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Aculturarte Magazine de Cultura e Arte

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ARTES PLÁSTICAS ARTES DE PALCO LITERATURA CINEMA MÚSICA

Aculturarte - Revista de Cultura e Arte | ano 1 | número 6 | Novembro 2008


As propostas de publicidade devem ser enviadas para aculturarte@sapo.pt


Editorial

A utópica missão a que nos propusemos continua a mover-nos. Fazer a Aculturarte é duro, no entanto, nada nos demove de a levarmos a cabo. Um projecto independente e sedento de apoios que no entanto lhe faltam. As forças, essas, permanecem no nosso peito e é com coragem que vos apresento mais uma edição. O projecto poderia esventrar-se de encontro a algo maior, no entanto, a falta de apoio sustem-nos neste patamar redutor. Um país que merecia mais, que poderia ambicionar mais. Não é este um desabafo mal humorado de quem acordou para o lado errado, é sim um testemunho de quem luta para levar a cultura em português cada vez mais longe. As desculpas sinceras de quem não pôde cumprir a missão da execução desta revista nos últimos dois meses, e a garantia de que o compromisso continua a ser total. Para aqueles que mensalmente contam com a nossa companhia e dedicação, aqui vai uma palavra de apreço e gratidão. Falemos então no que este mês nos vai trazer. Desde logo o destaque vai para os Kaiser Chiefs que se dispuseram a falar com o Davide Pinheiro, entrevista concedida ao Diário Digital que aqui reproduzimos.

Merecido destaque demos ao “O concerto de Gigli” de Tom Murphy, espectáculo levado a cena pela ASSéDIO – Associação de Ideias Obscuras, com encenação de Nuno Carinhas, patente no Teatro Carlos Alberto no Porto. No que a Artes Plásticas diz respeito, fica o nosso conselho para a exposição: “Cold War Modern” para ver em Londres. Para ler, aconselhamos o último livro de Rui Zink, “O Destino Turístico”. A fechar, o cinema em português de Tiago Guedes e Frederico Serra com o filme “Entre os Dedos”, que é a segunda longa-metragem da dupla, depois de “Coisa Ruim” e, tal como este, com argumento do jornalista e romancista Rodrigo Guedes de Carvalho. Uma nota de destaque a que infelizmente não pudemos dar relevância, é a do êxito obtido pela Associação “Teatro à Sexta” na eliminatória regional do concurso Teatrália, iniciativa do INATEL, que graças a terem ganho se encontram de armas e bagagens com destino a Lisboa, nomeadamente à Aula Magna, representar o distrito de Viana do Castelo. Parabéns. Ricardo Lemos


Indice

Artes Plásticas Rembrandt Pintar a liberdade: Cornelia Schleime As tendências do futuro no atelier de Li Edelkoort Exposição de Leibovitz em Londres “O Sorriso de Buda” em Bruxelas” Exposição: “Cold War Modern” para ver em Londres Picasso/Manet Saatchi abre porta em Londres Western Union: Small Boats Juan Muñoz: Uma Retrospectiva Artes de Palco O Concerto de Gigli “Transports Exceptionnels” Tristão e Isolda em grande “Scala” O mercador de Veneza Síncope Jerusalém Canção do Vale Literatura Nós, os Portugueses Biografia de um Inspector da PIDE As Nove Magníficas - O Fascínio do Poder McMafia: O Crime Organizado Sem Fronteiras Portugalando Branco O Destino Turístico O Clube de Tricô de Sexta à Noite Os Anos Amor em Terra de Chamas

Cinema James Bond está volta “A Vida Secreta das Abelhas” leva divas da música para o cinema “Cidade das Sombras” um mundo por descobrir “Body of Lies” nas salas de cinema em Novembro Entre os Dedos Indetectável W. Em Bruges Busca Implacável A Turma Música Angrajazz 2008 Festival Festival de música aquece o país do gelo Raul Paz regressou a La Habana Decorreu em Paris Concurso Olivier Messiaen Jacques Brel abandonou o palco da vida há trinta anos Cansei De Ser Sexy + X-Wife (Porto) Peixe: Avião Kaiser Chiefs Bloc Party


a l o C a r o b es r o d Aculturarte

Aculturarte

1- Um programa piloto cujo conteudo Informam-se todos os intressados que seja relevante para a grelha da Acultua Aculturarte está à procura de colabo- rarte rádio, assim como o respeito dos radores para a sua revista de edição direitos de autor de terceiros. mensal e para a sua rádio. 2- Uma pequena biografia com cerca A estas pessoas cabe a responsabilide 1000 palavras. dade na elaboração/criação de artigos 3- A assinatura dos termos de respon(no caso da revista) para constarem na sabilidade e de cedência dos direitos edição mensal da Aculturarte Mag# e dos seus textos a Aculturarte Mag#. a elaboração/criação de programas de 4- o programa deve possuir um rigrádio para a Aculturarte rádio. oroso padrão de qualidade sonora. Estamos à procura preferencialmente de estudantes da área da comunicação, no entanto, e porque sabemos que ex- 1- Os colaboradores comprometem-se istem por aí uns quantos entusiastas a ceder os direitos do seu texto á Aculda escrita, como jornalistas amadores, turarte. escritores frustrados, artistas de circo 2- A Aculturarte comprometem-se a reformados e lutadores de boxe retiidentificar o autor de cada texto e a garados, estamos abertos a todo o tipo e rantir tempo de antena a cada colabopropostas desde que estejam suspensas rador. em pilares de qualidade. TODAS AS PROPOSTAS DEVEM - Aos pretendentes para a parte escrita SER ENVIADAS PARA aculturarte@ pedimos: sapo.pt SE FOR MAIS CÓMODO PO1- Textos afim de atestar a sua qualiDEM ALOJAR O CONTEÚDO EM dade de escrita. QUALQUER SITE DE HOSPEDA2- Uma pequena biografia com cerca GEM, ENVIANDO UNICAMENTE de 1000 palavras. O LINK VIA EMAIL. 3- A assinatura dos termos de responsabilidade e de cedência dos direitos http://www.aculturarte.blog.com dos seus textos a Aculturarte Mag#. (Agradecíamos que fizessem circular - Aos intressados para a rádio Acultu- esta mensagem pelos possiveis intresrarte pedimos: sados.)


PLÁ ART STIC ES AS #01

Rembrandt Pintar a liberdade: Cornelia Schleime As tendências do futuro no atelier de Li Edelkoort Exposição de Leibovitz em Londres “O Sorriso de Buda” em Bruxelas» Exposição: “Cold War Modern” para ver em Londres Picasso/Manet Saatchi abre porta em Londres Western Union: Small Boats Juan Muñoz: Uma Retrospectiva


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Pintura Museu do Prado expõe obras Rembrandt “Rembrant, Pintor de Histórias” é a nova exposição patente no Museu do Prado, em Madrid. São 35 pinturas e 5 gravuras, provenientes de museus dos Estados Unidos, Europa e Austrália. A mostra, organizada por ordem cronológica, pode ser visitada até 6 de Janeiro de 2009.

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Pintar a liberdade: Cornelia Schleime

Cornelia Schleime ama a liberdade e isso reflecte-se no seu trabalho. A pintora alemã é uma inconformista, que utiliza o auto-retrato como forma de expressão. A experiência pessoal levou-a ainda a escrever um romance sobre o seu passado como vítima da polícia secreta da ex-RDA


As tendências do futuro no atelier de Li Edelkoort

Quais vão ser as tendências da moda nos próximos anos? Responder a esta pergunta e aconselhar as empresas no desenvolvimento de produtos é o trabalho de Li Edelkoort há três décadas. Descubra este ícone do mundo da moda e do design na presente edição de Talent.


Exposição de Leibovitz em Londres

A Galeria Nacional de Fotografia de Londres inaugurou uma esposição da fotógrafa norte-americana, Annie Leibovitz São trabalhos realizados entre 1990 e 2005. Retratos dos mais famosos actores do mundo, artistas e políticos que não escaparam à objectiva de uma das mais consagradas fotógrafas. A exposição pode ser vista na Galeria Nacional de Fotografia, em Londres, até 1 de Fevereiro de 2009.


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Cultura coreana em exibição no Bozar, Palácio de Belas Artes de Bruxelas, até ao início de 2009. Um dos destaques é a exposição “O Sorriso de Buda – 1600 anos de arte budista na Coreia”.


Exposição: “Cold War Modern” para ver em Londres Um regresso ao tempo da Guerra Fria, é a proposta da nova exposição do Museu Victoria and Albert, em Londres. “Cold War Modern” mostra-nos 300 objectos representativos do design, mas também da arquitectura, do cinema e da cultura popular de ambos os lados da Cortina de Ferro.


Picasso/Manet A obra de Manet “Le Déjeuner sur l’herbe” influenciou tanto Picasso, que este realizou entre os anos 50 e 60 um conjunto de cerca de quarenta quadros, desenhos, gravuras e esboços inspirados naquele quadro.


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s e r d n o

A nova galeria da Saatchi abriu portas na famosa Kings Road, em Chelsea, Londres, com uma exposição de obras de jovens artistas chineses. A entrada é gratuita, os responsáveis pretendem trazer mais pessoas ao mundo das artes. The Revolution Continues: New Art From China’ mostra obras de 30 artistas da China.


Western Union: Small Boats Western Union: Small Boats O Festival Temps d’Image, em colaboração com o Museu do Chiado, traz a Lisboa uma instalação do inglês Isaac Julien. Uma expedição pelos mares do Mediterrâneo. Até 1 de Fevereiro no Museu do Chiado, em Lisboa. “Western Union: Small Boats” - é a peça que encerra a trilogia do inglês Isaac Julien que inclui “True North” (2004) e “Fantôme Afrique (2005). A instalação, composta por três projecções simultâneas, mostra uma espécie de expedição pelos mares do Mediterrâneo e pelas viagens dos “clandestinos”, nos seus barcos pequenos, que fogem da Líbia à procura de comida e de vida sem guerra. S.Po. (PÚBLICO)


Juan Muñoz: Uma Retrospectiva

Juan Muñoz: Uma Retrospectiva Depois do Guggenheim, em Bilbao e da Tate Modern, em Londres, a grande retrospectiva do artista espanhol Juan Muñoz chega ao Museu de Serralves, no Porto. Até 18 de Janeiro de 2009. Em 2001, aos 48 anos de idade, Juan Muñoz falecia subitamente em Ibiza. Vivia o auge da sua carreira, com a exposição “Double Blind” que ocupava o Hall das Turbinas da Tate Modern, em Londres. Muñoz descrevia-se simplesmente como “um contador de histórias”. A sua obra marcou definitivamente o campo da escultura e Muñoz é hoje considerado como um dos grandes artistas da sua geração. Passados alguns anos é na mesma Tate Modern que é reunida a sua obra numa retrospectiva que engloba escultura, instalação e desenho. “Juan Muñoz: A Retrospective” ocupa agora as salas do Museu de Serralves, no Porto - a exposição inclui obras-chave de todos os aspectos do seu trabalho, para além das suas famosas instalações e esculturas, como as suas “conversation pieces” - cheias de personagem intrigantes, também obras de som e esboços dos desenhos da série, “Raincoat”, por exemplo. A exposição foi comissariada por Sheena Wagstaff. S.Po. (PÚBLICO)


DE ARTE PAL S CO #02

O Concerto de Gigli “Transports Exceptionnels” Tristão e Isolda em grande “Scala” O mercador de Veneza Síncope Jerusalém Canção do Vale


O Concerto de Gigli


O Concerto de Gigli Estreia O Concerto de Gigli de Tom Murphy tradução Paulo Eduardo Carvalho encenação e cenografia Nuno Carinhas figurinos Bernardo Monteiro desenho de luz Bruno Santos sonoplastia Francisco Leal interpretação João Cardoso Homem Irlandês João Pedro Vaz J.P.W. King Rosa Quiroga Mona assistência de encenação Rosário Romão produção ASSéDIO – Associação de Ideias Obscuras duração aproximada [2:30] com intervalo classificação etária Maiores de 16 anos Teatro Carlos Alberto [24 Outubro | 9 Novembro 2008] terça-feira a sábado 21:30 domingo 16:00 Quando a ficção coincide com a vida... Nuno Carinhas O Concerto de Gigli é um fogo cruzado de memórias. Muitas palavras casa adentro. À memória de meu pai (“esteja ele onde estiver agora”), que curava as suas contrariedades deitando-se no chão da sala, de luz apagada, ouvindo música. Ele que também não queria

ser “ajustado à norma”, nem reconhecia o significado da palavra “depressão” (“tudo o que é baixo e mesquinho?”). À memória de minha mãe, que com exasperada determinação acendia a luz pondo fim às sessões musicais, como quem dizia “vê se te recompões”, assim restabelecendo a normalidade na casa. Estes episódios domésticos terão sido os principais sintomas de interesses inconciliáveis. A música era o meio de impor a vontade entre pares. Um cortava a comunicação, outro tentava restabelecê-la. Um jogo de pequenosgrandes poderes. O tempo faz com que tenhamos acesso a estes reconhecimentos. É a partir deles que “conjuramos” e cometemos as nossas ultrapassagens. Quando a ficção coincide com a vida, rimonos da vida. “Vivos no Tempo e ao mesmo tempo” Paulo Eduardo Carvalho “E só pode haver teatro desde o momento que o impossível principie de facto e que a poesia, que acontece no palco, sustente e leve ao rubro os símbolos tornados reais.” Antonin Artaud


1. O dramaturgo Quem é este dramaturgo que Brian Friel, em 1980, apresentava como “a imaginação mais peculiar, inquieta e obsessiva do teatro irlandês contemporâneo”? Alguns outros dramaturgos irlandeses seus contemporâneos admiram-lhe ora a universalidade dos temas e a dimensão agreste da poesia, ora a audácia experimental e a pulsão transcendente da imaginação dramática, enquanto o romancista Colm Tóibín, mais recentemente, em 2005, o celebrava como “a coisa mais próxima da genialidade de que a Irlanda se pode gabar”. Este coro de elogios disfarça, contudo, uma carreira acidentada e que raras vezes conquistou a unanimidade. Tom Murphy nasceu em Tuam, no condado de Galway, em 1935, o mais novo de dez filhos. Educado pelos Christian Brothers, frequenta uma escola técnica, para depois ser professor. Tem algumas experiências como actor amador e escreve On the Outside (1959), com Noel O’Donoghue, um texto preocupado com as tensões de classe e o antagonismo entre valores urbanos e rurais. Em 1960, envia uma nova peça para o Teatro Nacional irlandês (o Abbey Theatre), cuja direcção se recusa a acreditar que as personagens e situações violentas daquele texto apresentem quaisquer semelhanças com a sociedade irlandesa. Sob o título de A Whistle in the Dark, a peça acabará por ser produzida em Londres, em 1961, onde obtém grande sucesso, facto que contribuirá para o exílio voluntário do escritor em Inglaterra entre 1962 e 1970. Escreve, entretanto, Famine – um relato épico da Grande Fome –, The Orphans e A Crucial Week in the Life of a Grocer’s Assistant – um texto que cruza as convenções naturalistas com as possibilidades concedidas pelo onirismo expressionista, numa espécie de apropriação irónica do realismo rural da tradição dramatúrgica irlandesa. Seguem-se The Morning After Optimism, The Sanctuary Lamp – cujo assumido anti-clericalismo causa controvérsia –, The J. Arthur Maginnis Story, The Blue Macushla – uma investigação dos motivos sinistros associados a algumas manifestações do nacionalismo contemporâneo. Entre 1983 e 1985, Murphy vive um dos períodos mais prolíficos da sua carreira, com The Gigli Concert, Conversations on a Homecoming e Bailegangaire. Acrescentem-se ainda A Thief of Christmas e Too Late for Logic. Durante a década de noventa, o dramaturgo volta a um ritmo menos intenso de criação: The

Patriot Game, The Wake – adaptação do seu único romance The Seduction of Morality – e The House. Em anos mais recentes, destaca-se Alice Trilogy, produzida pelo Royal Court. Murphy cedo se afirmou como um dramaturgo apostado na exploração da identidade individual e comunitária, denunciando a distância entre os ideais projectados pelos fundadores do Estado irlandês e pela Igreja católica e as condições em que as pessoas efectivamente vivem as suas vidas, os seus estados mentais e emocionais. A violência e a fúria que atravessam as suas peças apresentam-se como o resultado das pressões criadas quando as pessoas têm de viver de acordo com um conjunto de regras que nada têm a ver com a realidade. Contudo, as suas personagens surgem muitas vezes empenhadas numa busca para resolver estas divisões, através de uma visão dramaticamente sustentada da cura e da esperança. Na formulação inspirada de Richard Kearney, “as peças de Murphy declaram guerra às forças paralisantes na nossa sociedade, forçando-nos a explorar as nossas fraquezas e frustrações mais íntimas e, ao mesmo tempo, encorajando-nos, sempre que possível, a transcendê-las através do humor e da fé”. A sua prática dramatúrgica é atravessada pelas mais produtivas contradições, resumidas no facto de a sua insistência num teatro “verbal” se apoiar numa linguagem intensamente teatral, importando-lhe mais a criação de um “tom” ou “estado de espírito” do que o desenvolvimento de uma intriga. Críticos e encenadores têm sido pródigos em sublinhar a “musicalidade” da escrita dramática de Murphy, a importância dos ritmos e ressonâncias que ele empresta aos diálogos ou às torrentes de palavras que, por vezes, assaltam as suas personagens – palavras ancoradas no discurso contemporâneo e, ao mesmo tempo, surpreendentemente poéticas. Encarando o palco como um lugar privilegiado para alcançar uma forma pura da emoção, o próprio dramaturgo já confessou o seu fascínio pelo “som” em si – numa espécie de eco dos “sons fundamentais” de que falava Beckett –, “os sons individuais que as pessoas fazem, o som que sustenta as palavras que usam. O som que exigem certos ritmos das pessoas – isso entusiasma-me e eu tento fazer uma espécie de música própria a partir da palavra falada”. 2. O cantor “Nasci com uma voz e pouco mais; sem din-

heiro, sem influência, sem quaisquer outros talentos. Se não fosse a peculiar constituição das minhas cordas vocais, talvez neste momento estivesse a servir à mesa ou a coser calças, ou a remendar sapatos, como o meu pai, na pequena cidade italiana de Recanati onde nasci a 20 de Março de 1890. Seria ainda pobre, como o meu pai foi. Mas Deus deu-me uma voz e isso mudou tudo. Eu era bom a cantar e nada mais. Gostava de cantar e nada mais: que outra coisa podia eu fazer?” Este é o parágrafo de abertura das Memórias de Beniamino Gigli – publicadas em 1957, o ano da sua morte, aos 67 anos – parcialmente recuperado na peça de Tom Murphy, no início do primeiro relato do Homem Irlandês, em completa identificação com o cantor italiano. O nome de Gigli – pronuncia-se “gilhi” – poderá não dizer grande coisa aos espectadores do nosso tempo, mas ele foi durante cerca de quatro décadas sinónimo da mais absoluta excelência e perfeição entre os devotos do canto lírico. É verdade que Gigli beneficiou do desaparecimento de Caruso, tendo surgido como seu sucessor na qualidade de principal tenor da Metropolitan Opera, em Nova Iorque, onde actuou durante 12 temporadas, entre 1920 e 1932. É também verdade que a sua imensa popularidade assentava numa manifestação precoce do agora mais vulgarizado cross-over, explorando todos os meios então disponíveis associados ao entretenimento de massas, nomeadamente o disco e o cinema. Gigli terá sido o primeiro tenor a atravessar toda a história moderna do som gravado, desde as gravações acústicas em 1918 até aos registos estereofónicos realizados no início dos anos 50, tendo igualmente inaugurado a prática de gravação de óperas completas em 78 rotações, em 1938, com La Bohème. O seu primeiro filme, Non ti scordar di me, data de 1935; durante os anos da Segunda Guerra, participaria em muitos outros, quase invariavelmente no papel de cantor lírico ou de alguém mais comum dotado de uma voz invulgar. Gigli chegou a fazer concertos em estádios, tendo sido um dos primeiros fundadores da ópera em espaço aberto nas ruínas das Termas de Caracala. Mas o apelo de Gigli não era só uma questão de marketing estratégico ou oportunista: no centro de tudo, estava a sua voz. Eis como descrevia essa voz Luís de Freitas Branco, nas páginas do jornal O Século, de 5 de Maio de 1946, recense-

ando uma representação de Manon Lescaut, no Teatro de São Carlos: “A voz dramática, spinta, porém sempre formosa, de puríssimo e distintíssimo timbre, subjuga nos passos intensos, encanta nos expressivos e acentua os momentos trágicos de modo a arrancar lágrimas aos menos sensíveis”. De acordo com os dados recolhidos por um dos seus mais recentes biógrafos, Luigi Inzaghi, Gigli terá visitado Portugal só depois da Guerra, por quatro ocasiões – 1946, 1947, 1948 e 1955 –, as primeiras das três apresentando-se tanto em Lisboa (São Carlos, Coliseu dos Recreios, Tivoli) como no Porto (Rivoli, Coliseu e no, já então, Cinema São João, no qual, a 10 de Março de 1947, realizou uma récita de beneficência, seguida da apresentação do seu filme Mamma), participando em diversas óperas e concertos. As críticas de Luís de Freitas Branco a todos aqueles espectáculos insistem sempre na “beleza vocal”, na “qualidade fenomenal da voz e [n]o soberano domínio dos seus excepcionais meios de expressão”, invocando o Fausto de Goethe para caracterizar a reacção do público àqueles “momentos avassaladores de grande arte”: “Os momentos verdadeiramente belos da vida deviam desmentir a implacabilidade do tempo e parar, suspenderse”. Quando, em Fevereiro de 1948, comenta a prestação do tenor italiano em Lucia di Lamermoor, de Donizetti, o crítico de música português louva mais uma vez “as inflexões dramáticas da voz admirável de Gigli”, destacando a ária final da ópera – a mesma que J.P.W. King, a personagem de Tom Murphy, “canta” no final da peça: “‘Tu che a Dio spiegasti l’ali’, cantado por Gigli, é uma recordação que fica para a vida inteira”. Curiosamente, em Dublin – visitada por seis vezes, entre 1934 e 1954 –, o cantor nunca participou na representação de uma ópera, tendose sempre limitado à realização de “concertos”. A distinção concedida a Gigli, em 1949, juntamente com John Ford, pela Irish Stage Catholic Guild, reforça a sugestão avançada por Robert Welch de que, entre os anos 30 e 70, Gigli era um nome a “conjurar” na Irlanda:


“[A] sua força e energia emocional eram idealizadas até uma dimensão quase sacramental por homens para os quais ele representava cultura e uma liberdade e abertura caracteristicamente europeias. Os bares por toda a Irlanda estavam cheios de pessoas que, à hora de fechar, arriscavam as suas interpretações de árias que o cantor tornara famosas, arrebatadamente aplaudidas pelos seus companheiros de copos, que traduziam aqueles gritos roucos numa beleza imaginada. Naqueles momentos, os cantores tornavam-se Gigli”.

ben”, de Giordano; “Amarili”, de Caccini; e “Te sol quest’anima”, de Attila, de Verdi. O canto desempenha, assim, um papel dramático essencial na peça, ora funcionando em contraponto musical a algumas das situações – valorizando o valor referencial de cada uma das árias –, ora exprimindo justamente o que a palavra sozinha não diz e, assim, explorando tudo aquilo que é da ordem da emoção, do sentimento e do excesso, acabando por conferir uma dimensão “operática” a toda a peça. O Concerto de Gigli tem como protagonistas uma espécie de curandeiro ou de “dinamatolo3. A peça, que também é um “concerto” gista” inglês, J.P.W. King – um terapeuta farNuma conversa pública, realizada no Abbey sante e um filósofo inepto que declara ajudar Theatre a 7 de Outubro de 2001 – no âmbito as pessoas a realizar o seu potencial –, e um de um festival dedicado ao dramaturgo –, MiHomem Irlandês em crise, um empresário que chael Billington instou Tom Murphy a explicar enriqueceu como promotor imobiliário, cujo como é que O Concerto de Gigli tinha assonome nunca é referido, que se apresenta no esmado à sua imaginação. Murphy fez recuar a critório de King com o objectivo declarado de... sua “inspiração” a dez anos antes do período de cantar como Gigli! A “dinamatologia” praticomposição da peça, ao contacto com um accada por King oferece uma promessa de cura tor irlandês, Colin Blakely, então a ter aulas de espiritual para as almas feridas e para a autocanto, com o qual ele teria voltado a ouvir as realização – além da sugestão “explosiva”, o gravações de Caruso e de Gigli, desse modo ul- termo também encerra uma referência ao muntrapassando uma confessada resistência: “Não do escondido das “possibilidades” (dunamis). tenho inveja de outros escritores, mas, naquele Não obstante as clamorosas diferenças que extempo, eu tinha uma insuportável inveja de istem entre estes dois homens, algo os aproxima, cantores. Achava que era a única coisa possível e Murphy tem o cuidado, a poucos instantes do de se fazer na vida; era a única maneira posinício da sua ficção, de lhes atribuir uma mesma sível de me exprimir”. Esta “inveja da música” frase: “Meu Deus, como é que eu vou conseguir – “porque há tanto que se consegue exprimir sobreviver a mais este dia?”. numa frase musical, em comparação com as O Homem Irlandês apresenta-se como perlimitações inerentes à dimensão linear da frase turbado nas suas rotinas diárias, domésticas feita de palavras” – introduz um dos principais e profissionais, e apresenta o seu propósito de temas e estratégias compositivas deste Concerto cantar como Gigli como uma solução para os de Gigli, um texto dramático reconhecidamente seus problemas. Na verdade, após uma sucessão complexo, entretecido por tantos motivos como de encontros, que culmina num choro convulsiintertextos, sejam eles verbais ou musicais. vo e selvagem, este Homem reaparecerá curado, O próprio título da peça anuncia o seu carácter revelando que aquele episódio mais não terá híbrido, convocando um termo musical que sido do que o pico de uma tendência depressiva. acaba por justificar a longa lista de árias e Por seu lado, King acabará por mostrar as suas canções interpretadas por Gigli que pontuam próprias feridas: a sua dependência do álcool, a ou acompanham os diálogos das personagens: sua frustração amorosa devida a uma obsessiva “O Paradiso”, de L’Africaine, de Meyerbeer; fixação numa mulher inatingível (Helen), a sua “Dai campi, dai prati”, de Mefistofele, de incapacidade de corresponder ao verdadeiro Boito; “Serenata”, de Toselli; “Cielo e mar”, amor de Mona, a sua amante e terceira – inde La Gioconda, de Ponchielli; “Bella figlia dispensável! – personagem desta história. King dell’amore”, de Rigoletto, de Verdi; “Agnus acabará por partilhar a obsessão do Homem – Dei”, de Bizet; “Cangia, cangia, tu voglie”, de entretanto de volta a uma existência tranquila Fasola; “Puisqu’on ne peut pas fléchir”, de Le – e será ele quem, no final da peça, num moRoi d’Ys, de Lalo; a já referida “Tu che a Dio mento teatralmente tão mágico como grotesco, spiegasti l’ali”, em duas versões; “Caro mio acabará a cantar como Gigli.

Exposta deste modo, a intriga de O Concerto de Gigli oferece-se como uma reescrita do mito de Fausto, embora com algumas subtilezas expressivas, exploradas a partir da confusão de papéis que estrutura toda a peça: se, no início, é o Homem Irlandês que procura King em busca de apoio “mágico”, à medida que a acção evolui, será o “dinamatologista” a afirmar-se como a figura fáustica, o mortal que beneficia dos poderes sobrenaturais concedidos pelo Homem Irlandês, agora o Mefistófeles desta história. Na verdade, será só a partir da experiência do desespero e da perda da sua amante que King conseguirá o necessário impulso imaginativo para enfrentar o desconhecido e cantar como Gigli. Desrespeitando a cronologia normal, Murphy constrói esta sua ficção com base na lógica associativa do sonho, de acordo com o qual o passado se torna invenção, a identidade do Homem Irlandês se funde com a de Gigli, e o presente se expande para se tornar o ponto de origem a partir do qual tudo se torna possível. O Concerto de Gigli é, contudo, muito mais do que uma reescrita paródica da intriga fáustica ou dos processos de cura de modelo psicanalítico. Murphy volta-se sobretudo para as suas preocupações mais recorrentes: uma interrogação em profundidade dos condicionamentos da identidade individual e colectiva. Os dois protagonistas da peça surgem como uma espécie de “anjos caídos”, sobreviventes apoiados em ilusões, com uma desesperada necessidade de redenção, de re-ligação, de uma qualquer forma de transcendência. A peça oferece-nos duas possibilidades: a arte do canto lírico e a prática de contar histórias. Embora as duas personagens acabem por partilhar a primeira ambição e dividam entre si as responsabilidades narrativas, cabe ao Homem Irlandês um papel mais decisivo nesta matéria: para falar de si, apropriase da história pessoal de Gigli, fazendo sua a biografia do cantor. Só mais tarde saberemos a sua verdadeira história, marcada por uma infância de sacrifício e de violência, desprovida dos elementos de sedução e de fama que marcaram o trajecto daquele tenor italiano. Tirando partido da relação terapêutica estabelecida desde o início entre os dois homens, Murphy explora sucessivas operações de transferência, confundindo personalidades e problematizando o entendimento da identidade. Embora O Concerto de Gigli não se integre no conjunto daquelas peças de Murphy mais di-

rectamente relacionadas com a realidade social e política irlandesa, não deixa, ainda que obliquamente, de estender a referida problematização das identidades ao plano nacional e cultural. Não obstante a escassa relevância cénica da realidade social que está para lá do escritório algo decadente de J.P.W. King, encontramos no fundo desta ficção um retrato impiedoso de uma Irlanda dominada pela corrupção e abandonada pela fé, ainda a braços com entendimentos essencialistas e estereotipados daquilo que poderá definir o “irlandismo” e o “inglesismo”. Neste sentido, a lenta quebra das barreiras que demarcam as identidades daqueles dois homens, as sucessivas operações de transferência, a alternância dos papéis fáustico e mefistofélico, tudo isto são materiais que justificam a relevância também “local” de uma ficção tão ambiciosamente metafísica e preocupada com os tormentos mais universais da “alma”. Paralelamente às inversões operadas sobre os intertextos fáustico e bíblico – veja-se a transformação da afirmação divina, mas limitada, de “Eu sou quem sou” no mais “dinamatológico” “Eu sou quem puder ser” –, Murphy também inverte as expectativas criadas junto do espectador, forçando uma ficção dramática que se inicia com base em pressupostos realistas a uma deslocação para o território da “magia”, abrindo assim espaço a um universo de possibilidades ilimitadas. A intrínseca teatralidade deste Concerto de Gigli assenta no facto de pressupor a participação íntima do espectador numa experiência – neste caso, são seis sessões para realizar o impossível –, um processo não redutível à sua condensação num qualquer conjunto de enunciados filosóficos. É pela via do excesso (operático, melodramático, paródico), do humor (esta peça é também uma extraordinária comédia) e da inversão de paradigmas, que Murphy propõe aos seus espectadores – “vivos no Tempo e ao mesmo tempo” – uma espécie de pacto: serem capazes de ouvir a pura dinâmica da linguagem, para lá do seu sentido aparente e mais imediato, e, porque não, também, cantarem como Gigli!


s t r o p s n a r “T ” s l e n n o i t p Exce

A dança do Amor entre o Homem e a Máquina “Transports Exceptionnels”, do coreógrafo francês Dominique Boivin, retrata um dueto de amor entre uma escavadora e um dançarino ao som de Maria Callas. Este encontro entre o aço e a carne é uma interpretação, pelo bailarino Philippe Priasso, do clássico “Pas de Deux”. O evento teve lugar no “Dance Umbrella”, o Festival Internacional de Dança Contemporânea de Londres e segue em digressão mundial.


Tristão e Isolda em grande “Scala”

O teatro Alla Scala de Milão iniciou a temporada com uma super produção de Tristão e Isolda, de Wagner, o acontecimento lírico do momento. A ópera é dirigida pelo novo director de orquestra do Alla Scala, o israelita Daniel Barenboim e encenada pelo francês Patrice Chéreau.


O mercador de Veneza “Os muçulmanos sentem-se como os judeus da Europa.” A declaração é recente, e foi proferida por Shahid Malik, o primeiro muçulmano a integrar um governo britânico. Lida num jornal, teria sido suficiente para desencadear em Ricardo Pais o impulso de promover uma nova montagem de O Mercador de Veneza, não fizesse já parte da shortlist do encenador a “comédia” de Shakespeare que reacções mais “sérias” tem gerado desde que foi escrita. O projecto remonta a 2005, quando ainda envolvia a participação do actor brasileiro Raul Cortez. É agora retomado com uma tradução inédita, e com um elenco de criativos e intérpretes que congrega novos e velhos conhecidos da Casa. Tomando em mãos uma obra que baralha as coordenadas da alteridade nacional, rácica, religiosa e sexual, Ricardo Pais transcreve para a cena a força sanguínea tanto da prosa como da poesia do judeu Shylock, do cristão António, de Pórcia, Bassânio e restantes personagens, e acciona o jogo de duplicidades a que Shakespeare as abandona. No TNSJ, o ano começou com a maldizente Veneza de Goldoni. Houve, pelo meio, a cínica Veneza de R.W. Fassbinder. Agora que nos aproximamos do termo de 2008, chegamos à Veneza de escuros becos psíquicos imaginada por Shakespeare, com uma muito musical Belmonte do outro lado do espelho. O chamamento vem do seu interior: “Vamos sentar aqui, deixar que os sons da música nos subam aos ouvidos”.


e p o c n í S Síncope Inês Jacques e Edgar Santinho criaram juntos esta performance, inserida no Festival Temps D’Images, erigida a partir de escombros e memórias. Na Culturgest, em Lisboa, nos dias 6 e 7 de Novembro. Num espaço silencioso, quase abandonado, por entre carros na sucata, Inês Jacques revive memórias dispersas e fragmentadas. Entre a luz do dia e o escuro do interior dos carros, a performer está ali por um motivo. Qual será? A resposta só pode ser descoberta ao vivo. PUBLICO.PT


Jerusalém Jerusalém O Bando está de regresso ao Centro Cultural de Belém, em Lisboa, com uma adaptação do romance de Gonçalo M. Tavares. “Jerusalém” é uma das obras mais consagradas do autor. Para quem conhece, é o terceiro tomo da série “O Reino”. De 23 de Outubro a 2 de Novembro. A peça fala dos limites da loucura e da razão sobre a dor e o mal. Mylia é uma mulher forte, mas esteve internada num hospício onde conheceu Ernst. O ex-marido de Mylia, Theodor, é um médico que desenvolve um estudo sobre o mal e o horror vividos na História. Estas personagens cruzam-se com outras numa noite em que tudo começa e acaba ao mesmo tempo. O texto “Jerusalém” está traduzido em várias línguas e recebeu diversos prémios. PUBLICO.PT


Canção do Vale

Canção do Vale O drama de um agricultor negro de 70 anos, que vive com a neta de 17 numa pequena aldeia da região do grande Karoo, na África do Sul. Abraam Jonkers é rendeiro de um bocado de terra de uma herdade de brancos, os Landmans, e agora teme perdê-la. Em cena de 7 de Novembro a 14 de Dezembro no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Abraam só saiu do vale durante a Segunda Grande Guerra, para prestar serviço como guarda prisional. Até lá, e depois disso, trabalhou e viveu na terra arrendada que herdou do pai. E o pai ensinou-lhe ainda que um homem para ser bom trabalha a terra, ama a família, vai à igreja e respeita os vizinhos. São esses valores que Abraam tenta passar à neta Verónica. O conflito de gerações surge porque o sonho dela é ser cantora na grande cidade. O avô é a pessoa que mais ama, mas o seu sonho não pode morrer no vale... PUBLICO.PT


LITE

RAT URA #03

Nós, os Portugueses Biografia de um Inspector da PIDE As Nove Magníficas - O Fascínio do Poder McMafia: O Crime Organizado Sem Fronteiras Portugalando Branco O Destino Turístico O Clube de Tricô de Sexta à Noite Os Anos Amor em Terra de Chamas


Nós, os Portugueses Maria Filomena Mónica

Nasci num país em que por todo o lado nos deparávamos com a miséria. Ainda hoje fico triste, ao recordar os coxos, subindo as colinas da cidade velha, ou, mais perto de mim, a engomadeira que se ia deitar sem ceia, a vendedeira de fruta, esguedelhada e magra, o marçano, encafuado como um rato na sua loja, os ceguinhos rolando os olhos como dois escarros, os velhos que pediam esmola pelas cinco chagas de Cristo e os operários, de olhar rebelde, dizendo-se artistas desgraçados. Salazar deu força à doutrina da Igreja, que proclamara «pobres sempre os tereis entre vós», aliás uma frase retirada do contexto. Seja como for, cada família tinha os «seus» pobres, os quais surgiam ciclicamente, mendigando um prato de sopa. Alguns anos se passaram antes de viver num país, a Inglaterra, onde os pobres, os velhos e os enfermos eram vistos de forma diferente. Em 1962, não só verifiquei existirem em Londres menos mendigos do que em Lisboa, como, ao consultar um médico, notei que o seu serviço era gratuito. Se pensarmos, como eu penso, que Samuel Johnson tinha razão quando escreveu «A existência de medidas decentes para proteger os pobres é o verdadeiro teste de uma sociedade civilizada», aquele país estava entre os mais civilizados do planeta. As leis promulgadas por Clement Attlee em 1945 haviam contribuí­do para que os pobres dispusessem de uma rede que os protegia do frio, da fome e da doença.(…)


Biografia de um Inspector da PIDE Irene Flunser Pimentel

De memória invulgar, minucioso, inteligente, extremamente vaidoso, visceralmente salazarista, com uma folha de serviço «brilhante», Fernando Gouveia foi um dos investigadores da PVDE/ PIDE/DGS mais temidos pelo Partido Comunista Português (PCP). Era um homem baixo, de rosto fechado, sempre de chapéu e fato engomado, marcado pelo nascimento ilegítimo e por uma infância dura, pai de sete filhos, fruto de vários casamentos. Este inspector do Gabinete Técnico da Polícia Política conhecia como ninguém os métodos do PCP, a forma de actuação dos seus militantes, funcionários e dirigentes clandestinos, não só a nível político como a nível pessoal. Pela sua mão foram apreendidos documentos fundamentais que Fernando Gouveia estudava minuciosamente, de forma a desmantelar o puzzle

comunista, assim como foram presos centenas de comunistas, vítimas de violência e de toda a espécie de torturas, chantagens e pressões psicológicas. Irene Flunser Pimentel, Prémio Pessoa 2007, traz-nos o retrato não de um herói ou de uma vítima, mas de um agente de repressão do Estado Novo. Com uma investigação baseada no arquivo da PIDE/DGS e na leitura das memórias publicadas, pelo próprio, em 1979, esta historiadora transporta-nos para o interior da polícia política, explica-nos os seus métodos e as suas operações, e conta-nos a história da resistência do Partido Comunista desde os anos 30.


As Nove Magníficas O Fascínio do Poder Helena Sacadura Cabral

Sobre o papel das mulheres na construção do país que somos, reina o silêncio. Se é indiscutível que a História de Portugal foi erigida com uma importante influência feminina, também é verdade que este contributo tem sido lamentavelmente minorado ou mesmo esquecido pela grande maioria dos historiadores. Exaltamos os nossos reis, as suas qualidades, os jogos de poder em que estiveram envolvidos, as vitórias que alcançaram. Mas as suas consortes são quase sempre vistas como meros peões deste jogo.

da Ínclita Geração, D. Catarina de Áustria, a centralizadora, Luísa de Gusmão, uma regente poderosa, D. Carlota Joaquina, a política irreverente, D. Maria, a única mulher a ocupar, por direito próprio, a chefia do Estado português já num ordenamento constitucional e D. Amélia, que viu morrer nos seus braços o marido e o seu filho, o príncipe herdeiro? Foram rainhas, regentes, mães, esposas dedicadas, diplomatas de calibre, políticas argutas e quase todas elas sentiram esse imenso fascínio que o poder parece desencadear. Através das Neste livro, Helena Sacadura Cabral surpreende- suas alegrias e tristezas, dos encantos e desennos ao recuperar a história de nove magníficas cantos, das ambições e dos fracassos, das acções mulheres que souberam deixar a sua marca e políticas ou mesmo do seu quotidiano, Helena influenciar decisivamente a vida nacional. O que Sacadura Cabral relata nove séculos de História têm em comum D. Teresa, a primeira rainha de do nosso país através do olhar e do destino que a Portugal, Santa Isabel, a pacificadora, D. Leonor vida reservou a estas surpreendentes mulheres. Teles, a licenciosa, D. Filipa de Lencastre, a mãe


McMafia: O Crime Organizado Sem Fronteiras Misha Glenny

Um relato de histórias reais de tráfico de armas na Ucrânia, branqueamento de capitais no Dubai, tráfico de droga no Canadá, cibercrime no Brasil, extorsão no Japão e muito mais. Durante a sua investigação do submundo, o autor falou com inúmeros criminosos, polícias e vítimas do crime organizado, explorando em simultâneo a feroz procura de drogas, mulheres traficadas, trabalho ilegal e armas em cinco continentes. A viagem tem início com um aterrador e inexplicável homicídio num bairro residencial de classe alta na Inglaterra e continua com histórias por vezes horríveis, outras vezes inspiradoras, geralmente bizarras e por vezes divertidas. Em conjunto, constroem uma imagem arrebatadora da economia paralela que poderá agora deter mais de 20 % do PIB do mundo.

“Relato revelador do crime à escala planetária… Uma ilustração intensa do argumento simples que está na base da reportagem épica de Glenny.” THE GUARDIAN “Uma viagem marcante e arrepiante pela miríade de organizações criminosas que florescem no nosso mundo cada vez mais globalizado.” PUBLISHERS WEEKLY “Uma viagem aterradora pelo submundo violento do crime globalizado.” NEW YORK POST “Extremamente informativo e bastante assustador.” THE WASHINGTON POST


Portugalando José Miguel Júdice

Prefácio de António Barreto «Portugalando»? Porque, para mim, exprime a tentativa de encontrar uma maneira portuguesa de falar do amor que tenho à minha Pátria. «Mon Pays me fait mal», dizia uma bela canção do tempo da minha juventude. Continua a fazer-me mal. Mas, apesar de preocupado, continuo como sempre habitado por um optimismo que julgo inquebrantável. Foi por causa de Portugal que fui escrevendo tudo isto. Na esperança (que não na ilusão) de que o nosso país se torne, para os meus filhos e netos, um lugar onde seja (ainda) melhor viver.


Branco Rosie Thomas

Um livro que nos mostra os limites do sacrifício humano, a auto-confiança, e o poder da compaixão. Dois homens que enfrentam os seus demónios e uma mulher que persegue o seu próprio sonho. Para Sam MacGrath um encontro fugaz com uma jovem num voo turbulento, é o suficiente para lhe mudar a vida. Loucamente atraído por ela, segue o seu impulso e jura segui-la até ao Nepal. A jovem Finch Buchanan ingressa numa expedição aos Himalaias

como médica, mas quando chega, reencontra um homem que nunca conseguiu esquecer. Al Hood fez uma promessa à filha: Se conquistar o pico desta montanha, deixará a escalada para sempre. O Evereste eleva-se sobre o grupo, lindo e silencioso. Contra as ameaças do clima e da altitude, ergue-se a paixão e a força de vontade. As relações intensas entre Finch, Al e Sam, começam a desenrolar-se... Perante tamanho desafio, as consequências podem ser trágicas.


O Destino Turístico Rui Zink

Há um sítio onde se faz turismo de guerra. Quem lá vai quer assistir e participar ao vivo em bombardeamentos, explosões e atentados. Há anos que a Zona é tristemente célebre pelo estado contínuo de guerra civil… é um verdadeiro “paraíso infernal”. Greg parece ser apenas mais um turista, mas o seu guia – após o desaparecimento de uma delegação de observadores filipinos – começa a questionar as suas verdadeiras intenções. Porque será que Greg decidiu visitar aquele inferno de horror quotidiano?!


O Clube de Tricô de Sexta à Noite Kate Jacobs

Numa cidade tão grande e movimentada como Nova Iorque, é muito fácil perdermo-nos na multidão. Habituada a contar apenas consigo própria, Georgia tem um dia-a-dia esgotante em que tenta conciliar as exigências da sua loja com a educação da filha, Dakota. Em tempos não muito distantes, Georgia era uma jovem apaixonada e decidida a perseguir os seus sonhos, pelo menos até ao dia em que James – o grande amor da sua vida – soube que estava grávida e lhe despedaçou o coração ao fugir para Paris. Nesse dia, Georgia conheceu a solidão e decidiu traçar o seu caminho sozinha. Mas James tem outros planos. Planos que a incluem…


Os Anos Virginia Woolf

Considerado por alguns críticos o romance onde Virginia Woolf alcança todo o seu potencial artístico, Os Anos acompanha os vários membros da família Pargiter desde 1880 até meados da década de 30 do século passado – e, nesse sentido, pode ser lido como uma saga familiar. Mas Os Anos é também uma profunda reflexão

sobre a natureza do tempo, e sobre a memória que o evoca e modifica. A prosa de Virginia Woolf, sempre lírica e plena de impressões sensoriais, traz assim à vida um mundo interior frequentemente intangível mas que aqui emerge para reclamar toda a intensidade e complexidade que o caracterizam.


Amor em Terra de Chamas Jean Sasson

Estás em cada página que leio, Em cada palavra que escrevo. Aqui todos os pássaros cantam o teu nome. Não sou nada sem ti. “Quando Joanna al-Askari se apaixonou pelo homem que escreveu estes versos, dificilmente poderia imaginar as alegrias – e os desafios – que estariam à sua espera quando se juntasse a ele para casar e lutar pela independência do Curdistão. Dos bombardeamentos iraquianos ao ataque químico que a deixou temporariamente cega, Jo-

anna viveu na pele o terror instilado pelo regime de Saddam Hussein. Viu morrer família, amigos e um filho por nascer. Sobreviveu às mais terríveis provações, chegando a ficar soterrada debaixo de escombros e a arriscar a vida numa fuga que a obrigou a atravessar a mais alta montanha do Iraque.


CIN

EMA #04

James Bond está volta “A Vida Secreta das Abelhas” leva divas da música para o cinema “Cidade das Sombras” um mundo por descobrir “Body of Lies” nas salas de cinema em Novembro Entre os Dedos Indetectável W. Em Bruges Busca Implacável A Turma


Jam e está s Bon d vol ta

Foi pensado pouco depois de “Casino Royal” concluir a sua missão. “Quantum of Solace”, é a primeira sequela directa do franchise James Bond e vigésimo segundo filme da saga.

todos os detalhes, com elevado profissionalismo

Craig interpreta o papel com a mesma determinação, um agente do MI6, interessado pelas questões ambientais e, por um momento, tamBond volta a ser interpretado por Daniel Craig bém pela CIA.O protagonista e o realizador, que, neste filme, vai vingar a morte da sua namo- Marc Forster reconhecem que as desconfianças rada, Vesper Lynd. Um missão preparada, em políticas são um dos temas fortes do filme.


“A Vida Secreta das Abelhas” leva divas da música para o cinema

Queen Latifah, Alicia Keys, Jennifer Hudson e Dakota Fanning são o elenco de luxo de “The Secret Life of Bees”. “A vida secreta das Abelhas”, o filme, é baseado no romance de Sue Monk Kidd, e conta a história de uma jovem de 14 anos que pensa ter morto, acidentalmente, a mãe aos quatro anos. Lily foge ao pai, violento e autoritário, e encontra refúgio na casa de três irmãs apicultoras excêntricas.


“Ci d So ade m mu bra das s n de do ” um sco po bri r r

A “Cidade das Sombras” chega ao grande ecrã. A película conta a história de dois adolescentes, interpretados por Saiorse Ronan e Harry Treadaway, que começam uma corrida contra o tempo para descobrir pistas sobre os antigos mistérios da sua cidade subterrânea que permitirão escapar à escuridão eterna. A película é baseada no romance infanto-juvenil de 2003, “City of Ember”, de Jeanne DuPrau. “Traitor” a verdade para lá da verdade

A verdade é complicada é o mote de “Traitor” a nova película protagonizada por Don Cheadle e Guy Pearce. Cheadle é um agente especial e Pearce um agente do FBI que investiga actividades terroristas. A história gira em torno deste agente especial que ajuda os terroristas em actos contra o Ocidente. Grande parte do filme passa-se numa perseguição sem tréguas entre três continentes.


“Body of Lies” nas salas de cinema em Novembro Leonardo DiCaprio e Russell Crowe são as estrelas de “Body of Lies”, o novo filme de Ridley Scott. DiCaprio e Crowe são dois agentes da CIA que vão ter que desmontar uma rede bombista islâmica que ameaça o mundo. “Body of Lies” estreia, na Europa em Novembro. Em Portugal no dia 20.


Entre os Dedos Entre os Dedos Título original: Entre os Dedos De: Tiago Guedes, Frederico Serra Com: Filipe Duarte, Luís Filipe Rocha, Gonçalo Waddington Género: Dra Classificacao: M/16 POR, 2008, Cores, 100 min. argumento Segunda longa-metragem de Tiago Guedes e Frederico Serra, depois de “Coisa Ruim” e, tal como este, com argumento do jornalista e romancista Rodrigo Guedes de Carvalho, “Entre os Dedos” é a história de um conjunto de pessoas que agora se limitam a sobreviver dentro do destino que lhes coube. Mas enquanto uns desistem e deixam cair os braços, outros resistem, esbracejam e lutam, recusando-se a deixar-se conformar. Depois de uma derrocada numa obra, Paulo

perde o emprego porque denunciou a situação. A sua relação com a mulher vai piorando dia após dia. Anabela, a irmã de Paulo, vive com o pai de ambos, que sofre de síndrome do Ultramar. Bela é enfermeira e o único conforto de um doente terminal. O filme é protagonizado por Filipe Duarte, Isabel Abreu, Lavínia Moreira e Gonçalo Waddington, entre outros. PÚBLICO


Indetectável Indetectável Título original: Untraceable De: Gregory Hoblit Com: Diane Lane, Billy Burke, Colin Hanks Género: Thr Classificacao: M/12 EUA, 2008, Cores, 101 min. argumento Jennifer Marsh é uma agente especial que pertence à divisão de cibercrime do FBI, dedicada à investigação de criminosos na Internet, desde ‘’hackers’’, a pedófilos ou outros criminosos que usam a rede com fins fraudulentos. Jennifer pensava já ter visto tudo... até agora. Um predador cibernético começa a utilizar a Internet para publicar imagens das torturas que inflige às suas vítimas e coloca o destino dos prisioneiros nas mãos dos espectadores. Quanto maior for o número de visitas ao site, mais rapidamente morre a vítima. O FBI tenta a todo o custo localizar a origem do site, numa corrida contra o tempo e contra a perícia deste atormentado génio informático. A perseguição rapidamente se transforma num jogo do gato e do rato com Jennifer e a sua equipa a serem apanhados na rede do criminoso. PÚBLICO


w. W. Título original: W. De: Oliver Stone Com: Josh Brolin, Thandie Newton, Elizabeth Banks, Richard Dreyfuss Género: Dra Classificacao: M/12 EUA/Hong-Kong, 2008, Cores, 131 min. argumento Um dos mais controversos e incómodos realizadores americanos, Oliver Stone, o cineasta de “Platoon - Os Bravos do Pelotão”, “JFK”, “Nascido a 4 de Julho” ou “World Trade Center”, aponta agora a câmara a George W. Bush. Crónica sobre a vida e mandatos do 43º Presidente norte-americano, é uma inquirição ao percurso de um homem que passou do estatuto de alcoólico a líder da mais poderosa potência mundial. O retrato de lutas e triunfos, dos demónios interiores e da fé, das críticas à decisão de invadir o Iraque, tudo sob o olhar de Stone e estreia a tempo de marcar a cena política, nas vésperas das eleições presidenciais norte-americanas. PÚBLICO


Em Bruges Em Bruges Título original: In Bruges De: Martin McDonagh Com: Elizabeth Berrington, Ralph Fiennes, Colin Farrell, Brendan Gleeson Género: ComDra Classificacao: M/12 BEL/GB, 2008, Cores, 107 min.

argumento Depois de um trabalho em Londres que corre mal, dois assassinos são enviados para a pacata Bruges, na Bélgica, para desaparecerem do mapa por uns tempos. Ray (Colin Farrell) odeia a cidade e está irritado com o insucesso do trabalho, enquanto Ken (Brendan Gleeson), olhando o colega de forma paternalista, se deixa levar pela calma e beleza daquela mítica cidade belga de fortes traços medievais. Durante a estadia, sucedem-se encontros estranhos quer com turistas quer com habitantes, um actor norte-americano anão, prostitutas e uma misteriosa mulher. As férias acabam quando o chefe, Harry (Ralph Fiennes), telefona a um deles e ordena-lhe que assassine o outro. As ruas labirínticas de Bruges tornam-se então um cenário surrealista de perseguições. PÚBLICO


Busca Implacável

Busca Implacável Título original: Taken De: Pierre Morel Com: Liam Neeson, Maggie Grace, Famke Janssen Género: Acç, Thr Classificacao: M/16 FRA, 2008, Cores, 93 min. argumento Bryan (Liam Neeson), antigo agente dos serviços secretos norte-americanos, está em Los Angeles e conversa ao telefone com a filha Kim (Maggie Grace), em Paris de férias. Nesse exacto momento este pai vai assistir, a milhares de quilómetros de distância, ao rapto da filha. Bryan terá poucas horas para usar todos os seus conhecimentos para salvar Kim das malhas de um bando organizado de tráfico de mulheres. PÚBLICO


A Turma A Turma Título original: Entre les Murs De: Laurent Cantet Género: Dra Classificacao: M/12 FRA, 2008, Cores, 128 min.

começam a desafiar os seus métodos. A turma é composta por actores não-profissionais que foram escolhidos entre alunos de um liceu francês, com quem o realizador trabalhou todas as semanas durante um ano lectivo em ateliês de improvisação. O filme é considerado um retrato exemplar das quesões da educação e do desafio de ensinar. PÚBLICO

argumento “A Turma” (“Entre les Murs”), filme de Laurent Cantet (“Recursos Humanos”, “O Emprego do Tempo”) galardoado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, segue um ano de um professor e da sua turma numa escola de um bairro problemático de Paris, microcosmos da multietnicidade da população francesa, espelho dos contrates multiculturais dos grandes centros urbanos de todo o mundo. O professor François (interpretado pelo próprio François Bégaudeau, professor que escreveu o livro que foi o ponto de partida para este filme) e os seus colegas, preparam-se para um novo ano escolar. Cheios de boas intenções, estão decididos a não deixarem que o desencorajamento os impeça de tentar dar a melhor educação aos seus alunos. Mas as culturas e as atitudes diferentes colidem frequentemente dentro da sala de aula. François insiste num atmosfera de respeito e empenho. Mas tudo é posto à prova quando os estudantes


SIC A #05

Angrajazz 2008 Festival Festival de música aquece o país do gelo Raul Paz regressou a La Habana Decorreu em Paris Concurso Olivier Messiaen Jacques Brel abandonou o palco da vida há trinta anos Cansei De Ser Sexy + X-Wife (Porto) Peixe: Avião Kaiser Chiefs Bloc Party


Angrajazz 2008 Angra do Heroísmo, nos Açores, foi pela décima vez a anfitriã de um festival de jazz que por mérito dos seus organizadores se assume como um dos mais importantes do país e, na cena internacional, como um dos mais peculiares. Para festejar a primeira década de existência, o Angrajazz brindou o público que acorreu ao Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo com um programa de grande qualidade.


Festival Festival de música aquece o país do gelo

Reiquejavique recebeu mais uma edição do Iceland Airwaves Festival. Pela capital da Islândia passaram, durante quatro dias, 149 artistas islandeses e internacionais.

São muitos os nomes da música alternativa que passaram pelo palco deste festival entre eles a banda portuguesa M.A.U. (Man and Unable).


Raul Paz regressou a La Habana.

Saído de Cuba há 15 anos, Raul Paz estava proibido de dar concertos na sua ilha natal. Era muita a vontade de regressar a casa, para partilhar com os seus compatriotas a energia, o entusiasmo e a mensagem da viabilidade de uma terceira via defendida por uma nova geração de artistas.


Decorreu em Paris Concurso Olivier Messiaen Decorreu na Cité de la Musique em Paris o prestigioso e prestigiante “Concurso Olivier Messiaen para Piano Contemporâneo”. O evento é ao mesmo tempo uma homenagem à obra de Messiaen, compositor e teórico francês que abriu as portas a novas formas de expressão musical, através da introdução de técnicas de criação bem distintas dos processos de composição clássica.


Jacques Brel abandonou o palco da vida há trinta anos Um dos cantores de maior sucesso em França nasceu na Bélgica, em 1929, mas rumou a Paris na década de 50. “Jacques Brel et ses chansons”, o primeiro álbum do cantor e compositor, é editado em 1954. No final dos anos setenta, depois de lhe ser diagnosticado um tumor no pulmão, Brel abandona Paris e parte para as ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. O cantor acaba por falecer, com uma embolia pulmonar, em Paris. 30 anos depois foram vendidos objectos que pertenciam ao cantor. Uma das leiloeiras mais conceituados do mundo, a Sotheby’s, concretizou o evento em Paris.


Cansei De Ser Sexy + X-Wife (Porto) Video Cansei De Ser Sexy + X-Wife (Porto) Em Julho, cancelaram a participação no festival Alive!, alegando incompatibilidade com outros compromissos de promoção ao novo álbum. Esperemos que nada se intrometa, desta vez, no caminho dos Cansei De Ser Sexy. O Coliseu dos Recreios de Lisboa espera por eles a 28 de Outubro; o Teatro Sá da Bandeira, no Porto, aguardaos no dia seguinte. Nas revistas, nos clubes, nas listas dos DJ, não há quem não fale neles. Com concertos esgotados em Inglaterra e nos EUA (e em qualquer outro ponto do globo com uma cena de dança atenta), os Cansei de Ser Sexy estão em todo o lado. Os cinco paulistas (maioria de raparigas) são uma das maiores sensações dos últimos tempos. As melhores pistas de dança já não passam sem as electrónicas secas, revivalistas, despudoradas e directas ao assunto de temas como “Alala”. Perante este furor, imagine-se a ansiedade dos fãs por ver como se comporta, ao vivo, o segun-

do álbum da banda brasileira, “Donkey”. Com os Cansei De Ser Sexy, o ambiente vai andar quente. A primeira parte do concerto não lhe fica atrás e promete ser mais do que um aquecimento. Está entregue aos incendiários W-Xife. A banda portuense está pronta para mostrar o novo “Are You Ready For The Blackout?” e para disparar o seu rock aberto à electrónica, com atitude revivalista e alguma herança punk. S.Pe. (PUBLICO.PT)


Peixe: Avião Crónica Subscuta - Peixe:Avião cola

fim das músicas, os segundos de silêncio eram como um ruído final das músicas de Peixe:Avião. Quase um ano após o seu primeiro concerto Até que chegaram os problemas técnicos, que aconteceu no Auditório do Museu do um autêntico balde de água fria...Ronaldo Olaria em Barcelos, os Peixe:Avião regresFonseca tentando criar uma manobra de sam, desta vez ao já clássico Auditório da diversão, serviu a música “Barbitúrica Luz” Biblioteca Municipal para um concerto insem a calma necessária para ser ouvida. A serido no Subscuta. partir desse momento, os Peixe:Avião tenSó os mais distraídos se espantaram com taram executar mais três músicas que foram a casa a abarrotar, a verdade é que os visivelmente afectadas pelos problemas técPeixe:Avião num ano de existência, connicos. seguiram arranjar um lugar importante no O fim foi precipitado pelos problemas técpanorama da musica alternativa portuguesa nicos e após a saída de palco e o previsível (e em tão bom português). “encore” pedido pelo público sedento de “Casa cheia...” disse num tom de admiraPeixe:Avião, Ronaldo Fonseca veio ao palco ção, Ronaldo Fonseca no palco, ao ver-se desta feita sozinho, desculpar-se pelos probconfrontado com as caras expectantes da lemas técnicos e informar que não haveria audiência preparada para mergulhar e voar possibilidade de tocarem mais. Mesmo asnos sons de Peixe:Avião. E assim foram sim foram ovacionados e imediatamente desembrulhando canção a canção embalcompreendidos e desculpados. ando o auditório nos acordes da guitarra e Os Peixe:Avião saíram assim de Barcelos, nodo baixo, nos samplers, na voz e na descon- vamente em grande, mas com a promessa certante bateria. O auge como se esperava de voltarem em breve. foi o single “A Espera é um Arame” já preFicou provado esta noite, que há público sença habitual nos meios de comunicação para ver concertos em Barcelos é tudo uma social com mais projecção de Portugal. As questão de boas ou más opções. palmas saíam sempre segundos depois do


terça-feira, 21 de Outubro de 2008 | 20:00 Entrevista com os Kaiser Chiefs: Cabeças falantes Davide Pinheiro

Gostou da versão do «Oh My God» que o Mark Ronson incluiu no «Version»? Para lhe ser sincero, não acho nada de especial. Deixa-me um bocado indiferente. Não é má mas também não creio que acrescente muito ao origiApenas 18 meses depois do semi-falhado «Yours nal. Truly, Angry Mob», os Kaiser Chiefs regressam com «Off With Their Heads» e com intenções A mensagem do «Never Miss A Beat» é muito de pôr toda a gente a dançar, diz-nos o baterista forte. É o vosso «Another Brick In The Wall»… Nick Hodgson. Sim, concordo plenamente. Não consigo explicar muito bem as canções nem me lembro como O Mark Ronson considera que o disco soa muito é que esse tema apareceu mas sei exactamente o a Talking Heads. Concorda? que o Rick (vocalista) quer dizer. Lembro-me de É definitivamente uma inspiração. As palavras andar na escola e de pensar que era engraçado do Mark Ronson fazem sentido porque há um não saber nada («it`s cool to know nothing»). balanço e um sentido dançável que tem muito a De facto, na altura eu sabia muito pouco sobre a ver com os Talking Heads. Há canções que lem- vida e era interessante essa ingenuidade. Quase bram muito algumas coisas deles. Acho que é todos os músicos passam por isso. um álbum com muito groove portanto a resposta é definitivamente sim! Já tinha o sonho de ser músico nessa altura? «Sim, aliás eu já tinha uma banda com o Simon, O disco foi pensado para ser mais dançável? muito antes de sequer sonhar com os Kaiser Foi. No primeiro, nós éramos uma banda habitu- Chiefs. Mesmo assim, ainda passámos alguns ada a tocar em clubes. Depois, andámos em dianos a penar. gressão e passámos a dar concertos em estádios. Acho que, agora, fazemos um resumo de ambas Há quem defenda que os Kaiser Chiefs são uma as hipóteses e juntamos um apelo mais dançável. banda que é forte sobretudo em palco. ConcorO «Yours Truly, Angry Mob» era mais virado da? para o rock e tinha canções mais duras. Este é «Não necessariamente. Acho que temos bons mais sensorial. Redescobrimos o prazer de pôr discos e, sobretudo, pensamos o conceito em as pessoas a dançar com uma simples canção. termos de álbum. As minhas bandas preferidas Já li que é se trata de um álbum mais complexo também são assim. Quais são os seus discos mas, por acaso, até acho que é exactamente o preferidos? contrário. «Definitely Maybe», dos Oasis. «Pills`n`Thrills and Bellyaches, dos Happy Mondays. Todos dos Porque é que escolheram o Mark Ronson para Beatles e dos Blur. Os XTC e os The Jam. trabalhar convosco? Foi ele que nos escolheu. Nós não tínhamos pla- davidevasconcelos@gmail.com nos mas queríamos voltar a gravar. Sei que não passou muito tempo (n.d.r. 18 meses) desde o segundo álbum mas queríamos voltar rapidamente para a estrada e o Mark manifestou o desejo em trabalhar convosco. Acho que foi uma experiência muito agradável para ambas as partes. Não se nota muito a produção dele… Pois não, porque ele normalmente é mais do que um produtor. Com a Amy Winehouse e a Lily Allen, o Mark foi também compositor. No nosso caso, nós já tínhamos as canções e ele apontou pistas mas não nos impôs nada. Aliás, ele foi coprodutor juntamente com Eliot James.


Histórias intimistas num disco esquizofrénico

Uns dos porta-estandartes da revisitação do pós-punk desta década, os Bloc Party tiveram na sua estreia, “Silent Alarm” (2005), um dos discos mais aplaudidos da sua geração, embora essa onda de entusiasmo não se tenha mantido no seu sucessor, ���A Weekend in the City” (2007), acolhido de forma algo fria tanto por grande parte da crítica como por muitos seguidores da banda londrina. Teria sido fácil repetir a receita do primeiro álbum, mas o quarteto optou por um segundo registo mais denso e menos directo, sem hinos urbanos imediatos como “Banquet” ou “Helicopter”, o que defraudou as expectativas de muitos num disco que se revelou, contudo, mais interessante do que parecia à partida. Um ano depois, “Intimacy” traz um terceiro capítulo para o grupo, que mais uma vez não se repete e volta a insistir na imprevisibilidade. Antes deste novo álbum a banda editou “Flux”, um óptimo single de vertente mais dançável que pouco tinha a ver com o que se conhecia dos Bloc Party, apostando numa electrónica frenética em detrimento da pujança rock expressa nos trabalhos anteriores. O tema não faz parte do alinhamento mas antecipou um pouco as suas sonoridades, e ainda que o título sugira territórios mais apaziguados o resultado nem sempre os confirma, uma vez que este é o disco mais esquizofrénico do grupo. O vocalista Kele Okereke já tinha divulgado que este seria um registo com maior carga experimental e que a temática incidiria no fim da sua relação amorosa, e o contraste com os álbuns anteriores é evidente. Percorrendo o alinhamento, tanto se encontram momentos de descarga rock como de indietronica contemplativa, assim como de pop épica e regressos ao big beat. As letras, ao contrário do retrato da juventude urbana - e particularmente londrina - de “A Weekend in the City”, têm um enfoque mais individual, seguindo como nunca antes as experiências na primeira pessoa de Okereke, o que não é propriamente uma vantagem e por vezes peca por excesso de auto-comiseração. Dando continuidade à electrónica de “Flux”, “Ares” abre o disco em tons caóticos, com percussões portentosas e a voz de Okerele em desvario, num tema cuja base instrumental é quase um update para os anos 00 de “Setting Sun”, dos Chemical Brothers, impondo um início com tanto de apocalíptico como de dançável. Ainda mais bizarro, o primeiro single “Mercury” aposta numa estrutura que primeiro se estranha mas que, no contexto do álbum,

funciona melhor do que isoladamente, disparando um refrão que acaba por viciar aos poucos. Já “Halo” investe em domínios mais familiares, sendo um claro sucessor dos episódios mais abrasivos de “Silent Alarm”, e por isso menos surpreendente ainda que seja um bom concentrado de energia cinética - mais convincente do que “Trojan Horse”, que percorre territórios próximos com menor eficácia mesmo que deva resultar bem ao vivo. Estes são, no entanto, os únicos dois casos de auto-citação da banda, a que eventualmente poderá juntar-se “One Month Off”, outro tema acelerado com guitarras em ebulição, que todavia aceita contaminações electrónicas não muito distantes da euforia 8-bit de uns Crystal Castles. A electrónica adquire maior protagonismo em canções mais calmas como “Biko”, momento dolente com Okereke numa postura contida cujo crescendo subtil origina um belo desenlace, superado pelas mais cristalinas programações de “Signs”, o ponto alto de “Intimacy”, que relata outra história de perda numa atmosfera comparável às dos Sigur Rós ou Björk (da fase “Vespertine”). Menos envolvente, “Better Than Heaven” quase podia ser um lado-b dos Depeche Mode dos tempos de “Songs of Faith and Devotion”, com voz colada à de Dave Gahan e onde não faltam sequer referências religiosas, e “Zephyrus” é talvez a faixa mais atípica - e a terceira intitulada com o nome de um Deus grego -, cuja carga barroca alicerçada em coros gera um efeito mais estranho do que arrebatador. Felizmente, “Ion Square” centra-se num experimentalismo mais moderado e consistente e confirma que os melhores momentos de “Intimacy” são de facto os mais discretos, vincados por uma electrónica sóbria e aconchegante. É o caso deste tema que fecha o disco com um raro rasgo de esperança após relatos algo pessimistas e nem sempre interessantes, ainda que o balanço acabe por ser positivo. Dificilmente será desta, contudo, que os Bloc Party convencem os que os abandonaram no registo anterior, mas mesmo que ainda se sintam hesitações quanto ao rumo a seguir as tentativas que aqui encetam nunca optam pelo comodismo, estando longe de envergonhar uma estreia como “Silent Alarm” - o que, não sendo muito, torna “Intimacy” superior aos álbuns mais recentes de tantas outras bandas que se estrearam na mesma altura. E isso, por agora, é suficiente para que ainda não se desista deles.


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