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O dia depois

de amanhã

agosto/setembro 2011 edição 70

ENTREVISTA A NOVA IMAGEM DO BRASIL, SEGUNDO OTAVIANO CANUTO, VICE-PRESIDENTE DO BIRD

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O QUE PENSAM OS ESPECIALISTAS SOBRE O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL NO CONTEXTO GLOBAL

ESPECIAL O MUNDO DAS FINANÇAS NA ERA 3.0

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conteúdofinanceiro

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Entrevista do Mês

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Otaviano Canuto, vice-presidente do Banco Mundial

O banco do futuro já está na sua casa

(Bird) para Redução da Pobreza e Gerenciamento Econômico, fala sobre o novo momento do

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Educação Financeira Blog da Acrefi, Finanças na Balança,

nessa atividade

é ferramenta extra para equilíbrio orçamentário

Happy Hour dicas de investimentos

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conta a história de uma das maiores redes do País

Café Financeiro: entre uma xícara e outra,

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o andamento de Basileia III

Cultura Pedro Herz, diretor-geral da Livraria Cultura,

Entrevista Governança Sérgio Odilon, do Banco Central, comenta

mercado brasileiro 14

Especial Tecnologia

Capa 6º Siac

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Financeira Destaque Os bastidores da gestão da Finamax

Especialistas analisam os rumos do cenário

artigos

econômico interno e externo

54 Carlos Thadeu de Freitas Gomes Cenário

Sustentabilidade Ações Instituições financeiras aderem às

62 Alberto Borges Matias Análise e Perspectivas 64 Carlos Honda Segurança 66 Nicola Tingas Última Palavra

boas práticas “verdes” agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 3

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expediente financeiro ISSN 1809-8843

Rua Líbero Badaró, 425 – 28o andar – São Paulo – SP Tel: (11) 3107–7177 Fax: (11) 3106–6082 – www.acrefi.org.br Presidente Érico Sodré Quirino Ferreira Vice-Presidentes Marcio Ronconi de Oliveira, Luis Otavio Matias, Aquiles Leonardo Diniz, Mauro Roberto Vasconcellos Gouvêa, Bartholomeu Ribeiro e Ricardo Annes Guimarães Secretários Paulo Tabaquim e Sérgio Marra Pereira Capella Tesoureiros Cláudio Messias Ferro e Marcus André de Oliveira Diretores Regionais Athaide Vieira dos Santos, Carlos Alberto Samogim, Elcio Antonio de Azevedo, Felicitas Renner, José Antonio Rodrigues, José Newton Lopes de Freitas, Francisco Sotero Rosas Neto, Marcos Etchegoyen, Leonardo Marcondes Dadalto, Paulo Henrique Pentagna Guimarães e Pedro Costa Carvalho Diretores-Executivos Morris Dayan, Sandro Alexandre de Almeida, Edson Froes Castilho, Felipe César Rodrigues Ferreira, Laurent Thong Vanh, Luis Felix Cardamone Neto, Rubens Bution e Leonel Dias de Andrade Neto Diretores Conselheiros Eduardo Tavares Nobre Varella, Élcio Jorge dos Santos, Giovani Cataldi Neto, Roberto Bronzere, Paulo Sérgio Borsatto, Nelson Aguiar Junior, Odilon Pereira Guerra e Joelcyr Carmello Filho Conselho Consultivo Membros Natos: Alkindar de Toledo Ramos, Manoel de Oliveira Franco e Ricardo Malcon Membros: Alencar Burti, Ricardo Loureiro, Jorge Hilário Gouveia Vieira, Luiz Horácio da Silva Montenegro, Miguel José Ribeiro de Oliveira, Sergio Antonio Reze e Ilídio Gonçalves dos Santos Conselho Fiscal Efetivos: Domingos Spina, Edson Ueda, David Figueiredo Suplentes: Elpídio Hoffmann, Maria Madalena Américo Marinho e Gilson de Oliveira Carvalho Diretor Superintendente Antônio Augusto de Almeida Leite (Pancho) Controller Carlos Alberto Marcondes Machado Economista-Chefe Nicola Tingas Consultor Jurídico Cassio M.C. Penteado Jr. Auditoria KPMG Assessoria de imprensa Tamer Comunicação Empresarial

Rua Novo Horizonte, 311 – Pacaembu – São Paulo – SP Tel.: (11) 3125–2244 – CEP 01244-020 – www.gpadrao.com.br Publisher Roberto Meir REDAÇÃO Editora-executiva Giseli Cabrini Editora-assistente Juliana Jadon Reportagem Paulo Gratão e Raimundo de Oliveira (colaboradores) Fotografia Douglas Luccena Arte Editora de Arte Marina Martins Diagramadores Érika Bernal e Marcelo Kilhian Revisora Dora Wild Publicidade Diretora Comercial – Fabiana Zuanon – fzuanon@gpadrao.com.br Gerente Comercial – Marco Góes – mgoes@gpadrao.com.br Gerente de Negócios – Adriana Próspero – aprospero@gpadrao.com.br Impressão IBEP Gráfica Ltda.

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editorial

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O Brasil não é uma ilha imune à forte turbulência econômica global, mas caminha com passos firmes diante do cenário mundial. O que é grave hoje é a crise social e moral, que tem a força de um tsumani no País. A nossa crise é de valores e levará anos para ser transposta, dada a sua natureza. E só vai ser superada com muito investimento, principalmente em educação. O mundo em que estamos inseridos vive um crescente desequilíbrio de capital, com economias em desaceleração e uma dependência cada vez maior de um número cada vez menor dos motores de nações emergentes. Um quadro, portanto, de maior volatilidade e risco. É imprescindível, além de estimular investimentos, inovação, comércio exterior e defender a indústria e o mercado interno, cuidar da imagem do Brasil, porque é nas crises que as moedas da seriedade e da credibilidade valem mais.

Economia e reputação sob controle: desafios para o País

Foto: Flávio Roberto Guarnieri

Ou seja, não bastam o investment grade e as medidas macroprudenciais, é preciso ir além, com parâmetros claros e bem definidos do que visamos, das metas que nos impusemos no campo social e na área moral. Não podemos considerar normal que até na Bulgária a imprensa avise os turistas que virão ao Brasil que eles têm grandes chances de serem assaltados, roubados, sovados... Não podemos considerar normal que os bandidos montem barreiras em rodovias com armamento pesado e que fujam das prisões de helicóptero. E mais: que crianças nos amedrontem nos semáforos. Isso não é normal, não é bom e tem de ser estancado. Para o período que vai até o final do ano, temos projeções de certo modo tranquilizadoras, com bons prognósticos para emprego e renda, além de expectativa de acomodação da inadimplência. Mas e a crise de valores? Até quando vamos aceitar como normal não ter liberdade para ir e vir? Até quando vamos aceitar como normal tudo aquilo que atinge nossos princípios morais? Está na hora de dizer: basta!

Érico Sodré Quirino Ferreira Presidente da Acrefi agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 5

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entrevistadomês

Fotos: Douglas Luccena

“Ser brasileiro me ajuda muito na comunicação com as pessoas e no processo de ambientação”

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A serviço da igualdade na distribuição de renda Por Giseli Cabrini

Entrevista exclusiva com Otaviano Canuto, vice-presidente do Banco Mundial (Bird) para Redução da Pobreza e Gerenciamento Econômico O brasileiro Otaviano Canuto é, atualmente, um dos vice-presidentes do Banco Mundial (Bird) à frente do Network of Poverty Reduction and Economic Management (PREM, do inglês, Departamento de Redução da Pobreza e Gerenciamento Econômico). O executivo também já fez parte do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), foi secretário de Assuntos Internacionais no Ministério da Fazenda brasileiro e teve uma forte atuação na carreira acadêmica, como professor das universidades de São Paulo (USP) e Campinas (Unicamp). Mas a forma como ele gosta de se apresentar é vice-presidente do “amor”. A brincadeira começou com o antecessor no Bird, que era indiano. “Em hindi, prem significa amor”. De sorriso largo e fácil, Canuto afirma que o fato de não ser remanescente dos quadros internos do Banco Mundial acabou por ser um trunfo na sua forma de gestão, assim como a brasilidade. “Trago

uma ótica e uma experiência externas à instituição, o que contribui para agregar pontos de vistas que não são, imediatamente, pensados pelos profissionais que cresceram e amadureceram dentro da dinâmica complexa do banco. Ser brasileiro me ajuda muito na comunicação com as pessoas e no processo de ambientação.” Nesta entrevista, o executivo fala sobre suas atividades e rumos da economia global e brasileira no atual cenário mundial. Aborda ainda as experiências que o País adota para reduzir a pobreza e que servem como exemplo para outras nações. Confira. Revista Financeiro Fale um pouco sobre suas atividades junto ao Banco Mundial (Bird) e de que forma elas podem ajudar o Brasil na relação com a instituição? Otaviano Canuto Eu dirijo uma rede com mais ou menos 700 técnicos, a maioria economistas, que lidam com o aconselhamento de políticas em algumas áreas do banco, mas para todos os países com os quais o banco trabalha. As vertentes são as seguintes: política fiscal, gestão da dívida pública, comércio internacional, gestão do setor público, governança, estratégia de redução de pobreza e igualdade de gêneros. Eu também faço aporte técnico para a instituição na produção que o banco faz para o G-20 e o G-8 e cuido da relação entre o banco e o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas eu não trabalho com o Brasil, em particular. O banco tem uma estrutura muito bem definida de responsabilidades e, no caso, ele tem redes que cortam a instituição toda por assuntos. Eu dirijo o Departamento de Redução da Pobreza e Gerenciamento Econômico (tradução livre para Network of Poverty Reduction and Economic Management), mas a relação com clientes é feita por meio das seis vice-presidências regionais. Quem cuida do Brasil no banco é a vice-presidência para América Latina e Caribe, que não está sob minha responsabilidade. agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 7

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entrevistadomês E a vice-presidência tem um corpo de funcionários e inclusive um diretor para o Brasil cuja estrutura, que congrega cerca de cem pessoas, fica em Brasília. Agora, evidentemente, com a importância crescente das economias emergentes na dinâmica global, o peso de estudar o Brasil, acompanhar o que se passa no País e incorporar essas informações às políticas do banco, cresceram muito. E é sob esse aspecto que a minha experiência com o País ajuda muito. Financeiro Qual a visão que a instituição tem, atualmente, da forma que o Brasil tem conduzido sua política econômica? Canuto Há uma visão muito favorável. Uma delas é o padrão de responsabilidade macroeconômica adotado pelo País há bastante tempo. Uma segunda dimensão que explica essa percepção positiva é o fato de que o País soube responder bem ao tremendo choque que foi a crise financeira de 2008–2009. O País tinha o arsenal de instrumentos, construído ao longo do governo anterior, e soube usá-lo bem. E tem, atualmente, um potencial que o diferencia das economias de centro avançadas. E terceiro, talvez o mais importante, é o desempenho no sentido de reduzir a pobreza. Como a missão principal do Banco Mundial é a luta contra a pobreza, o Brasil virou um exemplo fantástico. Financeiro Então a avaliação é de que o Brasil saiu, efetivamente, fortalecido da crise. Isso seria exemplificado pela melhora do rating do País? Canuto A melhora de rating é apenas uma manifestação. Ela é o resultado, mas não a causa. Ficou claro durante a crise como foi importante a criação de um arsenal de defesas em relação a choques como o que aconteceu, não só em termos de reservas, mas de uma situação fiscal confortável. Ela permitiu ao governo reagir com mecanismos anticíclicos, sem colocar em risco a percepção de solvência do País e a estabilidade. A adoção de uma política macroeconômica responsável no passado fortalece as bases institucionais e de suporte da sociedade civil. E todo mundo vê isso. Cresce a aposta na manutenção dessa responsabilidade e isso está atrás de uma avaliação cada vez mais favorável do panorama de risco do Brasil.

Financeiro Como analisa o dilema do atual governo: domar a inflação sem comprometer o crescimento? Canuto No longo prazo, não há incompatibilidade entre as duas coisas. Não existe crescimento econômico sustentável com inflação. Então, no longo prazo, os dois objetivos são inevitavelmente conciliáveis. Nesse sentido, temos uma visão favorável da forma como o governo brasileiro busca manter a inflação sob controle, dentro da meta, a despeito da magnitude do choque de preços de commodities e do grau de aquecimento na economia doméstica. Estamos condenados a assistir, em todo o mundo, à combinação de políticas prudenciais com monetárias. Financeiro Então, na sua avaliação, essas medidas macroprudenciais foram acertadas? Canuto É preciso compreender que vivemos em um mundo no qual a dinâmica dos preços dos ativos importa muito. Tanto para a estabilidade financeira quanto para a macroeconômica. Quando se exercita política de manutenção da estabilidade macroeconômica, dentro de um regime de metas de inflação como é o brasileiro, ela não opera em um vácuo, mas, sim, dentro de um contexto de evolução de preços de certos ativos. Achamos que a adoção de medidas macroprudenciais adotadas pelo governo brasileiro foi convergente com o ciclo acelerado de expansão do crédito que poderia, mais tarde, comprometer não só a estabilidade financeira, mas a macroeconômica. Não se pode ter um único instrumento, como a taxa básica de juros, para enfrentar os dois tipos de preocupações. Financeiro Como você analisa o cenário econômico mundial atualmente? Será mesmo uma década perdida para os Estados Unidos? Canuto A perspectiva de baixo crescimento não se limita apenas à economia norte-americana, mas também abrange a japonesa e a europeia. Está acontecendo uma troca de locomotivas na economia global com o aparecimento de novos eixos e de centros de gravidade na dinâmica macroeconômica mundial tendo como base não as economias avançadas, mas as de países em desenvolvimento. E isso é algo que não é restrito a economias emergentes – entre elas Brasil, Índia, China. Mesmo os países de baixa renda –

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“Cresce a aposta na manutenção dessa responsabilidade e isso está atrás de uma avaliação cada vez mais favorável do panorama de risco do Brasil”

como os da África Subsariana – passaram bem pela crise. Mais da metade do incremento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial está vindo dos países do Sul. Essas economias de baixa renda enfrentaram a crise com uma situação fiscal muito melhor do que no passado – seja por meio de programas de redução da dívida ou não. O fato é que o arcabouço de gestão econômica nessas nações de baixa renda melhorou muito. Financeiro Você tocou no assunto da economia europeia. Na sua opinião, a situação da Grécia é uma bomba-relógio? Como fica a questão do euro? Canuto As economias do sul da Europa – Grécia e Portugal – têm um desafio de competividade a enfrentar para voltar a crescer. A situação dessas economias é, atual-

mente, crítica não apenas por conta da dívida pública, mas porque o crescimento dos últimos anos mostrou não ser sustentado. Ele era baseado, simplesmente, na redução do risco-país e não foi acompanhado por um aparelhamento produtivo compatível com os níveis de salários reais e de gastos públicos. Então, essas economias vão passar por um processo doloroso de ajuste. Financeiro Em relação à desvalorização da moeda norte-americana perante as demais, na sua opinião, ela é fruto de manipulação? Haveria um substituto para o dólar? Canuto O cenário mais provável, com a qual a maior parte dos economistas trabalha, é de uma evolução mais ou menos gradual, na ingressão à convivência de um certo agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 9

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conjunto de moedas de reserva. É inevitável que o dólar vai compartilhar a posição de moeda de reserva em portfólios privados e públicos na economia global com o passar do tempo. Atualmente, o euro já ocupa uma parcela, assim como o iene. E é uma questão de tempo para que isso ocorra com a moeda chinesa também. O ritmo vai depender de vários fatores. Entre eles, a extensão na qual a China resolva acelerar o processo para tornar isso possível, aumentando o grau de conversibilidade das operações na sua moeda. Vai depender do ritmo de desenvolvimento do sistema financeiro chinês de modo a tornar os ativos financeiros daquele país líquidos sob o ponto de vista dos estrangeiros. E também da extensão que os atributos peculiares do sistema financeiro norte-americano continue a dar alguma vantagem. Isso porque não existe ainda um sistema financeiro dotado de capacidade de provisão de liquidez e de variedade de instrumentos financeiros, como o norte-americano. Então, essa é uma evolução que vai tomar tempo, mas que é inexorável e não, necessariamente, ruim.

Financeiro Como você analisa a ascensão das classes C e D a novas faixas de renda e experiência de consumo que acontece no Brasil? Acredita que esse é um modelo para o resto do mundo? Canuto A experiência de êxito do Brasil com programas em massa de transferência condicional de renda, como o Bolsa Família, e de iniciativa equivalente adotada no México viraram um modelo não só para o resto da região, mas para países de outras parte do mundo. Exigem um grau mínimo de sofisticação na gestão pública porque você precisa ter estruturas de governo que incorporem técnicas modernas de monitoramento, de revisão frequente para checar se o dinheiro está indo para os destinatários corretos, de cadastramento e de grau de informatização. Por isso, muitos países de baixa renda não têm condições de adotar, com sucesso, iniciativas semelhantes, mas o Brasil, sim. Esses programas são superiores a outros que abrem uma margem enorme para a corrupção e uso político, entre eles a distribuição de comida em espécie. A grande verdade é que nos anos 1990, principalmente 2000, houve uma experiência de queda da pobreza em uma parte do mundo em desenvolvimento como resultado de vários experimentos simultâneos. Ainda temos muito que aprender, inclusive um dos meus departamentos cuida exatamente disso e faz um levantamento dessas experiências. A própria queda da pobreza no Brasil não pode ser explicada apenas pelo Bolsa Família, mas já refletiu em parte a melhora nos índices educacionais e a adoção de políticas macroeconômicas responsáveis. Então, há uma série de fatores que podem ser acionados para explicar isso no Brasil e no mundo. Financeiro Na sua visão, isso sinaliza alguma melhora no sistema de distribuição de renda brasileiro? Canuto É preciso diferenciar a distribuição de renda da questão da pobreza. Eventualmente, você pode ter um ritmo acelerado de redução da pobreza, sem diminuição do grau de desigualdade de renda como acontece na China. Dado ao alto grau de crescimento naquele país, alguns segmentos estão se expandindo acima da média e o grau de concentração da renda subiu, brutalmente, na última

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década. Mas, ao mesmo tempo, o número de pobres também recuou. No caso do Brasil, os dados mostram que, mesmo com as enormes oportunidades de aumento patrimonial e enriquecimento, os índices usados para mensurar concentração de renda exibem redução.

Canuto Primeiro nós acreditamos que sim. E, segundo, o banco está envolvido nesse momento com esse tipo de iniciativa, na Rússia. Há um interesse enorme por parte de outros países em programas voltados à educação financeira. A experiência no resto do mundo revela que isso faz uma grande diferença.

Financeiro Na sua opinião, o Plano Real conseguiu, efetivamente, estabilizar a economia brasileira ou seria um projeto inacabado. Como avalia a questão da persistência do modelo de indexação? Canuto Ao longo dos últimos 17 anos, o País construiu esse arcabouço econômico. Nem tudo foi feito na época do FHC (Fernando Henrique Cardoso) nem no período Lula (Luiz Inácio Lula da Silva). Dificilmente alguém dirá que tudo irá se completar, agora, no governo Dilma. O importante é que o País soube conservar, ao longo desse período, uma trajetória evolutiva de melhora.

Financeiro Como avalia o desempenho das entidades brasileiras ligadas a crédito e financiamento em relação à performance desse tipo de atividade em outros países? O que há de diferente por aqui? Canuto A nossa característica é a taxa de juros básica elevada por questão de necessidade de controle da demanda agregada. O patamar da taxa de juros paga pela dívida pública, atualmente, não reflete a situação de solvência que é muito melhor. Isso, evidentemente, faz com que a operação do sistema financeiro no Brasil em todos os níveis, Financeiro Apesar das medidas macroprudende grandes bancos a instituições de menor tamanho, tenha ciais voltadas a segurar o crédito, a busca um modus operandi distinto de países que vivem por financiamentos no Brasil continua. com taxas de juros da dívida pública mais baixos. “Sempre há Essa diferença leva a uma composição dos porHá o risco de uma bolha por aqui? riscos de Canuto Sempre há riscos de bolha em uma tfólios da riqueza privada, com a qual operam as bolha em uma economia de mercado, caso não ocorra adeinstituições financeiras, muito enviesado em relaeconomia de quada supervisão financeira. E eles são eternos ção à dívida pública. e frequentes, particularmente, em situações nas mercado, caso quais existam razões para que os agentes econôFinanceiro Sustentabilidade é a palavra não ocorra micos passem por momentos de euforia. A boa da vez. De que forma o mercado financeiadequada notícia é depois das nossas experiências trágicas, ro pode adotar esse conceito? supervisão com crises bancárias custosas no início dos anos Canuto Práticas sustentáveis na área de financeira” 90, o País aprendeu. Tanto que quando houve manejo de recursos ambientais se revelam o tremendo choque recente, o nosso sistema ficada vez mais uma condição necessária para nanceiro atravessou a crise em situação confortável. E tudo a sustentabilidade econômica e financeira de muitos leva a crer que não há nenhum motivo que esse aparato de empreendimentos. Não estou dizendo que esse seja supervisão e regulação financeira, que tem funcionado bem, o caso de todas as atividades econômicas, mas de um seja desmantelado. número crescente. Em segundo lugar, há um prêmio que envolve custo menor para recursos disponíveis peFinanceiro Ainda em relação ao crédito, muilos agentes econômicos, em muitos casos quando há o reconhecimento da adoção de práticas sustentáveis. O to se fala e multiplicam-se iniciativas voltadas à educação financeira da população. Como analisa componente de políticas públicas para reforçar práticas isso? Elas são eficazes? O Banco Mundial tem alsustentáveis continua importante e não pode ser substiguma ação nesse sentido? tuído por iniciativas voluntárias. f agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 11

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notasmercado

COFRES

CLASSIFICAÇÃO DE RISCO

Reservas do Brasil ultrapassam US$ 350 bilhões

Nota do País é elevada por agência japonesa

O Banco Central (BC) divulgou que as reservas internacionais brasileiras bateram novo recorde em 10 de agosto, quando o saldo de divisas somou US$ 350,881 bilhões. As reservas em 2011 têm US$ 62,306 bilhões a mais que as do ano passado, o que representa aumento de 21,59%. O estoque registrado no fim de 2010 alcançou US$ 288,575 bilhões. O avanço decorre principalmente das compras diárias que o BC tem feito no mercado à vista para reduzir a forte oferta da moeda norte-americana internamente.

A agência de classificação de risco japonesa R&I elevou a nota do Brasil de BBB- para BBB. Em comunicado, a empresa informou que o crescimento da classe média criou um “mercado interno robusto” no Brasil e, por isso, reduziu os riscos de a economia do País sofrer impactos negativos do cenário externo. “Enquanto a perspectiva para a economia global tornou-se mais sombria, a administração econômica e fiscal do Brasil aumentou a estabilidade”, disse a nota da agência.

MERCADO IMOBILIÁRIO

Caixa estima concessão de R$ 90 bilhões

A Caixa Econômica Federal revisou sua previsão de concessão de financiamentos imobiliários para este ano. Segundo nota da instituição, a previsão inicial de R$ 81 bilhões em financiamentos passou para R$ 90 bilhões. No primeiro semestre de 2011, o lucro líquido do banco chegou a R$ 2,3 bilhões, crescimento de 36,4% em relação a igual período de 2010. O resultado foi impulsionado principalmente pelo crescimento das operações de crédito. O saldo da carteira da Caixa avançou 38% no primeiro semestre e atingiu R$ 205,9 bilhões. EMPRÉSTIMOS

Brasileiros pagaram R$ 150 bilhões em juros no primeiro semestre

No primeiro semestre deste ano, os brasileiros perderam R$ 85,2 bilhões em poder de consumo. Os números são da pesquisa realizada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio). O total equivale a 65,91% dos R$ 129,3 bilhões que as famílias gastaram com juros ao longo de 2010.

INFLAÇÃO

Preço da cesta básica cai

O Índice de Preços ao Consumidor – Classe 1 (IPC-C1), que mede a inflação para as famílias com rendimentos mensais até 2,5 salários mínimos, teve queda de 0,25% em julho, menor do que a registrada um mês antes, um recuo de 0,31%. O dado é da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo o levantamento, o índice acumula 3,39% no ano e 6,49% nos últimos 12 meses.Os principais fatores que empurraram a inflação para baixo foram: alimentação (de -1,20% para -0,92%), frutas (de -8,11% para -2,03%), e despesas diversas (de 0,11% para 0,20%), especialmente alimento para animais domésticos (de 1,10% para 2,06%).

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IED

Menos recursos O agravamento da crise nas nações desenvolvidas pode provocar uma queda no fluxo de investimentos diretos que entram no País, de acordo com analistas. Nos seis primeiros meses do ano, os investimentos diretos líquidos bateram recorde e somaram US$ 42,7 bilhões, segundo o Banco Central do Brasil. Desse total, o ingresso de recursos por meio de empréstimos intercompanhia soma US$ 23,8 bilhões, dos quais US$ 17,1 bilhões vêm de filiais de multinacionais brasileiras que devolvem dinheiro para a matriz no país de origem. Esse montante é cinco vezes maior que os US$ 3,2 bilhões registrados no primeiro semestre de 2010. (ABr) BANCOS

Foto: Henrique Felício/O Liberal

Frota de “agências”

16%

dos portadores de cartões entrevistados para um estudo feito pela CardMonitor em parceria com o Instituto Medida Certa apresentavam restrições de crédito na Serasa Experian

62,7

foi o porcentual médio de imóveis financiados pelos bancos no primeiro semestre deste ano, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip)

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Por Paulo Gratão, de Belém (PA)

dias de vendas foi o patamar atingido pelos estoques de veículos em julho. Isso corresponde a 367,1 mil automóveis, comerciais leves, ônibus e caminhões armazenados, segundo dados da Anfavea, associação das montadoras. Trata-se do maior índice desde junho de 2010

Depois do Bradesco, agora é a vez do Banco do Brasil (BB) também ter um corresponde bancário percorrendo o rio Amazonas (AM). Em parceria com a rede Ponto Certo, o BB acaba de instalar um terminal de autoatendimento (TAS) no navio Rodrigues Alves IV, para que as pessoas, que já usufruem daquele meio de transporte, possam realizar transações bancárias com comodidade e segurança. A “agência” flutuante beneficia diretamente a população que vive em Palmeirinha, Gurupá, Prainha, Breves, Monte Alegre e Santarém, cidades ribeirinhas que entornam Belém, no Estado do Pará. Por meio do TAS é possível efetuar pagamento de faturas, movimentações bancárias – como empréstimos – e até aberturas de contas. Em um futuro próximo, saques de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) estarão disponíveis também, assim como movimentações com dinheiro. Além disso, o correspondente bancário do BB permite que clientes de outras instituições possam pagar contas, com cartões Visa e Mastercard, e recarregar celulares pré-pago, sem nenhuma cobrança adicional.

bilhões de reais foi o montante correspondente a quanto os depósitos em caderneta de poupança superaram os saques em julho. Foi a maior captação líquida do ano, conforme informações do Banco Central do Brasil

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Fotos: Douglas Luccena

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Por Giseli Cabrini

Pedro Herz

Releitura de uma livraria O que é um livro novo? “É aquele que você não leu. Não importa a idade dele, nem que tenha sido lançado ontem”, afirma Pedro Herz, diretor-geral da Livraria Cultura. O negócio – que nasceu a partir de uma iniciativa da mãe do empresário, Eva Herz, de locar exemplares em alemão na década de 40 – prosperou e se transformou em uma rede com atualmente 11 unidades em funcionamento em São Paulo (SP), Brasília (DF), Porto Alegre (RS), Salvador (BA), Fortaleza (CE), Recife (PE) e Campinas (SP). Outras duas serão abertas ainda em 2011 no Rio de Janeiro (RJ) e em Curitiba (PR). Algumas delas possuem teatros e auditórios próprios. O acervo, que reúne mais de 3,6 milhões de títulos e 170 mil CDs e DVDs, é considerado o maior do mercado. A equipe de funcionários alcança 1,5 mil pessoas e o número de visitantes, contabilizadas todas as lojas, é de cerca de 40 mil por mês. O tíquete-médio chega a R$ 70. “O Millôr Fernandes diria que eu sou um leitor sem estilo. Eu leio o que me dá vontade e não consigo dar conta de tudo. Eu estou lendo menos, por quê? Porque nosso tempo está cada vez mais disputado. Fazemos tudo em pedaços, em fatias menores. Então chega um momento que você precisa dizer não para alguma coisa”, resume Herz. Em relação à pergunta se os tablets irão incentivar a leitura, o empresário é enfático: “não tenho essa resposta, mas acredito que leitores são feitos em casa”. Confira a entrevista na íntegra. Revista Financeiro O embrião da Cultura foi marcado por um serviço que em 1947 soava como inovador: o aluguel de exemplares. De que forma isso inspirou a criação da livraria?

Pedro Herz Era uma inovação porque, em primeiro lugar, meus pais eram alemães, assim como o círculo de amigos deles. Naquela época, o acesso das pessoas a livros desse idioma no Brasil era muito raro. Não existia uma biblioteca pública com exemplares em alemão. Essa ideia nada mais é do que a vídeolocadora dos dias atuais. Muitas vezes, as pessoas que alugavam os livros queriam presentear parentes com exemplares que acabavam de ler. Estimulada pelos sócios dessa biblioteca circulante, minha mãe decidiu começar no varejo de livros. Financeiro Como foi iniciada a expansão? Herz Quando começou o metrô em São Paulo, a sede ficava na rua Augusta. Muitos amigos e clientes sugeriram que fosse instalada uma filial próxima à estação São Bento. Achamos a oferta do aluguel razoável e nos instalamos em uma loja de 40 metros quadrados. É claro que não deu certo. Como você põe uma filial com essa dimensão quando a matriz tem 200 metros quadrados? Tudo que a gente tinha naquele local, as pessoas não queriam. Elas pediam o que havia na matriz. E não foi só essa tentativa que fracassou. Financeiro A partir disso, o que foi feito para corrigir o rumo inicial e obter êxito? Herz Eu percebi que o caminho era outro: crescer na vertical, oferecer serviços diferenciados, estruturar bem a empresa. E quando ela tiver com uma boa coluna cervical, aí, sim, pendurar coisas sem que isso venha a provocar uma hérnia de disco. Outra coisa importante é manter a identidade. Financeiro E os novos formatos de unidades: âncoras de shopping centers e lojas com conceito inédito agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 15

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de varejo customizado. Como foram elaborados e quais os resultados? O que esses modelos trazem de novo em relação à concorrência? Herz A Cultura foi a primeira livraria na história do Brasil e do País que foi e é âncora de um shopping. Isso foi em 1997. Já estávamos com a construção daquela sólida espinha dorsal em andamento e funcionando. E esse convite foi interessante e nós topamos. A partir daí vieram novos convites semelhantes e, atualmente, somos âncora em todos os shopping centers nos quais estamos presentes. E o que é ser âncora? É ser destino. Financeiro Então, o que está planejado para este e o próximo ano? Herz Para 2011, estavam previstas inaugurações de três unidades. Seriam duas no Rio de Janeiro, mas apenas uma ficará pronta neste ano, em agosto. A outra foi postergada por se tratar de uma obra maior e deve estar concluída em abril de 2012. E a terceira, que está em andamento, será inaugurada em Curitiba (PR). Já no ano que vem iremos para Manaus (AM). Financeiro A Livraria Cultura se destaca por ter o maior acervo de títulos do mercado. De que forma esse trabalho é feito? Herz É um trabalho decorrente da nossa própria experiência. Em que nós investimos basicamente? Em recursos humanos e tecnologia. Oferecer boas ferramentas

para os funcionários, principalmente para os que estão na linha de frente atendendo o público. Todas são desenvolvidas internamente. Além disso, o próprio cliente nos traz informação sobre o que deseja adquirir. A outra parte vem das editoras. Financeiro Como é realizado o processo de seleção dos funcionários? Quais as ações para retê-los, uma vez que nos dias atuais a rotatividade tem sido um problema cada vez mais comum no setor de comércio e serviços, principalmente com a economia aquecida? Herz Eles não têm a menor obrigação de entender sobre física quântica, mas, sim, o que o cliente quer saber sobre esse assunto, por exemplo. Nós tentamos errar o mínimo possível, mas há rotatividade, sim, embora tenhamos um índice bem inferior à média do varejo tradicional. Nossa remuneração é um pouco acima do patamar médio. Também estimulamos os funcionários a continuar os estudos e ao aprendizado de idiomas. Eles recebem um auxílio para isso que depende do desempenho de cada um mostrado por meio da avaliação interna. Financeiro Cada vez mais o mundo digital toma conta do dia a dia das pessoas. Como está a performance das vendas de eBooks e Audiobooks em relação aos exemplares físicos? Os tablets são oportunidades ou desafios para as livrarias?

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Herz Somos vendedores de conteúdo e não de hardware. O leitor decide como e em qual tipo de mídia quer ler “Dom Casmurro”, por exemplo. Não sei se os tablets ou outros equipamentos farão leitores. Quem não lê, vai passar a ter esse hábito? Isso eu não sei responder. É uma pergunta que fica para todos os envolvidos na produção de texto. Financeiro Recentemente, por meio de uma iniciativa inédita no Brasil, a Livraria Cultura juntamente com a Editora Lua de Papel selecionaram 50 leitores para ler o primeiro volume do romance “O Pão da Amizade” (Friendship Bread), da escritora havaiana Darien Gee. Como avalia o alcance dessa ação, uma vez que esse tipo de oportunidade costuma ficar restrita a críticos e jornalistas? Ela chega a representar um novo paradigma na relação entre editoras e leitores? Herz É uma ideia que está em andamento. É um grupo que se reúne periodicamente e discute sobre isso. E isso não é novo, mas é uma iniciativa que funciona bem, embora restrita a um grupo pequeno de interessados. Financeiro A unidade pioneira, que fica no Conjunto Nacional, é sede de diversos eventos como concertos, shows, noites de jazz, palestras, cafés filosóficos e noites de autógrafos. De que forma isso ajuda os negócios? Herz Gostamos que as pessoas passem bastante tempo aqui e não que apenas entrem e saiam. Por isso,

temos um café e outros produtos além de livros. Oferecemos outras opções de lazer como teatro e auditório, por exemplo. Financeiro O que é boa leitura para você? Quais os ingredientes ideais de um livro? Herz Aquele livro que emociona, dá prazer e resolve o seu problema. Financeiro Atualmente, sustentabilidade é uma bandeira comum a todas as organizações de sucesso. No caso da Cultura, como ela lida com esse tema? Herz Dentro das possibilidades práticas e concretas. Acho fantástica a lei que abole a sacola plástica, mas a substituição dela é complexa porque o cliente, em geral, quer uma embalagem para presente. Mas, internamente, nós já fazemos isso há muito tempo. Um exemplo é a coleta seletiva de lixo. Financeiro Qual a regra fundamental para ter sucesso nos negócios da Cultura e na vida pessoal do ponto de vista financeiro? Herz Aqui é sim uma empresa privada que olha para os custos. Ela tem como objetivo o lucro, assim como todas as outras do segmento. Não é uma coisa só, mas uma somatória. A empresa precisa ser ágil e ter uma gestão transparente. Já na vida pessoal, a regra básica é ter bom senso. Não se deve gastar mais do que se ganha, caso contrário você vai dar um tiro no pé. f

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Um misto de tempero da comida contemporânea, um bom cafezinho e dicas de investimentos é o que oferece o Café Financeiro

Sabor do Por Juliana Jadon

Na hora do almoço, um executivo que trabalha em um banco na Alameda Santos, em São Paulo (SP), aguarda o pedido no Café Financeiro – Café & Bistrô. Para a entrada, ele solicita uma minissalada com folhas verdes servida em uma taça. Como prato principal, a escolha é penne ao molho de carne moída, abobrinha, gengibre e tirinhas de damasco, com o tempero da casa. Para beber, a opção é um suco de kiwi natural. A entrada é logo servida. Enquanto faz a refeição, o executivo lê partes de um livro que traz dicas sobre como operar no mercado de ações. O exemplar faz parte de um pequeno acervo sobre finanças, localizado estrategicamente em uma estante. Depois de degustar a refeição, ele abre o notebook, que estava guardado na pasta, e acessa o site da corretora de valores que contratou. Ainda de olho na tela do computador, o executivo pede para a proprietária do espaço, Regina Paiva, fazer uma análise das ações preferenciais da Petrobras naquele momento. Ela volta a atenção para o gráfico e, após uma análise rápida, vislumbra uma tendência de alta e diz que o preço das ações pode subir. Para finalizar, o executivo pede um café expresso, que vem acompanhado de um pequeno brownie e um copinho com água, e resolve apostar no conselho recebido. Compra os papéis da empresa, se despede e volta ao trabalho. A história narra uma rotina comum entre os frequentadores do Café Financeiro. “Acabo amiga de quem me pede conselhos financeiros. Gosto de falar sobre o mercado de capitais e adoro números”, ressalta Regina. Ela inaugurou o espaço no primeiro semestre do ano passado

Fotos: Douglas Luccena

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Regina Paiva, do Café Financeiro “Procuro levar algumas lições do mercado financeiro para todos os pontos da vida”

com a meta de oferecer consultoria financeira em um ambiente agradável. A ideia é atrair um público com maior poder aquisitivo e vontade de investir. A união entre boa comida, café importado e economia rende visibilidade para o estabelecimento. Seguindo o aroma O embrião do Café Financeiro surgiu em 2008, época da crise financeira internacional, precipitada pela falência do tradicional banco de investimentos

norte-americano, Lehman Bothers. Foi nesse momento que Regina aprendeu a comprar ações em baixa e a ganhar na alta. Para entender melhor esse mercado, fez cursos, leu diversos livros e se especializou. Ela tomou gosto por investir e chegou até a acompanhar um dos últimos pregões presenciais da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em 2009. “Gosto tanto dessa atividade que já cheguei a ficar mais de oito horas sentada em frente ao computador analisando gráficos e investindo”, conta. Em 2010, apaixonada pelo mundo das ações, Regina abandonou a área de Tecnologia da Informação (TI), na qual era especializada e trabalhava havia mais de 20 anos, e se voltou para um novo projeto. Como também é designer gráfica, ela mesma desenhou o layout do futuro estabelecimento e criou a logomarca. Quando tudo ficou pronto, gastou mais do que previa, mas diz que valeu a pena. O Café Financeiro comporta 24 pessoas sentadas e seis na varanda. Duas televisões de plasma reportam o mercado financeiro e no segundo andar há uma sala para ser alugada para reuniões de negócios ou clubes de investimentos. Tudo com Wi-Fi livre. “É possível fazer qualquer coisa pela internet. Dá para investir via home broker, conversar sobre o mercado de capitais em fóruns, mas acredito que o fator presencial é fundamental”, pondera a proprietária do estabelecimento. Em virtude dessa visão, nos próximos meses o local deverá ser ocupado por especialistas de mercado e aspirantes ao tema, convidados por Regina. A ideia é que cerca de 70% dos palestrantes falem sobre o mercado financeiro e os outros 30% abordem outras áreas relacionadas a negócios. Os encontros serão para poucos, uma vez que a sala não comporta mais do que oito pessoas. Com a mente empreendedora, Regina pensa em abrir mais 20 unidades do Café Financeiro: cinco em São Paulo e outras espalhadas pelo Brasil. O projeto ainda é sonho, mas ela sabe que é possível. “Procuro levar algumas lições do mercado financeiro para todos os pontos da vida e uma delas é acreditar”, finaliza.

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O que será do

amanhã? Imagens: iStockphotos/Douglas Luccena

Durante o 6º Seminário Internacional Acrefi (Siac), especialistas analisam o cenário econômico brasileiro no contexto internacional Por Juliana Jadon

O Brasil passa por um de seus melhores momentos. Há o boom do crédito, o aumento da consumista classe C e da massa salarial, a abundância de recursos naturais e o crescimento da economia. Além disso, nos próximos anos, o País irá sediar megaeventos esportivos como Copa do Mundo e Olimpíada. Porém ainda há diversos gargalos como educação, carga tributária elevada e falta de mão de obra qualificada que colocam em xeque o dinamismo dessa expansão sob o ponto de vista doméstico. Já analisando o contexto mundial, as incertezas são ainda maiores. A zona do euro praticamente vive um processo de derretimento diante dos problemas de solvência envolvendo alguns pares do bloco como Grécia, Irlanda, Portugal e Itália. E a lentidão da retomada da economia norte-americana somada a uma queda de braço política entre democratas e republicanos quase levou os Estados Unidos a um default. Esse desgaste repercutiu no mercado e a Standard Poor’s rebaixou a nota de crédito norte-americana. A fim de analisar todo esse cenário, o 6º Seminário Internacional Acrefi (Siac) debateu “Os Dilemas da Economia do Primeiro Mundo e os Impactos para o Brasil e o Setor de Crédito”. agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 25

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Para que o futuro do Brasil seja positivo no contexto mundial é preciso semear agora. Não há dúvidas de que faltam investimentos em pesquisa e desenvolvimento (p&d), além de reformas estruturais, entre elas fiscal, tributária e até mesmo política. Outra questão mais recente que merece atenção é o impacto do fortalecimento da moeda nacional diante do dólar. Quando Mauro Leos, presidente da famosa agência da classificação de risco Moody’s, esteve no Brasil em 2006 a questão principal era se o País seria ou não grau de investimento, um sonho naquela época. Atualmente, anos após o solo nacional ter alcançado essa etapa, a situação aparentemente piora, pois com a atração por investimentos entram mais dólares e há uma desindustrialização crescente seguida pela falta de profissionais capacitados em todos os segmentos. A análise

“Enquanto o governo não se convencer de que a solução é gastar menos para investir mais, ficaremos limitados a uma média de 4% de crescimento” Érico Sodré Quirino Ferreira, da Acrefi

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foi feita pelo presidente da Acrefi (Associação das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), Érico Sodré Quirino Ferreira, durante a abertura do encontro. Para Érico, o conceito de educação no País, baseado na aprovação automática precisa mudar. Educar, diz ele, não é formar pessoas, mas disseminar conhecimento. “Enquanto o governo não se convencer de que a solução é gastar menos para investir mais, ficaremos nessa história de stop and go e limitados a uma média de 4% de crescimento”, ressalta o presidente da Acrefi.

Os recursos destinados a p&d também continuam restritos. “Nos Estados Unidos, mesmo com uma queda, o montante gasto para esse fim corresponde a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) local. No Brasil, que é o melhor caso da América Latina, isso não chega a 1%. Os rankings de competitividade estão baixos devido aos trâmites burocráticos e a educação básica é ruim”,

“Não devemos confiar na sorte. Estamos bem posicionados, mas lamentavelmente dispensando uma oportunidade de ouro” Paulo Rabello de Castro, da SR Rating

José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados

Paulo Rabello de Castro, do SR Rating

George Vidor, jornalista e mediador

Carlos Thadeu de Freitas Gomes, da CNC

Gustavo Loyola, da Tendências, Consultoria Integrada

Sérgio Odilon dos Anjos, do Banco Central

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compara o professor Thomas Trebat, diretor-executivo do centro de estudos brasileiros da Universidade de Columbia (EUA). “As melhores cabeças daqui vão para a área financeira e governo, sobrando poucas para ciência, tecnologia, educação e inovação”, completa. Cartas na mesa Para Paulo Rabello de Castro, da SR Rating, as bandeiras vermelhas – que nas praias sinalizam perigo – estão levantadas em Brasília (DF). “Não devemos confiar na sorte. Estamos bem posicionados, mas, lamentavelmente, dispensando uma oportunidade de ouro. O governo

não coloca na agenda as reformas. Assim, compramos a possibilidade de uma trombada”, analisa. “O Brasil não está sob uma ameaça de bolha especulativa, mas devemos lembrar que o preço da estabilidade financeira é a vigilância”, complementa Gustavo Loyola, da Tendências Consultoria Integrada. Ele concorda com a maioria das medidas que o Banco Central do Brasil adotou até agora. “Deve-se louvar a capacidade que o órgão regulador do sistema financeiro mostrou na crise de liquidez pós-quebra do Leman Brothers. O Brasil foi modelo em termos de reação de liquidez. Temos mecanismos emergenciais que funcionam”, diz.

“As economias em desenvolvimento e de baixa renda ganham capacidade de crescer bem acima do que se imaginava há alguns anos” Otaviano Canuto Vice-presidente do Banco Mundial

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Não há bola de cristal que mostre o futuro do País. Para tudo dar certo, será preciso muito trabalho, transparência e um acúmulo de fatores favoráveis a economia. Principalmente, no cenário externo que a cada dia que passa se torna mais cinzento. Mundo afora. As nuvens mais pesadas pairam sobre os Estados Unidos. Neste ano, inicialmente havia uma expectativa favorável por parte dos analistas, que decresceu devido ao clima chuvoso e ao tsunami, no Japão. Outro fator que contribuiu para a economia norte-americana murchar foi a alta da gasolina, resultado direto dos conflitos de ordem política no Oriente Médio. “Ela perdeu o momento para crescer”, ressalta Mendonça de Barros. Mas foi a falta de jogo de cintura na política entre os próprios norte-americanos que levou o país a quase decretar default. E, pior, que fez com que a nota de crédito dos Estados Unidos fosse rebaixada. Isso provocou um tsunami nas bolsas mundiais, incluindo a brasileira e colocou em xeque a maré de sorte da economia nacional. Segundo Carlos Thadeu de Freitas Gomes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), as incertezas externas são tão grandes que levam os bancos centrais a olhar, cada vez mais, para o dia a dia. “Não há um cenário futuro certo, pois a paisagem muda diariamente”, avalia. Quanto à zona do euro, Mendonça de Barros pondera que, embora 70% do PIB da região tenha avançado bem neste ano, nos países do Sul – incluindo França e Itália – o crescimento tem sido zero. “Demorou, mas finalmente a ficha caiu, de que a divida grega é impagável”, diz o economista. Para Barros, a China está ficando velha antes de ficar rica. Além disso, há os problemas de poluição e falta de recursos naturais que se acumulam e mostram que o gigante asiático não continuará no mesmo galope por vários anos. Porém, estima, no curto prazo o crescimento terá um ritmo bom. Otaviano Canuto, vice-presidente do Banco Mundial (Bird) para a Redução da Pobreza e Gerenciamento Econômico defende que a partir de 2000 começou a ocorrer o desacoplamento das tendências de crescimento

A partir de 2000 começou a acorrer um desacoplamento das tendências de crescimento mundial, em que as economias em desenvolvimento crescem mais mundial. As economias em desenvolvimento passaram a apresentar uma taxa de crescimento maior do que a dos países já desenvolvidos (leia mais sobre o assunto em entrevista exclusiva com Canuto nesta edição). “As economias em desenvolvimento e de baixa renda ganham capacidade de se crescer bem acima do que se imaginava há alguns anos”, analisa.

Mensageiros do crédito Nos quatro cantos do País, em qualquer que seja o recôndito, há o correspondente bancário pronto para ofertar o crédito adequado a diversas realidades e efetuar o pagamento dos benefícios sociais cedidos pelo governo, como o Bolsa Família. Nesse contexto, Sérgio Odilon dos Anjos, chefe do Departamento de Normas do Banco Central do Brasil (Denor), lembrou que o modelo de atuação dos correspondentes é de grande importância. Seja em uma farmácia, padaria ou em um pequeno comércio, onde não há agência bancária, lá estão eles atendendo a população. “Somos referência mundial nesse contexto. O correspondente é um forte instrumento de capilaridade do crédito e de pagamento de benefícios sociais”, ressalta. Odilon também comentou a relevância da regulação bancária. As instituições financeiras, diz ele, devem lutar pela qualidade da legislação, pelo crédito seguro, pela transparência das informações para não criar situações que possam trazer riscos potenciais para as instituições financeiras. “É importante que o crédito seja transparente e seguro desde o início”, finaliza.

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“Estamos no início de uma década latinoamericana”

Thomas Trebat, da Universidade de Columbia (EUA)

Soy loco por ti America Eventuais ressacas a parte, “o que o Brasil pode aprender com os outros países da América Latina e o que pode ensinar?”, questiona Trebat, diretor-executivo do centro de estudos brasileiros da Universidade de Columbia (EUA). A visão atual mais favorável e otimista sobre o futuro da economia na América Latina, ressalta, é reforçada por mudanças na estrutura produtiva global,

A visão mais favorável sobre o futuro da economia da América Latina é reforçada por mudanças na estrutura produtiva global

além do aprimoramento na luta contra a pobreza e na distribuição de renda, com o crescimento de uma nova classe média. Ele conta que a renda per capita de, pelo menos sete países latino-americanos, pode dobrar e alcançar a casa de US$ 22 mil em 23 anos, igualando-se a patamares, atualmente, verificados em Portugal e Espanha. Os atrativos para o capital estrangeiro são muitos. “Estamos no início de uma década latino-americana”, reforça Trebat. No entanto há ressalvas, tendo em vista que essas são economias superaquecidas e com baixo nível de poupança somada a um boom de crédito que pode ser perigoso. Além disso, há também uma excessiva dependência de recursos naturais, assim como de poupança externa. “Altas seguidas de queda são ciclos inevitáveis que ocorrem na economia mundial. Então, é preciso tomar cuidado”, alerta.

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Para resgatar um futuro melhor Bancos intensificam iniciativas que respeitam questões sociais e meio ambiente, e que, ao mesmo tempo, sejam responsáveis e transparentes com os acionistas 32 FINANCEIRO agosto/setembro 2011

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Entender o que desejam clientes, funcionários, colaboradores, investidores, fornecedores e todos os que de alguma forma se relacionam com a instituição financeira não é fácil. Principalmente quando se está na posição de Fábio Barbosa, presidente do Santander no Brasil, instituição com mais de 50 mil funcionários e mais alguns milhões de clientes. Em um recente bate-papo on-line com clientes da instituição sobre sustentabilidade, o gestor procurou abordar as iniciativas da empresa voltadas a esse contexto, tirar dúvidas e conhecer os anseios dos participantes. Essa é somente uma das maneiras que Barbosa utilizou para suprir a busca constante pela sustentabilidade. Assim como o banco sob o comando de Barbosa é, atualmente, referência mundial no grupo Santander – quarto maior conglomerado financeiro global, sediado na Espanha – outras instituições financeiras no Brasil também se destacam no quesito sustentabilidade. O principal deles e que, inclusive, ganhou os holofotes nos últimos meses foi o Itaú Unibanco. A instituição foi eleita, recentemente, o banco mais sustentável do mundo pelo prêmio 2011 FT/IFC Sustainable Finance Awards, concedido pelo jornal britânico “Financial Times” e pelo IFC (International Finance Corporation), braço financeiro do Banco Mundial (Bird). O Itaú Unibanco também foi reconhecido como o mais sustentável das Américas, concorrendo com instituições da Argentina e do México. No Itaú Unibanco todos os envolvidos sentem os reflexos da meta da instituição: ser líder em performance sustentável e satisfação do cliente. Anualmente, o banco divulga as

principais realizações nas esferas econômica, social e ambiental, por meio de um “Relatório de Sustentabilidade”. O documento é elaborado de acordo com a Global Reporting Initiative (GRI) e com a Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca). Durante um encontro entre líderes, em fevereiro de 2010, com a participação mais de 14 mil colaboradores, foram lançadas as novas diretrizes relativas à visão e cultura corporativa do Itaú Unibanco. Como antes da fusão a sustentabilidade já fazia parte da filosofia dos dois bancos, nesse momento foi aproveitado o melhor das culturas das duas instituições (Itaú e agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 33

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sustentabilidadeações Unibanco) e criada uma só: o “Nosso jeito de fazer”. Trata-se de um conjunto de dez atitudes e valores que devem permear todos os que fazem parte da instituição. “Na nossa visão, sustentabilidade é algo que o banco deve proporcionar para todos os públicos com os quais se relaciona”, coloca Denise Hills, superintendente de sustentabilidade do Itaú Unibanco. Outra conquista aconteceu em 2010 quando o volume de reclamações no Procon–SP ((Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor) recuou 24% comparado com o ano anterior. Foram inauguradas 31 lojas Itaucard voltadas, exclusivamente, para solucionar dúvidas e reclamações. “Queremos fornecer o produto certo, para o consumidor certo, por um preço justo e da maneira mais transparente possível”, ressalta Denise. Atualmente, todo trabalho, quando benfeito merece uma boa remuneração. Por isso, o reconhecimento de todo esse esforço também se é feito pelo mercado. Mesmo com o foco na migração das agências durante 2010, o Itaú Unibanco se manteve no Índice Dow Jones de Sustentabilidade, sendo o único da América Latina presente nessa carteira nos últimos 11 anos seguidos.

Sementes lançadas

pelas instituições Santander Microcrédito

Desembolso de R$ 1 bilhão desde o lançamento em 2001. O banco já atendeu 220 mil empreendedores. A carteira atual é de mais de 115 mil clientes e R$ 126 milhões

Fundo Ethical

O fundo de investimentos leva em conta critérios de performance financeira e de sustentabilidade, refletidos nas empresas que formam a carteira

Práticas em sustentabilidade

Por meio de cursos e palestras, promove a troca de conhecimentos para empresas, clientes e parceiros. Em quatro anos, já participaram mais de duas mil organizações. Há também o portal www.santander.com.br/sustentabilidade

Análise de risco socioambiental

Feita em todas as operações de crédito superiores a R$ 1 milhão Papa-pilhas Recolheu 172 toneladas de pilhas e baterias em 2010 por meio de 2,8 mil postos de coleta em agências e prédios administrativos no País Governança climática Em cinco anos, reduziu as emissões de carbono em 67%

Meio Ambiente

Ecoeficiência Incentivo da realização da coleta seletiva tanto nos prédios administrativos, quanto nas agências Uso de papel certificado Papéis usados na organização possuem certificação que garante boas práticas em toda a cadeia Madeira certificada Todo material com madeira deve apresentar o selo de certificação, como móveis de escritório, pisos, entre outros

Fábio Barbosa, do Santander “Ao optar pelo Ethical, o cliente, além de ter um bom investimento, também incentiva as empresas a adotarem e manterem práticas de responsabilidade social e respeito ao meio ambiente”

Santander universidades

Apoio a 391 universidades conveniadas no Brasil, com iniciativas como bolsas de estudos, salas digitais e prêmios

Programa “Amigo de valor”

Clientes podem direcionar parte do imposto de renda devido para os Fundos da Infância e da Adolescência. Desde a criação, arrecadou mais de R$ 37 milhões e beneficiou 84 mil crianças

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Denise Hills, do Itaú Unibanco “Na nossa visão, sustentabilidade é algo que o banco deve proporcionar para todos os públicos com os quais se relaciona”

Itaú Unibanco Transparência e governança

A transparência fortalece a confiança em qualquer relacionamento. Por isso, precisa ser cultivada, por meio de uma boa governança corporativa, o desejo de informar de modo transparente

Satisfação dos clientes

Respeitar e satisfazer o consumidor são meios para tornar a relação duradoura e, assim, garantir a manutenção dos negócios no médio e longo prazo

Critérios socioambientais

Devem ser aplicados em todos os negócios, de financiamentos até investimentos, além de toda a cadeia de suprimentos

Diversidade

Construir relações de qualidade com pessoas de diferentes formações, raças, opiniões e culturas, sem discriminação, compreendendo as diferenças e promovendo a inclusão

Mudanças climáticas

O banco tem um papel importante nesse cenário, na condição de uma instituição financeira de grande impacto no mercado e na sociedade

Educação financeira

Desenvolver instrumentos para que as pessoas melhorem a gestão das finanças e oferecer produtos e serviços adequados às necessidades do cliente

Microfinanças

Ferramentas eficientes para a inclusão econômica e social das populações menos privilegiadas. Estimular o desenvolvimento do modelo do microcrédito e de outras soluções que contribuam para a redução da pobreza

Engajamento de stakeholders

Aumentar as oportunidades de diálogo e interação com as partes interessadas

Em dezembro de 2010, o valor de mercado era de R$ 179,6 bilhões, aumento de 2,57% em relação a igual período do ano anterior. Comparado a 2000, o valor de mercado cresceu 8,4 vezes, enquanto o índice Ibovespa – o mais importante indicador do desempenho médio das cotações das ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) – apresentou elevação de 4,5 vezes. Fundo engajado Pioneiro dentre os fundos sustentáveis na América Latina, o Fundo Ethical, do Santander, completa dez anos em 2011. Barbosa, engajado na sustentabilidade, também é presidente do conselho do Ethical. Ele foi o primeiro fundo de investimento no Brasil cujos papéis levam em conta não somente os critérios de performance financeira, mas também de sustentabilidade. Em sua carteira estão empresas que se preocupam com aspectos sociais e não agridem o meio ambiente e que, ao mesmo tempo, sejam responsáveis e transparentes com os acionistas. “Ao optar pelo Ethical, o cliente, além de ter um bom investimento, também indiretamente incentiva as empresas a adotarem e manterem práticas de responsabilidade social e de respeito ao meio ambiente”, diz Barbosa. A fórmula deu certo e os investidores comemoram. A rentabilidade do fundo, desde a criação em junho de 2001 até março deste ano, é de 587%, acima do Ibovespa – que, em igual período, rendeu 452%. “O Fundo Ethical não é apenas mais um produto financeiro. Desde que surgiu está alinhado a critérios sociais, ambientais e de boas práticas de governança corporativa”, conta Barbosa. As empresas são avaliadas por meio de 20 indicadores, distribuídos em seis dimensões: natureza do produto, gestão & transparência, governança corporativa, meio ambiente, relacionamento com stakeholders e gestão de riscos. Fazem parte da carteira companhias dos mais variados segmentos. Os executivos do Santander e Itaú Unibanco reforçam a necessidade de que todos os funcionários das respectivas instituições devem trabalhar pela sustentabilidade. Afinal, além da causa ser boa, gera redução de custos, rentabilidade, satisfação dos clientes e garantia de um negócio duradouro. agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 35

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acrefisocial

Portal para

sonhos e

Por Juliana Jadon Aos 65 anos, o aposentado Aparecido de Oliveira é um dos frequentadores da nova biblioteca municipal “Odete de Barros Mott”, situada em Araçariguama (SP). Ele mora a 18 quilômetros do local e, por isso, vai de ônibus. Oliveira comparece ao espaço três vezes por semana ou mais para ler livros e jornais. Ali, ele encontra obras de seus autores preferidos como Jacques Berthier, Zibia Gasparetto e Lobsang Rampa. “Já li umas dez vezes ‘O Médico de Lasa’”, conta Oliveira sobre uma das famosas obras de Rampa, que aborda o tema do ocultismo. “Com ele, aprendi a ter respeito pela vida. Temos de usar os 97% da nossa inteligência que está adormecida. Os livros ajudam nesse processo”, completa. Oliveira, que já foi serralheiro, atualmente sonha em escrever seu próprio livro e transformá-lo até mes-

Fotos: Douglas Luccena

Aconchegante Nova biblioteca possui computadores e cerca de 8 mil obras

Revitalizada com apoio da Acrefi, biblioteca municipal “Odete de Barros Mott”, em Araçariguama (SP), se torna ponto de encontro e apoio para jovens, adultos e idosos

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s e realizações mo em filme. Nascido em um sítio em Porangaba (SP), na época a 27 quilômetros de distância de uma escola, pôde frequentá-la por apenas seis meses. O aprendizado da leitura foi quase que um esforço próprio. Recortava as palavras que conheceu na sala de aula em jornais, de forma a memorizá-las para não esquecê-las. Assim, de modo autodidata, descobriu as sílabas e foi aprendendo. Os livros da biblioteca que abrem a mente do aposentado para imaginação estão cada vez mais nas mãos e nos pensamentos da população de Araçariguama. Desde março deste ano, a biblioteca possui novo endereço e equipamentos modernos, entre eles computadores conectados à internet. Em breve, cinco iPads também estarão disponíveis para uso da população. O espaço também ficou mais aconchegante com mobiliário renovado e uma máquina de café expresso. Houve reforço também no acervo original de cerca de três mil títulos. Atualmente são aproximadamente oito mil exemplares. Assim, Oliveira e os demais visitantes encontram uma variedade maior de obras. “Nosso município precisava de um incentivo cultural como esse”, afirma o secretário de Cultura de Araçariguama, Vandenei Dogado, conhecido como professor Vandi. Toda essa revitalização foi possível graças ao apoio da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento) e de outros parceiros. Para o curador do prêmio Jabuti – um dos reconhecimentos literários mais importantes do País – José Luiz Goldfarb, “a gestão do município entende a relevância de

Vandenei Dogado, secretário de Cultura de Araçariguama “Nosso município precisava de um incentivo cultural como este”

Conversas saudáveis Com um pequeno palco no segundo andar, o local também se tornou um ponto de encontro para o exercício da cidadania e de campanhas de esclarecimento. Entre as apresentações já realizadas no espaço estão a palestra preventiva ministrada pelo Conselho Nacional Antidrogas (Conad) e a peça de autoria do ator Marcos Caruso intitulada “Ainda”. O espetáculo teatral fala dos sentimentos de um jovem viciado em drogas, das causas e consequências do uso de entorpecentes e da importância do diálogo em família. Em agosto, será a vez dos escritores Odair Schiavone e Edson Gabriel Garcia palestrarem no local. Tudo para incentivar a leitura

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Ensino Com ajuda da bibliotecária Edineia de Oliveira, o estudante Eli Correa, de 9 anos, melhorou o desempenho escolar

Lição Aos 65 anos, o aposentado Aparecido de Oliveira aproveita para ler livros e jornais no espaço revitalizado

fazer da biblioteca um polo para transformar a vida do município, fazendo da leitura um verdadeiro veiculo de desenvolvimento. A cidade volta assim a conhecer o brilho do ouro por meio do garimpo das páginas e letras dos livros.” Outra novidade é o horário de funcionamento da biblioteca. Antes as portas ficavam abertas somente no horário comercial, mas diante do aumento no número de frequentadores – são cerca de 80 visitantes por dia –, o espaço passou a funcionar de segunda a sexta-feira, das 8 às 20 horas. Para se cadastrar e usufruir os benefícios é preciso apenas apresentar o comprovante de residência e um documento que comprove a identidade. As crianças também participam de atividades no local. Eli Junior Sales Correa, de nove anos, é uma delas. Ele vai uma vez por semana na biblioteca para pesquisar temas de trabalhos passados pela professora. A bibliotecária Edneia de Oliveira o ajuda nessas horas. O estudante, que antes tinha dificuldade de aprendizagem, afirma ter melhorado o desempenho escolar desde que passou a frequentar a biblioteca .

Serviço Araçariguama é um município do Estado de São Paulo, conhecido como “Portal do Interior”, pela localização. Fica apenas a 50 quilômetros de São Paulo e possui população de cerca de 20 mil habitantes Endereço Rua Coronel Joaquim Augusto, 94, Centro, Araçariguama (SP)

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especialtecnologia

Finanças na

era 3.0 Cresce a adoção de tecnologias que ampliam a conveniência dos clientes, como, por exemplo, acessar a conta corrente a partir do controle da TV. Desafios, no entanto, persistem, entre eles acompanhar a velocidade das mudanças 40 FINANCEIRO agosto/setembro 2011

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Imagens: iStockphotos/Douglas Luccena/Divulgação

Por Juliana Jadon e Raimundo Oliveira Sentado em um confortável sofá, o cliente Bradesco lembra que gastou mais de R$ 300 em uma loja pela manhã. Ele quer acessar sua conta bancária para checar quanto lhe resta, mas caminhar até a escrivaninha, ligar o computador e acessar o internet banking não lhe convence, sendo que está com um pacote com pipoca sobre o colo e uma garrafa de refrigerante gelada ao lado. Recorda do aplicativo lançado recentemente pelo banco e, por meio da própria televisão de plasma, acessa a conta corrente e verifica o valor disponível. Apesar da presença em 5,5 mil municípios e quase 30 mil correspondentes, o Bradesco também chegou à sala de estar dos clientes. A cômoda situação é muito diferente de 1943, ano em que foi criada a primeira agência bancária do Bradesco – na época, Banco Brasileiro de Descontos, por Amador Aguiar e mais dois amigos. Ao longo dos anos, a instituição financeira possui um largo histórico em inovação tecnológica na indústria financeira brasileira (ver linha do tempo). Atualmente, assim como na situação acima, o autoatendimento ganha cada vez mais espaço no cotidiano dos consumidores de produtos e serviços bancários. Somente o novo aplicativo do Bradesco para televisores com banda larga, com pouco mais de um mês de operação, já contabilizava mais de 1,5 mil downloads. A ideia é que, em um futuro próximo, o cliente possa, além de acessar o saldo da conta corrente, efetuar operações bancárias como pagamento de contas e transferências. “Rapidamente essa será mais uma possibilidade consolidada de o consumidor se relacionar com o banco”, avalia Laércio Albino Cezar, vice-presidente de tecnologia do Bradesco. O projeto “TI Melhorias”, criado em 2003 pela instituição financeira, custará um total de R$ 1,8 bilhão. A iniciativa contempla 28 ações que atendem ao ambiente operacional de grandes áreas do banco. Dessas, 27 já foram concluídas, desde o diagnóstico, a solução e a implantação. A última fase, ainda em andamento, que trata da reconstrução de todos os legados e da implantação

da nova arquitetura de sistemas do Bradesco, custará R$ 1,2 bilhão. Por isso, neste ano, a área de tecnologia do Bradesco sozinha possui um orçamento de R$ 4 bilhões. “Até o final de 2012 teremos a nova arquitetura totalmente entregue”, diz Laércio. Investimentos bilionários No entanto o Bradesco não está sozinho nessa empreitada que tem por objetivo acompanhar a evolução da tecnologia e o desejo dos clientes. O gasto das instituições financeiras com Tecnologia da Informação (TI) no Brasil somou R$ 22 bilhões em 2010, aumento de 15% em relação ao ano anterior. Ao todo, os bancos brasileiros processaram 55,7 bilhões de operações no ano passado entre internet banking, caixas eletrônicos, teleatendimento, cartões, cheques e outros. O dado é da pesquisa “O Setor Bancário em Números”, divulgada pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Ainda de acordo com a Febraban, no último ano o canal on-line bateu um recorde histórico de 12,8 bilhões de transações no País, crescimento de 23% sobre 2009. Assim, esse é o segundo meio preferido entre os brasileiros na realização de operações bancárias. No Bradesco, são 3,2 milhões de usuários ativos do internet banking, que realizam 2,7 milhões de transações diárias. Gustavo Roxo, vice-presidente de tecnologia do Santander, acredita que dentro de quatro ou cinco anos o número de transações via internet será o dobro das realizadas nas agências. “Somente terminais de autoatendimento e internet banking serão 95% do total”, diz ele. Já na Caixa Econômica Federal, o volume de transações mensais realizadas no portal da instituição é de 55 milhões, segundo o gerente nacional de segurança em meios eletrônicos do estatal, Roberto Malheiro da Costa Júnior. Para ele, o montante é expressivo por conta do aumento da participação de pessoas com idade entre 12 e 24 anos, que saltou de uma taxa de 12% de bancarização para 60% nos últimos anos. agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 41

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Histórico de pioneirismo na adoção de tecnologia Bradesco

1943

Nasce o Bradesco na cidade de Marília (SP), com o nome Banco Brasileiro de Descontos

1945 É o primeiro banco

a abrir as portas para atender às contas de consumo

1962

Adota o computador na atividade bancária brasileira. Coloca máquinas de autoatendimento nas agências

1968

Cria o primeiro cartão de crédito do Brasil e lança o processo de microfilmagem de cheques

1971 O cartão de crédito do

Bradesco passa a se chamar Elo (nome resgatado em uma joint venture criada no ano anterior que tem a participação de Bradesco, BB e Caixa Econômica Federal)

1975

Lança o plástico para débito automático

1976

Lança a cobrança eletrônica

1981

Cria o primeiro cartão magnético

1995

Pagamentos móveis Com aumentos nas vendas de smartphones e tablets, as instituições financeiras correm para oferecer aos clientes soluções seguras para uso de produtos e serviços por meio de aparelhos eletrônicos móveis. Segundo a Febraban, o número de contas de mobile banking, que permitem aos clientes realizar transações por celulares, smartphones e outros dispositivos móveis, embora ainda não seja significativo, avançou 71,4%, totalizando 2,2 milhões. A razão de represamento do uso desse tipo de canal – o uso das plataformas móveis para pagamentos – é a usabilidade, que precisa de melhorias. O diretor de canais eletrônicos do Itaú Unibanco, Ricardo Guerra, afirma que, apesar de atuarem com plataformas de internet banking desde o final do século passado e ofertarem produtos e serviços em meios eletrônicos móveis há anos, os bancos ainda não desenvolveram uma solução suficientemente simples e fácil para massificar o uso de transações bancárias via equipamentos móveis. “O mobile payment tem como principal desafio o desenvolvimento de algo que massifique as transações no mercado brasileiro”, afirma. Mesmo assim, a oferta de soluções nesse sentido avança. O Itaú Unibanco oferece cobertura de serviços por meios móveis e faz experimentação para uso de celulares que interajam com POS (maquininhas que processam pagamentos com cartões). A ideia é viabilizar novas formas de pagamento em substituição ao atual uso exclusivo dos cartões.

Lança seu portal na internet – além de ser o pioneiro no Brasil é o quinto banco no mundo a possuir um

1982

Surge o primeiro ATM do Bradesco

1996

Cria o primeiro internet banking do Brasil

2011

2009

Adota a biometria como forma de autenticação nos ATMs

Lança o leitor de código de barras para iPhone. ATMs biométricos dispensam senha. Conta corrente pode ser acessada pela televisão 42 FINANCEIRO agosto/setembro 2011 42 FINANCEIRO agosto/setembro 2011

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O gasto das instituições financeiras com Tecnologia da Informação (TI) no Brasil somou R$ 22 bilhões em 2010, crescimento de 15% em relação a 2009 Já o Bradesco lançou, neste ano, o serviço de leitor de código de barras para iPhone e um sistema para que deficientes visuais também utilizem o Bradesco Celular. Desde 2000, o banco possui aplicativos para consulta de saldos, a recarga direta de telefone celular por reconhecimento de voz, começou em 2005, e consultas e transações bancárias foram iniciadas, em 2006, com o Mobile Banking 2.0. Nesse sentido, o Banco do Brasil (BB) oferece aos clientes o saque de até R$ 100 em caixas eletrônicos com o uso de telefones celulares via confirmação e liberação por meio de SMS para pessoas que estão sem o cartão. Quem esquecer o plástico em casa, por exemplo, poderá sacar o valor em um terminal de autoatendimento somente com o uso do aparelho móvel, que receberá uma mensagem confirmando a operação e lhe transmitirá uma senha. Já a Caixa Econômica Federal disponibiliza, por exemplo, a consulta do saldo do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) pelo celular. Também atua com serviços de pagamento por meio de telefones móveis, mas em que a utilização ainda enfrenta obstáculos. “Pesquisas apontam que o usuário ainda é reticente ao uso de mobile payment”, comenta Costa Júnior.

85% dos internautas brasileiros estão em ao menos uma delas. De acordo com Patricia Ellen da Silva, especialista em marketing digital da McKinsey, o consumidor quer que as empresas e marcas se posicionem nas redes sociais em questões relevantes ou de seu interesse. “Um cliente aceita quando uma empresa entra no seu Facebook, por exemplo, desde que leve conteúdo a ele. A oferta de produtos

e serviços pode acontecer em um segundo plano”, opina. Para Philip Farah, diretor para serviços financeiros da Cisco, a chamada geração Y, nascida após ou junto com a internet, tem na mobilidade e nos meios virtuais seu principal canal de interação. “Atualmente há cerca de 5,3 bilhões de telefones celulares ativos no mundo, o que corresponde a 77% da população e uma em cada 13 pessoas está presente em redes sociais”, afirma. Segundo ele, a perspectiva no segmento financeiro em relação aos meios virtuais é um grande desafio e a mobilidade é uma de suas principais portas. “Em mercados emergentes, como o brasileiro, o sistema financeiro ainda tem nas agências físicas um meio de atingir a determinados segmentos

Ricardo Guerra, do Itaú Unibanco “O mobile payment tem como principal desafio o desenvolvimento de algo que massifique as transações no mercado brasileiro”

Corrida contra o tempo As instituições financeiras, no entanto, precisam contornar o quanto antes os gargalos que envolvem o uso de novas tecnologias por dois motivos cruciais: o novo perfil de clientes e a demanda crescente de usuários. De acordo com levantamento da agência McKinsey, 73 milhões de pessoas no Brasil acessam a internet. Dessas, 96% tem acesso a conteúdos, 83% compartilham e 44% avaliam e comentam. O Brasil é ainda o segundo país do mundo em penetração nas redes sociais. Cerca de 44 FINANCEIRO agosto/setembro 2011

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Senha na palma da mão De acordo com um estudo da consultoria Frost&Sullivan, em 2013 os bancos deverão gastar cerca de US$ 2,7 bilhões com soluções de autenticação como leitura da impressão digital, facial, vocal ou reconhecimento da íris. Desde julho, o Bradesco foi pioneiro ao permitir que 23 mil ATMs possibilitem o acesso à conta bancária apenas com o uso da biometria, dispensando a necessidade de senha ou tokens. Até o fim do ano, todas as 32,5 mil serão adaptadas. “São cinco milhões cadastrados. Isso representa uma margem entre 69% e 70% de adesão”, revela Laércio.

da população que já migraram para a classe média ou estão nesse processo e passaram a ter conta bancária e acesso às operações de crédito, mas é preciso oferecer novos canais para todas as classes”, aponta Farah. Mesmo assim, de acordo com a McKinsey, menos de 10% do orçamento de marketing das empresas

por aqui é voltado para redes sociais. Nos Estados Unidos, por exemplo, o patamar atinge 22%. Na web, 40% das vezes em que “conta corrente” é dita é com caráter negativo. Em outros produtos essa média é de 20% “Os bancos brasileiros estão atrás em relação aos de outros países quando o assunto envolve redes sociais”, avalia Patricia. Laércio Albino Cezar, do Bradesco “Rapidamente a televisão será mais uma possibilidade consolidada de o consumidor se relacionar com o banco”

O uso das redes sociais pelos bancos que atuam no Brasil está em um processo de aprendizado. “Os resultados dessa interação são imparciais. Sabemos que devemos olhar para o tipo de demanda aparecerá nesse novo contexto e ao tipo de resposta que teremos que dar”, opina Rooney Silva, diretor de infraestrutura de TI do Itaú Unibanco. Entre as iniciativas recentes e que tiveram resultado positivo está a campanha da Itaucard, que alcançou cinco milhões de pessoas, apenas no microblog Twitter, denominada “Itaucard Racha” e promovida pelo apresentador Luciano Huck, por meio do @huckluciano. Por ser um dos assuntos mais comentados na rede, a ação alcançou o Trending Topic Brasil. A campanha, que falava sobre os produtos e serviços nos quais os cientes do plástico ganham 50% de desconto, foi operacionalizada e hospedada na U.Near, empresa especializada em canais corporativos de relacionamento. O Santander possui 30 mil seguidores no Twitter, mais de dez mil no Facebook, além de um canal no YouTube no qual são colocamos vídeos institucionais. Recentemente a instituição criou no Facebook a plataforma “Santander Responde”, com vídeos com conteúdos de interesse dos clientes, como educação financeira e dicas sobre o uso do cartão de crédito e investimentos, por exemplo. Mais de 14 mil pessoas aprovaram o canal. “Tratamos a marca com um princípio organizacional e que nas diferentes experiências leve conteúdo relevante e com coerência”, diz Fernando Martins, vice-presidente de marketing e marca do banco. agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 45

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No Santander, dez pessoas lidam atualmente com as redes sociais. “Sabemos que em breve esse número não será mais suficiente”, diz Martins. O Bradesco possui sistemas de monitoramento e rastreamento para atender às mais diversas menções na web. Quando se trata de algo que exige retorno, um profissional do banco imediatamente entra em contato. “Em média, são 30 mil mensagens sobre nós por mês na web. Dessas, 10% recebem nosso retorno”, conta Laércio. O dilema dos terminais A aproximação da realização de megaeventos esportivos no País – como Copa do Mundo e Olimpíada, respectivamente em 2014 e 2016 – também acelera a necessidade de investimentos em tecnologia. “A capacidade de compartilhar operações nos terminais de autoatendimento por parte dos bancos brasileiros é um problema que deve ser resolvido antes da realização no Brasil da Copa e dos Jogos Olímpicos”. A opinião é do chefe do departamento de operações bancárias e pagamentos do Banco Central (BC), Daso Maranhão Coimbra. Segundo ele, de acordo com pesquisa da autoridade monetária sobre a evolução dos meios de pagamentos, o compartilhamento de terminais ainda está com um índice de 65% e somente sete bancos, entre os 20 maiores que no Brasil possuem quantidades de transações acima da média nessa modalidade. Nos dois megaeventos esportivos, afirma o executivo, o ideal é que o compartilhamento esteja em operação plena para evitar problemas aos turistas, tanto estrangeiros como brasileiros que acompanharem os jogos nas 12 capitais do País. Ainda sem uma regulação a respeito do assunto, de acordo com ele, o ideal é que, como ocorreu no segmento de cartões por parte das operadoras de POS (maquininhas que processam o pagamento via cartão), haja uma autorregulação por parte dos bancos. Grandes players, que fizeram maciços investimentos na ampliação da rede de autoatendimento, ainda resistem a compartilhar seus Terminais de Autoatendimento (ATMs) com bancos pequenos, que não dispõem de redes próprias. Mesmo diante desse impasse, a Tecban, gestora da Rede Banco 24 Horas, deve atingir até o final deste ano a marca de 14 mil terminais próprios. Já possui 12 mil e atua também na

Fernando Martins, do Santander “Tratamos a marca com um princípio organizacional e que nas diferentes experiências leve conteúdo relevante com coerência”

gestão de outros 32 mil, compartilhados por grandes bancos nacionais. De acordo com o diretor-geral da empresa, Jaques Rosenzvaig, a instituição detém mais de 34% de market share no mercado brasileiro, com presença em todo o território nacional. Extinção? Diante de todas as novidades que têm sido incorporadas à atividade bancária – como o fato de poder acessar a própria conta corrente a partir do controle remoto da televisão – ainda é cedo para decretar a extinção das agências bancárias. Um dos fatores que colaboram para a sobrevida das agências está relacionado à obrigatoriedade de deslocamento físico até uma dessas unidades para a abertura de contas correntes. Laércio, do Bradesco, lembra que o banco inaugurou 160 agências no ano passado e neste deverão ser mais 175. No Itaú Uni-

banco serão, aproximadamente, 150 novas unidades em 2011. No entanto, segundo especialistas, com o passar dos anos, a existência de locais físicos tende a cair em desuso. Essas unidades também deverão se voltar mais para o chamado atendimento básico do dia a dia. Segundo Philip Farah, da Cisco, 58% dos baby boomers (nascidos após a 2ª Guerra Mundial) estão apenas usando as novas tecnologias, como telefone celular e computador, enquanto 85% da geração Y já está no Facebook. Assim como ocorreu com a automação nas fábricas, a adoção de novas tecnologias pelo sistema financeiro é um processo inevitável, mas não excludente. É preciso aliar conveniência, sem deixar de lado a questão humana. O atendimento presencial continua a ser um grande diferencial sob o ponto de vista dos clientes.

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informeacrefi

CERTICREFI

Certificação a serviço do mercado A Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), entidade que há mais de meio século congrega instituições voltadas – na sua grande maioria – ao crédito direto ao consumidor, passará a contar com a atividade de Certificação, implantando para isso o CertiCrefi (Exame de Certificação de Funcionários de Correspondentes e de Instituições Financeiras) em parceria com o Inepad (Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração), propondo-se a examinar, rigorosamente, os

conhecimentos adquiridos pela força de vendas e – assim – poder atestar o grau de aproveitamento dessas pessoas em cursos de capacitação que serão oferecidos pelo mercado. Com efeito, a certificação de conhecimentos profissionais constitui nos dias atuais uma tendência internacional, aliás, já aplicada no Brasil, em relação aos agentes autônomos de investimento e os corretores de imóveis. Nesse sentido, a certificação vincula-se à necessidade de proteger o público e os próprios profissionais, garantindo um padrão mínimo de atuação.

DADOS DO EXAME: O Exame CertiCrefi não vincula qualquer pré-requisito quanto à formação acadêmica. A data da primeira avaliação acontece em 18 de setembro de 2011. O exame será realizado na SEB COC, Vila Mariana. Aprovação: aproveitamento igual ou superior a 70% das questões. Número de questões: 60 de múltipla escolha com quatro alternativas. Horário: de 14h30 às 17h30. Taxa de inscrição: R$ 300.

EDUCAÇÃO FINANCEIRA

Acrefi cria blog para o tema Em linha com a era da web 2.0, a Acrefi lançou o blog Finanças na Balança, de educação financeira. Com a nova ferramenta, a associação cria mais um canal de comunicação com o público, já que o blog permite a interatividade com os usuários. A educação financeira ganha cada vez mais espaço no Brasil, e já foi incluída em currículos de importantes escolas do País. Além disso, várias empresas, instituições financeiras e principalmente associações de classe estão bastante atuantes no segmento de prestação de serviços sociais. O tema tem crescente interesse do público, que demanda cada vez mais informações sobre o assunto em busca de opções para organizar seu orçamento e para fazer investimentos. A Acrefi, consciente dessa realidade, oferece agora esse tipo de informação aos interessados também pelo novo blog, que pode ser acessado por todos.

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entrevistagovernança Por Juliana Jadon

À espera do novo Big Brother dos bancos Em entrevista exclusiva à revista Financeiro, Sérgio Odilon dos Anjos, chefe do Departamento de Normas do Banco Central do Brasil, fala sobre os desafios da adoção de Basileia III e o papel do órgão regulador do mercado financeiro “Uma regulamentação que visa aumentar a proteção do sistema financeiro, aperfeiçoando a capacidade das instituições de absorver choques provenientes de estresse nesse ou nos demais setores da economia”, é assim que Sérgio Odilon dos Anjos, chefe do Departamento de Normas do Sistema Financeiro (Denor), do Banco Central do Brasil (BC), classifica Basileia III. A norma, que atualmente é um desafio para o mercado financeiro, é também o seu maior aliado contra crises e oscilações econômicas globais. No Brasil, as instituições se movimentam para cumprir o prazo. Em 2013, elas já deverão estar preparadas para alocar mais capital e serem mais transparentes com a autoridade monetária do Brasil em diversos quesitos. Odilon trabalha para isso. Ele é economista pós-graduado em teorias e técnicas de bancos centrais, pela Universidade de Brasília (UnB), e especialista em mercados de derivativos pela Cornell University, em Nova York (EUA). Ele fez carreira no BC. Confira a entrevista:

Revista Financeiro Com que mecanismos a nova regulamentação de Basileia III, mais rigorosa do que a anterior (Basileia II), pode proteger o sistema financeiro como um todo? Sérgio Odilon dos Anjos Basileia III exige do sistema financeiro um capital de melhor qualidade, capaz de suportar perdas não esperadas. Esse reforço na qualidade do capital está sendo determinado por meio da definição de critérios mais rigorosos para a aceitação de instrumentos de captação, como capital regulamentar e pela dedução de uma série de elementos patrimoniais (como créditos tributários e intangíveis), que podem comprometer a qualidade do capital em decorrência de sua baixa liquidez, difícil avaliação ou dependência de lucro futuro para serem realizados. Financeiro O que muda com a adoção de Basileia III? Odilon Uma das novidades é a criação dos buffers

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de conservação e anticíclico. O buffer de conservação é um montante suplementar de capital requerido, que tem como objetivo aumentar o poder de absorção de perdas das instituições financeirasm além do mínimo exigido em períodos favoráveis do ciclo econômico. Assim, o capital acrescido passa a ser utilizado em períodos de estresse. As instituições que não mantiverem esse buffer estarão impedidas de distribuir dividendos, enquanto durar a deficiência. Isso provê uma forma automática de recapitalização por retenção de lucros. O mecanismo busca assegurar que o capital mantido pelas instituições financeiras contemple os riscos decorrentes de alterações no ambiente macroeconômico, sendo requerido no caso de um crescimento muito rápido do crédito na economia, que é um sinal de acumulação de risco sistêmico. Basileia III recomenda também a imposição de índices de liquidez de curto prazo (Liquidity Coverage Ratio – LCR) e de longo prazo (Net Stable Funding Ratio – NSFR). Adicionalmente, propõe a introdução de um limite simples de alavancagem em paralelo ao capital requerido correspondente aos ativos ponderados pelo risco que, como demonstrou a crise internacional, não pode captar perfeitamente todas as nuances de risco de crédito incorridos pelas instituições (por exemplo, relativos a operações com derivativos, garantias dadas em operações cedidas, linhas de crédito que podem vir a ser sacadas, entre outros). Essas inovações exigirão o aprimoramento dos controles internos e dos sistemas de gestão de riscos das instituições financeiras. Financeiro O porcentual de alocação de capital praticado em Basileia II no Brasil é de 11%, montante maior do que em outros países. Isso pode facilitar a adesão à Basileia III no Brasil? Como estamos em relação aos outros países? Odilon Entendemos que, como a regulação brasileira em termos de requerimento de capital é mais rigorosa do que o padrão internacional (o colchão de capital acima do mínimo regulatório também é significativo), a adaptação das instituições financeiras nacionais às regras de Basileia III exigirá um esforço menor. Vale lembrar que, durante a crise financeira de 2008, foi possível superar esse momento adverso sem a necessidade de liquidar qualquer instituição financeira, nem tampouco de fazer uso de recur-

sos públicos. A regulação prudencial seguida pelo SFN (Sistema Financeiro Nacional), nitidamente mais rigorosa que a adotada pela maioria dos países, foi uma das principais responsáveis pelo nosso desempenho favorável durante esse período. Mesmo assim, as mudanças introduzidas por Basileia III na definição do capital regulamentar e a adoção de novos requerimentos mínimos de liquidez e elementos macroprudenciais representarão um aprimoramento significativo da nossa regulação prudencial. Financeiro Como o Banco Central pode orientar o mercado? Odilon Diante dessa nova realidade, o BC divulgou o Comunicado nº 20.615, em 17 de fevereiro deste ano, com as orientações preliminares e o cronograma relativo à adoção de Basileia III no Brasil. O comunicado deixa agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 49

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entrevistagovernança

claro que podem ser antecipadas algumas das medidas recomendadas, especificamente as referentes à qualidade do capital e adoção do buffer contracíclico (capital contracíclico). Está em estudo a aplicação dos novos ajustes regulatórios sobre o capital a partir de 1º de julho de 2012, um ano e meio antes do previsto em Basileia III. Dependendo das condições macroeconômicas, a adoção do mencionado buffer deve ocorrer a partir de 1º de janeiro de 2014, dois anos antes do previsto no acordo internacional. O resultado desses ajustes é permitir um prazo mais longo de adaptação às novas regras, facilitando assim a capitalização das instituições financeiras com os próprios lucros gerados no período. Alguns países (Suíça, Hong Kong e Austrália, por exemplo) já editaram regulamentação alinhada com Basileia III. Por sua vez, outros estão trabalhando no sentido de editar todo o pacote regulatório, segundo os prazos definidos pelo Comitê de Basileia.

que as instituições possam se adaptar às novas regras por meio de uma adequada política de retenção de resultados durante o período de adoção das novas regras, que se estenderá até 1º de janeiro de 2018.

“Basileia III exige do sistema financeiro um capital de melhor qualidade, capaz de suportar perdas não esperadas”

Financeiro Na sua opinião, quais os impactos que a nova regulamentação pode gerar na economia e no mercado de crédito? Odilon Esperamos que o aumento do nível de capital, combinado com requerimentos mínimos de liquidez e medidas macroprudenciais, reduza a probabilidade e a severidade de futuras crises bancárias e seus potenciais efeitos negativos sobre os demais setores da economia. Devemos lembrar que a regulamentação de Basileia III não está isolada de outras medidas que geram impactos para a economia e o mercado de crédito. A contribuição do BC do Brasil, nesse contexto, continua a ser a de fornecer aos agentes econômicos e à sociedade um quadro presente e prospectivo de estabilidade de preços, usando para isso um conjunto amplo de instrumentos monetário e regulatório, com determinação e discernimento. De qualquer maneira, acreditamos que as instituições financeiras, melhor capitalizadas, contribuirão não só para a estabilidade financeira, como para o crescimento econômico sustentável.

Financeiro Quais são os maiores desafios que os bancos e financeiras encontram para a adoção de Basileia III? Odilon Para que a adaptação às novas regras se dê com eficiência e dentro do prazo previsto, é importante que as instituições financeiras comecem desde já a planejar e encaminhar sua adequação à nova realidade. Essa foi uma das razões que motivaram a edição do comunicado citado anteriormente. Nas simulações realizadas, observamos que algumas instituições são mais atingidas do que outras, devido às características ou ao nicho de mercado nos quais atuam. Um ponto importante é a dedução dos créditos tributários da base do capital regulamentar, o que tende a ter um efeito mais significativo em algumas instituições financeiras. No entanto, de maneira geral, espera-se

Financeiro Nos últimos anos, ao modelo de correspondentes é atribuída grande importância como canal de distribuição de serviços financeiros. Por que houve necessidade de alteração da regulamentação que trata desse nicho? Odilon O modelo de correspondentes no País possibilitou a disseminação da oferta de serviços financeiros, proporcionando uma efetiva inclusão financeira. Entretanto a regulamentação anteriormente em vigor não estava plenamente adequada às alterações ocorridas no sistema financeiro desde então, seja por sua própria evolução ou pelas demandas da sociedade, relacionadas à expressiva participação dos correspondentes na origem de créditos consignados. Além disso, verificou-se a adoção de práticas que acabavam

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resultando aumento de riscos para as instituições financeiras. Considerando esse cenário, uma nova regulamentação, a Resolução nº 3.954, de fevereiro de 2011, incorporou, entre outros, dispositivos prevendo a maior explicitação da responsabilidade integral da instituição financeira contratante pelos serviços prestados por meio dos correspondentes e o aprimoramento dos mecanismos de transparência. Além disso, considerando a importância dos correspondentes na distribuição do crédito, foi dada especial atenção aos envolvidos no encaminhamento de propostas de operação de crédito. Das medidas, destaca-se a necessidade de que, no prazo de três anos, todos os agentes envolvidos nesse serviço sejam capacitados e certificados. Financeiro Quais foram as principais medidas aprovadas recentemente pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) a respeito da cobrança de tarifas pela prestação de serviços por parte das instituições financeiras? Odilon A nova regulamentação de tarifas tem o objetivo de aumentar a transparência das informações nas relações entre as instituições financeiras e clientes, permitindo a comparação entre as condições das ofertas de serviços. E, dessa forma, promover maior concorrência entre as instituições. Assim, o CMN editou a Resolução nº 3.919, de 25 de novembro de 2010, promovendo diversas alterações na disciplina aplicável à cobrança de tarifas pela prestação de serviços por parte das instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo BC. Entre as principais medidas, destaca-se a introdução dos serviços relacionados a cartão de crédito. Por meio da medida foi estabelecida a padronização da nomenclatura dos serviços de cartão de crédito e das siglas utilizadas nos extratos, bem como prevista a descrição detalhada dos fatos geradores de cada tarifa. O número de tarifas admitidas foi limitado a apenas cinco. São elas: anuidade, fornecimento de segunda via de cartão com função crédito, uso de canais de atendimento para retirada em espécie, pagamento de contas utilizando a função crédito e avaliação

emergencial de crédito. Os cartões emitidos a partir de 1º de junho deste ano já estão sujeitos a essas novas regras. Elas serão estendidas a todos os demais plásticos em circulação, a partir de 1º de junho de 2012. Financeiro O que mais muda na oferta de cartões de crédito? Odilon Para as instituições que operam com esse serviço, passa a ser obrigatória a oferta de cartão de crédito básico que permite a sua utilização na função clássica. Ou seja, o pagamento de bens e serviços. O valor da anuidade desse produto deve ser inferior à de outros cartões diferenciados. O cartão de crédito diferenciado, por sua vez, contempla também a utilização de programas de benefícios e/ou recompensas. A resolução estabeleceu ainda a exigência de informações mínimas que devem constar nas faturas e demonstrativos de cartão de crédito visando aumentar à transparência e possibilitar o uso consciente do cartão pela população.

“A regulamentação de Basileia III não está isolada de outras medidas que geram impactos para a economia e o mercado de crédito” Financeiro Essas medidas têm por objetivo conter o endividamento? Odilon O principal objetivo da exigência de pagamento mínimo de fatura de cartão de crédito foi reduzir o excesso de endividamento. Nesse sentido, o BC estabeleceu, em novembro do ano passado, que o valor mínimo da fatura de cartão de crédito a ser pago mensalmente não pode ser inferior a 15% do valor total da fatura, a partir de 1º de junho de 2011. A partir de dezembro deste ano, esse porcentual será elevado para 20%. O cartão de crédito consignado foi excluído dessa regra, uma vez que a sistemática de pagamento da fatura já prevê um mínimo em função da renda do portador, descontado diretamente na folha de pagamento. agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 51

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tecnologiacobrança Por Juliana Jadon

Missões

quase impossíveis Uma carteira crítica. Com clientes com mais de 180 dias de atraso balho das empresas de cobrança junto às contratantes nos no pagamento das parcelas do automóvel finanpermitem mais eficiência. Para isso é preciso conhecer o ciado. A missão de recuperar o crédito desse consumidor negócio da empresa-cliente”, declara o executivo. ou fazer com que ele volte a pagar as faturas é complicada e, “As empresas associadas ao iGeoc investem maciçaàs vezes, impossível. Com o objetivo de atestar o desenvolmente no desenvolvimento de pessoas, desde a liderança vimento dos que atuam no setor de cobrança, o Instituto até a estratégia, gestão e tecnologia”, avalia Lantaller. Ele Gestão e Excelência Operacional sabe do que fala. O iGeoc conem Cobrança (iGeoc) lançou, grega 18 empresas entre as maio“O crédito no em parceria com a Acrefi (Assores de recuperação de crédito – a Brasil, em cinco ciação Nacional das Instituições maioria com mais de dez anos de de Crédito, Financiamento e In- anos, deve chegar atuação–, que atendem a diversos vestimento), o MBA em Crédito de carteiras (entre elas veícua 60% do PIB e, tipos e Cobrança. los, varejo e crédito imobiliário) e O ensino busca capacitar nesse contexto, o modalidades como, por exemplo: ainda mais os profissionais que Crédito Direto ao Consumidor desenvolvimento atuam nessa atividade. “O cré(CDC) e cartões de crédito. dito no Brasil, em cinco anos, profissional é uma Mas só isso é insuficiente deve chegar a 60% do PIB para manter uma operação de das prioridades (Produto Interno Bruto) e, cobrança com sucesso. O presinesse contexto, o desenvoldente do iGeoc lembra que não do segmento” vimento profissional é uma basta somente oferecer desendas prioridades do segmento”, ressalta Jair Aparecido volvimento profissional, é preciso também compensar Lantaller, presidente do iGeoc. o trabalhador com uma remuneração variável para ter Para Lantaller, atualmente as empresas reconhecem a sucesso na operação. “Como incentivo, os funcionários eficiência de um trabalho entre assessorias de cobrança e geralmente são comissionados de acordo com o cumcontratantes que consiga alinhar metas e objetivos. “O traprimento da meta”, conta.

Foto: iStockphoto

Empresas de cobrança usam profissionalização e tecnologia como aliados no dia a dia da operação

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artigocenário

O câmbio

Por Carlos Thadeu de Freitas Gomes e João Felipe Santoro Araujo

Muita atenção é dada à taxa de câmbio nominal, que serve como referência para a troca da moeda de um país pela de outro. Usamos muito a taxa de câmbio nominal real/dólar norte-americano, que está em torno de R$ 1,60. Entretanto pouca ênfase é dada à taxa de câmbio real, que serve como referência para a troca de bens e serviços de um país pela de outro. No Brasil, vivemos atualmente uma mistura de taxa de câmbio real valorizada e alta geral no nível de preços de bens e serviços. Cabem então alguns comentários sobre esse cenário e como esses dois desafios se relacionam e podem ser enfrentados. O Brasil é um grande produtor e exportador de commodities e os preços desses produtos básicos subiram vertiginosamente em 2010 e continuam em ascendência em 2011. Logo, a mesma quantidade de bens brasileiros passou a ser trocada por um volume maior de bens estrangeiros, pois esses não subiram de preço devido à crise. Ou seja, a taxa de câmbio real se valorizou. Mas essa diferença entre o comportamento dos preços de bens e serviços brasileiros e estrangeiros não explica toda a valorização do câmbio real. A taxa de câmbio nominal também vem sofrendo pressão de valorização devido ao elevado diferencial de juros entre a economia brasileira e as de países desenvolvidos, principalmente os Estados Unidos. Então, existem duas forças puxando a taxa de câmbio real para baixo. São elas: preços relativos e taxa de juros muito elevada em relação ao resto do mundo.

É importante ressaltar que o elevado desemprego levou o Banco Central norte-americano (FED) a injetar liquidez no intuito de estimular a economia, aumentando assim a oferta de dólares no sistema financeiro e desvalorizando a moeda local. Uma vez que as commodities possuem valor intrínseco e são transacionadas em dólar, a política do FED ajudou a inflar o preço desses produtos. Como vimos, quanto maior o aumento no preço das commodities, mais elevadas ficam as cotações de bens e serviços brasileiros. E, assim, maior é a valorização da taxa de câmbio real. Cabe lembrar que parte dessa disparada das commodities não se transmite totalmente para os preços dos bens e serviços produzidos pelo Brasil, pois é atenuada pela valorização da taxa de câmbio nominal. Pois, como a oferta de dólares no sistema aumentou devido à política do FED, o real se valorizou em relação ao dólar. No entanto, essa valorização tem sido combatida no Brasil e também nas demais nações emergentes com controles de capitais. Ao adotar medidas intervencionistas, o governo impede que a taxa de câmbio nominal se aprecie, impedindo que ela sirva para atenuar o efeito da alta dos preços das commodities na inflação. Vimos que quando os preços de bens e serviços brasileiros sobem, a taxa de câmbio real se valoriza ainda mais. Dessa forma, a adoção de controles de capitais só estaria exacerbando o problema da inflação e da taxa de câmbio real.

Foto: iStockphoto/Artigo enviado em julho

que ninguém vê

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Não obstante, o resultado inflacionário da adoção de controle de capitais vem atingindo praticamente todos os países emergentes. A China, por exemplo, que constitui o caso extremo de fixação da taxa de câmbio nominal em relação ao dólar, vem observando tendência de valorização em sua taxa de câmbio real devido à alta dos preços de bens e serviços chineses. O governo chinês tenta frear o processo de valorização do câmbio real controlando o câmbio nominal, mas acaba colhendo uma inflação mais alta. Não causa espanto, portanto, ver que os formuladores de política econômica na China estão, aos poucos, “jogando a toalha”, e deixando a taxa de câmbio nominal se valorizar de forma muito sutil e gradual em relação ao dólar, visto que a inflação em alta é um fenômeno impopular. Outro ponto a ser colocado é que a taxa de câmbio real valorizada significa que bens e serviços brasileiros estão com valores mais altos em relação aos estrangeiros e isso eleva as importações. Logo, aumenta a utilização de poupança externa e também o déficit em transações correntes. Com o tempo, a dependência desses capitais vai aumentando, podendo ocasionar problemas para os fundamentos macroeconômicos no futuro. Por último, devemos reconhecer que nem só da alta das commodities vive a inflação no Brasil. Mesmo com a desaceleração que está em curso, o País vive, atualmente, um descompasso entre oferta e demanda. Ele é resultado, dentre outros fatores, da expansão do crédito, dos gastos do governo, dos programas de transferência de renda e dos aumentos salariais acima da produtividade do trabalho. Tudo isso vem contribuindo para o aumento de preços e, consequentemente, para uma maior apreciação da taxa de câmbio real. Assim sendo, esses vetores ilustram os dois maiores desafios enfrentados pela economia brasileira atual-

O governo chinês tenta frear o processo de valorização do câmbio real, mas acaba colhendo uma inflação mais alta mente: inflação acima da meta e câmbio real valorizado. Sendo que o segundo desafio é, dentre outras coisas, consequência do primeiro. Foi possível observar que existem muitas forças atuando no sentido de valorizar o câmbio real. Preço das commodities, política monetária expansionista do FED, excesso de demanda agregada e também a adoção de políticas de controle de capitais. Todos esses pontos nos levam a crer que a valorização real da taxa de câmbio no Brasil é estrutural e merece tanta atenção quanto a taxa de câmbio nominal. f Carlos Thadeu de Freitas Gomes é chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e ex-diretor do Banco Central. João Felipe Santoro Araujo é economista da CNC agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 55

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educaçãofinanceira

Equilíbrio orçamentário Há poucos meses no ar, o blog Finanças na Balança, da Acrefi, já contabiliza mais de 5 mil visitas Por Giseli Cabrini A busca pelo equilíbrio é uma constante na história da humanidade. Na Grécia antiga, a ideia de que é preciso harmonizar corpo e mente foi imortalizada. E também não havia como ser diferente. Se considerarmos a média de vida do homem naquele tempo, a explicação é bastante lógica. A vida era um ativo a ser perseguido. Da mesma forma que, em pleno Brasil do século 21, é necessário encontrar formas que levem ao balanceamento entre o uso do crédito e a saúde financeira do tomador.

Trajetória pessoal foi a inspiração A trajetória profissional de Luis Sérgio Tamer, atual consultor de comunicação da Acrefi, foi uma das fontes de inspiração para o blog Finanças na Balança. “Tudo começou em 1986 quando fui trabalhar na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) que, na ocasião, operava independentemente da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Naquela época, nosso trabalho era voltado à divulgação do conceito de mercado futuro tanto para os formadores de opinião quanto para a sociedade”, detalha. “O blog da Acrefi tem esse mesmo objetivo, ou seja, proporcionar um maior conhecimento sobre a cultura do crédito”, conclui Tamer.

Caso um dos pêndulos se sobreponha ao outro, o resultado é negativo para os dois lados. Para o cidadão que fica temporariamente inadimplente e impedido de consumir e para as instituições financeiras que deixam de realizar novos negócios e, muitas vezes, são forçadas a elevar o custo final dos empréstimos a fim de se proteger. Pensando nisso, a Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), com a ajuda do seu assessor de imprensa, Luis Sérgio Tamer, criou o blog Finanças na Balança (http://financasnabalanca.blogspot.com). “A ideia é justamente esta: buscar e alcançar o equilíbrio financeiro. Até qu e ponto é possível se endividar sem que isso venha a comprometer a saúde do orçamento pessoal de cada um”, explica. Segundo Tamer, a cultura do crédito é ainda algo recente no Brasil, país que conheceu a estabilidade econômica só a partir de 1994 com a criação do Plano Real. “Quem é de uma geração anterior ainda tem muito forte a premissa de que é preciso defender o patrimônio, sem considerar que o crédito, quando usado de forma adequada, é uma ferramenta salutar para as finanças pessoais”. E completa: “daí a necessidade de iniciativas voltadas à educação financeira”. Criado há pouco mais de dois meses, o blog já recebeu cinco mil visitas. Semanalmente são feitas atualizações com, pelo menos, dois novos posts. Os assuntos

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abordam temas sobre o universo das finanças que tenham relação direta com o dia a dia das pessoas. “O objetivo é oferecer uma ferramenta de educação financeira. A ideia não é falar sobre crédito, mas abordar questões que sejam de interesse do público em geral, no sentido de auxiliar a pessoa a organizar de seu orçamento.” Entre os temas já abordados estão dicas relacionadas a situações de grande interesse do brasileiro, como financiamento imobiliário, viagens e até casamento. O blog aconselha que uma forma de evitar discussões por dinheiro é separar uma parte da renda para que cada um dos integrantes do casal possa gastar, independentemente da necessidade de prestar contas. O que sobrar deve ser colocado em um caixa comum, proporcionalmente ao salário de cada um, garantindo assim o bom andamento da casa e o pagamento das contas em dia, sem juros de mora. Tamer explica ainda que novas funcionalidades serão gradualmente agregadas ao blog. “Queremos incluir ferramentas cada vez mais interativas como, por exem-

“O objetivo é oferecer uma ferramenta de educação financeira. A ideia não é falar sobre crédito, mas abordar questões que sejam de interesse do público em geral, no sentido de auxiliar a pessoa a organizar o seu orçamento”

Luis Sérgio Tamer, assessor de imprensa plo, um gerenciador de finanças pessoais.” Futuramente haverá, inclusive, a possibilidade de criar aplicativos com o conteúdo do Finanças na Balança para smartphones, iPhones e também para tablets, como o iPad. Outra intenção é ampliar a abordagem dos temas. “Vamos, por exemplo, incluir informações sobre como fazer a declaração de Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF)”, explica Tamer. Para isso, conteúdo não irá faltar. agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 57

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financeiradestaque

Por Juliana Jadon

Para se diferenciar dos grandes concorrentes, em um segmento cada vez mais competitivo, a Finamax monitora de perto o dia a dia das operações, seja em agências ou clientes Enquanto caminha pela rua Floriano Peixoto, em Itu, interior de São Paulo, Carlos Alberto Samogim, diretor-superintendente da Finamax, presta bem atenção às características do ambiente que o rodeia. No quarteirão seguinte está o seu destino, uma das 40 agências da financeira. No local, ele irá monitorar, durante algumas horas da

manhã, o andamento das operações. Acompanhará atendimentos e verificará metas e números. Conhecer de perto o negócio dos clientes e dos agentes credenciados é o segredo de Samogim para diferenciar a companhia dos grandes competidores. Ele faz isso, ao menos, três vezes por mês. A Finamax está presente em Itu desde 1999, por meio do trabalho de promotores. Em agosto de 2005, um agente credenciado inaugurou uma agência na cidade, que fica em local de fácil acesso, próximo à praça da Igreja do Bom Jesus, um dos pontos históricos. No local, são oferecidos financiamentos de carros

Fotos: iStockphoto/Divulgação

A lógica d

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e motos, crédito pessoal com garantia, CDC – loja e crédito pessoal em carnê e cheque. O modelo de atuação da financeira é o mesmo adotado por outros 35 municípios do interior de São Paulo, além de Itu, e contempla 85% dos negócios da financeira. Samogim aproveita que está na cidade e visita também uma das lojas e uma farmácia com o private label da empresa. Depois do trajeto, volta para a sede da empresa, que também fica no interior paulista, em Jundiaí. “Nosso cartão tem a cara do varejista e, por isso, é preciso saber qual o seu modelo de negócios. Assim, podemos aperfeiçoar esse produto de acordo com a necessidade de cada cliente”, ressalta o executivo. A Finamax nasceu em 1994, mesmo ano em que foi criado o Plano Real, com o objetivo de estabilizar a economia. Samogim e Francisco Oliva, atual presidente da Finamax, percebiam que se criava naquele momento uma cultura de consumo maior. Ao conversar sobre o tema, decidiram que, para aproveitar o contexto, deveriam abrir uma empresa que financiasse o aumento do consumo no País. Alguns meses após a geração da financeira, eles enfrentaram um amplo desafio. O Banco Central do

Conglomerado A Finamax nasceu apoiada em um grupo empresarial com ampla experiência nas áreas industrial, comercial e imobiliária, que atualmente emprega mais de dois mil funcionários. Essas empresas são: Astra, Profax, Japi e Integral, importantes fornecedoras para o mercado de construção civil brasileiro. Além delas, há ainda a FA Oliva, que atua no planejamento e execução de empreendimentos imobiliários, e a Urbitec, braço operacional do grupo. Conheça cada uma: Astra Há mais de 50 anos no mercado, é uma das mais importantes fornecedoras de materiais de construção, voltada a produtos para a linha hidráulica e banheiro. Possui cerca de 45 mil pontos de venda em todo o território nacional e exporta para mais de 30 países, principalmente para a América e África FA Oliva Incorporadora com mais de 50 anos, responsável por empreendimentos de lotes, casas, apartamentos e salas comerciais na região de Jundiaí Urbitec Incorporadora com mais de 50 anos, responsável por empreendimentos de lotes, casas, apartamentos e salas comerciais na região de Jundiaí Profax Produz banheiras de hidromassagem, armários para banheiro em alumínio e plástico e acessórios em geral Japi Produz caixas d’água, fabrica metais sanitários e acessórios, além de trabalhar com importação, exportação e revenda de produtos relacionados ao esse portfólio

do olhar do dono Brasil, por medo de um consumo exagerado no País, determinou que o prazo máximo para o pagamento de concessão de crédito contemplaria apenas três

Em números Cerca de 1,5 mil clientes de crédito pessoal novos por mês Presente em 36 cidades do interior de São Paulo 40 agências 454 mil operações de crédito até o final de 2010 Carteira de crédito ativa de R$ 165 milhões

prestações. Com isso, o valor do empréstimo deveria ser muito pequeno para caber no bolso do consumidor. Naquele período, Samogim e Oliva tiveram de alterar o modelo de negócios voltando-o mais para a modalidade pessoa jurídica. No entanto, com as mudanças no cenário econômico brasileiro, a Finamax voltou a apostar no segmento de pessoas físicas. Diferenciação Ao longo dos 17 anos de história, a Finamax se posicionou no mercado apostando em um crescimento sustentado e, por isso, diversificou sua carteira agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 59

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financeiradestaque

Ações sociais A empresa colabora, anualmente, com o Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente de Jundiaí. As doações são utilizadas em projetos direcionados à educação e formação de crianças carentes da cidade. A Finamax também é patrocinadora da série Concertos Astra-Finamax, série de espetáculos de música erudita a preços populares em Jundiaí. A bilheteria dos eventos é encaminhada para casas de espetáculos e instituições de apoio à cultura do município.

(ver gráfico). Até o fim de 2010, a empresa realizou 454 mil operações de crédito, sendo 423 mil para pessoas físicas e 31 mil para jurídicas. A empresa oferece ainda a investidores aplicações em letras de câmbio. “São números pequenos diante das grandes instituições, mas expressivos no universo das financeiras”, ressalta Samogim. Os principais públicos do maior negócio da empresa, o financiamento de automóveis, são as classes C, D e E. “Atualmente, até quem faz parte da classe D compra veículos financiados. Já o crédito pessoal é voltado para a classe C, que já está bancarizada”, conta Samogim. O maior desafio da empresa é a disputa de mercado com os grandes bancos. Antigamente, eles não direcionavam esforços para a oferta de crédito para o consumidor final, mas atualmente mudaram essa es-

Composição da carteira de crédito – julho/2011 16% 28% 12% 8%

Fonte:Finamax

10%

26%

Financiamento de veículos Crédito pessoal

Crédito consignado privado Private label

Financiamento de motos

Pessoas jurídicas

Carlos Alberto Samogim, da Finamax “Nosso cartão tem a cara do varejista e, por isso, é preciso saber qual o seu modelo de negócios. Assim, podemos aperfeiçoar esse produto de acordo com a necessidade de cada cliente”

tratégia. Além disso, há também a crescente inadimplência no País. “Para todo o mercado em 2011, isso se tornou um problema. No ano passado, convivíamos com um índice de pagamento ruim e neste ano isso exigiu uma atenção maior. Felizmente, essa é uma situação que já dá sinais claros de estabilidade desde junho”, avalia o diretor. Por segurança, o tíquete médio do crédito pessoal não é muito alto, cerca de R$ 1 mil. Quando o valor solicitado ultrapassa R$ 4 mil, um agente de crédito visita a residência do contratante e analisa se é viável conceder o valor. Além disso, é necessário que o cliente tenha algum vínculo empregatício, alguma comprovação de renda e que passe ainda informações sobre o local de trabalho. “Definitivamente esse é um nicho que exige uma especialidade grande”, diz Samogim. A diferenciação é um dos pontos que Samogim destaca aos colaboradores para continuar brigando com os grandes bancos. Na Finamax, o sucesso do negócio dos clientes é de responsabilidade também dos colaboradores. f

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artigoanáliseeperspectivas

Correlação entre

Selic e prazos médios das operações de crédito

Grande parte dos empreendimentos e dos novos negócios desenvolvidos em um país possui como principal fator de alavancagem o crédito, tanto concedido pelo Por prof. dr. Alberto Borges Matias setor público como com a colaboração de Julio Godoy pelo privado. No Brae Matheus Figo sil, existem inúmeras modalidades de crédito, direcionadas para pessoas físicas e jurídicas, o que proporciona aumento de renda e de consumo, novos investimentos e, consequentemente, desenvolvimento econômico. Com a alta da taxa de juros básica do País, a Selic, surgem dúvidas sobre como o crédito se comportará nos próximos meses. Pela lógica, o aumento da Selic provocará um aumento dos juros médios cobrados pelos bancos e, por consequên-

cia, a demanda por crédito diminuirá. No entanto a elevação dos juros pode provocar uma extensão no prazo médio dos empréstimos, o que tende a impedir uma maior queda na procura por crédito. Como se pode notar no Gráfico 1, o prazo médio das operações de crédito vem aumentando nos últimos anos. A partir de 2006, o prazo médio se tornou maior que a média geral e, no momento, alcança o maior patamar da história. Nos últimos 12 meses, por exemplo, a elevação foi de 9,34% e, em igual período, o volume de crédito aumentou 11,59% e bateu o recorde de volume da história. Nos últimos 12 meses, o prazo médio de operações de crédito para pessoas físicas aumentou 10,10%. Em igual período, a modalidade de financiamento imobiliário foi a que mais se destacou, estendendo o

Tabela de correlações Taxa de juros

Prazo médio Prazo médio total

Pessoa física

Prazo médio pessoa jurídica

Over Selic acumulada no mês

0,242718569

0,139489965

0,166679577

Over CDI acumulada no mês

0,232242065

0,15761185

0,128366065

Prazo médio das operações – DIAS

Crédito com recursos livres GRÁFICO 1

600 500

300 200 100

no v/ 00 m ai /0 1 no v/ 01 m ai /0 2 no v/ 02 m ai /0 3 no v/ 03 m ai /0 4 no v/ 04 m ai /0 5 no v/ 05 m ai /0 6 no v/ 06 m ai /0 7 no v/ 07 m ai /0 8 no v/ 08 m ai /0 9 no v/ 09 m ai /1 0 no v/ 10 m ai /1 1

0

Prazo médio

Média geral

Fonte: Inepad & BC

Artigo enviado em agosto

400

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Prazo das operações de crédito – PF Fonte: Inepad & BC

DIAS

GRÁFICO 2

5000 4500

Cheque especial

4000

Crédito pessoal

3500 3000

Financiamento imobiliário

2500

Aquisição de veículos

2000

Aquisição de outros bens

1500

Cartão de crédito

1000

Outras operações

500

Total PF

m ai /0 0 no v/ 00 m ai /0 1 no v/ 01 m ai /0 2 no v/ 02 m ai /0 3 no v/ 03 m ai /0 4 no v/ 04 m ai /0 5 no v/ 05 m ai /0 6 no v/ 06 m ai /0 7 no v/ 07 m ai /0 8 no v/ 08 m ai /0 9 no v/ 09 m ai /1 0 no v/ 10 m ai /1 1

0

Fonte: Inepad & BC

Prazo das operações de crédito – PJ DIAS

GRÁFICO 3

3000 2500 2000

Descontos notas promissórias

1500

Capital de giro

1000

Conta garantida

500

Financiamento imobiliário

0 m ai /0 0 no v/ 00 m ai /0 1 no v/ 01 m ai /0 2 no v/ 02 m ai /0 3 no v/ 03 m ai /0 4 no v/ 04 m ai /0 5 no v/ 05 m ai /0 6 no v/ 06 m ai /0 7 no v/ 07 m ai /0 8 no v/ 08 m ai /0 9 no v/ 09 m ai /1 0 no v/ 10 m ai /1 1

Aquisição de bens

prazo médio em 22,99% e influenciando, assim, a elevação do volume de crédito referente ao financiamento imobiliário que aumentou 221,66%. Em relação ao prazo médio para pessoas jurídicas, nos últimos 12 meses ele aumentou 6,78%, com destaque para evolução do financiamento imobiliário que teve elevação de 18,63% em igual período. Para a construção da tabela de correlações foram utilizadas: a taxa de juros Over Selic, acumulada no mês, e a taxa de juros Over CDI, acumulada no mês. Para prazo médio, foi selecionado o intervalo médio consolidado das operações de crédito com recursos livres referenciais para taxa de juros, utilizando o prazo total para pessoas físicas e jurídicas. A tabela de correlações aponta que a relação entre prazo médio de operações de crédito e a Selic é positiva e estatisticamente significativa. As-

Fonte: Inepad & BC

sim, conforme é elevada a taxa de juros, o prazo ! médio também tende a aumentar. Nota-se também a maior sensibilidade do prazo médio para pessoas jurídicas em relação a físicas. Conclui-se, então, que, apesar da teoria apontar para uma queda na demanda por crédito após o aumento da taxa básica de juros, essa retração pode ser atenuada pela extensão do prazo médio das operações de crédito. f Prof. dr. Alberto Borges Matias Professor Titular do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo no campus de Ribeirão Preto, e diretor do Inepad Julio Godoy e Matheus Figo, analistas financeiros do Inepad agosto/setembro 2011 FINANCEIRO 63

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artigosegurança

A biometria facial tem várias aplicações, mas a maior delas é no combate a fraudes, pois beneficia não só as empresas como também os cidadãos. Afinal, quem já não teve o cartão clonado ou muita dor de cabeça com documentos perdidos ou roubados? Mas, afinal, o que é isso? Trata-se de um ramo da ciência que estuda medidas e proporções da face, um recurso que já deixou de ser ficção científica há pouco tempo e que se tornará Por Carlos Honda parte do dia a dia graças ao poder computacional dos equipamentos atuais e dos grandes avanços no desenvolvimento dos softwares. Além de proporcionar o desenvolvimento de diversas soluções, a precisão dos algoritmos atingiu um nível de confiabilidade muito alto, principalmente para as tecnologias que trabalham diretamente com imagens ao vivo ou estáticas. A biometria usada na certificação facial é reconhecida como uma tecnologia inovadora e diferenciada, pois a rapidez e a eficiência encantam e impressionam devido ao apelo tecnológico. O uso da certificação facial pode ser um diferencial em diversos segmentos, como bancos, empresas de crédito, varejistas, departamentos públicos que efetuam cadastros ou emissão de documentos, cartórios, imobiliárias, locadoras de carros e associações comerciais, entre outros. Ou seja, instituições que necessitam efetuar cadastros consistentes, livres de possíveis fraudadores em operações como: liberação de crédito, abertura de contas, emissão de cartões de crédito, validação de um pagamento via internet, entre outras. Inicialmente os bancos e as financeiras podem usar a certificação facial na abertura de contas ou na liberação de crédito. Isso evita que a mesma pessoa possa abrir várias contas com documentos

frios, facilitando os demais golpes no segmento financeiro. Ou, também, que uma pessoa consiga crédito usando a identidade e o histórico de uma outra, criando uma série de problemas. Futuramente, o sistema poderá ser usado em várias operações, como nos caixas, por exemplo, para certificar que a pessoa que está naquele local seja a mesma autorizada a efetuar transações, por meio da certificação da assinatura matemática de sua face. A tecnologia utilizada na certificação facial para ter qualidade deve utilizar um mix de algoritmos de reconhecimento. .Para ser eficiente, é necessária uma ferramenta de alta disponibilidade, com capacidade para uso em larga escala, podendo cadastrar e certificar milhares de pessoas em segundos. Os pontos fortes para uma boa ferramenta de certificação facial são: tecnologia de ponta, capacidade de desenvolvimento, inovação, rapidez, não ser intrusiva, requerer baixo investimento para o cliente, ter uma forte estrutura de data center e dispor de uma equipe altamente especializada em biometria facial. Enfim, um serviço de alta competência e qualidade, cobrado por consulta, que trabalhe em nuvem e que tenha fácil integração, caso haja necessidade. Programas pilotos de certificação facial foram desenvolvidos por meio de ferramentas de alto desempenho, ganhando corpo em grandes empresas a partir de 2004. Embora poucas empresas no mundo atualmente estejam prontas para oferecer essa tecnologia, já foram efetuadas provas de conceito com um produto desenvolvido por uma empresa brasileira, em uma das maiores redes de varejo do País, confirmando que o produto está pronto para o mercado. f Carlos Honda é diretor-executivo da NETi Tecnologia

Foto: Divulgação/Artigo enviado em julho

Face

a face contra fraudes

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Travessia na neblina

Por Nicola Tingas

A economia brasileira está em ajuste macroeconômico, com redução da intensidade de consumo das famílias e menor ritmo de crescimento. Por outro lado, o governo busca estimular a ampliação do investimento e a oferta agregada. A meta é alcançar uma capacidade de crescimento anual de 7% a 8%, dentro de poucos anos. Esse padrão de crescimento situa-se acima da capacidade de oferta da economia brasileira (PIB potencial), em torno de 4% ao ano. Mesmo assim, diversos fatores são favoráveis para ampliação da oferta na economia. Contudo as crescentes incertezas da conjuntura global começam a afetar desfavoravelmente os planos de rápido crescimento brasileiro. Há uma neblina na economia global (maior incerteza) que tem se adensado, trazendo risco também para a economia local. Se a neblina não se dissipar ainda mais, o Brasil terá de adiar planos. Crescer menos, enfrentar maior volatilidade e risco. A boa notícia é que o País tem capacidade macroeconômica para enfrentar um eventual agravamento do cenário global. Os riscos globais podem ser sintetizados em: 1) Crescente desequilíbrio de capital, ou seja, dívidas em rápida elevação sem contrapartida de suficiente geração de receita simultânea, o que pode resultar em mais um ciclo de destruição de riqueza, como foi o de 2008–2009. 2) Redução do ritmo de crescimento da economia global, com queda no preço de ativos e commodities. 3) Dependência do crescimento de poucas .economias, como a China, gerando mais volatilidade e grau de risco. De forma mais recente, e quase simultaneamente, esses riscos têm se acentuado, sinalizando que a conjuntura global ainda enfrenta desafios importantes. Seja esse um risco de crise localizada em alguma região do mundo, como a que ocorre na zona do euro. Ou risco de crise de amplitude global, como foi a de

2008–2009. Felizmente um cenário de baixa probabilidade de realização. O que está em questionamento não é a liquidez global, mas, sim, a capacidade de solvência. Ela afeta negativamente e de forma crescente muitos países (como na zona do euro), bancos, sistema financeiro, empresas de manufatura e de serviços e as próprias famílias. Seja pelo lado da renda (ausência de fontes de ingresso – fluxo) ou pelo lado da reserva patrimonial (destruição de riqueza em títulos, ações, valor de propriedades – estoque). O Brasil tem favorável condição macroeconômica, mas começa a enfrentar potenciais desequilíbrios. Primeiro a elevada inflação de serviços e a pressão de reajustes salariais, esperada nos próximos meses, forçam o Banco Central a persistir na política monetária restritiva. Segundo, a taxa de câmbio real-dólar em tendência de valorização da moeda local, gerando déficit na conta corrente. Terceiro há incerteza sobre a capacidade de manutenção dos bons resultados no longo prazo, devido ao orçamento público comprometido, dependendo de uma arrecadação tributária cada vez mais onerosa, ampliando o custo Brasil que reduz a competitividade do País. Quarto, depois da expansão da renda, consumo e crédito, há mais indícios de que a capacidade de endividamento das famílias está limitada. Assim, se houver agravamento do quadro internacional, haverá perda de vitalidade do conjunto de variáveis econômicas, reduzindo a competitividade da economia no médio e longo prazos. Isso infraquecerá a capacidade de resposta da agenda de significativos investimentos no Brasil esperados para os próximos anos. Por outro lado, a agenda de investimentos no pré-sal, Copa Mundial de Futebol, Olimpíada e ainda o crescimento do mercado interno favorecem expectativas positivas da capacidade de enfrentamento contra o risco global atual. Nicola Tingas é economista-chefe da Acrefi

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