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edição

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Setembro

Eduardo Giannetti da Fonseca, economista e palestrante do 11o SIAC

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EDF

“Há uma defasagem muito grande entre a Justiça a que estão submetidos os cidadãos comuns e a Justiça a que estão submetidos os políticos”

22 de novembro de 2016 Teatro Cetip* - São Paulo, SP

Desafios econômicos para o crescimento sustentável do Brasil PALESTRANTES CONFIRMADOS

Eduardo Giannetti da Fonseca Economista

James Conrad CEO da TNS

Defensor das reivindicações das ruas ganha espaço no governo Paulo Rabello de Castro

Marcos Troyjo

Diretor do BRICLab da Universidade Columbia

Massimo Volpe

Chairman do Forum for International Retail Associations

APRESENTAÇÃO: Christiane Pelajo, jornalista

Patrocínio

Realização

Apoio R

Presidente do IBGE, o economista recomenda maior rigor com os gastos públicos, taxa de juros menores, tributos mais justos e serviços públicos de qualidade

Apoio Institucional

INFORMAÇÕES DE CRÉDITO

Pesquisa ACREFI / TNS: Para 25% dos brasileiros, a economia aparentemente encontrou a direção correta *Rua Coropés, 88 - Pinheiros - São Paulo, SP

Visite o hotsite em www.siac.org.br


editorial

Um país mais consciente

O

Brasil vive um processo de retomada da confiança. Assistimos, nos últimos meses, à divulgação de indicadores que apontam nessa direção, o que se confirma na observação do nosso dia a dia no contato com as pessoas. Trata-se ainda do início desse processo, mas fica cada vez mais evidente que o otimismo está voltando, o que é muito positivo para todos. Hilgo Gonçalves:

e sendo rigorosos na avaliação das despesas e receitas, e sem esquecer dos tomadores, que exigem cada vez mais informações antes de se decidirem por um empréstimo. É preciso ter consciência de que as financeiras são fundamentais para que o crédito cresça e que também se torne mais acessível e exerça a sua função de incentivar os investimentos e o consumo consciente.

São boas novas que, no presidente da ACREFI entanto, não autorizam a euforia. Essa postura ganha imporA perspectiva positiva não pode tância ainda maior quando se nos impedir de refletir sobre a importância do constata que o consumidor está, de sua parte, momento para o futuro do País. Temos uma muito mais consciente. Pesquisas recentes, oportunidade preciosa de, com base em tudo incluindo a que foi feita pela ACREFI com a o que vivemos nos últimos tempos, repensar TNS, mostram claramente que o tomador está nossa postura e partir para ações que mostrem cada vez mais distante do desejo de fazer um nosso compromisso com a construção de uma empréstimo apenas para atender a apelos de sociedade melhor e mais justa. Não podemos, consumo. Ao contrário, ele mostra que aprendeu portanto, sequer pensar em acomodação. a lição e que não pensa mais em tomar crédito sem antes verificar a real necessidade da opeExemplo dos resultados positivos dessa pos- ração, e as taxas, os prazos, a sua capacidade de tura ativa diante das dificuldades foi dado recen- pagamento e as demais condições da operação. temente nos Jogos Olímpicos que aconteceram no Rio de Janeiro. Contra as previsões de que o Nessa trilha, caminhamos para a formação evento não seria bem-sucedido, todos os envol- de um país mais consciente, uma necessidavidos fizeram um esforço extra desde a cerimô- de que abrange todas as áreas, e que vai nos nia de abertura, e o resultado foi extremamente tornar uma nação mais sólida e baseada em positivo. É algo que deve se reproduzir por toda valores que realmente importam, nos campos a sociedade: quando atuamos focados em um político, social e econômico. Para isso, depenobjetivo maior, os resultados aparecem. demos do esforço da cada um, mas precisamos também estar sempre juntos, pensando no Pelo lado dos empresários, é fundamental bem comum. Todos devemos nos unir em prol que todos nós façamos nossa lição de casa e do Brasil. É um trabalho árduo, porém as indiestejamos cada vez mais conscientes de nosso cações são de que o terreno é cada vez mais importante papel para o crescimento sustentá- propício para que esse objetivo tão importante vel do crédito. Temos que manter nossa casa seja finalmente alcançado e possamos crescer em ordem, cuidando do nosso core business, de forma sustentável. f

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Foto: Luciano Piva

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Escreva o seu e-mail, faça seu comentário: acrefi@acrefi.org.br

3 Editorial

16 PréSIAC

Eduardo Giannetti da Fonseca diz ser preciso haver um entendimento de que o interesse do País é bem maior que o interesse de um grupo

presidente do IBGE, fala sobre redução dos gastos públicos, erros cometidos em programas sociais, juros elevados e excesso de tributos

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EDF

8 Entrevista do mês Paulo Rabello de Castro,

22 de novembro de 2016 Teatro Cetip* - São Paulo, SP

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PALESTRANTES CONFIRMADOS

18 Memória

Mercado financeiro fica mais pobre com a morte de Sérgio Darcy Eduardo Giannetti da Fonseca

Foto: Régis Filho

Desafios econômicos para o crescimento sustentável do Brasil

James Conrad

CEO da TNS 20 Crédito e cobrança

Economista

24 Regional

Marcos Troyjo

Foto: Luciano Piva

20

Diretor do BRICLab da Universidade Road Show Acrefi, Columbia

Massimo Volpe

Chairman do Forum for International Retail Associations

em Florianópolis, analisa percepções dos jornalista APRESENTAÇÃO: Christiane Pelajo, desdobramentos econômicos e políticos Patrocínio

Realização

Apoio R

INFORMAÇÕES DE CRÉDITO

*Rua Coropés, 88 - Pinheiros - São Paulo, SP

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Seminário aborda as medidas econômicas do governo e prevê início de recuperação dos resultados

Apoio Institucional

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Visite o hotsite em www.siac.org.br


conteúdofinanceiro

28 Pesquisa ACREFI/TNS

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Em webinar, da esq. para a dir., Nicola Tingas, Hilgo Gonçalves e Rafael Munhoz esclarecem a imprensa sobre estudo que avaliou a percepção da economia brasileira

38 Painel Cetip 40 Supermáquina Lexus RX 350

40 42 Literatura

Foto Mário Bock

Foto: Divulgação

Ignácio de Loyola Brandão comemora 80 anos, com prêmio, novo livro e show

45 Livros

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46 Cultura

Instituto Moreira Salles

Artigos 33 Fausto Ferraz Controlbanc

35 Patricia Peck Pinheiro

Patricia Peck Pinheiro Advogados

50 Nicola Tingas

Consultor econômico da ACREFI

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expediente ISSN 1809-8843

Publicação da acrefi - Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento Rua Líbero Badaró, 425 - 28°andar - São Paulo - SP - Tel: (11) 3107-7177 - www.acrefi.org.br Diretoria - Biênio 2016-2018 Presidente Hilgo Gonçalves Vice-presidentes Aquiles Leonardo Diniz, Celso Luiz Rocha, Décio Carbonari de Almeida, João Carlos Gomes da Silva, José Luiz Acar Pedro e Rubens Bution Diretores Tesoureiros João dos Santos Caritá Jr. e José Garcia Netto Diretores Secretários André de Carvalho Novaes e Rodnei Bernardino Diretores executivos Álvaro Augusto Vidigal, Edmar Casalatina, José Tadeu da Silva, Marcelo de Castro Villela, Roberto Willians da Silva Azevedo e Wanderley Vettore Diretores regionais Carlos Alberto Samogim, Felicitas Renner, Leonardo Lima Bortolini, Luis Eduardo da Costa Carvalho, Marcos Teixeira da Rosa e Romeu Zema Diretores conselheiros Alexandre Teixeira, Eliseu Cézar Colman, Giorgio Rodrigo Donini, José Carlos Alves, Marcos Westphalen Etchegoyen e Ricardo Albuquerque Montadoras Alessandra Reis Rollo, Américo da Costa Martins, Edson Fróes Castilho, Edson Tadashi Ueda, Eduardo Tavares Nobre Varella, Gunnar Alejo Ramos Murillo e Nelson Dias de Aguiar Conselho consultivo Membros Natos Alkindar de Toledo Ramos, Érico Sodré Quirino Ferreira e Manoel de Oliveira Franco Membros Alarico Assumpção Júnior, Antonio Carlos Botelho Megale, Gilson de Oliveira Carvalho, Gilson Finkelsztain, Ilídio Gonçalves dos Santos, Luiz Tavares Pereira Filho e Miguel José Ribeiro de Oliveira Conselho fiscal Domingos Spina, Geraldo Lima Vandalsen e Cláudio Messias Ferro Diretor superintendente Antonio Augusto de Almeida Leite (Pancho) Controller Carlos Alberto Marcondes Machado Consultora Jurídica Lívia Esteves Auditoria Megacont Auditoria e Assessoria Contábil Contabilidade Conaupro Consultoria e Contabilidade Ltda. Assessoria de imprensa

Publisher Sergio Tamer Editores Theo Carnier e Gilberto de Almeida Editor assistente Gustavo Girotto Arte Moacyr Mw Revisor Vicente dos Anjos Impressão Eskenazi Gráfica As matérias e artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

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BV FINANCEIRA S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO Caixa Econômica Federal CARUANA S.A. SOCIEDADE DE CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO Dacasa Financeira S.A. Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento ESTRELA MINEIRA CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A. FINAMAX S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO FINANCEIRA ALFA S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS HS FINANCEIRA S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS KREDILIG S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO LECCA CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A. MERCANTIL DO BRASIL FINANCEIRA S.A. - Crédito, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS MIDWAY S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO OMNI S.A. CRÉDITO FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO PORTOCRED S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO PORTOSEG S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO SANTANA S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO SANTINVEST S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO SAX S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO SENFF S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO SOCINAL S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO SOROCRED CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A. SUL FINANCEIRA S.A.- CRÉDITO, FINANCIAMENTOS E INVESTIMENTOS setembro 2016 financeiro

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entrevistadomês

“A taxa de juros é a tradução matemática da nossa morte”

O

economista Paulo Rabello de Castro não escolhe as palavras para falar sobre o Brasil. Seus comentários são incisivos, claros e precisos. Escolhido pelo Presidente Michel Temer para assumir o comando do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o peso do cargo não suaviza em nada suas críticas sobre os esforços para redução dos gastos públicos, os erros cometidos na condução dos programas sociais, a taxa de juros, o excesso de tributos, a forma como o governo avalia os investimentos internacionais, entre outros descontentamentos. “É preferível fazer isso estando junto ao Presidente, como parte de seu governo, em vez de ficar atirando pedra do lado de fora, ou apenas fornecendo ideias, sem estar comprometido. Mas, devo reconhecer que ainda falta muito para que um alinhavado, muito bem feito, vire um plano. Aí está o grande desafio do governo Temer. É um plano que requer ousadia para ser executado até 2018. ” Doutor em economia pela Universidade de Chicago (Estados Unidos), sócio fundador da SR Rating e da RC Consultores e presidente do Instituto Atlântico, instituição que há 23 anos elabora propostas de políticas públicas, Rabello de Castro, ao falar agora sobre sua responsabilidade à frente do IBGE, diz que se sente como um retratista do Brasil, em busca de informações relevantes em benefício do cidadão. Entre suas prioridades está a melhor divulgação das informações geradas pelo IBGE sobre os municípios para que os eleitores e a imprensa possam exigir mais dos candidatos a vereador e a prefeito. Outra preocupação é com o dimensionamento de recursos para investir em tecnologia, reposição de pessoal e ainda a realização do Censo Agro e do Censo Demográfico de 2020. A seguir, leia os principais trechos da sua entrevista.

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Revista Financeiro – Como aconteceu o convite do Presidente Temer para que o senhor assumisse a presidência do IBGE? Paulo Rabello de Castro – O convite surgiu de um diálogo que começou ainda em 2011, início do primeiro mandato da Presidente Dilma. Como o meu outro chapéu é o Instituto Atlântico, apresentei há cinco anos, no auditório do jornal O Globo, a primeira manifestação do MBE (Movimento Brasil Eficiente), que recomenda a simplificação fiscal e a gestão eficiente dos recursos públicos. No evento estava o então recém-empossado vice-presidente Temer. Ele fez uma apresentação muito simpática e franca; dizendo, “eu, como presidente da Câmara dos Deputados, quase emplaquei a reforma. Só não o fiz porque as forças da burocracia, dentro do Estado brasileiro, não querem reforma alguma. Portanto, a minha recomendação para vocês do MBE é que pressionem, vocalizem, insistam e façam barulho”. Foi o que aconteceu a partir de 2013, quando não faltaram nas ruas, além de “fora Dilma”, “fora Cunha”, “fora PT”, placas pedindo reformas, redução dos impostos, mais eficiência, mais educação. Ou seja, nós já tínhamos colocado nas mãos do então vice-presidente da República todos esses pontos que a sociedade civil levou para as ruas. Financeiro – Como evoluiu esse diálogo com o Presidente Temer? Rabello de Castro – No fim de 2015, nós apresentamos, ao ainda vice-presidente Temer, a primeira versão do que chamamos Agenda 16, que é o tríplice resgate – rediscussão da repartição tributária com Estados e municípios, novas condições de financiamento para o setor produtivo e melhorias das condições dos serviços básicos para os brasileiros. Pois, em 2011, a visão já era de absoluta perda de competitividade do Brasil.


Fotos: Luciano Piva

O país não alcançaria o sonho de ser uma sociedade que cresce e se desenvolve. No máximo, iríamos fazer um voo de galinha, o que aconteceu à custa de muita desoneração de certos segmentos. Em outras palavras, a manipulação do consumo e do endividamento do sofrido povo brasileiro. Foi como eles pedalaram de 2011 a 2013. Em 2014, porém, foi um despautério. A Dilma ganhou a eleição no fotochart, por conta de manipulação do câmbio, com os tais swaps cambiais. Financeiro – Algumas propostas do Instituto Atlântico foram usadas no documento Ponte para o Futuro, apresentado pelo PMDB em 2015? Rabello de Castro – Alguns elementos das nossas propostas foram aproveitados pelo redator do documento. Hoje, acreditamos que o redator talvez tenha sido ex-ministro Roberto Brant, junto com outras pessoas que fazem parte do grupo do então presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Moreira Franco, atual secretário-executivo do Programa de Parcerias de Investimentos da Presidência da República. Tanto que se você perguntar: vocês escreveram o Ponte para o Futuro? Não, não escrevemos. As ênfases não são as mesmas, mas as áreas de interesse coincidem. Financeiro – Além de presidir o IBGE, o senhor vai participar de uma maneira ativa em outras ações do governo? Rabello de Castro – Assim disse o Presidente, quando eu tomei posse no IBGE, no dia 22 de junho, em uma solenidade que eu chamaria hoje de pré-posse, porque a nomeação saiu a posteriore, por motivos burocráticos. Mas, no evento, falei durante uns cinco minutos sobre o que eu pensava do IBGE. Já o Presidente foi mais longe, mencionando, inclusive, o capítulo em que ele chamou de futuro da simplificação tributária, como outra das contribuições de que poderemos vir a participar. Financeiro – O senhor acredita que o governo Temer tem as condições de implantar as mudanças que o País tanto necessita? Rabello de Castro – Eu acho que o governo Temer tem a condição necessária, não sei se atingiu a condição suficiente. O Brasil não precisa de reajuste coisa nenhuma, muito menos de ajuste fiscal. O País necessita de algo muito maior. Ajuste é um pequeno concerto, uma calibragem de um distribuidor qualquer. Nós estamos diante uma

Paulo Rabello de Castro: presidente do IBGE

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entrevistadomês transformação econômica, fiscal e social para ser feita. Acredito que o Presidente Temer tem essa percepção e essa vontade. É o que eu chamo no meu livro “O mito do governo grátis” de um ponto de virada. São situações limites em que uma população inteira diz: chega, basta, acabou, vamos fazer diferente, não aceitamos mais o que está acontecendo. Aí vem a condição suficiente, que eu acho que ainda falta. Nós estamos tentando influir. É preferível fazer isso estando junto ao Presidente, como parte de seu governo, em vez de ficar atirando pedra do lado de fora, ou apenas fornecendo ideias, sem estar comprometido. Mas, devo reconhecer que ainda falta muito para que um alinhavado, muito bem feito, apresentado no documento Ponte para o Futuro vire um plano. É preciso apresentar as metas e estabelecer os condicionamentos. É um plano que requer ousadia para ser executado dentro de exíguo prazo, até 2018. Eu estou no governo Financeiro – É preciso priorizar os gastos. como uma voz da Rabello de Castro – O País, sociedade porque eventualmente, continua continuo sendo um gastando muito, mas não narepresentante dos quilo em que mais precisava gastar. O Brasil vai mal por300 mil apoiadores que tende a ser um ocioso do Movimento Brasil reprodutivo. Ele só reproduz aquilo que era o gasto no ano Eficiente anterior. Nesse sentido, faço até uma ressalva, a efetividade do esforço que estamos fazendo de segurar o gasto público baseado na inflação do ano anterior. Eu acho que essa regra teria que ser aperfeiçoada. Ela tende a reproduzir a inflação ociosa do ano anterior. A título de ter um teto, a inflação, na realidade, não deveria servir nem de parâmetro. Nosso parâmetro deveria ser: o que precisamos fazer no ano seguinte. Com o melhor dos nossos esforços, quer isso custe R$ 20 bilhões, R$ 30 bilhões, R$ 120 bilhões ou R$ 150 bilhões. Muito provavelmente não serão os R$ 150 bilhões que estamos projetando e querendo gastar, talvez possamos fazer com R$ 90 bilhões. Isso seria o conceito de orçamento base zero, que, aliás, consta no documento Ponte para o Futuro. Esse foi um dos pontos que suscitou mais esperança por parte daqueles que o leram. Eu estou no governo como uma voz da sociedade porque continuo sen10 financeiro setembro 2016

do, antes de mais nada, um representante dos 300 mil apoiadores explícitos do Movimento Brasil Eficiente. A maioria dos brasileiros quer orçamentos fundamentados na maneira eficaz de fazer as coisas no SUS, no IBGE, no Ministério de Transporte e em todas as outras áreas. Financeiro – Isso também passa pela questão da transparência tratada em seu livro “O mito do governo grátis”? Rabello de Castro – No setor governamental, o Brasil atingiu a condição limite da mentira. Promete entregar tudo para todos, sem custo para ninguém, e acaba entregando quase nada para todos, a um custo máximo para a grande maioria. Portanto, é uma mentira, um estelionato. Essa não é uma questão desse Presidente ou daquela Presidenta, mas da máquina institucional que há muito deixou de servir a quem deveria. Esse é o governo grátis. É o governo mais oneroso de todos. O governo eficaz é aquele no qual o cidadão sabe o quanto pagou e fica feliz pelo serviço que lhe foi prestado, em consequência daquele ônus. O ônus é a carga tributária. Só que a carga tributária no Brasil já não mede o ônus no governo. Isso porque o défice que o governo faz todos os anos é tão elevado, 10% do PIB no ano passado, que aos 36% de carga tributária, tem que se somar mais os 10% de défice para chegar a 46%. Portanto, quase meio PIB. Ou seja, meia produção anual. Até 30 de junho, trabalhando para o governo. Mas as pessoas não percebem isso. São distraídas, das mais sutis e diversas formas, dos custos embutidos nos seus gastos diários. Financeiro – A situação do País parece mais estável. A confiança começa a ser restabelecida. Qual é a sua percepção para 2017? Rabello de Castro – Para começar, vejo que existe uma certa confusão entre confiança e esperança. Confiança é um cálculo quase matemático sobre melhoria de chances, outra coisa é esperança, sentimento que temos quando o avião está caindo. O que aumentou foi o coeficiente de esperança. Não de confiança, que decorre de uma constatação racional. Nós aprendemos na teoria que, mesmo quando as pessoas dizem que agiram, supostamente, por impulso, descobre-se que a decisão foi racional. O sujeito foi racionalíssimo quando fez uma viagem para o exterior e se endividou. Ele


percebeu que era a única chance “Esse governo de levar a família para ver o Pato ainda oscila em Donald, em Orlando. Não houve falar em aumentar impulso algum, houve apenas imposto, em uma decisão. E, portanto, esse elemento que gera confiança em um país que é, fazer ainda não existe. visivelmente, Financeiro – Como se atinge sobrecarregado de essa confiança? tributos” Rabello de Castro – Isso está definido na nossa Agenda 16 e prevê pactos muito bem delineados. A União propondo, de fato, uma rearticulação profunda com os Estados e com os municípios. O que evoca começar pela simplificação tributária para o contribuinte. Logo em era a mínima possível, 5%. Na maior parte dos seguida, uma rediscussão da repartição tributária, países, essa relação começa em 50%. Na era préque requer repactuação dessa dívida, não só emer- -Lula, dando-se o devido reconhecimento positivo gencial, como já foi feita, mas que evoque também ao governo Lula nessa área, existiu um vislumbre uma mudança no comportamento dos Estados. O a partir do crédito consignado, depois no segmensegundo passo é um pacto com a produção. Esse to habitacional, que não foi negativo, depois acagoverno ainda oscila em falar em aumentar impos- bou virando manipulação, como com o programa to, em um país que é, visivelmente, sobrecarregado Minha Casa Melhor e outras “forçações” de barra. de tributos, principalmente a indústria. Esse pacto Não eram configurações exatamente perfeitas, passa por novas condições de financiamento para mas tinham definições muito bem direcionadas. esse produtor, pela desoneração fiscal, por con- Milhões de brasileiros tiveram pela primeira vez tratos de trabalhos simplificados, sem corte de acesso a uma realidade de consumo. O crédito foi vantagens para os empregados, mas que sejam a 30% de crescimento anual, separando por rufacilmente administrados pelas partes. O terceiro bricas, algumas delas até mais, outras, um poué pacto com o cidadão, focado em educação bási- co menos; mas foi a dois dígitos. A mulher linda ca, transporte e segurança. O quarto pacto é com apareceu. Essas coisas, porém, não são muito bem o resto do mundo, onde existe um vislumbre de controláveis. Tudo que é muito reprimido, quando mudança em andamento, conduzida pelo talento de é liberado vai a dois dígitos de crescimento; desde um chanceler, o senador do José Serra, por quem que por algum tempo. Como diriam os sábios da tenho admiração como colega, economista, mas teoria econômica, saiba a hora de tirar a terrina também por sua capacidade como político e gestor. do ponche da sala. Ou seja, no momento em que Não podemos esquecer também o compromisso do era preciso moderar o consumo da bebida, o dono Brasil com a sustentabilidade e com a preservação da festa mandou brasa. A partir de 2010/2011, em do meio ambiente. vez de suspender o ponche, eles passaram a serFinanceiro – Como o senhor analisa a situação do vir vodca. Esse é o preço dessa imensa inversão crédito dentro do atual cenário econômico? que estamos pagando hoje, com dois dígitos de Rabello de Castro – Que crédito? O crédito, na re- queda. Eu nunca falo em descontrole do consumialidade, foi uma moça que apareceu, ela era linda dor. O brasileiro não pode ser demonizado porque e dizem que está doente. O crédito foi tratado de consumiu. É função da política econômica admimaneira um pouco assim expressionista... algo que nistrar o ritmo da orquestra. quase não existia. Nós sonhávamos com aquela Financeiro – O senhor tem alguma estimativa de moça bonita, mas a relação do crédito com o PIB quando a oferta de crédito se estabilizará? setembro 2016 financeiro

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entrevistadomês expulsar quem está atrapalhando o jogo. Porque tem muitos ricos, donos da bola, que vão embora e levam os ativos. Essa não “Precisamos de é uma boa mentalidade. O Brasil investidores que está sofrendo disso. Voltando aos se encantem estrangeiros, eles já não trazem a pelo Brasil” bola porque querem saber antes se as nossas condições são minimamente estáveis. Financeiro – Mesmo com a rentabilidade do dólar? Rabello de Castro – Rentabilidade quer dizer risco. Ou seja, os estrangeiros, na realidade, não gostariam de ter tanta bondade. Rabello de Castro – Não. Esse crédito vai voltar Eles prefeririam ter taxas de retorno mais norum dia, mas, antes nós temos que banir essa for- mais, associadas a riscos mais baixos. A mentalima velha de administrar, com gente mal prepara- dade do investidor que vem atrás de uma taxa tão da para governar o Brasil. É um equívoco pensar alta, que faça retornar o capital em três, no máque o país está mal. Não há nada de errado com o ximo, quatro anos; é a postura de quem quer dar Brasil. O que estruturalmente nos faz falta é uma uma “ciscada”, por assim dizer, no mercado local educação mais aprimorada. Mesmo assim, o País e voltar correndo. Não é desse tipo de investidor já chegou a crescer 10%, 12%. Não me venham que nós necessitamos. Precisamos de investidocom essa. No Brasil sempre teve malária, esquis- res que se encantem pelo Brasil e digam: “Gostatossomose e conseguimos ser campeões do mun- ria que a minha empresa estivesse nesse grande do cinco vezes. Quem sabe não seja esse exagero país, pelo menos, nos próximos 20 anos. Quem de cuidados que nos fragiliza. Aliás, Nassim Taleb, sabe meu filho, meu neto, até venham morar aqui”. grande especialista em finanças, diz, em seu livro Como alguém que planta uma floresta por que se “Antifrágil”, que o excesso de mimo com que trata- encanta pelo país. mos a sociedade, resulta em manipulação e, por Financeiro – São investimentos de longo prazo. causa disso, a fragiliza. Rabello de Castro – Tudo aquilo que é de longo Financeiro – O mercado internacional ainda prazo, em um país que tem as taxas mais elevadas enxerga o Brasil com alguma possibilidade de do mundo, não existe. Se você tem uma taxa de juinvestimento? ros como a brasileira, que é de longe a mais elevaRabello de Castro – Esses investidores lato sensu da do mundo, o seu desconto no futuro é o máximo são, essencialmente, oportunistas. Essa é a única possível. Portanto, qualquer coisa deslocada para diferença entre os brasileiros e os que estão do mais de quatro anos, vale no máximo, um quarto, lado de fora. Nós, supostamente, estaríamos aqui um quinto, um décimo, daquilo que você lê como investindo em nossas próprias vidas e no futuro dos valor nominal hoje. Você escreve 100, mas se tiver nossos filhos. No entanto, uma parte da elite come- deslocado em cinco anos, esse valor passa a ter ça a mudar, fazendo fila na porta dos consulados leitura 20, 15, 10. Ou seja, o futuro não vale nada. O em busca de um novo passaporte, com uma segun- Brasil está atuarialmente morto. Porque não exisda nacionalidade. Mas a mentalidade de querer se te futuro. A taxa de juros é a tradução matemática mandar do Brasil é uma postura que nos coloca em da nossa morte. Então, antes de ser o retorno, que uma visão tão oportunista, quanto a dos investido- nós, como aplicadores, até legitimamente busres estrangeiros. O conceito de patriotismo é dizer: camos, “vamos fazer uma fezinha, está pagando se as coisas não estiverem a contento, nós vamos mais de 1% ao mês, quando lá no resto do mundo 12 financeiro setembro 2016


estão com taxa negativa; tem-se que pagar para depositar. ” Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, lá está errado também. Mas aqui, 1% ao mês, embora saudando essa vantagem micro, no ponto de vista individual, nós deveríamos ter a sensibilidade de coletivamente dizer que isso aqui deve ser a morte da economia. Aí não tem investimento. Financeiro – Retornando à gestão no IBGE, o senhor pretende trazer maior visibilidade às informações produzidas pelo instituto? Rabello de Castro – A missão do IBGE é retratar o Brasil. Essa incumbência, aliás, está muito bem definida por um decreto regulamentador, de 2003, assinado pelo ex-Presidente Lula e pelo Guido Mantega, que na época era ministro do Planejamento. É um elogio que, democraticamente, gostaria de deixar registrado, pois poucas são as instituições que têm sua missão tão estabelecida em um artigo legal. Outro ponto: quero dizer que estou no IBGE porque fui convocado pelo Presidente da República. Infelizmente, a Lei 8.112, que trata do regime jurídico dos servidores públicos civis da União e das autarquias federais, não distingue entre servidor público e servidor do público. Eles estão inseridos em uma carreira pública, selecionados e aprovados por concurso, diferente da minha situação. Devo esclarecer que, embora tenha uma relação muito próxima e até afetiva com o setor financeiro, a minha atividade produtiva tem muito pouca relação, para não dizer nenhuma, com a iniciativa comercial, diretamente atendida pela minha consultoria. Financeiro – Isso o senhor diz devido a algumas restrições surgidas quando da sua indicação para o IBGE? Rabello de Castro – A minha consultoria é muito centrada em clientes, principalmente, do agronegócio, da indústria, do comércio, do setor de serviços. Salvo eventuais convocações para palestras, em instituições financeiras, como a ACREFI, e a ANBIMA, eu não tenho clientes no setor financeiro, não atendo a nenhum banco. Financeiro – E quais são seus planos para o IBGE? Rabello de Castro – Como comecei a dizer antes, a missão do IBGE é retratar o Brasil para o melhor conhecimento da realidade nacional. Eu me considero hoje o principal retratista do Brasil. Como um fotógrafo, eu estou aqui para captar as visões que

considero mais relevantes. É uso da informação em benefício do cidadão. Para ele decidir melhor, politicamente, inclusive. Uma das coisas que já pretendemos fazer é tornar o IBGE um órgão mais atuante nas eleições. Mas, como? Nós vamos oferecer à população informações bem esmiuçadas sobre cada município. Essas informações existem e são preciosíssimas. São dados sobre governança que estão reunidos no chamado Munic (Pesquisa de Informações Básicas Municipais). Eles não ficam escondidos, mas estão, digamos assim, latentes entre as demais informações demográficas e geográficas. Com isso, o cidadão e a imprensa podem exigir dos candidatos a vereador e a prefeito, principalmente, conhecimento detalhado dessa realidade. Eu espero que com isso o IBGE consiga elevar o nível do debate eleitoral e produzir melhores representantes. Financeiro – O senhor pretende dar mais visibilidade “A missão do às informações do IBGE. IBGE é retratar Rabello de Castro – Com o Brasil para certeza. Aí nós temos, no o melhor entanto, que superar uma limitação no IBGE. Nós liconhecimento damos com uma massa da realidade de dados monumentais e, nacional” portanto, precisamos de equipamentos de primeira linha e, por sermos um setor público, competimos mal com segmentos privados, que têm uma capacidade de intervenção mais poderosa. Então, temos muitas vezes mainframes, que eu não diria desatualizados, mas já fora da fronteira das possibilidades de manipulação, do chamado big data. Esse será o nosso primeiro esforço, que será compatibilizado com os dois censos que temos pela frente, o Censo Agro e o Censo Demográfico de 2020. Isso exige não só máquinas novas, tecnologias de processamento, softwares, como também investimento, principalmente, em talento humano. Há muito tempo o IBGE só libera pessoas para a aposentadoria. Ou seja, houve um gap de gerações, devido a várias dificuldades de implementação de concursos entre as décadas de 1990 e 2000, que foram períodos de crise. f setembro 2016 financeiro 13


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“A crise é grave, mas o Brasil tem plena condição de ultrapassá-la”

Economista e filósofo, o professor Eduardo Giannetti da Fonseca é, antes de tudo, um otimista. Porém, nunca deixa escapar, em seus comentários, as adversidades sociais, políticas e econômicas que minam o cenário nacional. Presença confirmada como palestrante do 11º SIAC (Seminário Internacional ACREFI), evento programado para o dia 22 de novembro, no Teatro Cetip, em São Paulo, Giannetti fala sobre os problemas brasileiros com a serenidade e a lucidez de quem espera entregar um país melhor para as próximas gerações. A seguir, leia os principais trechos da sua entrevista. 16 financeiro setembro 2016

Revista Financeiro – Quais são os aprendizados que os brasileiros podem tirar desta crise? Eduardo Giannetti da Fonseca – São muitos aprendizados. O Brasil fez uma campanha em 2014 que não permitiu fazer um debate sincero e aberto sobre o que o Brasil precisava. O governo omitiu e falseou a realidade, guiado por medidas até irresponsáveis, criando uma situação artificial de pleno emprego e de prosperidade. Assim que foi eleito e ao tomar posse, no ano seguinte, a realidade se impôs e tirou o véu da fraude que foi cometida durante a campanha. Entre essas medidas, que são muitas, eu destaco: o represamento artificial dos preços administrados, como o da eletricidade e o dos derivados do petróleo; e a taxa de câmbio, que ficou muito tempo subvalorizada, com enorme dano a todo o setor industrial brasileiro. O efeito pedagógico agora são 12 milhões de desempregados, 60 milhões de inadimplentes, dois anos seguidos de recessão, em torno de 3,5%, queda do PIB, 170 mil empreendimentos comerciais fechados e milhares de empresas em


Foto: Régis Filho

recuperação judicial. Eu acho que isso é um evento bastante relevante de aprendizado. Financeiro – Será que desta vez, após os reflexos dos processos da Lava Jato, o Brasil poderá ter gestão mais ética e equilibrada? Esse aprendizado servirá também para que os eleitores escolham melhor seus representantes? Giannetti – Eu tenho esperança que sim, mas não tenho também nenhuma garantia de que isso vá acontecer. O que me incomoda muito hoje no quadro brasileiro é que os empreiteiros estão presos, os diretores da Petrobras estão presos, os operadores do esquema estão presos e os políticos continuam soltos. E, em grande medida, estão conduzindo esse processo de transição. Há uma defasagem muito grande entre a Justiça a que estão submetidos os cidadãos comuns e a Justiça a que estão submetidos os políticos, que gozam do benefício do foro privilegiado. É uma aberração completa o País ter 20 mil pessoas do estamento político que gozam desse privilégio insustentável. Financeiro – O senhor acha que o Brasil tem energia e capacidade para superar essa crise? Giannetti – Disso eu não tenho a menor dúvida. A vantagem de a gente ter uma certa idade é que já assistimos muitas coisas e não nos assustamos com facilidade. A crise é grave, mas o Brasil tem plena condição de ultrapassá-la. Nós não podemos confundir o circunstancial da conjuntura com o permanente da cultura brasileira. E ela continua viva, como revelou, de maneira esplêndida, o evento de abertura das Olimpíadas. O Brasil vai superar esse momento difícil e aprender com os erros surgidos durante esse processo. Financeiro – O governo Temer tem fôlego para implantar as medidas que o País necessita? Giannetti – Neste momento, a medida mais importante é a aprovação da PEC que estabelece um teto para os gastos públicos. Esse é o principal teste deste primeiro período do governo Temer. Ele não ocorrerá, provavelmente, antes das eleições municipais. Mas ele deve acontecer ainda em 2016, provavelmente, ao final do mês de novembro. Esse será o teste da governabilidade: se governo Temer consegue estabelecer um teto de longo prazo para que não aumentem mais os gastos públicos em termos reais. Financeiro – Até que ponto a voz das ruas passará a influenciar efetivamente nas atitudes e nas

decisões dos políticos? Giannetti – Depende muito da dinâmica desses movimentos. Eu acho que houve também um aprendizado de mobilização por parte da sociedade brasileira, inclusive com o uso dos recursos de que a tecnologia disponibiliza para divulgação daquilo que a população não tolera mais. No entanto, se a apatia prevalecer, tudo volta a ser como era antes. Eu não acredito, porém, que a apatia vai prevalecer porque houve um aprendizado muito grande. Financeiro – Quais são as responsabilidades esperadas por parte dos empresários comprometidos com o Brasil do futuro? Giannetti – Espera-se que eles pensem no País, não apenas em seus interesses empresariais. Eu acho que os empresários têm razão, por exemplo, aliás, esse é um interesse do Brasil, em impedir que venham novas rodadas de alta tributária. Mas os empresários devem fazer isso de uma maneira unida, cooperativa. E para todos, não protegendo apenas o seu setor. É preciso haver um entendimento de que o interesse do País é bem maior que o interesse de um grupo ou de outros. Financeiro – Diante da crise, os governantes parecem que arrumaram um pretexto para negligenciar algumas questões. A tragédia de Mariana, por exemplo, parece esquecida. Giannetti – Diante de situações muito graves, em qualquer país de mundo, algumas questões acabam ficando em segundo plano. Não é diferente no Brasil. Nós estamos com 12 milhões de desempregados, uma recessão brutal, o dia a dia das pessoas está muito comprometido, existe uma enorme insegurança em relação ao futuro. Infelizmente, em um momento como esse, questões da maior relevância acabam ficando em segundo plano. Mas é preciso prestar atenção porque não é justificável que isso aconteça. São coisas da vida. Quando se está com um problema muito grave de saúde, você não dá a mesma atenção para outros aspectos também importantes da sua vida. Financeiro – O senhor acredita que essas questões secundárias também não receberão a merecida atenção nos debates das próximas eleições? Giannetti – Vai depender muito da evolução do quadro até lá. Um país com um patrimônio ambiental como o do Brasil não pode se dar ao luxo de ser omisso em relação a essas questões. f setembro 2016 financeiro 17


memória

O legado de

Sérgio Darcy Com o falecimento do ex-diretor de Normas e Organização do Sistema Financeiro do BC, o mercado destaca sua enorme contribuição ao desenvolvimento do setor. Como consultor da ACREFI, o economista acrescentava, ao mesmo tempo, comedimento e assertividade aos seminários e às reuniões internas

N

o dia 12 de agosto, o mercado financeiro perdeu uma das suas principais referências em conhecimento e exemplo de correção e competência. O falecimento de Sérgio Darcy, aos 71 anos de idade, levou o setor a resgatar sua enorme contribuição durante seus 40 anos de trabalho dedicados ao Banco Central, em que ingressou, em 1966, na área de mercado de capitais, aos 21 anos, recém-saído da Faculdade Nacional de Ciências Econômicas do Rio de Janeiro, no primeiro concurso público promovido pelo BC. Ao aposentar-se, em 2006, já como diretor de Normas e Organização do Sistema Financeiro, ele reunia entre seus inúmeros esforços a liderança em diversos projetos voltados ao microcrédito e aos processos de regulamentação do arrendamento mercantil (leasing) e consórcios. Ao deixar suas funções públicas, Darcy passou a atuar como consultor e a transmitir segurança e credibilidade, por meio de pareceres lúcidos e equilibrados. Seu talento também trouxe mais brilho à ACREFI, em que atou como consultor das áreas de Compliance e de PLD-FT. Também foi membro do

18 financeiro setembro 2016

Conselho de Autorregulação da BSM e do Comitê de Auditoria da BM&FBovespa e do Itaú Unibanco. Em vida, seu legado foi reconhecido pela revista Financeiro, em julho de 2011, quando concedeu a entrevista de capa da publicação, e, em setembro de 2014, ao ser destaque na seção Executivo. “O Sérgio Darcy, com seu estilo objetivo e direto, tornava assuntos, relativamente, complexos em informações claras e fatíveis”, destaca Hilgo Gonçalves, presidente da ACREFI. “Sempre disposto e pronto a colaborar, o Darcy acrescentava, ao mesmo tempo, comedimento e assertividade aos nossos seminários e às nossas reuniões internas, lembra Pancho, Antonio Augusto de Almeida Leite, diretor superintendente da ACREFI. Como diretor do BC, Darcy conviveu serenamente com presidentes de estilos bem diferentes: Gustavo Franco, Chico Lopes, Armínio Fraga e Henrique Meirelles. Com a mesma tranquilidade, enfrentou vários períodos de turbulência da economia e conviveu com diversos planos econômicos, que muitas vezes o obrigavam a passar noites em claro. Aos que perguntavam como lidava com esses momentos de estresse, ele dizia apenas: “Faço o que gosto. Nunca senti o trabalho como um fardo”. “A ACREFI reconhece e agradece os relevantes serviços prestados por Sérgio Darcy às causas defendidas pela nossa entidade”, destaca Hilgo Gonçalves. f


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créditoecobrança

Há luz

no fim do túnel Convidados de seminário promovido pela ACREFI, em São Paulo, consideram as medidas econômicas do governo acertadas e preveem ligeira recuperação dos resultados

O

Brasil ainda está longe de voltar a navegar por águas mais tranquilas, mas o mar, aparentemente, se mostra um pouco menos revolto. Nada, porém, que permita ao comandante sair por alguns instantes da cabine de controle. Essa imagem tenta reproduzir a percepção dos palestrantes que participaram, dia 7 de junho, do Seminário ACREFI Crédito e Cobrança em Debate, no Renaissance São Paulo Hotel. Os convidados foram Adriano Maciel Pedroti, diretor de Crédito e Cobrança Pessoa Física do Itaú Unibanco; Patrícia Hilgo Gonçalves: Peck, especialista em presidente da ACREFI Direito Digital e sócia

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do escritório Patrícia Peck Pinheiro Advogados; e Carlos Thadeu de Freitas Gomes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e ex-diretor do Banco Central. A mediação do encontro ficou por conta da jornalista Christiane Pelajo. O evento foi realizado com apoio dos patrocinadores Cetip, CNseg e Credilink. Antes das apresentações, Hilgo Gonçalves, presidente da ACREFI, saudou os palestrantes e o público, além de deixar registrada a sua mensagem positiva: “Estamos percebendo uma leve retomada da confiança. As coisas, felizmente, estão melhorando. Alguns índices da economia revelam que a situação aponta para uma ligeira recuperação. É preciso estimular o contato com os nossos clientes e nos prepararmos para o novo momento”, recomendou Hilgo. Na mesma linha do raciocínio do presidente da ACREFI, Adriano Pedroti, do Itaú Unibanco, iniciou sua palestra dizendo que devemos usar esse momento de crise para refletirmos e nos


Fotos: Luciano Piva

organizarmos para os próximos passos. O cenário econômico, de acordo com a visão oficial do Itaú Unibanco, prevê para este ano um crescimento negativo do PIB de 3,5% e de 1% positivo em 2017. A inflação deve fechar 2016 em 7,2%, com projeção de 5% para o ano que vem. Já para a taxa Selic, ao fim deste ano, a perspectiva é de 12,75%, e de 10% em 2017. No entanto, o desemprego, que reage com certa defasagem em relação à atividade econômica, deve Adriano Maciel continuar em alta Pedroti: diretor de por mais tempo. Crédito e Cobrança Segundo a projePessoa Física do Itaú ção do Itaú UniUnibanco

banco, o desemprego atinge a marca de 12,5%, no fim deste ano, e de 13,0%, em dezembro de 2017. “O desemprego afeta diretamente o chassi da nossa capacidade de pagamento. As pessoas estão consumindo de maneira consciente, comprando produtos mais baratos e evitando gastos extras. Mesmo assim, o porcentual de famílias em atraso com os pagamentos das mensalidades dos financiamentos ainda é crescente, tanto entre as pessoas físicas de alta quanto de baixa renda. Aquelas que têm poupança estão usando o dinheiro para pagar as despesas do dia a dia”, explicou Pedroti. “Crédito é confiança. Isso significa confiança para produzir e também para consumir.” Diante desse quadro, como fazer para realizar a cobrança? Em veículos, a retomada do bem vem crescendo e se mostra importante ferramenta para recebimento e redução de perdas. No entanto, a devolução amigável tem diminuído, em contraposição ao aumento das cobranças judiciais. O Itaú Unibanco também tem analisado setembro 2016 financeiro 21


créditoecobrança o perfil do relacionamento do cliente inadimplente com o banco. “Se ele usa os canais digitais, por exemplo, a cobrança será feita, preferencialmente, por SMS e e-mail. Cada caso é um caso, simplesmente ligar e boletar não resolve mais. É preciso ajudar os escritórios de cobrança a encontrar a estratégia certa para abordar o cliente. Além disso, o comissionamento dos escritórios passou a ser amarrado, de acordo com o sucesso permanente da negociação, contou Pedroti. “O cenário atual é desafiador. O crédito é fundamental para o crescimento do País, mas ele deve ser administrado com bastante segurança e controle”, finalizou o diretor de Crédito e Cobrança Pessoa Física do Itaú Unibanco. Por trás da segurança que envolve a oferta de crédito, a advogada Patrícia Peck: Patrícia Peck diz que especialista em Direito nada impede que os ban- Digital e sócia do cos avaliem se as infor- escritório Patrícia Peck Pinheiro Advogados mações cadastrais dos clientes são compatíveis com o seu perfil nas mídias sociais. “Esse cuidado faz parte da rotina na Receita Federal. É a chamada malha fina digital”, ensinou Patrícia. O Fisco está observando atentamente as postagens dos contribuintes nas páginas Facebook, Instagram, Youtube, além de outras redes. “Com a globalização, a internet se tornou uma aliada dos auditores da Receita Federal, assim como pode ser também uma importante ferramenta para os bancos e para as empresas de crédito. “A transparência da informação pode favorecer a queda dos juros. Em alguns casos, as pessoas podem ser encontradas com mais facilidade no seu endereço digital do que no fixo”, lembrou a especialista em Direito Digital. No entanto, diante de tantos avanços, a grande maioria das empresas ainda trata a área digital como uma espécie de “puxadinho” da documentação em papel. “Contratos, notificações, por exemplo, podem ser perfeitamente confirmados por e-mail ou por WhatsApp, basta que isso es22 financeiro setembro 2016

teja previsto no acordo de relacionamento do cliente com a instituição financeira”, sugeriu Patrícia. “Muitas vezes, as pessoas vão às agências apenas para assinar o documento, mas a negociação e a transação foram feitas antes por meio digital. Precisamos quebrar o paradigma do papel, não tem cabimento alguém imprimir uma nota fiscal eletrônica para bater um carimbo e arquivar. Isso é uma espécie de esquizofrenia”, comparou a advogada. “A internet traz resultados mais seguros e baratos. É um caminho sem volta”, finalizou Patrícia Peck. Ao analisar as perspectivas econômicas do País para os próximos meses, Carlos Thadeu de Freitas Gomes, e co n o m i s t a - c h e f e da CNC, disse que a governança do Brasil está melhorando e lá fora ainda dispomos de boa confiança. Isso porque os indicadores externos se mostram positivos, a não ser o nosso rating. “Mas, com a liquidez internacional abrangente, talvez o Brasil possa se dar ao luxo de não ficar muito preocupado com o rating, como estava no ano passado”, tranquilizou o economista. Porém, a nossa preocupação deve ser direcionada à situação interna, com o desequilíbrio das contas públicas. Isso não será resolvido rapidamente, mas também não vai quebrar o País. Isso porque o Brasil não está quebrado em dólares, como aconteceu na década de 80. Portanto, não existe o risco de não pagarmos os nossos compromissos internacionais”, garantiu Thadeu de Freitas. Sobre o esforço do governo em reequilibrar as contas públicas, o economista considera que a proposta de indexar as despesas ao IPCA do ano anterior é muito boa porque os gastos primários vão cair gradualmente. “Não vamos ter rapidamente um saldo primário, isso só deve acontecer lá para 2023, mas, anualmente, os


gastos serão menores. Antes, essas despesas estavam crescendo 6% ao ano. Resta apenas o Congresso aprovar essa importante medida”, lembrou o economista da CNC. A antiga política do governo Dilma Rousseff, que buscava um saldo primário a qualquer custo, levou o País a uma recessão bastante profunda. Isso contingenciou uma série de verbas públicas, cortes de investimentos, na expectativa de atingirmos um saldo primário. Segundo Thadeu de Freitas, essa prática vinha desde 2003/2004, quando o Brasil obtinha saldo primário favorecido pela performance positiva das commodities no mercado internacional. “Se o governo tivesse sido mais precavido, não teríamos herdado um passivo fiscal tão ruim, como o que temos hoje”, explicou ele. Esse quadro já mudou. A política fiscal do governo agora é muito mais pé no chão, cientes de que temos um défice de R$ 170 bilhões. Isso permitiu liberar verbas que estavam paradas porque não existe resto a pagar. “No ano que vem, devido à indexação do orçamento aos 7% de inflação em 2016, vamos ter ainda uma política fiscal expansionista. O que é bom para a atividade econômica. No futuro, com o corte nos gastos públicos, teremos uma dívida real sustentável. Primeiro porque o BIP vai recuperar-se um pouco, aumentando a arrecadação. Lá na frente, teremos um risco Brasil menor, resultando também em juros menores. É por isso que é fundamental que as novas medidas econômicas sejam aprovadas pelo Congresso.” De acordo com Thadeu de Freitas, a nova postura do governo diante da sua política monetária talvez seja mais importante que a sua política fiscal. Uma alteração que deve ser considerada positiva é a mudança adotada na comunicação do Banco Central, com explicações mais claras e diretas. “Se a nossa política monetária tiver

credibilidade, os juros caem naturalmente. Essa credibilidade, porém, pode ser inibida por algumas indecisões políticas, como o êxito das PECs relacionadas aos ajustes econômicos. Afinal, o Brasil é uma caixinha de surpresas”, ponderou o economista da CNC. Outro acerto da diretoria do BC, segundo Thadeu de Freitas, são as operações de swap reverso para evitar uma queda muito forte do dólar. A proposta é sustentar o valor do dólar, sem dar margem, Carlos Thadeu de no entanto, à euforia Freitas Gomes: economista-chefe da dos mercados. Ele Confederação Nacional sinalizou que mais do Comércio de Bens, uma medida positiva Serviços e Turismo seria evitar as manifestações do Presidente da República a respeito da taxa de juros. Aliás, lembrou que se a diretoria do BC tivesse mandato, independentemente da vontade dos políticos teríamos queda no prêmio da taxa de risco e maiores benefícios na economia real. Em suas conclusões, o especialista acredita que, no curto prazo, a economia nacional vai sair da crise lentamente. Os últimos indicadores de confiança dos empresários do comércio, medidos pela CNC, revelam dados melhores em relação aos levantamentos anteriores. O índice de consumo das famílias também está estável. São informações que, de acordo com Thadeu de Freitas, são um bom sintoma. “A situação ainda é desfavorável e requer diversos cuidados, mas a expectativa está bem melhor. Assim que as taxas de juros começarem a cair, os financiamentos vão melhorar substancialmente, porque uma curva de juros está precificada. Isso vai acontecer quando tivermos um ambiente fiscal menos volátil. Outro ponto importante é que o Brasil está adotando uma política de coordenação macroeconômica, com uma política realista e propostas mais consistentes, concluiu Carlos Thadeu de Freitas. f setembro 2016 financeiro 23


regional

Atentos às projeções

positivas

Embora a atmosfera seja de confiança, o road show promovido pela ACREFI, em Florianópolis, mostra, entre outras coisas, que o mercado aguarda com ansiedade os desdobramentos econômicos e políticos dos próximos meses

A

programação de eventos ACREFI cada vez mais amplia a sua presença fora do eixo Rio-São Paulo. No dia 24 de agosto, o road show promovido regulamente pela entidade desembarcou em Florianópolis (SC) para debater com os empresários da região os desdobramentos do cenário econômico brasileiro nos próximos meses. Além da presença de Hilgo Gonçalves, presidente da ACREFI, participaram do encontro, como palestrantes, no Hotel Sofitel Florianópolis: Marcus Lavorato, gerente de Relações Institucionais e Inteligência de Mercado da Cetip; Marcelo Pereira, gerente de Negócios da CIP (Câmara Interbancária de Pagamentos); Fabio Mentone, diretor do FGC (Fundo Garanti-

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dor de Crédito); Mauro Melo, CEO da Credilink; e Gustavo Loyola, economista e sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada. Em sua saudação inicial, Hilgo Gonçalves, presidente da ACREFI, reforçou sua crença sobre a importância do setor de crédito estar envolto em uma atmosfera cada vez mais sustentável e estável. Também apresentou aos empresários catarinenses os principais pilares da sua gestão, como consumo sustentável, a difusão dos conceitos da educação financeira, a atenção às preocupações dos associados, a transparência das ações e a responsabilidade social. “Sou um homem do diálogo, portanto estarei sempre pronto para ouvir e trocar ideias com vocês”, disse Hilgo.


Marcus Lavorato – Cetip Ao iniciar sua palestra, Marcus Lavorato, gerente de Relações Institucionais e Inteligência de Mercado na Cetip, apresentou alguns dados fundamentais que envolvem o mercado de crédito, como a performance, nos últimos seis anos, da taxa Selic em paralelo com os juros praticados na aquisição de veículos; o saldo decrescente da carteira de crédito para veículos, durante o mesmo período; e também os dados declinantes do prazo médio das concessões. São informações que ajudam a entender o crescimento da inadimplência entre os consumidores que contrataram crédito para compra de veículos. Essa inadimplência, porém, cresceu mais rápido no segmento de pessoas jurídicas, atingindo 5,6% em junho deste ano, de acordo com levantamento do Banco Central. Outras comparações apresentadas por Lavorato mostram que as vendas a crédito de veículos leves apresentam tendência de queda, enquanto a taxa de desemprego atinge o maior patamar dos últimos anos. Sobre o financiamento versus as vendas de veículos leves, a tendência dá sinais de estabilização, embora ainda se mantenha em patamar negativo. Ao olhar para o mercado catarinense, a queda mais intensa foi no financiamento de veículos novos. Em Santa Catarina, já temos quase três carros usados para um novo financiado. Antes de concluir, o responsável pela área de Relações Institucionais e Inteligência de Mercado da Cetip mostrou que, entre janeiro de 2011 e janeiro de 2016, a região sul do País apresentou desempenho semelhante ao da média nacional nas vendas Marcus Lavorato: gerente de Relações Institucionais e Inteligência de Mercado da Cetip

financiadas de veículos leves novos. Em Santa Catarina, no entanto, a participação dos financiamentos ficou acima da média Brasil, fechando julho de 2016 com o índice de 60%.

Marcelo Pereira – Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP)

Marcelo Pereira: gerente de Negócios da CIP

Em sua exposição no road show da ACREFI, Marcelo Pereira, gerente da Câmara Interbancária de Pagamentos, falou sobre o projeto da Nova Plataforma de Cobrança que está sendo desenvolvido pelo mercado financeiro e que prevê a centralização eletrônica dos boletos de cobrança bancária. De acordo com Pereira, o projeto será implementado no início de 2017 e possibilitará às instituições participantes da Nova Plataforma de Cobrança a consulta previa e eletrônica dos dados do boleto antes da liquidação dos mesmos, mitigando assim eventuais adulterações no documento impresso e proporcionando mais segurança e agilidade ao mercado financeiro.

Fabio Mentone – Fundo Garantidor de Crédito (FGC) Fabio Mentone, diretor do Fundo Garantidor de Crédito, por sua vez, utilizou o seu tempo no evento promovido pela ACREFI em Florianópolis, para fazer uma apresentação pormenorizada sobre o FGC. Começou lembrando que um dos fatores determinantes para a criação da instituição, em 1995, foi a grande crise que abateu na época o sistema financeiro nacional. Sua atribuição inicial era o pagamento dos depósitos classificados como garantidos, em caso de intervenção ou de liquidação da instituição financeira associada. Atualmente, seu engajamento é mais amplo, contribuindo ainda mais com a estabilidade do sissetembro 2016 financeiro 25


regional tema financeiro. Entre os diversos tipos de créditos garantidos pela instituição estão os depósitos à vista ou sacáveis mediante aviso prévio; os depósitos de poupança; os depósitos a prazo; as letras de câmbio, imobiliárias, hipotecárias, de crédito imobiliário, de crédito do agronegócio, além de operações compromissadas que têm Fabio Mentone: como objeto títulos emidiretor do Fundo tidos por empresa ligada Garantidor de após 8 de março de 2012. Crédito O diretor do FGC explicou também que para efeito da determinação do valor garantido dos créditos de cada pessoa, devem ser observados alguns critérios. Por exemplo, o titular do crédito é aquele em cujo nome o crédito estiver registrado na escrituração da instituição associada ou aquele designado em título por ela emitido ou aceito. De acordo com Mentone, outra segurança prevista pelo FGC, que merece destaque, é que devem ser somados os créditos de cada credor identificado pelo respectivo número de registro no CPF ou no CNPJ contra todas as instituições associadas de um mesmo conglomerado financeiro.

Mauro Melo – Credilink No segmento de serviços e de ferramentas para proteção das empresas que oferecem crédito, Mauro Melo, CEO da Credilink, começou sua explanação no road show da ACREFI apresentando números que revelam o crescimento da emissão de cheques sem fundo. Em Mauro Melo: 2015, por exemplo, esse CEO da Credilink aumento atingiu 34,98% e até de julho deste ano já alcançou 18,90%. Além disso, informou que a cada 15 minutos no Brasil um CPF é envolvido em alguma ação de fraude. Para coibir essas operações,

26 financeiro setembro 2016

que trazem prejuízo às empresas de crédito, Melo mostrou os benefícios de ferramentas on-line que permitem checar informações contidas no banco de dados da Credilink, atualizadas e enriquecidas diariamente. Entre os diferenciais oferecidos a seus clientes, Melo destaca o Banco de Óbitos, que tem abrangência nacional e atualização quinzenal.

Gustavo Loyola: sócio-diretor da Tendências Consultoria

Gustavo Loyola – Tendências Consultoria Integrada Depois de tantas informações pertinentes ao mercado de crédito, coube ao economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e atual sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, analisar a conjuntura econômica do País. Sobre a retração do PIB, Loyola diz que isso está acontecendo em consequência de uma série de decisões equivocadas na política econômica adotadas nos últimos anos. Essas medidas também abalaram a confiança dos consumidores e dos empresários. Esse acúmulo de erros, porém, só começou a ser corrigido, parcialmente, a partir da posse de Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda, com a aprovação pelo Congresso da nova meta fiscal, que confere ao governo autorização para fechar o ano com um défice de R$ 170 bilhões, e com a adoção de medidas para conter os gastos públicos. No entanto, ações adicionais são fundamentais para reverter a situação crítica de forma mais rápida, como o encaminhamento da reforma da previdência. Com o limite dos gastos públicos baseado na inflação do ano anterior, o défice primário deve voltar a um patamar positivo somente em 2023. Em suas conclusões, Loyola apontou ainda que há evidências claras de mudança na trajetória da confiança e de alguns segmentos da economia, o que reforça a expectativa de crescimento já a partir do último trimestre deste ano, ganhando robustez em 2017. f


pesquisa

Da esq. para a dir.: Nicola Tingas, consultor econômico da ACREFI; Hilgo Gonçalves, presidente da ACREFI; e Rafael Munhoz, diretor de atendimento da TNS

Sinais de esperança A 6a edição da pesquisa trimestral ACREFI/TNS sobre as expectativas da população em relação à situação econômica do País revela que a sensação de pessimismo caiu de 12% para 6%

RU - 100%

Pensando na situação do Brasil em 2016como avalia ...

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Sentimento em relação ao futuro

2014

28 financeiro setembro 2016

Abril 2015

Julho Outubro Março Junho 2015 2015 2016 2016

A

inda estamos longe de trafegar novamente por águas tranquilas, mas começamos a navegar por ondas bem menos revoltas. Para 25% dos brasileiros, por exemplo, a economia aparentemente encontrou a direção correta. Essa é uma das percepções captadas pela 6ª edição da pesquisa trimestral ACREFI/TNS sobre as expectativas da população em relação à situação econômica do País e seu impacto direto nas decisões pessoais dos contribuintes. Realizado com a participação de mil entrevistados, em todas as regiões do Brasil entre os dias 27 de junho e 5 de julho, o estudo revelou também que a sensação de pessimismo caiu de 12% para 6%, em comparação ao levantamento divulgado no segundo trimestre deste ano. Entre aqueles que se julgam otimistas com o futuro, a pesquisa apontou um ligeiro crescimento de 16% para 18%. A atmosfera favorável também foi percebida quando os entrevistados foram questionados a respeito das recentes medidas econômicas propostas pela equipe do governo Michel Temer. De acordo com a 6º onda do estudo ACREFI/TNS, a parcela entre os que consideram erradas as decisões do governo recuou para 20% em comparação aos 32% do trimestre anterior, enquanto os que avaliam que o País está na direção econômica acertada subiu de 22% para 25%. Assim como de-


Metodologia Campo on-line 1000 entrevistas 1ª onda: outubro de 2014 2ª onda: 24 de março a 2 de abril de 2015 3ª onda: 2 de julho a 13 de julho de 2015 4ª onda: 5 de outubro a 14 de outubro de 2015 5ª onda: 18 a 22 de março de 2016 6ª Onda: 27 de Junho a 05 de Julho de 2016 Todas as regiões do Brasil Realização do campo: Lightspeed Research

Sexo 52% mulheres 48% homens Idades Entre 18 e 65 anos

Pensando em 2016, como imagina sua situação?

(28%). De acordo com Hilgo Gonçalves, presidente da ACREFI, chama a atenção a maneira como o consumidor está avaliando esse novo momento econômico com relação à tomada de crédito. “O consumidor está muito mais disposto a economizar e a ajustar suas finanças. Acredito que estamos iniciando um momento de mais consciência do brasileiro em relação ao crédito, um reflexo natural aos desafios recentes impostos pela economia”, afirmou Gonçalves. A pesquisa mostrou também que existe uma tendência positiva para tomada de crédito entre Como você avalia a situação do Brasil hoje? Crescimento significativo frente ao período anterior Queda significativa frente ao período anterior

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clinou também, de 75% para 47%, a porcentagem de brasileiros que acreditam que o cenário da economia vai piorar nos próximos meses. A mesma percepção foi identificada quando o assunto é a taxa de juros, com recuou de 75% para 68%. “Percebemos na pesquisa que aquele momento de incerteza gritante abriu espaço para um cenário de expectativa melhor. Isso pode ser comprovado pelos recentes índices de confiança”, observou Nicola Tingas, consultor econômico da ACREFI, na entrevista coletiva on-line, organizada no dia 4 de agosto (www.acrefi. org.br/tvacrefi/videoteca.asp?Id=338), ao lado de Hilgo Gonçalves, presidente da ACREFI, e de Rafael Munhoz, diretor de atendimento da TNS. Em relação à oferta de crédito, o índice dos que esperam piora na disponibilidade caiu de 62% no primeiro trimestre deste ano para 57% no segundo trimestre. Quanto ao crescimento econômico do País, o estudo mostrou ainda que o segmento dos que apostam em uma piora caiu de 64% para 47%. Ao serem indagados a respeito da taxa de juros, a possibilidade de piora recuou de 75% para 68%. Além disso, os consumidores se mostram mais conscientes ao tomar crédito, favorecendo principalmente o empréstimo consignado (37%), seguido do CDC (30%), do imobiliário (29%) e do automotivo

Abril 2014 2015

Julho Outubro Março Junho 2015 2015 2016 2016

Propensão a financiamento

setembro 2016 financeiro 29


pesquisa Qual ou quais desses itens você financiaria ou utilizaria?

aquelas pessoas que se encaixam na chamada classe alta (A/B), em que esse índice subiu de 18% para 27%. Na classe média, essa porcentagem avançou de 16% para 20%. Já entre os consumidores de menor poder aquisitivo, a fatia dos que podem tomar empréstimos caiu de 15% para 13%. Quando o tema é inflação, 93% dos entrevistados afirmam que a alta dos preços impacta o seu consumo e 89% afirmam que isso refletiu na decisão para tomada de novos empréstimos. Já na percepção dos entrevistados, a redução de juros deve ser a prioridade para o governo federal, que aumentou de 7% em março para 11% em junho. “A sociedade começa a criar a prioridade. Isso está muito claro por que a inflação afeta diretamente o poder aquisitivo do cidadão”, ponderou Nicola Tingas.

Nesse contexto que discutimos, você se sente propenso a fazer um financiamento em 2016?

RU - 100%

Você está seguro quanto a manter seu emprego nos próximos meses?

Você tem dívidas?

RM

30 financeiro setembro 2016


A DIFERENÇA ENTRE VOCÊ E QUEM NÃO LEU ESTE ANÚNCIO É SIMPLES: VOCÊ JÁ SAIU NO LUCRO. Poupa Brasil é a melhor opção para a pessoa física investir seu dinheiro 100% on-line, com a mesma garantia da poupança e um rendimento muito superior. Acesse agora poupabrasil.com.br e descubra como sua rentabilidade pode ser ainda maior com os nossos investimentos.


pesquisa Você está disposto a tomar mais crédito?

Considerações finais

Prioridades As principais prioridades mencionadas para a Presidência da República em 2016 foram: combate à inflação; redução da taxa de juros, que apresentaram crescimento significativo frente ao período anterior; reforma política, a principal prioridade mencionada na 5ª edição da pesquisa, apresentou decréscimo em relação a março de 2016.

RM

Acredita que a situação econômica do Brasil vai melhorar significativamente a partir de: Crescimento significativo frente ao período anterior Queda significativa frente ao período anterior

RU - 100%

O que é importante para uma melhora de sua situação financeira atual?

.

Situação pessoal No segundo semestre de 2016, os entrevistados seguirão economizando (87%) e citaram que o importante agora é recuperar a estabilidade financeira (18%) e conquistar um novo emprego, já que 47% dos entrevistados estão desempregados — aumento significativo em comparação ao número registrado em março de 2016 (34%). A classe mais alta (A/B) está mais propensa a realizar financiamentos em 2016. Destaque também para o crescimento no número de entrevistados que têm interesse em contratar CDC. No entanto, a propensão a financiamento imobiliário e de eletrodomésticos apresentam decréscimo no período, assim como a intenção em obter crédito imobiliário. 69% dos entrevistados estão endividados, o maior índice desse endividamento está relacionado com cartão de crédito (70%). Alimentação e saúde são os itens de consumo mais afetados pela crise.

. . . . . .

Sentimento em relação ao futuro Para 70% dos entrevistados o sentimento em relação ao futuro é de preocupação. 82% dos entrevistados avaliaram a situação atual do Brasil como ruim ou péssima, índice estável em relação à última medição em março de 2016. f 32 financeiro setembro 2016


artigo* Fausto Ferraz

Mudança na plataforma de cobrança

requer planejamento

C

om o apoio dos grandes bancos e na busca por maior segurança, uma relevante mudança na plataforma de cobrança bancária (boletos de pagamento) está sendo concluída, sedimentada desde junho de 2015, com a extinção da oferta do produto cobrança sem registro, válida para os novos contratos. Em dezembro de 2016, a nova plataforma estará totalmente finalizada e os participantes emissores de cobrança que ainda operarem na modalidade sem registro deverão adaptar-se ao novo contexto e passar a registrar todos os seus boletos de pagamento a partir de janeiro de 2017.

Enviado em 8/6/2016

Tal mudança tem como objetivo principal combater a avalanche de fraudes em boletos, que se tornou comum no mercado brasileiro e que vem causando enormes prejuízos à rede bancária e aos participantes em geral. Hoje, segundo dados de mercado, cerca de 40% dos boletos emitidos no País não são registrados, o que corresponde a quase 1,5 bilhão de títulos e representa um “mar de oportunidades” aos fraudadores. As principais alterações referem-se ao cadastro de todos os beneficiários e ao registro compulsório dos boletos de pagamento, com o intuito de mitigar o risco de fraudes e garantir maior transparência ao sistema. Nesse âmbito, os bancos passarão a enviar obrigatoriamente, por uma câmara de pagamentos, a identificação de todos os beneficiários e de seus convênios. E esta, por sua vez, ficará responsável pela centralização e disponibilização dessa base de títulos às instituições. Isso possibilitará a validação interbancária no momento da liquidação. Além dos aspectos óbvios de segurança, isso também favorecerá o pagador, que poderá contar com a conveniência de pagar o seu boleto vencido em qualquer banco. A discussão em pauta entre os emissores de boletos está na questão do maior custo da cobrança registrada que, segundo os bancos, está

associado aos serviços adicionais inerentes a essa prática, como conciliação contábil e eventual envio de títulos para protesto. Sob outro ponto de vista, se forem considerados os prejuízos com fraudes e inconsistências, a cobrança registrada pode, sim, ser mais “barata” para os bancos e emissores de boletos.

Fausto Ferraz: diretor executivo da Controlbanc, consultoria de gestão e de negócios da Senior Solution.

O fato é que os grandes bancos e a câmara de pagamentos, durante os últimos anos, já se prepararam para o contexto transformacional da nova cobrança. Entretanto, parte significativa dos emissores de boletos de pagamento, em especial os grandes varejistas, ainda não adequou os seus processos internos e sistemas legados para a nova realidade. E esse alinhamento é essencial para atender ao prazo de dezembro de 2016. Dessa forma, abre-se a oportunidade para, em definitivo, viabilizar o esquecido DDA (débito direto autorizado), que, desde a sua criação, acabou não empolgando muito os pagadores quanto à sua utilização, contrariando as expectativas iniciais do mercado. Outro ponto importantíssimo, no âmbito da nova cobrança como vetor de mudanças, reside na alternativa enxergada por várias instituições financeiras, com grande volume de emissão de boletos e que não tinham acesso ao SPB (Sistema de Pagamentos Brasileiro), passarem a cogitar sua adesão através da requisição de uma conta de liquidação no Banco Central do Brasil. Essa não é uma decisão trivial, pois envolve investimentos em software e em infraestrutura, além de responsabilidades adicionais sujeitas a penalidades perante o regulador. É preciso realizar um estudo de viabilidade para auxiliá-las na decisão acerca da adesão ao SPB no médio prazo, comparando os investimentos necessários e as despesas decorrentes ao potencial aumento de custos repassados pelos bancos com a nova cobrança. f

*Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

setembro 2016 financeiro 33


artigo* Patricia Peck Pinheiro

Crédito e cobrança por canais digitais

Enviado em 29/8/2016

E

stamos vivendo em um cenário de total grande questão atual é o que posso fazer com os desmaterialização das relações sociais. O dados? Quais os limites técnicos e legais do uso papel deixa de ser o principal suporte para dos dados de clientes e não clientes? documentar as obrigações e responsabilidades Muitas instituições já fazem uso de algum entre as partes. A tendência reflete na mudança serviço de análise de dados para melhoria da de comportamento de clientes de diversos seg- oferta de crédito, inclusive com ferramentas mentos de mercado, inclusive o financeiro, que de crawler, que envolve a verificação de infordeixam as agências físicas para realizar suas mações sobre pessoas em milhares de sites na transações por meios digitais – entre eles, os internet e, mais recentemente, até em mídias Smartphones. De 2014 a 2015, as operações fei- sociais. tas por mobile banking aumentaram 138%, pasPor certo o que se busca com o crédito mais sando de R$ 4,7 bilhões para R$ 11,2 bilhões. digital é ter uma remodelagem do processo de Os dados de pesquisa recente da Federação aquisição de cartão, especialmente pela interBrasileira de Bancos (Febraban) destacam que net, bem como gerar maior agregação de infornos tempos atuais a grande preocupação não é mações que permitam analisar a propensão ao apenas prestar o serviço, mas sim a garantia que crédito e discriminar o risco, permitindo uma o ambiente digital esteja intimamente ligado ao melhor ordenação do público-alvo e das polítisistema bancário, assegurando a mesma con- cas a serem trabalhadas. fiança do meio físico. O cliente quer ter acesso Se o big data pode ajudar no CRM no moaos seus dados de um aplicativo mento da contratação, por certo móvel sem notar diferença nem é preciso também tornar mais se preocupar com a segurança da digital a operação da cobraninformação. ça, pois se o canal de oferta foi Os maiores avanços ocorridos mais eletrônico, se a identidano tocante à circulação de riquede do cliente está sendo muito za na sociedade devem-se ao inmais o seu número de celular e vestimento maciço do mercado no o seu endereço de e-mail do que desenvolvimento de novas ferrao seu próprio CPF, no momento mentas para permitir acesso aos em que há uma inadimplência, serviços bancários, maior oferta também se faz necessário rever de crédito, aumento da velocidade os procedimentos para permitir do fluxo de dinheiro, bem como de uma cobrança mais digital. sua rastreabilidade. Há muitas quebras de paPatricia Peck Pinheiro: Neste sentido, as áreas de radigma a serem enfrentadas, advogada especialista crédito e de cobrança são as que pois a área de cobrança tem ainem Direito Digital, mais podem tomar proveito dos da uma cultura muito baseada sócia do escritório avanços tecnológicos para transno papel e nos usos e costumes Patricia Peck Pinheiro formar completamente a forma de uma procura para localização Advogados. como se realizam os negócios. A física e presencial do cliente,

*Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

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artigo* Patricia

cias estão no papel, em um único lugar, em uma contratação digital, há quatro evidências essenPeck Pinheiro ciais, em que uma delas está em um servidor de dados (texto do contrato lido na tela) e as outras mesmo quando todo o contato com ele ocorreu três estão em servidores de logs (log de autenticação que determina a autoria, log de tempo que por canal digital. Ou seja, no final do fluxo, acaba-se enviando determina quando foi assinado e log de geolocauma correspondência impressa com AR para se lização que determina onde foi assinado). Portanto, na hora de se apresentar a prova fazer o aviso de inadimplência e iniciar a mora, o que, em princípio, seria contraditório, uma vez para o judiciário se faz necessária a reunião que a oferta do crédito foi feita por canal digi- de todas elas, dentro de uma cadeia de custótal, os avisos entre as partes poderiam já estar dia que garanta a preservação da integridade. previstos contratualmente para também ocorrer Logo, precisamos melhorar muito ainda nossa pelo principal endereço digital informado (e-mail metodologia e nossos procedimentos de coleta, guarda e apresentação de provas eletrônicas e celular, o que pode incluir WhatsApp). Mas, se por um lado é mais fácil equacionar a para fins judiciais. Porém, se por um lado o céu é o limite em questão da análise de informações públicas dispersas na internet para favorecer o crédito digi- termos de revolução digital, por outro o contal, por outro lado, no tocante à cobrança digital trapeso da balança é a ética e a lei, a chamada tem-se que ter muito cuidado no envio dos avisos compliance. O controle do risco passa por conformidade legal e pela para não ferir os artigos 41 aplicação de melhores e 72 do Código de Defesa “Precisamos melhorar práticas desenvolvidas do Consumidor. muito a nossa para prevenir um colapso Por certo há vários asmetodologia e os sistêmico. pectos a serem observados Logo, considerando o para permitir não apenas nossos procedimentos alcance de um equilíbrio que o crédito fique mais de coleta, guarda e no tocante às leis no Bradigital, mas a cobrança o apresentação de provas sil, já evoluímos muito acompanhe nessa evolueletrônicas para fins para conseguir permitir ção, entre eles o aspecto negócios cada vez mais jurídico tem grande impacjudiciais” digitais. Cabe agora às to. Além disso, os aspectos instituições fazerem seu técnicos envolvendo segurança da informação para garantir autenticidade, dever de casa, para revisitar antigos procediintegridade e disponibilidade da operação e de mentos e atualizar suas rotinas de modo a ficarem mais competitivas. E nisso, a agilidade sua documentação eletrônica correlata. No sentido da melhoria da segurança na tran- das fintechs, com seus processos enxutos e sua sação de títulos digitais tem se visto o aumento da cultura voltada à inovação, tem sido um dos diaplicação do blockchain – tecnologia na qual se ba- ferenciais a favor de crescimento. Seja pela diminuição do uso do papel-moeda, seia a moeda virtual bitcoin. Segundo o novo relatório do Fórum Econômico Mundial, o blockchain vai do cheque ou mesmo do cartão, a cultura digiocupar um lugar central no sistema financeiro tal veio para ficar. Será o cliente a escolher com global nos próximos anos por oferecer um novo quem quer fazer negócios, por certo, cada vez meio de movimentar dinheiro e rastrear transa- mais mobile, com atendimento simples, facilitações de modo mais seguro, transparente e eficaz do, imediato, que atenda às novas necessidades do que o sistema atual. Ao contrário dos livros de rapidez sem burocracia. Qualquer posição extrema, seja na alavancacontábeis e dos bancos de dados usados por bancos e outras instituições, o blockchain é atualiza- gem do risco, seja na superproteção das posido e mantido não por uma única companhia ou ções, também traz prejuízo e provoca crise. Mas, por certo, crédito e cobrança têm tudo para ficar governo, mas por uma rede de usuários. Se em um contrato em papel todas as evidên- cada vez mais digitais. f

36 financeiro setembro 2016


Viva o Centro 25 anos

Foto: Fabio Mattos / Associação Viva o Centro

Apoie a requalificação do Centro de São Paulo. Associe-se à Viva o Centro. www.vivaocentro.org.br

Associação Viva o Centro

Rua da Quitanda, 80 - Térreo - Centro São Paulo - SP - CEP 01012-010 11 3556-8999 / avc@vivaocentro.org.br A Associação Viva o Centro é reconhecida como Entidade de Utilidade Pública pelos governos do Município de São Paulo, do Estado de São Paulo e Federal (DOU de 10/03/2000) e como Entidade Ambientalista, Entidade Promotora de Direitos Humanos e Instituição Cultural pelo Governo do Estado de São Paulo.


painel cetip Financiamentos de veículos somaram 382,6 mil unidades em julho

E

m julho, os financiamentos de veículos no Brasil somaram 382.585 unidades, queda de 18,1% em relação ao mesmo período de 2015. Desse total, entre autos leves, motos e pesados, foram financiados 144.410 veículos novos e 238.175 usados. No acumulado do ano, as vendas financiadas totalizam 2.641.240 veículos, recuo de 16,9% na comparação com o mesmo período de 2015. O levantamento é da Unidade de Financiamentos da Cetip, que opera o Sistema Nacional de Gravames (SNG), base integrada de informações que reúne o cadastro das restrições financeiras de veículos dados como garantia em operações de crédito em todo o Brasil. O SNG impede que o processo de financiamento de veículos seja suscetível a fraudes sistêmicas. Volume de financiamento de veículos (Jul/16)

Volume de financiamento de veículos por categoria Autos Leves

Motos

Pesados

Os usados seguem apresentando melhor desempenho em relação às unidades novas. Enquanto as vendas a crédito de veículos novos caíram 30%, em relação a julho de 2015, as de usados recuaram 8,6%. Considerando apenas os automóveis leves, foram financiados 90.465 autos leves novos, queda de 29,8% na comparação com o mesmo mês de 2015. Já as vendas a crédito de carros usados totalizaram 219.171 unidades, baixa de 8,3% na mesma base de comparação.

38 financeiro setembro 2016


Vendas a prazo de autos leves novos recuam 30% na comparação anual Na comparação mensal, os financiamentos de autos leves tiveram uma ligeira queda de 0,8%. Já os dados por dia útil em julho mostram um avanço de 3,9% nas vendas financiadas de autos leves (novos e usados), em relação ao mês anterior.

Modalidades de financiamento de veículos (Jul/16)

Entre as faixas etárias dos autos leves, a única que apresentou crescimento em julho, na comparação com o mesmo mês de 2015, foi a de 9 a 12 anos de uso, de 10,7%, enquanto os automóveis leves zero quilômetro recuaram 29,8% na mesma base de comparação. Financiamento por tempo de uso

O prazo médio de financiamento de autos leves novos e usados subiu de 40,5 meses para 40,8 em julho, em relação ao mesmo período de 2015. f Prazo médio de financiamento por tempo de uso

Entre as modalidades de financiamento, a participação do CDC nas vendas financiadas passou de 80,6% para 80,7%. A modalidade continua sendo a mais utilizada pelos consumidores. Em julho, foram vendidos a prazo 308.718 veículos por meio do CDC, recuo de 18% em relação ao mesmo período de 2015. setembro 2016 financeiro 39


supermáquinas

Fortão do ASFALTO

Foto: Divulgação

Com muito espaço e diversos itens de conforto, o novo Lexus RX 350 tem conquistado novos fãs do seu estilo robusto e perfil de poucos amigos

S

e você é o tipo de motorista que ainda olha com desconfiança os carros de luxo japoneses, o novo Lexus RX 350, marca premium da Toyota, pode levá-lo a rever seus conceitos. Com um design imponente e um pouco extravagante, esse fortão do asfalto tem conquistado novos fãs pelo conforto e pelo espaço em que carrega até cinco passageiros. Além do seu salão de baile interno, o RX 350 pode amolecer o seu coração em troca de alguns mimos. Seu ar-condicionado digital, por exemplo, oferece duas zonas diferentes de temperatura. Os bancos dianteiros são equipados com sistema de aquecimento e de regulagem eletrônica. Ao abrir o carro, os assentos automaticamente recuam para facilitar a sua entrada. A operação se repete ao desligar o motor. Além disso, o banco do motorista registra na memória três posições diferentes. No centro do console, uma tela de 12,3 polegadas

40 financeiro setembro 2016

exibe imagens de alta definição, que integra várias funções, como o sistema de navegação GPS, a TV digital e o sistema de áudio com Bluetooth, Do lado de fora, o gigante japonês intimida por trazer linhas bem marcadas e até certo ponto agressivas, compatíveis o seu estilo de poucos amigos. Suas rodas aro 19 veem em tom grafite. No quesito segurança, o RX 350 vem equipado com 10 airbags, oferece ainda controles de tração, assistente de subida e sensores de estacionamento. Não menos importante, seu propulsor, um V6 de 3,5 litros, embora não seja um dos mais potentes de sua geração, com 305 cavalos, já é mais forte do que o anterior que rendia 277 cavalos. Isso, junto da nova transmissão automática de oito marchas. Se ficou interessado nesse provocante lutador de sumô das ruas saiba que seu preço sugerido de entrada é de R$ R$ 337.350. Vai encarar? f


Foto: Maurício Nahas

Ponto de Criação

SONHAR Kaike, paciente do GRAACC, com Reynaldo Gianecchini

CERCA DE 70% DE CURA, 90% DE PACIENTES DO SUS E REFERÊNCIA NO TRATAMENTO DO CÂNCER INFANTIL COM A AJUDA DE MUITA GENTE, AMPLIAMOS O NOSSO HOSPITAL E AS CHANCES DE RECUPERAÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM CÂNCER. NOSSO ORGULHO É PODER MOSTRAR A CADA DOADOR QUE SUA CONTRIBUIÇÃO É INVESTIDA COM MUITA RESPONSABILIDADE PARA OFERECER AOS PACIENTES, COMO O KAIKE, UM TRATAMENTO DIGNO, HUMANO E COMPARADO AOS MELHORES DO MUNDO. JUNTE-SE A NÓS! SEJA UM DOADOR.

WWW.GRAACC.ORG.BR

1991

1998

2013


Um garoto

de 80 anos

Ao comemorar seu octogésimo aniversário, Ignácio de Loyola Brandão esbanja energia, recebe da ABL o Prêmio Machado de Assis, lança livro de crônicas, e ainda faz show musical com a filha Rita Gullo 42 financeiro setembro 2016

O

escritor Ignácio de Loyola Brandão é um atleta das palavras. Sua vitalidade se renova ao lançar novos títulos, a cada prêmio recebido, ao ser instigado a enfrentar futuros desafios, ao colocar o ponto final na sua crônica semanal ou simplesmente ao ser abordado por um leitor atrás de uma dedicatória. Não existem obstáculos diante da sua generosidade. Nada é mecânico. Suas frases fluem como se fossem direcionadas pelo vento. Ao completar 80 anos, dia 31 de julho, sua juventude ganhou uma dose extra de energia. Cercado por inúmeros fã, amigos e da família, participou de mais de uma sessão de lançamento, em


literatura Foto: Mário Bock

Prêmio Machado de Assis/ABL: Loyola recebe o diploma do acadêmico Eduardo Portella Foto: Guilherme Gonçalves/ABL

São Paulo, de seu novo livro “Se For Pra Chorar que Seja de Alegria”, uma coletânea de crônicas escritas nos últimos cinco anos, e ainda presenteou os leitores com uma audição de seu show musical “Solidão no Fundo da Agulha”, ao lado da filha, a cantora Rita Gullo. Ao ser perguntado sobre seu vigor intelectual e físico, responde com sua natural simplicidade: “Sou um jovem bem vivido”. O mesmo reconhecimento e admiração revelados pelos fãs, Loyola também coleciona entre seus colegas escritores. Esse prestígio foi manifestado, dia 20 de julho, quando os imortais da Academia Brasileira de Letras entregaram ao autor araraquarense o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. São 42 livros de contos, crônicas, literatura infantojuvenil e romances, traduzidos para mais de dez idiomas. A eleição de Loyola aconteceu depois de votação secreta a partir de uma lista tríplice definida pelos acadêmicos.

De acordo com a escritora Nélida Piñon, secretária-geral da ABL, o vencedor de um prêmio que leva o nome de Machado de Assis encarna o espírito criador dos escritores brasileiros. “A outorga deste prêmio alça o premiado à categoria de mestre da narrativa”, afirmou a ocupante da cadeira 30 da ABL, autora de “Coração Andarilho”, entre outros títulos. Ao discursar na solenidade de premiação, no salão nobre da academia, Loyola não abandonou o tom informal das suas narrativas e fez questão de homenagear sua primeira professora, Lourdes Prado, que lhe ensinou a ler e escrever, além de apresentar as primeiras noções de técnica literária. “Ela dizia que, se o final de um texto espanta e surpreende, então ele foi bem-sucedido. Até hoje reviso os finais de meus contos, romances e crônicas para checar se estão de acordo com isso, contou o também colunista do Estadão. setembro 2016 financeiro 43


literatura Foto: Mário Bock

Família Loyola: o escritor cercado pelos filhos Daniel, Rita , pela esposa, Marcia Gullo, e pelo outro filho, André

Na sua mensagem aos imortais, Loyola também deu sinais de que sua criatividade continua sem limite: “Eu tenho mil projetos ainda. Aos 80 anos, meus amigos de Araraquara me encontram e dizem: ‘Já aposentou?’. Eu não tenho como me aposentar porque estou cheio de personagens aqui dentro”. Ele está tão energizado com o lançamento da sua recente coletânea de crônicas e com a premiação da ABL que resolveu tirar do escaninho dos projetos a produção do romance “Desta Terra nada Vai Sobrar a não Ser o Vento que Sopra sobre Ela”, título que aborda, entre outras coisas, as adversidades políticas e econômicas do Brasil, com o qual pretendia comemorar os seus 80 anos, mas acabou não ficando satisfeito com o rumo da história. Mesmo colecionando inúmeros sucessos literários, como “Zero”, de 1975, “Não Verás País Nenhum”, de 1981, ou o texto juvenil “Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos”, de 2014, Loyola, segundo os amigos que estiveram no lançamento de “Se For Pra Chorar que Seja de Alegria” ainda demonstra relativa ansiedade antes que os primeiros leitores comecem a fazer fila à espera de suas caprichadas dedicatórias. No entanto, a expectativa dos fãs e dos amigos não é menor. Não importa quem está diante do autor, sua caneta Bic produz 44 financeiro setembro 2016

mensagens longas e generosas, de quatro, cinco, seis linhas... todos aguardam, pacientemente, por suas palavras exclusivas e cheias de significado. Entre as dezenas de pessoas que movimentaram os corredores da Livraria Martins Fontes, em São Paulo, estavam os juristas Antonio Cláudio Mariz de Oliveira e José Renato Nalini, seu colega da Academia Paulista de Letras e atual secretário da Educação do Estado de São Paulo; o escritor Humberto Werneck; amigos de Araraquara; professores de escolas públicas; ou, ainda, alguns que conquistavam o seu autógrafo pela primeira vez. Aos mais íntimos, fazia questão de perguntar se já tinham ido assistir ao seu show musical “Solidão no Fundo da Agulha”, uma dose extra de satisfação que tem recebido dos leitores em audições semanais no teatro Eva Herz, da Livraria Cultura, em São Paulo. Ficou entusiasmado ao receber a proposta de levar o espetáculo para apresentações em cruzeiros marítimos. De outros fãs, foi surpreendido com presentes – de gravata a bolo caseiro — pelo seu aniversário de 80 anos. “Todos eles são muito especiais. Nada distrai a minha atenção enquanto tiver um leitor na fila à minha espera”, diz Loyola, depois de quase quatro horas ininterruptas ouvindo boas histórias e escrevendo dedicatórias que são tão importantes para as pessoas quanto a honra de ser agraciado com o Prêmio Machado de Assis. f


livros

“Nós” do Brasil

Depois da

Estudo das Relações Étnico-Raciais

Tempestade

N

ós” do Brasil remete o leitor a viagens e conexões históricas que permitem compreender Autora: Rosiane Rodrigues melhor quem somos nós. O livro Editora: Moderna Literatura aborda o encontro e a integração das culturas negra, indígena, judaica e mulçumana. Fala também a respeito das diversas Áfricas que existem dentro um mesmo continente. A autora mostra ainda que há saídas para a aplicação da temática das relações raciais, sem incorrer em dogmas, estereótipos ou folclorização. f

As Leis Secretas da Economia – Revisitando Roberto Campos e As Leis do Kafka

É

grave crise desencadeada com a posse da Presidente Dilma, em 2010, provocou uma enorme onda de pessimismo sobre o nosso futuro. Apesar do cenário de incerteza em que mergulhou o País, Ricardo Amorim demonstra que a recuperação do Brasil poderá ser mais rápida do que se poderia esperar. Ele analisa o Brasil com arrojo e mostra que o nosso destino é promissor. f Autor: Ricardo Amorim Editora: Prata

Autor: Gustavo Franco Editora: Zahar

verdade que a economia brasileira não obedece a nenhuma das leis conhecidas? O economista Gustavo Franco partiu dessa pergunta para investigar os meandros das políticas financeiras no País. A inspiração foram algumas das leis elaboradas nos anos 1960 por Roberto Campos e Alexandre Kafka. O resultado é um livro bem-humorado, que faz referências a personalidades, como Maquiavel e Machado de Assis, e aborda temas como o Plano Real, a privatização e a política monetária. f

S

A

A

Brasil – Uma

Biografia

s autoras propõem uma leitura pouco convencional sobre a história do Brasil. O livro combina os momentos importantes da chamada grande história com aspectos do cotidiano. No fundo da cena, mantêm ainda diálogo com aqueles escritores que, antes delas, se lançaram na difícil empreitada de tentar interpretar ou, pelo menos, entender o Brasil. Tratam ainda da herança contraditória da mestiçagem e da violência. f Autoras: Lilia Schwarcz e Heloísa Starling Editora: Cia. das Letras

Lições de Valor

e os seus filhos estão cursando entre o 6º e o 9º ano do Ensino Fundamental II, converse Educação Financeira Escolar com a professora ou indique para a escola o livro Lições de Valor – Educação Financeira Escolar. Especialista no tema, a educadora Andy de Santis propõe iniciativas que estimulam o uso consciente do dinheiro e promovem a cultura da educação financeira. Além das atividades para os alunos, o título oferece também um portal exclusivo para a família com ferAutora: Andy de Santis ramentas, planilhas, textos e orientações para melhoEditora: Moderna rar sua relação com o consumo e com o dinheiro. f setembro 2016 financeiro 45


cultura

Herança do mecenas

Fotos: Arquivo IMS

Com unidades em Poços de Caldas, no Rio de Janeiro e em São Paulo, o instituto fundado há 24 anos pelo embaixador e banqueiro Walther Moreira Salles é uma das maiores referências em preservação de fotografia, artes plásticas, arquivos literários e músicais

O

embaixador e banqueiro Walther Moreira Salles, falecido em 2001, sempre foi uma referência como intelectual e homem de negócios. O instituto que leva o seu nome não fica atrás em significado para a cultura brasileira. Seu acervo, com cerca de 800 mil fotografias e imagens, 100 mil músicas catalogadas, uma biblioteca com 400 mil itens e uma pinacoteca com mais

de três mil obras, colocam a instituição entre as principais guardiãs da memória nacional. Fundado há 24 anos, o Instituto Moreira Salles (IMS) nasceu em Poços de Caldas, cidade mineira escolhida pelo próprio embaixador como forma de homenagear a região onde sua família se estabeleceu em 1918. Depois vieram outras duas unidades, uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo.

Fotografia O conjunto de fotos e de imagens do IMS é um dos mais importantes do País. Entre os destaques, estão valiosos registros do século 19, representados por trabalhos de Marc Ferrez, considerado um dos mais admirados fotógrafos brasileiros do período, e coleções relevantes que retratam boa parte do século XX, com contribuições de Marcel Gautherot, José Medeiros, Maureen Bisilliat, Thomaz Farkas, Hans Gunter Flieg, Otto Stupakoff, entre outros. Reunido na Reserva Foto de Marc Ferrez: Ilha das Cobras, RJ Técnica Fotográfica do IMS, construída no mes- longo dos séculos 19 e XX; a arquitetura colonial e mo terreno em que está sua unidade no Rio moderna do Brasil, a cultura e as festas populares de Janeiro, o acervo de fotos revela as trans- das diversas regiões do país; a urbanização e o deformações da paisagem urbana brasileira ao senvolvimento industrial do País. 46 financeiro setembro 2016


Pinacoteca O acervo de iconografia do IMS documenta a história das artes gráficas no Brasil, que vai desde o início do século 19, com a vinda da família real portuguesa ao Rio de Janeiro e com o nascimento das primeiras casas impressoras, passando pelos desenhos de Araújo Porto-Alegre, considerado o primeiro caricaturista brasileiro, percorre o século XX, com as ilustrações de J. Carlos, na primeira metade do século, e a obra de Millôr Fernandes, na segunda. Seus arquivos também preservam preciosos registros feitos por artistas viajantes que vieram para o Brasil em expedições culturais no século 19. Entre as relíquias, se destacam aquarelas do inglês Charles Landseer e os desenhos do alemão Von Martius (Carl Friedrich Philipp), que retratou a natureza brasileira entre 1817 e 1820.

Coleção Martha e Erico Sticke: Viagem Pitoresca através do Brasil, de Johann Rugendas

Walther Moreira Salles (1912-2001) Nascido em Pouso Alegre (MG), em 1912, Walther Moreira Salles era o mais velho dos quatro filhos do casal João Theotônio Moreira Salles e Lucrecia de Alcântara. Ainda jovem, veio completar os estudos no Liceu Franco-Brasileiro, em São Paulo, ingressando depois na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Em Poços de Caldas, seus pais fundaram, em 1919, a Moreira Salles & Cia., um armazém que vendia de tudo. Com apenas 21 anos, Walther assumiu a administração do que viria a ser o embrião do Unibanco: a Casa Bancária Moreira Salles, constituída por seu pai em 1932. Já conhecido como empresário de sucesso, ele, em 1948, foi convidado pelo então Presidente Eurico Gaspar Dutra para assumir o comando da Carteira de Crédito Geral do Banco do Brasil. Nos anos seguintes, viria a ocupar por duas vezes, em 1952 e 1959, o posto de embaixador do Brasil em Washington. No governo do Presidente Jânio Quadros,

em 1961, foi nomeado embaixador especial com a missão de renegociar da dívida externa brasileira. Seu último cargo público foi durante o governo parlamentarista de João Goulart e Tancredo Neves, quando foi ministro da Fazenda. A partir daí, dedicou-se exclusivamente a suas duas paixões: o banco e as artes. Como mecenas, participou e contribuiu na montagem do acervo do Masp (Museu de Arte de São Paulo), foi presidente do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, entre 1968 e 1974, fez parte do Chairman’s Council do Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, de 1991 até a sua morte. Em 1992, fundou o Instituto Moreira Salles. Seus quatro filhos, Fernando, Pedro, Walther e João – mantiveram o legado do pai. No IMS, os quatro integram o conselho de administração. Fernando presidiu a diretoria executiva da instituição entre 2002 e 2008, sendo substituído por João, que ocupa o cargo até hoje. setembro 2016 financeiro 47


cultura Música Inaugurada no início dos anos 2000, a Reserva Técnica Musical do IMS preserva 14 acervos com obras de compositores como Chiquinha

Gonzaga, Ernesto Nazareth, Hekel Tavares, Pixinguinha, dos violonistas Antonio D’Áuria e Baden Powell e da cantora Elizeth Cardoso. Só o tesouro reunido pelo colecionador e jornalista José Ramos Tinhorão atinge o número de 29.567 títulos de partituras editadas. Como o principal objetivo do IMS é difundir seu patrimônio, a Rádio Batuta, transmitida via internet (www. radiobatuta.com.br), produz e apresenta documentários sobre grandes compositores e intérpretes brasileiros.

A área de literatura do IMS nasceu em 1994, com a chegada do acervo do jornalista e escritor Otto Lara Resende à sede do Instituto Moreira Salles, em Poços de Caldas. São obras de Erico Verissimo, Rachel de Queiroz, Mario Quintana, entre outros tantos. De Verissimo, existem, por exemplo, originais de romances com desenhos de personagens feitos pelo autor. Também merecem destaque manuscritos incompletos de Clarice Lispector —, com parte dos romances A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida. Além disso, as coleções do ator Paulo Autran, com relatos saborosos, alguns inéditos, sobre sua vida profissional e afetiva, e do crítico e professor de dramaturgia Décio de Almeida Prado, com arquivos que fazem parte da história do teatro brasileiro moderno.

48 financeiro setembro 2016

Foto: Arquivo IMS/Cristiano Mascaro

Biblioteca


IMS / Poços de Caldas O IMS-Poços é formado por um pavilhão com mais de 1.000 m² de área expositiva e pelo Chalé Cristiano Osório, projetado e construído em 1894, espaço que foi inteiramente restaurado e hoje expõe obras de artistas da região

sudoeste de Minas Gerais. Lá também acontecem mostras de grandes nomes das artes, como Portinari, Di Cavalcanti, Lasar Segall, Tarsila do Amaral e Guignard. Rua Teresópolis, 90 – Poços de Caldas (MG) Tel.: (35) 3722.2776

IMS / Rio de Janeiro A residência no bairro da Gávea, onde viveu a família Walther Moreira Salles, tornou-se sede do IMS em 1999. A própria casa, projetada por Olavo Redig de Campos com jardins de Roberto Burle Marx, já é um atrativo para os visitantes, pois suas linhas são referência da arquitetura moderna carioca dos anos de 1950. Suas portas são abertas para exposições, exibição de filmes e shows, além de abrigar os acervos de fotografia, música, literatura e iconografia. Rua Marquês de São Vicente, 476 – Rio de Janeiro (RJ) Tel.: (21) 3284.7400 / (21) 3206.2500

IMS / São Paulo Criado em 1996, no bairro de Higienópolis, o IMS paulista usa suas salas multiuso para exposições de artes plásticas, apresentações musicais, cursos e palestras. Para 2017, aguarda-se a inauguração de um novo espaço em São Paulo – mais de 8,5 mil m²—,

na Avenida Paulista, atualmente em construção, com seis andares. Área suficiente para abrigar salas de exposição e de aula, auditório, biblioteca, café, loja e estrutura administrativa. Rua Piauí, 844, 1º andar – São Paulo (SP) Tel.: (11) 3825.2560


artigopalavrafinal Recuperação e expansão da economia dependem de um poder executivo assertivo e de um poder legislativo que apoie as reformas

Produção Industrial X Volume de Vendas no Varejo base: igual trimestre do ano anterior, em %

50 financeiro setembro 2016

Índice de Atividade Econômica do Banco Central IBC-Br com ajuste sazonal

a queda vem sendo muito forte, mas já mostra sinais de estabilização mais à frente e expectativas de reversão para crescimento no 4º trimestre 2016. Por outro lado, cresce a insegurança no mercado financeiro e juntamente a setores empresariais quanto ao risco e à dificuldade de efetivo resgate das contas públicas. Com a efetivação de Michel Temer na Presidência, importantes atores da cena política começaram a priorizar seus grupos de interesse em vez do interesse coletivo da nação. Além disso, a prioridade de agenda passou a ser a eleição de prefeituras em outubro, e também a formação das plataformas políticas para a eleição presidencial de 2018. A possibilidade otimista, mas viável, de sucesso do cenário básico de “resgate da confiança e recuperação do crescimento econômico” depende e requer postura de firme governança do poder executivo e amplo apoio político do poder legislativo. É importante aprovar em maior parte ou avançar suficientemente em medidas estruturais e polêmicas para amplo ajuste das contas públicas, avanços na legislação previdenciária e trabalhista; além de outros avanços que permitam maior produtividade, inserção no comércio mundial e redução de barreiras ao investimento em infraestrutura do País. Sem isso, prevê-se que em vez da construção de um caminho virtuoso até o fim de 2018 poderá haver uma capitulação que esvaziará a possibilidade de resultados econômicos significativos para esta fase do quadro socioeconômico nacional. Por isso mesmo, pela ausência de espaço para erros expressivos, a expectativa é de que, apesar de difícil, haverá apoio político e social para avanço nas reformas essenciais. f

Texto escrito em 31/8/2016

Nicola Tingas: Consultor econômico da ACREFI

Foto: Mário Bock

D

efinido o quadro institucional do Brasil, o Presidente Michel Temer terá pela frente grandes desafios a enfrentar, principalmente no campo político. Deverá obter amplo apoio para aprovar reformas constitucionais e outras medidas que permitam o resgate da economia e retomada do crescimento — o mais virtuoso possível. Talvez o maior desafio seja fazer muito em pouco tempo, apenas dois anos e quatro meses. Há um clima de expectativa sobre a velocidade da retomada da economia e a volta do crescimento do País. Há crescentes debates sobre se a economia já está no “fundo do poço”, se já está estabilizada ou quanto tempo levará até alcançar parâmetros aceitáveis. Após dois anos de severa recessão, a economia encerra seu ciclo de contração e começa a dar sinais de recuperação. Indicadores econômicos do IBGE, de produção industrial e de volume de vendas no varejo (restrito), sinalizaram que estamos em um “ponto de inflexão” ou de “vale do ciclo econômico”, a partir do qual se pode esperar gradual retomada da economia. Na mesma direção está o IBC-Br do Banco Central, uma antecipação aproximada do PIB mensal, que também sinalizou desaceleração no ritmo de queda da atividade econômica e tênue tendência de reversão. O PIB do 2º trimestre, segundo dados do IBGE, apresentou recuou 4,6% no ano em relação a igual período de 2015, e acumula queda de 4,9%, em 12 meses até o segundo trimestre de 2016. Houve recuo de 0,6% no 2º trimestre contra o trimestre anterior, comparado com a queda de 0,4% no 1º trimestre; mas, já abaixo do ritmo de queda mais intenso em 2015. Neste 2º trimestre houve recuperação de 0,3% da indústria e de 0,4% dos investimentos, embora ainda com contração de 0,7% no consumo das famílias e 0,5% no consumo de governo. Em síntese,


EDF

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22 de novembro de 2016 Teatro Cetip* - São Paulo, SP

Desafios econômicos para o crescimento sustentável do Brasil PALESTRANTES CONFIRMADOS

Eduardo Giannetti da Fonseca

James Conrad

Marcos Troyjo

Massimo Volpe

Economista

Diretor do BRICLab da Universidade Columbia

CEO da TNS

Chairman do Forum for International Retail Associations

APRESENTAÇÃO: Christiane Pelajo, jornalista

Patrocínio

Realização

Apoio R

Apoio Institucional

INFORMAÇÕES DE CRÉDITO

*Rua Coropés, 88 - Pinheiros - São Paulo, SP

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Financeiro 99 / Setembro 2016  
Financeiro 99 / Setembro 2016