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Fabio Giambiagi

edição

“Aposentadoria justa às contribuições feitas”

Junho/Julho

92

Flávio Caetano

Secretário de Reforma do Judiciário

“A aprovação da Lei da Mediação e Arbitragem amplia o acesso à Justiça no Brasil” Otávio Damaso

Novo diretor de Regulação do BC

10º SIAC anuncia palestrantes: Delfim Netto, Joaquim Barbosa e William Rhodes


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conteúdofinanceiro 5 Editorial 10 Entrevista do mês

Flávio Caetano, secretário de Reforma do Judiciário, fala dos benefícios da Lei da Mediação

15 Executivo

Otávio Damaso: diretor de Regulação do BC

Fabio Giambiagi

22 Fraude em debate

26 Banking CRM

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30 ACREFI no CIAB Febraban

34 Educação Financeira 40 Debate ACREFI 42 Painel Cetip 46 Supermáquinas

Roll-Royce Gost Series II

50 Ático de Souza

O reverenciado maître do Parigi

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Fotos: Divulgação

33 10o SIAC

58 Operação Sorriso 61 Informe Fractal

34

Foto: Mário Bock

19 Previdência

54 O renovado Museu Artigos Lasar Segall 21 Aquiles Leonardo Diniz 25 Claudio Felisoni de Angelo Erratas 29 Rodrigo Romero Logotipo correto do Bank of America Merrill Lynch 36 Denise Campos do Brasil (ed.91/pág.29) de Toledo 37 Sergio Odilon 66 Nicola Tingas O cargo de Rodrigo Botas é desenvolvedor de negócios da Cassiopae (ed.91/pág.38)

Escreva o seu e-mail, faça seu comentário: acrefi@acrefi.org.br

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Foto: Paulo Giandalia

52 A sedução dos charutos

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editorial

Pacto

da Alvorada

Foto: Mário Bock

A

em voga na época, saiu-se de uma situação pela qual passa ditadura “direitista” para uma monaro Brasil aponta, cada vez quia parlamentarista com um partido mais, para a necessidade “de esquerda” como majoritário. E o de se promover um pacto social. processo foi mantido, em obediência Pela situação a que chegamos, e ao que se definiu no Pacto de Moncloa. que parece se agravar a cada dia, Evidente que o Pacto de Moncloa o País vive um momento em que é não foi um “passe de mágica” que necessário unir forças para enfrentrouxe crescimento à Espanha, mas tar um quadro de dificuldades econão há quem conteste seu papel funnômicas e políticas, que precisam damental no desenvolvimento do país. ser superadas para o bem da nação. Vivemos no século 21, com uma Será necessário muito desrealidade bem diferente da espanhoprendimento e espírito público la e transpor esse exemplo para o para que se chegue a esse pacto. Brasil sem as necessárias adaptaMas parece não haver outra alterções seria um desatino. No entanto, é nativa. Paliativos, nesse momento, certo que muitos pontos de Moncloa não serão suficientes para colocar podem inspirar o nosso “PACTO DA o Brasil numa rota sustentável de crescimento, já que é preciÉrico Sodré Quirino Ferreira: ALVORADA”, de que os brasileiros tanto necessitam no momento. so encontrar respostas efetivas e presidente da ACREFI Para começar, há imperiosa ousadas para os obstáculos que necessidade de disposição de sennos impedem de crescer. tar-se à mesa com os espíritos desarmados, colocanPara os céticos em relação a essa proposta, vale do os interesses do País acima de tudo. Será difícil lembrar o caso da Espanha. Em 1975, faleceu o ditador conseguir atingir essa meta no Brasil? Precisaremos Francisco Franco, que, por décadas mandou e deschegar a uma ruptura social para que os nossos lídemandou no país. Juan Carlos foi coroado rei e indicou res (políticos, sociais, empresariais, trabalhistas, etc.) Adolfo Suárez como primeiro-ministro, com uma misse disponham a pensar no País em primeiro lugar? são especial: fazer a transição da ditadura para um Para que o pacto seja bem-sucedido, o Brasil regime de monarquia parlamentar. precisa contar com a adesão e a maturidade de Diante desse enorme desafio, Suárez decidiu ousar. todos os representantes da sociedade, com dispoConvocou todos os partidos com representação parlasição para o diálogo e flexibilidade para abrir mão mentar para negociar um pacto que teve como missão de dogmas, de “direitos adquiridos”, em favor do preparar a votação da nova Constituição. Depois de bem-estar das próximas gerações. Fácil certamente muito debate, chegou-se a um acordo, que ficou conhenão é. Entretanto, é preciso ter em mente que, sem cido como Pacto de Moncloa, que recebeu essa denomipacto, a opção é ter um país perdido em seu emanação por ter sido assinado no Palácio de Moncloa, em ranhado de problemas e sem perspectivas para o Madri. Mas a Espanha foi mais longe: ampliou o pacto futuro. É importante, enfim, esquecer o espírito de que, além de envolver partidos políticos, abrangeu tam“Fla-Flu”, o “PT versus PSDB”, o “nós contra eles”, os bém as lideranças econômicas e sociais e tomou medi“ricos versus pobres”. das corajosas como limitação dos aumentos salariais Como nos mostrou a Espanha, muito mais impore restrição às greves. Resultado: a Espanha passou a tante do que tudo isso é pensar o futuro do país e as viver um longo período de prosperidade econômica e alternativas que nos permitam ter “O Brasil que nós social como consequência deste pacto. Sonhamos” (tema do nosso próximo SIAC, a ser realizaNo caso espanhol, as primeiras eleições depois do em novembro), ou seja, o Brasil que teremos orgulho do franquismo elegeram o Partido Socialista Operário de deixar como herança para as próximas gerações. f Espanhol (PSOE) – ou seja, para usar uma terminologia

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expediente

ISSN 1809-8843 Publicação da acrefi – Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento Rua Líbero Badaró, 425 – 28°andar – São Paulo – SP Tel: (11) 3107-7177 fax: (11) 3106-6082 – www.acrefi.org.br Presidente Érico Sodré Quirino Ferreira Vice-presidentes Aquiles Leonardo Diniz, Décio Carbonari de Almeida, Felicitas Renner, Fernando Marsella Chacon Ruiz, José Luiz Acar Pedro, Leonardo Marcondes Dadalto, Mauro Roberto Vasconcellos Gouvêa e Rubens Buttion Diretor Tesoureiro José Garcia Neto Diretores regionais Carlos Alberto Samogim, Edmar Casalatina, Eliseu Colman, Leonardo Bortolini, Luis Eduardo da Costa Carvalho, Marcos Rosa, Paulo Henrique P. Guimarães e Romeu Zema Neto Diretores executivos Alexandre Teixeira, Gabriel José Gama Ferreira, João dos Santos Caritá Júnior e Ronaldo Rondinelli Montadoras Edson Fróes Castilho, Edson Tadashi Ueda, Eduardo Tavares Nobre Varella, Gunnar Alejo Ramos Murillo, Joelcyr Carmello Filho e Nelson Dias de Aguiar Diretores conselheiros José Carlos Alves, Ricardo Janini e Roberto Jabali Conselho consultivo Alkindar de Toledo, Manoel de Oliveira Franco e Ricardo Malcon (membros natos); Alarico Assumpção Júnior, Alencar Burti, Décio Carbonari de Almeida, Gilson Finkelsztain, Ilídio Gonçalves dos Santos, Luiz Tavarez e Miguel José Ribeiro de Oliveira (membros) Conselho fiscal Domingos Spina e Sérgio Darcy (efetivos) e Geraldo Lima Wandalsen (suplente) Diretor superintendente Antonio Augusto de Almeida Leite (Pancho) Controller Carlos Alberto Marcondes Machado Consultora Jurídica Lívia Esteves Economista-chefe Nicola Tingas Assessoria contábil AG Silveira Contabilidade Assessoria de imprensa Tamer Comunicação Empresarial

Av. Brigadeiro Faria Lima, 1912, cj. 12b - Jardim Paulistano - São Paulo - SP - Tel.: (55.11) 3031.2388 - CEP: 01451-000 – www.tamer.com.br Publisher Sergio Tamer Redação Editores Theo Carnier e Gilberto de Almeida Editor assistente Gustavo Girotto Fotografia Mário Bock e Paulo Giandalia Arte Moacyr Mw e Rafael Pascoal Revisor Vicente dos Anjos Impressão Eskenazi Gráfica As matérias e artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

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entrevistadomês

Fotos: Divulgação

“Espera-se que o uso da mediação amplie a participação do cidadão”

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recente aprovação do Marco Legal de Mediação representa uma segunda etapa da Reforma do Judiciário e proporcionará mais acesso à Justiça, maior capacidade de resolução de conflitos e, potencialmente, redução no número de processos nos tribunais. A seguir, leia a entrevista do secretário de Reforma do Judiciário, Flávio Crocce Caetano, a respeito dos benefícios conquistados, que facilitarão a vida de milhões de brasileiros. Revista Financeiro – Qual é o significado da

aprovação da Lei de Mediação dentro do projeto da Reforma do Judiciário? Flávio Caetano – Desde a década de 1990, o Estado Brasileiro tem vivenciado uma crise em seu sistema judicial. Não obstante os esforços de modernização do Poder Judiciário, o aumento contínuo no número de processos vem provocando um ciclo vicioso: demora na prestação jurisdicional, que gera aumento dos custos judiciais e advocatícios e resulta na desconfiança da população na efetividade do sistema de justiça. Paradoxalmente, embora indicadores, como o índice de Confiança da Justiça Brasileira – ICJ Brasil, registrem que mais de 80% da população considera o Judiciário moroso e de difícil acesso, a maioria da população brasileira afirma que recorreria ao Judiciário em caso de conflitos. O resultado do que se pode chamar de “cultura do litígio” é a existência, segundo dados de 2014, de 92 milhões de processos tramitando nas varas e nos tribunais do País. A aprovação da lei de mediação marca uma segunda etapa da Reforma do Judiciário, iniciada com a aprovação da Emenda Constitucional 45, em 2004. Na primeira fase, a reforma teve como objetivo racionalizar a gestão de processos no Poder Judiciário e ampliar o acesso à justiça, com o fortalecimento das Defensorias Públicas e a criação do Conselho Nacional de Justiça. Nesta segunda etapa, a aprovação da lei de mediação marca o início de um processo importantíssimo para a ampliação do acesso à Justiça no Brasil, com a institucionalização dos meios alternativos de resolução de conflitos. Como ocorreu em outros países, espera-se que o uso da mediação amplie a participação do cidadão, que terá mais espaço para encontrar, por si mesmo, soluções para os seus conflitos, com a consequente diminuição da carga de processos que chega aos juízes e o aumento na velocidade de resposta do Judiciário às demandas dos usuários.

RF – Qual é o impacto da nova lei na resolução dos conflitos? Caetano – Espera-se que a população passe a conhecer e a utilizar, cada vez mais, os métodos consensuais de resolução de conflitos, como a mediação. Isso certamente colaborará com a redução do número de processos judiciais, diminuindo os custos do sistema de Justiça e aumentando a sua eficiência. Ainda, o consenso é incentivado por meio desses procedimentos, o que fomenta uma cultura de paz, que ensina aos que se utilizam dessas técnicas o valor do diálogo, permitindo o restabelecimento de relações sociais abaladas e o amadurecimento dos cidadãos no sentido de prestigiarem a composição em detrimento do conflito. A grande vantagem da mediação é a de permitir a resolução do conflito pelas partes, sem depender da decisão de uma terceira pessoa. Com isso, constrói-se uma cultura em que as pessoas aprendem estratégias para resolver seus problemas e recorrem menos ao Judiciário. O que se quer é uma mudança cultural no Brasil, tanto em relação aos cidadãos que, hoje, recorrem ao Judiciário por falta de alternativas, quanto da formação dos operadores do direito, ainda muito voltada para o método adverso, para o “ganha e perde”. Nesse sentido, é preciso que a mudança comece já nas faculdades, com a inclusão dos métodos alternativos de resolução de conflitos no currículo dos cursos de direito. RF – Qual é o tempo necessário para que a nova lei comece a gerar resultados? Caetano – A lei entra em vigor em dezembro de 2015, porém, a recente sanção do novo Código de Processo Civil também trouxe grande incentivo à conciliação e à mediação. Trata-se de uma significativa mudança de paradigma na forma de lidar com os conflitos do dia a dia, porque estimula que a autocomposição seja a opção preferencial de resolução de disputas, tanto em âmbito judicial, quanto em âmbito extrajudicial. O Governo Federal, por meio da SRJ (Secretaria de Reforma do Judiciário), tem intensificado a formulação e a execução de políticas públicas que incentivam o uso de meios alternativos de resolução de litígios para que a mediação se torne uma prática difundida e para que o impacto positivo da lei seja notado em breve. Por envolverem procedimentos mais céleres, flexíveis e informais, os métodos autocompositivos, como a mediação, resultam em maior satisfação do cidadão, porque lhe permite participar ativamente na solução de seus problemas. Na SRJ, esse movimento é claramente notado nos

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entrevistadomês cursos oferecidos pela Escola Nacional de Mediação e Conciliação (ENAM) que, a cada edição, atraem um número maior de interessados. Ainda, colaboramos com a mudança nos currículos das faculdades de direito, para que passem a incluir o ensino e a prática da mediação como obrigatórios nos cursos de bacharelado em ciência jurídicas, além de estarmos investindo no aumento do número de mediadores extrajudiciais capacitados. Essas ações são fundamentais para alcançarmos os resultados esperados: mudança cultural, com escritórios de advocacia, órgãos governamentais, empresas, enfim, entidades públicas e privadas, etc., investindo em métodos alternativos e em práticas colaborativas como forma de se lidar com os conflitos e as disputas.

RF – Quem são e qual é o perfil dos profissionais que atuarão como mediadores? Caetano – Pela lei, a formação do mediador, que deverá atuar com isenção, discrição e boa-fé, as regras diferem de acordo com a modalidade de mediação: para atuar na mediação extrajudicial, o mediador deverá ser pessoa capaz, ter a confiança das partes, e ser capacitada para fazer a mediação; na mediação judicial, o mediador deve ser pessoa capaz, com graduação em curso de ensino superior de instituição reconhecida pelo Ministério da Educação e que tenha obtido capacitação em escola ou instituição de formação de mediadores reconhecida pela Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados – ENFAM – ou pelos tribunais, observados os requisitos mínimos estabelecidos pelo Conselho Nacional de Justiça, em conjunto com o Ministério da Justiça. O treinamento básico, hoje, envolve 40 horas de curso teórico e um estágio supervisionado. Há tribunais pensando em criar carreira de mediador e, em outros, já há um número considerável de mediadores voluntários, pessoas que fazem o curso e atuam porque gostam do tema. Na mediação privada, qualquer pessoa que se considerar capacitada pode atuar como mediador e a tendência é que surjam mais cursos privados de capacitação. 12 financeiro junho/julho 2015

RF – Quantos mediadores serão contratados? Caetano – A legislação prevê, em suas disposições finais, que a Escola Nacional de Mediação e Conciliação – ENAM – no âmbito do Ministério da Justiça, poderá criar um banco de dados sobre boas práticas em mediação, bem como manter relação de mediadores e de instituições de mediação. A contratação dos mediadores judiciais será regulada pelos tribunais por meio de cadastro. Os mediadores podem ser voluntários dos tribunais, como já ocorre hoje, ou fazer parte do corpo de servidores do tribunal. Não há uma previsão de quantos mediadores judiciais serão necessários, mas, a título de mera comparação, temos atualmente 17 mil juízes no País. Parece-nos que esse número pode ser utilizado como referência para futuro cálculo de mediadores necessários.

RF – O processo de contratação será por meio de concurso público? Caetano – Em âmbito judicial, ficará a cargo dos tribunais a definição de contratação de mediadores. O texto prevê que os tribunais criarão centros judiciários de solução de conflitos e que a eles serão encaminhados todos os processos judiciais que se enquadrem nas hipóteses passíveis de serem mediadas, além de estabelecer que o procedimento de mediação deverá ser concluído em até sessenta dias, podendo ser prorrogado apenas de comum acordo entre as partes. Assim, caberá aos próprios tribunais a decisão sobre criar cargos efetivos para serem preenchidos por mediadores ou se organizarem a partir de seu cadastro, contando com mediadores voluntários ou recrutados de outras formas que não o concurso público. Na esfera extrajudicial, a tendência é a criação de núcleos especializados no âmbito dos escritórios de advocacia e empresas, como já ocorre em outros países, bem como o surgimento de mais instituições especializadas em oferecer o serviço de mediação, como, por exemplo, as serventias extrajudiciais. RF – Como será o treinamento desses profissionais? Caetano – Pela lei, os mediadores judiciais deverão ter nível superior completo e passar por cursos de capacitação, cujo conteúdo será definido pelo CNJ em conjunto com o MJ. O treinamento básico, hoje, em regra, possui 40 horas de curso teórico e um estágio que envolve a realização de cerca de 15 mediações supervisionadas. Para a mediação extrajudicial, a lei estipula que o mediador deve ser devidamente capacitado sem se aprofundar, contudo, em maiores detalhes. Essa omissão foi proposital, porque não se queria engessar a mediação extrajudicial, que pode ser aplicada na solução de


conflitos que vão desde os mais simples, como pequenas questões interindividuais e problemas de vizinhança, etc., até complexas disputas empresariais. Naturalmente, a preparação de um mediador varia de acordo com o grau de dificuldade que os problemas que serão por ele abordados aumentam. A ENAM se orienta pelos padrões internacionais do que se considera bons cursos de mediação mundo afora e possui cursos de variados níveis e graus de dificuldade, preservando, todos eles, elevados níveis de qualidade.

RF – Qual é o percentual de processos que podem ser solucionados por meio da mediação?

Caetano – A maioria dos processos pode ser levada para mediação, sendo poucos os casos – geralmente os que envolvem temas muito sensíveis, como violência doméstica ou direitos indisponíveis – considerados não viáveis para a tentativa de resolução consensual. A mediação de conflitos envolvendo órgãos públicos, por exemplo, é uma inovação no uso da mediação no Brasil, fundamentada no diagnóstico de que o Estado é, hoje, o maior litigante do País: somente as execuções fiscais representam 40% do volume de processos em trâmite no Judiciário, segundo o já citado levantamento do Conselho Nacional de Justiça. Assim, é indispensável que o Poder Público invista na solução não judicial de conflitos em que é parte e reduza sua parcela de responsabilidade nas altas taxas de congestionamento do Judiciário. Nesse sentido a lei prevê que a Administração Pública, em todas as suas instâncias, poderá criar câmaras de prevenção e resolução administrativa de conflitos, no âmbito dos respectivos órgãos da Advocacia Pública, onde houver, com competência para dirimir conflitos entre entes da própria Administração e entre o Poder Público e o particular, sempre que possível. Outra grande novidade referente à mediação na Administração Pública é a possibilidade de a Advocacia Pública poder instaurar, de ofício ou mediante provocação, procedimento de mediação coletiva de conflitos relacionados à prestação de serviços públicos, o que possibilitará uma rápida, eficaz e satisfatória solução desse tipo de impasse.

RF – Qual é o impulso que a nova lei deve gerar no congestionamento dos processos no Judiciário?

Caetano – O fato de haver uma lei serve como estímulo para que as pessoas busquem capacitar-se em mediação, gerando um impacto positivo no aumento de acordos extrajudiciais. O que deve ser destacado, por exemplo, é que o Poder Público é res-

ponsável por aproximadamente 50% de todos os processos judiciais. Entre outras inovações, a Lei de Mediação regulamenta a mediação no âmbito de conflitos envolvendo o Poder Público e a prestação de serviços públicos. Isso aproxima a Administração dos administrados, pois possibilita o estabelecimento de canais de diálogo e comunicação entre estes e aquela, otimiza os recursos públicos, minimiza os custos com processos judiciais, previne o agravamento dos conflitos e controvérsias, além de aumentar a satisfação dos cidadãos, que poderão participar, de forma dialógica, da resolução de conflitos que porventura tenham com a Administração Pública e com a prestação de serviços públicos. Assim que a mediação se tornar uma prática mais comum e conhecida, o número de processos que chegam ao juiz deve diminuir gradativamente. Onde já é usada há mais tempo, a mediação costuma ter resultados positivos em mais de metade dos casos, o que, é claro, reduz consideravelmente a taxa de congestionamento de processos judiciais.

“A preparação de um mediador varia de acordo com o grau de dificuldade que os problemas que serão por ele abordados aumentam”

RF – A implantação da nova lei será simultânea em todos os Estados?

Caetano – A lei é nacional e entra em vigor, simultaneamente, para todos os Estados federados, em dezembro de 2015. O novo CPC, por sua vez, terá vigência a partir março de 2016. Deverão ser criados Centros de Mediação de Conflitos em todas as comarcas do Poder Judiciário do Brasil e será incentivada a implantação de Centrais de Mediação nas esferas do Poder Público. Para que a lei tenha integral eficácia, o Ministério da Justiça já criou, entre 2012 e 2014, três iniciativas para a Mediação: a) Instituiu a Escola Nacional de Mediação e Conciliação – ENAM –, que já capacitou 10 mil pessoas; b) Criou em conjunto com AGU, MPREV, CNMP, CNMP, OAB, FEBRABAN, ACREFI, CNF, ABRAREC, a Estratégia Nacional de Não Judicialização – ENAJUD. c) Fomentou a implantação de 95 Núcleos de Justiça Comunitária e duas Casas de Direitos, equipamentos públicos e equipes financiadas pelo MJ para promover a mediação de conflitos nas comunidades mais vulneráveis do País. Essas iniciativas serão intensificadas para que a lei tenha integral eficácia. f junho/julho 2015 financeiro 13


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Bate-bola com o novo diretor de Regulação do Banco Central: Otávio Ribeiro Damaso

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presidente Dilma Rousseff e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, efetivaram no dia 24 de abril a nomeação do economista Otávio Ribeiro Damaso na diretoria de Regulação do BC. Funcionário de carreira do Banco Central, o executivo, de 43 anos, acumula grande experiência no governo em assuntos relacionados à macroeconomia. Nos últimos anos, tornou-se um auxiliar muito próximo de Tombini. Entre 2009 e 2010, trabalhou como seu consultor na diretoria de normas e, quando Tombini assumiu a presidência do BC, virou o seu chefe de gabinete. Antes disso, Damaso fez carreira própria como técnico, servindo os governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Sua experiência em temas financeiros inclui a presidência do Conselho de Administração da Caixa Econômica Federal. Ele também é autor de trabalhos acadêmicos sobre microeconomia em parceria com Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Leia a seguir alguns dos posicionamentos do novo titular da diretoria de Regulação do BC. Revista Financeiro – Qual a importância do segmento como agente do mercado de crédito brasileiro? Otávio Ribeiro Damaso – As Sociedades de Crédito, Financiamento e Investimento (SCFI), comumente designadas de “financeiras”, constituem segmento importante para o atendimento das demandas por crédito, especialmente por crédito direto ao consumidor. Ao longo de décadas, essas instituições vêm desenvolvendo técnicas e procedimentos específicos de financiamento do consumo, inclusive no tocante a avaliação e mitigação de riscos. E nos últimos anos foram importantes promotoras do desenvolvimento do mercado de crédito. RF – Como avalia atualmente a participação dessas instituições no mercado financeiro? Damaso – É do interesse da sociedade a existência de instituições de tamanho e especialização diversifi-

Otávio Ribeiro cados, que atendam a nichos específicos, inclusive com Damaso: diretor de o desenvolvimento de tecnologias adaptadas e proporRegulação do BC cionais ao tipo do negócio. Essa diversificação contribui para aumentar a competição e a eficiência do mercado financeiro. A participação das financeiras nesse contexto, entre outros segmentos especializados, é aspecto importante sob a ótica das políticas públicas. RF – Quais são as perspectivas para o mercado de crédito? Damaso – Nos últimos anos, o Brasil apresentou um expressivo processo de inclusão financeira e o segmento de crédito desempenhou papel importante nesse processo. Para os próximos anos, a expectativa é de continuidade, porém em ritmo mais compatível com o atual estágio de desenvolvimento do segmento e com alguma diferenciação em relação à sua composição. Do ponto de vista do regulador, o importante é que o mercado continue se desenvolvendo com equilíbrio, transparência e sustentabilidade. RF – O senhor mencionou o segmento de micro, pequenas e médias empresas como importante nicho de atuação para as SCFI. Como o avalia o acesso dessas empresas no SFN? Damaso – As micro, pequenas e médias empresas compõem importante segmento econômico e o seu fortalecimento é fundamental para o desenvolvimento do nosso país. No entanto, identifico que há oportunidades para desenvolvermos o acesso desse segmento ao mercado de crédito. Essas empresas apresentam carências e peculiaridades que demandam tecnologias e avaliações diferenciadas, o que abre espaço também para a atuação de instituições especializadas. Esse, inclusive, é um tema prioritário da nossa agenda. Precisamos entender melhor e enfrentar os entraves ao desenvolvimento do mercado de crédito voltado a esse segmento. RF – Como melhorar esse cenário para as micro e pequenas empresas? Damaso – Aprofundar e qualificar melhor o diagnóstico sobre o mercado de crédito para o segmento das micro, pequenas e médias empresas são o primeiro passo para enfrentar eventuais entraves ao seu desenvolvimento. Por isso, esse é um tema prioritário da nossa agenda de trabalho ora em curso. Já identificamos alguns pontos. Por exemplo, sob a ótica operacional, um ponto relevante é a necessidade de se assegurar melhores condições e alternativas de garantias e um caminho a explorar diz respeito aos seus recebíveis. Outro aspecto importante é a questão da assimetria informacional, falha de mercado que é tanto maior quanto menor o porte da empresa. Precisamos desenvolver mecanismos que permitam o acesso, pelas instituições financeiras, a informações adequadas segundo o porte dessas empresas, a fim de subsidiar uma melhor tomada de decisão na concessão de crédito. f junho/julho 2015 financeiro 15

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executivo


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16 financeiro junho/julho 2015

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previdência

“O sistema previdenciário deve permitir às pessoas terem uma aposentadoria justa à luz das contribuições feitas”

Revista Financeiro – A questão previdenciária doria para quem se apoé tema de debate em vários países. Em que pontos a situação brasileira nessa área é pior do que a de outras nações, digamos, “equivalentes”, como os países da América Latina, a Turquia, a Grécia, em relação aos países da Europa Ocidental?

Fabio Giambiagi – A nossa situação é pior, no sentido de que gastamos mais do que países em situação similar, por três razões. A primeira é a existência de benefícios desacompanhados de exigências de contribuição prévia relevante, caso específico dos benefícios rurais. A segunda razão é a generosidade específica das pensões, um ponto fora da curva nas comparações internacionais. E a terceira é a precocidade das aposentadorias femininas, hoje em média de 52 anos nos casos por tempo de contribuição, uma idade muito inferior à do resto do mundo. RF – Em sua avaliação, que medidas precisariam ser tomadas de imediato para ao menos aliviar a situação do défice previdenciário brasileiro?

Fabio Giambiagi: senta por idade, para 66 economista e 61 anos, em curto prado BNDES e zo para homens e muespecialista em lheres, respectivamente, contas públicas e 67 anos e 62 anos daqui a alguns anos, em intervalo a ser politicamente negociado. Terceiro, regras muito mais rígidas para quem ingressar no mercado de trabalho daqui para a frente, com 40 anos de exigência contributiva. Quarto, regra de transição para aqueles que já se encontram no mercado de trabalho. Quinto, redução das futuras pensões para 60% do benefício original + 20 % por filho menor até o limite de dois filhos. Há outros pontos, mas são esses os mais importantes.

RF – O senhor considera que o Brasil não apenas não ataca os problemas que deveria atacar, como

Giambiagi – “De imediato” não adianta especu- cria obstáculos onde eles não existem. De que malar nada, porque sou bastante cético em relação às chances de haver uma reforma profunda no meio dessa desarticulação política toda. Posso falar do que eu defendo, seja agora ou no futuro. Primeiro, a idade mínima para quem se aposenta por tempo de contribuição, de 60 anos para os homens e 55 para as mulheres. Segundo, aumento da idade de aposenta-

neira essa avaliação impacta na previdência?

Giambiagi – Nós deveríamos pensar em como estaremos daqui a 30 anos e em função disso nos prepararmos adequadamente. Não apenas não fazemos isso, como adicionalmente o Congresso recorrentemente quer aprovar alguma benesse com junho/julho 2015 financeiro 19

Foto: Divulgação

Atenta aos temas relevantes à sociedade, a Revista Financeiro conversou com Fabio Giambiagi, economista do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Social) e especialista em contas públicas, sobre os problemas que envolvem o sistema previdenciário nacional


previdência base nos benefícios políticos de curto prazo de alguma medida. É uma completa miopia em relação aos efeitos dessas medidas sobre as gerações futuras.

RF – Quando se fala de previdência, está se falando de pessoas (principalmente de idosos). Sob essa ótica, o senhor não considera justo que se melhorem as condições dos aposentados e os recursos que eles devem receber depois de contribuírem por décadas?

RF – O senhor escreveu que a oposição adota postura “suicida” em relação à questão previdenciária, tendo em vista que ela poderá ganhar a eleição de 2018 e terá uma “bomba” em mãos com a piora do problema. Em sua opinião, qual deveria ser a postura da oposição neste momento?

Giambiagi – Eu entendo a lógica da oposição fazer oposição e

não ajudar o Governo a aprovar medidas de ajuste causadas por uma situação que o Governo criou. Isso faz parte da luta política legítima, mas uma coisa é a oposição não dar quorum ou não Giambiagi – Eu considero que um sistema previdenciário deve votar a favor do ajuste e outra muito diferente é aprovar uma permitir às pessoas terem uma aposentadoria que seja justa à luz medida populista liquidando com um instrumento que ela criou das contribuições feitas. Ora, estamos falando de aposentadorias quando era Governo. Isso é incompreensível e demonstra uma concedidas aos 50 ou 52 anos. Por qualquer ótica com que se olhe, postura que ninguém entende. O eleitorado precisa ter uma siessa é uma idade muito precoce. Não podemos raciocinar apenas nalização dos partidos para ter como se posicionar. Ora, se um com base no tempo de contribuição e sim tampartido defende uma coisa um dia e o oposto bém com base na expectativa de vida. Não é a no dia seguinte, isso passa ao eleitor a ideia de mesma coisa começar a contribuir aos 15 anos que todos os partidos são iguais, o que é péssie se aposentar aos 50 que começar aos 25 anos “A despesa com mo para a democracia. e se aposentar aos 60. Se a pessoa viver 85 anos, aposentadorias RF – Na sua avaliação, o Brasil está perdendo no primeiro caso ela contribuirá 35 anos e terá federais é de uma aposentadoria por outros 35 e no segundo uma oportunidade no período que se costuma por apenas 25. O fator previdenciário justamenchamar de “bônus demográfico”? Por quê? Há 9,2% do PIB e te calibra a aposentadoria considerando por um com servidores alternativas para reverter esse processo? lado as contribuições, mas por outro também a ativos expectativa de sobrevida. É um mecanismo inteGiambiagi – Já perdeu. A despesa do INSS, ligente, que deveria ser preservado. especificamente, era de 2,5 % do PIB em 1988 de 2,2% do PIB.

RF – A questão previdenciária tem impacto di-

reto no défice público. No entanto, não existem fatores que impactam ainda mais esse défice? Por exemplo, por que o governo não fala em cortar custos de pessoal, por exemplo? Em sua opinião, esses fatores não são mais perniciosos e têm maior impacto que a previdência?

Giambiagi – A despesa com aposentadorias federais é de 9,2% do PIB e com servidores ativos de 2,2% do PIB. Os números falam por si. Quem diz que o gasto com pessoal pesa mais do que as aposentadorias está mentindo.

RF – O senhor considera que a previdência complementar (aberta e fechada) tem condições de ao menos minimizar o problema da previdência pública no Brasil? Em que aspectos? O que poderia ser feito nesse sentido?

Giambiagi – Ela está se desenvolvendo gradualmente no Brasil, o que é muito positivo e pode mitigar alguns de nossos problemas no campo previdenciário, sim. O que cabe fazer é zelar bem pela fiscalização rigorosa para que não voltem a acontecer casos como o do Fundo Aerus.

20 financeiro junho/julho 2015

e será de 7,4 % do PIB este ano, praticamente triplicando o seu peso exatamente numa etapa da evolução demográfica da sociedade em que o processo de envelhecimento mal tinha se iniciado. É daqui para a frente que ele se tornará mais acentuado.

Os números falam por si”

RF – De maneira geral, o senhor tem um tom pessimista em relação ao futuro do Brasil. Não há maneiras de tentar melhorar esse futuro? Quais seriam essas opções? Ou a piora é irreversível?

Giambiagi – Mais do que pessimista, meu sentimento é de certa indignação com a miopia, o descaso e a irresponsabilidade. Pode haver também misturado um sentimento de urgência que decorre da idade. Quando se atravessou o Cabo da Boa Esperança dos 50, adquire-se a noção de que o tempo começa a ser escasso. Aos 30 anos dá para pensar “bom, na base de mudanças graduais daqui a 30 anos estaremos melhor”. Quando se está perto dos 55, conclui-se que talvez 30 anos seja muito tempo para esperar e a irritação com os problemas do país se torna maior. Não acho que a piora seja irreversível, mas pessoalmente me causa uma frustração testemunhar como o debate acerca de questões importantes é tão raso no Brasil. f


artigo Aquiles Leonardo Diniz

O maior problema do Brasil é a gestão pública

Artigo enviado em 19/6/2015

O

maior problema do Brasil, sem dúvida, é a má gestão pública. Há décadas os governos transformaram o país em um grande laboratório de experiências mal-sucedidas e de administração irresponsável. E esse quadro trágico vem se agravando com o passar dos anos, prova disso é a sequência de equívocos cometidos nas empresas públicas, como a Petrobras e a Eletrobrás, mas que se estende por todos os setores sem distinção, desde educação, saúde, transportes, segurança e serviços. É um desastre após o outro. Podemos afirmar que a corrupção é quase um detalhe ao avaliarmos a má gestão que dominou a Petrobras. Os desvios são altos, mas o endividamento da empresa se deve principalmente ao congelamento de preços dos combustíveis e dos investimentos para exploração e desenvolvimento dos campos do pré-sal. O cenário só mudará com uma gestão profissional e a diversificação do parque petrolífero brasileiro. O Brasil poderia muito bem baixar agora o valor da gasolina, como ocorre nos Estados Unidos, mas os erros constantes na política econômica impedem tal manobra. Os preços dos combustíveis no território norte-americano acompanham perfeitamente a oscilação do mercado internacional. Se o barril valoriza, o valor da gasolina sobe automaticamente, e o oposto também ocorre de acordo com a demanda. Como as regras econômicas impediram que a Petrobras aumentasse seus preços, quando este subiu no exterior a empresa passou três anos importando combustível no atacado por um preço acima do praticado no País, causando prejuízo estimado em R$ 81 bilhões. Em total contrassenso, o governo agora autoriza ajustes, elevando o preço dos combustíveis. E mais uma vez o povo brasileiro é quem vai pagar a conta, em total desrespeito ao bem-estar e à melhoria social para as famílias brasileiras. A alta da energia é um dos principais fatores para a alta da inflação, que superou os 8% em março no acumulado em doze meses. O factoide anunciado em período pré-eleitoral de redução de 18% na conta de luz, por pouco não quebrou o sistema elétrico. Acabou revertendo-se um ano depois em aumento de mais de 60% nas contas de energia, sendo que

somente em março o aumento médio foi de 22,08%, fazendo com que a inflação disparasse. O consumidor, em dois meses, já pagou ao governo R$ 1,2 bilhão, após a adoção das bandeiras tarifárias, sendo que a previsão é de arrecadação de R$ 17 bilhões até o final do ano O governo continua batendo na tecla de que a falta de chuva é o motivo da crise energética atual, sem assumir, mais uma vez, que essa situação é fruto de outra experiência desastrosa tomada no passado. No final de 2012, o governo editou a MP 579, que descapitalizou as empresas do setor elétrico e reduziu o preço da energia. Na época, o nível dos reservatórios já era baixo e a medida reduziu o preço de um bem já escasso. Ou seja, a falta de chuva só agravou o quadro já muito preocupante. O prejuízo provocado pela MP 579 chega a R$ 10 bilhões ao ano. O desequilíbrio fiscal em que o Brasil se encontra atualmente é fruto de más escolhas dos governantes. Nos últimos anos, o país foi laboratório de ações irresponsáveis e falta de planejamento. Será muito difícil reverter decisões erroneamente tomadas nos anos anteriores, como as postergações de reajustes. Os relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU) mostram que bancos públicos financiaram o Tesouro Nacional com créditos que passam dos R$ 40 bilhões, desrespeitando a Lei de Responsabilidade Fiscal e escondendo o péssimo desempenho das contas públicas nos últimos anos. Uma situação que demonstra claramente que o maior problema, além da má gestão, é a falta de transparência. O País atravessa um péssimo momenAquiles Leonardo Diniz to, com uma sucessão de notícias ruins. Um é diretor executivo do Banco relatório conjunto do FMI e do Banco MunIntermedium e vice-presidente dial aponta que o Brasil está puxando para da ACREFI baixo o crescimento da América do Sul. Com inflação alta, o brasileiro acaba comprando menos e o orçamento da família vai ficando cada vez mais curto. Outro erro crasso foi segurar o dólar artificialmente, provocando o alijamento das indústrias nacionais no mercado mundial. Nos últimos seis meses o ritmo das demissões aumentou significativamente, com o corte de vagas em todos os setores. Não há razões para alegria no momento e a insegurança em relação ao mercado só aumenta. Diante de tantas notícias apavorantes, deveria ser colocado em pauta algum tipo de punição para a má administração pública, já que a pergunta que fica é: até quando o povo brasileiro vai pagar a conta pelos erros cometidos por governantes despreparados? Como solução, devemos rezar, para que Deus seja verdadeiramente brasileiro! f junho/julho 2015 financeiro 21


segurança

Força-tarefa Seminário organizado pela ACREFI reúne autoridades, executivos do mercado financeiro e acadêmicos para discutirem as normas, os procedimentos legais e as ferramentas digitais que permitem minimizar a lavagem de dinheiro e combater os processos fraudatórios

D

esde o ano passado, quando a Operação Lava Jato foi deflagrada, o tema da lavagem de dinheiro nunca esteve tão em alta. Com o assunto no olho do furacão, a ACREFI, atenta às preocupações e ao rigor que o setor de crédito dedica a essa questão, promoveu no dia 23 de abril, no Renaissance Hotel, em São Paulo, o evento Fraude em Debate, que reuniu mais de 150 especialistas, acadêmicos, empresários e dirigentes do mercado financeiro. Foi uma manhã inteira dedicada apenas à reflexão sobre um assunto que tem dominado o noticiário

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nos últimos meses. Na abertura do evento, Antonio Augusto de Almeida Leite (Pancho), superintendente da ACREFI, mediou uma descontraída discussão a respeito do tema entre Marcos Vanderlei Ferreira, diretor de Crédito e Cobrança do Itaú Unibanco, e Eduardo Prado, diretor de Crédito e Cobrança do Banco PAN. Mesmo com as prisões de vários envolvidos na Operação Lava Jato e com diversas medidas judiciais em andamento, Vanderlei Ferreira, em uma das suas intervenções, sentenciou: “O fraudador hoje no Brasil não tem medo de fraudar”. Já Edu-

Fotos: Mário Bock

contra a fraude

Marcos Vanderlei Ferreira, diretor de Crédito e Cobrança do Itaú; Eduardo Prado, diretor de Crédito e Cobrança do Banco PAN; e Pancho, superintendente da ACREFI ardo Prado, afirmou que “para evitar o mal, é preciso conhecer ainda mais os clientes, os fraudadores e suas práticas”. “Para isso, a informação continua a ser a nossa principal matéria-prima”, afirmou Prado. Do ponto de vista acadêmico, Claude Machline, Djair Picchiai e Fernando Serson, professores da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP) e sócios da consultoria QUES – Qualidade e Excelência em Serviços, apresentaram os resultados preliminares do estudo Prevenção à Fraude Uso de Cartão de Crédito


Fotos: Mário Bock

Érico Ferreira, presidente da ACREFI, agradece a presença dos convidados do seminário no Varejo Presencial. Entre as conclusões que já podem ser depreendidas da pesquisa, destaca-se que a fraude com cartão de crédito no varejo pode comprometer até 3% do total do faturamento. Em outras palavras, isso pode significar uma perda de até 30% do lucro líquido. O valor não incluiu outros transtornos, como gastos envolvendo a contratação de advogados para reaverem o capital perdido. Os acadêmicos estimam que essas perdas possam representar até oito vezes o total do prejuízo em todo processo.

Para buscar uma solução que minimize radicalmente o problema, os professores da FGV-EAESP sugeriram a adoção no varejo de biometria facial — tecnologia que certifica em menos de um segundo a identidade do cliente pela face — em substituição da simples checagem de dados do formulário de cadastramento, preenchido pelo pretendente a um cartão, com consulta a outros bancos de dados, de CPF e RG. “Esse procedimento padrão adotado em geral no varejo consome mão de obra e é caro”, garantiu Claude Machli-

Claude Machline, Djair Picchiai e Fernando Serson, professores da FGV-EAESP e sócios da consultoria QUES junho/julho 2015 financeiro 23


segurança ne. Os processos de prevenção, porém, ainda enfrentam alguma resistência no Brasil, pois muitos profissionais, equivocadamente, consideram os custos de implementação do sistema mais altos do que aqueles gastos posteriormente com as fraudes. “Fraudadores procuram as empresas menos protegidas”, explicou Picchiai. “A prevenção à fraude é como uma vacina. Se não vacinar, vira epidemia”, preveniu o acadêmico da FGV. Após o coffee break, o seminário sobre fraude da ACREFI recebeu Geraldo Magela, secretário-executivo do Banco Central, – alguns dias antes de se aposentar do cargo. Ele falou sobre a missão do Banco Central, que por meio do Sistema de Pagamentos Brasileiro movimenta mensalmente R$ 27 trilhões, em 3,3 milhões de transações por mês. Magela reforçou também que o Comitê Estratégico de Gestão da Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo, no âmbito da Secretaria-Executiva do Banco Central, conta com importante participação das áreas de normas, fiscalização e da Procuradoria-Geral da República. Ele recordou que no meio de uma série de normas, em conjunto com outros órgãos, o BC é capaz de fiscalizar e aperfeiçoar a prevenção à lavagem de dinheiro

Ricardo Liáo: secretário-executivo do COAF

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Geraldo Magela: ex-secretário-executivo do Banco Central

e processos fraudatórios no País. O secretário-executivo do BC mostrou ainda os procedimentos que ajudam na prevenção da fraude, como a manutenção de cadastros e dos registros atualizados de todas as operações, comunicação automática de operações atípicas, aviso prévio do cliente à instituição quando de remessas a título de doação e saques em espécie maior que R$ 100 mil, entre outros cuidados.

Após a explanação de Magela, foi a vez de Ricardo Liáo, secretário-executivo do COAF (Centro de Controle de Atividades Financeiras), mostrar como o órgão atua na prevenção e no combate à lavagem de dinheiro. Ele revelou a tipificação dos crimes de lavagem de dinheiro, os controles para prevenção dos delitos e a estrutura do COAF. “Isso permite interagir com os demais órgãos reguladores, no âmbito de suas competências, com vistas à harmonização de procedimentos”, explicou Liáo. Ele disse também que órgão trabalha de maneira cooperativa e apresentou o modelo de supervisão do COAF, que é baseado em cinco princípios: conheça seu supervisionado; abordagem baseada em risco; uso massivo de tecnologia; medidas pedagógicas escalonáveis; e otimização dos ritos processuais. Segundo Liáo, o COAF é independente e não se confunde com nenhum órgão investigativo, como a polícia. Antes que o evento fosse encerrado, Érico Sodré Quirino Ferreira, presidente da ACREFI, agradeceu a presença de todos e falou que as normas e os procedimentos legais são fundamentais para fiscalizar e aprimorar ainda mais a prevenção à lavagem de dinheiro e ao combate dos processos fraudatórios que existem no País. f


artigo Claudio Felisoni de Angelo

Voltar a crescer

Artigo enviado em 9/6/2015

E

m 1989 ruiu o muro de Berlim. A barreira construída em 1961 para separar a cidade em duas partes, Oriental e Ocidental, manteve-se por décadas como um dos símbolos mais contundentes da situação convencionalmente denominada Guerra Fria. É esse o cenário do filme “Adeus, Lenin”. Uma senhora entusiasta do regime comunista entra em coma pouco antes de as paredes da muralha divisora dos dois mundos começarem a ser destruídas. Esse estado de inconsciência perdura por alguns meses. Finalmente a pobre senhora, em meados de 1990, recobra seus sentidos. Seu filho, entretanto, preocupado pela sua saúde, teme que ela descubra a vitória do capitalismo sobre o socialismo. Para evitar o choque, o zeloso homem oculta a realidade da velha senhora. Esse filme talvez pudesse ser ambientado considerando os elementos da política econômica, isto é, antes e depois das eleições presidenciais de 2014. Há, entretanto, uma diferença marcante. No filme, o filho se valeu de vários estratagemas efetivos para despistar a atenção da mãe. Agora não há como esconder. Como se ensina em economia: os recursos são escassos e as necessidades ilimitadas. Ou seja, toda escolha implica em um custo. Uma das mais importantes funções da teoria macroeconômica estabelece o seguinte: a demanda agregada é a soma do consumo, do investimento, dos gastos do governo, menos os tributos, e das exportações líquidas, isto é, deduzidas as importações. Pois bem, Keynes, economista inglês, em seu famoso Teoria Geral, ofereceu uma explicação para combater os dois principais problemas econômicos de uma sociedade, ou seja, a inflação e o desemprego. Para Keynes, havia duas combinações possíveis: desemprego alto e inflação baixa ou então desemprego baixo e inflação alta. Keynes considerava que o desemprego era resultante de uma frágil demanda agregada. Para aumentar o produto e, portanto, o emprego era necessário ativar a demanda agregada. Como isso podia ser feito? (a) aumentando o consumo; (b) estimulando investimentos, (c) aumentando os gastos sobre o total de impostos arrecadados e; (d) facilitando as importações. Para

combater a inflação, a proposta era obviamente inverter a direção dos movimentos. Embora Keynes tentasse dar uma explicação geral, a sua condição como observador era evidentemente específica, definida pelos elementos da crise de 29. Por essa razão, em seu modelo, não se concebe a ideia de inflação com desemprego, fato esse que Claudio Felisoni de Angelo se viu pela primeira vez no início é presidente do IBEVAR da década de 70. (Instituto Brasileiro de É esse quadro agora novaExecutivos de Varejo & Mercado mente que se desenha na econode Consumo) mia brasileira. O desarranjo das contas públicas, a interferência contínua do governo no vetor de preços, a ausência de políticas industriais, a perda de capacidade competitiva da economia brasileira frente aos demais países e também, é claro, o exagerado estímulo ao consumo, criaram as condições que hoje urgem serem alteradas. Em matemática se diz que uma condição pode ser necessária, porém não suficiente. Não poderia haver expressão melhor para designar a presente situação. Não há dúvida de que as medidas de contenção são absolutamente essenciais, particularmente no que diz respeito ao défice público. Tudo isso, contudo, não é condição suficiente. Crescimento? Uma loja desarrumada e com as finanças descontroladas tem pouca chance de se dar bem. E se arrumar a casa e organizar as finanças? Aumentam suas chances; apenas isso. O sucesso dependerá do que os concorrentes farão e da credibilidade dos donos da loja. Keynes cunhou a expressão “espírito animal” com o propósito de revelar a importância do pioneirismo na criação de riqueza. O empreendedor segue adiante: investe. Cria renda, que gera poupança, que financia novos ciclos de investimentos. Crescimento depende de credibilidade. Mais cedo ou mais tarde a realidade se impõe. No final do filme “Adeus, Lenin” fica a impressão de que a mãe sabia dos esforços do filho para esconder a verdade. f junho/julho 2015 financeiro 25


Fotos: Mário Bock

marketing

Oportunidades em tempo de crise Em evento promovido pela ACREFI e pela Serasa Experian, em São Paulo, executivos de marketing e de gestão discutem os benefícios gerados pelos programas de CRM e a valorização do relacionamento diferenciado das empresas com o consumidor

26 financeiro junho/julho 2015

E

nxergar o presente sem tirar os olhos do futuro. Com o propósito de estimular o setor a ampliar seu olhar empreendedor, a ACREFI e a Serasa Experian reuniram um time de especialistas no dia 28 de maio, no Hotel Renaissance, em São Paulo, para discutir o tema “Banking CRM (Customer Relationship Management) – Diferencial ou Essencial”, que contou com o patrocínio da Oiti. Convidado a fazer a abertura do evento, Marcelo Seraphim, diretor comercial da Serasa Experian, agradeceu a presença de todos e destacou a importância do evento para entender as transformações por que o País está passando. “Discutir novos ângulos e estratégias é uma maneira de ajudar o setor a sofrer menos com a crise ou até a sair fortalecido dela”, afirmou Seraphim. Uma entusiasta das ações de relacionamento com os clientes, Beatriz Galloni, vice-presidente de marketing da MasterCard para a América Latina e o Caribe, falou sobre a experiência vencedora e premiada do programa Surpreenda, da MastarCard. Com uma mecânica bastante simples, basta ao cliente fazer um cadastro no site do programa e passa a acumular pontos a cada transação realizada nos cartões de débito, crédito e pré-pagos da bandeira. Os


pontos acumulados são trocados depois por benefícios ofertados no site do programa. “Buscamos na inovação e desenvolvimento tecnológico de produtos e serviços relevantes à fidelização dos clientes B2C e B2B. O programa é um sucesso pela sua simplicidade, facilidade e relevância, com ofertas e promoções atraentes aos clientes”, contou Beatriz. Implantado já há seis anos, o Surpreenda surgiu, primeiramente, de uma promoção realizada em parceria com a TAM Viagens. Hoje, o programa já conta com mais de 60 parceiros e dezenas de ofertas, que agradam clientes de diversos perfis. “A proposta foi tornar tangível o relacionamento e estabelecer um canal direto entre a empresa e o consumidor. O retorno foi tão positivo que o programa foi adotado no Chile, na Argentina e no Peru. E agora a expansão está prevista para outros países. “A crise existe, mas temos que encontrar soluções para mudar essa realidade. Nós apostamos na criatividade. Tenho certeza que este será o ano do Surpreenda. Iremos desenvolver várias ações para expandi-lo ainda mais”, garantiu Beatriz.

Acreditar no amanhã

A segunda palestra da manhã de trabalho proposta pela ACREFI contou com a apresentação de

Marcelo Seraphim: diretor comercial da Serasa Experian José Renato Borges, sócio-presidente da Credz, administradora de cartões de crédito que atua há dois anos no mercado, em parceria com redes varejistas em diversos segmentos. Ele mencionou a prática bem-sucedida das ações de CRM desenvolvidas para um cliente do segmento de vestuário que teve retorno de 200% no setor de comunicação e redução de 18% nas ligações à central de atendimento. “Hoje é vital o uso do CRM para competir com a concorrência, adequar os serviços para atrair mais clientes. É preciso ter coragem para entender que investir junho/julho 2015 financeiro 27


marketing no sistema de relacionamento é aumentar a geração de valor a cada interação. Além de desenvolver a cultura e a marca para que sejam autênticas e entender o cliente como indivíduo”, enfatizou Borges. Para entender e interagir cada vez mais com seu público-alvo, de acordo com Borges, a Credz investe em várias ações de CRM, como: o e-mail marketing de ativação; SMS, que informa a melhor data para compra, mala-direta com promoções exclusivas, fatura personalizada com oferta, entre outros atrativos. Mais um benefício apresentado foi o aplicativo PiggyPeg, um software com o qual o cliente recebe sugestões de pontos de interesse próximos, por meio de um mapa interativo. Ao visitar esses lugares, ele é recompensado com depósitos bancários, sem precisar consumir nada no estabelecimento. “Vivemos um momento de crise. Porém, temos que acreditar que vai melhorar. Acreditar no País e investir em mobilidade para desenvolver a cultura e a marca para que sejam autênticas e que satisfaçam os diferentes perfis dos clientes”, afirmou Borges. Após o coffee break, Kevin Poe, vice-presidente da Consultoria Global – Experian Decision Analytics, abordou a importância da criação de valor nas experiências de consumo. Segundo o executivo, nos períodos de dificuldades econômicas, tudo desacelera e José Renato Borges: os consumidores tendem a diminuir os mosócio-presidente da Credz vimentos. Esse é o momento para enfrentar os desafios e criar soluções para engajar o cliente com serviços diferenciados. “A chave é conhecer seus clientes e criar envolvimento com eles. Não faz sentido tratar todos da mesma maneira, porque mais de 70% desejam experiências personalizadas. Outra dica é mensurar o valor dos investimentos, elaborar um mapa de estratégias”, relata o especialista. O executivo da Experian Decision Analytics apontou também os desafios enfrentados pelas empresas que querem implantar a gestão de relacionamento com os clientes. “Dentro das limitações é uma tarefa difícil, mas as técnicas de otimização são ferramentas poderosas, que podem ajudar. Comece com os dados gerais do cliente – mas isso não basta; use o TI como facilitador para testar, aprender e implantar e procure desenvolver o customer engagement por meio de monitoramento, de aprimoramento e tomada de decisões de forma adequada”, recomendou Poe. Como case de sucesso, Poe contou a história de um fornecedor de bens de consumo voltado à terceira idade, que descobriu a interação do seu call center como ferramenta para agradar e fidelizar os

28 financeiro junho/julho 2015

Beatriz Galloni: vice-presidente de marketing da MasterCard para a América Latina e o Caribe clientes. Com a mudança do processo, aumentou nos três primeiros meses em 10% o índice de satisfação do público. O especialista finalizou sua apresentação com uma frase de Gary Hamel, um dos pensadores de negócios mais influentes do mundo, autor dos livros “O Futuro da Administração” e “Liderando a Revolução”: “A maioria de nós entende que a inovação é de extrema importância. É a única garantia da lealdade de longo prazo ao cliente. É a única estratégia para superar uma economia enfraquecida”. Após a rodada de debate entre os palestrantes, Marcelo Seraphim encerrou o evento, reforçando que o tema é de extrema importância para a construção de um novo modelo de gestão de negócios. “Com o CRM é possível atender melhor às necessidades dos clientes, além de criar um serviço personalizado”, finalizou o diretor comercial da Serasa Experian. f

Kevin Poe: vice-presidente da Consultoria Global – Experian Decision Analytics


artigo Rodrigo Romero

Revisão do quadro econômico frente às últimas decisões do Banco Central do Brasil

Artigo enviado em 11/6/2015

A

terceira RCE G100 Reunião de Consenso Econômico teve como objetivos proceder à revisão do quadro econômico do País, em face das medidas de ajustes propostas pelo governo central e da fragmentação política. O G100 Brasil, composto por 100 membros (acionistas e presidentes) efetivos e nomeados, mais 15 membros (economistas-chefes) de reconhecidas organizações financeiras, considera que o ajuste fiscal é entendido como inevitável, embora pairem dúvidas sobre sua profundidade e extensão. Em princípio, parece que será bem menor do que o proposto pela área econômica, mesmo considerando que o pedido das autoridades governamentais tenha sido mais alto que o necessário, prevendo que, em alguma medida, o Congresso iria cortá-lo. Portanto, o cenário de contração da economia é certo, restando identificar o momento em que a credibilidade do governo seja recuperada, e os investimentos retomados, voltando a crescer o PIB. O tratamento inicial passou por medidas emergenciais para conter a inflação e evitar que o País perdesse o grau de investimento. Foram medidas contracionistas, pontuais, de curto prazo, tais como a contenção inicial de gastos, aumentos de taxas de juros, extinção de subsídios e aumento de arrecadação, tudo agravado pela depreciação da moeda nacional. O crédito tornou-se mais escasso, acompanhado por inadimplência preocupante que inspirou seletividade e outros cuidados na concessão dos empréstimos. A Operação Lava Jato conduziu a economia para um estado de paralisação geral. A proposta atual é boa e parece encampada pela presidente. Seus efeitos podem produzir um crescimento no próximo ano, tendo em conta a baixa base dos números deste ano. O consumo pode se recuperar mais lentamente em função do alto crescimento da inflação, o menor aumento da renda e o aumento do desemprego. Para este ano, pode-se esperar por momento bastante difícil. Embora não haja gerenciamento microeconômico, alguns fatos sinalizam para um quadro mais positivo em relação à competitividade nacional: a depreciação cambial, a redução do seguro desemprego e a discussão sobre um outsourcing mais amplo. De modo geral, os indicadores econômicos começam a melhorar na margem, apontando que o “carro está na direção correta” e deslocando as preocupações para a “velocidade que esse carro possa

ganhar” nos próximos períodos. A análise das chamadas variáveis financeiras, expectacionais, reais e de decisões sugerem um quadro mais otimista. Do ponto de vista das variáveis financeiras, os desempenhos apresentados são superiores aos de passado recente: câmbio, Ibovespa e títulos da dívida externa apresentam-se claramente melhores. As variáveis expectacionais, embora possam oscilar a cada fato ou Rodrigo Romero: notícia, também aparecem com alguma fundador e presidente recuperação. As variáveis reais, corresdo G100 pondentes aos indicadores que aferem a economia, apontam para melhoras recentes dos fundamentos econômicos. Portanto, espera-se que as variáveis de decisões possam começar a aparecer no segundo semestre, com a retomada das concessões e dos investimentos em infraestrutura. A melhor coordenação política pode produzir uma saída dessa situação de colapso. O terreno está sendo preparado. O setor exportador melhora seu desempenho graças ao câmbio. Por outro lado, o investidor externo reconhece no Brasil uma economia grande, estável e uma das opções de maior segurança para seus recursos financeiros. O desempenho recente do setor de serviços também induz à ideia de melhoria do nível de atividade. Nesse sentido, o otimismo do investidor externo parece maior que o otimismo do investidor local. Por conclusão, acredita-se que a visão dos economistas parece mais otimista que a visão dos empresários. Talvez isso decorra do fato de os empresários tenderem a enfatizar o quadro atual e os economistas estejam trabalhando com perspectivas de prazo um pouco mais longo. Não há ainda uma visão tão clara da intensidade e do tempo que o ajuste possa tomar. A redução de despesas anunciada até agora não é suficiente para cumprir a meta fiscal do ano. Os maiores impactos previstos para a economia brasileira estão relacionados aos juros e ao câmbio. A normalização dos juros norte-americanos, esperada para um prazo já não tão distante, é um fator de pressão para a taxa de câmbio. A ele se juntam os problemas crônicos de competitividade nacional. Os juros, obedientes à atual política monetária, devem prosseguir em níveis elevados durante todo o ano. f junho/julho 2015 financeiro 29


tecnologia

Trilha

Fotos: Mário Bock

do conhecimento Na 25a edição do CIAB Febraban, a ACREFI conduz apresentações que trataram dos procedimentos do COAF no combate à lavagem de dinheiro, dos avanços conquistados com a atuação da Secretaria de Reforma do Judiciário, dos benefícios do Big Data e, ainda, o perfil do cliente bancário em período de crise

C

omo não poderia deixar de ser, a ACREFI também marcou presença no CIAB Febraban, o maior evento de tecnologia para o mercado financeiro da América Latina, que aconteceu entre os dias 16 e 18 de julho, em São Paulo. No último dia do encontro, Antonio Augusto de Almeida Leite (Pancho), diretor superintendente da ACREFI, conduziu no auditório Alfredo Volpi, do Transamérica ExpoCenter, a trilha técnica “Bancos internacionais, de Investimento, Comerciais e Financeiras”, que concentrou no espaço palestras de Antônio Carlos Ferreira de Souza, diretor de Análise e Fiscalização do COAF (Conselho de Con-

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Antônio Carlos Ferreira de Souza: diretor de Análise e Fiscalização do COAF


Fotos: Mário Bock

trole de Atividades Financeiras); Flávio Crocce Caetano, secretário de Reforma do Judiciário; Laércio de Oliveira Pinto, CEO da Data4Credit, e Celso Grisi , professor da FEA/USP e diretor-presidente do Instituto Fractal. No início dos trabalhos, Antônio Carlos Ferreira de Souza, do COAF, fez uma explanação sobre o histórico e a estrutura do órgão responsável pela identificação de transações financeiras ilícitas que

Flávio Caetano: secretário da Reforma do Judiciário

contribuem na prevenção e no combate à lavagem de dinheiro. “O COAF não tem poder de polícia, a nossa obrigação é analisar as informações, produzir Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) e repassá-los para as autoridades”, frisou Souza. O executivo do COAF explicou que o sistema do órgão recebe cinco mil ocorrências diárias sobre transações financeiras de R$ 100 mil ou mais, enviadas, obrigatoriamente, por bancos – responsável, por enquanto, 58,9% das notificações –, empresas de cartões de crédito, factorings, seguradoras, entre outros. “É uma operação que sai da mesa do gerente do banco e segue diretamente para o sistema do COAF, explicou Souza. “Ter uma transação comunicada ao COAF não significa, porém, uma suspeição ilícita. É apenas uma notificação a que qualquer pessoa está sujeita.” Antes que uma simples comunicação enviada ao órgão seja incluída em um RIF, os dados são avaliados exaustivamente por analistas treinados, que contam com o apoio de avançada tecnologia. Feita a análise, as informações são classificadas por grau de risco, depois cruzadas com a base de dados da Receita Federal e de outros cadastros. Por ano, o COAF produz cerca de três mil RIFs, que servem de fonte para as investigações das autoridades. “O COAF trouxe luz às grandes transações financeiras, ajudando a coibir a lavagem de dinheiro. Antes o Estado era praticamente cego. Hoje o Brasil é referência internacional quando se trata de rastreamento de recursos financeiros”, completou Souza. Na segunda palestra, a ACREFI recebeu Flávio Caetano, secretário da Reforma do Judiciário, que compartilhou com a plateia do Auditório Alfredo Volpe, do CIAB Febraban, boa parte do conteúdo da entrevista exclusiva que concedeu à Financeiro (ler a partir da página 10), em junho/julho 2015 financeiro 31


tecnologia mais eficiente da tecnologia que Data é o tratamento das informações não envolve os processos eletrônicos estruturadas pelo Analytics. “Estima-se, e que os juízes deixarão de se atualmente, que 85% do conteúdo gerado preocupar com atos administrati- pelas empresas não é estruturado. São vos com a criação, em estudo, dos e-mails, pesquisas, reclamações, relatos cargos de gestor de política judi- de casos, imagens de sistema de seguciária e de administrador judicial. rança, entre outros registros, que podem O terceiro convidado da potencializar o seu negócio”, lembrou LaACREFI na trilha do CIAB Febra- ércio Oliveira. Fechando a jornada da ACREFI no ban foi Laércio de Oliveira Pinto, CEO da Data4Credit, que mos- CIAB Febraban, Celso Grisi, professor da trou os benefícios do Big Data FEA/USP e diretor-presidente do Instituto Auditório Alfredo Volpi, no Ciab Febraban: e do Analytics em transformar Fractal, falou sobre a desintermediação debate on-line com a plateia enorme quantidade de dados bancária no mercado de crédito (tema que reforçou seu ponto de vista sobre o estruturados e não estruturados em in- que o acadêmico analisa em sua coluna desafogamento do Poder Judiciário com sights que podem transformar o a aprovação da Lei da Mediação e Arbi- negócio. “São informações que, tragem, além facilitar o acesso à Justiça nas empresas financeiras, ajuno Brasil. “A mediação será importantís- dam no aumento da recuperasima para reduzir os 70% de congestio- ção de pagamentos em atraso, namento em processos que aguardam na redução da inadimplência, na prospecção de clientes, entre oujulgamento”, garantiu Caetano. Embora o Poder Judiciário nacional tras facilidades”, aponta Oliveira. tenha servidores bem-formados e inde- “Nos call centers é possível, por pendência efetiva entre os três poderes, exemplo, transformar voz em o secretário de Reforma do Judiciário texto, valorizando e monetizanLaércio de Oliveira Pinto: contou que um relatório global do Banco do os ativos digitais”, acrescenCEO da Data4Credit Mundial apontou falhas graves no siste- tou o CEO da Data4Credit. A tecnologia Hadoop tem ma brasileiro, como lentidão dos processos, dificuldade na execução das sen- sido uma importante aliada para o ar- Informe Fractal da Financeiro, pág.61), tenças, falta de meios, etc. No entanto, o mazenamento e processamento, com mostrando que o posicionamento do conarcabouço jurídico brasileiro conta com baixo custo, de volumes expressivos de sumidor com a instituição bancária muda uma boa Constituição, possui instrumen- informação. Isso, segundo Oliveira, torna de acordo com o cenário econômico. “Em tos legais que são referência no exterior, muito mais barato reunir em cloud com- momento de crise, o cliente não deseja como o Código de Defesa do Consumidor, puting essa imensidão de dados proces- ações de relacionamento com os bancos. a Estatuto da Criança e do Adolescente, a sados. Outra característica positiva do Big Ele quer recursos para manter equilibrado o fluxo de caixa, deixando em Lei Maria da Penha, etc. Segundo Caetasegundo plano o valor da taxa de no, o problema é de gestão, porque temos juros”, comentou Grisi. “Os clienmais de dois milhões de pessoas que estes buscam, nesse momento de tão de alguma forma ligadas ao Sistema aperto geral, instituições finande Justiça, com 17 mil juízes, 6,5 mil deceiras que sejam mais ágeis, mefensores públicos, 850 mil advogados, nos exigentes, mais flexíveis e 500 mil servidores da Justiça e mais de que tolerem eventuais atrasos”, um milhão de estudantes de Direito. ensinou o diretor-presidente do De acordo com o secretário de ReforInstituto Fractal, antes que Panma do Judiciário, as dificuldades da Justicho agradecesse a presença de ça devem ser minimizadas com a nova Lei todos que acompanharam a trida Mediação, com a possibilidade de meCelso Grisi: professor da FEA/USP e diretorlha da ACREFI na 25ª edição do lhor acesso e menor lentidão dos procespresidente do Instituto Fractal CIAB Febraban. f sos. Além disso, Caetano aposta no uso

32 financeiro junho/julho 2015


Preparem-se para o 10º SIAC O evento deste ano, que acontecerá no dia 11 de novembro, em São Paulo, já tem as presenças confirmadas de Delfim Netto, Joaquim Barbosa e do economista norte-americano Bill Rhodes

O

s empresários e os executivos do setor financeiro já têm um encontro marcado dia 11 de novembro, no Teatro Cetip, em São Paulo. É que nessa data acontecerá o 10º SIAC (Seminário Internacional ACREFI), o maior evento do setor de crédito no País, que este ano debaterá o tema “O Brasil que Nós Sonhamos”. O encontro reunirá importantes personalidades das áreas econômica e jurídica, que discutirão os caminhos que possam levar ao reequilíbrio da produção e das finanças. Além das palestras e do debate, o 10º SIAC apresentará uma nova rodada da pesquisa ACREFI/ TNS sobre a percepção dos principais executivos do setor financeiro a respeito dos rumos da economia nacional. Entre os convidados já confirmados estão o ex-ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto; o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa e o economista William (Bill) Rhodes, coordenador do comitê de bancos credores que renegociou a dívida externa brasileira na década de 1980 e autor do livro Banqueiro do Mundo. Depois das palestras, os especialistas participarão de um debate coordenado por Nicola Tingas, economista-chefe da ACREFI. A qualidade dos palestrantes é uma das características da tradição do SIAC, que tem se mostrado um dos mais importantes foros de ideias e de debates a respeito do cenário político-econômico nacional e internacional. A partir da avaliação feita entre os participantes que marcaram presença nas edições anteriores do seminário, as reflexões apresentadas durante o evento servem de balizamento para as decisões que serão concluídas em 2016. O evento será apresentado pela jornalista Christiane Pelajo. f

Delfim Netto: Economista, professor e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento

Joaquim Barbosa: Ex-procurador da República e ex-ministro do STF, presidente da corte entre 2012 e 2014

William Rhodes: CEO da William Rhodes Global Advisors e professor da Brown University

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educaçãofinanceira

Foto: Mário Bock

Mais responsabilidade e menos gastança À

s 11 horas da manhã do último domingo de maio, mais de 100 pessoas lotavam o auditório 3 da Expo CIEE 2015, no Pavilhão da Bienal do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Além de outros 235 internautas que acompanhavam on-line o evento por webnair, a plateia estava atenta à palestra da jornalista Denise Campos de Toledo sobre educação financeira. A iniciativa, patrocinada pela Cassiopae, faz parte do Projeto Finanças na Balança da ACREFI. Por ser um público formado basicamente por jovens, a especialista preparou sua apresentação a partir do tema: “Como lidar com a atual conjuntura econômica, seu impacto nas finanças pessoais e até em programas como o FIES (Fundo de Financiamento Estudantil)”. Para contextualizar os estudantes, a jornalista iniciou a palestra lembrando que durante muito tempo o crescimento do Brasil foi fundamentado no estímulo ao con-

34 financeiro junho/julho 2015

Projeto Finanças na Balança, da ACREFI, marca presença da Expo CIEE 2015 e reúne mais de 100 estudantes, além de outros 235 participantes via internet, em palestra da jornalista Denise Campos de Toledo

sumo. “O governo acreditou que a fórmula mágica para o crescimento contínuo da economia brasileira seria estimular o consumo, que os investimentos, dessa forma, viriam naturalmente. Não foi o que ocorreu. Uma sucessão de erros aconteceu. A inflação foi às alturas e os juros estão elevadíssimos. Nesse ambiente de recessão da economia, precisamos ter muita responsabilidade e mais cuidado ao lidar com as nossas finanças pessoais”, ressaltou Denise. A especialista lembrou também do corte de R$ 9,42 bilhões que o Governo Federal fez no orçamento do Ministério da Educação. “Além do problema no FIES, que levou as pessoas a recorrer à Justiça por dificuldades operacionais e por atrasos nos contratos, esse ajuste agravou ainda mais a situação de outros programas educacionais, como o Pronatec e o Prouni. No caso do corte da verba do FIES, muitos estudantes foram obrigados a sair atrás de alternativas,


como as linhas de crédito negociadas com os bancos por meio das universidades, o crédito consignado ou de recursos do sistema bancário convencional. Só que é preciso tomar cuidado, pois os juros são bem mais elevados e os prazos de pagamentos mais curtos”, advertiu a jornalista. Antes de abrir para as perguntas dos jovens, Denise disse que, “se tudo der certo, no próximo ano, as coisas começam a se encaixar na economia. No entanto, é preciso não descuidar do seu planejamento financeiro”. De olho vivo também nos acordos internacionais que envolvem o País, José Luis de Souza Nascimento, de 35 anos, questionou sobre as chances de sair do papel o contrato entre a China e o Brasil para a implantação do projeto ferroviário transcontinental, que deve percorrer o Brasil de leste a oeste, atravessando a Cordilheira dos Andes até chegar aos portos peruanos. Na visão da jornalista, a China tem mais

interesse do que o Brasil em buscar estabilidade no fornecimento dos itens mais demandados pelo seu país, em especial, a soja, o minério, o açúcar e os derivados de milho, produtos que o Brasil tem em abundância. “O desafio são os problemas do ponto de vista técnico e de logística. Para o Brasil, o acordo é positivo. Embora haja necessidade de cuidado porque a China coloca seu interesse de uma forma muito incisiva. O Brasil, por sua vez, não tem mais dinheiro”, explicou ela. Já o estudante de contabilidade João Gallo, de 19 anos, perguntou a respeito do tempo que será necessário para voltarmos a ter uma economia estável. Segundo Denise, uma das apostas para 2016 é que a inflação caia. “Isso dará uma folga no orçamento das famílias e nos custos das empresas. Esse diferencial permitirá ao Banco Central reduzir os juros, o governo tende a ter uma situação financeira mais equilibra-

da, além de diminuir o passivo das contas contraídas no ano passado. Por outro lado, há uma aposta grande nos projetos de infraestrutura, nos acordos comerciais e na revisão da carga tributária dos Estados. O desemprego, porém, pode afetar muito a capacidade de recuperação da economia no ano que vem. Mesmo assim, espero um crescimento de 1% do PIB (Produto Interno Bruto), saindo do patamar negativo, e a tentativa do governo em derrubar a inflação anual para 4%. Isso tudo, no entanto, depende de todo o esforço que o governo está fazendo hoje”, ponderou Denise. Pela internet, o estudante Carlos Alberto Machado quis saber se esse fraco desempenho da economia não afeta na busca pelo primeiro emprego. Segundo a jornalista, sim, dificulta muito aqueles que procuram uma oportunidade de trabalho, pois o atual momento é bem pior do que no início do ano passado, quando estávamos numa condição de quase pleno emprego. “Saímos de uma taxa de 4% de desemprego para 7% e que já atinge todos os setores da economia. Do final do ano para cá, a demanda por emprego cresceu e os cortes começaram a aparecer de uma forma muito expressiva. As empresas não estão conseguindo segurar nem os funcionários mais qualificados. Os jovens mais preparados podem ter melhor oportunidade no mercado de trabalho, mas deverão se conformar com uma remuneração menor”, analisou a palestrante. Antes de encerrar, Denise disse, ao abordar a onda de denúncia de corrupção, que a transparência é a melhor forma de evitar uma estrutura corrupta no Estado brasileiro. Afirmou também que o governo deve encolher, ficando apenas com as áreas prioritárias, cuidando das suas obrigações básicas, prestando melhores serviços em saúde e educação. “Ao tentar dominar tudo, abre-se margem para a ineficiência, para a gastança exagerada e para o uso político. Se o Estado for menor, a possibilidade de roubalheira será também menor”, finalizou Denise Campos de Toledo, convidando a todos para que estejam atentos às próximas edições do Finanças na Balança, consultando o site da ACREFI (www.acrefi.org.br). f junho/julho 2015 financeiro 35


artigo Denise Campos de Toledo

H

á uma angústia meio geral entre os brasileiros quanto à situação atual da economia. É uma enxurrada de dados ruins, que não têm mais aquela conotação de pessimismo, de que o governo sempre reclamava. Agora, até o próprio governo admite recessão neste ano, com inflação acima de 8%, superando muito o teto da meta, e ainda anuncia mais e mais cortes de gastos, que, na prática, Denise Campos de Toledo: são cortes de investimentos, com reflejornalista, comentarista de xos sobre o desempenho da economia economia da Rádio Jovem Pan e do Jornal da Gazeta de um modo geral. Fora isso, pra tentar e editora do site www. garantir o ajuste fiscal, medidas foram economiaemfoco.com.br tomadas também no sentido de ampliar a arrecadação, via aumento de impostos, sem esquecer dos juros em alta para fazer com que a inflação caminhe para o centro da meta (4,5%), até o final do ano que vem. Toda essa estratégia pode até começar a colocar a economia nos eixos, no que se refere às finanças públicas e à inflação. Só que os desdobramentos comprometem a perspectiva de retomada de atividade. Mais que isso, podem fazer com que o processo recessivo se intensifique ou dure mais, com reflexos também em 2016. Nesse caso, o desempenho da economia no próximo ano também pode ficar comprometido, pela herança que vai ficar deste ano. É a dúvida que está no ar... No curto prazo, não há dúvidas. A recessão está aí, com retração de atividade dos vários setores, queda da demanda doméstica, menos investimentos, demissões, processo que pode levar a uma retração maior do que se previa. Nada contra o ajuste fiscal ou o controle da inflação. Ao contrário. São, de fato, pontos fundamentais para viabilizar a retomada do crescimento econômico, com uma base mais sustentável. O problema é a fórmula adotada. Com exceção de uma ou de outra medida, como as alterações de benefícios da Previdência, que davam margem para fraudes, o ajuste fiscal não está vindo de uma revisão maior da estrutura de gastos do governo, mas do aumento de carga tributária e do corte de investimentos, com um custo pesado para a economia e a população. Ganhos sociais

36 financeiro junho/julho 2015

estão sendo comprometidos, o desemprego sobe e a renda cai. Os juros reforçam essa situação, tentando atacar o consumo, que já não é o grande responsável pela inflação, como até algum tempo atrás. O tarifaço, os aumentos de preços de alimentos, a inércia inflacionária, o repasse da elevação de custos têm tido peso muito maior. Mas o Banco Central que, no passado, endossou o esforço do governo no sentido de estimular o crescimento via consumo, derrubando demais os juros quando a inflação já estava pressionada, hoje tenta reverter as expectativas com uma política monetária austera demais, diante do quadro recessivo. Pelo andamento da economia, seria hora de cortar e não de elevar os juros, mas chegamos à pior das combinações: recessão com inflação nas alturas E medidas, em princípio, contraditórias vão sendo adotadas para corrigir, simultaneamente, os sérios desvios de rota da economia. Repito: os objetivos estão corretos. O problema é a forma, a intensidade da medicação, cujos efeitos colaterais podem deixar o doente debilitado por um tempo maior do que se previa. Deixaram a doença avançar demais, sem impor uma dieta mais restritiva. Os problemas se agravaram e, agora, o tratamento, além de não ser o ideal, pode fazer o doente piorar antes de melhorar. Algum oxigênio extra pode vir da aceleração de investimentos em infraestrutura, através do novo programa de concessões. Dependendo das condições de cada projeto, pode haver uma boa atratividade para a iniciativa privada e para o capital externo. Outra brecha de retomada da atividade viria de uma melhoria da competitividade da produção brasileira, dando condições para uma expansão das vendas externas de manufaturados. Mas, nos dois casos, é ver para crer. O histórico de encaminhamento dos projetos que dependem do governo não é muito animador e a competitividade, na prática, tem sido até comprometida pelas medidas relacionadas à correção de rota da economia. Medidas que reforçaram o chamado “custo Brasil”. Mas, pelo menos, parou a insistência na manutenção dos equívocos que jogaram a economia na atual situação. É aguardar a reação ao tratamento e esperar que 2016 também não seja um ano perdido. f

Artigo enviado em 17/6/2015

Até onde a situação vai piorar, antes de melhorar


artigo

A importância da regulação e supervisão comportamental ou de conduta para o Sistema Financeiro Nacional

Artigo enviado em 12/6/2015

A

regulação e supervisão comportamental ou de conduta trata da relação entre as instituições financeiras e seus clientes nos mais diversos níveis de atuação: atendimento, acesso, oferecimento de produtos e serviços, transparência, operações de crédito, contratos, tarifas, canal de comunicação, propaganda, suitability, enfim, em todos os aspectos que, de alguma forma, estejam relacionados ao que popularmente se conhece como boas práticas bancárias e financeiras. Esse ramo da regulação e da supervisão tem sido objeto de amplo e intenso debate nos mais variados fóruns e organismos internacionais que discutem temas de interesse dos sistemas financeiros e dos consumidores. O debate intensificou-se após a crise de 2007/2009, a qual evidenciou a importância da proteção do cliente de produtos financeiros para a estabilidade financeira. Nesse sentido, a crise também revelou que a ausência de uma regulação forte, que atue em prol dos consumidores, poderia colocar em risco todos os benefícios decorrentes do processo de inclusão financeira. Autoridades reguladoras da União Europeia, do Reino Unido, dos Estados Unidos, apoiadas por ações do Grupo dos 20 (G20), do Financial Stability Board (FSB), do Banco Mundial (World Bank) e da Organization for Economic Co-operation Development (OCDE), entre outros, têm dedicado amplo espaço em suas agendas e despendido esforços significativos para que esse conjunto de regras estimule o equilíbrio entre a estratégia de negócios das instituições financeiras e os interesses dos clientes. No caso dos Estados Unidos, além de terem sido instituídos requerimentos legais específicos por meio da lei conhecida como Dodd-Frank Act, foi criada uma agência para tratar exclusivamente de assuntos consumeristas, o que inclui as instituições financeiras. A recomendação básica, comum a todos, é a de que essa relação se dê com base em princípios éticos e em valores e compromissos claros e definidos. Para

Sergio Odilon dos Anjos

permitir ganhos de eficiência, muitos reguladores passaram também a disSergio Odilon dos Anjos: por de novos instrumentos legais coconsultor e sócio titular da ercitivos, mais ágeis e adequados à reConsultoria Comportamental alidade da economia e dos mercados. – Treinamento em Produtos As ações legais e regulatórias de e Serviços dos Mercados proteção aos consumidores de serviços Financeiros e de Capitais financeiros contam, ainda, com o apoio de iniciativas voluntárias, algumas funcionando como uma espécie de autorregulação ou supervisão auxiliar dos legisladores e reguladores. Por exemplo, em 2013 foi criada, a partir de um grupo informal composto por autoridades de supervisão, a International Financial Consumer Protection Organization (FinConet). Presente a importância dos sistemas financeiros para o desenvolvimento econômico e social, o compromisso declarado do organismo é o de reforçar, por meio da troca de experiências de supervisão entre os reguladores, a proteção aos consumidores de produtos financeiros, aumentar a confiança entre as partes e reduzir o risco sistêmico. Em termos conceituais, a regulamentação comportamental ou de conduta representa uma vigorosa ferramenta de mitigação de riscos, permitindo, se bem compreendida e adotada pela instituição financeira, que uma atuação preventiva, prudencial, focada na identificação da origem dos problemas que cercam a relação entre as partes, resulte em redução de custos e evidentes ganhos de imagem. Visto sob outro ângulo, a não adoção de políticas que busquem a melhoria dessa relação trará prováveis prejuízos reputacionais e financeiros aos intermediadores financeiros. O Banco Mundial, em sua publicação “Good Practices for Financial Consumer Protection”, antes de relacionar as 39 ações que considera como boas práticas, resume em poucas palavras sua visão sobre assunto (em tradução livre): “Um funcionamento adequado das regras de junho/julho 2015 financeiro 37


proteção ao consumidor fornece efetivas salvaguardas para o cliente de produtos financeiros, ao mesmo tempo em que dá poderes a esse mesmo consumidor para o exercício de seus direitos e para o cumprimento legal de suas obrigações”. Vale ressaltar, a definição evidencia a importância de cada um nesse processo, com ênfase nos direitos e obrigações de ambas as partes. É muito importante, portanto, que as instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional (SFN) entendam corretamente todo esse movimento e o que ele significa para que possam se beneficiar, em conjunto com seus clientes, de todo o processo. Nesse sentido, no caso brasileiro, muito já foi feito pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e pelo Banco Central do Brasil. Denominado pelo regulador como “Medidas de Correção de Assimetrias de Informação, Estímulo à Concorrência e Aumento da Transparência”, ao longo dos últimos anos foram baixadas normas que têm exatamente o propósito de criar condições adequadas à escolha, por parte do cliente, da instituição financeira com a qual pretenda se relacionar. Ao permitir a comparação de preços dos produtos e serviços financeiros, a regulação estimula a criação de um ambiente verdadeiramente comercial, visando beneficiar não apenas as partes diretamente envolvidas, mas a sociedade e a economia como um todo. Integram essa regulamentação as normas sobre transparência contratual, portabilidade das informações cadastrais, portabilidade do salário, portabilidade do crédito, contas de depósitos, rede bancária, correspondentes no País, tarifas bancárias, tarifas de cartões de crédito, custo efetivo total (CET), valor efetivo total (VET), certificação, ouvidoria, suitability, apenas para citar as mais conhecidas. Na construção desse modelo, além dos estudos técnicos relacionados à estabilidade financeira que precedem a edição de normas por parte do CMN e do Banco Central, foi muito importante e decisiva a participação de entidades que atuam na defesa do consumidor, em especial do Ministério Público Federal (MPF), por meio da 3ª Câmara de Coordenação e Revisão – Consumidor e Ordem Econômica (3ª CCR) e da Secretaria Nacional do

Consumidor (Senacon), além da Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados. Essa parceria não se limitou ao processo de elaboração das minutas, mas resultou também no posterior estabelecimento de convênios de cooperação e de troca de informações entre os mencionados órgãos e o Banco Central, de forma a manter perene e efetiva essa relação. Entretanto, não obstante esse arcabouço regulatório e de supervisão seja citado e considerado, inclusive internacionalmente, como referência, o modelo brasileiro necessita de aperfeiçoamentos. Isso pode dar-se não apenas por meio de outras medidas normativas – ou mesmo legais –, mas, também, através da adoção de medidas voluntárias de transparência, de autorregulação, de capacitação, de educação financeira, de certificação dos empregados das instituições financeiras, de aperfeiçoamento da governança das instituições, do engajamento das associações de classe, enfim, de tudo que diga respeito à possibilidade de melhoria da relação dos clientes e as instituições financeiras. Esse cenário torna-se ainda mais premente e desafiador se forem levadas em consideração a dinâmica e a interconexão dos mercados financeiros com outros mercados, em especial o de capitais e de seguros, com a frequente introdução de novos produtos e serviços, de opções na concessão e na forma de distribuição do crédito, das regras de tributação e de incidência de compulsórios, além do oferecimento de diversos canais de venda. Exemplos claros estão no dia a dia das pessoas: internet banking, transações via celular, operações praticadas por meio de correspondentes no País, crédito consignado, crédito imobiliário, crédito direto ao consumidor, consórcio, moedas virtuais, arranjos de pagamentos, instituições de pagamento – o que inclui o imenso mercado de cartões de débito e de crédito –, entre outros, sem mencionar demais produtos também comercializados na rede bancária, como seguros e títulos de capitalização. Sob o aspecto institucional, reconhecendo a relevância do tema, o Banco Central deu um passo decisivo ao aperfeiçoar sua estrutura organizacional. Para tanto, foi criada a Diretoria de Relacionamento Institucional e Cidadania (Direc), cujo nome por si só define a importância

“À comparação de preços dos produtos e serviços financeiros, a regulação estimula a criação de um ambiente verdadeiramente comercial”

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artigo Sergio Odilon dos Anjos e alcance da área, e uma unidade específica na Diretoria de Fiscalização (Difis), denominada Departamento de Supervisão de Conduta (Decon), para verificar a aderência das instituições financeiras às regras e aos princípios estabelecidos. Essa alteração em seu organograma trouxe expressivo reforço às ações regulatórias, sob a responsabilidade da Diretoria de Regulação (Dinor). Portanto, a atuação do Banco Central se dá de forma coordenada, tratando no mesmo processo os aspectos regulatórios, preventivos, de acompanhamento das reclamações, de educação financeira e de fiscalização, o que inclui, caso necessário, a instituição de processos sancionatórios. Ainda assim, sob o aspecto formal, revela-se necessário que esse conjunto de ações seja completado com a edição de regras que estabeleçam um compromisso expresso da instituição financeira com todo o processo que envolva o cliente. Experiência bem-sucedida nesse sentido foi feita por meio da norma que trata da obrigatoriedade de as instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central, quaisquer que sejam, instituírem uma política de responsabilidade socioambiental. Algo do gênero poderia ser feito no que diz respeito à regulação e supervisão comportamental, ou seja, a norma atribuiria responsabilidade à própria instituição (e a seus dirigentes) para que ela estabeleça, com base em recomendações mínimas do regulador, as regras e as condições que regerão essa relação. Na condição de formuladora da própria política, caberia à instituição, em primeiro lugar, cumprir o que ela mesmo estabeleceu. Também aqui se aplicaria o conceito de relevância e proporcionalidade, por meio do qual cada instituição avalia seus riscos conforme a natureza e a complexidade de suas operações e serviços. O regulador funciona como indutor de boas práticas e fiscalizador dos compromissos assumidos. De toda forma, baixada ou não a regulamentação complementar, é imprescindível o engajamento de todas as instituições financeiras nesse processo, que se deve dar da forma mais rápida e efetiva possível. A rigor, algumas instituições já adotam práticas que levam em consideração esse novo cenário, incluindo em suas políticas internas recomendações que buscam melhorar a relação com o consumidor dos

produtos e serviços financeiros oferecidos. Algumas associações de classe também têm realizado esforços para que haja um maior envolvimento de seus associados, criando códigos de conduta ou promovendo ações de autorregulação. Tudo isso é importante, mas não se tem revelado suficiente. A realização de operações que resultem em demandas judiciais, ações do Ministério Público, solicitações recorrentes do Procon, aumento do número de reclamações e denúncias, entre outros, tendem a afetar fortemente a imagem geral das instituições financeiras. Nunca é demais lembrar que a imagem é o bem mais caro às instituições. Como o risco de imagem no sistema financeiro se dissemina com maior velocidade do que em outros segmentos, provavelmente por conta da natureza da atividade e pelo expressivo número de sociedades que o integra, o assunto deve ser encarado de forma ampla. Exemplos de ações que buscam melhorar a parceria entre a instituição e seus clientes podem estar entre aqueles relacionados à melhoria do processo de transparência como um todo, por meio de contratos mais claros, da evidenciação dos direitos e obrigações, do aperfeiçoamento dos canais e da forma de venda dos serviços e produtos, da clareza dos extratos, do aperfeiçoamento do sistema de atendimento ao consumidor e de ouvidoria, do oferecimento de alternativas de resolução de pendências, da instituição de compromissos públicos sobre a política adotada, entre outros. Portanto, as instituições têm motivos e incentivos suficientes para adequar seus modelos de negócio à realidade aqui destacada o mais rapidamente possível, de preferência adotando posições coordenadas e combinadas entre si. Isso criaria condições para deixar mais transparentes os direitos e obrigações das partes envolvidas, além de reforçar e evidenciar o papel da intermediação financeira como elemento vital no desenvolvimento econômico e social. Para produzir resultados mais rápidos e efetivos, essa ação deve ser realizada em conjunto com os reguladores, com os entes de defesa do consumidor e com os próprios clientes, nesse caso mediante pesquisas de opinião, avaliação de sugestões e a realização de treinamentos envolvendo as partes interessadas. f

“O regulador funciona como indutor de boas práticas e fiscalizador dos compromissos assumidos”

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pautadodia Ciclo de Debates

Credibilidade para resgatar investimentos O Brasil precisa recuperar sua credibilidade para trazer de volta os investimentos, principalmente em infraestrutura, que deverão ser os principais impulsionadores da retomada econômica. A tese foi defendida pelos economistas Sérgio Vale e Tereza Fernandez, sócios da consultoria MB Associados. Eles participaram da segunda edição do Ciclo de Debates ACREFI, dia 4 de maio, no qual se discutiu a conjuntura e as perspectivas da economia brasileira. Acompanhe os principais temas debatidos pelos economistas 40 financeiro junho/julho 2015


LUZ NO FIM DO TÚNEL Tereza Fernandez – O segundo

a “bala de prata”: a volta da CPMF.

trimestre começou com certo alívio, em especial do mercado financeiro, que é binário: ou compra ou vende, e decidiu comprar. Mas, é cedo para dizer que as coisas se acomodaram na nossa economia. Sérgio Vale – Pode-se dizer que o cenário melhorou, ainda mais porque estava muito ruim. Ninguém poderia imaginar que o novo governo Dilma começaria com tantas notícias negativas. Mas a presidente “terceirizou”: a parte econômica ficou com Joaquim Levy e a política com Michel Temer. Mas não se pode considerar que passamos a ter um equilíbrio estável. Ao contrário, a situação é frágil porque nem Levy nem Temer têm a caneta, ou seja, não têm a palavra final.

OS RISCOS Tereza Fernandez – A situa-

BUSCA DE SAÍDAS Tereza Fernandez – A presidente Dilma vai tentar manter um equilíbrio aparente na economia. A aposta é que a economia ainda não piorou o suficiente para sensibilizar a população em geral. Mas, quando a população perceber o que está acontecendo, a situação pode se agravar. A população pode ter a percepção de que estão tirando dela e que não devolverão. Sérgio Vale – Quando Joaquim Levy foi escolhido, a presidente só pensava em uma coisa: evitar a perda do grau de investimento. Conseguiu, por enquanto, esse objetivo. Mas, é possível que o governo não consiga cumprir a meta de ter superávit de 1,2% do PIB. Aí, terá duas opções: reconhecer que não teve sucesso e negociar com as agências de classificação de risco; ou usar o que se considera

ção de Joaquim Levy é delicada. Pode ser que o Brasil não consiga cumprir o objetivo de superávit de 1,2%. Mesmo que ressuscite a CPMF, aumentando a arrecadação, cria-se uma dificuldade: como a bancarização cresceu nos últimos anos, a chamada nova classe C tem mais consciência do que essa medida representa e vai perceber que pagará a conta. Sérgio Vale – O País sofre com tantos anos de desajustes, que começaram em 2006, no segundo mandato de Lula. O ajuste não se fará em apenas um ano, não é possível, o que aumentará o desgaste de Dilma e de Lula, natural candidato a voltar ao Planalto na próxima eleição. O risco político é grande, podem voltar manifestações de porte como aconteceu em março. O governo já começou com sérias dificuldades e é difícil retomar o caminho.

INFRAESTRUTURA, A BOLA DA VEZ Tereza Fernandez – O Brasil continua a ser atraente para investidores, inclusive os estrangeiros. Estamos nos tornando realmente o celeiro do mundo. E existe a percepção de que o País vai melhorar a longo prazo – o problema é qual o tamanho desse longo prazo. A infraestrutura é o único setor que vai puxar investimentos. Deve-se lembrar, no entanto, que as grandes construtoras estão sendo acusadas na Operação Lava Jato e todas elas participam de aeroportos, por exemplo. Sérgio Vale – Dos grandes paí-

ses, o que mais pode atrair investimentos em infraestrutura é o Brasil. Se tiver o arcabouço necessário, o investimento vai deslanchar nessa área. Mas o problema é que o Brasil, depois de Fernando Henrique e do primeiro mandato de Lula, parece ter voltado ao passado, o que provoca receio no investidor externo.

A VOLTA AO PASSADO Tereza Fernandez – Retrocedemos em relação à produtividade. Basta ver as nossas cadeias produtivas em comparação com as de outros países. Há exceções, como o setor de papel e celulose, mas no geral estamos em desvantagem. Na indústria automobilística, por exemplo, ficamos ultrapassados. As empresas em geral começaram o ano sem saber se teriam água, luz e crédito. Também ganhou força outra vez a visão estatizante, como se viu na adoção do modelo de partilha para o petróleo. A Petrobras teve que segurar sozinha todo o investimento. Sérgio Vale – A abertura da economia começou no governo Collor e seguiu com o Plano Real. Mas nos últimos oito anos o Brasil deixou a produtividade de lado e passou a olhar apenas para a demanda. O crescimento veio pelo consumo, mas não se sustenta. É preciso mudar, mas tem que ser com uma política de Estado, não de um ministro.

CARROS E IMÓVEIS Tereza Fernandez – O mercado automobilístico, no segmento de veículos comerciais leves, cresceu em média 10% ao ano de 2003 a 2012. Nenhum setor cresce nesse nível por muito tempo. E

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pautadodia Ciclo de Debates todos estão preocupados com o que aconteceu com o crédito a veículos, em que a inadimplência cresceu bastante nos anos de mercado aquecido, em que muitos compraram carros zero-quilômetro e tiveram dificuldades para pagar. Quanto ao mercado externo, nossos carros em geral não têm qualidade para Sérgio Vale: competir. Quando vou sócio da consultoria MB a reuniões com exeAssociados cutivos de empresas pergunto: “quem tem carro brasileiro?”. Pouquíssimos levantam a mão. Atualmente, o México está à nossa frente no setor automobilístico. O mercado de seminovos está mais atrativo, inclusive para o crédito. Sérgio Vale – No setor imobiliário, tivemos um “boom” que durou anos. Mas a retração começou em 2014. Não houve bolha, o mercado se retraiu até porque teve um período relativamente longo de alta. Os bancos não veem problemas no atual período de retração dos imóveis. A tendência é que a queda aconteça principalmente no segmento de imóveis comerciais, com preços e lançamentos em queda.

“O que falta é credibilidade. Essa deve ser a prioridade do ministro da Fazenda”

POLÍTICA X ECONOMIA Tereza Fernandez – Quando Dilma ganhou em 2010 o cenário era tranquilo. Na próxima eleição um eventual candidato de esquerda será visto com restrições. Será difícil resgatar a credibilidade antes disso, não vai depender apenas do ministro da Fazenda e do Banco

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Tereza Fernandez: sócia da consultoria MB Associados

Central. Para isso, vamos precisar de um estadista. Sérgio Vale – Não existe vácuo na política. Dilma abdicou do comando da política e Eduardo Cunha e Renan Calheiros ocuparam o espaço. Joaquim Levy passou a ter o comando da economia. Mas não se pode esquecer que o Legislativo e um ministério não têm todo o poder do Executivo. Muitas coisas dependem da caneta do presidente.

“SE EU FOSSE MINISTRO...” Tereza Fernandez – A prioridade do ministro da Fazenda tem que ser a infraestrutura. A maior parte do modelo para esse setor está delineado, mapeado. O que falta é credibilidade. Essa deve ser a prioridade do ministro, seja quem estiver no cargo. É preciso ter postura e mostrar que é digno de credibilidade, ou seja, mostrar o que vai fazer e convencer de que não haverá mudanças no meio do caminho. Sérgio Vale – Em primeiro lugar, o ministro precisa mostrar transparência, que é essencial para arrumar a casa. Em segundo, deve estimular a produtividade. E precisa também aproveitar as oportunidades que existem no setor de infraestrutura. Ter um plano para concessões, por exemplo, que seja claro em pontos como a taxa de retorno. Não se pode esquecer da grande importância da credibilidade. O País precisa de um fiel garantidor. f


painelcetip

Fonte: Inteligência de Mercado Cetip

Financiamentos de veículos somam 2,2 milhões no ano

Do total financiado nos primeiros cinco meses de 2015, 1,02 milhão foram unidades novas e 1,248 milhão de usadas

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os primeiros cinco meses do ano, o Brasil financiou 2,268 milhões de veículos, entre automóveis de passeio, comerciais leves, motos e pesados. O resultado mostra uma queda de 11,9%, em relação ao mesmo período do ano passado. Do total financiado no ano, 1,02 milhão foram unidades novas e 1,248 milhão de usadas. O levantamento é da Unidade de Financiamentos da Cetip, que opera o Sistema Nacional de Gravames (SNG), base integrada de informações, que reúne o cadastro das restrições financeiras de veículos dados como garantia em operações de crédito em todo o Brasil. O SNG impede que o processo de financiamento de veículos seja suscetível a fraudes sistêmicas. “As incertezas em relação à economia brasileira e a contínua queda do índice de confiança do

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consumidor podem justificar o recuo no volume de veículos financiados no País”, afirma Marcus Lavorato, gerente de Relações Institucionais da Unidade de Financiamentos da Cetip. Na contramão da queda dos financiamentos, os automóveis leves de quatro a oito anos de uso apresentaram uma alta de 1,2% em relação ao mesmo período do ano passado e somaram 632 mil unidades financiadas de janeiro a maio de 2015. O mesmo movimento foi observado nos financiamentos de motos. Enquanto as unidades novas apresentaram queda de 11% de janeiro a maio de 2015, na comparação com o mesmo período do ano passado, as vendas financiadas de motos com quatro a oito anos de uso cresceram 13,1%. “Com o desaquecimento da economia, os consumidores estão optando por veículos mais baratos e, assim, os usados ficam mais atrativos”, explica Lavorato. f


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supermáquinas

Fotos: Divulgação

Perfeição Equipado com motor V12 biturbo 6.6 litros, de 570 cavalos de potência, Rolls-Royce Ghost Series II chega ao mercado brasileiro por R$ 2,9 milhões. A importadora oficial da marca espera vender por aqui até 15 unidades por ano

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esmo em período de contenção de gastos é praticamente impossível ficar indiferente a um Rolls-Royce. A mais recente tentação da marca britânica é o Ghost Series II, que chega ao mercado brasileiro por R$ 2,9 milhões, valor que pode variar em tempos de câmbio instável. Equipado com motor V12 biturbo 6.6 litros, de 570 cavalos de potência, o carro atinge os 100 km/h em 4,9 segundos, com velocidade máxima limitada eletronicamente em 250 km/h. Se você ficou interessado, saiba que essa joia sobre rodas será

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vendida aqui apenas sob encomenda, com espera de pelos menos seis meses. Nada disso, porém, preocupa os representantes da Via Italia, importadora oficial da marca, que preveem comercializar por ano, no Brasil, até 15 unidades do modelo.


britânica Com comprimento de 5,40 metros, o Ghost Series recebeu poucas alterações em relação à versão apresentada há seis anos: a grade dianteira está um pouco menor, o para-choque dianteiro tem novo desenho, os faróis são de LED, o vinco do capô passou por leve modificação e a linha lateral do carro foi redesenhada. Também foram acrescidos cromados nas entradas de ar dianteiras.

Das pistas da F1, o lançamento da Rolls-Royce traz um sistema que permite detectar as condições do asfalto e executar programação de ajuste automático nas trocas de marchas. No interior, o carro foi equipado com tela

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supermáquinas

Motor

Estrutura

V12 biturbo de 6.6 litros, 48 válvulas Injeção direta de combustível Capacidade cúbica: 6.592cc Potência máxima: 570 cv (420kW) a 5.250 rpm Torque máximo: 780 Nm a 1.500 rpm

Portas: 4 Lugares: 5 Comprimento: 5,39 m Largura: 1,94 m Altura: 1,55 m Distância entre-eixos: 3,29 m Capacidade do porta-malas: 4,9 litros Capacidade do tanque de combustível: 82,5 litros Peso: 2.360 kg

Transmissão

Automática de 8 velocidades

Desempenho

Velocidade máxima: 250 km/h (limitada) Aceleração de 0 a 100 km/h: 4,9s Aceleração de 0 a 1000 metros: 23,1s

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sensível ao toque, conexão wi-fi e recepção de imagens em HD. Os bancos foram redesenhados e os traseiros permitem inclinação, aquecimento, resfriamento e massageadores. Seu sistema de som apresenta ainda 18 alto-falantes, que distribuem e equilibram o áudio de maneira harmoniosa. Não faltam tentações em mais um modelo da marca que encanta reis, rainhas, chefes de Estado e – por que não? – meros plebeus. f


personagem

O grande anfitrião Aos 88 anos, Ático Alves de Souza, maître do restaurante Parigi, em São Paulo, há 60 anos encanta chefes de Estado e clientes anônimos com o sabor do bollito, prato camponês clássico do Norte da Itália Por Gustavo Girotto e Paulo Giandalia (foto)

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ão importa o cargo, sua audiência na mídia ou o tamanho da sua conta bancária, Ático Alves de Souza, maître especial do Restaurante Parigi, em São Paulo, não se altera diante da fama dos clientes cinco estrelas. Aos 88 anos, ele é reverenciado por exercer a sua função sempre com a mesma simplicidade, elegância e competência. São chefes de Estado, grandes empresários, diretores de cinema, tenores, escritores ou até mesmo frequentadores anônimos. Sua cordialidade e discrição não se abalam. Talvez seja por isso que se tornou uma referência entre os apreciadores da boa mesa. “O primeiro Presidente da República que eu servi foi Getúlio Dornelles Vargas, líder civil da Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha”, faz questão de enfatizar Ático. “Depois disso, vieram mais de nove ou dez presidentes. Não posso esquecer também do Rei Juan Carlos I, da Espanha, e sua esposa, a Rainha Sofia, e do casal real da Suécia, Rei Gustavo e a Rainha Sílvia (brasileira), Nelson Mandela, Pablo Neruda, Gore Vidal, José Carreras, Luciano Pavarotti. A lista é grande; lamento não me lembrar de todos”, desculpa-se com sua natural amabilidade. Às quartas-feiras e aos domingos, Ático reina absoluto no Parigi, à frente do carrinho do bollito, prato camponês clássico do Norte da Itália, que simploriamente pode ser descrito como um mix de carnes cozidas. Com enorme destreza, corta músculos, paletas de vitela, língua, charques, frangos e os embutidos cotechino e zampone. Em seguida, coloca pirão, repolhos, batatas-doces, mandioquinhas, cenouras e cebolas. Com o prato finalizado, chama o cliente pelo nome e sugere à um assistente que leve os acompanhamentos especiais:

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molho de raiz forte, mostarda di cremona e salsa verde. “Faço o que gosto há 60 anos. Sinto prazer em servir o bollito aos clientes” orgulha-se o famoso maître. “Esse prato veio do Restaurante Ca’d’Oro, que ficava na Rua Barão de Itapetininga, no Centro de São Paulo, antes de migrar, em 1956, para o Hotel Ca’d’Oro, na Rua Basílio da Gama, e depois, em 1965, para a Rua Augusta, com a inauguração do Grand Hotel Ca’d’Oro, já na sua versão cinco estrelas, recorda-se ele. “Nada disso mudou com o tempo. O bollito continua sendo servido da mesma forma. É simples como eu, um retirante que veio tentar a vida na cidade grande”, diverte-se Ático. O homem de baixa estatura, baiano de Monte Santo, que hoje se tornou uma referência como anfitrião, teve uma infância sofrida. “Perdi meu pai com seis anos, mas fui criado pela minha mamãe como um príncipe pobre em uma família de 12 irmãos. Ela foi para a roça para nos manter. Tudo o que aprendi devo a ela e ao Fabrizio Guzzoni, fundador do Ca’d’Oro, e aos clientes que atendi e continuo atendendo”, destacou Ático, relembrando que chegou a São Paulo, em novembro de 1949, carregando na bagagem somente 45 dias de escolaridade na Bahia. “O segredo do sucesso, em qualquer ramo da vida, é fazer aquilo de que se gosta. Isso nos mantém ativos”, diz. Questionado sobre quando vai se aposentar, o maître é enfático: “Faz 33 anos que tenho uma casa em Biritiba Mirim, interior de São Paulo, e um dia eu disse à minha esposa: amanhã vamos nos mudar; mas isso nunca aconteceu. Pretendo continuar firme por aqui, só não vale contar isso para ela (risos)”, finalizou. f


Ă tico de Souza: maĂŽtre do restaurante Parigi

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Foto: shutterstock

estilo

El

compañero Sozinho ou na companhia de amigos, o charuto atrai apreciadores que tentam decifrar sua complexa combinação de sabores Por Gustavo Girotto

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Foto: Divulgação

onhecido no passado como um leNa prática, segundo o especialista, o gítimo el compañero de executivos, charuto, por ser um tipo de tubo, o corte escritores e intelectuais, o charucorreto pode favorecer ou dificultar o fluto cada vez mais ganha popularidade nos xo do sabor. “Um corte reto deixa o charuto momentos de descontração de alguns aberto para que o fumo possa fluir de forbrasileiros. Se existe uma concordância ma suave e natural. O corte em cunha ou entre os apreciadores é que uma degusem “v” só abre uma parte, fazendo com que tação perfeita depende de tempo e um o fumo passe por uma área menor, obriambiente adequado para fumá-lo, sozinho gando um esforço maior para a sucção. Ouou na companhia de amigos que também tro tipo é um furo circular e que pode ter apreciem esse requintado hábito. dois tipos de tamanho. Este tipo de corte É preciso ter em mente que cada pode tornar o que seria normalmente mais Cesar Adames: consultor charuto é um objeto único: artesanal, suave em um charuto mais encorpado. Dena área de tabaco elaborado manualmente, com personapois do corte, o charuto está pronto para lidade própria e uma história para contar, uma vez que ser degustado, portanto basta acender. Nessa hora vem não existem dois iguais em uma mesma caixa. Segundo a grande dúvida – qual é a melhor forma? A resposta é Cesar Adames, consultor na área de tabaco, professor da entender a função de cada dispositivo e saber de suas disciplina de Charutos & Bebidas no Senac e na IBA (In- vantagens e desvantagens. “O acendimento com folha ternational Bartender Association), o primeiro passo para de cedro é um dos mais tradicionais e faz parte do riiniciantes é procurar uma boa tabacaria e aceitar as su- tual que vemos em filmes e restaurantes que prestam gestões do vendedor: “À medida que cresce o interesse e o serviço de charutos. A desvantagem é que temos um a familiarização com o universo dos charutos, os acessó- trabalho duplo, uma vez que, para queimar a lâmina, rios se tornam peças fundamentais para uma melhor de- vamos utilizar fósforos ou isqueiros. O fósforo de palito gustação. Quando compramos um charuto, normalmente longo também funciona bem, pois com apenas um deele vem com a parte que iremos colocar na boca fechada, les é possível acender. Uma dica importante é deixar a permitindo que possamos escolher qual o tipo de corte cabeça colorida que contém enxofre queimar primeiro. que iremos usar”, explica Adames. Dessa forma o odor não irá passar para o charuto”, re-

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CUBA

comenda o professor do Senac. Outra regra importante, enfatizada pelo especialista, é a forma como eles devem ser armazenados. “É fundamental que estejam conservados a uma temperatura entre 16ºC e 18ºC com umidade entre 65% a 70%. Ambientes secos desidratam o tabaco e os deixam quebradiços, causando o rompimento da capa quando se está fumando. Excesso de umidade faz com que o charuto se apague constantemente, dificultando o prazer de fumar. A melhor forma de evitar esse problema é investir na compra de um bom umidor, caixa própria para acomodar os charutos, com capacidade para 50, 100 ou 200 charutos”, garante Adames. Sempre quando se pensa na palavra ‘charuto’, imediatamente a lembrança nos remete à imagem do primeiro-ministro britânico Winston Churchill, que fumava de 8 a 10 Romeo y Julieta por dia e aos revolucionários Fidel Castro, apreciador do Cohiba (Lancero e Corona), e o argentino Ernesto Che Guevara, que conheceu o hábito do fumo com os cubanos. Há quem diga que, quando um cubano dá sua última baforada, ele solta a nostálgica frase: “que tienes una muerte digna”, em homenagem ao apagar do seu charuto. Durante mais de um século, Cuba produziu os mais finos e cobiçados charutos do mundo, os intitulados de “habanos”, mas desde que Washington impôs o embargo comercial à ilha, esses ‘puros’, como são chamados, tornaram-se um artefato raro para os norte-americanos. Mas a realidade atual é outra e, a anunciada aproximação histórica entre os dois grandes adversários da Guerra Fria, o presidente Barack Obama e o ditador Raúl Castro, com o anúncio da normalização das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, rompidas desde 1961, promete devolver a intensidade do prazer dos charutos, que agora devem reabitar novamente a terra do ‘Tio Sam’. “A primeira fábrica cubana de charutos foi inaugurada em 1810. No fim do século XIX, a ilha possuía 1.320 produtores com marcas próprias. Não demorou para que o ofício de tabaqueiro chegasse a países vizinhos, como Costa Rica, Jamaica, República Dominicana, México e até o Brasil. Não existem melhores marcas, mas alguns são mais conhecidas. O importante é ir explorando até achar o mais agradável ao seu paladar”, finaliza Adames. f

MONTECRISTO Graças ao aroma, sabor e força inigualáveis, com o passar do tempo e quase sem querer, a marca chegou a superar a fama da novela de Alexandre Dumas, O Conde de Montecristo. ROMEO Y JULIETA Caracteriza-se por oferecer um amplo leque de possibilidades, com bitolas que vão de forças medianas a fortes, com boa combustão e fogo. PARTAGAS Todas as bitolas da marca são reconhecidas por seu aroma e sabor intenso. São charutos cobertos por uma capa geralmente de cor clara. COHIBA É um dos habanos mais caros do mercado e considerado por plantadores como o mais seleto. É um ícone no segmento de charutos. HOYO DE MONTERREY Charutos esponjosos, bons de fogo e com uma magnífica combustão, de aroma e sabor ao ponto.

REPÚBLICA DOMINICANA DAVIDOFF A marca está associada a estilo, qualidade e bom gosto. Isso devido ao sucesso de seu criador, Zino Davidoff, ucraniano de família ligada ao tabaco. AVO Suaves, os charutos Avo fazem sucesso no mercado norte-americano desde o seu surgimento. Seu criador, Avo Uvezian, era também um exímio pianista.

BRASIL DONA FLOR É fruto de uma rigorosa seleção de fumos procedentes do Recôncavo Baiano, resultando um produto de excepcional qualidade. ALONSO MENENDEZ A intenção era produzir charutos com a mesma qualidade dos feitos em Cuba. São fumos também cultivados no Recôncavo Baiano.

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cultura

Repaginada modernista Após quase dois anos fechado para reforma, o Museu Lasar Segall reabre com novas exposições e a exibição do rico acervo do artista lituano, naturalizado brasileiro, que foi um dos protagonistas do modernismo no Brasil

Figura de Homem com Violino, c. 1909, óleo sobre papelão, 71 x 51 cm

Asilo de Velhos, 1912, pastel sobre papel, 39 x 45 cm

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Leitura, c. 1913, óleo sobre papelão, 66 x 56 cm

E

Por Andressa Besseler

ntre modernos edifícios comercias e pequenas casas que se misturam no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, um tesouro que busca mais espaço e evidência no circuito cultural paulistano: o Museu Lasar Segall. Depois de um ano e sete meses fechado para reforma na infraestrutura, a instituição programou sua reabertura para o próximo mês de agosto, quando serão lembrados os 58 anos da morte do artista e os 48 anos da fundação do museu.

Aldeia Russa, 1912, óleo sobre tela, 62,5 x 80,5 cm


Fotos: Divulgação Museu Lasar Segall-IBRAM-MinC

Lasar Segall e Lucy Citti Ferreira, em seu ateliê (1940) Esta foi a primeira grande reforma do imóvel da Rua Afonso Celso, que foi residência do casal Jenny e Lasar Segall a partir de 1932, quando retornaram de Paris, depois do nascimento do segundo filho, Oscar. O valor total da obra foi de R$ 2,5 milhões, custo bancado pelo Fundo Nacional de Cultura e pelos patrocinadores Petrobras, Banco Itaú, Klabin e Lumini. A revitalização do espaço garantiu uma nova rede elétrica em todas as áreas do museu, climatização das salas expositivas, recuperação das coberturas, atualização do sistema de iluminação e

implantação de um sistema de segurança mais eficiente. Além disso, o projeto incorporou uma área dedicada aos deficientes visuais. Tudo isso para se adequar à função que sempre teve. “A reforma permitiu que o museu se tornasse mais atrativo a todos os públicos, mais seguro e com climatização adequada para o acervo”, afirma Selene Cunha, assessora de comunicação do museu.

Estilo pluralista Além da antiga residência do casal Segall, o museu ocupa também o ateliê do artista, ambos

Aldeia Russa, 1913, litografia sobre papel, 37,5 x 30,5 cm

Paisagem Geométrica, 1924, aquarela e tinta preta a pena sobre papel, 30,7 x 22 cm

Menino com Lagartixas, 1924, óleo sobre tela, 98 x 61 cm

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cultura Programação Para a reabertura do museu, programada para o dia 8 de agosto, estão previstas as exposições “Mário de Andrade e seus dois pintores: Lasar Segall e Portinari” e “Cárceres a duas vozes: Piranesi e Ana Maria Tavares”. A primeira mostra enfoca a obra dos pintores Segall e Portinari sob o olhar crítico do escritor Mário de Andrade e de sua relação de amizade com os dois artistas. A exposição “Cárceres a duas vozes” é composta de 16 gravuras, do ilustre gravurista e arquiteto italiano Giovanni Battista Piranesi (1720–1778), e obras da artista contemporânea Ana Maria Tavares, inspiradas em criações de Piranesi. f Fotos: Divulgação Museu Lasar Segall-IBRAM-MinC

projetados por seu concunhado, o arquiteto modernista russo Gregori Warchavchik. Seu acervo atrai os visitantes com 3.119 trabalhos originais dele, doados por seus filhos Maurício Segall e Oscar Klabin Segall. Em 2013, a coleção foi enriquecida com mais 110 obras oferecidas pelo neto Mário Lasar Segall. Ao circular entre suas pinturas, gravuras, desenho e esculturas, o público percebe como o movimento era tudo na vida de Segall. Como vivia em constante metamorfose criativa, experimentando várias formas de expressão, o artista também surpreende o visitante com os móveis que criou para a sua própria casa. Fiel ao desejo do casal de fundar no local a Escola de Arte Lasar Segall, o museu oferece uma área para que as pessoas coloquem a mão na massa. O espaço conta ainda com um centro de atividades culturais, cursos de gravura, fotografia e literatura, projeção de filmes, além uma biblioteca especializada em arte e dramaturgia.

Quase cinquentinha A recente reforma faz parte do projeto da comemoração dos 50 anos de fundação do museu, que acontecerá em 2017. O Museu Lasar Segall foi idealizado pela viúva, Jenny Klabin Segall, com a intenção de preservar seu valioso legado artístico. Em 1985, o museu foi incorporado à Fundação Nacional Pró-Memória, integrando hoje o Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM, do Ministério da Cultura, como unidade especial.

Retrato de Lucy I, 1935, óleo com areia sobre tela, 36 x 28 cm

Duas Amigas, 1936, mármore cinza, 51,5 x 36,5 x 22 cm

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Gado ao Luar II, c. 1954, guache sobre papel, 34 x 45 cm

Museu Lasar Segall - www.mls.gov.br Rua Berta, 111, Tel.: (11) 2159.0400

Floresta, 1957, aquarela e guache sobre papel, 22,4 x 46 cm


responsabilidadesocial

Quanto vale um sorriso? Há 18 anos no Brasil, a ONG Operação Sorriso conta com a colaboração de 350 voluntários que transformaram mais de cinco mil vidas nos quatro cantos do País

A

Por Andressa Besseler

os 11 meses de idade, Anne Clarisse ensaia, ao lado da mãe Jaqueline Rodrigues. Dá os primeiros passos nas areias da Praia de Iracema, em Fortaleza. Esse momento natural de alegria se imaginaria pouco provável quando a menina nasceu e os pais descobriram que ela era portadora de lábio leporino, uma abertura no lábio ou no palato provocado pelo desenvolvimento incompleto da cavidade bucal durante a gestação. Passado o susto inicial, Jaqueline recebeu orientação dos médicos e descobriu que os médicos da ONG Operação Sorriso Brasil permitiriam que a pequena Anne Clarisse tivesse uma vida absolutamente normal. Bastava aguardar o momento certo do seu desenvolvimento para que a cirurgia fosse realizada. Passados dois anos, a menina foi operada e resta aos pais, agora, a responsabilidade de não descuidar das sessões de fonoaudiologia. “Minha maior preocupação era a fala. Por sorte recebemos a orientação Fotos: Divulgação

Mais de 6,2 mil cirurgias reparadoras em 11 Estados brasileiros

58 financeiro abril/maIo 2015

correta e o tratamento começou na idade certa” diz Jaqueline. Esse é um dos milhares de casos que exemplificam a atuação da ONG Operação Sorriso Brasil, uma organização que oferece cirurgias gratuitas para reparar lábio leporino e fenda palatina, com foco nas crianças. Criada em 1982 nos Estados Unidos e desde 1997 no Brasil, a entidade já realizou mais de 87.500 exames e avaliações, que resultaram em mais de 6,2 mil cirurgias reparadoras em 11 Estados brasileiros. “Quanto mais cedo a criança for operada, mais fácil será para ela crescer sem sequelas nem acanhamento diante das pessoas. Embora a fenda seja corrigida normalmente a partir dos seis meses de idade, os mutirões da Operação Sorriso chegam a realizar procedimentos antes do prazo”, conta Luciana Garcia, coordenadora dos programas humanitários da ONG. Se não for cuidada, a deformidade nos lábios pode mexer na arcada dentária e no formato do nariz. A fissura no palato pode provocar voz anasalada, a entrada de alimentos na cavidade nasal e até mesmo nos ouvidos. Sem contar que muitos recém-nascidos morrem por não conseguir sugar o leite materno.


Iniciativa que transforma

Mais de 350 profissionais, entre cirurgiões, enfermeiros, anestesistas e voluntários Fotos: Paulo Fabre

A cada 650 bebês nascidos no Brasil, um traz a má formação congênita chamada popularmente de lábio leporino. Em alguns casos, trata-se apenas de uma fenda no lábio superior. Em outros, de duas fissuras. E há ainda as crianças que, além dessas deformações, têm o céu da boca (palato) aberto. No mundo, segundo a Operação Sorriso, a cada três minutos um bebê nasce com essa má formação. Para transformar essa realidade e reconstruir o sorriso das crianças, a ONG realiza por ano mais de 4 mil exames multidisciplinares especializados, nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do País, além de 291 procedimentos cirúrgicos e oito programas pós-operatórios, tudo gratuitamente, devolvendo anualmente a dignidade, a funcionalidade e a autoestima para 212 crianças”, explica a coordenadora.

Para isso, trabalham, de forma voluntária, mais de 350 profissionais, entre cirurgiões plásticos, enfermeiros, anestesistas, psicólogos, ortodontistas, fonoaudiólogos, pediatras, geneticistas e voluntários não especializados. O programa é desenvolvido de forma criteriosa, com avaliações, cirurgias e acompanhamento pós-operatório buscando oferecer um tratamento integral que permita a reinserção social da criança. “Os locais onde as missões acontecem são definidos de acordo com a demanda de pacientes, o apoio do hospital, do governo e da sociedade em geral. Cada missão movimenta aproximadamente 60 voluntários e resulta, na média, em 70 crianças operadas. O procedimento é rápido, demora em torno de 45 minutos e, na manhã seguinte, o paciente pode retornar para casa”, diz Luciana Garcia. Neste ano, a Operação Sorriso Brasil prevê realizar pelo menos quatro missões: Santarém (PA), em agosto; Fortaleza (CE), em setembro; Natal (RN), em outubro/novembro; e Porto Velho (RO), em dezembro. As doações podem ser feitas por meio do site www.operacaosorriso.org.br. f

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bancodedados

Informe

Fractal A

brimos nossa edição com a coluna Leading Indicators. Nela divulgamos alguns indicadores sobre comportamento dos preços das commodities, do valor da moeda norte-americana em relação a uma cesta de moedas e da contração do mercado de trabalho no País. Mesmo numa conjuntura internacional desfavorável, algumas coisas podem ser vistas de maneira positiva para a nossa economia. Em seguida, mostramos os primeiros números sobre a desintermediação bancária no mercado de crédito. Trata-se de pesquisa realizada no primeiro semestre de 2015, com o mercado de pessoas física cujas rendas individuais estão compreendidas no intervalo entre R$ 1.200,00 e R$ 5.000,00 mensais. Os números apontam para o crescimento das instituições financeiras não bancárias no mercado de crédito. Nesse mundo, prevalece o dilema entre assumir maiores níveis de riscos ou aceitar as perdas de participação de mercado e dos ganhos das economias de escala derivados da maior quantidade de operações. Os maiores bancos, nesse particular, privilegiaram, desde 2014, a saúde financeira de suas operações, reduzindo suas provisões e ampliando expressivamente seus lucros. Não se pode dizer que erraram. Suas vantagens competitivas em relação aos demais players permitem reversões dessa tendência no médio prazo. Os lucros decorrentes das economias de escala e de escopo estão garantidos e devem se acentuar nos próximos períodos à medida que a concentração nessa indústria venha a prosperar. A venda dos ativos do HSBC no Brasil já provoca controvérsias. O Bacen, sempre mais receptivo aos movimentos de concentração, não se deve constituir em obstáculo ao pleito dos bancos privados de maior porte. No caso do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), o mais provável será que as novas gerações de conselheiros possam se opor, com o destemor próprio aos que labutam

pelo liberalismo moderno Celso Grisi: e se imaginam defensodiretor-presidente da res da permanência de Fractal – Forma, Acaso condições concorrenciais e Dimensão mais adequadas e livres dos excessos oligopolistas. Afinal, boa parte deles ostenta ideais antitruste e, por isso, defendem as intervenções nos mercados, levadas a cabo pelo CADE. Os registros dão conta do crescimento das reprovações dos atos de concentração empresarial e do número de aprovações submetidas a restrições. Cresceu também o número de investigações e acusações sobre cartéis e outras infrações contra a ordem econômica. Sabe-se lá que resultado se pode esperar dos embates políticos e econômicos sobre esse tema. Por fim, a divisão de Analytics da Fractal organizou os dados histórico dos últimos 11 anos (2004 a 2014) do Painel da Indústria Financeira – PIF®, envolvendo pessoas jurídicas com faturamento anual entre R$ 30 milhões e R$ 1 bilhão. O objetivo é o de entender as razões de uso de instituições financeiras, face às variações de três elementos: PIB, Selic e IPCA. Nossas hipóteses se confirmaram. À medida que o cenário econômico se transforma, as empresas apresentam necessidades diferenciadas e exigem que as relações com suas instituições financeiras sejam também transformadas. Portanto, os posicionamentos das instituições e de suas ofertas de produtos e serviços precisam estar abrigados por conceitos mais amplos, com maior nível de abstração, para dar guarida a ideias que, embora opostas, possam ser harmonizadas em um único significado. Marcas e submarcas deverão, portanto, se multiplicar. Não apenas por segmentos, mas pelos motivos e pelas necessidades que os impulsionam em diversos cenários econômicos ao longo do tempo. É grande o desafio de marketing e sua prática precisa ser repensada a cada momento.

Autores da Fractal Celso Grisi: Professor titular da FEA-USP e diretorpresidente da Fractal Celso Miori: Consultor de empresarial, doutor pela FEA-USP e professor dos cursos de MBA da FIA Rodrigo Neman: Advisor da prática de Business Analytics da Fractal e professor de Gestão Analítica de Desempenho em programas de MBA

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bancodedados LEADING INDICATORS

VIX (Market Volatility Index da Chicago Board Options Exchange)

Análise: Celso Miori

Economia mundial Na edição anterior, destacamos o declínio acentuado do Bloomberg Commodity Index, índice que sintetiza a evolução dos preços das commodities agrícolas e minerais, das quais a balança comercial brasileira é fortemente dependente. Conforme mostra o gráfico abaixo, esse declínio (observado desde 2011) ficou contido nos últimos meses. Desde fevereiro de 2015, apresenta-se em relativa estabilidade, amenizando os efeitos perversos do momento anterior sobre a economia nacional.

60.00 50.00 40.00 30.00 20.00 10.00 2006

2007

Bloomberg Commodity Index BCOM:IOM

Por outro lado, a evolução do Dollar Index Spot, apresentada no gráfico abaixo, mostra também uma atenuação na forte valorização do dólar no mercado internacional, frente a uma cesta de moedas. Isso também representa um fato alentador para a economia brasileira já que, sem deixar de favorecer as exportações em geral, ajuda a conter as pressões inflacionárias decorrentes da desvalorização do real frente ao dólar.

U.S. Dollar Index (DXY) NYE: DXY

62 financeiro junho/julho 2015

2008

2009

2010

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0.00

Também o VIX (Market Volatility Index da Chicago Board Options Exchange), índice que captura sentimentos de riscos relevantes, em âmbito mundial, não tem registrado variação significativa desde fevereiro deste ano, configurando uma situação momentânea de certa tranquilidade, dentro de um quadro internacional intrinsecamente desfavorável e potencialmente propenso a crises. Empregados com remuneração até cinco salários mínimos Os gráficos seguintes mostram a evolução, em três regiões metropolitanas (Belo Horizonte, Curitiba e Recife), do número de empregados com remuneração até cinco salários mínimos, em uma série longa (2001-2013), segundo a PNAD (IBGE). É perceptível, pelo menos em duas dessas regiões, o declínio, já em 2013, do número desses assalariados. Somente em Recife isso não se observou naquele ano. Entre outras razões, investimentos relevantes (Suape e Petrobras) ainda garantiam um quadro mais favorável à essa região.

Até 5 SM Empregados com 10 ou mais anos de idade

Belo Horizonte - MG


Até 5 SM Empregados com 10 ou mais anos de idade

Curitiba - PR

Suas experiências com essas instituições não bancárias* foram mais ou menos positivas do que as que o(a) sr.(a.) teve com os bancos que lhe negaram crédito? varejo - relatório geral - 2015 1º trimestre

Menos positiva 13,7 % Mais positiva 86,3 % Base de Respondentes 100,0 % Experiências podem se transformar em atitudes e, mais tarde, em comportamentos efetivos. Isso exigiria, entretanto, a permanência dessa avaliação no tempo, bem como solicitaria esforços organizados para a sua consolidação. (*) Instituições não bancárias = cooperativas de crédito, factorings,

Agora, os tempos são outros. O longo ciclo de queda do desemprego parece ter chegado ao fim. São numerosas e importantes as causas desse movimento, sendo a maioria delas de natureza estrutural. Até 5 SM Empregados com 10 ou mais anos de idade

Recife - PE

empresas de leasing, cartões de loja e carnês, financeiras...

Para os próximos 12 meses, o sr.(a.) pretende aumentar ou diminuir o uso dessas instituições não bancárias*? Diminuir 15,3 % Aumentar 84,7 % Base de Respondentes 100,0 % As intenções, nos percentuais manifestados pelos entrevistados, são compatíveis com as avaliações das experiências manifestadas, reforçando a ideia de um processo de desintermediação já em curso, para o crédito às pessoas físicas. (*) Instituições = cooperativas de crédito, factorings, empresas de leasing, cartões de loja e carnês, financeiras...

A seguir, relacionamos as principais causas, evidenciando ao leitor as dificuldades a serem superadas para a reversão do quadro atual de baixo crescimento: • Fim do bônus demográfico; • Produtividade do trabalho deficiente; • Aumento dos salários reais; • Endividamento das famílias; • Baixo volume e baixa qualidade dos investimentos em infraestrutura; • Marco regulatório desfavorável; • Alto custo do capital; • Deterioração fiscal; • Expectativa de crescimento global mais lento; • Piora dos termos de troca; • Aumento da competição entre países emergentes; • Ameaça do protecionismo; • Mudanças do clima; • Má gestão histórica de recursos hídricos e reservas ambientais.

Razões para aumentar do uso dessas instituições não bancárias R01. R02. R03. R04. R05.

São mais ágeis e desburocratizadas São menos exigentes para conceder crédito São mais flexíveis em relação às garantias pedidas Concedem maiores limites de crédito São mais flexíveis nos prazos concedidos para pagamento R06. São mais tolerantes com eventuais atrasos

55,1 % 46,9 % 43,4 % 36,7 % 27,0 % 1,0 %

Os diferenciais competitivos não envolvem considerações sobre o custo dos empréstimos. Basicamente centram-se em questões funcionais do processo de concessão. Os atributos referentes à velocidade e à simplificação do processo de concessão e liberação do crédito já são tradicionais nessas instituições. O gigantismo do setor bancário subtrai a possibilidade de imprimir maior velocidade aos seus processos internos.

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bancodedados As razões de uso do sistema financeiro, segundo as empresas: variações em função dos indicadores PIB, Selic e IPCA

N

o dia 3/6/2015 o Copom do Banco Central decidiu elevar pela décima quinta vez, desde janeiro de 2013, os juros básicos da economia (Selic). O País não se deparava com taxa de juros de 13,75% ao ano há mais de 6 anos. Apesar da relação de causalidade entre a Selic e a inflação, vale apontar o desempenho do IPCA e do PIB para melhor caracterizar as decisões de uso de instituições financeiras pelas empresas com operação no Brasil. A variação do PIB deflacionado, nos últimos 11 anos, apresenta uma tendência negativa. Em outras palavras, ao ajustar uma simples reta ao longo dos anos observa-se comportamento decrescente, com taxa de variação linear negativa. Já o IPCA apresenta a taxa de variação linear positiva. Embora não seja o objetivo desse estudo explicar a volatilidade desses indicadores, a tendência histórica aponta a existência de fatores idiossincráticos que comprometem o controle dos fundamentos macroeconômicos nos últimos anos. O gráfico 1 apresenta a evolução desses indicadores.

Gráfico 1: evolução do IPCA (acumulado no ano), da Selic (taxa anual apurada em julho) e do PIB (em valores de 2014).

Ao lançar mão da Selic como principal instrumento macroeconômico para o controle do binômio consumo x inflação, o governo dificulta o acesso ao crédito e desestimula o investimento dos setores produtivos com os naturais reflexos no crescimento da economia e na criação de postos de trabalho. Independentemente da discussão da eficácia de médio e longo-prazo do controle inflacionário via Selic e do quanto o governo consiga produzir medidas corretivas para reencontrar-se com sólidos fundamentos econômicos no País, as empresas continuarão recorrendo ao setor financeiro para o atendimento de suas necessidades cíclicas de crédito e de investimentos. Neste contexto, o que leva as empresas a utilizarem com maior ou menor intensidade as instituições financeiras, consideradas a tendência e a volatilidade dos ativos indicadores na última década? Qual a influência, nas decisões de escolha das instituições financeiras, da taxa de juros, da variação anual do PIB e da inflação nesta relação? Para responder essa questão, a divisão de Analytics da Fractal

64 financeiro junho/julho 2015

Análise Rodrigo Neman organizou os dados histórico dos últimos 11 anos (2004 a 2014) do Painel da Indústria Financeira – PIF® a realizada com executivos de empresas com faturamento entre R$30MM e R$1Bi/ano selecionadas aleatoriamente nos 250 municípios com os maiores PIBs do País. Foram entrevistadas em média 2.500 empresas a cada ano no período considerado. A pesquisa acessa o uso e a concentração de produtos e serviços financeiros de cada empresa em cada instituição financeira. Adicionalmente, levanta as razões de uso das instituições e dos seus respectivos produtos. Tabela 1 - Razão de Uso Escore Fornece produtos/serviços sob medida para a empresa 66,5 Facilidade de acesso do internet banking 62,8 Constitui-se em fonte confiável de crédito sempre que a empresa necessita 50,7 Apresenta forte agilidade operacional em sua estrutura administrativa 49,8 Fornece melhores serviços de administração financeira (cash management/administração de fluxo de caixa) 48,5 Dispõe de uma rede de agências que cobre praticamente todas as praças financeiras onde minha empresa opera 45,4 Atende através de profissionais com adequada qualificação 42,9 Mantém um relacionamento estreito, de parceria real e duradoura com a empresa 41,6 Possui um completo portfólio de produtos e serviços que possibilita à minha empresa o uso do banco de diversas formas 37,7 *Valor médio dos últimos 3 anos (2012 – 2014) do escore ponderado pelo número de clientes de cada instituição financeira.

Ao ponderar o escore de cada uma das razões de uso pelo número de clientes de cada instituição observa-se na tabela 1 que, para os últimos três anos, as principais razões de uso estão fortemente relacionadas às caracteristicas do portfólio de produtos/serviços, à facilidade e conveniência de uso e ao nível do relacionamento. Ao analisar a dinâmica de correlações entre as razões de uso, ponderadas pelo número de clientes de cada instituição financeira, vis-à-vis a evolução dos últimos 11 anos da inflação, do PIB e da Selic, observa-se que: 1) No caso do PIB, conforme pode ser observado na tabela 2, as correlações positivas estão pautadas em aspectos transacionais como a qualidade dos produtos, a eficiência operacional e a relevância da instituição como fonte de crédito confiável. Estes aspectos apresentam a maior variação positiva em momentos de aumento da atividade econômica. As correlações negativas, por outro lado, estão pautadas em taxas, tarifas, volumes das linhas de crédito e relacionamento; aspectos de maior relevância em momentos de retração da atividade econômica. 2) No caso da Selic, as correlações positivas estão pautadas principalmente na adequação dos volumes das linhas de crédito


Tabela 2* - Razão de Uso Correlação Fornece produtos/serviços sob medida para a empresa 0,88 Fornece melhores serviços de administração financeira (cash management/administração de fluxo de caixa) 0,87 Constitui-se em fonte confiável de crédito sempre que a empresa necessita 0,79 Apresenta forte agilidade operacional em sua estrutura administrativa 0,70 Proporciona rentabilidade mais competitiva para suas aplicações/investimentos -0,81 Mantém um relacionamento estreito, de parceria real e duradoura com a empresa -0,85 Cobra tarifas justas para a execução dos serviços -0,85 Oferece linhas de crédito nos volumes de recursos adequados às necessidades de minha empresa -0,85 Possui taxas de financiamento em operações nacionais mais competitivas -0,85 Trata a empresa como cliente exclusivo -0,95 e na qualificação do relacionamento. Em outras palavras, quando a taxa de juros básica da economia cresce, os limites de crédito e o atendimento diferenciado constituem importantes estratégias de diferenciação competitiva. As correlações negativas, por outro lado, estão pautadas no desenho dos produtos e serviços, ou seja, quando a Selic alcança níveis mais baixos, a diferenciação do portfólio é uma estratégia importante. A tabela 3 apresenta as correlações e anticorrelações mais fortes com a Selic. 3) Tabela 3* - Razão de Uso Correlação Oferece linhas de crédito nos volumes de recursos adequados às necessidades de minha empresa 0,82 Dispõe de uma rede de agências que cobre praticamente todas as praças financeiras onde minha empresa opera 0,77 Atende através de profissionais com adequada qualificação 0,75 Fornece melhores serviços de administração financeira (cash management/administração de fluxo de caixa) -0,77 Fornece produtos/serviços sob medida para a empresa -0,89 3) No caso da inflação, medida pelo IPCA, não foram encontradas correlações positivas fortes com as razões de uso. As correlações negativas mais relevantes, presentes na tabela 4, mostram que em períodos de menor inflação o relacionamento das instituições financeiras com as empresas assume papel central. Especificamente em relação ao crédito, notou-se que as razões de uso diretamente relacionada a crédito são muito influenciadas pela atividade econômica. A análise de regressão destas razões contra os indicadores macroeconômicos fornece duas informações de interesse: a variação das razões explicadas pelos indicadores (R-quadrado) e a variação percentual nas razões de uso provocada pela variação de percentual nos indicadores (elasticidade). Na tabela 5, em que estão presentes os resultados das regressões, pode ser observado que a variação do IPCA não altera de forma estatisti-

Tabela4* - Razão de Uso Correlação Apresenta atendimento personalizado -0,70 O gerente de conta possui um profundo conhecimento das necessidades e estratégias da empresa -0,75 Apresenta um excelente relacionamento / atendimento através de seus gerentes de contas -0,79 camente significativa as razões de uso relacionadas ao crédito. Por outro lado, a variação do PIB é significativa para todas as razões de uso e possui elasticidade negativa com as taxas de financiamento. Em outras palavras, a variação histórica do PIB explica 71% da variação da razão de uso (R-quadrado) relacionada às taxas de financiamento competitivas e cada 1% de aumento no PIB leva a uma redução de 1,2% (elasticidade negativa) na relevância das taxas competitivas. A adequação dos limites de crédito, por sua vez, apresenta elasticidade positiva sendo que o aumento de 1% do PIB leva ao aumento de 0,32% na relevância desta razão de uso. É interessante observar que a despeito da relevância da agilidade operacional do processo de concessão, os limites e as taxas desempenham papéis centrais no relacionamento com o cliente. Em geral, em cenários com a atividade econômica em expansão, a relevância do crédito como instrumento de fidelização e relacionamento com empresas ocorre através de ofertas bem desenhadas, com taxas atrativas e via instituições que transmitem certeza como fonte financiadora com seus clientes. Tabela 5 - Razão de Uso Elasticidade R2 “Oferecem linhas de crédito nos PIB 0,32 0,70 volumes de recursos adequados IPCA NS às necessidades de minha empresa” Selic -0,76 0,72 “Apresentam um processo de PIB 0,62 0,33 concessão de crédito rápido IPCA NS e desburocratizado” Selic NS “Possuem taxas de financiamento PIB -1,20 0,71 em operações nacionais mais IPCA NS competitivas” Selic 0,44 0,53 Constituem-se em fonte confiável PIB 0,88 0,60 de crédito sempre que a empresa IPCA NS necessita Selic NS As análises realizadas apenas com as variáveis diretamente ligadas a crédito reafirmam as conclusões anteriores. Mostram que as estratégias competitivas e de relacionamento com os clientes devem ser dinamicamente desenhadas e executadas de acordo com a leitura dos indicadores macroeconômicos e as apostas de curto e médio prazo na evolução dos mesmos. Cenários recessivos demandam um posicionamento com foco em taxas reduzidas, maiores retornos sobre investimentos e fortalecimento do relacionamento com clientes. Cenários de expansão econômica demandam estratégias com maior ênfase na experiência do cliente e na percepção de qualidade dos produtos e processos operacionais. f

* Principais correlações e anticorrelações entre as razões de uso de instituições financeiras e o PIB considerando os últimos 11 anos (2004-2014).

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artigo

palavrafinal

Por Nicola Tingas: economista-chefe da ACREFI

Em busca do crescimento econômico perdido

A

queda do PIB é expressiva e a recuperação do crescimento econômico será lenta e frágil. Atualmente está prevista contração de até 2% para o PIB em 2015, seguida de frágil crescimento, de zero a 0,5%, em 2016. Para atenuar esse quadro de estagnação, é fundamental a execução bem-sucedida de uma “agenda positiva” que resgate a confiança dos empresários e das famílias, recupere os investimentos em infraestrutura e inovação tecnológica, reduza custos estruturais, aumente produtividade e competitividade da indústria e de outros setores de exportação. Assim, haverá “força de tração” de motores capazes de impulsionar o resgate do crescimento econômico perdido. O governo fez anúncios da “agenda positiva” com políticas de incentivo econômico: Plano de Safra 2015/16; Programa de Investimento em Logística (PIL), com previsão de investimentos R$ 198,4 bi; sendo R$ 69,2 bi em 2015-2018 e R$ 129 bi a partir de 2019, divididos da seguinte forma: rodovias (R$ 66 bi), ferrovias (R$ 86 bi), portos (R$ 37 bi) e aeroportos (R$ 8,5 bi); por fim, é esperado o anúncio do Plano Nacional de Exportação. Contudo, no primeiro semestre de 2015, o governo não conseguiu apresentar em detalhe e nem colocar em pleno andamento a agenda necessária para atrair investimento, estimular exportações e reverter a profunda queda de confiança dos agentes econômicos. Foi um período comprometido com longas negociações e discussões para aprovação no Congresso do chamado “ajuste fiscal” de resgate das finanças públicas, como também marcado pela perda de credibilidade decorrente da corrupção na Petrobras e “Operação Lava Jato”. A conjuntura econômica manteve-se em deterioraPIB e componentes selecionados, em % Taxa acum quatro trimestes (em relação mesmo período anterior)

ção forte. A inflação alcançou patamar elevadíssimo, de 8,5%, em 12 meses no acumulado até o mês de maio (vide gráfico), forçando o Banco Central a elevar mais ainda a taxa básica de juros buscando ancorar as expectativas dos agentes econômicos. Atualmente o mercado projeta na “Pesquisa Focus” do BACEN uma inflação de 8,8% para 2015, patamar muito elevado, que “desperta” antigos, mas ainda presentes, mecanismos de inércia inflacionária e pressão por correções automáticas de preços e salários, que acentuam o desequilíbrio macroeconômico. A combinação de política fiscal e monetária contracionistas, associadas à alta da inflação, juros, câmbio, desemprego fortemente crescente e queda expressiva da confiança resultaram em um processo de brusca contração e estagnação da economia, com queda contínua do investimento e consumo, como indica o PIB do 1º trimestre (vide gráfico). Vários indicadores antecedentes, de importantes setores da economia, ratificam que no 2º trimestre e talvez também no 2º semestre de 2015 a economia manterá um ciclo de ajuste econômico descendente e fortemente recessivo; a menos que, nos próximos meses, haja gradativo e consistente resgate da confiança e atos pró-cíclicos que atenuem essa queda. Na prática, está em curso a reversão da “política de matriz econômica” que fracassou e deteriorou os fundamentos macroeconômicos. Ao mesmo tempo, a crise política tem acompanhado a forte deterioração econômica, criando retardo e dificuldade na execução de uma agenda assertiva que possa alcançar a recuperação do crescimento econômico. Se o governo for bem-sucedido no gerenciamento e execução das medidas propostas de política econômica, com consistência macro e micro, haverá importante recuperação dos fundamentos econômicos e volta da credibilidade para, gradativamente, ampliar o PIB potencial e voltar a ter crescimento de 2% a 3 % ou até mais em 2017-18. f

Artigo enviado em 17/6/2015

Inflação - IPCA acumulado últimos 12 meses, em %

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AGILIDADE PARA O JOÃO FINANCIAR. SEGURANÇA PARA O BRASIL CRESCER.

João ficou surpreso quando teve crédito concedido rapidamente para a compra do seu carro. Agora, ele pode fazer suas entregas e fazer seu negócio prosperar. O que o João e muitos brasileiros não sabem é que a Cetip trabalha em parceria com as instituições financeiras, trazendo agilidade e segurança para o consumidor. Para conhecer esta e outras histórias, acesse o site: www.cetip.com.br/financiamentos

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Financeiro 92 - Junho 2015  

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