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Jessica Gadziala #2 Ryan Série Mallick Brothers

Tradução Mecânica: Bia Z. Revisão Inicial: Annik, Criz Revisão Final: Clau Leitura: Sil

Data: 04/2018

Ryan Copyright © 2017 Jessica Gadziala ~2~


SINOPSE Ryan Ela era perfeita: Doce, inteligente, estranhamente adorável e bonita pra caramba. O único problema era: Ela tinha terror de deixar seu apartamento. E, aparentemente, ela de alguma forma se envolveu com alguns caras muito maus antes.

Dusty Ele era perfeito: Ele era uma estátua viva, respirando, andando e falando. Mas quando um homem assim gostaria de estar com uma mulher ansiosa demais para andar com ele pelo corredor? Estar sozinha com ele em um encontro. Ou conhecer a família com quem ele era tão próximo. Dito isso, ele parecia interessado por algum motivo. Então, obviamente, ele era tão louco quanto eu. No topo dessa situação de total confusão, estava acontecendo algo com meus parceiros de negócios. E as coisas estavam prestes a ir direto ao inferno...

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A SÉRIE Série Mallick Brothers Jessica Gadziala

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Um RYAN

Foi um fodido longo dia. Para ser justo, a maioria deles era. Você não entrava em um negócio de agiotagem e esperava rosquinhas na sala de reunião e conversas fiadas sobre algum programa de TV pelo qual todos estavam obcecados. Era sempre tenso e problemático e prejudicava continuamente sua visão sobre a população em geral. Suspirei, levantando meu braço para checar meu relógio e vi uma mancha de sangue na manga do meu terno branco. Por sorte, a minha lavanderia de costume parou de fazer perguntas há muito tempo. Para ser perfeitamente honesto, geralmente eu não era aquele que derramava sangue. Cuidava mais do negócio final. Tratava da maldita papelada e cuidava da contabilidade, fazia uma primeira visita àquele que nos devia, você pagava ou recebia outra visita. Já nessa, eu enviaria Mark. Se Mark não fosse eficaz, então Shane entraria em cena. E se depois de Shane ter terminado com você, se você ainda não tiver o dinheiro para pagar suas dívidas, então nós mandaríamos Eli chutar sua bunda miserável. Mas, o que posso dizer, estava de mau humor, o cliente resolveu falar demais e as coisas saíram do controle. Eu não gostava de derramar sangue logo de cara. Evitava a todo custo, querendo manter as coisas amigáveis desde que o cliente também quisesse. Dito isso, o desrespeito nunca seria tolerado. Saí do elevador e peguei a chave do meu apartamento, olhando para a porta do outro lado do corredor. Nossos apartamentos eram os dois únicos no andar e vi algo que não costumava ver lá, mas toda vez ~5~


que via, ficava com os cabelos da nuca arrepiados. Vi homens de pé na porta dela. Veja, o negócio é que, eu só sabia que era uma mulher morando ali porque vi um cabelo loiro uma vez quando ela estava pegando um dos montes de pacotes que manda entregar em sua porta todas as semanas. Como conseguia que o carteiro deixasse os pacotes na porta dela, em vez de deixá-los na caixa de correio no saguão eu não sabia, mas o maldito cara fazia isso todas as vezes por ela. Minha vizinha, bem, era do tipo reclusa. Ela não saia para o trabalho. Não saia à noite. Nem sequer dava recados. E muito raramente tinha qualquer tipo de companhia. Quando tinha, porém, eram os caras com toda a aparência de ser maus elementos. Eu era um criminoso. Passei minha vida em torno de criminosos. Podia detectar um quando via um. Os dois caras em casacos de couro, suas juntas com cicatrizes e suas posições tensas, sim, eram fodidos criminosos. Ouvindo as portas do elevador fechando, as cabeças deles viraram na minha direção, me olhando. Eles me conheciam. Eu não estava sendo arrogante, mas o fato era que todo mundo que era alguém no submundo criminoso da cidade de Navesink Bank conhecia Charlie Mallick. E se você conhecia meu pai, conhecia seus filhos. Nós todos parecemos exatamente como ele. Além disso, se você conhece Charlie Mallick, sabe da nossa reputação e de que merecemos algum respeito. Foi por isso que um dos caras inclinou o queixo para mim e o outro assentiu e disse “Mallick” enquanto eu caminhava até minha porta e deslizava a chave. — Dusty, vem logo, porra, — o que inclinou o queixo para mim grunhiu para a porta fechada. Congelei a meio caminho da minha porta, girando de volta, levantando as sobrancelhas. ~6~


Eu aguentaria muita merda de muitas organizações, mas ameaçar mulheres nunca colaria comigo. Não me importaria quem fosse. — Estou indo, Bry! — Uma voz suave, doce veio de dentro do apartamento no momento em que algo bateu e caiu, e um miado alto pode ser ouvido. — Preciso colocar Rocky pra fora! — Ela acrescentou, seguido por um ruído alto de gato e um silvo dela, como se, presumivelmente, ele a tivesse arranhado. — Estúpido, gato fodido, — o cara que assumi ser Bry disse, balançando a cabeça. — Tudo bem, tudo bem, — disse a doce voz de Dusty e consegui ouvir as fechaduras deslizando antes de finalmente abrir e eu ter meu primeiro olhar para a minha vizinha que compartilhava um andar comigo há mais de um ano. Inferno, eu perdi algo. Geralmente, quando você pensa “pessoa reclusa”, imagina uma pessoa mais velha, meio demente, talvez cabelo desgrenhado e olhos selvagens. Não havia nada disso em Dusty Rose McRae, cujo nome eu sabia por causa dos pacotes intermináveis que mencionei. Não. Dusty era fantástica pra caralho. Ela tinha uma altura média para uma mulher e tendia à magreza, todas as curvas dela um pouco sutis, mas bem presentes no seu jeans azul e blusa rosa claro. Seu cabelo loiro era longo e ondulado em torno de seu rosto oval com o seu nariz perfeito, seu lábio inferior levemente avantajado, e seus grandes olhos verdes envoltos por volumosos cílios que, se eu colocasse meu dinheiro, apostaria que eram dela e não falsos. Perfeita. Era tão perfeita quanto jamais vi. Ela deu aos caras na porta um sorriso um pouco incômodo enquanto segurava uma toalha de papel no antebraço, listras brilhantes de sangue vermelho já manchando o papel. ~7~


— Desculpe, não sabia que vocês vinham ou já o teria botado para fora, — ela disse, se afastando do caminho e os homens entraram. — Apenas se livre da maldita coisa, — disse Bry, sua voz mais suave, colocando a mão no ombro dela para afastá-la da porta. E eu não estava imaginando isso quando todo o seu maldito corpo endureceu ao toque, como se cada extremidade nervosa recuasse ao contato, mas ela sabia que não podia se mexer, então suportou. Como se percebendo minha inspeção, seu olhar se dirigiu até o meu, seus lábios se separando levemente, seus olhos mostrando cada desconforto e incerteza que ela sentiu naquele segundo, me dando um desejo quase irresistível de atravessar o corredor, pegar os caras pelas costas de suas jaquetas, e jogá-los pela escada. Mas isso era loucura. Antes que o pensamento estivesse completamente formado, Bry a afastou do caminho e fechou a porta do apartamento num baque. Fiquei parado por um longo momento, tentando me convencer de esquecer o que aconteceu, deixar para lá, que não era da minha conta o que estava acontecendo atrás daquela porta. Por fim, essa voz ganhou, entrei no meu apartamento e fechei a porta. Acendi as luzes, mas me recusei a ligar a música como costumava fazer. Tentei dizer a mim mesmo que era porque só queria silêncio depois de um longo dia barulhento. Mas essa era uma mentira tão ridícula, que imediatamente aceitei que a verdadeira razão era porque queria ter certeza de que não havia brigas ou gritos, ou qualquer coisa do outro lado do corredor. Você sabe, apenas sendo um bom vizinho. Revirei meus ombros enquanto tirava meu paletó e colocava no armário dentro da porta da frente onde eu guardava minhas roupas secas para minha empregada ou assistente ou qualquer porra que ela fosse chamada, pegar e cuidar como ela costumava fazer. Meu apartamento era imenso e, se acreditarmos em minha cunhada Fee, gritava “solteirão”. ~8~


Suas bolas vão cair ou algo assim se você colocar uma cor aqui que não seja marrom ou preta? Foi o que ela perguntou na primeira vez em que entrou no apartamento. Ela não estava errada. Definitivamente, escolhi uma paleta de cores escuras. Todas as paredes do espaço principal eram de um marrom café profundo. Diretamente dentro e a frente, com uma janela com vista para a rua, ficava a sala de estar com um sofá preto em L de frente para um suporte de TV preto e uma grande tela plana. Havia um quadro pendurado perto da extremidade do sofá, uma tela abstrata marrom e preta intitulada Aspen, que encontrei à venda na parede de uma cafeteria na cidade. Ela se encaixava na aparência geral da sala e por um pouco menos de quinhentos dólares, era realmente um roubo pelo seu grande tamanho. Entrando pela porta da frente e virando à esquerda, entre o armário de roupas limpas e o espaço principal, havia um pequeno canto que tinha três prateleiras pretas e um armário preto para as bebidas. Em cima ficava minha habitual garrafa de uísque escocês, embora eu tivesse toda uma série de outras bebidas guardadas lá. Meu som ficava em uma das prateleiras ao lado de uma moldura (Fee a enviou para mim em uma fodida moldura rosa que fiz Anita, a empregada, substituir por outras pretas) com fotos das minhas três sobrinhas. À direita ficava minha cozinha com armários pretos e bancadas em mármore preto e branco. O corredor começava da cozinha, levando ao dois quartos e ao banheiro. Para o desgosto de Fee, o banheiro tinha o mesmo mármore preto e branco que a cozinha, e o meu quarto talvez fosse o espaço mais escuro e mais negro do apartamento. Achava cores claras alarmantes para os olhos. E depois de um longo dia no tipo de trabalho que faço, eu precisava de um lugar para relaxar. Mesmo que gritasse solteirão. Senti o cheiro de filé quando passei pela cozinha. Minha mãe me ensinou a cozinhar. Aliás, ela ensinou todos nós a cozinhar. ~9~


Não terei nenhum filho meu exigindo que uma mulher cozinhe toda a porra do tempo. Vocês vão aprender a cuidar de vocês. Essa era Helen Mallick. Não importa que ela tenha cozinhado para nós a maior parte do tempo enquanto crescíamos. Ela afirmava que a questão não era essa. A questão era que nunca deveríamos esperar que isso fosse feito para nós simplesmente porque éramos os homens e elas eram as mulheres. Dito isso, quase nunca cozinhava. Parecia um esforço tedioso e inútil de fazer só pra mim. Especialmente quando Anita estava feliz em cozinhar para mim. Então quase sempre quando eu chegava a casa já havia uma refeição pronta e guardada dentro do forno. Exceto nos sábados e domingos, quando ela não trabalhava. Abri o forno e encontrei um pedaço de carne, batatas assadas e uma pilha quase interminável de ervilhas. Anita, sendo uma mãe de quatro filhos adultos, parecia gostar de me considerar um deles e insistia que eu precisava comer meus vegetais. Eu sempre comia porque minha própria mãe me criou com a mesma ideia. Coloquei a comida no balcão e me servi de um uísque escocês, me sentei no balcão, comendo, fingindo que não estava procurando por sons do outro lado do corredor como um maldito stalker. Mas eu estava. E meu estômago não sossegou até eu ouvir a porta abrir, vozes casuais abafadas, passos e o clique da porta e o deslizamento das fechaduras do apartamento de Dusty. Talvez eu tenha passado muito tempo me perguntando no que diabos ela se envolveu com aqueles caras. Ficar trancada dentro de casa não deixava muitas opções para trabalho, a menos que ela escrevesse, fosse blogueira, trabalhasse com telemarketing ou fosse uma artista ou alguma merda assim. Então, as chances eram de que seu envolvimento com esses caras fosse uma fonte de renda para ela. E, bem, não havia muitas opções para ela fazer. Guardar dinheiro. Guardar drogas. Ou se prostituindo. ~ 10 ~


Julgando pelo jeito que ela endureceu quando o cara Bry a tocou, duvidava que fosse a última opção. O que deixava as outras duas escolhas desagradáveis. Ambas vinham com um nível de perigo para uma mulher vivendo sozinha sem um maldito sistema de segurança ou mesmo um cão de guarda para protegê-la. E se ela não tinha um sistema de segurança ou um cão de guarda, duvidava que tivesse uma arma. Risco estúpido. Mas não era problema meu, lembrei-me, enquanto raspava o restante do meu jantar no lixo, colocava a louça na pia e ia em direção ao meu quarto para me trocar. Mesmo assim, me certifiquei de chegar a casa naquela mesma hora na quinta-feira seguinte e na seguinte e na outra depois, para garantir que Bry e seu capanga não causassem nenhum problema com a minha pequena vizinha agorafóbica. Duas das vezes, eu os peguei entrando. Na última vez, eu os peguei saindo do apartamento dela e consegui dar uma pequena olhada em Dusty enquanto ela fechava a porta, percebendo que parecia muito menos tensa vendo-os irem do que quando chegavam. Podia sentir que ela me observava enquanto eu me movia para colocar minha chave na fechadura e a vontade de me virar para ela era quase irresistível. Então, eu me virei. — Hei, — falei, minha cabeça virando de lado um pouco para encontrá-la ainda olhando para mim, seu lábio inferior preso nos dentes por um momento até que ela me ouviu. Então ela pulou para trás como se não esperasse que eu fosse sequer capaz de falar. — Ah, oi, — ela disse, deslizando para trás no piso de madeira em suas suaves meias de gatinhos e batendo a porta. Por que essa merda me fez sorrir como uma criança na manhã de Natal, sim, eu não ia analisar isso. Mas foi exatamente o que aconteceu. ~ 11 ~


Dois DUSTY

Eu o observava. Ok, isso parecia realmente assustador. Eu nunca o observava. Bem. Às vezes sim. Eu não era nenhum tipo de louca perseguidora ou algo assim. Mas quando você mora em uma gaiola, morrendo de medo de pisar fora dela, acabava observando a todos os outros se movendo, vivendo a vida que você desejava que também pudesse viver. Não era como se ele fosse a única pessoa que eu observava. Também observava a senhora que vivia dois andares abaixo. Ela era uma bela e jovem mãe solteira de uma filha ruiva com o rosto sardento que estava sempre sorrindo para sua mãe. A janela do meu apartamento espreitava parte do estacionamento e da pequena área comum do prédio que se vangloriava de ter duas mesas de piquenique que eram pintadas no dia 3 de abril de cada ano, um conjunto de balanços e uma pequena área de ginástica. Então eu assistia enquanto a mãe saia do seu carro, cansada de um longo turno em algum lugar que exigia que ela usasse uniforme lilás e sapatos brancos antiderrapantes, seus cabelos vermelhos escapando de seu coque alto e bagunçado, parecendo tão desarrumada como poderia. Mas, então, tirava a filha do banco de trás e ela pulava para cima e para baixo, parecendo que estava implorando para ir até a área dos balanços. Sua mãe concordava e ela saia correndo para brincar e a mãe a seguia, cada minuto que ela observava ou corria atrás da sua garotinha parecia tirar horas de estresse dos seus ombros. ~ 12 ~


Veja, eu a observava porque ela tinha algo que eu queria e não poderia ter. Ela tinha uma criança pequena que a amava, que achava que sua mãe pendurava no céu a lua e as estrelas, que poderia tirar todas as preocupações com uma simples gargalhada ou sorriso. E eu o observava porque ele era outra coisa que queria e não podia ter. Um homem. Amor. Afeição. Companheirismo. Sexo. Um relacionamento. Claro, também havia o fato de que ele era imensamente bom de olhar, sendo a versão viva que respira e anda de uma estátua que veio a vida. Ele era lindo. Maravilhoso. Perfeito, na verdade. Tinha características fortes e masculinas com seu maxilar talhado, sobrancelhas grossas e fortes, um nariz não tão grande. Seu cabelo era preto e perfeitamente cortado sempre que eu o via parecia que ele nunca faltava um compromisso com seu barbeiro. Seu rosto estava bem barbeado a maior parte do tempo, embora ocasionalmente o visse um pouco desalinhado, o que particularmente achava atraente em seu rosto sério. Então, oh sim, havia os olhos. Ele tinha esses olhos azuis claros, penetrantes, impossivelmente maravilhosos. E sempre estava vestindo um terno. Bem, nem sempre. Três manhãs por semana, ele saia cedo, tão cedo que o sol mal havia nascido, em calções de basquete preto e uma camiseta apertada, ~ 13 ~


seu iPod em um suporte em seu braço e voltava todo suado de sua corrida. E às quartas-feiras, ele voltava para casa à noite com roupas de ginástica. Mas, literalmente, qualquer outra vez que o via, ele estava em um terno. E ele os enchia muito bem. Então eu o observava ir e vir. Ele tinha um carro bom. Um carro realmente bom para combinar com seus ternos realmente bons e seus realmente bons relógios que ele ainda usava para checar as horas em vez de olhar no celular. Era um pequeno detalhe que achei imensamente atraente por algum motivo. O carro era novo, elegante e preto, e mesmo que não pudesse ouvi-lo porque as janelas da minha sala de estar não abriam, só sabia que ele não rugia, ele ronronava. Falando em ronronar, Rocky acabara de pular na minha mesa branca de correio bem do lado da porta e, com isso, derrubando uma pilha de contas cuidadosamente organizadas e esfregando a cabeça no meu braço. — Ei, Sr. Rochester, — disse, exalando tão forte que eu juraria que era um suspiro enquanto me esticava para acariciar seu pequeno rosto alaranjado. Por ser um Persa, ele sempre parecia mal-humorado. Combinava com seu personagem e seu nome o fato de ele estar sempre de mau humor. — Você está com fome? — perguntei, levando a cabeça para trás como um sim enquanto eu me afastava da minha porta. No dia anterior, ele falou “hei” para mim. E eu tive um ataque. Veja, eu não era uma aberração. Até cerca de dois anos atrás, era uma pessoa bastante normal que tinha interações normais com pessoas (homens inclusive). Até namorei e tive relacionamentos. Mas então, sempre ficava um pouco ansiosa e tímida em situações sociais e especialmente na presença do sexo oposto, porém eu interagia com eles diariamente, eu posso dizer. Mas desde dois anos atrás, os únicos homens com quem falei foram meu tio, Bry e seu parceiro Carl. Era isso. Então, minha reação foi, bem, apenas surpresa, acho. ~ 14 ~


Ele falou comigo, com aquela voz perfeita, profunda, suave e hesitante. E fiz papel de boba. Porque esse era o curso da minha vida. Não deveria ter importado. Não era como se fosse acontecer de novo. Ele se mudou um ano atrás e essa foi a primeira vez que tentou conversar. As chances de tentar novamente, especialmente após minha resposta tão idiota, eram de quase nenhuma para zero. Mas mesmo assim importava. Era apenas mais uma coisa para eu me sentir mais como uma merda. Eu era boa nisso. O excesso de pensamento, o excesso de análise, o excesso de tudo. Essa era a minha especialidade. Bem, isso e aprender a fazer literalmente tudo o que precisava fazer no conforto da minha prisão. Quero dizer, do meu apartamento. Apartamento. Era um bom apartamento também. Passei muito tempo tentando conseguir o nível de conforto perfeito para mim. Isso significava que geralmente era muito brilhante e arejado. As paredes eram de um verde claro e não havia nada nas janelas, exceto cortinas leves brancas, para que a luz do sol pudesse fluir para dentro de qualquer lugar. Toda a madeira no espaço era branca, desde os armários da cozinha até a minha mesa de café e suporte de TV. Meu sofá era estilo remendado, com vários padrões diferentes, mas todas as cores um pouco claras, nada muito gritante, muito esmagador. Eu gosto de ousar. Meu antigo apartamento era uma incompatibilidade de cores e estilos diferentes, obras de arte e loucuras. Portas decoradas aqui, paredes vermelhas brilhantes ali, enormes quadros de arte em todos os lugares. Nada combinava, mas de alguma forma sempre funcionava. Minhas roupas sempre estavam espalhadas e a minha louça perpetuamente suja. Era um caos. Há muito tempo eu superei isso. ~ 15 ~


Agora, nada me assustava mais. Então minha casa estava quase arrumada por TOC. Tudo tinha um lugar e estava nele. Meus pratos eram limpos assim que terminava uma refeição. Tudo funcionava em questão de estilo. Minhas roupas ficavam no armário ou no carrinho ou na máquina de lavar que eu tinha instalado no meu armário de casacos depois de implorar e implorar (por e-mail) para o dono me permitir fazer isso. Abri o armário e peguei uma lata de comida para Rocky, colocando-a na tigela, enxaguando a lata e colocando-a no meu lixo de reciclagem antes de ir para o corredor que levava ao meu quarto. As paredes eram de um verde um pouco mais claro e minha roupa de cama era branca. As mesas de cabeceira de cada lado da cama e as lâmpadas nelas também eram brancas. Organização. Sempre. Fui até o meu armário, peguei um robe e fui para o banheiro, que era todo branco quando me mudei. A única diferença desde então até agora foi que instalei uma banheira enorme, muito moderna, muito sofisticada. Economizei para isso por seis meses antes de me permitir esse luxo. Também não foi um desperdício. Muitas pessoas nunca usavam suas banheiras. Sendo a pessoa nervosa que sou perpetuamente, costumo tomar banhos relaxantes praticamente todos os dias. Às vezes, duas vezes por dia. Eu me estiquei para fechar a torneira e colocar a água quente, deixando cair dois tabletes de sais banho dentro dela quando estava quase cheia. Deitei-me, respirando profundamente, colocando uma mão na minha barriga para me certificar de que ela subia e descia com cada respiração. Minha terapeuta sempre me dizia que eu estava tão ansiosa o tempo todo porque não estava respirando corretamente e que a técnica da mão na barriga faria com que eu respirasse profundamente. ~ 16 ~


Ajudava. Mas não era a cura mágica. Nada era. Nem mesmo a medicação que ela continuava me prescrevendo e que parei de tomar meses atrás. Os remédios não ajudaram e eles me deixavam cansada o tempo todo. A ansiedade e a agorafobia eram bastante ruins. Dormir o tempo todo começou a me deixar deprimida. E, bem, essa era absolutamente a última coisa que eu precisava em cima de todo o resto. Mas a técnica da mão na barriga, sim, não consertou nada. Minha garganta não parecia como se estivesse seca, mas meu coração ainda batia forte e meu peito parecia muito pesado e minha mente corria de um lado para o outro e em todos os cantos pelo meio. Começou, como costumava fazer, com Bry e Carl e suas visitas semanais. Eu passava os outros seis dias da semana me preparando para eles. Conhecia Bry há muito tempo, na verdade, fui à escola com ele e ele foi meu único amigo durante toda minha infância, adolescência e idade adulta. Ele mudou um pouco ao longo dos anos. Ficou mais encorpado. Ficou um pouco mais bruto. Mas ainda era o menino que costumava desenhar monstros comigo na hora do almoço ou fazer as listas de Natal perfeitas para o Papai Noel durante as férias de inverno. Mas Bry se tornou um homem que faz coisas ilegais. Bry também era a única razão pela qual consegui ficar no meu apartamento e me cuidar razoavelmente bem. Se não fosse por ele, não sei como teria sido. Talvez estivesse do mesmo jeito, só que morando no porão do meu tio, me sentindo como um fardo completo e me odiando mais a cada dia por causa disso. Se havia algo pior do que não poder viver minha própria vida, era estar arrastando alguém para meu pequeno mundo comigo. E tio Danny, sim, ele felizmente faria isso por mim. Mas eu não podia deixar isso acontecer. ~ 17 ~


Ele já fez muito por mim. Inferno, ele me criou durante grande parte da minha vida. Devo a ele mais do que ser um fardo e uma preocupação. Como tal, havia talvez algumas mentiras ditas a ele. Ele sabia que eu não podia sair do meu apartamento e sabia que eu me sustentava. O que ele não sabia era que Bry estava no meio. Ele pensava que eu ganhava dinheiro com a minha escrita. Eu ganhava. Mas não era o bastante para me manter. Nem mesmo se me mudasse para um apartamento menor. Às vezes, você precisava mentir para as pessoas que amava para protegê-las. Ou, pelo menos, era o que escolhi acreditar. Gostaria de dizer que fiz progressos na terapia que eu fazia por chamada de vídeos três vezes por semana. Mas isso seria uma mentira. Porque qualquer um saberia que não havia cura para ansiedade e agorafobia. Havia altos e baixos. Havia bons e maus momentos, mas isso sempre seria parte de você. E não havia muito para a minha terapeuta fazer quando os medicamentos não ajudavam e eu não conseguiria me forçar a fazer a única coisa para superar meus problemas, a terapia de exposição. Eu tentei. Todas as manhãs eu me levantava, me vestia (sapatos e tudo) e ia até minha porta da frente e tentava sair. Alguns dias até chegava ao corredor. Mas na maioria dos dias, ficava lá parada, completamente paralisada com o turbilhão de ansiedade. Com a sensação de garganta apertada, tontura, enjoo de estômago, o ruído alarmante do meu coração no meu peito, os arrepios enquanto eu estava me banhando em suor, a sensação de tremor tomando conta de todo o meu corpo até ficar tão ruim que estava tremendo, ali de pé com a mão na minha maçaneta parecendo como se estivesse tendo uma convulsão. Era estúpido. ~ 18 ~


Irracional. Estava baseado em uma realidade falsa. Mas era real. Era real, doentio, assustador e muito difícil de superar. Não importava o quanto eu tentasse. E então, todas as manhãs, tirava os meus sapatos, tirava minhas roupas e deslizava em uma banheira de água quente, limpando as lágrimas inúteis e tentando me convencer de que no dia seguinte seria diferente. Embora o dia seguinte nunca fosse diferente. Eu tinha que acreditar que poderia ser. Sem esperança, bem, não havia nada. Eu tinha que acreditar que algum dia, um dia, voltaria a sair. Tomaria café em uma cafeteria sem sentir que precisava correr gritando. Teria um encontro sem ter medo de que cada palavra que dissesse me fizesse parecer uma aberração neurótica. Veria velhos amigos que desistiram de mim. Veria meu tio nos feriados. Conseguiria um emprego normal, legal e iria começar a viver novamente. Porque o que eu estava fazendo há dois anos, bem, não era viver. Era sobreviver. Era uma imitação triste e patética da vida. E eu estava chegando no limite de minha paciência sobre isso. Embora a frustração com a minha própria falta de esforço só tenha piorado as coisas, infelizmente. Rocky saltou na tampa fechada da privada, soltando um miado alto e andando em círculo por um segundo antes de se sentar. — Eu sei. Nós realmente fizemos uma bagunça naquela apresentação, hein? — perguntei, pegando uma pétala de flor flutuando na água e esfregando sua suavidade entre meus dedos. Rocky soltou um espirro quando ele ergueu a pata para se lamber. — Tudo bem, — suspirei. — Eu fiz uma bagunça. Você estava do seu jeito charmoso habitual... e estou falando com meu gato de novo, — bufei, ~ 19 ~


tirando o tampo do dreno com o meu pé e me levantando para alcançar a toalha. Enxuguei-me, enrolei a toalha em volta do meu corpo e caminhei em direção ao meu espelho, olhando nos meus olhos e respirando fundo. — Na próxima vez, quando vê-lo, não vou me comportar como uma boba, — prometi. No momento, não tinha nem ideia de como seria boba com ele no próximo fim de semana.

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Três RYAN

— Terra para Ryan, — disse Mark, estalando os dedos perto da minha orelha, me fazendo agitar minha cabeça e me inclinar para trás na minha cadeira, percebendo que minha mente tinha divagado no meio de uma maldita reunião. Isso não era típico eu me dispersar assim, nem um pouco. — Desculpe, — falei, balançando a cabeça para o meu irmão que, a julgar pelo sorriso malandro e pelos olhos divertidos, estava gostando de me ver distraído. — O que foi isso? — Nada importante, — ele respondeu, encolhendo os ombros. — Orçamentos sobre o abrigo de mulheres. Está tudo na papelada. O que é importante é que você estava sonhando acordado no meio de uma reunião de trabalho. Sonhando. Tenho certeza que você nem sequer sonha no seu maldito sono, mano, — ele acrescentou, sentado na cadeira, braços atrás do pescoço. — Então, como ela se chama? — O quê? — lancei, muito rápido, muito defensivamente. Ele me conhecia bem o suficiente para chamar isso do que era, uma tática de bloqueio. Então segui adiante e quis falar logo antes que ele pudesse conseguir mais sobre isso. — Não é o que você está pensando, Mark. Minha vizinha se envolveu com algumas pessoas ruins. Isso está me incomodando. Isso era metade da verdade e parecia ser sincero para ele. Se fosse Eli com quem estivesse falando, ele nunca se contentaria com isso. Mas Mark, Shane e Hunt geralmente aceitavam de primeira. Não era fácil chegar a me “conhecer” e eles geralmente acreditavam que eu era aquilo que eu deixava todo mundo ver.

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— Então, essa vizinha, — ele disse, sua cabeça ligeiramente inclinando para o lado. — Ela é do tipo velha e caseira ou do tipo jovem e gostosa? — Ela é uma enclausurada, Mark, — disse. — Ou seja, não sai de casa. Você não vai levá-la para sair tão cedo. Como se eu tivesse algo a dizer sobre isso. O que eu não deveria ter, mas aparentemente tinha. — Mas eu não preciso levá-la para sair para ter alguma diversão, certo? — ele perguntou, sorrindo mais alto. — Isso respondeu minha pergunta também. Ela é quente. — Fique longe dela, — gaguejei antes que eu parecesse me conter. Eu não estava perdendo isso por nada. — Oh, porra, — ele falou, sentando-se para frente novamente, rindo ligeiramente. — Você tem uma coisa pela sua vizinha. Já era sem tempo. Você esteve em um período de seca, há tanto tempo... — Estou bem, obrigado, — disse, balançando a cabeça. Enquanto Mark e Shane (antes de encontrar Lea) eram mulherengos, sempre estive um muito ocupado para ficar pulando de cama em cama. Tenho minha cota, mas eu não estava com uma garota diferente todas as noites ou em um romance de fim de semana. — Estar bem não é fantástico, irmão. Estar ótimo é fantástico. Você foder sua vizinha gostosa até acordar o edifício inteiro é fantástico. — Podemos voltar ao orçamento e deixar minha vida pessoal de lado? — Não, não acho que podemos fazer isso, — disse a voz de Shane do lado e virei-me para encontrá-lo de pé na porta do escritório, seu corpo desmedido quase ocupando todo o espaço. — Que vida pessoal? Desde quando você tem alguma coisa que se assemelha a uma vida pessoal? Então eu era um viciado em trabalho. ~ 22 ~


Isso não era um segredo. Havia muita coisa para ser feita no negócio da família. E agiotagem era apenas uma parte do negócio. Havia também o bar e dúzias de outras empresas. E nosso dinheiro sujo era lavado através desses negócios legítimos, então eu fazia a contabilidade para tudo, embora tecnicamente não estivesse envolvido na academia de Shane ou na empresa de paisagismo ou na loja de bebidas ou em qualquer outra coisa que meus irmãos realmente possuíam. E além desse tipo de contas, havia os meus próprios negócios. E tinha que trabalhar e fazer pedidos e fazer melhorias e resolver disputas. Além disso, me encarreguei do abrigo para mulheres. Eles ficaram sem dinheiro e perderiam seus negócios e, já que a minha família estava tão envolvida, decidimos intervir. E por acaso eu era o único com dinheiro disponível suficiente para assumir isso. E veio com suas próprias dores de cabeça, embora eu forçasse Mark a trabalhar um monte no lugar para me livrar de um pouco de aborrecimento. Eu era muito ocupado. Desde o momento em que acordava até a hora de dormir, estava malditamente ocupado. Eles estavam certos. Eu quase não tinha vida pessoal. E talvez eles estivessem certos. Talvez estivesse me afetando. Talvez precisasse sair um pouco, ficar deitado, relaxar. Isso explicaria por que estava dormindo acordado durante uma maldita reunião de negócios. — Ry tem tesão por sua vizinha enclausurada, — Mark explicou, fazendo-me pegar uma caneta para jogá-la nele. Irmãos, eles eram tão intrometidos quanto irmãs, não importa o que alguém dissesse. Ou talvez só fosse verdade em famílias tão unidas quanto a nossa. — Enclausurada, hein? — perguntou Shane, sorrindo diabólico. — Então isso meio que funciona, não é? Não ter que correr atrás dela. Não a levar para um jantar elegante. É só aparecer e foder ela. — Não estou dormindo imediatamente. Mesmo que

com minha vizinha, — falei estivesse pensando nisso. ~ 23 ~


Frequentemente. Geralmente no chuveiro. Como a porra de um adolescente. — Mas ele quer. E aparentemente ela tem algum tipo de problema com alguns canalhas, — acrescentou Mark. Não existia tal coisa como privacidade na família Mallick. Se Mark soubesse, Shane também sabia. Então, a partir daí, Lea, Fee, Hunter, Eli e nossos pais. Meu maldito celular tocaria e tocaria a noite toda. Ótimo. — Você vai cavalgar com sua armadura brilhante? — perguntou Shane, encostado na parede, cruzando os braços. — Não é uma jogada ruim. Quero dizer, não é o atalho mais curto para bucetas. Mas uma hora isso funcionará. — Jesus Cristo, — suspirei, passando a mão pelo meu rosto, minhas palmas chegando ao pescoço que devo ter esquecido de raspar de alguma forma. — Basta. Não estou dormindo com ela. Não planejo dormir com ela. Essa conversa terminou. — Uh-huh, — Mark disse, balançando a cabeça, sorrindo ainda no lugar. — Claro, cara. Então, Shane, — ele disse enquanto eu me sentava em um suspiro, sabendo o que deveria seguir. — Tenho meu dinheiro em... uma semana, — ele disse apostando como se eu não estivesse lá. Shane olhou para mim. — Não, cara. Ele é praticamente um monge e ela está fechada. Eu diria em três semanas. Hunt vai fazer a coisa inteligente e levar a aposta no meio, pensou Mark. E, pelo jeito, a grana... — Tudo bem, tenho lugares melhores para estar, — disse, de pé, abotoando meu paletó. — Como literalmente fodendo em qualquer lugar, menos aqui, — acrescentei, pegando meu celular e dirigindo-me para a porta. — Tranque ao sair, — terminei, fechando a porta atrás de mim. Eu estava com um humor azedo pra caralho.

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Não poderia estar com raiva deles. Se eu estivesse em seus lugares, teria sido o primeiro a arrumar dinheiro para apostar. Mas ser a pessoa em quem eles estavam apostando, sim, não era tão divertido. O único jeito de tornar isso melhor era provar que eles estavam errados. Eu não ia dormir com Dusty. Aliás, desde que eu disse olá para ela e ela desajeitadamente (e adorável pra caralho) murmurou o olá de volta e desapareceu, não a vi mais. E pelo jeito não voltaria a ver por meses e, até lá, a aposta acabaria de qualquer maneira. Exceto que, um dia destes tarde da noite, depois de cochilar quatro vezes no meio de um e-mail de trabalho que estava digitando no meu celular às duas da manhã e, finalmente, decidindo desligar e lidar com isso depois de dormir um pouco, fiquei assustado ao acordar com um grito alto, insistente e penetrante de um alarme. Eu me levantei da cama, o coração disparado enquanto alcançava meu celular, notei imediatamente não era meu alarme pessoal nem nada no meu apartamento, mas estava vindo do corredor. Coloquei meus pés em um par de mocassim, vesti um moletom e dirigi-me para a porta, saindo para o corredor para ver o alarme de carbono piscando uma luz vermelha de advertência. Monóxido de carbono. Porra, grande final para um dia de merda. Entrei para pegar minha chave e fechar a porta, movendo-me para virar e congelar. Porque ali, de pé na porta, com uma gaiola de gatos em uma mão, arranhões nas mãos e completamente congelada no lugar, estava Dusty. A mão que não estava segurando a gaiola estava fechada ao redor de sua garganta, como se ela estivesse tentando aliviar a pressão lá. Seus olhos verdes estavam arregalados e... aterrorizados pra caralho. Travada que nem conseguia sair do apartamento para uma emergência. ~ 25 ~


— Querida, nós temos que ir, — pedi, guardando minhas chaves enquanto eu andava para o meio do corredor. — Eu, ah, — ela começou balançando a cabeça, olhando para o alarme que estava piscando em vinte, onde sempre era zero. — Eu, hum, não posso. Apenas... você pode levar Rocky com você? — ela perguntou, empurrando a gaiola no corredor. Sem pensar, cheguei a ele. Foi instintivo. Uma bela mulher implora que você leve algo, você simplesmente aceita. Assim, soube que ela não estava planejando sair. Estava com seus olhos cheios de terror, sua respiração superficial, seu corpo tremendo. Ela queria que eu salvasse seu gato e a deixasse lá para morrer. Sim, essa merda não ia rolar, isso era certo. Coloquei a gaiola no chão e antes que ela pudesse adivinhar minha intenção e reagir. Caminhei pelo corredor, me abaixei e joguei seu corpo sobre meu ombro. Meu braço apertou-se ao redor dela enquanto ela congelou por um curto segundo, então começou a lutar, implorando-me para colocá-la no chão e deixá-la lá, sua voz ficando a cada segundo mais frenética. Enquanto agarrei a gaiola na minha mão livre e corri para a escada, você podia ouvir pelo seu tom que ela estava chorando. Meu coração teve uma sensação de palpitação diferente enquanto eu voava pelas escadas, entendendo que ela estava tendo uma fodida crise, mas sabendo que não havia maneira alguma de deixa-la para trás também. Bati a porta para a saída de emergência e pisei fora, o ar de dezembro me atacou da cabeça aos pés, apesar de estar de mangas e calças compridas. E foi quando vi a multidão de pessoas reunidas na frente do prédio, grupos pequenos se amontoaram para evitar o frio. Como se estivesse ouvindo ou sentisse o grupo também, Dusty começou a lutar de novo, fazendo eu me afastar da frente do prédio e ir ~ 26 ~


para a parte de trás onde estava o estacionamento. Encontrei meu carro e coloquei a gaiola sobre o porta-malas, então pude destravar as portas, em seguida, fui para o lado do passageiro e abrindo a porta, joguei Dusty para baixo e coloquei-a no banco da frente. Inclinei-me para dentro, sobre ela para girar a chave e ligar o aquecedor antes de ir buscar o gato e colocá-lo no banco traseiro. Voltei, agachando-me ao lado de sua porta ainda aberta, como se ela não pudesse se concentrar além do pânico para fazer qualquer coisa tão básica quanto alcançá-la e fechá-la. — Respire, querida, — pedi porque o tempo que levou para eu vir para o lado do carro e agachar-me, seu peito não tinha levantado. Seus olhos se aproximaram, seus lábios se separaram ligeiramente, enquanto a mão dela foi até a barriga e ela respirou devagar e devagar. Então outra vez. — Vou ver se o síndico ou corpo de bombeiros tem algo a dizer. Você simplesmente senta e respira, eu volto, ok? Sua cabeça assentiu com tanta força quando sai para ficar de pé. — Tudo bem, — ela acrescentou e dei um pequeno sorriso e fechei a porta. Voltei ao redor do prédio, encostei-me para evitar o frio, perguntando-me como diabos ela conseguia sair da cama de manhã quando o mundo inteiro a enchia de medo assim, com o terror absoluto em seu rosto, fazendo com que se esquecesse de como respirar. Eu não sentia ansiedade. Isso não fazia parte da minha vida. As coisas eram muito loucas, muito agitadas de momento em momento. Fui criado com constantes ameaças, estresse e incerteza. Ensinaramme a tomar tudo com cautela, para nunca deixar que nada tire o melhor de mim, tanto literal como figurativamente. Então, não conseguia identificar o que fosse que ela sentia, mas um olhar em seus olhos me dizia que era uma maneira terrível de viver. — Ryan, — disse o síndico, batendo-me nas costas quando os bombeiros começaram a entrar no edifício. — Desculpe pelo inconveniente. Sei que você é um homem ocupado. ~ 27 ~


Eu era um homem ocupado que empregava sua esposa, duas de suas filhas e um de seus filhos. Ele beijava a minha bunda. — Não é algo que você controla, Andrew, — disse, encolhendo os ombros. — Não esquenta, — ele continuou, olhando para o prédio. — Também disse aos bombeiros sobre a sua vizinha. Eles vão pegar uma máscara e tirá-la de lá. — Eu a tirei de lá, — falei, percebendo sua cabeça em minha direção, suas sobrancelhas juntando. — Você a tirou de lá? — Não a deixaria lá para morrer de intoxicação por monóxido de carbono, Andrew, — bufei. — Bem, não, não. Claro que não. Estou surpreso que ela tenha deixado você fazer isso. Uma vez precisei entrar para substituir seu fogão, a menina ficou com as costas em um canto, sua mão em sua garganta o tempo todo. É uma jovem muito bonita. Lembra a minha Mandy. Sua Mandy era uma pequena pirralha malcriada, com uma atitude terrível e uma voz aguda. Felizmente para ele e para ela, ela era boa com os números, ou então estaria longe há muito tempo porque eu simplesmente não podia suportá-la. Ela não era nada como Dusty. Fiquei quase ofendido que ele sequer sugerisse isso. Mas isso era louco. Ficamos parados por vinte minutos, todos os momentos me perguntando o que ela estaria fazendo no meu carro, se ainda estava enlouquecendo, se estava me odiando por arrastá-la para fora de sua zona de conforto. Os bombeiros voltaram finalmente e informaram a Andrew e ao resto de nós que o idiota do 2A, de 20 anos de idade, deixou seu fogão com a chama acesa e abriu todas as janelas nos corredores, e que deveria ser seguro retornar em cerca de uma hora. ~ 28 ~


Andrew caminhou em direção ao 2A para checar e finalmente consegui caminhar em volta do prédio em direção ao meu carro. Fui ao lado do motorista e abri a porta, fazendo com que Dusty se afastasse de onde ela estava sentada, com a mão ainda na barriga, mas o corpo muito menos tenso do que estava quando a deixei. Sentei-me no banco, demorando um segundo para deixar o calor me descongelar antes de voltar para ela. — O cara do 2A deixou o fogão ligado, — informei, girando ligeiramente para encontrá-la olhando-me atentamente. — O maconheiro, — ela disse, o sorriso arqueando ligeiramente. — Esse mesmo, — concordei, balançando a cabeça. — Você está bem? — perguntei quando um silêncio caiu entre nós. — Melhor do que pensava que estaria, — ela disse com uma honestidade que me surpreendeu. — Embora acho que Rocky vai se vingar por isso. — Parece que ele já fez isso, — observei, estendendo a mão, apesar de saber por sua interação com o canalha do Bry, que ela não parecia gostar de toque, e corri meu dedo pela lateral de sua mão, onde os arranhões vermelhos irritados tinham sangue seco na superfície. Se eu fosse um pouco menos concentrado, um pouco menos observador, poderia ter perdido a maneira como seu ar saltou entre seus lábios, a maneira como seus dedos se contraíram, mas ela não se afastou. Eu poderia ter perdido isso. Mas não perdi. Então não era que ela não gostasse de ser tocada. Ela simplesmente não gostava de ser tocada por gente como Bry. — Isso, — ela disse, sua voz um pouco arejada, — isso não é nada. Ele realmente odeia sua caixa. Ou, lhe dizer o que fazer. Você sabe, sendo um gato dominante e tudo. Eu me encontrei rindo com isso, inesperadamente encantado quando me inclinei para o porta-luvas e abri, retirando o que era um kit de primeiros socorros bastante completo. Chame isso como uma ~ 29 ~


vantagem do trabalho em que muitas vezes me encontrei, nunca estava sem antisséptico, antibióticos triplos, ataduras ou supercola para costura improvisada. Deslizei o topo do pequeno frasco de esguicho. — Isso vai queimar, — avisei.

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Quatro DUSTY

Sua mão deslizou sob a minha, segurando meus dedos enquanto esguichava peróxido de um frasco de viagem sobre a minha mão. Era a coisa mais próxima de segurar a mão de um homem que tive em cerca de três anos. Três anos. Então, essa coisa de advertência ardente, sim, isso era inútil. Porque eu não senti nada além da maneira como seus dedos fortes se deslizavam pelo meu. Do jeito que sua palma era calosa, o que era completamente dissonante com a aparência impecável e seu terno usual. Seus dedos e o topo de sua mão estavam todos arruinados com muitas cicatrizes para contar, da maneira como elas cruzavam uma a outra em diferentes estágios de vermelhidão, rosa e branca prateada, tornando impossível tentar. Não eram as mãos de um homem de terno. Pelo menos não da maneira que eu compreendia homens em ternos. Os homens que tinham mãos rudes e cicatrizadas como ele deveriam ser trabalhadores da construção ou mecânicos ou, eu não sei, lutadores. Não homens de negócios. Então, talvez ele não fosse um homem de negócios, afinal. E isso, bem, quebrava a pequena história que criei para ele depois de tanto tempo de vê-lo ir e vir. De certa forma, fiquei feliz pela nova história. Talvez porque eu estava começando a experimentá-la um pouco em primeira mão, não pensando bobagens na minha cabeça, uma mente hiperativa presa em um corpo estacionário. ~ 31 ~


Se você me dissesse uma hora antes que eu seria jogada sobre o ombro de um homem com quem tive talvez mais do que algumas fantasias sexuais durante o ano passado, seu braço forte cruzando as costas das minhas coxas para me manter no lugar, sendo carregada para fora do prédio por um maldito herói de livro de romance, você sabe quando os caras fazem uma merda heroica assim, e depois me colocar em seu carro e cuidar de que meus pequenos arranhões como se fosse de extrema importância, bem, eu teria dado uma gargalhada enorme sobre isso. Mas foi exatamente onde me encontrei. Não vou mentir. No momento, quando me foi tirada a escolha, quando fui forçada a sair de um lugar do qual não tinha saído em anos, não parecia heroico, nem doce nem romântico. Naquele momento, eu estava tão desesperada para ficar trancada dentro da minha pequena prisão que bati meus punhos nas costas dele. Tentei chutar os joelhos nele. Gritei e implorei e, Deus, chorei. Porque meu coração tinha residido em minha garganta, batendo mais selvagem do que antes, deixando-me sem ar, impossível fazê-lo entrar, fazendo com que eu ficasse atordoada enquanto explodia em suor e sentia a bile se mexer ameaçadoramente na minha barriga. Novamente, sabia que era irracional. Claro que sim. Mas isso não mudava nada. A ansiedade não era racional. Simplesmente entendi isso e era impossível explicar aos outros. Eu tinha ouvido isso ao longo dos anos. Você está tão obcecada com sua doença mental. Talvez porque afete todas as partes da minha vida. Está tudo na sua cabeça. ~ 32 ~


Eu sei, certo? É como se fosse uma doença mental. Por que você deixa que isso te impeça de fazer coisas normais? Hmm, talvez porque uma doença mental é uma doença real. Depois de um tempo, você para de se defender, para de falar sobre isso, desliga tudo como um todo, deixando sua psicóloga um pouco mais louca todos os dias. Até que um dia era tudo o que restava, a loucura, a instabilidade, a onda imparável de adrenalina que você nem conseguia lutar. Porque não é apenas mental. A ansiedade causa uma reação física que causa sintomas físicos intermináveis no corpo, que você literalmente não pode controlar. Li em um dos meus muitos livros de autoajuda que a adrenalina liberada durante um ataque de pânico estava ligada a um instinto biológico de luta ou fuga e que aqueles que estavam mais inclinados a ataques de ansiedade vieram de uma linhagem forte de pessoas que confiavam nesses instintos e agiam em conformidade. Eu tinha antepassados que escaparam de seus problemas. E isso me deixou com a necessidade de suportar e lutar contra meus invisíveis. É uma lástima que eu fosse uma maldita lutadora. Mas uma vez que ele me colocou no banco, ligou o carro e me lembrou de respirar, a tontura começou a recuar ligeiramente. Então, quando ele me deixou para checar as coisas, consegui me controlar e me segurar. O carro não era tão ruim. Estava morno. O banco até aqueceu por trás e por baixo de mim. Tinha uma vibração um tanto calmante enquanto estava ociosa, lembrando-me da minha vida antes, quando eu amava infinitas viagens rápidas e perigosas, e inúteis quando eu tinha um longo dia e precisava relaxar. No banco de trás, Rocky aceitou sua prisão e parou de miar e bater. E isso ajudou a diminuir a ansiedade também. No momento em que ele voltou, senti quase tudo de novamente. Fiquei um pouco cansada. Minha pele pereceu corar e meu coração ~ 33 ~


ainda estava batendo um pouco acelerado, e eu estava esgotada após o aumento da adrenalina, mas não estava pirando. Não muito. — Você está bem? — perguntou, a voz inesperada. Fazia tanto tempo que havia outra voz ao meu redor, exceto as visitas do meu tio e os compromissos agendados com Bry, que foi surpreendente ouvir. Apertei um pouco, meus dedos involuntariamente apertando os dele, enquanto meu olhar voava até o rosto. — O quê? — perguntei, piscando duas vezes enquanto seus penetrantes olhos azuis fixavam os meus. — O peróxido, — ele explicou, fazendo meu olhar voar para baixo para onde minha mão estava de alguma forma pingando, embora eu não tivesse quase sentido o spray. — Oh, ah, sim, — disse, olhando para trás, dando-lhe um sorriso um pouco torto. — Não senti nada, — expliquei. E foi exatamente aí que percebi que meus dedos haviam relaxado nos dele com seus pequenos espasmos involuntários, mas ele estava segurando os meus também. Meu coração, sim, ele parou de bater por um segundo, que poderia dar uma estranha e deliciosa cambalhota fazendo um desconhecido calor se espalhar por todo o meu peito. Contato humano. Eu tinha esquecido como era. Senti o vidro de peróxido deslizar para baixo no banco ao longo da minha coxa, descansando perto da minha bunda, enquanto um som enrugando fazia minhas sobrancelhas se juntar por um segundo antes de ele levantar um pequeno rolo de gaze em volta da boca e beliscar o lado, rasgando-o. Assim ele não precisou soltar minha mão para usá-la para abrir. — Eu, hum, não acho que a gaze é necessária, — forcei-me a dizer, embora a maior parte de mim realmente, realmente queria que ele envolvesse a minha mão por razões que eu estava escolhendo não analisar. Você tem que fazer um esforço ativo para parar os pensamentos girando, Dusty. Essa seria a minha terapeuta, Amy, conversando. ~ 34 ~


Ela insistiu em chamá-la assim — Amy. Não de Dra. Robertson. Acho que era uma técnica que eles aprenderam na faculdade ou algo para ajudar os pacientes a se sentirem mais à vontade. Como ela também não nos chamava de “pacientes”, mas “clientes”. Por que, não tinha certeza. Eu estava definitivamente doente. Era absolutamente paciente. Era um termo completamente apropriado. Mas talvez fosse mais fácil para as pessoas terrivelmente estacionadas na negação se aceitarem como um cliente em vez de um paciente. Então, eu tentava seguir seu conselho. E não pensaria no que acontecia no carro dele. Você sabe, pelo menos até que eu esteja novamente em meu apartamento. Então, oh, sim, ia analisá-lo nos mínimos detalhes. — É mais seguro, — ele disse, encolhendo os ombros, dando aos meus dedos um último aperto pequeno antes de soltá-los para que ele pudesse usar as duas mãos para me embrulhar. Meu olhar caiu, não querendo ser indiscreta continuando a olharem seu rosto, e observava como ele rapidamente, mas super cuidadosamente envolveu-me. — Ryan, — ele disse um momento depois quando pegou o pequeno esparadrapo para prender a gases. — Desculpe? — perguntei, olhando para encontrá-lo me olhando. — Ryan Mallick, meu nome, — ele disse com um pequeno aceno de cabeça. Certo. Eu sabia. Porque, como eu disse, ocasionalmente o observava. E isso significava que também via seus irmãos às vezes chamando-o de Ry e Ryan, e também uma vez recebi uma carta dele por engano. Então corri no corredor e joguei debaixo da sua porta porque não conseguia entregar a ele. — E você é Dusty, — ele disse, meu nome em sua voz suave, enviando um estranho arrepio em minha pele. — Nome interessante.

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— Minha mãe era, ah... — como era uma boa maneira de dizer isso? — Um pouco hippie. Então fui chamada de Dusty Rose Sunshine McRae. — Sunshine, hein? — ele perguntou, o sorriso brincando de um jeito que fez seu semblante severo parecer acolhedor e convidativo. — Acho que posso ver isso. — Então, antes que pudesse me apaixonar por ele logo depois, ele se moveu para trás, colocando minha mão na minha própria coxa e cortando completamente todo o contato. Fiquei irracionalmente triste com a falta disso, então estendi a mão para o frasco de peróxido e encontrei a tampa apenas para ter algo para fazer. — Desculpe, por ter tirado você de lá, — ele disse um pouco depois quando reorganizei completamente o conteúdo do kit de primeiros socorros que ele tinha bagunçado, peguei a embalagem usada para a gaze e coloquei em meu bolso e depois guardei o kit de volta no porta-luvas. — Sim, como você ousa não me deixar morrer, — eu disse, atirando-lhe um sorriso sobre meu ombro enquanto fechava o portaluvas. — Não sinto muito por te salvado, querida. Desculpe-me, ah, se a deixei tão desconfortável. Desconfortável. Essa era uma maneira delicada de falar. — Não é culpa sua, — ofereci, porque era verdade. — Além disso, estou bem agora. E, surpreendentemente, eu estava. Estava acostumada a trivialidade com as pessoas, especialmente meu tio e a terapeuta. Sempre estava bem. Mesmo quando eu não estava. Mas sentada aqui, em um carro onde nunca estive antes, com um homem a quem observei do meu apartamento por um ano e estávamos juntos pela primeira vez em cerca de dois anos, sim, achei que não estava mentindo quando disse que estava bem. Eu estava. ~ 36 ~


Não muito bem, mas isso era pedir demais. Mas tudo bem. — Há quanto tempo? Meus olhos cruzaram o rosto dele, vendo-o me observando de novo e tive a forte impressão de que ele estava vendo mais do que eu pensava que estava dando a ele. Ele tinha esse tipo de olhos, os que liam você. — Dois anos, — admiti. — Posso lhe perguntar uma coisa que queria saber desde que, porra, não sei... desde que me mudei? — Claro, — eu disse, a barriga apertando um pouco ao saber que apenas concordei em responder algo que ele poderia perguntar. Coisas que eram completamente irrespondíveis como: por que você é uma agorafóbica de qualquer maneira? — Como diabos você consegue que o carteiro leve suas caixas até sua porta? Se a minha caixa ficar muito cheia, ele começa a me deixar recados, “Desculpe-me, nós não encontramos você”, e me faz levar minha bunda até o escritório de correios para pegá-las. Sorri com isso não só porque era um visual engraçado, mas porque era muito parecido com ele. Não Ryan, tio Danny. — Meu tio é nosso carteiro, — informei com uma risada. — Ele, bem, na maior parte ele me criou, então somos próximos, e ele, tipo, entende meus problemas, então me ajuda colocando meus pacotes na minha porta. A minha terapeuta arquearia as sobrancelhas em reprovação na palavra “ajuda”, escolhendo em vez disso dizer “incapacita”. Mas fodase. — Isso explica. Como na maior parte do tempo ele criou você? — Ele continuou, e onde normalmente parecia ficar invasivo quando um conhecido me perguntava isso, era tão agradável falar com alguém que não estava tomando notas, que nem me importei. — Como eu disse, minha mãe era um pouco hippie. Ela vagava. Nunca se aquietou e quando o fazia, costumava ser com um homem. Às vezes, esses homens não queriam uma garota pendurada ao redor, então eu era deixada em Navesink Bank e ela saia... por algum tempo. ~ 37 ~


No fim das contas, ela o colocaria na rua ou, mais frequentemente, ele a deixaria e ela se sentiria culpada e voltaria para mim. Nós não somos, hum, muito próximas. — Compreensível, — ele disse com um aceno de cabeça que dizia que ele não me julgou por afastá-la da minha vida. Inferno, eu ainda me julgava por isso. — Você é próximo de sua família? — perguntei, já sabendo a resposta, desde que tinha visto sua família visitá-lo muitas vezes, mas querendo continuar com essa conversa. Ele sorriu um pouco sobre isso, uma sobrancelha subindo. — Talvez próxima demais, às vezes, — ele disse de uma maneira que sugeriu que havia um significado mais profundo que ele não iria me deixar saber. — Tenho quatro irmãos, — ele continuou, sem parecer querer silêncio também. — Somos todos próximos porque, bem, a nossa mãe nunca nos permitiria não ser. Ela é um pouco durona. — Bem, ela teria que ser para criar cinco filhos, não é? — Parei, perguntando-me como seria ter irmãos, achando que talvez me sentiria menos sozinha no mundo enquanto crescia. — Deve ser bom ter muitas pessoas preocupadas com você, — eu disse, não queria dizer por que implicava que muitas pessoas não se importaram comigo. E enquanto isso era verdade, me fez parecer um pouco patética. — Oh, eles certamente se importam. Sobre o que visto, como ajo, o que dirijo, quem encontro, minha falta de vida social. — Bem, dificilmente posso julgá-lo sobre isso, — eu ri. — Você foi sempre... — ele começou a perguntar, mas o interrompi antes que ele pudesse dizer. — Não. Isso veio... gradualmente no início e depois tudo de uma vez. A maior parte da minha vida, eu era, você sabe... normal. Eu tinha amigos e saia, e tinha um emprego em que eu ia todos os dias. — Onde você trabalhou? — Lecionei no jardim de infância, — informei, sentindo uma pequena ponta familiar por mencionar isso. Foram os melhores momentos.

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— Você gosta de crianças, hein? — Ele perguntou, ainda me dando esse sorriso suave que achei realmente desconcertante. — Tenho três sobrinhas que são adoráveis bestas do inferno. Surpreendida, uma risada sufocada escapou de mim, fazendo um barulho baixo e sexy vir dele também. — Adoráveis bestas do inferno é uma maneira interessante de colocar. — Acho que você teria que encontrar Hunt e Fee para entender isso. Fee, é um pouco, ah, digamos forte e opinativa. Essa seria uma maneira dócil de colocar. Ela possui um negócio de sexo por telefone na cidade. — Compreendo, — sorri, achando que definitivamente seria uma mulher forte, opinativa e confiante para fazer esse trabalho. — Qualquer outro sobrinha ou sobrinho? Com todos aqueles irmãos, quero dizer... — Bem, alguns de nós estivemos muito ocupados com o trabalho e os outros estiveram muito ocupados perseguindo saias para se acalmar. Mas meu irmão mais novo, Shane, acabou de se arrumar com uma mulher chamada Lea e espero que eles comecem a fazê-los o quanto antes. — Grande família, — sorri, não encontrando nem um pedacinho de nostalgia por dentro. Adorava meu tio. Ele sempre foi minha rocha, minha âncora, meu lugar seguro para pousar. Sua porta estava sempre aberta para mim quando criança, não importava a que horas da noite minha mãe aparecia, não importava o quanto ele tivesse que reorganizar sua vida para cuidar de mim. Ele era, para um homem muito reservado e, portanto, não excessivamente carinhoso, a pessoa mais generosa e desinteressada que já conheci. E, enquanto a minha infância não envolveu abraços calorosos quando meu coração estava quebrado ou trança no cabelo, ou maratonas de comédias românticas, ele era alguém que sempre se lembrava das minhas comidas favoritas e as mantinha abastecidas, que sempre me disse que eu poderia fazer o que colocasse na minha cabeça e que nunca me julgou pelas minhas deficiências.

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Dessa forma, não houve jantares loucos de Ação de Graças ou grandes sessões de desembrulhar presentes na manhã de Natal. Não houve brincadeiras tão barulhentas para que você não pudesse se pegar pensando sobre isso. Sempre quis o tipo de feriados que vi nos filmes. Ryan tinha isso. Eu invejo isso. Mesmo que isso significasse que eles me julgassem sobre o que usava e como eu agia e com quem namorava e como passava meu tempo livre. — Seu tio vem passar o Natal com você? — Ele perguntou quando o silêncio se estendeu o suficiente para ficar desconfortável. O Natal era em pouco mais de uma semana. — Ele geralmente passa algumas horas aqui, sim. — Você cozinha? — Mhmm, — eu disse, encolhendo os ombros. — Você tipo entende a minha situação. Sua família faz grandes coisas? — Tarde de Natal, — ele concordou, balançando a cabeça. — Costumava ser de manhã até que Fee teve as meninas. Agora elas têm que ter sua manhã de Natal em casa, então mudou para mais tarde. — É louco? — perguntei, ouvindo a necessidade em minha própria voz. — Louco pra caralho, — ele disse, disposto a me dar o que claramente eu precisava. — Todo mundo tem que comprar presente pra todo mundo, assim ocupa toda a sala de estar. Desembrulhar demora horas e depois temos um enorme jantar que, até então, todos já beberam uma bebida ou cinco, e por isso estão excessivamente altos. Isso é... — Natal, — disse sorrindo um pouco triste. — Sim, — ele concordou, pegando a melancolia porque seu sorriso foi quase simpático. Observei então, quase em câmera lenta, quando sua mão começou a subir, vindo em minha direção. ~ 40 ~


Somente para descer quando houve uma batida forte na janela lateral do motorista que nos fez saltar. — Merda, — ele murmurou, parecendo irritado por ser interrompido quando se virou para encontrar nosso síndico, Andrew, parado ali. Ryan baixou a janela e soltou um impaciente, — O quê? — Tudo está limpo. Vocês dois podem voltar para seus apartamentos agora, — ele disse, essa pequena declaração quebrando meu pequeno e fantasioso mundo onde eu poderia sentar em um carro com um homem e compartilhar histórias e ser normal por um tempo. Mas não era normal. E eu provavelmente nunca mais teria a chance de ter essa pequena fantasia novamente. Como se sentisse o mesmo, a cabeça de Ryan virou-se para mim, a boca em uma linha severa, os olhos protegidos. — Obrigado, Andrew, — ele disse, sem parecer grato. Então ele subiu a janela e alcançou a chave, sabendo tanto quanto eu que o momento havia terminado e era hora de voltar para nossas vidas reais. Onde ele era um empresário super sexy com algum tipo de lado escuro e uma família selvagem e amorosa. E eu era uma aberração neurótica e caseira com um tio que me amava e um gato que me arranhava e, bem, nada mais acontecendo. Praticamente voei fora do carro nesse pensamento, entrando na traseira para pegar a gaiola de Rocky. O que eu estava pensando ao me divertir com uma conversa com ele, conhecendo alguém de quem queria saber mais, queria conhecer tudo, quando sabia que era algo que não poderia ter? Sempre me preparando para a decepção. A caminhada de volta pelas escadas e no corredor foi ensurdecedoramente silenciosa. — Obrigada, — ofereci, dando-lhe um pequeno sorriso na minha porta que ainda estava aberta porque nenhum de nós havia se incomodado em fechá-la.

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— A qualquer momento, querida, — ele disse enquanto se afastava. Eu conhecia trivialidade quando ouvia. Estava habilmente versada nelas. Ele não quis dizer a qualquer momento e eu não ia me deixar esperar nada mais do que isso. Só que uma vez na vida alguém me tirou de minha zona de conforto e eu não senti que estava morrendo. Então, entrei no meu apartamento, deixei Rocky sair e subi na minha banheira e continuei a ficar um pouco mais louca enquanto jogava, rebobinava, repetia, avançava rapidamente, rebobinava e jogava a noite mais e mais novamente na minha mente. Amy teria tido muito a dizer sobre isso também. Sabe, se eu lhe contasse. De alguma forma naquela noite, a primeira noite de progresso em anos, eu tinha também conseguido desistir em melhorar. Na manhã seguinte, foi a primeira manhã em anos em que não me levantei e me vesti indo até a minha porta tentando me convencer a sair. Porque eu tinha saído. E não fez nada melhor. Aliás, eu realmente me sentia muito pior.

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Cinco RYAN

— Cadê ela? — Minha mãe perguntou, puxando a cabeça para trás enquanto eu estava na entrada da porta. Sem Feliz Natal. — Cadê quem? — perguntei, lutando para segurar as quatro sacolas e duas caixas gigantes com as quais fazia malabarismos. — Cadê quem? — ela zombou, pegando uma das caixas que estava começando a cair e indo para dentro para que eu pudesse passar. — Ouvi tudo sobre essa mulher, sua vizinha. Jesus Cristo. As fofocas na minha família deixam a fábrica de boatos envergonhada. — Desculpe, você perdeu seus vinte dólares, Mãe, — falei, balançando minha cabeça quando ela entrou na sala vazia de pessoas, mas cheia de presentes, e colocando minhas coisas debaixo da árvore. Ou, em vez disso, no meio da sala, já que a pilha se espalhou por baixo da árvore até quase o centro da sala. — Cinquenta na verdade, — ela disse, me dando um sorriso malicioso enquanto me ajudava a organizar as coisas. — A essa altura você deveria saber que não se aposta nos seus filhos que já sossegaram. — Querido, Shane está em um relacionamento sério. Ainda há esperança para o resto de vocês. — Ela ficou de pé, pegando as sacolas de presente que eu trouxe e indo em direção à cozinha. Eu sabia por conhecê-la por toda a vida que deveria segui-la. E me deparar com um prato de biscoitos de Natal frescos não era uma maneira ruim de lidar ~ 43 ~


com o inesperado interrogatório que seguiria. — Então, o que aconteceu? — O que aconteceu com o quê? Ela é minha vizinha, Mãe. É isso. — Oh, por favor, — ela disse, acenando com uma luva de forno desproporcional que eu sabia que Fee ajudara Becca a fazer em seu último aniversário. — Ouvi que ela é linda. — Ela é, — concordei. Era um fato simples. Ela era talvez a mulher mais bonita que já tive o prazer de olhar. Mas isso não significava nada. — E ouvi dizer que você a jogou sobre seu ombro todo estilo bombeiro e salvou sua vida e de seu gato. Deus. — Sim, — concordei, pegando outro biscoito, desejando de repente que ela os misturasse com rum como fazia com os bolos de café que nós teríamos mais tarde. — E você ainda não conseguiu chegar junto? — ela perguntou, me dando o que eu só poderia chamar de sorriso desapontado. — Chegar junto? — repeti, levantando a testa. — Chegar junto. Selar o negócio. Foder... — Tudo bem, então, — eu a cortei com uma risada desconfortável. Não importava que eu fosse um homem adulto e ela era uma mulher adulta. Nunca seria confortável ouvir sua mãe falar sobre você “selar o negócio” com alguém. Nem na minha fodida família tão louca. — Ela é apenas minha vizinha, Mãe. Ela estava malditamente congelada de medo e eu a arrastei para fora e fiz alguns curativos na mão e... — Curativos na mão, hein? — ela perguntou, os lábios se contorcendo e eu a conhecia tão bem que sabia que haveria algo sobre “dar uma de médico” saindo de seus lábios a seguir. — E é isso, — acrescentei para encerrar o assunto. — Ela é agorafóbica, Mãe. Não é porque eu a salvei de se intoxicar por monóxido de carbono que de alguma forma ela se curaria. ~ 44 ~


Na verdade, não havia cura para isso. Sabia disso porque, como eu era um fodido estúpido, fui pesquisar na internet. Descobri muito. Entendi melhor, apesar de ter certeza de que não havia nenhuma maneira de saber verdadeiramente, a menos que você passasse por isso, como qualquer doença mental. Mas porque pesquisei, sabia que a recuperação era cheia de passos para frente e para trás, frustração e desapontamento. E como não a tinha visto fora do apartamento desde aquela noite no meu carro, achei que ela não estava fazendo nenhum tipo de progresso. — Além disso, — continuei, passando por ela para onde alguns decantadores estavam no balcão e me servi uma bebida, — ela é uma boa menina. — E? — ela perguntou, as sobrancelhas juntas. — E, a última vez que eu trouxe uma menina agradável para casa, você a assustou, dizendo-lhe que eu era a porra de um executor depois de... devo acrescentar, exigir que eu a trouxesse um encontro em primeiro lugar. Ela revirou os olhos nisso. — Isso não significa que não gosto de garotas agradáveis. Isso significava que alguém era chata e não conseguia lidar com a verdade. — Dusty costumava ser uma professora de jardim de infância. Não uma motoqueira como Lea ou uma operadora de sexo por telefone como Fee. — Professora de jardim de infância, hein? Ela deve querer filhos. Seu pai vai adorar ouvir isso. — Jesus Cristo, não comece a planejar nosso casamento, — resmunguei, balançando a cabeça. — Olha, ela é agorafóbica e, pelo que ouvi, envolvida com alguns caras desagradáveis. Isso é bastante interessante para mim.

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— Bem, para sua informação, isso aquece a porra do meu coração que você aprove uma mulher com quem não estou atualmente e com quem não irei namorar. — Quem não está namorando? — a voz de Lea perguntou de repente, me fazendo de idiota e olhando para a entrada, onde a encontrei de pé com jeans justo e um suéter branco, seu longo cabelo escuro afastado de seu rosto impressionante. Meu irmão tinha feito bem para si mesmo. Melhor do que ele merecia. Por sorte, o merda sabia disso e a tratava adequadamente. — A menina vizinha bastante tímida, — minha mãe informou, piscando para ela. — Oh ela. Perdi cinquenta dólares por causa disso. Obrigada por não chegar nela. — disse Lea, me dando um sorriso perverso. — Primeiro, ela não é tímida. Ela é agorafóbica. Em segundo lugar, parem de foder apostando na minha vida romântica e vocês não perderão dinheiro. — Fee ainda está dentro, — disse Shane, caminhando atrás de Lea e envolvendo seus braços ao redor de sua cintura, inclinando-se para baixo, de modo que seu queixo descansasse em sua cabeça. — Aparentemente, enquanto ela me falou durante uma hora, quando eu falei sobre a aposta, todos nós fomos idiotas por apostar tão cedo. Acho que por causa de seus antigos problemas, ela entende melhor esse negócio da menina Dusty do que nós. A esposa de meu irmão Hunter (o único de nós que não era executor), Fiona, teve uma infância verdadeiramente fodida que a deixou incapaz de ficar sozinha no apartamento dela à noite, quando Hunt a conheceu pela primeira vez. Como tal, ela saia e bebia se machucava. Ela lentamente se recuperou e fez Hunt tatuar sobre todas as suas velhas cicatrizes de automutilação, querendo apagá-las, seguir em frente. Eu definitivamente poderia ver como ela poderia entender Dusty melhor do que o resto de nós. — No entanto, ela ainda apostou nisso, — eu disse, irritado sem uma boa razão. Todos entraram na fodida aposta. — Talvez ela tenha pensado que dois enclausurados como você e ela iria funcionar bem pra caralho, — Shane riu. ~ 46 ~


— Jesus Cristo. Vou precisar de outro desses para lidar com vocês todos esta noite, — eu disse, voltando para os decantadores e me servindo outra dose. Precisaria de pelo menos cinco delas para lidar, para ser honesto. Minha família, enquanto se amavam, realmente, realmente gostavam de se torturar mutuamente quando havia algum tipo de sujeira sobre eles. Eu era o único com a sujeira nesse mês. Estava rezando pra caralho que Mark fosse flagrado em seu carro com uma garota ou Eli ficasse louco novamente, assim eles me deixariam em paz. Até lá, eu tinha que sorrir e aguentar. Essa tarefa ficou infinitamente melhor quando Fee e Hunt entraram com as três meninas em êxtase querendo saber o que Papai Noel trouxe para a casa da vovó e do vovô. Isso durou até depois do jantar, quando as crianças fugiram para brincar com seus brinquedos novos, deixando todos nós adultos um pouco bêbados ao redor da mesa tomando café. Então voltei a ser o alvo principal. — Sério, você salva a vida dela e ainda não chegou a lugar algum? — perguntou Mark, sorrindo. — Não estava salvando sua vida para entrar em suas calças, cara, — eu disse, pegando meu café e tomando um longo gole. — Não, mas poderia ter sido um bom movimento nessa direção, — ele acrescentou com uma risada. — Qual é o problema, Mark, você não está pegando rabos o suficiente, então tem que viver indiretamente através de mim? — O rabo que estou pegando não está em discussão agora. Estamos falando da sua falta de rabo. Francamente, estamos... — ele começou tentando dizer com um rosto sério e falhando epicamente, — Estamos preocupados com você, irmão. Eu ri sem achar um pingo de graça nisso. — Apenas aceitem perder seus cinquenta dólares e sigam em frente. ~ 47 ~


Com isso, o assunto pelo menos encerrou. Todos voltaram sua atenção para perguntar a Shane e a Lea sobre bebês, sobrinhas e sobrinhos, me salvando um pouco de sanidade até às dez daquela noite, quando todos finalmente saímos da sala e voltamos para casa. Enquanto eu caminhava pelo meu corredor em direção ao meu apartamento, meu foco era principalmente na porta de Dusty, pensando na maneira triste e invejosa como ela me olhou quando contei sobre o meu Natal com minha família. Era algo com o qual estava tão acostumado que nem pensei duas vezes. Todos os encontros familiares eram estridentes, selvagens, agitados, esmagadores. Eu realmente não conseguia imaginar uma noite tranquila com apenas outra pessoa. Assim que cheguei à minha porta, meu olhar finalmente se afastou de seu apartamento tranquilo e olhei para o meu. Bom, porque caso o contrário eu poderia ter pisado em um grande pacote retangular na minha porta. Eu o peguei, quase dando meia-volta em direção à porta de Dusty, certo de que era um dos pacotes dela, embrulhado em um papel bobo com Papai Noel, quando percebi a pequena etiqueta e vi meu próprio nome impresso lá em uma escrita delicada e feminina. Minhas sobrancelhas se juntaram enquanto eu olhava para o “De”, já sabendo, mas encontrando a mesma fonte delicada com o nome de Dusty. Meus olhos voltaram à sua porta por um momento antes de destrancar a minha e entrar. Acendi a luz e soltei minha sacola de presentes da minha família ao lado da porta, indo para a ilha da cozinha e colocando o presente de Dusty. Peguei novamente a etiqueta e a abri. Obrigada por não me deixar morrer. Além disso, Feliz Natal! Dusty. Nem percebi que estava sorrindo até que minhas bochechas começaram a doer. Puxei a etiqueta e a coloquei de lado antes de alcançar o canto do papel e puxar, achando que o rolo deve ter sido de estampa dupla face porque dentro, olhando para mim, havia mais Papai Noel, apenas ~ 48 ~


maior. E quando retirei o papel, encontrei papel de seda vermelho cuidadosamente colado no centro. Aparentemente, Dusty era do tipo perfeccionista. O que, de alguma forma, achei charmoso. Rasguei a fita e puxei o papel para revelar, entre todas as coisas, uma pintura em tela. Era abstrata, como a maioria da minha arte, e, como a maioria da minha arte, era também um esquema de cores neutras. Havia ondas de tons diferentes de bronzeado e marrom com a série ocasional muito brilhante, quase azul água. Mesmo que não fosse algo que eu tivesse escolhido, sem dúvida gostei disso. E não tinha nada a ver com o fato de que era um presente de alguém com quem eu, apesar de ser estúpido e fantasioso, em uma fase tão precoce, me importava muito Sem nem pensar, tirei o meu paletó, andei até o meu armário de vinhos acima da minha pia, peguei uma boa garrafa de tinto, um sacarolha e duas taças no caso de não haver nenhuma, e caminhei até o outro lado do corredor, batendo na porta da maneira mais silenciosa possível para não a assustar. Houve uma longa e longa pausa, seguida de alguma luta, miado de gato e passos que pararam logo na frente da porta. O olho mágico escureceu quando ela, imaginei, olhou para fora, então ouvi o deslizamento das fechaduras e a porta se abriu timidamente. E lá estava Dusty... em malditos pijamas com estampas de renas. As calças tinham uma pequena rena em todas as partes e a camiseta de manga comprida tinha uma rena gigante na frente e no centro o nariz vermelho. — Bonito pijama, — eu disse, sorrindo porque não podia evitar. — Eu, ah, obrigada. O que você está fazendo aqui? — Ela deixou escapar, quase no mesmo instante, as palavras tropeçando umas nas outras. — De nada, e obrigado, — eu disse, dando-lhe o que esperava ser um sorriso encorajador. — E preciso de um copo de vinho mas não quero beber sozinho, — ofereci, mentindo descaradamente, pois eu tinha bebido muito mais cedo e me sentia lúcido e sóbrio de novo, mas querendo qualquer desculpa para talvez entrar. ~ 49 ~


— Oh, — foi sua única resposta no começo, seus olhos indo à minha mão. — Você bebe vinho? — perguntei, pensando se deveria ter trazido os biscoitos que Anita deixou em vez disso. E se ela estivesse com medicação ou alguma merda assim? — Se for bom, — ela disse com o que eu poderia chamar de um sorriso descarado enquanto ela tentava um passo atrás. Não me deixou completamente na sala, mas foi um passo na direção certa. — Eles não me cobrariam setenta dólares por garrafa se fosse ruim, — acrescentei, segurando a garrafa. Ela acenou um pouco com isso e se moveu de novo, antes de me bloquear novamente. — Espere. Eu, eu preciso pegar Rocky. — Por quê? — Ele não gosta de homens. — Bem, eu não gosto de gatos, então estamos quites, — eu disse, entrando antes que ela encontrasse uma desculpa para me deixar fora. — Acho que isso é justo, — ela disse, deixando-me entrar antes de fechar a porta atrás de mim, trancando-a, encostando-se contra ela, me observando com ansiedade enquanto olhava em volta do apartamento dela. Era tudo branco e verde oliva, não meu estilo, mas era bem equilibrado e acolhedor. Acho que se tudo fosse escuro, seria mais como uma prisão para ela. — Lugar agradável, — disse, passando para o espaço da cozinha, que era uma réplica exata da minha e colocando os copos no balcão. Fiz um rápido trabalho com a rolha e coloquei a garrafa para respirar antes de olhar para ela novamente, encontrando-a alguns metros dentro da porta, mas ainda no meio do apartamento. — Gostei bastante da pintura, — falei com sinceridade. Ela então me sorriu, aliviada. — Vi aquela outra que você entregou e vi essa e pensei que era um estilo similar. — Aspen. ~ 50 ~


— Como? — A pintura que tenho. É assim que se chama. Ela assentiu com a cabeça. — Moody Blue, — ela disse, andou para ficar no outro lado da ilha. — É como chama essa que te dei. Acenei com a cabeça, olhando para a pequena árvore de Natal no canto do apartamento, coberta de enfeites dourados e brancos cuidadosamente escolhidos. — Como foi seu Natal? — Tranquilo. Calmo. O habitual. O seu? — Selvagem. Barulhento. O habitual, — ofereci, deixando de fora que ela foi o assunto do dia. — Então, tem algum biscoito para acompanhar isso? — perguntei e ela sorriu enquanto se movia para a cozinha, apertando-me sem hesitação para tirá-los de um recipiente de plástico que ela tinha no balcão. — Aveia, pedaços de chocolate, flocos de chocolate, manteiga de amendoim, coco e chruscikis. — O que diabos é um chrusciki? — perguntei e ela abaixou o recipiente e tirou de dentro uma pequena coisa parecendo gravata borboleta coberta de açúcar em pó. — Bolinhos poloneses. Fritados e horríveis para você, mas a melhor coisa da minha vida. — Você falou horrível para mim, — eu disse, decidindo não pegar um no recipiente, mas sim aquele de sua mão, meus dedos roçando os dela. Observei seu rosto, vendo a maneira como seus lábios se separaram infinitamente enquanto eu colocava o biscoito na minha boca. — Bom? — Ela perguntou quando comecei a assentir. — Porra, sim. Preciso dar à minha empregada essa receita. Ou à minha mãe. Quem quer que as faça para mim com mais frequência. — Sempre que os fizer, vou deixar alguns em sua porta, — ela sugeriu, as bochechas um pouco cor-de-rosa e foi então que percebi que não foi seu tio quem deixou o presente para mim como eu tinha pensado. Ela fez isso sozinha. Ela tinha voluntariamente saído de seu apartamento. Apenas para me dar um presente de Natal. ~ 51 ~


Isso pareceu um grande avanço, como um progresso para mim. — Sabe, pode esperar até que saiba que estou em casa para deixar lá. — Não quero... ah, interromper qualquer coisa. — Como minha noite ocupada no sofá respondendo e-mails de trabalho? — perguntei com um sorriso malicioso. — Não, queria dizer caso talvez você tivesse... companhia. Mulheres. Ela não queria interromper se eu tivesse companhia feminina. E juro que estava a poucos segundos de alegar que isso nunca aconteceria só para seu rosto bonito vir até a minha porta. Mas a questão era que, não importa seus pequenos passos, não conseguia vê-la sendo de repente uma pessoa plenamente funcional, pronta para um relacionamento em breve. Embora eu seja paciente e não seja governado pelo meu maldito desejo sexual, não via nada acontecendo conosco dessa forma. Mas poderia esperar pelo menos uma amizade. Então não consegui fazer promessas sobre nunca namorar. Porque enquanto meus irmãos estavam certos e eu estava com um período de seca, sabia que a qualquer momento acharia uma mulher nas minhas viagens e a levaria para a cama novamente. — A porta está sempre aberta, querida, — eu disse, em vez disso, sabendo que era o melhor que poderia dar a ela. — Tudo bem, — ela disse, me dando um sorriso falso e fazendo um gesto para a sala de estar. — Você quer sentar? Está passando Uma História de Natal. Você sabe... reprisando o resto da noite porque Uma História de Natal nunca é demais. — Claro, — eu disse, agarrando as taças e as garrafas e indo até a sala onde havia apenas um lugar para se sentar. E era um pequeno sofá. E ela iria ficar grudada em mim. ~ 52 ~


Oh, sim, atravessar o corredor foi a melhor ideia que tive em um longo e maldito tempo.

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Seis DUSTY

Então... ele estava no meu apartamento. Nenhuma razão para perder completamente minha calma. Só que ele estava em meu apartamento em seu terno cinza e gravata vermelha e relógio bacana e um cabelo perfeitamente despenteado e o rosto e olhos lindos e seu sorriso doce e sua garrafa de vinho. Isso parecia um motivo bastante legítimo para fantasiar, não é? Desde a noite do alarme, eu estava instável. Num dia, na fronteira da depressão, no outro, um pouco esperançosa. Era um padrão incomum para mim que minha terapeuta notou facilmente e ela me cutucou e me irritou até que finalmente obteve respostas para isso. E lhe contei tudo. O fato de que eu observava Ryan, um dia disse oi, ele salvou a mim e ao Rocky, cada pequeno detalhe que me manteve acordada à noite e que passou pela minha cabeça todo o dia também. Ela parou por um longo momento depois, observando-me através da chamada de vídeo com olhos escuros que eu não conseguia ler. Então ela me disse que era apropriado lhe dar um presente em agradecimento. Na época, pensei que ela estava apenas me lembrando das normas sociais básicas. Mas depois que o pacote chegou e eu estava sentada no chão embrulhando-o que percebi que havia segundas intenções. ~ 54 ~


Ela queria que eu fizesse a entrega. Ela sabia que eu nunca pediria ao meu tio para fazê-lo, porque ele iria perguntar e tirar conclusões precipitadas, colocar aquele olhar esperançoso em seus olhos e ficaria frustrado quando eu não melhoraria magicamente, me tornando uma garota sociável com um namorado fixo e uma vida novamente. Ela sabia que eu teria que fazer isso sozinha. Eu tinha que reconhecer, foi uma boa jogada. E, depois de ficar falando comigo mesma sobre isso por toda a manhã, depois de ouvi-lo saindo, foi bem-sucedido. Porque atravessei o corredor, coloquei o presente e voltei para o meu apartamento para lidar com o ataque de pânico em privado. Mas ele nunca veio. Bati minha porta, tranquei e encostei-me contra ela e... nada. Meu coração estava disparado, mas não entrando em pânico. E fiquei meditando sobre isso por horas até que meu tio apareceu, jantamos, abrimos presentes e então se despediu antes de ir visitar alguns de seus amigos solteirões. A última coisa que eu esperava nesta noite era uma batida na minha porta. Estava no meu quarto me preparando para dormir quando ouvi a batida, fazendo meu coração disparar na minha garganta enquanto eu congelava. Ninguém batia na minha porta. Exceto Bry, e Bry não deveriam aparecer até o dia anterior à véspera de Ano Novo. Minha mão foi até minha garganta enquanto eu colocava os pés descalços em meu piso e olhei pelo olho mágico para encontrar Ryan ali parado, parecendo um pouco cansado, mas feliz e estupidamente perfeito. Eu não tive ninguém, além de Bry, Carl e meu tio Danny, em no meu apartamento, bem, por um longo, longo tempo. Era estranho ficar parada, perguntando o que ele acharia do meu apartamento enquanto olhava ao redor. Mas ele estava perfeitamente cômodo, sentindo-se em casa, abrindo o vinho e eu tinha biscoitos. Essa comodidade me deixava mais à vontade. ~ 55 ~


Qual seria a única explicação possível sobre por que eu o convidei a assistir a um filme comigo no meu minúsculo sofá de Barbie. Era grande suficiente para mim, mesmo quando eu me esticava nele. Mas Ryan era um grande cara e, bem, ele tomou mais do que a metade. Isso significava que, quando ele se sentou, seu corpo ficou literalmente tocando o meu de ombro a joelho, eu tendo minhas pernas entrecruzadas e ainda assim ele estava colado completamente ao meu lado. O calor de seu corpo irradiava de suas roupas, um calor reconfortante do qual eu estava apreciando muito. Ele se inclinou para frente, servindo o vinho, depois se sentou e virou para me oferecer minha taça. Eu peguei, fazendo nossas mãos roçarem novamente e, bem, uma vez foi um acidente, várias vezes eram propositais. Ele estava me tocando intencionalmente. Isso, bem, sim, isso foi... bom? Foi bom. Isso realmente era tudo o que importava, não era? Ele se sentou e levantou a taça para mim. — O que estamos brindando? — perguntei. — Sua força hercúlea, talvez? Ele resmungou nisso. — Por favor. Você pesa tanto quanto seu gato. — Então, ah, pelas novas amizades? — perguntei com um pouco de esperança, rezando para que não estivesse tão desesperada, embora uma parte de mim estivesse definitivamente desesperada. Ele me observou um longo momento, seus olhos claros ilegíveis. — Não. Não, acho que também devemos brindar a isso. — Bem, eu estou fora, então. Você escolhe. Seus lábios se curvaram um pouco, não em um sorriso, mas algo insinuando. — Esse é pelo progresso, — ele propôs, as palavras um pouco pesadas e eu queria muito considerar algo mais nisso, mas me obriguei a aceitá-las no valor nominal, brindando meu copo no dele e tomando um gole. Nunca bebi vinho de setenta dólares antes, pessoalmente eu considerava uma garrafa de trinta dólares bastante boa, não sabia por ~ 56 ~


que havia coisas esnobes como vinho. Mas o seu vinho? Sim, era incrível. — Oh, meu Deus, — meio que gritei quando me sentei contra o sofá. — Vale a pena o preço que paguei? — Ele perguntou, observando-me. — Com isso, eu nem ficaria chateada se o seu motivo para entrar aqui fosse para me roubar. — A única coisa que estou roubando é mais desses bolinhos poloneses, — ele disse e notei que os tinha deixado na cozinha. — Oh, certo, — falei, tentando me levantar do sofá apenas para encontrar sua grande palma pressionando na minha coxa logo acima do meu joelho, firme e inflexível, mantendo-me no lugar. — Relaxe. Vou buscar, — ele disse, levantando e caminhando em meu apartamento para fazer exatamente isso. Ele colocou-os sobre a mesa e esticou-se para tirar o paletó, deixando-o com uma camisa cinza escuro, bem ajustada, com botões foscos. — O que você faz? — encontrei-me perguntando. Uma de suas sobrancelhas ergueu ligeiramente. — Tenho alguns negócios, — ele informou, mas, se não me enganei, havia um pouco de reserva em seu tom. — Huh, talvez eu contrate você, — provoquei com um sorriso, fazendo um gesto para onde eu tinha algumas caixas empilhadas em meu aparador. — Não é provável, — ele respondeu, sentando-se de volta e, sem brincadeira, colocando sua mão de volta na minha coxa de novo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se ficássemos dessa forma o tempo todo. — Tenho uma joalheria, um prédio comercial, uma empreiteira, parte de um bar e, recentemente, o abrigo feminino. — Você é dono do abrigo das mulheres? imediatamente, sendo o mais interessante do grupo.

— perguntei

— Recentemente, — ele disse com um encolher de ombros. — Eles estavam com problemas financeiros nos estágios iniciais e porque as mulheres dos meus irmãos e minha mãe estão envolvidas de várias ~ 57 ~


maneiras, decidimos que precisávamos intervir. Acabou que eu estava em uma posição melhor para assumir que os meus irmãos. Ele me parecia ser bom com o dinheiro. Morávamos em um belo edifício de apartamentos e, embora eu soubesse que ele havia feito reformas no seu apartamento quando se mudou, não era um dos mais caros da área. Ele usava bons ternos e relógios, mas não estava constantemente fazendo compras ou trazendo sacolas com coisas. Ele parecia casado com o trabalho. Homens como esse geralmente tinham dinheiro para gastar em garrafas de vinho de setenta dólares. Mesmo antes da agorafobia, com o salário de uma professora, tudo isso era um sonho. Além disso, materialista.

fui

criada

sempre

poupando.

Eu

não

era

— Isso é muito... filantrópico de sua parte. — Eles fazem coisas boas lá, — ele disse, encolhendo os ombros. Eles faziam mais do que coisas boas. Eles mudavam vida. Sendo o proprietário, tendo sua família envolvida, ele devia saber disso. Quando li no jornal que eles o estavam construindo, o meu primeiro pensamento foi já estava na hora. Crescendo, mudando-nos do jeito que sempre fizemos, tinha visto mais do que a minha cota de mulheres maltratadas. E Navesink Bank teve que lidar com as atrocidades de homens como Lex Keith e seus antecedentes horríveis com as mulheres. Navesink Bank precisava de abrigo para mulheres. E Ryan, meu vizinho doce e sexy como o inferno, tornou possível esse negócio. Isso dizia algo sobre ele. — O quê? — ele perguntou, a cabeça dobrada um pouco para o lado e notei que eu estava encarando ele. Pega, segui em frente e lhe dei a verdade. — Você é uma pessoa fenomenal, Ryan Mallick, — disse, dando-lhe um pequeno sorriso. ~ 58 ~


— Não me coloque em um pedestal, querida. Vou quebrar a maldita coisa em um maldito minuto. Novamente, havia aquela vigilância em seu tom e no rosto quando ele falava, fazendo-me imaginar o que tinha sobre ele que o fazia sentir assim. Cheguei à conclusão em seu carro de que ele era mais do que parecia, mais do que um mero empresário, se as cicatrizes contassem algo, mas o quê? O que ele era? O que ele faz? Essas não eram exatamente coisas que eu poderia perguntar a ele também. Como para moderar o comentário, sua mão apertou minha coxa novamente, lembrando-me de que ela ainda estava lá, levando meu olhar para baixo. Curioso como isso não estava em primeiro plano de todos os meus pensamentos, sendo o toque humano um conceito tão estranho para mim por tanto tempo. — Quer que eu tire? — ele perguntou, interpretando minha inspeção como um desconforto. — Não, — respondi muito rápido, julgando pelo jeito que seu sorriso ficou confuso. — Bom, — ele disse, deslocando sua atenção para a TV. Então, nós assistimos a um filme e bebemos vinho e ele comeu todos os últimos meus chruscikis. E era quase como se fosse a noite mais normal, como se fizéssemos isso o tempo todo, como se eu não fosse uma louca enclausurada, de quem todos os outros, exceto o tio, tinham desistido porque ela era muito “difícil”. Era como se fôssemos velhos amigos. E com o bom vinho girando na minha cabeça, fazendo com que meus pensamentos acelerados se encaminhassem em uma direção melhor do que costumavam fazer, comecei a pensar que talvez pudesse ser uma coisa normal. Talvez pudéssemos ser amigos reais. Talvez pudéssemos ser mais... — Dusty... — a voz de Ryan me chamou, um ruído baixo e suave. Minha cabeça girou em sua direção um segundo depois que percebi que eu estava vendo os créditos em movimento na TV. Sua ~ 59 ~


taça de vinho tinha desaparecido e eu não tinha certeza quando ele descartou. Mas sua mão alcançou a minha vazia e colocou-a na minha mesa de café ao lado dele. — Sim? — perguntei quando seus olhos voltaram para os meus novamente, parecendo um pouco mais pesados do que estavam há um momento, embora, por algum motivo, atribuí indevidamente ao vinho e ao longo dia com sua família. Porque, no meu pequeno mundo, a atração nunca foi um fator. — Diga não, — ele disse estranhamente, retirando a almofada para que ele estivesse na minha frente, o que forçou a minha perna a subir um pouco sobre ele. — Diga não para o quê? — perguntei, minha voz um som sufocado. — Para mim. Eu era um mestre do não. Precisava dizer isso tantas vezes com a ansiedade, lenta, mas certamente reivindicava minha vida que parou, mesmo sendo difícil de fazer. Mas não para ele? Eu não tinha certeza se poder dizer isso. Embora não tivesse ideia para o que ele queria que eu dissesse não. Tive a sensação de que estava prestes a descobrir. — Eu, eu não posso, — admiti, dizendo isso principalmente ao seu peito porque seu olhar estava sendo muito intenso para aguentar por tanto tempo. — Ainda bem, — ele disse, baixo, mal audível. A próxima coisa que eu notei foram seus dedos roçando meu maxilar e enganchando o queixo, gentilmente, forçando-o para cima. E foi então que finalmente entendi sua intenção. ~ 60 ~


Poderia ter sido um inferno de um longo tempo, mas fui beijada o suficiente na minha vida para saber o que parecia quando eu via isso. Ele iria me beijar. Além disso, quem no inferno alguma vez diria não a isso? Mesmo eu, Dusty Rose Sunshine maldita McRae, fodida da cabeça, não poderia fazer tal coisa. Seus olhos olharam os meus por um longo segundo procurando, acho, alguma mudança de ideia. E deveria ter mudado. Eu mal conhecia o homem. Nunca deixava ninguém me tocar assim. Mas, de alguma forma, nada disso importava para mim. Eu queria mais era ser normal de novo, poder respirar em público novamente, não começar a suar com a ideia de fazer um telefonema. Meus olhos mergulharam em seus lábios, imaginando por um segundo, se ele beijava duro e cruel, como suas mãos mostravam, ou se seria doce e apaixonado, como suas palavras pareciam. Não tive que me perguntar por muito tempo. Seus dedos deslizaram, movendo-se para moldar um lado do meu rosto enquanto ele se movia para frente, olhos olhando os meus até que eu não conseguia mais olhá-lo e fechei os meus. Minha barriga estava dando cambalhota disparava e eu não conseguia respirar.

e meu coração

Mas não importava. Porque em um segundo, seus lábios pressionaram os meus. Timidamente, mas seguros ao mesmo tempo. Como se estivesse avaliando minha reação, mas não houve nenhuma hesitação. E eu... derreti. Sua cabeça inclinou e seus lábios pressionaram mais sobre os meus e meus braços se moveram para fora e para cima, fechando a parte de trás do pescoço e puxando-o para mim. Sua mão livre deixou minha coxa e se moveu pela parte inferior das minhas costas, colocando uma pressão firme ali, o bastante para me puxar até ele e ~ 61 ~


eu fazer o absolutamente impensável. Subi em seu colo e ele me segurou fortemente enquanto a língua traçava a costura de meus lábios até que eles se abriram e ele se moveu para dentro, dedicandose em mim até eu soltar um gemido baixo contra seus lábios. Minhas pernas apertaram seus lados, tentando puxá-lo para perto, embora não fosse possível implorar por coisas que eu não me deixava querer mais do que até mesmo queria admitir. Meus peitos incharam, meus mamilos apertaram contra o tecido macio da minha camisa, minha calcinha começou a ficar úmida com o desejo. Seu corpo se torceu quando a mão dele deslizou do meu maxilar e subiu em meu cabelo, deslizando e curvando-se, mas não puxando, enquanto ele se sentava contra o sofá, me levando completamente para o colo. A mão que não estava no meu cabelo se moveu para a lateral do meu quadril e afundou, impossível ignorar a pressão firme. Meus quadris se afundaram e senti sua dureza pressionar contra minha fenda, fazendo-me soltar um suspiro surpreso enquanto eu me afastava, meus olhos se abrindo. Ele abriu mais devagar, pesado, enquanto sua mão se afrouxava no meu cabelo. — Você está bem? — ele perguntou, quase em um estrondo. Não respondi. Porque eu estava. Estava melhor do que estive em um tempo incrivelmente longo. Então, em vez de responder, meus lábios caíram de volta nos dele, sentindo que eles se curvavam para um sorriso antes de começarem a me beijar novamente, cada vez mais ansiosa, tão carente quanto sentia. Sem que eu estivesse consciente de dizer ao meu corpo para fazer isso, meus quadris se ondularam contra ele, fazendo com que sua dureza pressionasse contra onde eu mais precisava, fazendo-me soltar um gemido enquanto fazia um grunhido em resposta, seus dedos apertando o suficiente para deixar hematoma. ~ 62 ~


E foi exatamente aí que senti uma vibração inconfundível contra minha coxa interna, onde seu bolso estava situado. — Porra, — ele murmurou contra meus lábios. Eu tinha que concordar. Porra. Parou, mas como meus quadris fizeram outro delicioso deslize, começou de novo, fazendo-o fazer um som irritado quando recuei. Meus olhos se abriram devagar, sentindo-se pesados, encontrando suas pálpebras igualmente pesadas. — Pode ser importante, — ouvi-me dizer, minha voz baixa com desejo, um pouco ofegante. Então, como para provar que eu tinha razão, houve uma breve pausa antes de começar de novo. — Merda, — ele soltou enquanto deslizei se seu colo e para o lado, pressionando minhas coxas juntas para tentar conter o desejo. Ele pegou o celular no bolso, bateu o dedo contra a tela e levou-o até a orelha enquanto ladrava: — O quê? Ele ouviu por um longo desesperadamente tentava me recompor.

momento

enquanto

eu

Não era que eu não tivesse um desejo sexual normalmente. Eu tinha. Na verdade, antigamente, pode ter sido considerado alto. Mas quando você está fechada em seu apartamento sozinha por tanto tempo, isso lentamente se apaga. Porque, francamente, seus próprios dedos e vibradores, bem, simplesmente não ajudam. Não era a mesma coisa. Estava faltando. E, eventualmente, perdi o interesse nisso. Então, era como se ele estivesse de volta à vida depois de tanto tempo, quase completamente esmagador, o coração acelerado, a pele formigando, o peso nos meus seios e a parte inferior do estômago, a necessidade dolorida entre minhas pernas. — Querida, — a voz de Ryan chamou, fazendo minha cabeça virar para encontrá-lo me observando, o telefone já estava fora de vista. — Sim? ~ 63 ~


— Isso era trabalho, — ele explicou, já soando desculpa. Eu sabia o que aquilo significava. — Você tem que ir. — Infelizmente, — ele concordou, balançando a cabeça. Sua mão estendeu para tocar meu joelho, seu polegar esfregando-o com tranquilidade. Sem ter certeza do que deveria dizer, tentei ser casual e encolhi os ombros. — Tudo bem. — Ei, — ele disse, inclinando a cabeça um pouco para pegar meus olhos que abaixaram, querendo não mostrar o quanto eu estava desapontada. — O que você fará na véspera de Ano Novo? — perguntou estranhamente, fazendo minha cabeça se encaixar, minhas sobrancelhas se juntando. — Véspera de Ano Novo? — repeti. A véspera de Ano Novo estava a cinco dias de distância. Cinco. O trabalho iria levá-lo por cinco dias? — Sim, com o champanhe e a grande bola caindo do céu e aquela música que é acho que é para animar as pessoas, mas sempre parece triste... Sorri um pouco para isso. — Hum, não tenho exatamente uma vida social selvagem aqui, Ryan, — falei, dando um aceno. — Estarei assistindo à TV com Rocky, — adicionei, olhando ao redor e percebendo que ele não havia entrado para arranhar as pernas de Ryan. Isso era completamente diferente dele. Eu tinha até que trancálo no quarto quando meu tio me visitava. — E você acha que poderia ir ao meu apartamento? — Ele ofereceu. Sua casa. Considerando que estava a um metro e meio de distância da minha porta, quase parecia risível que ele estivesse me perguntando com tanta antecedência. ~ 64 ~


— Imaginei que eu deveria sugerir logo para que você pudesse trabalhar consigo mesma, — ele acrescentou, fazendo meus lábios abrirem um pouco, surpresa que ele conseguiu. Eu teria que me empenhar. E mesmo assim, não havia garantias. — Eu posso trabalhar nisso, — disse, balançando a cabeça. — Não posso fazer nenhuma festa... — Não estava pedindo promessas, — ele me cortou. — Apenas me diga que você vai tentar e ficarei feliz. E não, — ele continuou quando começou a ficar de pé, — ficarei desapontado se você não pode fazer isso. — Sem expectativas? — perguntei, parando, encontrando-me impressionada e confusa. Confusa porque todos sempre tiveram expectativas. Impressionada que ele pensou em me dizer que não se importaria se não pudesse me forçar a fazê-lo. — Não, — ele disse com uma batida de cabeça quando ele encolheu os ombros para vestir seu paletó. Então, seu sorriso foi um pouco diabólico quando ele acrescentou: — Se você não for para minha casa, estou me convidando para vir à sua. Então, de qualquer forma, eu ganho. — Eu sorri com isso, mais feliz do que tinha sido em mais tempo do que gostaria de admitir. — Obrigado pelo presente e pelos biscoitos e pela companhia, — ele disse enquanto andava em direção à porta. Os bons costumes me fizeram seguir atrás, alcançando o lado da porta quando ele saiu. — Feliz Natal, Dusty, — ele disse, inclinando-se e plantando um beijo casto e absolutamente leve em minha testa antes de caminhar pelo corredor. — Feliz Natal, Ryan, — respondi para ele, fazendo-o me atirar um sorriso sobre o ombro antes de ele desaparecer no elevador. Fechei e tranquei a porta com uma respiração lenta e profunda. Então, só por garantia, abaixei e belisquei meu braço. Você sabe, apenas para ter certeza de que eu não tinha morrido no incidente do incêndio depois de tudo e não estava experimentando uma longa alucinação prolongada antes de bater as botas. A dor puxou meu braço e minha cabeça bateu contra a porta quando sorri para meu apartamento vazio. ~ 65 ~


Certamente foi um Natal para ficar na memória. E estava caminhando para ser uma véspera de Ano Novo também. Se eu conseguisse ou não entrar no corredor. No fim das contas, eu faria. Mas não porque eu tivesse me esforçado, embora eu certamente iria tentar. Não, as circunstâncias pelas quais eu me encontrei em sua porta eram muito menos inspiradoras, muito menos inovadoras do que isso. Era muito mais feio. E, para ser sincera, já fazia muito tempo. Eu sempre soube que havia um risco. Eu sempre soube que algum dia isso me alcançaria. Foi assim que aconteceu no dia anterior à noite em que eu queria ser muito diferente.

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Sete RYAN

Então, não era segredo. Eu sempre tive uma coisa com garotas legais. Culpe meu estilo de vida áspero, a violência, a dor, a incerteza, a dureza que sempre me cercava, a escória, o sangue, a merda desagradável. Eu respeitava mulheres difíceis como minha mãe, como Lea, até Fee e seu jeito. Mas elas nunca foram o tipo de mulheres por quem eu me interessava. Inferno, isso durou todo o período do ensino médio, onde passei um maldito ano tentando controlar essa timidez, usando óculos, livro de nerds para me dar alguma oportunidade. Ela nunca notou. Também não a culpei. Meus irmãos e eu, bem, não tínhamos a melhor reputação. Nós sempre entrávamos em brigas, sempre começando a merda, sempre brincando. E, quando ficamos velhos para essas coisas, fodíamos por aí. Não exatamente quebramos corações, pelo menos não de propósito, mas andamos por aí. Mas a partir de então, sempre foi uma tendência. Eu gostava de suave e doce. Era por isso que eu estava na porra da loja de festa no dia anterior à véspera de Ano Novo. Sim, a loja de suprimentos para festas da minha mãe. Estava de pé lá debatendo sobre as decorações que devia levar para o meu apartamento. Eu, que nunca montava uma maldita árvore de Natal, estava escolhendo decorações de Véspera de Ano Novo. ~ 67 ~


— Ok, o meu carro tem algum tipo de vazamento de gás ou algo assim? — A voz de Fee chamou do lado, me fazendo endurecer. Claro. Com certeza eu encontraria um membro da família enquanto fazia algo completamente incomum e que, portanto, seria a pauta da próxima reunião. Virei-me para encontrar Fee, vestida com calças justas de brim rosa, salto 12 centímetros e uma espécie de blusa dourada brilhante que ligeiramente revelava uma porção de sua barriga. Fee era, entre muitas outras coisas, interessante no modo de vestir. Mesmo depois de três filhos, ela parecia estar pronta para andar na passarela a qualquer momento. — Porque não há como isso não ser algum tipo de alucinação provocada por fumaça de algum tipo. — Ei, Fee, — falei, inclinando-me e beijando sua têmpora, percebendo a enorme pilha de confetes que ela tinha na cesta de mão. — Você estará limpando confetes por semanas, — avisei, balançando a cabeça. — Por favor, — ela disse, revirando os olhos. — Becca de alguma forma aprendeu o que era uma bomba de glitter há dois meses. Ainda estou encontrando essa merda em todos os lugares. Isso não é nada que uma vassoura não consiga limpar. Agora, mudar de assunto não vai funcionar. O que diabos você está fazendo? Em uma loja de festa? Finalmente vai decorar o Chaz's para o feriado? Eu sugeri isso há anos. Discurso inflamado e delirante. Meu pai era da velha escola. Ele não gostava da merda de decoração. Nem mesmo um fio de luzes para o Natal. — Não, — respondi, estendendo a mão e agarrando alguns dos lança-confetes de festa, sem perder o que mais eu deveria ter. Anita ficaria puta da vida comigo, mas considerando que eu mantinha o lugar limpo e ela geralmente só tinha que usar um aspirador ou um esfregão uma vez por semana, achei que poderia safar disso para um feriado. Ela me observou por um segundo com pequenos olhos antes de um sorriso pequeno e provocante puxar seus lábios. — Você a convidou, não é? Ok, desembucha. O que aconteceu? — Pare, Fee, — pedi, balançando minha cabeça enquanto ela passava pelas taças plásticas de champanhe. Eu tinha algumas de cristal em casa que literalmente nunca usei. O que me lembrou que eu ~ 68 ~


precisava enfrentar a maldita loja de bebidas do meu irmão que certamente estaria lotada. Era melhor ele ter aceitado o meu conselho e ter mudado o champanhe para frente da loja, assim não teria que me acotovelar com ninguém nos fundos onde geralmente ficava armazenado, visto que todo o mundo compra champanhe nesta época do ano. — Não. Vamos, — ela disse em um tom mais razoável, agarrando meu braço para impedir que me afastasse dela. — Só uma vez vamos manter isso entre nós dois. Nem vou dizer a Hunt que vi você aqui, — ela sugeriu, parecendo verdadeira. — Sei que ela tem problemas e talvez você precise de alguém para falar sobre isso. — Ela me deixou um presente de Natal do lado de fora da minha porta, — me surpreendi admitindo. — E você, claro, não conseguiu evitar ir lá e agradecer, — ela disse com um sorriso de conhecimento. — Algo assim, — concordei. — Ela enlouqueceu? — Não. Na verdade, ela ficou bem. No geral, quase calma. — Seu apartamento é sua zona de conforto e você é uma pessoa segura para ela. Ela não precisa se preocupar com você ficando chateado com ela ou com qualquer coisa. As coisas ficaram... físicas? — Vamos parar com a coisa da aposta, Fee, — avisei. — Não estava pensando em aposta. Cristo, relaxe um pouco, — ela disse, balançando a cabeça. — Só fiz uma pergunta. — Eu a beijei, — admiti, deixando de lado o fato de que esse foi o melhor beijo que já tive. Talvez fosse tão simples como a sua reação aberta, doce e inesperadamente sobrecarregada. Talvez fosse mais do que isso. Quem sabe. Tudo o que eu sabia era que fiquei puto quando recebi uma ligação sobre um dos caras que visitei naquela manhã exibindo-se no ringue subterrâneo de Ross Ward e apostando dinheiro com o dinheiro que ele nos devia. Nunca fiquei tão emputecido por ser chamado com um problema de trabalho, nem mesmo em um feriado. Mas só que desta vez, eu fiquei. ~ 69 ~


E, embora geralmente não fosse o irmão que mais derramava sangue, acabei de curar os cortes nos meus dedos da raiva com que fui para aquele bastardo. Primeiro, por ferrar com minha família. Segundo, por interromper algo bom que estava se desenrolando comigo e Dusty. — Então você a convidou para a véspera de Ano Novo? — Fee perguntou, os olhos ficando um pouco moles. — Então você precisa de decorações para fazer uma festa. Não uso essa frase muitas vezes, Ryan, mas isso é muito fofo. — Eu acho que você temperou o “fofo” com o “fodido” que o precede. Ninguém está tirando seu o título de durona. Ela ignorou isso. — E se ela não puder ir? — Então vou para a casa dela. — Plano sólido, — ela concordou com um aceno de cabeça, alcançando seu celular que tocava. — Oh, não se esqueça de comida. Não uma refeição para se fazer sentado. Coisas para petiscar. Então, isso não interfere em ah, outras atividades. — Oh, — ela acrescentou, assim que começou a se afastar, virando de volta — e de preservativos. Se ela tem sido agorafóbica por tanto tempo, duvido que esteja em dia com seu controle de natalidade. Na verdade, tenho um pacote completo... — ela se afastou, se movendo para mexer em sua bolsa. Fee mantinha literalmente um aquário cheio de preservativos nos balcões do banheiro de seu trabalho. — Fee, eu tenho preservativos, — disse com um sorriso malicioso quando ela parou de mexer. — Você tem certeza? — Sim, querida, tenho certeza. — Ok. Apenas checando. Se você precisar de uma lembrança de por que você precisa de preservativos, fico feliz em deixar as diabinhas com você por uma tarde, — ela acrescentou, acenando por cima do ombro para mim enquanto caminhava em direção ao caixa. — Tenha um feliz ano novo, Ry, — acrescentou, enquanto eu contemplava a fila de pratos e guardanapos de papel preto, dourado e prateado.

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Imaginado que Anita me odiaria menos se eu não deixasse uma pia cheia de pratos em cima do confete, agarrei um pacote e fui até o caixa. De lá, fui à loja de bebidas e, em seguida, à loja de alimentos e voltei para casa. Mal estava a meio caminho do elevador quando soube que algo estava errado. Primeiro, o ruído. Havia batidas, xingamentos e gritos, e os sons que a minha experiência me dizia ser o som inconfundível do punho batendo numa carne. Meu estômago retorceu dolorosamente quando meus olhos foram para minha porta. Segundo, havia o fato de que a porta dela estava aberta. Tudo caiu de minhas mãos em um piscar de olhos enquanto corri pelo resto do corredor até sua entrada. Fiquei congelado pelo menor número de segundos, a mensagem não pareceu transferir dos olhos para o cérebro e para o corpo rapidamente, enquanto eu via dois homens, não Bry e seu parceiro, mas dois outros homens, grandes, feios e malvados, em seu apartamento. Um estava revirando em torno da área de estar já destruída, abrindo gavetas, arrancando almofadas abertas. O outro, sim, ele estava em cima Dusty. Significando que ele estava empurrando sua cintura e aqueles sons de punho batendo veio dele. Ouvi um som rugindo e não sabia que ele realmente veio de mim até que os olhos se moviam em minha direção, escuros, quase negros, de seus atacantes e um olho verde não inchado e fechado dela. E enlouqueci, voando no cara que fez isso. Ele nem se moveu antes de eu pegá-lo pelo pescoço, jogando-o com tanta força chegou a abrir o gesso na parede atrás dele.

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Então isso era o que era. Foram punhos e sangue, uivos e xingamentos, e ossos quebrando sob meus punhos e adrenalina subindo pelo meu corpo e meu sangue correndo tão rápido que zumbia nos meus ouvidos. Não sei quanto tempo continuei. Pareceram apenas segundos, mas, a julgar pelo olhar de carne crua no rosto do homem, tinha que ter demorado muito tempo. Mas então braços me agarraram, me puxando para trás, fazendo minhas costas ficarem contra o balcão da cozinha de Dusty tão forte que fiquei sem fôlego. O cara que me agarrou, arrastou o amigo e eles foram embora. Respirei lento e profundamente, tentando me acalmar de novo. Talvez pela primeira vez em minha vida, entrei em uma luta sem o sangue frio, desapegado e calmo. Para mim, era como qualquer outro aspecto do meu trabalho. Eu fazia isso de forma racional. Finalmente entendi o que acontecia com Eli quando ele perdia a cabeça, quando ele ficava quente, quando ele era uma força de raiva incontrolável. Quando meus os ouvidos já não sibilavam, ouvi os gemidos baixos, tristes e doloridos que vinham do meu lado e olhei para ver que Dusty tinha se enrolado e em uma posição fetal, balançando levemente. Uma de suas mãos segurava seu rosto, o outro seu estômago. Porra. Filhos da puta. Corri para ela, ajoelhando-me ao seu lado e estendendo a mão para tocar sua mão. Ela soltou um grito e afastou-se, fazendo meu estômago embrulhar de uma forma nauseante. — Querida, sou eu, — eu disse, deixando a minha voz suave, apesar de sentir que minha mandíbula ia quebrar com a força que estava apertada. — Está tudo bem. Eles se foram. Você está bem. Ela soltou outro gemido quando deixou cair a mão, me dando uma visão completa do olho preto e inchado. A visão trouxe outra onda de raiva com a qual precisei que lutar. Ela não precisava de mim com raiva. Ela precisava de mim calmo e controlado. ~ 72 ~


— Tudo dói, — ela admitiu, seu bom olho perdeu a batalha com lágrimas e elas começaram a escorrer pelo rosto. — Eu sei. Eu sei, querida, — disse, estendendo a mão para ela, feliz quando ela não esquivou enquanto a puxava para cima no meu colo. Quando ela não gritou pelo jeito que a girei ligeiramente, deduzi que suas costelas estavam bem, a dor interna, ao que tudo indicava, era apenas muscular, não no osso. — Quem eram eles? — perguntei, afastando um pouco do cabelo loiro dela de seu rosto. — O que eles queriam? Foi como se eu atirasse uma arma no apartamento dela. As lágrimas pararam, seus olhos ficaram enormes, e então ela voou para cima, soltando um grande gemido de dor ao fazê-lo, mas levantando-se e atravessando a sala até o armário da TV, mexendo no interior. — Dusty, acalme-se, — apelei, movendo-me ao lado dela, observando as sobrancelhas entreabertas quando encontrou uma caixa, puxou-a e abriu. — Não. Não, não, não, não, não, — ela gritou, balançando de um lado para o outro, voltando ao armário e sentindo. — Deus, não. — Tudo bem, — falei, estendendo a mão e tomando as suas mãos, puxando-as na frente dela e segurando-as no lugar. — Solte-me. — Não até que você me diga o que está procurando. — Quinhentos 30s, — ela disse em um silvo desesperada. 30s significava trinta miligramas de Percocet. Uma única pílula naquela dose transformaria em vinte na rua. Quinhentos dessas significavam que ela acabava de perder dez mil dólares em drogas. Dez mil. Jesus Cristo.

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— Você entende o que estou dizendo, certo? — ela perguntou, engolindo com força, o tom desesperado. — Sei exatamente o que você está dizendo, — concordei, balançando a cabeça. — Bry pode ser meu amigo, mas ele não pode simplesmente... me deixar perder dez mil dólares dele. Essa era uma maldita verdade. Quando se tratava de traficantes de drogas, amigo antigo ou não, o negócio era uma merda de negócios. E ela acabou de perder uma enorme quantidade de drogas no dia anterior à véspera de Ano Novo quando todos estariam lutando para sentir chapado a noite toda. — Quem eram esses caras, Dusty? — perguntei, querendo cuidar dela, mas sabendo que não haveria nada que pudesse aliviar a mente até que soubesse alguma merda. — Não tenho ideia. Nunca os vi antes. Achei que Bry estava vindo mais cedo, então abri a porta e ela estourou e... — ela parou, encolhendo os ombros. — Tudo bem, querida, escute, — eu disse, puxando minha cabeça um pouco para pegar seu olhar perturbado. — Sei que este é um enorme fodido negócio e precisa ser tratado, mas agora, preciso que você me deixe limpá-la e olhar para você. Imagino que um hospital está fora de questão, — adicionei, embora preferisse uma tomografia computadorizada para garantir que ela não tivesse uma concussão e um raio-x para suas costelas, mas não iria pressionar. Ela sofreu um trauma suficiente por uma noite. — Talvez você deva se cuidar primeiro, — ela disse, aproximando-se timidamente e colocando os dedos no lado da minha mão. Olhando para baixo, vi meus nódulos abertos. Mas, talvez porque meu corpo estava acostumado a um trauma, o sangramento já havia parado e teria criado uma crosta antes do final da noite. — Isso não é nada, — eu disse, balançando a cabeça, movendo-me para me levantar lentamente, puxando-a suavemente comigo — Você consegue respirar fundo? ~ 74 ~


— Você quer saber se estou fisicamente capaz, — ela refletiu com um pequeno sorriso autodepreciativo, deslocando de uma mão na barriga e expandindo-a com ar. — Sim. — Tudo bem. Como o seu armário está abastecido? — perguntei, olhando pelo corredor até a porta aberta para o banheiro. — Band-Aids e antibióticos triplos? — ela meio perguntou, meio afirmou, sem ter certeza. — Tudo bem, pegarei algumas coisas do meu apartamento. Você está bem em ficar aqui? — Eu posso ir? — ela me chocou perguntando, fazendo-me virar completamente para olhar para ela com as minhas sobrancelhas erguidas. — Para o meu apartamento? — esclareci, observando-a. — Eu meio que simplesmente não... quero ficar aqui agora, — admitiu, olhando ao redor como se não o reconhecesse mais. Dado o desastre absoluto em que estava, imaginei que isso só iria induzir mais ansiedade nela ficando aqui do que sair. — Se estiver tudo bem, — ela acrescentou, olhando para os pés. — Querida, você pode ficar comigo o tempo que precisar, — ofereci, abrindo a mão, apenas um pouco surpreso quando ela não só me pegou, mas apertou. — Vamos, — acrescentei quando ela hesitou, olhando ao redor. — Vou encontrar o Rocky assim que nós estivermos remedados, — eu disse, sabendo que era isso que a estava segurando. — Obrigada, — ela agradeceu, silenciosa enquanto a conduzia pelo corredor e destrancava minha porta. — São as suas sacolas? — ela acrescentou, balançando a cabeça para corredor. — Nada importante. Eu as pegarei quando pegar o gato. Vamos, — insisti, puxando-a para dentro e fechando a porta. — Alguém já lhe disse que seu apartamento tipo grita “solteiro”? Eu sorri para isso. — A mulher do meu irmão, constantemente. — Eu a guiei para o corredor apenas para que ela voltasse, parando e olhando a tela que ela tinha me dado que eu tinha colocado em um lugar no corredor. — Você já o pendurou. ~ 75 ~


— Claro que sim. Vamos, não pare mais. Precisamos cuidar do seu rosto. Com isso, eu a guiei para o banheiro e fui direto para o armário embutido, arrastando o grande recipiente de plástico cheio de todos os suprimentos médicos que você poderia encontrar em uma loja (e alguns que você não podia) e coloquei no balcão. Quando olhei para ela, ela estava se olhando no espelho, seu lábio inferior tremendo na bagunça em que seu rosto se transformou. — Tudo vai voltar ao normal, Dusty, — eu disse. — O olho, a bochecha e os lábios. Eles estão ruins porque estão inchados. As contusões desaparecerão. Os cortes, bem, você pode ter uma cicatriz ou duas, mas mesmo essas desaparecerão eventualmente. Confie em mim, — acrescentei quando ela continuou olhando. — Você luta como alguém que faz isso muitas vezes, — ela disse, pegando meu olhar no espelho. — Não com a frequência que costumava fazer. — não queria mentir, mas ainda não queria dar a verdade completa. Por sorte, ela não pressionou. — Sinto muito por suas mãos. — Não é nada, — eu disse, pegando uma gaze estéril e cobrindoa com peróxido, em seguida, alcançando seu quadril para virá-la para me encarar. Senti-me estremecer, açoitando meu estômago. — Isso vai doer, — avisei. Ela me deu um pequeno aceno de cabeça e respirou fundo. Ela apertou os lábios e tentou ser forte sobre isso, mas, quando eu limpava todos os cortes, suas lágrimas estavam se misturando com o peróxido. — Desculpe, — eu disse, acariciando um dedo por sua mandíbula. — Isso ajudará, — acrescentei, pegando o antibiótico triplo e um cotonete, deslizando a merda macia por todo o rosto. — Tudo bem, — disse quando terminei. — Preciso verificar suas costelas, — continuei, me perguntando o quanto isso poderia ser um problema. Ela engoliu em seco e assentiu com força. — Tudo bem. Era isso... tudo bem. Ela não pegou sua blusa para levantar. ~ 76 ~


— Posso? — perguntei, tocando a bainha da blusa. Ela me deu outro aceno firme e lentamente levantei o tecido, revelando mais sua pele pálida, manchada em vários pontos com hematomas leves que, embora não parecessem muito, pelo jeito doíam pra caralho e doeriam por mais uma noite até realmente melhorar. Mas não estava tão ruim. Melhor do que eu esperava. Quando vi o sutiã cinza e branco pontilhado, parei, pressionando o tecido de sua blusa com uma mão e estendendo a outra, deslizando pela barriga e vendo os músculos se contraindo no contato com a pele, enquanto o ar correu para fora dela. Ela era tão sensível e eu esperava explorar isso no Ano Novo. Mas não assim. Não com ela ferida. Minha mão apertou suas costelas suavemente no início. Sem nenhuma reação, pressionei com força. — Nada? — perguntei, inclinando minha cabeça para olhar para ela. — Não, — ela disse em uma pequena voz sem fôlego que disparou direito para o meu pau em uma resposta completamente inadequada dada a situação de merda. — Tudo bem, — eu disse, forçando-me a tirar minha mão e puxando o tecido de volta para cobri-la. — Aqui, — acrescentei, indo para o banheiro por um segundo e voltando com uma das minhas camisetas um segundo depois. — Há sangue em sua camiseta, — acrescentei enquanto ela pegava. Reconheço que poderia ter atravessado o corredor e pegado as suas próprias roupas, mas de alguma forma eu a queria na minha camiseta e ela não se opôs. — Leve o tempo que precisar, — acrescentei enquanto fui para o hall e fechei a porta. — Eu volto já. Com isso, disparei no corredor e peguei as sacolas, deixando-as descuidadamente na ilha da cozinha e voltando para o corredor para encontrar seu maldito gato. Encontrei a gaiola e trouxe-o comigo pelo apartamento até que finalmente o encontrei sentado no canto do armário do quarto. Quando cheguei perto, ele soltou um silvo e me atacou com sua pequena garra afiada. — Goste ou não, arranhe-me ou não, sua bunda entrará nesta gaiola, — eu disse a ele, resmungando, quando ele imediatamente pareceu calar. Afastei-o, peguei a caixa de areia obsessivamente limpa do banheiro e voltei para o meu próprio apartamento. E a encontrei na cozinha com minha camiseta, cuidadosamente desembrulhando as coisas das minhas sacolas. ~ 77 ~


— Você estava mesmo planejando uma noite especial, hein? — Ela perguntou, seu tom triste. — Ainda estou, — respondi, colocando a gaiola com o gato e a caixa de areias para baixo e abrindo a porta, observando a pequena bola de pelo explorar e esperando que não fosse do tipo que arranha tudo, inferno. — Isso é... legal, Ryan, — ela disse, balançando a cabeça, não conseguindo manter contato visual. — Mas não espero que você mantenha essa promessa agora que, você sabe, que eu, ah... — ela acenou, incapaz de continuar. — Olhe, — eu disse, exalando com força, não adoçando a merda e querendo ser direto com ela. Mas havia outra parte de mim que só queria dizer foda-se tudo e não se preocupe com isso. Para melhor ou pior, a parte lógica ganhou. — Eu não gosto de drogas. Não gosto delas. Não gosto do que elas fazem para as pessoas que as usam e como isso afeta as pessoas ao seu redor. Não é minha praia. Dito isso, não estou julgando você por fazer o que você precisava fazer para sobreviver. Confie em mim, entendo. Isso não muda o fato de que quero beber champanhe e assistir a estúpidos balões caírem na Times Square amanhã à noite. Juro que você poderia ver a tensão escoando dela. Seus ombros baixaram, sua mandíbula relaxou. Ela parou de tentar freneticamente organizar a bagunça das sacolas. — Tudo bem? — perguntei quando ela não disse nada. — Tudo bem, — ela concordou, nada mais do que um sussurro. — Mais uma vez e para me fazer acreditar que você acredita, — eu disse, sorrindo quando fui em direção à cozinha e comecei a arrumar a comida. — Eu acredito, — ela disse, me entregando o patê que escolhi para acompanhar o pão sírio, legumes ou quatro tipos diferentes de batatas fritas que também peguei. Não sendo uma pessoa de petiscar, geralmente ocupado demais para fazer isso e apenas comendo duas ou três refeições inteiras por dia, não tinha a menor ideia do que comprar naquela loja de comida. — Ryan? — Sua pequena voz me encontrou alguns minutos depois, enquanto eu pegava as sacolas de plástico e as enfiava dentro ~ 78 ~


de alguma coisa de plástico que Anita guardava no meu armário para colecioná-las, uma compra que achei estúpida na época, mas acabou por ser bastante prática. — Sim? — perguntei, voltando para encontrá-la olhando para mim. — O que eu deveria dizer a Bry? — ela perguntou, genuinamente soando como se precisasse de uma resposta para isso. E, bem, quando uma mulher com um rosto arruinado que te beijou como se quisesse até a alma, estava preocupada com alguma coisa, sim, você arrumaria isso para ela. — Não esquenta com Bry. Vou lidar com ele. — Não, Ryan. Isso é... — Eu lidarei com isso, — eu a cortei. — Não adianta argumentar sobre isso. Você deve estar com uma dor de cabeça assassina agora, — adicionei, alcançando o armário ao lado da pia, onde eu mantinha um frasco com aspirina. — Aqui, pegue duas destas e vá deitar com um saco de gelo, — disse, entregando-lhe os comprimidos e pegando o saco de gelo, envolvendo-o em toalhas de papel e entregando a ela também. — Preciso dar alguns telefonemas e então venho falar com você. — Você não precisa... — Eu venho falar com você, — cortei-a novamente, voz um pouco firme e ela me deu um sorriso grato e dirigiu-se para os quartos. Peguei meu celular e fui em direção à entrada, indo para o apartamento dela por privacidade e apertando o primeiro número que veio a mim. A outra extremidade atendeu e meu ouvido foi assaltado com música e um riso de mulher. — Sim? — perguntou a voz de Mark, ainda meio rindo por algo que eu tinha interrompido. Mas não houve tempo para culpa. — Tenho um problema, — eu disse e podia ouvi-lo imediatamente afastando-se do barulho até que não houve nada. — Está tudo bem? — ele perguntou com tom sério. ~ 79 ~


— Lembra-se da minha vizinha e dos caras com quem ela se envolveu? Houve uma breve pausa e uma hesitação, — Sim? — Eles são traficantes de drogas e ela as esconde. Hoje à noite ela foi roubada e espancada e, bem... — Isso é uma merda, — ele me declarou. Exatamente. — Sim. — Me dê o nome do traficante e vou dar uma pesquisada. — Bry. Isso é tudo o que ela me deu. Eles foram amigos desde que eram crianças. São 30s, então não acho que você precise se preocupar com o Third Street. Eles estão mais na merda barata de rua. Quem está circulando produtos farmacêuticos por aqui? Não era algo que eu precisava saber, para me manter atualizado. Todos nós mantínhamos olhos e ouvidos sobre os maiores negociantes da cidade — The Henchmen, Hailstorm, Grassis, Richard Lyon e... — Oh, merda. Diga-me que não é a porra do Lex, cara, — eu disse, jogando uma mão no meu rosto, minhas palmas calosas passando pela barba por fazer. Mark fez uma pausa. — Não tenho certeza. Ele tem as mãos em tudo, mas duvido que ele guarde sua merda em algum apartamento sem proteção. Verdade. — Acho que está certo, — concordei. — Como ela está? — Mark perguntou ao silêncio. Eu expirei. — Segurando-se. Ela parece um inferno. Mas nada parece sério. Ela fica comigo até que possa voltar ao seu apartamento novamente. — Bom, — ele perguntou, sem perder a oportunidade de me espetar. — Então, estou assumindo que quando você descobrir quem esses caras eram... ~ 80 ~


— Eles irão pagar, — concordei, desligando. Havia algumas malditas regras básicas que cada pessoa decente seguia na vida, você protege o pessoal que te serve, você dá dinheiro para as pessoas com sinos no Natal, você segura portas e você, porra, nunca coloca as mãos com raiva em uma mulher. Era hora de eles aprenderem essa lição da maneira mais difícil. E eu era um bom professor.

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Oito DUSTY

É ruim que meu primeiro pensamento quando eles entraram no meu apartamento, e eu sabia exatamente o que eu estava enfrentando, foi me preocupar com o que Ryan poderia pensar quando eu o visse no dia seguinte? Estava bastante segura de que não era certo o que eu estar pensando naquele momento particular, homens que nunca conheci nem mesmo vi antes gritaram comigo, me empurraram, exigindo saber onde estavam as pílulas. Não era que não estivesse com medo. Mas achei que todos os meus anos estressando sobre monstros invisíveis de alguma forma tornaria mais fácil para eu me concentrar no medo do que talvez a maioria pudesse fazer nessa situação. Então, quando o cara maior bateu os dedos no meu peito, me fazendo tropeçar e bater na minha parede, derrubando minha meu abajur, de alguma forma percebi que lhe dar essa informação não me ajudaria. Alguém ia me machucar. Na verdade, a pergunta era, se eu preferiria que minhas feridas viessem de estranhos... ou de um homem que eu conhecia minha vida inteira? A resposta foi simples. Não tinha certeza se poderia lidar com Bry me batendo. Eu não estava delirando. Ele teria que me batido. Ele teria que fazer de mim um exemplo. Não porque ele quisesse. Nem mesmo porque foi minha culpa. Mas porque era o que se esperava dele. Ele não era o chefe em sua pequena organização. Ele era um cara de nível ~ 82 ~


médio. Ele tinha alguém a quem responder, alguém que desejaria que eu tossisse um pouco de sangue para que todos os outros soubessem que eles tinham que fazer um trabalho melhor para proteger o suprimento. Porque se ele não me espancasse, ele poderia ser morto. Então, apertei meus lábios e não contei a eles. Infelizmente, parece que eles as encontraram de qualquer maneira. Gostaria de dizer que quando ouvi Ryan, quando vi Ryan, me deu uma sensação de alívio irresistível. Um pouco disso é porque ele fez a surra parar. Impediu algo que poderia ter sido pior. Mas envolvê-lo nessa situação, bem, acabaria com qualquer imagem que ele tinha de mim e quebraria. Eu não seria apenas a vizinha gentil, fechada e tímida, pela qual ele parecia um pouco atraído. Não, eu seria uma vadia que se envolveu com traficantes de droga. Traficantes. Deus, eu desci tão baixo. Aquela que fui três anos antes, sim, ela nunca teria acreditado que tal coisa fosse possível. Era incrível o que um distúrbio mental incapacitante poderia fazer. Era louco até onde alguém iria para salvar seu orgulho, não ter que se preocupar com a única pessoa que tinha no mundo para cuidar dela. Mas a questão era, quando a outra pessoa que eu tinha no mundo desistiu de mim, Bry esteve lá. E Bry teve uma ideia. Ele tinha uma ficha grande demais para ser pego com pílulas, especialmente em uma escala suficientemente grande para ser considerada como distribuição, então ele me ofereceu um “emprego”. Eu mantinha o produto, ele me dava um pouco de dinheiro para fazer isso, e era isso. Seu dinheiro pagava cerca de metade do meu aluguel. A outra metade, bem, encontrei uma maneira on-line para fazer o resto. ~ 83 ~


Veja, a coisa legal que acontece quando você fica trancada todo o maldito tempo e não consegue ver, falar ou experimentar nada ou ninguém novo, bem... a mente vagueia. Você tem essas ideias enormes e épicas em sua cabeça. Um dia comecei a escrever as minhas. E logo descobri como vendê-las na internet. Tive um medíocre número de seguidores entre leitores de literatura paranormal que me manteve fora das ruas e com comida na minha despensa. Precisei economizar cada centavo e parecia arriscado manter as drogas para Bry, mas eu fiz isso. Então, foi assim que me tornei uma criminosa. Não entrei nisso com óculos cor de rosa. Não me achava intocável. Sempre soube que algum dia isso me alcançaria. No entanto, pensei que seria mais sobre ir para a prisão do que espancamento, mas não me chocou muito que isso também acontecesse. Mas Ryan testemunhar isso? Ryan entrar? Ryan limpar a bagunça que eu tinha feito? Sim, eu não estava bem com isso. Sua opinião era importante. E ele nunca mais me olharia do mesmo jeito. Eu o ouvi sair de seu apartamento quando peguei o saco de gelo e caminhei pelo corredor. Eu não ia mentir, tudo doía. Por pior que parecesse, e parecia ruim, sentia-me dez vezes pior. Vi outra porta fechada no corredor e percebi que talvez fosse um escritório ou um segundo quarto. Mas não me sentindo confortável em abrir uma porta fechada na casa de outra pessoa, entrei na porta aberta de seu quarto e subi em lençóis que cheiravam a ele, uma pitada de especiarias de sua colônia e sabão em pó. Entrei, puxei a colcha para cima, coloquei o saco de gelo sobre o rosto de uma maneira que cobriu meus olhos e lábios inchados e comecei a respirar profundamente. Eu deveria ter ficado louca. ~ 84 ~


Eu deveria estar enlouquecendo de ansiedade por estar fora do meu apartamento, estar no dele, estar na cama dele, em suas roupas, sem nenhuma das minhas coisas habituais. Mas a verdade era que, no segundo em que aqueles homens colocaram as mãos sobre as minhas coisas, eles arruinaram o conforto que me ligava a elas. De alguma forma, sair de lá foi menos estressante do que ficar. Acho que foi um progresso de certa forma. Ouvi a porta da frente se abrir e fechar e seus pés se movendo por alguns minutos antes de eu lentamente me desligar para dormir. Mas não deve ter sido por muito tempo porque a próxima coisa que senti foi a cama se mexendo atrás de mim, uma sensação tão incomum para me acordar, a tempo de sentir seu corpo escorregar atrás do meu. — Sou eu, — a voz baixa e suave de Ryan disse logo atrás de mim quando senti suas pernas girar atrás das minhas e seu braço deslizar suavemente em volta da minha barriga, me puxando contra ele. — Como está a dor? Que dor? Tudo o que meu cérebro poderia focar era que ele tinha deitado na cama comigo, envolvendo-me ao seu redor, baixando a cabeça no meu pescoço e perguntando sobre minha dor. Ele não se afastou de mim. Ele não me repeliu agora que sabia a verdade. — Está tudo bem, — eu disse, encolhendo os ombros um pouco enquanto seu braço me apertou. — Seu gato reivindicou o armário da TV como sua cama, — ele disse, me fazendo sentir culpada por não cuidar dele. — Sei que você não é um fã de gato. Se quiser que eu o leve de volta ao corredor para que... — Está tudo bem, Dusty. Não se preocupe com ele. — Não sei como agradecer por esta noite, — admiti, odiando o quão fraca minha voz soou. ~ 85 ~


— Você não tem nada para me agradecer. Eu seria um merda de homem se visse uma mulher ser atacada e não interviesse. Isso era verdade. — Mas você me deixar ficar aqui... — continuei sentindo meu coração vibrar quando seus dedos começaram a se mover distraído pela barriga. — Você sempre é bem-vinda aqui. Havia ali uma sinceridade que fez uma coisa horrível comigo me deu esperança. — Eu, ah, não sabia se o outro quarto era um escritório ou quarto de visitas. Eu poderia me mudar... — Gosto de você aqui, — ele disse, parecendo cansado. Essa foi a última coisa que ele disse, porque não mais do que alguns minutos depois, seu braço ficou pesado no meu estômago e eu sabia que ele estava dormindo. No entanto, não dormi por muito tempo. Isso ocorreu principalmente porque minha mente decidiu levar em consideração o fato de que “ele gostava de me ter ali” e fiquei com isso na minha cabeça até que, por um lado, acabei me imaginando de volta ao trabalho, em um relacionamento feliz com ele e, principalmente, normal. Mas, pelo jeito, eu teria esperanças e depois voltaria para o inferno e isso me deixaria mais fodida do que antes. E com aquele pensamento adorável, eu me afundei para dormir.

***

Acordei com Rocky pulando no meu quadril e soltando um “miau” alto. — Saia, — gritei, tirando o saco de gelo que já estava na temperatura do quarto e olhando para ele com meu olho bom, um pouco aliviada ao perceber que o outro também não estava completamente fechado. Não estava aberto, mas eu tinha uma fenda na qual poderia enxergar. ~ 86 ~


Ele soltou outro mimado com mais atitude, e suspirei e sentei. Rocky saltou e correu em direção à porta onde ele fez uma pausa como se estivesse esperando por mim. — Já vou, — eu disse a ele, mas me virei para fazer uma rápida parada no banheiro onde encontrei uma escova de dentes nova esperando por mim. Agradecida, escovei meus dentes, limpei o que restava da pomada de antibiótico e voltei para a cozinha. — Eu o alimentei. Mas a fodido teimoso, aparentemente, não comerá a menos que você esteja por perto, — Ryan me informou, sem se afastar de onde ele estava de pé no fogão, parecendo recémbanhado em uma camiseta preta apertada e calças grossas cinza escuro. Como se estivesse de acordo com essa afirmação, Rocky se dirigiu para onde Ryan havia colocado suas tigelas ao lado da porta da frente e começou a comer. — Ele é mimado, — declarei. — Você está cozinhando? — perguntei, cheirando manteiga aquecendo na panela, mas não estava disposta a aceitar que um cara como ele fosse capaz de tarefas mundanas como cozinhar. Era por isso que ele tinha a empregada, não era? Sua cabeça girou sobre o ombro com um sorriso divertido, sem dúvida, pegando a incredulidade no meu tom. — Omeletes, — ele disse. — Roubei os ovos do seu apartamento, o queijo e o suco de laranja. Aparentemente, a Anita não foi à mercearia. Deus, ele poderia melhorar? Sério. — Tudo bem, então eu preciso..., — ele começou, um tom um pouco mais grave, virando-se para mim enquanto batia ovos, recostando-se contra o balcão. Mas ele foi cortado com o som de duas pancadas altas em sua porta antes que de repente se abrisse, fazendo-me tropeçar um passo, meu coração voando na minha garganta antes de ver quem entrou. Um de seus irmãos. Realmente, não havia com confundi-los. Todos tinham a mesma estrutura óssea perfeita, cabelo escuro e olhos claros. Todos eram ~ 87 ~


altos, embora suas formas variassem. Ryan era alto e magro como um dos outros irmãos que eu tinha visto visitá-lo. Outro era uma parede gigante de músculo. Este era algo intermediário. Ele era um pouco mais amplo do que Ryan, mas não extremamente musculoso. E ele parou, imóvel completamente no lugar.

a

três

passos

na

sala,

congelado

O que o fez congelar, você pode me dizer? Eu, aparentemente. Porque ele estava sorrindo um pouco enquanto ele entrava. Mas, em um piscar de olhos, o segundo que seu olhar pousou em mim, o sorriso caiu, ele parou de andar, e uma escuridão pareceu tomar seus olhos. — Eli, — Ryan disse, a voz baixa, mais profunda, quase como um aviso. Mas uma advertência contra o quê? Eli congelou, enfiando as mãos no bolso, mas seus olhos ainda estavam fixos em mim. Ele tirou seu celular, segurando-o, e ouvi o som inconfundível de sua câmera, fazendo-me saltar para trás, meu olhar indo para Ryan. — Cai fora, Eli, — Ryan resmungou, mais alto, deixando cair a tigela de ovos com um tilintar e desligando o fogão. Então ele se moveu um pouco entre mim e seu irmão. — Apenas no caso, — Eli disse, piscando a foto em seu irmão, fazendo-me estremecer ao ver as provas do meu espancamento tão claramente. Então ele desligou o telefone, enfiou-o no bolso e olhou do irmão para mim. E assim, tudo o que o alcançou há um momento desapareceu, deixando-o com olhos suaves e um sorriso de desculpa. — Está tudo bem, — ofereci, engolindo com dificuldade. — Sei que isso é um pouco... ah, assustador, — disse, fazendo um gesto para o meu rosto. — Acho que a palavra que você estava procurando era “linda”, — ele disse, facilmente contornando o tema do meu rosto e salvando minha vaidade. — Eu sou Eli, — ele disse, me dando um sorriso. — Já que meu irmão aqui esqueceu completamente dos bons modos. Não esquenta — ele acrescentou, entrando para que ele estivesse próximo a mim, inclinando a cabeça em minha direção como se estivesse ~ 88 ~


compartilhando um segredo, — eu informarei a nossa mãe sobre não ter nos apresentado. Ela irá corrigi-lo. Sorri para isso, mal notando o que isso fez ao meu olho, bochechas e aos lábios machucados. — Eu sou Dusty, — informei. — Dusty. O prazer é meu. E olhe, cheguei bem na hora do café da manhã! — Ele declarou. — Duas garrafas de champanhe, — ele notou, olhando para o armário de bebidas de Ryan. — Bem, você não precisará de mais duas delas. Mimosas? E foi quando decidi que eu precisava de Eli Mallick na minha vida. Em uma qualidade amigável. Ryan me deu uma olhada que não consegui ler, depois voltou para os ovos, ligando o fogão e cortando vegetais para colocar no meio. — O seu síndico, cara louco, — disse Eli, tirando minha atenção enquanto olhava as costas de Ryan para encontrar Eli de pé na ilha derramando suco de laranja em copos... com Rocky esfregando-se contra seu braço. Esfregando-se contra ele. — Ele odeia homens, — exclamei de boca aberta. — Metade do tempo ele me odeia, — adicionei em um aceno de cabeça. — Agora, veja, se eu não estivesse em companhia mista agora... — Eli começou com um sorriso perverso — Eu faria um comentário de natureza arriscada. Eu resmunguei com isso, sabendo exatamente qual o tipo de comentário seria. — Então, Dusty, — Eli disse enquanto Ryan começava a mexer a panela com ovo. — O que você faz? — ele terminou, me entregando uma mimosa. Comecei por um segundo, me sentindo presa antes do meu cérebro começar a trabalhar e lembrei que eu tinha uma resposta para isso. — Eu escrevo. A cabeça de Ryan balançou sobre o ombro, suas sobrancelhas se juntando, os olhos interrogativos. E foi então que percebi que, enquanto eu estava perto dele por um ano, enquanto ele me salvou duas vezes, me remendou, me beijou e dormiu comigo (o significado louco dessa frase), nós ainda éramos estranhos um do outro. ~ 89 ~


— Eu sei ler, — disse Eli com um sorriso malicioso, fazendo-me sorrir novamente. — O que você escreve? — Adolescente paranormal. — Vampiros e bruxas que são todos angustiantes e têm triângulos amorosos? — Então você leu meu trabalho, — ri enquanto ele brindava meu copo. Então todos comemos omeletes e tomamos mimosas enquanto Eli conduziu a maior parte da conversa com uma pequena ajuda minha porque Ryan estava de repente mais quieto do que o habitual. E foi fácil. Era como se eu não estivesse horrivelmente fora de prática. Talvez a facilidade disso possa ser atribuída a Eli e seu tipo descontraído de habilidades para conversar, mas não importa o motivo, eu estava tomando café da manhã com dois homens que não eram nem meu tio ou Bry e não estava me sentindo uma bagunça estranha e ansiosa. Por progresso. Foi o que Ryan brindou no meu apartamento no Natal. Era quase como se fosse algum tipo de premonição. Não podia esperar por curas mágicas. Não podia esperar milagres. Mas, seguramente, poderia esperar progresso.

~ 90 ~


Nove RYAN

Eli era difícil de prever Como Hunter, Eli nunca foi verdadeiramente talhado para o negócio da família. Ele sempre foi um pouco mais suave, mais calmo, mais artístico. Ele não começava a confusão no playground como Shane ou Mark. Ele não era o primeiro a pular quando uma grande briga estourava no ensino médio. Ele não era alguém para quem a violência vinha facilmente. Mas a violência foi incutida em nós desde muito jovens. Assim, porque não era natural para ele, não era algo que fazia parte dele, que poderia aprender a controlar lentamente através de níveis mais baixos, sua raiva era muito mais explosiva que qualquer outra que já tinha visto. Então, quando surgia para Eli, surgia em uma onda selvagem e incontrolável. Ele tinha seus gatilhos, às vezes, como entrar no meu apartamento e ver Dusty quebrada. Mas, como muitas vezes, ele poderia apenas acioná-los quanto a necessidade surgia. É por isso que ele era nosso último recurso com clientes difíceis. Quando não entregava o dinheiro com minhas sugestões firmes ou aviso do Mark ou surra feroz de Shane, bem, era aí que meu pai chamava Eli. Geralmente, ele não podia ir sozinho. Porque, na maior parte do tempo, ele precisava ser arrancado antes de matar alguém. Mas isso vinha como um interruptor. Ele entrou, viu Dusty, começou a se assustar, tirou uma foto no caso de ele precisar mostrar a um policial porque ele estava batendo em um homem até quase a morte pelo que ele fez com ela, então voltava ao normal. ~ 91 ~


E Dusty respondeu a ele. Embora, como eu, ele nunca tivesse sido um galinha como Shane e Mark, definitivamente ele tinha um charme com o qual a maioria das mulheres reagia. Ele prestava atenção às coisas pequenas e quase sempre parece afastar as coisas que ficam muito complicadas. Isso, para Dusty, era enorme. Se a conversa for interrompida por um segundo sequer, você poderia visivelmente vê-la ficar tensa, ver seus olhos ligeiramente em pânico, como se estivesse tentando pensar em uma maneira de manter as coisas leves e fáceis, para não demonstrar que ela não era a melhor em situações sociais. Parte de mim estava agradecido por ele aliviá-la, de deixá-la confortável com alguém além de mim, de seu tio, e da merda do Bry. A outra parte estava irracionalmente com ciúmes de como eles se relacionavam, de como ele conseguiu descobrir coisas dela que eu nem sequer tinha pensado. Pelo amor de Deus, eu nem sabia que ela escrevia para ganhar a vida. Guardar drogas para seu amigo era, aparentemente, apenas para complementar sua renda. Sua ansiedade poderia tê-la destruído, mas ela encontrou uma maneira de viver, ter aventuras e se conectar com pessoas. Após o café da manhã, Eli partiu, tendo seus próprios planos para a Véspera de Ano Novo com Mark e que ao tudo indica envolveria muito álcool e alguém para beijar (e algo mais) à meia-noite. Dusty insistiu na limpeza e ela provou ser malditamente teimosa com isso, então fui responder alguns e-mails na sala de estar. Foi assim que o ouvi quando ela não estava com a água correndo na pia. Bry. Ouvi a batida e me levantei em um piscar de olhos. — Volto logo, — eu disse. — Preciso fazer uma chamada de trabalho, — acrescentei, ligando meu telefone enquanto ela me sorriu e voltou para a louça. Entrei no corredor, fechando a porta com um clique silencioso, assim que Bry puxou a porta aberta do apartamento de Dusty e pisou na entrada. Seu corpo inteiro congelou, seus ombros se elevaram, sua mão agarrou a maçaneta com força. ~ 92 ~


Ele não me ouviu enquanto eu atravessava o corredor. Mas com certeza sentiu minha mão se esticando e tocando o meio de suas costas, empurrando-o para frente e fazendo-o tropeçar no apartamento destruído. — Que porra é ess... — ele rosnou, explodindo enquanto eu entrava e fechava a porta, apoiando-me nela. — Mallick? — ele perguntou, endurecendo. Então, talvez a única coisa que ele pudesse fazer para se redimir, ele olhou lentamente ao redor. — O que aconteceu? Cadê a Dusty? Ela está bem? — Sabe, geralmente, quando você se preocupa com uma mulher, você não a coloca em uma posição em que ela tem seu apartamento destruído e em que ela leva uma surra que nenhuma mulher deveria levar. — Cadê ela, porra? — ele perguntou, gritando um rugido áspero entre os dentes cerrados. Ele deu alguns passos ameaçadores em minha direção, mas parou antes de se tornar um grande desafio. — Ela está bem? — Ela não está bem com seu olho fechado e suas contusões e lábios e... — Merda, — ele me cortou com um grunhido alto, estendendo a mão para pegar o que estava mais próximo dele, um livro na parte de trás do sofá, e jogando-o através do quarto, atingindo a parede e caindo no chão. — Ela teve que ir ao hospital? Ela deve estar ficando louca... — Ela não está no hospital, — eu o cortei. Então ele se preocupava com ela. Não cheguei a vê-los muito juntos, apenas o seu impaciente bater na porta em dias de entrega ou de recolhimento. Isso não me deu a melhor imagem do desgraçado. Isso e o fato de envolvê-la em seus negócios ilegais, não revelou o melhor dele. Mas a julgar pela forma como ele congelou com o apartamento destruído e de suas primeiras perguntas envolverem o bem-estar de Dusty e não, digamos, o status de seu esconderijo, bem, isso falou algo sobre ele. — Então, cadê ela? Quero vê-la. ~ 93 ~


— Por quê? — perguntei, cruzando meus braços sobre meu peito. — Porque ela é a porra da minha amiga. Porque ela apanhou e ela não está em seu apartamento. O apartamento, devo acrescentar, de onde ela não tem saído nos últimos anos. — Ela está na minha casa, — informei, minha voz vazia. — Por que diabos ela estaria em sua casa, cara? Ela nem sequer conhece você. Ela com certeza não sabe no que você está envolvido. — Ela sabe no que você está envolvido e parece estar bem com isso. Quanto ao outro ponto, ela me conhece. Comprou um presente de Natal e tudo. Ele ficou surpreso com isso, sua boca se abrindo, duas linhas formando entre as sobrancelhas. — Ela nunca falou de você. Se não eu estivesse errado, e raramente estava, ele tinha uma coisa por ela. Não apenas uma coisa como “ela é minha casa segura para as minhas drogas e eu a quero viva” ou mesmo coisas como “nós crescemos juntos”, mas uma coisa real. Ele a queria. Foi por isso que ele a tocou quando entrou. E, como parecia conhecê-la, deve ter entendido porque ela se esquivou dele. Maldito mito de amor não correspondido. Quase me senti mal por culpa. Quase. Mas a mulher que ele supostamente amava estava no meu maldito apartamento com o rosto fodido por causa de uma situação em que ele a colocou. — Sim, bem, sou uma nova evolução em sua vida. Seu semblante desmoronou com aquela informação, entendendo o que eu queria dizer para ele, embora eu e Dusty, tipo juntos, ainda estivéssemos no estágio inicial. — Você quer dizer o que acho que você quer dizer? — Talvez. E vendo que não é sequer nem um pouco da sua conta, vamos seguir em frente com isso. ~ 94 ~


A tensão voltou quando o queixo inclinou. — Não me parece que seja um pouco da porra de sua conta, também, — ele jogou minhas palavras de volta. Bem, se ele não quer fazer a maneira fácil... Abaixei os braços e fechei o pouco espaço entre nós, a mão curvando-se pela garganta dele e batendo-o contra a parede, o rosto quase na mesma posição, do cara que espancou Dusty, o sangue vermelho escuro, quase preto, na parede evidenciava desse fato. — É da minha conta, filho da puta, quando uma mulher que me interessa tem o rosto esmagado por causa das drogas em que você está envolvido. E porque conheço todos os negociantes nesta cidade, sei que você é apenas um lacaio para algum mal maior. Então, pare com essa merda, filho da puta, e me dê algumas malditas respostas ou posso lhe mostrar exatamente como a família Mallick conseguiu sua reputação nesta cidade. Minha voz foi baixa e selvagem, a raiva geralmente era uma coisa fria dentro de mim, fria o bastante para congelar você. E, se ele conhecesse minha família, certamente sabia que minha ameaça não era vazia. Minha mão soltou sua garganta e ele respirou fundo antes de falar. — Você sabe que não posso entregá-lo. — Como, você não pode? — gritei, impaciente. Não tinha certeza se Dusty começaria a me procurar em algum momento. Eu não tinha o dia inteiro para tirar as informações dele. — E você não tem escolha, Bry. — O produto desapareceu, certo? — ele perguntou finalmente quando minha mão o soltou e dei um pequeno passo para trás. — E você não tem dez mil. Como diabos você vai explicar isso ao seu chefe? E me dizer quem ele é realmente é a pior merda que você pode fazer hoje? — Você não entende, — ele disse, balançando a cabeça, deslizando para o lado e indo em direção à cozinha, onde alcançou o fogão de Dusty e pegou um copo, depois foi ao congelador e tirou vodca que ele mantinha lá. ~ 95 ~


Então, exceto sua aversão a ele tocando-a, eles eram próximos. Ele sabia onde estavam os copos e as bebidas e sentia-se à vontade servindo-se a si mesmo. De repente, me perguntei se em algum momento talvez os dois tivessem sido mais do que amigos. Isso explicaria sua coisa por ela e o fato de ele ter ficado ligado a ela mesmo quando todos, menos seu tio, pareciam desistir dela. — Então, ajude-me, — sugeri, observando como ele derramou três dedos de vodca e a bebeu em um só gole. Se eram uns três dedos de vodca nesse tipo de lance, então a merda era séria. Senti-me tenso, perguntando-me com quem ela poderia estar envolvida. — Eu não trabalho para Lex se é o que você está perguntando, — ele disse, querendo dizer o filho de puta mais cruel em toda Navesink Bank, que estava bem atrasado para uma morte longa, demorada e torturante. Lex enterrou suas mãos em um pouco de tudo em nossa cidade e levou sua parte de algumas operações menores, mantendo-as sob seu controle, não permitindo que outras pessoas subissem de posto e o tirassem do caminho. — Sei que você não está trabalhando para o Lyon, pois tudo o que ele faz é corretagem de drogas. Não me diga que é tão baixo como Third Street. Ele resmungou, quase como se tivesse sido insultado. — Não. — Então, quem? Porque esses são todos os traficantes desta área. Sua cabeça inclinou para o lado. — Exatamente. Respirei fundo, olhando para o teto por um longo segundo. Ele estava traficando em Navesink Bank para alguém que não deveria estar operando na cidade? Esse era o tipo de situação fodida na qual eu não queria estar nem perto. Porque isso não significava apenas que você tinha um problema com o chefe de Bry e quem quer que roubou a porra dele, mas também significava que, se Lex, Lyon ou Third Street descobrirem essa armação, você também estava na mira. Esse não era um lugar onde alguém queria estar. Minha família sempre trabalhou para ficar fora do negócio de todos na cidade. Tínhamos relações amigáveis com The Henchmen, ~ 96 ~


Hailstorm, Grassis e os freelancers como Breaker e Shooter. Evitamos ativamente qualquer contato com Lex Keith. E não tivemos nenhuma razão para ter qualquer comunicação com Lyon ou Third Street. Era um mecanismo de sobrevivência neutro, mesmo que você não concordasse com o que os outros estavam fazendo. Meu pai sempre teve boa reputação e, enquanto crescemos e ficamos mais velhos, todos nós também ganhamos isso. Mas seu negócio não era enorme. Não tínhamos muita gente de fora além de mim e meus irmãos. Nunca sobreviveríamos a uma guerra no submundo. Sabíamos disso, então não metíamos o nariz nos negócios que não eram nossos. Havia uma exceção aqui ou ali. Ou seja, a merda que aconteceu com Shane e Lea. Mas isso era uma exceção porque Lea era de Shane e qualquer demônio que ela tivesse também era problema de Shane. Então ele lidou com isso e porque família era família (não importa quão doido o esquema era), nós ajudamos. A mesma regra serviria se Dusty fosse minha, certo? Somente um problema, a gente não tinha concordado com isso. Nós mal nos falamos. Uma parte de mim estava preocupado em forçar a barra, em colocar expectativas sobre ela que pudessem estressá-la. Mas, para ser sincero, vi isso em algum lugar. Embora fosse novo. Embora não soubesse tudo sobre ela, estava vendo isso em algum lugar. Um dia. A seu ritmo. Então, por enquanto, ela não era tecnicamente minha. Mas não achei que isso também era um problema. Eu não era aquele que começava as merdas. Nunca me envolvi com uma merda que não era boa para minha família. E não faria isso agora se não fosse por uma boa razão. — Onde? — perguntei enquanto ele se servia de outra dose. Ele suspirou, balançando a cabeça enquanto olhava a janela de Dusty durante um longo segundo antes de seus olhos encontrarem os meus novamente. — Camden. — Oh, pelo amor de Deus, — gritei. ~ 97 ~


Camden? Maldita Camden? O lugar classificado como a mais perigosa cidade da América, nos Estados Unidos, durante anos? Com uma taxa de criminalidade seis vezes maior que a média nacional? Ótimo. Fantástico. Apenas o que eu precisava. Respirei fundo, agarrando-me à esperança. — Quinhentos comprimidos não são um grande negócio. — Era enorme para a nossa cidade, mas, como um todo, era um pequeno pedaço do comércio. — Não se você levar em consideração que sou um dos cinquenta caras que fazem essa merda. Cinquenta. Se cada cara tivesse o mesmo esconderijo de quinhentos comprimidos, isso significava que havia vinte e cinco mil pílulas e mais de meio milhão de dólares na operação. E isso era apenas envio e distribuição, porra. Eu não tinha ideia de quantas vezes eles traziam pílulas, mas mesmo que fosse apenas uma vez por mês a essa altura, isso era um grande problema. O chefe de Bry, quem fosse o merda, não era alguém com quem eu tinha qualquer fodido negócio. Eu me estiquei, raspando uma mão na minha barba áspera com um suspiro. — Então, aqui estamos, — Bry disse, balançando a cabeça. — Me sirva um copo, porra, — gaguejei, pensando rápido. Bry bufou e voltou para fazer isso, servindo-me uma dose grande e bebi. — Tudo bem, — eu disse, gemendo com a queimação. — Dez mil. Vou cobrir isso, — decidi, vendo como a única saída para a situação de merda. Bry estava balançando a cabeça antes de eu terminar. — Ele tem contatos por aí para manter um olho nas coisas. Se as pessoas começam a reclamar que eles não encontram 30s por aí, de repente, numa porra festa noturna, haverá perguntas. Elas seriam do tipo que vem com um monte de sangue da minha parte. — Ele fez uma pausa, olhando para os pés. — Gostaria de dizer que sou forte o suficiente ~ 98 ~


para manter minha boca fechada, mas ele é um fodido doente e não posso fazer essa promessa e Dusty... Dusty poderia pagar por suas malditas conexões. — Tudo bem, quem é o fodido que sabe sobre você? — perguntei, esperando que, se ele fosse tão estúpido para se ligar com algum traficante em Camden, ele seria pelo menos inteligente o suficiente para manter suas atividades pouco legais para si mesmo. — Além de literalmente cada fodido com quem eu lido? — ele perguntou, fazendo um bom ponto. Os viciados eram um tipo desesperado. Se eles percebessem que Bry sempre estava com uma grande quantidade de drogas e o seguiram casualmente, achariam que nosso prédio era uma parada constante dele. E Dusty, bem, ela não poderia ter sido um alvo mais fácil, poderia? — Você ama Dusty, não é? — perguntei, fazendo o idiota se sentir culpado. — Ela é minha melhor amiga desde que éramos crianças, — ele protelou. — Como você poderia deixá-la tão desprotegida? — perguntei, sem raiva na minha voz, apenas um tipo profundo de tristeza, em vez disso. Quando você ama alguém, você cuida dela. Mesmo se estivesse envolvido com uma merda obscura, como eu e minha família, você se certificava de que isso nunca tocasse suas mulheres ou crianças. Bry balançou a cabeça novamente, olhando para o copo vazio. — Ela é teimosa pra caralho, cara, — ele disse e quase queria sorrir. Percebi isso sobre os pratos, mas era difícil imaginar que ela fosse tão teimosa que não poderia obrigá-la a ter um sistema de segurança ou um guarda ou um cachorro ameaçador para sua segurança. — Eu nunca quis que ela estivesse envolvida. Ela nunca deveria tocar nessa merda. Bem, isso era uma puta verdade. E eu tinha que dar-lhe pelo menos um pouco de relutante respeito por saber disso. — Então, por que ela está nisso? ~ 99 ~


— Olha, é fácil julgar de fora, cara. Mas você não estava aqui para vê-la desmoronar. Não viu os ataques de pânico e a maneira como ela começou a se fechar. Você não ficou ao lado dela assistindo a cada pessoa em sua vida, menos eu e seu tio, desistir dela. Sua própria mãe disse que ela era um maldito peso e se recusou a vir aqui. Disse que se Dusty quisesse vê-la, ela teria que sair para almoçar em algum lugar. Não gosto de chamar as mulheres de cadela, mas ela é uma, ― ele acrescentou, olhando para mim. — Ela teve que abandonar seu trabalho. Teve que mudar de seu apartamento antigo. Ela tinha pouco dinheiro. Eu sabia que ela estava quase falida e estupidamente conversei sobre a necessidade de um lugar seguro para manter meu estoque. E essa merda começou daí. Quero dizer, eu poderia ter conseguido um armário em algum lugar, sabe? Mas ela estava tão desesperada e não aceitaria esmolas. Então, na verdade ele não precisava pagar a ela... seja lá que inferno ele pagou pra ela para segurar sua mercadoria. Ele estava apenas, de um jeito distorcido, sendo um bom cara. — Tudo bem, — eu disse, decidindo encerrar minhas acusações, concordando que não estive lá. Eu não sabia o que eles passaram como amigos. Não tinha ideia de como era sentar-se e assistir a alguém que você ama perder a vida por causa de algum monstro invisível dentro dele. Imaginei que também teria feito tudo o que fosse necessário para ajudá-la. E Bry não tinha os privilégios que eu tinha. Ele fez o que podia. Era inútil jogar a merda sobre ele. — Vamos tentar consertar essa merda antes que tudo exploda em nossos rostos. Ele acenou com a cabeça, concordando. — Como eles eram? — Dois caras. Ambos eram de altura média, talvez um metro e setenta. Grandes, mas não gordos. Atarracados. Cabelos escuros, olhos escuros. Trinta a trinta e cinco anos. Lutadores não treinados. Briga de rua. Para não dizer que eles são o tipo de escória que colocaria as mãos sobre as mulheres. — Infelizmente, essa pequena parte realmente não reduziu muito, não é? — Ele perguntou, provando novamente que ele era decente. O que diabos aconteceu em sua vida para levá-lo ao tráfico de drogas? — Cicatrizes? Tatuagens? Sotaques? Eu me concentrei um pouco, tentando pensar, tentando lidar com a raiva que obscurecia a minha visão naquele momento. — Aquele que a machucou, ele tinha uma cicatriz na sobrancelha, cortando-a ~ 100 ~


completamente em duas partes. O outro, não olhei tão bem para ele. Mas aquele com a cicatriz da sobrancelha, seu rosto parece carne moída agora. Seus olhos se fixaram nos meus por um minuto, procurando por algo. E deve ter achado, porque seus lábios se apertaram em uma linha firme, seus olhos ficaram mais cautelosos e ele me deu um pequeno aceno de cabeça. Aceitando, talvez, que Dusty fosse minha. — Posso lidar com isso, — ele disse, balançando a cabeça. — Você não tem muito tempo, — avisei. Se eles tivessem um estoque assim tão grande, poderiam tentar transferir isso e arranjar a grana. Mas se ele conseguisse recuperar a maior parte das pílulas, as coisas não iriam dar em merda. — Não vou precisar, — ele disse com uma espécie de fúria que eu admirava em alguém, independentemente da profissão. — Bom, — eu disse com um aceno de cabeça. — Se você precisar de alguma motivação, — acrescentei, alcançando o meu telefone e abrindo o texto que Eli enviou não só para mim, mas para toda a minha maldita família em sua tentativa de mostrar que todos nós precisávamos estar na situação dela, acho, e mostrei a foto de Dusty. O rosto de Bry caiu quando ele pegou o telefone, segurando-o e olhando para ela por um longo tempo antes de me devolver e deixando seu olhar se encontrar com o meu. O que eu vi lá? Fúria. E o tipo de determinação que dizia que ele encontraria os fodidos que fizeram isso, não importa o que fosse necessário. Não para salvar sua própria pele, mas como acerto de contas. — Só para que fique claro, quero saber quem são eles, — acrescentei, guardando meu telefone. — Sim, — disse Bry, puxando seu próprio celular e digitando, pedindo meu número depois me fazendo adicionar um contato chamado — Eddie's Pizza. — Seja inteligente, — adicionei enquanto ele guardava seu telefone. — Não dê a seu chefe nenhuma razão para se aproximar, porque você está sendo um fodido lunático. ~ 101 ~


Ele acenou com a cabeça, passando por mim, mas não indo para a porta e sim para o corredor do apartamento dela, fazendo minhas sobrancelhas se juntarem quando ouvi barulho no banheiro. — Você tem uma banheira? — ele perguntou estranhamente, sua voz elevada. — Ah... sim, — respondi, ainda mais curioso porque ouvi outro baque e depois ele saiu com uma caixa decorada verde e branca nas mãos. Ele alcançou dentro do bolso e puxou um pequeno pacote embrulhado de Natal e colocou-o dentro da caixa antes de entregar tudo para mim. — O que é isso? — perguntei, puxando a tampa e vendo uma tonelada de pequenas bolas redondas preenchidas com o que parecia ser ervas e flores secas. — Sais de banho, — ele informou, encolhendo os ombros. — Ela fica estressada, ela precisa de um banho. Às vezes, cinco vezes por dia em um dia ruim. Ela gosta dessas coisas. E você vai querer colocar seu computador no seu apartamento se ela não voltar aqui. — Por quê? — eu perguntei, colocando a tampa de volta na caixa, sabendo que o pequeno pacote que ele pegou era mais que seus sais, mostrando de novo como ele a conhecia bem. Outra pequena e inexplicável onda de inveja percorreu-me e tive que me lembrar de que um dia eu também a conheceria bem. E melhor. Pelo menos eu esperava. — Ela tem compromissos com sua psiquiatra através de um computador, — ele disse, balançando a cabeça para o computador no canto. — Vídeo-chamadas. No entanto, acho que ela vai cancelar até que seu rosto esteja um pouco melhor. E, além disso, ela precisa ser capaz de escrever e encomendar a merda que ela precisa. Como você sabe, ela não consegue sair. — Certo, — concordei, balançando a cabeça ligeiramente. — Ela tem medo de voltar, não é? — ele perguntou, fazendo um gesto ao redor. — Acho que sim, — respondi, não totalmente seguro.

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— Está tudo quebrado. Tudo isso, são coisas dela. Era tudo perfeito e como ela precisava. Agora está tudo fodido. Quando essa merda explodir, vou compensar e pagar para refazer essa decoração... — Disse ele com fúria, querendo fazer isso direito. Mordi minha língua para me impedir de dizer que, quando explodir, esperava que ela estivesse comigo de forma mais permanente. Porque aquela merda era louca. Ele caminhou em direção à porta, segurou a maçaneta, mas voltou-se para mim. — Mallick, — ele disse, a cabeça inclinada para o lado. — Agiota. — Executor, — falei, encolhendo os ombros. Tecnicamente, meu pai era quem fazia o empréstimo real. — Ela merece coisa melhor, — ele disse e eu sabia que ele queria dizer melhor do que nós dois, porque ele também a queria. — Minha sujeira nunca a tocará, — falei com tanta convicção, era praticamente um voto. — Melhor não... porque goste ou não, faço parte da vida dela e se eu imaginar que você não a está tratando bem, você e eu... vamos ter um problema. Acenei com a cabeça, respeitando essa posição mais do que ele saberia. — Entendido, — confirmei com um aceno de cabeça. Ele estava se afastando, mas voltou novamente. — Não a pressione, — ele acrescentou e, nisso, desapareceu. Olhei a porta fechada por um longo minuto, ouvindo o som do elevador e sabendo que ele tinha ido embora. Não a pressione. Entendi. Principalmente, entendi isso. Mas também não estava de acordo com isso. Eu não podia fingir entender o que Dusty estava passando e com o que Bry lidou ao seu lado ao longo dos anos, mas sabia que ~ 103 ~


simplesmente aceitar a condição não ajudava. Você não precisava pressionar, mas precisava incentivar a mudança. Se ele esteve ao lado dela todos os dias, trazendo para ela o que ela precisava e nunca tentando ajudá-la a sair de sua concha, de seu apartamento, de sua pequena prisão pessoal, então ele, de certa forma, fez mais mal do que bem. Eu não queria pressioná-la. Mas queria ver seu progresso. Não por mim. Não porque quisesse levá-la comigo em todos os lugares que eu fosse ou porque não me contentaria em vê-la no meu apartamento quando chegasse em casa. Mas por ela. Porque ela merecia ter uma vida que não a fizesse sentir como se estivesse constantemente presa, como se ela estivesse cercada por lobos que a consumiriam se tentasse sair de sua zona de conforto. Veja, o engraçado é que as zonas de conforto às vezes podia ser uma arma. Às vezes, podia ser uma lembrança. Às vezes podia ser um apartamento inteiro. Mas às vezes, oh às vezes, podia ser uma pessoa. E eu tentaria, como o inferno, provar que poderia ser isso para ela. Que sempre seria um lugar seguro para ela se aterrar, que eu poderia pegar sua mão e levá-la para fora, e mostrar-lhe que os lobos filhos da puta se encolheriam diante de mim e eles nunca poderiam machucá-la novamente. Talvez fosse muito cedo para isso. Talvez fosse irracional querer ser isso para alguém que você mal conhecia. Talvez ela nem sequer quisesse que eu seja isso para ela. Mas, independentemente de tudo isso, eu tentaria.

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Dez DUSTY

Levou uma eternidade para ele dar o seu telefonema, o que, bem, não era da minha conta. Então, terminei de lavar os pratos e guardei os vegetais não cortados que Ryan havia deixado de fora e voltei para o quarto para fazer a cama. A empregada de Ryan mantinha as coisas organizadas. Mesmo com a minha necessidade ligeiramente discreta de que as coisas estivessem na ordem certa e limpas, descobri que, depois de arrumar as coisas que Ryan, Eli e eu tínhamos usados nesta manhã, literalmente não restava nada. Então, com uma perda, sem nenhum dos meus confortos habituais para me manter ocupada, encontrei um bloco de notas na gaveta da cozinha no qual Ryan e Anita costumavam deixar as mensagens um ao outro, a julgar pelas seis páginas de mensagens dizendo a Anita para comprar limões e proteína em pó, ou Anita dizendo a Ryan que ela usou o cartão que ele deu para comprar suprimentos de limpeza e mantimentos, e que o recibo estava na gaveta. Depois de me achar olhando sua escrita rabiscada e inclinada por muito mais tempo do que eu queria admitir, peguei uma caneta e o bloco de notas no sofá e me sentei para escrever um pouco. Nem mesmo o ouvi entrar, achando que ele se movia silenciosamente quando não estava com sapatos de trabalho. Achei interessante porque, literalmente, todos os outros homens que já conheci pareciam fazer tudo com passos pesados, pisando forte no banheiro no meio da noite, batendo armários na cozinha, bocejando como se estivessem sendo pagos para realmente torná-lo crível.

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Mas então o sofá ao meu lado se afundou quando ele se sentou, fazendo minha almofada pular ligeiramente e meu coração voar na minha garganta, ainda não acostumada a ter alguém ao redor. Olhei e observei enquanto a expressão um tanto tensa de Ryan se suavizava até surgir um pequeno sorriso. Ele estendeu a mão em minha direção, seu polegar pressionando minha bochecha e esfregando. — Tinta, — ele explicou, afastando o dedo e me mostrando o azul. Quando eu estava pensando, tinha o hábito de tocar a caneta contra minha bochecha com impaciência. — Obrigada, — falei, fechando o bloco para que as notas dele e sua empregada escondessem minhas palavras. Sempre fui tímida com as minhas escritas até que fossem um projeto acabado e as liberava para o público. — Então, trouxe algumas coisas de sua casa, — ele disse, indicando a cozinha com queixo, fazendo-me seguir seu olhar, chocando-me quando notei que toda a ilha estava coberta. Ele não era apenas silencioso, ele era praticamente um ninja. — Encontrei seu notebook e carregador desde que o computador era demasiado para o projeto, algumas coisas de banho, algumas roupas e alguns dos livros que pareciam estar em uma pilha não lida. Era totalmente uma pilha não lida com uma pilha de marcadores em cima, um para cada livro. — Obrigada, — disse novamente, dando-lhe outro sorriso grata. Bom. Ele era muito bom. — Encontrei Bry, — ele disse exatamente quando me levantei e comecei a apanhar a pilha, fazendo-me girar de volta, a boca fechada, os olhos incomodados. — O quê? — disse com meu coração disparando novamente, mas não de forma surpreendente, de uma maneira muito ansiosa. Ryan e Bry? Não. Combinação ruim, muito ruim. ~ 106 ~


— Dusty, respire, — ele sugeriu, o tom quase irritantemente calmo enquanto eu pensava em um milhão ou dois de motivos de que ele falar com Bry era uma coisa absolutamente terrível. — Nós apenas discutimos algumas coisas e chegamos às mesmas conclusões. — O que, — ele continuou quando me movi para interromper, — não inclui deixar você se preocupar com nenhuma maldita coisa sobre isso. Você já sofreu bastante. Ele também deixou seu presente de Natal. Está na caixa com as coisas de banho, — ele acrescentou, casual, como sempre, embora literalmente me contou que estava lidando com um problema que envolvia um traficante de drogas e homens que me espancaram e me roubaram quando ele quase não me conhecia. — Então, ouvi que você gosta de banhos quando está ansiosa, — ele continuou, de pé e atravessando o piso em minha direção. Ele pegou a caixa na qual eu mantinha meus sais de banho e me entregou. — Nunca usei a banheira, mas Anita a limpa toda vez que está aqui, então está limpa e é toda sua. Gaste todo o tempo que você precisar. Todo o tempo que eu precisar? Para aceitar que um cara, por quem eu talvez estivesse começando a sentir alguma coisa pela primeira vez em anos, que mal me conhecia de alguma forma, está lidando com meu problema com a distribuição ilegal de medicamentos prescritos? Sim, eu tinha certeza de que não havia água quente suficiente no prédio para gastar até eu enfrentar esse tipo de coisa. — Enquanto você faz isso, vou começar a preparar as coisas para mais tarde. — Mais tarde? — repeti, minha mente indo em muitas direções para decifrar o que isso significava. Sua cabeça abaixou um pouco, os olhos cálidos, sorriso doce. — Véspera de Ano Novo, querida. Nós temos um encontro. Um encontro. Tinha certeza de que fiquei bastante corada com essa palavra. Faz tanto tempo que tive algo tão normal como um encontro com um homem. — Certo, — concordei com um sorriso hesitante. ~ 107 ~


— Tenho bombas de confete, — ele acrescentou, parecendo quase um pouco envergonhado com a ideia. Ao ver isso, senti que algumas das minhas tensões desapareceram. Se existiam coisas que o fazem se sentir um pouco inseguro, e aquelas coisas eram bombas de confetes, então ele parecia um pouco mais humano para mim. — Parece bom, — Falei, querendo de verdade falar isso. Então segui adiante e tomei um banho de uma duração respeitável. Pelos meus padrões. Por isso, foi um longo banho de duas horas, para os padrões normais. Mas, bem, depois que a ansiedade sobre Bry e tudo isso se dissipou, outra ideia cruzou minha mente. Eu ia ter um encontro. Com um homem com quem já tinha dado, tipo, uns amassos na minha sala de estar na semana anterior. Então, se as coisas seguissem como costumavam seguir, essas coisas e outras poderiam acontecer. Isso significava, hum, que alguma atenção adicional precisava ser feita para alguma preparação. Então fiz isso e me besuntei com a loção que ele trouxe para mim e entrei nas roupas que ele escolheu, sentindo um pouquinho de vergonha ao saber que ele passou pela minha gaveta de roupa íntima, já que trouxe conjuntos de sutiãs e calcinha, todos empilhados na cozinha. Mas, se as coisas seguissem como eu esperava, e estava um tanto meio apavorada que isso iria acontecer, a jogada final era ele ver minha calcinha e sutiã de qualquer jeito. De preferência, quando ele os retirasse. Talvez com os dentes. Ok. Eu estava me precipitando. Quando voltei, Ryan estava na cozinha cortando vegetais e colocando-os em uma travessa que eu apostaria que ele não comprou para si mesmo. Que homem pensava em coisas como ter travessas? — Sentindo-se melhor? — ele perguntou, de alguma forma me ouvindo mesmo de costas para mim. ~ 108 ~


— Sim, obrigada. Ei, cadê as minhas coisas? — perguntei, caminhando até a ilha, que estava lotada com as minhas coisas quando eu saí, mas de repente só estava coberta de comida, lanches para o nosso pequeno encontro da véspera de Ano Novo. Mesmo a ideia disso fez com que minha barriga tivesse uma pequena borboleta batendo asas, algo que eu não tinha certeza de ter experimentado desde o ensino médio. — A roupa está na segunda gaveta no quarto. Você pegou as suas coisas de banho. Seu notebook e seus livros estão na mesa de café da sala de estar. Ele estava... me mudando? Quero dizer, levar os livros e o notebook para a sala de estar não era estranho. Ele precisava do balcão para colocar a comida. Mas colocar minha roupa na sua cômoda? Ele era o tipo de homem que se vestia bem, tinha que usar todas as gavetas da sua cômoda. Então, ele esvaziou uma para mim? — Você não precisava... — Achei que você não se sentiria muito confortável em seu apartamento agora. Você parece bem aqui. Ele deixou isso no ar, esperando que eu entrasse em algum tipo de acordo. — Eu estou, — concordei, examinando. Não era nada como meu apartamento. Tudo era escuro e simplificado. Enquanto meu apartamento sempre estava limpo, eu tinha bibelôs e itens pessoais para ficar mais aconchegante. Ryan não tinha muitos, além de talvez as imagens emolduradas de suas sobrinhas. Não deveria ser confortável para mim. Era o oposto de tudo o que eu achava que fosse relaxante. Mas, de alguma forma, ainda era. Talvez porque fosse dele. Talvez o meu conforto não estivesse no próprio lugar, mas na pessoa a quem isso pertencia, que vivia nele, tocava tudo dentro dele. — Bom. E, como eu disse, é bem-vinda durante o tempo que você precisar. Fazia sentido guardar suas coisas. Ele falou tão casualmente, encolhendo os ombros, como se não fosse grande coisa que quase acreditei. Até que me lembrei do namorado que tive dos dezoito aos vinte e dois que não me deixou ter uma gaveta em sua casa até que exigi isso com um ultimato.

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Significa algo quando um homem voluntariamente, sem que lhe tenha sido pedido, abriu espaço para você. E assim, quando dei por mim, eu estava morando com o Ryan Mallick. Foi quando peguei meu reflexo no micro-ondas. As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las. — Ryan, quanto tempo até o meu olho abrir? — perguntei, dizendo sobre o inchaço. Ele apoiou a faca no tabuleiro e se virou lentamente, me dando um sorriso simpático. — Não há maneira de dizer. Todos se curam de forma diferente. Algumas pessoas verão uma diferença em alguns dias, outras levam semanas ou meses para ser honesto. Você precisa por mais gelo, — acrescentou, indo ao freezer e retirando um novo saco de gelo e o embrulhou. — Vinte minutos no olho e tira por trinta minutos, — ele me disse, me dando isso. — Obrigada, — agradeci, dando-lhe um pequeno sorriso e indo para o sofá, ligando a TV e deitando-me para seguir as ordens. De alguma forma, talvez devido à persistente da dor de cabeça em minhas têmporas ou ao estresse do último dia e meio, eu adormeci. Houve uma sensação de cócegas ao lado do meu rosto, fazendome resmungar e bater no ar. — Deixe-me em paz, Rochester, — murmurei, apenas para ouvir uma risada baixa e profunda que, sim, até meio adormecida, eu sabia que não pertencia ao meu gato. Meus olhos se abriram. Sim, os dois. Aparentemente, a crosta de gelo ajudou um pouco. Não estava totalmente aberto, mas eu podia ver mais do que uma fenda. E o que vi era Ryan sentado à beira do sofá, sua mão ainda retirando meus cabelos secos de parte de meu rosto. Se meu cabelo estava seco, então... — Há quanto tempo eu dormi? — perguntei, tentando levantar, mas ele me empurrou de volta. — Algumas horas, — ele encolheu os ombros. — Quantas horas? — Cinco, — ele admitiu com um sorriso. — Cinco horas! Por que você não me acordou?

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— Imaginei que você precisava recuperar o atraso. Substituí o seu saco de gelo algumas vezes. Uma coisa boa. Talvez você seja uma das sortudas que só têm uma semana ou mais de inchaço. — Como você sabe muito sobre coisas assim? — Coisas como o quê? — ele perguntou, mas foi apenas para esquivar-se. Ele sabia exatamente do que estava falando. — Lesões, lutas e tudo isso. — Acho que essa é uma história para outro dia, — ele disse, me fazendo endireitar ligeiramente. — Vou te contar, — ele me tranquilizou, observando de perto minha mudança. — Mas não vamos lá esta noite, ok? — ele pediu e porque ele parecia precisar disso, decidi concordar com ele. Eu sabia o como era se sentir não estar preparado para falar sobre algo, querer trabalhar com isso. — Ok. Então, o que você fez enquanto eu estive apagada? — Frios e algo mais, — ele ofereceu, encolhendo os ombros. — Minha cunhada me disse que a véspera de Ano Novo não era o tipo de noite em que você faz uma refeição enorme. Então, é tudo lanche e aperitivos. Preparei alguns queijos fritos e patês com pães. Não sei qual é sua tolerância a álcool e pensei que deveríamos forrar o estômago com uma boa camada de gordura e carboidrato. — Boa ideia. Não tive mais que duas taças de vinho, bem, em anos. — Na verdade, eu me recusei a manter muito álcool na minha casa porque sabia como seria fácil chegar um copo de algo durante um tempo estressante. E então isso se tornaria uma muleta. — Bem, champanhe à parte, tenho de tudo, — ele disse, acenando em seu armário de bebidas. — Benefícios de ter um bar na família. — Que bar? — perguntei, movendo-me para me sentar. — Chaz's. — Não diga, — eu disse com um grande sorriso. — Esse foi o primeiro bar no qual entrei quando fiquei maior de idade. — Tipo, único que segue as regras na cidade, — ele concordou. — Embora eu tenha entrado e bebido ilegalmente com meus irmãos mais do que uma ou duas vezes. ~ 111 ~


— Mesmo? — perguntei, sorrindo com a ideia de ele ser um encrenqueiro. Ele parecia tão seguro e responsável. — Eu chamaria de pressão dos colegas, mas eu realmente só queria saber qual era a comoção sobre aquilo. Meu pai entrou e nos achou vomitando no banheiro. — Ele ficou chateado? Ele riu um pouco com isso. — Meus pais não são pais típicos. Meu pai era o tipo de homem que corrigia o “problema”, quando Shane decidiu fumar, ele o fez fumar um maço inteiro, um após o outro, até ficar tão enjoado que nunca mais tocou em um. — Então estou presumindo que quando vocês melhoraram... — Ele nos fez beber até que vomitássemos novamente, — Ryan concordou, sorrindo para a memória. — Papai é durão, mas funcionou. Em parte. Nós não nos esgueiramos mais para o bar. Pelo menos, foi um bom ano ou dois antes de qualquer um tocar em álcool novamente. — Como é sua mãe? — perguntei, gostando do panorama que ele estava criando para mim. — Ainda mais durona do que o meu pai, se você puder imaginar. Papai teve que trabalhar muito quando éramos crianças e ela ficou presa com cinco instigadores de problemas, desafiadores de limites e pés no saco em geral. Ela tinha que ser uma força para lidar com todos nós. — Tipo, como? — insisti, percebendo o modo como o sorriso dele era nostálgico falando sobre sua família, seus olhos um pouco longe na memória. — Shane teve um toque de recolher, seguido de uma história próxima de congelamento que ele pode contar em algum momento, — ele disse com facilidade, apenas assumindo que isso aconteceria eventualmente, uma certeza em seu tom que quase me fez acreditar também. — Há uma história de queda na janela da cozinha que, acho, Hunter tem que contar. Mark tem uma história de acordar na mangueira do jardim. — E você e Eli? ~ 112 ~


— Eli, em geral, ficou mais sem problemas do que o resto de nós, mas ele nunca conseguiu seguir ordens simples. Um tempo atrás, Mamãe exigiu que todos levássemos companhia para o jantar de domingo. Era obrigatório. Se nós não fizéssemos, não comíamos. Eli não comeu. E ela o fez ajudá-la a servir e tudo, — acrescentou, rindo. — E você? — Hmm, — ele disse, pensando nisso um segundo, suas próprias histórias não vinham tão fácil para ele quanto as de seus irmãos. — Eu estava no último ano e sabe-se lá porque motivo, todos nós devíamos praticar algum esporte. Eu diria que era porque ela queria que aprendêssemos a trabalhar em equipe ou alguma merda assim, mas na verdade, acho que ela só queria algumas horas para si, quando não a deixávamos louca depois da escola. E eu, idiota que era, não optei por baseball, onde eu poderia ficar sentando na maior parte do treino, ou luta livre, como Shane, para poder usar as habilidades que aprendi para lutar com meus irmãos por toda a minha vida. Ou mesmo líder de torcida, como Mark... — Oh, não, não, não, — eu o cortei. — Você não pode simplesmente deixar cair uma bomba dessa como seu irmão sendo um líder de torcida e seguir em frente, — eu disse, rindo. — Você teria que conhecer Mark para entender completamente. Ele é, ah... não há uma maneira simpática de dizer um galinha, então vou seguir em frente e usar isso. Ele sempre, realmente amou mulheres. Todos os seus amigos, fora nós e talvez Colt, eram do sexo feminino. Ele namorou uma garota diferente a cada semana na escola. E quando ele foi forçado a praticar um esporte, bem, por que não escolher um onde ele poderia deitar e rolar ao redor de um monte de garotas quentes todos os dias? — Cara inteligente, — concordei, decidindo que Mark era definitivamente um irmão que queria conhecer. — O que você fez? — Trilha, porra, — ele admitiu com um resmungo. — Não faço a mínima ideia do que estava pensando. Desisti depois de, não sei... duas semanas. Isso foi mais do que uma merda para mim. Mas então, Mamãe descobriu. E minha mãe, além de ser uma rigorosa adepta das boas maneiras, obrigação familiar, respeito pelos mais velhos e tratar bem as mulheres, bem, ela odeia desistentes. Se nós nos inscrevemos, nós terminamos. Sem desculpas. ~ 113 ~


Sua mãe era tudo, minha mãe não era. Acho que aprendi as boas maneiras apesar dela, não por causa dela. — O que ela fez? — Ela veio e me pegou todos os dias na escola, me vestiu roupas de ginástica e depois dirigiu ao meu lado enquanto eu atravessava os bairros, por mais longo que fosse. Todos os dias. Mesmo nos dias em que chovia e a trilha real foi cancelada, lá estava eu, correndo, com ela dirigindo ao meu lado, então não tive como escapar de fazer isso. — Sua mãe parece incrível, — admiti. — Como era a sua? — ele perguntou, fazendo meu sorriso desaparecer. Minha mãe nunca foi um bom tópico para mim. Um, porque atualmente temos um relacionamento ruim. Dois, por causa do jeito como fui criada. E três, porque ela não via nada de errado na forma como ela me criou. Eu era filha única, obviamente. Fruto de um caso de curto prazo com um homem muito mais velho, quando ela tinha praticamente dezoito anos. Quando perguntei sobre ele, tudo o que ela me contou era que ele era alto e loiro, seus cabelos rastafári e com uma barba que ele untava com óleo de rosas e lavanda e passava oito horas por dia meditando e fazendo ioga e esperando a Segunda Vinda chegar. Ela nunca me deu o nome dele. Um dia, quando fiquei bem mais velha, percebi que... talvez ela nem tivesse um nome para me dar. Não havia um jeito agradável de dizer que sua mãe era, bem, um pouco vadia. Mas era exatamente o que ela era, em quase todo o sentido da palavra. Casos de uma noite, aventuras de fim de semana, namoricos curtos. Passei mais tempo em apartamentos de homens que não eu conhecia do que naqueles onde minhas coisas me pertenciam. E ela também não tinha nenhuma bússola moral. Namorava jovem, velho, casado, noivos. Não se importava. Monogamia é um conceito religioso, não uma normalidade humana. E, embora isso possa ter sido correto, não era desculpa para arrastar uma menina pequena e impressionável e colocá-la em casas ~ 114 ~


de pessoas onde ela não sabia se poderia confiar. Tive sorte de nunca ter sido abusada nas situações em que ela nos colocou. Ela gostava de se chamar de hippie, fã do amor livre e da ingestão mais que ocasional de ácidos para fins “espirituais”. Nunca tive hora de dormir. Comi o que queria, mesmo que fosse uma caixa inteira de cereais de açúcar para o jantar. Nem sabia o que era um dentista até os dez anos e meu tio cuidou de mim e fez aquelas coisas normais comigo, médico, dentista, oftalmologista, as tarefas. Nunca aprendi nada sobre a civilidade humana básica quando estive ao lado dela. E, bem, o fato de que ela passava em Navesink Bank, me deixava e depois saía sem mim apenas para aparecer semanas ou meses ou mesmo anos depois, diz muito sobre ela. — Ela era difícil, — Ryan concordou quando eu terminei de contar tudo isso. — Você teve sorte de ter seu tio. Palavras mais verdadeiras nunca foram faladas. Não queria imaginar como eu poderia ter acabado se ele nunca tivesse sido parte da minha vida. Uma grande parte em mim pensava que talvez eu acabaria como a minha mãe. E, bem, era a pior coisa que poderia acontecer. Eu ficaria feliz em ter minha agorafobia do que aquilo qualquer dia. — Posso te perguntar uma coisa, — ele começou, mas continuou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. — E está tudo bem se você não quiser falar sobre isso. Senti minha barriga apertar, meu coração vibrando de uma maneira que estava insinuando o pânico, mas não deu o salto ainda. — Claro. — Como sua agorafobia se tornou tão ruim? Certo. Veja, era estranho que, depois de um tempo vivendo a vida de certa maneira, pode ser fácil esquecer que isso não é normal. Não gastava todos os momentos do meu dia no meu apartamento pensando na loucura em que vivia, como eu estava aleijada pela minha condição. Acabei por me adaptar. Vivia da melhor maneira ~ 115 ~


possível. Cozinhava, limpava, lia, escrevia, pagava contas. Era uma vida muito simples, mas era uma vida. Então, quando isso era mencionado, quando era jogado na minha cara, meu instinto imediato era desligar. Esse era o meu mecanismo de defesa. Depois de tantos anos de perturbador e desapontar as pessoas, era difícil tocar no assunto. Mas havia Ryan, bom, paciente, compreensivo e ele queria saber. Não porque queria me acusar de algo como ser uma amiga ruim ou não o apoiar, mas porque queria me entender melhor. Não podia negar-lhe algo que era uma grande parte de mim. Respirei fundo, virando o olhar para minhas próprias mãos e esfregando meu polegar contra meu outro polegar, um estranho hábito que achei reconfortante. Talvez eu fosse capaz de lhe dizer, mas não pensei que poderia fazer isso com contato visual. — Quando minha mãe me abandonou pela última vez quando eu era adolescente, eu progredia com meu tio. Sentia-me bem ter raízes e saber que não seria arrancada novamente a qualquer momento. Então me resolvi. Fiz amigos. Socializei. Eventualmente, namorei. Era normal. Fui para a faculdade. Voltei e consegui um emprego na escola primária. Consegui um apartamento e tive muitos amigos e compromissos sociais. ― E então, um dia, sem mais nem menos, eu estava comprando em uma loja onde já tinha estado um milhão de vezes e eu simplesmente... perdi o controle. Não entendi na época, a tontura, o batimento cardíaco acelerado, o suor frio, o formigamento e as sensações quentes e frias, a pressão no meu peito que dificultava respirar. Tudo o que sabia era que precisava correr. Então, corri e nunca mais voltei para a loja. Tudo ficou bem por um tempo. E então aconteceu em uma loja diferente. E parei de ir lá. Aconteceu em restaurantes, bares, clubes, cafés. E parei de ir lá também. Então, no trabalho. Eu tive que sair. — Na época não entendi o que fez essas fugas progredirem tanto. Não entendi até finalmente comecei a ver uma terapeuta. Você sabe, — falei, rindo de mim mesma, — até que também não voltei para o consultório dela. A única maneira real de lidar com isso é enfrentar. — Terapia de exposição, — ele disse, puxando minha cabeça, surpreendendo que ele soubesse o termo. ~ 116 ~


— Exatamente. Você precisa plantar seus pés e lidar com o ataque de pânico, não deixá-lo te expulsar do lugar. Porque, as chances são, uma vez que você sair... você nunca mais voltará. E isso te agarra para que você não possa mais sair do seu apartamento. Você não pode fazer mais nada. Durou talvez... mais de um ano e meio. Desde o primeiro ataque de pânico até a impossibilidade de sair do meu apartamento. Apenas um ano e meio. E, naquela época, decidi que eu estava “muito envolvida comigo mesma” ou “pouco solidária” com meus amigos, porque não conseguia chegar aos shows de sua banda ou reagir exageradamente, dizendo que queria ir, mas não consegui fazê-lo. Fechei os olhos, puxando algumas respirações profundas, sentindo uma picada familiar de lágrimas. Não costumava pensar nas pessoas que perdi ao longo do caminho, da maneira dolorosa como geralmente aconteceu. Bry foi o único que ficou. Quando eu conseguia sair, ele ia comigo. Quando eu tinha um ataque de pânico e precisava voltar, ele me trazia, pagava qualquer conta que tivéssemos, conseguia que nossa comida fosse embalada, depois vínhamos para meu apartamento e ele ficava lá comigo. Quando finalmente não consegui tentar sair, ele encolheu os ombros e aceitou. No final das contas, seu novo “empreendimento” o tirou de mim cada vez mais, me tornou ainda mais reclusa e faminta por contato humano, mas sabia que não podia esperar que as pessoas deixassem suas vidas para girarem em torno de meus problemas. Ele ainda vinha às vezes, mas geralmente apenas em dias de retirada ou entrega. Embora ele sempre tenha feito uma parada no meu aniversário ou para trazer um filme que tinha chegado em DVD e que eu queria ver no cinema, mas não conseguia ir. Mas ele nunca insistiu e esperou para fazer isso comigo. Ele era um bom comigo. Às vezes, senti que não merecia isso. Essa é a ansiedade de falar, meu terapeuta diria. — Posso perguntar mais uma coisa? — Ryan perguntou quando finalmente abri meus olhos, tendo vencido a batalha com as lágrimas. O que restava para me perguntar que poderia me incomodar? — Claro. ~ 117 ~


Meus olhos até foram até os dele e o encontrei observando-me atentamente, como se estivesse procurando a menor reação à pergunta que ele iria fazer. — Você e Bry já namoraram? — O quê? Não! — gritei, a ideia tão absurda que realmente ri/bufei com isso. Era um som muito delicado e encantador, deixe-me dizer. — Claro que não. Ele é o mais próximo de um irmão que tenho. Por que você pergunta isso? Sua cabeça inclinada ligeiramente, sua boca se abrindo e fechando um par de vezes, como se tentasse decidir me dizer ou não. Enfim, ele disse. — Porque ele está apaixonado por você, Dusty. Eu estava bastante certa de que uma bola de canhão inteira caiu e acertou a minha barriga com essa frase. Apaixonado por mim? Bry? Não, isso não era... Exceto, talvez fosse. Para ser sincera, eu admitiria que houve momentos tensos, silêncio pesado ao longo dos anos, quando ele estava lutando para dizer algo para mim, isso poderia ser amigável de uma pessoa sensível, (que Bry não era), mas não era normal para dois amigos de infância. Ele catalogou até os menores detalhes sobre mim e de alguma forma tocou nesse assunto de novo meses ou anos depois. Seus presentes sempre foram exatamente o que eu gostava. Amizades assim entre duas mulheres, eu poderia dizer que era normal. Mas talvez não funcionasse exatamente assim com homens e mulheres. Talvez sua consciência de mim tivesse menos a ver com apenas uma amizade e mais a ver com... algo mais. — Você não tinha ideia, — ele observou com precisão, me dando um meio sorriso. — Eu deveria saber, — disse, balançando a cabeça. — Uau. Eu realmente, realmente deveria ter visto isso. Quero dizer, talvez não ~ 118 ~


quisesse admitir isso porque ele era tudo o que eu tinha e admitir isso poderia ter arruinado... — Acho que você o subestimou, — ele me surpreendeu dizendo. — Ele pode estar apaixonado por você, querida, mas ele também te ama. Acho que uma parte dele sabe que você nunca retornaria os sentimentos e é por isso que ele não fez nada sobre isso. Talvez nem faça. Talvez ele sempre fique lá para você em qualquer situação que você precise. E provavelmente eu seja um merda por lhe contar isso, mas acho que é algo que você precisava saber. E, bem, eu precisava saber sobre seu relacionamento com ele. — Por quê? Seu sorriso foi um pouco provocador. — Porque essa coisa aqui entre a gente, se for do jeito que quero que seja... está acontecendo. — Está acontecendo? — repeti, minha barriga dando outra daquelas cambalhotas deliciosas, mas eu queria ter mais clareza. Precisava saber para não ficar completamente louca sobre o que ele queria dizer. — Sim. Acontecendo. Você está na minha casa. Gosto de você aqui. Gostaria que você continuasse aqui. Sei que é cedo e ainda não nos conhecêssemos bem, mas cedo ou tarde vamos saber mais um do outro. Eu precisava saber que você não estava tendo sentimentos contraditórios sobre ele antes de avançarmos. Avançarmos. Como em um futuro. Comigo? Acho que ele não percebia o que estava dizendo. — Ryan, não acho que você... — Eu entendo, — ele me cortou, balançando a cabeça. — Eu, ah, bem, fiz algumas pesquisas antes de decidir, Dusty. Sei no que estou entrando. E sei que não existe uma cura mágica, que são progressos e retrocessos, mas acho que você está superestimando o quanto isso importa para mim. Não sou uma pessoa social. Trabalho, volto para casa. Às vezes vejo a minha família. Eventualmente gostaria que você também pudesse ir nessas ocasiões, mas não estou dizendo ~ 119 ~


que precisa ser na próxima semana ou no próximo mês. Tudo o que estou pedindo é... — Progresso, — eu o cortei. Eu poderia fazer progresso. Quero dizer, eu estava fora do meu apartamento. Estava no dele. E não estava enlouquecendo. Isso já foi uma melhora. Conheci seu irmão e interagi com ele e isso também foi um progresso. Enquanto os passos eram pequenos e não as expectativas que me impuseram o fracasso, estava bastante segura de que poderia fazer isso. — Exatamente, — ele concordou, estendendo a mão e segurando meu joelho, dando-lhe um aperto reconfortante. — Pensa que isso possa funcionar? Eu dei-lhe um pequeno sorriso, não querendo me afastar, mas me sentindo esperançosa. — Acho que sim, — concordei. O sorriso que ele me deu, sim, valeu a pena decidir concordar em sair continuamente da minha zona de conforto. — Tudo bem, — ele disse, os olhos ficaram um pouco aquecidos enquanto seus dedos afundavam nos meus quadris e me puxaram até que eu não tivesse escolha senão ir em direção a ele, até me esgarranchar nele enquanto ele se sentou. Seus dedos deslizaram um pouco para trás, quase tocando minha bunda, mas não completamente. — Não quero te beijar porque não quero machucar seus lábios, — ele explicou, me apertando um pouco. Meus lábios? Quem diabos se importava com meus lábios quando eu tinha um homem doce, atencioso, lindo e sexy embaixo de mim, e que me queria como o inferno mesmo que eu fosse uma bagunça completa e total? Definitivamente não eu, podem ter certeza. Curvei-me para frente, minhas mãos deslizando em seus braços para se instalar nos lados do pescoço. Seus brilhantes olhos claros ficaram aquecidos com uma compreensão um momento antes que eu pressionasse cuidadosamente meus lábios contra os dele. ~ 120 ~


Eles ainda estavam inchados e havia uma pressão de dor, mas no segundo, seus lábios se moviam contra os meus, e bem, tudo o que senti foi uma inebriante, quase esmagadora, rajada de desejo. Sua língua traçou a costura em meus lábios e senti a umidade entre minhas coxas enquanto meus seios ficavam pesados. Meus quadris se abaixaram quando sua língua se movia sobre a minha, fazendo um pequeno gemido escapar de mim enquanto me contorcia contra seu comprimento duro, tentando aliviar a ânsia dentro de mim. Suas mãos me apertaram até quase doer, trazendo-me para frente novamente, encorajando-me a tomar o que eu precisava dele. E eu não poderia recusar esse convite, poderia? E me retorci contra ele, sentindo o prazer crescendo em seu interior, não aliviando a dor, mas prometendo um fim para ela. Minha testa pressionou a dele, muito perdida na sensação para lembrar-me de continuar beijando-o. — Querida, — ele disse, sua voz ressoando mais profundo e mais sexy do que o habitual, o que é realmente impressionante, pois sua voz normal já poderia me colocar de joelhos. Eu me afastei um pouco, abrindo meus olhos. Ele elevou os quadris e atingiu meu clitóris com uma pressão perfeita. Soltei um gemido alto e quase embaraçoso e seus olhos se fecharam quando ele soltou uma lenta exalação. Quando ele abriu seus olhos novamente, tirou sua mão de minha bunda e levou-a para frente, agarrando meu botão e em seguida abrindo o zíper mais rápido do que pensei que fosse possível. Então, sua mão deslizou para cima e para dentro, escorregando sob minha calcinha e acariciando minha fenda escorregadia. Encontrando-me molhada, um murmúrio atravessou seu peito enquanto o dedo dele subia e apertava meu clitóris, senti algo parecido com calor e gemi quando minha mão voou e agarrou seu braço forte. — Tudo bem? — ele perguntou, recuando seu dedo, querendo ter certeza de que ele tinha meu consentimento. As palavras ficaram sufocadas em minha garganta, de um jeito bom que era inteiramente uma novidade para mim. Acenei com a ~ 121 ~


cabeça, enquanto meus quadris fizeram um pequeno movimento que fez ele dar um sorrisinho diabólico. Não houve provocações, nem insinuações de que ele me levaria ao limite e me afastaria. Seu dedo trabalhou meu clitóris com uma pressão perfeita, mudando de direção ocasionalmente, fazendo meu corpo querer mais. Então, tão repentinamente quanto encontrou meu clitóris, seu dedo acariciou para baixo e circulou minha entrada por um longo momento antes de pressionar lentamente dentro. Com a sensação tão esquecida, mas tão bem-vinda, deixei escapar um som que mais parecia um grito enquanto eu me inclinava para frente e aninhava meu rosto no pescoço dele. Seu dedo deslizou completamente para dentro e sem hesitação, começou um impulso lento, doce e perfeito que fez todos os músculos de meu corpo enrijecer, minha respiração saindo estrangulada e frenética enquanto a pressão aumentava. Então, quando pensei que algo melhor não era nem remotamente possível, o dedo enrolou, acariciando minha parede superior e atingindo meu ponto G com uma segurança que me impressionou. Para ser sincera, tinha certeza de que nunca tinha achado aquele ponto sozinha. E, quando a sensação se tornou diferente de uma que já conhecia, sim, tive certeza de que ele conhecia meu corpo melhor do que eu. Meus quadris se moveram para cima e para baixo enquanto seu polegar deslocava para cima, começando a trabalhar em meu clitóris novamente. As duas sensações juntas me fizeram gemer e gritar alto, gemidos frenéticos que eu não sabia de que era capaz até ele me levar ao limite. Então, sem hesitação, jogou-me ao abismo. Eu me deixei levar pelo orgasmo. Não havia outra maneira de colocar isso. Todo o meu corpo esmoreceu fortemente, minhas pernas ficaram moles enquanto as pulsações passavam através de mim, começando do fundo da minha barriga e, em seguida, movendo-se para fora, até que a sensação parecia assumir todo o meu corpo. Recuperei meus sentidos ainda choramingando o nome de Ryan em meus lábios, meu corpo tremendo, minha respiração uma mera ~ 122 ~


imitação do que deveria ser, saindo em meros sopros de ar, quando seu polegar deixou meu clitóris, mas seu dedo fez um impulso suave, quase preguiçoso, lento, me trazendo cuidadosamente de volta. Desmoronei sobre ele, virei minha cabeça e plantei um beijo casto em sua garganta, muito sobrecarregada para dizer algo, nem sequer pensar em algo. Não sei dizer quanto tempo se passou desde que tive um orgasmo. Meses, pelo menos. E com outra pessoa? Anos. Vários anos. Era quase como a primeira vez na sua novidade, a maravilha que tudo consome. A mão de Ryan deslizou para fora de minha calcinha e descansou em minha coxa, a outra ao redor da minha parte inferior das costas e me segurando contra ele com força. — Porra, Dusty, — ele disse, com um rosnado desesperado. Eu sorri contra seu pescoço para isso. Porra. Isso definia tudo, não é mesmo? Meus quadris se moveram e o senti se pressionar contra mim, mais do que antes, e uma onda de culpa me percorreu, percebendo o egoísmo da situação. Afastei-me um pouco nervosa, abrindo meus lábios para falar, quando ele sacudiu a cabeça. — Não o quê? — perguntei, minha testa vincando. — Não, essa noite nós não vamos mais longe que isso, — ele disse, de alguma forma lendo perfeitamente a situação. — Ou, — ele continuou quando eu abri minha boca para protestar, para dizer que estava feliz em... equilibrar as coisas, — até que eu possa estar dentro de você e te beijar sem machucar você, porra. — Ryan, está tudo bem... — Não, — ele disse, balançando a cabeça, dando-me o que eu só poderia chamar de um olhar severo. — Não vai acontecer. Quando isso acontecer, quero que seja certo. Não é certo se estou machucando você. Então, estamos adiando isso. ~ 123 ~


— Mas isso não... — Shh, — ele disse, me empurrando para o lado de repente e me fazendo sentar-me ao lado dele, minhas pernas inclinadas sobre suas coxas. — Você acabou de... me mandar calar? — perguntei, sorrindo muito porque parecia tão fora do personagem para alguém como ele. — Sim, — ele concordou quando olhou ao redor para procurar o controle remoto. — Acho que está escondido no canto do sofá, — eu disse, sabendo que dormi com ele debaixo de meu corpo e que eu tinha a mania de rolar um pouco logo que acabava dormindo. — Não é muito cedo para, — comecei, mas ele encontrou o controle remoto, mudando de canal, e lá estava a Times Square. — Oh, — eu disse, olhando para baixo as horas na TV e vendo que já era bem depois das nove. — Nós temos três horas para beber, — ele disse, batendo a mão no meu joelho e apertando antes de usá-la para se levantar. — É melhor forrar um pouco o estômago, — ele disse, indo em direção ao armário de bebidas. — Qual é o seu veneno? Eu bebia vinho, uma ou duas taças. E quando Bry chegava de mau humor e precisava de uma bebida, tínhamos vodca, porque essa era a bebida. Minha bebida, bem, costumava ser um gin Martini muito seco com duas azeitonas. E cerca de dois deles poderia me derrubar, mesmo quando eu costumava beber socialmente. — Dusty, — ele perguntou quando eu só fiquei lá sentada. — O que você bebe? — ele repetiu, contraindo os lábios levemente se me achasse divertida. E, bem, se um homem poderia achar a minha falta de jeito divertida, então ele era um bom partido. — Você tem vermute? — perguntei quando lentamente saí do sofá. Percebi que meu zíper ainda estava aberto quando seu olhar foi lá e um sorriso surgiu em seus lábios. Senti minhas bochechas se aquecerem quando abaixei conscientemente para fechar. ~ 124 ~


— Qual armário de bebidas que se preze não tem vermute? — ele disparou de volta, curvando-se e olhando para dentro. — Como você quer, doce, seco, sujo ou perfeito? Minha cabeça se abaixou para o lado quando ele se endireitou, duas garrafas de vermute em suas mãos e eu só sabia que uma era francesa, significando seco, e a outra era italiana, o que significa doce. — Uau, isso é um conhecimento impressionante em bebida, — eu disse com um sorriso. — Seco. Bastante. Ele assentiu, guardando uma das garrafas e movendo-se para pegar um copo de Martini e gin. — Nós todos trabalhamos em turnos como bartender quando tivemos idade legal para isso. Meu pai achava que era importante compreender como administrar os negócios. Aprendi alguma coisa. — Parece que aprendeu um monte de coisa, — retruquei, caminhando em direção à ilha e pegando um prato de papel adoravelmente decorado com o tema Véspera de Ano Novo e o enchi com cenouras, aipo, batatas fritas e queijo. Se iríamos beber por horas e minha tolerância era tão baixa, ele estava certo, eu precisava forrar o estômago. Então, comemos e bebemos e fiquei um pouco alta. Cada parte de mim formigando e viva, minha cabeça descontraída e um pouco livre da ansiedade, o que me fez sentir revigorada quando me aconcheguei em Ryan no sofá, o seu braço forte em volta de mim, me entregando uma taça de champanhe quando faltava um minuto para a meia-noite. Nós assistimos às bolas caírem. Nós assistimos ao ano novo chegar até nós, oferecendo coisas que eu rezava que pudesse ter. Ele se inclinou, me deu um beijo doce, suave, cuidadoso com meus lábios e deu-me um quase sussurrou, — Feliz Ano Novo, querida. — Feliz Ano Novo, — eu concordei, dando-lhe um sorriso que senti até a minha alma quando ele ergueu a taça. — Progresso? — ele perguntou. E concordei com a cabeça. — Progresso. ~ 125 ~


Perfeito. Era tudo tão perfeito que doía. Você sabe, até o dia seguinte, quando tudo ficaria em ruínas.

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Onze RYAN

Nunca liguei para essas merdas de Ano Novo. Na maioria das vezes, ficava na cama meio adormecido, ou respondendo e-mails de trabalho à meia-noite. Simplesmente não era o meu lance. Eu não era um cara de festa e não tinha uma namorada séria para me importar sobre um beijo de meia-noite desde que eu tinha quase vinte anos. Mas, me esforçando um pouco, ficando acordado e vendo Dusty ser bombardeada do jeito mais lindo possível e, depois, ganhar um beijo de meia-noite? Sim, valeu a pena. Senti-la em torno dos meus dedos enquanto ela gritava meu nome no meu pescoço? Perfeito pra caralho. Compreendendo como ela chegou a ser como ela era? Isso foi incrivelmente importante. Eu precisava saber. Eu precisava ver como procurá-la no futuro. A história sobre sua mãe era fodida. Vindo de uma família que, enquanto seus métodos de parentalidade não eram exatamente tradicionais, todos eram próximos, no interesse de criar homens bons, fortes e respeitosos, eu não conseguia imaginar o que era não ter isso. Ser tratada como uma praga, ser colocada em situações potencialmente perigosas. Se Bry disse a verdade, estava feliz por não estar em contato com essa pessoa. Pelo jeito estava melhor sem ela. Falando em Bry, tive notícias dele duas vezes, apenas para me dizer que ainda não descobriu nada. O que, francamente, significava que ele possivelmente nunca descobriria. A mercadoria, ao que tudo ~ 127 ~


indica, desapareceu e ele e Dusty e, portanto, eu, todos estávamos fodidos. Meu telefone tocou, o nome de Mark piscando na tela. — O que há, Mark? — Perguntei, pegando minhas chaves, dando a Dusty um rápido beijo na têmpora, depois de ter contado a ela enquanto me vestia que precisava ir até Chaz’s para conferir os registros da noite anterior e fui para o corredor. — Então, não consegui encontrar o merda sozinho, daí entrei em contato com o irmãozinho de Sawyer... — Barrett? — perguntei, tendo uma vaga lembrança dele quando costumávamos matar aula com Sawyer no colégio. Barrett não era do tipo que fazia merda nem era durão como eu, meus irmãos e Sawyer, por isso, não o víamos tanto, sempre grudado em seus computadores, videogames ou livros. Ouvi dizer que ele tinha uma habilidade especial com alguma merda de investigação e que Sawyer costumava usá-lo ocasionalmente em alguns casos, mas não sabia que ele fazia algo para si mesmo. — Sim, parece que ele é um gênio nesta merda agora. De qualquer forma, ele fez algumas investigações e rastreou Bry até um cara em Camden chamado Dom Donovan. Ele parou de falar ao dizer isso e eu o conhecia muito bem para saber que era ruim. Mark sempre falava pelos cotovelos. — Estou ficando cansado de esperar, Mark. — Ele é ruim. Do tipo com quem a gente não fode. Do tipo que ninguém fode. Ele tem uma ficha criminal que faz A Revolta de Atlas1 parecer fichinha perto dele, — ele disse com um tom de desgosto. Ele precisava ler esse livro em seu último ano de ensino médio, mas se cansou logo nas três páginas e decidiu seduzir uma das bonitas garotas nerd na classe para escrever o artigo para ele. O que ela fez, felizmente. E ele conseguiu um A sem nunca ter lido o livro que eu o encontrei usando como peso de porta em seu apartamento. — O que ele fez? — A maior parte é por merda violenta. Assalto à mão armada, posse de armas, embriaguez e desordem. 1

páginas.

Nota da revisora: Livro de ficção da autora e filósofa Ayn Rand publicado em 1957. Esse livro tem mais de mil

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— Nenhuma por posse de drogas? — perguntei, destravando as portas do meu carro. — Nunca foi pego nem com um baseado. Ele está limpo disso, tem a ficha suja, ao que parece, apenas para manter sua reputação. E, além da merda que está registrada, tem muito mais coisa que supostamente foi atribuída a ele. Incluindo seis estupros e nove assassinatos. Caralho. — E isso nem sequer chega perto da merda em que seus homens estão metidos. Eu me endureci no banco do meu carro, não me incomodando em responder porque algo me ocorreu naquele momento, algo que realmente não queria considerar, algo que significava um mundo doente. — O que foi? — ele perguntou, obviamente, sentindo o clima tenso mesmo pelo telefone. Talvez Dom tenha desconfiado de algo que ele não gostou de Bry e levou as coisas de volta? — Já parou pra pensar que talvez isso fosse uma coisa interna. Talvez o Dom tenha desconfiado de algo que não gostou em Bry e pegou as drogas de volta? — O que explicaria porque eles foram tão cruéis com Dusty. Se Dom e seus homens são estupradores, então foi um milagre eu ter chegado a tempo. — Então isso significa que Bry... — Merda, — eu disse, desligando e abrindo meus contatos, encontrando a ligação de Bry e retornado. — Ainda não tenho nenhuma novidade... — Onde quer que você esteja, você tem que sair. Encontre um lugar aonde ninguém vá te procurar e fique escondido. Houve uma longa pausa. — Por quê? — Porque parece que são os caras do Dom que foram ao apartamento de Dusty pegar a mercadoria. É por isso que você não ~ 129 ~


consegue achar isso na rua. reconhecendo esses fodidos.

É

por

isso

que

ninguém

está

— Jesus Cristo, — ele disse e eu poderia realmente ouvi-lo assimilando isso, o zumbido dos carros que passavam, o xingamento em sua respiração. — Por que diabos ele viria atrás de mim? — ele perguntou depois que ouvi algo bater. — Só você pode me dizer isso. Talvez ele simplesmente não gostou saber que você guardava a mercadoria no apartamento de Dusty. Talvez você esteja ligado a alguém que ele não confia. Talvez ele ache que você está roubando. Quem é que sabe, porra? Caras nesta posição costumam ficar paranoicos e fazer merdas estúpidas. Para eles, é melhor se livrar de você a ter que se preocupar com você. E então ele falou algo que provou o quanto o pobre fodido se importava com ela. — Dusty. Você precisa... — Não se preocupe com Dusty. Eu cuidarei dela, — eu disse. — Entendo que talvez agora ela seja mais sua do que minha, cara. Mas preste atenção, é melhor você ter certeza... — Gosto muito que você se importe com ela e quer ter certeza de que ela esteja segura, mas você não precisa me ensinar como lidar com minha merda. Posso proteger os meus. Preocupe-se com você. Mais uma vez, uma pausa, pelo jeito não gostando de ter que recuar em relação à Dusty, mas sabendo que não havia nada que pudesse fazer sobre isso. — Então, que diabos devo fazer? Relaxar e não fazer nada pelo resto da vida? Isso não era ruim. Esconder ele e Dusty em algum lugar seguro não resolveria o problema. Seria apenas um Band-Aid temporário sobre uma grande ferida aberta. — Faça isso até que eu possa pensar em outra maneira de contornar as coisas, — eu disse, desligando. O fato era que os problemas de Bry não eram meus problemas. Dito isto, se estivessem o observando, eles a observavam. Se a observavam, eles sabiam que ela e Bry eram pelo menos um pouco ~ 130 ~


próximos. Então, eles entenderiam que se eles chegassem a ela, eles poderiam talvez descobrir o paradeiro de Bry. E de jeito nenhum eu iria deixar isso acontecer. Mas para garantir isso eu teria de fazer algo que sabia que ela não iria gostar, odiaria na verdade. Se eu conseguisse pensar em qualquer outra saída, eu faria diferente. Mas ela precisava estar segura, mesmo que significasse ela me odiar por isso. Suspirei, pegando meu celular de volta e discando o número do meu pai. — Mallick, — sua voz cortada, como alguém que nunca conferiu a identificação antes de atender. — Pai, me meti em um problema, — comecei exalando muito. — No dia de Ano Novo? — ele zombou, então, soltou uma risada sem humor. — Apenas meus meninos ligariam no novo ano com um problema. O que foi? — Sim, não, isso é algo que precisamos conversar todos juntos. Houve uma breve pausa, e em seguida ele provou mais uma vez que tinha algum tipo de sexto sentido — Isso tem a ver com sua garota, não é? — Sim. — E, mais uma vez, só um dos meus fodidos filhos encontra uma reclusa doce e gentil que traz um monte de problemas junto com ela na privacidade de seu apartamento. — Esse era Charlie Mallick, acostumado com uma vida de incerteza, de caos, de aceitar merda e lidar com isso e seguir em frente. — Tudo bem. Quando você precisa conversar com a gente? — Preciso de Dusty em algum lugar seguro primeiro e depois estarei em contato. No mais tardar amanhã. Isso precisa ser tratado antes que piore. — Tudo bem. Mande uma mensagem para um dos seus irmãos e vamos nos reunir. Mantenha sua garota segura. ~ 131 ~


Ele terminou a ligação e saí do carro, travando as portas e acionando a partida remota para manter aquecido. Acho que depois de tudo eu não iria trabalhar. — Ei, o que você está fazendo de volta tão cedo? — Dusty perguntou, dando-me um sorriso do sofá, onde ela se ajeitou depois que saí, com duas garrafas de água, uma bolsa de gelo e um antiácido. Parece que não estava disposta a admitir que tinha numa ressaca perversa pois quando saí ela estava tomando café da manhã como se nada estivesse errado. Um café da manhã que ainda estava no balcão, sem comer. Atravessei a sala, sentando-me ao seu lado e trazendo as pernas delas sobre as minhas. — Tão sério, — ela disse, franzindo a testa. Então, como eu não disse nada, ela se enrolou e seus perfeitos olhos verdes ficaram preocupados. — Tem alguma coisa errada? Essa era a parte que me deixou mais preocupado, não a seguinte, a parte que eu sabia que seria mais difícil para ela. Mas ter que dar a notícia para arruinar seu dia. Essa parte era um saco. — Sim e não, — falei, colocando minha mão sobre o tornozelo e apertando. — Vamos começar com o não, — ela disse, sua respiração já estava muito mais rápida do que deveria, sua mão descansando abaixo de sua garganta, como se soubesse que o que estava por vir a deixaria ansiosa. — Depois de algumas investigações, Bry, meus irmãos e eu concluímos que os caras que a atacaram trabalham para o chefe de Bry. — Tudo bem, — ela disse, a mão subindo um pouco mais alto. — E isso não é coisa boa. Ele é alguém de Camden com uma má reputação por estupro e assassinato, — expliquei, apertando de novo seu tornozelo assim que seu corpo começou a ficar tenso. — Então, estou me reunindo com minha família para ver como podemos solucionar isso definitivamente. Até lá, falei para Bry ficar escondido, onde ninguém poderia procurá-lo. E isso significa... — Não, — ela disse, já balançando a cabeça, já entendendo. ~ 132 ~


— Receio que não seja uma escolha, querida. Não podemos ficar aqui. Estamos do outro lado do corredor do seu apartamento. Os caras me viram e eles vão começar a me observar. — Mas eles não vão me ver! — Ela se opôs, a voz dela era um sussurro, provavelmente porque eu não a vi respirar por muito tempo. — Não posso garantir isso. Talvez eles não saibam que você está aqui. Mas isso não significa que, se eu sair, eles não vão entrar e encontrar você. Então, Dusty, nem quero imaginar. Pense no que pode acontecer. Sei que isso é muito para você. Desculpe, não consigo pensar em uma saída melhor do que isso, mas temos que ir. Ela tirou as pernas de cima da minha, pousou os pés no chão e baixou os cotovelos sobre os joelhos, a cabeça encaixada nas mãos. Observei-a por um longo tempo quase alarmante antes que finalmente a vi respirar, devagar e um pouco instável, mas profundo, como se estivesse tentando manter a calma. — Onde? — ela murmurou, recusando-se a olhar para mim. — Não muito longe. Tenho um lugar onde podemos ir que é seguro. Mesmo que eu não esteja lá, será seguro. E já vimos que meu carro está bem para você. Mesmo que assumimos isso quando estava estacionado a poucos metros da porta que levava até seu lugar seguro. — Quando? — Honestamente, assim que conseguirmos arrumar as coisas e ir. — Rochy... — Pode vir, — falei, sabendo que ele provavelmente não deveria, mas não dava a mínima. Eles deveriam fazer uma exceção. Ela olhou para mim com os olhos arregalados e os lábios um pouco trêmulos. Quando falou, sua voz tremeu. Mas disse o que eu precisava ouvir. — Ok. Quero dizer, não era como se ela tivesse uma opção. Tentei esclarecer isso. Mas mesmo que ela enlouquecesse e tivesse que levála novamente sobre o meu ombro, eu faria. Não ia deixá-la ficar e permitir o que só Deus sabia que poderia acontecer com ela. ~ 133 ~


— Será melhor eu empacotar as coisas e você apenas tenta... — Não. Ficarei melhor se estiver fazendo alguma coisa, — ela disse, pulando, agarrando todos os itens que tinha ao seu redor e movendo-se para colocá-los novamente no lugar. Ela foi em busca de Rocky e fui para o quarto, peguei uma mala e joguei o que trouxe para ela, juntamente com várias das minhas coisas, antes de fechá-la e voltar para a sala. Encontrei-a na cozinha, a caixa de transporte de gatos na ilha sacudindo violentamente enquanto Rocky lutava contra seu confinamento. Mas também encontrei Dusty de pé ali, uma mão no balcão, a outra pressionada em sua testa. — Você está bem? — Tonta, — ela admitiu, não se movendo. — Tudo bem, — eu disse, colocando a mala no chão e indo para trás dela, um braço sobre a parte mais baixa de seu estômago, colocando meu outro braço direto no centro como eu a tinha visto fazer muitas vezes. — Respira. Ela respirou, o ar fazendo vibrar a barriga no início. Mas ela se encostou em mim, os olhos fechados, e continuou respirando fundo até que a maior parte da tensão deixou seu corpo. — Desculpa. — Não, — retruquei, virando a cabeça para beijar sua têmpora. — Não o quê? — Não se desculpe por estar ansiosa. Qualquer um ficaria ansioso nesta situação. — Você não está, — ela observou, uma pergunta em sua voz. Ela estava certa. Eu não estava. Na verdade, nem sabia qual era a sensação de pânico. Primeiro, porque eu simplesmente não era uma pessoa propensa a isso. Era calmo e racional e lidava com a merda antes de sair do controle. Segundo, porque minha vida era fodida demais para me permitir ficar louco sobre todas as coisas. — Juro que vou explicar isso, querida. Mas agora não é a hora. ~ 134 ~


— Tudo bem, — ela concordou, entendendo que havia certa urgência naquele momento. — Podemos encerrar por aqui? — ela perguntou e entendi que era para a gente se mexer. — Sim, — concordei, pressionando-a para frente, deixando cair minhas mãos e me afastando. — Apenas deixe-me pegar os nossos notebooks e então podemos ir. Coloquei-os com outros itens aleatórios que vi ali, incluindo três de seus livros que poderiam caber na bolsa com os eletrônicos. — Não, — eu disse quando vi seus olhos pousarem na pequena caixa. — Eu pego coisas novas quando chegarmos onde estamos indo, — falei e ela concordou com a cabeça pegando o transportador de gatos. Caminhei para a porta, puxando-a para abrir e pulei para trás — Filho da puta, — Rosnei, exalando forte. — As pessoas me chamam muito disso. Normalmente, as mulheres, — disse Mark, ignorando-me completamente e olhando para Dusty para quem ele piscou. — Que porra você está fazendo do lado de fora do meu apartamento como a merda de um bisbilhoteiro? — Dusty, — ele disse, segurando uma mão em seu coração e me ignorando por completo. — Meu amor, eu a reivindico antes dele, você sabe. Pega de guarda baixa, ela soltou uma risada surpresa. — O quê? Você nem me conhece. — Você despertou o interesse deste Eunuco, isso é tudo que preciso saber, — ele disse, virando a cabeça para mim. O olhar de Dusty o seguiu e ela me deu o que só poderia chamar de sorriso perverso antes de olhar para o meu irmão. — Você deve ser Mark. O líder de torcida. Sem esperar por isso, joguei minha cabeça para trás e ri, uma gargalhada como não dava há um longo tempo. Mark, despreocupado como de costume, deu-lhe um sorriso também. — Anjo, você tem alguma ideia de quantas dessas líderes de torcida eu tive debaixo de mim ou acima... ou na minha frente? — ele perguntou. ~ 135 ~


— Deixe-me adivinhar, todas, — ela respondeu, ainda tensa, mas sorrindo. — Todas, menos a linda Jenny Anderson, — ele admitiu. — Mas só porque ela fraturou sua bacia quando um dos outros caras não a pegou depois de um salto. O que é uma pena. — Sim, tenho certeza de que ela ficou muito desapontada, — Dusty adicionou secamente. — Isso é bom, docinho, — ele disse com um aceno de cabeça. — Você vai precisar desse senso de humor para sobreviver nessa família. — Se terminou de se divertir com a porra da minha mulher, — eu disse, sem maldade na minha voz porque Mark flertava com todas. Estávamos todos convencidos de que ele não podia evitar. Embora tenha desistido de Fee e Lea assim que elas ficaram sérias com Hunt e Shane. — Que tal me contar o que está fazendo aqui? — Quem, eu? Sou a caravana de segurança. O pai achou que você iria querer alguém para cuidar de você. — O pai deveria ter perguntado, — corrigi, mas soube que nosso pai não era o tipo de perguntar qualquer maldita coisa. — Bem, agora, — falei, jogando nele a bolsa dos notebooks junto com a mala, — você é meu burro de carga. Mova-se. Precisamos tirá-la daqui, — disse quando ele me deu um olhar conhecido, levando os itens que lhe dei, juntamente com o maldito gato, e foi embora. — Seus irmãos são... — ela parou, pensando. — Intrometidos? — sugeri, sendo mais verdade do que nunca. — Ia dizer personalidades interessantes. Os outros são como Eli e Mark? — Há apenas um Eli e um Mark. Shane é alto e teimoso. Não tem muito filtro. Hunter é um pouco mais calmo. Tem filhas e uma mulher e um negócio que o mantêm com a cabeça no lugar. Ela me deu um sorriso tímido e admitiu: — Bem, gosto de Eli e Mark até agora. Acho que também vou gostar de Shane e Hunter. Eu gostei daquilo.

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E gostei que ela estivesse pensando no futuro para planejar isso para algum dia. — Se você pode lidar com Mark, você pode lidar com os outros, — assegurei. — Está pronta? — perguntei quando o olhar dela foi até a porta aberta. — Você pegou meu celular? — ela perguntou, buscando nos bolsos dela. — Com os notebooks. — Tudo bem, — ela disse, indo em direção à porta e calçando as sapatilhas que eu trouxe de seu apartamento. — Então, bem, acho que estou tão pronta quanto posso estar, — ela concordou, me dando um sorriso vacilante. Mas ela não foi em direção à porta aberta. Ela congelou no local, suas mãos em seus lados apertando repetidamente. — Apenas indo para o carro, — falei para ela, segurando sua mão na minha e dando um aperto. Ela não olhou para mim. Ela não relaxou. Meu toque não foi um remédio. Mas ela acenou com a cabeça e fomos para o corredor, fazendo uma pausa para que eu pudesse fechar a porta e depois percorremos o corredor. — Não, — ela disse, sua voz um pouco frenética quando me virei em direção ao elevador. — Não? — Repeti, juntando as sobrancelhas. — Escada, — ela exigiu, acenando com a cabeça em direção a elas. Eu sentia uma pequena vibração vinda de sua mão e subindo no meu braço. E quando olhei para baixo, podia vê-la visivelmente tremendo. — Escada. Você acha que pode me acompanhar? — adicionei enquanto abrimos a porta para o primeiro degrau. — Acho que poderia superar um guepardo agora mesmo, — ela disse, descendo as escadas, quase esmagando minha mão na dela enquanto descíamos para o próximo andar onde ela sabia que poderia respirar. ~ 137 ~


Ao lado do meu carro, Mark nos observou chegar. Destravei as portas e ele se virou para colocar as coisas no porta-malas. Exceto o gato, que deixou no capô. Ele nos deu um grande sorriso. — Ele já contou sobre quando ele tentou desistir das trilhas? — perguntou quando chegamos e Dusty agarrou desesperadamente o trinco da porta e entrou, fechando-a com um golpe e repousando a cabeça para trás no apoio de cabeça, respirando profundamente. — Uau, — Mark disse, o sorriso desaparecendo enquanto ele a observava se esforçando para controlar a respiração. — Acredite ou não, isso não é tão ruim, — falei, pegando Rocky e abrindo a porta do banco traseiro, colocando-o dentro e fechando-a. — Como acha que ela vai ficar no novo lugar? — ele perguntou, seguindo-me para o outro lado do carro. — Sabe, acho que ela ficará bem assim que esteja atrás de uma porta fechada. Pode precisar tomar um banho ou algo assim, mas então vai se acalmar e ficar bem. Acho que ela tem o dom de fazer de qualquer lugar fechado sua própria zona de conforto uma vez que ela supere o choque. — Tudo bem, vamos acabar com isso, — ele concordou, segurando meu ombro e depois indo em direção ao seu próprio carro. Entrei no meu, estendendo a mão para dar um aperto à sua coxa. — Tudo bem? Ela exalou com força e abriu os olhos. — Não, — ela admitiu. — Mas eu estarei. — Isso é tudo o que podemos esperar, certo? — perguntei, dando-lhe outro aperto antes de pôr o carro em macha ré e avançar. — Onde estamos indo?

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Doze DUSTY

Um hotel? Ele estava me levando para um hotel? Quero dizer, eu não sabia muito sobre segurança ou qualquer coisa, mas estava bastante segura de que qualquer um poderia entrar e sair de um hotel a qualquer momento. Certo? No entanto, não dirigimos direto para lá. Ryan fez um longo e sinuoso caminho que nos levou por duas cidades e depois voltou. Mark estava alguns carros atrás em todos os momentos. Acho que para se certificar de que não tinha ninguém na nossa cola. O que, de uma maneira estranha, foi um pouco legal. Mas logo em seguida entramos em um estacionamento um pouco cheio para um hotel de seis andares com um lindo revestimento cinza, tudo gritando “caro”. Aposto que eu não poderia nem pagar o quarto mais barato no prédio para uma estadia de uma noite. Então, quando Ryan saiu, o porteiro apressou-se em seu terno imaculado e pegou a chave de Ryan e dirigiu-se a ele pelo nome. Bem, eu precisei forçar minha boca aberta a fechar. — Sr. Mallick, há muito tempo que não o vejo, — disse quando foi abrir a porta para mim. — Eu cuido dela, obrigado, — disse Ryan, interrompendo-o e me deixando respirar fundo. O passeio tinha feito maravilhas para aliviar os nervos esfarrapados, para me ajudar a respirar novamente.

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Francamente, a última coisa que eu esperava quando ele voltou para o apartamento era dizer que precisávamos sair. Tipo... nós dois. Acho que uma parte de mim esperava que eu pudesse transformar o apartamento de Ryan em minha nova pequena prisão, mas desta vez com um cara gostoso que era doce como todo o inferno e feliz por me dar orgasmos unilaterais. O que foi, bem, bobo. Eu sabia. Negociar uma prisão por outra não funcionaria indefinidamente. Nós até falamos sobre isso na noite anterior, sobre como ele não esperaria milagres, mas que pudéssemos trabalhar para melhorar. E, ser forçada a deixar o apartamento dele e ficar em um lugar onde nunca estive antes, enquanto levemente (ok, moderadamente, se não gravemente) terrível para mim ainda não era a melhor maneira de fazer isso, já era um progresso. Meu coração batia como as asas de um beija-flor em meu peito. Estava enjoada e suando miseravelmente. Mas não estava tonta e nem ansiosa para respirar e não tinha certeza de que precisava correr feito uma louca procurando a saída mais próxima e voltar para minha zona de segurança. Porque, bem, minha zona de segurança era agora um lugar decididamente inseguro. De uma maneira muito literal, não imaginária, eu me decidi. Então, quando Ryan me alcançou e me ofereceu sua mão, coloquei a minha mão úmida na dele, internamente querendo sumir por ele sentir minha mão pegajosa, mas mesmo assim saí do carro e fui com ele enquanto me conduzia para longe. Não para a grande área de recepção que eu podia ver através das portas de vidro brilhantes. Ele me levou para a lateral do prédio onde havia outra entrada, mais discreta, com a palavra “moradores” sobre ela. Ele era um morador? Quem diabos morava em um hotel caríssimo, mas que também tinha um apartamento? Não entendia muito coisa disso, mas sabia que quem morava em hotéis pagava o olho da cara para viver lá. — Sr. Mallick! — A garota atrás da mesa, com um vestido cinza muito justo, mas muito profissional, embora agarrado aos grandes ~ 140 ~


quadris e aos seios de uma forma que beirava o ousado, cumprimentou-o com um sorriso exagerado com um batom vermelho. E lá estava eu em calças e uma camisa larga sem um pingo de maquiagem, com hematomas, arranhões e um olho inchado. Adorável. Fazia tanto tempo que me preocupei com coisas tipo a aparência que a insegurança veio sobre mim como um chute no estômago. Abaixei minha cabeça, deixando meu cabelo cair como uma cortina enquanto Ryan cumprimentava a garota pelo nome e rapidamente me conduziu para um elevador dourado onde ele colocou um cartão chave para acessar. Somente quando ficamos aninhados no interior que ele voltou a falar comigo. — Desculpe, mas o elevador é o caminho mais rápido para o último andar, — ele explicou com tom de desculpa. — Ei, olhe para mim, querida, — ele pediu um momento depois, quando eu continuava a estudar o piso de mármore muito brilhante. — Dusty, — ele tentou novamente, erguendo meu queixo e forçando meu rosto. — Você não está entrando em pânico, — ele disse, como se estivesse excluindo o que poderia estar errado comigo. E, bem, nunca foi inteligente contar a um cara que você acabou de conhecer que estava tendo uma crise de insegurança por causa de uma assistente bonita em um hotel. Se há uma coisa que os caras certamente odiariam era uma insegurança sem sentido. Sem dizer que se estou namorando ela é porque acho que ela é linda, entende? Era o que Bry dizia quando reclamava sobre a garota que ele estava vendo e ela ficava perguntando o tempo todo se ele estava olhando outras garotas e comparando-as com ela. — Estou bem, — eu admiti, ouvindo os andares passando. — Rocky... — Falei, de repente me lembrando dele e me sentindo uma porcaria como dona de animal de estimação. — Mark e o porteiro vão trazer tudo. Mark tem uma chave, — acrescentou. Porteiro. Você sabia que um lugar era elegante quando eles chamavam um carregador de porteiro. ~ 141 ~


Olhei para cima assim que atingimos um ding mais longo, indicando o andar e vendo a pequena placa dizendo C. Cobertura? Sério? — Aqui vamos nós, — ele disse, saindo na porta e segurando um braço para mim. Eu meio que esperava entrar na cobertura, mas era um corredor que tinha uma porta de cada lado. — Posso te perguntar uma coisa? — perguntei quando meu peito começou a ficar pesado novamente. Precisava me distrair quando Ryan deslizou o cartão na porta e ela bipou. — Claro. — Por que você tem uma residência na cobertura de um hotel quando você tem um apartamento? Ele soltou uma risada baixa quando abriu a porta e entrou. — Não é tecnicamente minha. Todos nós, meus irmãos e meus pais, ficamos neste lugar. Apenas no caso de precisarmos ou se quisermos apenas um lugar longe. Seu “lugar longe” era quase ostentoso. Toda a parede traseira tinha janelas do chão ao teto com vista para o rio Navesink. Todo o lugar era um andar espaçoso, aberto com uma enorme lareira, sala de estar em frente ao espaço para refeições na cozinha. Tudo tinha o mesmo bronze quente, branco e marrom, desde o piso do elevador até os balcões da cozinha. O mobiliário era todo neutro, cadeiras brancas, sofá bege, mesas medianas de madeira. — Vamos, você quer um banho? — ele perguntou, sabendo que tive uma manhã do inferno. Era uma coisa pequena, mas significava muito para mim, independentemente de tudo. — Sim, — concordei, soltando uma respiração longa enquanto ele pegava minha mão e me conduzia pelo corredor. Havia um banheiro à direita junto de um quarto. Mas ele me levou para a esquerda, para a suíte máster. Tinha o mesmo esquema de cores e uma cama gigante em frente a uma TV enorme sem fios pendurados em qualquer lugar. ~ 142 ~


Depois, havia o banheiro. E, bem, era a pura essência dos sonhos. Havia mais do mesmo mármore no piso e um box de vidro com chuveiro enorme. Uma bancada dupla com espelhos enormes e iluminação aérea. E, finalmente, a banheira. Se eu pensasse que minha banheira era legal, e foi porque gastei muito tempo pesquisando isso, então esta era extraordinária. Na verdade, tinha certeza de que três pessoas podiam sentar-se confortavelmente. E não era hidromassagem, pela qual tenho aversão. Era apenas uma enorme banheira de imersão. — Oh, meu Deus, — gritei, inclinando minha cabeça em seu braço. Ele soltou uma pequena risada. — E se eu não estou enganado, — disse, soltando minha mão para entrar no closet. — Sim. Tem aquelas coisas de sais de banho que você gosta, — falou, trazendo uma caixa com padrões brilhantes que eu sabia só de ver que deveria ser luxuosa. — Use todas se você quiser, — acrescentou, entregando-me e voltando para encontrar uma toalha e um robe. Então, tudo bem, talvez eu pudesse me acostumar a me esconder em uma suíte de cobertura em um hotel chique. As coisas que você aprende sobre si mesma enquanto foge de traficantes de drogas. Bufei alto em minha própria linha de pensamento, fazendo os lábios de Ryan se abaixarem enquanto ele me observava. — O quê? — Nada. Tudo isso é apenas... louco, — admiti. — É um pouco... fora do comum. Tenho que concordar. Tome seu banho. Volte quando você se sentir como você novamente, — ele disse, dando-me um sorriso, depois saindo e fechando a porta. Sozinha, gastei pouco tempo até que a água enchesse a banheira, e os sais de banho se dissolvessem e tirando a roupa. Conseguia ouvir vagamente Ryan e Mark conversando, apenas os burburinhos masculinos abafados que atravessavam o espaço em minha direção no banheiro silencioso. Foi então que percebi que estava bem. Estava em um lugar novo e nada era familiar e não era meu estilo e muito pouco dos meus itens ~ 143 ~


de conforto estava lá, mas eu estava bem. Não estava perdendo a cabeça. E isso era um grande feito. Tanta coisa mudou em apenas... dias. Parecia muito mais, mas eram apenas dias. Eu estava presa há anos. Anos fodidos da minha vida incapaz de me mover, presa no mesmo lugar literal e metaforicamente. Mas o mais curioso era que não era estranho sair. Talvez porque gastei a maior parte de minha vida viajando, mudando-me, vendo e experimentando coisas novas. Não era como se fosse um choque cultural. Eu não era uma pobre alma criada em um porão e que nunca viu o mundo real. Já faz um tempo. Mas não foi tão assustador quanto pensei que seria. Não estava completamente calma, mas como era um grande espaço com todos os confortos de uma casa e não estava cheio de um monte de gente, eu estava muito perto de estar confortável. Progresso. Fiquei no banho sabe lá por quanto tempo, porque os banheiros pareciam ser universalmente como salas sem relógios, embora fosse onde a maioria das pessoas se apressava a se preparar para o trabalho em um cronograma programado. Depois sai, deslizei em um roupão fofo e macio e caminhei para olhar para mim mesma. Ainda havia inchaço, embora meus lábios estivessem desinchados completamente. Era principalmente ao redor do meu olho que ainda havia uma feia sombra púrpura. Mas a pálpebra estava quase toda aberta e podia mais uma vez ver que, na verdade, eu tinha dois olhos verdes. O inchaço era mais para o lado de fora do olho em um arco que passava da minha sobrancelha até o topo da minha bochecha. Os arranhões ainda estavam vermelhos, mas curados na maior parte. Não estava horrível. Não estava bom, mas não estava horrível. Abri as gavetas da bancada e encontrei uma escova de dentes nova juntamente com a pasta e preparei-me para escovar antes de finalmente ir para o quarto. ~ 144 ~


Onde congelei. A razão para isso? Sim, seria porque Ryan estava lá. Não só estava lá, como estava sem camisa. Estava sentado ao lado da cama com os pés descalços, mas suas calças ainda estavam no lugar. Ele estava ligeiramente curvado para frente, os cotovelos nos joelhos, olhando para baixo. Devo ter engasgado ou algo assim porque sua cabeça subiu de repente e seus olhos me prenderam no lugar, o calor deles intenso. Foi então, também, que percebi três outras coisas. Um, ele tinha uma tatuagem. No lado esquerdo de seu peito sobre seu coração, um desenho grande e ousado que parecia ser o brasão de sua família. Dois, bem, o homem tinha um corpão. Era algo que eu imaginava, mas na verdade nem tive a chance de olhar para ele. Seu peito era largo, os ombros fortes, o abdômen, mesmo sentado, podia distinguir a firme linha de músculos. E a pequena trilha escura que descia para desaparecer no cós de suas calças. Ah, e três, sim, seu botão e zíper estavam abertos. Claro, meu foco pareceu ir e ficar lá. Por um longo tempo, até meu olhar voltar para cima. Seu sorriso era um pouco perverso, seus olhos ainda mais quentes. — Venha aqui, querida, — ele disse, sua voz um estrondo sexy, enquanto ele ergueu o braço e esperou, querendo que eu caminhasse até ele. Eu sabia, então, exatamente o que ia acontecer. Eu sabia. E caminhei em direção a ele sem a menor hesitação. Entrei entre suas pernas espalhadas e suas mãos pousaram sobre o tecido fofo cobrindo as laterais das minhas coxas e subindo... então, para dentro. Elas seguraram a faixa e, enquanto seus olhos se elevaram para encontrarem os meus, seus dedos puxaram e o tecido se separou no centro.

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Minha respiração exalou lentamente e suas mãos deslizaram para o centro da minha barriga, roçando suavemente entre meus seios, sobre meu peito. Ele se moveu lentamente para se levantar. Suas mãos pousaram debaixo dos ombros e empurraram o material pesado para baixo, que deslizou sobre meus braços, para fora da ponta dos meus dedos, e juntou-se em um semicírculo ao meu redor no chão. Mas os olhos de Ryan não se moveram. Ele não me olhou. Ele observou meu rosto. Ele mediu minha reação. Ele queria ter certeza de que estávamos indo no meu ritmo. A decisão dependia de mim e eu sabia disso. Minhas mãos se afastaram, pousando em seus pulsos e deslizando cuidadosamente para cima sobre os músculos sarados de seus antebraços e bíceps, descansando nos fortes ombros por um momento, enquanto suas pálpebras ficavam cada vez mais pesadas, depois se movendo sobre seus peitorais. Meu dedo traçou o contorno de seu brasão durante um longo momento antes de espalmar minhas mãos novamente e deslizá-las pelos lados de seu abdômen, observando com fascinação os músculos se esticarem sob meu toque. Elas pousaram sobre seus os quadris, os dedos encolhidos sob o cós de suas calças e o que parecia ser cueca boxer enquanto levava meu olhar de volta para o rosto dele. Então, acho que não vendo incerteza em meu rosto, suas mãos desceram até meus pulsos e fizeram a mesma lenta exploração para cima e para baixo. Exceto quando roçaram abaixo de meus ombros, suas palmas se fecharam sobre meus seios. Minha respiração gemeu fora de mim, meus seios inchando, meus mamilos endurecendo em pontos apertados contra ele e ficando molhada entre minhas coxas. Deus, isso foi há tanto tempo. Suas mãos deslizaram para que as pontas dos seus dedos estivessem ao meu lado e seus polegares se movessem em torno de meus mamilos durante um longo minuto antes de prendê-los entre ~ 146 ~


seus polegares e rolar apertado com uma pressão firme e quase dolorosa. Meu sexo apertou fortemente e minhas mãos arrancaram as roupas que restava no corpo dele. As calças e a cueca boxer caíram e ele saiu delas. Suas mãos liberaram meus seios e foram até minhas costas, deslizando para baixo até que ele estivesse cavando minha bunda, depois puxando minha frente inteira para a dele enquanto seus lábios batiam nos meus. Seu pênis pressionou contra minha barriga, prometendo coisas, sem um mínimo de espaço entre nós, completa realização, esticandome como nunca antes. Sua língua se moveu no interior para reivindicar a minha quando uma de suas mãos deslizou pela minha coxa, agarrando o meu joelho, arrastando-o e colocando-o ao lado de seu quadril, permitindo que seu pau deslizasse entre minhas dobras e golpeasse para cima para pressionar meu clitóris. Gemi contra seus lábios e ele recuou um pouco, olhando-me, então acariciou-se contra mim novamente. Depois ele trocou nossas posições e eu era a única com as pernas contra a cama. Empurrou-me para baixo, pressionando meus ombros até que eu estivesse atravessada na cama. Ajoelhou-se na minha frente, agarrando os meus joelhos e escancarando-os contra o colchão. Senti primeiro seu pescoço, arranhando a parte interna de minha coxa. Então seus lábios pressionaram beijos suaves na pele sensível. Houve uma breve pausa quando seus lábios encontraram o vinco de minha coxa antes que sua boca se fechasse sobre meu clitóris e sugasse forte. Gritei, minha mão batendo contra a parte de trás de sua cabeça, meus quadris se arqueando no prazer e quase cego quando sua língua começou a trabalhar em círculos tortuosamente lentos. Sua mão acariciou minha outra coxa enquanto ele continuava me devorando, baixando e pressionando um dedo dentro de mim, empurrando preguiçosamente por um longo minuto antes de outro dedo se juntar e a pressão tornar-se muito intensa, muito parecida com a dor. E eu explodi.

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O nome dele saiu entre gritos de meus lábios enquanto ele continuava lambendo, empurrando, prologando, tirando o máximo que conseguia. Minha mão abaixou em sua cabeça e sua boca me liberou, mas seus dedos ficaram dentro de mim, ainda lá. Ele beijou o triângulo acima do meu sexo, minha barriga, lambeu sob cada um dos meus seios inchados, então fechou os lábios em torno do meu mamilo e trabalhou sua língua ao redor até que, embora parecesse impossível, apertou ainda mais. Ele amassou meus seios para continuar o tormento quando o desejo voltou a se construir, conforme meu sexo apertava novamente. E foi exatamente quando seus dedos começaram a empurrar mais uma vez. Não lento, suave e doce, mas rápido, áspero, primitivo. Sua cabeça levantada, me observando ao mesmo tem em que me levava às alturas de novo, rápido, rápido demais. Mas antes que as ondas pudessem escorrer sobre mim novamente, perdi seus dedos quando ele se sentou de volta. Com os joelhos na beirada da cama, enfiava os dedos dentro da boca, lambendo o sabor antes de alcançar o criado e pegar um preservativo, fazendo um trabalho fácil de nos proteger antes que suas mãos começassem a acariciar minhas coxas, meus lados, meus seios. Ele se curvou sobre mim, um braço deslizando debaixo do meu corpo e me deslocando até que eu estivesse inteiramente na cama e, uma vez que estava, veio completamente sobre mim, apoiando seu peso em seus braços. Meus dedos deslizaram em seu braço, o lado de seu pescoço, descansando logo abaixo da mandíbula, enquanto seu pau se pressionava contra mim, fazendo alguns golpes. Antes mesmo de senti-lo recuar e se afastar, seu pau deslizou dentro de mim em um golpe longo, grosso e lento. Senti uma pequena queimação enquanto ele me esticava, desacostumada da invasão depois de tanto tempo. Mas quando ele entrou até o fim e acalmou-se, seus olhos nos meus, corpos conectados, nada me pareceu mais certo, mais perfeito. Eu esperava suave e doce, como todas as coisas entre nós. ~ 148 ~


Mas assim que ele estava dentro de mim e nossos olhos se mantiveram um no outro, algo parecia nos ultrapassar ao mesmo tempo. Era algo selvagem, primitivo, desesperado. Ele recuou e bateu de volta em mim e meus quadris se levantaram para encontrá-lo. Apenas forte no início, então, tanto forte quanto rápido. Nossa respiração ficou superficial, nossos corpos pareciam batalhar, ambos desesperados pela vitória. Meus gemidos tornaram-se tão altos até para meus próprios ouvidos e seu silêncio tornou-se sussurros e grunhidos de necessidade quando comecei a apertar ao redor dele, quando ele ficou incrivelmente mais duro dentro de mim. Ele bateu de volta mais uma vez e o mundo ficou branco por um segundo assim que um orgasmo mais intenso do que pensei ser possível começou onde nós nos encontrávamos e explodiu para fora até que parecia envolver todo o meu corpo. Seu nome saiu de meus lábios e o meu gritou nos dele quando enterrou profundamente, arqueando-se quando gozou comigo. Mais uma vez, perfeito. Sua cabeça se aconchegou no meu pescoço, permanecendo lá por um longo tempo enquanto recuperava o fôlego. Ele pressionou um beijo lá antes de se levantar, olhos pesados, mas avaliando. — Tudo bem? — perguntou, equilibrando-se em um braço para que pudesse tirar um fio de cabelo do meu rosto. — Não, — respondi, balançando a cabeça, percebendo seu rosto ficar tenso. — Não está bem. Isso nem sequer está perto de como me sinto bem agora, — admiti, sorrindo enquanto o observava exalar com força e relaxar novamente. — Solte-me por um minuto, querida, — ele pediu e foi então que percebi que minhas pernas estavam cruzadas em torno de seus quadris e meus braços sobre a parte superior das costas. Liberei meu aperto e ele deslizou fora de mim, plantando um beijo na minha testa antes de ficar de pé e caminhar até o banheiro. Sozinha, rolei na cama e escorreguei sob os lençóis e o edredom, girando de lado, para frente da porta do banheiro, para descaradamente vê-lo voltar um momento depois, completamente nu para mim. ~ 149 ~


Ele chegou ao lado da cama, levantou os lençóis, entrou e apoiou-se contra os travesseiros. Seu braço deslizou abaixo de mim. — Venha aqui, Dusty, — ele disse, sua voz suave. E, bem, quando um cara tão quente como o pecado cai de boca em você, deixando cega, surda e idiota, e depois pede que se aconchegasse com ele, você se aninha a ele. Praticamente voei para ele e seu braço enrolou-se na minha parte inferior de minhas costas, apertando-se, enquanto a outra mão escovava meus cabelos e vagava vagarosamente para cima e para baixo pelas minhas costas. — Tudo bem, acho que é hora, — ele disse estranhamente, tirando-me de uma neblina sonhadora e quase sonolenta. — Hora? — repeti, roçando meus dedos em cima de seu brasão de novo, rastreando as letras de seu sobrenome. — Disse-lhe que eu contaria sobre minhas cicatrizes e meu passado e minha família, — ele continuou fazendo-me ficar completamente acordada. — Oh, certo, — falei, colocando um beijo no peito dele. — Ok. Desembucha, — disse, tentando ser leve porque ficou um pouco tenso debaixo de mim. O que estava esperando, no entanto, nem se aproximou da verdade.

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Treze RYAN

Nunca tive que ter essa “conversa” antes. Não quis dizer essa conversa de relacionamento ou o “estamos apenas fodendo um ao outro e você está usando anticoncepcional” ou mesmo a conversa “isso não vai funcionar”. Quis dizer a conversa sobre a verdade, sobre o meu estilo de vida. Porque o fato era que nunca tive uma mulher por tempo suficiente para precisar explicar isso para ela ou ela já sabia desde o início. A reputação da minha família não era exatamente um segredo ao redor de Navesink Bank. Embora todos nós tínhamos negócios legais, com reputação diferente dos outros negócios da família, sempre fomos vistos como agiotas e executores agiotas antes de sermos vistos como proprietários de academia ou joalheria, donos de lojas ou artistas tatuadores. — Seja o que for, não pode ser tão louco como uma agorafóbica envolvida com traficantes de drogas, — ela continuou quando não falei imediatamente. Eu não tinha vergonha da minha vida, da minha família, como ganhamos nosso dinheiro. Longe disso. Mas estava difícil encontrar as palavras. E, percebi com uma clareza ofuscante, era porque importava desta vez. Ela importava desta vez. Apesar de estar envolvida com Bry e os problemas dele, ela não era o tipo de garota que acabava com um fodido agiota executor. Ela dava aula no jardim de infância. Eu quase não a escutava xingar. Ela era boa, doce e limpa. ~ 151 ~


Todas as coisas que minha vida não era. Mas não havia como adiar. Dusty não era um caso de apenas uma noite. Ela nem estava no mesmo patamar dessas mulheres. Ela importava. Eu a queria. Eu a queria de uma maneira mais permanente. E ela me deu sua história e me deu seu corpo. Era hora de lhe dar minha história. Quaisquer que fossem as consequências. Respirei fundo e lhe dei um aperto. — Meu pai, meus irmãos e eu somos empresários. Somos empresários legítimos. Mas isso não é tudo o que somos. — Tudo bem, — ela disse, sem parecer tão nervosa quanto eu pensava que poderia estar, especialmente devido à tensão na minha voz. — Meu pai sempre foi um agiota. Naquele momento, ela fez a coisa mais estranha. Ela bufou, porra. Quando eu não disse que estava brincando, ela se levantou, grande sorriso no rosto, seu cabelo caindo para frente. — Você fala sério? Um agiota? O tipo de agiota “você me dá o dinheiro ou quebro seus joelhos”? Seu sorriso era tão contagiante que meus próprios lábios se contraíram. Mas era sério e eu precisava que ela entendesse. — É exatamente o que quero dizer, querida, — concordei. — E todos os meus irmãos e eu, exceto Hunt, todos trabalhamos para ele. O sorriso escorregou enquanto seus olhos ficaram pensativos, suas sobrancelhas se juntando, então duas pequenas linhas se formaram acima de seu nariz. — Trabalha para ele como? — Nós somos os executores, — admiti. ~ 152 ~


Lá estava. Ela parou por um longo segundo, avaliando meu rosto, procurando humor, mas não encontrando nenhum. — Então, um executor... — Quebra os joelhos, — completei por ela. Sua língua se moveu, molhando os lábios, e custou muito me controlar para não jogá-la de volta na cama e fodê-la até que esquecesse que eu disse alguma coisa sobre minha família. — Sério? — Bem, não exatamente. Na verdade, hoje em dia não existem tantos joelhos quebrados. Não vou dizer que isso nunca acontece, mas é raro. — Você bate nas pessoas? — ela perguntou. Eu podia ver as engrenagens girando, podia vê-la juntando as peças, minhas cicatrizes, a maneira que lutei, que sabia cuidar de ferimentos. — Às vezes. Não sou eu que costumo dar muitas surras, mas acontece. — Quem, então? — ela perguntou, sem parecer horrorizada. No máximo, ela parecia... curiosa. — Não posso imaginar Mark batendo nas pessoas. Ele é tão... descontraído. — Ele bate mais do que eu, mas não muito. Ela parou então, balançando a cabeça. — Não Eli. Fala sério! Ele brincou com o meu gato! Deu-lhe comida de seu prato. — Lembra quando Eli entrou pela primeira vez, quando ele olhou para o seu rosto, ele congelou e ficou assustador e silencioso? Ela pressionou seus lábios ligeiramente juntos com isso e acenou. — Sim, isso foi um pouco estranho. — Eli nunca deveria ser violento. Mas fomos criados para saber que os negócios da família envolviam violência, que todos nós deveríamos seguir os passos de nosso pai. Então, Eli foi de certo modo forçado a ser algo que ele não era e por isso, quando ele se irrita, não é nada como você já viu antes. É brutal e primitivo, estranho como o ~ 153 ~


inferno de ver. Eli é o último recurso, quando esgotamos todos os outros esforços. — Esses outros esforços incluem o seu outro irmão, certo? Shane? Ele é quem faz a maioria dos... esforços? — Na maior parte dos casos, sim. Ele é bom nisso. Ele pode manter o controle, mas ainda causa danos sem perder a cabeça. — Ela me observou durante um longo minuto, uma espécie de máscara sobre seu rosto, tornando-a ilegível por um longo tempo. — Diga-me o que está acontecendo aí, — pedi, tocando sua têmpora. Ela deu de ombros. — Estou apenas assimilando. Você já foi preso? — Não, querida. — Mas presumo que os policiais por aqui sabem o que vocês fazem... — A maioria, sim. — Nenhum dos seus irmãos foi... — Não, — eu a cortei. — Bem, pelo menos não por causa dos negócios. Apesar da situação pesada, seus lábios se inclinaram para o lado. — Então, por quê? — Principalmente embriaguez e desordem. Shane e Mark costumavam aprontar muito e um de nós tinha que ir até a delegacia e arrancar suas bundas bêbadas e levá-los para casa. Não aconteceu desde que estavam em seus vinte anos, mas aconteceu. Mais de uma vez. Mais de meia dúzia de vezes, na verdade. — Se todos têm outras empresas e estão indo bem, então, por que ainda fazem essa coisa de agiotagem? Essa era uma pergunta válida para a qual eu realmente não tinha uma resposta satisfatória. Por quê? Tradição, talvez seja apropriado dizer. Era algo que meu pai construiu desde o início. A única razão pela qual todos nós, no final das contas, podíamos ter coisas como nossos próprios negócios era por causa de todo o trabalho que ele fez, o dinheiro que tínhamos, cada centavo, veio da agiotagem e, em seguida, investido em outros interesses. Nem sempre foi fácil. ~ 154 ~


Naqueles primeiros dias, ele economizou cada centavo. Ele e minha mãe batalharam. Logo em seguida, para piorar, nós cinco chegamos. Mas ele finalmente começou a se dar bem, contratou outros para ajudá-lo e, quando tínhamos idade suficiente, todos nós queríamos entrar. — Não tenho uma boa resposta para isso, querida. É exatamente como é. E não vou mentir para você e dizer que vai mudar, que vou mudar ou alguma merda. Isso é quem sou. Isto é o que faço. Não vejo isso mudar. Uma parte de mim queria tranquilizá-la, dizer-lhe que eu poderia desistir, poderia me endireitar, ser como qualquer outro empresário normal. Mas se o que tínhamos entre nós fosse funcionar, precisávamos ser crus e honestos um com o outro. Ela me deu a verdade sobre ela e sua ansiedade e agorafobia. Não tentou dizer que seria completamente normal um dia, que nunca mais teria outro ataque de pânico, que poderia ser alguém que não era. Da mesma forma, não podia dizer a ela que eu poderia ser alguém que não era. Era verdadeiramente uma situação em que ela precisava me aceitar como eu sou. E havia uma grande parte de mim que estava genuinamente preocupada de que ela talvez não me escolhesse. Que mudasse de ideia e decidisse que não valia a pena as noites sem sono quando sabia que eu estava perseguindo um cliente ou a sensação de náusea no estômago quando eu voltasse para casa ensanguentado e ferido. Ela tinha todo o direito de querer o melhor para si mesma. E eu só teria que aceitar isso. — Então, quando você estiver velho e enrugado e com artrite... — Se você conhecesse meu pai, saberia que ficar velho e enrugado não é algo com o qual tenho que me preocupar. — Coroa enxuto, hein? — ela perguntou, me dando um pequeno sorriso sujo. Eu ignorei isso, ninguém queria pensar em seu pai nesse sentido. Mas tínhamos que concordar que eu teria a cabeça cheia de ~ 155 ~


cabelo e boa estrutura óssea quando envelhecer. E enquanto me mantivesse em forma, achava que seria capaz de possuir o título de “coroa enxuto” quando estivesse mais velho. — Eu imagino que até lá os negócios tenham evoluído para não precisar mais disso, ou, possivelmente, as crianças possam assumir o controle. — Crianças, — ela sugeriu, parecendo ligeiramente tensa sobre isso. — Sim, crianças, — concordei, com as sobrancelhas desenhadas juntas. — Você quer crianças? — Inferno sim, quero crianças, — falei, dando-lhe um sorriso. — Cresci com quatro irmãos, Dusty. Foi caótico, barulhento e frustrante, não existia privacidade e você tinha que ser casca grossa, tanto literal quanto figurativamente, porque não havia trégua nas brigas físicas e verbais, mas não iria querer isso de outra maneira. Sempre tive parceiros no crime e agora que somos adultos, sempre estamos cobrindo as costas uns dos outros e sempre podemos nos apoiar. Quero que minha família também seja selvagem e louca um dia. Seu olhar caiu do meu, olhando meu peito. — Você quer ter filhos? — perguntei quando o silêncio se prolongou por tanto tempo até quase ficar desconfortável. Ela não olhou para cima e encarou meu peito em vez do meu rosto. — Eu costumava querer. — Por que costumava? Ela riu, sem graça sobre isso. — Porque não posso ficar grávida quando nem consigo sair da minha casa. Não posso ir ao médico, ou ao hospital, ou reuniões de pais na escola, ou nas práticas esportivas. Seria... injusto colocar minha doença mental em um filho. — Querida, ninguém pode prever o futuro. Ninguém pode dizer com certeza que você ficará sempre presa em sua casa, que sempre terá uma zona de conforto. Todos os dias as pessoas lutam contra a agorafobia delas e ganham. Elas reconstroem suas vidas e criam laços. Elas se apaixonam. Elas têm filhos. — Sim, mas não dá pra saber que vai ser assim comigo. ~ 156 ~


— Não, — concordei. — Mas acho que você é um pouco jovem para perder a esperança pelo o resto da vida. E acho que não está vendo o quanto as coisas mudaram para você apenas em algumas semanas. — Eu só estive fora do seu apartamento por... — A noite do vazamento de monóxido de carbono, Dusty. Você ficou louca e não gostou, mas ficou no meu carro e se acalmou. Depois me comprou um presente de Natal e foi até a minha porta. Você me recebeu no Natal. Logo em seguida nem hesitou em vir para o meu apartamento. E para superar tudo, agora está em um maldito quarto de hotel comigo, fora de sua zona de conforto, recentemente fodida pela primeira vez em quem sabe quanto tempo, mas ainda calma. Essas coisas não são pequenas. Você não pode olhar para o quanto você tem que percorrer e ficar desanimada. Olhe para trás e veja o quanto você foi longe. Ela deu duas respirações lentas e profundas e olhou para mim lentamente. — Três. — Como? — perguntei, acariciando uma mão na sua espinha dorsal, sentindo o meu pau ficar duro quando ela estremeceu com o meu toque. — Três anos. — Vou precisar de mais do que isso, querida. — Isso é quanto tempo passou. Desde que eu... você sabe. — Foi fodida? — sugeri, dando-lhe um sorriso enorme quando ela ficou corada pra caralho. — Assim, você é doce e tudo mais, Dusty, mas vai ficar sempre vermelha como um pimentão se a palavra “fodida” te deixar desconfortável. — Não é a palavra, — ela objetou, me dando um sorriso estranho, que não consegui interpretar. — O que então? O tempo? — perguntei e seu olhar caiu por um segundo antes de voltar. Então era isso. — Não achei que você tivesse dormido com um monte de caras, Dusty. Eu sabia que já fazia um tempo. — Um tempo é como... oito meses, um ano no máximo... ~ 157 ~


— Por padrão? Todos fodem de forma diferente. Alguns levarão para casa quem diabos sorrir para eles e lhes dizer que são gostosos. Outros precisam estar apaixonados. Alguns não fazem isso até se casarem. Que merda importa quanto tempo passou? Porque se isso for algum problema de insegurança? Tipo você pensar que está fora de prática ou alguma merda assim, — eu disse, observando enquanto ela ficava mais vermelha. Era exatamente isso. De todas as coisas bobas. Mas era isso o que a ansiedade dela fazia, fazia montanhas de merda. — Então me deixe ir em frente, resolver isso e aliviar sua cabeça um pouco. — Ryan, não. Está bem... — ela disse, balançando a cabeça. — Não. Não está bem. Tenho uma mulher na cama comigo dentro da qual eu estava alguns minutos atrás e que acha que foi de alguma forma decepcionante. Essa merda nunca vai ficar bem. Olhe para mim, — exigi, minha voz um pouco mais firme do que o habitual, mas ela ainda não levantou os olhos. Estendi a mão e segurei o queixo, levantando-o. — Você não está fora de prática. E, com certeza, não é uma decepção, porra. Na verdade, o que acabamos de ter aqui foi o melhor que já tive. E não apenas porque a maneira como você grita meu nome me deixa duro e me faz querer gozar logo, ou porque você tem a buceta mais doce que já provei, mas porque isso significava algo, tudo bem? Isso significa algo. Então, não destrua isso, tornando-o feio ou alguma coisa para se preocupar. Ok? Dusty? Ela piscou forte algumas vezes, tentando afastar um brilho que vi ali, antes de virar o rosto e beijar minha mão. — Ok. — Então está resolvido. Voltando para a pergunta original. Você quer ter filhos? Ela me deu um pequeno sorriso. — Sim. Quero filhos. — Um ou uma ninhada? Para isso, ela riu. — Como filha única que cresceu com poucos amigos, gostaria que meus filhos tivessem irmãos para que eles sempre pudessem ter um amigo. — Parece um bom plano. Então, não queria acabar com o clima que temos agora. Mas acho que precisamos encerrar esse assunto de vez. O que se passa na sua cabeça sobre o meu trabalho?

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Ela ficou pensativa. — Sei que deveria estar enlouquecida sobre isso... — Mas? — Mas, você não é nada além de bom. Seus irmãos foram bons para mim. Você é a primeira pessoa que encontrei por muito tempo que não me deixa ansiosa. Acho que o bom supera a parte ruim agora. — Só quero ter certeza de que você saiba no que está entrando. — Entendo a situação, — ela disse, me dando um pequeno aceno de cabeça. — E você sabe que não vai mudar, — pressionei. Para isso, ela riu um pouco. — Sou uma garota crescida, Ryan. Há muito tempo descobri que não posso mudar pessoas ou situações. Você deve aceitá-las como elas são. E, em seu caso, eu ficaria feliz. Ah, merda. Soube ali mesmo que estava com problemas, que as coisas tinham ficado sérias. Porque ouvi-la dizer que ficaria feliz em me aceitar como eu era, sim, havia uma sensação no meu peito que, embora não tivesse experimentado antes, eu sabia o que era. — Por que esse olhar? — ela perguntou, com a cabeça inclinada para o lado, observando-me. — Olhar? — Você parece... ansioso, — ela disse com um sorriso. — Sei que parece intimidante. E você tem esse olhar. — Então seu rosto caiu um pouco. — Isso foi, hum, demais? Quero dizer, posso... — Cale-se, — eu disse, estendendo a mão e colocando um dedo em seus lábios. — Não foi demais. É só... novo para mim. — Sim, bem, seu apartamento parece sugerir que uma mulher não ficou por mais de uma noite ou duas. — O que há de errado com o meu apartamento? — Tem uma caneta e um papel? Isso pode demorar um pouco. ~ 159 ~


Ri daquilo, rolando-a de costas e beijando-a até ela esquecer tudo sobre caneta e papel e queixas e queixas sobre meu apartamento. — Você pode fazer o que quiser, — falei depois e assisti enquanto ela piscava para mim, pálpebras pesadas, lábios inchados por todos os malditos motivos. — Fazer o que quiser? — ela perguntou, com voz transpirável e o som disparou diretamente no meu pau. — No meu apartamento, querida. Quando chegarmos lá, sinta-se livre para se instalar. — Ryan, só nos conhecemos por... — E é o suficiente, — eu a cortei. — Suficiente para quê? — Basta saber que falo sério por tentar isso. Você não pode tentar de verdade se não receber alguém na sua vida. Pegue algum espaço no armário. Pegue algumas gavetas. Traga suas bugigangas. Contrate pintores, não me importo, porra. — Ryan, eu tenho meu próprio apartamento... — E você pode mantê-lo até que se sinta tão séria comigo quanto me sinto com você. Entendo que você precise dessa rede de segurança. Mas não se engane, se for do jeito que quero, haverá alguém morando naquele apartamento muito em breve. Então ela se inclinou, escondendo o que era um sorriso doce, tímido e bochechas cor-de-rosa, e plantou um beijo no centro do sobrenome no brasão da minha família. Não acho que ela via isso do mesmo jeito que eu, mas essa era toda a prova que eu precisava. Ela poderia ter beijado meus lábios, minha bochecha, meu pescoço, o centro do meu peito. Mas ela escolheu beijar o emblema da minha família, o que representava tudo o que eu era. Por isso, quando ela finalmente desmaiou, saí da cama e fiz alguns telefonemas, planejando encontrar meu pai e meus irmãos. Então, depois disso, liguei para as meninas.

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Porque se queríamos um futuro, tínhamos que resolver o passado. Tão logo seja possível, porra!

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Quatorze DUSTY

Acordei cedo na manhã seguinte com Ryan inclinando-se para baixo, onde o cobertor deveria ter caído, e sugando meu mamilo na boca. Dizer que era uma maneira inesperada e agradável de ser despertada seria um eufemismo. Sentindo o meu corpo estremecer, ele soltou o mamilo úmido e endurecido e olhou para mim, com um sorriso diabólico no rosto, então se moveu para pegar meu outro mamilo na boca. — Ryan, eu... — Comecei querendo dizer que precisava escovar meus dentes antes que qualquer coisa fosse mais longe. Os beijos ao acordar, sim, eles nunca foram sexy. Pelo olhar dele, já estava acordado fazia um tempo e, ao que tudo indicava, já teve a chance de escovar. — Precisa de mim para sentir o gostinho da buceta doce novamente? — ele perguntou, me dando um aceno de cabeça. — Eu sei, querida. É para isso que estou aqui. Com isso, sua língua rastreou o centro do meu peito, puxando os cobertores para baixo e continuando pelo meu estômago. E, olha, quando um homem fala algo assim já na primeira hora da manhã, quando você está cansada de dormir até mesmo sem forças para contestar, você o deixa fazer o que ele quiser. Especialmente vendo como ele faz isso, prometendo outro orgasmo mental, estonteante e esmagador. Assim que terminou, entretanto, percebi que ele não estava nem perto de acabar. Cheguei a essa conclusão, porque ele se sentou em seus calcanhares e seu pênis estava duro e esticado, uma gota de présêmen na ponta, e promessa em seus olhos. Então, pulou de volta para a beirada da cama, plantando os pés no chão e alcançando os ~ 162 ~


meus tornozelos, arrastando-me para ele. Estendeu o braço para o meu lado onde vi que ele já havia jogado um preservativo. Mas primeiro... Curvei-me para cima, minhas mãos afundando em seus quadris, a cama alta colocando-me no ângulo perfeito para me inclinar e lamber a umidade. Ele soltou um suspiro, sua mão estava atrás da minha cabeça. — Porra, Dusty, — ele rosnou quando fechei meus lábios em torno da cabeça inchada e em seu comprimento sólido, levando-o tão profundo quanto o ângulo permitiria, em seguida, voltando para cima, erguendo os olhos para ver os dele, intensos, com fome. Esqueci o quanto perdi coisas assim, como ter o prazer de um homem completamente à sua mercê. Saber que você pode fazê-los perder o controle, desmoronar, falar seu nome como um juramento. — Porra, querida, isso é bom, — ele gemeu e, como se estivesse provando seu ponto, pude senti-lo cada vez mais duro na minha boca enquanto trabalhava nele. — Mas preciso estar dentro de você. Agora, — acrescentou quando ouvi a embalagem do preservativo rasgar e ele me puxou para trás pelo meu cabelo. Chupei o máximo que pude até que estivesse fora da minha boca e ele sacudiu a cabeça para mim quando pegou seu pênis e deslizou a camisinha. Fui me deitar, mas ele estendeu a mão e agarrou-me, puxandome para cima em meus pés e se movendo para sentar-se abaixo, virando-me e puxando-me até minhas costas estivessem em sua frente. — Assim, — ele me disse e senti o meu sexo se apertar e minha barriga vibrar. Nunca fui uma puritana ou inexperiente e, enquanto era uma posição que tinha visto em praticamente todos os pornôs que já vi, não era uma que já havia tentado antes. Houve uma preocupação momentânea sobre as minhas pernas não conseguirem me segurar por muito tempo quando ele me levasse ao orgasmo antes que se senti-lo se aproximar entre nós e então deslizar até o fim. Então, bem, foi apenas instinto e necessidade. Movi-me contra ele, um braço curvando-se e em volta da parte de trás do pescoço, o outro pressionando em sua coxa para manter o ~ 163 ~


equilíbrio quando ele atingiu lugares que nunca senti antes, criando sensações que nem sabia que existiam. E quando meus movimentos ficaram erráticos e descuidados, as mãos de Ryan foram para meus quadris e me guiaram. Então, assim, sua respiração no meu ouvido, sem corpo embaixo e atrás de mim, eu gozei, gritando seu nome. Quase poderia ficar perdida entre as ondas antes que ele se levantasse, jogando-me de barriga contra o colchão, arrastando meus quadris para cima com as mãos e entrando mais fundo em mim. Foi rápido, duro, implacável, brutal, os sons de nossos corpos se chocando encheu o ar, misturando-se com seus xingamentos e meu gemido, enquanto um orgasmo parecia estar rolando diretamente para outro. Então, meu grito foi mais alto que os anteriores. — Oh, meu Deus, — gritei enquanto voltei, ofegante, meu corpo inteiro ficando escorregadio, meus membros pesados e inúteis. — Ainda não terminei com você, — ele me informou e percebi que ele ainda estava duro dentro de mim. — Eu não posso... — repliquei, balançando a cabeça. Tinha certeza de que três era o meu limite. — Quer apostar? — ele perguntou, puxando metade de mim, agarrando minhas duas pernas e empurrando-me ligeiramente na cama, armando minhas pernas em um ângulo de um lado e depois caindo dentro de mim novamente. Curvei meu tronco combinar com a parte de baixo de meu corpo, olhando para ele enquanto ele entrava em mim. Naquele momento decidi que não havia imagem mais sexy no mundo. Todo músculo em seu corpo estava tenso e esticados, seus olhos pesados. Uma das mãos segurou minhas pernas como ele as queria, a outra estendeu a mão e apertou meus seios quando seus quadris se bateram contra mim, pressionando o máximo possível de cada vez. Tive certeza de que não havia nada mais surpreendente do que ver um homem à beira do esquecimento enquanto ele metia dentro de você, querendo trazê-la ao clímax pela quarta vez antes de encontra o seu próprio. Então, assim, descobri que ele ganhou a aposta.

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Gozei, meu corpo inteiro se convulsionando com força quando ele bateu quase dolorosamente, profundamente, e gozou com meu nome em seus lábios. Assim que voltei, meus olhos olharam para encontrá-lo ofegante, mas um sorriso puxou seus lábios. — Eu te falei, — ele disse ao mesmo tempo em que batia na minha bunda com força, então me afastou, dando ali uma deliciosa picadinha de dor, uma dor que com certeza sentiria o dia todo quando me sentasse. De alguma forma, gostei da ideia disso. Ele foi para o banheiro e eu forcei meus membros entorpecidos e sem vida a me levar para o outro lado da cama onde peguei o robe que tínhamos descartado na noite anterior, puxando-o para cima e envolvendo-o ao meu redor enquanto me sentava ao lado da cama. Ryan voltou um minuto depois, não nu como eu esperava, mas com suas calças e uma camisa preta de botão que ele deixou aberta quando veio em minha direção com um sorriso suave, agarrando os lados do meu robe e me colocando de pé. — Não se preocupe, pedi café da manhã para que você possa recuperar suas forças, — informou, parecendo muito satisfeito com ele mesmo e com sua proeza. Da qual, bem, ele deveria estar mesmo. — Comida. É melhor que tenha café junto, — acrescentei quando ele colocou um lado do robe sob o outro e puxou a faixa, amarrando-a sem esforço. — Não te decepcionaria, — ele disse. — Vá tomar um banho e outras coisinhas e me encontre na cozinha. Não fazia ideia de que, quando tomei banho, vesti um jeans e um suéter branco leve, e cheguei à cozinha, ele tinha uma bomba para jogar sobre mim. Foi quando tomei um gole do meu café que ele anunciou que tinha que sair por um tempo. O que, bem, estava bem. Ele tinha uma vida. Tinha negócios. Tinha funcionários. Era de esperar que ele precisasse voltar para eles. — Mas não queria deixar você sozinha o dia todo. ~ 165 ~


Senti um sorriso surgir nos meus lábios. — Oi, já nos conhecemos? Sou Dusty e fiquei trancada em meu apartamento sozinha, com Rocky ao lado, por anos. Ele quase sorriu por isso. — Sim, mas aquele era o seu apartamento. Este é um quarto de hotel onde você ainda não está confortável. — Ryan, de verdade, eu poderia estar nervosa, mas sou uma garota crescida. Ele respirou fundo, então, me dando um sorriso de desculpas. — Acho que é tarde demais... — Tarde demais para quê? Eli ou Mark estão vindo ou algo assim? — perguntei, sem me opor a nenhum dos dois. Em algum momento durante meu banho, sentindo meus músculos doloridos que não tinha usado em eras, meu peito, barriga e coxas internas arranhados pela barba dele, percebi que gostava muito disso, gostava demais dele para arruinar isso. Então, decidi fazer algum tipo de plano de ação, como minha psiquiatra sempre me falou, para me ajudar a progredir, a melhorar. Não tive a chance de ir além desse pensamento, mas achei que me socializar com sua família seria um avanço. Se eu conseguisse ficar completamente à vontade com eles, então talvez eu esteja bem com a ideia de possivelmente lidar com uma família normal. Isso seria enorme. — Eli e Mark têm algo que precisam fazer comigo hoje na verdade. Então, ah... Ok, vê-lo um pouco estressado era encantador. Mas eu conhecia essa sensação, então resolvi por fim em seu sofrimento. — Quem então? — Fee e Lea. São as mulheres de Hunter e Shane. Elas queriam conhecê-la e eu pensei... — ele parou, suspirando. — Acho deveria ter perguntado primeiro, mas eu as convidei. Ok. Isso estava bem. Não há motivo para enlouquecer. ~ 166 ~


Não era como se estivessem me entrevistando como um potencial membro da família ou qualquer coisa. Exceto, vamos cair na real, elas me entrevistariam. Tive uma momentânea vontade louca de ter um conjunto de maquiagem para encobrir os machucados, algum batom, qualquer coisa. — Dusty, elas são garotas muito legais, ok? Não há nada para se assustar. Fee vai aparecer vestida como se ela saísse de uma merda revista de moda porque é assim que ela é, e Lea estará com jeans, camiseta e as botas de combate porque é assim que ela é. Ambas praticamente vão xingar muito e, provavelmente, fazer piadas sexuais altamente inapropriadas, porque é o que elas fazem. Mas elas não vão cutucar e zoar você sobre qualquer coisa. Ambas têm passados também. Respirei fundo, pensando que poderia lidar com um pouco de xingamento e comentários sexuais. Afinal, sua cunhada dirigia um negócio de sexo por telefone. Isso era um pouco esperado. — Tudo bem, — concordei com um aceno de cabeça, enquanto me obrigava a comer. Na verdade, quanto mais pensava sobre isso, mais interessada eu ficava. Queria conhecer a dinâmica familiar. Queria ver as pessoas que ele amava tanto. E talvez uma parte de mim estivesse entusiasmada com a ideia de estar ao redor de algumas mulheres para variar. Minha vida foi hipermasculina desde que saí de minha casa. Além de ver o dia a dia da mulher que morava abaixo de mim e as sessões com minha psiquiatra, literalmente eu não tinha contato com mulheres. Tinha meu tio e Bry. Tinha o síndico quando ocasionalmente precisava dele. Agora eu tinha Ryan e um pouco de Eli e Mark. Seria legal conversar de novo com algumas garotas. — Você está bem? Você está quieta. Sorri para ele, tentando esquecer momentaneamente que ele estava realmente lá. — Desculpe. O silêncio ainda é meu padrão, — admiti. — Não estou acostumada a ter alguém para conversar. Estou bem. Quando elas chegam? — Conhecendo-as, quinze minutos mais cedo do que combinei com elas. Só pra encher o saco. Embora Fee tenha a tendência de se atrasar mais por causa das crianças. ~ 167 ~


— Oh, — falei, sentindo outra pequena emoção. — As crianças estão vindo? — perguntei, ouvindo o entusiasmo em minha própria voz. Você não ensinava no jardim de infância se não gostasse de crianças. Elas eram alegres, loucas, estressantes e imprevisíveis, e nem todos achavam essas qualidades bonitas e encantadoras. Eu, pessoalmente, sempre achei. Adorei estar cada minuto na minha sala de aula, desde como elas se iluminavam quando aprendiam todas as letras, ou ouvir a maneira horrível e desafinada como cantavam juntas, ou derramarem glitter e cola e brigarem por brinquedos. Adorei cada segundo. E parecia que uma grande parte de mim estava desaparecida desde que perdi isso. — Não, — ele disse, parecendo se desculpando. — Não hoje. Pensei que talvez isso fosse demais. Minhas sobrinhas são fofas como uma merda, mas dão trabalho. Becca especialmente. Fee culpa todos nós por ela. Diz que fazemos todas as vontades dela. — Você faz? — Quase sempre, — ele admitiu descaradamente. — Ela foi a primeira criança que tivemos por perto. Gostamos de estragá-la. — E agora ela tem você na palma da mão, — eu disse sorrindo. Sabia como era isso. Vi isso todos os dias. Uma vez, uma mãe veio até mim e me pediu para dizer à sua filha que ela não tinha permissão para empurrar as outras crianças no playground porque ela não queria ser a pessoa ruim. Ridículo. — Algo assim, — ele admitiu, colocando o copo de café de volta no carrinho de café da manhã. Acho que essa era uma vantagem de viver em um hotel ocasionalmente, serviço de quarto. Segui o exemplo, colocando o que restava do meu café da manhã no carrinho e observando enquanto ele ia até o corredor. — Venha aqui, — ele pediu, encostado na porta da frente. E não queria fazer nada além do que ele pediu. Seus braços me rodearam, puxando-me contra seu corpo firme. — Você acha que elas vão acabar com minha masculinidade se eu disser que vou sentir saudades hoje?

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No meu peito, meu coração deu uma cambalhota selvagem e me aproximei dele. — Será nosso pequeno segredo, — disse, envolvendo meus braços ao redor da parte de trás do pescoço, fazendo meus seios se esmagarem no peito dele. E apesar de ter tido ele na noite anterior e há pouco mais de uma hora, meu corpo o queria de novo. — Também vou sentir saudades, — admiti, sabendo que era verdade do fundo do meu coração. Em tão pouco tempo, ele começou a significar tanto. Se fosse honesta comigo mesma, talvez até demais. — Bem, então, acho que estou seguro, — ele disse, me dando um sorriso enquanto se inclinava para frente e reclamava meus lábios. Pensei que seria só um pequeno beijo curto e doce. Mas, bem, no segundo em que seus lábios pressionaram os meus, tornou-se completamente diferente. Gemi contra seus lábios enquanto ele me segurava impossivelmente apertada em seu corpo, enquanto ele inclinava minha cabeça e aprofundava o beijo, enquanto sua língua seguia a costura e invadia. Ele se virou de repente, batendo-me de volta contra a parede, tirando os braços do pescoço e prendendo-os na parede acima da minha cabeça enquanto seus lábios soltavam os meus, deixando-os inchados e sensíveis, e seguiram pela minha bochecha, mandíbula e então torturando meu pescoço. Ele beijou, lambeu, sugou, até que cada centímetro do meu corpo cantarolava com a necessidade dele, até que eu sentia a meio caminho de um orgasmo e sua mão nem estava perto do meu sexo. Sua boca subiu, seus dentes agarrando meu lóbulo da orelha e me fazendo soltar um gemido. Então, como se fosse perfeitamente cronometrado, houve um som no corredor que fez Ryan me libertar e afastar um passo. Minhas mãos caíram entorpecidas pelos meus lados enquanto eu me pressionava contra a parede, sentindo-me bamba e tão excitada que era realmente doloroso enquanto Ryan recuperava o fôlego, afligido de forma semelhante. — Porra, — ele suspirou, esfregando uma mão pelo pescoço, na bochecha que estava bem a caminho de se tornar uma barba se ele não se barbeasse em breve. — Falei que elas chegariam cedo, — ele acrescentou com um sorriso de desculpas, aproximando-se de mim e pressionando um beijo na minha testa enquanto eu forçava minhas pernas a se firmarem novamente e ficando de pé. ~ 169 ~


Depois, a batida na porta. Não tocando. Parecia com, pelo menos, três punhos. — Abra! — Uma voz feminina chamou, fazendo Ryan rir e caminhar em direção à porta. — Pronta para isso? — ele perguntou. — Como sempre estou, — admiti, dando-lhe o que esperava ser um sorriso reconfortante. Então ele deslizou as fechaduras e elas... explodiram. Elas eram o oposto uma da outra no departamento de aparência. Uma era loira com um rosto macio e delicado, grandes olhos verdes, cabelos ondulados e usava uma minissaia apertada com calças legging brilhantes e um suéter preto grande com uma gola alta. A bainha incomum que subia no centro então mergulhava para baixo nas laterais, então realmente escovava a barra de sua saia no meio das coxas. A outra era uma mulher alta, de pernas compridas e peituda, com cabelos longos e retos, impressionantes olhos azuis e rosto feminino, mas angular. Como Ryan havia previsto, ela usava jeans azul escuro, botas de combate preto e uma camiseta azul longa. Ambas também tinham cerca de meia dúzia de sacolas com elas, nas mãos e penduradas nos pulsos. — Bem...? — A loira, Fee, exigiu, com olhos arregalados em Ryan, enquanto agitava uma mão cheia de sacolas. — Bem o quê? — Ryan perguntou. — Cadê ela? — ela acrescentou, revirando os olhos. — Bom dia para você também, Fee, Lea, — ele disse, e enquanto eu não conseguia ver o rosto da minha posição atrás da porta, eu podia ouvir o sorriso nele. — É bom ver você. Você parece bem... — Corta o papo furado. Não estamos aqui por você, — Fee acrescentou com um sorriso em sua própria voz. Ryan fechou a porta e seus olhos caíram sobre mim enquanto ele estendeu a mão para pegar minha mão e puxar-me para frente. — Dusty, — ele disse, me dando um aperto. — Esta é Fee e Lea, as mulheres dos meus irmãos. Meninas, esta é Dusty. Tente não deixá-la muito ansiosa enquanto estou fora. ~ 170 ~


— Oh, por favor, — disse Fee, revirando os olhos para ele. — Ela vai nos amar. Agora vá embora pra gente conseguir detalhes sobre você. — Detalhes sobre mim? — Ryan perguntou, erguendo uma sobrancelha. — Tenho a sensação de que ele é dominante quando fode... — Tudo bem, — Ryan a interrompeu com uma risada estridente. — Depois dessa, estou fora. Peço desculpas antecipadamente por te deixar nas garras dessas víboras, — ele acrescentou, me dando um beijo e soltando minha mão. — Tenha um bom dia. Se você realmente precisa entrar em contato comigo, tenho meu celular. — Ele saiu pela porta aberta e olhou para Fee e Lea e, com um enrugar de testa mandou, — Seja legal. — Com isso, ele se foi. — Tão dramático, — Lea bufou quando ele saiu. — Como se estivéssemos aqui para fazer você se juntar ao nosso culto satânico ou algo assim, — ela disse, deixando cair as sacolas na mesa de café. — Isso é totalmente para você, — acrescentou e, pega de surpresa, soltei uma risada um pouco alta. — Então você parece recém-beijada, — acrescentou Fee, descartando as sacolas e erguendo a cabeça para olhar para mim. — Vamos lá, o suspense está me matando. Ele é o tipo que tem pegada? Minha boca se abriu enquanto lutava sobre se devia ou não contar esse tipo de detalhes íntimos. Mas ele tinha acabado de me prensar na parede agora há pouco. — Tipo assim. — admiti. — Falei, — Fee disse a Lea que revirou os olhos. — Só porque ela tem um negócio de sexo por telefone acha que conhece as taras de todo mundo. — Ei, eu estava certa sobre o cara que possui a lavanderia , não estava? — Ele tem um fetiche peludo, — forneceu Lea. — Algo que realmente não queria saber. Obrigada pelos pesadelos, Fee. — Ouça, isso não é nem metade ruim do que reconhecer o conselheiro da escola da minha filha em uma das linhas e descobrir que ele é um filho da puta estranho e precisa de minhas mulheres ~ 171 ~


para lhe oferecer biscoitos e leite depois de gemer sobre ele ferindo seus pequenos quadris geriátricos e amando a sensação de suas bocas livres de dentes ao redor de seu pênis. Você quer pesadelos, lhe darei pesadelos. Bufei com isso, achando que o aviso de Ryan sobre elas era perfeitamente preciso e também que o nervosismo que sentia quando ele abriu a porta enquanto ainda estavam lá não estava piorando. — Então, — Lea disse, virando-se para mim. — Você é Dusty. Concordei com a cabeça, encolhendo os ombros. — Sou Dusty. — Mark e Eli disseram que você era quente. Eles não estavam mentindo. Shane quer saber como você não tem trezentos quilos se não sai do seu apartamento. — Shane é um rato de academia, — Fee informou. — Eu, ah, faço exercícios vendo DVDs. — admiti. — Isso é o que eu disse a ele. Ele é um adepto de academia. Tentei os DVDs, mas a menos que eu esteja na academia, não há ninguém para me julgar quando a minha bunda recebe o tipo errado de gingado, então não funciona para mim. De qualquer forma, nós lhe trouxemos algumas coisas. Ouvimos que você teve que sair com pressa e achei que Ryan não pensou exatamente em coisas como pijamas, maquiagem ou absorventes. Bem, isso era verdade. E, pensando nisso, devo menstruar em breve e isso não era uma conversa divertida para ter, ei, hum, eu tenho o diabo vermelho em minhas calças. Você pode me comprar alguns absorventes? Não é sexy. — Isso é ótimo na verdade, obrigada, — agradeci, sendo sincera. — Quero dizer, duvido que você vai vestir pijamas tão cedo, — acrescentou Fee. — Com todo o sexo. Você está fazendo isso, certo? Quero dizer, sendo agorafóbica não significa que não gosta de sexo. — Sim, tenho certeza de que não deveríamos trazer a coisa da agorafobia, — Lea repreendeu, me dando um sorriso de desculpa. — Por favor, — disse Fee, revirando os olhos. — Não é grande coisa. ~ 172 ~


— Acho que o problema é que agora parece que Ryan estava falando dela pelas costas, — especificou Lea. — Tudo bem, — disse Fee, virando-se para mim com um sorriso. — Quando Hunt e eu nos conhecemos ele era meu vizinho e alguns pontos altos do nosso namoro incluem: ele pensar que eu era uma vagabunda total só porque me ouvia falar sujo e gemer o tempo todo, sem perceber que era o meu trabalho; me ver tropeçar em casa bêbada o tempo todo; ele parar uma tentativa de estupro; me encontrar desmaiada em uma pilha de meu próprio sangue porque eu costumava me cortar porque tive uma educação de merda que costumava dificultar a minha vida às vezes. Pronto, agora você sabe tudo sobre mim e Hunter. — Você esqueceu a coisa do vibrador, — acrescentou Lea, fazendo com que minha testa se encolhesse. A coisa do vibrador? — Certo! — Fee disse, soando animada. — Então eu não estava na coisa sexo na primeira vez, acredite ou não. História longa. Na próxima vez que você tomar duas bebidas comigo, entraremos nisso. Mas, de qualquer forma, eu estava tentando fingir que não estava pensando em Hunter quando eu estava... batendo uma siririca, — ela disse, fazendo uma risada me escapar. — Mas isso foi uma merda uma noite quando ele veio e encontrou o meu vibrador na pia do meu banheiro. — Shane e eu realmente não temos... — Hum, vai se fuder — Fee cortou-a. — E a coisa do banheiro da academia? E a coisa do oral enquanto está em cima dos ombros? Vamos lá. Você tem alguma merda suculenta para contar também. Ok. Eu gostei delas. Isso não era possível? Claro, ainda havia um pouco da sensação de me sentir uma estranha, porque não conhecia todas as pequenas histórias, mas elas eram abertas, engraçadas e acolhedoras. O que mais você poderia pedir? Achei que, com algum tempo e contando alguma história, todos ficariam felizes por me ter por perto. ~ 173 ~


— Ah, e trouxemos porcarias para comer, — disse Lea. — Graças a Deus, — acrescentou Fee, remexendo as sacolas e pegando um pacote de Reeces. — Olha, amo minhas crianças. Mas juro que elas podem ouvir o som de uma embalagem de doces há cinco quilômetros de distância durante uma tempestade. Nunca tenho minhas besteiras para comer. E, bem, ainda elas têm vários anos até menstruarem, então não entendem o perrengue que é precisar de um chocolate, mas quando entenderem, espero que se lembrem de todos os doces que roubaram de mim ao longo dos anos e se sintam muito mal por isso. — Você foi professora no jardim de infância, certo? — Lea perguntou, olhando para mim. — Sim, — concordei, acenando com a cabeça, aceitando um Reeces quando Fee entregou um para mim. — Aqui mesmo na cidade? — Sim, — concordei, me sentindo perdida de novo. — Uma classe cheia de vinte pequenas Beccas ou Izzys? Como? Por quê? — Fee perguntou com um sorriso. — Sempre gostei de crianças. Eu era filha única. Gosto do caos. — Fee, acho que você acabou de encontrar uma babá, — declarou Lea, indo para a cozinha e fazendo café como se já estivesse no local muitas vezes antes. — Sério, se você quiser ficar louca por algumas horas, sempre estou procurando por uma babá decente. Para vir aqui hoje, tive que pagar três meninas do bairro para observá-las por algumas horas. Trinta dólares por horas, porque nenhuma garota vai aguentá-las. Elas têm uma reputação ruim. — Eu ficaria feliz em sair com elas, — ofereci-me. — Você sabe, assim que eu me resolver. — Sim, situação louca, — disse Fee, caindo no sofá e apoiando os pés na mesa. — Olha, Lea tecnicamente ganha de você. Mas ainda é louco. — Talvez ela não queira falar sobre isso, — disse Lea, voltando quando o cheiro de café fresco encheu o ar. ~ 174 ~


— Tudo bem, então podemos falar sobre como Shane cuidou... Lea limpou a garganta e ambas compartilharam um olhar que, como não as conhecia o suficiente, não consegui interpretar. Mas, em seguida, Fee mudou abruptamente o rumo da conversa. — Este lugar é fantástico, não é? Ninguém fica aqui muito, mas todos os anos Hunt e eu voltamos aqui para comemorar nosso aniversário num longo fim de semana. Charlie e Helen ficam em nossa casa com as crianças. Eles têm serviço de quarto! Ugh, o luxo. — Por favor, Hunter faz a maior parte da comida de qualquer maneira, — disse Lea, balançando a cabeça. — Bem, só porque não sou boa nisso. Nós também temos férias aqui às vezes. Todos nós viemos aqui no Quatro de Julho para ver os fogos de artifício sobre o Navesink. É perfeito daqui, — ela disse, apontando para as janelas. Então, bem, bebemos café, comemos as tranqueiras e falamos sobre assuntos leves antes que as coisas se tornassem sérias e descobrir sobre o passado delas. E aprendi sobre a infância ferrada de Fee com um pai abusivo fanático religioso na floresta e isolada de qualquer um além de seu pai, mãe e irmão. Aprendi sobre como ela fugiu para a cidade de Nova York e teve que aprender como o mundo real funcionava, com cicatrizes de seu pai, tanto literal quanto figurativamente, que a fazia se esforçar para manter-se sã sem álcool e sem se cortar. Então, encontrou Hunt e alguém que a aceitou assim como ela era, e se recuperou lentamente. A história de Lea não era menos traumática, proveniente de uma vida em uma gangue de motoqueiros na qual seu pai e irmão não fizeram nada para impedir que o presidente do clube a estuprasse e abusasse dela durante anos. Ela escapou e ele retaliou abusando e matando uma garota que ela conhecia e machucando seu irmão e tentando culpá-la para retornar. Ao fugir dele, ela foi trabalhar para Fee e conheceu Shane e, eventualmente, ele soube da sua ex-situação e “tratou disso”. Havia uma espécie de caráter definitivo em suas palavras que diziam que isso nunca mais seria um problema, mas não continuou a conversa. Achei que era porque, embora estivesse com Ryan, ainda não estava exatamente no círculo. Elas mal me conheciam e não sabiam o quanto podiam confiar em mim. ~ 175 ~


Eu tinha que entender isso. Estava quase escuro quando Fee, obviamente aquela com menos filtro, finalmente deixou escapar: — Então, agorafobia... — Fiona, — disse Lea. — O quê? Agora somos velhas amigas, — ela disse, balançando a cabeça. — Não é como se fosse um segredo. Então, foi só a ansiedade que aumentou? — ela perguntou, surpreendentemente precisa. — Sim. — Fazia quanto tempo antes de Ryan forçá-la a sair? Meses... — Anos. — Oh, uau, — ela disse, levantando as sobrancelhas. — Então, você está aqui... isso é enorme. Bom para você. Foi bom ouvir isso, ter alguém de fora, talvez as poucas pessoas perto de mim entendessem o que isso significava para alguém como eu, saber que demorou muito para fazer os movimentos que, para outros, pareciam pequenos. — Obrigada, — falei, sentindo o rosto ficar quente. — Se você tiver um desejo de sair sem pressão, você pode ir a minha casa, — Fee ofereceu. — No caso de você querer diversificar com novas zonas seguras e outras coisas. — Também a convidaria para a minha casa, mas o armazém não é tão interessante. — Armazém? — Sim, Shane decidiu reformar um armazém antigo. É uma coisa de segurança, acho. É um espaço enorme e aberto. Um telefone começou a tocar. Bem, não tocando exatamente. Seu toque era um tema pornô dos anos setenta: bow chicka bow wooooow. — Deve ser as meninas. Pelo jeito, as minhas, — ela especificou, pulando para buscar sua bolsa. — As atuais babás devem estar amarradas e com fitas adesivas duplas. ~ 176 ~


Com isso, ela foi para cozinha para atender a chamada e Lea tocou minha perna com o pé. — Você está bem? — ela perguntou, levantando a testa. Assenti. — Sim. — Sei que isso é demais. — Sei que eu deveria me sentir desse jeito, mas estou bem. Vocês, na verdade, todos que conheci da família de Ryan, tornaram fácil. Não sei. Vocês não são como meus velhos amigos ou familiares... vocês apenas... vão com o fluxo. Lea sorriu para isso. — A família Mallick é um grupo de pessoas interessante. Todos são loucos, intensos e únicos, mas para eles... nada é mais importante do que a família. Assim, se Ry está sério com você e isso vai a algum lugar, então você também vai ser da família e eles vão te aceitar como você é. Na verdade, Helen está com vontade de conhecer você. — A mãe de Ryan? — perguntei, pensando nas histórias que ele me contou sobre ela. — Sim, ela gosta de personagens únicos. Fee com seu passado distorcido e sexo por telefone. Eu trabalhando meio período no sexo por telefone e minha formação de motoqueira. E então você com sua agorafobia. — Acho que o meu é muito menos interessante do que o de vocês. — Talvez, — ela concordou com um encolher de ombros. — Mas acho que o assunto de Helen tem menos a ver como nossas histórias são nuas e mais a respeito de como as nossas histórias funcionam bem para seus filhos. Ryan sempre gostou de garotas doces, legais e normais. Como quando conheci Ryan, ele trouxe uma garota para o jantar de Helen e ela era muito doce e muito boa, e quando Helen disse a ela que Ryan é um executor, ela o despachou. Então, acho que ela gosta que ele encontre uma garota que é o seu estilo, mas não se espante com o estilo de vida dele. — Bem, espero que ela... — Ah não! — Ela me cortou, estendendo a mão para tocar meu braço. — Não. Não quis dizer que parece que ela julgaria você ou ~ 177 ~


qualquer coisa. Ela só quer conhecer a garota que finalmente conseguiu que Ryan ficasse sério. Ela e Charlie querem mais bebês. Então, se vocês puderem ficar sérios logo, eu apreciaria, porque como Fee declarou que ela encerrou, eles estão no meu traseiro e de Shane sobre fazer bebês. Eu ri daquilo. — Bem, vou me esforçar, — concordei com um sorriso. — Isso é tudo o que estou dramaticamente, quando Fee suspirou.

pedindo,

ela

disse,

— Tudo bem, tenho que ir salvar as meninas. Acho que elas estão loucas com minhas diabinhas. E desde que Lea me trouxe... — Foi muito bom conhecer vocês, — falei, sincera. — E muito obrigada por todos os suprimentos. Isso foi realmente atencioso. — De nada — disse Lea. — Oh, espere, esqueci algo, — disse Fee ao mesmo tempo, indo para a bolsa e procurando. E então ela tirou a maior caixa de preservativos que já vi. — O único bom sexo é o sexo seguro, então, até sentir-se confortável o suficiente para ir a uma clínica novamente, evite usando estes. Tenho um suprimento ilimitado. — Já ouvi falar dos seus aquários, — concordei, enquanto ela a deixou junto com o resto das coisas. — Obrigada, — acrescentei, enquanto todas caminhamos juntas para a porta e nos despedimos. Eu estava desempacotando as sacolas, passando a conversa das últimas horas na minha cabeça. E então me ocorreu. O olhar que Lea e Fee trocaram em um dado momento. O fato de Ryan e seus irmãos terem saído juntos. O modo como a maior parte do dia passou sem que eu percebesse. — Aquele bastardo, — declarei ao apartamento vazio. Fee e Lea não estavam lá para se entrosarem comigo. Estavam lá como uma distração. ~ 178 ~


Porque ele estava fazendo algo com seus irmãos. E tive uma sensação forte e quase irresistível de que seja lá o que ele estava fazendo, envolvia os meus problemas e os de Bry. Mas antes que eu pudesse me concentrar demais nisso, o som baixo e calmante do meu toque me chamou da bolsa, onde Ryan tinha colocado nossos eletrônicos ao lado da lareira. Pensando que talvez fosse ele, talvez muito excitada e aliviada com essa perspectiva, atravessei a sala e agarrei-o antes de terminar de tocar. — Alô? — Srta. McRae? — uma voz masculina desconhecida falou, e algo na cadência de sua voz imediatamente me fazendo endurecer. — Sim, — eu disse, meu coração já disparado no meu peito. Eu sabia. Eu sabia sem saber que algo estava errado. — Srta. McRae você está listada como o contato de emergência para um Bry Hardy. Bry. Contato de emergência. — O que aconteceu? — perguntei, minha voz um sussurro tenso. — O Sr. Hardy foi trazido com um tiro de bala... Não ouvi o resto. Eu não precisava. E, ao contrário do tempo em meu apartamento quando minha vida estava em jogo, não congelei. Não entrei em pânico. Corri pelo quarto e encontrei meus sapatos, peguei um suéter que estava em uma das sacolas, tirando as etiquetas enquanto corri para fora da porta. Tudo o que pude pensar quando subi pelo elevador e explodi para o exterior voluntariamente pela primeira vez em anos foi que ele sempre esteve lá para mim. Não importava o que, ele estava perto de mim. ~ 179 ~


Eu estaria ao seu lado quando ele precisasse de mim também. Exceto, que eu não era o contato de emergência de Bry. E o hospital na verdade não me ligou. E a merda estava prestes a bater no ventilador.

~ 180 ~


Quinze RYAN

— Você precisa respirar, — Shane me disse enquanto entramos no carro juntos. — Ela ficará bem com Lea e Fee. E você sabe que temos que fazer isso. Isso significa que tínhamos que lidar com a situação. Não podíamos sentar e nos esconder na maldita residência. Isso não era jeito de começar um relacionamento. Nós precisávamos ter uma chance justa no meu apartamento, onde ela poderia se acomodar e ficar confortável e sentir que poderia relaxar. Então, isso significava que eu e meus irmãos estávamos no caminho para Chaz's para ter uma reunião com o nosso pai e ver qual jogada achávamos que seria a melhor. Francamente, não tinha dado tanto importância a toda a situação quanto a severidade exigida. No entanto, considerando que era porque eu estava tendo minhas mãos, boca e língua em toda a Dusty e, finalmente, meu pau dentro dela, não estava exatamente irritado comigo por causa isso. O que importava era que ela estava segura. Ninguém passaria pela entrada se não fossem moradores. E mesmo que você pudesse fazê-lo, havia apenas um elevador para os dois apartamentos de cobertura e a única maneira de acessá-los era com uma chave. Cada membro da minha família tinha uma chave para o elevador e a porta. O outro morador da cobertura, Ross Ward, era a única pessoa com uma chave para o elevador. Ele não deixava ninguém chegar perto de seu apartamento para que ele não ficasse preocupado. Na verdade, tê-lo do outro lado do corredor quando as meninas estavam lá sozinhas era outra forma de proteção, caso acontecesse algo. Ele ~ 181 ~


poderia estar ocupado com seu próprio negócio na maior parte do tempo, mas não ficaria de braços cruzados se ouvisse algo no corredor. Elas estavam seguras. Ela estava segura. Mas era temporário. Ela nunca estaria totalmente segura até que lidemos com a situação de uma vez por todas. Se o Dom fosse tão grande coisa como parecia, não seria fácil. — Tudo bem, — disse Hunt, empurrando um arquivo na mesa em que nos sentamos, Chaz’s estava fechado até a hora do jantar. — Dom Donovan. Traficante de drogas. Estuprador. Assassino. Cabeça de merda geral, — ele disse, suspirando. — Bry ficou ligado a uma verdadeira joia. — Tudo bem, — disse o meu pai, recostando-se na cadeira. — Realmente, há duas opções aqui. Fazemos uma viagem a Camden e tentamos conversar com Dom, de empresários para empresário. Mas, para ser sincero, não vejo como isso vai ajudar. Ele parece ser o tipo de bastardo que vai pegar nosso dinheiro e depois disparar de volta em nossa direção. — Não posso dizer que não concordo com isso, — eu disse, balançando a cabeça. — Bry não é um criminoso perigoso, mas parece estar vendendo droga toda a sua vida. Ao que tudo indica, esteve envolvido com vários traficantes ao longo dos anos, então conhece os canalhas, mas tem medo de Dom. Me ouviu dizer para sair da rua e ele saiu correndo. Literalmente. Enquanto estava no telefone comigo. — Você viu a foto, — acrescentou Eli, corpo rígido, pronto para entrar em ação, querendo sangue. — Se eles fizeram aquilo com uma mulher... — Exatamente, — meu pai disse, balançando a cabeça. — Então, a outra opção? — Shane alertou, mais calmo do que você geralmente esperava encontrá-lo. Ele costumava ser extrovertido, barulhento, louco. Desde que a merda aconteceu com o ex de Lea, ele passou a ter certa seriedade em relação a situações de trabalho que não tinha antes. ~ 182 ~


Meu pai encolheu os ombros. — Nós temos alguém para lidar com isso. Certo. O Navesink Bank conseguiu ser a fossa estranha do crime, porque todos conheciam seu lugar. Todos tinham seu nicho. O Henchmen MC contrabandeava suas armas. Os Grassis controlavam suas docas. Nós ilegalmente emprestamos dinheiro. Ross Ward tinha suas lutas clandestinas. Breaker contratava músculo. O Shooter era um assassino. V e Lex Keith eram os mais ferrados dos desprezíveis e traficavam na pele e outros atos deploráveis. Hailstorm fazia... seja lá o que for que os fodidos Hailstorm faziam. Quanto às drogas, bem, nós tínhamos dois jogadores principais: Richard Lyon tinha sua alta cocaína, que ele fornecia, principalmente a empresários que precisavam de um salto. Depois, havia o Third Street que tinha sua heroína e outras drogas de rua. Ninguém mais entrava no Navesink Bank com drogas. Simplesmente não entrava. Talvez alguém vendesse algum bagulho como erva, mas nem Lyon nem a Third Street davam a mínima pra isso. Tudo funcionava. Não havia guerras. Todos tinham seus clientes. Ninguém tinha que se preocupar em brigar por merda nenhuma. Então, quando novas ameaças começavam a aparecer, um deles ou ambos eram rápidos para se livrar delas antes de criar raízes e se tornar um problema para os negócios. Eles não ficariam felizes em saber que outra pessoa estava operando sob seus narizes por fodidos anos. Primeiro, porque pode ter afetado seus negócios sem que eles saibam. Segundo, porque parecia ruim. Quando se tratava de criminosos, era melhor atrair seu ego, sua reputação. — Especialmente Lyon ficará puto com o fato de que algum porra louca de Camden está sentado rindo sobre operar logo abaixo de seu nariz, — disse Mark. — E Third Street está indo mal pra caralho, — acrescentou Shane. — Enzo está aguentando, mas a taxa de prisão é alta e a demanda é maior e o fornecimento está ficando cada vez mais difícil, ~ 183 ~


— concordou Mark. — Ele será rápido em reagir quando ele achar que algo está acontecendo. — Olha, não que estejamos bem na fita ou qualquer coisa, — disse Eli, soando razoável, — mas não acho que seria inteligente colocar um Doberman Pincher contra um Pitbull. Este Dom tem pelo menos cinquenta traficantes. Parece que ele tem segurança. Enviar Enzo poderia ser uma missão suicida. Era um bom argumento e todos nós sabíamos disso, e ficamos sentados por um momento para pensar na situação. Foi minha mãe, que eu nem tinha percebido que estava ali porque ela ficou até tarde no escritório, que apareceu e nos deu uma terceira opção. — Nós podemos terceirizar, — ela forneceu, entrando com um maldito prato de minissanduíches porque, enquanto estávamos sentados lá, discutindo planos para derrubar um fodido traficante de drogas, ela ainda era nossa mãe. — Terceirizar, — meu pai repetiu, estendendo a mão e a agarrando, puxando-a para baixo em seu colo. Trinta anos estando juntos e eles ainda agiam como fodessem como adolescentes. Há muito tempo consegui superar a mentalidade “isso é nojento” e estabelecendo firmemente no “isso deve ser bom”. E, ultimamente, “talvez isso seja eu e Dusty daqui a trinta anos”. — Imagino que você tenha alguém em mente. Minha mãe encolheu os ombros quando pegou um sanduíche. — Isso é trabalho grande. Na verdade, há apenas uma organização da cidade na qual confiaria. Certo. — Você quer que a gente consiga uma reunião com Hailstorm. — esclareci. Quando se tratava de operações, eles eram muito difíceis de entender. Eles tinham um grande acampamento de sobrevivência nas colinas com cerca eletrificada e arame farpado, cachorros e atiradores. As paredes dos seus prédios eram feitas de material de contêiner. Eles tinham seus próprios poços, jardins, energia solar, lojas. Do que qualquer um poderia dizer, suas fileiras estavam cheias de ex-militares e vários antigos criminosos. O que eles faziam, bem, um pouco de ~ 184 ~


tudo. Eles faziam perseguições. Faziam segurança, golpes e sabe Deus o que mais. Lo era a suposta líder, alguém que, até a merda que aconteceu com The Henchmen e V, todos achavam que era a porra louca de um homem. Não era assim. — Pegue esse dez mil que você desperdiçaria com o Dom e dê para eles resolverem o problema de uma vez por todas. Eles vão fazer isso, — ela disse encolhendo os ombros. Talvez fizessem. — Como diabos nós vamos arranjar um encontro com Lo? — perguntou Mark, levantando as sobrancelhas, parecendo o menos convencido do plano. E foi nessa altura que meu telefone tocou, um número que não reconheci. — Ryan Mallick, — atendi, levantando-me e me afastando da mesa. — Ryan, Ross Ward, — a voz suave veio da outra extremidade, fazendo-me ficar rígido ligeiramente. Primeiro, nunca dei ao homem o meu número. Segundo, sua chamada não podia ser boa. — Ross, o que está acontecendo? — Essa merda não é da minha conta, mas sei que você tem uma mulher que está com você. A loira com o rosto quebrado. Imagino, não foi você que quebrou... — Claro que não fui eu quem... — Então, — ele continuou cortando-me. — Quando eu a vi saindo em pânico, pensei em dar uma olhada pela janela. Vi ser golpeada no estacionamento e arrastada para um carro. Tudo em mim congelou, porra. Voltei para minha família, minha voz como um chicote, — Ligue para os fodidos Hailstorm agora mesmo, gritei, fazendo com que todos me olhassem e congelassem. Eles me conheciam muito bem para ~ 185 ~


saber que eu nunca reagia exageradamente. Sabiam que a merda atingiu o ventilador. — Bom plano, — eu estava quase consciente do que Ross disse no meu ouvido. — Eles têm Dusty, — acrescentei à minha família enquanto Shane revirava seus contatos. Ele era amigo de Reign que poderia nos colocar em contato com Lo. — Ross, preciso do vídeo... — Já estou no escritório, — ele me cortou novamente. — Vou pedir para enviar um SMS com detalhes. — O... — Comecei, mas ele já havia desligado. — Reign, — a voz de Shane era firme. — Não, não pode esperar, porra. Ponha-me em contato com Lo... agora. Sim, é sério. — Quem ligou para você? — Mark perguntou, parado, como todos os outros de repente. — Ross Ward. Disse que viu algo. Dusty estava saindo do apartamento, então ele olhou para fora e ela foi empurrada para dentro de um carro. Meu telefone tocou novamente e eu deslizei, — Ross, o que agora... — Ele está com Dusty, — a voz desesperada de Bry encontrou meu ouvido. — Eu sei. Estamos trabalhando nisso. Como você sabe? — Recebi uma foto do filho da puta em meu telefone dizendo para eu encontrar Dom em Camden ou ela pagaria. — Bry, escute... — Estou a caminho. Eles não podem estar a mais de cinco minutos na minha frente e estou quebrando todos os limites de velocidade do filho da... — Bry, porra, escuta. Você não pode simplesmente aparecer lá. Eles não vão soltá-la. Eles vão torturá-la e fazer você assistir, porra, — disse, minha voz um rumor baixo porque minha mandíbula estava apertada pra caralho para falar corretamente. ~ 186 ~


— Não posso simplesmente não ir, Mallick. Eu preciso... — Você vai, — eu o cortei. — Apenas me dê cinco fodidos minutos para descobrir uma maneira mais inteligente. — Sim, aqui é Charlie Mallick. Preciso conversar com Lo agora mesmo, — a voz do meu pai me alertou, mais firme do que tinha ouvido há muito tempo. Fiquei parado enquanto ele a colocava na linha e transmitia a situação o mais rápido possível, depois fez uma pausa para ouvir tudo o que Lo estava dizendo, o tempo todo, meu coração saindo na minha garganta, batendo tão forte que senti como se estivesse sufocando nisso. Foi a primeira vez que senti o gosto do que é ter pânico. E concluí que, se era assim que Dusty sentia quando saia de sua zona de conforto, então eu retomaria todas as coisas que falei sobre o progresso e diria que ela poderia ficar no meu apartamento para o resto da vida se essa era a única maneira de ela não se sentir assim. Você sabe... quando a pegar de volta. — Certo. Claro. Direi a ele. Agradeço que você faça disso uma prioridade, Lo. — O que ela disse? — Shane perguntou, pegando o telefone e deslizando no bolso. — Disse que era uma hora e meia de carro e ela e seu pessoal encontrariam um plano no caminho. Ela quer você, — ele disse, girando a cabeça para mim, — lá fora em dez minutos e ela quer você com ela. O resto de nós seguirá... — Pai, não. Hailstorm tem isso. Não preciso de vocês se colocando... — Sua testa enrugada era tudo que eu precisava para saber que era inútil tentar discutir. — Tudo bem, — falei, caminhando para a porta da frente do bar e indo para a rua. — Não pira e pense com clareza, — advertiu Hunter enquanto ele saia comigo. — Você não vai ajudá-la se tudo o que você faz é se preocupar com o que está acontecendo. Se existe alguém que pode resolver logisticamente essa situação é Lo e sua equipe de especialistas. Dom pode ser um grande negócio em Camden, mas Hailstorm é simplesmente o raio de um problema grande pra caralho pra qualquer um. Eles têm sua reputação por um motivo e não entram em nada sem pensar e planejar. Eles vão recuperá-la. ~ 187 ~


Como se para provar que estava certo, eu podia ver um comboio de SUVs pretos que desceram a colina a poucos minutos de distância. Quando eles pararam, a porta do banco de trás do primeiro se abriu e entrei para encontrar-me sentado ao lado não de Lo, mas de uma jovem muito magra, de cabelos negros e coberta de tatuagem, com um notebook no colo e uma bebida energética em sua mão, digitando incrivelmente rápido com uma mão. — Ryan, — uma voz feminina veio do banco do passageiro quando ela voltou para me encarar. E ali estava ela em todos os seus lindos cabelos loiros, olhos castanhos, a Lo.fodona. — Então, aqui está a situação, Jstorm entrou em contato com Ross que enviou a imagem da placa do carro e a rastreou. A informação nos levou para algum canalha chamado Ray Cleaver, que tem um registro criminal tão longo quanto meu braço direito. Lesão corporal, assalto à mão armada, três acusações por posse de drogas, uma acusação com intenção de traficar. Oh, e ele gosta de ficar trancado com prostitutas também. Pelo olhar das fotos das prostitutas, excita-se em torná-lo ainda mais desagradável para elas, como um trabalho já desagradável que elas são obrigadas a fazer. — Porra, — gritei, encontrando-me quase desnecessariamente irritado pelo som da menina teclando furiosamente ao meu lado, mesmo que fosse sobre o caso. — As boas notícias aqui seriam, pelo que Jstorm pode ver no vídeo, Ray era aquele que dirigia e não o que estava com ela. — Quem estava com ela, então? — A imagem é granulada, — Jstorm informou, sem se preocupar em levantar os olhos do que estava fazendo. — Mas minha melhor aposta é no homem que seria o braço direito de Dom, que na verdade é seu irmão, Albert. — Com isso, ela girou o notebook na minha direção para me mostrar uma foto rápida do homem em questão, em seguida, retrocedeu o vídeo da segurança do hotel. Meu estômago apertou forte, observando Dusty explodir para fora do prédio, frenética. Algo a tinha assustada. Algo aconteceu para fazê-la sair do apartamento. E eu não consegui descobrir o que poderia ser. Ela não conseguiu deixar seu próprio apartamento com alarmes avisando que ela morreria se ela ficasse. Não fazia sentido. ~ 188 ~


Mas quando ela passou pelo carro, a porta se abriu e um homem que, de fato, parecia ser Albert, puxou-a e eles aceleraram. — Por que esta é uma coisa boa? Jstorm desligou a tela e retomou o toc toc no teclado, pois Lo me deu uma aparência compreensiva. — Albert parece ter uma cabeça mais fria em situações como essa. Ele não tem nenhum registro criminal. Sua única prisão foi por dirigir sem habilitação... quando ele tinha dezessete anos. Nada desde então. Mas trabalha na organização. Então acho que ele é o que mantém as coisas calmas e racionais. Ele não vai encostar o carro para deixar a merda acontecer com sua garota quando eles sabem, ele sabe, que estão trabalhando contra o relógio porque Dom já contou a Bry sobre o sequestro. Então, pela próxima uma hora e meia, ela provavelmente estará bem. E você precisa de sua cabeça no jogo. Respirei fundo, balançando a cabeça. — Ok. O que você precisa de mim? — Seu telefone, — disse Jstorm, estendendo a mão sem olhar para cima, então o deixei cair na palma da mão dela. — Preciso conversar com esse gatinho do Bry antes que ele faça algo estúpido. — Boa sorte com isso, — falei, olhando pela janela lateral. — Ele está apaixonado por ela. Provavelmente não vai ouvir a razão agora. Lo me deu uma olhada, não entendi exatamente até três segundos depois, quando a voz rápida de Jstorm, sem papo furado, carregada de palavrões, explodiu no silêncio do veículo. — Cale-se e ouça-me. Eu sou Janie de Hailstorm e preciso que você esfrie a porra da cabeça por dois minutos e ouça o plano... Então, ela disse a ele e a mim e, aparentemente, a Lo, porque eu tinha certeza de que ninguém nesse carro sabia qual era o plano até que Jstorm despejou isso para nós. Mas eu mesmo tinha que admitir que isso poderia funcionar.

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Dezesseis DUSTY

Claro que eu não estava na lista de contatos de emergência de Bry em seu telefone. Era fácil não pensar bem nas coisas quando você se depara com uma situação de vida ou morte. Talvez, três anos antes, isso teria sentido. Nós costumávamos ser tão próximos. Junto com meu tio, ele estava em meus contatos de emergência no meu telefone, bem como em meus formulários de trabalho. Mas Bry passou por pelo menos três telefones desde então e teve que reprogramar esses números. Ele não teria me colocado porque acharia que era uma pressão desnecessária sobre mim. Seu irmão perdedor provavelmente era o contato de emergência. Percebi meu erro dez segundos depois de sair do prédio e entrar na rua. Digamos apenas que quando a porta de um carro se abre e um cara grande e assustador sai, você sabe exatamente o que estava acontecendo. Eu fui enganada. E seria usada em algum tipo de barganha. — Pare de lutar, — o cara grunhiu depois de me jogar dentro, fazendo minha cabeça bater contra a outra porta fechada, o baque fez meus dentes baterem dolorosamente. Nem percebi que estava lutando. Tudo era puro, não diluído, instinto animal. Estava me debatendo e chutando com tudo no homem que me pegou quando entrou atrás de mim e bateu a porta. ~ 190 ~


— Poderia jogá-la no porta-malas, — veio uma sugestão da frente em uma voz que enviou um arrepio pela minha espinha porque reconheci. Uma vez gritou comigo, me amaldiçoou, exigiu saber onde estava meu estoque. Minha cabeça girou para olhar no banco da frente, vendo os olhos no retrovisor que fazia meu estômago apertar. O motorista era aquele que me espancou. Eu reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar. Isso, e o fato de que seu rosto ainda estava espancado até o inferno... graças a Ryan. O passageiro estava olhando por cima de seu ombro para mim e ele era familiar também, era aquele que tinha procurado em meu apartamento, destruiu-o, tirado todo o conforto que eu encontrava lá. — Cale a boca e dirija, — veio a voz quase alarmantemente calma atrás de mim, apesar do comentário do cara dirigindo, minha perna chutou e colidiu com algumas costelas duras. Ele parecia um pouco semelhante com os caras na frente. Havia certa dureza em tudo sobre ele. Seus olhos eram castanhos escuros, mas ilegíveis. Seu rosto era um que eu poderia ter achado bonito em circunstâncias diferentes com suas características fortes, mandíbula larga, cabelo escuro e completamente hipermasculino. Também era grande, largo, forte. Parecia ocupar todo o espaço (e o ar) no banco traseiro. Minha perna chutou de novo, o medo agarrado de maneira muito apertada, engasgando-me, fazendo-me reagir sem pensar. As mãos fortes se moveram e pegaram meus tornozelos, prendendo-os às suas coxas duras. — Pare de lutar, — ele repetiu, mas as suas palavras não eram barulhentas ou assustadoras ou mesmo ameaçadoras. Na verdade, ele disse calmamente para que apenas nós dois pudéssemos ouvi-lo, seus olhos olhando para mim. Se não estivesse estrangulada pelo meu próprio terror, poderia dizer que ele parecia me implorar para entender. Mas entender o quê? Sequestrar-me? Não havia como entender isso. — Deixe-me ir, — sussurrei de volta, meus olhos tão arregalados que sabia que eles estavam implorando e, francamente, meu orgulho poderia dar uma linda caminhada porque não havia espaço para isso ~ 191 ~


nesta situação. Se implorar, suplicar, chorar, gritar para minha mamãe maldita, qualquer coisa poderia me tirar dessa, estava disposta a tentar. — Não posso fazer isso, — ele disse de volta, tão humilde, sua boca mal se abrindo para enunciar, mas entendi perfeitamente bem. — Que diabos você está fazendo aí, Albert, brincando com a cadela? — perguntou o motorista, fazendo meu estômago ficar novamente azedo e me preocupei por um momento quase excruciante se eu ia ficar enjoada. — Se você não calar sua boca fodida, porra, e cuidar da sua maldita vida, vou fazer você estacionar este carro. Mas com o que vou brincar será seu rabo estúpido, porra. Essas palavras calaram o motorista, que deu um pequeno resmungo quando pegou o rádio e o ligou. O alto-falante atrás da minha cabeça na porta devia estar estragado porque nada saia dali, que era uma benção porque eu precisava pensar. A primeira coisa foi o cara atrás comigo, Albert, parecia ser aquele que estava no comando. Segundo, seu nome era Albert. Eu ouvi Bry deixar escapar o nome de seu chefe, e ele o chamou de Dom, não de Albert. Então, quem era o gigante atrás comigo? Apenas alguém mais importante do que os idiotas que me bateram e me roubaram? — Não vou contar a ninguém, — tentei, respirando profundamente, tentando manter o crescente pânico à distância. Não seria capaz de pensar em qualquer coisa se meu cérebro estivesse completamente paralisado por pensamentos alimentados pela ansiedade. — Não é minha decisão, querida, — ele disse, uma desculpa em sua voz. Não precisava de suas desculpas fodidas. Eu precisava de sua empatia, sua bússola moral, sua percepção de que o que ele estava fazendo estava além de confuso. Senti as lágrimas brotarem, inútil, mas incontrolável, apesar de tudo. Pisquei rapidamente, tentando não mostrar tanta fraqueza. Mas ele estava me observando e seus próprios olhos fecharam por um longo segundo, como se não gostasse de vê-las. Mas quando eles abriram, ele não me deu nenhum tipo de conforto. ~ 192 ~


— Eles me bateram, — informei, fazendo sinal para o banco da frente. — Eles vão fazer isso novamente. E desta vez, ninguém estará lá para impedir que eles me machuquem, pior, me estuprem. Me matarem. Seu rosto se endureceu visivelmente em “estupro”, mas novamente... nenhuma ação para mudar o que estava acontecendo. Desesperada, me retorci no banco, virando metade do meu estômago com as pernas ainda presas e agarrei a porta, encontrando-a trancada, mas não conseguindo encontrar nenhuma trava visível para puxar para cima. Estúpidos, estúpidos carros novos. Sobre o que só poderia ser chamado de soluço, estendi a mão para a janela, batendoa com cada força que poderia dar à posição embaraçosa. Sabia que não iria quebrá-la, mas imaginei que alguém que passasse dirigindo ou algo assim poderia me ver e achar estranho e dar um alerta. Sabe, tipo soltar a lanterna traseira e balançar sua mão fora se estivesse no porta-malas. De repente, desejei que o motorista tivesse seu desejo cumprido e eu estivesse lá atrás. Porta-malas tinha travas, pelo menos havia uma esperança de fuga em uma situação de sequestro. Mas meus tornozelos foram liberados. Ainda não conseguiria chutar porque, de repente, seu grande corpo se curvou sobre o meu, prendendo a parte inferior do meu corpo com seu peso e agarrando minhas mãos e puxando-as para baixo da janela, prendendo-as acima da minha cabeça na porta, esmagadas por seu peso. Tentei girar, levando meus joelhos, torcendo meu peso para cima. Tudo era completa e totalmente inútil. Ele era muito grande, muito forte, muito firme. Amoleci de novo com um soluço, virando o rosto para o lado, não querendo estar cara a cara com ele, mas isso significava que teria meu rosto enterrado em um de seus braços maciços, lágrimas escorrendo pelo antebraço. — Porra, você está tendo alguma diversão sem nós? — perguntou o motorista, fazendo-me engolir outro soluço, virando-se para trás e olhando para o rosto dele, sem ver nada além de um ódio profundo. Mas não por mim, pelo motorista. ~ 193 ~


— Estou tentando manter seu cu fora da fodida prisão, isto é o que estou fazendo. Não ligo o quanto meu irmão paga por um advogado, de jeito nenhum você sairia com um segundo sequestro e tentativa de estupro, seu idiota. — Seu irmão. As palavras saíram quando eu só pretendia pensá-las, fazendo com que seu olhar voltasse ao meu rosto, parecendo um pouco mais cauteloso. Seu irmão era Dom, o chefe de Bry. Seu irmão era aquele quem mandava as pessoas para bater, roubar, possivelmente estuprar e sequestrar. Seu irmão. Qualquer esperança que eu tinha de ele ter um coração, uma consciência, um ponto fraco, ser uma pessoa possivelmente razoável que poderia convencer de me deixar ir embora desapareceu. Senti todas as lágrimas secarem em um segundo. Os batimentos cardíacos rápidos, a pressão no meu peito, os pensamentos girando, tudo pareciam parar completamente, deixando apenas uma compreensão profunda do meu destino. E chorar não ajudaria. O mendigar não ajudaria. Eu precisava relaxar. Precisava pensar. Precisava prestar atenção em qualquer pequena possível oportunidade de fuga. — Você se acalmou? — Albert perguntou, as sobrancelhas erguidas como se não conseguisse entender como eu passava do modo de ataque e confusão histérica para acalmar e me recolher tão rapidamente. Acenei firmemente para ele, não confiando muito na minha voz para não entregar cada pedacinho de rebeldia em mim. Eu não iria desistir sem lutar. Não ia deitar lá e receber o que eles tinham para mim. Mas eu seria inteligente. ~ 194 ~


Ganharia tempo, pensaria em algo e me livraria dessa situação ridícula. E naquele momento, anos, uma vida, as gerações de codificação de DNA pareciam estar revertidas. Porque meu instinto não era simplesmente entrar em pânico e fugir. Meu instinto não era necessariamente voar. Era lutar. Eu ia lutar. — Não me faça segurar você de novo, — ele acrescentou quando me empurrou para trás, soltando meus pulsos. Trouxe meus braços para baixo da minha cabeça, estremecendo com a dor, vendo marcas roxas já se formavam de minhas mãos. Ao ver-me olhando para elas, ele exalou com força, chamando minha atenção. Ele não disse as palavras. Podia ver em seus olhos que queria, mas não disse porque não podia, porque isso o deixaria mal. Mas seu dedo se moveu para baixo e tocou uma das faixas de hematomas se formando e me deu um olhar que disse isso para mim. Desculpa. Mas desculpe não era bom o suficiente. Desculpa era fraco, triste e vazio quando não tinha uma ação por trás dela. Então, enquanto lentamente me ajeitei no banco, desviei o olhar e não aceitei o pedido de desculpa. Era contra minha natureza e quase me senti mal por isso. Mas a questão era: eu não poderia criar algum tipo de vínculo emocional com meu sequestrador porque pretendia fazer o que fosse necessário para fugir. Mesmo que isso significasse rastejar sobre seu cadáver. Passei muito da minha vida me escondendo, tendo medo, não experimentando coisas. E finalmente, finalmente comecei a sair dessa vida. Não estava perdendo isso. Não iria desistir sem lutar. ~ 195 ~


A viagem de carro parecia não ter fim, suficientemente longa para sentir um peso no meu estômago, algo parecido com medo, com nada além de meus pensamentos e o som de uma gravação ruim de um rap de rua machucando os ouvidos. Pontos turísticos passavam, familiares, mas desfocados com o tempo que decorreu desde que os vi. Podia sentir um suor frio começar em cada centímetro de minha pele quando cruzamos um lugar onde só estive uma vez, só porque sediava o maior aquário de Jersey. Fui lá com meu tio e nós estacionamos tão perto das portas e saímos da cidade antes de escurecer. Paranoico? Talvez. Mas, novamente, quando uma cidade como Camden era conhecida pelo crime, era sábio não correr riscos. Passamos por uma área movimentada, gente dentro e fora das lojas, nada nem um pouco ameaçador à vista. Mas quanto mais andávamos, menos gente eu via, nós passamos por os edifícios mais degradados, meio dilapidados. Grafite com diferentes níveis de talento artístico cobria alguns dos edifícios vazios, alguns se destacando mais do que outros: Pare o ódio. Levante Camden. Fique rico ou tente compartilhar. Quase tive uma estranha sensação calorosa meu peito. Por dois minutos, até ver a imagem de uma mulher que ocupava toda a lateral de um prédio, nua, segurando seus seios, um raio laser saindo de sua vagina e essa sensação escapuliu para o inferno. Dirigimos por uma rua estreita com pequenos prédios degradados alinhados de um lado, a maioria dos quais parecia não ter janelas, e do outro lado um muro de contenção coberto de grafite. Momentaneamente me perguntei o que estava escondido atrás dele, até que de repente desaceleramos e viramos em um portão aberto, indo para trás do referido muro de contenção. E o pensamento dominante que atravessou era, uma cerca de cadeia poderia ser escalada, um muro de contenção não. Uma vez que o portão se fechasse, eu não voltaria. ~ 196 ~


Por sorte, não parecia ser uma operação altamente funcional porque ninguém estava trabalhando nos portões e os dois homens que vi na área estavam parados em um canto fumando. Eles nem sequer olharam quando entramos. Meu coração estava saindo pela minha garganta quando o carro parou e o passageiro saiu sem mesmo olhar para trás. Albert saiu do seu lado e andou ao redor do capô para, suponho, vir me buscar. Mas o motorista ainda ficou lá. As portas estavam destrancadas. E, sem mesmo me dar conta da ideia chegando, coloquei o braço entre a porta e o banco do motorista, soltei o cinto de segurança e empurrei meus pés contra a parte de trás do banco. Ele bateu no volante com uma maldição enquanto voei para o outro lado onde Albert esteve sentado, puxei o trinco da porta e pulei para fora. Nem olhei para ver se estava sendo seguida. Não me deixei pensar que era uma cidade de merda e que qualquer coisa também poderia acontecer comigo lá. Apenas corri. Passei pelos portões e cheguei à rua, minha pulsação batendo nos meus ouvidos, tão forte que nem ouvi os passos atrás de mim. Não tive nenhum aviso antes de mãos agarrarem a minha cintura por trás exatamente quando cheguei ao fim do muro de contenção sinuoso, apenas um suspiro longe de uma chance de liberdade. — Não lute, — uma voz recém-familiar disse uma frase recémfamiliar. E, bem, eu não faria exatamente o que me mandassem, não é? Levantei-me e tentei me libertar, agarrando os braços que me seguravam. Tomei fôlego para gritar apenas para ter uma mão ao redor da minha boca. — Querida, pare, — ele disse, nem mesmo o mínimo de falta de fôlego, quando de repente senti-me puxada para trás. Mas quanto mais ele me arrastava de volta, mais eu lutava, arranhando, unhando, mordendo, jogando meu peso no corpo tanto quanto seu domínio forte permitia.

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Não parei nem quando fui puxada para dentro dos portões e os ouvi fechar atrás de mim, enquanto fui arrastada para o prédio que nem tinha percebido antes, baixo e sem janelas, parecendo tão abandonado como muitos dos outros que tínhamos visto pelo caminho. Mas, a julgar pelo pequeno grupo de homens que estava na entrada, ele parecia apenas aparentemente vazio, provavelmente para impedir os policiais de espionarem. — Sua fodida puta estúpida, — o motorista gritou quando nos aproximamos, esfregando o peito que devia estar ferido da colisão contra o volante. — Mal posso esperar para fazer você pagar por isso. Mostrar o que tinha planejado fazer antes quando seu namoradinho salvou sua bunda. Aliás, eu e todos os caras aqui vamos gostar de... — Feche a porra da boca e saia do meu maldito caminho, — disse Albert, fazendo dois outros rirem. — Você quer que eu conte ao Dom que você é a razão pela qual estamos de pé na merda da luz do dia com uma prisioneira quando a gente devia estar lá dentro e fora da vista de olhos curiosos, porra? Com isso, o homem realmente empalideceu e senti o estômago apertar com tanta força que dobrei para frente, tanto quanto o agarre de Albert permitia. Se aquele desprezível empalideceu com a menção do nome de Dom, ele devia ser algo muito ruim que nunca se viu antes. E meu destino estava em suas mãos. Albert moveu-se para me empurrar a frente e não pude, não consegui pensar em mais nada além de plantar meus pés. Então foi o que eu fiz. O braço de Albert no meu estômago apertou um pouco, quase reconfortante, antes de me apertar e me levantar dos meus pés e me levar torpemente para a entrada, os homens se afastando do caminho para nos permitir passar. O interior estava tão escuro como se pensaria do lado de fora. Não ajudava que as paredes estivessem pintadas com um cinza tão escuro que era quase preto. As paredes eram de blocos de concreto, conduzindo a um longo corredor de volta para o que parecia um entroncamento de três direções diferentes. Eu estava vagamente ciente do movimento de passos atrás de nós enquanto Albert me levava pelo corredor para a direita e, no meio caminho, na entrada de uma sala. Era enorme. Em sua vida anterior, ~ 198 ~


poderia ter sido usada como algum tipo de centro de recreação ou academia ou sala de conferências. As paredes ainda eram de blocos de concreto, escuras e sem janelas. Mas o teto tinha longas tiras de iluminação fluorescente superior que me fez estremecer com a falta de naturalidade disso. Do lado esquerdo da sala, contra a parede, como se estivesse confirmando minhas suspeitas sobre o espaço, havia um pequeno palco, talvez a apenas noventa centímetros do chão. Naquele palco havia três cadeiras. Na cadeira central estava Dom. Não havia como confundi-lo. Ele e Albert poderiam ter sido gêmeos. Tudo sobre ele parecia escuro e cruel, de seus olhos ao jeans e a camiseta pretos, e a cicatriz de um lado de seu rosto. E estava sentado lá, como se fosse um rei diante de sua corte. — Bem, finalmente, — ele disse, sua voz um pouco mais nasal do que a de seu irmão, uma característica que achei quase divertida mesmo dada a situação. — Pegou o caminho mais longo? — A putinha conseguiu... — começou o motorista. — Estava falando com meu irmão, — Dom o interrompeu. — A putinha estúpida fez o que, Al? — ele perguntou e contra a mão de Albert, podia sentir meus lábios se enrolarem com nisso. Você poderia dizer muito sobre um homem vendo como ele usa livremente a “palavra com P”. Pelo o estado das pequenas marcas arranhões ensanguentadas em seus braços e rosto, ele não estava exatamente em posição de mentir. — Ela resistiu um pouco, — disse Al, fazendo minha barriga apertar novamente e tudo em mim queria dar um giro e acertá-lo tão forte quanto a minha pequena estatura permitiria. Como se atreve a tentar me tranquilizar, me chamar de querida quando estava me levando para casa como um rato ao seu dono? — Estou vendo, — disse Dom, olhando por cima de seu irmão antes que seus olhos se movessem para mim. E fez uma inspeção sobre meu rosto, meus seios, meu estômago, minhas pernas. Senti como se cada centímetro do meu corpo estivesse sujo. Tive um desejo estranho e quase irresistível de arrancar minha pele, como se insetos ~ 199 ~


houvesse sob ela, como se estivessem se contorcendo. — Oh, bem, — ele disse, me dando um sorriso. — Por que é que vocês caras sempre perdem a melhor parte? Ela é uma diabinha linda e pequena, não é? Acham que ela tem uma bela buceta para combinar com esse rostinho bonito? Oh Deus. Fechei os olhos, tentando me forçar a respirar, tentando não ficar doente, simultaneamente desejando que houvesse uma maneira de prender minha respiração até eu morrer sem o instinto de sobrevivência entrar em cena... ou talvez engasgar com meu próprio vômito. Nada, literalmente nada além de ter as mãos dele e de seus homens em mim. — Por que você não a traz um pouco mais perto, Al? Preciso bater um papo com ela. — Albert me levantou novamente, me colocando de pé com os dedos de meus pés encostados no palco. — Acho que você pode soltá-la agora, — disse Dom, acenando com uma mão desdenhosa em direção ao banco ao lado dele, convidando seu irmão subir. — Ela não vai a lugar nenhum com Ray de guarda, certo Ray? — ele perguntou e, a contragosto, virei minha cabeça ligeiramente para ver o motorista. Ray. — Certo. Ela não vai a lugar nenhum até eu conseguir tudo dessa bunda apertada dela. — Isso vai ficar para mais tarde, — disse Dom, fazendo com que minha barriga se revirasse de forma ameaçadora. — Uma coisa de cada vez, primeiro temos que esperar o outro convidado. Havia apenas outra pessoa sobre a qual eles poderiam estar falando. Bry. Oh, Deus, Bry. Engoli a bile subindo na minha garganta, sabendo exatamente o que estava em nosso futuro. Bry apareceria e então nos revezaríamos observando o outro ser torturado de vários modos horríveis. E naquele momento, diante do meu sombrio futuro, apenas um pensamento realmente veio à mente. ~ 200 ~


Ryan. Ryan e seus olhos perfeitos, seu sorriso amável, suas palavras reconfortantes, suas mãos que poderiam ser gentis e ásperas de maneiras deliciosas. Mãos que provavelmente nunca mais sentirei. Olhos para os quais nunca mais olharei. Um sorriso que nunca mais me deixará aquecida. Palavras que nunca mais ouvirei. Tudo o que restava para mim era a dor, o medo e a feiura. E, sem poder evitar, me perguntei se ele saberia o que aconteceu comigo. Ele era um bom homem. Mais cedo ou mais tarde descobriria que eu estava desaparecida, e não voluntariamente, e ele me procuraria. Mas ele iria me encontrar? Teria um corpo a ser encontrado? Eu seria apenas pedaços descartados por toda parte? Com lágrimas mais uma vez picando meus olhos quando olhei para os meus pés, me perguntei uma última coisa louca: será que ele sentiria minha falta? Era uma loucura porque era irracional. Talvez ele sentisse um pouquinho de saudades, de alguma maneira passamos um tempo interessante. Mas as coisas eram tão novas. Nós ficamos juntos apenas alguns dias. Só tivemos relações sexuais duas vezes. Para um homem como ele, provavelmente não era grande coisa. Enquanto que para mim, era tudo. Ele era tudo. Acho que foi uma sorte ter conseguido um pouco dele. Isso foi menos patético que uma história de vida. A menina que cresceu arrastada como uma bagagem, facilmente deixada quando não era necessária ou desejada, então construiu uma vida digna apenas para perder tudo por causa de uma doença mental e depois ser estuprada e brutalmente morta por traficantes de drogas. Pelo menos, havia um pequeno romance para animá-la um pouco. Antes do fim trágico. — Então, você é quem tem mantido um olho nas minhas drogas para mim nos últimos anos, hein? Nunca provou a mercadoria? — ele perguntou, fazendo minha cabeça disparar. Não sei o que deu em mim, mas não consegui segurar as palavras. — Não sou uma viciada em drogas.

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— Oh, ela fala, — disse Dom, sorrindo perversamente. — Tem a voz tão doce, também. Gosto disso. Elas gritam melhor. Certo, Al? — ele perguntou, dando um tapa no braço do irmão. — Não sei, — respondeu Al, olhando para mim. — Sim, essa merda. Um escoteiro de merda. — Tenho certeza de que não violar as mulheres não o torna um escoteiro de merda. Apenas um ser humano decente. Sim, não consegui segurar isso também. Aparentemente, fiquei um pouco louca quando estava prestes a ser torturada e morta. Pelo menos não morreria como um ratinho manso. Gastei bastante da minha vida assim, com medo de coisas que nunca aconteceram, com medo de monstros estúpidos e invisíveis. Diante de pessoas da vida real, não iria me acalmar, chorar e deixar o medo ganhar. — Oh, cabeça quente. Gosto disso também. Vejo que você gosta de lutar, — ele disse, fazendo um gesto para o irmão que, agora que olhei bem para ele, parecia ter sido atropelado por um rolo compressor. Havia cortes desagradáveis e sangrando das minhas unhas em cima e embaixo dos antebraços e mais duas na sua bochecha. Havia um hematoma em semicírculo na carne macia entre o polegar e o indicador, onde eu o tinha mordido momentaneamente, mas com cada força que minha mandíbula tinha. Não tive uma resposta ao comentário de Dom, então fiquei com a boca fechada, concentrando-me em tentar lembrar de respirar e continuar engolindo a bile, que sentia subindo na garganta com cada segundo que passava. Houve uma pequena confusão no exterior da sala e fiquei tensa conforme se aproximava. — Chefe, — alguém chamou do lado de fora da porta. — Ele está aqui. Não. Não, não, não. Por que diabos ele viria? ~ 202 ~


Ele tinha que saber que era uma armadilha, que ele não podia me salvar. Eu sabia que ele me amava, mas que adiantaria vir e simplesmente assistir a coisas ruins acontecerem comigo? E depois ser ferido e provavelmente ser morto? — Mande entrar, — Dom disse e eu podia sentir seus olhos no meu perfil quando me virei para encarar a porta. Houve mais confusão, então, como um pesadelo do qual não conseguiria acordar, Bry entrou. Seu olhar nem sequer percorreu a sala. Seus olhos encontraram meu rosto e ficaram lá quando ele se aproximou, estendendo a mão e para segurar a minha tão forte que fiquei genuinamente preocupada que pudesse quebrar os ossos. — Isso é tão doce, — disse Dom, dando-nos um olhar de desprezo desagradável. — Não é doce, Ray? — ele perguntou. — Será ainda mais doce quando me assistir foder sua mulher até ela gritar. Havia um som vindo de Bry que nunca tinha ouvido antes. Veio do fundo do peito e era uma espécie de ruído, algo parecido com um rosnado. Quando levava seu amigo para o meu apartamento, às vezes poderia ser um pouco mais frio e distante. Normalmente, quando ele estava ao meu redor, era bom, doce, observador e engraçado. Nunca o vi realmente aborrecido. Mas não se engane, ele ficou irritado com aquele comentário. Todo o seu corpo parecia estar tremendo com isso. Então, quando falou, ele não se importou com o tom ou com as palavras que ele falou. — O que diabos você quer de nós, Dom? Você pegou suas pílulas de volta. Não pense que não sei que foi esse merda, — ele disse, apontando para Ray, — e um dos seus outros lacaios que fez isso também. — Espertinho, — disse Dom, balançando a cabeça. — Soube que seus métodos não foram o que combinamos. O que quero de você, — ele disse, levantando uma sobrancelha, — é te fazer de exemplo para todos os outros não esquecerem as fodidas regras. ~ 203 ~


— Não havia nenhuma fodida regra sobre onde eu colocasse o maldito fornecimento, Dom, e você sabe disso. O que diabos ele estava fazendo? Olhei para o seu perfil, meus olhos esbugalhados, apertando sua mão esperando que transmitisse a mensagem que eu tentava entregar com os olhos: Está tentando irritá-los? Cala a boca! E apesar de nos conhecermos a maior parte de nossas vidas e poder ter conversas não verbais assim, ele estava completamente me ignorando. — É algo que meus outros homens simplesmente entendem. — Bem, agora foi esclarecido. Aliás, não sei como isso veio à tona, Dom. A menos que, Ray e seu parceiro andaram abrindo a boca sobre eu ser o único que estava negociando em Navesink Bank. Não sei por que estou sendo feito de exemplo, quando você tem alguns caras com uma fodida língua solta, o que é uma ameaça muito maior para sua organização. — Basta, — disse Dom, acenando a mão em direção a Bry. Aparentemente, essa era uma espécie de sugestão não verbal, porque, quando me dei conta, Ray estava do outro lado da sala agarrando Bry, puxando-o para o lado. Sua mão apertou a minha, novamente como garantia, antes de me soltar completamente. Quando tentei buscá-lo novamente, Ray estendeu a mão livre e me empurrou, derrubando-me no chão. Caí de lado com uma dor aguda desde meu quadril até o meu ombro. Mas quase não senti isso, toda minha atenção se concentrou em Bry enquanto ele estava sendo afastado. Assim que ele tentou girar de volta para mim, me vendo cair, o braço de Ray recuou e balançou, socando solidamente em seu estômago e fazendo-o cair de joelhos, respirando com dificuldade. — Não! — gritei, incapaz de evitar a histeria borbulhando como nunca antes. — Cale a boca, putinha, ou você será a próxima. Não ouvi a confusão. Não ouvi nenhum dos homens gritando. ~ 204 ~


Não ouvi nada fora do normal. Exceto no segundo seguinte, uma voz que não tinha estado na sala antes falou, rompendo a tensão como o estalo de um chicote. — Cuidado para me chamar de putinha também? Quer dizer, eu tenho as partes certas do corpo para isso. E lá estava uma mulher. Bem, uma olhada nela para saber que ela não era meramente uma mulher. Era uma força a ser considerada. Não era que fosse excessivamente volumosa ou cortante ou intimidante. Na verdade, ela tinha um corpo feminino perfeitamente cheio de curvas, com pernas longas, quadris largos e uma bela comissão de frente. Vestia de forma um tanto militar com calças de camuflagem e uma camiseta cavada curta, justa. Tinha longos cabelos loiros e olhos castanhos quentes, inteligentes e observadores. Mas havia algo mais nela. Havia um ar de autoridade e força. Ela ficou na entrada com a cabeça inclinada para o lado, calma como poderia estar. Como se todos os dias ela entrasse no complexo de um traficante de drogas. Por um momento fiquei preocupada de que talvez ela fizesse parte da organização ou algo assim. Até Dom ficar rígido em sua cadeira. — Quem diabos é você? — Eu sou Lo. E esta, — ela disse, andando para o lado e permitindo que outra mulher entrasse em cena. Ela era mais jovem, de cabelos pretos, olhos azuis e coberta de tatuagens, — é Jstorm. E esse, — ela continuou quando Jstorm entrou para permitir espaço na entrada novamente, — é Ryan Mallick, — ela disse e senti como se minha barriga tivesse caído nos meus pés. Ryan? Mas, mesmo quando eu tentava me convencer de que estava ouvindo coisas, alucinando, perdendo minha cabecinha sempre louca, ele entrou. Assim como quando Bry entrou, ele não olhou para os homens no palco. Ele não olhou para Bry no chão ou Ray parado sobre ele. Seus olhos foram e ficaram em mim. Parecia haver mil palavras em seus olhos profundos. ~ 205 ~


Mas não era hora nem lugar. — Que porra você está fazendo aqui e onde diabos estão os meus homens? — Dom gritou, sentando-se direito, mas parecia que se recusava a deixar seu trono improvisado. — História engraçada, — disse Lo, recostando-se contra a porta, casual como quis. Quem era a mulher? — Você emprega um bando de ratos de rua, sem qualquer treinamento. Olha, o primeiro cara a puxar uma arma para mim, ele a estendeu em um ângulo. Pelo amor de Deus. Como um gângster em um filme. Ridículo. Desnecessário, digamos, eles foram fáceis de desarmar e controlar. Minha gente e as de Mallick os colocaram em uma das outras salas. Eles os encurralaram em uma sala. Então, eles essencialmente... controlavam a situação? Eu não seria estuprada e assassinada. — Você não é tão patético como pareceu no telefone, — disse a outra mulher, Jstorm, falando para Bry. — Puxa, obrigado, — disse Bry, ainda parecendo sem fôlego, e me preocupei com suas costelas. — Por que você está aqui? Você quer a puta? — Dom perguntou, agitando uma mão em minha direção. Foi nessa altura que pensei em me levantar ligeiramente, me colocando de joelhos. — Vamos levar a menina, — Lo disse, uma pequena irritação em sua voz. — Também iremos levar o seu ex-revendedor com a gente. — É aí que você passou dos limites, — disse Dom, a voz ficando firme. — Ele é meu. Ele fez uma tremenda cagada. E vou lidar com ele como eu quero. — É engraçado, você falar como se tivesse qualquer influência aqui. Você não tem. — Eu não sei que merda é... — Dom começou levantando-se da cadeira e alcançando a cintura de seu jeans. Já vi muitos filmes para saber o que ele tinha lá.

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E sabia suficiente sobre probabilidades para saber que ele poderia colocar uma bala em pelo menos uma das outras pessoas na sala antes que alguém pudesse pegar uma arma e atirar nele. Se eles sequer tivessem armas. Eu sabia que Ryan era um agiota e tudo, mas estava certa de nunca ter visto uma arma com ele quando estava ao seu redor. Mas, como quis o destino, sua mão nunca alcançou sua arma. Porque, em uma ação que nunca poderia ter previsto, não importa quantas vezes pudesse ter imaginado a situação, Albert ergueu a mão. Peguei um flash de prata antes que ouvir o estrondo. Então, toda a lateral da cabeça de Dom explodiu. Explodiu. Vermelho disparou de um lado, espirrando em todos os lugares enquanto seu corpo cambaleava e depois desabou. Tanto quanto dói o meu orgulho admitir isso, eu gritei. E quero dizer... gritei. E não parei até sentir uma mão apertar meus os olhos e quando um braço circulou minha cintura, puxando-me para trás. Eu não precisava ver para saber. Ryan.

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Dezessete RYAN

O plano que Jstorm elaborou foi surpreendentemente simples. Não havia nenhuma ostentação para isso. Era uma invasão rápida e seca, desarmamento e contenção. Na verdade, era isso. Nós, o que significava eu, Lo, Jstorm, o cara que dirigia, cujo nome era Malcolm, junto com uma dúzia de outras pessoas acompanhando em SUVs e minha família inteira que seguia atrás em seus próprios veículos, minha fodida mãe incluída, todos saíram dos carros depois que um dos homens de Lo no SUV atrás de nós saiu e destrancou o portão para que todos pudéssemos entrar. Então, Lo saltou e caminhou até o primeiro cara que viu nossa presença, um garoto com uma Glock. Ele a estendeu em um ângulo que, aparentemente, ela achou tão divertido, pois jogou a cabeça para trás e riu antes que seu braço direito cruzasse seu corpo, agarrando todo o lado da arma, depois trazendo o punho esquerdo em um soco curto no maxilar do homem. Era cômico como ele foi rapidamente nocauteado e jogado no chão e Lo com a posse de sua arma. De lá, todos os outros saíram de seus respectivos veículos e me entregaram uma arma, olhando para trás para ver que meus pais e meus irmãos trouxeram as suas próprias, algo que muito raro, quase nunca carregamos. E então, simplesmente, agimos, todos cientes, cada um derrubando uma ameaça antes que pudessem gritar ou ter a chance de atirar, chamando a atenção do chefe para nossa presença. Uma vez que eles foram dominados de joelhos em uma sala, os caras e as garotas de Lo, e minha família, ficaram lá para manter um olho sobre eles. Nós três caminhamos pelo corredor ao som de vozes.

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Se eu não tivesse sido avisado severamente por Lo e depois por Jstorm, esta última muito mais agressiva, para ficar calmo e deixar Lo tratar disso, teria parado do outro lado da porra daquela sala com ela. Nunca, na minha fodida vida, estive tão preocupado com algo ou com alguém como estive com ela nas últimas duas horas. Foi um sentimento de enfermidade constante, esmagadora e consumidora. Todos os piores cenários horríveis surgiram em minha mente. Ao vê-la naquele chão, tudo dentro de mim me implorou para ir até ela, deslizar minhas mãos sobre ela e ter certeza de que não estava ferida em qualquer lugar. Mas não pude. Eu devia a Lo e os Hailstorm mais do que o dinheiro que pagaria por isso. Eu lhes devia o meu respeito e cooperação. Então, fiquei onde estava. E me confortei com o fato de que ela estava totalmente vestida, nem mesmo um sapato faltando, então o pior dos casos definitivamente não aconteceu. E além do que parecia serem hematomas em seus pulsos e a vermelhidão em seus olhos que insinuava as lágrimas, parecia não haver feridas. Eu poderia examiná-la assim que a situação fosse tratada. A verdade era que situação ainda estava um pouco instável até Dom, Albert e Ray Cleaver serem neutralizados. A última coisa que eu esperava, porém, era um maldito motim. Irmão atirando em irmão. Era bem bíblico em sua simplicidade. Uma bala na cabeça e nenhum de nós tivemos que sujar as mãos. Lo e Jstorm levantaram suas armas, inseguras da situação, enquanto Dusty gritava, o rosto torcido de horror quando se sentou congelada, observando a bala rasgando o crânio de Dom, observando a massa do cérebro espalhar em todos os lugares, observando seu cadáver cair no chão. ~ 209 ~


E, bem, foda-se as regras. Foda-se respeito e gratidão. Ela precisava de mim e elas só teriam que lidar com isso. Eu me apressei atrás dela, apertando minha mão sobre seus olhos, embrulhando meu braço ao redor de sua cintura e arrastando-a para trás, olhos focados no homem com a arma. Bry se torceu de sua posição, soltando um grito de dor e ficou claro que ele tinha uma ou duas costelas quebradas, mas ele fez isso de qualquer maneira, chutando os joelhos de Ray e fazendo-o voar em suas costas. — Bem, certamente não é uma perda para nenhum de nós, — disse Lo, calma, como sempre, e me perguntei o tipo de coisas que ela tinha supervisionado e se envolvido em sua carreira para torná-la tão imperturbável. — Eu estava esperando uma oportunidade para fazer isso, — admitiu Albert, voz um pouco áspera e acho que matar seu próprio irmão faria isso com um homem. Ele levantou as mãos por um segundo, mostrando rendição, depois baixou lentamente a arma no chão, chutando-a. — Não que não estejamos satisfeitos por não ter que fazer isso nós mesmos, mas gostaria de nos contar por quê? — Imagina um verdadeiro lixo... Lo, é isso? — ele perguntou, sentando de volta. — E não por alto. Eu me refiro a conhecer de verdade. Comer com eles, compartilhar a porra das férias com eles. E ter que ouvir essa merda, ouvi-los se gabar de toda a merda doentia que eles fizeram? Os homens que torturaram e mataram? As mulheres que estupraram e mandaram estuprar? Se você tivesse mesmo uma pista de como era, você entenderia isso. — Claro, mas por que agora? — Lo pressionou e eu estava vagamente ciente de Bry subindo em cima de Ray e começando a espancá-lo violentamente. O que, bem, não pude culpá-lo. Também teria espancado aquele homem. Jstorm passou por Lo e foi ficar de pé do lado dos homens. Imaginei que estava se assegurando de parar Bry antes de ele matar o homem. ~ 210 ~


— Não podia deixar ele por suas mãos sobre ela, — disse Al, estendendo uma mão em direção onde eu ainda tinha Dusty puxada contra mim, seu corpo completamente em colapso contra mim, seu peito tremendo como se estivesse chorando, embora silenciosamente. — Já é ruim pra caralho saber que o desgraçado faz essa merda com as mulheres, mas não saber disso na hora. É completamente diferente receber ordens para buscar uma mulher para ser espancada, estuprada e morta. — Mas você a trouxe aqui, — Lo especificou, tentando entender. — Uma vez que ele tivesse sua pequena audiência com ela, imaginei que poderia tirá-la daqui e dizer que ela escapou. Este lugar é apenas impenetrável na frente. A parte de trás do prédio é cheia de janelas e merda para as antigas salas de aula. — Você poderia ter me deixado fugir, — Dusty disse, me surpreendendo o suficiente para soltar minha mão. Sua voz era alta, parecendo explodir para fora dela. E, acostumado com ela falando silenciosamente, murmurando e sussurrando e timidamente dizendo sua opinião, foi chocante. — Eu tentei fugir. Estava fora e você me arrastou de volta! — Querida, — disse Albert, balançando a cabeça. — Havia quatro caras naquele pátio. Eles teriam dito a Dom que eu deixei você ir. — Tudo bem, — interrompeu Lo. — E agora? — ela perguntou, olhando Albert. Foi então que Jstorm, com uma série de palavrões, tentou tirar Bry de Ray. Quando ele não respondeu a nada disso, ela levantou sua pesada bota de combate e bateu em seus quadris, derrubando-o. — Eu assumo. Você leva o sua gente e vai embora. Nunca mais ouvirá falar de nós. Lo endireitou os lábios. — Isso poderia funcionar. Apenas um aviso, estamos espalhando para todos traficantes locais para manter um olho em qualquer pessoa nova em nossas ruas. Dizer que não vão lidar com isso tão amigavelmente como estamos fazendo agora seria um eufemismo. — Ficaremos fora de Navesink Bank, — Albert disse com um aceno de cabeça e, apesar de não conhecer o homem, acreditei nele. ~ 211 ~


— Você fica a trinta quilômetros de Navesink Bank em todas as direções ou voltamos com uma das criações de Jstorm. Elas são de grande variedade de explosões, — ela especificou com o que parecia um sorriso quase materno para a mulher mais nova. — Entendido, — concordou Albert. Olhou os olhos para Al, mas se dirigiu a mim. — Por que vocês não seguem em frente e saem daqui? — ela sugeriu, alcançando no bolso e jogando uma chave. — Bry, você também. A gente te leva para o hospital assim que voltarmos para a cidade. — acrescentou. Não hesitei, agarrei Dusty e a levei comigo, encontrando-a estranhamente pouco cooperante. Mas nos foi dado a chance de sair e eu estava fazendo isso. Puxei-a pelos corredores, acenando com a cabeça para Shane quando ele chamou minha atenção ao passarmos pela sala onde estavam prendendo as pessoas de Dom, agora as de Al. Então corremos para fora e não parei até me sentar no banco de trás do SUV que me levou até Camden, fechei e travei as portas. Bry me deu um olhar que dizia não querer isso, mas me deixaria sozinho com ela e ficou fora do carro. — Dusty, querida, respire, — pedi, tentando manter minha voz calma, mas mais do que um pouco de desespero se infiltrou no meu tom. Ela nem estava olhando para mim, seus olhos arregalados e aparentemente sem ver. Minha mão estendeu e pressionou seu estômago com força. — Respire, — repeti. Isso pareceu funcionar quando ela sugou ar avidamente, sua barriga se expandindo. Seus olhos se moveram para mim, olhando-me como se estivesse me vendo pela primeira vez. E então a barragem apenas... quebrou. Seus olhos inundaram e ela apoiou rosto no meu peito, seus braços envolvendo minha cintura com tanta força que ficava difícil respirar. — Está tudo bem, — murmurei, as mãos deslizando ao redor dela, escorregando suas costas e percorrendo seus cabelos. — Eu tenho você. — acrescentei, puxando-a para frente e no meu colo. ~ 212 ~


— Como... você... — ela começou, fungando forte de uma maneira que eu não deveria ter achado divertido, mas ela estava viva, ilesa e em meus braços. Então, eu iria em frente e ficaria encantado por isso. — O morador na outra cobertura. Ele pensou que algo estava acontecendo e olhou pela janela e viu você sendo sequestrada. Ele me ligou. Chamamos Hailstorm. Você viu o resto. — O que... é... Hailstorm? — Essa é uma pergunta boa pra caralho. — concordei, olhando pela janela da frente quando Lo, Jstorm e Malcolm saíram, seguidos cuidadosamente por minha família, depois o resto do grupo de Lo que se espalharam, virando-se de frente para o prédio, com armas ainda em punho, e caminhando de costas em direção aos carros, criando uma parede humana. Treinados. Altamente, altamente treinados. Seja quem forem os fodidos Hailstorm, apostava que eles faziam isso bem. Meu pai tocou ligeiramente na janela quando passou, me dando um aceno de cabeça, depois se dirigindo para o SUV. Bry subiu no outro lado do banco traseiro, Jstorm passando por nós para outro SUV e Lo e Malcolm entraram também. Então, como se tivéssemos acabado de parar para um rápido jantar, todos nos acomodamos e saímos. Quanto a mim, não respirei até que estávamos de volta na rua principal. Como se estivessem da mesma forma aflitos, ninguém mais parecia inclinado a quebrar o silêncio também. Quando ficamos fora dos limites da cidade, alguém finalmente falou. E esse alguém, sem surpresa, foi Bry. — Ei, Sunshine, — ele disse calmamente, extremamente hesitante, usando seu odiado nome do meio. Eu sabia que ele se sentia culpado. Embora, na verdade, era apenas uma situação insustentável e ela estava, afinal, bem. — Não fique bravo comigo, Dust, — ele apelou, necessitado, desesperado pelo perdão. ~ 213 ~


— Não estou com raiva de você, — ela murmurou contra meu peito. — Você não pode sequer olhar para mim, — ele apontou. — Estava olhando muito para você lá dentro. Tentando comunicar silenciosamente com você para... — Fechar a porra da boca antes que nós dois morrêssemos, — ele concordou, balançando a cabeça, fazendo a dela girar para olhar para ele. — Eu sei. — E ainda... — Eu sabia que nada iria acontecer, Dusty. Não iria colocá-la em perigo de propósito. Você me conhece melhor do que isso. Eu apenas... aquele filho da puta fez com que os homens te espancassem e roubassem de você seu pequeno refúgio seguro. E daí, para piorar tudo, você foi sequestrada? Eu não poderia ficar de pé como uma puta e ficar quieto. — Eu meio que me provoquei Dom também, então acho que não posso culpá-lo, — ela disse, passando as mãos em suas bochechas, nem tentando se afastar de mim e eu não teria deixado nenhuma maneira. — Você? — Bry perguntou exatamente o que eu queria saber. — Você não provoca ninguém. — Aparentemente, quando as pessoas fazem piadas sobre me estuprar, eu faço isso. Podia ver Bry empalidecer, provavelmente sentindo a mesma sensação em seu interior com a ideia de ela ter que ouvir essa merda. Houve uma pausa longa e tensa enquanto Bry a olhava, com as sobrancelhas juntas. — Você não está pirando, — ele observou, parecendo completamente confuso com isso. — Estive, ah, habituando-me a ser arrastada contra minha vontade, — ela admitiu com um pequeno sorriso bamboleante enquanto ela olhava para mim. — Lembra da última vez em que você saiu? — Bry perguntou, chamando minha atenção e dela também enquanto ela olhava para ~ 214 ~


ele. — Nós fomos para um almoço tardio porque o restaurante estaria mais vazio e achamos que ficaria bem. — Bry... — ela disse, balançando a cabeça, obviamente, não feliz com a lembrança. — A maneira como você estava tremendo e aquele olhar de absoluto terror em seus olhos, Dusty, nunca pensei que alguma dia iria vê-la outra vez fora de casa sem aquele olhar. E aqui estamos depois que você foi sequestrada e, porra, você não tem aquele olhar. — Ele fez uma pausa lá, exalando uma respiração profunda e me dando uma breve olhada. — Tenho que agradecer a você por isso, — ele disse, aceitando uma realidade que eu sabia que o estava matando. Eu era bom para ela. Ajudei-a onde ele não podia. — Estou feliz por vocês, — ele acrescentou enquanto olhava para ela, seus olhos transmitindo uma mensagem do jeito que só irmãos ou velhos amigos podiam, algo que eu não conseguia decifrar, mas Dusty esticou e pegou sua mão, dando um aperto antes de deixá-lo novamente e descansar no meu peito. Foi então que vi Lo. Ela estava completamente virada em seu banco e nos observava, estranho sorrisinho divertido no rosto. — Oh, não se importem comigo, — ela disse, balançando a cabeça. — Preciso de pipoca ou algo assim. Eu amo um bom romance. Por que ninguém está se beijando? — ela acrescentou com uma risada provocadora. Aparentemente, a dona Lo-fodona, chefe dos fodidos Hailstorm, que acabou de negociar um acordo para salvar duas pessoas com quem eu me preocupava e ainda neutralizou uma gangue inteira e assistiu a um homem ser assassinado, sem sequer piscar, era uma romântica da porra. Vai entender essa merda. — E agora? — ela perguntou quando todos se sentaram um pouco desconfortavelmente com seu comentário anterior. — Quero dizer, acho que vocês dois farão a coisa felizes para sempre, — ela disse, sorrindo para mim e Dusty. — Aliás, quero um convite para o casamento, — ela acrescentou e Dusty riu, fazendo um sorriso surgir nos meus lábios. — Mas e você? — ela perguntou a Bry. ~ 215 ~


Para isso, ele soltou um bufo estranho. — Como se eu soubesse, caralho. Não tenho outras habilidades. — Hum, idiota, — Dusty disse, balançando a cabeça. — Você tem muitas outras habilidades que poderia usar. A droga foi saída fácil e você sabe disso. — Sim, e não é por nada, — disse Lo, — mas nem Third Street e nem Lyon vão querer qualquer coisa com você agora. Então, em Navesink Bank sua chamada carreira acabou. É hora de arrumar um jeito de ganhar dinheiro honesto. Com isso, como se percebendo que Bry precisava de um tempo, Lo virou para frente e ligou o rádio. Bry olhou pela janela. Inclinei-me, pressionando um beijo no lado da cabeça de Dusty. — Você está bem? — murmurei, abraçando-a apertado. Ela respirou fundo e virou a cabeça, então estava no meu pescoço, plantando um doce beijo lá. — Agora estou. — Eu não deveria ter deixado você, — acrescentei, balançando a cabeça. Poderia ter feito a reunião no hotel e pedido a Dusty para ficar no quarto ou ter a reunião na merda do saguão. Jogada estúpida. Mas pensei que, se ela ficasse, estaria segura. Nunca poderia ter previsto que ela fosse sair. — Você me deu companhia, — ela disse, olhando para cima, me dando um sorriso divertido. Ela se divertiu com Fee e Lea. — Você se divertiu com as meninas? — É possível não se divertir? A Fee é uma viagem, — ela disse, balançando a cabeça. — Espere um pacote de presente em breve. — Já tenho um monte. — Sério? O que você ganhou? ~ 216 ~


— Apenas pijamas e coisas para meninas e porcarias para comer e... Ela se afastou, as bochechas estavam ficando rosa e eu sabia que isso tinha que ser o que causou aquela reação. — E? — E, — ela apertou os lábios, pensando, então me deu um sorriso. — Acho que podemos preencher nosso próprio aquário agora, — ela disse e eu ri. Fee e seus preservativos. — O próximo presente provavelmente exigirá baterias, — eu disse a ela, sabendo que era a maldita verdade. Quando ela e Lea se tornaram amigas, Fee a arrastou para um sex shop para ajudá-la a escolher um vibrador. Fee era assim. — Oh, bem. Eu já... — ela começou a admitir antes de se parar, olhando ao redor conscientemente, claramente consciente, de que tínhamos uma audiência. Mas ninguém estava prestando atenção. — Sério? — perguntei, sentindo uma onda de excitação um pouco inadequada na ideia. — Onde posso encontrar esses itens em seu apartamento? Temos que ter as coisas importantes conosco, certo? Para isso, ela riu e não pensei que iria conseguir mais. Mas então ela se inclinou ligeiramente, seus lábios realmente roçando minha orelha e me disse: — Segunda gaveta do meu criado. Foi um maldito e inoportuno momento para o meu pau ficar duro. Mas ficou mesmo assim. A julgar pela forma como seus olhos ficaram um pouco aquecidos, ela sentiu isso. — Dusty, — a voz de Bry chamou, fazendo-a pular como se ela fosse pega no flagra e eu sabia com certeza absoluta que estava molhada só de pensar no meu pau. O que, bem, só deixou ainda mais duro pra caralho. — Sim? — ela perguntou, com a voz com apenas o menor toque de falta de ar que ele não, mas eu com certeza, sabia o que era desejo.

~ 217 ~


— Como diabos eles a levaram para fora do hotel? — Bry perguntou o que fiquei pensando por horas, mas estava muito aliviado com sua presença para lembrar de perguntar. Lo também se voltou um pouco de seu banco, interessada. Durante a viagem, a história toda foi contada, incluindo o fato de Dusty ser agorafóbica. — Recebi uma ligação que parecia ser do hospital, — ela começou, balançando a cabeça como se tivesse feito algo genuinamente estúpido e, olhando para trás, envergonhada. — Eles disseram que eu era seu contato de emergência, — ela disse, olhando para Bry, — e que você foi baleado. Nem mesmo parei para pensar em como fui estúpida, como não tinha como eu ser seu contato de emergência. Apenas... corri. Nem terminei de ouvir a pessoa no telefone. Apenas saí de lá e... bem... eles estavam contando com isso. Bem, isso fez muito sentido. Claro que era algo assim, algo envolvendo uma das únicas duas pessoas que a amaram o suficiente para ficar ao seu lado. Ela não podia sair para salvar a si mesma, mas era absolutamente o tipo que poderia se controlar para estar ao lado de alguém que sempre estava com ela. — Você é, — a voz de Bry cortou um longo silêncio enquanto todos digeriam sua história. — Eu sou o quê? — perguntou Dusty, cabeça inclinada para o lado. — Você é o meu Provavelmente sempre será.

contato

de

emergência.

Sempre

foi.

— Mesmo que eu não conseguisse... — começou Dusty, apenas para ser interrompida. — O contato de emergência é quem você quer informar se algo acontecer com você, quem melhor conhece seus desejos. Quem diabos vou colocar? Minha família que não vejo há anos? É você, Dusty. Sempre será. Imagino que mesmo se não pudesse sair do apartamento, poderia dizer a eles por telefone para deixarem a porra do meu plug em paz, se isso acontecesse. Ninguém vai puxar a tomada dos aparelhos pra mim. ~ 218 ~


Ela sorriu para ele, gostando que ele confiasse nela o bastante para isso. Ela ficou em silêncio por um longo tempo, olhando para o colo. — Ei, Bry? — Sim? — ele perguntou, olhando por cima, de repente pareceu que os acontecimentos do dia estavam se aproximando dele, fazendo-o parecer pálido e cansado. — Talvez, assim... uma semana ou duas... acho que podemos tentar o jantar de novo e ver se é... melhor desta vez. Quero dizer, sem promessas, mas... — Duas coisas, — ele cortou o que certamente seria um pouco seguro e tímido. — Um, o restaurante mudou de proprietário e a comida é péssima, pura gordura e açúcar. Dois, você nunca precisa tentar me prometer nada. Você sabe disso. — Desculpe interromper o pequeno momento que todos estão tendo, — disse Lo, dando a todos um sorriso. — Mas, além dele no hospital, — ela disse, balançando a cabeça para Bry, — onde estamos deixando o resto de vocês? — Chaz's, — respondi imediatamente, onde estava meu carro. — Tudo bem, — disse Lo, voltando para frente quando chegamos mais perto da cidade. — Onde estamos indo? — perguntou Dusty, parecendo tão cansada quanto eu. — Pensei em passar outra noite ou duas no hotel, só para me certificar. Então podemos voltar para o apartamento. Desculpe, é só... — Não se desculpe. Gosto do hotel, — ela disse, me dando um sorriso melancólico. — Sempre vou ter duas boas lembranças desse lugar. Pensando como ela, inclinando-me para que meus lábios esticassem o lóbulo da orelha dela. — Logo que chegar lá, vou te dar mais duas, — prometi. O braço apertou-me e ela enterrou a cabeça novamente. Nós deixamos Bry com um convite para ir ao hotel pela manhã. Fomos para o Chaz’s, onde coloquei uma Dusty meio adormecida em ~ 219 ~


meu carro, pegando entregando a Lo.

algo

do

porta-luvas,

depois

levando-o

e

— O que é isso? — ela perguntou, pegando. — Dez mil. Eu realmente agradeço por isso, Lo. E agradeça a Jstorm por mim também, — acrescentei. — Pegue, — insisti quando ela parecia hesitar. — Sem ofensa, mas não quero dever aos Hailstorm. Acho que tem sido bastante louco em nossas vidas como está. — Entendido, — ela concordou, jogando-o na porta aberta de seu SUV. — Mas se você precisar de nós novamente, não hesite. Com isso, ela pulou e desapareceu. — Não posso dizer que gosto da quantidade de problemas que as mulheres que vocês escolheram para trazer para esta família tem ligado a elas, — meu pai disse enquanto caminhava, — mas acho que mantém um homem jovem, — acrescentou, apertando uma mão no meu ombro. — Pai... — Não agora, — ele disse, balançando a cabeça. — Você tem uma mulher para levar para casa e consolar. Todos nos recuperaremos assim que as coisas se estabelecerem. Com isso, ele jogou um braço ao redor do ombro da minha mãe e os dois foram embora. — Recebi dezoito mensagens de Fee sobre o quanto ela gosta de Dusty, — Hunter disse, acenando seu telefone para mim. — E então, vinte e quatro pedindo atualizações enquanto estávamos fora. — Eu ia zoar de você, — Shane concordou, olhando para o seu próprio telefone, — mas recebi doze de Lea, então não posso dizer merda nenhuma. Bem, — ele disse, acenando com a cabeça para mim, — foi divertido. Nada como um pouco de invasão e assassinato para manter os irmãos próximos. Mas tenho uma mulher em casa que precisa de algum, ah, consolo. Até mais tarde. Hunt também disse adeus que me deixou com Eli e Mark. — Não tenho uma mulher em casa, mas acho que existem pelo menos... dez mulheres em Navesink Bank agora, que poderiam precisar de algum consolo, certo? — ele perguntou, me dando um ~ 220 ~


aceno de cabeça e entrando no Chaz’s, o que, apesar de todos os proprietários estarem em uma pequena missão fodida, ainda estava aberto. Negócios, como sempre. — Ela é uma boa mulher, Ry, — Eli me disse, balançando a cabeça, depois seguindo Mark no bar. Embora provavelmente ele não estivesse à procura de uma mulher, inevitavelmente a encontraria. Havia, aparentemente, apenas algo sobre Eli. Quanto a mim, bem, eu planejava levar minha mulher para casa. E consolá-la. Esse era o plano de qualquer maneira.

~ 221 ~


Dezoito DUSTY

Flutuei dentro e fora da consciência no banco da frente de Ryan enquanto ele conversava com o grande grupo de pessoas, dois dos quais obviamente eram seus pais. Seu pai parecia exatamente com seus filhos com alguns anos extras sobre ele. Eu não deveria ter conseguido dormir. Com o meu usual ciclo de ansiedade, qualquer pequeno soluço na vida me deixava dando voltas na cama, obcecada, durante horas a fio até que meu corpo ficasse cansado demais para deixar meu cérebro ficar mais acordado. Mas lá estava eu, depois de um dia, na verdade, uma semana, do inferno e estava flutuando tão feliz como um bebê saciado. Era uma das muitas das coisas em que precisaria pensar. Algum dia. A batida da porta de Ryan me deixou meio acordada e lhe dei um sorriso sonolento quando sua a mão foi para a minha coxa e apertou. Então estávamos dirigindo. E tudo estava bem. Até que passamos pelo prédio onde morávamos e lembrei-me. — Pare, — sussurrei, disparando para cima no meu banco. — Querida, o que é... — Oh, Deus. Ok. Tudo bem. Um... telefone. Preciso do seu celular. ~ 222 ~


— Tudo bem, — ele disse, desacelerando o carro e me entregando o celular. — Aqui. Mas o que está acontecendo? — Como eu poderia esquecer? — eu me amaldiçoei, digitando o número no celular e iniciando a chamada. — Ele já deve ter feito um B.O. na polícia, — acrescentei. — Seu tio, — concluiu Ryan, enquanto eu apenas escutava o toque. — Atenda o telefone, — rosnei para ele quando foi para o correio de voz. Desliguei e tentei novamente. Nada. — Dusty, qual é o endereço dele? — Ryan perguntou calmamente, fazendo minha boca se separar um pouco e uma risada estranha e histérica escapou de mim. Endereço. Certo. Porque poderíamos simplesmente... dirigir até lá. Fazia tanto tempo que minha realidade era aquela que realmente me esqueci que havia outra maneira de contatá-lo do que por telefone. Então dei a Ryan o endereço, apenas três ruas, e paramos na frente de uma casa que literalmente não havia mudado nada desde que estive lá. Os tijolos eram vermelhos e vigorosos como sempre foram. As persianas, molduras e portas eram todas brancas, porque meu tio acreditava em conservar sua casa. Senti uma onda de nostalgia quando alcançamos os trincos de nossas portas ao mesmo tempo, enquanto Ryan segurava a minha mão, enquanto andávamos pelo caminho, quando levantei a minha mão para bater. Um aperto estranho na minha barriga, excitada com a ideia de ele poder me ver funcionando de novo, fora do meu apartamento outra vez. A luz exterior acendeu-se e a porta se abriu. E lá estava meu tio Danny. Ele tinha um aspecto sábio.

~ 223 ~


Era alto e um pouco magro, com o cabelo loiro cortado de forma elegante com um corte profundo afiado e escovado de volta no topo. Tinha olhos verdes como os meus, mas um pouco mais escuros. Sempre o tipo casual, ele vestia jeans e um camiseta branca. — Jesus Cristo! — ele explodiu assim que seus olhos pousaram em mim. Não houve nem uma hesitação antes de estender a mão e me puxar contra seu corpo, me abraçando apertado. Era o tipo de carinho que ele muitas vezes não me ofereceu e, portanto, era a evidência de como tinha estado preocupado. — Seu apartamento foi destruído, — ele disse em meu cabelo. — Fui roubada há alguns dias, — admiti, sentindo a culpa bem forte. Embora ele tenha sido tudo o que tive no mundo por um longo tempo, eu também era tudo o que ele realmente tinha. Pelo menos quando se tratava de relacionamentos íntimos. — Você está fora, — ele disse, como se percebendo o significado disso pela primeira vez, recuando e olhando para mim. Seu rosto estava tenso e lembrei ainda tinha ainda tinha arranhões e hematomas e estava um pouco inchada. — Seu rosto. — Obviamente eu estava em casa quando eles invadiram, — informei, odiando-me por não dar toda a verdade, mas entendi que haveria uma hora e um lugar para isso e que não era agora. — Eles não eram tímidos no departamento de tocar em mulheres. Felizmente para mim, Ryan entrou, — Falei, olhando para trás e gesticulando para ele, fazendo os olhos do meu tio ir para lá pela primeira vez. — Ryan, esse é meu tio, Danny. Tio Danny, Ryan. Eles apertaram as mãos e fizeram essa avaliação masculina por um minuto. — Eu lhe devo uma, — meu tio disse, dando-lhe um aceno de cabeça. — Penso que devo mais a você, — disse Ryan, fazendo com que as minhas sobrancelhas e as do meu tio se juntassem em confusão. Mas então o braço de Ryan saiu e passou pela minha parte inferior das costas, puxando-me para o lado dele. — Entendo, — disse Tio Danny, dando-lhe um aceno de cabeça. — Bem, entre. Preciso ouvir onde diabos você estava quando passei por lá. Ele nos convidou a entrar e quase ri quando notei as semelhanças entre as casas de Ryan e Danny. Ambos diziam ~ 224 ~


“solteirão” com seus tons escuros e resistência quinquilharia.

por qualquer

— Alguma chance de você ser o Ryan que vive no andar de Dusty? — ele perguntou, andando e abrindo a geladeira, agarrando três cervejas e tirando-as para fora. — Esse seria eu. — Eu pediria desculpas pelos recados “desculpe-nos, não encontramos você”, mas você nunca limpa sua fodida caixa de correio. — Justo, — Ryan concordou, rindo um pouco quando ele tirou a cerveja das minhas mãos porque eu não conseguia abrir a tampa e ele fez isso sozinho. — Isto é novo? — perguntou o tio Danny, acenando entre nós enquanto se sentava em sua cadeira. Uma coisa que eu sempre apreciei sobre meu tio enquanto crescia e começava a namorar era que... ele nunca foi todo um “pai” comigo ou meus namorados. Na verdade, quando eu tinha cerca de dezesseis anos, ele jogou uma caixa de preservativos na minha cama e me informou: — Sei que você vai namorar. Faça você mesma e a seu velho tio um favor e certifique-se de que esteja sempre segura. Foi isso. Ele nunca tentou assustar os meninos que vieram me buscar ou mesmo questioná-los. Ele apenas deixou-se levar, entendendo que era uma parte da vida. Eu não era mais uma menina e faria o que queria, independentemente de suas opiniões. Então ele as guardou para si mesmo. — Sim, — admiti, balançando a cabeça. — Desde o Natal, — Ryan acrescentou com um aceno de cabeça. Danny assentiu, bebendo um gole da garrafa. — Tudo bem, quanto tempo você saiu de seu apartamento sem eu saber e por que você não me contou? Senti-me sorrir com a mudança abrupta na conversa. A fase de “conhecer o namorado” terminou.

~ 225 ~


— Acho que desde o dia anterior à véspera de Ano Novo, — respondi, achando que era tão próximo da verdade quanto possível. — Mas então fiquei só... do outro lado do corredor porque meu apartamento estava bem, destroçado. Danny assentiu, aceitando isso. — E sobre hoje? Ryan olhou para mim, uma das sobrancelhas levantou o mínimo, como se ele estivesse pensando sobre o que eu iria inventar, que não o preocuparia. — Eu estava conhecendo os irmãos de Ryan e depois ele, Bry e eu saímos para um... rolê. Então lembrei que não liguei para você e nós paramos aqui. Sinto muito, eu fiz você se preocupar. — Campeã, qualquer preocupação que atravessei valeu a pena por ver você de pé na minha porta. Senti meu coração espremer no meu peito e, sem conseguir me conter, voei para ele, pousando em seu colo como a garotinha sempre fazia. E seus braços me abraçaram como sempre, um pouco tímido no começo, mas depois apertado e reconfortante. — Não acho que alguma vez te agradeci por estar sempre lá por mim, — eu disse a ele, minha voz baixa. Estava ciente de, em algum momento, ter falado com Ryan sobre isso, mas naquela hora, era para mim e meu tio. — Você não tem nada para me agradecer, garota. — Não quero dizer apenas quando eu era pequena, embora também seja por isso. Quero dizer, nos últimos anos. Sei que não foi fácil para você me ver lutando. E você e Bry... foram os únicos que ficaram comigo. Eu realmente valorizo isso mais do que já lhe disse. — Pare, — ele disse, sempre ficando desconfortável com exibições abertamente de emoções. Talvez fosse algo que eu tinha herdado dele. — Isso é família, — ele acrescentou, encolhendo os ombros. — Agora, melhore, — ele pediu, me acariciando, obviamente me dando carinho suficiente para durar o dia, o mês ou ano. Falamos por mais alguns minutos, terminamos nossas cervejas e depois nos despedimos. Era tarde e meu tio tinha que estar de pé no início do amanhecer.

~ 226 ~


— Ele gosta de você, — falei para Ryan enquanto entramos no carro e nos afastamos. — Nós mal conversamos, querida, — ele disse, balançando a cabeça. — Eu sei. Mas ele ainda não é tão falador. Além disso, você é quem me tirou do meu apartamento. — Por causa de um vazamento de gás e um assalto e depois um sequestro, — ele disse, olhando por um segundo com um sorriso irônico. — Sim, bem, ele não sabe disso, né? — adicionei com meu próprio sorriso enquanto entramos no estacionamento do hotel. Ryan estacionou e veio ao redor do carro para mim. Houve uma pequena facada de desconforto nauseante enquanto caminhávamos pelo local onde eu tinha sido levada. Como se estivesse sentindo, sua mão alcançou a minha e a apertou. Ele não soltou até que estivéssemos em segurança atrás da porta da cobertura. — Banho? — ele perguntou, já conhecendo minha rotina. — Deus, sim, — admiti, querendo lavar um dia cheio de medo e preocupação e as mãos de outros homens em mim. — Companhia? — ele perguntou, inclinando a cabeça para o lado. — Não vou prometer que vou controlar minhas mãos, — acrescentou, com os olhos um pouco aquecidos. — Não vou prometer que não vou gostar disso, — acrescentei, sorrindo. Nunca tomei banho junto com um homem. Uma chuveirada, claro. Mas, geralmente, era um apressado, “estamos atrasados e precisamos trabalhar e pare de monopolizar a droga da água quente”. Não tomei tanto banho em minha vida antiga. Tinha muita coisa acontecendo, não tinha tempo sobrando para descansar em uma banheira. Além disso, minha banheira me irritava. No entanto, tive uma sensação quando movi e enchi a banheira, deixando cair bombas e observando enquanto as pétalas de flores passavam pela água, sorrindo um pouco melancolicamente, mais do que eu realmente gostaria. ~ 227 ~


— Pode ser um pouco estranho se eu for a única pessoa pelada na banheira, — Ryan anunciou, voltando a atenção para o lado onde eu o encontrei de pé apenas em sua cueca boxer preta, com uma sobrancelha levantada para mim. — Oh, certo, — disse, balançando a cabeça para mim mesma. Uma onda de ansiedade completamente ridícula surgiu na minha barriga enquanto eu alcançava a bainha da minha blusa. Este era um homem que me tinha visto nua. Várias vezes. Ele em tocou, me beijou e me lambeu em quase todas as partes de mim. Era bobo me sentir insegura. Mas, a ansiedade me lembrava, sempre feliz de brincar de advogado do diabo, que é diferente quando se está no calor do momento e roupas estão voando e hormônios estão furiosos e tudo que se pode pensar é chegar a um orgasmo. Isso é completamente diferente. — Que tal eu fazer isso? — perguntou Ryan, esticando as mãos, pegando a blusa e tirando-a de mim. Havia apenas uma hesitação antes que seus dedos encontrassem meu botão e zíper e ele estava puxando o tecido pelas minhas pernas. Houve uma pausa, então, seus dedos roçaram suavemente o meu quadril, minhas costelas, minhas costas. Seus dedos abriram os fechos de meu sutiã e puxaram o material livre. Quase simultaneamente, minhas mãos alcançaram sua cueca e suas mãos alcançaram minha calcinha e nós dois estávamos nus. Ele não fez uma pausa. Virou-se e subiu na banheira, alcançando-me e puxando-me também. — Poderia me acostumar com isso, — ele admitiu, me encostando contra o seu peito, suas pernas ao meu lado, os braços cruzados sobre meu peito e barriga, seus lábios pressionando suavemente na minha têmpora. E eu não poderia estar mais de acordo. Eu poderia me acostumar com isso. — Fale comigo, — ele pediu suavemente, sua mão começou a roçar suavemente sobre minha barriga. Não era sexual, mas teve o mesmo impacto que se fosse. Meu corpo não podia ser tocado por ele sem perceber os sinais. ~ 228 ~


— Não tenho nada a dizer, — murmurei, virando a cabeça para o lado, meu rosto descansando em seu peito. — Querida, você foi enganada, raptada, mantida refém, ameaçada e resgatada e você não tem merda nenhuma para dizer? — Na verdade não, — eu disse, sorrindo um pouco quando ele bufou. — Como seus pulsos ficaram assim? — ele perguntou, seu dedo se movendo através de um dos pulsos em questão, fazendo meu olhar o seguir. Como suspeitava, eles pareciam muito pior do que a última vez em que olhei para eles. Cada um tinha uma faixa de fundo roxo e azul ao redor, inconfundível pelo que era. — Albert estava na parte de trás comigo e eu, hum, estava tentando fugir e ele me impediu. — Você o pegou muito bem. Aqueles arranhões eram de aparência brutal. — Também o mordi, — acrescentei, sorrindo um pouco. — Boa garota, — ele disse, sua mão começando a mover-se para cima e para baixo na minha coxa em um ritmo delicioso e eu sabia que estava absolutamente destinada a ser provocada. — Você quer me perguntar qualquer coisa? — ele perguntou quando seu dedo roçou o local onde minha coxa encontrava meu quadril. Além de quando seu dedo iria me tocar dentro e acabar com o tormento? — Nada que eu possa pensar, — murmurei, deixando as pernas se abrirem levemente, convidando-o para entrar. — Bem, então, se a conversa terminou... — Ele parou quando seu dedo finalmente se moveu para dentro, acariciando minha fenda e esfregando meu clitóris com uma exploração preguiçosa. — Ryan... — gritei, minhas unhas se enterrando em suas coxas enquanto ele mantinha o ritmo incrivelmente lento, me deixando alta, irritantemente devagar. — Ainda não, — ele disse, beijando minha testa.

~ 229 ~


— Por favor, — implorei, meus quadris se movendo para encontrar sua mão, tentando se aproximar. — Nuh-uh. Fizemos de um jeito duro e rápido. Quero experimentar do jeito lento e doce. Tão bom quanto lento e doce soou, meu corpo não queria ouvir sobre isso. Queria apenas se satisfazer. Com apenas esse pensamento em mente, usei os joelhos para me levantar, virando para encará-lo quando saí da banheira e peguei a toalha me envolvendo nela. — Bem, — falei, forçando as palavras e tentando realmente não me ruborizar, — você pode ficar aí e fazer a coisa romântica lenta e doce você mesmo... — Ou? — ele perguntou, sorrindo maliciosamente e, naquele ângulo, olhando para ele, pude ver o quão duro ele já estava. — Ou você poderia me encontrar na cama e fazer a coisa rápida e dura, — sugeri, certificando-me de que meus pés estivessem secos para não arruinar meu rebolado na minha saída, balançando minha bunda, e me afastei do banheiro. Ouvi a cascata de água enquanto ele estava de pé, e me obriguei a não olhar para trás quando entrei no quarto onde rapidamente me sequei o máximo que pude e descartei a toalha. — Não, — a voz de Ryan chamou quando andei para subir na cama. — Não? — perguntei, voltando para encontrá-lo saindo, igualmente meio seco e completamente nu. — Na cama é lento e doce. Você quer rápido e áspero, — ele me informou, caminhando logo atrás de mim e para a área principal da casa. Consciente de que não havia cortinas reais nas janelas do chão ao teto da área principal da casa, peguei uma das camisetas brancas de Ryan e vesti antes de segui-lo. Somente para encontrá-lo em frente àquelas janelas sem cortinas, sem mostrar absolutamente nenhum sinal de autoconsciência. ~ 230 ~


— Hum... — Comecei dando um passo atrás em direção ao quarto. — Venha aqui, — ele disse, voz rouca de desejo. — Talvez lento e doce vai funcionar, — eu disse, sentindo um desejo quase irresistível de correr de volta para a cama e esconder-me sob as cobertas. — Nuh-uh, você fez sua escolha, — ele disse, virando-se para mim, sorriso perverso em seus lábios, olhos aquecidos, pau duro. Senti um aperto inconfundível do meu sexo em resposta quando ele estendeu uma mão em minha direção. — Querida, — ele acrescentou quando não me movi diretamente para ele, indo, em vez disso, em direção à sala de estar. — Apenas pegando algo, — expliquei, alcançando a caixa enorme que Fee tinha deixado e retirando um preservativo que estava embrulhado em uma folha amarela brilhante e desagradável. — Esta coisa da camiseta, — ele disse quando pisei na frente dele. — Eu tiro ou você tira? Quando hesitei em dar uma resposta, encontrei meus pulsos acelerados e batendo sobre a janela atrás de mim. Antes que eu pudesse até mesmo assustar se a janela era forte o suficiente para me segurar ou não, suas mãos agarraram o tecido da camiseta e puxou-o para cima. Mas quando ele passou por cima da minha cabeça, não deixou meus braços livres. Ele puxou-a rudemente para baixo e prendeu meus braços do meu lado com ela. Antes que eu pudesse mesmo registrar sua intenção, ele estava de joelhos diante de mim, batendo-me contra a janela, puxando minha coxa e prendendo-a contra o vidro. À medida que o medo enchia minha barriga em potencialmente cair para a minha morte, sua cabeça abaixou e sua boca sugou meu clitóris e todos os outros pensamentos fugiram da minha cabeça. Completamente presa, não havia nada que eu pudesse fazer, a não ser deixá-lo me devorar, me torturar com seus lábios e sua língua enquanto ele se esbanjava sobre mim. Dois dedos me penetraram profundamente e começaram a me excitar, rápido, implacável. Antes que o orgasmo que apertava meu sexo pudesse escorrer sobre mim, ele abaixou a minha perna, pôs-se de pé, deslizou um ~ 231 ~


preservativo e me virou para encarar meu corpo nu contra a janela, em exibição total para qualquer um do outro lado do rio com uma boa visão ou um binóculo medíocre assistir. Seus pés afastaram os meus ainda mais. Então senti seu pênis deslizar entre minhas dobras escorregadias, batendo meu clitóris e me fazendo soltar um gemido áspero. Sua mão subiu pelas minhas costas, encontrando a camiseta onde ela se esticava de ombro a ombro e pressionando-me ligeiramente, fazendo-me levantar minha bunda contra ele e colocando meu rosto a poucos centímetros do vidro. Seus dedos agarraram o tecido, segurando-o nas mãos, de modo que não havia nenhuma maneira de escapar, não importa o quanto eu lutasse. Então, seu pau deslizou para trás e entrou em um forte impulso. A força por trás disso fez com que meu corpo avançasse, mas ele puxou a camiseta e segurou-me no lugar quando começou a me foder, áspero, duro, rápido, exatamente como pedi. Meu orgasmo estava vindo incrivelmente rápido, amolecendo os meus joelhos e deixando a respiração presa na garganta. — É isso aí, — ele resmungou, me sentindo apertada em volta dele. — Goze. E gozei, gritando, literalmente gritando o nome dele quando fiz isso. Ele afundou em mim, prologando o orgasmo, drenando-o tanto quanto conseguia. Mas depois que ele parou e voltei, ainda estava duro dentro de mim. Então, como se estivesse respondendo a minha pergunta não formulada, ele se afastou de mim o suficiente para me virar e entrou de novo, lentamente, tão devagar que eu sentia cada centímetro enquanto ele o fazia. Ele puxou minha perna para cima, envolvendo-a em torno de seus quadris, e então me alcançou para me livrar da camiseta na qual eu estava presa, meus braços foram automaticamente ao seu redor.

~ 232 ~


Sua mão foi para a minha bunda, forçando minha outra perna em volta de sua cintura e me segurando enquanto caminhava pelo espaço e para quarto. Seus joelhos foram na cama e seu corpo se curvou sobre o meu quando ele me deitou de volta, ainda dentro de mim, nossos corpos nunca perderam contato. Agarrou-me em seus antebraços, ele se inclinou e gentilmente pressionou um beijo nos meus lábios, e senti a doçura na minha alma. — Do seu jeito, — ele me disse, retirando-se lentamente, e tão lentamente pressionando de volta para dentro. — Agora vamos fazer do meu jeito, — ele me disse, fazendo outro golpe perfeito e me consumindo. Então ele me teve do jeito dele. E quando senti meu orgasmo crescer, decidi que também era meu jeito. Inferno, eu iria levá-lo de qualquer jeito que ele me quisesse, duro, rápido e dominante ou lento, doce e amoroso. Chorei em seu pescoço quando gozei e ele amaldiçoou quando gozou. Perfeito. Ele me deixou apenas por um momento antes de voltar, puxando as cobertas lentamente pelo meu corpo e me puxando para o peito, as mãos escovando meus cabelos e deslizando pela minha coluna. — O quê? — perguntei, sentindo que havia algo pesando sobre o silêncio. — Os lobos recuaram, — ele disse enigmaticamente, fazendo-me pressionar para poder olhar para ele. — Os lobos? — perguntei, as sobrancelhas juntas. — Durante anos, você teve lobos à sua porta, grunhindo, fazendo você sentir que não poderia sair de sua casa. — Ele estendeu a mão, tocando a lateral do meu rosto, os olhos suaves, mas ainda de alguma forma pesados com significado. — Já não estão rosnando. Ele estava certo. ~ 233 ~


E, verdade, talvez psicologicamente, era toda a terapia de exposição, sendo forçada a sair da zona de conforto para perceber que não iria pirar nem morrer fora dela. Mas houve uma constante em cada situação. Ryan. Perfeito, ainda falho, dominante, porém despretensioso, compreender foi ainda encorajador.

doce,

sexy

e

E tive um forte sentimento em algum lugar no fundo que, caramba, não era necessariamente por causa de alguma força dentro de mim. Era ele. Meu próprio domador de lobo pessoal.

~ 234 ~


Epílogo DUSTY – 1 DIA

— Eu não teria feito Mark deixar toda essa merda se me soubesse que os biscoitos não seriam para mim, — Ryan me informou de onde estava, inclinado contra o balcão, vestindo apenas uma calça de moletom grossa cinza e uma camiseta branca, seu cabelo casualmente desgrenhado. A culpa é minha. Eu o tinha despenteado. Alegremente. Entusiasticamente. Insolentemente. O sexo estava, obviamente, envolvido. — Estou guardando alguns para você, — insisti, despejando o óleo na panela e colocando fogo sob ela. Estava fazendo chruscikis, principalmente porque era a única receita que eu fazia com bastante frequência para conhecê-la de cor, já que não tinha meu caderno de receita comigo no hotel. E acabei de informá-lo de que o plano era deixar alguns para seu vizinho, o esquivo e enigmático Ross Ward. — Alguns? — ele pressionou, obviamente, era o tipo de homem que pensava com o estômago às vezes. Era algo que eu achava encantador. — Tudo bem. Metade, — concedi, jogando alguns biscoitos no óleo quente e observando-os chiar. Havia uma verdadeira arte e ciência para esses bolinhos. Eles tinham que estar perfeitamente cozidos ou ficariam com um gosto de merda assim que esfriassem. — Não acho que Ward seja o tipo de homem que come bolinhos poloneses cobertos com açúcar em pó.

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— Independentemente disso, — falei, balançando a cabeça para ele, fazendo com que alguns fios do meu cabelo caíssem do meu grampo — Acho que eu devo uma bandeja deles como um muito obrigada por impedir meu estupro e assassinato. Você sabe, um gesto de agradecimento, — disse, dando-lhe um sorriso sobre meu ombro. — Bem, — ele disse, aproximando-se de mim, envolvendo um braço ao redor da barriga e descansando a cabeça no meu ombro, — acho que seria a coisa certa a fazer. Então, vinte minutos depois, minha barriga dando nós, mas não muito enjoada, depois de trocar minhas roupas, arrumar o cabelo e colocar um pouco de maquiagem, entramos no corredor e bati na porta de Ross Ward. — Mais forte, — exigiu Ryan, de pé a alguns centímetros atrás. — Ele trabalha a noite toda. Provavelmente está dormindo. — Por que você não me disse isso antes de eu vir até aqui com os bolinhos e acordá-lo? — Assobiei, olhando para ele. — Você era uma mulher em uma missão, — ele encolheu os ombros. — Mas que tipo de gesto “de agradecimento” é arrastar um homem da cama quando ele trabalha a noite toda? — exigi, um sussurro. E, aparentemente, Ryan gostava disso porque o sorriso dele foi radiante. — Com os dentes, querida, — ele me informou quando a porta se abriu bruscamente. Lá estava Ross Ward. Embora, ao contrário das suspeitas de Ryan, ele não estava dormindo. Notei isso porque estava pingando e apenas em uma toalha. Olha, embora estivesse me apaixonando por Ryan, significava que não reconhecia um cara bonito quando via um.

não

Ross Ward era um cara bonito. Outras descrições me vieram à mente: sólido, musculoso, com cicatrizes, escuro, perigoso, implacável. ~ 236 ~


Era o que você tirava de um olhar sobre os cabelos escuros, os olhos escuros, a barba escura, bem como os ombros largos, o peito forte, um impressionante tanquinho e a aura de o que você quer que ele tinha sobre ele. Também não disse nada, apenas olhou para mim. — Ward, — Ryan aproximou, salvando-me de engasgar com meu próprio coração que estava de repente na garganta, forçado por pura intimidação do homem diante de mim. — Está é Dusty, — ele explicou, me dando uma olhada que sugeria que eu soltasse minha língua e falasse. — Dusty, Ross Ward. — Desculpe, eu não queria interromper seu banho. Apenas, hum, eu, ah... fiz bolinhos para você, — falei, empurrando o prato decorado para ele, acertando-o no estômago enquanto a mão dele se movia para pegá-lo de mim. — Como uma espécie de agradecimento por chamar Ryan e, bem, me salvar de ser estuprada e assassinada. Aí. Saiu. Posso fugir agora, certo? Ele era definitivamente o tipo de homem que qualquer pessoa decente correria para longe, muito longe. — Parece que não te salvei de tudo, — ele disse, estendendo a mão livre e colocando o dedo indicador no meu queixo, virando o rosto em sua direção. — Oh, isso, — disse, acenando, tentando leveza. Ele era tão intenso. — Isso aconteceu há alguns dias, — acrescentei com um sorriso tímido. A mão de Ross caiu e ele olhou para Ryan com um elevar de sobrancelhas sempre tão leve. — Toda mulher em sua família vem com um balde de problemas? — ele perguntou, movendo-se para trás em seu apartamento sem esperar uma resposta e alcançando a porta, obviamente, apressando-me. — Tudo bem, sim, não vamos segurá-lo. Eles ainda estão quentes e geralmente são melhores quando... — Sei como comer chruscikis, boneca, — ele me interrompeu. ~ 237 ~


— Oh, ok. incomodar você.

Ótimo.

Bem,

obrigada

novamente.

Desculpe

Ele não disse que não era problema, nem a qualquer hora ou, absolutamente nada. Ele empurrou o queixo para mim e então fechou a porta na minha cara. — Ele não é exatamente uma pessoa amigável, — Ryan me disse, tentando suavizar o golpe. — Venha, tenho uma ideia. Sua ideia envolvia um chrusciki colocado diretamente no triângulo acima do meu sexo e açúcar em pó polvilhado por todo o meu corpo. Que ele lamberia.

DUSTY – 1 SEMANA

— Você tem certeza disso? — Bry perguntou do corredor no meu apartamento, mas de frente para o de Ryan... onde eu estava vivendo. — Você pode demorar mais uma semana se precisar. — Essa é a pior coisa que eu poderia fazer, — disse, encolhendo os ombros na minha jaqueta. — Agora que posso lidar com isso, acho melhor sair o mais rápido possível. Rocky, — chamei, voltando para onde ele estava apoiado, tão inocentemente na ilha. Mas sabia que no segundo que fechasse a porta, ele iria criar algum tipo de problema. Enquanto ele nunca arruinou meu antigo apartamento, ele aparentemente tinha uma coceira para bagunçar o de Ryan. — Se você derrubar qualquer um desses copos, vou fazer algo verdadeiramente hediondo com você. Como te dar banho, — eu disse com um aceno de cabeça enquanto pegava a minha bolsa e caminhava para o corredor com Bry. Caminhamos para a saída. As escadas, não o elevador. Talvez eu tenha feito alguns progressos, mas não era nenhuma Mulher Maravilha. Isso demoraria algum tempo. Tentei convencer Bry para me ~ 238 ~


encontrar lá embaixo, descer de elevador, porque ainda estava segurando seu lado onde quebrou duas costelas. Mas Bry era Bry, nem quis saber. Então descemos as escadas tão lentamente quanto ele precisava até chegarmos lá fora. Íamos compensar minha ideia de tentar almoçar novamente, mas não por mais uma hora e meia. Antes havia uma parada e era o que fazia com que minha barriga desse essas pequenas cambalhotas quando entramos no carro e dirigimos para a cidade. O consultório era o que se poderia esperar — limpo, neutro, reconfortante, mas impessoal. Eu estava de pé na mesa, Bry recusou-se a ouvir o meu discurso de que eu estava bem e que ele podia correr e tomar café se quisesse, ficando sentando, lendo uma revista de carpintaria sobre a mesa. E então ouvi uma voz que reconheceria em qualquer lugar, tendo ouvido tanto quanto a minha. — Danielle, você tem a Srta. McRae para a uma hora. Você deve ter errado. Ela é sempre atendida por vídeo... — Ei, Amy, — eu a interrompi, usando o nome que ela preferia. Sua cabeça levantou dos papéis, a boca caindo, os olhos arregalados. — Dusty? Como... como... — Ela balançou a cabeça com força, limpando-a, deslizando sua máscara profissional de volta. — Quando você cancelou suas últimas sessões de vídeo, achei que você estava passando por uma fase difícil, — ela admitiu, com uma preocupação clara em sua voz. Achei que ser terapeuta vinha com uma grande quantidade de aborrecimento, as pessoas queixavam e queixavam as coisas mais banais e desinteressantes por horas a fio, na verdade não tendo problemas mentais, mas precisava essencialmente pagar alguém para ouvi-las, porque ninguém mais gostaria de fazer isso de graça. Mas parecia haver pacientes aqui e ali que realmente os tocavam, os faziam querer ajudar. Estava bastante segura de que eu era um desses pacientes para a Dra. Amy Robertson.

~ 239 ~


— Na verdade, tive muita coisa, — admito quando ela caminhou para abrir a porta do consultório e me deixou passar. — Esse é Bry? — ela perguntou enquanto fechava a porta e me conduzia para uma pequena sala que fazia meu peito ficar apertado. — Sim. Coloquei a mão na minha barriga e respirei fundo enquanto me adentrava no consultório. Havia uma mesa branca situada quase em um canto, fora do caminho, e no centro quatro lugares que ela tinha para sentar em torno de uma mesa de café baixa. Havia um sofá cinzento à moda antiga, uma poltrona, uma cadeira estofada sem braços e uma chez. Um monte de pensamentos veio naquele momento e encontrei-me indo em direção à chez, tirando meus sapatos e deixando que ela me rodeasse, precisando me sentir um pouco protegida. Imaginei que o sofá era para deitar e a cadeira era para pessoas que não gostavam de se sentir presas. Avaliando-me, ela se sentou na poltrona e me deu um sorriso. — Vou ser honesta aqui. Não tinha certeza de que veria esse dia. Não me ofendi com isso. Nem eu tinha certeza de que veria esse dia também. — Sim, eu também, — admiti. — Você está bem ansiosa? Precisa de algo? — ela perguntou, seus olhos mergulharam para onde minha mão ainda estava na minha barriga por um segundo antes de subir. — Não. Estou bem agora. — Então. Você está aqui, — ela disse, me dando um sorriso. — Quer falar sobre isso, “tive muita coisa”, que você mencionou? — Claro, — disse, respirando fundo. Então contei tudo para ela. A partir da noite do alarme tocando e sendo levada nos ombros, estilo bombeiro, depois ser roubada e espancada, cortando os detalhes. Conhecia a coisa paciente-cliente, mas não tinha certeza o quanto isso se estenderia. Falei muito sobre Ryan e nosso romance estranho, mas completamente perfeito e sem precedentes. Contei a ela que visitei meu tio, conheci as cunhadas de Ryan e um vizinho de Ryan, quer dizer Ross Ward, mas não dei nome. ~ 240 ~


— Você tem estado ocupada, — observou quando terminei, balançando a cabeça um pouco como se a ficha ainda tivesse caído. — Estou muito orgulhosa de você, Dusty, — disse, o peso em suas palavras mostrando o quanto ela quis dizer isso. — Acontece que você estava certa todos esses anos, — falei com um sorriso irônico. — Tudo o que eu precisava fazer era fazer alguma coisa. — Nós duas sabemos que nem sempre é tão fácil, — ela disse com um sorriso suave. — Se soubesse que um bombeiro tirando você prédio teria feito uma jogada, poderia ter enviado um lá dois anos atrás, — ela acrescentou, fazendo-me rir. Gostei daquela qualidade dela. Era uma profissional, mas também era apenas uma pessoa. Brincava e fazia comentários que talvez não fossem exatamente apropriados, mas a humanizou e para mim era melhor. — Esta coisa com Ryan. Parece séria. — É, — admiti, sentindo as borboletas na minha barriga, a conversa ainda está fresca em minha mente de três noites antes, quando ele chegou à casa do trabalho, caiu no sofá, me puxou para o seu colo, e teve a conversa. A conversa sobre a relação. E ele tinha instigado. Não acho que já tive um relacionamento com um homem disposto a falar antes na minha vida. Era mais uma coisa maravilhosa sobre Ryan. Ele não tinha medo de nada. Nem mesmo de compromisso. Deixou muito claro quando me informou que, se eu concordasse, eu era dele e ele era meu, e era isso. Então, sim, era isso. Ainda tenho aquela empolgação quando penso sobre isso. O que era frequente. Porque... vamos lá! Se você tivesse alguém como Ryan Mallick, estaria obcecada com a pura sorte que os uniu. Quarenta minutos depois, eu saía do escritório de Amy com uma promessa de tentar continuar minha terapia de exposição e até me agendar para outra sessão pessoalmente naquela semana. Esperançosa. Ela estava esperançosa. ~ 241 ~


Enquanto caminhávamos pela rua e mergulhamos no jantar, eu também estava.

RYAN – 11 MESES

Não foi sempre linear, a cura geralmente não é. Na primeira semana, ela ficou louca. Foi para a terapia duas vezes, saiu para almoçar com Bry, foi ao café comigo, e até enfrentou seu apartamento para limpá-lo e mudar mais coisas no meu nosso apartamento. Então, na sexta-feira seguinte, tentamos ir jantar no Famiglia, algo com o que ela estava ansiosa e passou horas trabalhando. Estava ao meu lado no carro tentando descobrir qual era a coisa favorita no cardápio, do qual ela havia tentado extensivamente no passado, obviamente. Decidiu sobre o frango Alfredo quando finalmente paramos e saímos. Mas a dois metros de entrar, ela congelou. Sua mão foi até a garganta. Seus olhos arregalaram. Sua respiração parou. Paramos, vendo se ela poderia respirar, forçar-se a lidar com os sintomas. No final, a ansiedade ganhou. Voltamos para casa e pedimos por delivery enquanto ela ficou sentada e pensando o tempo todo em ter “falhado”. Mas a próxima em vez que fomos, ela estava bem. E foi assim, especialmente naqueles primeiros meses. Você nunca sabia realmente se seria uma saída boa ou ruim, mas, depois que a tranquilizei algumas dúzias de vezes, ela começou a acreditar que não era importante para mim. E não. Eu não era o tipo de pessoa que gostava de sair o tempo todo, então, quando ela simplesmente não podia se forçar a passar por isso por uma ou duas horas, realmente voltar para casa não era uma dificuldade para mim. Nunca se tornou “sem problemas”. Não havia “cura” real para sua ansiedade e agorafobia. Mas ela melhorou no gerenciamento. ~ 242 ~


Chegou a um ponto em que ela nunca disse que ela “não podia” ir a um determinado lugar, mas que ela tinha problemas e iria tentar. Às vezes, tentava o suficiente, às vezes não. Mas todos os dias, semana e mês podia se ver o progresso. Isso sempre foi tudo o que eu quis para ela. Depois de cerca de seis meses, ela finalmente concordou em deixar seu apartamento e vender, doar ou trazer o resto de suas coisas comigo. Sem esse aluguel a pagar todos os meses. Na verdade, sem contas, apenas coisas como seu celular, seguro saúde e vários serviços de assinatura, ela estava indo bem com apenas seu dinheiro vindo de suas histórias. Era um pouco cedo demais para convencê-la de que não teria que se preocupar mais com o dinheiro. Eu estava num ponto em que sabia que, mais cedo ou mais tarde, nós teríamos um monte de filhos e ela ficaria em casa para cuidar deles de qualquer maneira, então, ela não precisava se preocupar com o trabalho, a menos que quisesse. Na verdade, em seu aniversário, Fee e Hunt apareceram à nossa porta com os três inferninhos que deixaram Rocky louco por uma hora. Fee lhe trouxe roupas que dariam para ser usadas por um ano. E Hunt fez para ela algo que a fez correr para ele e atirar os braços ao redor dele. Veja, Hunt, além de fazer tatuagens, também fabricava móveis. E quando soube sobre o aniversário dela, decidiu fazer uma escrivaninha elaborada para ela trabalhar. A sua antiga tinha soltado a perna e, por ser essa merda de madeira falsa, não podia ser consertada e não fomos a uma loja de móveis. Principalmente porque eu continuava a ignorá-la, pois sabia que Hunter faria uma dez vezes melhor do que qualquer coisa que pudéssemos encontrar em uma loja de qualquer maneira. Finalmente, eu a levei aos meus pais para o jantar de domingo, onde ela passou o começo da noite escondida com as crianças, sendo elas mais uma coisa de zona de conforto para ela. Então ela se preparou para se juntar ao resto de nós e depois de cerca de uma hora, minha mãe não tão discretamente me pediu para ajudá-la com algo na cozinha.

~ 243 ~


Dei a Dusty um aperto e segui minha mãe que imediatamente se virou e me informou que é melhor eu pegar a minha mulher com uma aliança. Então, eu tinha uma aliança no bolso. E fazia um ano desde o dia em que soaram os alarmes de monóxido de carbono, um evento que nos reuniu em primeiro lugar. Eu estava no corredor, e bati na porta. Ela não verificaria o olho mágico porque esperava ser Bry. E ela estava esperando Bry porque ele estava nisso comigo desde que eu não pedi apenas ao seu tio, mas a ele também, permissão para me casar com ela, quando finalmente consegui resolver tudo. — Já vou! — Ela falou soando distraída. — Eu só tenho que terminar esses bolinhos, maldição! — Ela gritou e eu me senti sorrir. Ela não xingava com frequência, mas quando xingava, era com um verdadeiro floreio. Foi mais um minuto antes que a porta se abrisse e eu a encontrei com toda a sua frente coberta de açúcar em pó. Havia uma mancha sobre a bochecha também. E sabia exatamente quais tipos de bolinhos ela estava fazendo. — Oh, — ela disse, as sobrancelhas se juntaram quando me viu. Observei-a quando abaixei aos seus pés, vendo seus lábios se afastarem, seus lindos olhos verdes avançando bem com a compreensão. — Pensei em iniciar um alarme, — admiti, fazendo seus lábios curvarem, — você sabe, para fins de autenticidade, — adicionei, alcançando meu bolso para pegar o anel, que Fee e Lea me ajudaram a escolher porque, “os homens não sabiam nada sobre esse tipo de coisa”. Era um diamante de halo simples em uma banda de platina. Na verdade, isso lhe serviu perfeitamente. — Ryan... — ela disse, sua voz aberta, mas de alguma forma pesada ao mesmo tempo.

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— Case comigo, — eu disse simplesmente, alcançando a mão dela que estava visivelmente tremendo e deslizei meu anel em seu dedo. Oito meses depois, ela aceitou. Após semanas de discussão, ela finalmente pensou que era melhor ter uma pequena coisa familiar. Então ela, Fee e Lea decoraram o quintal dos meus pais. Tivemos um Juiz de Paz, a família, Bry e Lo de Hailstorm e foi isso. E isso foi mais do que suficiente.

DUSTY – 2 ANOS

— É como um jogo de dados, — Fee disse, subindo na cama comigo e puxando o cobertor para trás do rosto do bebê. Eu estava refletindo sobre com quem seus olhos e cabelos pareceriam, vendo como os olhos eram um azul muito escuro que nenhum de nós tínhamos e os médicos disseram que provavelmente mudariam e ele era quase careca. — Tenho duas com olhos verdes e uma com azul. O cabelo também é diferente. Foi um dia inteiro depois de eu ter dado à luz para que Fee aparecesse porque, “nenhuma mãe recente quer ser vista aos cinco minutos depois de ter sua vagina costurada e uma pilha de gelo na calcinha”. Ela também trouxe maquiagem que eu tinha esquecido. — Eu sei que você acabou de dar à luz, mas todo mundo quer parecer decente em suas fotos de hospital, — ela me disse enquanto aplicava rímel e corretivo com mãos experientes. — Vocês já escolheram um nome? — Danny, — informei automaticamente. Fácil. Na verdade, nós escolhemos assim que eu soube que estava grávida. Danny, o único pai que já conheci. Achei que se continuássemos a ter meninos, finalmente renderíamos homenagem a seu pai e talvez até a Bry. — Adoro, — ela declarou. Embora meu tio nunca estivesse acostumado a uma grande dinâmica familiar como eu, ele se encaixou ~ 245 ~


sem esforço no clã Mallick. Eles... o aceitaram. Ele veio comigo e foi tudo o que eles precisaram saber para considerá-lo família. — Eu queria que Eli... — Comecei sentindo o pânico em algum lugar profundo. — Eu sei, — disse Fee, parecendo triste. Eli sempre foi um tema de coração pesado. — Você acha que ele permitiria... — Não, — Fee cortou-me, voz firme. Ela não estava sendo cruel, apenas honesta. E sabia que ela estava certa. — Mark perdeu apenas cem dólares, — falei, mudando o tópico para coisas mais leves. Mark estava perdendo muito no departamento de apostas sobre bebê. Ele tentou a cor do primogênito de Shane e Lea, Jason, errou. Então ele seguiu em frente e apostou que o sexo do próximo seria uma menina. Foram gêmeos e ambos eram meninos, pelos quais seus irmãos fizeram-no pagar o dobro. — Acho que ele só quer mais garotas na família agora, — disse Fee, sorrindo com saudade. Basta saber se ela talvez estivesse reconsiderando sua ideia de “três Mallick é mais do que suficiente”. — Então talvez ele devesse começar a fazer alguns, — eu disse com um sorriso. — Ele tem a garota agora. O que eles estão esperando? — Você conhece Mark, — ela disse, encolhendo os ombros. Eu conhecia. Mark era o mais ‘ir-com-o-fluxo’ dos irmãos. Certamente nunca planejaria algo como fazer bebês. Se acontecesse, aconteceu. Em outras palavras, ele estava contente com o que tinha. — Hei, Fee, — disse Ryan, entrando no quarto depois de forçá-lo a ir para casa e tomar banho e se trocar, assegurando-lhe que eu ficaria bem sozinha por um tempo. Mas não havia tal coisa como sozinha na família Mallick. Quando ele partiu, Helen e Charlie apareceram. Quando eles se foram, Fee e Hunter e as crianças fizeram uma aparição. — Hunt parece que ele está prestes a perder a cabeça, — ele acrescentou quando Fee pulou da cama para que ele pudesse deslizar ao meu lado. ~ 246 ~


— Estas são minhas pestinhas para vocês. Venho buscar vocês quando voltarem para casa. — ela acrescentou, me dando um sorriso caloroso e se inclinando para beijar seu sobrinho. — Tente dormir durante a noite, Danny. Mamãe e papai serão muito mais toleráveis se você fizer isso. Com isso, ela saiu. — Perdi alguma coisa? — ele perguntou, passando o dedo no rosto do bebê. — Oh, apenas as muitas tentativas de mamar, — resmunguei, irritada porque isso não veio tão naturalmente como algo tão natural. Ele não se agarrou a mim, mas ele sugou a mamadeira como se não fosse da conta de ninguém. Ryan se inclinou, beijando minha têmpora. — Ele tirou alguma coisa de você? Dei de ombros, respirando fundo. — Cerca da metade do que ele deveria, acho. — A metade é melhor do que da última vez, — ele me disse, me dando um pequeno sorriso. — Isso é progresso, querida. — Você está certo, — concordei, sorrindo o estresse para longe. — É progresso. Progresso. Foi como nós construímos nosso relacionamento, com a esperança dele. E foi o que tivemos, lento, mas seguro. E foi o que certamente haveria muito, muito mais no nosso futuro.

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Jessica gadzilia mallick brothers 2 ryan  
Jessica gadzilia mallick brothers 2 ryan  
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