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Cora Reilly #5 Bound by Vengeance Série Born in Blood Mafia Chronicles

Tradução Mecânica: Anne Pimenta Revisão Inicial: Anne, Bia, Nicole, Sil, Ju, Tami, Nic e Day Revisão Final: Sil Data: 01/2017

Bound by Vengeance Copyright © 2017 Cora Reilly ~2~


SINOPSE Growl Ele nunca tinha tido algo para si mesmo, nunca ousou sonhar em possuir algo tão precioso. Ele era o filho bastardo indesejado que sempre teve que se contentar com as sobras dos outros. E agora eles haviam lhe dado o que apenas algumas semanas atrás estava fora de seu alcance, alguém que nem sequer lhe permitia admirar de longe, uma de suas mais preciosas posses. Atiraram a seus pés, porque ele era quem ele era, porque estavam certos de que ele iria quebrá-la. Ele era o castigo dela, um destino pior do que a morte, uma forma de entregar o castigo final a seu pai, que tanto os tinha desagradado.

Cara Ela sempre fora a boa menina. Isso não a protegeu. Ela não sabia o verdadeiro nome dele. As pessoas o chamavam de Growl na cara dele, e de Bastardo por trás das costas. Ambos eram nomes que ele não poderia ter escolhido para si mesmo. Os olhos dele eram vazios, um espelho devolvia seu próprio medo para ela. Ele era uma mão brutal da Camorra de Las Vegas. E agora ela estava à sua mercê.

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A SÉRIE Série Born in Blood Mafia Chronicles Cora Reilly

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Prólogo GROWL Olhos arregalados. Lábios separados. Bochechas coradas. Pele pálida. Ela parecia uma boneca de porcelana: Grandes olhos azuis, cabelos cor de chocolate e pele branca e cremosa; beleza quebrável, algo que ele não estava destinado a tocar com suas cicatrizes e mãos letais. Seus dedos encontraram seu pulso; Seus batimentos cardíacos pulsando rápido como um pássaro. Ela tentou lutar, tentou ser corajosa, tentou machucá-lo, talvez até mesmo matá-lo. Teria ela realmente esperado que pudesse ter sucesso? Esperança; Deixam as pessoas tolas, as fazem acreditar em algo além da realidade. Ele tinha desistido da esperança há muito tempo. Sabia do que era capaz. Ela tinha esperança que ela poderia matá-lo. Ele sabia que poderia matá-la, sem dúvida. Sua mão rastejou a pele macia da sua garganta, então seus dedos enrolaram em torno dela. Suas pupilas dilataram, mas ele não colocou pressão em seu toque. Seu pulso batia contra a palma da mão calejada dele. Ele era um caçador, e ela rezava. O fim era inevitável. Ele viera reinvidicar seu prêmio. Foi por isso que Falcone a deu a ele. Growl gostava de coisas que doíam. Ele gostava de causar dor. Talvez até amasse; Se ele fosse capaz desse tipo de emoção. Ele se inclinou até que seu nariz estivesse a centímetros da pele abaixo de sua orelha e respirou fundo. Ela cheirava a floral com uma pitada de suor. Medo. Ele imaginou que ele podia cheirar assim também. Ele não podia resistir e ele não precisava, não mais, nunca mais com ela. Dele. Ela era dele. Ele baixou os lábios para sua pele quente. Seu pulso pulsava sob sua boca onde ele beijou sua garganta. O pânico e o terror batiam em um ritmo frenético sob sua pele. E isso o deixou fodidamente duro. Seus olhos procuraram os dele, esperansosos, ainda esperansosos, mulher estúpida, e implorando por misericórdia. Ela não ~5~


o conhecia, não sabia que a parte dele que não tinha nascido um monstro, tinha morrido há muito tempo. A misericórdia era a coisa mais distante da sua mente enquanto seus olhos reivindicavam seu corpo.

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Capítulo um CARA A primeira vez que o encontrei, ele estava disfarçado, vestido com um elegante terno preto, fazendo parecer que ele era um de nós. Mas enquanto as camadas de tecido fino cobriam suas muitas tatuagens, elas não podiam esconder sua verdadeira natureza. Ela transpareceu, perigosa e assustadora. Naquela época eu nunca teria pensado que eu iria conhecer ele, e o monstro dentro dele melhor do que eu conhecia qualquer outra pessoa, e que iria virar toda a minha vida de cabeça para baixo. Que isso mudaria todo o meu ser para a própria essência.

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— Eu não posso acreditar que eles te deixaram ir com eles, — Talia murmurou. Eu me afastei do espelho para olhar para ela. Ela sentou-se de pernas cruzadas na minha cadeira da escrivaninha, vestida com suas calças gastas de corrida, e seus longos cabelos castanhos estavam empilhado em cima de sua cabeça em um bolo desarrumado. Sua camiseta, uma coisa cinzenta e desbotada, cheia de buracos e manchas, levaria nossa mãe a um colapso. Talia sorriu sombriamente quando ela seguiu meu olhar. — Não é como se eu precisasse me vestir para qualquer um, você sabe. — Há uma diferença entre não se vestir e entre o que você está fazendo, — eu disse com uma pitada de desaprovação. Eu não estava realmente irritada com minha irmã por usar suas roupas mais surradas, mas eu sabia que seu único propósito era irritar a nossa mãe, e era um cenário provável dada à tendência da nossa mãe para o perfeccionismo e exageros. Eu realmente não queria que seu humor azedasse tão pouco tempo antes da reunião. Eu seria a única a sofrer desde que papai estava definitivamente fora de questão quando se tratava de se tornar alvo favorito da nossa mãe. Ela tinha uma ~7~


tendência em torna-lo pessoal se Talia ou eu não estivéssemos perfeitas. — Estou fazendo um ponto, — disse Talia com um pequeno encolher de ombros. Suspirei. — Não, você está sendo mesquinha e infantil. — Você é uma criança, muito jovem para uma reunião social na mansão do Falcone, — Talia entoou em sua melhor imitação do tom repreensivo de nossa Mãe. — Este é um evento para adultos. A maioria das pessoas terá mais de dezoito anos ou muito além. A mamãe está certa. Você não teria ninguém para conversar e alguém teria que ficar de olho em você a noite toda. — Tenho quinze anos, não seis. E você é apenas quatro anos mais velha do que eu, então não banque a adulta — disse ela, indignada, levantando-se da cadeira, deixando-a girar em torno de si mesma, cambaleando para mim. Ela me olhou de frente, me desafiando. — Você provavelmente disse à nossa mãe para não me levar com você porque você estava preocupada que você teria que me vigiar e que eu iria envergonhá-la na frente de seus amigos oh-tão-perfeitos. Eu arqueei a sobrancelha. — Você está sendo ridícula. — Mas um lampejo de culpa me invadiu mediante com as palavras de Talia. Eu não tinha falado com nossa mãe para deixar Talia ficar em casa, mas eu realmente não tinha me esforçado para minha irmã se juntar a nós também. Talia estava certa. Eu estava preocupada que eu ficaria presa a ela durante toda a noite. Meus amigos a toleraram quando nós ficávamos em casa, mas ser vista com uma menina quatro anos mais jovem em um encontro oficial não iria cair bem. Uma festa nos Falcone sempre significou a melhor chance de conhecer bons partidos, e ter que cuidar da irmã realmente não ajudaria com esse esforço. Queria que esta noite fosse especial. Algo na minha linha de pensamentos deve ter mostrado em meu rosto, porque Talia zombou. — Eu sabia. — Ela girou sobre os calcanhares e saiu do quarto, fechando a porta com tanta força que eu não pude evitar de estremecer. Eu soltei um pequeno suspiro, depois voltei para o meu reflexo, verificando minha maquiagem e meu penteado uma última vez. Eu assisti a incontáveis tutoriais de beleza para me certificar de que eu tinha os olhos esfumaçados. Tudo precisava estar perfeito. Minha mãe

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era crítica, mas Trish e Anastásia eram ainda piores. Elas perceberiam se eu combinasse o tom errado da sombra dos olhos com o meu vestido ou se a minha mão estivesse tremula enquanto segurava o meu delineador, mas suas fiscalizações tinham feito meus preparativos serem meticulosos. Elas eram a razão pela qual eu nunca me descuidei. E era para isso que os amigos serviam. Meu vestido era verde escuro, e minha sombra dos olhos apenas alguns tons mais claros. Perfeito. Eu verifiquei minhas unhas uma última vez, mas elas também pareciam impecáveis em seu brilho verde escuro. Eu alisei o meu vestido algumas vezes até que fiquei satisfeita com a forma como a bainha roçou em meus joelhos, então verifiquei meu cabelo novamente, virando-me para ver se os grampos ainda estavam todos no lugar segurando minha mecha marrom do cabelo para cima. — Cara, você está pronta? Precisamos ir — disse a minha mãe do andar de baixo. Eu verifiquei meu reflexo e alisei meu vestido novamente, examinei minha meia-calça, e finalmente me forcei a sair correndo do quarto antes que minha mãe perdesse a paciência. Mas poderia ter passado horas verificando minha roupa para possíveis erros se eu tivesse tempo. Mamãe estava parada na porta quando desci, deixando o ar fresco do outono entrar na casa. Ela estava verificando seu relógio dourado, mas no momento em que me viu, ela agarrou seu casaco de inverno favorito, uma coisa esplêndida que custou a vida de muitos arminhos1 e o colocou sobre seu vestido longo. Mesmo com a temperatura sendo excepcionalmente fria em novembro para Las Vegas, um casaco de pele estava completamente exagerado, mas desde que minha mãe tinha comprado há muitos anos na Rússia e o amava, ela o usava em todas as chances que tinha, não importa o quão inapropriado fosse. Caminhei na direção dela, ignorando Talia, que se apoiava no corrimão da escada, com um mau humor estampado no rosto. Eu senti pena dela, mas eu não queria que ninguém ou nada arruinasse esta noite. Meus pais quase nunca me permitiram participar de festas e esta noite era o maior evento do ano em nossos círculos sociais. Todo mundo que desejava ser alguém em Las Vegas tinha tentado conseguir um convite para a festa de Ação de Graça de Falcone. Este seria o primeiro Arminho é um carnívoro mustelídeo de pequeno porte pertencente ao grupo das doninhas. A espécie ocupa todas as florestas temperadas, árticas e sub-árticas da Europa, Ásia e América do Norte. 1

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ano que eu frequentaria. Trish e Anastásia tiveram a sorte de ter estado lá no ano passado também, e se meu pai não tivesse me proibido de ir, eu teria ido também. Eu me sentia pequena e deixada de fora sempre que Trish e Anastásia falavam sobre a festa nas semanas antes e depois, e depois, e elas tinham feito isso sem parar, provavelmente porque isso lhes dava a chance de se divertir. — Mostre a Trish e Anastásia seu melhor, e a Cosimo um beijo, — Talia disse docemente. Eu ruborizei. Cosimo. Ele estaria lá também. Eu só o encontrei duas vezes antes e nossa interação tinha sido mais do que um pouco estranha. — Talia, coloque esses trapos horrendos no lixo. Eu não quero encontrá-los em qualquer lugar dessa casa quando voltarmos. Talia levantou seu queixo teimosamente, mas mesmo do outro lado da sala pude ver o brilho de lágrimas em seus olhos. Mais uma vez a culpa inundou-me, mas eu fiquei parada ao lado da porta da frente. Minha mãe hesitou, como se ela também percebesse o quanto Talia estava magoada. — Talvez no próximo ano você venha junto. — Ela fez soar como se não tivesse sido sua decisão de excluir Talia da festa. Embora, para ser honesta, eu realmente não tinha certeza se Falcone ficaria feliz se as pessoas começassem a trazer seus filhos mais jovens, considerando que Falcone não era conhecido por sua paciência ou senso familiar. Até mesmo seus próprios filhos foram enviados para internatos na Suíça e na Inglaterra, de modo a não lhe causarem problemas. Pelo menos, se alguém acreditasse nos rumores. — Vista um casaco — disse minha mãe. Agarrei um que não era de pele, o que não era uma façanha fácil no guarda-roupa da minha mãe, e a segui para fora de casa. Não olhei para Talia quando fechei a porta. Papai já estava esperando no banco do motorista da Mercedes preta em nossa entrada. Atrás dele, outro carro com nossos guardacostas, estava estacionado. Eu me perguntava como era para as pessoas que não eram seguidas. Mãe abriu o casaco um pouco mais. Era Vegas, e não a Rússia, eu queria dizer a ela. Mas se ela preferisse derreter para que ela pudesse andar por aí com seu casaco de pele, então esse era seu problema. Sem dor, sem ganho, eu supus. Anos de aulas de balé me ensinaram isso. Ela afundou no assento do passageiro enquanto eu deslizava na parte de trás do carro. Eu fiz outra varredura rápida em minha meia~ 10 ~


calça, mas elas estavam impecáveis. Eu pensei que as empresas deveriam colocar uma advertência em suas embalagens, como 'Somente para ficar de pé, movimentos não permitido', considerando o quão fácil era puxar fio, enquanto não fazia nada além de andar. É por isso que eu coloquei duas meias novas em minha bolsa, apenas no caso de precisar. — Apertem os cintos, — disse papai. Mamãe inclinou-se e acariciou sua cabeça calva com um lenço de papel, absorvendo as gotas de suor que haviam se reunido ali. Eu não conseguia me lembrar de papai com cabelo. — Cara, — disse papai, com um ar de irritação entrando em sua voz. Eu rapidamente afivelo o cinto, e ele desliza o carro fora de nossa entrada. — Cosimo e eu tivemos uma pequena conversa esta tarde — disse ele com naturalidade. — Oh? — Eu disse. Um nó de preocupação se formou em meu estômago. E se Cosimo tivesse mudado de ideia? E se ele não tivesse? Eu não tinha certeza de qual opção causou ao meu estômago uma contração mais forte. Eu forcei meu rosto em uma expressão neutra quando notei minha mãe me observando por cima do ombro. — O que ele disse? — Eu perguntei. — Ele sugeriu que vocês se casassem no próximo verão. Engoli em seco. — Tão cedo? Um pequeno olhar franzido apareceu entre as sobrancelhas do meu pai, mas mamãe falou primeiro. — Você tem dezenove anos, Cara. Você vai ter vinte no próximo verão. É uma boa idade para se tornar esposa e mãe. Minha cabeça girou. Enquanto eu poderia de alguma forma envolver minha mente em torno de ser a esposa de alguém, eu me sentia muito jovem para ser mãe de alguém. Quando eu teria a chance de ser eu mesma? Para descobrir quem eu realmente era e queria ser? — Cosimo é um homem decente e isso não é uma coisa fácil de encontrar, — disse papai. — Ele é responsável, e ele é consultor financeiro de Falcone há quase cinco anos. Ele é muito inteligente.

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— Eu sei, — eu disse calmamente. Cosimo não foi uma má escolha, não por qualquer padrão. Ele nem sequer era mau. Só que não havia a vibração que eu esperava quando encontrasse o homem com quem eu teria que me casar. Talvez esta noite. Ocasiões como uma festa não eram o melhor lugar para cair de cabeça por alguém? Eu só precisava estar aberta a esta possibilidade.

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Entramos nas instalações da mansão Falcone quinze minutos mais tarde e dirigimos por mais dois minutos até a garagem, finalmente chegando a uma majestosa casa e a uma enorme fonte em frente a ela. A estátua romana jorrava água em tons azul, vermelho e branco. Aparentemente, um artesão da Itália tinha criado a coisa para Falcone. Isso deveria ter custado mais do que o carro do papai. Foi apenas uma das muitas razões pelas quais eu não gostava do Falcone. Pelo que papai havia me dito sobre o homem, ele era um exibicionista sádico. Fiquei feliz que minha família e eu estivéssemos do lado dele. Ninguém queria Falcone como seu inimigo. Onde quer que você olhasse, carros luxuosos estavam estacionados. A partir do grande número de pessoas, eu me perguntava como todos os convidados caberiam na casa sem pisar nos pés um do outro. Diversos manobristas correram em direção ao carro no momento em que ele parou e abriu as portas para nós. Um tapete vermelho subia as escadas e atravessava a porta da frente. Eu balancei a cabeça, mas rapidamente parei no olhar de minha mãe. Ela e o papai me fizeram caminhar entre eles enquanto nos dirigíamos para a porta da frente. Lá, outro criado estava esperando por nós com um sorriso profissional em seu rosto. Nem Falcone, nem sua esposa, estavam em qualquer lugar para nos receber. Por que eu não estava surpresa? O hall de entrada era maior do que qualquer outro que eu já vira. Uma miríade de figuras de cristal de todos os tamanhos estava de encontro às paredes e nos armários, e vários retratos enormes de Falcone e de sua esposa decoravam o topo da parede. — Seja educada, — sussurrou minha mãe em voz baixa enquanto éramos conduzidos para as portas duplas que se abriam para o salão de baile com lustres de cristal e mesas altas com babados que cercavam a pista de dança. Uma das paredes era delineada por uma longa mesa cheia de canapés, pilhas de lagostins e lagostas, tigelas cheias de gelo

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triturado que estavam cobertas com as maiores ostras que eu já tinha visto, latas com caviar Ossetra2 e cada peça de luxo que eu poderia imaginar. O mordomo se desculpou no momento em que chegamos dentro do salão do baile e apressado se encaminhou para os próximos convidados. Uma vez lá dentro, deixei meu olhar deslizar sobre os convidados à procura de meus amigos. Eu estava ansiosa para me juntar a eles e deixar os meus pais procurem suas próprias companhias, mas minha mãe não me deu uma chance de procurar por muito tempo. Ela tocou meu antebraço levemente e sussurrou em meu ouvido. — Comporte-se. Teremos de agradecer primeiro ao Sr. Falcone pelo convite. Olhei por ela para onde papai já estava falando com um homem alto de cabelos negros. Ele segurou seus ombros em uma suposição, como se estivesse tentando curvar-se diante de seu chefe sem se curvar. A visão deixou um sabor amargo em minha boca. Com a palma da mão da minha mãe descansando contra as minhas costas, eu me aproximei de meu pai e de seu chefe. Paramos um par de passos atrás deles, esperando que eles se virassem para nós. Os olhos escuros de Falcone me encontraram primeiro antes que papai percebesse nossa presença. A frieza deles me fez tremer. Sua camisa branca e gravata preta fez com que ele parecesse ainda mais intimidante, o que era incomum, considerando que as gravatas borboletas geralmente deixam seus usuários parecerem engraçados para mim. Depois da troca de algumas gentilezas sem sentido, fui finalmente liberada e corri em direção a um dos garçons equilibrando uma bandeja cheia de taças de champanhe em sua palma. Ele estava vestido com um smoking branco e sapatos branco polidos. Pelo menos seu traje o tornou mais fácil reconhece-los. Um de nossos guarda-costas seguiu alguns passos atrás de mim, enquanto eu andava para longe dos meus pais, o outro se posicionou na beira perto dos convidados reunidos e manteve um olho em meus pais. Eu me perguntava por que era mesmo necessário ter nossos guarda-costas conosco em uma festa de nossos supostos amigos. Eu empurrei o pensamento para o lado, querendo aproveitar esta noite, e tomei uma taça de champanhe com um agradecimento rápido, então tomei um longo gole do líquido, fazendo uma careta ao gosto azedo.

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Os caviar de Ossetra são as mais populares e procuradas variedades de caviares. ~ 13 ~


— Como você pode fazer uma careta enquanto bebe Dom Perignon, a melhor bebida deste mundo, — disse Trish, aparecendo ao meu lado do nada e pegando uma taça de champanhe para si mesma. — É a bebida dos deuses, — entoou Anastásia, e era irritante que eu não sabia se ela estava fazendo uma piada ou estava sendo honesta. — Estou tentando me acostumar — admiti, abaixando a taça de meus lábios. O álcool estava começando a fazer sua mágica e por isso fiquei grata depois da curta conversa com Falcone. Ambas as minhas amigas estavam vestidas de forma impecável. Anastásia em um vestido longo prata, e Trish em um vestido de cocktail verde claro que escovava seus joelhos. Não que eu tivesse esperado nada menos delas. Elas me contaram cada detalhe sobre sua viagem as compras dos novos vestidos para a ocasião. Claro que eu não tinha sido permitida a ir com elas apesar de minhas melhores tentativas de convencer meus pais. Em vez disso, minha mãe me fez usar um vestido que eu tinha comprado para o Natal no ano passado. Meu único consolo era que ninguém, a não ser minha família, tinha me visto usá-lo, então eu não me constrangeria na frente de meus amigos. — Ouvi dizer que é um gosto adquirido. — Acrescentou Trish, pensativa. Ela tomou um pequeno gole de seu copo, sua expressão transformando em um tom de felicidade. — Suponho que sempre tive um dom para Dom Perignon e no ano passado eu certamente tive chances suficientes para me acostumar ao seu gosto, e eu pretendo beber ainda mais vezes no futuro. — Ela e Anastásia compartilharam um riso, e eu amaldiçoei meus pais novamente por me protegerem tanto quanto eles poderiam. Se Trish e Anastásia pudessem enfrentar os supostos perigos do nosso mundo, eu também poderia. Trish me deu um sorriso provocante, então me abraçou com um braço, com cuidado para não arruinar os nossos penteados e nem a maquiagem. Anastásia apenas sorriu. Seu corpete era uma obra-prima de pérolas e bordados. — Estou preocupada que vá puxar fio se nos abraçarmos, — disse ela em meia desculpa. — Isso é razoável, — eu disse, tomando outro gole de minha bebida e forçando meu rosto em prazer em vez de repulsa com o gosto. Eu sabia que para a maioria das pessoas este champanhe era o auge de suas fantasias de bebida, mas eu simplesmente não poderia desfrutar. Eu teria que me esforçar mais se eu não quisesse ver a expressão de piedade de Anastásia novamente. — Uma de suas mechas de cabelo está solta, — disse ela.

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Minha mão livre voou até o ponto que ela estava olhando e eu tentei encontrar o grampo antes que isso pudesse arruinar meu penteado. Outros convidados estavam jogando olhares na minha direção de qualquer maneira, já que esta era a minha estreia em uma festa. Eu não poderia arriscar aparecer nada menos do que impecável. — Permita-me, — Trish disse, simplesmente empurrando o grampo alguns centímetros para trás. — Feito, tudo pronto. — Seu sorriso era amável. Isso é tudo? Pela reação de Anastásia poderia ter pensado que eu tinha cometido um pecado imperdoável. — Há uma boa seleção hoje à noite. — Disse Anastásia. Seus olhos persistentes em um grupo de homens em frente de nós deixando claro que ela não estava falando sobre o aparador de comida. Os homens que estavam em seu foco eram todos pelo menos dez anos mais velhos do que nós, e enquanto eu examinava o resto da sala, eu constatei que nós estávamos entre os convidados mais novos. A maioria dos convidados trabalhava para Falcone. Era uma festa para seus súditos; Eu duvidava que ele tivesse algum amigo. Homens como ele não podiam pagar por esse luxo. — Mas, claro, você não tem mais olhos para os outros homens agora que está noiva de Cosimo, — continuou Anastásia, arrastando-me de volta à realidade. Eu não sabia o que dizer a isso. Sua voz tinha sido estranha. Ela estava com ciúmes? Seu pai provavelmente já estava procurando um partido apropriado para ela, assim logo ela estaria comprometida também. — Vamos nos casar em breve. — Falei em tom apaziguador. — Você colocou as mãos no solteiro mais cobiçado, isso é certo, — ela disse com um sorriso tenso. Então ela soltou uma gargalhada e bateu sua taça contra a minha. — Estou brincando, não pareça tão chocada. Eu ri, aliviada. Eu realmente não queria brigar com Anastásia por Cosimo. Todas nós casaríamos com bons partidos. A música começou e eu tomei outro gole da minha bebida. Eu estava começando a relaxar graças ao álcool se espalhando em meu sangue e quase não percebendo os olhares curiosos ocasionais dos outros convidados. Na próxima festa, eu já seria uma deles e alguém ~ 15 ~


estaria no centro das atenções. Trish batia o pé no chão de madeira no ritmo da música e cantarolava alguns trechos antes que Anastásia lhe lançasse um olhar. Eu tive que reprimir uma risada. A dinâmica entre elas era ridícula às vezes. Para minha surpresa, eu percebi que meu guarda-costas tinha desaparecido de vista para me dar privacidade com meus amigos. Lentamente mas certamente, esta noite estava ficando boa. Eu sabia que Talia me escutaria contar detalhes sobre a festa quando eu voltasse esta noite, mas nossos pais tinham razão quando insistiram que ela era muito jovem para um evento social na casa de Falcone. Claro que não lhe diria isso novamente. Seria difícil o suficiente fazê-la me perdoar, embora alguns sutis rumores provavelmente a amansaria. Não que eu fosse uma socialite experiente. Eu teria que confiar em Trish e Anastásia para isso. O aborrecimento com meu pai ressuscitou em mim. Talvez ele tenha se recusado a me levar a uma reunião social até agora, porque ele pensou que eu o envergonharia na frente de seu chefe. Eu o ouvi dizer a minha mãe várias vezes o quão terrível e brutal era Falcone, por isso não era exagero que meu pai pensou que eu poderia me acovardar com medo diante daquele homem, o que era ridículo. Ele ainda era humano, não o monstro que papai sempre o fazia parecer, e mesmo que fosse, duvidava muito que ele odiasse me ver encolher de medo. Provavelmente o excitaria se fosse o homem que papai descrevera. — Eles são um pouco velho demais para o meu gosto, — disse Trish, então tomou outro gole de seu champanhe, voltando ao nosso tópico anterior. — Eu não me importo. Eu quero ser tratada como uma princesa pelo meu marido e homens mais velhos são mais propensos a isso, do que rapazes mais novos, — disse Anastásia. Ela me deu um sorriso. Por alguma razão, ele parecia falso. — Pelo que ouvi dizer o acordo entre sua família e Cosimo está quase concluído, sua festa de noivado será em breve. Eu fiz uma careta ao ouvir a palavra — Acordo — quando me veio à possibilidade de me casar com Cosimo. Mas com toda a honestidade, era provavelmente o termo que se encaixava melhor em todo o arranjo. Eu dei um pequeno encolher de ombros, tentando agir indiferente. Eu não queria falar sobre ele esta noite, especialmente porque o tema parecia irritar Anastásia.

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— Oh meu Deus, Falcone convidou o monstro, — sussurrou Trish, segurando meu braço e quase me fazendo derramar o champanhe sobre seu vestido. Eu segui seus olhos castanhos em choque para um canto do salão onde um homem alto e musculoso se apoiava contra uma parede. Ele estava vestido com uma camisa branca que se esticava perfeitamente contra seu enorme peito, um terno preto e sapatos pretos. Na verdade ele não parecia tão diferente dos outros homens na sala, exceto pela falta da gravata, se você levasse apenas o seu traje em consideração. Mas o resto dele, Deus tenha misericórdia. Ele parecia muito domesticado para alguém como ele. Ou pelo menos ele tentou. Não enganava ninguém com sua natureza. Parecia irradiar como uma nuvem escura de perigo sobre ele. Era quase palpável, mesmo de longe. Papai o mencionara uma ou duas vezes em voz baixa, mas eu nunca o tinha visto, e ele definitivamente não era do tipo que aparecia nas reportagens do jornal. Eu duvidava que qualquer jornalista fosse louco o suficiente para arriscar a ira de um homem como ele. — O Bastardo, é como a maioria das pessoas o chamam, — acrescentou Anastásia. Ela parecia um gato que tinha visto um pássaro. Eu sabia por que ela estava tão animada. Até agora nada de interessante tinha acontecido, mas Anastásia provavelmente esperava que isso tivesse o potencial para algumas fofocas. — Qual é o nome verdadeiro dele? — Perguntei. Tentei uma vez, mas o olhar que ela me deu não me fez perguntar outra vez. — Eu não sei seu nome verdadeiro. Ninguém sabe. As pessoas o chamam de — Growl3 — na sua frente, e — O bastardo — pelas costas. Eu dei a ela um olhar. Sério? Ambos eram nomes que ele não poderia ter escolhido para si mesmo. Alguém tinha que saber seu nome. Pelo menos, Falcone. Ele sabia tudo sobre seus súditos. — Por que as pessoas o chamariam assim? Anastásia encolheu os ombros, mas não olhou para mim. — Há algo errado com suas cordas vocais desde o acidente horrível. É por isso que ele tem aquela grande cicatriz. Eu não conseguia ver a cicatriz na posição que estávamos. Estávamos muito longe. Presumi que Anastácia tivesse obtido esta informação através de fofocas também. — Que tipo de acidente? Similar a um rosnado, devido sua rouca voz enquanto ele falava, causada pelo acidente. 3

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— Eu não sei. Algumas pessoas dizem que a máfia russa fez isso, outros dizem que ele tentou se matar porque não está bem da cabeça, mas ninguém sabe ao certo, — Anastácia respondeu em voz baixa. Quem tentaria se matar assim? E Growl não parecia ser um cara que cometeria suicídio. A primeira história com a máfia soou muito mais provável. — Então eles o chamam de Growl, porque é o como se parece quando ele fala? — Perguntei. Anastácia mal parecia registrar minhas palavras, mas Trish assentiu com a cabeça em confirmação. Não perguntei por que o chamavam de bastardo. Isso eu poderia presumir. As pessoas em nosso mundo não olhavam de bom grado para as crianças que nasciam fora do casamento. Era antiquado e ridículo, mas algumas coisas nunca mudam. Eu não sabia quem eram seus pais. Não podiam ser membros do alto escalão da sociedade, isso era certo. Eu dirigi meus olhos novamente para o homem. Ele parecia completamente indiferente ao que estava acontecendo ao seu redor, como se essa festa fosse apenas mais um de seus deveres. Mas algo me dizia que apesar do tédio aparente, ele estava em alerta. Eu duvidava que algo passasse despercebido de sua atenção. Ele estava segurando uma taça de champanhe em suas mãos, mas ainda estava cheia. O cristal elegante parecia pequeno comparado a ele e eu estava maravilhada que ele ainda não a tivesse esmagado na mão. Como se ele pudesse ler minha mente, ele virou a cabeça e olhou diretamente para nós. Trish soltou um suspiro e tremeu ao meu lado, derramando algumas gotas de sua bebida no chão de madeira caro. Ela realmente não poderia ter agido de forma mais suspeita se ela tivesse tentado. Depois de um momento, Trish e Anastácia baixaram a cabeça, quebrando o contato visual. Talvez para fazê-lo acreditar que não estavam o observado, ou talvez simplesmente não pudessem suportar o poder de seu olhar. Agora eu entendia por que meus pais e até meus amigos pareciam tão aterrorizados quando conversavam sobre ele. Mesmo a distância, seus olhos quase fizeram meus joelhos se curvarem. Não foi só o medo que fez meu coração acelerar; Havia algo perto da emoção também. Era como assistir a um tigre através do vidro do seu recinto e se maravilhar com seu poder. Só que aqui a única coisa que o impedia de atacar, era as regras sociais, mesmo que alguém como ele fosse obrigado. A coleira que Falcone colocava não era física ou visível, mas estava ali.

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Eu me perguntava o que estava acontecendo em sua cabeça. Como ele se sentia rodeado de pessoas com as quais quase não tinha nada em comum? Ele era um deles, mas ainda assim, não realmente. Um homem das sombras porque ninguém o queria na luz. Quando percebi o quanto eu estava olhando, desviei o olhar, mas a palpitação no meu pulso continuou errática tempos depois. Eu não tinha certeza de quando tempo eu não me sentia assim... Viva pela última vez. Minha vida sempre serpenteava em caminhos predeterminados, mas esta noite parecia uma aventura. — Oh meu Deus, isso foi assustador, — Anastácia sussurrou. — Ele deveria ter ficado no buraco de onde ele saiu. Eu não podia dizer nada. Minha língua parecia estar presa no céu da minha boca. — Ele ainda está olhando? — Eu perguntei eventualmente, meus olhos fortemente fixados sobre as bolhas da minha taça. — Não, ele se foi, — Anastácia disse sem alívio. — Eu não posso acreditar que ele veio aqui. Pessoas como ele devem ficar entre si e não fingir que pertencem ao nosso meio. Olhei para o canto onde ele tinha estado antes, mas como Anastácia havia dito, ele tinha ido embora. Por alguma razão, eu fiquei incomodada porque não sabia para onde ele tinha ido. Ele era uma das pessoas que você gostaria de acompanhar porque temia que pudessem chegar furtivamente perto de você. E eu poderia jurar que ainda podia sentir seus olhos sobre minha pele. Eu tremi. A paranoia geralmente não era meu estilo. Procurei ao redor, mas ele estava longe de ser visto. Eu afastei a ridícula sensação de ser vigiada. Não era de meu feitio começar a agir como paranoica. Se eu fizesse algo para se envergonhar aqui, este seria um dos poucos lugares que eu seria convidada novamente. Ou pior, Cosimo decidiria que eu não estava apta para se tornar sua esposa. Mamãe e papai nunca me perdoariam se isso acontecesse. — Olha quem está vindo, — disse Trish em voz baixa, e por um momento, meu coração parou, eu realmente pensei que fosse Growl. Eu virei para ver de quem ela estava falando e senti o calor subir em minhas bochechas. Cosimo estava a caminho. Ele estava vestido com um terno cinza, cabelos loiros escuros e óculos sob o nariz. — Parece um corretor. — Comentou Trish em voz baixa.

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Ele conseguiu o dinheiro de Falcone, então isso não estava muito longe. O terno era sua segunda pele. Eu nunca o tinha o visto em outra coisa. Era um forte contraste do homem que eu estava espionando há poucos segundos atrás. Trish e Anastásia deram um passo para o lado, amontoando-se e fingindo dar a Cosimo e eu um pouco de privacidade, o que realmente era apenas fingimento, pois eu sabia que elas estariam observando nossos lábios, memorizando nossas palavras. Eu duvidava que elas fossem usá-las contra mim. Elas eram minhas amigas, afinal, mas eu não queria arriscar. Cosimo parou um pouco perto demais e levou a mão aos lábios. Quase revirei os olhos para o gesto, embora uma pequena parte de mim saboreou os olhares apreciativos que Trish e Anastásia trocaram. — Você quer dançar? — ele perguntou, com voz suave e uniforme. Que, assim como o terno, sempre foi o mesmo. Trish o havia comparado a uma máquina bem lubrificada uma vez. O termo se encaixava muito bem. Seus olhos corriam para minhas amigas, mas ele não disse nada. Eu não segui o seu olhar, preocupada que Anastásia ficasse chateada. Às vezes eu não tinha certeza do que diabos estava acontecendo com ela. Deixei que ele me guiasse em direção à pista de dança, consciente dos olhares curiosos das minhas amigas em nós, e elas não eram as únicas nos olhando. Meus pais também tinham voltado a sua atenção para nós. Eu quase me encolhi com tanta atenção. Não tropece, eu disse a mim mesma uma e outra vez quando nós começamos a nos mover conforme a música. Como nós dançávamos intimamente, eu esperei por uma vibração, por algo, uma pequena palpitação no meu pulso, mas nada aconteceu. Não que Cosimo parecesse que estava loucamente apaixonado por mim. Não que o amor era necessário para um casamento, mas teria sido bom, no entanto. Cosimo tentou uma conversa. Sobre o tempo, como adorável meu vestido parecia, isso e aquilo que ele pensou que eu talvez possa estar interessada. Ele não poderia ter ido mais longe. Minhas amigas ainda estavam observando Cosimo e eu. Embora 'observar' não fosse o termo certo para o olhar que Anastásia estava me dando. Eu realmente esperava que ela encontrasse um bom homem para ela em breve. Conhecendo-a como conhecia, ela provavelmente

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estava apenas chateada que pela primeira vez eu estava na liderança, mesmo que eu não teria me importado se meu pai tivesse tido mais tempo para encontrar alguém para mim. Eu forcei meu olhar longe de sua cara feia e deixei meus olhos se estabelecerem no canto onde Growl estava. Ele não estava mais lá. — Minhas amigas e eu notamos um homem encostado ali mais cedo, — eu disse, nem mesmo tendo certeza do que Cosimo tinha estado divagando antes que eu o interrompesse. — Minhas amigas me disseram que seu nome era Growl. Ele parecia... Cosimo aumentou seu aperto nas minhas costas. — Ele não deve ficar onde ele não pertence, — disse Cosimo com uma rispidez e isso me surpreendeu, então ele me deu um olhar encorajador. — Não se preocupe. Você está segura. Ele sabe que não é permitido chegar perto de mulheres como você. Eu abri minha boca para mais perguntas, mas Cosimo balançou a cabeça. — Vamos falar de outra coisa. Não havia mais nada que eu quisesse falar, mas Cosimo e eu continuamos uma pequena conversa. Mas eu não parava de olhar o lugar onde Growl havia estado. Cosimo levou-me de volta para as minhas amigas e um olhar passou entre Anastásia e ele. Sua carranca, obviamente, não tinha passado despercebido por mim. Se eu fosse mais corajosa, eu a teria confrontado e lhe perguntado qual era o problema, mas eu definitivamente não queria nenhum problema em minha primeira festa. Cosimo desculpou-se e foi em direção a um grupo de homens, incluindo Falcone. Trish me entregou uma taça de champanhe. — Como foi? — Bom, — eu disse automaticamente, sem querer admitir a elas que eu não poderia me importar menos sobre meu noivado. — Vocês pareciam bonitos juntos, — Anastásia disse docemente. Pegando-me de surpresa, e eu me senti relaxar na mesma hora. Aparentemente, Anastásia tinha percebido que não havia razão para ela estar com ciúmes de mim e Cosimo.

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Capítulo dois CARA Eu me perdi no meio do caminho; As três taças de champanhe que tinha bebido, realmente não ajudaram muito. Esta casa era um labirinto, obviamente construído para impressionar e intimidar, e não tanto como um lugar para se sentir confortável e atualmente viver. Pelo menos eu nunca poderia imaginar me sentir confortável em um lugar como este, mas talvez a pintura quase em tamanho natural de Falcone tinha algo a ver com isso também. Seus olhos assombrados pareceu me seguirem onde quer que eu fosse. Eu me atrapalhei com meu celular na minha bolsa e o puxei para fora, mas hesitei no último instante. Quão embaraçoso seria se eu chamasse Anastásia ou Trish e lhe dissesse à verdade, que eu consegui me perder ao ir procurar o banheiro feminino? A atmosfera entre nós tinha sido tensas desde a minha dança com Cosimo de qualquer maneira. Não havia necessidade lhes dar mais munição contra mim. Pela primeira vez, eu desejei que Talia estivesse aqui. Nós iriamos rir sobre isso juntas, e ela me zoaria sobre isso por um longo tempo, mas nunca fora de sua malícia. Ela não contaria para outras pessoas. Fiz uma pausa, percebendo que eu nem sequer confiava nas minhas duas melhores amigas. Eu balancei minha cabeça. Este era o mundo em que eu vivia. Você não pode confiar nas pessoas, nem mesmo nas pessoas que você chamava de seus amigos, isso é o que meu pai sempre disse. Eu sempre fui relutante em acreditar nele. Eu coloquei meu telefone de volta na minha bolsa. Eu não ia ligar para elas, de maneira nenhuma. Mamãe também estava fora de questão de qualquer forma. E Cosimo. Não, eu não preciso de outra razão para que seja estranho entre nós. E não havia diferenças entre ele e um estranho. Eu tinha um pressentimento que isso não mudaria até dia do nosso casamento e talvez muito tempo depois. ~ 22 ~


Com um suspiro, eu continuei. Em algum momento eu teria que ver algo que eu reconheceria e encontraria o meu caminho de volta para a festa. Virei em outro corredor desconhecido – eles realmente pareciam ser todos iguais – foi quando vi alguém no corredor apenas alguns passos a minha frente. Finalmente, alguém que poderia ser capaz de me apontar à direção certa! Minha alegria se transformou em choque, então em medo quando eu percebi quem eu tinha encontrado. Growl. Ele não se moveu. Apenas ficou lá. Era como se ele já estivesse neste corredor por um tempo. À espera de uma vítima, talvez, minha mente hiperativa sugeriu. Mas tanto quanto eu queria zombar interiormente da ideia, eu tinha a sensação de que não era assim tão distante. Medo e fascínio começaram uma batalha em mim, e eu me lembrei de que ele não iria me tocar. Meu pai era muito importante para Falcone, e isso significava que eu era também. Talvez Growl fosse um assassino implacável, pouco mais do que uma máquina de matar e um monstro, mas ele era definitivamente um monstro inteligente ou ele não teria chegado tão longe. E ainda assim eu esperava que meus guarda-costas viriam me encontrar em breve. Mesmo que eles tivessem me visto deixando à festa? Eles tentaram dar liberdade as minhas amigas e eu. Mas agora eu queria que eles não tivessem feito isso. Os olhos de Growl não demonstraram nada enquanto me observavam. Uma de suas muitas tatuagens espreitou fora. Eu nunca tinha visto elas, mas você não pode ser uma parte da sociedade e não ouvir as histórias. Mesmo vestido com um terno, disfarçado como um de nós, ele não conseguia esconder quem ele era. Suas tatuagens a mostra era uma pequena dica do monstro debaixo do traje caro. Eu me perguntava como ele ficaria sem o terno. Calor subiu em minhas bochechas com o pensamento ridículo. Eu definitivamente tinha bebido muito. Uma carranca atravessou seu rosto antes dele desaparecer e eu perceber quanto tempo eu estava olhando para ele de novo, julgando-o. Eu provavelmente não tinha conseguido esconder meus pensamentos muito bem. Um erro que poderia arruinar tudo em nosso mundo. Meus pais me ensinaram como funcionavam as coisas.

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A porta atrás dele, parecia vagamente familiar. Levava ao lobby principal. Eu não me movi. Fazer o caminho de volta para a festa, significava ir para perto dele. Era ridículo. Eu não era qualquer uma. E não estávamos em qualquer lugar. Ele não faria nada. Mesmo que ele tivesse regras uma delas era que eu estava fora dos limites, assim como todas as meninas de famílias como a minha. Não importa o quanto absurda à declaração de Anastásia soou, era verdadeira. Eu inclinei meus ombros e dei alguns passos determinados em direção a Growl. Chegando mais perto meu pulso acelerou. Growl era o caçador e eu era a presa, o que não fazia sentido desde que ele não tinha se movido desde a minha chegada ao corredor. Estou a pensar sobre isso, ele nunca chegou a falar quando eu estava me aproximando. — Eu sou Cara, — eu disse com voz apressada. Talvez se eu pudesse fazê-lo falar, ele não pareceria tão perigoso, mas ele não reagiu só me olhou com uma expressão ilegível, e depois a porta se abriu atrás dele, e minha mãe apareceu. Seus olhos pousaram em mim, em seguida, mudou-se para Growl, e sua expressão tornou-se rígida. — Cara, eu e seu pai estávamos procurando por você. Volte para o salão, — disse ela, ignorando completamente o homem no corredor com a gente. Eu balancei a cabeça e corri passando por Growl. Seus olhos, âmbar escuro me seguiram, mas ele permaneceu em silêncio. Quando olhei de volta para ele, uma emoção percorreu meu corpo e eu tive que parar de olhar por cima do ombro. No momento em que eu e minha mãe estávamos fora do corredor e em uma sala deserta, ela agarrou meu braço em um aperto esmagador. — O que você estava pensando em ficar sozinha com aquele... Aquele homem, — ela praticamente cuspiu a última palavra. Seus olhos estavam arregalados e quase frenéticos. — Eu não posso acreditar que eles o deixaram entrar. Seu lugar é em uma gaiola com algemas, longe de qualquer pessoa decente. Suas unhas cravaram em meu braço. — Mãe, você está me machucando. Ela me soltou e eu finalmente reconheci a emoção no seu rosto. Não era raiva, mas preocupação. ~ 24 ~


— Eu estou bem, — eu disse com firmeza. — Eu me perdi e me deparei com ... — Eu procurei em minha mente por um nome diferente de Growl, um que não parecesse muito com um apelido, ao redor da minha mãe, mas fiquei de mãos vazias. — Cara, você não pode sair andando por aí, sem pensar nas consequências de suas ações. — Eu estava procurando o banheiro. Eu não estava passeando por aí, — eu disse. — Cosimo é um bom partido. Não vá estragar tudo agora. Pisquei, incapaz de acreditar nos meus ouvidos. — É com isso que você está preocupada? Mamãe respirou fundo e colocou sua mão no meu rosto. — Estou preocupada com você. Mas isso também inclui a sua reputação. Neste mundo, uma mulher não é nada sem uma boa reputação. Para um homem, isso é uma questão diferente. Eles podem fazer o que eles quiserem e isso ainda vai ajudar a sua reputação, mas somos obrigadas a seguir diferentes padrões. Precisamos ser tudo o que eles não são. Precisamos compensar as suas falhas. Isso é o que significamos para eles. Nós, você, precisa ser gentil e dócil e virtuosa. Os homens querem tudo e devemos manter nossos desejos firmemente trancados, Mesmo que os homens não possam. Não era a primeira vez que ela dizia algo assim para mim, mas a maneira como ela acentuou a palavra — desejo — em seu discurso me deixou preocupada de que ela sabia da reação do meu corpo com a proximidade de Growl. Ela não precisava ter se preocupado. Meu medo sobre esse homem, de tudo o que ele representava e do que ele era capaz, superou qualquer pequena arrepio de excitação que meu corpo poderia ter sentido ao seu redor.

GROWL Growl as assistiu sair do corredor. A porta se fechou e ele estava sozinho novamente. Seu aroma de baunilha ainda permanecia no ar.

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Doce. As meninas gostavam sempre de escolher aromas doces. Ele não entendia por que elas tentavam parecer ainda mais inofensivas por cheirar como uma flor delicada. Ele puxou o colarinho. Muito apertado. O tecido contra sua cicatriz, que ele tanto odiava. Este terno, esta camisa, não eram ele. O olhar no rosto de sua mãe tinha o lembrado do porque ele odiava eventos como este. As pessoas não o queriam por perto. Eles queriam que ele fizesse o trabalho sujo, e eles apreciavam falar merdas sobre ele, mas eles não o queriam ele próximo. Ele não dava à mínima. Eles não eram nada para ele. Ele sabia que eles o viam como um animal de circo. Ele foi o escândalo da noite. A menina com cheiro doce, também, tinha estado a observá-lo. Ele tinha visto ela e suas amigas o observando do outro lado do salão. Mas a menina com cheiro doce o surpreendera. Ele sabia sobre sua família. É claro. Falcone tinha falado sobre seu pai e sua família com muita frequência nas últimas semanas. Cara. Ela não tinha fugido gritando, apesar de ter ficado sozinha no corredor com ele. Ela ainda não parecia muito assustada. É claro que tinha estado com medo; havia sempre o medo, mas tinha havido um ‘que’ de curiosidade também. Porque ele era um monstro que eles temiam e os fascinavam também. Ele não se importava. Ela era apenas uma menina. Uma menina da sociedade com um vestido bonito e um rosto ainda mais bonito. Ele não deu a mínima para sua beleza. Não significou nada. Foi fugaz, poderia ser levada em um piscar de olhos. Mas seus olhos haviam a procurado várias vezes durante a noite. Ele tinha imaginado rasgando seu vestido bonito fora de seu corpo, imaginou também passar as mãos não dignas sobre suas curvas. Em seguida, ele forçou o olhar e deixou o salão do baile antes que ele pudesse fazer algo muito estúpido. Ela era alguém que ele não deveria ter. Alguém que não deveria sequer imaginar ter. Ela era alguém para admirar de longe. E era melhor assim.

CARA

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Naquele dia, pouco depois de voltarmos para casa e eu estava deitada na cama, meus dedos encontraram o ponto ideal entre as minhas pernas, respondendo à necessidade que tinha me atormentado desde que eu tinha visto Growl. O manto da escuridão lavou minha resistência e minha preocupação em ser pega. Até mesmo quando as palavras de minha mãe ecoaram na minha cabeça isso não foi capaz de me parar. — Seja adequada, seja virtuosa. Isso é pecado. — A imagem do temível homem tinha causado um formigamento doce no meu núcleo, e eu era incapaz de resistir. Errado, minha mente gritava, mas eu bani o pensamento até que finalmente meu corpo estremeceu com a liberação. Mas segundos depois, uma sensação familiar de estar suja tomou conta de mim. Este era o pecado. Minha mãe não tinha parado de dizer essas palavras para mim desde o dia em que ela me pegou tocando-me há dois meses. Eu não tinha caído em tentação as minhas necessidades pecadoras desde então, até esta noite. Eu respirei fundo, desejando que meu coração parasse de tremer. Desejando que meu corpo parasse de me lembrar o que eu tinha feito. Desde que minha mãe me pegou havia uma tensão entre nós. Eu mal podia suportar. Ela evitou meus olhos enquanto eu evitava os dela. Eu estava quase feliz que meu casamento estava se aproximando rapidamente, assim eu finalmente poderia escapar do seu julgamento. Eu ainda sentia uma onda de vergonha quando me lembrava daquele dia do flagrante e de seu olhar em choque. Não tinha sido a primeira vez que eu tinha me tocado, mas a primeira vez que eu realmente entendi que era errado. Eu tinha jurado a mim mesma naquela época nunca deixar meu corpo se sobrepor sobre meu cérebro novamente e agora eu tinha quebrado essa promessa. Na proteção da noite, eu ousei deixar meus dedos vaguearem de novo, tudo por causa de um homem a quem eu não deveria sequer pensar, muito menos fantasiar. Era errado. Eu era fraca e pecadora, mas nos breves momentos de prazer, eu me senti mais viva do que em qualquer outro momento da minha vida.

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Capítulo três CARA Eu sabia que algo de errado estava acontecendo quando eu olhei para meu pai durante o jantar. Ele tinha a energia nervosa de um animal enjaulado. Os olhos de Talia se lançaram para mim, as sobrancelhas escuras arqueando-se em uma pergunta silenciosa. Ela sempre tentou agir como se ela fosse crescida, e ainda assim ela ainda parecia pensar que eu sempre sabia mais do que ela. Mas sempre houve mais perguntas do que respostas em nossa casa. Eu dei de ombros e lancei um olhar para nossa mãe, mas sua atenção estava voltada para papai, lá estava à mesma expressão curiosa em seu rosto que de Talia estava me dando. Nenhuma de nós parecia ter respostas; Papai olhou fixamente para baixo em seu iPhone, mas a tela permaneceu apagada. Tudo o que ele estava esperando e esperando, não estava acontecendo. Seus os dedos tamborilando em um ritmo irregular no mogno da nossa mesa da sala de jantar. Papai normalmente usava as unhas meticulosamente curta, mas o que o transformou na pilha de nervos antes de nós, o fez esquecer a sua higiene pessoal. — Brando, você mal tocou o seu jantar. Você não gostou do roastbeef? — perguntou mamãe. Ela passou duas horas na cozinha preparando a nossa comida de domingo. Em todos os outros dias da semana tínhamos nosso cozinheiro responsável pela culinária. Papai saltou na cadeira. Seus olhos injetados arregalados encontraram os de mamãe, então ele olhou para Talia e eu. Uma inquietação embrulhou a boca do meu estômago. Eu nunca tinha visto ele assim. Papai era calmo e analítico. Pouco lhe fazia perder a paciência. Mas desde a festa no Falcone, ele parecia um pouco sobrecarregado. — Eu não estou com fome, — papai disse antes de seu olhar voltar diretamente para o seu telefone celular.

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Olhei para a barriga caída sobre o cinto. Pai gostava de comer, e ele nunca deixava o roastbeef da mamãe ir para o lixo. A tela do seu telefone acendeu com uma mensagem e seu rosto empalideceu. Pousei meu garfo, já sem fome. Mas eu não tive a chance de lançar outro olhar interrogativo para mamãe porque ele se atirou a seus pés. Sua cadeira tombou e caiu no chão de madeira em um estrondo. Minha mãe se levantou também, mas Talia e eu ficamos congeladas em nossos lugares. O que estava acontecendo? — Brando, o que... Papai correu antes que nossa mãe pudesse terminar sua frase. Mamãe o seguiu atrás dele e depois de um momento eu também me levantei. Talia ainda estava colada à sua cadeira. Ela piscou para mim. Meus olhos dispararam para a porta, dividida entre correr atrás de nossos pais para descobrir o que estava acontecendo ou seguir as regras. Nós não devíamos levantar da mesa de jantar sem permissão. Eu não gostava dessa regra, mas eu sempre a seguia. Jantares era a única vez que nossa família tinha a chance de realmente passar algum tempo de qualidade juntos, depois de tudo. A porta da sala de jantar se abriu novamente e Papai estava de volta, com duas armas nas mãos. Ele colocou uma para baixo, apenas para retirar o telefone do bolso e o pressionar contra seu ouvido. Olhei para a arma na nossa mesa. Eu sabia que papai estava fazendo para ganhar a vida, o que ele era. Eu o conhecia por tanto tempo quanto eu poderia lembrar, Mesmo assim, Mamãe, Talia e eu, vivíamos uma vida bem normal apesar de tudo. Mesmo se você se fizesse de cego para a verdade, às vezes ela lhe batia na cara, sem convite. Mas até agora Papai tinha tentado manter a ilusão de normalidade ao nosso redor. Não tinha sido exatamente difícil para ele porque, até alguns meses, Talia e eu estávamos ambas em um internato e só íamos para casa nos fins de semana e durante as férias de verão. E logo eu iria embora para a faculdade e Talia iria voltar para a escola. Eu nunca tinha visto ele abertamente exibir uma arma. Eu nunca tinha visto uma arma tão perto de qualquer forma. Papai estava envolvido no crime organizado, mas muitas pessoas se envolviam com jogos de azar em Las Vegas; Eu não tinha certeza do que exatamente ele estava metido, exceto que ele conseguiu a maioria dos casinos da Camorra. Mamãe entrou na sala de jantar, parecendo completamente fora de si, mas papai não olhou em nossa direção. — Quando você vai estar aqui? — Pai assobiou ao telefone. Ele balançou a cabeça depois de um momento. — Estaremos prontos então. Apresse-se. ~ 29 ~


Finalmente, ele se virou para nós. Ele estava tentando parecer calmo, mas falhando miseravelmente. — Talia, Cara, por favor, arrumem a mala. Coisas que vocês realmente precisam para sobreviver por alguns dias. Mãe tornou-se um pilar imóvel. — Estamos saindo de férias? — Perguntou Talia com esperança e ingenuidade que eu desejava para mim. Papai sempre nos oferecia uma risada quando dizíamos algo bobo. Não hoje. — Não seja ridícula, Talia, — ele explodiu. Ela pulou em sua cadeira, obviamente surpresa com o tom áspero. — Estamos em apuros? — Perguntei com cuidado. — Eu não tenho tempo para discutir os detalhes com você. Tudo que vocês precisam saber agora é que não temos muito tempo, por isso, vá pegar algumas coisas. O telefone brilhou com uma mensagem. Os ombros de papai relaxaram em alívio. Ele correu para fora da sala de jantar. Desta vez, todas as três de nós o seguiu para o hall de entrada da casa. Papai abriu a porta e vários homens que eu nunca tinha visto antes entraram. Eles pareciam fortes em seus jeans, jaquetas de couro e tênis. Parecia o tipo de caras que eu não gostaria de encontrar no escuro - ou em qualquer outro lugar. Eles eram o tipo de homens que faziam você atravessar a rua para evitá-los. Eu tive que me impedir de passar os braços de forma protetora em volta do meu peito. Se papai tinha os convidado a entrar, eles não podiam ser perigosos. Papai tirou um envelope do bolso do casaco e estendeu-o para um dos homens. O braço de Talia escovava os meus quando ela se moveu um pouco mais perto. Eu gostaria de poder dar-lhe o conforto que ela estava obviamente procurando, mas meus próprios nervos estavam temerosos. O homem olhou dentro. — Onde está o resto? — Ele disse com um sotaque pesado. Eram os russos? Eles pareciam ligeiramente Slavic para mim, mas eu não tinha considerado a opção deles realmente sendo russos. Meu pai trabalhava para a Camorra, e não era segredo que os russos eram inimigos. Não era cometer traição por ter aqueles homens dentro de nossa casa? Minha cabeça estava girando, mas eu guardei as perguntas para mim mesma, por medo de tornar as coisas ainda piores. ~ 30 ~


— Vou te dar assim que minha família e eu estivermos seguros em Nova York. Esse foi o acordo, Wladimir, — disse papai. Talia me lançou um olhar confuso, mas eu não ousei tirar os olhos do que estava acontecendo. Por que estávamos indo para Nova York? E o que ele fez que ele necessitasse dos russos para protegê-lo? Ele raramente falava sobre o negócio em nossa presença, mas já tinha ouvido alguns trechos ocasionalmente sobre Nova York ou russos que não tinha sido positivos. Wladimir trocou um olhar com seus companheiros, em seguida, deu um aceno rápido. — Isso não será um problema. Amanhã você vai estar em Nova York. Papai se virou para nós. — O que vocês ainda estão fazendo aqui? Eu lhes disse para arrumar suas malas. Andem. Hesitei, mas mamãe agarrou a mão de Talia e a arrastou para a escada. Depois de um momento, eu segui, mas não sem olhar por cima do meu ombro novamente. Os russos estavam falando entre si. Papai parecia confiar neles, ou pelo menos confiava que eles queriam o resto do dinheiro o suficiente para chegar a Nova York. Isso me assustou. Eu conversando com mãe e Talia, sussurrei. — Porque Nova York? Eu pensei que nós não poderíamos ir lá porque a família de lá não se dá bem com o chefe do papai. Mamãe suspirou. — Onde você ouviu isso? — Eu não sei. Às vezes escuto umas coisas aqui e ali. É a verdade, certo? — Nova York é um tema difícil. Eu não vou para lá há muito tempo. Havia anseio em sua voz. Eu abri minha boca para lhe perguntar sobre isso quando um estrondo soou no andar de baixo, então os homens estavam gritando. — Nós precisamos nos esconder, — Mamãe sussurrou enquanto ela arrastou Talia em direção ao quarto principal. Eu estava prestes a segui-las. Quando passos trovejaram até a escada. Eu rapidamente me escondi na sala o mais próxima, Talia, e se escondeu em seu armário superlotado. Havia uma pilha de roupas descartadas no chão e eu usei para me esconder ainda mais. Eu ainda podia ver a maior parte da sala através da fenda na porta, mas apenas com a luz fraca do corredor, era difícil fazer muito. Eu quase não tive tempo de me abaixar antes da

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porta se abrir. Alguém cambaleou dentro. Por um momento, a luz atingiu o rosto do homem e eu o reconheci como um dos russos. Ele estava sangrando com um ferimento em seu braço. Moveu-se para a janela. Ele iria pular? Ele tentou empurrar a janela para cima, mas ele ficou preso por causa de seus movimentos frenéticos. Prendi a respiração e me enterrei mais fundo na pilha de roupas Outro homem, muito mais alto e musculoso que o primeiro, entrou e agarrou o russo. Tudo aconteceu muito rápido para ver, mas algo parecia familiar sobre o segundo homem. Houve uma pequena luta. O russo puxou uma faca, mas nunca chegou a usá-la. O outro homem o agarrou pelo pescoço e torceu. Eu engasguei um suspiro enquanto o russo caiu, colidiu com a porta de modo que ela abrisse, e acabou caindo no chão sem vida. A luz agora encheu todo o centro do quarto. Meus olhos se voltaram para o assassino. Suas costas se voltaram para mim. Mas eu o conhecia. Eu tinha sonhado com ele várias vezes nas últimas duas semanas desde a festa. Growl, é claro.

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Capítulo quatro CARA Sua camiseta preta colada à sua pele de suor, e seus braços estavam cobertos de tatuagens. Sem o terno e o comportamento frio, isso para mim sinalizava puro perigo. Nada o controlava agora. Tudo nele gritava morte. Meu coração batia forte no meu peito enquanto eu esperava ele se virar e me achar. Será que ele iria me matar também? Ele não faria isso. Ele não podia. O estatuto da minha família ainda tinha que contar para alguma coisa, certo? Mas ele saiu do quarto sem olhar para o homem que ele matou – ou para o guarda-roupa que eu estava escondida. Só quando ele tinha ido embora e eu não ouvi mais seus passos eu me atrevi a respirar. E, em seguida, um novo medo se instalou. Onde estava papai e o que tinha acontecendo com ele? E o que dizer da minha mãe e Talia? Eu tinha que ir a procura delas, mesmo que cada fibra do meu corpo gritava para eu ficar onde estava. Precisávamos ficar juntas, mas deixar meu esconderijo era um risco enorme. Olhei para o corpo morto no meio do quarto novamente. Era esse o nosso destino também? Então, um pensamento esperançoso passou pela minha cabeça. Talvez nós fôssemos poupados. Não foi uma surpresa que os soldados da Camorra, eram como Growl, matavam membros da Bratva, seu arqui-inimigo. Talvez houvesse uma forma, poderíamos convencer a todos que os russos não tinham vindo até aqui para nossa proteção, mas sim para nos matar. Gritos e tiros soaram lá embaixo. Ouvi uma voz familiar, a voz do papai, mas ela não estava entre os gritos, nem eram de Talia ou da nossa mãe. Elas estavam, provavelmente, ainda escondidas no quarto principal. Fechei os olhos. Eu não estava acostumada a este mundo, mesmo que eu tivesse crescido em torno de pessoas que faziam parte do mesmo. Mas eu sempre me mantive ás margens das maldades que meu ~ 33 ~


pai estava envolvido. Agora que eu fui jogada de cabeça, eu não tinha certeza de como agir. Esperar como um rato em uma armadilha não era uma solução. Em algum momento eles iriam procurar pelos quartos corretamente, e então eu não queria tornar isso mais fácil para eles. Eu empurrei meus pés e lentamente abri a porta, em seguida, sai. Embora eu soubesse, eu agachei ao lado do russo e pressionei os dedos contra o pescoço dele. Ele ainda estava quente, mas não havia pulso. Eu cogitei a ideia de ajuda-lo, mas então percebi a maneira como seu pescoço estava torcido e empurrei para longe. Um tremor violento esmagou o meu corpo e por um momento eu tinha certeza que eu iria ter um ataque de pânico, mas o som de vozes me trouxe de volta à realidade. Fiquei de pé, o meu olhar caindo para faca que o russo tinha deixado cair durante sua luta. Eu estava prestes a pega-la quando as palavras do instrutor de autodefesa que tinha dado um seminário de fim de semana em nossa escola surgiu na minha mente: 'A arma que você não pode controlar é outra vantagem para o seu inimigo'. Eu não tinha dúvidas de que eu estaria desarmada em algum momento. Eu nunca tinha aprendido a lutar com armas, ou a lutar. Meus amigos e eu não tínhamos levado o seminário de Autodefesa muito a sério. Agora eu gostaria de ter. Mas nós tínhamos estado tão ocupadas cobiçando o nosso instrutor que não tínhamos tido tempo para mais nada. Quanto tempo se passou? Talia gritou em algum lugar da casa, e eu comecei a me mover sem pensar. Eu saí da sala. Eu não tinha certeza de como ajudá-la, mas eu sabia que precisava para chegar até ela. Eu não fui muito longe embora. Eu bati em alguém, minha cabeça colidiu com um ombro duro. Minha visão ficou preta e eu cambaleei para trás, ofegante. Eu caí de joelhos. A dor subiu pelas minhas pernas com o impacto. Depois de um momento, eu olhei para cima e me vi olhando para o homem que tinha matado um cara bem na frente dos meus olhos, o homem que eu tinha medo e que me fascinara desde o nosso primeiro encontro. Ele era mais alto de perto, e pude ver uma longa cicatriz desbotada, localizada em torno de sua garganta. Growl. Sempre Growl. Meu fascínio deu lugar a nada menos do que o medo, quando seus olhos encontraram os meus. Ele não parecia humano naquele momento. Um assassino, um monstro - nada de humano em sua expressão, ou em seus olhos, ou nele.

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Ele agarrou meu braço e me puxou para os meus pés. Minha visão nadou novamente. — Leve-a com os outros, — respondeu asperamente. Aquela voz, tão profunda e áspera, enviou um arrepio nas minhas costas. Outro homem me pegou pelo braço e me levou para longe. Eu joguei outro olhar por cima do meu ombro, mas, Growl, o homem com a cicatriz e sem piedade, foi embora. Eu quase não prestava atenção ao meu redor e quase caí das escadas quando meu captor me arrastou para baixo até chegarmos a sala onde meu pai, mãe e Talia já estavam reunidos. Papai ajoelhou-se no chão, na frente de Falcone, que estava vestido com um terno de listradas e uma camisa branca. Talia e mamãe ficaram alguns passos para trás, parecendo tão aterrorizadas quanto eu me sentia. Eu fui empurrada para eles e minha mãe imediatamente envolveu um braço ao meu redor. O outro já estava segurando Talia. Eu dei um olhar questionador para ela, mas ela estava observando Falcone com olhos aterrorizados. Finalmente, eu me virei para ele também. Ele tinha sido assustador em sua festa, mas hoje ele parecia realmente assustador. Benedetto Falcone, chefe do meu pai e chefe da máfia em Las Vegas, estava em nossa casa e o olhar em seus olhos transformou meu estômago em gelo. Ele estar em nossa sala de estar, era um sinal horrível. Isso só poderia significar que o papai havia se enganado. E esse pai que estava suando profusamente, só confirmou minhas preocupações. Em algum lugar da casa eu ainda podia ouvir os sons reveladores de uma briga brutal. Eu tremi. Os homens reunidos naquela sala pareciam todos estar procurando sangue. O homem morto no canto e no andar de cima no quarto de Talia não parecia ser suficiente. Passos pesados desceram a escada, e alguns instantes depois, Growl apareceu. Suas mãos e antebraços estavam cobertos de sangue. Eu não tinha certeza se era o seu próprio, mas eu duvidava. Falcone olhou para ele. — Tudo certo, Growl? — Ele perguntou com leve curiosidade, como se ele já soubesse a resposta e eu supus que sim. Todas as histórias que eu tinha ouvido em vozes sussurradas atravessaram minha mente. Growl era invencível. O homem na minha frente tinha pouco a ver com o homem que eu vira na festa de Falcone. Naquele momento, Growl estava disfarçado. Enquanto outras pessoas tinham que colocar máscaras, ele naquele ~ 35 ~


terno e em sua limpa aparência, tinha o transformado em um de nós, mas debaixo dele o mesmo monstro estava deitado em vigília. Agora não havia dúvida de quem ou o que ele realmente era. O melhor soldado nas linhas de frente da Camorra de Las Vegas, e um monstro. Isso é o que as pessoas sempre diziam pelas suas costas e que agora eu também via. Ele era uma máquina de lutar sem emoções, uma mão brutal de Benedetto Falcone. — Tudo certo, — Growl disse naquele profundo murmúrio que era sua voz. Pela primeira vez pude ver a longa cicatriz em torno de sua garganta. Suas cordas vocais tinham sido feridas pelo acidente que lhe tinha dado a longa cicatriz em torno de sua garganta. Growl não deveria ter sobrevivido a uma ferida como aquela, mas de alguma forma ele tinha, e talvez ele o tivesse transformado no monstro que era agora, ou talvez ele tivesse sobrevivido apenas porque ele era um monstro. Falcone se afastou de seu soldado e Growl desvaneceu-se no fundo. Eu não tinha certeza de como ele conseguiu fazê-lo; Um homem com seu tamanho e aura não deveria ter sido capaz de se misturar no nosso ambiente tão facilmente, para fazer você esquecer que ele estava lá. Essa era provavelmente uma das habilidades que o tornaram um lutador tão temido. Falcone aproximou-se mais de papai, forçando-o a inclinar a cabeça para trás. — Ouvi dizer que você esteve ocupado nestes últimos meses, — Falcone começou em um sotaque, que fez os cabelos na parte de trás do pescoço arrepiar. Seu sorriso era desagradável e mal-intencionado. Que prometia punição. O pai engoliu, mas não disse nada. Por que ele não estava dizendo nada? — Quanto do meu dinheiro você guardou para si mesmo, Brando? — Falcone perguntou ainda naquela voz terrivelmente agradável. Meu estômago se contraiu. Eu não podia acreditar que o papai tinha roubado seu chefe. Ele não teria sido tão estúpido. Todo mundo sabia o que acontecia com as pessoas que enganavam Falcone. O sorriso de Falcone se alargou e ele deu um pequeno aceno para um de seus homens, que imediatamente saiu e voltou alguns momentos depois, com Cosimo nos calcanhares, como de costume impecável. O que ele estava fazendo aqui?

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Talvez ele daria o seu testemunho para papai. Mas papai ficou pálido ao ver meu futuro marido e eu sabia que minha esperança era em vão. Papai parecia querer dizer algo, mas ele permaneceu em silêncio. Eu tentei pegar os olhos de Cosimo, mas seu olhar não me procurou uma única vez. Por que ele estava me ignorando? Estávamos praticamente noivos; Nossa festa de noivado estava marcada para o Ano Novo. Ele não deveria cuidar de mim? Ele estava olhando para o pai com uma expressão que fez meu estômago revirar. Isso ia acabar mal. — Por que você não me conta mais o que você me disse há alguns dias? — Falcone disse a Cosimo, sem tirar os olhos do meu pai. — Depois que chegamos a um acordo sobre o noivado com sua filha, Brando veio até mim e me perguntou se eu queria ganhar algum dinheiro extra. Ele me contou sobre o negócio que ele fez com a Bratva, e que ele estava tirando dinheiro de você. Papai não disse nada. Eu queria sacudi-lo, queria fazê-lo negar as acusações escandalosas de Cosimo. Com cada segundo que ele não fez, minhas esperanças para um final misericordioso para esta noite desapareceram. Eu tentei pegar o olhar de Cosimo novamente, ainda esperando, e quando ele finalmente olhou para mim, meu coração afundou. Não havia emoção em seus olhos. Ele não seria meu cavaleiro em armadura brilhante hoje. Falcone virou-se para minha mãe com uma expressão de tubarão. Mamãe ficou rígida, mas manteve a cabeça erguida. Era uma mulher orgulhosa; Uma das coisas que eu mais admirava nela. Eu fiquei preocupada que Falcone pudesse querer quebrá-la. Ele era desse tipo. Ele avançou sobre mamãe, e finalmente meu pai entrou em ação. — Ela não sabe nada. Minha família não estava envolvida em nada disso. Eles são inocentes. — Sua voz soou com medo alarmante. Vendo seu terror, ouvindo-o, aterrorizou-me sem fim. Isso não era um jogo. Talia olhou para mim novamente. Deus, e como eu queria saber como ajudá-la, como ajudar a minha família, mas eu era inútil. Falcone parou bem na frente de minha mãe, mais perto do que era socialmente aceitável. Minha mãe não recuou, embora a maioria das pessoas tivesse feito isso sob seu olhar, e eu esperava ter a mesma força se Falcone me confrontasse. Ele estendeu a mão para sua garganta e ~ 37 ~


por um momento louco eu pensei que ele iria estrangulá-la. Papai fez um movimento para se levantar, mas o homem de Falcone o empurrou para baixo. Falcone enrolou os dedos em torno do colar de Mãe. — Mas eles estão colhendo as recompensas de sua traição, não é? Pai sacudiu a cabeça. — Eu não comprei aquele colar com esse dinheiro... — Ele parou, com uma expressão dolorosa em seu rosto. Isso parecia um apelo culpado se eu já tivesse ouvido um. Eu queria chorar. Papai tinha realmente roubado. Isso significava sua morte, e talvez a nossa também. Falcone não era conhecido por sua bondade. — Não? — Disse Falcone com uma curiosidade falsa. Ele arrancou o colar de garganta da minha mãe. Ela suspirou e se encolheu e sua mão voou para tocar sua pele. Quando ela puxou os dedos para longe, eles estavam ensanguentados. A corrente de ouro atinha cortado. Em seguida, ele apontou para os brincos de Talia. Talia deu um passo para trás. — E isso? — Ele pegou um brinco. — Deixe-a em paz, — Eu disse antes que pudesse me conter. Papai e mamãe olharam para mim como se eu tivesse perdido a cabeça. Falcone lentamente virou-se para mim, seus olhos se estreitando. Ele deu um passo para trás de Talia e veio em minha direção. Levou tudo de mim para ficar firme quando tudo que eu queria fazer era correr o mais rápido que meus pés pudessem me carregar. Eu não estava usando qualquer joia que ele pudesse segurar contra mim, ou meu pai, mas eu sabia que isso não iria me proteger. Seus olhos cruéis pareciam me perfurar até o cerne. Eu tentei não mostrar minha repulsa e meu medo. Eu não tinha certeza se estava conseguindo. Eu não tinha experiência em enfrentar o verdadeiro mal. — Você é um bravo, não é? — Falcone disse. Tive a sensação de que não era um elogio. Esperei que ele fizesse algo comigo, para me castigar por minha insolência, mas ele apenas me olhou antes de se virar e voltar para papai. De alguma forma, sua clemência me preocupava. Isso me fez pensar que talvez ele tivesse algo pior em mente para mim mais tarde. Isso ainda não terminou. — Eu me pergunto se você realmente acreditou que você iria fugir com isso, Brando? — Falcone perguntou. Ele tocou o ombro do papai em um gesto amável e amigável.

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— Eu sempre ganhei mais dinheiro do que qualquer um de seus outros gerentes. Vou trabalhar de graça, enquanto você quiser. Eu vou fazer isso por você, eu juro. — Você quer trabalhar para mim? — Falcone repetiu. — Você me traiu. Você roubou de mim e deu o meu dinheiro para os russos imundos. Meus inimigos. Como você vai trabalhar para mim? — Farei qualquer coisa — disse o pai. Falcone tocou o queixo em contemplação. Parecia como se tivesse praticado o movimento inúmeras vezes na frente do espelho. — Há algo que você pode fazer por mim. Pai assentiu ansiosamente, mas eu não estava tão otimista. O olhar nos olhos de Falcone não prometiam nada de bom. Falcone puxou uma arma fora do coldre sob o paletó e segurou-a contra a cabeça de papai. — Você pode morrer. Ele puxou o gatilho. Eu gritei, dando um passo em frente para ajudar meu pai, assim fez mamãe, mas nossos guardas nos seguraram de volta. Talia gritou um som agudo que fez os pelos na minha nuca se levantarem. Mas papai não se machucou. Ele estava ileso. Não havia uma bala na arma. Eu tremi, minhas emoções mudaram de choque para alívio. Papai fechou os olhos por um momento. Depois olhou para Falcone. Havia definitivamente alívio em seu olhar, mas também trepidação. Falcone sorriu. — Mas primeiro precisamos saber tudo o que você sabe sobre os russos e tudo o mais que possa prejudicar meu negócio, não concorda? Falcone não esperou a resposta do meu pai, ele apontou para Growl. — Fale com ele. E faça isso rápido. Tenho coisas melhores a fazer. — Growl não hesitou. Agarrou papai pelo braço, levantou-o e arrastou-o para a sala de jantar ao lado. Mãe, Talia e eu fomos conduzidos a um canto e tivemos que esperar enquanto escutamos os gritos e gemidos abafados do meu pai. Talia pressionou suas palmas contra suas orelhas e fechou os olhos com força. Mãe apertou sua mão sobre nós duas. Eu queria tampar meus ouvidos aos sons da tortura de papai, mas se ele tinha que suportar a dor, eu poderia pelo menos suportar isso.

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Ficou quieto na sala ao lado. A preocupação roeu meu interior. E se o silêncio significasse que papai havia perdido a consciência? Ou pior. A porta rangeu. Minha mãe ficou rígida. Papai foi levado para dentro por Growl. Ele mal conseguia manter-se ereto e sem o aperto firme do outro homem que o pai teria derrubado. Falcone levantou-se da cadeira. — Tudo feito? Growl assentiu com a cabeça. Ele levou papai para o centro da sala, depois o soltou. Ele caiu de joelhos. Growl voltou ao fundo da sala quando Falcone pisou na frente de papai. — Você me decepcionou muito, Brando. É uma pena, realmente. Deveria ter pensado na sua família antes de decidir me ferir. Papai tossiu, depois soltou. — Não... Não os castigue pelo meu... Falcone não lhe deu a chance de terminar a frase. Ele virou as costas para meu pai. — GROWL, — disse ele. Growl avançou, esperando ordens. Ele ia matar meu pai, não havia outra opção. — Você fez bem, Growl. — Os lábios de Falcone se alargaram. — É por isso que eu tenho um presente para você. Growl parou, pingando sangue e suor, olhos frios e vazios, como se não houvesse nada atrás deles, um vazio escuro que consumia qualquer coisa ao redor. Eu tremi. Eu não me lembro de seu olhar ser tão horrível na festa. Matar e mutilar deve ter trazido o monstro à superfície. Pai começou a sacudir a cabeça. — Você não pode! Eu me assustei. Growl mal olhou para o seu caminho, mas então seus olhos me encontraram, e eles não se moveram. Deus no céu tenha misericórdia.

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Capítulo cinco CARA — Eu posso e eu vou. — Falcone acenou com a cabeça para o captor do meu pai, que o golpeou no estômago, fazendo-o balbuciar e tossir. Falcone abriu os braços. — Você foi um bom soldado, e você merece uma recompensa. — Ele gesticulou para mim e eu pensei que meu mundo estava caindo. Eu podia ver minha vida desmoronando bem diante dos meus olhos. Mas tudo ficou muito pior. O dedo de Falcone se moveu de mim para a minha irmã. Os olhos de Growl correram em direção a ela. — É a sua escolha. — Não, — eu gritei, fugindo do meu captor. Minha nova liberdade foi de curta duração, no entanto, quando suas mãos me agarraram pelos braços, me marcando. Eu estremeci com a dor disparando através do meu corpo. Talia estava congelada de medo e choque. — Por favor — disse meu pai, com as mãos unidas num gesto de mendicância. — Elas são inocentes. Me puna, mas não as machuque. Falcone mal olhou para ele. — Oh, eu vou te punir, não se preocupe. Mas não será tão fácil. — Era óbvio que ele estava se divertindo tremendamente. Esta sala estava cheia de muitos monstros, mas eu tinha a sensação de que ele era o pior deles. — Você escolhe, Growl. Pegue quem quiser. Tenho certeza que você vai gostar de qualquer uma delas — Falcone disse com um sorriso desagradável. Eu não queria nada além de tirar esse sorriso do seu rosto, pegar a pesada escultura de mármore de um deus grego nu, que minha mãe amava tanto, e esmagá-la contra o rosto feio de Falcone. Eu não sabia de onde vinham aquelas noções brutais. Eu nunca fui do tipo violenta, mas eu supus que alguém poderia ser levado ao pior em uma situação como esta.

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Os olhos do Growl pararam em meu rosto. Eu pensei que ele verificaria o meu corpo, mas seu olhar nunca se afastou do meu rosto. Eu quase desejei que fosse diferente. Seus olhos eram como lagos de âmbar vazios. Eu não queria descobrir os segredos horríveis que se abrigavam em sua profundidade. — Oh, eu acho que a escolha está feita, — Falcone disse com uma risada. Growl deu um pequeno aceno de cabeça. — Ela, — ele grunhiu, os olhos ainda colados em mim. Horror, medo e desespero caíram sobre mim. Deveria ter sido alívio também. Alívio, porque Talia tinha sido poupada, mas, ao mesmo tempo, em que eu não queria minha irmã em meu lugar, eu não poderia sentir alívio quando minha própria vida estava desmoronando bem diante dos meus olhos. — Muito bem então — falou Falcone em tom condescendente. — Ela é sua. — Você não pode fazer isso, — rugiu meu pai. Eu não esperava que ainda restassem forças nele. — Leve-me. Ela é apenas uma criança, — Minha mãe implorou, tentando fugir de seu captor mais uma vez. Falcone riu de novo, um som ameaçador. — Quem quer uma ameixa velha quando pode ter um pêssego suculento? — Cuidado com a boca — sibilou meu pai. Talvez eu tivesse admirado mais a sua bravura repentina se ele não fosse o motivo de nossa morte. — Eu não vou ficar por perto enquanto você insulta minha esposa e dá a minha filha para… — Ele olhou para Growl com desgosto. — Aquele monstro. Falcone assentiu com a cabeça. — Você está certo. Você não deveria ter que assistir isso. — Antes que qualquer um de nós pudesse reagir, ele apontou sua arma para o pai e puxou o gatilho. Desta vez não foi apenas uma demonstração. A bala rasgou a têmpora do pai. Sua cabeça girou violentamente, os olhos arregalados em choque. Depois de um segundo, seu corpo caiu para trás. Suas pernas ficaram presas sob suas costas em um ângulo estranho. Um grito rasgou da minha garganta. Eu não conseguia entender o que tinha acontecido. Parecia muito surreal, como algo de um filme, algo que não poderia acontecer bem na frente dos meus olhos. ~ 42 ~


— Não, — mamãe gritou. Desta vez, ela conseguiu afastar-se do seu captor. Ela chegou no pai e caiu de joelhos. Ela acariciou seu peito, impotente, como se isso o fosse acordar. Parecia que ela estava procurando por sua carteira, e por um momento horrível, algo como uma gargalhada queria sair, mas, ao mesmo tempo, minha garganta estava tão apertada que parecia impossível trazer oxigênio suficiente para os meus pulmões e talvez isso não teria sido a pior coisa agora. A mãe embalou a cabeça do pai em seu colo, mas quando ela tirou as mãos, elas saíram cobertas de sangue e algo branco. Minha visão borrou e bile viajou até a minha garganta. Eu engoli em seco, me obrigando a enfrentar as criaturas horríveis que cercam a mim e a minha família. Por alguma razão, olhei para as minhas próprias mãos como se elas também pudessem estar cobertas de sangue. Elas não estavam e depois de um momento de alívio, eu não pude deixar de me perguntar como me sentiria se o sangue de Falcone cobrisse minhas mãos, como seria a sensação de acabar com sua vida, como ele tinha feito com o pai. Eu suspeitava que me sentiria maravilhosa, e me assustou que eu tivesse esses pensamentos. — Seu trabalho aqui está feito, Growl. Mike e Mimo cuidarão do resto. Leve sua recompensa para casa e desfrute dela. Tenho certeza que ela vai mantê-lo entretido por um tempo. Demorou um momento antes de eu perceber que ele estava falando sobre mim. Antes que eu pudesse reagir, Growl apareceu na minha frente, maciço e alto. Meu olhar voltou para seu rosto, mas o olhar em seus olhos me fez recuar e eu olhei para seu peito em vez disso. Ele segurou meu braço. Seu aperto era forte, à beira do doloroso, mas eu não me afastei. Atrás dele, minha mãe ainda estava ajoelhada ao lado de pai, uma expressão horrivelmente vazia em seu rosto que eu nunca tinha visto antes. Growl me orientou na direção da porta e quando eu não reagi, ele começou a me puxar. Os olhos cheios de lágrimas de Talia encontraram os meus. Eu tentei sair do aperto de Growl, mas era como se ele nem fosse humano. Ele mal parecia notar a minha resistência. Eu era uma mosca irritante atacando um leão. — Espere! — Eu gritei e para minha surpresa, Growl realmente parou, uma expressão incompreensiva em seu rosto. Eu virei até que eu pudesse ver Falcone novamente. — E minha irmã e minha mãe? O que acontece com elas? — Isso não é da sua conta, — disse ele com aquele sorriso malicioso. Depois olhou para Growl. — Tire-a de minha vista. Estou ficando cansado dela. ~ 43 ~


Growl me apertou mais e me arrastou apesar de meus protestos. Talia tentou correr até mim, mas foi interrompida por outro dos homens de Falcone. Mamãe estava além de nosso alcance, presa em sua tristeza. — Cara! — Talia gritou, seus olhos implorando para eu fazer algo, para ajudá-la. Mas como? Growl abriu a porta e, em seguida, estávamos lá fora. Talia gritou de novo, mas suas palavras não se perderam. A porta se fechou entre nós, e os gritos aterrorizados de Talia desapareceram. Eu andei no piloto automático. Não que mudasse uma coisa se minhas pernas tivessem parado. Growl teria apenas me arrastado. Eu finalmente afastei meus olhos de minha casa. Eu não podia suportar olhar para ela mais um segundo sabendo que eu nunca mais poderia vê-la novamente. Quando o meu olhar fixou-se no homem alto puxando-me em direção a um Hummer preto, enorme, que era muito adequado a ele, o medo pela minha irmã e mãe tornaram-se secundários devido ao medo do meu próprio destino. Falcone tinha me dado a seu soldado mais cruel. Se eu sobrevivesse hoje, eu ainda quereria viver? Talvez a morte parecesse a mais doce misericórdia depois de Growl ter terminado comigo.

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Capítulo seis GROWL A mente de Growl estava a mil quando ele puxou Cara em direção ao carro dele. Muitas vezes pensara na primeira vez em que a vira na festa de Falcone. Ele tinha se arrependido de estar presente na festa, especialmente porque sua imagem tinha assombrado seu sono nas semanas seguintes. Sentia-se como um macaco de terno, e sabia que também parecia isso. Ele sabia que seu chefe só o convidava quando as pessoas tinham algo para conversar. Mesmo depois de todos esses anos, eles ainda o consideravam o monstro a temer. Ele era um monstro, sem dúvida. Mas ele não era o único monstro naquela sala. Ele nem sabia se era o pior. Ele tinha matado a maioria das pessoas com suas próprias mãos, isso ele não podia negar. E ele não queria. Ele estava orgulhoso do que tinha feito. A maior parte, pelo menos. Era a única coisa no que era bom, matar. Ele era o melhor. E talvez seu talento para matar o fizesse um dos piores monstros, mas ele sabia o quão facilmente a ordem de matar e mutilar rolava para fora das línguas de muitos homens reunidos nesta sala, e como eles saboreavam o seu poder para fazê-lo. Ele não tinha certeza se isso não os tornava tão ruins. Mas não era ele quem deveria decidir, de qualquer maneira. Talvez um dia, todos eles incluindo Growl, teriam que enfrentar um poder maior. Esse dia não terminaria bem para nenhum deles. Growl não estava muito preocupado, no entanto. Ele viveu no inferno, ainda vivia. Ele não tinha nada a temer. Nada que o esperasse, além da morte, poderia fazer danos piores do que já tinha sido feito. Não havia nada nele que não tivesse sido quebrado, nada para destruir, exceto seu corpo talvez, mas ele não estava preocupado com isso também. Ele conhecia a dor, até a agonia. Era a única constante em sua vida. Chegava a vê-la quase como uma amiga. Algo com o que ele podia contar, algo previsível.

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Não, ele não tinha medo da dor, nem da morte. Falcone sempre disse que isso o tornava um bem tão valioso. E isso era algo de que Growl estava orgulhoso, mesmo que as palavras vindas da boca de Falcone deixassem um sabor amargo. Eles o consideravam um idiota, pensavam nele como um cachorrinho estúpido que fazia aquilo sem a menor ideia do que estavam tramando. Como um dos muitos cães de briga de Falcone e dos outros homens mantidos para entretenimento. Mas muitas pessoas tinham cometido o mesmo erro, confundiam o silêncio equivocado com estupidez, igualavam a falta de palavras com falta de compreensão e conhecimento. Era um erro pelo qual eles poderiam pagar por um dia. Ele conhecia a maior parte de seus segredos mais profundos e escuros, simplesmente porque eles não mantinham suas bocas fechadas quando ele estava por perto. Eles pensavam que ele não estava ouvindo, e mesmo se ele estivesse, como ele poderia entender o que eles estavam dizendo? Ele os desprezava, mas pagavam bem e o respeitavam por sua força e brutalidade, isso era o suficiente para ele. Ele não tinha intenção de usar seu conhecimento. Ele não precisava de muito dinheiro para comprar comida para seus cachorros e para si, e para as mulheres uma bebida de vez em quando. Ele gostava de uma vida simples. Não queria complicações. Ele lançou seus os olhos para a menina encolhida no assento do passageiro. Ele esperava que ela não se tornasse uma complicação. Ele não poderia devolvê-la. Falcone não gostaria disso. Não que Growl tivesse qualquer intenção de devolvê-la. Ela era a sua posse mais valiosa até agora. Ela estava olhando pela janela, ignorando-o. Como ela tinha feito na festa. Como todos fizeram até que não pudessem mais ignorá-lo. Ela ainda pensava que estava acima dele? Voltou o olhar para a estrada. Não importava. Ela era sua agora. A ideia emitiu uma punhalada de orgulho nele e sua virilha apertou em antecipação.

CARA Eu mal podia respirar. Por causa do medo e do fedor. Deus, o fedor era pior do que qualquer coisa que eu já tinha cheirado antes. Sangue. Metálico e doce, oprimindo. Eu ainda podia ver a poça de sangue

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espalhando-se sob o corpo sem vida do pai, podia ver a mãe ajoelhada no meio do líquido vermelho, e os olhos horrorizados de Talia. Cada momento da noite parecia estar queimado em minha mente. Meus olhos voaram para o homem ao meu lado. Growl. Ele conduzia o carro com uma mão, parecendo relaxado, quase em paz. Como alguém podia parecer em paz depois do que tinha acontecido? Depois do que ele fez? Suas roupas estavam cobertas de sangue, assim como suas mãos. Muito sangue. A repulsa me paralisou. Algumas semanas atrás, meus guarda-costas teriam rapidamente me levado para longe de um homem como ele. Minha mãe praticamente me arrastou para longe dele na festa de Falcone. E agora eu estava à sua mercê. Ele era a mão brutal e violenta de Falcone. Ele se virou para mim. Seus olhos estavam vazios, um espelho para jogar meu próprio medo de volta para mim. Seus braços e peito estavam cobertos com tatuagens bélicas, facas, espinhos e armas. Eu não conseguia parar de olhar para ele, mesmo que eu quisesse. Eu precisava, mas eu estava congelada. Eventualmente ele voltou sua atenção de volta para a rua. Eu tremi, e deixei minha cabeça cair para frente até que minha testa descansou contra a janela fria. Havia um zumbido baixo na minha cabeça. Eu não conseguia pensar direito. Controle-se. Eu precisava descobrir uma maneira de sair disto. Mas nós já estávamos diminuindo quando nós nos aproximamos de uma área residencial antiga. A pintura tinha descascado da maioria das fachadas, e o lixo espalhava-se pelas ruas. Alguns carros sem pneus e com janelas quebradas estavam estacionados. Eles não andariam para lugar nenhum. Growl parou o carro em frente a uma garagem, que estava recémpintada, então ele saiu. Antes que eu pudesse bolar um plano, ele estava do meu lado e abriu a porta. Ele agarrou meu braço e me puxou para fora. Minhas pernas dificilmente poderiam me apoiar, mas ele não parecia se importar. Ele me levou ao redor do carro, passando por uma

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calçada rachada e um gramado cheio de mato. Um grupo de adolescentes estava reunido duas casas abaixo ouvindo música e fumando, e do outro lado da rua uma mulher com uma regata manchada e tatuagens serpenteando pelos braços tirava o lixo, parecia que ela daria à luz a qualquer momento. Abri a boca para pedir ajuda. Growl soltou uma respiração dura. — Faça. Grite. Eles não vão te ajudar. Eles têm seus próprios problemas. Eu hesitei. Os adolescentes e a mulher estavam realmente olhando para nós, observando enquanto Growl estava me arrastando para sua casa, e eles nem sequer piscavam. Até mesmo o sangue em Growl não parecia chocá-los. Havia resignação em suas expressões, parecia escapar de seus poros. Eles não tinham energia para cuidar de si mesmos, assumir o controle de suas próprias vidas, ou lutar pelo seu futuro, muito menos pelo meu. Eu supliquei a eles com os meus olhos mesmo assim, esperando. Ainda esperando depois de tudo. A mulher foi a primeira a desviar o olhar e a voltar para sua própria casa, momentos depois os adolescentes voltaram para o que quer que estivessem fazendo. Aquelas pessoas não se importavam acontecendo comigo. Eles não me ajudariam.

com

o

que

estava

Chegamos em frente a uma porta. A pintura tinha descascado, revelando a madeira branqueada pelo sol. Growl abriu a porta. Não estava trancada. Meus olhos se voltaram para o grupo de adolescentes. Não parecia que eles deixariam passar a oportunidade de invadir uma casa que nem estava trancada. Olhei para o meu captor, para a cicatriz que percorre toda a sua garganta, o sangue em sua camisa e mãos, as linhas duras de seu rosto. Growl olhou para mim e minhas pernas quase dobraram sob a escuridão em seus olhos ambares. Ele não disse nada. — Mesmo nesta área ninguém ousa te irritar, — eu sussurrei. — Isso é verdade. Mas não é por isso que eu não tenho que trancar minha porta. A maioria das pessoas nessa área são viciados e não têm nada a perder. — Growl me arrastou para sua casa e fechou a porta. O interior da casa era ainda pior que seu exterior. O arcondicionado estava trabalhando no máximo, transformando o pequeno corredor em que estamos em um freezer.

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Eu tremi violentamente, mas Growl parecia imune ao frio. Não haviam fotos nas paredes, nenhuma decoração. Esta casa era um lugar solitário e escuro. Todas as portas estavam fechadas, mas de trás de uma delas eu ouvia sons que eu não conseguia reconhecer. Parecia com um raspar. Ele tinha outra mulher trancada lá? Lágrimas chegaram em meus olhos. Era isso. Tudo estava acabado. Será que eu já tinha desistido de lutar? Ele me arrastou para um quarto. Seu quarto? As únicas peças de mobiliário eram uma cama e um guarda-roupa, mas o que faltava em mobiliário, sobrava com decorações na parede. Punhais e facas zombavam de todas as direções. Growl me soltou e eu tropecei para frente. Eu caí de joelhos. A única outra opção teria sido cair na cama, e eu não iria para qualquer lugar perto dessa coisa. Eu rapidamente me virei, a garganta apertada com medo enquanto Growl me observava da porta. Parecia que ele tinha se levantado do inferno; Um homem envolto em trevas, morte e sangue. Um monstro. Oh Deus, oh Deus, oh Deus. — Eu voltarei — ele murmurou antes de se virar e fechar a porta.

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Capítulo sete CARA Eu voltarei. Eu não ouvi uma tranca. Ele estava tão seguro de si mesmo que achava que não precisava disso? Seus passos se afastaram até que eu não podia mais ouvi-los. O que ele estava fazendo? Eu voltarei. Isso soou como uma ameaça. Meus olhos encontraram a cama e eu rapidamente me levantei. Eu não era estúpida. Eu sabia o que ele ia fazer quando ele voltasse. Como eu ia sair disso? Eu tentei sufocar meu pânico, mas meu coração não parou de martelar e minhas mãos estavam úmidas de suor. As facas brilharam no canto do meu olho. Eu sabia que não era uma lutadora, e eu não sabia como lidar com uma faca ou qualquer outra arma. Eu nunca tive que machucar alguém. Eu não tinha certeza se eu era capaz disso. Me aproximei de uma das adagas. Era a menos chamativa, sem lâmina curva ou ziguezagueada. Foi o que mais me assustou. Estendi a mão e enrolei os dedos no cabo. Não me senti mal como eu esperava, mas eu não me enganei pensando que eu poderia fazer mais com ela do que segurá-la. Tirei da parede. Ela pesava mais do que eu tinha pensado e de alguma forma eu estava aliviada por ter algo substancial para segurar. Meus olhos se moveram pelo quarto. A adrenalina eliminou o meu terror por enquanto, pelo menos a maior parte. Eu corri para a janela, mas havia grades em frente a ela. Uma bolha de riso histérico borbulhou na minha garganta, mas eu a engoli. Não faz sentido ficar louca, ainda. As janelas estavam cobertas por uma camada de poeira, dando a ilusão de que o mundo exterior estava ainda mais distante. Não que o exterior da casa fosse mais atraente do que o interior. Esse era um lugar completamente sem esperança.

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Me afastei da janela e apertei a faca com mais força. Esta era a minha única chance. Poderia muito bem não ter tido uma. Eu ouvi passos e, por um instante, fiquei congelada com indecisão e medo. Talvez as coisas só piorassem se eu atacasse Growl, mas eu não tinha certeza de como isso era possível. Não havia luz em seus olhos, nenhuma misericórdia ou bondade, nada que eu pudesse me agarrar e esperar por um destino aceitável. Talvez houvesse pouca esperança de eu ter sucesso, mas… Meus olhos se dirigiram para a cama, apenas uma queen-size, o que era estranho para um homem do tamanho do Growl. Os cobertores eram vermelho escuro, provavelmente para esconder manchas de sangue. Estremeci enquanto imagens floresciam em minha mente, uma mais horrível do que a outra. Eu caminhei, o medo agora maior do que a indecisão, e me escondi atrás da porta. Eu precisava pegar Growl de surpresa se eu quisesse ter qualquer chance de feri-lo. Mas isso seria suficiente? Tive a sensação de que Growl era como um touro na corrida. Algumas feridas não o derrubariam. Uma imagem de Growl com várias facas enterradas em seu peito fluiu pela minha mente. Eu precisava apontar para matar. Uma nova onda de pânico tomou conta de mim. Eu não sou assim. Não era assim que eu queria ser. Pela primeira vez na minha vida eu odiava meu pai. Ele tinha trazido isso para nós, tinha nos forçado a uma vida que nenhum de nós tinha escolhido. Deus, o que estava acontecendo com Talia? Ela estava bem? Ela era muito jovem para isso. E se ela fosse entregue a outro mafioso? Ela tinha apenas quinze anos. Eu deveria estar lá para ela, deveria protegê-la, em vez disso eu nem tinha certeza se eu poderia me proteger. Os passos do Growl pararam bem em frente ao quarto. Eu rapidamente tirei meus saltos altos, então segurei minha respiração para ouvir melhor e levantei a faca. Eu teria que apontar para sua garganta. Até eu sabia que era o ponto mais vulnerável no corpo de um ser humano. Mas ele havia sobrevivido a uma lesão naquele ponto uma vez antes. Como eu poderia esperar ter sucesso em matá-lo quando os outros tinham obviamente falhado? Ele era muito mais alto do que eu, então eu teria que dirigir a faca para cima. Eu me preocupava de não ser capaz de colocar força suficiente na facada desse jeito. A porta começou a se abrir e então a forma alta de Growl apareceu. A adrenalina bombeou em minhas veias quando eu pulei nele.

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Growl ergueu seu braço nu para afastar meu ataque. A lâmina cortou ao longo de seu antebraço e o sangue jorrou. Mas seu rosto não mostrava dor. Ele agarrou meu braço, mas eu o desviei, usando minha baixa estatura para evitá-lo. Eu apunhalei com a faca para cima novamente, quase cegamente. Com um som baixo dentro de sua garganta, Growl segurou meu pulso. Eu gritei de dor por causa da força e soltei a faca. Um medo me bateu enquanto eu observava minha única arma aterrissar no chão com um barulho retumbante. Meus olhos dispararam para os dele. O rosto de Growl era uma máscara de nada, mas eu não me enganei pensando que ele não estava furioso. Esse homem havia matado pessoas por transgressões menores. Eu tentei me empurrar para trás, mas seus dedos em torno do meu pulso eram implacáveis. Mas isso não me impediu. Eu só tinha essa chance. Ele poderia muito bem decidir que eu não valia a pena e me matar. Eu o chutei, mas perdi o equilíbrio devido a seus reflexos rápidos. Ele me empurrou para a cama como se eu não pesasse nada. Eu não tive chance de evitar a minha queda e aterrissei de barriga em cima do colchão. O ar saiu dos meus pulmões e por um momento eu tive certeza de que morreria por falta de oxigênio no meu corpo, então eu respirei fundo. Tentei levantar, mas o corpo musculoso de Growl pressionou contra minhas costas, me prendendo entre ele e a cama. Um pânico disparou através de mim. Eu sacudi meus quadris em uma tentativa de me libertar. Quando isso não funcionou, eu agitei meus braços, tentando bater em Growl. Com um som impaciente, ele me virou e se esticou sobre meus quadris e agarrou meus dois pulsos com uma mão. Agora eu não tinha escolha senão olhar em seu rosto, olhar cada centímetro de seu corpo assustador. Ele tinha trocado sua roupa coberta de sangue e agora usava uma camisa branca apertada, que agora estava coberta com sangue da ferida em seu braço. Suas mãos eram ásperas e cheias de cicatrizes, elas pareciam estranhas contra a minha pele pálida. Um horrível som aterrorizado soou entre meus lábios. Os olhos estranhos e sem emoção de Growl encontraram os meus. Suas maçãs do rosto e queixo eram linhas afiadas em seu rosto. Não havia nada de suave sobre aquele homem, muito menos seu coração.

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Seu aperto em meus pulsos não afrouxou. Ele não fez nada, exceto me olhar fixamente. Eu sabia que deveria desviar o olhar. Não era isso o que você deveria fazer se estivesse diante de um cão perigoso? Mas eu não estava apenas presa pelo poderoso corpo de Growl, mas também pelo olhar aterrorizante em seus olhos. Sua respiração estava calma, não havia nenhum sinal de nossa luta. Para ele, isso não era nada. Uma de suas mãos se moveu para baixo em direção ao meu estômago. Minha camiseta tinha subido durante a nossa luta e mostrou a pele abaixo. Eu me retesei quando Growl colocou sua mão contra meu estômago. O que ele estava fazendo? Ele olhou atentamente para sua mão descansando contra minha pele mais pálida. A ponta dos seus dedos e a palma mal me tocando. Lentamente, seu olhar voltou a se juntar ao meu. Growl estava me observando como se eu fosse uma espécie desconhecida, algo que ele não poderia entender. E talvez isso fosse verdade. Eu fiz outra tentativa meia boca para me libertar, mas foi quase ridículo. Talvez se ele fosse capaz desse tipo de emoção, Growl poderia realmente ter rido de mim. — Pare, — ele ordenou calmamente. E por alguma razão eu parei.

GROWL Ele tinha uma reputação, e ele estava orgulhoso dela. Sua reputação era temida, respeitada, e isso era muito mais do que qualquer um esperava de alguém como ele. O filho de uma prostituta. O bastardo. O garoto que nunca falou. Ele foi feito para ficar na sarjeta. Ele nunca tinha tido algo para si mesmo, nunca ousou sonhar em possuir algo tão precioso. Ele era o filho bastardo indesejado que sempre teve que contentar-se com as sobras dos outros. E agora Falcone lhe dera o que há poucas semanas atrás estava fora de seu alcance, alguém que nem sequer o permitia admirar de longe, uma das mais valiosas posses da sociedade. ~ 53 ~


Atirada a seus pés, porque ele era quem ele era, porque estavam certos de que iria quebrá-la. Ele era seu castigo, um destino pior do que a morte, uma forma de entregar o castigo final a seu pai, que tanto os tinha desagradado. E um aviso. Ninguém ousaria se opor a Falcone se isso significasse que suas preciosas filhas poderiam acabar nas mãos de um homem como ele. Cara, um nome adequado para alguém como ela, alguém muito bonita para um lugar como este, para alguém como ele. Uma princesa e um monstro, isso é o que eram. Olhos arregalados. Lábios abertos. Bochechas coradas. Pele pálida. Ela parecia uma boneca de porcelana: grandes olhos azuis, cabelos cor de chocolate e pele branca e cremosa; Quebrável, algo que ele não estava destinado a tocar com suas mãos cicatrizadas e brutais. Seus dedos encontraram seu pulso, seus batimentos cardíacos tremulavam como pássaros. Ela tentou lutar, tentou ser corajosa, tentou machucá-lo, até matá-lo. Teria realmente esperado que poderia ter sucesso? Esperança, faz das pessoas tolas, as faz acreditar em algo além da realidade. Ele tinha perdido o hábito de esperar há muito tempo. Sabia do que era capaz. Tinha esperado poder matá-la. Ele sabia que podia matá-la, não há dúvida sobre isso. Sua mão rastejou pela pele macia de sua garganta, então seus dedos enrolaram em torno dela. Suas pupilas se dilataram, mas ele não colocou pressão em seu toque. Seu pulso batia contra a palma da sua mão. Ele era um caçador, e ela orava. O fim era inevitável. Ele viera pedir seu prêmio. Foi por isso que Falcone a deu a ele. Growl gostava de coisas que doíam. Ele gostava de ferir. Talvez até amasse, se ele fosse capaz desse tipo de emoção. Ele se inclinou até que seu nariz estava a centímetros da pele abaixo de sua orelha e cheirou. Ela parecia doce como uma flor com uma pitada de suor. Medo. Imaginou que podia sentir o cheiro também. Ele não podia resistir e ele não precisava, nunca mais com ela. Dele. Ela era dele. Ele nunca gostou de coisas doces, mas talvez ela mudasse isso. Ele baixou os lábios até a sua pele quente. Seu pulso zumbiu sob sua boca onde ele beijou sua garganta. O pânico e o terror batiam num ritmo frenético sob sua pele. E isso o deixou fodidamente duro. Seus olhos procuraram os dele, esperando, ainda esperando a mulher tola, e pedindo a ele por misericórdia. Ela não o conhecia, não

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sabia que a parte dele que não tinha nascido um monstro tinha morrido há muito tempo. A misericórdia era a coisa mais distante de sua mente enquanto seus olhos reivindicavam seu corpo. Ele rasgou a sua camisa, revelando polegada sobre polegada de pele imaculada. Não havia uma única cicatriz ou defeito. Ela não poderia ser sua. Ela era muito perfeita, simplesmente demais. Ele enrolou os dedos em seu ombro. Suave. Mais suave do que qualquer mulher que ele tivesse tocado. Nenhuma delas tinha sido como ela, nem sequer de perto, nem mesmo a mesma espécie, se você perguntasse a ele. Os ossos de seu ombro eram afiados contra sua palma. Tão frágil. Parecia uma boneca. Quebrável, mas bonita. Nada que ele estivesse destinado a possuir. Sua pele parecia suja em relação à dela e ele ergueu a mão alguns centímetros, esperando ela afastar a sua pele do seu toque. Ela não era como nada que ele já tivesse pensado em ter sob seu alcance. Não era para ela estar. Nada que ele estivesse destinado a tocar com suas mãos cicatrizadas e brutais. Ele não era digno. Não vale a pena. Não vale a pena. Não vale a pena. Algo quente e afiado agarrou-se ao seu peito. Ele não gostou, nem um pouquinho. Ele se empurrou da cama, cambaleando de pé. Ela ficou de costas, os olhos cheios de confusão e perguntas, e novamente aquela piscada de esperança. — É melhor parar com isso, — ele rosnou. — O quê? — Ela sussurrou. — A esperança. É um desperdício. — Ele a ergueu. Para ele, ela não pesava nada. Ele precisava que ela saísse, fora de sua visão. Ele a levou para fora do quarto até o quarto de visitas, que ele nunca tinha tido que usar antes. Ela tremeu contra ele e por alguma razão isso o deixou ainda mais irritado. Ele a deixou cair na cama e ela soltou uma respiração chocada. Ele se virou, cansado de olhá-la, de se perguntar, de duvidar de si mesmo.

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Ele não deve… não importava porque Falcone a tinha dado a ele. Ela era dele para fazer o que ele quisesse. Ele andou para a porta e a fechou atrás de si mesmo. Amanhã ele a reivindicaria. Valendo a pena ou não. Ele merecia algo bom em sua vida.

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Capítulo oito CARA Eu estremeci quando a porta se fechou. Surpresa que o som tinha conseguido penetrar o nevoeiro do medo e o martelar do meu coração. Senti-me atordoada. Lentamente, sentei-me. Meu corpo doía, e eu não tinha certeza se era da minha briga com Growl ou se era o terror se manifestando em forma de dor física. Eu não sabia mais nada. Meu mundo tinha sido destruído, e logo eu dividiria o mesmo destino. Growl tinha partido, me poupou por enquanto, mas ele voltaria. Ele voltaria. Eu virei minha cabeça muito lentamente e espiei para baixo em minha camisa rasgada, em meu ombro despido. Lembrei-me de seu toque ali. As pontas dos meus dedos roçaram a pele, e eu tremi, então tracei até a minha garganta e o ponto sob minha orelha. Seu toque ainda estava lá, como uma marca. Fechei os olhos, soltei um suspiro. Meu batimento cardíaco não diminuiu. Meu coração acelerou, como se estivesse ansioso para bater fora do meu peito, longe, longe do meu corpo. Eu queria que fosse assim tão fácil, esquecer seu corpo, indo para lugares e tempos melhores. Mas isso era um pensamento idiota. Não haveria nenhum milagre que me tirasse desse lugar, do alcance de Growl. A maior parte da minha vida eu vivi em uma bolha, afastada da realidade que tantas pessoas enfrentavam. Eu não podia me permitir esse luxo mais. Se eu quisesse fugir do meu destino, teria que me salvar. Ninguém viria em meu socorro, e não meus guarda-costas que agora serviam a Falcone, provavelmente sempre serviram. Não meu noivo traidor. Não meu pai, que provavelmente já tinha sido despejado em algum lugar que ninguém poderia encontrá-lo, ou Falcone o tinha jogado para os cães como um lanche. Meu peito apertou, mas eu lutei com esse sentimento. Não havia sentido em compadecer os mortos. Eles não tinham mais nada a perder. Mas eu tinha, minha mãe, Talia.

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Eu soltei um soluço trêmulo e rapidamente apertei minha palma sobre meus lábios. Eu não queria que Growl me ouvisse, para que não o excitasse e ele mudasse de ideia em me poupar hoje à noite. Eu rastejei na direção da borda da cama e coloquei um pé no chão de madeira, então esperei que meus músculos parassem de tremer antes que eu ousasse me levantar. Minhas pernas estavam instáveis. Eu estava instável. Olhei em volta. Este quarto era ainda mais escasso do que o último. As paredes estavam vazias. O piso de madeira completamente arranhado. Gotas de sangue manchavam minha camisa. Estava arruinada. Eu não podia suportar continuar com ela nem por um segundo mais. Eu a arranquei do meu corpo e envolvi meus braços ao meu redor. Não havia roupa no único armário surrado do ambiente. Tudo o que eu possuía ainda estava em minha casa. Não havia outra porta exceto a que Growl tinha saído, então eu não tinha um banheiro para mim. Não havia nada, exceto os móveis surrados. Afundei-me no colchão. Talvez eu pudesse tentar escapar da casa depois do anoitecer. Coloquei o cobertor sobre meus ombros, cobrindo-me. Se Growl voltasse, eu não estaria usando nada exceto um sutiã. Como se isso o impedisse de fazer qualquer coisa. Eu ouvi algo farejando e depois roçando a porta. Meu corpo se apertou com medo quando eu rastejei em direção a ela. Parecia cães. Quando cheguei a frente da porta, um latido alto soou e eu pulei de volta. O cão parecia grande, perigoso. O meu pai não havia mencionado que Falcone criava cães de briga para se divertir? Minha cabeça estava abalada. Isso era demais. Eu me afastei e caí de volta na cama. E se os cachorros conseguissem entrar? Eles provavelmente me rasgariam em pequenos pedaços. Era para isso que haviam sido criados e treinados. Os boatos diziam que Falcone arrecadava milhões com apostas em brigas de cães. Meu coração afundou. Eu nunca seria capaz de sair da casa sem que os cães percebessem. Mesmo se eu conseguisse me afastar de Growl, e até mesmo isso parecia improvável, considerando sua vigilância, os cães eram um obstáculo intransponível. Enrolei-me em uma bola apertada na cama e enterrei meu rosto no travesseiro. Ele cheirava a coisa velha por falta de uso. Growl provavelmente não tinha muitos hóspedes durante a noite. A ideia quase me fez rir. Eu envolvi meus braços em torno das minhas pernas e

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fechei meus olhos. Lá fora um casal estava gritando obscenidades um para o outro, carros passavam cantando pneus, e portas eram batidas. Eu não tinha certeza quanto tempo eu estava assim, mas a noite caiu em torno de mim e com ela veio um silêncio arrepiante. Eu preferia ouvir os pneus cantando. Esse completo silêncio me fez sentir como se já estivesse morta. Eu tentei escutar alguma coisa, mas desejei que eu não tivesse tentado, porque de repente havia rangidos e farfalhar. Eu não tinha certeza do que a minha mente tinha inventado e o que era realidade. Eu estava cansada, com sede e fome. Talvez eu morresse de sede ou fome. Talvez Growl se esquecesse de mim. Fome não poderia ser tão ruim em comparação com o que poderia estar para vir no meu futuro, se eu permanecesse viva. Pare com isso. Eu tive que parar esses pensamentos loucos. Ficar louca não me tiraria daqui. Eu precisava manter meu juízo em perfeitas condições, precisava bolar um plano. Uma imagem de minha mãe e Talia brilhou atrás das minhas pálpebras fechadas, tão vivas como se estivessem bem diante de mim. Felicidade e profunda tristeza se sobrepujaram à imagem. Essa lembrança seria a única coisa que lhes restava? Eu as veria novamente? As lágrimas brotaram em meus olhos e eu não as parei, deixei que elas escorressem passando por minhas pálpebras e caindo sobre minhas bochechas. Parecia bom, um alívio depois de fingir ser forte. Eu não era, não realmente, mas talvez eu pudesse aprender. Minha família, o que sobrou, eu poderia ser forte por eles. Se não fosse por mim, pelo menos por eles, conseguiria reunir o pouco de coragem que eu possuía e lutaria contra o Growl. Mais uma vez. E novamente, até que um dia, talvez eu escapasse da minha prisão.

GROWL Ele odiava esse sentimento. Odiava a nitidez e a intensidade do mesmo. Odiava ser lembrado que ele ainda era humano a esse respeito.

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Ele precisava ser o monstro que todos esperavam dele, ele queria ser aquele monstro. Ele lutou tanto para ser algo, qualquer coisa, mais do que o bastardo e a cicatriz em torno de sua garganta, mais do que o filho de uma prostituta, mais do que isso. Sempre mais. Ele empurrou o pedal do acelerador com força. Talvez ele deveria ter fugido. Precisava livrar-se daquela energia em excesso, daquele aperto perigoso que abarcava seu peito. Mas onde ele precisava ir era muito longe. Ele não podia esperar tanto tempo. Ele precisava liberar alguma tensão agora. Era preciso se livrar dessa sensação em seu corpo. Ele precisava ser ele mesmo novamente. Precisava lembrar a si mesmo. No passado, ele tinha que fazer isso quase diariamente. Se convencer de seu valor, de quem ele era, mas recentemente ele sentiu como se isso bastasse, e agora aquela garota tão fora do seu alcance, estava arruinando tudo. Ele parou na frente do Baton Rouge na zona proibida estacionar, ignorando o carro atrás dele buzinando. Ele abriu a porta e saiu do carro. O segurança não disse uma palavra sobre o perigo de como Growl tinha estacionado, só deu um passo para trás, quando Growl passava por ele sem uma palavra de saudação. Growl estava quase triste porque o imbecil não tinha dito nada a ele. Ele queria quebrar ossos, queria mutilar alguém, matar. O interior do bordel estava repleto de prostitutas e seus clientes. Havia uma risada falsa e um perfume muito doce. Havia suor, sexo e fumaça no ar. Havia uma tensão tão espessa, você poderia cortá-la com uma faca. O aperto no peito de Growl melhorou um pouco. Isso era familiar. Era disso que ele precisava. Algumas prostitutas para ele, e rapidamente, ele escolheria outra pessoa. Sua recusa não importava. Ele nunca se importou com sua opinião. Tinha-os todos e a maioria deles não valiam a pena. Elas não podiam dar-lhe o que ele queria, o que ele precisava. Mas havia alguém que podia, que gostava de arranhar e morder, que gostava dele duro e impiedoso. Lola tinha se afastado de seu pretendente potencial, um idiota gordo em um terno escuro. Growl não conhecia o homem, então não importava. Growl conhecia todos os que importavam nesta cidade, todos que não deveriam atravessar sua frente, e a maioria deles era

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inteligente o bastante para não se meter no caminho dele de qualquer maneira. O cara gordo apertou uma mão carnuda na coxa de Lola, mas ela o sacudiu e abriu as pernas para gritar. Seu vestido se revirou, revelando uma buceta bem depilada, um piercing cintilando sob a luz. O cara gordo franziu o cenho e seguiu o olhar de Lola em direção a Growl. Sua expressão caiu. Ele rapidamente deslizou fora de seu banquinho e desapareceu de vista, procurando por outra prostituta talvez. Growl não se importava. Ele passou pelo bar em direção a parte de trás antes de entrar no segundo quarto à direita. Estava vazio, mas o cheiro de sexo, desinfetante e borracha pesava no ar. Ele caminhou em direção à cama e segundos depois a porta se fechou atrás dele. — Dia difícil, — Lola disse em uma voz rouca. Nenhuma pergunta, nenhuma declaração. Ela sabia que era melhor não fazer perguntas. Ele sabia que ela estava perto quando o cheiro de fumaça obsoleta e fresca se fechava ao redor dele. Quando ela não tinha uma bebida ou um pau na boca, ela estava fumando. Ele virou. Seus lábios estavam cobertos de batom vermelho, parecendo lustrosos e falsos. Tudo sobre ela parecia falso. Seus cabelos pretos, tingidos muitas vezes, caíam direto em suas costas. Fixados com spray de cabelo e tudo o que as mulheres costumavam fazer em seus cabelos, e não deveriam. Seus lábios se torceram em um sorriso preguiçoso, seus olhos, enrugados com muita maquiagem tremulavam com ansiedade. Oh sim, ela gostou. Ela não estava fora de seu alcance. Ele agarrou seus braços e torceu-a ao redor, então jogou-a sobre a cama. Sua mão se enroscou em seu cabelo, puxando com força enquanto sua outra mão abria seu zíper, então empurrou para cima sua saia e empurrou nela impiedosamente. Ela gritou, com dor ou luxúria, ele não sabia, não se importava. Ela torceu os braços para trás, raspou suas unhas compridas sobre suas coxas, tirando sangue. Ele assobiou e fodeu-a com mais força, e mais duro até que a imagem de pele de porcelana deixou sua mente, até que ele estava de volta a ser quem ele deveria ser. Um monstro, nada menos.

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Capítulo nove CARA Fui acordada por um som que não consegui distinguir. Como garras na madeira. Meus olhos se abriram, olhando para um teto branco, não para minha cama de dossel. Algumas manchas escuras pontilhavam o branco que era realmente mais cinzento, como se alguém tivesse matado moscas ou mosquitos e não tivesse se preocupado em limpar depois. A confusão deslizou através da minha mente sonolenta, e então tudo o que tinha acontecido veio à tona. Eu me ajeitei em uma posição sentada. Demorou um momento antes de descobrir de onde barulho que tinha vindo. Os cachorros. Eles estavam na frente da minha porta novamente. Droga. Eu realmente precisava ir ao banheiro, mas com os cães esperando por mim, isso estava fora de questão. Não que eu soubesse onde o banheiro ficava. Levantei-me lentamente, com as pernas trêmulas, e espiei pela pequena janela. Dava para um pequeno jardim. O gramado não era cortado em um tempo e como a casa, o jardim, também, estava desprovido de qualquer decoração. Alguém estava gritando nas casas vizinhas. Uma mulher, seguida por um homem. O mesmo casal que eu tinha ouvido ontem à noite. Eu encostei no parapeito da janela, analisando meu ambiente. Eu sempre fui boa em matemática. Eu gostava de coisas legais e previsíveis. E onde todos os meus planos foram parar? A cerca no jardim era coberta com arame farpado. Posso superar isso? Provavelmente não sem me machucar feio e, em seguida, Growl só teria que soltar os cães, e eles seguiriam a trilha atrás de mim. E os vizinhos? Eles me ajudariam a me esconder ou eles apenas gritariam na esperança de uma recompensa? Provavelmente o último, considerando as pessoas que eu tinha encontrado até agora.

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A porta rangeu. Eu girei ao redor, meu corpo tensionado com medo. Growl entrou, seus olhos pousando em mim. Eu rapidamente cobri meu sutiã com meus braços. Ele parecia menos perturbado do que na noite passada e, embora seu olhar deslizasse sobre meu corpo meio desnudo, sua expressão não mostrou nenhuma reação. Seu antebraço direito estava enfaixado onde eu o cortara. Acima dele havia mais marcas. Arranhões que eu não me lembro de ter feito, mas eu estava em pânico, então eu não tinha certeza do que exatamente eu tinha feito. Ele seguiu meu olhar brevemente, mas não reagiu. Ele não parecia se ressentir de mim por machucá-lo. Eu esperava que isso fosse um bom sinal. — Você está acordada, — ele disse em voz baixa. Ele nunca havia levantado a voz nas poucas vezes que eu o ouvira falar, mas suas palavras emanavam poder suficiente de qualquer maneira. Eu bufei em sua declaração, mas não disse nada. A pressão na minha bexiga estava crescendo perto de se tornar insuportável. Atrás de Growl, dois cães aterrorizantes apareceram. Eles chegavam a seus joelhos, mas considerando a estatura de Growl, era mais do que intimidante. O que era pior: eles estavam ofegante e me dando uma boa olhada em seus dentes afiados. Eles eram definitivamente um tipo de cães de briga. E a julgar pelas cicatrizes em seus rostos e pelo rasgo no ouvido do cachorro preto, eles haviam lutado algumas batalhas. Growl colocou uma mochila que eu não tinha notado antes, no chão entre nós. — Eu trouxe algumas coisas para você de sua casa. Minha casa. Eu tentei evocar uma imagem da minha casa acolhedora, bonita, mas as imagens da noite passada, era tudo que passava na minha cabeça, e eu prefiro não me lembrar de minha casa, estando presa aqui. Eu me aproximei. — Você viu minha mãe e minha irmã? Como elas estão? Ele rosnou franziu o cenho. — Não. Não me preocupo com elas. — Mas você deve saber algo, qualquer coisa. O que Falcone lhe disse antes de vir para nossa casa? — Eu não perguntei a Falcone quais eram seus planos. Você não deve fazer tantas perguntas. Eu não tenho as respostas, — disse ele simplesmente e estava prestes a se virar. — Eu preciso ir ao banheiro, — eu balbuciei. Eu me senti envergonhada por eu ter que perguntar, se eu tinha permissão para ir ao banheiro.

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Growl fez uma pausa, franzindo o cenho. — E por que não foi? Eu quase ri. — Porque eu não sei onde é, e eu pensei que eu deveria ficar aqui nesse quarto. — Você pode andar pela casa sempre que quiser. Não vou trancar você no seu quarto. Você não é uma criança. — Apenas uma prisioneira. Uma de suas sobrancelhas castanho escuras se contraiu, mas não consegui ligar a reação com uma emoção. Eu não o conhecia bem o suficiente. E eu duvidava que alguém o conhecesse desse jeito. Para ser honesta, eu não tinha certeza se ele era capaz de ter emoções em tudo, ou se suas expressões faciais não eram apenas a reação natural do seu corpo a influências externas ou um comportamento que ele tinha aprendido ao ficar redor de outras pessoas. Quando o silêncio tornou-se insuportável, perguntei. — Então eu posso ir se quiser? Os olhos âmbar de Growl me perfuraram até o âmago. — Você pode tentar, — ele disse. — Mas eu vou te encontrar, não importa aonde você vá. Eu te seguirei até o fim do mundo. — Que romântico, — eu sussurrei com ironia. — Você é minha. — Pare de dizer isso. — Eu estava cansada dele me lembrar disso. Eu queria bater nele com força, e eu teria orgulho de ter acertado seu rosto quando ele disse que eu era dele. — Você terminou? — Ele perguntou sem emoção. — Vamos. — Ele se virou sem esperar minha reação. Eu não podia acreditar nisso. Agarrei a mochila do chão e estava prestes a seguir quando vi os cachorros de pé no corredor em frente ao quarto. Eu parei para olhar. Ambos me observaram com calma, mas com um interesse definido. Meu pulso acelerou. E eu pensei que eu estivesse cansada demais para ter medo. Definitivamente não. — Eles não vão te machucar. São bons cães — disse Growl, esperando por mim no estreito corredor. Eu não tinha certeza, mas eu pensei ter ouvido um tom de diversão em sua voz. — Eles não parecem bons cães, — eu disse hesitante enquanto me aproximava deles.

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— Não julgue as coisas por seus olhares. Isso pode te enganar. Com minhas costas grudadas contra a parede, passei pelos cães. Eles me seguiram lentamente, seus olhos afiados nunca se afastando de mim. Meu olhar percorreu Growl. Suas tatuagens e cicatrizes. — Às vezes, o exterior e o interior, se equivalem, — eu disse calmamente. Sua expressão mudou, mas novamente eu não tive chance de saber o que estava acontecendo em sua cabeça. Pelo menos ele percebeu minha dica, então ele não era tão ignorante como algumas pessoas o consideravam. Ele apontou para uma porta. — Esse é o banheiro. — Há apenas um? — Eu perguntei, e então quase encolhi como isso me fez soar. — Esta é a sua vida agora, melhor se acostumar com isso, — disse ele. Eu corri para o banheiro e tranquei a porta, sentindo uma inundação de satisfação por ter aquela faixa de controle, mesmo apenas por um momento. Eu ignorei a preocupação de que Growl pudesse ficar na frente da porta e escutar o que faria, e fui ao banheiro. Ele tinha ouvido e visto pior, sem dúvida. Mas eu me certifiquei de me apressar e estava feliz quando eu acabei. Eu peguei um vislumbre de mim mesma no espelho sobre o lavatório, quando eu lavei minhas mãos e quase recuei com meu próprio reflexo. Meu cabelo era uma bagunça selvagem e o rímel manchou a pele ao redor dos meus olhos de tanto chorar, mas o pior de tudo era quão pálido meu rosto estava e quão vazio meus olhos pareciam. Apenas um dia e não apenas a minha vida tinha mudado, mas meu corpo também. Eu não queria imaginar o quanto eu estaria pior em algumas semanas ou meses. Eu não queria imaginar ter que viver muitos dias com Growl como meu sequestrador. Eu respirei fundo e mudei a água para o frio, em seguida, espirrei meu rosto e com isso eu me senti melhor. Eu tentei esquecer onde eu estava no momento, tentei deixar movimentos familiares assumir meu corpo. Quando eu olhei para os armários de banheiro de Growl para uma escova de dentes, fui saudada pelo mesmo vazio que encontrei em outros lugares da casa. Havia uma escova de dentes e pasta de dente, uma navalha e um desodorante.

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Nenhum perfume ou outros produtos de cuidados para o corpo. Coloquei um pouco de pasta de dentes no meu dedo indicador e usei para escovar os dentes. Depois disso me virei para o chuveiro, mas hesitei na frente dele, debatendo se eu deveria arriscar ficar nua. Mas o cheiro de sangue ainda permanecia na minha pele, misturado com suor e aroma almiscarado de Growl. Eu tirei minha roupa. Eu não estava a salvo. Tomar um banho não mudaria isso. Mais cedo ou mais tarde Growl faria o que quisesse e não havia nada que eu pudesse fazer para detêlo. O chuveiro e o box eram antigos, mas impecáveis, a torneira rangia e levou muito tempo para a água sair de maneira descente e aconchegante. Eu esfreguei minha pele até que ela parecesse apresentável e quente, e provavelmente teria continuado a fazê-lo se uma batida não tivesse me interrompido. — Você tem mais dois minutos. Eu desliguei a água. Apesar do meu primeiro instinto ser de provocar Growl, eu não queria arriscar que ele entrasse no banheiro. Eu rapidamente me sequei e então abri a mochila. Minha respiração engatou quando eu avistei minhas roupas. Era estranho como coisas pequenas de repente significavam tanto. Peguei cuidadosamente um vestido de algodão cor creme que abraçava meu corpo. Eu queria doá-lo porque não estava mais na moda. Agora parecia a coisa mais preciosa que eu possuía. Eu deslizei o tecido macio sobre o meu corpo e coloquei meias. Vestindo minhas roupas velhas me senti mal neste lugar, como uma relíquia de velhos tempos. Quando saí do banheiro, Growl não estava lá, nem seus cães. Eu me demorei no corredor, sem saber o que fazer ou para onde ir. As paredes eram um branco acinzentado como no meu quarto, e o piso de madeira escuro tinha visto dias melhores. O cheiro de café passou por mim e eventualmente me atraiu para uma grande cozinha. Growl inclinou-se contra o balcão da cozinha, uma xícara de café na mão e seus cachorros deitados em cobertores num canto da sala. Seu olhar estava em uma mensagem em seu celular. Não havia cadeiras ou mesa. Aparentemente, Growl preferia fazer suas refeições enquanto estava de pé.

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Ele olhou para cima e seus olhos percorreram todo o meu corpo, permanecendo nas minhas pernas, quadris e seios. Eu me forcei a manter a calma, a esconder os nervos que o calor de seu olhar criou. Ele usava uma camisa branca apertada que não conseguia esconder seus músculos, nem os contornos das suas tatuagens. Meus olhos se moveram para a cicatriz em torno de seu pescoço. — Aqui, — ele disse, empurrando uma xícara de café para mim. — Beba. — Eu prefiro meu café com leite, — eu disse. — Não há leite na casa. É café preto ou nada. Peguei o copo, saboreando o calor dele, e dei alguns goles no líquido quente. Sua atenção voltou para o móvel no balcão da cozinha. — Há ovos na geladeira se você estiver com fome. Eu olhei para ele. — Você está falando sério? — Eu perguntei, colocando a xícara com força no balcão. — Ontem Falcone me deu para você como um presente e agora você fingir como se isso fosse normal, como se pudéssemos agir normalmente um em torno do outro. Por que você não nos faz um favor e me deixa ir? Ele estava na minha frente antes que eu pudesse reagir. Estiquei meu pescoço para olhar seu rosto. Eu estava presa entre ele e a cozinha. Ele me agarrou pela cintura e me levantou no balcão, depois pressionou entre minhas pernas, aproximando nossos rostos. Eu segurei minha respiração, atordoada por seu movimento repentino. Meu coração estava batendo freneticamente contra minha caixa torácica, mas eu tentei esconder o medo dele por trás do meu ódio. Sua mão segurou a parte de trás da minha cabeça, mantendo-me no lugar e então sua boca caiu sobre a minha, sua língua deslizando para além de meus lábios. Eu fiz um som de protesto, mas ele foi engolido pela boca de Growl. Eu empurrei minha cabeça para trás, ofegante e olhei para ele. Eu o odiava. Odiava por quem ele era, mas pior, pelo que ele me fez sentir. Por um pequeno momento eu tinha me permitido me afogar no beijo, porque ele conseguiu me fazer esquecer tudo, me ajudou a afogar a tristeza, medo e preocupação. E nesse curto instante, me senti maravilhosamente bem. Tão bem, que meu corpo tinha formigado e eu

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senti isso da ponta dos dedos das mãos até os pés. Em toda parte. Estava errado. Deus, tão errado. Como o homem na minha frente. Enxuguei minha boca e então, da mesma forma, o formigamento desapareceu e o que restava era repulsa. — Não me toque, — eu assobiei. — Nunca mais. Ele sorriu sem humor. — Por quê? — Porque você me repeliu. Você é um monstro e eu não quero suas mãos em mim, não quando elas estão cobertas de sangue.

GROWL Emoções, ele nunca tinha entendido bem. A maioria das pessoas tinha muitas, e lhes deixava ainda mais dispostas. Especialmente as mulheres pareciam muito despreocupadas em mostrar essa parte de si mesmas. Cara não era diferente. O ódio, estava claro em seu rosto. Ela o odiava. Todos o odiavam. Ela o temia. Todos o temiam. Estava acostumado a esse tipo de reação. Ele não se importava. Ele não era um homem esperto; Nem sequer perto de ser tão inteligente quanto ela. Ele sabia disso, e talvez isso o tornasse mais inteligente do que a maioria dos homens de Falcone. Ele conhecia suas limitações, as sentia todos os dias e as aceitava, mas nunca as deixava pará-lo. Mas apesar de sua falta de inteligência, ele sabia que Cara não era realmente uma recompensa para ele. Não era por isso que lhe fora dada. Claro, ela era uma recompensa, era o maior presente que alguém como ele poderia esperar, era mais do que alguém tão sombrio e sujo merecia, mas não era por isso que Falcone lhe dera como seu presente. Esta não foi uma recompensa para ele, era um castigo para ela e seu pai, e se tinha alguma coisa de verdade nisso, era que tudo não passava de um verdadeiro castigo. Growl sabia disso, e talvez ele deveria

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ter se sentido revoltado, deveria ter se sentido culpado, deveria ter recusado um presente como esse, mas ele não era esse tipo de homem, e foi por isso que Falcone o tinha escolhido sabiamente. Ele era a punição que ninguém merecia, muito menos ela. Mas agora que ele a tinha, Cara, seu dom, ele nunca a deixaria ir. O beijo, tinha lhe dado um gosto do que estava por vir, de Cara, e malditamente, ela tinha um sabor doce com uma pitada de amargura do café. Mais doce do que qualquer mulher que ele tinha beijado, mas não tinha havido muitas e seu último beijo foi há muito tempo. Ele não gostava de beijar as putas. Não porque tinham o gosto de outros homens em sua boca, embora isso também contasse se ele fosse perfeitamente honesto consigo mesmo, mas principalmente porque era muito íntimo. Ele nunca tinha entendido o valor de beijar, quando o sexo e um bom boquete traziam uma satisfação mais rápida, mas desde a primeira vez que ele viu os lábios rosados de Cara, ele se perguntou como seria beijá-la. No começo, tinha sido uma fantasia ridícula, que nunca se tornaria realidade, mas então se tornara uma possibilidade. Ele olhou para baixo para seu rosto furioso, e o duro conjunto de seus lábios. Ele queria beijá-la de novo, prová-la novamente, mas ele tinha aprendido a controlar seus desejos. A forma como ela olhava para ele agora, o fazia lembrar da primeira vez que eles se encontraram, dos olhares que cada mulher na sociedade lhe deu. Ele deu um passo atrás antes que sua raiva pudesse tirar o melhor dele, como se tivesse passado a última vez. Ele não teve tempo para outra visita com Lola. E se ele fosse honesto, tinha sido tão satisfatório com ela como de costume. Então pegue Cara. Ela é sua. Ela era. Mas ele não podia imaginar tratá-la como tratava Lola. Não apenas porque Cara não reagiria do jeito que Growl queria, mas também porque não gostava da ideia de tratá-la dessa maneira. Ela era muito preciosa. Ele se afastou dela e pegou seu telefone novamente. Falcone queria vê-lo à tarde. Growl duvidava que o homem tivesse um trabalho de verdade para ele. Falcone queria ouvir detalhes terríveis do que Growl tinha feito com Cara. Ele olhou para ela. Ela ainda estava sentada no balcão onde ele a colocou, mas ela cruzou as pernas protetoramente e estava observandoo cautelosamente. Mesmo assim, ela conseguiu parecer elegante e absolutamente fora de lugar em sua casa.

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Talvez Falcone não se limitasse a gritar como uma punição para Cara. Talvez ele também tivesse esperado colocar Growl em seu lugar, para mostrar que apesar de seus anos de serviço, ele ainda não era digno.

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Capítulo dez CARA Meus lábios ainda estão formigando do beijo, apesar do meu nojo e raiva de Growl. Ele se afasta lentamente, com uma expressão que não consigo decifrar. Eu pulo do balcão, tentando sair dessa situação comprometedora, e congelo de medo quando os cachorros saltam de onde estavam descansando no canto da cozinha. O único cachorro com que tive contato nos últimos anos foi o Chihuahua de Anastasia, que ela comprou depois que isso se tornou um item essencial das fashionistas, de acordo com as revistas que ela lia. Mas aquele cachorro tinha o tamanho de um porquinho-da-índia, e seus dentes mal tinham força para arranhar a pele de alguém. Esses cachorros, no entanto, eram monstros no tamanho e, principalmente, na personalidade, assim como o seu mestre. Eu puxei uma respiração e me encostei contra o balcão outra vez. Não havia nenhum outro lugar que eu pudesse ir, e pelo jeito que eles me olhavam, iam me seguir de qualquer maneira. Meu coração acelerou e eu congelei completamente. Os cachorros também não se moveram, mas pareciam tensos, como se estivessem prontos para me atacar se eu me mexesse de um jeito errado. Growl me deu um olhar que deixou claro que ele pensava que eu tinha perdido a cabeça, mas ele obviamente não era alguém em quem eu confiava quando se tratava de julgar o perigo e monstruosidade dos seus cães. — Se você agir com medo, eles vão ficar desconfiados, — ele disse como se eu fosse uma criança. Eu olhei para ele. Suas palavras só aumentaram o meu medo me deixaram mais tensa. Growl largou seu café outra vez e me olhou como se estivesse tentando descobrir algo. Meus olhos corriam entre ele e os seus cachorros. Growl caminhou na minha direção, seu braço vindo para mim. Eu estremeci e me encolhi, esperando um soco. Ele parecia frustrado. ~ 71 ~


Ele congelou com o braço no ar e a falta de compreensão cresceu ainda mais em seu rosto. — O que você está fazendo? — ele retumbou, lentamente abaixando o braço musculoso. Havia mais arranhões na parte superior do seu braço que eu notei agora. Com certeza eles não podiam ter vindo todos de mim. Um círculo vermelho começou a se espalhar lentamente pelo seu curativo, e eu estremeci. Growl baixou o olhar para o seu braço machucado e deu um suspiro. — Você é problema demais, — ele disse simplesmente. Seus olhos encontraram os meus. Eu não conseguia ler a sua expressão. — Talvez você devesse ir ver um médico, — eu disse, em vez da resposta ácida que tinha em mente. Até agora Growl tinha sido mais civilizado do que eu achei que fosse possível, e não podia arriscar provocá-lo tanto a ponto de mudar isso. — Eu não preciso de um médico. Eu costurei os meus ferimentos. Eu já fiz isso antes. Mas você me cortou muito profundo e eu não deveria mexer tanto o braço. Pela sua reação ontem, eu pensei que mal tinha deixado uma marca nele com a faca, mas ele provavelmente era muito cuidadoso para mostrar a extensão do seu ferimento durante uma luta. Embora chamar nossa pequena desavença de luta era algo risível. — Por que você não se encolheu? — ele perguntou. Eu esperava que ele tivesse esquecido minha reação à sua aproximação. Dei de ombros e voltei minha atenção para os cachorros, que estavam nos olhando. Eles ainda não tinham saído do seu lugar no fim da cozinha, exceto que o preto tinha agora se sentado. — Pensei que você ia me bater, — eu finalmente disse. Silêncio se seguiu, até que eu não pude mais aguentar e levantei o olhar para encontrar Growl me encarando em flagrante confusão. — Ah, vamos lá, — eu murmurei, minha raiva crescendo, apesar das minhas melhores intenções de não o provocar, seu choque era ridículo. — Não haja como se isso fosse impossível. Eu vi você ontem. Vi você matar um homem usando apenas suas mãos para quebrar o pescoço dele. — Onde você estava? Eu não vi você em lugar nenhum. — No armário.

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Growl assentiu. — Ele era o inimigo. — E eu não sou? Por alguma razão, ele parecia mais próximo do que antes, e seu cheiro finalmente chegou até mim. Não o cheiro de suor, sangue e morte, como na noite passada, mas algo fresco e almiscarado. Parecia normal demais para alguém como ele. — Não. Inimigos precisam ser eliminados porque representam perigoso e, muitas vezes, morte. Você não. — Eu tentei te matar ontem à noite, — eu disse indignada. Ele não disse nada, e isso foi pior do que um insulto. Cruzei os braços. Estava começando a me cansar dessa conversa, dessa situação, de tudo. Fechei os olhos, mas no momento em que fiz isso, imagens da noite passada voltam, e eu rapidamente os abri outra vez. Eu realmente queria que Growl parasse de me olhar com essa expressão atenta. Ele parecia um explorador que tinha descoberto uma nova espécie. — O que vai acontecer agora? — eu perguntei baixinho. — Eu tenho trabalho a fazer e você vai ficar aqui vendo TV. Eu ri. Será que me interpretou mal de propósito? — Não foi isso que eu quis dizer. Você vai continuar a me manter aqui até que eu morra ou você canse de mim? — Não pensei muito sobre isso ainda. Eu não sabia que Falcone ia te dar para mim, ou eu teria feito planos, — ele disse. Planos para o meu cativeiro, quanta consideração. — Então, e agora? — tudo parecia tão sem sentido. Minha vida nunca tinha sido livre. Sempre houve regras e expectativas, mas agora eu não tinha escolha sobre nada. — Eu vou trabalhar e você vai ficar aqui. Eu desisti. Ele não podia ou não queria me entender. — Você vai levar eles com você? — eu acenei na direção dos cachorros. Growl balançou a cabeça. — Eles vão ficar aqui com você. — Você tem certeza que eles não vão me cortar em pedaços? Growl se virou para os seus cachorros. — Coco, Bandit.

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Eles não hesitaram. Dentro de segundos eles estavam ao lado de Growl e olhavam para ele com o que eu só podia descrever como adoração. — Eles são bem treinados, — ele explicou. — Você pode chegar perto. Eu assenti, mas não me movi do meu lugar contra o balcão da cozinha. Como eles estavam ofegando, pude dar uma boa olhada no tamanho dos seus dentes. Ele franziu o cenho. — Você vai ter que se acostumar com eles. Você vai passar muito tempo com eles no futuro, e eu não vou estar sempre por perto para te ajudar. A ideia dele me ajudando era ridícula. Eu certamente não estava ansiosa pela sua presença. — Se você quer tocar neles, deve sempre dar a chance deles te cheirarem primeiro. Pelo menos até que eles te conheçam melhor. Eles são cães desconfiados. A maioria das pessoas não lhes deu muitas razões para terem confiança, — ele estende a mão na frente de Coco, então na frente do nariz de Bandit, antes de dar tapinhas nas suas cabeças. — Se eles se afastarem, deixe assim. Não tente acariciá-los se eles não quiserem. Como eu deveria saber quando eles querem ou não ser acariciados? Não que eu tenha qualquer intenção de tocar neles sem uma boa razão, ou sem Growl por perto. Eles me assustam. Não consigo evitar. Eles parecem saber como rasgar as coisas em pedaços. Eles têm muitas cicatrizes falando sobre o seu passado difícil. — Eles são cães de rinha, certo? Growl assentiu. — Os dois lutaram muitas vezes. Ganharam a maioria. — Aposto que você ganhou muito dinheiro com eles naquela época, — eu murmurei, esperando que ele pudesse ouvir o meu desprezo. Por que as pessoas gostam de ver cachorros se destroçando? Mas eu nunca entendi o apelo de lutas de boxe, também; mas os boxeadores pelo menos escolhem lutar por vontade própria. Ele dá mais uns tapinhas na cabeça de Coco e Brandit antes de virar toda sua atenção para mim. — Eu nunca coloquei eles em rinhas. Eu os comprei quando eles ficaram velhos demais para ganhar, — sua voz era mais suave quando ele falava sobre os seus cachorros, embora

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ainda houvesse as bordas afiadas da rouquidão das suas cordas vocais danificadas. — Por quê? — Porque eles seriam mortos, e depois de tudo que eles passaram, mereciam viver em paz pelo resto dos seus dias. Isso foi um lampejo de bondade? Parecia improvável, mas pelo jeito que ele cuidava dos seus cachorros, eu não podia negar a possibilidade. Talvez ele sentisse uma conexão com os cachorros porque eles foram forçados a uma vida de violência. Não se sabia muito sobre o passado de Growl, mas ninguém nascia assim, ninguém nascia mal. Talvez ele também tenha sido forçado à essa vida. Talvez ele nunca tenha experimentado uma vida normal. Isso não justificava suas ações, mas era uma explicação que me ajudava a entendê-lo um pouco melhor, um entendimento que era sempre o primeiro passo para a solução. Se eu queria sair dessa situação horrível, primeiro teria que descobrir mais sobre o meu captor, mesmo que isso significasse passar algum tempo com ele. — Então você nunca apostou em rinhas? Ouvi dizer que as pessoas fazem milhões com isso, — olhando para a sua casa pobre, pensei que ele certamente poderia usar esse dinheiro. Ele balançou a cabeça. — Eu não me importo com dinheiro e, mesmo que me importasse, não gostaria de ganhar deixando cachorros se comerem vivos. Esse homem era um enigma. Ele fez um gesto para que eu me aproximasse outra vez. — Venha. Vocês precisam se conhecer e eu não tenho muito tempo. Dei passos hesitantes para me aproximar, e quando os dois cachorros não saltaram, fechei a distância que faltava entre nós. — Fique de joelhos, — Growl ordenou, e essas palavras trouxeram outra imagem à minha mente, uma que me deixou mais agitada do que os cachorros com dentes grandes, especialmente porque ela fez o meu corpo esquentar. Rapidamente empurrei essa imagem para longe e me agachei. Growl pegou a minha mão, me assustando. Foi no último segundo que consegui me impedir de me afastar. Sua palma era calosa e quente. Parei de respirar quando ele estendeu minha mão na frente do focinho marrom claro do cachorro. Ele cheirou, então balançou o rabo. ~ 75 ~


Growl colocou minha mão no meio das suas costas, a seguir. — Essa é Coco. Ela tem oito anos, e eu estou com ela há dois, — Coco, parece um nome tão doméstico para um cachorro como esse. Corri minha mão para cima e para baixo pelo comprimento das costas de Coco. Seu pelo era suave, e eu me encantei na sensação dos seus músculos. Ela era forte, mais forte do que parecia. Eu só podia imaginar a cadela na arena de lutas, e a pena por ela cresceu em mim novamente. Seus olhos castanhos eram curiosos e gentis. Eu não podia ver uma pitada de agressividade. Growl pegou minha mão outra vez e a levou para o outro cachorro, Bandit, inspecionar. Ele também me cheirou algumas vezes, mas não balançou o rabo ou reagiu de qualquer outra forma. Ele não parecia se importar muito com a minha presença. Growl deu de ombros. — Ele precisa te conhecer melhor. Dê um tempo a ele, — ele soltou a minha mão e eu a puxei rapidamente e levantei. Isso era muito estranho. Growl estava agindo como se nós fôssemos um tempo de família desconjuntada. Growl se levantou também, pairando sobre mim. — Eu preciso ir agora, — ele pegou seu celular no balcão da cozinha e foi para o corredor. — Você vai se encontrar com Falcone? — eu perguntei, o seguindo. O nome se prendeu como ácido na minha língua. Growl fez uma careta por cima do ombro na minha direção. Ele não disse nada. — Você pode perguntar a ele sobre a minha irmã e a minha mãe? — eu disse, então completei. — Por favor? Eu vou ficar louca se não souber que elas estão bem. — Falcone pode ou não me dizer. Se eu perguntar, ele provavelmente vai manter isso para si, porque significa mais um pedaço de poder. — Eu preciso saber se elas estão bem, — eu repeti. Growl assentiu. — Levei os cachorros para uma longa caminhada essa manhã, então é o suficiente se você os deixar correrem pelo jardim por volta do meio-dia. Vou levá-los para passear de novo quando eu voltar, — ele disse, então adicionou. — Não tente fazer nada. Isso não vai ser bom para você nem para mais ninguém, — ele me deu um olhar expectante até que eu finalmente assenti, então ele andou até a porta e ~ 76 ~


a fechou ao passar. Um momento depois, ouvi o som dela sendo trancada e eu estava sozinha. Me aproximei da porta, ouvindo o som do seu carro se afastando. Então eu hesitei outra vez. Talvez isso fosse um truque? Talvez ele só queria ver se eu ia tentar fugir se tivesse a chance. Talvez ele até mesmo estivesse ansioso por uma oportunidade de me punir? Soltei um suspiro e caminhei de novo até a cozinha, tentando ignorar os cachorros, que voltaram para os seus cobertores. Não havia cortinas na casa, então eu tinha uma visão perfeita na direção da estrada. O carro de Growl tinha ido embora, mas eu ainda não conseguia acreditar que ele realmente tinha me deixado sozinha. Meus olhos começaram a correr pela vizinhança, procurando algo fora do comum, mas para mim, nada era. Essa área estava enterrada na miséria. Um homem velho sentando junto ao portão da sua casa do outro lado da rua. Ele estava me observando, ou pelo menos, a casa de Growl. Será que Growl tinha lhe dado dinheiro para manter um olho na porta da frente? Eu me afastei da janela e corri para a portas dos fundos, que levava ao jardim. Quando coloquei a mão na maçaneta, pude ver que ela estava aberta. Growl não a trancou. Como o homem era cuidadoso demais para deixar a porta destrancada por acidente, isso era uma armadilha ou ele sabia que eu não poderia escapar, mesmo se tentasse. Os dois cachorros apareceram ao meu lado, me assustando. Mas eles não estavam interessados em mim. Em vez disso, eles saíram correndo para o jardim e começaram a correr atrás do outro. Eu dei um passo para fora e olhei ao redor. A única chance de escapar sobre a cerca alta era usando uma cadeira ou uma mesa para chegar lá em cima. Desde que a cozinha era desprovida de um luxo tal como cadeiras, a mobília do jardim era minha única opção. Mas a mesa não parecia estável o bastante para suportar o meu peso e as cadeiras eram muito baixas para me dar a altura que eu precisava. Quando tentei mover as cadeiras, no entanto, elas não se mexeram. Olhei para o chão e vi que elas eram presas ao piso de concreto. Será que Growl fez isso? Mas quando? Na noite passada, enquanto eu estava dormindo? Deixei escapar uma risada afiada, e afundei em uma das cadeiras. Eu não conseguia parar de rir. Os cachorros pararam a sua brincadeira e ficaram me olhando, obviamente incomodados com a minha risada. Até mesmo eu me assustei com o som. Cada pedaço de mobília, até mesmo um banco pesado, estava preso ao chão. ~ 77 ~


Parei de rir, fiquei em silêncio e fechei os olhos, então lentamente deixei minha cabeça cair para frente até que ela descansou em minhas pernas. Deixei as imagens da noite passada me assaltarem, esperando que as revivendo, elas parassem de me assombrar. Levaria tempo, eu sabia disso. Talvez elas nunca fossem embora. Talia. Mãe. O que elas estavam fazendo agora? Eu não tinha como encontrar elas, não tinha como lhes dizer que eu estava bem e que era para elas serem fortes. Talvez isso fosse a pior parte, pior até do que ser prisioneira de Growl. Algo fungou no meu pescoço e eu levantei a cabeça para encontrar Coco parada bem ao meu lado, seu hálito quente de cachorro no meu rosto. Primeiro eu fiquei com medo, mas então percebi que a cadela estava tentando me consolar. Não me mexi, com medo de assustá-la. — Obrigada, — eu sussurrei, embora me sentisse boba por falar com um cachorro. Coco trotou até onde Bandit estava cavando em um ponto perto da cerca. Me levantei da cadeira e olhei ao redor mais uma vez, então cheguei mais perto da cerca para dar outra conferira, mas com o arame farpado no topo, não havia como eu pular. E o que eu faria se conseguisse escapar? Para onde eu iria? Eu não tinha dinheiro, identidade e nem celular. Nada. Eu não tinha nada. E não havia ninguém para quem eu pudesse correr. Os pais do meu pai morreram quando eu era pequena, e ele não tinha irmãos. Já a mãe nunca falou da sua família. Eu supus que ela fugiu para casar com meu pai. Trish e Anastasia também estavam fora de cogitação. Os pais delas eram leias a Falcone. No momento em que eles me vissem, eu seria entregue para Growl. Eu estava completamente sozinha até encontrar minha mãe e minha irmã, e não havia como fazer isso sem a ajuda de Growl. Eu não tinha escolha, além de achar um jeito de trazer Growl para o meu lado. O casal começou a gritar um com o outro novamente. Esse lugar era tão deprimente. Eu não conseguia entender como alguém viveria aqui por opção. Mas a maioria das pessoas provavelmente não tinha opção. Voltei para a casa antes que meu mau-humor piorasse ainda mais. Os cachorros ainda estavam ocupados perto da cerca. — Bandit, Coco, venham aqui! — eu chamei, e surpreendentemente os dois obedeceram ao meu comando sem hesitar e correram para dentro de casa. Eu fechei a porta e tomando uma respiração profunda, me virei para encarar a casa. Ela era sombria e ~ 78 ~


quase um inimigo por si só. Sem decorações, sem móveis aconchegantes. Esse lugar estava equipado apenas para as necessidades mais básicas. Dei uma olhada na geladeira, mas além de uma dúzia de ovos e algumas latas de Coca, estava tudo vazio. Considerei preparar uma omelete, embora eu só tivesse feito isso uma vez antes. Não estava com tanta fome assim, de qualquer forma. Voltei para a sala de estar e afundei no sofá. Uma mola escavou na minha bunda e a coisa velha protestou sob o meu peso. Eu nunca tive que assistir TV o dia todo. Eu sempre estava ocupada com a faculdade, meus amigos e meus hobbies. Me inclinei para trás lentamente. Os únicos outros itens na sala eram a TV, o aparador da TV, que parecia como se Growl o tivesse encontrado na rua, e uma pequena mesa. Não havia armários, fotos ou qualquer outra coisa. Growl não podia passar muito tempo aqui. Precisava achar um jeito de dar o fora daqui o mais rápido possível. Peguei o controle remoto da mesa e liguei a TV. Passei através de muitos canais, mas não havia nada ligeiramente interessante. Larguei o controle, deixando um canal da natureza como som de fundo enquanto saí para descobrir os outros cômodos, mas eu já tinha visto todos, na verdade. Havia um banheiro, o meu quarto e o de Growl. Ele não havia trancado a porta, apesar das armas decorando as suas paredes. Não havia sequer um livro na casa. E eu também não vi um computador em lugar nenhum. Frustrada, eu me sentei novamente no sofá e, sem mais nada para fazer, eventualmente acabei adormecendo outra vez. O som da tranca sendo aberta me acordou e eu me sentei. Arrepios cobriam minha pele. O ar-condicionado estava gelado demais. Procurei na sala por um relógio, mas até isso estava faltando. Ainda tinha luz lá fora, então eu pelo menos sabia que não era noite. Os cachorros começaram a latir alegremente e então ouvi os passos de Growl. Ele apareceu na porta, estudando a sala rapidamente antes de olhar para mim. — Está tudo bem? — ele perguntou desconfiado. — Não, — eu disse. Que pergunta idiota.

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Growl estendeu uma caixa de leite. — Para o seu café. Meus lábios se partiram. — Hm, obrigada? Nós nos encaramos. Ele parecia inseguro quanto eu sobre essa situação. Comecei a esfregar meus braços para aquecê-los. — Frio? Eu assenti. Ele se foi e então o ar-condicionado parou de soprar ar frio na sala. Por que ele estava sendo assim? Eu tinha minhas suspeitas sobre os seus motivos. — Alguma novidade? — eu perguntei quando ele voltou. Sua expressão se apertou. Então ele se virou e andou pelo corredor na direção da cozinha. Eu saltei do sofá e corri atrás dele. Ele estava parado em frente à geladeira aberta. — Você não comeu nada. Ele era surdo? — Não estou com fome, — isso era mentira. — E sobre a minha pergunta? Você se encontrou com Falcone, ele disse algo sobre a minha mãe e a minha irmã? — Você precisa comer, — Growl disse. — Morrer de fome não vai mudar nada. — Eu não me importo! Responda a minha pergunta, droga! Bandit rosnou baixo, mas Growl o silenciou com um movimento de mão. Eu endureci. — E você diz que ele não é perigoso, hm? — O que você espera quando você está gritando com o dono dele? — Vamos lá, não é como se eu fosse um perigo para você, — eu disse, zombando. Ele olhou para o seu braço enfaixado, então deu de ombros. — Você não é um perigo para mim, mas está sendo desrespeitosa. — Você não merece o meu respeito. Growl fechou a geladeira, inclinando a cabeça para me observar. Novamente eu podia sentir que ele não sabia o que fazer comigo. — Vou pedir uma pizza. Eu nem almocei. Que sabor de pizza você quer? Cruzei os braços e me inclinei contra a moldura da porta. — Eu não vou comer nada até que você responda a minha pergunta. — E eu não vou responder até que você coma alguma coisa.

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— Isso quer dizer que você sabe mais? — Eu sei, — ele disse simplesmente.

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Capítulo onze CARA Meus dedos tremiam ante a perspectiva de notícias sobre minha mãe e minha irmã. — Está bem. Vou comer a pizza. Apenas me diga o que você sabe. — Que tipo? Soltei um suspiro de exasperação, mas não poderia surtar de novo, ou ele poderia decidir não me dizer nada. — Atum e cebola, suponho. Growl pegou o telefone e pediu a pizza para seis. Isso iria demorar mais de uma hora. Ele deve ter visto o desânimo em minha expressão porque ele disse: — Coco e Bandit precisam caminhar. Se você vir, eu te direi tudo o que sei. Eu balancei a cabeça ansiosamente e como o único par de sapatos que Growl trazia na minha mochila eram meus sapatos de corrida, eu estava perfeitamente equipada. No momento em que saímos, eu percebi o quão presa eu me senti dentro daquela casa. Growl não se incomodou em colocar seus cachorros em uma coleira. Eles começaram a cheirar os arbustos locais enquanto Growl e eu andávamos lado a lado. Era estranho. Eu tinha estado com ele por quase vinte e quatro horas e até agora ele tinha sido muito mais decente comigo do que eu esperava. Mas eu tinha um sentimento que tinha mais a ver com o fato de eu o confundi do que com misericórdia ou piedade. — Então? — Eu comecei, quando ficou óbvio que Growl gostava da calma da caminhada. — Falcone parece estar contente com a punição que ele infligiu a sua família até agora. Com seu pai morto e você comigo, ele não vê nenhuma necessidade de punir sua mãe e irmã no momento.

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— Então minha mãe e minha irmã estão bem? — Eu perguntei aliviada. — Por enquanto — disse Growl com naturalidade. — Onde elas estão? — Sua mãe está em sua casa velha. Ainda não sei onde está sua irmã. — O que você quer dizer, você não sabe? O que aconteceu com ela? Como você pode ter certeza que Falcone não vai machucá-la se você não sabe qualquer detalhe? E se ele a entregar a alguém como presente? Como ele fez comigo, eu adicionei em minha mente. Queria estar lá para protegê-la. Era meu trabalho fazer isso. — Falcone não tem recebido muita informação hoje. Depois da traição de seu pai ele é ainda mais cauteloso. Mas ele tem algum tipo de plano e parece exigir que sua irmã e sua mãe estejam bem. — Mas— Não, — disse Growl com firmeza. — É o bastante. Eu te disse o que eu sei. — Suas sobrancelhas se juntaram e ele balançou a cabeça, mais para si mesmo do que dirigido a mim. Eu ainda me maravilhei com o quão alto ele era, erguendo uma cabeça sobre mim. Meus olhos traçaram seus braços musculosos, cobertos de tatuagem até que eu pude ver. Especialmente o crânio e a cobra travando seus dentes me davam arrepios. Perguntei-me quanto mais seu corpo estava coberto assim. — Devemos voltar ou perderemos a pizza — disse Growl. Meus olhos se ergueram para seu rosto. Há quanto tempo eu estava olhando para ele mesmo? Sua mandíbula estava apertada, seus olhos cheios de um fogo que me deixou nervosa. Eu rapidamente andei adiante e ele caiu em passo ao meu lado pouco depois. Não conversamos mais.

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GROWL Growl cambaleou para o pátio em direção à sua área de fitness. Ele precisava deixar escapar algum vapor e ele precisava treinar de qualquer maneira. Algo estava mal com ele. Ele tinha Cara em sua casa. Ele tinha permissão para fazer com ela o que quisesse, e o que ele tinha feito até agora? Nada. Algo sobre ela o deixava incapaz de apenas agarrá-la e fazer o que quiser com ela. Ele nunca forçou uma mulher a dormir com ele. Talvez fosse isso. Ele gostava quando elas lutavam contra ele, quando elas mordiam e arranhavam e às vezes até gritavam, mas não porque não queriam, mas porque sim. Ele não tinha problemas em machucar as pessoas, machucar mulheres, mas isso era diferente. Esse era seu trabalho. E ele gostava. Não havia como negar. Mas o sexo era outra coisa. Ele não queria forçar uma mulher. Queria que a mulher o desejasse. É claro que muitas das prostitutas que ele teve no passado provavelmente também não o queriam, mas fizeram isso por escolha, porque queriam o dinheiro. Ele poderia viver com isso. E Lola, ela definitivamente gostava dele mais do que os outros. Ele suspirou e pôs mais peso na barra. Com um grunhido, ele a pressionou. O pior foi o modo como ele pegou Cara olhando para ele hoje. Ela gostava de ver seus músculos. Ele tinha certeza de que ela estava atraída por ele em algum nível básico. Ela também o odiava, e isso era mais forte do que qualquer desejo que ela pudesse ou não sentir por ele. Porra, ele a queria. A porta rangeu e Cara saiu para a varanda. Quando ela percebeu que ele fazia seu treino, seus olhos se arregalaram um pouco, então eles percorreram o comprimento dele antes dela olhar para outro lugar. Growl gemeu por dentro. Ele não gostava de jogos. Ou analisar as sutilezas do comportamento de uma mulher. Isso estava lhe dando uma fodida dor de cabeça. O olhar dela se fixou na mesa da varanda. — Você prendeu ao chão, então eu não poderia usá-la para pular a cerca?

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Como ela inventou esse tipo de lógica? — Não, — ele disse, baixando a barra no suporte. — Eu não sabia que você moraria comigo. Você queria usá-la para pular a cerca? — Ele suspeitava que ela pudesse tentar escapar. Ele também sabia que ela não conseguiria. — Por que não há mesas ou cadeiras na sua cozinha? — Ela perguntou. — E por que não há livros? Porque, porque, porque. Por que ela sempre tinha que fazer perguntas? Growl se levantou do banco e esticou os braços. Mais uma vez. Aquele olhar. Porra. Ele cruzou a distância entre eles e a apertou contra a parede. Seu grito de surpresa foi silenciado pela boca dele. Ele mergulhou sua língua na boca dela, saboreando o gosto doce dela. E ela se apertou contra ele. Porra. Ela estava atraída por ele. Ele sabia disso. Ele a beijou com mais força e passou a mão por baixo da saia, pressionando a palma da mão contra a virilha. Mesmo através da sua calcinha e suas calças ele podia sentir o calor irradiando da buceta dela. Ele pressionou um dedo entre suas dobras, esfregando-a através do tecido. E ela gemeu em sua boca. Sua umidade estava começando a embeber suas calças, e o pau de Growl ganhou vida. Porra. Ele queria tomá-la bem ali na varanda até ela gritar seu nome. As palmas dela começaram a empurrar contra seu peito e ela rasgou sua boca para longe dos lábios dele. — Pare com isso! — Ela ofegou, então mais firme. — Pare com isso! — Ela o empurrou com força, e ele cedeu, dando um passo para trás e soltando a mão de sua buceta. Os olhos dela estavam atordoados. Ela olhou para o pau que se esticava contra as calças, depois para as casas vizinhas, e enrubesceu um tom ainda mais escuro de vermelho. Ela se virou e tropeçou para dentro da casa. Growl a deixou, mesmo que fosse uma das coisas mais difíceis que já fizera. Ele olhou para sua protuberância. O corpo de Cara respondeu, só que a porra da sua mente ainda estava bagunçando as coisas. Growl sabia agora que ela estava molhada para ele, não havia como ser capaz de manter as mãos para si mesmo. Ele queria prová-la, queria fazer o corpo dela anular sua mente.

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CARA Eu não parei de correr até eu ter fechado a porta do meu quarto atrás de mim. O que eu tinha feito? O que eu deixei Growl fazer? Deus. Meu coração estava pulsando descontroladamente em meu peito. Eu podia sentir o baque, até a batida entre minhas pernas. Cobri os olhos com a mão e respirei profundamente. Eu nunca senti isso antes. Mas, movida pelos instintos, minha mente estava em silêncio. Eu queria sentir seus dedos tão desesperadamente, mesmo através do tecido que o toque tinha me inflamado. Por que meu corpo fez isso comigo? Eu odiava Growl e ainda assim meu corpo respondeu a ele. Ele não era muito bonito. Ele era nervoso, sombrio e marcado. E meu corpo o queria por causa disso. Estremeci, soltei a mão e cambaleei até minha cama, onde me deixei cair. Estar perto de Growl me fazia querer me deixar cair também. Parte de mim queria voltar para o quintal e deixar Growl terminar o que ele tinha começado. Eu poderia me arrepender das minhas ações mais tarde, talvez até pudesse me convencer a culpar Growl por tudo. Talvez fosse algum tipo de síndrome de Estocolmo? Isso funcionava também para a atração sexual? Eu engasguei um riso. Eu estava perdendo a cabeça. A pulsação entre as minhas pernas ainda não tinha parado. Se possível, ficara ainda pior. Coloquei minha mão na minha barriga, depois parei. Isso não estava certo. Mesmo fantasiar sobre alguém como Growl estava errado, e tocar-me ao fazer isso? Certamente o pecado. Minha mãe nunca me perdoaria. Enrolei minha mão em um punho no meu estômago. Eu seria forte. Eu não deixaria meu corpo ditar minhas ações. Eu era melhor do que isso.

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As próximas duas manhãs eu não queria enfrentar Growl e esperei até ouvi-lo sair da casa para sair do meu quarto. Eu não

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conseguiria me esconder para sempre, mas meu embaraço ainda estava muito fresco. Pelo menos, ele não procurou a minha companhia. Como de costume eu primeiro chequei todas as portas e janelas para encontrar elas trancadas. Os cachorros jaziam em suas camas, sacudindo as caudas sem se importar quando passei por eles. Pensei em acariciá-los, mas não ousei sem Growl por perto. O que era meio divertido, considerando que não fazia muito tempo que eu o considerava a coisa mais perigosa da minha vida. E provavelmente ainda era. Fui para o meu lugar habitual no sofá e me assustei com a visão de seis livros ordenadamente empilhados em cima da mesa da sala. Eu não conhecia nenhum dos autores, mas era uma mistura de romances e thrillers. Abaixei-me para o sofá, atordoada pela consideração de Growl. Eu estava mais confusa do que nunca. Por que ele estava me tratando com respeito? Peguei o livro no topo e comecei a ler, tentando mergulhar em outro mundo e silenciar meus pensamentos.

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Quando ele voltou à noite, ele trouxe pizza novamente e a colocou na mesa da sala ao lado dos meus novos livros. Meu rosto queimou de vergonha quando seu olhar finalmente se fixou em mim. Ele parecia completamente não afetado, porém, pelo meu óbvio constrangimento em relação ao nosso último encontro. — Obrigada pelos livros — eu disse. Ele acenou com a cabeça e se acomodou no sofá. Abriu a caixa de pizza e pegou um pedaço. O perfume picante passou por mim e me lembrou que eu não tinha comido desde a manhã. Growl tinha abastecido a cozinha com algumas coisas desde que eu tinha mudado. — Você descobriu algo mais sobre minha irmã? — Eu perguntei. Algumas vezes eu me pegava olhando para seus dedos longos e lembrava como era tê-los em meu corpo. Eu precisava parar com essa loucura. Concentre-se em outra coisa, eu disse a mim mesma, e finalmente eu resolvi olhar para sua cicatriz. Meus olhos traçaram a linha vermelha irritada ao redor de sua garganta. Era irregular como se tivessem usado uma faca dentada. Como alguém poderia sobreviver a algo assim? Parecia impossível. Eu não podia imaginar como deve ter sentido ter o sangue escorrer de você.

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Eu tremi. Havia tantos rumores sobre como tinha acontecido, e ainda mais sobre como ele tinha sobrevivido. Eu suspeitava que muitos deles eram o pilar sobre o qual a notória reputação de Growl tinha sido fundada. Por que ele estava vivo? Uma ferida assim, uma garganta cortada, quase sempre significava morte. Por que alguém como ele, alguém que não merecia viver, sobreviveu, enquanto outros morreram por menos? Parecia injusto e cruel. Talvez fosse estúpido da minha parte esperar que a vida fosse justa, dar a todos o que mereciam. Eu afastei meu olhar, receosa que ele notaria e ficasse irritado. Mas ele provavelmente estava acostumado a encaradas até agora. Onde quer que ele fosse, as pessoas observavam com temor e horror. Eu duvidava que ele gostava da atenção, tão diferente de seu chefe. Eu tinha visto o orgulho e o prazer no rosto de Falcone sempre que as pessoas fugiam de seu assassino mais temido. — Coma, — grunhiu Growl. Eu pulei e novamente meus olhos encontraram sua garganta. Esta foi a minha chance de obter respostas, descobrir se havia um pouco de verdade nos rumores que minhas amigas e eu tínhamos sussurrado umas para as outras em voz baixa. Minha chance de descobrir o homem na minha frente, e como influenciá-lo. No entanto, eu não tinha certeza se eu queria saber mais sobre ele. As pessoas temem o que não conhecem, essa era uma citação que eu sabia que era verdade, mas eu tinha um sentimento de que não saber era uma bênção quando se tratava do homem na minha frente. Com cada camada que eu descascava, mais horrores estariam expostos. — Pergunte ou pare de olhar — disse ele. Ele não parecia zangado. Eu brilhei. Eu queria perguntar e ao mesmo tempo não. Não quando ele quase me ordenou, mas minha curiosidade venceu. — O que aconteceu com você? Growl empurrou outro pedaço de pizza em sua boca e mastigou lentamente. Ele engoliu em seco, depois olhou para mim. — Alguém me queria morto, cortou minha garganta — ele respondeu, os olhos vazios. — Mas eu sobrevivi. Eu o encarei. Essa não foi uma resposta, pelo menos não uma que me permitiu descobrir mais sobre Growl. Era genérica e sem emoção, mas me mostrou algo. Que eu tinha encontrado um tópico que Growl estava desconfortável.

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Ele balançou a cabeça em direção à minha pizza intocada. — Ou você come ou eu vou dar para os cães. Eu estava com muita fome para dar a pizza para os cães e então comecei a comer. Depois, Growl saiu novamente para trabalhar, e eu decidi me esconder no meu quarto. Eu não queria arriscar algo como da última vez. Mas eu não conseguia me conter por muito tempo e olhei pela janela para o quintal. Growl estava coberto de suor quando ele empurrou dois gigantescos pesos sobre sua cabeça, o rosto retorcido com tensão. Deixei escapar um suspiro e rapidamente me deitei na cama. Se eu o observasse por um momento, eu só queria me tocar novamente.

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Capítulo doze GROWL Growl sabia que ela estava olhando para ele de seu quarto. Ele a vira pela janela. Isso estava consumindo seu controle. Não conseguia mais pensar em nada além de seu corpo. Growl voltou para a casa depois de uma hora de treino intenso, mas ele ainda não sentia que isso o tinha acalmado. Foi até o banheiro e pegou uma toalha para limpar o suor. Um som chamou sua atenção. Aproximou-se do quarto de Cara. O barulho estava vindo de dentro. Parecia que ela estava gemendo. Growl baixou a toalha lentamente, sua virilha apertando. Ele se aproximou e colocou sua orelha na porta. Mais uma vez, ouviu um gemido, baixo e prolongado. Rosnando fechou os olhos. Ela estava se tocando por causa dele. Ele não tinha dúvidas sobre isso. Porra. Podia sentir-se endurecendo com a mera ideia do que estava acontecendo atrás daquela porta fechada. Por que ele ainda estava parado aqui? Ele agarrou a maçaneta e abriu a porta. Ele se certificou de ser o mais silencioso possível. Ele não queria que ela o notasse imediatamente. Ele olhou para dentro, e não podia acreditar em seus olhos. Ela nem estava acordada. Seus olhos estavam fechados e sua respiração muito baixa. Ele entrou e viu uma de suas mãos mover-se entre suas pernas. Seus lábios estavam ligeiramente separados e outro gemido escorregou para fora. Growl deixou cair a toalha e aproximou-se da cama. Porra, ele não era um bom homem, e ela estava fazendo isso difícil para ele. Ele podia praticamente cheirar sua excitação, ou sua mente já estava começando a enganá-lo. Growl empoleirou na cama, com cuidado para não acordá-la. Mas ele não precisava se preocupar. Ela estava perdida em seu sonho. Ela se

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contorceu, então abriu as pernas sob o cobertor. Growl sufocou um gemido ao ver. Ele pegou a borda do cobertor e lentamente puxou até os joelhos. Ela estava usando uma camisola que tinha subido até seus quadris, deixando sua vagina nua para ele. Ele respirou fundo enquanto observava um de seus dedos delgados deslizar lentamente sobre seus lábios inferiores. Foi a primeira vez que ele viu sua vagina. Ela não estava bem barbeada como a puta que ele tinha no passado. Ela estava aparada, mas os cabelos castanhos macios cobriam sua montanha. Seu pau estava tão duro, Growl ficou surpreso por não ter explodido ainda. Talvez esta fosse a primeira vez que Growl viesse em suas calças. Ela choramingou novamente, necessitada, mas seu próprio toque não parecia levá-la mais longe. Growl podia dizer que seu toque não era praticado. Droga. Ele estava cansado de resistir quando era tão óbvio que ela o queria tanto quanto ele a queria. Ele se inclinou sobre ela, deixando que seu cheiro inundasse seu nariz. Ele deu uma longa lambida sobre seus lábios inchados, e seu gosto era tão doce, isso o deixou louco. Ela estremeceu e gemeu alto. Growl não aguentou mais. Afastou a mão dela e deslizou a língua entre os lábios. Ele lambeu seu buraco apertado e lentamente viajou até a pequena protuberância no topo. Ela gemeu e depois ficou tensa. Ela estava acordada, mas Growl estava decidido a não deixar que sua mente tirasse o melhor dela. Ele puxou o clitóris em sua boca, e sugou em um ritmo suave. Ela inalou bruscamente. A tensão em seu corpo permaneceu, mas ela não o afastou nem disse nada. Ela estava em conflito, ele podia dizer. Growl usou todas as suas habilidades para convencê-la. Ele deixou seu clitóris escorregar lentamente para fora de seus lábios e começou a desenhar círculos suaves antes de lamber seu caminho de volta para o seu canal estreito novamente. — Nós não podemos fazer isso, — ela disse trêmula, mas não havia quase nenhuma convicção em sua voz, e isso era tudo o que ele precisava. Ele a lambeu mais forte, mergulhou sua língua dentro dela, então sugou seu clitóris novamente. Ela gritou, e assim já gozou, inundando sua boca com sua doçura. Ele não parou. Esta tinha sido apenas a primeira batalha. Ele continuou lambendo, depois a fodeu com a língua novamente. Ele não lhe deu tempo para se recuperar. Ele deslizou um dedo nela. Ela estava tão molhada, que não foi encontrado quase nenhuma resistência.

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Seu pau estava quase cru de esfregar contra suas calças, mas ele precisava de mais tempo para ela. Ele precisava prepará-la para o que estava por vir. Dessa vez ele não iria parar.

CARA Eu mal podia respirar. Meu corpo estava queimando, meu pulso acelerado. Tudo parecia tão incrivelmente intenso. Growl estava praticamente enterrado no meu colo, lambendo e beijando e chupando. Eu estava tão perto do meu segundo orgasmo. Sua mão serpenteou sob minha camisola até meu peito. Seus dedos fecharam em torno do meu mamilo e torceu, e assim outra onda caiu sobre mim, ainda mais difícil do que antes. O que estava acontecendo? Eu não conseguia entender um pensamento claro. Eu mal notei ele sair de suas roupas e só percebi o que iria acontecer quando ele se agachou sobre mim. Eu não estava pronta para isso, nunca estaria. Eu precisava detê-lo, precisava acabar com isso antes que fosse tarde demais. Ele subiu entre minhas pernas, separando-as. Seus olhos seguraram os meus. Eu não conseguia me mover, não podia dizer ou fazer nada. Eu temi esse momento desde quando Falcone me dera para Growl e agora estava acontecendo, mas tão diferente de como eu tinha imaginado. E então ele começou a empurrar, e eu me agarrei a ele com força, meus dedos escavando a pele cheia de tatuagens de seus braços. Ele estava me despedaçando. Ele não hesitou, não parou. Mas ele observou meu rosto. Deixando-me nua de tantas maneiras com seu olhar. Não era suficiente que eu estivesse deitada nua sob ele? Ele tinha que tirar as alas sobre a minha alma, ele tinha que me fazer sentir ainda mais vulnerável do que eu já tinha? Eu engasguei. Isso machucava. De muitas maneiras. Era assim que perder-se a si próprio parecia? Meu corpo rendeu, e ainda assim eu estava me despedaçando. Não fisicamente, embora eu desejasse que meu tumulto interior se manifestasse de forma física. A dor não era suficiente. Não esta dor, não quando se misturava com sugestões de prazer. Eu queria abaixar minhas pálpebras, queria esconder o mundo ao redor e o homem acima ~ 92 ~


de mim, mas eu mantive meus olhos abertos, continuava olhando para aquele rosto impressionante do meu captor, meu dono, e agora amante. O ódio deveria estar na vanguarda da minha mente, mas não estava. Ainda estava lá, ainda forte, mas estava lutando com outras emoções. Emoções que eu não queria sentir. Compaixão e compreensão. Agradecimento por sua quase bondade e até mesmo sugestões de piedade. Com cada impulso, Growl parecia arrancar um pedaço de mim. Eu não estava apenas perdendo minha inocência, eu parecia estar perdendo partes de mim, do que me tinha feito. Então pare-o. Faça isso, enquanto ainda reste algo de você. Minhas unhas enterraram mais profundamente nos braços de Growl e ele grunhiu, os olhos brilhando de prazer. Ele estava gostando. E, por sua vez, meu próprio corpo zumbiu de prazer. Ele nunca desacelerou, nunca desviou os olhos de mim. Seu peito musculoso reluzia de suor. A dor deu lugar a algo mais quente, algo que emocionou meu corpo mais do que qualquer picada poderia. Eu levantei meus dedos até os ombros de Growl, arranhando, deixando um caminho vermelho no meu caminho, e saboreando nele, e nas gotas de sangue que pontilhavam o ponto onde eu me agarrei a ele. Growl começou a tremer e soltou um gemido antes de cair no colchão ao meu lado. Lâminas vermelhas em forma de meia-lua espalhavam sobre seus braços, prova do que tinha acontecido. Não prova de luta, de resistência, de briga. Não prova do que deveria ter sido. Eu não conseguia tirar consolo dessas marcas. Elas não eram sinais de minha falta de vontade, de uma luta corajosa contra a tomada de Growl de mim. Não, eu o deixei me conquistar, até mesmo o tinha saboreado. O que estava errado comigo? Como eu pude deixar isso acontecer? Eu só podia imaginar o que Trish e Anastasia diriam se me vissem agora. Eles ficariam chocados e revoltados, e eles falariam sobre isso por dias. Mas isso não importava, não mais. Mas Mãe e Talia sim. E elas me julgariam tão bem se soubessem. Como não poderiam? Como poderia alguém não me condenar por o que eu tinha permitido que Growl fizesse? Era assim que perder-se a si próprio parecia? — Essa pergunta ainda assombrava em torno do meu cérebro, mas agora uma outra pergunta tinha sido adicionada à mistura, uma pergunta que me assustava ainda mais. — Como você pode perder-se a si mesma se você ~ 93 ~


nunca teve a chance de se encontrar? — Eu empurrei o pensamento para longe, banindo a miríade de pensamentos aglomerando-se no cérebro. Eu não poderia levá-los mais. Growl estava ofegante ao meu lado. Seu rosto parecia relaxado, em branco, mais do que nunca, como se através do ato carnal de sexo, ele conseguira se libertar, conseguisse banir qualquer demônio que o assombrasse. Esta não seria a última vez. E eu não fiquei horrorizada com a ideia. Apesar do estado dolorido e até da dor que latejava entre minhas pernas, eu queria de novo. Eu admiti para mim mesma esse momento de realização. O dano já foi feito. Eu não tinha mais nada a perder. Growl sentou-se e balançou as pernas sobre a borda da cama. Eu me empurrei em uma posição sentada também. Ele já estava saindo depois do que acabamos de fazer? Growl olhou para mim por cima do ombro, e agora seu olhar em minha pele nua não fazia meu corpo zumbir de prazer e triunfo. Eu segurei os cobertores sobre meu peito, agarrando-se ao tecido rápido como eu tinha agarrado os braços fortes de Growl poucos minutos antes. Eu não dei voz às minhas perguntas, não queria soar desesperada e necessitada, especialmente quando ele era a última pessoa que eu deveria precisar. Por um momento nós dois parecíamos estar congelados, mas então eu desviei meus olhos sob o poder da minha própria vergonha e Growl levantou-se. Do canto do olho, eu o vi reunir suas roupas do chão, mas ele não se incomodou em se vestir. Em vez disso, ele saiu e começou a fechar a porta, mas parou. — Há algo para a dor no banheiro. — Ele parou e eu esperei por ele dizer algo mais, mas então ele apenas fechou a porta. Esperei que seus passos desaparecessem antes de me libertar dos cobertores e rapidamente saí da cama. Eu não podia suportar estar nela agora. Estava úmido com nosso suor, e cheirava a sexo. Olhei para o branco dos lençóis. Ao ver o pequeno ponto rosa, soltei um suspiro trêmulo. A traição veio em tantas maneiras e formas. Às vezes era um ato proposital, e às vezes era algo que você deixava acontecer.

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GROWL Ele tomou vários goles longos de água gelada. Até agora seu corpo parecia ferver de luxúria. Seu orgasmo não tinha diminuído nem um pouco seu desejo por Cara. Não porque o sexo não tinha sido satisfatório, embora isso fosse verdade também. Ele tinha tido orgasmos mais fortes, tinha tido sexo melhor, mas o que tinha acontecido entre ele e Cara tinha sido a coisa mais intensa que ele já tinha experimentado. Não fazia sentido. Ela não era alguém que pudesse saciar sua fome, e ela não era alguém que ele normalmente escolhia para seu desejo, e mesmo assim neste segundo de merda ele não podia imaginar estar com outra mulher. Ele queria Cara, queria ver se conseguiria tirá-la de sua concha, torná-la mais adiante e exigente. Ele queria liberta-la de sua fome. Ela tentou esconder isso, mas naquela noite ele tinha visto e ele queria mais. Antes de Cara, ele estava satisfeito com o que tinha, com as cartas que recebera, mas ela o fez querer mais e isso não era exatamente seguro em seu mundo. O que ela estava fazendo com ele? A porta de Cara se abriu e fechou. Silenciosamente. Ela não queria que ele ouvisse tantas vezes quando ela se arrastou pela casa. Mas se sua vida lhe tivesse ensinado alguma coisa, era vigilância. Não havia um som que passasse por sua audição. Seus passos eram cuidadosos e depois pararam e outra porta se abriu e fechou. Growl tomou outro gole de água e estava prestes a colocá-lo de volta na geladeira e ir para a cama, mas então o chuveiro saltou para a vida. Ela estava tomando banho. Ele nunca tomou banho logo após o sexo. Ele gostava do cheiro dele, e da sensação pegajosa. Ele gostava de ser lembrado do que ele tinha feito. Mas as mulheres sempre gostam de coisas limpas, pelo menos mulheres como Cara. As putas com as quais ele normalmente lidava, também tomavam banho, é claro, mas isso era por razões práticas. Elas não podiam sair andando fedendo sexo de seu último cliente quando seu próximo aparecesse. Growl ficou tenso. Outro ruído perturbou o movimento monótono de água. Soluços. Afastou-se do balcão da cozinha e entrou no corredor e parou em frente à porta do banheiro. O soluço era um som baixo, destinado a ser afogado pelo chuveiro. Não era para ele. Cara estava chorando.

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Growl estendeu a mão para a maçaneta da porta, seus dedos apertando o metal frio até que seus ossos doeram da pressão. Ele soltou e deu um passo atrás. Por que ela estava chorando? A raiva surgiu através dele, queimando mais quente do que sua luxúria. Ele girou sobre o calcanhar e se afastou do som de suas lágrimas e não parou até que ele estava lá fora na varanda. Ambos os cães o seguiram e agora o observavam com olhos curiosos. Growl enrolou as mãos nos punhos e olhou para o céu noturno. Ele nunca encontrara a visão calmante ou mesmo inspiradora. Para Growl sempre tinha sido muito vasto, muito incerto. Algo que ele não podia controlar ou compreender, nem mesmo começar. Cara, ela, também, era como o céu noturno. Tão linda, não havia dúvida sobre isso. Ele podia controlá-la, pelo menos fisicamente, mas o que se passava por trás daquele rosto perfeito, era que estava completamente fora de seu alcance. Seu cérebro funcionava de maneiras que ele nunca seria capaz de entender. Ele gostava de coisas simples. Descomplicadas. Ela era qualquer coisa menos isso. Compreendendo-a, isso que ele nunca faria. Seus olhos encontraram a porta. Se ele entrasse agora, ela ainda estaria chorando? — Porra — ele rosnou e chutou o chão. Ambos Coco e Bandit saltaram para trás e o observaram cautelosamente. Raiva era algo que ele estava familiarizado, algo que ele mesmo achava consolador. Mas hoje à noite isso não o fazia se sentir melhor. Ele estava com raiva dela, mas ele não podia soltar sua fúria sobre ela. Não, ele podia, mas ele não queria. E isso piorava as coisas. Ela se divertiu sozinha. Ele a vira se divertir. Seu corpo tinha respondido a ele. Ela gemeu, entregou-se ao prazer. E agora ela estava chorando. Ele também estava bravo com ele. Ele não deveria dar uma merda sobre seus sentimentos. Ele tinha ouvido as pessoas chorando antes, ouvido eles implorando e gritando de terror. O que era uma mulher chorando? Nada. Mas isso não diminuiu sua raiva. Ele chutou o chão novamente. Coco se escondeu atrás das cadeiras e Bandit se afastou ainda mais longe dele.

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Ele ficou de joelhos e fez um barulho reconfortante. Seus cachorros nunca tiveram medo dele. Depois de um momento de hesitação, primeiro Coco e, em seguida, Bandit aproximaram-se dele e apertaram-lhe o corpo. Ele os acariciou por um longo tempo e, finalmente, parte do fogo debaixo de sua pele desapareceu. É por isso que ele preferia a companhia de cães. Eles não eram complicados. Eles mostravam o que eles estavam sentindo. Ele se levantou e voltou para a casa. Ele não permitiria que nada ou alguém o expulsasse de sua própria casa. Coco e Bandit o seguiram de perto. Growl fechou a porta do terraço e depois ouviu. O chuveiro não estava mais ligado. Ele esperou mais um momento, mas ficou em silêncio. Nenhum soluço, nada. Coco saiu de seu lado e trotou em direção à porta de Cara, cheirando antes de se sentar. Growl suspirou. Especialmente Coco tinha se afeiçoado a Cara, mas mesmo Bandit, que nunca gostou de ninguém, parecia gostar da presença da mulher. Growl seguiu em direção a Coco e escutou ainda mais de perto, mas o silêncio reinava atrás da porta. Ele agarrou a maçaneta, e antes que ele pudesse parar, empurrou para baixo e abriu a porta. Seus olhos encontraram a cama onde Cara estava encolhida, suas pernas apertadas contra seu peito. Seu rosto estava afastado dele, e se ele fosse honesto consigo mesmo, ele estava agradecido por esse fato. Ele não queria ver seu rosto molhado com lágrimas. Sua respiração era uniforme, e ela não tinha ficado tensa quando a luz se acendeu. Ela estava realmente dormindo. Isso não o fez se sentir melhor. Ele não devia ter sentido nada à vista.

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Capítulo treze CARA Eu considerei ficar no meu quarto, mas então eu decidi que seria estúpido fazer isso. Eu me odiava pelo que acontecera na noite passada, mas talvez eu pudesse usar isso para minha vantagem. Eu queria ficar no lado bom do Growl, então ele iria ajudar a mim e a minha família. Dormir com ele talvez fosse o primeiro passo na direção certa, por mais louco que isso fosse. Quando entrei na cozinha, Growl não estava lá, mas a porta do pátio estava aberta. Eu saí para encontrar Growl sentado em uma das cadeiras olhando para o céu. Seus olhos se voltaram para mim, e minhas bochechas se aqueceram, mas eu lhe devolvi o olhar. Havia um piscar de surpresa em seu rosto quando me aproximei dele. Eu me afundei na cadeira em frente a ele, estremecendo ligeiramente. — Você está bem? — Ele resmungou, as sobrancelhas juntas. Eu balancei a cabeça. — Estou bem, — eu disse. Eu não queria discutir minha dor com Growl. — Há café para você lá dentro — disse Growl. Então ele se levantou e eu pensei que ele queria me evitar, mas ele voltou alguns minutos depois com uma xícara de café. Ele colocou muito leite no café, mas eu estava feliz por sua consideração. Eu tomei um gole, então fiz uma pergunta que estava me incomodando por um tempo. — Qual é o seu verdadeiro nome? Growl foi o nome dado a você depois dessa coisa com suas cordas vocais. — Foi? — perguntou ele calmamente. Eu fiz uma careta. De repente insegura, mas ninguém se chamava Growl ao nascer. — Sim, por causa de como sua voz soa.

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— Growl, — ele repetiu e ouvi-lo dizer o nome, se encaixou ainda melhor. — Qual era o seu nome verdadeiro? — O que isso importa? — Eu só quero saber, — eu disse calmamente. Ele olhou para fora novamente, como se estivesse perdido no passado. — Eu tenho sido chamado de Growl por um longo tempo. Esse outro nome, não importa mais. — Por que você diz isso? É o nome que sua mãe escolheu para você. — Mas o menino que recebeu esse nome não existe mais. Ele foi apagado para sempre. — Então você não se importa que as pessoas te chamem de Growl? Não é frustrante ser reduzido a essa pequena parte de você? — Growl é um nome que assusta as pessoas. É o nome que me encaixa agora. É um nome que tem poder e significado porque eu trabalhei duro. — Mas seu antigo nome não é melhor do que um nome que lembra todos os dias do que aconteceu com você? — Eu queria perguntar a ele sobre os eventos, mas ele já estava tenso e eu tinha a sensação de que ele não estaria aberto a dar mais informações se eu perguntasse a ele agora. — Eu não preciso de um lembrete. Eu nunca vou esquecer. Está aqui — ele apontou para a cicatriz em sua garganta, — E aqui — acrescentou, apontando para sua testa. Só conseguia imaginar que tipo de imagens o assombravam à noite. Talvez por isso ele pudesse lidar com suas próprias ações com tanta facilidade, porque os horrores de seu passado ocultavam qualquer outra coisa.

***

Ele parecia ansioso quando voltou naquela noite. Eu baixei o meu livro. Era o terceiro que eu tinha terminado até agora. Growl ~ 99 ~


imediatamente se juntou a mim na sala de estar, mas ele não se sentou e ficou na porta em vez disso. Sempre cauteloso para não chegar muito perto, exceto quando éramos íntimos. — Tenho notícias — disse ele calmamente. — Falcone tomou algumas bebidas hoje e isso sempre o faz falar. Ele me contou mais sobre sua irmã. Ela está escondida em uma das propriedades dele. — Ele não disse onde? E por que ele a está escondendo? O que ele quer com ela? E se eles a estão machucando? — Eu apertei meus joelhos, a mera ideia da minha irmã estar machucada de alguma forma me rasgou. Growl se aproximou, obviamente incomodado com a minha aflição. — Eu duvido muito. Sua irmã é muito valiosa como alavanca para machucá-la. Isso não quer dizer que Falcone não vai fazer isso se ele ver isso como benéfico para seu objetivo. — Eu não entendo. Que objetivos? O que isso significa? — Falcone precisa controlar a sua mãe. E ele a está ameaçando com o que ela fez com Talia. Dê a ela alguém que a machucaria. Sua mãe não está em um bom estado mental agora. Aparentemente ela se sente culpada por causa do que aconteceu com você e faria qualquer coisa para proteger pelo menos sua irmã quando ela não pode te proteger. — Não é culpa dela. Growl sorriu de forma torcida. Talvez porque falássemos dele como se ele fosse uma maldição, mas para ser honesta, foi exatamente por isso que Falcone me deu a ele, porque todo mundo temia Growl. — O que eu não entendo é como minha mãe poderia ser útil a Falcone de qualquer maneira. Ela nunca esteve envolvida nos negócios do pai. Ela sempre foi apenas uma dona de casa. A única coisa que ela sabe é como organizar um jantar e onde comprar os melhores sapatos. Eu me encolhi com o quão horrível isso parecia, mas era a verdade. Eu não podia ver como Falcone poderia usar qualquer uma dessas coisas. — Sua mãe não precisa saber nada sobre negócios. Seu sangue é o que importa. Eu congelo. — O que você quer dizer?

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Growl procurou meu rosto como se ele não pudesse acreditar que eu não soubesse. — Sua mãe não é de Las Vegas. Ela nasceu em Nova York, mas fugiu com seu pai. Eu suspeitava que a mãe tivesse fugido com o pai. Ela sugeriu algo assim. Mas em Nova York? Pensei nas poucas vezes em que conversei sobre Nova York com minha mãe. Ela sempre evitava o assunto. Eu nunca tinha pensado muito, mas tudo fazia sentido agora. No entanto, ainda não explicava por que isso a tornava um trunfo para Falcone. Olhei para Growl, mais confusa do que nunca. — Sabe quem é Salvatore Vitiello? — perguntou ele, pousando no apoio de braço do sofá. A coisa rangeu sob seu peso. Salvatore Vitiello? Todo mundo conhecia aquele homem. Mesmo as pessoas que não tinham nada a ver com a máfia, sabiam quem ele era. Sua morte tinha estado em todos os jornais. — Claro. Ele era o chefe da Família de Nova York. Mas ele está morto agora. Growl assentiu. — Ele está. E sua mãe é a irmã dele. Meus olhos se arregalaram de surpresa. — Minha mãe está ligada ao chefe da Família de Nova York? — Está. Suponho que ela e seu irmão nunca se deram muito bem, essa foi outra razão pela qual ela deixou Nova York. — Ok, mas por que Falcone se importaria se minha mãe fosse parente de Salvatore Vitiello? — Porque isso significa que ela é a tia do atual chefe da Família, e isso a torna a pessoa perfeita para fazer contato com eles. — Eu pensei que Las Vegas não queria nada com Nova York. Eles se odeiam. Foi o que meu pai sempre disse. — Isso é verdade — concordou Growl. — Falcone quer a Família morta, e a Chicago Outfit também. Mas seu poder está diminuindo. Os russos ficaram muito fortes em Las Vegas. E agora que Chicago e Nova York estão trabalhando juntos, Falcone teme que os russos perderão o interesse nessas cidades e vão concentrar toda a sua energia em assumir o controle sobre Las Vegas. Se Falcone quiser manter sua cidade, ele precisa do apoio das outras famílias. E isso não será fácil. Ele fez muitos inimigos ao longo dos anos.

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Eu bufei. — Eu não estou surpresa. Ele é um bastardo sádico, e nunca se importava em trabalhar com ninguém. Por que os Vitiellos deveriam considerar ajudar a Camorra? — Por causa de sua mãe. Ao que parece, Luca Vitiello é muito voltado a família. Ou pelo menos desde que se casou com Aria. Se sua mãe, como sua tia, entrar em contato com ele e pedir ajuda, as chances de Falcone são muito melhores do que sem ela. — Por que Falcone não pediu a minha mãe antes? Porque agora? — Falcone tem tentado resolver as coisas por conta própria, como sempre fez, mas agora que até seu pai o traiu com a ajuda da Bravta, até mesmo Falcone percebeu que precisa fazer alguma coisa logo ou Las Vegas está perdida. — Eu digo que os Bratva tomem a cidade. Eles não podem ser pior do que os Falcone. A cidade ficará melhor sem o bastardo. — Talvez — disse Growl encolhendo os ombros. — Mas essa é a sua resposta. E enquanto Falcone espera o apoio de Nova York e enquanto sua mãe fizer como ele diz, sua irmã e ela estarão seguras. — Mas e se Nova York se recusasse a ajudar Falcone? — Então Falcone provavelmente ameaçará matar sua mãe e sua irmã. Isso poderia fazer Luca Vitiello mudar de ideia. Embora eu duvide que arrisque Nova York por uma tia que ele não conhecia, apenas porque Falcone ameaça matá-la. Luca tem quase tanto sangue em suas mãos como eu. Ele pode tomar decisões difíceis. — Mas se isso acontecer, minha mãe e minha irmã morrerão! — É uma possibilidade. — E mesmo se Luca concordar em ajudar, Falcone manterá minha mãe como prisioneira e minha irmã como alavanca. Elas não estarão melhor do que eu. O rosto de Growl apertou, mas ele concordou com a cabeça. — A única chance delas é escapar de Las Vegas. Se elas forem para Nova York, Luca provavelmente aceitar em protegê-las. A esposa dele vai certamente convencê-lo. Nova York. Essa era a solução para tudo. — Quando posso ver minha mãe? Quero falar com ela para ter certeza de que ela está bem. ~ 102 ~


Growl ergueu as sobrancelhas. — Você acha que eu menti para você? Ela está bem, considerando tudo, acredite em mim. — Sim, — eu disse. — Mas eu preciso vê-la. Por favor. Growl suspirou. — Não é tão fácil. Falcone mantém um olhar atento sobre ela. Ele não ficará feliz com isso. — Tem que haver um jeito, — eu disse implorando. Growl suspirou. — Eu nem mesmo sei por que eu estou dizendo tudo isso. Isso poderia ser traição. Estou trabalhando para Falcone. — Ou talvez ele achou que você me diria e ele espera que isso me faça ficar fácil de ser controlada. Ele não pode acreditar que você não mencionará nada a mim, — eu disse. Ele parecia duvidoso. Ele estava escorregando novamente. Eu não sabia como ligá-lo a mim. A única vez que baixou a guarda foi quando tínhamos feito sexo. Eu me aproximei um pouco mais perto dele, mas eu nunca tive que usar meu corpo para conseguir o que eu queria. Eu poderia dizer que Growl não tinha parado de admirar meu corpo desde o momento em que ele entrou. Ele ainda me queria, então na noite passada não tinha sido suficiente. Se eu soubesse como seduzi-lo. Eu não tinha certeza do que fazer. Meu corpo definitivamente já estava imaginando como seria sentir seu toque novamente. Eu tentei não deixar os pensamentos do que era certo ou errado arruinar isso para mim. Mas sempre me ensinaram a agir como uma moça. Seduzir alguém não era algo que minha mãe teria tolerado. Eu vacilei, meus olhos rastreando os músculos de Growl visíveis através de sua camiseta fina e suas coxas fortes. Minha barriga encheu de calor pela visão. Eu já tinha dormido com ele. Isso era fácil agora, eu tentei me dizer. Growl deve ter visto algo na minha expressão, porque ele soltou um gemido baixo e me puxou para ele, alegando a minha boca para um beijo. Quando ele se afastou, ele murmurou: — Você sabe o que está fazendo?

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Capítulo catorze CARA Eu sabia que estava fazendo? Deus, não, eu não sabia. A única coisa de que eu tinha certeza era o que meu corpo o queria, o desejava desde o primeiro momento em que nos vimos, e agora eu podia justificar meu desejo com outra coisa. Ele era minha única chance de conseguir o que eu queria e se isso exigisse usar meu corpo para obtêlo, eu estava disposta a fazê-lo. Ele me beijou novamente, mais forte desta vez e começou a rasgar a minha camisa. Eu queria protestar, mas antes que eu pudesse, ele já tinha rasgado, me deixando só de sutiã. E então isso também se foi e ele chupou meu mamilo em sua boca. Eu gritei de surpresa e luxúria, e mal tive tempo de recuperar o fôlego quando Growl cambaleou em seus pés. Fiquei confusa. Ele estava indo embora? Eu tinha feito algo errado? Eu pensei que ele me queria mais do que eu o queria. Olhei para ele, sentindo uma vergonha tomar conta de mim, mas então eu o vi tateando seu cinto e empurrando suas calças para baixo. Seu pênis saltou pra fora, já grande e brilhando na ponta. Um calor se espalhou entre minhas pernas só de olhar, apesar da dor que eu ainda estava sentindo. Com seu pênis de pé, em alerta, ele se aproximou. Estava no nível dos meus olhos e eu finalmente tive uma ideia do que ele tinha em mente. Os nervos vibravam em meu estômago. Eu não tinha certeza se eu poderia fazer isso, e se eu gostaria. Growl não me deu muito tempo para ter dúvidas. Ele parou bem na minha frente, seu pênis apenas alguns centímetros do meu rosto. Ele cheirava limpo e parte de mim me perguntava como ele gostaria. Growl tinha aparentemente apreciado o que ele tinha feito para mim ontem, especialmente o meu gosto. Olhei para ele novamente. Sua mão raspou meu cabelo e veio descansar na parte de trás da minha cabeça. Ele me empurrou para a frente levemente até que meus lábios roçaram a ponta. Isso era errado, não era? Growl não via nada

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em mim senão uma coisa para lhe dar prazer. Por um instante meus instintos me disseram para travar a mandíbula, mas então deixei que ele deslizasse em minha boca. Ele era um pouco salgado, mas não de forma ruim. A luxúria brilhava em seus olhos. Meu próprio corpo corou de alegria, e uma nova onda de calor se acumulou entre minhas pernas. Eu não deveria querer, não deveria gostar disso. Isso estava errado em tantos níveis, mas quando os movimentos de Growl se tornaram mais duros, quando seu comprimento deslizou dentro e fora da minha boca mais rápido, minhas mãos agarraram sua bunda aparentemente por sua própria vontade. Seus músculos se dobraram sob meus dedos, duros e implacáveis. Seus empurrões se tornaram espasmódicos e então ele me soltou com um gemido baixo. Eu tive dificuldade em engolir em torno dele, mas ele não parou de empurrar em mim. Ele diminuiu gradualmente, ainda tremendo. Seus olhos encontraram os meus e eu tremi. Eu tentei puxar para trás, mas suas mãos me mantiveram no lugar. Depois de um momento, ele deslizou seu comprimento para fora da minha boca centímetro por centímetro. Ainda estava duro, mas menos do que antes. Ele deu um passo para trás e meu rosto tornou-se insuportavelmente quente quando a vergonha tomou conta de mim pelo o que ele tinha me feito fazer, no que eu tinha feito, e tinha até gostado de fazer. Deus. Se minha mãe soubesse. Se alguém soubesse. Eu sabia o que Trish e Anastasia diriam sobre mim. Elas me chamam de uma puta suja. Minhas emoções conflituosas me fizeram sentir como se tivesse uma dupla personalidade. De repente o gosto dele me fez sentir suja. Eu mal conseguia parar de cuspir no chão. Mãos ásperas puxaram-me para os meus pés e enrubesci contra seu corpo. Antes que eu tivesse uma chance de reagir, ele enfiou a língua na minha boca, provando-me, saboreando a si mesmo. Meus joelhos ficaram fracos enquanto ele explorava minha boca. Ele não se importava em sentir seu próprio gosto? Pensei que os homens achavam isso nojento. Ele sugou meu lábio inferior em sua boca, então o soltou com um estalo. — Sua boca fica com um gosto perfeito com a minha porra nela, — ele rosnou. O constrangimento me invadiu de novo, mas Growl não teve misericórdia. Ele enfiou um dedo em mim e eu engasguei primeiro de desconforto do que algo mais, algo incrível. Ele enrolou seus dedos

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profundamente em mim e eu podia sentir as minhas terminações nervosas, que eu nunca tinha sentido antes. Growl começou a deslizar os dedos para dentro e para fora lentamente, e eu fiquei envergonhada com o quão fácil era, já que eu estava molhada, quente e ansiosa. Darlhe prazer tinha me excitado. Era mesmo normal que isso acontecesse com algo tão sujo? Minha testa caiu contra seu peito forte. Eu não poderia me segurar mais, não poderia mesmo ficar em minhas próprias pernas. As sensações me seguraram em sua fortaleza. O polegar de Growl passou por cima do nó dos meus nervos, novamente na eminência de ser quase doloroso. Todo o meu corpo reverberava de desejo. Um grito se assentou na ponta de minha língua, mas eu a mordi, apertei meus lábios contra o tecido áspero da camisa de Growl. Eu podia controlar os sons que eu fazia, mas meu corpo tremia com a onda de sensações quebrando sobre ele. Tudo estava em silêncio, exceto para Growl e minha respiração rápida. Engoli em seco, tentando entender o que tinha acontecido. Mas, novamente, Growl não me deu tempo para refletir. Ele me soltou e quase perdi o equilíbrio. — Vou pedir pizza. O que você quer? — sua pergunta me pegou de surpresa enquanto ele já agarrava o telefone. Eu senti como se alguém tivesse me jogado um balde de água fria. Agora que o prazer estava desaparecendo, a culpa, a vergonha e a solidão erguiam suas cabeças novamente. Os breves momentos de paixão me fizeram esquecer o tipo de arranjo que era, que tipo de homem era Growl. Eu não era nada mais do que sua puta, mais barata do que as que ele usava nas casas de prostituição de Falcone e, ao contrário delas, eu nem sequer fingira gostar do que ele estava fazendo. Pare com isso. Você está fazendo o que é necessário, eu me lembrei. Eu caí de volta no sofá. Minhas pernas tremiam e me senti esgotada, emocional e fisicamente. Eu precisava tomar uma decisão. Ou eu passaria por isso e tentaria fazer Growl confiar em mim dessa maneira, ou eu teria que descobrir um jeito de sair dessa situação sem ele. Eu precisava dele. — Cara? — Growl repetiu. Ouvir meu nome de sua boca sempre enviava um arrepio nas minhas costas. Essa voz, tão profunda e áspera. — O que devo pedir para você? Eu dei de ombros. Eu não me importava. Pizza era a última coisa em minha mente agora. Era óbvio que Growl gostava de estar comigo fisicamente, mas num nível emocional, eu não estava chegando a lugar

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nenhum. Ele sempre se retirava depois do sexo. Como se ele não pudesse suportar a proximidade física após o ato real. Eu não tinha certeza de como mudar isso. O pior era que eu realmente queria estar perto dele. A proximidade física do sexo me fazia ansiar por mais proximidade depois. Growl suspirou. — Vou pegar de atum, — disse ele. — Você precisa comer o suficiente ou você vai ficar doente. Pelo menos ele estava preocupado com o meu bem-estar físico de certa forma. Embora ele provavelmente só estava cuidando do que era seu. — Eu não acho que a comida será a razão pela qual eu vou ficar doente, — eu murmurei. Growl não disse nada, mas pensei que talvez tivesse percebido a dica. Era difícil dizer, pois seus olhos estavam sempre vazios ou desconfiados, e sua expressão era a mesma. Ele pegou seu telefone e pediu duas pizzas, ainda completamente nu. Eu não conseguia parar de admirar sua bunda musculosa. Quando ele se virou, eu pude ler o que estava escrito sobre seu peito pela primeira vez. Até agora eu sempre estive muito ocupada com outras coisas. As enormes letras negras diziam: — Vou banhar-me no sangue de meus inimigos e banhar-me-ei do seu medo também. Palavras marciais que cruzavam o peito largo inteiro de Growl. Por que as tinha escolhido? Para se lembrar de quem ele era? Talvez tivesse algo a ver com a forma como ele tinha conseguido sua cicatriz, mas eu ainda não tinha certeza de como entrar no assunto sem fazê-lo se fechar completamente. Era óbvio que ele não gostava de falar sobre o assunto ou das pessoas que sabiam dos fatos. Growl agarrou suas calças do chão e as colocou. Minha própria camisa estava rasgada e eu não estava realmente com vontade de vestir minhas calças justas. — Você tem uma camisa para mim? Por um momento Growl pareceu atordoado pelo pedido, mas então ele foi para seu quarto e voltou com uma camiseta preta. Ele me ofereceu com uma expressão quase hesitante. Fiquei de pé e puxei a camisa dele, então passei sobre a minha cabeça. Chegou aos meus joelhos, mas era muito confortável. Eu podia sentir os olhos de Growl em mim o tempo todo. Se eu não estivesse enganada, havia nostalgia em seu rosto. Por quê? O que ele estava pensando? Sua expressão ficou em branco. Escondi um suspiro e me afundei no sofá. Growl sentou-se ao meu lado. Perto o suficiente para que eu

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pudesse sentir seu cheiro almiscarado misturado com sexo, mas sem me tocar. — Por que você não compra móveis de cozinha para que possamos comer lá? — Eu perguntei quando ficou claro que ele não se importava em ficar sentado em silêncio absoluto. Sua cabeça tinha que ser um lugar incrivelmente excitante considerando quanto tempo ele passava lá. — Eu nunca precisei. Eu não como nada no café da manhã e eu posso beber café em pé. E podemos sentar na sala de estar, — Growl disse, apontando para a mesa na nossa frente. — Eu sei, mas seria mais aconchegante sentar na cozinha do que na frente de uma TV com uma mesa que mal chega aos joelhos. Growl encolheu os ombros. — Não preciso de muito. Isso era verdade. — Você nunca tem convidados? — Não tenho convidados. — E quanto a família? — Eu estava pisando terreno arriscado, mas era hora de descobrir mais sobre o homem que controlava meu corpo de uma maneira assustadora. — Eu não tenho uma família. Suas palavras me lembraram que minha própria família estava em risco. Eu não poderia imaginar estar sem família. O mero pensamento apertava meu peito. Eu faria qualquer coisa para salvar a família que eu tinha deixado. Me movi um pouco mais perto de Growl e pressionei minha mão contra seu peito. Growl olhou para mim, depois para minha mão. Ele parecia não saber como reagir. Eu podia ver que ele estava desconfortável, mas ele não me empurrou para longe. — Você nunca teve uma família? — Eu perguntei para me distrair da minha preocupação sobre minha própria família, e a maneira que meu corpo estava saltando para à vida apenas por tocar o peito de Growl. Meus dedos localizaram as muitas cicatrizes em seu peito, sempre encontrando novos caminhos em seu corpo. Rastrear seus músculos e cicatrizes era uma boa maneira de acalmar minha mente nervosa. ~ 108 ~


Enquanto meus dedos permaneciam em movimento, meu cérebro parecia desacelerar um pouco. — Tive uma mãe — disse em voz baixa. Meus dedos congelaram em sua clavícula, surpreendidos por suas palavras. Eu pensei que ele iria evitar o assunto. Isso significava que ele começou a confiar em mim? Meu olhar foi até seu rosto, mas ele estava olhando para o teto com uma expressão ilegível. Ele não queria que eu visse seus olhos, e isso só me deixou mais curiosa para vê-los. — O que aconteceu com ela? O silêncio reinou entre nós por muito tempo e eu comecei a me preocupar que eu tinha estragado a minha chance de ganhar a confiança de Growl, quando ele finalmente disse: — Ela está morta. — Como? — Eu perguntei. A mão de Growl subiu até sua garganta, mas ele não se tocou lá. Ele parecia evitar tocar sua garganta completamente, não apenas a cicatriz. — A pessoa que cortou sua garganta a matou? — Eu arrisquei um palpite. Por um momento, Growl ficou em silêncio, e ele parecia ter parado de respirar. — Sim, ele fez isso. Ele a matou bem na minha frente. Fez-me vê-la sangrar. Ele cortou sua garganta também. Mas primeiro a minha para puni-la. Ele pensou que eu iria morrer rapidamente, mas minha mãe estava morta dentro de um minuto e eu continuava respirando. — Ele parecia quase arrependido, como se ele desejasse que ele tivesse morrido naquele dia. Minha boca ficou seca. — E o seu pai? Onde ele estava? — Ele não está morto. — Por que ele não respondeu a minha segunda pergunta? — Não posso acreditar que alguém faria isso a um menino inocente. — Eu tracei as letras em seu peito. Essas palavras, todas as tatuagens assustadoras, tudo começou a fazer sentido. — Eu não era inocente, nem mesmo naquela época. — Suas palavras ressoaram em seu peito, eu podia sentir contra minha palma. — Por quê você diria isso? Quantos anos você tinha? — Cinco. ~ 109 ~


Deus, como poderia alguém machucar uma criança de cinco anos assim? As pessoas chamavam Growl de monstro, até eu pensava nele assim, mas quem quer que tivesse tentado matar Growl quando criança era muito pior. — Todo mundo é inocente nessa idade. Ninguém nasce mal. Você era tão pequeno. Por que você não tentou caçar a pessoa que fez isso com você? Você não é o menininho do passado, você tem conexões e poder agora. Tenho certeza de que Falcone não se importaria se você vingasse sua mãe. Uma risada curta vibrou em seu peito. Isso fez os pequenos cabelos em meus braços ficarem em pé. — Falcone se importaria. — Por quê? É alguém com quem faz negócios? Growl encontrou meu olhar e o que ele transmitia, em seus olhos, levantou uma suspeita assustadora em mim. Mas eu não poderia estar certa ... — Falcone foi o homem que fez tudo isso — disse Growl, fazendo sinal para a garganta. Eu puxei minha mão longe de seu peito. — Então, — eu disse lentamente. Foi difícil encontrar as palavras certas, ou quaisquer palavras, realmente. — Falcone matou sua própria mãe e quis matá-lo também, e você decidiu trabalhar para ele? — Eu queria entendê-lo, mas como eu poderia entender algo assim? Isso estava tão longe do normal. Soprou minha mente. Growl deu um aceno quase imperceptível. Seu rosto era impassível, mas havia um piscar de algo em seus olhos que eu não teria notado há alguns dias. Eu estava me tornando mais perceptiva e acostumada às pequenas mudanças em suas expressões faciais. — Por quê? — Eu sussurrei. Por que alguém iria querer trabalhar para tal homem? Talvez algo tivesse sido irremediavelmente danificado quando Growl teve que assistir tudo isso ainda tão novo. Parte de mim queria estender a mão para aquele pequeno menino danificado e apertálo em um abraço apertado e dizer-lhe que tudo ficaria bem. Mas por um lado, eu não tinha certeza se aquele garoto ainda estava escondido em algum lugar em Growl ou se ele tinha murchado com o tempo e os horrores que ele tinha testemunhado. E segundo, eu soube que eu estaria mentindo a esse menino. Poucas coisas ficariam bem na vida de Growl. Aquele menino foi moldado em um monstro através de abuso e crueldade. Talvez tivesse sido melhor se ele não tivesse sobrevivido. Não só para poupar-lhe os horrores de sua vida, mas também para salvar os muitos que ele tinha torturado e matado por Falcone. ~ 110 ~


Eu tinha desistido de dar uma resposta a Growl quando ele disse: — Porque ele é meu pai. Eu respirei fundo. — Falcone? — Eu perguntei porque parecia impossível. Não duvido que Falcone tivesse muitas amantes ao lado de sua esposa. Um homem como ele não podia ser fiel. Mas simplesmente parecia impossível que a palavra não tivesse saído. Que as pessoas não mencionassem o nome de Falcone em uma respiração com Growl, o bastardo. Meus olhos procuraram o rosto de Growl, mas se havia algo de Falcone em suas feições, permaneceu escondido para mim. Ele assentiu novamente. — Essa foi uma das razões pelas quais ele quis se livrar de mim. E por que ele matou minha mãe. Ela ameaçou contar às pessoas. Falcone não deixa ninguém ameaçá-lo. — Ele matou a sua mãe. A mulher com quem ele teve um filho, — eu disse lentamente. Growl não reagiu. — Como ele poderia fazer isso? Que tipo de monstro faria algo assim? — Eu estremeci, de repente preocupada por ter ido longe demais. Por alguma razão ridícula, Growl era leal a seu pai cruel. — Um monstro como eu — murmurou. — Tal pai tal filho? Growl encolheu os ombros. Eu poderia dizer que ele estava farto da nossa conversa, mas eu estava muito agitada para deixar o assunto morrer tão rapidamente. — Talvez você não devesse tomar a natureza horrível de seu pai como uma desculpa para ser um monstro também. Talvez você deva se esforçar para ser melhor. Ele soltou um suspiro, o que poderia ter sido uma risada, eu não tinha certeza. — Eu não estou brincando. Ele se levantou. — Eu não sou um monstro por causa do meu pai. Sou um monstro porque escolhi ser. Eu duvidava que fosse verdade. Ele era um menino quando ele tinha experimentado horrores, mesmo homens crescidos, mal poderiam imaginar uma coisa dessas. — Nunca é tarde demais para mudar e para compensar os seus erros.

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Growl balançou a cabeça. — Você é ingênua se acha que isso é uma opção. Eu não vou mudar. Eu não quero. Minha vida é boa assim. — Você está trabalhando para o homem que matou sua mãe. Eu não acredito que você possa viver bem com isso. — Eu tenho vivido assim por muito tempo. — Se eu fosse você, eu gostaria de me vingar. Growl sorriu sombriamente. — Mas você não é. E você não me conhece. Ele se virou e saiu da sala. Um segundo depois eu ouvi a porta dos fundos abrir e fechar. Ele estava certo. Eu não o conhecia. Ainda. Mas hoje ele me entregou alguns pedaços do quebra-cabeça que era ele, e eu estava determinada a conseguir as peças restantes também.

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Capítulo quinze CARA Eu decidi não insistir mais com Growl sobre Falcone e o que aconteceu. Eu tinha a sensação de que ele iria se fechar completamente se eu tentasse muito cedo novamente. Pelo menos ele não parecia muito irritado com minhas perguntas para parar de dormir comigo. Quando ficamos deitados um ao lado do outro na minha cama depois de Growl ter me lavado a três orgasmos, minha mente estava trabalhando em bolar uma maneira de fazê-lo ficar comigo. Ele geralmente sempre se afasta após nós ficarmos juntos, não me dando chance para conhecê-lo melhor. Nós nem sequer nos tocamos depois. Ou pelo menos não tinha chegado tão longe. Agora o braço de Growl estava levemente tocando o meu. Não foi por acidente. Talvez no fundo ele desejasse a proximidade além do sexo? Seus olhos estavam meio fechados e sua respiração já estava diminuindo. Seu peito musculoso reluzia de suor. — O que aconteceu com meu pai depois que você me levou para sua casa? — Eu perguntei. Growl abriu os olhos. — Ele estava morto. — Eu sei, — eu sussurrei duramente. — Isso não foi o que eu quis dizer. Onde está seu corpo? O que você fez com ele? Growl virou a cabeça para mim, franzindo o cenho. — O que isso importa? Ele se foi. — As pessoas enterram seus mortos por uma razão. Porque eles precisam de um lugar para se sentir conectado a eles, um lugar onde eles podem ir dizer adeus ou falar com o que resta das pessoas que amam. É o que as pessoas fazem. Growl não parecia entender. — Talvez. Não consigo ver como isso ajuda.

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— Você não precisa entender, — eu disse calmamente. — Apenas aceite. Eu realmente preciso saber onde está o corpo do meu pai. Preciso dizer adeus a ele para conseguir ter paz. — Ele foi enterrado fora das fronteiras da cidade. — Enterrado? Então ele não foi despejado em algum lugar ou coisa pior? — Eu não estava lá quando o enterraram. Mas foi o que me disseram. — Você sabe onde é? Você pode me levar? Growl soltou um suspiro. Ele se sentou como eu esperava e balançou as pernas para fora da cama, virando as costas para mim, que também estava coberta de tatuagens, espinhos e rosas, crânios e cobras, e letras negras que diziam — Dor, — nada mais. Havia mais cicatrizes em suas costas, ombros e pescoço. — Você tem que seguir em frente. Eu sufoquei minha frustração. Ele simplesmente não conseguia entender. As emoções e hábitos humanos eram estranhos para ele. Eu me sentei e cheguei mais perto. Eu esperava que fosse um bom sinal de que ele não tivesse se levantado ainda. Talvez algo nele quisesse conversar comigo? Minhas pontas dos dedos roçaram as estranhas cicatrizes redondas que cobriam suas costas e seus braços. Elas não pareciam feridas, mais como se alguém tivesse queimado Growl. Depois de um momento de hesitação, perguntei calmamente. — O que é isso? Growl olhou por cima do ombro. — Queimadura de cigarro. Meus dedos congelaram. Ele parecia tão despreocupado, como se não estivéssemos falando sobre seu corpo. — Quem fez isso com você? — Talvez eu tenha pedido a alguém para fazer isso comigo, — disse ele. — Por que alguém pediria para sentir dor? — Eu gosto de dor. Aprendi a gostar com o tempo. — Você gosta? — Eu repeti, soltando minha mão de sua pele. Ele pediu que alguém o queimasse? Será que ele estava confuso? A ideia parecia não fazer sentido. Alguém que fez isso para si, provavelmente,

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faria muito pior para os outros. Embora isso ter me surpreendido, era ridículo. Eu sabia que tipo de homem era Growl. Mais monstro do que o homem. Um canto de sua boca se contraiu em um quase sorriso. Esse pequeno gesto conseguiu mudar todo o seu rosto, fazendo-o parecer mais acessível, menos perigoso. Mas a linha dura usual deixou seus lábios muito rapidamente. — Não de ser queimado. Eu não pedi por essas cicatrizes, — ele disse grosseiramente. — Quando eu era criança, eu não pedia para sentir dor, ainda. Meus olhos percorreram as muitas marcas de queimaduras, contando quase uma dúzia. — Alguém fez isso com você quando você era criança? — Eu parei, sem ter certeza sobre a próxima pergunta. — Sua mãe? — Isso pelo menos explicaria por que Growl não queria vingála. Growl balançou a cabeça. — Ela não era a melhor mãe. Ela trabalhava como uma prostituta. Seu vício e trabalho não ajudaram muito na criação de uma criança, mas ela nunca me bateu ou me feriu fisicamente. Eu lambi meus lábios. Este era território perigoso que eu estava pisando. Minha curiosidade me deixou ansiosa por mais, mas ao mesmo tempo eu estava igualmente assustada dos horrores que eu ouvia e do que eles me fariam sentir. Com cada parte do passado de Growl e seu caráter que eu descobri, ficava mais difícil não sentir compaixão, e muito mais. — Então quem fez? — Eu perguntei apesar das minhas preocupações. — Depois que minha mãe morreu e eu fui liberado do hospital, Falcone me deu a um de seus capangas, Bud, que era responsável por um dos bordéis. Ele era um cafetão, realmente, e não queria uma criança por perto. Mas ele não podia recusar se quisesse cair nas graças de Falcone, e assim ele me manteve. Mas ele era um bastardo sádico e quando ele estava cansado de bater na merda de suas prostitutas, ele gostava de me torturar. — Por que Falcone não o deteve? — Eu balancei a cabeça. — Eu não sei por que eu estou perguntando. O cara quase o matou. Não é como se ele fosse um ser humano decente, ou algo parecido com isso. — Ele não me matou, embora ele pudesse ter matado. E ele nunca me tocou. Ele deixou um de seus homens cortar minha garganta. E Bud sempre se assegurou de me bater e me queimar onde ninguém podia ver. ~ 115 ~


— Então você acha que Falcone não sabia o que estava acontecendo? — As putas sabiam e elas gostavam de mim. Poderiam ter contado a ele sobre isso. — Mas ele não faria nada — concluí. Growl encolheu os ombros. — As surras me deixaram mais forte. Depois de um tempo, você não sente dor como as outras pessoas. Torna familiar, quase como um amigo. Você para de temer, e até gosta disso. Isso explicava a tatuagem em suas costas. Movi-me para que eu pudesse ver seu rosto e fiquei atordoada pela expressão quase serena nele. Eu esperava que fosse uma máscara perfeita, porque se ele estivesse realmente tão bem sobre tudo isso, havia pouca esperança para ele. Quando seus olhos encontraram os meus, eu vi um lampejo, uma rachadura na máscara perfeita que ele tinha construído ao longo do tempo e quase exalei em alívio. Eu coloquei meu queixo para baixo em seu ombro, trazendo meu rosto mais perto dele. — Há outras coisas que fazem as pessoas fortes, não apenas dor. É horrível o que aconteceu com você. Alguém deveria ter protegido você. Todas as pessoas que ficaram de pé enquanto eram torturadas, podiam apodrecer no inferno. — Você não deveria se importar, — Growl murmurou. — Eu sei. — Eu não disse mais. Será que eu realmente me importo? O homem na minha frente hoje não merecia minha piedade ou ajuda. Ele não era o garoto indefeso há muito tempo. E ainda uma parte de mim sentia por ele. Eu não pude evitar. Durante vários batimentos cardíacos, ficamos olhando um para o outro e palavras não verbalizadas pareciam pendurar no ar entre nós. Eu estava tão perto de quebrar as paredes de Growl, tão perto de ganhar sua confiança. — Bud está morto agora. Conseguiu o que merecia, — Growl disse eventualmente. Levei um momento para me libertar da estranha conexão que senti antes. — Você o matou? Era assustador a facilidade com que as palavras deixaram meus lábios e quão pouco impacto tiveram na minha consciência.

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— Quando eu tinha dez anos — disse Growl com um tom de orgulho em sua voz profunda. Talvez isso tivesse me deixado inquieta e talvez, mesmo que Bud tivesse merecido morrer, se a ideia de se vingar de Falcone não tivesse dominado meus pensamentos nas últimas semanas. — Ele tinha espancado a merda de uma prostituta, mas isso realmente não dizia nada a ele. Falcone não tinha dado o segundo bordel que Bud queria, e ele queria desabafar. Quando ele entrou em meu quarto, eu sabia que ele estava fora de controle. E eu o deixei. Ele me chutou e me bateu, e eu deixei, mas então eu decidi que era o suficiente, e eu lutei contra isso. Eu sempre tinha um canivete suíço no bolso e quando ele fez uma pausa para acender um cigarro e virou-se para mim, eu cortei o tendão da sua perna em um corte seco. Meus olhos se arregalaram. — Ele gritou como um porco no matadouro. Não perdeu o equilíbrio como eu esperava. Tentei de novo, então, eu o esfaqueei na parte superior da coxa. Cortei sua artéria por acaso. Ele sangrou rapidamente. E eu assisti. Eu ainda estava assistindo com a faca na mão quando uma das prostitutas me encontrou e fugiu gritando. E eu ainda estava lá quando Falcone chegou algum tempo depois. Eu estava coberto de sangue da cabeça aos pés. Tinha apunhalado o bastardo morto mais algumas vezes para liberar um pouco da adrenalina. As imagens brilharam em minha mente e com o sangue, vieram mais imagens, imagens de meu pai e como ele havia morrido. Mas eu não podia me permitir pensar nessa memória agora. Não me ajudaria em nada, nem a minha mãe ou irmã. — O que Falcone fez? Você matou um de seus homens. Não devia ter matado você? — Não, ele decidiu que era hora de me levar sob suas asas e me mostrar o que eu era capaz de fazer. — Matar e mutilar e torturar, — eu disse calmamente. Os olhos de Growl quase se resignaram. — Isso é tudo que eu posso fazer. Se houvesse mais que isso em mim, eu não sobreviveria. Ele tinha dito palavras semelhantes antes. E eu comecei a perceber que ele poderia estar certo. — Então Falcone te ensinou como matar? Quando você se tornou seu assassino?

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Growl pensou sobre isso por um momento. — Eu matei o segundo homem alguns meses depois de eu ter matado Bud. Falcone me disse o nome do cara que me cortou a garganta e onde eu poderia encontrá-lo. — Então ele queria que você matasse o cara? — Ele não disse, mas eu fui matá-lo. Falcone me disse que esse era seu presente para mim e que eu nunca mais iria matar sem sua permissão explícita novamente, e eu nunca fiz. — Então você se vingou do homem que queimou você e do homem que cortou sua garganta, mas não o homem que é a razão pela qual isso aconteceu? Growl ficou em silêncio. — Ele é a razão por que você tem isso. — Eu estendi a mão para tocar a cicatriz em sua garganta, curiosa como ele iria se sentir, mas a mão de Growl disparou e seus dedos enrolaram em torno de meu pulso. — Não, — ele disse calmamente, advertindo. Seus olhos estavam assombrados enquanto eles se fixavam em mim. Puxei minha mão e coloquei a mão no colo. — Por quê? Não é como se eu não tivesse tocado as outras cicatrizes. — E cada centímetro de seu corpo. — Não, — ele repetiu em uma voz que me fez tremer. — Ninguém tem permissão para tocar essa cicatriz. Mais perguntas ficaram na ponta da minha língua, mas Growl não me deu a chance de expressar nenhuma delas. Desembaraçou-se dos cobertores e ficou de pé. — Você deveria dormir. — Ele saiu sem olhar para trás. Suspirando, eu voltei para as cobertas. Eu não me preocupei em colocar minha camisola novamente. Eu estava exausta. Sempre exausta. A preocupação me mantinha acordada também muitas noites. Estiquei os ouvidos, ouvindo Growl, e como sempre ouvi o rangido da porta dos fundos e os cães antes de ficarem em silêncio novamente. Rosnar era um hábito. Talvez fosse por isso que os cães eram leais a ele. Isso dava-lhes uma pitada de normalidade. Eu balancei minha cabeça na escuridão. Normalidade. Minha vida sempre foi bem longe do normal, mas agora?

***

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Growl estava mais desligado nos dias que se seguiram. Eu pensei que finalmente tínhamos uma conexão verdadeira durante nossa última conversa, mas agora ele estava se afastando novamente. Ele não me queria perto. E eu não tinha certeza de como mudar isso. Se ele não confiasse em mim, como eu poderia sugerir que ele ajudasse minha mãe e minha irmã? E se ele contasse tudo a Falcone? Então tudo terminaria. E, no entanto, parte de mim tinha certeza de que ele não contaria a Falcone nada do que conversamos. Growl guardava as coisas para si mesmo. Ele era esse tipo de cara. Ele nem chegou a minha cama à noite. Ele estava realmente tentando ficar longe de mim. Estava preocupado em me aproximar demais? Isso era mesmo uma possibilidade com ele?

***

— Falcone concordou em deixá-la visitar sua mãe — Growl disse de repente, enquanto tomávamos café em silêncio uma manhã. Quase deixei cair a xícara. — Sério? Por quê? Porque agora? — Aparentemente, sua mãe está deprimida e Falcone acha que é por isso que as negociações com Nova York estão indo mal. Eu disse a ele que seria bom para sua mãe ver que você estava bem, então ela teria algo para lutar. Eu coloquei a xícara no balcão e fechei a distância entre nós. Eu envolvi meus braços em torno dele e o abracei firmemente, minhas bochechas pressionaram contra seu peito. Ele ficou tenso, depois relaxado. Tínhamos dormido um com o outro várias vezes, mas esta foi a primeira vez que nos abraçamos. Eu percebi que ele nunca me beijou ou me tocou sem ser para fazer sexo. — Obrigada, — eu disse, então me afastei e dei alguns passos para trás. Ele estava me observando com uma expressão estranha. Havia nostalgia em seus olhos? Deus, por que ele tinha que ser tão difícil de ler? — Vou levá-la até ela agora no meu caminho para o trabalho, — disse Growl.

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Eu não podia esperar para vê-la novamente, mas ao mesmo tempo eu estava aterrorizada de encará-la depois do que eu tinha feito nas últimas semanas. Eu estava dormindo com Growl, e não porque ele me forçou, nem mesmo porque eu esperava ganhar sua confiança. Eu gostava. Não havia como negar. Se minha mãe soubesse, ela nunca mais me olharia.

***

Encostar na frente da minha antiga casa parecia estranho. Eu não me sentia em casa. Falcone e seus homens arruinaram o lugar para mim. Minha lembrança do lugar onde eu cresci ficaria para sempre contaminada com o sangue e a morte de meu pai. — Eu pensei que você ficaria feliz, — disse Growl enquanto me conduzia até a porta da frente. Eu achei que eu estaria feliz também, mas me sentia culpada, miserável e assustada. Eu forcei um sorriso, preocupada que Growl poderia decidir que era melhor não me deixar visitar minha mãe, se isso me deixasse triste. Essa era a última coisa que eu queria, mesmo se pisar em minha antiga casa fizesse meu estômago revirar. — Estou feliz, apenas nervosa. Growl parecia duvidoso, mas ele tocou a campainha de qualquer maneira. Demorou muito tempo até que finalmente um de nossos velhos guarda-costas, Daryl, abriu a porta. Então ele estava protegendo minha mãe? Ele sempre fora o espião de Falcone? Provavelmente. Não havia lealdade neste mundo. Até meu pai havia traído seu chefe por qualquer motivo. Não que eu não o entendesse. Ele recuou, com uma expressão de cautela em seu rosto enquanto observava Growl. Senti uma satisfação doentia por seu desconforto. Eu não estava com medo de Growl mais. Daryl me deu um aceno de cabeça, mas eu o ignorei e rapidamente passei por ele para o lobby. A casa estava em silêncio. Uma diferença tão grande da última vez que eu estive aqui. — Cara? — Veio a voz mansa da mãe da sala de estar. Corri para minha mãe e a encontrei sentada a mesa da sala de jantar, que estava preparada para o almoço. Eu hesitei no meio da sala. Minha mãe tinha perdido peso. Suas bochechas estavam afundadas, as maçãs do rosto ~ 120 ~


salientes. Ela não usava maquiagem. Ela sempre usava. E seu vestido estava enrugado como se ela não se importasse em passá-lo. Mãe nunca usaria um vestido que não tivesse sido passado. Ela tinha mudado. Eu tinha mudado. Era ridículo pensar que minha mãe ou irmã não tivessem. Deus, Talia. Como estava ela? Minha mãe levantou-se da cadeira e abriu os braços. Eu não hesitei. Eu voei nos braços da minha mãe. Era bom abraçá-la, sentir seu cheiro reconfortante. A mãe enterrou o rosto no meu cabelo e respirou fundo. Fechei os olhos, permitindo-me alguns momentos de paz. — Eu preciso sair agora. A voz de Growl cortou o silêncio. Minha mãe e eu nos separamos. Mamãe olhou para Growl com desgosto e medo. Eu balancei a cabeça. — Está bem. — Volto para buscá-la em duas ou três horas. — Havia um sinal de aviso em sua voz. Eu não disse nada. Eu queria que ele saísse logo, preocupada que a minha mãe pudesse notar algo estranho entre nós. Eu quase suspirei de alívio quando ele partiu. Daryl ainda estava na sala. — Você pode dar a minha filha e eu um pouco de privacidade? — Perguntou minha mãe educadamente. Ela parecia controlada agora. Daryl parecia despedaçado. — Estou do lado de fora da porta. Lembre-se de que há câmeras. A mãe inclinou a cabeça, parecendo digna, mas no momento em que ele fechou a porta, ela agarrou a borda da mesa e afundou na cadeira. Puxei uma cadeira para perto da minha mãe e agarrei a mão dela. Minha mãe procurou no meu rosto, então olhou meus braços como se estivesse procurando contusões. — Eu pensei que não iria vê-la novamente. Eu tinha certeza que esse monstro iria matá-la. — Growl? — Eu disse. — Ele não me machucou. Mãe balançou a cabeça. — Não minta para mim. Eu conheço este mundo. Eu conheço as regras. Eu sei mais do que eu deixei no passado porque eu queria proteger você e sua irmã. — Ela soltou um riso triste. — Eu falhei.

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— Você não falhou. O que você poderia ter feito? Estavam armados. Não tivemos chance contra eles. Minha mãe tocou meu rosto, parecendo desesperada. — Eu queria ser mais forte. Eu sei que devo perguntar o que aconteceu com você, mas não tenho certeza se posso suportar a verdade. Você é muito mais forte do que eu, Cara. Como você está aqui, parecendo saudável e intacta, eu não posso imaginar como isso é possível. Eu sorri tremulante. — Estou muito bem, mãe. Por favor, não se preocupe comigo. A mãe fechou os olhos e sacudiu a cabeça. — Eu não sei como você pode até mesmo falar comigo depois do que eu fiz. — O que você fez? — Estou trabalhando para Falcone, ajudando-o. Depois que ele te deu a esse monstro, eu não deveria ajudá-lo, não importa o que ele me ameaça. Se seu pai soubesse, ficaria desapontado. Ele nem sequer olharia para mim agora. — O pai é a razão pela qual isso aconteceu. Ele é a razão pela qual passamos pelo inferno. Foi a sua punição que tivemos de suportar. Se estivesse vivo, não teria direito de nos julgar. Ele teria que nos desculpar por ser tão egoísta, e não pensar nas consequências! — eu estourei. Até agora eu não me permitia ficar com raiva, mas agora eu percebi que estava. Eu estava furiosa porque meu pai deveria saber. Era seu trabalho nos proteger e ele falhou. Minha mãe me observava com os olhos arregalados, sem perceber. — Não fale assim do seu pai. Ele era o melhor marido que eu poderia ter imaginado e um pai ainda melhor. Ele merece nada além do nosso respeito. Isso era uma mentira. Meu pai não tinha sido um pai ruim, mas ele estava longe de ser um bom pai. Ele estava muito ocupado com seu trabalho, e muitas vezes impaciente demais para passar tempo com suas duas filhas. Eu o amava e sentia falta dele. Eu desejava que ele ainda estivesse vivo e eu o perdoasse pelo que ele tinha feito, porque ele certamente não poderia ter imaginado para onde isso nos levaria. — Eu não quero brigar por isso, — eu disse calmamente, apertando a mão da minha mãe. — Eu sei que você está sofrendo, mas eventualmente você vai perceber que o pai fez isso conosco.

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Minha mãe olhou fixamente. Ela não protestou novamente, mas eu poderia dizer que ela não estava pronta para admitir as falhas do meu pai ainda. Sua morte ainda era muito recente. Eu decidi mudar o tópico. — Eu sei o que você está fazendo, que você está falando com Nova York em nome de Falcone. — Como? — Minha mãe sussurrou. — Growl me disse. Mas isso não é importante. Você está fazendo progresso? Mãe balançou a cabeça. — Ainda não falei com Luca Vitiello. É difícil chegar até ele. Nova York não quer nada com a gente. — Minha mãe tocou sua testa. — Eu não posso falhar. Se eu fizer, Falcone vai machucar sua irmã. Não sei o que fazer. — Continue tentando. Tem de haver uma maneira de chegar até Luca Vitiello. Tenho certeza. Minha mãe concordou. — Possivelmente. Mandei uma carta para sua esposa. Ouvi dizer que ela é gentil. Ela pode ser nossa última chance. — Não desista. Nós vamos descobrir algo, — eu disse com firmeza, tentando transmitir com meus olhos que eu estava trabalhando em um plano. As sobrancelhas de mamãe se juntaram, mas ela não perguntou o que eu queria dizer. Ela era uma mulher inteligente. Tínhamos que ter cuidado com o que dizíamos em voz alta. Ela apontou para os sanduíches empilhados na bandeja. — Eu mesma fiz. Algo para me manter ocupada. E eu sinto falta de cozinhar para todos vocês. Peguei um sanduíche de salmão e dei uma mordida, então sorri. — É delicioso. Minha mãe se recostou na cadeira e me observou comer outro sanduíche. Eu engoli a última mordida, então perguntei: — Eu estive me perguntando, por que você deixou Nova York e sua família? Você era parte da família principal afinal. Você poderia ter uma grande vida lá. A minha mãe parecia cansada. — Eu tinha. Mas meu irmão era o Capo e ele era tão mau quanto Falcone. Claro, naquela época eu não sabia o quão mal Falcone era em Las Vegas ou talvez eu teria ficado em

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Nova York. — Então ela sorriu tristemente e balançou a cabeça. — Embora eu estivesse com a cabeça virada e apaixonada por seu pai e teria seguido ele em qualquer lugar. Eu toquei sua mão. — Como vocês dois se conheceram se o pai era um dos homens de Falcone? Nova York e Las Vegas odiavam um ao outro também, não é? Minha mãe concordou. — Oh sim, eles sempre se odiaram. Mas Falcone tinha acabado de ser nomeado chefe e seu pai ainda tinha algo a dizer na cidade. E o velho queria tentar ficar paz com Nova York, então mandaram seu pai, porque ele sempre soube ser diplomático. Falcone teria arruinado tudo se ele tivesse tentado fazer as negociações ele mesmo. — Mas eles não fizeram um tratado de paz, não é? — Não. Salvatore e Falcone eram muito parecidos. Ambos queriam ter a última palavra, então, não surtiu efeito a visita de seu pai em Nova York. — Vocês dois se apaixonaram. — Sim, sim. Nas três semanas que ele estava na cidade, ele capturou completamente meu coração. Eu implorei a meus pais que me deixassem casar com ele, mas é claro que eles se recusaram e Salvatore ficou furioso por eu ter sugerido uma coisa tão horrível. Ele escolheu outra pessoa para mim, mas eu não queria ninguém além de Brando e assim seu pai me levou com ele, e disse a Salvatore que ele tinha feito isso como vingança pelos insultos que Salvatore tinha dito sobre Falcone. Eu não tenho certeza se Falcone acreditou na história, mas ele estava feliz de insultar Salvatore assim, então seu pai e eu nos casamos dois dias depois de termos saído de Nova York. A festa foi notícia em todos os jornais em Las Vegas e por isso, qualquer tipo de paz estava fora de questão. Então Falcone conseguiu exatamente o que queria, assim como o seu pai e eu. Parecia a solução perfeita na época. — Você acha que o chefe da Família, que Luca, nos permitiria ficar em Nova York? — Eu perguntei sussurrando. Minha mãe tocou minha bochecha. — Eu não sei. Só vi ele e seu irmão uma vez quando eram meninos. — Você os visitou, mas eu pensei que era proibido? — Oh, era. Mas a esposa de Salvatore e eu realmente gostamos muito uma da outra. Eu sempre senti pena dela porque ela teve que se ~ 124 ~


casar com meu irmão sádico. E uma vez, quando eu estava grávida de você, eu estava em Aspen na mesma época que a esposa de Salvatore. Ela estava lá com as crianças e então nos conhecemos em segredo. Nós vínhamos nos falando pelo telefone regularmente, mas essa foi a primeira vez que nos conhecemos desde que fugi. Foi maravilhoso. E os meninos eram realmente uns fofos, embora fosse inconfundível que meu irmão era seu pai. Eles eram muito controlados e sérios para meninos tão jovens. Especialmente Luca, que me deu arrepios algumas vezes. — Talvez ele vá se lembrar de você em breve e nos ajudar. É a nossa melhor chance. — É, — ela concordou, então sua expressão ficou quase assustada. — Você sabe onde eles levaram o corpo de seu pai? Eu não posso suportar o pensamento que Falcone deu ele para seus cães como alimento. Isso quebra meu coração. Ele não merece isso. Eu bati no braço dela. — Growl me disse que alguém enterrou o pai no deserto. Eles não o deram como comida aos cachorros. Os ombros da mãe caíram aliviados. Mas de repente me perguntei se o Growl tinha me dito a verdade. Não havia maneira de eu saber. Eu tinha que confiar em sua palavra. Quando ouvimos o carro de Growl puxar para cima na garagem, minha mãe me puxou contra seu corpo e sussurrou em meu ouvido: — Você é uma menina tão boa. Eu não sei como eu mereço você. Seja forte, querida. Não deixe esse monstro quebrá-la. — Eu não vou deixar, — eu prometi automaticamente. Ela me olhava com amor e piedade, e eu tive que desviar o olhar. Se ela soubesse, o que eu tinha feito e o que eu estava fazendo ... Eu nunca poderia dizer a ela.

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Capítulo dezesseis CARA Eu mal olhei em direção a Growl enquanto voltávamos para sua casa. Ele me deu uma olhada. — O que está errado? — Nada, — eu disse severamente, então mordi o lábio. Eu não sabia o que fazer. Eu precisava de Growl para estar do meu lado, e meu corpo o queria, mas eu estava indo contra tudo o que minha mãe me ensinara dormindo com ele. As mãos de Growl no volante apertaram, os tendões em seus antebraços flexionaram. Concentrei-me na janela. Minha mente estava zunindo. Eu sabia que precisava de Growl se eu quisesse ter alguma chance de ajudar minha mãe e minha irmã.

***

Fiquei acordada naquela noite, quando a porta do meu quarto abriu-se. Eu sabia por que o Growl estava aqui, o que ele queria, mas eu estava tão confusa. Ele aproximou-se da cama, iluminado pela luz do corredor. Ele examinou meu rosto e eu só olhei para ele. Ele não estava usando uma camisa, e meus olhos traçaram as linhas de seus músculos, a forma como a luz acentuou seu abdômen. Eu queria esse homem. Vê-lo sempre fez meu corpo estremecer, não importa o quão conflitante eu estava. Meu olhar baixou para a protuberância nas calças de Growl. Deus, por que eu tinha que querê-lo? Growl ajoelhou-se na cama, mas eu apenas observei. Ele sempre foi a parte mais ativa na nossa vida sexual, mas geralmente eu pelo

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menos reagia de alguma forma. Eu podia ver frustração e confusão em seus olhos, então ele rastejou em minha direção e pairava sobre meu corpo. Seu cheiro me envolveu. Eu coloquei minhas mãos contra seu peito, pensando entre empurrando-o para longe e puxa-lo para mais perto. Growl tomou a decisão por mim. Ele agarrou minhas mãos e as pressionou no colchão acima da minha cabeça. Então ele baixou a cabeça para meus seios e sugou um mamilo em sua boca através do tecido sedoso da minha camisola. Apertei meus lábios, tentando conter um gemido. Mas isso parecia estimular Growl. Ele moveu sua cabeça para baixo em direção a minha calcinha. Eu sabia que estaria em suas mãos se eu o deixasse ir até lá. Eu me esforcei, mas sua outra mão desceu no meu quadril, me segurando rapidamente. Quando seu rosto estava a poucos centímetros do meu centro, ele inspirou profundamente. O calor subiu em minhas bochechas como sempre fazia quando ele fazia algo assim. Mas, apesar do meu embaraço, meu corpo inundou de calor. Growl lambeu minha calcinha e eu acalmei. Meu coração se apertou e meu corpo começou a formigar. Eu me esforcei ainda mais, mas Growl me ignorou completamente. Ele cutucou minha calcinha para o lado com seu nariz e lambeu minha carne nua. Ele deslizou a língua para cima e para baixo, com lambidas firmes, uma e outra vez. Uma umidade se agrupou entre as minhas pernas. Eu odiava meu corpo por isso, por sempre se render a ele. Ele mergulhou sua língua em minha abertura e soltou um estrondo profundo. Eu apertei meus olhos fechados, lutando contra a reação do meu corpo, tentando segurar um gemido. Eu não lhe daria essa satisfação. Mas ele não parou. Ele parecia desfrutar de cada momento. Toda vez que ele cantarolava, uma parte estúpida de mim estava ligada. Eu ainda não podia acreditar que ele gostava do meu gosto lá, mas ele obviamente apreciava. Ele moveu sua língua para cima e lambeu meu clitóris. Meus quadris se contraíram, mas desta vez não estava em uma tentativa de fugir. Growl manteve um ritmo constante. Eu não tinha chance de resistir a ele. Meu corpo estava sempre ansioso por seu toque. Ele deve ter sentido a minha rendição, porque ele soltou meu quadril e levou a mão para baixo entre as minhas pernas. Ele usou seu polegar e indicador para me separar, permitindo a sua língua ainda melhor acesso. Eu não pude evitar que um gemido alto escapasse. Errado, minha cabeça gritou. Mas eu desisti de resistir.

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Novamente minhas mãos encontraram a cabeça de Growl, mas então ele enrolou a língua de uma maneira que me fez gritar com a sensação. Growl sabia que tinha vencido. Eu poderia praticamente sentir sua presunção. Sua boca fechou sobre meu centro, mergulhando sua língua ainda mais fundo em mim, e meus dedos cravaram mais em seu couro cabeludo. Meu corpo começou a tremer e a língua de Growl pressionou ainda mais forte contra meu clitóris. Minha última resistência desmoronou quando uma onda de choque rolou sobre mim, tornando-me impotente e atordoada enquanto eu ofegava. Eu não tinha certeza de quanto tempo eu fiquei assim. Eu não conseguia me mexer, mal podia respirar, meu coração batia forte no meu peito enquanto eu olhava para a escuridão. Sombras dançavam nas ruas distantes que atravessavam a janela. Growl pressionou outro beijo entre as minhas pernas, então ficou de joelhos. Ele se inclinou sobre mim e beijou meus lábios. Eu podia sentir o gosto dele, sentir o cheiro de mim mesma. Eu respirei. — Isso é errado, — eu disse calmamente. Isso era traição? Ficar íntimo assim com o inimigo, com alguém como Growl, com um monstro, estava errado em todos os níveis que eu poderia imaginar. Ele tinha ajudado a derrubar o meu pai. Ele era parte de por que ele estava morto agora. E, no entanto, aqui estava eu, compartilhando uma cama com ele e desfrutando. — Pare de pensar demais em todas as merdas, — ele murmurou. — Você não pode entender, — eu disse duramente. Para ele, pecado e culpa e vergonha não eram palavras que importavam. — Talvez — admitiu. — Mas eu entendo seu corpo. — Ele pressionou dois dedos contra o meu centro úmido e os trouxe para seus lábios. — E seu corpo gosta disso. — Você é nojento, — eu disse. Eu tentei me afastar, fugir, mas era quase impossível com seu corpo pairando acima de mim. — Talvez meu corpo reaja com você, mas eu nunca sentirei nada além de ódio por você, seu monstro. — Eu fechei meus lábios com um estalo, incapaz de acreditar no que eu disse. Como eu poderia dizer-lhe algo assim se eu queria sua ajuda? — Eu sou um monstro, você tem esse direito. Sempre fui, sempre serei. Sou bom em ser um monstro. Poucas pessoas encontram algo que eles são boas, algo que deveriam ser, — disse ele simplesmente. Ele não parecia zangado, apenas resignado.

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— Isso é louco. Ninguém pretende ser um assassino. Ninguém deve ser como você. Você quer ser assim. Você disse que gostava de sangue, dor e morte, e fingir que nasceu um monstro é sua desculpa para justificar os horrores que cometeu. — Você está certa. Não há nada melhor do que o ímpeto de matar. É emocionante. É você contra eles. É tudo ou nada. Nada neste mundo faz com que se sinta mais vivo do que isso. Eu gosto disso. E eu não dou a mínima para justificar qualquer coisa a ninguém. Eu faria tudo de novo. Não me arrependo. Engoli em seco. — Eu não entendo. Como alguém se torna assim. Não pode ser por causa dessa cicatriz em sua garganta. Ele saiu da cama. — Eu tenho muitas cicatrizes e todas elas me fizeram o homem que sou hoje. Procurei em seu rosto uma pista da humanidade que eu tinha visto antes, mas ele parecia tão diferente naquele momento. — Isso não significa que não pode ser diferente. Você age tão forte e imbatível, mas você deixa seu passado e seu suposto destino ditar sua vida. Por que você não luta por um futuro melhor? — Para mim não há futuro. — Mas poderia haver — sussurrei. Growl procurou meu rosto novamente. Havia saudade. Ele queria mais desta vida, mesmo que ele não pudesse admitir isso para si mesmo ainda. Ele saiu sem mais uma palavra e fiquei acordada, olhando para a escuridão. Eu estava muito agitada para dormir e então eu levantei eventualmente. Por alguma razão eu precisava estar perto de Growl agora. Estava em silêncio dentro da casa quando entrei no corredor. Minha respiração lenta parecia uma intrusa no silêncio. Fui para o quarto de Growl, mas a porta estava aberta e ele não estava lá dentro. Onde ele estava? Eu escorreguei através da escuridão quando meus olhos registraram uma luz fraca saindo dentro da casa do quintal. Tentei me mover silenciosamente quando me aproximei da porta do terraço. Growl estava sentado na pequena mesa surrada. Uma vela meio queimada em um pires mal iluminava a noite, mas conseguiu lançar sombras misteriosas em seu rosto. Os cães estavam esticados aos seus pés. Eles não reagiram. Ou eles não tinham me notado, o que realmente ~ 129 ~


não os qualificava como cães de guarda, ou eles me consideravam muito desinteressante para uma reação. Growl parecia solitário. No curto espaço de tempo em que o conhecia, aprendi a ler melhor suas expressões, mas ainda não o entendia. Ele procurou se aproximar de mim, estava tentando me tratar bem, mesmo que ele nunca tivesse aprendido como. Alguém já o tratou bem? Exceto por sua mãe, talvez. Eu pensei em voltar para o meu quarto, mas algo me manteve enraizada no local. — Eu sei que você está aí, — Growl disse calmamente. Caminhei em sua direção hesitante. Ele parecia cansado. — Você deveria estar dormindo, — disse ele. — Você também. — Eu não consigo, — ele admitiu. — Nem eu. Nós olhamos um para o outro. — Posso ficar? Growl assentiu. Dei um passo em direção à cadeira livre, então mudei de ideia e fui até Growl. Suas sobrancelhas franziram quando ele me observou. Eu rastejei em seu colo e coloquei minha cabeça para baixo em seu ombro. Ele soltou um fôlego, mas não fez mais nada. Ele era quente e forte. Eu inalei seu cheiro. Não demorou muito para que meus olhos se sentissem pesados. Quando eu estava quase dormindo, senti os dedos de Growl deslizarem sobre meu cabelo. Para cima e para baixo. E então eu adormeci.

***

Eu estava de volta na minha cama quando eu acordei na manhã seguinte, e Growl voltou a ser distante como habitual, quando eu entrei na cozinha e agarrei a xícara de café esperando por mim. — Vou lhe mostrar onde enterraram seu pai — disse Growl sem aviso prévio. Eu congelei. Minha garganta se apertou com emoções e a maior parte da minha raiva se esvaiu. — Você vai? — Minha voz estava trêmula. ~ 130 ~


Growl assentiu, com os olhos quase gentis. — Você deveria ter a chance de dizer adeus. Se isso facilitar as coisas. Eu não tinha certeza se isso era verdade, mas eu estava grata de qualquer maneira. Seus atos de bondade ainda me surpreendiam. Eu não sabia o que fazer com o homem na minha frente. — Você teve a chance de dizer adeus à sua mãe? A expressão de Growl tornou-se ainda mais cautelosa. — Eu a vi morrer, e foi aí que eu disse adeus. Depois disso, eles cortaram minha garganta, e eu tive que lutar por minha vida. Eu ruborizei. Claro. Ele era um garotinho que tinha sofrido horrivelmente. Era difícil imaginar o Growl como qualquer coisa além do homem poderoso e cruel na minha frente. Que ele tinha sido um menino inocente era fácil de esquecer. Eu mudei de assunto. — Quando você vai me mostrar? — Assim que terminar o seu café. — Ele esvaziou sua própria xícara e colocou-a de volta no balcão. Eu dei dois longos goles que queimaram minha língua e garganta, então assenti. — Estou pronta.

***

Dirigimos por um longo tempo até que as luzes chamativas e as ruas lotadas de Las Vegas ficassem bem atrás de nós. A paisagem ficou mais áspera, e cada vez menos sinais de civilização eram visíveis. Rochas subiam ao lado da rua, brilhando vermelho e laranja no sol da tarde. O vale do fogo. Eu só tinha dirigido por ele uma vez antes e foi na noite em que o poder das cores não era visível mais. Apesar de ter vivido em Las Vegas toda a minha vida, eu raramente explorava seus arredores. Minha família nunca tinha sido do tipo de fazer viagens pelas estradas. Nossas férias eram para Aspen, México ou Bahamas. Meu peito apertou bruscamente com as lembranças de nossa última viagem de esqui a Aspen em fevereiro passado. Até mesmo o pai se permitiu um tempo livre suficiente para esquiar conosco, e à noite todos nós nos reunimos em frente à lareira em nosso chalé de esqui. De repente eu não podia mais apreciar a paisagem. Esta viagem era um adeus. Nunca mais passaria férias com minha família inteira,

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nunca viria meu pai esforçar-se para manter o fogo queimando na lareira, xingando enquanto a mãe o repreendia por isso. Eu nem sequer tinha certeza se voltaria a ver minha irmã, e se algo acontecesse com ela, nem minha mãe e nem eu poderíamos viver isso. Eu tive que me forçar a continuar respirando, apesar da tensão da minha garganta. Growl olhou para mim, mas eu o ignorei. Eu não queria falar com ele. Minhas emoções eram um turbilhão, eu mal conseguia entender. Eu duvidava que ele fosse capaz e eu me preocupava que ele tentaria me convencer a não visitar a sepultura de meu pai, afinal. Eventualmente, ele puxou o carro para fora da rua asfaltada e dirigiu ao longo de uma estrada de terra. Nossas rodas rodopiaram pó vermelho que se instalou em uma camada grossa nas janelas. Growl tentou tirar o pó das janelas com os limpadores de para brisa, mas em vão. A vibração do carro enquanto nós dirigíamos sobre solavancos e pedras menores me fez sentir mal, e eu fechei os olhos. Eu não tinha tanta certeza se isso era uma boa ideia depois de tudo. Mas agora era tarde demais para voltar sem ter que me explicar para Growl. Eu não queria parecer fraca. O carro parou e eu olhei para fora. Estávamos no meio do nada. Nem sequer havia uma estrada de terra. Não havia absolutamente nada. — Está aqui — Growl disse com naturalidade. Ele olhou para mim como se estivesse esperando por algum tipo de resposta, mas não havia palavras em mim no momento. Eu acenei com a cabeça apenas para mostrar a ele que eu tinha entendido. Ele abriu a porta e saiu. Eu respirei fundo e pressionei minha palma contra o meu estômago, esperando me acalmar. Sem chance. Saí do carro e o calor bateu em mim como um punho. Como poderia sobreviver alguma coisa aqui? Meus olhos procuraram no horizonte qualquer sinal de civilização, mas nós éramos as únicas pessoas ao redor. — Venha. Está muito quente aqui. Ele se afastou, sem sequer verificar se eu estava seguindo. É claro que ele não precisava se preocupar que eu fosse fugir. Não havia para onde correr para fora daqui. Eu morreria de sede ou calor antes de encontrar outra pessoa. Mas eu percebi então que ele tinha sido menos cauteloso em geral em torno de mim recentemente. Ele começou a confiar em mim.

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Enquanto eu seguia Growl através da areia, outro pensamento de repente me atingiu. E se Growl estivesse cansado de mim e decidisse se desfazer de mim no deserto? Talvez eu tivesse feito muitas perguntas, chegado muito perto da sua zona de conforto? Eu não sobreviveria muito tempo aqui se ele me abandonasse. Ele nem precisava me matar, o deserto o faria. Eu balancei a cabeça. Minha imaginação estava fora de controle. Growl não tinha razão para se livrar de mim. Ele gostava da minha companhia, mesmo que tentasse esconder. Growl levou-me a um lugar rodeado por alguns arbustos secos. Não havia nenhum sinal de uma sepultura. — Ele está lá. — Ele apontou para o chão empoeirado. Eu me agachei ao lado do local e coloquei minha palma contra a areia. Meus olhos chiaram, mas eu não chorei. — Eu realmente pensei que você o teria alimentado aos cães. Growl franziu o cenho. — Não é assim que se deve tratar os mortos. Eu soltei uma gargalhada. — Sério? Você não se importa de matar e machucar as pessoas, mas você se importa com seus cadáveres. — A morte era seu castigo. Não faz sentido contaminar seus corpos. — Eu sei que Falcone já fez isso antes. O pai contou à mãe sobre isso, e até me perguntou quando eu a visitei. Cheguei a ouvir rumores de que ele alimentava os seus cães de briga com os corpos e fazia com que as famílias observassem. — Eu nem sempre concordo com o que Falcone faz. Isso era pelo menos alguma coisa, eu supus. — Você já o viu fazer algo assim? Growl assentiu. — Uma vez. Mas a família não precisava assistir. Falcone sabe que eu não me importo com violência inútil, então ele geralmente não me pede para ficar para assistir. Abaixei meus olhos de volta ao chão. Era difícil imaginar que meu pai estivesse abaixo de mim. O pai tinha conhecia os riscos de seu trabalho, tinha ganhado muito dinheiro com ele, e provavelmente era responsável pela morte de várias pessoas, mas ele não merecia isso. Eu desejei que ele estivesse aqui, então eu poderia ter uma longa conversa

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com ele. Eu não conseguia me lembrar quando tivemos a nossa última. Há muito tempo. — Quando você veio para a nossa casa, você pensou que era precisaria matar meu pai? — Eu não tinha certeza por que isso importava. Eu sabia que Growl era um assassino e que ele não hesitaria em puxar o gatilho. — Falcone não nos tinha dito quem ia matar seu pai. — Mas você sabia que ele o queria morto. — Eu levantei meus olhos para encontrar o dele. Ele me deu uma olhada. — Seu pai traiu Falcone. A morte é a punição para isso. Eu suspirei e me levantei, tirando o pó de minhas calças que estavam cobertas por uma fina camada de areia vermelha. — Você vai ao túmulo de sua mãe? — Perguntei. — Não, — disse ele. Não havia emoção em sua voz. — É apenas seu corpo lá embaixo. E nem me lembro dela muito. Prefiro não ficar no passado. Isso era provavelmente uma necessidade considerando os muitos aspectos escuros de sua vida. — E, até certo ponto, você sabe. Confusão encheu o rosto do rosnado. — O que você quer dizer? — Você deixou o passado determinar quem você é agora, e está ligado a um homem que fez você quem você é hoje. Há muito passado em sua vida. Growl considerou isso. Realmente parecia que minhas palavras estavam chegando até ele. Arrisquei o próximo passo. — Você não quer vingança? Você nunca sonhou em matá-lo? Machucá-lo pelo que ele te fez? Você poderia terminar tudo. Livre-se do seu passado de uma vez por todas. Growl balançou a cabeça. — Eu lhe disse, o que ele fez para mim me fez quem eu sou. Eu não estaria aqui sem ele. Eu não estaria aqui com você sem ele. Ele me deu você e isso é mais do que eu esperava. Por um momento eu não conseguia respirar, não conseguia me mover, não conseguia fazer nada além de olhar fixamente e tentar chegar a um acordo com o que o Growl acabara de dizer. Como poucas palavras poderiam significar tanto para mim? Como poderia algo que

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aquele homem, aquele monstro disse, significar alguma coisa? Parecia impossível, mesmo agora. Ele deu um passo mais perto e escovou um fio de cabelo do meu rosto antes de pegar minha mão na dele. Não era um gesto romântico, mais como se ele precisasse convencer-se de algo, necessário para torná-lo tangível para compreender. — Mas ele dar você a mim, não foi bondade, — disse ele. — Nada como isso. Era cruel e degradante. Ele queria te punir e ele sabia que eu era o tipo de punição que iria quebrála. — Ele soltou minha mão. — Basta olhar para a pele. Sem mácula. Limpa. E olhe para mim. — Ele estendeu os braços, coberto de tatuagens e cicatrizes, bronzeado e musculoso. Sua vida se mostrava em seu corpo. Eu não sabia o que dizer. A auto aversão escorria de todos os poros de seu corpo, e eu não tinha certeza de como lidar com isso. — Falcone esperava que eu fizesse com você o que ele fez comigo. Transformar você em algo horrível. Quebra-la. Eu agarrei sua mão firmemente. — Você não me quebrou, — eu disse obstinadamente. Mas eu não tinha certeza se era verdade. Eu não era a pessoa que eu costumava ser. Alguma parte de mim tinha sido quebrada, não por violência causada por suas mãos e ainda, eu tinha mudado. — Pare de se odiar, — eu disse com raiva. — Você não é impotente. Você é talvez a única pessoa que pode fazer algo contra Falcone. Se você se sente tão mal sobre por que Falcone me deu para você, então me ajude. Você sempre diz que está perdido, que não pode se redimir. Mas isso não é verdade. Você poderia compensar seus pecados ajudando a mim e a minha família. Growl enrolou os dedos sobre a minha mão. — Por exigir vingança — disse ele, curioso. Eu hesitei. — Sim. — Eu estava sendo hipócrita por sugerir algo assim? — Falcone merece a morte. Nós nunca seremos livres com ele por perto. Não só porque ele pode nos dizer o que fazer, mas porque controla o nosso passado, ele o moldou, moldou-nos irrevogavelmente. Growl recuou, soltando minha mão. — Não me peça novamente. Não posso te ajudar. Meu coração afundou. Por um momento, ele realmente pensou em dizer sim. Eu tinha visto isso em seu rosto. Devo continuar tentando

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mesmo que ele me disse para n達o continuar? Ou devo apenas aceitar o que, obviamente, nada poderia ser mudado e esperar que tudo ficasse bem para minha m達e e irm達 de qualquer maneira? Eu n達o poderia dizer mais nada.

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Capítulo dezessete CARA Growl afastou-se de mim nos dias depois da minha visita ao túmulo. Eu o deixei. Eu não sabia o que fazer. Ele não tinha sequer me visitado no meu quarto e eu estava começando a sentir falta disso, sentir falta dele. Deitada acordada em minha cama, eu escutava cada som lá fora. Growl tinha saído novamente sem uma explicação depois de escurecer, e eu estava aterrorizada neste bairro assustador em ficar sozinha à noite. Eventualmente, quando cada rangido me fazia pular, eu saía da cama. Saí do quarto e parei no corredor escuro, ouvindo o som de patas no chão, mas não havia nada. Talvez Growl tivesse deixado os cachorros dormirem em seu quarto. Eu fui em direção a ele, mas atrás da porta estava quieto. Eu caminhei na ponta dos pés na sala de estar. Estava escuro lá também. Somente a luz da lua escura que fluía através das janelas permitia meus olhos enxergarem qualquer coisa lá fora. Do lado de fora eu podia ouvir os gritos ocasionais ou uma sirene à distância, sons que pareciam encher todas as noites nessa área. Eu não tinha certeza por que Growl escolheu viver aqui. Como ele podia suportar isso? Ou talvez a desesperança e a brutalidade que enchiam tantas casas na rua fosse algo familiar para ele, algo que ele podia entender. Um movimento no canto me deixou tensa. Então meus olhos viram a cabeça de Coco e, ao lado dela, a de Bandit. Os cães estavam me observando, mas eles não se mexiam de seus lugares de dormir. Eu não queria voltar para o meu quarto. Eu estava tão cansada de me sentir sozinha todo o tempo, de estar sozinha com meus pensamentos, medos e preocupações. Caminhei até o sofá e afundei-me. Coco levantou-se do cobertor e trotou em minha direção. Eu não estava exatamente mais com medo dos cães, mas às vezes eles ainda me deixavam nervosa, especialmente Bandit, eu não podia ler seus movimentos muito bem, uma vez que minha família nunca teve animais de estimação. Mas agora

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Coco não parecia de mau humor. Ela parou ao lado de minhas pernas e colocou a cabeça grande no meu joelho, olhando para mim com expectativa. Levantei minha mão com cuidado, não querendo assustála, e segurei-a em frente ao nariz para que ela pudesse cheirar como Growl tinha me mostrado no começo. Coco não fez, entretanto, ela lambeu minha mão. Sua língua era quente e áspera, mas contra minha expectativa não era nojenta, embora a ideia de todos os lugares que a língua tinha estado antes não era reconfortante. A respiração morna do cão na minha pele e aquele sinal óbvio de ternura trouxeram lágrimas aos meus olhos. Eu gentilmente passei minha mão por suas macias orelhas e cabeça, e ela deixou escapar uma respiração profunda. Eu não pude deixar de sorrir. Estiquei-me no sofá e bati no estofado ao meu lado. Coco não hesitou. Ela se levantou e se deitou ao meu lado, seu corpo musculoso pressionado contra mim. Eu acariciei o comprimento de suas costas, saboreando a sensação de seu corpo quente ao meu lado. O som de garras na madeira me fez levantar a cabeça, bem a tempo de ver Bandit pular do chão e pousar no sofá aos meus pés onde ele se enrolou, suas costas pressionadas contra a curva dos meus joelhos. Eu sabia que estaria segura com eles, e os ruídos assustadores do lado de fora deixaram de me incomodar. Com seus corpos me aquecendo, o sono rapidamente caiu sobre mim.

***

Eu não tinha certeza do que me acordou, mas quando eu abri meus olhos, o sol tinha acabado de sair do lado de fora. Coco e Bandit ainda estavam aconchegados em mim; o que era provavelmente a razão por que eu não estava com frio, embora não tivesse um cobertor. Eu tinha dormido sem pesadelos, algo que não acontecia em um tempo. Coco levantou a cabeça para olhar algo atrás de mim. Olhei por cima do meu ombro e encontrei Growl encostado no batente da porta, observando-me e os cães. — Eles geralmente não aquecem as pessoas facilmente. Eles devem realmente gostar de você para dormirem ao seu lado desse jeito.

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Sentei-me, o que não era fácil, já que Coco e Bandit estavam tão perto de mim. Ambos os cães me deram o que eu só poderia chamar olhares reprovadores, porque eu perturbei o seu sono, mas finalmente meus pés descalços atingiram o chão e eu estava sentada. — Talvez eles estivessem solitários. — Por que eles estariam? Eles não estão sozinhos. Eles têm um ao outro e eu não os deixo sozinhos muito frequentemente. — Só porque alguém não está sozinho não significa que ele não está solitário — eu disse calmamente. Growl procurou meu rosto. — Você está solitária? — A intensidade de seu olhar me fez querer se esconder. Em vez disso eu abaixei meu olhar para Coco e me levantei. Ouvi Growl vir atrás de mim. Sua mão roçou meu ombro, depois garganta. — Às vezes, — eu admiti. — Esta casa não é um lugar onde é fácil se sentir em casa. As pontas de seus dedos rastrearam minha clavícula e o toque levantou arrepios em minha pele. Ele não disse nada, nem eu. Lentamente, sua mão deslizou debaixo da minha camisola até que seus dedos roçaram meu mamilo. Eu tremi com o formigamento que percorreu meu corpo. Sua mão segurou meu peito e apertou levemente. Um pequeno gemido deslizou para fora da minha boca. Growl fez um movimento com a outra mão e ambos os cães pularam do sofá. A outra mão de Growl juntou-se à sua primeira e agarrou meu outro peito. Ele girou meus mamilos entre as pontas dos dedos. Ele puxou um pouco mais e a dor se misturou com a luxúria. Minhas pernas se separaram quando a pressão e o calor entre elas se tornaram quase insuportáveis. Eu queria que ele me tocasse ali, queria que ele elevasse minha necessidade. Ele inclinou-se para baixo, enganchando-me entre seus braços musculosos e deixando uma mão deslizar para baixo sobre o meu estômago e através de meus cachos. Eu tremi novamente e abri minhas pernas um pouco mais amplas. Depois de dias sem o seu toque, meu corpo estava praticamente sedento por isso. O que eu estava fazendo? Quando eu choramingar por seu toque? Quando eu completamente a resistência? Growl mergulhou centro apertado, me fazendo gritar. Ele torceu meu

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tinha começado a tinha abandonado um dedo em meu mamilo novamente e


eu gemi alto. Minha cabeça caiu para trás e pousou em seu ombro. Eu já estava tão molhada, e quando Growl puxou meus mamilos no ritmo com seu dedo empurrando em mim, eu quase desmoronei. Lutei contra o meu orgasmo. Eu não queria dar a ele a satisfação de me fazer gozar depois de um minuto de que ele começou a me tocar. Sua respiração estava quente contra a minha garganta enquanto lambia o ponto sobre meu pulso cardíaco, então puxou a pele em sua boca e sugou. Eu mordi meu lábio inferior, esperando que a dor me acalmasse. Ele soltou minha pele, então deixou seu nariz escovar minha garganta até o ponto atrás de minha orelha. Ele soltou meu peito e um baixo som de protesto pressionou entre meus lábios. Growl ronronou profundamente e o som me fez tremer de prazer. Sua palma segurou minha bochecha e ele inclinou meu rosto para o dele, então esmagou seus lábios contra os meus. Sua língua conquistou minha boca. Ele tinha gosto de café fresco e sua boca estava incrivelmente quente, tudo sobre ele era. Ele soltou a mão do meu rosto e a devolveu ao meu peito, continuando seus cuidados. Meu mamilo se sentiu quase cru de sua torção, mas ele se sentiu muito vibrante, muito bom para pedir-lhe para parar. Um segundo dedo juntou-se ao primeiro. Eu exalei, acostumando-me à plenitude novamente, mas Growl não me deu muito tempo. Ele estabeleceu um ritmo rápido e forte. Reivindicou minha boca e peitos e vagina, meu corpo inteiro. Minhas pernas começaram a tremer enquanto a pressão aumentava cada vez mais, e então eu explodi. Ondas de luxúria se espalharam pelo meu corpo a partir do meu núcleo. Arqueei do sofá e chorei na boca de Growl. Ele empurrou seus dedos ainda mais duro em mim e deu um puxão final do meu peito. Eu me encostei contra ele, completamente exausta e sem fôlego. Growl puxou a mão dele e uma sensação de frio me venceu na falta de seu toque. Mas Growl apareceu ao lado do sofá. Ele desabotoou suas calças e as deixou escorregar pelas pernas. Seu pênis ereto saltou livre, já brilhando. Ele segurou a parte de trás da minha cabeça e eu deixei que ele me guiasse em direção a seu pênis, separando meus lábios enquanto sua ponta os roçava. Growl segurou-me no lugar enquanto ele fodia minha boca. De repente, o desejo de ter mais controle superou-me e eu o empurrei para trás. O aperto na parte de trás da minha cabeça apertou brevemente, mas então ele me soltou, confusão piscando em seu rosto antes de ser substituído por uma expressão neutra. No momento em que ele deixou cair a mão da minha cabeça, me deixando livre, eu me inclinei para frente e o levei para minha boca novamente. Surpresa encheu seus olhos, depois pura

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luxúria. Eu girei minha língua em torno de sua ponta, então puxei de volta outra vez para correr minha língua de sua base até sua ponta. Enrolei meus dedos em torno de seu comprimento e movi-o para cima e para baixo lentamente, tentando descobrir como se mover. Growl me observou enquanto eu lambia suas bolas. Eles se apertaram e uma nova gota apareceu na ponta de seu pênis, me encorajando ainda mais. Uma das minhas mãos cobriu seu traseiro duro. Os músculos se dobraram sob minha palma. A sensação de sua força me deu uma emoção. Como poderia seu poder me intimidar em todas as outras situações, mas me transformar no momento em que fazíamos sexo? Eu desliguei meu cérebro. Eu não queria pensar, só queria sentir. O sexo era o único momento em que sentia algo parecido com liberdade e a felicidade. Talvez estivesse errado, mas eu estava determinada a me agarrar a qualquer coisa que me ajudasse no futuro próximo. Eu bombeei seu comprimento rápido e trabalhei a ponta entre meus lábios. Logo Growl começou a bombear ligeiramente, dirigindo-se mais profundo em minha boca. Eu o soltei e então ele ficou tenso, deixando escapar um som gutural. Eu tentei engolir tudo, mas algumas gotas correram pelo meu queixo. Growl me levantou e reclamou minha boca para outro beijo. Eu o beijei de volta, querendo que ele se provasse como eu. Quando ele se afastou, estávamos ambos ofegantes e suando. Growl soltou meus ombros e deu outro passo para trás, bem desse jeito construindo uma parede entre nós novamente. — Vamos tomar o café da manhã. Estou morrendo de fome. — Sua voz era ainda mais profunda do que o normal. Seus olhos seguraram os meus por alguns segundos mais. Ele queria dizer algo, estava claro em seu rosto, mas então ele se virou e foi para a cozinha. Eu nem sabia o que eu estava esperando exatamente. Às vezes eu não tinha certeza do que eu queria. No começo tudo tinha sido sobre fazer Growl confiar em mim para que eu pudesse usá-lo para meus propósitos, mas agora havia mais. Eu não deveria esperar por algo que nunca iria acontecer. E o que era ainda mais importante: eu não deveria desejar algo que era tão errado. Eu não podia me permitir esquecer por que eu estava aqui, mesmo se fingir tornasse a vida mais fácil. Mas eu era uma prisioneira. Growl era praticamente meu dono, e mesmo se ele alguma vez decidisse me deixar ir, o que eu duvidava que ele alguma vez fizesse, ninguém no nosso mundo me tocaria depois que eu estive com o Growl, muito menos casaria comigo. Eu estava manchada. Não servia como um bom partido. Eu nunca poderia voltar para a sociedade. Las Vegas estava

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morta para mim. Recostei-me no sofá. Uma onda de solidão estava prestes a arrancar seu caminho para fora do meu peito novamente. Eu peguei Coco olhando para mim. Ela parecia confusa. — Eu também não entendo nada disso — sussurrei. Ela inclinou a cabeça para o lado. Um pequeno sorriso puxou meus lábios para sua confusão. Eu empurrei para fica de pé. Eu não ia me afogar em auto piedade. Não era como se eu precisasse ou quisesse o carinho ou a proximidade de Growl. O sexo era um meio para um fim. Isso me ajudou a me sentir melhor e me ajudou a entender Growl melhor. Se eu quisesse uma chance de manipulá-lo para me deixar ir e ajudar a minha família, eu teria que usar todos os truques que eu tinha.

GROWL Seus cães não gostavam de seres humanos. Mesmo ele teve que lutar por muito tempo para que confiassem nele. Mas Cara, eles pareciam amá-la. Se os cães fossem mesmo capazes de ter esse tipo de emoção. Growl estava certo de que a maioria dos humanos também não. Eles gostavam da ideia do amor, mas nunca chegaram a esse nível com alguém. Amor. Uma noção tola. E perigosa. Coisas horríveis tinham sido feitas em nome do amor. Ou a ideia disso. Growl não pensou que ele já tinha sentido algo parecido. Pelo menos ele não conseguia se lembrar. Talvez ele tivesse amado sua mãe quando ele era pequeno. Ele tinha conseguido uma cicatriz por isso. Amor. Não era algo que pudesse compreender. Cara. Aquela mulher. Ele sentiu algo. Mas ele não sabia o que era. Nunca se sentira assim antes.

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Ela o fez querer tratá-la bem. Ela o fez querer ser melhor. Ela o fez querer tantas coisas que ele não deveria querer. Ela era perigosa para ele, para a vida que tinha construído, para a pessoa em que se tornara. Ela queria que ele fosse contra Falcone, contra tudo o que ele tinha trabalhado tão duro para conseguir. Era por isso que ela deixava que ele a tocasse e por que ela às vezes sorria para ele, por que ela falava com ele e aceitava sua proximidade. Não poderia haver outra explicação. Ele sabia disso, e ainda assim ele era como uma mariposa atraída pela luz dela. A única luz que já havia penetrado na escuridão que era ele e sua vida.

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Capítulo dezoito CARA — Há algo que você precisa saber. — Growl inclinou-se contra o balcão da cozinha como ele frequentemente fazia. Ele quase nunca se sentava, como se ele sempre quisesse estar preparado para correr. Embora em seu caso o ataque fosse provavelmente mais exato. Mas seu olhar me preocupava. Algo me disse que não gostaria do que ele tinha a dizer. — Ok, — eu disse lentamente. — O que é? — Tantas coisas horríveis haviam acontecido nas últimas semanas, não havia muito que poderia me devastar, e então o medo me atingiu. — É sobre minha mãe ou irmã? Falcone decidiu que não precisa mais delas? Growl franziu a testa como se não pudesse imaginar como eu poderia ter tirado essa conclusão. Talvez a preocupação com os outros fosse algo totalmente estranho para ele. — Não, — ele rosnou. — É sobre o seu noivo. — Duvido que ele ainda seja meu noivo — murmurei. Quem iria me querer depois de tudo o que tinha acontecido? Eu era uma piada em nossa sociedade. O rosnado de Growl se aprofundou. — Ele não é. Você está certa. Seu olhar estava começando a me perturbar, o que era surpreendente considerando que, no começo, tudo sobre ele me perturbava. Aparentemente agora eu precisava de uma razão adicional para me sentir desconfortável em sua presença. — Bom, — eu disse com firmeza. — Eu não gostaria de me casar com ele de qualquer maneira. Dúvida cruzou o rosto de Growl. — Por quê? — Ele ressoou. Havia algo em sua voz que eu não conseguia colocar.

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Eu bufei. — Por quê? Você realmente precisa perguntar? Growl permaneceu em silêncio, aquela mesma expressão estoica em seu rosto. — Ele traiu meu pai para melhorar sua própria posição. Ele traiu minha família. Ele me traiu. Eu não quero um homem assim. Um homem que só olha para seu próprio umbigo, que não se importa com quem ele destrói para alcançar seus objetivos. Eu não quero um homem em quem eu não possa confiar. Ele é um porco, e eu gostaria de poder cuspir em seu rosto. — Você terá sua chance — disse Growl. Eu parei. — O que você quer dizer? Growl ignora a minha pergunta. — O que preciso dizer é que Cosimo e sua amiga vão se casar. Eu não tinha certeza se eu tinha ouvido corretamente. — Minha amiga? — Aquela menina Anastasia. Falcone me disse ontem à noite. Eles anunciaram seu noivado ontem. Eu não conseguia me mexer. Se isso era um pesadelo, eu queria acordar agora. — Você tem certeza? Growl assentiu com a cabeça. — Cosimo tem uma posição de poder agora. Ele precisa de uma esposa e de um herdeiro. Eu ri com amargura. — Não demorou muito para encontrar uma nova mulher para se casar. — Eu odiava como a notícia me fez se sentir. Apesar do meu ódio por Cosimo, senti-me esmagada. Não porque eu queria casar com ele, mas porque isso fazia minha vida como era agora, ainda mais de uma realidade. Não havia volta. A mudança era irrevogável. E Anastasia, como ela pode fazer isso? Eu sempre soube que Anastasia poderia ser viciosa e egoísta, mas nós éramos amigas desde que nós poderíamos andar. Tínhamos experimentado tantas coisas juntas. Isso não significava nada? Como minha amiga pode fazer isso? Anastasia sabia de tudo? Será que talvez ela já soubesse disso na festa de Falcone? Talvez isso explicasse por que ela parecia tão puta quando eu tinha dançado com Cosimo. Não, não poderia ser.

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Eu não queria acreditar que minha amiga não teria me avisado. Parecia cruel. Mais cruel do que o que Anastasia era capaz de fazer. Ela gostava de conversas fúteis e destruir a reputação das pessoas, mas este era um assunto diferente. Talvez Anastasia fosse uma vítima. Talvez seus pais e Falcone a tivessem obrigado a se casar com meu ex-noivo agora que eu já não era elegível. Afinal, Anastasia tinha a mesma idade que eu e era de uma boa família. Eu queria acreditar nisso. Mas o olhar que Cosimo e Anastasia trocaram na festa brilharam em minha mente. Havia algo como familiaridade entre eles. Ou eu estava pensando muito nisso agora que eu sabia de seu noivado. Eu não estava no estado mental adequado para pensar com clareza, então eu empurrei a imagem para longe. Eu não era capaz de suportar a ideia da traição horrível da minha amiga. Não, desde que eu não soubesse todos os fatos. Não fazia sentido eu percorrer todas as possibilidades. Growl ainda estava me observando. Eu não tinha certeza de quanto tempo eu estava perdida em meus pensamentos e eu esperava que meu rosto não tivesse entregado muito de meu tumulto interior. — Isso não me preocupa mais, — eu disse. — Não é como se eu ainda fosse parte de seu círculo. — Por quê você diria isso? Ele estava falando sério? — Oh vamos lá. Mesmo você deve perceber o que está acontecendo em nossa sociedade. Mesmo se você não se importa com nada disso. Existem regras. E eu sou tão boa quanto exilada. — Porque você está comigo. — Havia dor em sua voz. Seu rosnado constante tornou ainda mais difícil ouvir as nuances de suas emoções. Eu apertei meus lábios. Eu o ofendi? — Com você? — Eu perguntei curiosamente. — Você faz parecer que somos um casal quando eu sou apenas seu presente. Growl assentiu. — Você era. Mas agora que você é minha, você tem o mesmo status que eu tenho. — Isso não é verdade, — eu disse, frustrada por sua falta de compreensão. Será que ele realmente pensava que qualquer parte da vida que eu tinha antes poderia sobreviver? Eu tinha feito o melhor do meu destino, mas isso não significa que eu teria escolhido.

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Growl parecia frustrado como eu me sentia, mas eu não me importava. Eu não tinha energia para explicar nada a ele. Às vezes, sua deficiência para entender os relacionamentos humanos me deixava louca. — Talvez você não seja tão especial como antes — disse Growl, a palavra especial como uma maldição de seus lábios. — Mas você é parte deste mundo. Eu olhei para o balcão. — Eu não quero mais fazer parte deste mundo. — Isso não depende de você. Somos convidados para a festa de noivado de Cosimo e sua amiga — disse Growl. Minha respiração engatou e meus olhos voaram para olhar para Growl. — Você não pode estar falando sério. Ele olhou fixamente. Ele obviamente não estava brincando. — Eu não vou — eu disse, minha voz tremendo. Coco trotou para mim e descansou a cabeça no meu joelho. Eu coloquei minha palma sobre sua cabeça macia, mas não consegui me acalmar. Até Bandit viera da sala para me observar com olhos curiosos. — Sim, você vai. Falcone nos quer lá, então estaremos lá. — Eu não me importo com o que ele quer. Eu o odeio. E ele só quer me humilhar de qualquer maneira. Todo mundo sabe que Cosimo era meu noivo e que Anastasia é... era minha amiga. Todos vão rir de mim. Eu só podia imaginar a humilhação que eu seria submetida. Eu não pensei que eu poderia suportá-la. — Ninguém vai rir de você quando estiver ao seu lado, — disse ele em voz baixa. Eu parei. — Por que você se importa? — Você é minha, e eu não vou deixar ninguém falar merda sobre algo que pertence a mim. Claro. Era uma coisa do ego. Ele não se importava comigo. Ele só queria ter certeza de que as pessoas lhe mostraram o respeito necessário e que incluíam respeitando seus pertences. Eu queria gritar de frustração, mas eu o mordi de volta. Esta festa era a minha chance de pedir aos meus amigos por ajuda. Nós nos conhecíamos ~ 147 ~


praticamente por toda as nossas vidas. Agora que Growl tinha deixado claro que ele não iria me ajudar contra Falcone, eles eram provavelmente a minha última chance.

***

Eu tinha temido este dia desde que Growl tinha me dito há dois dias, mas eu prometi manter a cabeça erguida. Eu era mais forte do que costumava ser. Eu passaria por essa festa. Growl estava de pé na sala, puxando o colarinho da camisa com uma mão enquanto um laço se enroscava na outra. Era óbvio que ele se sentia incômodo vestido assim. Não era quem ele era. Colocá-lo em um terno era como colocar um tigre em uma gaiola. Na festa de Falcone, ele escondia seu desconforto por trás de uma máscara de indiferença, mas agora, num momento em que pensava que estava sozinho, suas defesas estavam perdidas. Não era a primeira vez que eu via um vislumbre de algo humano. Foi desconcertante porque eu não queria vê-lo como qualquer coisa além de um monstro. Ele tornou as coisas mais fáceis. Eu não queria arriscar realmente esperar por algo que era absolutamente irreal. Growl colocou a gravata em volta do pescoço dele e depois se atrapalhou por um minuto com ambas as extremidades até que ele fez um som de frustração e jogou a gravata no chão. Era provavelmente por isso que ele não tinha usado gravata na última festa. Um pequeno sorriso puxou meu lábio e eu me aproximei. — Você precisa de ajuda? Os olhos do Growl lançaram-se para mim, parecendo consternado. Então eles lentamente deslizaram para baixo, me olhando. Poucos momentos antes eu me senti mal porque o vestido não era novo, porque todo mundo sabia que eu tinha usado antes, mas agora, com a maneira que Growl olhou para mim, de repente não importava muito. Eu rapidamente desviei o olhar, assustada com a forma como sua expressão me importava, e apontei para a gravata no chão. — Você pode fazer um nó? — Ele perguntou com uma pitada de surpresa.

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— Claro, — eu disse enquanto caminhava em direção a ele. Seus olhos seguiam cada movimento. Muitas vezes eu tinha problemas para ler suas expressões, mas agora não havia necessidade de adivinhar: luxúria e apreço. Isso enviou uma emoção através do meu corpo. — Você parece uma dama, — ele murmurou.

GROWL Seus movimentos eram pura graça. Não havia nada mundano, nada barato sobre Cara. Ela era uma menina nascida para ser uma princesa e agora ela tinha sido degradada a ser uma simples serva. Talvez Falcone tivesse querido tirar tudo dela, mas isso, sua educação, sua beleza e graça, isso ele não podia tirar. Talvez ele tivesse esperado que a quebrasse tão irrevogavelmente que se tornaria outra pessoa, que perderia aquela parte de si mesma. Mas ele não fez isso. Ele era um monstro. Sempre seria. Mas ele podia apreciar algo precioso, algo tão valioso quanto Cara, e ele nunca iria destruí-la. Ele não era bom, não havia nada de cinza nele. Ele era todo negro, mas ele estava tentando ser bom para ela. Nunca seria tão bom quanto ela merecia, mas tão bom quanto ele era capaz. Não era suficiente, ele percebia isso todos os dias. Ele nunca seria suficiente. Ela pegou a gravata e se aproximou dele, seu aroma doce e florido enchendo seu nariz e fazendo com que ele quisesse enterrar seu rosto em seus longos cabelos castanhos. Seus dedos longos e elegantes amarraram delicadamente o nó. Dedos destinados a segurar copos frágeis de Champanhe e ser decorado por apenas as melhores joias. Ela alisou a gravata quando terminou. Não houve hesitação ou hesitação. Ela foi feita para ser a esposa de um homem que usava ternos todos os dias. Growl às vezes se surpreendia imaginando se ela estaria imaginando ser a mulher de Cosimo, amarrando o nó de manhã e cumprimentando-o com um beijo quando ele voltasse à noite. Ela admirava seu trabalho, então olhou para ele com seus olhos azuis. — Feito.

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Nunca se sentira menos digno do que naquele momento. O vestido que ela usava era perfeição sobre ela, como se tivesse sido feito para ela. Ela foi feita para coquetéis e recepções elegantes. Ele foi feito para pubs sujos e clubes de beco escuro. Seus caminhos nunca teriam cruzado se não fosse pela vingança de Falcone. O sofrimento de Cara tinha levado à coisa mais preciosa na vida de Growl, e ainda assim ele não podia se arrepender. Ele era egoísta. Ele estava feliz por ter tido a chance de ter alguém como ela. Ele olhou para o relógio. — Precisamos sair. Cara bateu um dedo no vidro do relógio. — Eu não teria atrelado você como um tipo vestindo um Rolex — ela disse curiosamente. — Eu não sou. O relógio pertencia a Falcone e ele deu-me como presente por um trabalho bem feito. A expressão de Cara tornou-se pedra, com os olhos brilhando. — Como eu. — Um sorriso amargo tirou seus lábios vermelhos perfeitos. — Mas eu não sou tão valiosa quanto aquele pedaço de metal em torno de seu pulso. — Você vale mais do que qualquer coisa que eu algum dia possuí ou que possua.

CARA Ele quis dizer isso como um elogio, mas as palavras pungiam mesmo assim. Ser comparada a um relógio, mesmo se você o ganhou no final, não era algo que eu gostava. Eu sabia que ele não conseguia entender o efeito que sua comparação teve comigo. Ele estava tentando ser gentil comigo, e isso ainda me surpreendia todos os dias. Houve um momento de silêncio antes de Growl limpar a garganta, um som áspero e profundo. — Não devemos nos atrasar. Eu balancei a cabeça. Eu não me importava se estivéssemos atrasados. Tudo em mim gritava com a mera ideia de ir àquela festa,

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mas eu tinha que manter minha calma se eu quisesse passar a noite sem um completo constrangimento. Growl dirigiu-se para a porta e destrancou-a. Bandit e Coco nos acompanharam até o batente e nos viram fechar a porta com olhos acusadores. Deixei meu olhar vagar pelo bairro. Um casal de idosos negros estava sentado na varanda de duas casas. Eu nunca os tinha visto antes e eles observavam também um acervo considerável para esta área. Talvez tivessem vivido aqui toda a sua vida e só nos últimos anos tudo tinha ficado esgotado. Suas cabeças viraram nosso caminho quando Growl e eu caminhávamos em direção a seu carro. Nós estávamos provavelmente fazendo uma grande aparição vestidos em nossos melhores trajes para noite. Pessoas por aqui geralmente não tinham ocasiões para se vestir. Growl assentiu com a cabeça e eles balançaram a cabeça, mas depois rapidamente viraram a cabeça para longe. Para minha surpresa Growl abriu a porta de seu carro para mim e eu subi, com cuidado para não atolar a bainha do meu vestido na porta. Eu juntei minhas mãos no meu colo e comecei a esfregar uma contra a outra quando Growl saiu da entrada. Meus dedos estavam gelados apesar do clima ameno. Quando esfregar não ajudou, eu os levantei para o meu rosto e soprei ar quente em minhas palmas. Growl virou os olhos para longe da rua para olhar para mim. — O que você está fazendo? — Nada, — eu disse rapidamente. Growl agarrou uma das minhas mãos, me assustando. — Você está com frio, — ele disse surpreso. — Tem sido assim o dia todo. Provavelmente nervos. — No momento em que as palavras saíram da minha boca, lamentei-as. Eu não queria muito admitir isso para Growl. — Nervos? — Fiquei feliz quando ele finalmente não teve escolha senão voltar sua atenção para a rua. — Ninguém vai te machucar. Eu ri sem humor. Não fisicamente, talvez. — Isso não é o que eu estou preocupada. Só não quero ver Cosimo e os outros. — Por quê?

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Muitas vezes eu esquecia o pouco que Growl sabia da natureza humana. Ele me lembrou de alguém que cresceu em torno de animais e agora tinha que descobrir como as interações humanas trabalhavam. — Porque me lembra tudo o que eu perdi, — eu admiti finalmente. Growl franziu o cenho para a rua. — Você o amava? — Seus lábios se torceram com a palavra, como se ela deixasse um sabor amargo em sua boca. — Você ama Cosimo? Havia uma sugestão de algo duro e escuro em sua voz. E desta vez eu peguei a emoção escondida por trás de sua frieza. Vulnerabilidade e mágoa. Eu balancei a cabeça. Amor? Eu não sabia nada de amor. — Não. Eu nunca quis casar com ele. Mal o conhecia. Meus pais o escolheram para mim. — Meu pai. Mas dizer seu nome em voz alta era demais esta noite. Eu não chegaria àquela festa horrível com os olhos cheios de lágrimas. Eu não daria a nenhum deles essa satisfação. — Então por que você está triste, por você o ter perdido e que ele vai se casar com aquela garota? Eu estava triste? Não por ter perdido Cosimo. Eu não poderia me importar menos com ele agora, depois de tudo. Fiquei triste embora. Mas era apenas uma pequena parte das emoções que eu sentia. Com cada segundo que passava, uma emoção mais sombria, crescia mais forte em mim. Ódio. E o desejo de vingança. — Eu não estou triste, não sobre perder ele. Se eu só o tivesse perdido... — Eu ri. — Deus, isso seria esplêndido. Mas eu perdi tudo. — E triste? Não. — Eu disse calmamente. — Estou furiosa. Quero que sofram. Eu quero que eles se arrependam do dia em que decidiram matar meu pai e destruir minha família. Cosimo, Falcone e todos os outros que estavam envolvidos nisso. Growl assentiu, como se fosse uma emoção que ele pudesse compreender. Ele nem sequer se ofendeu que minha lista possivelmente o incluísse também. Ele tinha sido parte do ataque à minha família, mesmo que ele não fosse o chefe da operação, apenas a mão brutal de Falcone. — Não diga nada disso na festa — Growl grunhiu. — Eu não sou idiota. Eu não vou dizer nada disso. — Mas eu me lembrei da última vez que vi Falcone e como eu o desafiara. Meu ódio ~ 152 ~


por ele só havia crescido desde então. Parar de tentar arranhar seus olhos para fora ou melhor ainda cortar sua garganta com uma faca de ostra seria difícil. — Eu sei que você não é estúpida. Mas a estupidez não tem nada a ver com isso. As emoções seguem suas próprias regras. Como você saberia? Eu queria perguntar, mas mantive as palavras para mim. Por mais ridículo que possa parecer, Growl era talvez o único refúgio naquela festa de hoje à noite. Eu não tinha certeza do que esperar de Trish e Anastasia, embora eu esperasse que ainda seríamos amigas e elas me ajudariam.

***

A casa de Cosimo era menor que a de Falcone, mas ele também tinha uma fonte em sua entrada, embora menor que a de Falcone. Quando Growl e eu entramos na casa, cada par de olhos nos observava. A conversa morreu, só para retornar um momento depois, mas desta vez atrás de mãos levantadas e com olhares roubados em minha direção. Todo mundo estava falando sobre mim. O calor subiu em minha cabeça, mas eu me forcei a ficar de pé e parecer relaxada, apesar da vontade de fugir. Growl colocou a palma da mão contra a parte inferior das minhas costas e por um momento o gesto realmente conseguiu me relaxar, mas as pessoas rapidamente notaram o toque e eu quase podia ouvir suas palavras desagradáveis. Eu tomei um pequeno fôlego e deixei Growl empurrar-me mais para dentro da sala. Pequenas mesas com aperitivos estavam distribuídas no grande área de estar e de jantar. Supus que Cosimo tivesse escolhido o mesmo fornecedor de Falcone. Ele parecia muito interessado em imitar seu chefe em todos os sentidos possíveis de qualquer maneira. E embora tudo parecesse uma cópia barata da festa de Falcone, eu me peguei querendo ser a anfitriã. Era para ser a minha festa de noivado. O dia mais feliz da minha vida, pelo menos para as aparências. E agora… Meus olhos registraram Anastasia e Cosimo no final da sala, perto de um enorme refrigerador de Champanhe dourado. Anastasia usava um novo vestido prata longo, que a fazia parecer uma princesa. E ao seu lado estava Cosimo de terno escuro, um braço em volta da cintura de sua noiva. A bile subiu em minha garganta e o sorriso engessado no

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meu rosto se tornou doloroso. Eu precisava de algo para beber. Algo forte. Growl parecia ler minha mente porque um momento depois, um copo com vinho tinto apareceu na frente do meu rosto. As outras mulheres bebiam champanhe ou vinho branco, então fiquei surpresa com sua escolha. — Vinho tinto é suposto para acalmar as pessoas. Talvez você também. Eu poderia ter o beijado então. Eu nunca teria esperado algo tão prestativo de um homem como ele. Mas meu momento de paz foi curto enquanto caminhávamos em direção a Falcone, que agia como se fosse o anfitrião daquela noite, fazendo grandes gestos com seus braços e rindo mais alto, enquanto as pessoas reunidas ao seu redor tentavam agir como se ele realmente estivesse dizendo algo engraçado. Eu tomei um grande gole de vinho, rezando para acalmasse rapidamente antes de fazer algo que me impedisse oportunidade de ver minha mãe e minha irmã novamente. poderia me perder hoje à noite. Haveria tempo para vingança mas não nessa festa.

que me de ter a Eu não um dia,

O aperto de Growl nas minhas costas se contraiu quando paramos na frente de Falcone como se ele estivesse tentando me avisar. — Bela festa, chefe — comentou Growl. Falcone sorriu amplamente. — Não é minha festa, infelizmente. Cosimo fez um bom trabalho. Ele está tentando impressionar sua pequena dama. — Finalmente, seus olhos frios se fixaram em mim, triunfante e provocante. Meus dedos se apertaram no meu copo, mas forcei meu rosto a permanecer calmo. Eu duvidava que tivesse sucesso. Praticamente cada centímetro de mim estava queimando de ódio, com a necessidade de fazer esse homem na minha frente sofrer. — Espero que você esteja tão feliz por sua amiga e Cosimo como todo mundo, — disse ele falsamente. Diga algo. Diga algo. Mas tudo o que eu conseguia pensar era se era possível esmagar o copo e cortar a garganta de Falcone com um dos cacos antes que qualquer um dos homens ao nosso redor viesse em sua ajuda. Growl provavelmente seria o primeiro a salvar seu chefe.

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— Estou feliz, — eu me forcei a dizer, mas as palavras soaram falsas até mesmo para meus próprios ouvidos. Falcone zombou, depois voltou-se para Growl. — Estou surpreso que você conseguiu se arrancar da cama. Mas mesmo você, meu Touro, precisa de uma pausa de vez em quando, hein? — Falcone bateu palmas no ombro de Growl em um gesto destinado a amigos. — Espero que você ainda esteja satisfeito com seu presente. Caso contrário, ainda há outra irmã para você tentar, se você se cansar deste presente. — Talia? Onde ela está? — Eu exclamei antes que eu pudesse me controlar. A expressão triunfante no rosto de Falcone dizia que tinha conseguido o que queria. Ele sabia exatamente onde apertar meus botões. Ele não me daria as respostas que eu queria. Growl me apertou em advertência novamente, mas era tarde demais. Apertei meus lábios e tive que lutar contra as lágrimas. Falcone era um monstro pior do que Growl. — Não vou me cansar de Cara — disse Growl. O sorriso de Falcone virou-se lascivo quando seu olhar percorreu o meu comprimento. — Isso é bom, não é? Talvez eu devesse tê-la mantido para mim, então. — Ele riu. Growl não disse nada. Seu rosto era de pedra, e seu aperto na minha cintura doloroso. Olhei para Falcone, esperando que ele pudesse ver a promessa em meus olhos. Você vai morrer. Seu sorriso se alargou apenas, mas a minha determinação estava definida. Eu não iria parar até que o homem estivesse deitado aos meus pés, morto. Eu odiava o sangue e a morte, mas eu assistiria a cada segundo, enquanto a vida drenava de seu corpo e o apreciava. Growl parecia sentir o crescente perigo. — Nós precisamos ir para o casal feliz agora. — Sim, você deveria, — Falcone disse, mas seus olhos nunca me deixaram. Estremeci quando tínhamos andado alguns passos longe dele. — Você precisa ter mais cuidado — murmurou Growl.

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Eu olhei para ele. Seu olhar estava posto em frente, expressão rochosa. As pessoas o observavam com medo e repulsa, mas ele não se importava. O único homem que podia controlar Growl era Falcone e isso me assustava. — Não me dê a ele. Growl franziu o cenho para mim. — Do que você está falando? — Para Falcone. Não me dê a ele, — eu sussurrei. Realização piscou através do rosto de Growl, depois determinação. — Nunca. Você é minha. Ele não vai tirar você de mim. — Você tem certeza? Ele é seu chefe. Ele poderia dizer para você me dar a ele. — Foi uma surpreendente reviravolta do destino que eu preferia ser a posse de Growl, mas qualquer coisa era melhor do que pertencer a Falcone. — Você é minha, — Growl repetiu e depois parou e notei que tínhamos chegado ao fim de uma fila de pessoas que estavam esperando para parabenizar Cosimo e Anastasia.

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Capítulo dezenove CARA Eu exalava lentamente. Eu precisava ter o controle. Eu quase o perdi na frente de Falcone. Pelo menos na frente do meu ex-noivo idiota e traiçoeiro, eu queria manter minha calma. Ele não precisava saber como eu estava quebrada. Anastasia estava ocupada sem olhar em minha direção, mas mesmo ela deve ter percebido que eu tinha chegado à festa. Afinal, todos haviam ficado em silêncio à nossa chegada, e Anastasia sempre teve ouvidos e olhos para fofoca. Mas ela me ignorando me deu a chance de classificar meus pensamentos e me acalmar. Eu tomei um gole no meu vinho tinto. O álcool estava começando a me relaxar. Não era de surpreender que tantas pessoas em nosso círculo fossem alcoólatras. Esta vida muitas vezes só poderia ser tolerada bêbada. Os olhos de Cosimo brevemente pararam em mim e eu congelei com o vidro contra meus lábios. Lentamente eu baixei, mas então Cosimo desviou o olhar. Seu rosto não tinha emoção. Nem sequer havia pena ou coisa alguma. Ele realmente não se importava comigo. Por que isso ainda me surpreendeu, eu não tinha certeza. Afinal de contas, ele não agia de forma diferente quando ele e Falcone vieram à casa de minha família para arruinar nossas vidas. Havia apenas um casal à nossa frente, e minhas palmas ficaram suadas de nervos. Esta era talvez a minha única chance de falar com Anastasia e descobrir a verdade. Growl inclinou-se para baixo, seus lábios mornos escovando minha orelha e eu não pude parar de me lembrar de como seus lábios eram em outras partes do meu corpo. Eu tremi. — Lembre-se, fique calma, — ele retumbou em meu ouvido, então se endireitou, e de repente nós ficamos bem na frente de Anastasia e Cosimo. Era nossa vez de parabenizar o casal feliz. Até mesmo o pensamento me fazia sentir náuseas. Mas eu coloquei um rosto corajoso e sorri. Anastasia parecia insegura e seu sorriso era mais que um pouco

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forçado. Eu não sabia o que fazer com isso. Ela não fez nenhum movimento para me abraçar ou se aproximar. Quando Cosimo e Growl apertaram as mãos e conversaram, usei minha chance e puxei Trish firmemente contra mim, tentando ignorar a forma como seu corpo se tencionou em nossa proximidade. Ela estava preocupada que eu a atacasse? Ou ela estava realmente enojada por estar tão perto de mim agora que eu era menos? Eu bani o pensamento antes que pudesse me distrair de meu plano. Eu trouxe minha boca perto de sua orelha. — Por favor, Anastasia, ajude-me. Você pode ajudar a nós duas a fugir. Anastasia agarrou meus braços, pregos cavando em minha pele, e empurrou-me alguns centímetros de distância antes que ela se inclinasse o suficiente para que ninguém ouvisse suas palavras. — Eu não quero fugir, — ela sussurrou, então em voz alta. — Eu não poderia estar mais feliz. — Ela deu seu melhor sorriso Grace Kelly para a rodada de convidados reunidos, parecendo como este fosse o momento de sua vida. Olhei, incapaz de compreender o que estava acontecendo. Anastasia estava montando um show? Ela estava preocupada se alguém estava nos ouvindo? Mas quando eu recuei para permitir que as próximas pessoas na fila parabenizassem Anastasia e Cosimo, eu me permiti um olhar mais atento à Trish. Ela não estava tendo uma atuação digna de um Oscar. Não havia os sinais reveladores de linhas ao redor de seus olhos quando ela estava forçando um sorriso. Isso era real. Growl começou a me levar embora, mas eu continuava olhando de volta para minha ex-amiga e meu ex-noivo. Eles pareciam felizes. Ninguém havia forçado Anastasia. Ela realmente queria casar com ele. Ninguém poderia evitar a se apaixonar, certo? Se Anastasia me dissesse, eu teria tentado convencer meu pai a deixá-la casar com ele. Eu teria querido que Anastasia fosse feliz, e eu nunca me importei com meu noivo. Como Anastasia poderia deixar isso acontecer? Há quanto tempo isso estava acontecendo? Mas mesmo agora, eu não queria acreditar que ela soubesse antes da festa. Talvez tivesse descoberto depois, quando já era tarde demais. Eu dei um último olhar para Anastasia antes de me virar. Ela não queria nada comigo esta noite, e eu suspeitava que não era só porque outras pessoas estavam por perto. Ela tinha um futuro perfeito pela frente, o que ela sempre quis. Ela não se arriscaria por mim.

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Eu esvaziei o meu copo e o coloquei na bandeja de um garçom que estava passando. De repente eu me senti cansada, e não apenas de álcool. Esta noite era como um pesadelo que eu nunca iria acordar. Growl parou num canto da sala e se encostou na parede. Eu olhei para ele. Ele parecia ter se cansado dessa festa também. — Não podemos simplesmente sair? — Eu perguntei. Growl balançou a cabeça. — Você realmente quer mostrar a eles o quanto isso está incomodando você? Mostre-lhes a sua força. Não seja covarde. — Eu não estou me acovardando, — eu sussurrei, então suspirei. — Mas eu sinto drenada. Eu não sou forte. Eu não me importo se eles pensam que eu sou fraca. — Não era verdade e mais tarde me arrependeria da minha falta de controle, mas agora eu só queria escapar. — Nunca mostre fraqueza a essas pessoas — disse Growl em voz baixa, inclinando-se para baixo até que estivéssemos muito perto. — Você é mais forte do que pensa. Nenhuma mulher me deu um tempo tão difícil como você faz todos os dias. Se você pode ser forte em torno de mim, você pode ser forte em torno desses fracos. Eles não são nada. Eu pisquei em seus olhos âmbar. Pela primeira vez, eu realmente pensei em agarrar seu rosto e beijá-lo. Eu queria fazer isso na frente de todos. E isso, também, me assustou. Eu acenei com a cabeça. — Você está certo. — Eu abaixei meus olhos, incapaz de suportar sua proximidade por mais tempo. Eu peguei algumas pessoas nos observando com a boca aberta. Aparentemente eles estavam esperando ansiosamente por uma cena entre Growl e eu. Eles provavelmente ficariam terrivelmente desapontados se esta noite não terminasse comigo sendo espancada em uma confusão sangrenta por Growl. Eu olhei para eles e eles realmente desviaram o olhar. — Esse olhar é bom. Mostre-lhes quem você é. — Se eu soubesse, — eu sussurrei. Do outro lado da sala, de repente, vi Trish e o alívio me inundou. Trish sempre foi a amiga amável entre minhas duas melhores amigas. Growl seguiu meu olhar. — Vá em frente e fale com ela. Ela é sua amiga, certo? — Como você sabe? — Eu vi vocês juntas na festa de Falcone.

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— Ok, — eu disse distraidamente, já pensando em como melhor ir falar com Trish. Eu não poderia arriscar assustá-la. — E não faça nada estúpido, — disse Growl quando eu já estava a poucos passos de distância. — Não vou. Corri atrás de pessoas que me olhavam abertamente e apontaram para mim, que sussurraram meu nome como uma maldição, e até riram de mim, mas eu as ignorei. Tudo o que importava era falar com Trish e descobrir o máximo que pudesse. Trish me viu quando eu ainda estava a uma boa distância e por um momento eu tinha certeza que ela iria virar e correr, mas ela esquadrou seus ombros e esperou por mim. Eu estava grata por esse pequeno ato de bravura de sua parte, especialmente considerando os muitos olhos que seguiam todos os meus movimentos. Quando eu cheguei na frente dela, nós duas não fizemos nada por alguns batimentos cardíacos. Então Trish me deu um tapinha desajeitado no braço e eu me enrolei sob o gesto forçado. Qualquer esperança que eu tinha deixado para a minha amizade com Trish desapareceu também. Eu limpei minha garganta. Mas eu não sabia o que dizer. Eu tinha feito tantos planos. Eles pareciam idiotas agora. Meus olhos se dirigiram novamente para Cosimo e Anastasia. Trish seguiu meu olhar e assentiu. — Sinto muito, Cara. Você sabe que Anastasia sempre consegue o que quer. Suas palavras eram estranhas, mas eu coloquei um sorriso corajoso, lembrando as palavras de Growl. — Você não pode escolher por quem você se apaixona. Trish bufou. — Amor. Anastasia só ama a si mesma, você sabe disso. — Pela primeira vez, Trish expressou críticas contra Anastasia, e eu percebi que eu a subestimava. Eu nunca tinha pensado nela como particularmente inteligente, e ela sempre tinha sido a loira estúpida, mas seus olhos atentos agora me fizeram perceber como eu estava errada. Ela provavelmente tinha visto através de Anastasia há muito tempo. — O que você quer dizer? — Eu perguntei calmamente.

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— Ela o queria por causa de sua posição. Ele é um bom partido, e depois da coisa com seu pai, ele ficou disponível. Isso é tudo. Meu estômago se apertou. — Ela sabia antes que acontecesse? — Ela não conseguia nem dizer as palavras. Trish encolheu os ombros. — Provavelmente. Ela me ligou na mesma noite e me contou sobre isso. — Mas você não sabia... — Minha voz se apagou. Eu não tinha certeza de quanto mais eu poderia ouvir. Trish tocou ligeiramente meu braço. — Não. Eu não. E eu sinto muito por tudo. — Seus olhos se lançaram em torno das pessoas nos observando e sua expressão ficou mais cautelosa. Eu sabia o que ia acontecer. Trish dependia da avaliação dos outros como eu, antes que tudo tivesse sido tirado de mim. E ela, mais do que eu, sempre fora a companheira de Anastasia. Isso não mudaria. Ela não ia mudar. Trish não arriscaria sua reputação gastando o tempo comigo no futuro. E o pior era, eu não poderia dizer se eu não teria feito o mesmo se nossas posições tivessem sido revertidas. Eu dei um passo para trás, forçando um sorriso. — Eu sei que não podemos mais nos ver, — eu disse com firmeza. — Só uma última coisa, você sabe alguma coisa sobre minha irmã? Trish sacudiu a cabeça. — Anastasia provavelmente sabe. Pergunte a ela. — Eu poderia dizer que ela estava ansiosa para terminar esta conversa e eu fiz isso fácil para ela. Eu me virei e comecei a andar, mas eu não sabia para onde ir. Onde quer que eu olhasse, eu vi pessoas que não queriam nada comigo. Nem todos pareciam pensar que minha família e eu tínhamos conseguido o que merecíamos, mas ninguém parecia que ia me ajudar, ou até mesmo falar comigo. Eu nunca me sentia tão sozinha em minha vida, e desta vez não havia sequer um celular na minha bolsa. E mesmo que fosse, não havia ninguém que eu pudesse chamar. Meu olhar desesperado assentou em Growl que não estava mais conversando com o grupo de homens. Em vez disso, ele estava parado sozinho, com um copo de vinho tinto na mão. Parei por um momento. Mas ele era a única pessoa que eu podia ir. Eu olhei ao redor de novo, em direção às portas e janelas, então olhei para os meus pés e ri amargamente. Quando eu levantei os olhos, Growl estava me observando. Eu sabia que ele nunca tinha tirado seus olhos de mim. Não havia jeito de escapar, não sem ajuda, e embora doesse reconhecer, eu não conhecia ninguém naquela festa que se preocupasse

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o suficiente comigo para se arriscar. Trish girou em torno da pequena pista de dança com um jovem que eu não conhecia e Anastasia estava sorrindo largamente ao lado de Cosimo. Todo mundo estava bebendo e rindo e vivendo sua vida. Mas eu não perdi os olhares que eles mantinham em minha direção. Em alguns eu peguei piedade e simpatia, mas assim que esses poucos me notaram olhando para eles, eles rapidamente desviaram seus olhos como se eles estivessem preocupados que minha má sorte esfregasse em cima deles ou talvez que eles se sentissem obrigados a me ajudar. Mas havia também os outros, aqueles que me observavam com curiosidade, desesperados por continuar ansiosos pela sensação. Eu estava bastante certa de que eles teriam se aproximado de mim para obter uma atualização sobre suas fofocas sobre Growl se isso não significasse que eles iriam arriscar a sua reputação por ser visto comigo. Eu fui em direção a Growl. Quando eu parei ao seu lado, ele estendeu o copo de vinho tinto para mim. Eu levantei minhas sobrancelhas. — Você está tentando me deixar bêbada? — Parece que você precisa dele, — disse ele. Eu bufei. — Eu não acho que o vinho é o suficiente. Growl não riu nem sorriu, só me reuniu com seus olhos âmbar afiados. Ele ainda estava segurando o copo e eu finalmente o peguei. — Esse não é seu? — Eu perguntei, mas tomei um grande gole antes que ele pudesse responder. Ele não parecia se importar. — Eu não bebo. — Você não bebe? Todos bebem. — Eu acenei com a cabeça na direção geral dos outros convidados. Growl não desviou os olhos de mim. — O álcool torna as pessoas descuidadas. Isso traz o pior deles. — Você mata para ganhar a vida. Não acho que fique muito pior. Growl assentiu. — Possivelmente. Mas não vou deixar o álcool atrapalhar meus sentidos. Esvaziei o resto do vinho. — É exatamente por isso que eu bebo. — Não. Foi errado dar-lhe o vinho. Não faz as coisas melhorarem. Só faz você acreditar que sim. ~ 162 ~


Eu estava começando a me sentir trêmula e tonta. — Talvez seja o suficiente. Se as coisas não puderem melhorar, pelo menos eu posso fingir que sim. Growl suspirou. — Vou dizer a Falcone e Cosimo que estamos indo embora. Você ficará onde está enquanto eu estiver fora. Eu me encostei na parede. Eu não tinha vontade de ir a lugar algum. A sala estava girando e eu estava começando a me sentir quente. Com um outro olhar para mim, Growl dirigiu-se para onde Cosimo estava conversando com Falcone. A multidão se separou para ele. E ele se erguia sobre eles, forte, alto e orgulhoso, apesar de seus sussurros. Eu queria poder ser assim. Mas eu me importava com o que as pessoas diziam. Doeu-me vê-los julgando e compadecendo. Eu fechei meus olhos contra seu escrutínio e logo perdi todo o sentido do tempo. Um toque no meu ombro me despertou do meu estupor. As minhas pálpebras se sentiram pesadas quando as abri. Growl franziu o cenho para mim e eu recuei pela raiva em seu rosto. — Nunca feche seus olhos ao redor de seus inimigos. Você não vai sobreviver assim. Eu sorri com cansaço. — Como se você tivesse tirado os olhos de mim. Ninguém pode me machucar quando você está por perto. Se alguém acabar me matando, então provavelmente será você. Growl não negou. Ele enrolou os dedos em meu braço e me guiou até a porta. Eu o segui num estado de transe. Quando chegamos lá fora, o ar fresco me ajudou a recuperar meus sentidos e engoli o oxigênio ansiosamente. Mas eu ainda não estava no melhor estado de espírito e levei um tempo para notar um homem encostado em um carro fumando um cigarro. Eu não o conhecia, mas Growl conhecia do jeito que seus dedos em meu braço apertavam em advertência. — Boa conquista, — o homem disse. Growl ignorou-o e tentou puxar-me para além dele. Mas o homem afastou-se do carro, jogou o cigarro no chão e esmagou-o com o sapato. Ele sorriu maliciosamente. — Como você encaixa o seu pau grande naquela boca pequena de dama dela? — Ele parecia bêbado, e eu jurei para mim mesma nunca mais beber tanto quanto esta noite novamente.

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De repente, Growl se afastou de mim e eu tropecei, mas peguei meu equilíbrio no último segundo, me segurando novamente em outro carro. Eu engasguei então girei ao redor quando ouvi um grito abafado. Growl tinha agarrado o homem pelo pescoço e jogou-o no chão. Ele chutou-o nas costelas duas vezes, em seguida, se inclinou para baixo e deu um soco no rosto. O homem gemeu e sangue saiu do nariz e da boca. — Não, — Growl rugiu em uma voz que enviou arrepios frios em minhas costas. — Nunca mais volte a falar assim ou eu vou te sufocar e te estrangular com suas entranhas. O homem tossiu. — Entendido? — Growl perguntou, sacudindo o homem. — Sim, — ofegou o homem em uma voz encharcada de sangue. Growl enxugou as mãos no terno do homem antes de se endireitar e enviar um olhar de advertência. Então ele voltou para mim com uma expressão calma. Nenhum sinal de sua fúria anterior era visível. — Por que você fez isso? — Eu perguntei enquanto ele me conduziu em direção a seu carro, que estava estacionado no lado da estrada perto dos portões de entrada. Growl me ajudou entrar no lugar do motorista. — Porque você é minha e eu não vou deixar ninguém falar merda sobre você. — Na casa, na festa, todos estavam falando de mim. Growl olhou de volta para a casa brilhantemente iluminada e por um momento eu me preocupei que ele tempestearia de volta e batesse alguns convidados mais, mas depois ele olhou para mim. — Eles eram bastante inteligentes para não dizer nada quando eu podia ouvi-los, e a maioria só sente pena de você. Eles dizem coisas ruins sobre mim, não você. A maneira como ele estava lá, com algumas gotas de sangue em sua camisa branca e a determinação fria em seu rosto impressionante, ele parecia meu anjo vingador. Quem poderia ser melhor para buscar vingança do que Growl? Ele sabia como ferir as pessoas, como destruílas. Eu poderia convencê-lo a ajudar minha irmã e minha mãe? Mesmo que ele nunca me deixasse ir, talvez ele pelo menos as ajudasse a fugir de Las Vegas e começar de novo. Ele estava em conflito, eu podia dizer. Poderia fazê-lo ir contra Falcone, afinal? Seus olhos âmbar encheram os

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meus, e um lampejo de esperança surgiu em mim. Eu não desistiria. Ele era minha única chance.

GROWL Growl tinha suspeitado desde o início. Por que Falcone os convidaria? Agora ele sabia. Era para humilhar Cara, e ao fazê-lo, ele. Growl nunca se importava com o que as pessoas diziam, o que Falcone dizia. Ele viveu sua vida, tentou sobreviver, nunca quis ou precisou de muito. O único propósito de Falcone nesta noite era humilhar Cara. O sangue de Growl fervia com a memória. Growl não deixava ninguém humilhar o que era dele, especialmente Cara. Por alguma razão aquela garota significava algo para ele. Ele nunca se importou com ninguém, exceto com seus cachorros e talvez com ele, mas com Cara, ele não sabia ao certo o que estava acontecendo com ele. Ele não queria se importar com ela. Ele sabia que ela não o queria. O que ela estava fazendo era uma tática, uma maneira para ela sobreviver ao que tinha sido significado como um castigo horrível. Growl não sabia o que estava acontecendo com ela. Se talvez ela não o odiasse tanto quanto ele suspeitava. Às vezes parecia que ela não odiava estar perto dele tanto assim. Ela gostava de seu toque e sexo e seus beijos, o que era óbvio. Isso era algo que ele podia entender, mas além disso ela permanecia um mistério para ele. E não importava de qualquer maneira. Ela era dele e ele a protegeria. Mesmo contra Falcone. Esse homem estava arruinando a vida de Growl por muito tempo. Ele nunca encontrara a motivação para ir contra o homem, apesar de tudo o que Falcone fizera a Growl. Growl nem sequer tinha certeza do porquê. Ele mataria qualquer um que tentasse matá-lo. Ele nem hesitaria. Mas Falcone? Growl não tinha certeza do que o impedira de se vingar durante todos esses anos. Falcone era seu pai, mas Growl não achava que fosse por isso. Growl não sentiu nada quando disse ou pensou a palavra — pai — Era uma palavra vazia para ele. E ainda assim seu pai ainda estava vivo. Teria ele esperado profundamente que Falcone o veria como seu filho? Growl não

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conseguia sequer responder a essa pergunta. E agora ele não precisava mais. Era irrelevante por que ele ainda não se vingara do homem. Algo tinha mudado. E a razão disso era Cara. De alguma maneira, Falcone tinha posto tudo em movimento. Ao dar Cara para Growl, ele assinou sua própria sentença de morte, porque Growl queria ajudar Cara a se vingar. Ele não queria nada mais. Falcone sempre o chamava de sua máquina de matar. Falcone tinha criado o monstro, e agora ele viria para matar seu criador. Talvez ela parasse de odiá-lo, se o fizesse. Não podia esperar mais do que isso. Ele sabia que ninguém jamais poderia gostar dele, e ele aceitava isso.

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Capítulo vinte CARA Growl estava muito quieto desde que tínhamos voltado da festa ontem. Eu não podia dizer se isso significava que ele ainda estava pensando em me ajudar. Growl empurrou seu polegar sobre meu clitóris, arrancando-me de meus pensamentos. Ele empurrou um dedo em mim. — Eu quero toda a sua atenção, — ele retumbou, empurrando em mim novamente. Concordei rapidamente e afastei qualquer preocupação. De repente, Growl puxou a mão para longe. Fiquei confusa. — O que há de errado? — eu perguntei. — Toque-se — ordenou ele, sentando-se de costas. Eu me enchi de vergonha. A última vez que fiz isso minha mãe viu e não terminou bem. — Não está certo, — eu disse. Growl soltou um riso. — Eu não dou a mínima para o certo, desde que seja bom. Fizemos tantas coisas que não são certas. Não me diga que isso é pior. Olhei para ele, os braços ao meu lado. — Eu não posso fazer isso com você assistindo. — Mas você já se tocou antes? Eu hesitei. — Sim — admiti com relutância. Mais uma vez a vergonha passou sobre mim como há muitos meses atrás. Eu não tinha certeza por que ainda me incomodava tanto. Afinal, Growl estava certo. Eu tinha feito um monte de coisas piores com ele. — E foi bom, certo? Eu dei de ombros. — Foi bom.

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Growl levantou uma sobrancelha. Ele segurou meu pulso e empurrou minha mão entre minhas pernas. Eu pulei na sensação de meus dedos escovando meu centro. Tentei me afastar, mas Growl estava me segurando com força. — Pare de tentar fazer o que é certo e faça o que é bom para você. Você pensa demais. Eu olhei para ele. — Não me diga o que eu gosto ou não gosto. Talvez eu não goste de me tocar. Growl olhou para mim. Ele cobriu meu dedo indicador com o dele e guiou o meu entre as minhas dobras. A ponta do meu dedo escovou meu clitóris, então deslizou através da minha umidade. Estremeci com a sensação. Growl continuou deslizando os dedos para trás e para frente em um ritmo lento. Seus olhos encararam os meus e levou toda a força que eu não tinha para fechar meus olhos para me esconder de seu olhar. Ele guiou meu dedo para baixo até que eu cutuquei minha abertura. Meus olhos se arregalaram. Eu nunca fiz isso. Eu sabia o quanto eu gostava quando Growl fazia. Eu hesitei, mas Growl não deixou minha insegurança me parar. Ele empurrou meu dedo dentro de mim com o dele. Eu ofeguei em surpresa e luxúria quando os dois dedos me encheram. A sensação era incrível, e a fome nos olhos âmbar de Growl só aumentava meu desejo. Isso parecia tão errado, e era extremamente bom. Growl estabeleceu um ritmo lento, deslizando nossos dedos dentro e fora de mim. Foi incrível quão molhado e suave eu estava. — Como você se sente? Eu balancei a cabeça, não querendo dar a ele uma resposta. Eu não poderia admitir em voz alta que isso era bom. Já era ruim o suficiente estar gostando tanto. Growl parou nossos dedos, seu olhar se tornou desafiador. — Como. Você. Se. Sente? Eu empurrei meus quadris, tentando manter a sensação, mas Growl me parou com seu braço. — Bem, — eu disse com raiva. — Isso é bom. Um sorriso afetado cruzou o rosto de Growl, então ele se foi, mas ele finalmente começou a se mover novamente. Ele empurrou nossos dedos mais forte em mim, e eu estava ficando mais perto do meu orgasmo, mas algo ainda estava faltando. — Toque seu clitóris — disse Growl.

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Desta vez eu não hesitei. Minha outra mão desceu e eu pressionei dois dedos lá. Eu gemi, mas rapidamente apertei meus lábios, envergonhada pelo som quando Growl estava me observando tão de perto. Como se ele pudesse dizer que eu tinha problemas para me soltar enquanto ele estava assistindo, seu olhar percorreu meu corpo e ele observou enquanto nossas mãos e dedos se moviam em sincronia para me levar mais perto do limite. E então quando isso finalmente caiu sobre mim, tudo saiu de foco e eu me deixei levar, mesmo quando Growl voltou seus olhos para mim. Eu não podia me segurar, não queria. Eu não tinha nem mesmo regulado minha respiração quando Growl se levantou e começou a se despir. Eu acho que eu nunca me vou me acostumar com a visão dele nu. Sua tatuagem, suas cicatrizes, seus músculos, tudo sobre ele gritava perigo, gritava para eu me afastar, e ainda cada célula em meu corpo parecia amar sua proximidade. Seu pau já estava de pé e isso intensificou a dor entre as minhas pernas novamente. Eu sabia o que estava vindo agora e eu mal podia esperar. Por um momento ele ficou de pé no meio do quarto, me admirando. Mas, eu também não consegui me soltar o suficiente para deixar meus olhos percorrerem seu corpo. Isso iria parar? Quando meus olhos voltaram para seu rosto, sua expressão quase me fez gemer. Ele veio até a mim e subiu na cama. Eu o esperei subir em cima de mim e me foder. Mas ele me surpreendeu quando se deitou de costas. Confusão fez com que minhas sobrancelhas arqueassem, mas antes que eu pudesse perguntar o que ele estava fazendo, ele agarrou meus quadris e me levantou em cima dele, então eu estava montada em seus quadris. Sua ponta pressionou contra a minha abertura e uma emoção disparou através de meu corpo com a sensação. As mãos de Growl na minha cintura apertaram depois de um momento. Um incerteza me inundou. Eu não estava exatamente certa como fazer isso, mas eu não queria admitir isso em voz alta. Recolhendo minha coragem, eu me contraí contra o peito duro de Growl. Focalizando seus músculos e não a intensidade de seus olhos, eu lentamente me abaixei em seu pau. Um longo gemido escapou de meus lábios na sensação de seu comprimento deslizando em mim mais profundo do que nunca. Eu exalei lentamente quando ele entrou todo o caminho e eu me sentei confortavelmente em cima dele. Eu nunca tinha me sentido tão cheia antes. Foi incrível. Growl moveu seus quadris para cima alguns centímetros e meus olhos voaram até os dele. Havia tensão em seu rosto. Eu sorri e seus olhos brilharam. Cavando minhas unhas em seu peito do jeito que ele gostava, eu me ergui lentamente, deixando seu pau deslizar para fora de mim. Eu me concentrei em tencionar meus músculos internos para ~ 169 ~


tornar isso ainda mais intenso para Growl, querendo levá-lo à beira da insanidade. Ele deu uma palmada na minha bunda, fazendo meus olhos se arregalarem e um suspiro de surpresa sair, seguido por uma risada que escorregou da minha boca. Havia algo parecido com brincadeira em sua expressão. Comecei a me mover mais rápido. Minha bunda acidentalmente escovava suas bolas e ele exalou bruscamente. Eu hesitei, sem saber se isso era um bom sinal, mas o olhar em seu rosto apagou todas as minhas preocupações. Ele gostou. Muito. Eu torci meus quadris, certificando de pressionar minha bunda de encontro com suas bolas cada vez que eu me abaixava. A respiração de Growl ficou mais rápida e os baixos grunhidos que eu adorava vieram do fundo de sua garganta novamente. Meu próprio corpo apertou antecipando um orgasmo, e quando eu me inclinei ligeiramente para frente, meu clitóris escovou seu osso púbico e eu explodi. Meus dedos cavaram ainda mais fundo em sua pele e eu me movi mais rápido, empurrando meu próprio orgasmo em novas alturas. E então o corpo de Growl estremeceu debaixo de mim e eu o senti gozar, provocando ainda mais minhas paredes internas. Eu gritei, jogando minha cabeça para trás. — Oh Deus, — eu disse. Quando meus batimentos cardíacos diminuíram, eu abri meus olhos e espiei o homem debaixo de mim. Ele estava me observando com surpresa. — O quê? — eu disse de forma consciente. Growl correu seu dedo sobre meu peito, então lentamente abaixo do meu estômago até que veio descansar sobre meu clitóris. Eu estremeci, ainda muito sensível para seu toque. — Esta foi a primeira vez que você gritou alto. Meu rosto se aqueceu ainda mais. — Alto? — eu olhei para a janela coberta pela cortina, preocupada com os vizinhos. Eles tinham ouvido alguma coisa? — Não se preocupe com eles. Eles não se importam se aquele bastardo do outro lado da rua bater em sua esposa até virar polpa. Eles não vão dar a mínima sobre você gritando porque você está gozando. Eu olhei para ele. Sua linguagem suja ainda me assustava algumas vezes. Mas ele estava certo. Eu tinha perdido a conta das vezes

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que eu ouvi a mulher do outro lado da rua gritar, e nada nunca tinha acontecido.

GROWL Vê-la se tocar foi a coisa mais sensual que Growl já tinha visto. Deus, ele tinha dito a outras mulheres para fazerem a mesma coisa para ele, mas isso sempre parecia falso e errado. Mas com Cara, ela realmente se soltava. Ela confiava nele na cama. Era mais do que ele merecia com certeza. Ele queria muitas coisas na vida. Ele queria possuir, destruir, subjugar. Ele nunca quis ser gentil com alguém, ou estar com alguém além do simples ato de foder. Ele tinha fodido muitas mulheres; Nenhuma delas tinha significado algo para ele. Ele não desprezava as mulheres. Não gostava menos delas do que dos homens. Ele simplesmente não gostava dos humanos em geral. Eles eram criaturas desonestas e fodidas. É por isso que ele preferia a companhia de seus cachorros. Eles não esperariam que ele dormisse para matá-lo. Se um de seus cachorros quisesse matá-lo, eles fariam no meio do dia. Growl gostava mais dessa maneira. Cara estava esparramada na cama ao lado dele, seu peito subindo e descendo rapidamente, seus mamilos duros ainda mais rosados do que o habitual contra sua pele branca. Algumas gotas de suor desceram por seu estômago e ele teve que parar de lambê-los de sua pele. Ele precisava falar com ela, não se distrair com outra rodada de sexo. Embora a visão dela nua, e finalmente sem vergonha, tornava difícil se conter. Cara virou a cabeça, erguendo as sobrancelhas. — Há um olhar engraçado em seu rosto. Eu fiz algo errado? — duas manchas rosa apareceram em suas maçãs do rosto e ele se inclinou para frente e beijou sua testa. Ele não sabia por quê. Ele nunca tinha feito isso. Nunca tinha pensado em fazer. A testa não era um lugar muito interessante para um beijo. Cara estava virando-o de cabeça para baixo, isso era certo. — Você não fez nada de errado.

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Surpresa encheu o lindo rosto dela. Mesmo ela não entendia por que ele tinha feito isso, e ela geralmente era boa em emoções e ações humanas. Ela pôs uma mão no peito dele. Um pequeno gesto que também não fazia sentido. Talvez nem tudo tivesse sentido. — Você está bem? — Eu vou te ajudar, — ele disse com firmeza. Ela piscou. — Me ajudar? — a mão dela contra a pele dele começou a tremer. — Você quer dizer com Falcone? Growl assentiu. Não havia volta agora. Ele tomara sua decisão e nada o deteria. Ele morreria se necessário. Ela valeria a pena. — Eu vou te ajudar a se vingar.

CARA Eu não podia acreditar. Eu esperava por isso, claro, sonhei sobre isso. Parecia improvável, impossível. Growl era o homem de Falcone, seu assassino mais temido. Como eu poderia ter mudado isso? — Então me deixe entender, — eu disse lentamente, querendo me certificar de que eu não estava entendendo as coisas erradas. — Você quer me ajudar a me vingar, mesmo que você nunca tenha tentado se vingar do que Falcone fez com você e sua mãe? Por quê? Eu não entendo. Você nem gosta do meu pai. Cale a boca, Cara. Minha mente estava gritando para mim, mas eu precisava saber. Eu estava começando a aceitar que por alguma razão parte de mim sentia algo pelo homem na minha frente. E eu precisava saber se ele também. — Não é por causa do seu pai. Não me importo que ele esteja morto. — as palavras mal doíam mais. Eu tinha me acostumado às palavras duras de Growl. Ele era honesto, isso era algo que eu apreciava. Eu me apoiei no meu cotovelo e procurei em seu rosto por respostas. — Então por quê? — minha voz era um sussurro.

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Os olhos âmbar de Growl traçaram meu rosto. — Falcone foi longe demais. Você não mereceu o que ele fez com você. — O que você quer dizer? — eu perguntei cuidadosamente, sem saber onde ele estava indo. — Você era inocente. Ele te puniu por algo que seu pai fez. Isso não está certo. — E ele puniu você quando você era um garotinho por algo que sua mãe poderia ter feito, te puniu por não fazer absolutamente nada. Isso deveria ter sido suficiente para fazer você querer matá-lo. — Eu sempre quis matá-lo. — Então por que não o fez? — Quando eu era um menino, eu o teria matado, mas naquela época eu não tinha as habilidades. E mais tarde, quando as tive, sentime agradecido a ele, por me dar as habilidades, por me mostrar o que eu podia fazer. Sem ele, eu não seria o que sou hoje. — Um monstro? Um assassino? Você poderia ter se tornado muito mais se ele não tivesse matado sua mãe e destruído sua infância. Ele quebrou você. — eu estremeci no momento em que as últimas palavras deixaram minha boca. — Eu era filho de uma prostituta que trabalhava para Falcone. Eu teria me tornado um de seus homens de qualquer maneira, mas sem sua crueldade, sem o que ele fez feito comigo, eu nunca teria me tornado implacável o suficiente para me tornar o seu melhor assassino. — Então você está me ajudando porque Falcone me tratou mal? Ele tratou muitas pessoas pior do que eu. Growl assentiu. Ele correu um dedo pelo meu braço, em seguida, de volta para cima novamente. — Ele fez. Eu fiz. Mas eu quero te ajudar a ser feliz. Quero que você saia desta cidade e dessa vida miserável. Eu nunca quis isso para mim, mas você, para você eu quero tudo. — Obrigada, — eu disse calmamente. Eu não poderia dizer mais. Isso foi esmagador. Eu limpei minha garganta. Emoções nunca tinham sido parte do plano, ou mesmo uma possibilidade no início. Eu precisava me concentrar agora.

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— O que vamos fazer com a minha irmã? Nem sabemos onde ela está. Growl puxou a mão para longe do meu braço. Eu me senti mal, mas eu sabia que não tinha motivo. Eu nunca tinha escolhido isso. — Vou descobrir — gritou Growl. Ele apoiou a mão em seu estômago. — Eu pensei que Falcone não compartilhava essa informação com você. — Até agora não. Mas agora que as coisas estão piorando com Nova York, acho que ele logo terá razão para me contar sobre o paradeiro de sua irmã. Eu respirei. — Porque ele acha que você vai machucá-la. — Mas não vou. — Eu sei, — eu disse sem hesitação. Como as coisas podem ter chegado até aqui? Eu estava me apaixonando por ele, e eu não tinha certeza de como me impedir de me sentir assim. Mas eu precisava. Não havia futuro para Growl e para mim. Não haveria. Ele tinha sido um monstro toda a sua vida. Mesmo que eu dissesse a ele que ele poderia se redimir me ajudando, eu nunca tinha realmente acreditado, tinha? Como eu poderia estar com alguém assim? Como eu poderia explicar isso para minha mãe e minha irmã? Eu não podia.

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Capítulo vinte e um CARA Os gritos dos vizinhos voltaram a aumentar. Era de manhã cedo. O sol mal se levantara ainda, mas eu estava acordada por horas. Não apenas por causa das brigas na casa vizinha, mas também por causa do acordo de Growl para me ajudar. Saí da cama e olhei pela janela para a casa do outro lado da rua. Desta vez, o casal tinha levado a briga para fora. Ambos estavam de frente um para o outro no gramado da frente. Um menino pequeno estava na porta, talvez de dois anos de idade, observando enquanto seus pais gritavam um para o outro. O homem ergueu a mão e golpeou a mulher com tanta força que ela tropeçou e caiu no chão, mas isso não o impediu. Ele se inclinou sobre ela e a bateu novamente. O menino começou a chorar, o rosto contorcido de terror. — Growl, — eu chamei. Ele veio em minha direção, parecendo em alerta. — O que está errado? — O cara está batendo na namorada de novo. Growl deu o seu ‘e daí’ com o olhar. — Ele está fazendo isso quase todos os dias e ela não o deixa. Não é problema nosso. Outro grito atraiu meus olhos para o casal. A mulher estava tentando rastejar para longe de seu namorado, mas ele a agarrou pelos cabelos e a girou, batendo-a novamente. — Ajude ela, — eu disse com firmeza. — Por favor. Ou eu vou fazer. — eu me virei e me dirigi para a porta da frente, abrindo-a. Eu sabia que seria quase impossível eu parar o homem porque ele era alto e grande.

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Growl estava perto de mim. — Você precisa aprender a cuidar do dos seus problemas. — Por quê? Para que eu possa me tornar tão implacável quanto você e Falcone? Não, obrigada! — eu sussurrei enquanto eu descia pela calçada. Antes que eu pudesse alcançar o outro lado, Growl me agarrou pelo braço, parando-me. Eu me virei para ele. O uivo do menininho chegou até a nós e rasgou meu coração. Ninguém mais estava ajudando, embora muitos rostos aparecessem nas janelas, observando o que estava acontecendo. — Esse garoto tem que ver seu pai bater em sua mãe? Você deve saber o que faz a uma criança ver esse tipo de horror. Você realmente quer que esse garoto compartilhe o mesmo destino que você? Os olhos de Growl cintilaram com incerteza, então seu olhar caiu na cena do outro lado da rua. Decisão e fúria tomou conta do seu rosto. Um alívio me inundou. Eu conhecia aquela expressão. Growl cruzou a rua sem olhar para a esquerda ou para a direita. Eu o segui. O cara não tinha nos notado ainda e estava insultando sua namorada, chutando e batendo ela alternadamente. Growl foi como um touro quando bateu no ombro do homem. O cara soltou um grito e caiu no chão. Parecia querer dar um soco contra quem o tivesse atacado, mas então percebeu que era Growl e seus olhos se arregalaram. Eu me agachei ao lado da mulher que ainda estava sentada no chão, pressionando a mão sobre sua boca. O sangue escorria pelo queixo. — Você está bem agora, — eu murmurei quando toquei seu ombro. Seus olhos sem foco se fixaram em mim. Ela não disse nada. Eu podia sentir o cheiro de álcool em sua respiração. Seu filho veio correndo em nossa direção e a abraçou no pescoço. — Mãe... mamãe. Ela o ignorou, olhos apenas para Growl que estava batendo e sacudindo seu namorado, e dizendo algo que não poderíamos ouvir. — Não deixe ele matar meu Dave, — ela disse quase implorando. Eu a encarei. Depois de tudo, ela estava preocupada com seu namorado abusivo? — Você deve ir a um abrigo para mulheres com seu filho. A mulher sacudiu a cabeça. — Dave não é um cara mau. Não deixe ele machucar meu Dave.

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Eu fiquei de pé. Growl empurrou o homem em direção ao carro. — Dê o fora, — ele rosnou, soando tão ameaçador como ele parecia. O homem entrou no carro e foi embora. — Você realmente deveria ir, já que ele foi embora, — eu disse à mulher. Mas seus olhos seguiram o carro com desespero e saudade, e eu sabia que ela não iria embora. Eu baguncei os cabelos do menino e o gesto trouxe um sorriso em seu rosto. Aquela pobre criança. Eu ajudei a mulher e o menino a entrar em casa, ignorando suas perguntas constantes sobre seu namorado. Dentro da casa estava cheio de garrafas de cerveja vazias. Fedia a cigarro e álcool, e então eu decidi que eu precisava salvar pelo menos o garoto. Eu o levantei em meus braços e o levei para fora novamente. A mulher não me impediu. Ela estava mexendo no seu celular, tentando ligar para o namorado. Growl me deu uma olhada, mas não comentou quando saí com o garoto. Atravessamos a rua e só quando entramos na casa de Growl, ele disse. — Você não pode ficar com ele. — Eu não vou. Temos de ligar para os serviços sociais. Temos que fazer alguma coisa. — Você não pode salvar todos eles. — Mas eu posso salvar esse, e isso é o suficiente, — eu disse com firmeza. O garoto estava olhando para Bandit e Coco curiosamente. Growl olhou para mim e para o garotinho, e assentiu. — Eu conheço alguém que eu possa ligar. Eles vão encontrar um bom lugar para ele. — o garoto estendeu a mão e tocou uma das tatuagens de Growl com fascínio. A expressão de Growl suavizou um pouco e então ele se dirigiu para o telefone como se estivesse com medo de sua própria reação. Afinal, havia esperança para ele. Uma hora depois, duas mulheres vieram e pegaram o menino. Naquela noite, ouvi seus pais gritando um com o outro novamente, mas eles não vieram perguntar por ele.

***

Quando eu deitei ao lado de Growl depois do sexo naquela noite, eu sussurrei. — Você fez a coisa certa hoje. — e era verdade. Talvez eu

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estivesse errada, talvez ele pudesse compensar seus pecados fazendo o bem. Growl se virou para mim. — Possivelmente. Mas essa mulher ainda está com o imbecil. Algumas pessoas só conhecem a miséria. É algo confiável. A mudança os assusta mais do que sua vida de merda. Tracei os espinhos entalhados sobre seu antebraço. — Como você. Growl estreitou os olhos. — Estou mudando minha vida por você, indo contra Falcone. — Eu sei, e eu sou grata por isso. Mas você está fazendo isso por mim. É como se você ainda não achasse que você merece algo de bom. — eu disse. — Você mora neste lugar, embora você não precise. Não consigo imaginar que Falcone esteja te pagando tão mal. Você é como aquela mulher a esse respeito. Ele se sentou. — Esta casa não é como ser espancado por alguém. — ele hesitou. — Isso é ruim para você? Suspirei. — Este lugar me faz me sentir miserável. — Você quer dizer que eu faço você se sentir miserável. — Não, — eu disse, e eu não tinha certeza se era a verdade ou ainda parte do meu plano de fazê-lo confiar em mim. — Esse lugar. O povo é desesperado e ignorante, e não há beleza neste lugar, apenas desolação. Growl olhou ao redor do quarto. — A beleza é passageira. — E desolação e desespero não é? — eu me sentei também, e encostei meu queixo em seu ombro, respirando seu cheiro almiscarado. Eu não queria que ele partisse, mas eu poderia dizer que ele já estava ficando inquieto. — É familiar. É confiável — murmurou Growl. — Eu sempre gostei disso. — e eu tinha estragado as coisas para ele, eu supunha. Uma criatura de hábito, de fato. E, no entanto, ele estava desistindo disso por mim. Por um momento houve silêncio, então ele lentamente se retirou, e eu não tive escolha senão soltá-lo. Ele se sentou na beira da cama, mas depois se levantou. — Durma bem. — Eu dormiria melhor se você ficasse, — eu disse.

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Growl hesitou, mas depois saiu novamente. Cada vez que eu achava que estávamos chegando em algum lugar, uma ação como esta me lembrava de que não podíamos. Talvez em algum momento meu coração entenderia isso também.

***

Dirigimos em direção a Strip de Las Vegas com seus arranhacéus. Tudo era brilhante e as pessoas estavam se divertindo. Este era um lugar totalmente diferente de onde Growl vivia. Nós paramos na frente de arranha-céus elegantes com os carregadores de malas na frente das portas corrediças. Growl saiu antes que o homem pudesse abrir a porta, então ele me ajudou a sair do carro. Era estranho ser cercada por este luxo novamente. Eu quase me senti como se eu não pertencesse a isso, como se o último par de semanas tivesse me mudado tanto que eu não poderia caber no mundo que eu tinha feito parte toda uma vida. Era um pensamento assustador. Growl me levou para dentro do prédio com a mão nas minhas costas. Foi um gesto possessivo e, ao mesmo tempo, achei que ele estava tentando me mostrar algo mais. Ou eu estava tentando ver coisas que Growl não era capaz de fazer? O recepcionista nos deu um sorriso brilhante demais enquanto íamos para os elevadores. Saímos no topo do arranha-céu e entramos em uma enorme cobertura. Tudo era branco, vidro e dourado. — O que é isso? — eu perguntei. Era decorado com móveis de design preto e cinza. Tudo era elegante e perfeito. — Meu apartamento, — Growl disse simplesmente. Eu congelei no meu caminho para as janelas do chão ao teto. — Isto é seu? — este apartamento parecia completamente não utilizado. E em seis semanas que eu tinha estado com ele, ele nunca tinha mencionado isso para mim. Eu me assustei. Tinha sido realmente seis semanas? Deus. E, ao mesmo tempo, seis semanas parecia um período de tempo muito curto para tudo o que tinha acontecido. Seis semanas. Sem a minha irmã. Ela estava bem, Growl tinha me assegurado. E minha mãe, eu não a via há tanto tempo. — Eu tenho ele há alguns anos, — Growl disse, me arrancando dos meus pensamentos. Ele pegou uma coca da geladeira e bebeu. — ~ 179 ~


Falcone me deu como pagamento por um trabalho bem feito, mas eu não uso. — ele me deu outra coca, mas eu só a usei para deixar o frio me ajudar a me focar. — Se você tem isso, — eu me virei. — Então por que você está vivendo naquela casa terrível? Este lugar não parece ter sido usado nunca. Não há nada que te pertença. Growl me lançou um olhar estranho. — Porque este não é quem eu sou. O mobiliário estava aqui quando eu ganhei e eu nunca mudei nada, — disse ele em seu barulho habitual baixo. — Isso também é... — os olhos dele vasculharam a sala. — Muito chique para alguém como eu. Não sou eu. Parei na janela e deixei meu olhar vagar sobre Las Vegas abaixo de nós. Na distância eu podia ver o interminável deserto vermelho. Eu preferia viver em uma casa, sempre tinha amado a minha antiga casa e o jardim, mas tudo era melhor do que a barraca que Growl chamava de casa. — Para alguém como você? — eu repeti suas palavras. Growl se aproximou lentamente e seguiu meu olhar. — E Coco e Bandit não se sentiriam tão confortáveis. Eles sentiriam falta do jardim. Por aqui não há nenhum lugar onde eu possa caminhar com eles. Eu dei a ele um olhar, mas ele evitou os meus olhos. Havia algo estranhamente vulnerável e fora de lugar em Growl. Por que ele se sentia tão desconfortável em um apartamento luxuoso? — Não é como se a área onde vivemos fosse ótima para passeios com os cães. Growl me deu um sorriso estranho. — Bandit e Coco estão acostumados a lugares como esse. Eles sabem como lidar com bêbados e viciados, prostitutas e os sem-teto. As pessoas por aqui com seus sorrisos falsos, isso é algo que eles não podem lidar. Pessoas como essa os envolveram em brigas de cães. — Sabe, há lugares onde pessoas decentes normais vivem. Você compara um extremo com o outro. — Normal — grunhiu calmamente, testando a palavra. — Eu nunca tive o normal. — ele se virou para mim. — Você pode me imaginar entre pessoas normais decentes? Eu não disse nada. Growl com suas tatuagens assustadoras e cicatrizes sempre chamou a atenção para si mesmo, e para a sua aparência assustadora.

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Ele deve ter lido meus pensamentos do meu rosto. Ele assentiu. — As pessoas normais não me querem em seu bairro, eles teriam medo de mim. E as pessoas por aqui também não me querem, porque elas também me temem. — Todo mundo teme você, — eu disse com naturalidade. — Até mesmo os criminosos e viciados em sua área. Se você quer viver onde ninguém te teme, você terá que se mudar para o deserto. — era uma piada, para iluminar o humor, mas Growl assentiu pensativamente. — Os animais não me temem, só os humanos. Eu sou um monstro criado pelo homem, talvez seja por isso. — ele olhou a nossa volta novamente. — Monstros não são para um palácio como este. Ele achava não merecer viver em um lugar agradável. Talvez ao longo do caminho ele tivesse começado a acreditar no que todo mundo dizia, que ele estava abaixo de todos os outros, que ele não valia nada. Por alguma razão eu sentia muito por ele, mesmo que ele não merecesse minha compaixão. — Você pertence aqui — disse Growl em voz baixa. — Uma princesa em sua torre. Meus lábios se abriram em surpresa. Não era a primeira vez que ele dizia algo assim, mas sempre me surpreendia. — Então, por que estamos aqui? — eu perguntei a ele. — Você odeia a casa, — ele disse simplesmente. — E? — Nós podemos viver aqui por um tempo. Vai fazer você se sentir melhor até que eu descobrir o melhor dia para o nosso plano. Fiquei atônita em silêncio. Growl estava realmente pensando em se mudar para este lugar porque queria me ver feliz? — Você tem certeza? — eu não queria nada mais do que viver aqui, neste lugar brilhante, longe da miséria. Ele acenou com a cabeça, mas eu pude detectar uma pitada de incerteza. — E quanto a Bandit e Coco? Você mesmo disse, eles precisam de um quintal. Eles vão se acostumar com isso? Growl escovou um fio de cabelo do meu ombro. — Estou a negócios a maior parte do tempo. Eu posso levá-los comigo. Estou ~ 181 ~


muitas vezes fora, onde eles podem correr. E eu não vou vender a casa, então podemos voltar para lá se não quisermos ficar aqui. Eu duvidava que eu quisesse voltar para a casa de Growl. Não era porque era pequeno e estava em um bairro ruim. O lugar estava cheio de muita desolação; parecia queimado nas paredes e andares. Não havia escapatória. — Eu adoraria viver aqui, — eu admiti finalmente. E era verdade. — Talvez não vivamos aqui por muito tempo. Depois que terminarmos com Falcone, teremos que deixar Las Vegas. Eu sabia disso, e depois de tudo o que tinha acontecido comigo aqui, eu não estava triste em deixar minha cidade natal. Eu queria um novo começo. Com Growl? Uma voz afiada perguntou em minha cabeça. E parte de mim, queria dizer sim. — Eu sei, mas mesmo algumas semanas ou apenas dias será bom. Eu adoro ver o horizonte, — eu disse. Eu olhei para ele. Havia uma borda macia em sua expressão, e eu não pude evitar. Eu nunca o desejei mais do que naquele momento. Eu não tinha certeza se isso ainda fazia parte do plano, se minhas ações em direção a Growl ainda estavam destinados apenas para levá-lo do meu lado, atingir o meu objetivo de vingança e segurança para a minha família. Fiquei na ponta dos pés, agarrei-o pelo pescoço e o puxei para me beijar profundamente. Ele imediatamente respondeu. Eu apertei contra ele e ele agarrou minha bunda com uma mão, apertando. Comecei a puxar suas roupas, e logo estávamos ambos nus, nossas mãos vagando cada centímetro de pele descoberta. Meu corpo estava inflamado de necessidade. Growl me levantou e apertou minhas costas contra a janela. Eu soltei um riso surpreso. — Aqui? — eu perguntei. Ele cutucou minha entrada com seu comprimento. — É uma bela vista — disse Growl secamente. Eu o beijei com força, e ele me empurrou ao mesmo tempo, me fazendo ofegar em sua boca. Minhas costas esfregaram sobre a janela quando Growl entrou em mim. E então nós dois gozamos ao mesmo tempo. Growl afundou de joelhos comigo ainda embrulhada em torno dele. Nós dois ofegamos. Meus olhos vasculharam os arranha-céus vizinhos. — Este revestimento reflete? Growl balançou a cabeça. — Acho que não. Eu me encostei no vidro. — Então alguém poderia ter nos visto?

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— Você se importa? — Não, — eu disse. E era verdade. Algumas semanas atrás, isso teria sido impossível, mas tantas coisas aconteceram desde então que a ideia de alguém me ver fazendo sexo não era algo que poderia arruinar meu dia. Longe disso.

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Capítulo vinte e dois CARA — Por que você sempre vai embora depois de ficarmos juntos? — Tentei parecer curiosa, mas deixei escapar uma pitada de vulnerabilidade. — Não consigo dormir com outra pessoa na cama. — Ele respondeu. — Nunca pensei que compartilharia uma casa... — Ele olhou ao redor de nosso novo ambiente. — ...ou apartamento com alguém. — Por quê? — Duvidava que ele estivesse preocupado se eu o mataria. — Eu simplesmente não consigo. Prefiro ficar sozinho, preferia ficar sozinho. — Não prefere mais? — Perguntei esperançosamente. — Eu não durmo muito bem. E se alguém estivesse na cama comigo, seria pior. — Growl falou, em vez de responder à minha pergunta. — Talvez você só precise se acostumar com isso. Talvez leve algum tempo. Você está sozinho há muito tempo. — Desde sempre — Ele murmurou. — Eu estive sozinho desde sempre. Mesmo quando minha mãe ainda estava viva, ela trabalhava muito, especialmente à noite. — Foi sua resposta. — E depois que ela foi assassinada e eu fui morar com Bud, eu ficava feliz por estar sozinho. Ficar sozinho significava não sentir dor. Isso era bom. Meu coração se apertou por ele. Tanto horror em seu passado. Não sabia se eu ou qualquer outra coisa poderia competir com isso, contra as sombras de seu passado.

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— Os seres humanos não foram feitos para ficarem sozinhos. Precisamos de alguém. É a nossa natureza. Precisamos ser tocados. Precisamos conversar com alguém. Ter alguém em quem confiar. Caso contrário, nos tornamos... — Como eu. — Growl rosnou. — Estou melhor sozinho. Estou destinado a ficar sozinho. Olhei para suas tatuagens, suas cicatrizes e seu olhar rígido. — Talvez você tenha razão. Mesmo que eu não quisesse aceitar, Growl poderia ser uma daquelas pessoas que não consegue ficar perto de outras por muito tempo. Não tentei impedi-lo quando ele levantou dessa vez. Meus olhos analisaram desde a linha de músculos dos seus ombros largos até sua bunda firme. Minhas bochechas não aqueceram, mas o fogo na parte de baixo da minha barriga acendeu novamente com aquela visão. Eu nunca tinha sentido nada parecido antes. Já tive alguns namorados, já senti borboletas no estômago, mas isso era algo mais, mais forte, mais profundo. Eu o desejava, talvez até... o amasse. Eu não tinha certeza. Não agora, não quando minha vida estava essa confusão e as escolhas não eram minhas. O amor poderia começar em um cativeiro? Não era algo que só poderia prosperar em liberdade? Growl não olhou para trás enquanto caminhava em direção à porta e saía. O fogo em minha barriga se apagou como se alguém o tivesse apagado com água. Puxei os cobertores até o queixo. Eu nunca tinha percebido que a solidão vinha com uma sensação gelada como o orvalho, cobrindo a pele. Frio. Eu estava com frio. Ainda sentia a sensibilidade entre minhas pernas por causa de Growl, mas o resto do meu corpo não era nada. Aquela dor entre as pernas era tudo o que eu tinha agora para lembrar de Growl. Logo, se... quando nosso plano desse certo e estivéssemos todos seguros, o que aconteceria comigo? Com Growl e eu? Ele lutava contra suas emoções. Na maioria das vezes, eu nem sequer tinha certeza se ele conseguia entendê-las. Talvez para ele as emoções fossem como as letras para pessoas com dislexia. Mas essas pessoas conseguiam viver com suas limitações, aprendendo a ler e escrever apesar de tudo. Então por que Growl não podia aprender a lidar com suas emoções? Ele já tinha evoluído muito desde que nos conhecemos. Talvez as emoções fossem algo estranho para ele, como a paixão era para mim, mas as coisas não precisavam ser assim para sempre. Growl tinha me ensinado o que era paixão, não tinha me dado

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outra escolha a não ser me render a ela. Era idiota pensar que eu poderia ensinar a ele como lidar com suas emoções, assim como ele tinha me ensinado a lidar com o desejo e a paixão? Talvez você já tenha ensinado, uma voz sussurrou em minha mente. Talvez. E talvez não fosse o suficiente. Meus olhos foram atraídos para a vista de Las Vegas. Ele tinha se mudado para esse lugar por mim. Por alguma razão, ele havia virado sua vida de cabeça para baixo por mim. As próximas semanas trariam as respostas. Se o nosso plano de vingança desse errado, nada mais importaria. Muito menos todas as minhas emoções. Logo tudo isso seria decidido.

CARA — Falcone não quer me contar onde está a sua irmã, e acho que ele está ficando desconfiado do meu interesse. As negociações com Nova York não parecem estar indo muito bem, o que pode significar que Falcone não vai precisar da ajuda de sua mãe por muito mais tempo. Nós não podemos esperar mais muito tempo. — Growl disse alguns dias depois, quando voltou para o apartamento depois de algo que Falcone lhe pediu para fazer. Coco e Bandit o receberam abanando o rabo descontroladamente. Se Falcone não precisasse mais da ajuda da minha mãe, provavelmente se livraria dela. — Mas o que nós podemos fazer se não descobrirmos onde está a minha irmã? Não podemos nos vingar enquanto ela não estiver segura. — Vou conseguir essa informação de Falcone, não se preocupe. Vamos sequestra-lo, e eu vou fazer ele falar. Assim que eu descobrir onde ela está, vou matar o Falcone e vou para Nova York com ela. — E eu e a minha mãe? — Você vai embora logo depois que eu capturar Falcone. Eu não quero você na cidade enquanto estiver lidando com ele. Nós nos encontraremos em Nova York.

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Eu balancei a cabeça. — Eu não vou embora sem a minha irmã. E se algo der errado e não conseguirmos libertá-la? Eu quero estar lá para ter certeza de que deu tudo certo. — Você não tem como ajudar. Você só vai atrapalhar porque vou ter que ficar de olho em você também, e não vou conseguir lutar tão livremente como de costume. — Você acha que haverá lutas? Growl riu sem humor. — Falcone nunca está sem guarda-costas, e suponho que sua irmã também deve estar sendo vigiada. Vou ter que matar qualquer um que fique no meu caminho. Não podemos deixar ninguém sobreviver. Não podemos arriscar. — Então nós vamos dirigir até a casa de Falcone e sequestrá-lo? — Ele geralmente se encontra comigo uma vez por semana para dar novas ordens. Esse é o melhor dia para atacarmos. Ele vai estar me esperando, então não vai ficar desconfiado. Vou levar ele para um lugar seguro, conseguir as informações que precisamos e matá-lo. Depois vou atrás da sua irmã. — Eu falei que não vou embora. Vou ficar o tempo que for preciso para garantir que todos nós estejamos seguros e que Falcone esteja morto. Growl não disse nada. Talvez ele achasse que poderia me convencer. — E eu preciso falar com a minha mãe. Ela precisa saber o que estamos planejando. Growl balançou a cabeça. — Não. Ela pode falar dar algo sem querer. Ela não precisa saber. — Ele fez uma pausa. — Cara, eu realmente quero que você vá embora com a sua mãe. Você não deve ficar em Las Vegas um minuto a mais do que o necessário. — Não! — Eu chorei. — Eu quero estar lá. Quero vingança mais do que você. Eu não deveria estar lá quando isso acontecer? Growl tocou em minha bochecha.

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— Tem certeza de que você quer isso? Isso vai te mudar, acredite em mim. Ter sangue nas mãos muda tudo. — Minha vida mudou quando Falcone matou meu pai. Ver Falcone morrer pelos seus pecados só vai melhorar as coisas. Growl assentiu. — Tudo bem. Mas quando as coisas ficarem perigosas, você precisa obedecer as minhas ordens. Se eu te falar para correr, você corre, sem hesitação e sem discussão. Entendido? — Entendido. — Me aproximei dele e coloquei a mão contra seu peito. — Eu não consigo acreditar que você vai mesmo fazer isso. — Eu prometi. Vou fazer isso por você, então talvez você possa me perdoar. — Perdoar você... — Sussurrei, mas ele me silenciou com um beijo e me levou para o quarto.

***

Os olhos de Growl estavam fechados. Porém ele não estava dormindo. Não que eu soubesse como ele parecia quando estava dormindo de verdade, já que ele nunca me deixou estar por perto quando estava assim tão vulnerável. Sempre que ele estava perto de pegar no sono, me mandava embora ou ia embora, se ele estivesse no meu quarto. Fui até a borda da cama e me desenrolei dos cobertores. Eu já estava aqui por muito tempo. Meus olhos estavam ficando pesados. Eu não queria ser acordada mais tarde e mandada embora por Growl. Assim era mais fácil, quando sair parecia minha escolha e não resultado de sua incapacidade ou falta de vontade de compartilhar uma cama comigo, de me dar mais proximidade do que era absolutamente necessário. Era ridículo como esse pequeno ato de escolher fazia com que eu me sentisse muito melhor. Meus pés tocaram o chão frio, e um arrepio familiar percorreu minha espinha. Dessa vez não me permiti ficar empoleirada na borda da cama. Eu levantei. Não tinha me afastado um único passo sequer quando uma mão forte envolveu meu pulso. — Fique — Ele comandou com a voz áspera.

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Congelei, meu olhar se dirigindo para Growl. Ele ainda estava esparramado na cama com os olhos fechados. Nada em seu semblante havia mudado, e se não fosse por sua mão segurando meu braço com força, teria de me convencer que tinha imaginado aquela palavra. Não dei muita atenção ao fato de que ele tinha mudado de ideia. Escorreguei sob as cobertas, e só quando eu estava deitada ao lado dele é que Growl soltou meu pulso. — Por quê? — Perguntei suavemente. Ele continuou deitado de costas, sem se aproximar, então não tentei me aconchegar nele. Seria demais. Isso, ele me convidar para passar a noite com ele, já era um grande passo, eu sabia. — Não pergunte. — Ele respondeu. Growl apagou as luzes e a escuridão tomou conta do quarto. Eu não ousei respirar, muito menos me mover, ciente de que Growl provavelmente estava escutando cada som que eu fazia. Eu estava me intrometendo? Ele já estava se arrependendo de ter falado aquela palavra? Afastei aqueles pensamentos de minha mente. Então, quando eu menos esperava, Growl colocou sua mão contra minhas costas. Um toque leve, mas era o suficiente. Outro passo na direção certa. Com o som de sua respiração inalterada ao fundo e a sensação da palma de sua mão tocando levemente minhas costas, lentamente caí no sono.

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Capítulo vinte e três CARA Naquela noite, fui acordada duas vezes por pesadelos. Não meu próprio. Growl estava se contorcendo e ofegante em seu sono. Eu não ousei acordá-lo. Tive a sensação de que ele não gostaria que eu soubesse de seus problemas. Era estranho vê-lo angustiado, seu rosto torcido de agonia. Eu nunca tinha considerado que algo poderia incomodá-lo tanto. Talvez ele fosse ainda mais humano do que eu pensava. Ele não estava na cama quando eu acordei, mas eu o encontrei na cozinha, encostado no balcão com uma xícara de café, como de costume. Mesmo agora que tínhamos uma mesa de cozinha na cobertura, ele ainda preferia ficar de pé. Coco e Bandit estavam sentados ao seu lado, fitando-o com olhos adoradores. — Bom dia, — eu disse. Growl encheu um copo e me entregou. Eu sorri e brevemente toquei seu antebraço em agradecimento. Ele não se afastou e seu olhar me fez parar. Bebi meu café e dei a ele o tempo necessário para dizer o que ele queria. — Eu tenho um pedido, — Growl disse calmamente. — Ok. — O que eu poderia fazer por ele? Ele olhou para Coco e Bandit. — Você vai cuidar dos meus cães caso alguma coisa aconteça comigo? Eu fiz uma careta. — Nada vai acontecer com você. Vamos todos para Nova York juntos. — Você deve estar ansiosa para a perspectiva da minha morte, — ele murmurou. — Tenho certeza de que você sempre desejou isso. ~ 190 ~


Eu deveria esperar por isso, e no começo eu tinha. Eu mesmo tentei matá-lo, afinal. Em breve arriscaríamos nossas vidas. Talvez fosse a última vez que estaríamos juntos. Era estranho pensar nisso. Ainda mais estranho que eu fiquei triste com isso. Eu examinei seu rosto. Eu não estava mais com medo dele, e eu não queria mais que ele morresse. Estendi a mão muito devagar e tracei a cicatriz em volta do pescoço dele. Growl parou, mas ele não me impediu. Surpresa correu sobre mim. Parecia um milagre que ele me deixasse fazer. E no fundo senti medo de repente. Medo de minhas emoções e do que o futuro me reservava. — Você não vai morrer. Você é a pessoa mais forte que eu conheço, — eu sussurrei. Eu me aproximei dele com os olhos fixos nele. — Eu não sou. — Seus olhos âmbar me sugaram. Tantos horrores estavam além deles, e ainda assim eu não o odiava, não mais. Como eu poderia deixar isso acontecer? — O que está acontecendo conosco? — Eu perguntei calmamente. Growl franziu o cenho. — O que eu sou para você? — Você é minha — disse ele simplesmente. Dele. Sua posse? Seu presente? Só isso, ou mais? Não importava. Uma vez em Nova York, não haveria futuro para nós. Eu não ficaria com Growl. Eu não poderia, não poderia fazer isso com minha mãe e irmã. Elas não entenderiam, e como elas poderiam, se nem eu sabia como isso aconteceu.

GROWL — Vou cuidar de seus cães, se é isso que você quer — disse Cara. Growl queria muitas coisas, coisas que ele nunca quis antes. Acima de tudo, queria lhe dizer que não queria perdê-la. E que, pela primeira vez em sua vida, ele estava com medo de morrer porque queria

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ter mais tempo com ela, e ao mesmo tempo estava com medo de não morrer e vê-la deixá-lo no momento em que estivessem em Nova York. — Coco e Bandit te amam, — disse ele. Ela procurou nos olhos dele, mas ele não tinha certeza do que ela estava procurando. Mesmo agora ele mal compreendia o funcionamento de seu cérebro. Ela era um mistério para ele, provavelmente seria sempre, mas não importava. De alguma forma, ela tinha feito o que ninguém mais tinha. Ela o ligara a ele e ele sempre seria leal a ela. Ele também era leal a Falcone. E ele teria morrido por ele, porque Growl jamais se importara se ele morresse. Mas agora... agora ele queria viver, e mesmo assim ele daria sua vida por Cara, para que ela pudesse ser feliz. — E eu os amo, — Cara disse suavemente. A palavra ‘amor’ dos lábios de Cara fez algo em Growl que ele não conseguia entender.

CARA Na manhã seguinte, Growl me acordou antes do nascer do sol. Ele tinha sumido a noite toda e eu estava doente de preocupação porque ele não tinha me avisado que ele ficaria fora por tanto tempo. — Temos que agir hoje, — disse Growl. Esfreguei os olhos. — O que... — eu me detive, percebendo o que ele queria dizer. Eu me sentei. — Por quê? Aconteceu alguma coisa? — Falcone está cansado de negociar com Nova York. Duvido que ele encontre uso para sua mãe por muito mais tempo. Eu me empurrei para fora da cama. — Estamos prontos? Nós não poderíamos falhar. — Prontos o suficiente, — Growl arranhou. — Temos que arriscar. Não podemos esperar. Encontrei alguém que nos ajudará. Eu não posso cuidar de tudo sozinho.

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— Podemos confiar nele? Growl balançou a cabeça. — Eu não confio em ninguém. Mas ele está na lista de Falcone, e eu lhe ofereci uma chance de escapar. Também ajuda que Falcone matou seus irmãos e ele está querendo vingança como nós. Eu supostamente deveria matá-lo. — Certo, — eu disse com incerteza. — E eu o conheço de quando éramos crianças. A mãe dele era uma das prostitutas de Bud. Ele e eu ocasionalmente ficávamos juntos no bordel. — Vocês eram amigos? — Não. Eu não tinha amigos. Ele estava com medo de mim mesmo naquela época, mas muitas vezes nos escondíamos de Bud juntos, então éramos aliados. — Ok, se você acha que ele não vai nos trair, eu acredito em você. Growl estendeu a mão, como se para tocar minha bochecha, mas deixou cair seu braço. Decepção me encheu, mas eu não tive tempo para pensar nisso. — Você precisa se vestir. Pegue algumas coisas para a viagem até Nova York. Quero partir daqui a quinze minutos. Coloquei roupas confortáveis e coloquei uma escova de dentes e uma muda de roupa em uma mochila antes de sair correndo do meu quarto. Growl esperava na frente da porta. Bandit e Coco não estavam à vista. — Eu já os coloquei no carro, — ele disse, como se ele tivesse visto a pergunta em meus olhos. Eu assenti, sentindo uma respiração trêmula. Eu queria dizer algo, mas minha boca estava muito seca. Em vez disso, fiquei na ponta dos pés e dei um beijo persistente em Growl. Seus olhos se suavizaram, mas principalmente pareciam melancólicos. — Vamos, — ele murmurou, abriu a porta e saiu. Quando saímos da garagem, uma estranha sensação de melancolia me dominou. Não porque eu sentiria falta desse ambiente sem esperança, mas porque eu sentiria falta de qualquer conexão estranha que Growl e eu tínhamos desenvolvido. Eu não tinha certeza do que o futuro iria trazer, mas eu sabia que Growl e eu não poderíamos ficar juntos. Não funcionaria. Era errado.

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Eu arrisquei um olhar para o homem ao meu lado. Quase dois meses atrás, estávamos em um carro juntos também, e naquela época minha vida tinha acabado. Eu o odiava, o temia, o queria morto. Ele não passara de um monstro aos meus olhos. Suas tatuagens horríveis não me repeliram mais, e nem sua cicatriz, que eu sabia agora era apenas uma de muitas. Eu o entendia melhor agora. Ele não era um monstro. Ele era monstruoso por partes, não tinha escolha a não se ser virar para sobreviver aos horrores de seu passado. Mas havia um lado humano nele também. Tinha brilhado mais e mais no tempo que passamos juntos. Talvez acabasse por conquistar seu lado monstruoso, mas eu sabia que não poderia seguir seu caminho para a humanidade com ele. Eu tive que pensar em minha mãe e irmã. A esperança de me encontrar com as duas me deu força. Eu não queria considerar que hoje eu poderia perder tudo. — Eu não disse a ninguém que nós estaríamos indo para sua mãe hoje. Primeiro, pensei em fingir que você queria visitá-la, mas depois das palavras de Falcone ontem, isso só teria causado suspeita. Ele poderia ter se preocupado com o fato de você avisar sua mãe sobre os planos dele de parar as negociações. — Você provavelmente está certo, — eu disse. — Onde vamos encontrar o cara que está nos ajudando? — Mino estará em um ponto de encontro em uma fábrica deserta. — Então ele não vai ajudar você a lutar contra os guarda-costas de Falcone? — Qual era seu propósito então? — Prefiro lutar sozinho. De repente, me pareceu que Mino era apenas um motorista, mas isso só fazia sentido se Growl não esperasse ser capaz de nos levar dirigindo. Eu não tinha tempo para pensar sobre isso porque estacionamos na frente da minha antiga casa. Growl não hesitou. Tudo tinha que ser muito rápido. Ele praticamente saltou do carro e correu em direção à casa. Ele tocou a campainha, e um homem que eu não conhecia abriu a porta depois de um momento. Growl agarrou sua cabeça e torceu violentamente como eu o tinha visto faz meses atrás. O homem caiu no chão, e então Growl desapareceu dentro da casa. Minha mão se estendeu para a porta. Era ~ 194 ~


difícil ficar no carro e esperar. E se alguma coisa desse errado e eu não estivesse lá para ajudar? O que eu poderia fazer? Se um dos guardas da mãe conseguisse dominar Grown, então essa pessoa definitivamente não teria problemas comigo. Os segundos estavam escorrendo e minhas palmas estavam ficando suadas. Então, finalmente, Growl saiu da casa furiosamente, arrastando a mãe atrás dele. Soltei um suspiro de alívio. Mãe estava lutando contra ele, obviamente convencida de que ele queria fazer mal. Abri a porta e foi quando ela me viu. Confusão atravessou seu rosto, mas ela parou de lutar com Growl, não que ela teria sucesso lutando com ele de qualquer maneira. Eu sabia o poder por trás do aperto dele. Growl abriu a porta de trás e empurrou minha mãe para dentro, então fechou a porta novamente. Ele se sentou atrás do volante poucos segundos depois e nós dirigimos para fora novamente. A mãe se sentou no assento traseiro, depois notou Coca e Bandit atrás dela no porta-malas. Ela ofegou e se afastou. — Eles são inofensivos, — eu assegurei. Ela me lançou um olhar interrogativo. Seus olhos se lançaram entre mim e Growl, obviamente estava insegura se ela deveria falar na frente dele. — Tudo vai ficar bem, — eu tentei acalmá-la. — Growl está nos ajudando a fugir de Las Vegas. Os olhos da mãe se arregalaram. — Mas, e Talia? — Iremos pegá-la primeiro e depois iremos para Nova York. Mãe balançou a cabeça. — Eu não tive sucesso. Luca não quer nada com a Camorra. — Você não faz parte da Camorra — interrompeu Growl. — Você faz parte da família. Ele vai te aceitar. Eu olhei para ele. — Mas você é. Luca não sabe? — Ele sabe. Já fiz muito em nome de Falcone. Eu não entendi. Luca o aceitaria de qualquer maneira? Ou talvez Growl não tivesse intenção de se juntar a nós em Nova York, e era por isso que Mino deveria nos levar.

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Notei o olhar da mãe e afastei meus olhos de Growl. Ela não conseguia entender os meus sentimentos. — E Falcone? — perguntou Mãe. — Não há tempo para explicar — disse Growl, impaciente. Seu corpo estava tenso. Ele parou o carro atrás de uma pick-up estacionada ao lado da rua. — Este é o carro de Mino. Eu quero que você entre lá, e eu cuido de Falcone. Eu olhei para ele. — Eu pensei que ele estaria esperando em uma fábrica depois de termos terminado com Falcone. — Eu não quero você por perto quando estiver lidando com ele. Você vai acabar me atrapalhando, e não há espaço suficiente para Falcone, se você e sua mãe estiverem lá. Um homem corpulento saiu da pick-up e esperou. — Eu não vou sair, — eu disse com firmeza. Growl apertou os lábios. Ele estava ficando com raiva, mas eu não me importava. Eu queria fazer parte disso. — Tudo bem, — ele murmurou. — Mas sua mãe vai. Ele saiu e abriu a porta de trás. Minha mãe me deu um olhar assustado. — O que você está fazendo, Cara? Isso é loucura. — Ela não continuou. Growl a puxou para a pick-up e a colocou no banco de trás, então ele estava de volta atrás do volante e nós fomos embora. Olhei por cima do meu ombro para a pick-up que se afastou da estrada e saiu na outra direção. — Sua mãe está segura. Mino precisa de nossa ajuda. Ele e sua família só podem esperar por segurança se Nova York lhes conceder proteção, e a única maneira que isso pode acontecer, é se sua mãe falar as coisas certas para ele. Ele não tem escolha a não ser fazer nosso plano funcionar. Essa informação me acalmou. Se você pudesse confiar em uma coisa, então era que as pessoas queriam salvar sua própria pele e proteger sua família. O portão da mansão de Falcone apareceu à distância. — Há um cobertor na parte de trás. Agache-se e se cubra com ele. Eu não quero que eles te vejam.

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Agarrei o cobertor e fiz o que ele pedira, tentando ficar o mais quieta possível. Alguns minutos depois, o carro parou e ouvi a janela deslizar para baixo, então uma voz masculina. — Bom dia. O Sr. Falcone está esperando por você. Depois de um breve momento de pânico, lembrei-me que Growl tinha mencionado que ele deveria encontrar Falcone para discutir outro trabalho. Pelo menos, dessa maneira ninguém suspeitaria. Eu ouvi um tiro abafado e um corpo batendo no asfalto. Meu coração bateu em meus ouvidos quando o carro foi posto em movimento novamente.

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Capítulo vinte e quatro CARA — Fique aqui. Vou provavelmente demorar um pouco mais para acabar com os guardas de Falcone, — disse Growl enquanto puxava o cobertor para fora de mim. Ele segurou uma arma para mim. — Sabe como usá-la? Meus olhos se arregalaram e eu balancei a cabeça. Ele rapidamente explicou o básico para mim, então saiu, e eu queria que ele tivesse me dado um beijo caso ele não voltasse. Nem pense nisso, eu me repreendi. Se Growl morresse, todos nós morreríamos. Growl abriu o porta-malas e os cães pularam. Eu fiquei agachada no espaço para as pernas, mas olhei para fora da janela. Coco e Bandit seguiram atrás de Growl enquanto ele se dirigia para a porta. Alguém a abriu e Growl enfiou uma faca no ponto macio abaixo do queixo dele, então Growl estava fora da minha vista. Demorou dez minutos até que finalmente Growl apareceu na entrada. O sangue escorria pela testa dele e sua camisa estava rasgada. Meu coração disparou com a visão, até que Growl saiu, segurando Falcone pelo colarinho. Uma perna da calça estava rasgada como se Coco ou Bandit tivessem mordido Falcone lá. Sorri apesar da minha tensão. O porta malas ainda estava aberto, então Coco e Bandit pularam sem precisar ser mandados. A boca de Coco estava coberta de sangue. O pelo de Bandit estava muito escuro para dizer que tipo de líquido estava lá, mas eu tinha uma ideia de que também era sangue. Afinal de contas, eram cães de combate. Growl empurrou Falcone para o banco de trás. As mãos do homem estavam amarradas com fita adesiva, assim como sua boca. Ele olhou furiosamente quando ele me viu no banco de trás.

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Growl entrou em seu assento e ligou o carro. Precisávamos ficar longe da casa o mais rápido possível. Ninguém tentou nos parar quando saímos das instalações. — Está tudo bem? — Eu perguntei, examinando o corte na cabeça de Growl. Não parecia muito profundo, mas o sangue estava correndo pelo seu rosto e parando em seu olho esquerdo. Ele limpou com impaciência. — Eu matei todos eles antes que eles pudessem tocar um alarme. Falcone emitiu um som abafado. Ele parecia irritado, mas também havia uma pitada de medo que me dava uma satisfação doentia. Eu sorri sombriamente para ele antes de voltar para Growl. — E a esposa e filhos? — Os filhos deles estão na Inglaterra e sua esposa está em Aspen. Ótimo. Pelo menos, esse sangue não precisava ser derramado. Eu não gostava muito da esposa de Falcone, mas ela provavelmente tinha sofrido bastante em seu casamento. Ela não merecia a morte. Falcone tentou dizer algo de novo. Growl estacionou ao lado da estrada e se virou em seu assento. Ele empurrou a manga da camisa de Falcone para cima, e apertou a faca na pele alguns centímetros abaixo do cotovelo. — O que você está fazendo? — Eu perguntei. — Ele implantou um rastreador GPS no corpo para que pudéssemos encontrá-lo se ele fosse sequestrado, — disse Growl. Falcone engasgou de dor quando Growl tirou o pequeno dispositivo de sua carne com a ponta afiada da faca. O rastreador coberto de sangue caiu no banco de trás. Growl abriu a janela e jogou o dispositivo de rastreamento para fora. Então ele puxou a fita sobre a boca de Falcone e continuou nossa jornada. — Tem certeza que é uma boa ideia deixá-lo falar? — Eu perguntei. Falcone ofegou no assento traseiro, a pele em torno de sua boca vermelha, e nos encarou. — O que a puta fez para te embrulhar em torno de seus dedos? Eu teria achado que você era imune à manipulação.

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— Você me manipulou toda a vida, — rosnou Growl. — Ela te contou isso? Ela deve ter chupado seu cérebro. — Tenha cuidado — advertiu Growl. Ele tentou se sentar, mas com suas mãos amarradas isso não era fácil. Eventualmente ele desistiu. O que provavelmente foi melhor considerando que Bandit tinha colado a cabeça sobre o banco traseiro e estava muito ansioso para provar Falcone de novo. — Ela vale a pena perder tudo? Você poderia ter se tornado meu sucessor. Você ainda pode, se você matar essa puta agora. Eu ri. E Growl também sorriu amargamente. — Como se seus homens me aceitassem como seu chefe. Eu sei o que todo mundo está dizendo sobre mim, até mesmo você. Um bastardo nunca pode ser nada além de um capanga. Eu não sou idiota. Eu sei o que está acontecendo por trás das minhas costas. E você tem herdeiro legítimo, você não precisa de mim. — Esta vida é tudo que você conhece, tudo que você tem. Se você arriscar por ela, você será deixado com nada. Ela não vale a pena, acredite. Os olhos de Growl me entediaram brevemente. — Sim, ela vale. Ela vale mais do que você e eu. Ela vai valer a pena perder tudo. Meu coração inchou de amor, e ao mesmo tempo meu estômago se apertou. Isso não era para acontecer. Apaixonar-me por um homem como Growl era o pior que eu poderia fazer, mas já era tarde demais. Eu não podia negar minhas emoções para o homem ao meu lado. — Eu devia ter matado você quando você era um menino inútil. Você é inútil. O filho de uma prostituta boqueteira. Se você não trabalhar para mim, o que você vai fazer? Não há nada que você possa fazer. Você é um monstro. Você sempre foi. Eu soube assim que eu vi você quando você era um bebê feio gritando. Growl parou em um estacionamento deserto. A loja estava fechada por um longo tempo pelo que parecia. Growl saltou do carro e arrastou Falcone para fora do assento traseiro, então o empurrou para o chão. Falcone cacarejou. Saí do carro também. Growl agarrou Falcone pela garganta. — Você fez bastante dano. Eu não vou mais te ouvir. Você vai morrer hoje.

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— Meus homens vão te matar. Você não pode deter a todos. Provavelmente já estão procurando por mim. Eu congelo. Como? Growl estreitou os olhos. — Você está mentindo. O sorriso de Falcone se alargou. — Eu tenho um segundo rastreador em algum lugar no meu corpo. Depois da coisa com seu pai traidor, eu decidi que eu precisava de medidas de segurança adicionais. Alguém vai se perguntar por que eu estou saindo da minha casa e então eles vão me encontrar. — Falcone me encarou com um olhar aterrorizante. — Sua irmãzinha sofrerá muito. Eu soltei um suspiro áspero. — Vai demorar um pouco para que seus homens percebam que você não está em casa. Eles não têm nenhuma razão para verificar o seu rastreador, — disse Growl, mas ele não parecia certo. — Temos que encontrar Talia, — eu implorei. Falcone sorriu. — Não vou te contar. Growl sorriu severamente. — Oh, você vai. — Ele se virou para mim. — Você deveria voltar para o carro. Isso ficará feio. — Não. Eu quero ver. Growl hesitou, mas então tirou a faca e se ajoelhou ao lado de Falcone. — Eu adoraria fazer isso lentamente, — ele murmurou em uma voz que me lembrou por que eu tinha medo dele no começo. Por que eu ainda deveria ter medo dele. — Mas estamos sem tempo. — Ele silenciou Falcone com fita novamente, agarrou as mãos amarradas de Falcone e empurrou a ponta da faca sob uma de suas unhas. Meus olhos se arregalaram quando percebi o que ele ia fazer, e então o grito abafado de Falcone soou e o sangue estava derramando sobre a faca de Growl. Eu vomitei e me afastei, meu peito empinando em uma tentativa de parar de vomitar. Outro grito abafado. Comecei a tremer, e lentamente levantei minhas mãos e cobri minhas orelhas. Eu queria isso, queria que Falcone sofresse, mas eu não podia assistir. Eu não podia suportar ver Growl como o monstro que eu não queria que ele fosse. Falcone merecia isso. Ele era a razão pela qual Growl era capaz de tais atrocidades em primeiro lugar. Agora ele iria provar do seu próprio veneno.

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Uma mão no meu ombro me fez ofegar e eu me virei para encontrar Growl me observando com olhos assombrados. — Nós precisamos ir. Eu sei onde sua irmã está. Não é longe daqui. — Eu olho atrás dele para onde Falcone estava deitado no asfalto, segurando sua mão sangrando contra seu peito e chorando. Quando ele me notou olhando, ele franziu o cenho. Ele me mataria se tivesse a chance, isso era certo. — Isso foi rápido, — eu disse aliviada. Growl encarou meu rosto, então assentiu. — Ele não está acostumado com a dor. Isso facilita as coisas. Eu me perguntava quantas vezes Growl tinha feito isso antes e na época eu sabia que nunca lhe perguntaria. — Eu não consegui assistir, — eu sussurrei. — Isso é bom. Você é uma boa pessoa. — Eu não sou, — eu disse. — Se eu fosse uma pessoa boa, eu não queria que ele sofresse e morresse, mas eu quero. Só sou fraca demais para ver. Growl tocou minha bochecha. — É melhor, acredite em mim. — Você vai matá-lo agora? — Não. Podemos precisar dele como um escudo. E devemos nos apressar. — Ele baixou a mão e carregou Falcone de volta para o carro, sem se importar que ele tivesse sangue em todos os assentos. A camisa do Growl já estava coberta disso. Mas antes de entrar no carro, ele trocou uma camisa nova.

***

Depois de cinco minutos de carro, paramos na frente de uma casa simples. — Aqui é onde sua irmã é mantida, — disse Growl. — Não sei ao certo o que esperar. — É por isso que eu deveria ficar no carro, — eu terminei para ele. Grown assentiu com a cabeça. — Eu voltarei logo. — Ele tirou Falcone e começou a arrastá-lo para a casa, mas Falcone lutou. Conseguiu se libertar. Eu rapidamente saí do carro.

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Nesse momento, outro carro parou. Cosimo estava atrás do volante. Abriu a porta do carro. Falcone tropeçou a poucos passos de Growl. Eu estava prestes a avisar, mas Growl agarrou Falcone e cortou sua garganta. A bile subiu na minha garganta enquanto o sangue se espalhava. Mas dessa vez eu não podia desviar o olhar. — Agora você sabe como é, — Growl guinchou. Falcone caiu no chão em uma poça de seu próprio sangue. Meus olhos voltaram para Cosimo. Ele olhou com os olhos arregalados, então seu olhar se moveu de Falcone para Growl e ele voltou ao carro e começou a recuar. — Growl, — eu chamei. Growl amaldiçoou, mas não impediu Cosimo de escapar. — Eu não posso atirar nele. O barulho é muito alto. Fique aqui. — Com essas palavras, ele correu em direção à casa, com a arma apontada. Peguei a arma que Growl me dera e rastejei no banco de trás, estremecendo com todo o sangue lá, mas eu queria estar ao lado de Talia. Contei os segundos até que de repente Talia veio correndo em minha direção. — Aqui! — Eu gritei e seus olhos aterrorizados focaram em mim. Ela correu para mim e se jogou no carro. Apertei-a contra mim, agradecida por tê-la de volta. Ouvi disparos. Growl coxeou em direção ao carro e meio que caiu no assento. Ele apertou os lábios enquanto ele ligava o carro. — Se abaixem, — ele ordenou, e apenas um segundo depois de Talia e eu nos agacharmos no banco de trás, uma bala atravessou a janela. Talia gritou, e eu a abracei com mais força. — Está bem. Tudo ficará bem. — Eu esperava que eu não estivesse mentindo.

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Capítulo vinto e cinco CARA Dois carros nos seguiram, mas eventualmente conseguimos despistá-los. Growl conduziu nosso carro em direção à fábrica vazia que ele e Mino determinaram como ponto de encontro. Quando chegamos, já havia um carro esperando e Mino estava fumando um cigarro. Não vi minha mãe em lugar nenhum. Talia levantou a cabeça quando paramos, seu rosto assustado e manchado com as lágrimas. — O que está acontecendo? — Estamos indo. — Respondi, acariciando seu cabelo. Ela não fez mais perguntas. Percebi que ela estava em choque. Saímos do carro e Growl abriu o porta malas para que Bandit e Coco pudessem sair. Eu tive que apoiar Talia. Ela estava tremendo demais para andar sozinha e Growl também estava com problemas. Sua coxa havia piorado. Ele notou meu olhar e encolheu os ombros, como se não fosse nada. Eu não acreditava. Sabia que ele devia estar com muita dor. — Por que vocês demoraram tanto? — Mino perguntou, percebendo o machucado na coxa de Growl. — Vocês foram seguidos? — Seu rosto se encheu de preocupação. — Provavelmente. Vamos nos apressar — Disse Growl. As palavras tinham acabado de sair de sua boca quando um carro virou a esquina e entrou em nossa rua. — Pegue os cachorros e as garotas, eu vou atrasá-los! — O quê? — Gritei, mas Growl já estava correndo e atirando no carro, que parou. Quatro homens saíram e o segundo carro apareceu ao lado do prédio vizinho. Growl rapidamente mirou nas rodas e uma delas explodiu. O carro girou e parou. — Rápido! — Mino gritou me puxando.

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— Cara — Talia gemeu. Seus olhos estavam suplicantes, e isso fez com que eu me movesse. Mino e eu a levamos até o carro. Minha mãe estava no banco de trás e quando Mino destrancou o carro percebi por que ela não tinha saído para nos ajudar. Ele tinha deixado ela trancada. Provavelmente por um bom motivo. Talia sentou no banco de trás com nossa mãe, mas eu queria voltar e ajudar Growl. Não tive a chance. Mino me agarrou e empurrou para o banco de trás com elas, e em seguida, fechou a porta. Ele sentou no banco do motorista e travou as portas para que eu não pudesse sair. — O que você está fazendo? — Gritei enquanto observava Growl nos defendendo de vários homens. Ele estava agachado atrás do carro, atirando neles. Mas por quanto tempo ele conseguiria mantê-los afastados? — Me deixe sair! Mino me ignorou. Ele ligou o carro e o colocou em movimento.

GROWL Growl permitiu-se um momento para observar o carro se afastar e Cara partir. Ele provavelmente nunca mais a veria, o que era melhor. Ela seria mais feliz sem ele em sua vida. Cravou uma faca em seu próximo oponente. Ele lutaria e morreria hoje. Mas não em vão. E se ele morresse, seria com a lembrança do sabor doce de Cara, sua pele perfeita e seu rosto bonito. Ele fechou os olhos com a lembrança, sem se importar com o que o esperava.

CARA Bati os punhos contra a janela, ignorando a dor maçante que corria através de meus braços devido à força. — Me deixe sair. — Gritei novamente, ainda mais alto. Não que Mino não tivesse ouvido da primeira vez. Estávamos a menos de dois ~ 205 ~


metros de distância um do outro. Em vez de prestar atenção em meu pedido, ele dirigiu ainda mais rápido. Levantei os braços e me apoiei contra o vidro. Growl estava cercado pelos homens de Falcone. Nem mesmo um lutador como ele teria chance contra tantos oponentes. Gritei. — Por favor, temos que ajudá-lo. Mino balançou a cabeça. — Tenho ordens estritas para te levar embora daqui. — Mas o homem que deu as ordens a você estará morto em breve se não o ajudarmos! — Não importa. Uma promessa para um homem morto não vale menos. Afundei contra o assento. Estávamos muito longe. Eu não conseguia mais ver Growl. Ele tinha sobrevivido a tantas coisas. Não podia morrer, não assim. Não tão cedo. — Cara? — Escutei a voz macia da minha mãe e percebi que tinha esquecido completamente dela e de Talia. Virei em sua direção. Confusão brilhava em seu rosto, mas também uma amarga realização. Eu tinha me entregado, mas não conseguia me importar. Meus olhos encontraram Talia. Ela estava olhando fixamente para suas mãos, que descansavam em seu colo. Peguei uma de suas mãos, mas ela não reagiu. — Estaremos a salvo em breve. Eu não sabia o que ela tinha passado nos dois últimos meses, desde que eu a tinha visto pela última vez. Ela parecia fisicamente bem, mas isso não significava nada. Minha mãe envolveu um braço ao redor de minha irmã, mas manteve seus olhos em mim. — Por que esse homem nos ajudou? — Acho que ele se sentiu culpado pelo que fez e quis se redimir. — Respondi.

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Minha mãe franziu os lábios. — Aquele homem não sabe o que é culpa. Ele é um monstro. Ele tem sido o assassino mais cruel de Falcone por tantos anos. Ninguém poderia fazer isso sem se transformar em algo menos humano. Eu não podia negar. Growl era cruel. Ele era um assassino. Tinha feito mais coisas horríveis que eu pudesse enumerar. Não tinha como explicar tudo isso para minha mãe, porque eu não podia explicar sozinha. — Eu ouvi as histórias. — Disse Mino. — Como Falcone te deu para ele de presente. Era a punição de sua família, pela traição do seu pai. Ele estava me observando através do espelho retrovisor, uma expressão curiosa em seu rosto maltratado pelo sol. Eu não reagi às suas palavras. Não era uma pergunta. Minha mãe empalideceu com a menção do meu pai, mas permaneceu em silêncio. — O que não entendo é por que você está chorando por causa dele. Você não deveria estar aliviada por se livrar dele? Ele era um monstro. — Mino continuou. Levantei os dedos até minhas bochechas, sentindo a umidade. — Ele era. — Concordei. Eu não estava delirando. Eu tinha testemunhado a escuridão de Growl, seu lado irreparável, várias vezes, e ainda assim tinha me apaixonado. Talvez porque conhecesse o outro Growl, a pessoa que ele mantinha escondida sob as muitas camadas de brutalidade. O lado sensível e vulnerável, carinhoso e amoroso. Isso me conquistou. Eu sabia que o homem na minha frente não acreditaria se eu contasse sobre Growl. E provavelmente era melhor assim. Growl sempre fez tudo o que era possível para manter esse seu lado escondido, para se proteger. Eu não iria destruir a imagem que ele trabalhou tanto para construir, mesmo que eu a odiasse. Mas agora que ele tinha ido embora, era tarde demais. Meu coração se apertou como um punho. — Talvez você devesse conversar com alguém, um psiquiatra. Já ouvi falar dessa merda. Síndrome de Estocolmo.

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A raiva irradiou por meu corpo. Eu odiava que ele tivesse colocado uma etiqueta em meus sentimentos. Minha mãe tocou meu braço e percebi que ela concordava com ele. Talvez eles estivessem certos. Eu não sabia. Não sabia se meus sentimentos por Growl teriam sobrevivido em liberdade, e nunca teria a chance de descobrir.

***

Viajamos por dois dias, e só paramos para ir ao banheiro. Talia não falou nada no primeiro dia. No segundo, ela finalmente nos disse que estava bem. Que não tinha sido ferida. Que a esposa do cara que ficava de olho nela, cuidou dela o melhor que pôde. Fiquei aliviada, mesmo que tivéssemos mais um obstáculo à nossa frente. Convencer o chefe da Família de Nova York a nos ajudar e nos aceitar. Minha mãe ligou para ele de um telefone público velho no meio da estrada, e avisou que estávamos chegando. Ele não tinha prometido nada. Provavelmente pensou que fôssemos espiãs. Era difícil ter medo do futuro. Eu me sentia entorpecida. Muita coisa tinha acontecido. O homem que eu amava estava morto. Ele morreu por mim. Eu não tinha certeza do que acreditava exatamente, mas tinha que existir alguma coisa depois desta vida. Eu esperava que os atos de bondade de Growl fossem vistos como um passo para a redenção, e lhe fosse concedido acesso a um lugar melhor na vida após a morte. Ele tinha sofrido tanto enquanto estava vivo, e mesmo que parte fosse sua culpa, eu queria a felicidade dele agora que estava morto. Chegamos em Nova York à tarde. — O que vai acontecer se eles não nos deixarem ficar? — Talia sussurrou. — Ou eles pensam que somos espiões e nos matam, ou eles nos mandam embora e os homens de Falcone nos matam. — Mino respondeu com firmeza. Fiquei com vontade de bater nele por causa daquela declaração, mesmo que provavelmente fosse verdade.

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***

Coco latiu atrás de mim. Me virei e cocei atrás de sua orelha. Ela inclinou a cabeça para me dar melhor acesso. Bandit enfiou a cabeça sob meu braço, pedindo atenção também. Comecei a fazer cócegas sob seu queixo, do jeito que ele amava, e ele fechou os olhos em evidente satisfação. Esses animais, que me assustaram tanto no começo tinham, de algum modo, entrado no meu coração. Assim como seu dono. Eles compartilhavam a aparência assustadora e grande potencial de destruição, mas por baixo disso, havia algo sensível e vulnerável, algo que fazia você querer cuidar deles e amá-los. Agora Coco e Bandit eram tudo o que restava de Growl. Eu cuidaria deles o máximo que pudesse, tentaria protegê-los. Eu devia isso a Growl. Meus olhos começaram a arder, da mesma forma que acontecera tantas vezes nos últimos dias, mas pisquei para afastar as lágrimas. Eu não conseguia mais chorar. Aquilo parecia drenar toda minha energia, e eu precisava dela para o encontro com a Família de Nova York. Há apenas dois meses, minha vida estava em ruínas, ou parecia que estava. Eu pensei que não sobreviveria, mas tinha sido mais forte do que pensava ser possível. Eu era forte. Meu tempo com Growl tinha me ensinado isso. Eu tinha que descobrir uma maneira de convencer Luca de que não éramos inimigos. O carro finalmente parou em uma área industrial que me deu poucas esperanças. Era um lugar onde você levava alguém que queria fora do caminho. Meus olhos viraram para Mino. — Onde estamos? — Perguntei, minha voz rouca, mas firme. — Esse é o endereço que Vitiello deu à sua mãe — Mino respondeu. Ele olhou pela janela com preocupação. Dois carros pretos estavam estacionados a uma boa distância de nós. — Talvez devêssemos sair para que eles possam ver que não somos perigosos. — Sugeri. — Eles poderiam atirar em nós. — Mino respondeu. — Eu sei. Mas não temos escolha. Abri a porta e saí. Me movimentei lentamente, mantendo os braços afastados do corpo para que eles pudessem ver que não estava

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armada. Meu coração bateu forte contra a caixa torácica quando dei alguns passos para longe do carro. Depois de um momento de hesitação, minha mãe e Talia seguiram meu exemplo e se juntaram a mim. Nós não nos movimentamos, só esperamos. Mino ficou no carro. Dei a ele um olhar, mas ele parecia determinado a esperar. Um homem alto saiu de um dos carros. Ele era alto e musculoso como Growl, mas seu cabelo era preto e não havia tatuagens visíveis. Por um momento enlouquecedor, pensei que fosse ele, ressuscitado dos mortos por algum milagre. — Luca. — Minha mãe suspirou ao meu lado. Um segundo e terceiro homens se aproximaram de Luca um momento depois. Como poderíamos ter certeza que a vida aqui seria melhor do que em Las Vegas? Eu não conhecia essas pessoas, só tinha ouvido histórias, algumas os bajulando. Minha mãe também tinha saído de Nova York porque seu irmão era cruel, e agora seu filho Luca decidiria o nosso destino. Depois de uma breve discussão, Luca e o segundo homem começaram a caminhar em nossa direção. O terceiro ficou para trás, mas provavelmente havia mais nos carros. Fiquei surpresa que Luca estivesse se arriscando tanto. Falcone teria ficado para trás e deixaria seus homens fazerem o trabalho sujo. Eu não tinha certeza se era um bom sinal Luca ter decidido nos encontrar pessoalmente. Eles pararam a uma boa distância. — Seu motorista precisa sair. — Luca solicitou. Tanto ele quanto o outro homem estavam segurando armas. Encarei Mino e acenei para que ele saísse. Seus olhos se dirigiram para Luca. — Se ele não sair logo, eu mesmo vou tirá-lo de lá, e ele não vai gostar muito disso. — O outro homem advertiu. Seu cabelo era marrom escuro, um pouco mais longo do que o de Luca, e percebi que eles compartilhavam as mesmas características. Provavelmente Matteo, se eu me lembrava corretamente. Mino deve ter ouvido porque finalmente saiu do carro, segurando as mãos sobre a cabeça. Um homem correu ao redor do carro e o agarrou, torcendo os braços atrás das costas. Mino gritou de dor, mas ~ 210 ~


ficou em silêncio quando foi atingido com o cabo de uma arma. Ele caiu, inconsciente. Talia começou a chorar silenciosamente ao meu lado. Segurei sua mão. Nossa mãe já estava segurando a outra. Luca examinou minha irmã, depois eu e minha mãe. Eu estava muito cansada e esgotada para sentir medo deles. O medo viria mais tarde. Se houvesse mais tarde. Pelo que eu sabia, eles nos viam como inimigos e nos matariam. Pelo menos assim eu estaria com Growl. Mas algo em mim se rebelava contra essa ideia. Eu sentia falta de Growl, mais do que eu pensava ser possível. Mas havia muitas razões pelas quais eu precisava viver, pelas quais eu queria viver. Minha irmã e minha mãe eram duas delas. Invoquei toda minha coragem e falei. — Eu sou Cara. Sua prima. — Nós sabemos exatamente quem você é — Matteo interrompeu bruscamente. Não parecia que eles estavam felizes em nos ver.

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Capítulo vinte e seis CARA Eles não nos deixaram falar, mas nos levaram para o que parecia ser algum tipo de clube que estava deserto quando chegamos. Ninguém nos disse nada enquanto fomos levados para um quarto na parte de trás. — Feche a porta, Romero. — Luca pediu ao terceiro homem. Ele o obedeceu sem hesitar e ficou parado em frente à porta, seus olhos atentos nos vigiando. — Onde está o nosso motorista? — Perguntei. Eles o colocaram em outro carro e eu não o tinha visto novamente. — Precisamos ter uma conversa detalhada com ele para descobrir quais são seus motivos. — Matteo respondeu com um sorriso afetado. Um arrepio percorreu minhas costas. — Você vai torturar a gente também? — Murmurei. Matteo riu. — Ah, uma atrevida. Luca suspirou. — Você já tem uma esposa atrevida. Não provoque meus nervos discutindo com nossa prima também. Meus olhos se arregalaram em surpresa. Matteo encolheu os ombros e sentou na borda da mesa. — E os cachorros, para onde você os levou? Por favor, não os machuque. — Alguém está cuidando deles — Luca respondeu. O que ele queria dizer com isso? ~ 212 ~


— Precisamos da sua ajuda, Luca. — Minha mãe falou, suplicante. — Nós somos da família. — Você deixou sua família para ir à Las Vegas. Você se casou com um membro dos Camorra. — Pelo que eu sei, isso é traição. — Matteo disse com um sorriso torto. — E pelo que ouvimos, sua família gosta de traição. Seu marido já pagou por isso com sua vida. Minha mãe hesitou. — Nós nunca traímos ninguém. — Respondi com firmeza. — E minha mãe só saiu de Nova York porque amava meu pai e porque o irmão dela era um monstro. — Bem, nós sabemos que pelo menos você sabe como lidar com monstros, certo? — Matteo disse. — E não se esqueça que é do nosso pai que você está falando. Engoli em seco. Insultar Salvatore Vitiello provavelmente não foi a melhor ideia. — Eu conheci seu pai, meu irmão, bem o suficiente para saber que você não deve sentir muito sua falta. — Minha mãe respondeu. Luca encolheu os ombros. — Ele não era um bom homem. Mas eu também não sou. — Eu não acredito que você é como ele. Vi sua linda esposa no jornal. A expressão de Luca mudou. Seu instinto protetor levou para longe a inexpressividade. — Não estamos falando sobre ela. A porta do quarto se abriu. Romero olhou atrás, depois se virou com uma expressão de desculpa. Uma linda mulher loira entrou. — Já chega. — Ela falou. Sua voz era baixa e calma, mas tinha um óbvio poder sobre Luca. Ela era resplandecente. Foi tudo o que pude pensar quando a vi. Sua pele era pálida, cabelos dourados e olhos azuis. Resplandecente.

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Seu sorriso acolhedor me atingiu e o nó no meu estômago afrouxou. Talvez houvesse esperança, afinal de contas. Ela caminhou em minha direção. Era difícil não perceber a desaprovação no rosto de seu marido ou a forma que seu corpo tencionou em antecipação. Como se ele estivesse preocupado que eu fosse atacá-la. Essa era a última coisa na minha cabeça, principalmente quando ela poderia significar nossa segurança. — Eu sou Aria. — Ela falou, estendendo a mão para mim. Eu a cumprimentei com um sorriso. — Eu sou Cara, e esta é minha irmã Talia. — Acenei para Talia que parecia completamente congelada de medo. Aria deu um tapinha no ombro da minha irmã. — Você não precisa ter medo. Ninguém vai te machucar, eu prometo. — Aria. — Luca advertiu em uma voz tensa. Ela cumprimentou minha mãe antes de finalmente encarar o marido. — Elas são da família. E passaram por muita coisa, você não está vendo? Precisamos ajudá-las. — Nós nem sabemos por que elas estão aqui. — Matteo ressaltou. Aria caminhou até seu marido e o encarou. — Elas são inocentes. Elas precisam de nossa proteção. Você realmente acredita que elas estão aqui para nos fazer algum mal? — Não. — Luca disse com um suspiro. — Eu não acredito. — Ele olhou para nós. — Vocês podem ficar. Espero que eu não me arrependa.

***

Eles nos levaram para uma casa no Hamptons, depois de alguns argumentos convincentes de Aria. Eu já gostava dela, embora não a conhecesse. Fomos colocadas na ala de hóspedes do grande edifício, provavelmente por medidas de segurança, mas eu não me importava.

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Estávamos um passo mais perto de um futuro melhor. Quando Aria nos mostrou nossos quartos, eu disse: — Obrigada, por tudo. Ela sorriu. — Seja bem-vinda. — Eu tenho mais um pedido. Você pode se certificar de que eles não machuquem os meus cachorros? — Claro. — Ela disse sem hesitar. — Vou garantir que eles fiquem seguros. Talia veio até meu quarto naquela noite e se aconchegou em mim. — Eu estava tão assustada, mas agora tudo vai ficar bem, não vai? — Ela sussurrou. — Sim. Vamos começar de novo. — Uma imagem de Growl apareceu em minha cabeça, mas tentei manter a tristeza dentro de mim. Em breve essas emoções teriam que desaparecer. — Você realmente o amava? — Amava. Ainda amo. — Admiti. Eu não queria mentir para Talia. — Eu não entendo. — Sua respiração quente soprou sobre minha garganta enquanto ela descansava a cabeça em meu ombro. — Nem eu. Eu não queria que isso tivesse acontecido. — Você não pode mudar o que sente. Está tudo bem. — Talia disse suavemente, me abraçando com mais força. — Mamãe está me evitando. Acho que ela não consegue me perdoar por causa de Growl. — Ela perdeu o pai. Ela precisa de tempo. Eu esperava que Talia estivesse certa. Mesmo que ela não estivesse, não havia nada que eu pudesse fazer com meus sentimentos.

***

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Aria manteve sua promessa. No dia seguinte, Coco e Bandit chegaram à mansão. Porém Luca se recusou a deixá-los correr pela casa. Eu tinha que mantê-los em uma coleira quando estava fora do quarto. Aria juntou-se a mim enquanto mostrava o jardim a eles. Tanto Coco como Bandit pareciam gostar de sua presença. Luca seguia atrás de nós como uma sombra. — Eles eram usados rinhas de cães. Você deveria ter cuidado. A maioria deles são monstros desagradáveis. — Eles são bons. Melhor do que a maioria das pessoas. — Respondi bruscamente. — Isso não é difícil. A maioria das pessoas são idiotas. — Matteo respondeu com um encolher de ombros, também aparecendo no jardim. — Enquanto esses animais estiverem aqui, não vou permitir que Gianna venha nos visitar. — Como se você pudesse dizer a Gianna o que fazer. — Aria brincou e se virou para mim. — Não os escute. — Completou em tom de desculpas. Ela se agachou diante de Coco e Bandit. Me ajoelhei ao lado dela e acariciei a cabeça de Coco. Depois de um breve momento de hesitação, Aria fez o mesmo. — Veja. — Ela disse com um olhar por cima do ombro em direção ao marido. — Eles são inofensivos. — Eles podem ser inofensivos agora, mas já viveram muito. Às vezes eles podem perder o controle. Eu não os quero perto de você. Aria suspirou e sussurrou para mim. — Mantenha eles na coleira até que ele se acalme. Assenti. Eu não tinha nenhuma intenção em ir contra as ordens de Luca. Levei os cachorros para o quarto e me estiquei na cama. Eles inspecionaram o quarto, mas não tiraram os olhos de mim. Tive a sensação de que eles estavam procurando por Growl. Provavelmente também sentiam sua falta. Eventualmente, dei umas batidinhas na metade vazia da cama. — Venham para cima. Coco ergueu a cabeça, as orelhas levantadas.

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Dei outro tapinha na cama com mais firmeza e repeti meu convite. Coco foi a primeira a trotar em direção à cama e se juntar a mim com um salto hesitante. Quando eu não a repreendi, ela se aconchegou, pressionada contra a lateral do meu corpo. Bandit não precisou de mais um convite. Ele se aconchegou rapidamente contra eu e Coco. Eu coçava atrás de suas orelhas, apreciando a sensação da pele macia. Com seus corpos quentes me dando o conforto que tanto precisava, relaxei contra os travesseiros e apaguei as luzes. Eu não tinha dormido bem ontem à noite, tinha sonhado com a morte de Growl imaginando um final terrível atrás do outro. Eu queria saber exatamente o que tinha acontecido com ele. A verdade, por mais difícil que fosse, era sempre melhor do que não saber nada.

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Capítulo vinte e sete CARA Algumas semanas mais tarde, minha família e eu estávamos começando a nos instalar, e Talia estava quase de volta ao seu eu habitual. Voltei da minha caminhada com Coco e Bandit nas vastas instalações da mansão Vitiello, e estava a caminho da ala dos hóspedes quando ouvi uma conversa em outro lugar da casa. Eu conhecia aquela voz. Todas as noites eu a ouvia em meus sonhos, a maioria deles pesadelos. Mas ela não era a causa dos meus medos, não mais. Tanta coisa havia mudado. Deixei as coleiras caírem e comecei a correr em direção àquela voz. Não parei até vê-lo na sala de estar. Derrapei até parar, meu coração batendo em minha garganta. E ali estava ele, sombrio, alto e ferido. Um de seus olhos estava inchado, vários cortes e novas contusões lhe cobriam a pele. Eu não conseguia me mexer. Os cachorros não compartilharam da minha hesitação. Eles me seguiram, arrastando suas coleiras. Eles pularam à frente, latindo e sacudindo os rabos. Luca, Romero e Matteo se assustaram e puxaram as armas. Mas Coco e Bandit não atacaram. Eles se espremeram nas pernas de Growl, que estendeu a mão para acariciar suas cabeças, mas seus olhos foram para mim, me perfurando até a alma. Fazia duas semanas desde que nos vimos pela última vez. Onde ele esteve? Por que ele não me deu um sinal de que estava vivo? Chorei sua morte, fiz planos para um futuro sem ele, mas agora que ele estava aqui, eu me perguntava se teríamos um futuro juntos. Nós nunca conversamos sobre isso. Eu tinha sido dele, não por escolha, e agora que eu estava livre, me perguntava se poderíamos fazer isso funcionar.

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Será que eu realmente queria viver com o homem que era meu dono? Será que ele ainda me queria, agora que eu não era mais apenas um presente? Milhares de perguntas percorreram minha mente e me deixaram cambaleando. Fixei meu olhar no seu e percebi que, apenas um instante antes de Growl levantar seus escudos novamente, minhas próprias perguntas estavam refletidas nos olhos dele. — Você está vivo. — Eu disse simplesmente. Ele não se aproximou. — É difícil de me matar. Notei Aria no canto, nos observando. Luca interrompeu o silêncio tenso. — Está feito? Growl finalmente afastou seu olhar do meu. — Eu matei muitos dos homens próximos a Falcone. Tem muita coisa acontecendo em Las Vegas agora. Os filhos dele e Cosimo estão lutando pelo poder. Vai mantê-los ocupados por um tempo. Luca pareceu satisfeito com isso. Negócios. Era tudo sempre sobre negócios. Era por isso que eles tinham colocado Growl lá? Porque Growl tinha informações importantes sobre os Camorra em Vegas? Eu queria correr para Growl, mas ele não parecia querer isso. Confusão nublou meus sentidos. Eu precisava de ar fresco. Eu precisava pensar. Me virei e corri pra fora. Parei quando cheguei a um banco e sentei nele. Aria se juntou a mim alguns momentos depois. — Você o ama. Por que você não fala com ele? — Porque ele não me ama. Ele não pode. Essa coisa entre nós não tem futuro. Eu não era ingênua o suficiente para acreditar que Growl iria mudar. Se ficássemos em Nova York e ele fosse autorizado a trabalhar para Luca, havia apenas um trabalho que ele poderia fazer. Tornar-se um dos assassinos de Luca. Muita coisa tinha sido arrancada de Growl quando viu sua mãe morrer e quando ele mesmo quase sangrou até a morte. Eu queria ajudá-lo, mas não tinha certeza se era capaz de ~ 219 ~


recuperar todas as peças quebradas. Algumas delas poderiam estar perdidas para sempre. — Por quê? Se você o ama, tem que haver um jeito. — Ele... não é bom. Aria riu suavemente. — Luca também não é bom, mas eu o amo com todo o meu coração. Você só tem que se permitir amar as partes boas dele. Eu amava suas partes boas e suas partes ruins, o amava mais do que deveria. Ele roubou minha liberdade, minha vida. E de alguma forma ao longo do caminho, sem eu nem perceber, ele também roubou meu coração. — Ele te ama. Eu não sei exatamente o que Luca e Growl conversaram quando eles se encontraram ontem, mas tenho um pressentimento de que a única razão pela qual Luca confia em Growl é porque ele percebeu que Growl te ama. E Luca sabe o que o amor pode fazer com uma pessoa. — Ela fez uma pausa. — Sua irmã mencionou que sua mãe não aprova. Mas não deixe isso te impedir, se você realmente o ama. Minha irmã Gianna também não gostava muito do Luca no início. Assenti para mostrar a ela que tinha escutado, mas não consegui responder nada.

GROWL Growl caminhava pelo corredor em frente ao quarto de Cara. Ele não sabia por que estava esperando que ela aparecesse. O que ainda restava para falar? No momento em que ela partiu para Nova York sem ele, sabia que isso significava o fim para os dois. Aquilo tinha sido como um soco no estômago, a compreensão de que ela não ficaria com ele, um monstro. Ninguém ficaria. Ela parecia desfrutar de sua companhia no final, gostava de sua proximidade e do seu toque, mas ele não se enganou. Sua afeição por ele havia nascido por necessidade. Ela não tinha

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escolha. Ela não conseguia fugir dele. Mas agora tudo tinha mudado. Em Nova York, Cara seria livre para fazer o que quisesse. Ninguém a estava impedindo de fazer nada. Growl conhecia Luca o suficiente para saber que ele não iria apoiá-lo em ficar com Cara. E embora tivesse levado algum tempo para que Growl percebesse, ele não queria ter Cara como uma posse. Ele queria que ela quisesse estar com ele. Ele sabia que aquela ideia ridícula significava que a perderia completamente. Ela viveria sua vida sem ele. Ela encontraria um novo cara, um cara legal, alguém que não tivesse causado a ela tantos pesadelos. Ainda era difícil para ele entender as emoções, e isso nunca mudaria. Mas sua expressão deixou claro até mesmo para ele, que ela não o queria. Talvez ela tivesse fingido tolerá-lo por sua própria causa e para que ele a ajudasse a vingar seu pai, matando Falcone. Ele não podia culpá-la. Muitas vezes ele desejava nunca ter a possuído. Era mais fácil viver sem algo que você nunca teve, porque você não sabia o que estava perdendo. Mas uma vez que você tinha algo, era difícil deixar para trás. Growl se acostumara com a presença de Cara. Ele sempre se considerou uma pessoa solitária. Pensava que não queria outras pessoas ao seu redor. Ele gostava de ficar sozinho, somente com a presença de seus cães. Sua vida era só dele. Sem intercorrências e conduzida por hábitos, mas segura. Agora que tinha vivido com alguém, com Cara, tinha dificuldades em imaginar ficar sozinho de novo. Ele superaria por aquilo. Sempre superou. Ele trabalharia duas vezes mais e colocaria toda sua energia em fazer Luca confiar e valorizálo. Ele faria um nome para si mesmo aqui em Nova York e eventualmente, esqueceria Cara e voltaria à vida que ele tinha antes. E então, Cara apareceu no fim do corredor, e ele percebeu que estava se enganando se acreditasse que poderia esquecê-la.

CARA Eu congelei quando vi Growl na frente do meu quarto. Bandit e Coco estavam encolhidos a seus pés como se todos estivessem esperando por um tempo.

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Me aproximei lentamente, tentando controlar minhas emoções. Coco balançou o rabo quando parei na frente de Growl. Ele colocou as mãos nos bolsos, mas seu corpo estava tenso como um arco. — Não há motivos para você ficar comigo. Você está livre. Mesmo que eu pudesse te forçar a ficar comigo, eu não vou. Você é livre para decidir a sua própria vida. As palavras que eu desejava ter ouvido desde o momento que Falcone me deu para Growl de repente machucaram. — Então o que você está dizendo? Que preferia que eu te deixasse? — Embora, para que eu pudesse deixá-lo, precisaríamos ter sido um casal em primeiro lugar. — Essa é a última coisa que eu quero. — Ele falou com ferocidade. Ele colocou as mãos para fora dos bolsos, inquieto, quase como se quisesse me agarrar e colocar algum sentido em minha cabeça, mas ele não me tocou. — Então o que você quer? — Perguntei, frustrada. Talvez eu deveria ter aceitado as palavras de Growl e ido embora. Minha mãe iria preferir isso, e teria sido a escolha mais certa moralmente, se eu estivesse sendo honesta comigo mesma. Growl tinha partes monstruosas e isso não iria mudar. Anos de abuso haviam deixado sua marca, e se eu escolhesse ficar com ele, teria que viver com isso. Talvez em Nova York, Luca encontraria melhores maneiras de canalizar os talentos de Growl para tarefas menos horrendas, mas eu não estava me enganando em acreditar que matar não seria mais uma grande parte da vida de Growl. Isso era algo que eu teria que aceitar. Permanecer com alguém só porque espera mudar aquela pessoa era esforço para o fracasso. Os olhos de Growl brilharam com emoções, muitas mais do que eu já havia visto. — Eu quero... — Ele começou, então parou e rosnou. Ele balançou a cabeça e olhou para o lado, para que eu ficasse olhando para seu perfil. — Uma vez você me disse que eu precisava ser corajosa. Quem não é corajoso agora? — O desafiei.

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Growl se virou, me agarrou pelos ombros e me pressionou contra a parede. — Eu quero você. Quero que fique comigo porque quer ficar. Eu quero que você me queira. Eu exalei. — Eu quero. Growl me soltou. — Quer o quê? — Quero você. Quero ficar com você. Growl olhou fixamente. — Eu... Eu acho. — Ele passou uma mão pelo rosto. — Eu não sou bom com palavras. Você sabe disso. — Mas você poderia ser. Talvez você só precise tentar. — Eu disse suavemente. Seus olhos se encheram de determinação. — Poucas coisas me assustam hoje em dia. — Ele resmungou. — Mas isso entre nós me assusta. Minhas emoções me assustam. — Por quê? — Eu desisti de esperar por algo bom há muito tempo. Deixava as coisas mais fáceis. Nada podia me machucar. A dor não era nada. Os insultos das pessoas não significavam nada. Eu não me importava com nada. Não tinha medo de nada. Mas quando ganhei você, percebi de repente o tipo de vida que tinha levado. Como as coisas significavam pouco. E enquanto eu estava lutando contra os homens de Falcone, percebi o quanto eu gostava de estar com você, de ter alguém para conversar, compartilhar refeições com você, passear com Coco e Bandit com você, e até mesmo compartilhar uma cama com você. Eu nunca pensei que poderia gostar desse tipo de coisa, nunca pensei que poderia precisar de algo assim, mas agora... — Ele parou, a incerteza voltando. — Agora estou com medo pra caralho de perder tudo isso, de te perder. Eu nunca soube que precisava de você, mas agora não posso imaginar ter que ficar sem você. Eu... eu te amo, Cara.

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Deixei escapar um suspiro trêmulo. Eu nunca pensei que ouviria essas palavras de Growl. Nem em um milhão de anos. Toquei seu coração e sua bochecha. — E eu amo você, Growl. Aria tinha razão. Eu precisava fazer uma escolha. E eu escolhi o amor. Minha mãe aceitaria eventualmente. Afinal de contas, ela tinha desistido de tudo por amor. — Ryan. — Ele rosnou. O nome soava errado vindo de seus lábios, como se não estivessem mais acostumados com aquela palavra. — Ryan? — É o meu verdadeiro nome. — Oh. — Sussurrei, esmagada pela situação. — É um nome muito bonito. Ele sorriu fracamente. Ainda me surpreendia como um sorriso mudava seu rosto irritado. Ele se inclinou, me beijou, e depois se afastou alguns centímetros. — Quero que Nova York seja um novo começo para mim e para você, se você quiser. E eu quero ser conhecido como Ryan nesta nova vida. — E eu quero um novo começo com você, Ryan. — Respondi. Ele envolveu seus braços em torno de mim e me segurou com força. — Eu não mereço você. — Ele murmurou contra meu cabelo. — Ainda. Mas eu vou.

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Cora reilly born in blood mafia #5 bound by vengeance  
Cora reilly born in blood mafia #5 bound by vengeance  
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