada grupo de profissionais. No início da medicina, havia todo tipo de curandeiro, cada qual com suas técnicas e comportamentos específicos. À medida que a medicina se desenvolveu, começou-se a criar um padrão de como um médico deve se comportar, como deve se apresentar a seus pacientes, e até que tipo de tratamentos e técnicas utilizar. De um dentista, por exemplo, espera-se um padrão de comportamento, seja pelos tratamentos oferecidos (técnico) seja pela relação e apresentação aos clientes (social). Se um dentista quer ser inovador, existem algumas fronteiras que não devem ser cruzadas (por exemplo, no que se refere às restrições de propaganda pessoal descritas no código de ética). Caso o dentista vá longe demais, sofrerá perdas (desde perdas de clientes ofendidos até punições mais severas, como a suspensão do título profissional). As opções aceitáveis, nesse caso, são ou ser mais um dentista igual a todos os outros (permanecer emaranhado) ou orbitar, sendo um dentista um pouco diferente dos demais. Você descobrirá que esse um pouco logo se tornará muito para quem está acostumado a sempre ver a mesma coisa. A palavra-chave é o equilíbrio.

ABRASÃO CRIATIVA

Jerry Hirshberg foi o primeiro CEO da NDI (Nissan Design International). Quando essa empresa japonesa resolveu realizar um salto mais ousado em direção aos consumidores ocidentais, encontrou o problema de diferença de mentalidades entre o consumidor oriental (principalmente o japonês) a que 186


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estava habituada, e o ocidental - principalmente o americano, habitante do maior mercado consumidor do mundo e estabelecedor de parâmetros para o resto do mundo ocidental. As equipes de engenharia japonesas não compreendiam como carros superiores tecnicamente geravam resultados inferiores a seus concorrentes de design mais arrojado, mas tecnicamente inferiores. A solução foi criar um estúdio de design nos Estados Unidos, e o homem chamado para comandar desde a escolha do local, a contratação da equipe e a administração do dia-a-dia da nova empresa foi o americano Jerry Hirshberg. Durante seu tempo na Nissan, trabalhando entre japoneses e americanos, com equipes interdisciplinares em diversos projetos diferentes, Jerry desenvolveu e utilizou o conceito que chama de “abrasão criativa”. Segundo ele, abrasão criativa corresponde a manter dois pensamentos diferentes simultaneamente para gerar idéias, sem descartar ou permitir que uma perspectiva domine a outra. Esse conceito baseia-se no fato de que fomos ensinados a reduzir conflitos, sejam internos, ou com outros indivíduos. Isso traz a idéia de um sistema se movendo na mesma direção. Como Jerry diz, isso é muito bom para remar num barco, não para criar um novo. A abrasão criativa reconhece o lado positivo do atrito. Na empresa que Jerry criou, o atrito era encorajado, idéias diferentes eram misturadas com os antigos modos de se trabalhar. Esse conceito abrangia até a política de contratação da empresa. A grande maioria das empresas possui perfis elaborados sobre como os candidatos devem ser para cada cargo. A maioria das empresas buscava seus empregados em escolas tradicionais e estabelecidas de arte e design. Não que a Nissan não o fizesse, mas ela também buscava pessoas de diferentes 187


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caminhos da vida e características. A técnica de Jerry reconhece a importância do atrito, sem descartar o problema de se criar atrito demais. A palavra equilíbrio volta a aparecer. Por que o atrito funciona? Criar atrito é uma ótima forma de ver coisas a que estamos acostumados de uma nova forma. Quando um conceito novo é introduzido, mesmo que lhe cause aversão, gaste um pouco de tempo brincando com ele. Misture alguns de seus elementos com o que já existe e é reconhecido como estável. Traga experiências de outros lugares. Qual a diferença de ir ao terapeuta e ir ao cinema? Por que é tão ruim sentir dor no dentista, enquanto milhares de pessoas se submetem a operações plásticas, ou perfuram seus corpos voluntariamente fazendo tatuagens? Traga disrupção, adicione elementos estranhos à sua prática, e verá que idéias diferentes possuem a capacidade de trazer novas visões e gerar novas oportunidades para o seu negócio.

CRIATIVIDADE EVOLUTIVA

Dean Keith Simonton utiliza a teoria da evolução para explicar o fenômeno da criatividade. Você pode utilizar os princípios básicos da teoria de Darwin na sua busca por novas idéias. Na evolução natural, primeiro há uma variação (novos seres são gerados por modificações genéticas); em seguida, uma seleção (aqueles novos seres que conseguiram sobreviver e se reproduzir são selecionados); e, ao final, uma retenção (características favoráveis passadas por genes são retidas pela espécie, ou por uma parte dela gerando um novo nicho). Você pode usar isso com suas idéias. Gere o maior número possível delas. Pergunte a seus amigos o que eles fariam 188


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de mais louco com o seu negócio. Passe algum tempo tentando imaginar como você se sentiria como seu próprio cliente, e o que você modificaria. Pegue elementos de seu trabalho e faça “mutações” nele. O que surpreenderia os outros? O que é tão louco que até pode dar certo? Pense na solução ideal para seus problemas. Depois, modifique-a até corresponder à sua realidade. Gere alternativas. Agora, comece a selecionar suas idéias. Implemente uma ou duas que você acha que farão sucesso. Estabeleça um período de avaliação (digamos, um ou dois meses). Compare como eram seus negócios antes e depois da introdução da novidade. As coisas melhoraram? Retenha.

CIRCULE

Se existe alguma unanimidade entre os proponentes da criatividade, é que você deve começar a circular mais. Do ponto de vista de seus contatos, pessoas com uma rede de relacionamentos mais abrangente estão expostas a uma variedade maior de informações e experiências. Quando falo de redes de relacionamentos abrangentes, não estou dizendo que você deve conhecer muitas pessoas e que isso só é suficiente. Claro, conhecer pessoas é bom, mas como medida da abrangência da sua rede pessoal o que realmente importa é a variedade das pessoas em seus contatos pessoais. Pegou a idéia? Se você é advogado e possui 500 contatos em sua rede pessoal, mas todos eles também consistem de advogados que você conheceu ao longo de seus estudos e de sua vida profissional, a grande maioria deles morando na sua cidade, você pode estar muito bem posicionado dentro da sua profissão 189


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em sua área geográfica, mas nada seria melhor à sua criatividade do que conhecer pessoas de diversas áreas, e até culturas. Como começar? Comece a freqüentar eventos profissionais que não sejam somente relacionados com sua atividade principal. Arranje um novo hobby. Entre em um curso sobre um assunto de seu interesse (deixe os assuntos de sua profissão para depois). À medida que você desenvolver uma rede de contatos mais diversificada, perceberá que tem muito a ganhar ao conversar sobre assuntos relacionados à sua profissão. Quando alguém de fora vir seus problemas, não só você estará aprendendo a enxergar pelos olhos de seus clientes, como aprenderá como profissionais de outras áreas resolvem problemas semelhantes. Seus amigos advogados, médicos ou dentistas provavelmente possuem opiniões sobre vários assuntos; que tal uma perspectiva nova? Ao participar de atividades variadas, você começará a perceber outra vantagem. Recebendo estímulos diferentes daqueles a que você está acostumado, sua própria criatividade também será estimulada. Lembra-se da abrasão criativa? Logo você irá perceber que quanto mais você se expuser a experiências novas, mais soluções e idéias surgirão na sua cabeça como que por acidente. Simonton diz que todos os grandes gênios criativos da humanidade partilham de uma característica: são leitores onívoros. Eu adicionaria a seguinte questão: Por que se restringir somente à diversidade de leituras? Seja onívoro com sua cultura em geral, com os lugares onde você anda, com as pessoas com as quais você conversa. Um último comentário a este tópico: Simonton faz notar que, na história, vários gênios pareciam trabalhar em mais de 190


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um problema ao mesmo tempo. Quando muda de questão, você permite a seu cérebro descansar da velha questão e se dedicar a outros assuntos. Assim procedendo, ele ganha novas experiências e pode ser surpreendido por uma nova resposta a um velho problema ou a uma nova visão de um antigo assunto trazido pela sua nova experiência.

DÊ UM TEMPO

Na NDI de Jerry, quando uma questão parecia tomar conta de seu pessoal sem apresentar uma solução, quando as idéias estavam estagnadas, ou quando se apresentava uma deadline sem solução, uma estratégia utilizada de vez em quando era levar todo mundo ao cinema. Sim, ao cinema, é isso mesmo... A empresa ficava vazia enquanto todos passavam duas horas distraindo suas cabeças, comendo pipoca e tomando Coca-Cola. A questão se o cérebro continua pensando inconscientemente enquanto nos distraímos, ou se só precisamos de um pouco de descanso e diversão de vez em quando, ainda é um pouco controversa. Mas o fato é que dar um tempo, mesmo quando ele parece ser curto, é uma ótima solução para a maioria das pessoas. Outra questão, trazida da psicologia comportamental, é sobre auto-recompensas. Quando somos recompensados, nossa tendência é continuarmos realizando as ações que levaram à recompensa até lhe tornarem um hábito. Esse é um bom meio de mudarmos comportamentos de que não gostamos ou aumentar a nossa produtividade onde achamos que temos deficiência. 191


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Não importa se a recompensa seja dada por um chefe através de um aumento de salário, ou se é algo que você mesmo se dê de presente. O que importa é que a recompensa esteja ligada à sua ação recém-realizada. Acabou um trabalho difícil? Por que não tirar uma hora e ir dar um passeio no parque? Não importa se você vai ao cinema por duas horas ou resolva ir até à esquina tomar um sorvete. Dar um tempo é bom tanto na hora do aperto como para se auto-recompensar por um trabalho bem-feito.

CRIATIVIDADE EM GRUPO

Apesar de este livro ser focado no profissional liberal, reconheço que muitos possuem o costume de trabalhar em grupo, ou mesmo dividem suas empresas com mais sócios. Isso me motivou a falar um pouco da criação em grupo. Robert W. Weisberg, um psicólogo americano, diz que a melhor coisa que alguém pode fazer para estimular a criatividade de um grupo é maximizar a transferência de informação entre as pessoas. Weisberg critica muitas das iniciativas que foram criadas pelo que chama de “indústria da criatividade”, que leva as empresas a procurarem atividades e apresentações diversas na esperança de que isso aumente a criatividade de seus funcionários. Todos vimos isso. Artistas, músicos, escritores, atletas, todos realizando apresentações de como chegaram lá, como se isso fosse fazer as pessoas trabalharem melhor quando juntas... Não faz. Na maioria das vezes, as questões são tão genéricas que devem ser extremamente abstraídas e alongadas na tentativa 192


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de que se tire alguma vantagem prática desses ensinamentos. Na maioria das vezes não existe nenhuma. O que funciona comprovadamente é o compartilhamento de informações. Isso, sim, aumenta a capacidade de resolução de problemas do grupo. Já foi dito várias vezes, mas não custa afirmar mais uma vez: quanto mais largo for seu campo de conhecimento, maior a probabilidade de você gerar soluções inovadoras. Transferir conhecimento entre o grupo é uma forma prática e eficaz de aumentar a produtividade de todos. Agora, vamos a um assunto interessante: por que você deve evitar o brainstorming (tempestade cerebral), método desenvolvido por Alex Osborn a cerca de 50 anos, e baseado na geração de idéias, totalmente sem censura, sem julgar nenhum valor. Após reunir várias idéias, elas seriam discutidas e uma resolução é alcançada. Primeiro motivo: o brainstorming parte da errônea noção de que, para criarmos, todas as barreiras devem ser removidas. Isso equivale a dizer que primeiro devemos “soltar” nossas idéias, para somente depois, com nosso raciocínio crítico, modelá-las à realidade. Sabemos que isso não é bem assim. Na verdade, Weisberg diz que alguns estudos em laboratório indicaram que as pessoas geram resultados muito melhores quando são informadas e utilizam, desde o início dos problemas, limites e obstáculos da questão em discussão. Técnicas “liberadoras”, como o brainstorming podem gerar idéias engraçadas, mas manter a atenção e o foco levam a coisas mais úteis (a necessidade é a mãe das invenções, lembra-se?). Segundo: Simonton cita outras pesquisas para chegar ao mesmo ponto. Dessa vez, grupos utilizando-se da técnica brainstorming chegaram a resultados piores que pessoas utili193


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zando formas mais solitárias de geração de idéias. Vários fatores podem concorrer para isso. Pessoas criativas tendem a ser introvertidas e cuidadosas com suas idéias, e isso pode ser uma barreira. A autocensura social também atua fortemente: mesmo sem querer, a maioria das pessoas guarda uma ou outra idéia para si, e o que não foi dito pode ser justamente a idéia de que você estava precisando. Como a função do brainstorming é gerar idéias, pode ser que a soluç��o escolhida não seja a melhor que o grupo criou, mas sim a menos ruim entre as que foram ditas em voz alta. Uma solução melhor seria expor o problema em público, permitindo que cada participante tenha um tempo para trabalhar sozinho e escrever sua solução ou idéia. Isso permite que o processo de variação-seleção-retenção ocorra com cada indivíduo em separado, e ao final, cada um apresentará um resultado mais elaborado, que deverá ser discutido. Esse tempo também serve para que as pessoas se preparem para expor suas idéias e aceitar críticas de outras pessoas.

COMECE DE NOVO

Um paradigma é um conjunto de idéias e conceitos compartilhado por um grupo de pessoas. Thomas Kuhn criou essa palavra tendo em vista a comunidade científica. Grupos de cientistas que possuem a mesma visão de mundo fazem parte do mesmo paradigma. A noção de paradigma, no entanto, pode ser utilizada também para entendermos outros grupos de indivíduos, e ultimamente a sociedade como um todo. Quando uma pessoa se alinha a um paradigma, ela não estará necessariamente fa194


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zendo uma escolha consciente. É bastante provável que as experiências que essa pessoa teve, com sua educação formal e informal, tenham criado uma imagem de mundo para ela, e o alinhamento com outros que compartilham dessa imagem é uma coisa natural. De vez em quando, um ou outro cientista corajoso começa a explorar as fronteiras e a confrontar os paradigmas aceitos pela grande maioria. Alguns, não sem sofrer grandes preconceitos em seus meios ao duvidar da ordem estabelecida, têm sucesso e conseguem que suas idéias sejam aceitas. Daí temos a mudança de paradigma. Einstein uma vez disse: “Não passa de um milagre que os métodos modernos de instrução ainda não tenham estrangulado por completo a santa curiosidade da investigação.” Ou, nas palavras mais diretas de Mark Twain: “Jamais deixei que minhas atividades escolares interferissem na minha educação.” O que isso quer dizer? Que educação não vale nada? Que devemos fugir das escolas e universidades? Simonton acha que não. Para começar, em qualquer área que alguém atue, é necessário um conhecimento básico suficiente. A questão colocada por pessoas como Einstein e Twain, entre outros, é sobre como e por que recebemos conhecimento do modo como estamos habituados. Claro, existiram diversos gênios durante a história com desempenhos acadêmicos impecáveis. Mas a verdade é que um grandioso desempenho nos estudos formais não significa que essa pessoa se tornará um grande profissional. Para ilustrar esse ponto, basta dizer que o sucesso acadêmico, em grande parte, desde a escola primária até o pós-doutorado, exige um grande grau de conformidade. Seja através das regras estabelecidas por nossas instituições de ensino ou atra195


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vés do modelo “pergunta-resposta” de aprendizado, que nos ensina quais as respostas certas para cada pergunta, sem colocar em dúvida os elementos dessas respostas até nos níveis mais altos educacionais (voltamos ao tema do paradigma). Como já se disse, a abrasão criativa é gerada através do atrito de idéias diferentes. Pelo mesmo motivo, aconselhei você a circular, a ter vários amigos e a estudar de tudo um pouco. Boa parte dos grandes pensadores podem ser contra a educação excessivamente formal, mas todos partilham a paixão pelo auto-aprendizado e desenvolvimento. Tudo isso, somado, lhe dará a capacidade necessária de começar a questionar. Quando você recebe vários estímulos começa a questionar o que já conhece, isso é bom. Questione tudo o que você puder! Está com um problema com o pagamento de seus clientes? Veja a situação como se estivesse inventando a sua profissão. O que você realmente faz? Qual valor as pessoas vêem em você? Como você cobra por ele? Sérgio Zyman, ex-presidente de marketing da Coca-Cola e autor de livros, diz que vender Coca-Cola simplesmente é vender água com açúcar! O que você vende?

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Cap-8-Criatividade