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O DIÁRIO DA EVA


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enho quase um dia de idade. Cheguei ontem. Pelo menos, é isso que penso. E com certeza que deve ser assim, porque se antes de ontem tivesse havido dia eu recordar-me-ia , ou então é porque não estive presente. Naturalmente pode ter acontecido ter havido um dia de que eu não me tenha dado conta. Penso que a forma mais acertada é anotá-lo de imediato para não dar oportunidade a confusões, pois um instino secreto diz-me que , no futuro, estes pormenres serão importantíssimos para os historiadores. Eu sou uma experiência; uma experiência em estado puro. Ninguém pode entender tão profundamente quanto eu esta sensação de construir um simples ensaio. Acerca disto sinto-me profundamente segura. Afirmo que sou uma experiência, e nada mais. E, se sou uma experiência, serei o total dessa experiência? Serei o todo? Não, creio que não. O que me rodeia faz parte da mesma experiência. Eu sou a parte principal, não tenho dúvidas. Mas o resto também tem um sentido. A minha sobrevivência está assegurada? Deverei manter-me alerta e cuidar de mim? Isto que acabei de dizer parece-me ser o mais conveniente. Existe uma voz instintiva que me recomenda que esteja constantemente alerta, pois esta é a base de toda a supremacia. (Esta frase é muito feliz, dada a minha juventude.) Hoje, tudo me parece melhor do que ontem. Efectivamente, com a pressa de concluir as coisas, as montanhas ontem ficaram meio estropeadas e cheias de rugosidades. O aspecto de alguns vales era detestável, já que nelese se enconteavam muitos materiais e desperdícios. As obras de arte, nobres e sublimes, não devem depender das exigências de uma necessidade. E haverá obra de arte mais nobre e sublime do que este majestoso mundo? Supreende-me como, apesar do pouco tempo disponível, o resultado se aproxima tanto da perfeição. É certo que temos muitas estrelas nalguns lugares e muito poucas noutros, mas tais excessos e carências poderão remediar-se gradualmente. Disso não há dúvida. A lua soltou-se ontem à noite. Foi escorregando e caiu para fora do sistema. Esta perda é lamentável. Sinto o coração despedaçado quando penso nisto. Entre as partes ornamentais da obra, nada há de tão belo como a lua, e nada está tão acabado como ela. É pena que não tivesse ficado bem presa! Se a pudéssemos recuperar... Mas como adivinhar onde caiu? Quem a encontrar vai, concerteza, ficar com ela. Desconfio que eu faria o mesmo. A minha conduta assenta em príncipios de honestidade, mas começo a darme conta de que o amor pela beleza constitui o centro da minha vida.

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Sinto uma verdadeira paixão pelas coisas belas. Dadas as circunstâncias, seria perigoso que me confiassem uma lua pertencente a outra pessoa, se essa pessoa ignorasse que a lua estava em meu poder. De dia e com sol, eu devolveria uma lua que tivesse encontrado perdida, com medo que alguém me visse. Mas se a encontrasse de noite, inventaria desculpas para não a devolver, e ocultaria a minha descoberta ao resto do mundo. São tão lindas e românticas as luas! Se tivéssemos cinco ou seis, eu nunca entraria no meu quarto e passaria as noites debaixo de uma árvore a contemplá-las. Também gosto das estrelas. Queria poder agarrar algumas para pôr no cabelo. Mas acho que isso é impossível. Ficariam supreendidas por saberem a enorme distância a que se encontram, já que, à primeira vista, parecem estar muito perto. Ontem à noite, por exemplo, quando sairam e eu as conhecia, agarrei num ramo para retirar algumas, mas o ramo não chegava lá e espantou-me muitíssimo. Larguei o ramo e comecei a a tirar pedrinhas, mas não resultou. O que acontece é que sou esquerdina, falta-me a pontaria. Talvez que com um bocadinho de persistência tivesse conseguido o meu objectivo. Na verdade, devo dizer que utilizei recursos muito imaginativos, como o de fazer pontaria contra uma estrela que não me agradava, para ver se o projéctil lá chegava. Mas tudo se revelou inútil, ainda que me tivesse aproximado bastante do meu objectivo. Eu via a sombra de pedrinha entrar quarenta e até cinquetas vezes na zona revestida de ouro. Pus de lado a minha desilusão. Parece estranho? A minha juventude justificao. Após um breve descanso, agarrei numa cesta e dirigi-me para um certo sítio nas bordas do círculo, onde as estrelas se encontram muito perto do chão. Esgotada pela fadiga, abandonei a missão. Os meus pés doridos, negavam-se a dar sequer mais um passo. Neste estado era impossível voltar a casa, não só devido à distância, mas também por causa do rio. Por sorte, encontrei uns tigres que me deram guarida e passei a noite confortavelmente. Como esses animais se alimentam de morangos, o seu hálito era doce e agradável. Nunca tinha visto tigres, mas pude reconhecê-los logo devido às riscas da pele. Eu gostava de ter uma daquelas peles para pôr em cima da cama. Hoje, as minhas ideias relativamente às distâncias são bem mais exactas. Desejava tanto apoderar-me das coisas belas que me atirava para cima delas sem pensar. Às vezes sucedia o contrário, pensava que estavam longe, estendia a mão e era picada pelos espinhos que as protegiam. Cada experiência era uma lição. E foi assim que formulei uma máxima, sem a ajuda de ninguém. Foi o meu primeiro passo na filosofia: Mão picada afasta-se das flores. Quem adivinharia tanta maturidade numa pessoa nascida há tão poucas horas?

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Quem adivinharia tanta maturidade numa pessoa nascida há tão poucas horas? Ontem à tarde fui à procura de outra experiência. Tinha vontade de conhecer a razão da sua existência, mas não consegui. Creio que essa experiência é um homem. É óbvio que nunca tinha visto um homem, mas, devido às características, não podia ser outra coisa. Confesso que o homem me inspirou uma grande curiosidade, nenhum outro réptil é tão interessante. Digo isto na suposição de que seja um réptil, ideia que me ocorre devido às feições que pude entrever: cabelo ondulado e olhos azuis. Quase não tem ombros. Parece uma cenoura e, quando está parado, expande-se como uma esponja. Ou é um réptil, ou então uma obra de arquitectura. Ao vê-lo, a minha primeira impressão foi de medo. Cada vez que ele olhava para mim eu desatava a correr, pois pensava que ele me queria caçar. Mas, pouco a pouco, fui entendendo que o seu único desejo era afastar-se, e assim, quando consegui superar a timidez, segui-o a uma distância de vinte e cinco passos, com uma persistência que acabou por o pôr nervoso e inquieto. Até que, finalmente, no auge da exasperação, ele subiu a uma árvore. Esperei um pouco e, ao ver que ele não descia, fui para casa. Hoje aconteceu a mesma coisa. Eu apareci para o ir buscar à árvore. Domingo Ainda continua entre os ramos. Parece que está a descansar, mas vê-se que o seu comportamento é um subterfúgio. Descansar ao Domingo? O Sábado é que é o dia indicado para o descanso. O homem parece estar mais preparado para o descanso do que para qualquer outra coisa. Já estou farta de estar junto à árvore a espreitar o homem. Não percebo para que foi criado. Não faz nada. Que feliz me senti ontem à noite! Devolveram-nos a lua. Calculo que, para procederem assim, devem ser pessoas muito honestas. Mas depois, ela voltou a escorregar e caiu outra vez. Só que agora não me preocupei. Hão-de no-la devolver. Só é preciso ter vizinhos de confiança. Eu gostaria de lhes mostrar o quanto aprecio a sua honestidade. Enviar-lhes-ia algumas estrelas com muito gosto, já que temos mais do que precisamos. Reparo que estou a falar no plural e deveria fazê-lo no singular, já que o réptil não se preocupa com estas coisas. Tem gostos vulgares e as suas inclinações não poderiam ser mais violentas. Ontem à tarde, à hora do crepúsculo, descobri que ele tinha descido da árvore e tentava apanhar os coloridos e indefesos peixitos do lago. Tive que lhe atirar uma pedra e, quando o fiz, ele subiu à árvore e deixou em paz os pobres animaizitos que brincavam inocentemente. Será para isso que serve o homem? Por acaso não terá coração? Será possível que o tenham projectado e fabricado com um objectivo tão cruel? É o que indicam todas as aparências.

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Será para isso que serve o homem? Por acaso não terá coração? As criaturas inofensivas não lhe inspirarão piedade? Será possível que o tenham projectado e fabricado com um objectivo tão cruel? É o que indicam todas as aparências. Um dos meus projécteis acertou em cheio. Bateu-lhe atrás da orelha. Ele falou. Ouvi-lo provocou-me um calafrio. É a primeira vez que oiço uma voz humana, não contando com a minha, claro.Não prestei atenção ao que ele disse, mas as suas frases pareciam muito eloquentes. Descobrir que ele possui o dom da palavra fez renascer o meu interesse, pois gosto de conversar. Aí, sim, se me deixassem, não pararia de falar. Supondo que o homem é mesmo um réptil, parece-me que gramaticamente lhe corresponde o artigo “o”, do género masculino e número singular. Supondo que “ele” será a terceira pessoa, também do género masculino e número singular. Além do mais e segundo os casos, terei que dizer “-lhe” ou “-lo”, e se tratar de acções indirectas deverei empregar, “dele”, “para ele”, “a ele”. Ficamos assim. De momento, evitam-se assim as imprecisões. Domingo Durante toda a semana andei a rondar a árvore, tentando estabelecer uma relação com o homem. A verdade é que eu tive que fazer as despesas da conversa, pois ele, timidamente, manteve-se em silêncio. Parecia que a minha presença o incomodava e eu, pela minha parte, fiz um esforço para empregar a sociável palavra “nós”, pois era bem visível que ele se sentia satisfeito por estar incluído neste pronome pessoal. Quarta – feira As nossas relações são fluídas. Cada dia nos conhecemos melhor. Ele já não foge de mim e isso é um bom sinal, já não dissimula que está contente na minha companhia. Isto agrada-me e eu, pela minha parte, tento ser útil em tudo o que seja possível, para que aumente o apreço que ele sente por mim. Durantes estes últimos dois dias estive ocupada a pôr nomes a todas as coisas que o rodeiam e é notório que o estou a ajudar, pois faltam-lhe aptidões linguísticas. A gratidão dele por tudo o que faço aumenta cada dia. Nunca lhe ocorre um nome, mas faço de conta que não me apercebo da sua incapacidade. Apresso-me a dar um nome a cada bicho que vemos para que ele não se sinta diminuído e se deixe cair num silêncio envergonhado. Com este sistema já o safei de muitas situações embaraçosas. Aquilo que nele é um defeito é em mim um dom muito especial. Aparece um animal e eu sei logo como se chama. Sem qualquer dúvida, sem precisar de me concentrar, pronuncio imediatamente o nome adequado. Actuo , sem dúvida por inspiração, já que uns minutos antes o animal e o nome me eram completamente desconhecidos.

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Basta-me ver o tamanho de um bicho; basta vê-lo caminhar ou comer; basta ouvi-lo grunhir para que saiba imediatamente a que classe pertence. Apareceu um elegante gato angora. Pude ver nos olhos do homem que julgava encontrar-se frente a um gato selvagem. Tomei logo conta da situação e, para não humilhar a personagem, pronunciei umas palavras de agradável supresa, sem dar a entender que estava a falar de alto ou a ensinar um ignorante. Com o tom mais natural do mundo disse: - Se não estou enganada, este é um gato angora. A seguir dei todas as explicações que entendi convenientes para demonstrar que não me tinha enganado. Pareceu-me notar nele um pouco de amor próprio ferido, mas as sua admiração por mim era por demais evidente. Gostei muito dessa sensação. Antes de adormecer estive bastante tempo a recordar esta sensação tão profunda e plena. Que felizes podemos ser com as coisas mais insignifcantes, sempre que consideramos que merecemos essa felicidade! Sexta – feira Primeira dificuldade. Ontem ele pareceu querer afastar-se de mim. Notava-se que desejava que eu não lhe falasse. Isto pareceu-me incrível. Julgei que se tratava de algum mal entendido, porque a mim agradava-me a companhia dele e também gostava de o ouvir. Como era possível que me tratasse daquela forma, sem que eu tivesse culpa de nada? Mas era mesmo assim e acabei por me conformar. Nunca tinha sentido nada igual; para mim, estes sentimentos constituíam um mistério. Mas ao cair da noite, não aguentei a solidão e dirigi-me até à cabana que ele tinha construído. Queria perguntar-lhe qual tinha sido o meu erro, e que poderia fazer para o reparar e recuperar a simpatia dele. Ele deixou-me ficar cá fora, apesar da chuva que caía. Este foi o meu primeiro desgosto. Domingo Está um dia magnífico.Sinto-me feliz. Trato, a todo o custo, de não recordar aqueles dias tão penosos. Apetecia atirar-lhe com uma maçã. Mas é incrível a falta de jeito que tenho para isto. A minha intenção agradou-lhe e perdoou-me que as maçãs tivessem caído muito longe do lugar onde eu as estava a atirar. Ele diz que estas maçãs estão proibidas, e que acabará por receber um castigo. Segunda-feira Hoje de manhã disse-lhe o meu nome, pensando que isso lhe interessaria. Mas ele mostrou-se indiferente. Que estranho! Se ele me dissesse o seu nome, eu repeti-lo-ia sem parar; sei que para mim, não haveria música igual.

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Noite após noite, enquanto o sono não me vencer, sentar-me-ei a ver as estrelas. Gravarei na minha memória o quadro desses corpos replandescentes. Depois da Queda A recordação do Jardim é como um sonho. Formoso Jardim! Jardim incomparável! Perdi-o para sempre. Os meus olhos nunca mais o verão. Perdi o jardim, mas ele é meu e estou contente. Ama-me tanto quanto um homem é capaz de amar. Eu amo-o com toda a força da minha natureza apaixonada, com todo o ímepto da minha juventude e do meu sexo. Quando me pergunto a mim mesma por que sinto este amor, não sei que responder, nem me interessa explicar. Suponho que esta espécie de amor não é o resultado da razão e da classificação, como o amor que sentimoes pelos outros répteis ou pelos quadrúpedes. É aquilo que deve ser. Amo certas aves pelo seu canto, mas não o amo a ele pela sua forma de cantar. Não. Pelo contrário, quanto mais ele canta, mais intolerável parece a sua dedicação à música. Digo-lhe que cante porque ele gosta e eu quero partilhar e disfrutar de tudo o que seja interessante para ele. A vontade faz prodígios, e eu consegui vencer o meu desagrado para lhe dar algum gosto. Por exemplo, ele gosta de leite azedo e eu já comecei a habituar-me. Diz que não o amo pelo seu talento. Que culpa tem ele do seu talento? É como o Deus o fez, nem mais, nem menos. Basta-me saber que o propósito do Supremo Criador foi muito sábio. Com tempo, esse talento desenvolver-se-à, mas parece-me que a obra vai ser muito lenta. Por outro lado, não existe perfeição. Está muito bem assim como é. Tão pouco o amo pela sua cordialidade e boas maneiras. Vejo os seus defeitos, mas gosto dele tal como é, e, além disso, está melhor de dia para dia. Seria quase impossível amá-lo pela sua capacidade de trabalho. Sei que é trabalhador, embora ultimamente o oculte. Não sei por que o faz. Isto provoca-me sofrimento, mas é a única coisa, porque em relação a outros temas, não poderia ser mais sincero e aberto do que é. Só oculta a sua paixão pelo trabalho. Eu não me conformo com o facto dele ter segredos comigo, e perco o sono a pensar nisto, mas acabarei por ultrapassar, pois não quero que isto seja obstáculo à minha enorme felicidade. Não o amo pela sua educação, ainda que ele seja um verdadeiro autodidacta. Sabe muito. Não o amo pelo seu cavalheirismo. Pertuba-me, mas não o critico. O rasgo é típico do sexo e não foi ele que fez o sexo.

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Quarenta anos depois

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eço a Deus, e espero que me conceda: quero abandonar este mundo ao mesmo tempo que ele. Este é um desejo que viverá sobre a terra enquanto houver mulheres amantes. E, pelos séculos e séculos, esse desejo terá o meu nome. Mas, se algum dos dois tiver que morrer primeiro, quero ser eu a partir. Ele é forte, eu sou fraca. Eu não sou tão necessária para ele, como ele, Adão,é para mim. A vida sem ele não seria vida. Como poderia suportá-la? Este pedido será imortal e elevar-se-à dos lábios de todas as mulheres, enquanto a minha raça subsistir. Sou a primeira mulher, e a última mais não fará do que repetir as minhas palavras. O Túmulo de Eva Adão. Onde estava ele, estava o meu Éden.

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Diario Eva