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NO COMANDO DA FEBRABAN, MURILO PORTUGAL FALA SOBRE O MERCADO DE CRÉDITO E OS PLANOS PARA A FEDERAÇÃO

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Novo líder MERCADO IMOBILIÁRIO: INVESTIR NO BRASIL OU NOS ESTADOS UNIDOS?


conteúdofinanceiro

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Capa – Entrevista do Mês

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Cadastro Positivo

Murilo Portugal, novo presidente da Federação

Expectativas e desafios com o novo banco

Brasileira de Bancos

de dados

Especial Tecnologia

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Educação Financeira

Portais de compras coletivas, a revolução do

Losango, financeira do HSBC, treina lojistas

micropagamento

a educarem o consumidor

Classes Emergentes

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Liderança

O perfil dos novos consumidores e os desafios para

Mulheres em cargos contam como

as instituições financeiras

administram vida pessoal e trabalho

Mercado Imobiliário Brasil versus Estados Unidos

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Vida Pessoal

artigos 25 Kátia Madeira Blaha Análise de Crédito 39 Marcel Domingos Solimeo Varejo Estratégico

Lembranças da infância e juventude transfomam-se

43 Diego Torres Martins Tecnologia

em livro nas mãos do sócio-diretor da KPMG

56 Tereza Maria Mercado Automobilístico

Fraude Mercantil Um retrato da fraude no País

62 Florencia Ferrer Gestão Pública 64 Alberto Borges Matias Análise e Perspectivas 66 Fábio Mores Última Palavra

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expediente financeiro ISSN 1809-8843

Rua Líbero Badaró, 425 – 28o andar – São Paulo – SP Tel: (11) 3107–7177 Fax: (11) 3106–6082 – www.acrefi.org.br Presidente Érico Sodré Quirino Ferreira Vice-Presidentes Mauro Roberto Vasconcellos Gouvêa, José Renato Simão Borges, Luis Otavio Matias, Marcio Ronconi de Oliveira, Sérgio Antonio Cipovicci, Aquiles Leonardo Diniz, Bartholomeu Ribeiro e Ricardo Annes Guimarães Secretários Paulo Tabaquim e Sérgio Marra Pereira Capella Tesoureiros Cláudio Messias Ferro e Marcus André de Oliveira Diretores Regionais Athaide Vieira dos Santos, Carlos Alberto Samogim, Elcio Antonio de Azevedo, Felicitas Renner, José Antonio Rodrigues, José Newton Lopes de Freitas, Laécio Barros Junior, Leonardo Marcondes Dadalto, Paulo Henrique Pentagna Guimarães, Pedro Costa Carvalho e Teófilo Newton Mattos Diretores-Executivos Felipe César Rodrigues, Morris Dayan, Sandro Alexandre de Almeida, Edson Froes Castilho, Luis Felix Cardamone Neto , Marc Camp, Mateus Affonso Bandeira, Rubens Bution e Leonel Dias de Andrade Neto Diretores Conselheiros Eduardo Tavares Nobre Varella, Élcio Jorge dos Santos, Giovani Cataldi Neto, Roberto Bronzere, Paulo Sérgio Borsatto, Nelson Aguiar Junior, Marcelo Barp, Odilon Pereira Guerra e Joelcyr Carmello Filho Conselho Consultivo Membros Natos: Alkindar de Toledo Ramos, Manoel de Oliveira Franco e Ricardo Malcon Membros: Alencar Burti, Ricardo Loureiro, Jorge Hilário Gouveia Vieira, Luiz Horácio da Silva Montenegro, Miguel José Ribeiro de Oliveira, Sergio Antonio Reze e Ilídio Gonçalves dos Santos Conselho Fiscal Efetivos: Domingos Spina, Edson Ueda, David Figueiredo Suplentes: Elpídio Hoffmann, Maria Madalena Américo Marinho, Gilson de Oliveira Carvalho Diretor Superintendente Antônio Augusto de Almeida Leite (Pancho) Controller Carlos Alberto Marcondes Machado Economista-Chefe Nicola Tingas Consultor Jurídico Cassio M.C. Penteado Jr. Auditoria KPMG Assessoria de imprensa Tamer Comunicação Empresarial

Rua Novo Horizonte, 311 – Higienópolis – São Paulo – SP Tel.: (11) 3125–2244 – CEP 01244-020 – www.gpadrao.com.br Publisher Roberto Meir REDAÇAO Editora-executiva Karin Fuchs Editora-assistente Juliana Jadon Reportagem Ana Borges (colaboradora) Fotografia Douglas Luccena Arte Editora de Arte Marina Martins Designers Érika Bernal e Marcelo Kilhian Pré-Impressão Alexandre Lima Revisora Dora Wild Publicidade Gerente Comercial – Marco Góes – mgoes@gpadrao.com.br Gerentes de Negócios Adriana Próspero e Fabiana Zuanon Facilitadoras Ana Chiesi e Patrícia Pinheiro Impressão IBEP Gráfica Ltda.

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editorial

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As medidas adotadas pelo governo, que têm por objetivo restringir a oferta de crédito e controlar a inflação, aumentam o risco de uma maior concentração do setor financeiro. Com isso, são diferentes os impactos nas instituições. Os mais atingidos foram os menores, por terem menos capacidade de alavancagem. Também devemos lembrar que as instituições de grande porte e as pequenas têm condições diferenciadas de acesso a capital. As mudanças acontecem em um cenário marcado pelo novo índice de Basileia, mais restritivo, pelas alterações nas normas contábeis e pela retirada dos estímulos de liquidez, dados durante a crise de 2008 e 2009 e previstos para acabar em junho. Além disso, o setor vivenciou recentemente uma breve crise de confiança, dados os reflexos dos eventos que envolveram o PanAmericano. O cenário para as instituições menores seria mais promissor, caso não houvesse uma maior exigência de capital para os bancos que operam com linhas de mais longo prazo (consignado e financiamento de veículos), o que reduz sua competitividade. Os menores têm mais dificuldades, pois contam com menos capital e não têm condições de ampliar as garantias para não se desenquadrarem do índice de Basileia, agora de acordo com os critérios dos novos fatores de pondera-

Desafios da consolidação ção de risco estabelecidos em dezembro. Para completar, as mudanças contábeis previstas para o início de 2012 vão apertar ainda mais o patrimônio dos bancos que vivem de conceder crédito consignado e contabilizar os ganhos na hora da venda de sua carteira. Ao mesmo tempo, a retirada dos estímulos à captação dos bancos menores colocados na época da crise de 2008 aumenta a preocupação com o caixa dessas instituições financeiras no curto prazo, acelerando o processo de consolidação. As medidas de restrição ao crédito com o objetivo de conter a inflação e consumo são macroprudênciais e importantes para a economia. Entretanto é preciso ter cautela quanto ao alcance desse objetivo, pois, sem uma política fiscal mais austera, será difícil conseguirmos atingir a meta para o IPCA. A inflação é mais uma questão estrutural do que conjuntural. Com isso, olhar somente para a restrição de crédito ao consumidor como uma maneira de desacelerar a alta de preços tende a ser insuficiente para conter a escalada dos preços.

Érico Sodré Quirino Ferreira Presidente da Acrefi 6 FINANCEIRO abril/maio 2011


capaentrevistadomês Por Ana Borges

Quebra de Murilo Portugal, novo presidente da Febraban, fala sobre os principais desafios do setor financeiro e o mercado de crédito brasileiro Em momento de aumento da renda, da oferta de crédito e da bancarização, Murilo Portugal assume a presidência da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Essa é a primeira vez na história que a instituição tem à frente um executivo não ligado a um dos grandes bancos que fazem parte da federação. A quebra de paradigma teve como objetivo profissionalizar a gestão, diante de todas as mudanças macroeconômicas que o Brasil passa com o crescimento do setor financeiro. Em entrevista à revista Financeiro, Murilo Portugal fala sobre o mercado de crédito e os planos para a federação e autorregulação. Conhecido pela sua carreira no setor público, em que atuou como secretário-executivo do Ministério da Fazenda, assessor na Casa Civil e chefe da Assessoria Econômica da Secretaria Geral da Presidência da República, Portugal também foi diretor-executivo do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em dezembro de 2006, foi indicado para o cargo de vice-diretor-geral do FMI, no qual liderou trabalhos em importantes áreas como códigos e padrões internacionais, programa de avaliação do setor financeiro, assistência técnica, treinamento, estatísticas e gestão de dados, recursos humanos e orçamento, além de ser responsável por um portfólio de 81 países membros. 8 FINANCEIRO abril/maio 2011


paradigma Revista Financeiro Como o senhor vê a gestão do atual governo, que tem lançado mão de outras medidas, além do aumento da taxa de juros, para conter a inflação? Tal mudança da política monetária é salutar para o mercado? Murilo Portugal As medidas macroprudenciais têm sido adotadas em vários outros países, inclusive na Nova Zelândia e Austrália, que foram as pioneiras no regime de metas para inflação. Os controles macroprudenciais visam primariamente evitar assunção de riscos financeiros e limitar níveis de risco; não foram desenhados para controlar a inflação. No entanto, acabam tendo algum efeito sobre a demanda agregada. Como é tudo muito novo, ainda não há muita clareza de qual será seu impacto. A expectativa é que os resultados apareçam em médio prazo. Mas o uso de medidas macroprudenciais não deve ser visto como uma mudança na política monetária. O principal instrumento para combater a inflação é a taxa de juros e acho que essa é também a opinião do Banco Central. Outra política importante que, embora não tenha como primeiro objetivo combater a inflação, mas que ajuda muito, é a consolidação fiscal, também usada no Brasil. Financeiro Mesmo diante das medidas macroprudenciais, é possível esperar a continuidade do crescimento da demanda e oferta de crédito? Quais são as estimativas para este ano? Portugal Sem dúvida. A intenção é controlar os níveis de risco, e não interromper a expansão do crédito. O próprio Banco Central já manifestou que espera um crescimento de até 15% este ano. Ele quer apenas diminuir a taxa de crescimento do crédito. As medidas abril/maio 2011 FINANCEIRO 9


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macroprudenciais e o aumento da taxa básica tendem a fazer a expansão do crédito desacelerar. Isso é bom, pois vai ajudar no combate à inflação e é melhor crescer menos por mais tempo do que ter de interromper a expansão de forma abrupta por causa de uma inflação mais forte. Já estamos observando essa tendência de desaceleração. A última pesquisa de projeções da Febraban aponta uma expectativa de crescimento do crédito total de 17% neste ano, continuando a desacelerar no próximo ano.

Financeiro Quais são as diretrizes que o senhor pretende adotar na sua gestão diante da Febraban? Quais as principais bandeiras que a federação irá defender? Portugal A continuidade do trabalho desenvolvido pelo Fabio Barbosa. O papel da Febraban é identificar, investigar, estudar quais as condições necessárias para os bancos poderem prestar os serviços que a sociedade espera deles e a partir daí dialogar com os públicos estratégicos, como os poderes públicos, em todos os níveis e instâncias. Não se trata de “defender os bancos”, mas de criar as condições que permitam aos bancos fazerem o que se espera deles: guardar e fazer crescer a poupança dos cidadãos, financiar o consumo e o investimento, e viabilizar pagamentos e recebimentos. Financeiro No comunicado enviado à imprensa, a Febraban destaca que “vem pautando suas atividades na busca de um diálogo transparente com órgãos regu10 FINANCEIRO abril/maio 2011

ladores e entidades de defesa do consumidor”. Essa é a tendência diante do aumento do acesso ao crédito? As conversas junto aos reguladores serão intensificadas? Portugal Sem dúvida, intensificar o diálogo não só com os reguladores bancários, mas com os diversos agentes, públicos e civis, que se preocupam com a atividade bancária, como os Procons, as associações de defesa do consumidor, as várias instâncias do Judiciário, o Congresso. Muito embora o Banco Central e o Ministério da Fazenda estejam na linha de frente quando se trata do crédito, o interesse pela intermediação financeira extrapola o governo. Financeiro Muito tem se falado de autorregulação no mercado financeiro como um todo. Como o senhor avalia esse comportamento no Brasil? Estamos à frente de outros países em termos de autorregulação? Portugal As experiências de autorregulação, ao redor do mundo, apresentam diversas peculiaridades, o que dificulta sua comparação. Cada país acaba desenvolvendo um modelo que melhor se adapte ao contexto em que se insere. A Febraban pretende ampliar as estruturas do sistema de autorregulação bancária, criado há dois anos, constituindo uma entidade autônoma, a exemplo do

Fotos: Douglas Luccena

Financeiro Quais as linhas de crédito que mais devem crescer? Portugal O crédito a pessoa física continua sendo o carro-chefe, com destaque para o crédito habitacional. A pesquisa da Febraban mostrou expectativa de maior expansão dos empréstimos com recursos direcionados que o próprio governo estimula, de 18,9% em 2011, com importante desaceleração para16,5% em 2012. As operações de crédito pessoal, incluído o consignado, também apresentaram uma expectativa de expansão acima da média neste ano e em 2012. Já a aquisição de veículo terá o menor crescimento.


que fez a BM&FBovespa, que criou a BM&FBovespa Supervisão de Mercado. Essa instituição terá orçamento próprio, quadros próprios de auditores, advogados, técnicos e um conselho independente formado por profissionais de fora do setor bancário. Outro aspecto a considerar, de grande potencial para o sistema, é o da regulação de relacionamentos com pessoas jurídicas, já que hoje o foco da autorregulação está centrado no relacionamento dos bancos com pessoas físicas. Nesse c ampo, ações como as do controle de exposição a derivativos e das cessões de crédito, já em curso, poderão alcançar avanços significativos. Financeiro E em termos de legislação para o sistema financeiro? Depois da crise, muito tem se comentado sobre a solidez dos nossos bancos e instituições, ainda existem gargalos? O que pode ser aprimorado? Portugal Por conta da capitalização do setor, pouca alavancagem e regulação forte, o sistema financeiro nacional passou bem pela crise internacional. Somos exemplo para o mundo, mas sempre há o que melhorar. Estamos engajados no esforço internacional e o Brasil deve ser um dos primeiros a adotar internamente as recomendações internacionais. Essas alterações trarão

importantes mudanças e impactos distintos entre diferentes segmentos de bancos, e também individualmente, dadas as particularidades de cada instituição. Financeiro Pode falar um pouco da sua experiência no Brasil e no exterior? Portugal Bem, a minha experiência sempre foi no setor público aqui no Brasil e depois internacionalmente. No governo trabalhei em vários órgãos, o Ministério da Fazenda no qual fui secretário-executivo e secretário do Tesouro, no Ministério do Planejamento, no Itamaraty, duas vezes na Presidência da República. No exterior, trabalhei no Banco Mundial e 11 anos no FMI. Na minha última função no FMI eu era responsável por gerir as relações do fundo com 81 países nos cinco continentes, tanto países desenvolvidos como países em desenvolvimento, inclusive alguns casos difíceis de países europeus, como a Islândia, a Grécia e Portugal. Foi um período difícil, mas interessante, durante o qual a minha experiência de crises aqui no Brasil na década de 1990 ajudou. Espero poder continuar contribuindo para o progresso do Brasil, agora no setor privado, que afinal é quem faz o desenvolvimento do país acontecer. Acho que a minha experiência no setor público pode ser útil nessa nova função. abril/maio 2011 FINANCEIRO 11


tecnologiaportaisdecompras

Por Karin Fuchs

Como os sites de compras coletivas e as redes sociais podem transformar o mercado financeiro

Ar evolução

do micropagamento Há quem não entenda a importância das redes sociais como ferramenta de comunicação, informação e de mercado. E como convencer então essas pessoas de que os sites de compras coletivas, aliados às redes sociais, podem fazer uma reforma brutal no mercado financeiro? Pois, podem acreditar, está na hora de a sua empresa começar a buscar soluções e desenvolvimento na área de tecnologia para acompanhar esse movimento, praticamente uma revolução digital, curiosamente movida, em sua maioria, pelos jovens da chamada geração Z. Prova disso é que não apenas os sites de compras coletivas, tecnicamente um negócio b2c normal, ainda que extremamente bem-sucedidos quanto aos seus derivados (já existem portais que funcionam como “guias de com12 FINANCEIRO abril/maio 2011

pras coletivas” e até um site semelhante, mas no modelo b2b, voltado a pequenas e médias empresas), foram desenvolvidos por profissionais na faixa dos 25 anos aos 30 anos. Ou seja, pessoas para quem a tecnologia, principalmente na internet, sempre fez parte do seu dia a dia. Os sites de compras coletivas surgiram há três anos nos Estados Unidos. O princípio básico é o da lei de oferta e procura. Quanto mais pessoas interessadas em um produto ou serviço, mais barato é o preço que elas têm de pagar. Aparentemente simples, o sistema segue algumas regras. A principal delas é que a oferta pelo valor reduzido (os descontos variam de 50 até 80%, às vezes até mais) só é válida após um número preestabelecido comprar o voucher. Uma vez atingida a meta mínima (que, muitas vezes,


não tem um limite máximo de cupons) a oferta torna-se válida e, a partir daí, o comprador tem um prazo para poder desfrutá-la. Por exemplo: um restaurante chinês oferece um jantar com entrada, prato principal, uma bebida e uma sobremesa por valor 80% mais baixo do que a soma desses itens possui em seu cardápio. Mas esse desconto só será válido depois que 50 pessoas comprarem o cupom. Atingido ou superado esse número, o débito do valor é feito pelo meio de pagamento escolhido, e todos os que compraram podem ter até seis meses para, de posse do voucher de confirmação da compra, ir ao restaurante consumir o jantar da promoção. Outra regra importante desse modelo de negócio é o prazo de validade da oferta no site de compra coletiva: via de regra, cada oferta dura, no máximo, 24 horas. Nesse prazo, a meta mínima de interessados pode ou não ser atingida e a oferta sai do ar. O pioneiro mundial nesse segmento – considerado um fenômeno – foi o Groupon. É a empresa que mais cresceu no mundo em 2010 e está presente em 45 países. O modelo de negócio praticado em todo o mundo é o mesmo, o que muda é o tipo de oferta. “Analisamos os hábitos de consumo regionais e procuramos sugerir oportunidades de acordo com esse perfil”, explica Florian Otto, CEO do Groupon. A empresa chegou ao Brasil em junho de 2010 e já possui cerca de 9,5 milhões de pessoas cadastradas, 15 mil parceiros comerciais, quase R$ 300 milhões de economia para os usuários brasileiros, mais de 16 mil ofertas publicadas e mais de 2.7 milhões de vouchers vendidos. O Groupon está presente em 42 cidades, com escritórios em São Paulo e no Rio de Janeiro. Genuinamente brasileiro, o primeiro site de compras coletivas em atividade no País foi o Peixe Urbano, que entrou no ar para cadastro em janeiro de 2010, e teve a sua primeira oferta lançada pouco depois, no dia 31 de março. Segundo Julio Vasconcellos, “a ideia foi desenvolver um modelo de negócios que alavancasse o poder de mobilização da internet para trazer benefícios à sociedade: um modelo ganha-ganha que coloca em contato os melhores prestadores de serviços de cada cidade e um número gran-

de de consumidores interessados em conhecer novos estabelecimentos perto de suas casas”. Com mais de cinco mil parceiros distribuídos em 56 cidades (incluindo Buenos Aires, lançado no último dia 16 de março, como primeiro passo de um processo de internacionalização), o Peixe Urbano conta com mais de oito milhões de usuários cadastrados. “Além disso, temos a maior página de uma empresa brasileira no Facebook,

Florian Otto, do Groupon “Analisamos os hábitos de consumo regionais e procuramos sugerir oportunidades de acordo com esse perfil”

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com mais de 400 mil fãs e outros 150 mil seguidores no Twitter”, comemora Vasconcellos. O “GPS” das compras coletivas Essas redes sociais, aliás, estão ao lado do e-mail utilizado no momento do cadastro, como as principais ferramentas de divulgação tanto do Peixe Urbano quanto do Groupon e dos demais sites de compras coletivas. Outro ponto em comum da maioria desses sites é em relação aos principais tipos ofertas. Os principais são nas áreas de gastronomia, beleza, hotelaria e turismo, muito embora todo o tipo de produtos e serviços poderia estar lá. O que faz com esses segmentos sejam os maiores geradores de negócios é o custo acessível. Os descontos são tão vantajosos que os clientes não hesitam em pagar. Às vezes se empolgam tanto que até se arrependem da compra. “É muito comum as pessoas comprarem os cupons e se arrependerem depois. Por exemplo, a pessoa adquire a oferta sem perceber que ela só é válida em uma quinta-feira à tarde”, adverte Mateus Moraes que, ao lado de Vinicius Mello, é sócio do portal Nosso Desconto, um navegador de ofertas que entrou em operação em agosto de 2010. O Nosso Desconto é uma ferramenta para os sites de compras coletivas, na verdade um portal que centraliza as ofertas dos principais e melhores sites disponíveis em todo o País. A ideia de criá-lo, segundo Moraes, surgiu de uma necessidade pessoal dos sócios. “Ficávamos um pouco perdidos porque começaram a surgir mais sites e aí tínhamos de visitar dez portais em um dia só. E pensamos: ‘por que a gente não centraliza tudo isso em um lugar só?’”, revela. A ideia deu tão certo que, se no começo ele precisava ir atrás dos sites, hoje já é procurado por eles. “No começo corríamos atrás desse pessoal que fazia as promoções. Mas de forma natural o processo se inverteu. Hoje, temos muitos sites cadastrados que vieram atrás da gente. Começamos com dez parceiros e, atualmente, temos 350. E olha que no Brasil há mais de 1.300 sites de compras coletivas”, informa Moraes. O Nosso Desconto já tem mais de 40 mil visitas diárias e a tendência é que esse número cresça cada vez mais, 14 FINANCEIRO abril/maio 2011

Danilo Jacob e Luana Grandino, do Negócios Urbanos “Procuramos possibilitar vantagens e poder de barganha aos empresários”

acompanhando o aumento das compras coletivas. No Brasil, estima-se que seis milhões de usuários já tenham feito, no mínimo, uma compra coletiva. Com a inclusão das classes C e D na internet e também com o aumento da concessão de cartões de crédito, acredita-se é que o número de visitas só aumente. Moraes afirma que entrar nesse modelo de negócio exige planejamento. “Para o consumidor, o que interessa é o desconto. Por exemplo, em vez de pagar R$ 300 em um serviço de salão de beleza, ele pode pagar R$ 59, o que é uma ótima oportunidade que aparece de vez em quando e, por isso, vale a pena comprar naquelas 24 horas em que a oferta está disponível. Já para o estabelecimento é preciso haver planejamento. Por exemplo, considerando que muitos sites


cobram uma comissão de 50% do estabelecimento por cada cupom, nesse caso dos R$ 59, ele já está com menos de R$ 30 no bolso”, alerta, complementando que, do lado do comerciante/lojista/prestador de serviços é preciso ter cuidado para não oferecer o que não se pode entregar. “Imagine se um hotel vende cinco mil cupons, mas ele só tem dez apartamentos: como ele iria atender esse pessoal todo?”, questiona. Visionários, todos esses jovens concordam em um ótimo argumento dos sites de compras coletivas: ainda que eventualmente a experiência possa até não ser boa financeiramente para quem faz a oferta, no mínimo funciona como uma excelente estratégia de marketing – quase sem custo nesse sentido – para aparecer e atrair novos clientes. Para pequenas e médias empresas Se o surgimento do Nosso Desconto aconteceu de uma necessidade pessoal, o mesmo pode-se dizer do Negócios Urbanos. Certo dia, um de seus sócios resolveu oferecer uma parceria em sites de compras coletivas para uma grande empresa e teve uma resposta negativa. O que poderia ser uma dificuldade virou oportunidade e, a partir de então, iniciou-se a idealização do Negócios Urbanos. Segundo Danilo Jacob, que ao lado de Luana Grandino (ambos formados pelo Insper – Instituto de Ensino e Pesquisa –, antigo Ibmec) e de um parceiro investidor são os sócios do Negócios Urbanos, enquanto já se tem mais de 1.300 sites de compras coletivas b2c no mercado brasileiro, quase não se houve falar de concorrentes diretos, especializados em b2b. “Procuramos possibilitar vantagens e poder de barganha aos empreendedores, pequenos e médios empresários, que não precisam despender parte do seu tempo fazendo cotações e se dirigindo fisicamente para compras de produtos, principalmente

Mateus Moraes e Vinícius Mello, do Nosso Desconto Mais de 40 mil visitas diárias e expectativa de crescimento

daqueles que não são core do seu empreendimento. Eles podem realizar compras com mais economia, o que resulta em mais capital para investir no que realmente lhes trazem retorno financeiro”, orienta Jacob. Já tendo na carteira de clientes nomes como Walmart, o Negócios Urbanos é focado não apenas em produtos diversos, como materiais para escritório e eletrônicos (impressoras, HD externos, pendrives, mouses, teclados etc.), quanto também em serviços para funcionários (cursos técnicos e de formação, brindes, uniformes, palestras) e serviços gerais (consultoria, treinamentos, serviço de dedetização). Essas compras de serviços não são tão diferentes da compra de produtos. No caso, por exemplo, de uma consultoria estratégica, o cupom da compra vale para x horas de consultoria que serão focadas nas demandas da empresa que são apresentadas pelo comprador ou até mesmo identificadas em uma análise prévia que é feita entre o consultor e o comprador. “O cupom pode ser exercido pelo comprador no prazo determinado na oferta e, quando há um mínimo, ele só será válido se o mínimo de compras for atingido”, conclui Jacob.

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entrevista Stefanini It Solutions

Compras coletivas: “apenas a ponta do iceberg” Dois especialistas em tecnologia para meios de pagamento preveem uma nova onda no mercado financeiro resultante da evolução tecnológica e do crescimento das redes sociais. Confira a seguir a entrevista com os executivos da Stefanini IT Solutions, Nelson Carlos Athayde Jr., gerente de negócios para bancos, e Cristiano Almeida, gerente de negócios para telecom. Revista Financeiro Como os senhores avaliam essa moda dos sites de compras coletivas? Cristiano Em nossa opinião, os sites de compras coletivas são um fenômeno que tendem a modificar outras redes também da internet, que é o que a gente chama de micropagamento. Micropagamentos são transações financeiras de baixo valor, porém o montante desse baixo valor oscila muito, dependendo de qual plataforma está-se processando esse micropagamento, em que existe um player que vai processar essas informações de uma forma diferente daquela conhecida hoje no mercado financeiro. Você tem um banco de um lado, você tem o adquirente no meio e você tem o estabelecimento comercial na outra ponta. Então, em termos de tecnologia, o que os sites de compras coletivas trazem hoje de diferente nesse cenário é que eles são “atores novos” em um novo ambiente financeiro que ainda está por vir. Nelson Esses sites são apenas a ponta do iceberg! O mercado está mudando, cada vez mais, para interagir com os clientes e buscá-los onde eles estão. E onde os clientes estão hoje? Eles estão na rede, na internet. Isso é uma tendência. Financeiro Quais são os modelos de pagamentos de compras coletivas? 16 FINANCEIRO abril/maio 2011

Cristiano Hoje, o mais forte, com certeza, é o cartão de crédito. Nelson No caso de boletos de pagamento, o sistema é viável quando o banco entra como parceiro. No caso, para um banco entrar em um site desses de relacionamento, tem de haver uma contrapartida do site com o banco. O que já não ocorre com o cartão de crédito. O cartão de crédito, embora já possua uma contrapartida, ela já é existente quando se faz uma operação com cartão. Depois você tem modelos de sites que facilitam as compras coletivas, que é onde atua o PayPal, o Braspag, o PagSeguro, entre outros. Nesse caso, esses sites “substituem” o banco. Garante o pagamento, faz o pagamento depois de um tempo e fica com esse dinheiro entre a transação final com o cliente que fez a venda. Financeiro No momento do pagamento, para onde vai o dinheiro? Cristiano Normalmente, quando é feita a compra em um site de compras coletivas, o comprador enxerga o site que está apresentando a oferta – por exemplo, o Peixe Urbano – e não o estabelecimento comercial. Além disso, o pagamento não é feito imediatamente. A compra, primeiro fica em pré-aprovação. Os sites de compras coletivas têm um acordo com os estabelecimentos comerciais e apenas no momento em que a oferta atinge um número predeterminado de compradores a operadora de cartão de crédito autoriza o débito na conta de quem fez a conta e o estabelecimento comercial recebe o pagamento. Agora, se o pagamento vai vir do site de compras coletivas, ou da operadora de cartão de crédito, isso vai depender do modelo de negócio que eles fecharam. Varia de portal para portal.


Financeiro Em termos de confiabilidade, como vocês enxergam essa tendência no mercado de sites de compras coletivas? Nelson Aí há um braço de ferro entre operadoras, as acquires (empresas especializadas no gerenciamentos de compras), os bancos, os estabelecimentos comerciais. Todo mundo quer ficar com uma parte da transação. Então, no caso de pagamentos de baixo valor, o estabelecimento comercial que vende o produto precisa ver se isso realmente vale a pena para ele. Se for ficar uma parte com a acquire, uma parte com o banco, e trata-se de um pagamento de um cafezinho, por exemplo, o comerciante precisa ver se isso vale a pena para ele. Cristiano Hoje há uma grande transformação nos meios físicos e nos meios lógicos. O NFC (Near Field Communication) ou comunicação de curta distância – trata-se de uma tecnologia desenvolvida pela Philips e pela Sony, tipo peer to peer, que trabalha na frequên-

cia de 13,56 MHz), que na verdade é um chip RFID (Radio Frequency Identification) como os usados no Bilhete Único, por exemplo, transforma os aparelhos de celulares em “carteiras eletrônicas” pelos quais você passa a executar transações financeiras e isso é uma modificação natural do meio físico de dispositivos de pagamento. O que está havendo nos dias de hoje com os sites de compras coletivas é uma mudança nos meios lógicos de pagamento. Em vez de você usar a base de internet banking para executar transações, ou apenas o seu cartão de crédito físico para realizar uma compra pela internet, a gente vai assistir a uma transformação pela qual você acessa a internet no seu próprio celular, que tem um chip identificador (um NFC, por exemplo), garantindo que você é você mesmo, não existe mais cartão de crédito, e a empresa que está garantindo a transação talvez não seja uma empresa “tradicional”, como uma acquire ou banco. Então são atores novos

Carlos Athayde e Cristiano Almeida, da Stefanini “O mercado está mudando para atingir os clientes e buscá-los onde estiverem”

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novos que começam a surgir no mercado financeiro. E essa onda de sites de compras coletivas é importante para isso, porque eles estão incitando nas pessoas a vontade de adquirir bens de baixo valor. E aí que você entra no conceito de micropagamento. Então, todo esse cenário novo, lógico e físico, seria para viabilizar que, futuramente, os sites de compras coletivas poderão oferecer produtos de R$ 5, de R$ 10. Por que não? Financeiro Com todas essas modificações, onde se encaixam os bancos e as acquires na negociação? Cristiano Eles necessitam atualizar os seus sistemas para receber esses novos

“O usuário pensa: para que eu preciso fazer a coisa toda de forma tradicional, se tudo o que eu estou usando hoje não é?” usuários. Não existe uma eliminação de membros dessa cadeia existente hoje, mas uma necessidade de transformação deles para que estejam preparados para os novos usuários e, também, os novos players. Assim como as operadoras de telefonia, que já estão aí desenvolvendo soluções para estarem conectadas com os bancos em canais novos de pagamento, tanto com os adquirentes atuais e como os novos que estão por vir, como PayPal, por exemplo, e todo mundo deve atualizar a sua plataforma tecnológica para que, no futuro, com tudo ancorado no dispositivo móvel, ele possa efetuar transações diferentes. Financeiro E como vocês veem o papel dessas redes sociais nesse cenário mercadológico? 18 FINANCEIRO abril/maio 2011

Nelson O grande final dessa história é que a integração de tudo isso ocorre nas redes sociais. Não apenas para vender produtos, mas também para entender o que os clientes querem e até para que os bancos possam conhecer melhor seus clientes e praticar um offering diferenciado. Cristiano Imagine um grande show internacional no Brasil. Aí, como muita gente já acessa o Facebook pelo celular, um grupo de amigos combina ali que quer ir junto ao show. Imagine também que há um site de compras coletivas que seja parceiro da empresa que comercializa ingressos para esse show, dentro do Facebook. O grupo se junta e, no mesmo padrão de compras coletivas, processa a compra dos ingressos para todos os amigos pelo próprio celular, fecha o lote de ingressos e recebe ali mesmo a confirmação. Ou seja, é uma operação transparente. O usuário pensa: “para que eu preciso fazer a coisa toda de forma tradicional, se tudo o que eu estou usando hoje não é tradicional?”. Redes sociais não são tradicionais, sites de compras coletivas não são tradicionais, celulares e smartphones não são como os computadores, que não são como carteiras de dinheiro ou cartões de crédito. Financeiro Mas tudo isso é seguro? Nelson Ainda hoje, o grande problema disso tudo, e complicado, é a questão da segurança das transações. Mas, no futuro, você tendo certificação digital embutida no celular, por exemplo, e isso poderá ser um facilitador para as transações nas redes sociais e nos sites de compras coletivas. O que a geração Z já busca é facilidade. É você abrir uma foto de um amigo no seu celular e poder ali transferir uma soma em dinheiro, ou mesmo, para um lojista para pagar uma conta. Cristiano O interessante é que a tecnologia para garantir essa segurança toda já existe e está disponível. Mas as empresas que fazem parte dessa cadeia precisam buscar essas tecnologias e colocá-las para funcionar em conjunto. Esse é o grande desafio.


classemédia Por Juliana Jadon

Casamento econômico Em 2010, 19 milhões de brasileiros emergiram para a classe C. Agora, empresas e instituições financeiras olham para essa população como um grande público potencial. Mas ainda há muito para aprender com essa fatia de mercado... Um pedido de casamento foi marcado por uma proposta diferenciada: economizar. Aline Rodrigues da Silva, de 26 anos, e Aparecido José Alves, de 28, decidiram se casar em maio de 2010, ao se sentirem financeiramente seguros. Ele havia passado em um concurso público para ser professor de educação física em escolas estaduais e municipais e ela entrou em um emprego registrado na área de comunicação de uma grande empresa. Cada um depositava a economia mensalmente em sua poupança na Caixa Econômica Federal. Em 2010, chegaram a aplicar parte da quantia em previdência privada. Juntos, do ano passado para este, eles já pouparam cerca de R$ 30 mil. Os noivos são o perfil da nova classe média brasileira que empresas, bancos e financeiras querem como clientes. A melhor condição em consumir, poupar e, até mesmo, investir no futuro, foi verificada em uma boa parcela da população nos últimos anos. Entre 2005 e 2009, 26 milhões de brasileiros deixaram as classes D e E, alcançando a C, e outros quatro milhões emergiram para as classes A e B. Em 2010, esse movimento foi mais expressivo: 19 milhões de pessoas emergiram para a classe C e outros 20 FINANCEIRO abril/maio 2011


ConsciĂŞncia financeira Aline e Aparecido jĂĄ pouparam, juntos, mais de R$ 30 mil para o casamento

011


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12 milhões atingiram as classes A e B. Isso fez com que a famosa pirâmide social deixasse de existir, tornando-se um losango (conforme imagem ao lado). Os dados são da pesquisa “O observador Brasil 2010”, efetuada pelo Instituto Ipsos e encomendada pelo banco Cetelem BGN. O estudo mostra ainda que, assim como o casal, no último mês de dezembro 7% da classe C entrevistada poupou. Essa fatia de mercado guardou, em média, R$ 584. E ainda, no último mês do ano passado, sobrou uma média de R$ 171 no bolso dessa população, disponíveis para o gasto. “A pessoa com renda menor é, muitas vezes, mais organizada e preocupada com poupança do que a que tem maior ganho mensal. O ideal é guardar, no mínimo, 10% do rendimento do mês”, explica Fábio Moraes, diretor de Educação Financeira da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e um dos idealizadores do portal Meu Bolso em Dia. Poupança e crédito são elementos complementares. Como Pirâmide 2005 exemplo, Moraes cita a compra de um carro financiado, em que o cliente dá uma quantia de entrada Classes A e B 26,421 milhões e financia o restante. Apesar de ter dinheiro guardado, Aline parcelou Classe C 62,702 milhões o vestido de noiva em seis vezes e em quatro a viagem de lua de mel, Classes D e E planejada para cinco noites em 92,936 milhões Natal (RN), a Cidade do Sol. Atento a esse movimento, o Losango 2010 Banco do Brasil (BB) tem atuado com estratégias específicas para atender essa população. O desaClasses A e B 42,195 milhões fio é oferecer produtos e serviços de acordo com os novos hábiClasse C tos dessas pessoas e orientá-las a 101,651 milhões aproveitar de forma consciente o crédito e a renda. O banco está contratando novos funcionários Classes D e E 47,948 milhões para a rede de agências (6.070 foram empossados até dezembro de Fonte: Pesquisa Cetelem-Ipsos 2010 2010 e a previsão é de mais 4.100 22 FINANCEIRO abril/maio 2011

Fábio Moraes, da Febraban “A pessoa com renda menor é, muitas vezes, mais organizada e preocupada com poupança do que a que tem maior ganho mensal”

em 2011) e investindo em tecnologia, com aumento na capacidade e velocidade de transmissão de dados para a rede de agências e a modernização dos parques tecnológicos dos caixas eletrônicos e da rede de correspondentes. A abertura da conta corrente no BB é simples. Só é preciso de CPF, identidade, comprovante de residência e renda. Caso o cliente não tenha como comprovar o rendimento, ele pode fazer uma declaração em até R$ 1,5 mil. Desde que não haja restrições impeditivas, o limite de crédito é calculado e disponibilizado imediatamente para a pessoa. Educação necessária Aline ganha cerca de R$ 2 mil. Ela ajuda em casa com R$ 600 mensais e guarda, em média, R$ 500. Outros R$ 70 vão para as parcelas do cartão de loja que possui, R$ 200 para a assistência médica e o destino do restante fica a seu critério. Já o noivo ganha cerca de R$ 3 mil e guarda R$ 2 mil mensais. Tudo isso, com certa consciência financeira, Aline desmembra em uma planilha de gastos. O papel lhe serve de referência e a guia financeiramente ao longo do mês. “O planejamento financeiro deve existir não para ser um bloqueio ao consumo, mas para que a pessoa continue a gastar no dia de amanhã”, ensina Moraes. Nem todos os consumidores são como Aline e Aparecido. Em pesquisa efetuada em 2010, a Febraban


identificou dois perfis de consumidores na nova classe média. São eles: os conservadores (como o casal citado), que organizam os gastos de acordo com a renda mensal, fazem planilhas de orçamento, não gostam de ter muitas contas parceladas e poupam, e os impulsivos, que comprometem o mês seguinte e não conseguem poupar. “A educação financeira é mais do que passar conhecimento sobre o que são juros compostos, por exemplo, ela deve incentivar a preocupação com o futuro”, coloca Moraes. Para o especialista da Febraban, o segundo grupo ainda precisa de educação financeira.“Para falar sobre atendimento e oferta de produtos para as classes C e D, temos de pensar nos mecanismos de seleção dessas classes: o que valorizam e o que temem. Essa enorme população que chega pela primeira vez aos diferentes mercados não tem educação financeira. Sua experiência em assumir compromissos e fazer um orçamento é limitada ou inexistente”, coloca Carlos Ximenes de Melo, diretor do Itaú Unibanco. Final feliz Aline fez questão de escolher o bufê e a igreja para a comemoração. A casa onde irão morar é presente de um membro da família. Além disso, há outras facilidades. O local já possui alguns móveis em bom estado, segundo

Comunicação adequada Textos pequenos, linguagem direta, otimista e amigável, cores atraentes e alegres, referências tangíveis e representativas do dia a dia é o que atrai esse público. Assim, o Banco do Brasil teve aumento na utilização de seus produtos financeiros, no período de junho a dezembro de 2010, conforme as tabelas:

Equivalente à classe C Produto

% de incremento na quantidade de clientes

Crédito direto ao consumidor

14,8

Consórcio de automóveis

28,5

Cartão de crédito

11,2

Poupança

13,8

Conta corrente

10,9

Seguro de pessoas

10,8

Equivalente às classes D e E Produto Crédito direto ao consumidor

% de aumento no número de clientes 29,8

Financiamentos Cartão de crédito

24 11,2

Consórcio de automóveis

9,8

Primeiros passos no mercado de capitais Ações, volatilidade, rendimento, desvalorização e investimento são palavras que não fazem mais parte somente do vocabulário de empresários e investidores das classes A e B. Uma quantia tímida de pessoas da classe C, além de poupar, já investe em papéis listados na Bolsa de Valores brasileira, a BM&FBovespa, ou em CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) oferecidos pelos bancos. Como exemplo disso, uma pesquisa feita pela consultoria Plano CDE, a pedido da BM&FBovespa, revelou que 20% dos investidores pessoa física, algo próximo de 120 mil, têm renda familiar mensal entre R$ 2,5 mil e R$ 4,5 mil. “Para que o número de investidores cresça é importante que exista mais educação financeira, especialmente voltada aos emergentes”, ressalta Moraes, da Febraban. A Bolsa conta hoje com aproximadamente 600 mil investidores individuais. Com um completo e intenso projeto de popularização do mercado de

ações, lançado em 2002 para criar a cultura desse investimento no Brasil, a Bolsa pretende elevar a cada ano o número de investidores pessoas físicas - eram apenas 85 mil investidores em 2002 - e alcançar, até 2015, um total de cinco milhões de contas de brasileiros em corretoras espalhadas por todo o País. Patrícia Quadros, gerente do programa de população da BM&FBovespa, lembra que, principalmente se iniciante, o investidor deve ter sempre em mente que o mercado de ações é arriscado. Logo, uma pessoa pode ganhar (aumentando seu patrimônio) ou perder a quantia que investir, total ou parcialmente. Além disso, esse tipo de investimento é encomendado para o longo prazo – no mínimo cinco anos. “As estatísticas mostram que o investimento de longo prazo em uma carteira selecionada de ações é rentável. Portanto, não é preciso se preocupar com o dia a dia da Bolsa: subiu, caiu, ficou estável etc.”, indica.

abril/maio 2011 FINANCEIRO 23


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ela, e os dois receberam a notícia de alguns padrinhos e convidados de que serão presenteados com os itens principais – como geladeira, fogão e outros de valor elevado – que faltam na residência. Para economizar, eles deixaram de desfrutar de festas e comodidade. Antes de ir ao cinema, por exemplo, procuram almoçar em casa para não gastar com restaurante. “O que contribui na economia é o nosso estilo de vida. Somos caseiros e, às vezes, optamos por passar um final de semana vendo filmes, comendo pipoca e jogando videogame”, exemplifica Aline. Até a data do casamento, Aline e o noivo terão poupado ainda mais recursos. Eles já pensam até em guardar dinheiro para adquirir um carro depois do casório. Como ela, entre os entrevistados da classe média pela pesquisa do Cetelem, 82% pretendem aumentar as economias nos próximos 12 meses e 45% programam elevar os gastos. Nas classes D e E, o resultado também foi positivo: 71% querem poupar mais em 2011 e 51% irão consumir mais.

Como a classe C lida com o dinheiro? Costumo pagar minhas contas em dia, 58% Costumo ter controle das despesas fixas do mês, 49% Costumo ter reserva de dinheiro para gastos emergenciais e/ou ocasiões especiais, 24% Costumo ter algum dinheiro sobrando no fim do mês, 19% Costumo fazer seguro dos meus bens de maior valor, como casa e carro, 5% Fonte: Celetem-Ipsos 2010

André Torretta, da A Ponte Estratégia “A renda do brasileiro cresce mais rapidamente que o senso de oportunidade”

E, ainda, questionados sobre a situação financeira em geral, 59% dos apurados na classe C disseram que vai melhorar e 50% nas classes D e E. “Classe C não é nicho nem mercado potencial. A classe C é o consumidor de hoje. A renda do brasileiro cresce mais rapidamente que o senso de oportunidade”, alerta André Torretta, sócio-diretor da consultoria especializada em classes emergentes, A Ponte Estratégia. Na hora de fidelizar os clientes, a aliança utilizada por bancos será a estratégia. f

Share de usuários por classes e serviços financeiros POUPANÇA

DeE 29,2%

AeB 13%

C 57,8%

CONTA CORRENTE

DeE 25,3%

AeB 14,5%

C 60,2%

CARTÃO DE CRÉDITO AeB D e E 15,8% 23,2%

C 61%

PLANO DE SAÚDE AeB D e E 17,6% 18,8%

C 63,6%

SEGURO

DeE 14,4%

AeB 23,7%

C 61,9% Fonte: Febraban

24 FINANCEIRO abril/maio 2011


artigoanálisedecrédito

Era uma vez... A evolução regulatória das Resoluções CMN 3954/11 e 3959/11 Desde a primeira norma do Conselho Monetário Nacional – CMN de 1979 (Resolução 562) sobre a contratação de empresas prestadoras de serviços, não integrantes do Sistema Financeiro Nacional (SFN), para prestarem serviços de encaminhamento de pedidos de empréstimos e financiamentos, a autoridade reguladora bancária posicionou-se pela possibilidade Por Kátia Madeira Blaha de prestarem às instituições financeiras contratantes o serviço de análise de crédito. De tal modo que todas as resoluções do CMN, que sucederam a Resolução 562, previram o serviço de análise de crédito, associado ao serviço de encaminhamento de pedidos de empréstimos e financiamentos. Embora o CMN permitisse que as instituições financeiras contratassem empresa fora do SFN para analisar o risco de crédito, na prática nenhuma exerceu a faculdade. Para que a instituição financeira desenvolva suas atividades continuamente, deve analisar os riscos inerentes à concessão de empréstimos, com o fim de minimizar o prejuízo proveniente dessas operações, sob pena de perder a viabilidade do negócio. As técnicas utilizadas para essa análise, tais como o credit score e a árvore de decisões, são priorizadas face aos métodos subjetivos. Com a evolução dos sistemas, a análise de crédito/risco passou a ser parametrizada em sistemas. Os dados cadastrais tomador do empréstimo preenchidos pelos correspondentes são enviados, via sistema, à instituição financeira para que ela analise o risco. Nesse circuito destaco dois mundos distintos: o bancário, em que os funcionários e sistemas efetuam a análise de risco/crédito, e o dos correspondentes, fora do SFN, em que funcionários preenchem dados cadastrais e conferem documentos. Paralelamente, o mercado dos correspondentes adotou, para identificar funcionários e atividades, expressões como “analista de crédito”, “mesa de crédito”. O

efeito negativo da prática foi a equiparação a bancário/ financiário dos funcionários das não financeiras pela Justiça do Trabalho, uma vez que a atividade de analista de crédito é típica de bancário. Se a própria empresa anota equivocadamente na CTPS que o cargo é “analista de crédito”, como vai falar que tal ex-funcionário não fazia análise de crédito? Expressei outras vezes a necessidade de se mitigar o risco de equiparação a bancário dos funcionários dos correspondentes na oferta de crédito (vide entrevista à TV Acrefi em 29/12/10). Nessa seara, congratulo o Conselho Monetário Nacional e o Banco Central do Brasil pela nova redação dada aos serviços dos correspondentes, trazida pela Resolução 3954/11, na sua forma alterada pela Resolução 3959/11, que altera e consolida as normas que dispõem sobre a contratação de correspondentes. Na listagem de serviços dos correspondentes, pela primeira vez desde a Resolução 562/79, a análise de crédito não está incluída. O serviço da empresa correspondente é o de encaminhar propostas referentes à operação de crédito e de arrendamento mercantil (artigo 8º, V). O que o funcionário do correspondente faz, de fato, é a coleta de informações cadastrais. Isso é justamente o que está previsto no artigo 8º da Resolução 3954/11, a segunda novidade regulatória. Embora as legislações trabalhista e bancária não precisem andar a par e passo, a eliminação da análise de crédito dos correspondentes, além de corroborar a prática adotada pelo mercado, tem efeitos salutares no de correspondentes, que devem deixar de usar a expressão “análise de crédito”. Caso os correspondentes adotem tal postura, será o fim (desejável) dessa era no âmbito dos correspondentes. Distorção corrigida! f Kátia Madeira Blaha é advogada da MKA – Madeira Kliauga Advogados abril/maio 2011 FINANCEIRO 25


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A praia do

investidor

28 FINANCEIRO abril/maio 2011

um prédio novo ‘na areia’ como, por exemplo, o Trump Tower (Miami), está sendo vendido a um preço que não se conseguiria reconstruí-lo. E, aliado a esses fatores, os imóveis estão supervalorizados no Brasil.” Para exemplificar melhor em números, Fonseca conta que exatamente no Trump Tower o metro quadrado está custando cerca de US$ 3,5 mil (cerca de R$ 5,9 mil). “Um preço bem convidativo, se compararmos com o valor do metro quadrado não só da região dos Jardins, em São Paulo, como também do Balneário de Camboriú (SC), Brasília (DF) e Belo Horizonte (MG), entre outros”. E ele tem razão. De acordo com o índice Fipe, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, publicado em fevereiro deste ano, o metro quadrado no Jardim América, bairro nobre de São Paulo, foi estimado em R$ 8.412. E, desde 2008, em todo o País houve um aumento de 80% nos preços dos imóveis, sendo que o Rio de Janeiro extrapolou esse porcentual, com uma valorização de 95%, nos preços e São Paulo ficou bastante próximo com uma alta de 79%.

Foto: iStockphoto/Douglas Luccena e Divulgação

Ao falar de mercado imobiliário, Brasil e Estados Unidos vivem fenômenos opostos. Por aqui, a expansão do crédito, o aumento da renda, a demanda oprimida e a lei da oferta e procura resultaram em uma valorização dos imóveis que, em algumas regiões, gerou até uma supervalorização. Enquanto isso, no mercado imobiliário norte-americano, como já era previsto, os preços despencaram após a crise financeira, conhecida também como crise imobiliária. O resultado é que a região da Flórida foi invadida por brasileiros em busca de oportunidades. Segundo Marco Fonseca, presidente de relações da National Association of Realtors (NAR) para o Brasil, são exatamente os brasileiros que mais estão comprando imóveis na região, seguidos pelos russos. E não é exagero, nas palavras do executivo, dizer que isso se tornou um “tsunami”. “O momento é o melhor possível. Nunca houve, no passado, uma combinação de dólar desvalorizado em relação ao real e preços de imóveis, por aqui, abaixo do valor de construção. Para se ter uma ideia, o valor de

Por Karin Fuchs


Preços convidativos e desvalorização do dólar. A fórmula perfeita para o mercado de imóveis norte-americano conquistar investidores e para quem busca uma casa de veraneio. Brasileiros são os principais compradores de imóveis na região da Flórida, mas há também ótimas oportunidades por aqui...

brasileiro Nas previsões de Fonseca, a tendência de brasileiros comprarem imóveis nos Estados Unidos está só começando. “A agenda de todos os corretores que eu conheço, atuantes na área de vendas voltada para brasileiros, está cheia. Em 2010, houve um aumento considerável de negócios e, tomando como base este começo de ano que, como dizem, só começou depois do Carnaval, já tem muita gente vindo para cá em busca de imóveis.” A tentação Sem estar nos seus planos, Rodrigo Bicalho, sócio do escritório Bicalho e Mollica Advogados, quase não resistiu à tentação de comprar um imóvel na Flórida, em suas recentes férias com a família. “Eu mesmo quase fui ver um imóvel. Na região dos parques da Disney, em Orlando, uma boa casa em condomínio fechado, com toda a infraestrutura, e uma metragem de 150 a 160 metros quadrados está custando US$ 60 mil. Claro que esse preço não se manterá; no mínimo irá duplicar, mas provavelmente

o preço não chegará aos mesmos patamares de antes da crise, quando um imóvel nesse perfil custava cerca de US$ 260 mil. Antes, diziam que isso aconteceria em um prazo de três anos. Agora já falam de oito a dez anos.” O que já vem acontecendo, timidamente, em algumas regiões. “Os preços dos imóveis na Flórida chegaram ao fundo do poço e já têm sido observados alguns aumentos em determinados complexos e áreas. A maioria dos prédios novos em Miami, que o incorporador original perdeu no topo da crise, os investidores que a adquiriram já estão fazendo pequenos reajustes de US$ 25 mil ou US$ 30 mil. A tendência é os preços continuarem estáveis para subir. Por outro lado, ainda há muitos imóveis tomados por bancos que virão para o mercado”, avalia. Essa pequena valorização, analisa Bicalho, nada tem a ver com a economia americana, mas, sim, com a demanda. “Nas melhores regiões em Miami houve um aumento de 10 e 15% nos preços dos imóveis, baseado no grande movimento de compra por estrangeiros, principalmente abril/maio 2011 FINANCEIRO 29


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“O momento é o melhor possível. Nunca houve, no passado, uma combinação de dólar desvalorizado em relação ao real e preços de imóveis, por aqui, abaixo do valor de construção” Marco Fonseca, presidente de relações da National Association of Realtors (NAR) para o Brasil

de brasileiros e de outros centros da América Latina. Mas, mesmo assim, os preços em valores absolutos continuam extremamente baixos.” Para entender um pouco esse fenômeno que está ocorrendo no mercado norte-americano, Bicalho relembra que, antes de estourar a bolha imobiliária – os famosos subprimes –, até 2007 os imóveis nos Estados Unidos sofreram uma valorização imobiliária muito grande, até superficial, fruto de uma demanda criada de financiamentos, e voltada para pessoas que tinham poucas condições de arcar com eles. O resultado todos já sabem: os imóveis foram tomados pelos bancos e começaram a ser leiloados, o que gerou um efeito cascata na queda dos preços dos imóveis. “Além disso, como quase todos os imóveis nos Estados Unidos são financiados em hipotecas de 30 anos, quem entrou em um financiamento de US$ 300 mil, antes da crise, e tem de pagar ainda US$ 270 mil (em mais de 20 anos), vendo que o seu vizinho está vendendo uma casa similar

Brasileiros em Miami • O consulado brasileiro em Miami estima que há entre 250 mil

e 300 mil brasileiros vivendo na Flórida. A maior concentração está nos condados de Broward, Miami-Dade e Orlando

• Segundo a operadora de turismo U.S. Travel, 1,1 milhão de brasileiros foram para os Estados Unidos no ano passado

• Cerca de 500 mil brasileiros visitaram a região no sul da Flórida em 2010, liderando as compras feitas por turistas estrangeiros, um total de US$ 1 bilhão

30 FINANCEIRO abril/maio 2011

por US$ 150 mil ou vai parar de pagar, ou vai negociar com o banco. Isso fez com que muitos compradores, mesmos os que não tinham grandes dificuldades financeiras, fizessem as contas e parassem de pagar as hipotecas. O mercado imobiliário americano literalmente ficou paralisado”, avalia. Ainda de acordo com Bicalho, o preço de um bom imóvel localizado na Flórida é praticamente o mesmo do programa Minha Casa, Minha Vida. “E essa não é uma comparação exagerada. Além disso, nós pensamos na Flórida, por ser culturalmente ou territorialmente mais próxima ao Brasil. Porém nas regiões que não têm apelo turístico nos Estados Unidos a situação ainda é mais dramática para os americanos.” Enquanto isso, no Brasil... Na contramão do mercado norte-americano, os preços dos imóveis no Brasil dispararam. A valorização ou supervalorização de algumas regiões, explica João Crestana, presidente do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi–SP), nada mais foi do que a retomada do equilíbrio dos preços. “Nós estávamos vivendo uma situação semelhante à atual da Flórida. Nos anos de 1990, uma década perdida para os imóveis, a inflação corroeu a nossa moeda e os imóveis ficaram baratíssimos (abaixo do preço de reposição), o que acabava não compensando construir para vender. O Brasil voltou a ter um preço equilibrado com a estabilidade econômica, a disponibilidade de crédito imobiliário, o aumento da renda das famílias e a ascensão de 30 milhões de pessoas para a classe média que puderam comprar seus imóveis.” É bem verdade que, antigamente, financiar um imóvel no Brasil não era tão simples. Rodrigo Bicalho lembra que para isso o interessado tinha de ter entre 60 e 70% do valor em cash para financiar o restante. “Poucos conseguiam acesso a financiamento em longo prazo e os juros eram altíssimos. É verdade que os imóveis estavam muito baratos no Brasil, mas não havia essa percepção, exatamente pela falta de acesso ao crédito. Concordo, em parte, que hoje houve uma recuperação dos preços, mas acho que invertemos um pouco a situação. Se compararmos os preços dos imóveis dos grandes centros do Brasil, como, por


exemplo, em São Paulo, veremos que os imóveis são um dos mais caros do mundo, com raras exceções.” Crestana alerta que deve haver preponderância para não haver distorções. “Se analisarmos a evolução dos últimos dez anos do Índice Nacional de Custo de Construção (INCC) e do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o preço dos imóveis subiu de um a dois pontos porcentuais a mais que o índice de inflação ao ano, um aumento médio de 15 ou 20% no período. Já no ano de 2008, em função da crise financeira mundial, muita gente vendeu imóveis a um preço baixo, imaginando que fosse o fim do mundo, o que não aconteceu. Os preços tiveram uma recuperação a partir de agosto de 2008 a 2010, podendo, sim, ter havido pico de alta de preços de 20 a 25% e até de 30%”, explica. É preciso tomar cuidado com as especulações. “Às vezes, é até alguém que vai fazer um lançamento em uma região e fala ‘os imóveis vão subir 50%’. Isso não é consistente. Imóvel não se deve comprar com intuito especulativo, mas, sim, para moradia, para instalar uma empresa”, comenta Crestana. Sobre as oportunidades no mercado imobiliário norte-americano, o presidente do Secovi–SP analisa

que a junção de dólar barato e imóveis a preços bastante convidativos nos Estados Unidos são bem interessantes para o investidor brasileiro. “E esse é um fenômeno que estamos vivendo. Quando o investidor faz a comparação, se ele pretende aplicar, pensará na Flórida. Acredito que os preços não diminuirão mais, mas que também a recuperação não será tão rápida, porque depende do aumento dos empregos, o que está acontecendo a uma taxa bastante lenta. As oportunidades continuarão.”

Rodrigo Bicalho, sócio do escritório Bicalho e Mollica Advogados “Os preços dos imóveis na Flórida caíram enquanto que no Brasil são observados aumentos”

Investir, morar ou residência de férias Considerando que a valorização dos imóveis nos Estados Unidos levará um tempo – alguns estimam em três ou quatro anos e outros em até dez –, é preciso colocar na ponta do lápis as vantagens e desvantagens, principalmente considerando qual é a finalidade do imóvel. Marco Fonseca, presidente de relações da National Association of Realtors (NAR) para o Brasil, antecipa que no primeiro momento o pensamento é de investir. Mas, na prática, o que ele vem acompanhando é o interesse dos brasileiros em ter um imóvel para lazer. “O perfil do comprador é de ter um lugar para passar as férias, poder abril/maio 2011 FINANCEIRO 31


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emprestar o imóvel para parentes e amigos, e a grande maioria não se simpatiza em alugar por temporada. Além disso, para chegar à Flórida está mais fácil, com voos diretos de Brasília e Belo Horizonte, por exemplo, o que permite também, para quem vem do interior, chegar a uma área de praia mais rapidamente do que dentro do Brasil.” Para Rodrigo Bicalho, a decisão requer um amplo planejamento. “Quem pensa em comprar para uso é um ótimo momento, desde que usufrua do imóvel. Pois da mesma maneira que a oferta está grande, também não haverá facilidade para se desfazer da aquisição em curto prazo. Há toda uma questão de logística que deve ser levada em conta, incluindo a infraestrutura aeroportuária do Brasil.” Como investimento, pontua Bicalho, as considerações devem ser quanto à aposta na recuperação da economia

“Vivemos uma situação semelhante à atual da Flórida. Nos anos de 1990, uma década perdida para os imóveis, a inflação corroeu a nossa moeda e os imóveis ficaram baratíssimos” João Crestana, presidente do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo, Secovi–SP

americana, o prazo que ela se dará, e o quanto esse prazo implicará custos de carregamento desse investimento nos Estados Unidos, com impostos, condomínio e manutenção. “É preciso calcular todos os custos com uma previsão de prazo futuro de venda e uma opção para abatê-los é alugar o imóvel, para que esses custos se paguem enquanto se aguarda a valorização. O que também deve ser estudado já que com a superoferta os aluguéis estão em um preço baixo. Porém, dependendo do local, pode-se alugar para brasileiros que dão preferência a ficar em hotéis.” Também como investimento, como também acontece no Brasil, o advogado ressalta que não apenas o preço atrativo deve ser preponderante. Mas também o local onde o imóvel está situado. “A dica é procurar entender onde o imóvel está localizado em termos de tendência da região, se ela irá valorizar, se está mudando de um padrão médio para alto padrão 32 FINANCEIRO abril/maio 2011

ou, ao contrário, se é decadente. No Brasil, nós temos mais facilidades em obter essas informações. Lá, para quem não conhece, não basta conversar com o corretor que, afinal de contas, quer vender o imóvel, mas é preciso falar com alguém que tenha conhecimento do bairro”, indica. Mais dinheiro no bolso E como nos Estados Unidos dificilmente os americanos compram imóveis à vista, estrangeiros também contam com facilidades. Em geral, a exigência é de uma entrada de 40% e os demais 60% são financiados, com juros anuais de 5 e 5,5% prefixados em três, cinco ou sete anos, e a dívida pode ser amortizada em 30 anos, conforme dados da corretora Luciana Barreto e da Elite International Realty. Um bom negócio, sugere Bicalho, é investir o dinheiro que seria pago no imóvel ao invés de comprar à vista. “Considerando que um imóvel custe US$ 300 mil e esse dinheiro é investido no mercado financeiro, hipoteticamente com um rendimento de 1% ao mês, o que não é pretensioso, mas, sim, um bom retorno, esse rendimento paga a parcela mensal e ainda sobra. No final, o imóvel saíra por US$ 200 mil. E estamos falando de um imóvel nobre.” As boas oportunidades no Brasil Mesmo com a alta dos preços dos imóveis, há também muitas boas oportunidades no Brasil. Quem comprou em 2008 tem ativos valendo muito mais do que quem não investiu em imóveis. E, regiões cujo metro quadrado valia entre R$ 2.800 e R$ 3.500 hoje está valendo R$ 6 mil ou R$ 7 mil. E mesmo quem comprou em 2010 e no começo de 2011 presenciou uma valorização. “Os imóveis subiram mais em 2010 e na virada para 2011. Acredito que agora não há mais espaço para valorização, exceto para alguns tipos específicos de imóveis, como os residenciais pequenos de alto padrão em áreas de centros econômicos e financeiros de São Paulo, devido à localização”, afirma Rodrigo Bicalho. Para quem busca oportunidades, ele sugere exatamente investir em imóveis residenciais pequenos, que têm boas perspectivas de retorno, e em logística. “Os galpões e centros de distribuição no Brasil estão muito precários,


muitos deles ainda estão localizados dentro das cidades, onde o IPTU é caro e ainda há a questão da restrição do tráfego de caminhões. Com o crescimento da economia, cada vez mais os comerciantes precisam de espaço para estoque. Muitos empreendedores estão desenvolvendo galpões individuais e condomínios de galpões, captando investimentos. E, para isso, não é preciso ser um investidor imobiliário e nem dispor de grande quantidade de capital. Uma opção são os fundos imobiliários.” Sócio da consultoria Fundo Imobiliário, Sérgio Belleza Filho explica que o grande benefício dos fundos imobiliários é a acessibilidade. Com pouco dinheiro é possível ter um imóvel alugado para a Petrobras, Banco do Brasil ou shopping center, por exemplo, cujo investidor participa com cotas. “Outra grande vantagem é a liquidez. Por melhor que seja o imóvel, não se consegue vendê-lo de uma hora para outra, há sempre um prazo para achar comprador, negociar e preparar a documentação. Já uma cota imobiliária, se for negociada em Bolsa e tiver comprador, em três dias o dinheiro está na conta”, compara. Nas palavras de Belleza, o fundo imobiliário é a convergência de dois modelos de sucesso: o mercado imobiliário e o mercado de capitais. “E essa convergência só tem histórias de sucesso. Claro que para isso o perfil dos imóveis tem um grande peso já que o fundo imobiliário é uma roupagem que traz os negócios imobiliários para dentro dele”. Além disso, ao invés do investidor ficar “amarrado” em um único imóvel e ter o aluguel para reinvestir, no caso do fundo imobiliário ele pode investir em novas cotas. Outra vantagem é que toda burocracia de venda de imóvel está suprimida quando se vende uma cota em Bolsa e, ainda, há a questão fiscal: o investidor pessoa física é isento de imposto de renda se tiver menos de 10% das cotas de um fundo que tenha mais de 50 investidores. “No ganho de capital, por exemplo, não há essa isenção. Na compra e venda de cotas com lucro a tributação é de 20%”, compara. Por todos os lados, diz Belleza, “o fundo imobiliário é melhor do que ter o próprio imóvel”. Para Rodrigo Bicalho, “ele é o futuro dos investimentos em imóveis no Brasil. O investidor se torna dono de um grande empreendimento sem

ter dor de cabeça, sem precisar entender nada do mercado imobiliário e com a vantagem de não pagar imposto de renda do aluguel. Grande parte do shopping Higienópolis é um fundo de investimento imobiliário”, cita. E os números comprovam. O ano de 2010 foi o melhor da história para os fundos imobiliários. O volume de emissões aprovadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) cresceu 185%, em comparação a 2009, totalizando mais de R$ 9,8 bilhões, em um total de 39 ofertas. Além desse volume, foram captados cerca de R$ 3,3 bilhões ao longo de 2010, de acordo com o consultor Marcelo D’Agosto, sendo que deste total cerca de R$ 2,2 bilhões foram colocados junto a 15 mil investidores pessoa física. E de um total de 25 fundos, comenta Belleza, a rentabilidade em 2010 foi de 26,87%. “Essa é uma média dos ganhos para comprou e vendeu, respectivamente no primeiro e no último dia útil do ano, na somatória do desempenho de cada cota (lucro ou prejuízo) e mais os rendimentos pagos todos os meses. Teve fundo que chegou a render 60%”, conclui. Todas as informações sobre rendimentos dos fundos de imóveis estão disponíveis no portal www.fundoimobiliário.com.br.

Sérgio Belleza Filho, sócio da consultoria Fundo Imobiliário “O fundo imobiliário é melhor do que ter o próprio imóvel”

abril/maio 2011 FINANCEIRO 33


mercadoimobiliário Por Karin Fucks

Crédito imobiliário em alta O risco é haver escassez dos recursos da caderneta de poupança

A expansão do crédito habitacional Oferta (milhões)

Participação no PIB

Fev/2011

R$ 146.369

3,9%

2010

R$ 138.778

3,8%

2009

R$ 91.862

2,9%

2008

R$ 63.268

2,1%

2007

R$ 45.852

1,7%

2006

R$ 35.689

1,5%

Ano

Fonte: Banco Central

34 FINANCEIRO abril/maio 2011

No ritmo crescente de expansão do crédito imobiliário, o risco é haver uma escassez dos recursos da caderneta de poupança, conforme explica Luiz Antonio França, presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), nesta entrevista exclusiva à Financeiro. Revista Financeiro Como vem se comportando o crescimento do crédito imobiliário? Luiz Antonio França O crédito imobiliário vem crescendo absurdamente (veja box) e os principais gatilhos são a estabilidade econômica, o baixo nível de desemprego no Brasil e o aumento da renda dos trabalhadores, percebidos claramente pela migração de pessoas entre as classes sociais. O resultado é um potencial de imóveis a ser financiado... Financeiro ...além de haver uma melhor segurança jurídica, não? França Sem dúvida! Esse é outro ingrediente importante que não tínhamos no passado. O que havia era um sistema de hipoteca em que se levavam anos para a retomada do imóvel, com pouca segurança jurídica em relação às operações de crédito imobiliário. Hoje, com a alienação fiduciária ,você consegue a retomada do bem muito rapidamente, o que é um grande avanço para a indústria, pois, para ter uma opera-

Foto: Douglas Luccena

O ano de 2010 foi o melhor da história do crédito imobiliário no País. De acordo com o Banco Central, o saldo chegou a R$ 138,7 milhões, uma alta de 51% em comparação a 2009, e mais do que o dobro de 2008, quando totalizou R$ 63,3 milhões.


imposto de renda, o que faz com que o dinheiro chegue à linha final a uma taxa bastante interessante – a uma média de mercado de TR + 10,5% ou 10,70%. Considerando uma taxa de TR de 1%, o porcentual final fica entre 11 e 12% ao ano. É mais barata que muitas taxas interbancárias. Financeiro É verdade que há um receio de escassez desse recurso? França Existe uma expectativa de que o crédito imobiliário cresça de 40 a 50% ao ano, enquanto a caderneta de poupança, que vinha crescendo a um ritmo anual de 20%, deverá crescer em um ritmo menor, de 17%. Como a principal fonte de recurso do crédito imobiliário é a caderneta de poupança, haverá um momento que ele será insuficiente para financiar todas as operações de crédito imobiliário. Vamos precisar de outra fonte.

ção em longo prazo, com spread baixo em relação a outras operações, é preciso ter uma boa garantia. Sendo assim, temos tudo o que é importante, com exceção de uma coisa: em todos os países vemos uma taxa de dois dígitos, que é o grande gatilho do crédito imobiliário no mundo todo. Financeiro Os juros altos se devem ao fato de que o principal recurso é da caderneta de poupança? França O problema de juros no Brasil não é o que o banco cobra, mas, sim, a taxa básica de juro que é alta. Os spreads nas operações de crédito imobiliário estão em níveis bem razoáveis. Existia um mito, no passado, de trabalhar com spreads baixíssimos e nós vimos o que aconteceu em vários países do mundo: spread quase zero e financiamentos de quase 100% do imóvel, resultando em crise imobiliária. Aprendemos no Brasil com os outros países e não queremos passar pelo mesmo caminho. Financeiro Então, podemos afirmar que os recursos da caderneta de poupança são baratos? França Exatamente. No cenário brasileiro, com a formação de preço para o tomador final, a caderneta de poupança representa uma fonte de recurso muito barata. Ela paga para o poupador o valor da TR + 6,17% ao ano, com isenção de

Financeiro Não seria positivo buscar novos recursos? França Se mudarmos para outro sistema é preciso ter um cuidado muito grande, porque a prestação poderá subir e esse aumento pode provocar uma descontinuidade da demanda. Quando houver a escassez do recurso da caderneta de poupança, precisaremos definir qual medida será adotada para que a prestação não mude muito de patamar. É um problema sistêmico e não de um único banco. Estamos discutindo muito essa questão com o governo. No entanto, temos uma coisa muito interessante ao nosso favor. Financeiro E qual seria esse ponto a favor? França O crédito imobiliário é concedido por 30 anos e o prazo médio de pagamento das prestações é em torno de oito anos. Isso significa que o tomador poderia permanecer com prestações a prazos mais longos, mesmo que eles aumentassem e com uma dívida que continuaria cabendo no seu bolso. Financeiro Além disso, a possibilidade de financiar 80% do imóvel também foi um facilitador? França Sem dúvida! Isso não existia antes e hoje há também muita rapidez na concessão de crédito. Se formos ver, dois terços dos imóveis financiados são usados. Portanto o financiamento bancário também fez com que a indústria de imóveis usados tivesse um grande crescimento. abril/maio 2011 FINANCEIRO 35


vidapessoal

Por Karin Fuchs

Uma vida,

Do interior de Pernambuco, na pequena Sanharรณ, Elder Aquino, executivo da KPMG, leva para o mundo as histรณrias da juventude em seu primeiro livro publicado

uma obra 36 FINANCEIRO abril/maio 2011


Foto: Douglas Luccena

Para muitos de nós, as brincadeiras e a inocência da infância podem ser apenas lembranças de um passado que vira e mexe nos trazem recordações e saudades de um tempo que ficou para trás. Mas para Elder Aquino, sócio-diretor da KPMG no Brasil na área de FRM (Financial Risk Management), as recordações ficaram mais vivas do que nunca. Elas estão em seu primeiro livro publicado, “Miolo de Pote – Sanharó em Versos & Prosas”, publicado pela editora All Print. E esse é só o começo… Natural da pequena cidade de Sanharó, no interior de Pernambuco, distante 210 quilômetros da capital, Aquino explica que “miolo de pote” é uma expressão regional que significa conversa-fiada, assuntos aleatórios, papo furado, entre outras traduções similares. Mas de conversa mole o livro não tem nada. É um retrato explícito do dia a dia do povo sanharoense, do seu cotidiano, as festas, os bares e o futebol, contados em narrativa recheada de poesias e letras de músicas. Afinal, Aquino é também um artista que compõe e cria melodias desde os 15 anos de idade, quando aprendeu e ensinou os seus quatro irmãos a tocarem violão que, assim como ele, também capricham em versos e prosas. Apesar de ter deixado a cidade, na época com cerca de dez mil habitantes, com 14 anos de idade para se dedicar aos estudos – passou três anos em um colégio agrícola, em sistema de internato, na cidade vizinha Belo Jardim e, posteriormente, foi para Recife –, Aquino nunca deixou Sanharó para trás. “Nunca me esqueci do meu pedaço de chão e sempre voltei com bastante frequência, pois é lá que construí grandes amizades que perduram para a vida toda”, diz. E não só amigos, os seus irmãos continuaram na cidade ou em Recife. “Eu fui o único aventureiro”, brinca Aquino, que encontrou seu primeiro emprego em Recife, no Banco Banorte, e, depois, em 1994, mudou-se com a esposa para São Paulo. E nessas idas e vindas de Sanharó, ele sempre participou dos movimentos culturais da cidade, o que inclui na bagagem dois festivais em Recife para disseminar a cultura sanharoense, com a participação de mais de duas mil pessoas. Foi em uma dessas ocasiões que surgiu a ideia de reunir todos os versos e prosas, e as histórias da cidade em um único documento. Nascia assim o rascunho de seu primeiro livro. “Eu tinha bastante material que guardei

desde a década de 1970, de músicas e poesias que fizemos (eu e meus irmãos), muitas delas em homenagem a Sanharó. A ideia se propagou e eu fiquei com a incumbência de reunir tudo em um livro. Mas demorou um pouco para sair do papel”, confessa. Ideia propagada e cobrada, muito por parte do amigo Paulinho Muniz, do blog Oabelhudo, que já publicava na rede social as histórias, as poesias e os causos do povo sanharoense, incluindo as dos irmãos Aquino, Elder não teve escapatória. Deu-se início, então, à sua primeira obra literária. Do rascunho à concretização Administrando trabalho e família, em madrugadas à frente do computador, foram oito meses até “Miolo de Pote, Sanharó em Versos & Prosas” ficar pronto, com muitas recordações que vieram à tona da memória. “As que dão mais saudades são as da juventude, de uma época em que as crianças da minha cidade só queriam brincar. Não tínhamos muitos recursos, o que era o mais gostoso, pois aflorava a criatividade e a rua era um parque de diversão para todos nós”, recorda. Entre tantos materiais escritos à mão e também na antiga máquina de escrever Olivetti, muitos dos quais seus irmãos nem se lembravam mais, Aquino conseguiu envolver a família nesse projeto pessoal. “Minha esposa e meu filho liam as páginas prontas, faziam comentários, revisavam e opinavam como leitores. Esse processo foi muito interessante, pois tive um contraponto de qual seria a reação as pessoas ao lerem o livro.” Leitores que Elder Aquino nem imaginava. O lançamento do livro, no final do ano passado, claro, em Sanharó, reuniu mais de 400 pessoas, entre autoridades locais, representantes das academias de letras das cidades vizinhas de Pesqueira e Belo Jardim, e os moradores de Sanharó. Desde então, a repercussão foi e continua grande. “O livro era muito importante para mim e para a minha família no resgate da história. Eu não tinha a percepção do quanto ele seria importante para as pessoas da cidade. Elas se identificaram com o livro e, até hoje, falam muito dele, inclusive recebo vários e-mails”. E não só e-mails, Aquino já recebeu o convite para integrar a Academia Belojardinense de Letras e Artes. abril/maio 2011 FINANCEIRO 37


vidapessoal

O resgate da própria história Em meio às histórias resgatadas para a produção da obra, a própria vida de Elder Aquino por si só já é um sucesso. Menino pobre do interior de Pernambuco, ele construiu uma carreira de sucesso, com muita dedicação e iniciativa própria. Foi dele, por exemplo, a iniciativa de criar uma área específica de gestão de risco de mercado no Banorte, em 1993, uma novidade para a época, em um momento em que os primeiros produtos derivativos ainda estavam chegando ao Brasil. “Naquela época, ninguém tinha muita noção de gestão de risco. Eu estava fazendo um trabalho de auditoria em São Paulo pelo Banorte, recomendei a criação da área e levei a ideia ao Recife. Eles concordaram e me transferiram para São Paulo para implantá-la”. Com menos de dois anos de casado, ele se mudou para a capital paulista e começou uma vida nova que, hoje, já totaliza mais de 30 anos em conglomerados financeiros, entre eles os bancos Banorte, Bandeirantes, Unibanco, Itaú Unibanco e, mais recentemente, a KPMG, onde está há pouco menos de um ano. Ele também foi diretor setorial da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). E como bem disse Euclides da Cunha em sua obra “Os Sertões”, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, frase que se enquadra perfeitamente para Elder Aquino. “Vivenciei muitas mudanças em minha vida. Não foi fácil sair do interior de Pernambuco, onde o centro mais evoluído era Recife. Fui para a capital sem muitos recursos, vivendo em casa de estudantes, onde cada dia era um dia de sobrevivência e não sabia como seria o próximo. Assim como também foi difícil vir para São Paulo, uma mudança muito repentina. Mas eu sempre gostei de desafios e de fazer acontecer coisas diferentes”. Tanto é que idealizou, desenhou e implantou, juntamente com a Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeira, a Fipecafi, o MBA em auditoria interna, no qual também é professor. Mudanças que, no fim das contas, valeram muito a pena. “Construí uma carreira interessante, diversificada de conhecimento e, inclusive, de uma evolução muito rápida, com uma formação acadêmica diferenciada. Hoje, estou realizado e muito feliz na vida pessoal e na profissional”. E esse é só o começo… Aquino já prepara o seu segundo livro. 38 FINANCEIRO abril/maio 2011

Casos e causos Intitulado “Miolo de Pote, Sanharó em Casos e Causos”, Aquino abordará histórias pitorescas que ele mesmo está resgatando juntos aos amigos e familiares de sua cidade natal e, assim como o primeiro livro, o objetivo é finalizá-lo em oito meses. A produção já começou, mas, antes disso, o seu irmão caçula lançará ainda neste semestre o seu primeiro romance. Como dito anteriormente, a família Aquino tem sangue artístico. E Sanharó agradece. Da experiência de escritor para a vida profissional, Elder Aquino compara que em ambas o que se destaca é a importância das pessoas na vida da gente. “Os relacionamentos precisam ser criados para não durarem apenas um período de tempo, mas para que sejam cultivados permanentemente. É dos relacionamentos que saem os negócios e as amizades. É fundamental considerar as pessoas como parte de nossas próprias vidas”, ensina. Pessoas que ele jamais esqueceu estão presentes no seu dia a dia e, em cada capítulo, nos versos e prosas, e nas fotos que ilustram seu primeiro livro. Para muitos, relembrar a infância e a juventude é saudosismo. Para Elder é reviver a própria história. E que venham ainda muitas histórias para ele nos contar!

Em palavras Pessoas que ele jamais esqueceu estão presentes em cada capítulo e nas fotos que ilustram seu livro


artigovarejoestratégico

Tendência

de desaceleração das vendas As vendas do varejo apresentaram desempenho bastante positivo no primeiro trimestre do ano, mas a tendência para os próximos meses deve ser de desaceleração do movimento, embora ainda devam continuar crescendo nos próximos Por Marcel Domingos Solimeo meses. As consultas ao SCPC/BVS, que servem de indicador do movimento do varejo, apresentaram aumento de 7,3% no acumulado dos primeiros três meses de 2011, comparados com igual período do ano anterior, porcentual que pode ser considerado elevado tendo em vista que a base de comparação é bastante forte. Revela, no entanto, desaceleração em relação ao resultado de 2010, com expressivo crescimento acima da casa dos 10%, alavancado pelo crédito ainda fácil e pelo aumento significativo de emprego e da renda. Também a queda de preços de produtos importados, especialmente eletro e eletrônicos, contribui para esse desempenho. O impacto das medidas adotadas pelo Banco Central, como a elevação do compulsório, o encarecimento dos financiamentos de prazos mais longos e os aumentos da taxa Selic, têm se feito sentir gradativamente, mas deve se intensificar com nova alta

dos juros e com a obrigatoriedade de pagamento de 15% da fatura do cartão de crédito. Não se pode descartar que novas restrições sejam impostas aos financiamentos, pois o presidente do BC afirmou que a expansão do crédito deve se limitar a 15% neste ano, o que implicaria a necessidade de medidas adicionais por parte das autoridades monetárias. A inadimplência observada no trimestre, de 7%, se situou acima da observada em igual período de 2010, 6,4%, mas abaixo da registrada em 2009, 8,2%, estando em patamar que exige cautela, mas que ainda se mantém sob controle. Pode-se esperar para o restante do ano alguma desaceleração do ritmo de vendas do varejo, bem como da economia como um todo, mas com taxa de crescimento na casa dos 6% para o comércio, e da ordem de 4% para o PIB. Espera-se, também, que o emprego e a renda continuem a crescer, mesmo que de forma mais lenta do que em 2010, o que permitiria manter a inadimplência relativamente estabilizada. Marcel Domingos Solimeo é superintendente institucional e economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) abril/maio 2011 FINANCEIRO 39


educaçãofinanceira

Crédito sustentável Com 21% do mercado de crédito direto ao consumidor, a Losango, financeira do Grupo HSBC Brasil, treina lojistas para ensinarem os clientes a comprar de maneira consciente. A meta é atingir 20 mil vendedores até o final do ano

Foto: Divulgação / iStockphoto

Por Juliana Jadon


O cliente adentrou a loja disposto a adquirir um fogão de seis bocas, com válvula corta-gás (sistema que bloqueia a liberação do conteúdo quando não há panela ao fogo), e outras diversas funcionalidades. Seria um presente para a esposa, pago no carnê, em 12 vezes. Mas o vendedor o convenceu a adquirir um mais barato, com duas bocas a menos, que também atenderia às suas necessidades. O instrumento financeiro escolhido para o pagamento foi o mesmo (carnê). Porém ele irá quitar a aquisição em oito vezes, com parcelas que cabem com folga no bolso e não comprometem mais do que 15% do seu orçamento mensal. Esse vendedor fez o curso on-line de treinamento para lojistas criado pela Losango, promotora de vendas do Grupo HSBC Brasil, e colocou em prática o que nele aprendeu. Ele ouviu o cliente e o conheceu a fundo antes de lhe vender algo. Não importa vender o mais caro, mas, sim, o mais adequado. Cerca de 7,5 mil funcionários da cadeia de lojistas parceiros da instituição já foram treinados pelo programa de e-learning. Até o final do primeiro trimestre do ano serão dez mil capacitados e a meta para 2011 é atingir cerca de 20 mil vendedores. A iniciativa faz parte do “Programa de crédito sustentável”, criado pela Losango em 2009, com o objetivo de treinar os funcionários dos lojistas parceiros de todo Brasil. Mais de 2,5 mil colaboradores dos varejistas participaram do ensino presencial que, em 2010, passou para o ambiente virtual. O objetivo com esse módulo é o de aumentar o público mais rapidamente. Hilgo Gonçalves, presidente da Losango, conta que a inspiração para o projeto surgiu ao ver um Brasil que cresce com a mobilização social das classes emergentes, o aumento da oferta de crédito e da confiança do consumidor e mais uma enxurrada de boas notícias, mesmo após o período de

turbulência econômica internacional em 2008. “O País estimula o aumento de confiança do consumidor e o crédito farto. Nesse ambiente, em que há toda essa euforia, é preciso educar o consumidor”, considera o gestor. Com duração de 30 minutos, o curso busca, como no exemplo citado no início desta matéria, auxiliar o vendedor a analisar se o valor parcelado é adequado para os ganhos mensais do cliente, bem como as formas de pagamento mais apropriadas. O vendedor passa também a “investigar” se o produto que o cliente almeja realmente é o que mais se encaixa no perfil. Questões-chave como “qual o melhor dia para o vencimento da prestação?”, “quanto da sua renda mensal está comprometida?” ou “quantas pessoas fazem parte da sua família?” ajudam nessa avaliação. De acordo com a Losango, a compra de um bem, mesmo que considerado essencial, não pode comprometer mais do que 30% da renda de uma pessoa. Isso geralmente evita atrasos nas faturas. Gonçalves lembra

Dica “Tenho o maior prazer em mostrar o nosso projeto voltado ao crédito sustentável. Nele, o fator mais importante é alertar o consumidor para a compra consciente. Estimular cada vez mais os parceiros e lojistas a conhecer e ouvir o seu cliente. Treinar as pessoas que lidam com o consumidor é muito simples. Isso é bom para a Losango e para os concorrentes. Se o cliente está motivado e querendo consumir, é importante que levemos uma cultura de compra saudável. Quando se compra de maneira consciente não há endividamento. O vendedor não deve pensar no cliente só na hora em que faz a aquisição. Deve pensar que a cada R$ 10 que ele economizar, serão R$ 10 a mais no bolso para gastar”, ensina Hilgo Gonçalves.

abril/maio 2011 FINANCEIRO 41


educaçãofinanceira

Bolso saudável Lojistas aprendem a educar o cliente em 30 minutos

que o juro mais caro é o de mora, cobrado quando o pagamento não é efetuado no mesmo mês da cobrança. “A ideia é que esse treinamento proporcione benefícios para toda a cadeia envolvida, pois as vendas serão feitas com mais qualidade. Isso pode contribuir para a redução do índice de inadimplência, por exemplo, e gerar a continuidade dos negócios”, avalia Hilgo. A Losango atua em 2,6 mil municípios e possui mais de 23 mil lojistas credenciados, que englobam um universo de 40 mil vendedores. Hilgo Gonçalves, da Losango “O País estimula o aumento de confiança do consumidor e o crédito farto. Nesse ambiente, em que há toda essa euforia, é preciso educar o consumidor”

Propagação A ferramenta de ensino é divulgada pelos consultores da empresa, que visitam diariamente os lojistas para tirar dúvidas e acompanhar o andamento dos negócios da companhia e, para que a ação dê certo, todos devem colaborar. A primeira pessoa a aceitar deve ser o comerciante. O passo seguinte é falar com o vendedor.

42 FINANCEIRO abril/maio 2011

O e-learning também é promovido por meio do sistema on-line Credinet. É nele que, em dez segundos, os lojistas obtêm a resposta do crédito, seja ela positiva ou negativa. “No varejo é preciso construir coisas simples. O cliente se sente, assim, mais seguro ao fazer a compra”, avalia Gonçalves. Este ano, a Losango completa 40 anos. Em 2011, a expectativa é crescer em 20% na origem dos negócios da companhia. Já o programa de educação financeira deve atingir cerca de 35 mil vendedores até o final de 2012. Eles vão disseminar o consumo “saudável” para o bolso, entre clientes, outros lojistas, familiares e quem estiver disposto a escutar. “Nós queremos ser uma das melhores empresas para o cliente optar. O nível de inadimplência sempre esteve controlado. Mas sabemos que podemos melhorar e, por isso, investimos nesse trabalho com os lojistas. Esse é um ciclo virtuoso para toda a cadeia envolvida”, finaliza o executivo. f


artigotecnologia

Digitalização no segmento financeiro:

crédito ágil e seguro

Nos mais variados ambientes, a tecnologia está presente no dia a dia. Pela internet, compramos, investimos, pagamos contas, contratamos variados serviços, nos relacionamos, acessamos informações etc. Quando entramos no ambiente corporativo e no segmento financeiro, o peso da tecnologia torna-se ainda mais essencial. Cada vez mais os documentos eletrônicos ganham espaço, não só pela agilidade que traz para todo o sistema, como também por benefícios Por Diego Torres Martins adicionais, como combate e inibição às fraudes. Entre todos os processos e atividades das instituições financeiras, as operações de crédito estão entre as principais relacionadas ao core business dessas entidades. Avaliar o perfil do cliente, receber e analisar documentos, formalizar o processo e liberar os recursos estão no cerne das preocupações dos bancos. Em 2010, segundo dados do Banco Central, as operações de crédito para pessoa física e jurídica somaram R$ 880,080 bilhões. Somente para pessoa física foram R$ 417,347 bilhões. Entre as principais modalidades para pessoa física, destacam-se as operações de crédito pessoal. Sozinhas, essas transações responderam por R$ 204,890 bilhões em volume de crédito. Em segundo lugar, fica o financiamento de veículos, com R$ 140,339 bilhões. O cartão de crédito está na terceira posição, com R$ 29,170 bilhões, seguido pelo cheque especial (R$ 16,262 bilhões), aquisição de outros bens (R$ 10,354 bilhões) e financiamento imobiliário (R$ 7,358 bilhões). Nos processos de concessão, para confirmar a veracidade das informações, as instituições solicitam uma série de documentos. Ter acesso a todos esses dados é necessário, porém demanda tempo e investimentos. As análises de crédito, na maioria das instituições, são realizadas por uma central e assim o processo se torna caro e demorado. De modo geral, ressalto os gastos com cópias, transporte, pessoal e arquivo.

Como questões como segurança e agilidade sempre estiveram entre as principais preocupações das instituições financeiras, buscar formas de agilizar esse processo e reduzir custos, sem abrir mão da segurança necessária, estão entre os grandes desafios das instituições. Com o crescimento econômico brasileiro, aumento do poder de aquisição da classe média e crescimento das classes C e D, o acesso ao crédito é gradualmente facilitado, o que demanda mais equipe e investimentos para tornar o processo eficiente. Nesse contexto, os investimentos em tecnologia chegam para solucionar dilemas como morosidade, custos com transporte, além do grande volume de arquivos. A digitalização de documentos aparece como uma das alternativas promissoras e eficientes para tornar o processo de análise e concessão de crédito mais rápido e seguro, contribuindo também às questões de sustentabilidade e preservação do meio ambiente. A digitalização de documentos pode reduzir desde os gastos com as cópias físicas, como com o transporte e o armazenamento físico dos documentos. Ou seja, poupa-se tempo e dinheiro (e muito dinheiro). Sem dúvida, a digitalização de documentos chegou para redefinir as operações financeiras, resultando em benefícios às instituições e aos clientes, com o aumento de segurança, agilidade e facilitações operacionais. Como toda mudança de cultura, adotar a digitalização em um dos processos que está diretamente relacionado ao core business das instituições financeiras é um processo lento. Porém os paradigmas já começaram a ser quebrados. Algumas instituições já saíram na frente. Agora, é acompanhar a evolução e os próximos capítulos dessa trajetória. f Diego Torres Martins é presidente da Acesso Digital, empresa que visa à popularização da digitalização de documentos no Brasil abril/maio 2011 FINANCEIRO 43


fraudemercantil

Por Juliana Jadon

Acrefi e Serasa Experian debatem fraude mercantil

Como

Da mesma maneira que em uma mágica bem elaborada um lenço pode ser transformado em um ovo – mesmo diante dos mais céticos –, a fraude mercantil também passa despercebida aos olhos de muitos profissionais experientes do mercado financeiro. O desafio de bancos e financeiras, assim como na mágica, é descobrir o

Economia japonesa O Japão sofreu recentemente um forte terremoto seguido de tsunami. Agora, a terceira maior economia mundial parece cheia de incertezas. No final do encontro, o economista-chefe da Acrefi, Nicola Tingas, fez uma breve análise sobre a economia japonesa respondendo aos questionamentos dos participantes. No Japão, 12% do nível de importação/exportação é vinculado à Ásia. Para Tingas, sob o ponto de vista do mercado de capitais, a catástrofe ambiental só afetará o próprio país. Os japoneses investem, em geral, em títulos do governo americano e em fundos europeus. Fora isso, os japoneses terão recursos do próprio Tesouro japonês e de outras fontes de recursos baratas para financiar a reconstrução do país. Para ele, a dinâmica da confederação mundial não se define pelo Oriente Médio

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que está por trás do truque. Somente no ano passado, o prejuízo causado por empresas fraudadoras no Brasil ao setor financeiro somou R$ 233 milhões, segundo a Serasa Experian. Para debater o assunto e alertar o setor, a Acrefi (Associação das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento), em parceria com a Serasa Experian, realizou o “Fórum sobre fraude mercantil” e colocou o mágico Ricardo Malerbi para fazer uma apresentação lúdica sobre o tema. Nas falas do artista, “a mágica e a fraude possuem naturezas semelhantes. Trata-se de coisas ocultas, que desviam a lógica, em que uma informação possui mais do que se pode ver”, diz ele. “Os fraudadores estão sempre um passo à frente. Todo o esforço é pouco. A ação individual é praticamente inútil”, continua. Malerbi revelou a mágica da transformação citada no início desta matéria. O ovo, feito de gesso por ele mesmo, possuía um buraco no meio, onde foi inserido o lenço sem que a plateia notasse. O objeto estava du-

Foto: iStockphoto Douglas Luccena

mágica


rante todo o tempo escondido em uma de suas mãos. “O mais interessante é o mecanismo que foi utilizado. Agora que vocês já sabem, não parece mais surpreendente”, comenta ele. Para tornar a apresentação mais instigante, continuou o truque sem contar mais segredos, brincando que seria preciso de uma atualização antifraude para desvendá-lo. Ricardo Loureiro, presidente da Serasa Experian e da Experian América Latina, falou sobre boas perspectivas para o setor de crédito no País. Segundo ele, o montante do crédito em relação ao PIB – hoje estimado em 46,5% pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) –, deverá seguir em ritmo de crescimento ao longo do ano. Para falar do tema do encontro, Loureiro coloca que o Cadastro Positivo (mais sobre o tema em matéria nesta edição) irá ajudar muito no combate à fraude, gerando a possibilidade de o sistema financeiro melhorar o direcionamento dos recursos destinados a esse embate. “Se por um lado há crédito farto, por outro há a ameaça da fraude. Na experiência global da Experian, a Inglaterra é o país que trabalha melhor essa questão”, aponta o executivo.

45% do total das fraudes provocadas ao setor financeiro ocorreu no Sudeste Loureiro citou o trabalho da Acrefi, que em uma parceria com a Serasa Experian, fornece as informações da sua “Base de inconsistência” de pessoa física. “Quanto mais estreitarmos os laços de relacionamento em todos os níveis, melhor será para todo mundo. Devemos buscar o famoso ‘ganha-ganha’. Há o risco imponderável da fraude”, avalia o presidente da Acrefi, Érico Sodré Quirino Ferreira. Na ocasião, Ferreira lembrou da fraude monstruosa descoberta no banco Panamericano, com um rombo financeiro de cerca R$ 4 bilhões. A instituição, aponta ele, possuía R$ 1,5 bilhão em patrimônio líquido, e chegou a ser fraudada em quase três vezes esse valor. “É quase inacreditável que possa ocorrer uma fraude desse tamanho. Um acontecimento como esse afeta a credibilidade de todo o sistema financeiro e de todo o banqueiro. Se um fez e conseguiu enganar durante tanto tempo por quê o outro não pode fazer também? Estamos aqui para

Ricardo Loureiro, presidente da Serasa Experian e da Experian América Latina, aponta que o crédito no Brasil continuará a crescer


fraudemercantil

identificar esse grande enigma. É no detalhe que está o sucesso de evitarmos a fraude”, alerta. O futuro do investidor é agora Para um trader, o futuro é amanhã. Para um assalariado ou locador de imóveis, é daqui a um mês. Para um investidor de Certificado de Depósito Bancário (CDB) é dentro de seis meses ou um ano. Já um emÉrico Sodré Quirino Ferreira, presidente da Acrefi “Quanto mais estreitarmos os laços de relacionamento em todos os níveis, melhor será para todo mundo”

presário deve esperar 12 meses para saber se investimentos feitos hoje na empresa gerarão bons resultados. Nesse contexto, como pensar em não ter fraude? “Estamos entrando numa fase em que tudo é economia de escala. O futuro está presente hoje e devemos prepará-lo para não sermos reféns desse processo”, ressalta Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi, que efetuou a palestra “Investindo para o futuro – transparência e eficiência na agenda de investimentos”. Atualmente, o PIB potencial (taxa de crescimento do PIB sem que problemas afetem o seu resultado) está entre 4 e 4,5% no Brasil. Tingas ressalta que para o PIB potencial aumentar será preciso elevar também os bens de capital e a atual capacidade produtiva da economia. “É preciso investir em produtividade, tecnologia e inovação. Esses são, em resumo, os fatores que alavancam o investimento. Investir numa economia de qualidade é combater a fraude ao longo do tempo. Se adotarmos medidas contra fraudes, temos de ensinar desde o cliente até a cadeia de fornecedores o que essas medidas combatem.” Essa reação em cadeia exigirá, cada vez mais, profissionais qualificados para atuar nas indústrias. Um dos importantes instrumentos para ajudar a economia do País a engordar de maneira saudável é a educação financeira. E, segundo Tingas, o conceito deve ser inserido no sentido de ensinar a população a fazer um planejamento familiar. Este é um momento em que o mundo olha para o País e quer nele investir. “É preciso destinar o capital abundante que há no Brasil à educação. Estamos incorporando uma parcela da sociedade que possui baixa escolaridade. A chave de tudo basicamente é o ensino de qualidade. Só assim podemos pensar em crescer 7 ou 8% de maneira sustentável”, considera.

R$ 233 milhões foi o prejuízo causado por empresas fraudadoras no Brasil, em 2010


Ricardo Malerbi, mágico “Os fraudadores estão sempre um passo à frente. Com eles, todo o esforço é pouco”

Para Tingas, o Brasil deve seguir o exemplo de economias como a chinesa, que hoje alavanca o povo e cria oportunidades, e a indiana, que investiu em educação e criou um polo tecnológico. Fraude globalizada Lavagem de dinheiro, clonagem de cartões de crédito, transferência para contas desconhecidas ou ainda golpe de empresas laranjas. O esquema fraudulento não é algo que faz parte somente das histórias que se passam e ameaçam bancos e financeiras no Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 40% das reclamações nos órgãos de defesa do consumidor referem-se às fraudes com roubo de identidade. O país perde entre US$ 300 milhões e US$ 400 milhões anuais com os golpes. “Não se trata de uma questão de povo ou cultura. A fraude é um fenômeno econômico como qualquer outro”, analisa o consultor e especialista em combate à fraude, Lorenzo Parodi. O alarmante é que no Brasil é fácil falsificar um documento. O caso mais comum é o da simples troca da foto. E ainda, cerca de 70% das fraudes com documentos são feitas com documentos roubados, sem ser preciso falsificá-los. O roubo de identidade, explica Parodi, está presente em quase todas as fraudes. Para piorar a situação, portais na internet vendem documentos falsos vindos de diversos países e perfis de pessoas. Um kit com carteira de habilitação, CPF e RG falsificados varia entre R$ 200 e R$ 400. Com dados

coletados na própria web, via o preenchimento de cadastros por internautas leigos, que facilmente fornecem informações pessoais, os documentos são criados. “Todas as informações necessárias para se criar um RG falso estão na internet”, valida. No conto do vigário eletrônico, os fraudadores criam armadilhas. As mais comuns de se encontrar, conta Parodi, são promoções que inexistem e solicitam diversas informações ou ainda a criação de falsos portais de bancos. “No mercado de crédito, mais de 90% das fraudes têm como base um documento falso. Existem quadrilhas organizadas para aplicar esse tipo de golpe”, aponta o especialista. Um passo importante do governo no combate à fraude é a criação do novo RG. O projeto piloto começou

Classificação da fraude mercantil Fraude mercantil é a perda provocada ao sistema financeiro por empresas que desaparecem sem deixar rastros. O esquema consiste em criar ou adquirir uma empresa, – às vezes inativa – comprar produtos a prazo e depois vendê-los Arara Empresa criada com o intuito de aplicar uma fraude Arara nova Empresa que opera desde o início com documentos falsos. Trabalham por meses fazendo tudo certo, operando normalmente, pagando contas e ganhando boa reputação no mercado até que, em determinado momento, quando conquistam credibilidade, obtêm todo o crédito que podem e desaparecem Arara antiga Uso de instituição que possui um histórico exemplar para comprar tudo o que se pode a prazo e, em seguida, sumir. Muitas vezes é um sócio que entra recentemente na companhia quem aplica o golpe

abril/maio 2011 FINANCEIRO 47


fraudemercantil

Como se precaver? • Verificar o histórico de atuação de todo o quadro societário e não só o da empresa • Trocar informações com o mercado • Nunca vender sem informações cadastrais completas • Prestar atenção em qualquer tipo de alteração contratual (mudança de endereço, por exemplo) • Verificar quais são as referências e se são confiáveis • Suspeitar do aumento repentino e sistemático no volume de negócios • Comunicar suspeitas aos órgãos de proteção ao crédito

a ser implantado este ano e deverá substituir o utilizado atualmente até 2019. O novo RG vai unir em um mesmo cartão os números do RG, CPF e o do título do eleitor, além de um chip com diversas informações do portador do documento. Sua segurança deverá ser semelhante a de um cartão de crédito chipado, impossível de ser clonado. O problema afeta também os cartões de crédito. O mercado de cartões é visto pelos bandidos como uma grande oportunidade. Somente em 2011, o setor deverá movimentar R$ 642 bilhões, sendo o Brasil o único mercado de plásticos que cresce cerca de 20% ao ano.

A clonagem desses produtos pode ocorrer desde antes da entrega até quando é passado em uma leitora em um posto de gasolina para o pagamento do combustível, por exemplo. Uma leitora falsificada copia seus principais dados. Como no caso dos documentos, cartões clonados também são ofertados por meio da web. Em alta Lorenzo Parodi aponta ainda que há sinais fortes do aumento da atuação do crime em fraudes no setor financeiro. A Serasa Experian possui 17 mil empresas como alerta em seu banco de dados. Em 2010, 4.953 empresas foram detectadas pela companhia com alto risco de causar algum tipo de fraude. Um dos fatores agravantes é que estelionato e falsidade ideológica são considerados crimes de baixa periculosidade e, por isso, normalmente os fraudadores não passam mais de um ano na cadeia. Quando são soltos, alerta Parodi, normalmente retornam a praticar o mesmo tipo de golpe. De janeiro a dezembro de 2010, a companhia de análise de risco suspeitou que 14.641 empresas tinham Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi “Estamos entrando em uma fase em que tudo é economia de escala. O futuro está presente hoje e devemos prepará-lo para não ser refém desse processo”


Laércio de Oliveira Pinto, presidente das unidades de negócios da Serasa Experian “Para combatermos a fraude, precisamos nos unir e o compartilhamento de informações é muito importante. A perda de fraude é um prejuízo direto que não há como recuperar”

perfil de fraude. Dessas, 34% eram, de fato, fraudadoras. O valor médio da fraude causada por cada uma delas é de R$ 47 mil. Cerca de 45% do total das fraudes provocadas ao setor financeiro ocorrem no Sudeste. Em segundo lugar está a região Sul, com 21%. Um fenômeno em forte crescimento, revela o consultor, é o “aluguel de empresas”. O golpista entra como sócio de uma companhia com credibilidade e anos de mercado. Às vezes, esse mesmo membro possui uma rede de outras empresas. “O mercado normalmente monitora uma empresa que não estava ativa, passou a operar e teve um crescimento expressivo, mas esquece de olhar as movimentações societárias. O comportamento corporativo deles, normalmente, é compatível com o histórico comprovado”, alerta. Se fosse feita uma avaliação do comportamento de todo quadro societário, cerca de 30% das perdas provocadas por fraude poderiam ter sido evitadas, estima a Serasa. “Uma vez que um CPF é sujo, para ser limpo novamente precisa pagar todas as dívidas pendentes”, coloca Adriana Gondim, gerente de produto soluções antifraude para pessoa jurídica da Serasa Experian, ao apresentar os resultados de pesquisa recente.

O levantamento revela que a adoção de soluções antifraude conseguiria aumentar em até 65% a detecção de tentativas de golpes envolvendo consumidores no segmento de financiamento de veículos no Brasil, por exemplo. Isso reduziria as perdas em R$ 290 milhões por ano, valor esse que pode chegar a R$ 380 milhões se as informações forem compartilhadas entre as instituições do segmento.

R$ 47 mil é o valor médio da fraude gerada por empresas, segundo a Serasa Experian Em geral, os modelos de fraude são descobertos em um curto prazo (de três a seis meses). “Descobrimos com pesquisas que as empresas que não possuem informações na Serasa aumentam em 12% o risco de fraude”, aponta Karina Angélica da Silveira, analista de modelos antifraude e projetos da Serasa Experian. “Para combatermos a fraude, precisamos nos unir e o compartilhamento de informações é muito importante. A perda de fraude é um prejuízo direto que não há como recuperar”, finaliza o presidente das unidades de negócios da Serasa Experian, Laércio de Oliveira Pinto. f abril/maio 2011 FINANCEIRO 49


cadastropositivo

Por Juliana Jadon

Informações necessárias Mercado ainda deve trabalhar para que o banco de dados com informações positivas sobre os “bons pagadores” funcione em sua plenitude 50 FINANCEIRO abril/maio 2011


Fotos: iStockphoto/Douglas Luccena

Queda de inadimplência e do spread bancário (diferença entre a Cadastro Positivo esse será o tempo mínimo. “O Cadastro taxa de captação de recursos e a de aplicação das Positivo ajudará o mercado financeiro a saber quais riscos instituições financeiras), inserção da população in- valem a pena assumir. O voo nos processos financeiros ainformal no sistema financeiro, menor taxa de juros aos que da é muito cego”, assinala Loureiro. pagam suas contas em dia, maior acesso ao crédito, entre outros fatores, é o que o mercado espera como efeitos do Em vigor Cadastro Positivo – banco de dados com informações O projeto de lei (PLS 263/04), que cria o Cadastro dos “bons pagadores” – na economia brasileira. Positivo apresentado pelo senador Rodolfo Tourinho Mas para que todo esse enxame de positividade nos sistemas de proteção ao crédito, foi vetado integralocorra, bancos, financeiras e empresas de proteção ao mente por Luiz Inácio Lula da Silva, em 31 de dezembro, crédito precisam alimentar esse banco de dados com as num dos seus últimos atos como presidente da Repúbliinformações da população. A inserção deve ser aprovada, ca. A matéria, aprovada pelas duas casas do Congresso mediante assinatura, pelo próprio consumidor. “Essa não Nacional, passou a ser regulada por uma Medida Proé uma tarefa pequena. É um projeto de fôlego que deve visória (MP 518/10). levar em conta os cuidados com o consumidor. Quando A MP também prevê que os prestadores de serviesse trabalho começar, surtirá um efeito dominó”, expõe o ços continuados de água, esgoto, eletricidade, gás e tepresidente da Serasa Experian, Ricardo Loureiro. lecomunicações poderão fornecer ao banco de dados Denísio Liberato, professor da faculdade de economia da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), aponta que todo o setor precisa cooperar no sentido de enviar as informações para o banco de dados. “Cada instituição financeira possui o seu próprio birô de informações, mas o sistema financeiro inteiro não sabe se esse cliente paga o cartão de crédito em dia no banco concorrente, por exemplo. Nesse sentido, é preciso criar mecanismos que reduzam a assimetria de informações”, coloca. Renato Pasqualin, consultor da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), acha que os bancos e órgãos de proteção ao crédito vão criar estratégias para que isso seja feito rapidamente. “As assinaturas serão colhidas nas novas operações realizadas, como na abertura de conta corrente e concessão de crédito”, exemplifica. “É muito importante que haja uma mobilização das financeiras e há um forte engajamento do presidente da Acrefi, Érico Ferreira, nesse sentido”, complementa Loureiro. Assim, o primeiro impacto favorável na etapa inicial será a redução da assimetria de informações. O setor financeiro vai deixar de ver os clientes, principalmente Para Renato Pasqualin, da Febraban, bancos os informais, de olhos vendados. Para Liberato, essa e órgãos de proteção atualização levará, no máximo, seis meses para ocor- ao crédito criarão estratégias rer. Já Loureiro acredita que para o sistema financei- para coletar rapidamente ro poder usufruir da melhor maneira possível do as informações abril/maio 2011 FINANCEIRO 51


cadastropositivo

informações sobre o cumprimento das obrigações financeiras do cadastrado, desde que autorizados pelo consumidor. O registro sobre o serviço de telefonia móvel, no entanto, é vedado pela MP. Renato Pasqualin julga a Medida Provisória um bom caminho, embora ainda falte uma regulamentação sobre como o Banco Central vai autorizar a transferência de informações para o mercado financeiro. Para ele, algo que ainda não ficou muito claro é a responsabilidade para quem fornece os dados. No entanto, a Medida Provisória será novamente discutida no Congresso Nacional. “O perigo é que essa Medida Provisória, ao se transformar em lei, perca as suas principais funções e características”, alerta o executivo da Febraban. Perspectivas Boas expectativas não faltam com o Cadastro Positivo. O nível de inadimplência caiu em todas as economias em que um projeto semelhante a esse foi implantado. Os bancos podem, com ele, gerar relatórios e criar um scoring de crédito, classificando os riscos que cada perfil de cliente representa. Assim, será mais fácil para o sistema financeiro precificar de maneira diferenciada cada produto ou serviço financeiro sem que os encargos gerados pelos inadimplentes recaiam sobre os bons pagadores. “Quem sairá melhor nessa história é o bom pagador, com taxas diversificadas. É ele quem deve ter o interesse de ter o nome nesse cadastro. Além disso,

Antes Apenas 40% dos consumidores tinham acesso ao financiamento

Depois EUA

2/3 dos empréstimos eram feitos a homens CHILE

A baixa renda com pouco acesso ao crédito MÉXICO

Crédito pouco difundido ALEMANHA

Exigências de garantias maiores, para créditos caros, restringindo, assim, o crescimento da economia

o volume de crédito na economia irá crescer”, prevê Liberato. “Com o Cadastro Positivo, o que muda é que o próximo contratante não pagará pela irresponsabilidade de terceiros”, complementa Loureiro. Na concessão de crédito sempre há o risco de inadimplência. A ideia é que as empresas de crédito utilizem, com o banco de informações positivas, as melhores medidas para diminuir esse risco. De acordo com o Banco Mundial, o índice de endividamento no Brasil pode cair em até 45% devido ao banco de dados. O peso da inadimplência na formação do spread bancário também apresentaria redução no mesmo nível. Com a geração de relatórios de scoring, o mercado poderá fazer análises específicas. “Já existem ferramentas disponíveis para isso, mas com o Cadastro Positivo elas serão mais eficazes”, coloca o presidente da Serasa Experian. Ainda de acordo com a Serasa Experian, 19,7% da população desbancarizada será incluída no sistema financeiro. O montante equivale a 26 milhões de consumidores informais que não possuem comprovante de renda e, até mesmo, de moradia, mas que são potenciais clientes de conta corrente, cartão de crédito e débito, poupança, empréstimos e outros. A Serasa Experian, com dados do Banco Central, desenvolveu um modelo para estimar os impactos do projeto no Brasil. A participação da inadimplência da pessoa física no spread bancário deve cair 9,5 pontos porcentuais. Já o estoque de crédito para pessoa física

CHINA

80% dos consumidores passam a ter acesso ao financiamento Aumentou o acesso das mulheres ao crédito até quase a igualdade Crescimento na concessão de crédito, principalmente para a baixa renda Crédito chega a ser três vezes superior à média internacional Expressivo crescimento econômico. Crédito atinge mais de 150% do PIB Fonte: Banco Mundial

52 FINANCEIRO abril/maio 2011


(recursos livres), que hoje é da ordem de R$ 418,6 bilhões, teria redução de R$ 17,9 bilhões em cerca de 18 meses – prazo médio das operações de crédito ao consumidor. Esse recurso, decorrente da melhor qualidade dos empréstimos e financiamentos, pode, ainda, retornar às carteiras de crédito para novos empréstimos. Loureiro aponta que o Brasil possui uma situação financeira privilegiada. Os saldos em atraso acima de 90 dias

que haveria capacidade de pagar e também para a fatia subprime. “Por aqui, o Cadastro Positivo deverá funcionar melhor, pois o sistema financeiro brasileiro é mais organizado e regulado”, pondera. Loureiro luta pela aprovação do Cadastro Positivo desde 1998, na época em que entrou na Serasa para desenvolver o projeto. Hoje, ele se encontra com empresários para levar o conceito da sustentabilidade eco-

Denísio Liberato, da Faap “É preciso criar mecanismos que reduzam a assimetria de informações”

De acordo com a Serasa Experian, 19,7% da população desbancarizada será incluída no sistema financeiro. O montante equivale a 26 milhões de consumidores informais, sem renda comprovada estão em torno de 6% – considerada uma taxa baixa. “Isso é muito bom para o mercado brasileiro e sinaliza que as pessoas estão consumindo de maneira adequada”, diz ele. Segundo dados do Banco Mundial, os países que adotaram o Cadastro Positivo reduziram seus índices de inadimplência em até 43% e aumentaram em cerca de 90% a concessão de crédito (mais no quadro). Para o professor da Faap, Brasil e Estados Unidos são países semelhantes em termos de consumo. Ambas as populações são consumistas e adoram financiamentos, apesar de o volume de crédito em relação ao PIB no mercado norte-americano ser muito superior. Lá, diz ele, os bancos começaram a emprestar dinheiro porque achavam

nômica que o Cadastro Positivo pode gerar. “A principal vantagem da Medida Provisória é que finaliza um processo que não acabava nunca. Claro que ainda há alguns pontos a serem alterados. Mas essa é uma oportunidade que não devemos perder. O mercado deverá tirar o máximo de proveito desse insumo de informações”, analisa. O Cadastro Positivo parece estar nos últimos degraus de uma extensa escada. “O importante é que já temos um Cadastro Positivo vigente. Agora, cabe a nós dar a ele um formato voltado ao nosso mercado e adequado às nossas condições, fazendo com que efetivamente permita que o mercado brasileiro atinja um nível de sustentabilidade de crédito”, encerra o executivo. abril/maio 2011 FINANCEIRO 53


desafioscerticrefi

Pelo menos 50 mil agentes financeiros de concessionárias e lojas de veículos serão certificados em todo o País. Quem ganha é a sociedade

Mercado se prepara para a

CertiCre fi Por Karin Fuchs

Correspondendo à Resolução n° 3.954 do Banco Central, que formaliza a profissão do correspondente de crédito de instituições financeiras, a Acrefi foi a primeira certificadora da força de vendas das operações de crédito no País, com a implementação do CertiCrefi (Certificação de Empregados de Correspondentes de Crédito de Instituições Financeiras) em parceria com o Inepad (Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração). Estima-se que, em todo o País, cem mil pessoas trabalhem direta ou indiretamente como correspondente bancário, “pastinha”, vendedor ou intermediário do crédito. “Essas pessoas desconhecem o funcionamento do mercado financeiro e essa foi a preocupação do Banco Central em determinar que seja feita a certificação, para que elas estejam preparadas tecnicamente para desenvolver essa atividade”, afirma Érico Sodré Quirino Ferreira, presidente da Acrefi. Consultor especializado no setor da distribuição de veículos, Valdner Papa comenta que os agentes que trabalham no sistema financeiro, na Bolsa de Valores, ou 54 FINANCEIRO abril/maio 2011

como autônomos em investimentos, sempre tiveram de ser credenciados pela necessidade de conhecimento técnico no tratamento do cliente em relação aos produtos oferecidos. “O que o Banco Central fez foi disciplinar a atividade dos agentes promotores de financiamento no segmento automotivo, transformando o concessionário em um correspondente.” Para Papa, “a certificação é importante, pois no varejo está sendo oferecida ao consumidor uma série de produtos financeiros que requerem conhecimento técnico – até então, os bancos treinavam seus promotores. Porém, quando essa atividade passa para o concessionário, ele precisa ter uma pessoa com conhecimento adequado para atender.” Capacitação Papa destaca ainda que, pela primeira vez, o credenciamento dos correspondentes de crédito terá um conteúdo direcionado ao mercado automobilístico. “A Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) está criando um curso de preparação


que estará disponível pela TV Fenabrave, via satélite, com todo o conteúdo necessário para a certificação.” O procedimento é o mesmo criado pela Federação Nacional dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) que, por meio da Sales 7 Consultoria, desenvolveu o programa de treinamento 7 Trainee, seguindo as orientações do Banco Central. Dividido em etapas chamadas de esteiras, a capacitação contempla as informações necessárias aos correspondentes, desde a entrada do cliente na loja, seus questionamentos sobre preço e modalidades de crédito, até a decisão da compra. “Além de uma capacitação mais profissional que valoriza a profissão do agente, estamos fazendo um favor à sociedade, ajudando todos a tomar melhores decisões”, diz Enilson Espinola Sales, CEO da Sales 7 Consultoria. Preparação das provas Todo o suporte para a realização das provas está a cargo do Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (Inepad), que conta com toda a expertise no conteúdo do mercado financeiro e tem em seu currículo a organização da primeira prova de certificação interna do Banco do Brasil.

namentos que serão oferecidos pelos capacitadores. “Mesmo que o profissional esteja há 20 anos no mercado, isso não significa que ele faz o seu trabalho tão bem como deveria, ou tão responsavelmente quanto poderia fazer. No treinamento serão revistos conceitos, o que dará mais segurança para a realização da prova”, ressalta. Meta: número de certificados De acordo com Valdner Papa, em todo o País são pouco mais de 6,7 mil concessionárias e em cada uma delas tem de haver no mínimo um profissional certificado. “Pressupondo que, na média, teremos de ter pelo menos uma vez e meia ou duas vezes profissionais certificados em cada concessionária, serão mais de dez mil pessoas certificadas, em um prazo de três anos de acordo com a resolução.” Já nas revendedoras de veículos o número será bem maior. “Existem no Brasil mais de 42 mil lojas de veículos usados. A expectativa é que em torno de 20 mil lojas sejam certificadas em curto e médio prazo. Ao final do prazo de três anos todas as lojas deverão estar certificadas para poder fazer o financiamento”, diz Ilídio Gonçalves dos

“Essas pessoas desconhecem totalmente o funcionamento do mercado financeiro e essa foi a preocupação do Banco Central em determinar que seja feita a certificação”

Érico Sodré Quirino Ferreira, presidente da Acrefi

Da experiência dessa primeira prova, realizada em 200 cidades brasileiras com 26 mil participantes, David Forli Inocente, gerente de ensino do Inepad, conta que para a CertiCrefi será feita uma migração digital do exame. “Além do impacto ambiental, uma prova impressa requer uma logística de distribuição. Para essa versão digital da prova teremos parceiros no País inteiro para a sua aplicação e, em poucos dias, saberemos o resultado. A nossa contribuição é organizar esses parceiros, desenhar a prova e divulgar os aprovados.” Apesar de o edital do exame ser bem detalhado, Inocente destaca a importância em participar dos trei-

Santos, presidente da Federação Nacional dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto). Em nome da Acrefi, Érico Sodré Quirino Ferreira antecipa que a expectativa com a certificação é positiva. “O conhecimento que será adquirido pelos correspondentes lhes trará uma visão maior do funcionamento do mercado financeiro. Depois que as pessoas estiverem certificadas, melhoraremos o nível de atendimento e deixaremos os clientes mais satisfeitos. Faremos, assim, a parte social da nossa obrigação que não é apenas vender o financiamento, mas também buscar a completa satisfação do cliente. Esse é o ponto mágico dessa história.” abril/maio 2011 FINANCEIRO 55


artigomercadoautomotivo

o mercado automotivo e o crédito No início de dezembro, o governo brasileiro adotou algumas medidas macroprudenciais que visavam desacelerar a taxa de expansão do crédito no País. A preocupação estava também no receio de que a inadimplência, em especial para prazos superiores a 24 meses, pudesse se elevar de maPor Tereza Maria neira importante. Entre as medidas tomadas podemos citar: a elevação do compulsório, elevação do custo do financiamento e limitação para a negociação, por parte dos bancos, das carteiras de crédito. As medidas visavam reduzir a liquidez do mercado, buscando diminuir o risco de bolhas nessa área. A obrigatoriedade de um pagamento inicial, a título de “entrada”, em prazos de financiamentos superiores a

Evolução de vendas de automóveis e comerciais leves gráfico i

3500

3329 3000 2500 2000 1500 1000

1345

20 10

20 09

20 08

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20 05

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20 04

500

Fonte: Fenabrave. Elaboração MB Associados

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24 meses, comprova a preocupação com aumento de possibilidade de calote e especial no mercado automotivo. Naquele momento o Banco Central apontava para uma inadimplência superior a 10% para financiamentos com prazos entre cinco a dez anos, enquanto nos financiamentos com prazos de até dois anos não passava de 1,5%. Essas medidas implicaram elevação da taxa de juros nos financiamentos que não contemplavam uma entrada no momento da compra, que no mercado de carros novos representava em novembro do ano passado 60% das vendas. Mesmo induzindo a um menor crescimento no mercado de automóveis e comerciais leves, o setor segue apresentando um bom desempenho até o mês de março e na nossa expectativa deve crescer próximo a 6% em 2011. Na verdade, os mercados de autos e comerciais leves vêm apresentando excelente desempenho nos últimos anos. Entre 2003 e 2010, o crescimento acumulado foi de quase 150% (Gráfico I). Esse crescimento do mercado nacional fez com que o País galgasse o quarto lugar no mercado mundial, ficando atrás apenas da China, dos EUA e do Japão. Na América Latina somos, disparados, o maior mercado consumidor, com uma comercialização anual cinco vezes maior que o segundo mercado que é o argentino e maior que a somatória dos demais países do continente. Não é sem motivo que novas montadoras estão de olho no País, em es-


pecial as chinesas, e as que aqui já se encontram seguem com investimentos elevados. Mas, voltando ao mercado, queremos chamar atenção para os dados do início do ano. Quando as vendas do mês de janeiro foram anunciadas, alguns agentes do setor alardearam o resultado de uma queda de 36% em relação ao mês de dezembro, esquecendo-se de dizer que o crescimento em relação ao mês de janeiro de 2010 tinha sido de 14% e esquecendo totalmente do chamado “efeito rapel” (Gráfico II), como é conhecido no mercado automobilístico o artifício usado pelas montadoras, principalmente na virada do ano, quando tentam ampliar suar participação no mercado. A estimativa da Fenabrave é de que algo entre 35 a 45 mil automóveis negociados no mês de dezembro foram resultantes de emplacamentos “fantasmas”, ou seja, foram emplacados pelas próprias concessionárias em nome de terceiros, sem que os carros tenham sido efetivamente vendidos. Ressaltamos que esse processo é absolutamente legal, uma vez que o do-

cumento de transferência do veículo garante que o consumidor tenha conhecimento que o produto já havia sido previamente registrado em outro nome e os impostos foram pagos. Não há como eliminar, no entanto, o efeito estatístico que levou a uma queda importante no mês de janeiro. Outra distorção que teremos neste ano em relação a 2010 são os feriados móveis. Carnaval e Semana Santa caíram em meses diferentes o que também distorce a estatística, pois as vendas são efetivadas nos dias úteis. Isso significa que temos de olhar até abril os dados acumulados no ano, para somente a partir daí observarmos o mês a mês. Outra maneira de fazer a comparação é analisar os dados diários. Independentemente dessa briga de final de ano e das expectativas de um ano que deverá crescer menos, a MB Associados segue com números positivos para 2011, lembrando que é insustentável crescer a dois dígitos por anos seguidos. f Tereza Maria é sócia-diretora da MB Associados

Vendas de automóveis – média diária GRÁFICO II

AUTOMÓVEIS + COMERCIAIS LEVES 16.000 15.500

ANTECIPAÇÃO FIM DA ISENÇÃO DO IPI

15.704

EFEITO RAPEL

15.571

15.000 14.669

14.500

14.380

14.000 13.878

13.500

13.482 13.095

13.000

12.965

13.211

12.500 12.000 11.786

11.743

11.500 11.000 10.500

10.718 Média ano 2010

dezembro -10

novembro -10

outubro -10

setembro -10

agosto -10

julho -10

junho -10

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10.087

10.000

Fonte: Fenabrave

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desafiosliderança

Para cada 100 executivos homens, existem 11 mulheres em cargos de gestão. Mesmo de salto alto elas conseguem, e muito bem, gerir importantes áreas das empresas Por Juliana Jadon Elas são líderes nas empresas e no lar. Governam a casa, cuidam dos filhos e ainda gerem com sucesso suas respectivas áreas empresariais. Apesar da dupla jornada, muitas mulheres sabem aproveitar as 24 horas do dia e dividir o tempo de dedicação que passam entre a família e o escritório. De acordo com um estudo feito pela agência Leo Burnett, 80% delas são responsáveis pelas decisões de compra em casa e uma em cada quatro já ganha mais que seu companheiro. Mas essas líderes ainda são minoria no mercado de trabalho. Um levantamento do Instituto Ethos aponta que há 11 mulheres em cargos de gestão para cada cem executivos homens. A vida de Taíse Christine da Cruz, diretora de produtos do banco Mercantil do Brasil (MB) e integrante do conselho de autorregulação da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) – setor que visa melhorar e resolver os problemas do consumidor bancário –, 58 FINANCEIRO abril/maio 2011

ilustra bem essa jornada. Pela manhã, antes de sair de casa, brinca e cuida do filho de três anos e orienta as “funcionárias do lar” a realizarem os serviços domésticos. No caminho para o banco, em Belo Horizonte (MG), ouve noticiários pelo rádio e se informa de temas relevantes que poderão lhe orientar durante o dia. Toda manhã participa junto ao vice-presidente e outros oito diretores da reunião do comitê executivo do banco Mercantil do Brasil. Ao meio-dia, Taíse almoça em casa – normalmente não há trânsito e ela chega em 15 minutos – e na volta ao trabalho ainda deixa o pequenino na escolinha às 13 horas. Há 11 anos no banco e dois na diretoria de produtos, ela coordena as equipes por meio de conversas diárias com os gerentes de quatro diferentes áreas (produtos, serviços, conta de cadastro e operações de ativos). Ao todo, possui sob sua gestão 120 profissionais. Em dias normais – em que não há nada para resolver além do esperado – ela retorna para casa às 19 horas, quando convive com mais tranquilidade com a família. Quando o filho dorme, aproveita para ler um pouco e, se necessário, faz algum trabalho extra que levou para casa. De acordo com o instituto Sophia Mind, 60% das executivas, assim como Taíse, não deixariam de ter momentos de lazer para ficar mais horas no escritório. “Com certa disciplina, organização e praticidade consigo, mesmo com o dia a dia intenso, me dedicar ao trabalho sem prejudicar o convívio com a minha família”, diz a executiva. O Mercantil do Brasil vivencia um aumento expressivo da base de clientes, fruto da conquista de cinco lotes do Leilão da Folha de Pagamentos de beneficiários do

Foto: Douglas Luccena

Quando elas comandam


INSS. Com isso, foi preciso reestruturar toda organização. O número de pessoas que recebe o benefício por via do banco dobrou no ano passado, saltando de cerca de 180 mil para 360 mil. Parte desse público, conta Taíse, são pessoas que não eram bancarizadas e, por isso, o atendimento foi revisto para uma oferta adequada dos produtos e serviços. “Gestão de pessoas é sempre um desafio. Por isso temos uma rotina de reuniões. Foi preciso integrar as equipes e conseguir que todo mundo tenha o mesmo foco”, considera. A diretoria de produtos, comandada por Taíse, se focou exatamente na otimização de diversos processos para garantir a pessoalidade no atendimento a esse público. Assim, o Mercantil iniciou a abertura de novas agências com atendimento exclusivo aos beneficiários do INSS. “Além

“Com certa disciplina, organização e praticidade consigo me dedicar ao trabalho sem prejudicar o convívio com a minha família, mesmo com o dia a dia intenso” Taíse Christine da Cruz, do Mercantil do Brasil disso, estamos concluindo um projeto que disponibilizará a esse beneficiário o acesso a todos os canais de atendimento, com oferta de crédito e serviços já no primeiro contato com o banco”, conta a diretora. No Estado de São Paulo, desde setembro de 2010 até agora, o banco inaugurou oito unidades: Bauru, Presidente Prudente, Taubaté, São Bernardo do Campo, Diadema, Santo André, São José do Rio Preto e Sorocaba. Trezentos novos postos de trabalho já foram criados com o projeto de ampliação, sendo que 110 profissionais ocupam o cargo de gerente especializado e exclusivo no atendimento aos aposentados e pensionistas. Outros 120 empregos serão abertos até o final de 2011.


desafiosliderança

Integração de pessoas Vice-presidente de RH do Grupo Santander Brasil, Lílian Guimarães conta com uma equipe de 300 pessoas e muitos desafios, já que o Santander possui 53 mil funcionários sob seu guarda-chuva. A área de Lílian cuida das atividades clássicas de recursos humanos como contratação, remuneração, benefícios, treinamento e desenvolvimento dos funcionários da instituição. Na gestão de Lílian, o projeto de integração do Santander com o banco Real, em 2008, foi a maior prova que passou. Toda a equipe teve o trabalho intensificado – atuando mais de 12 horas por dia –, estudando as melhores estratégias e táticas para a integração dos dois bancos, que possuíam culturas distintas e ao mesmo tem-

Mercado de trabalho A participação da mulher no mercado de trabalho aumentou em 200 milhões na última década, segundo a Organização Mundial do Trabalho.Há 1,2 bilhão de mulheres no mercado e 1,8 bilhão de homens. No Brasil, em 1935, 33% das mulheres disputavam mercado com os homens. Hoje, esse porcentual é de 50%. Em 1991, 18% das mulheres chefiavam seus lares, em 2007, 33% delas já faziam isso. Já nos Estados Unidos elas representam metade da força de trabalho.

po complementares. O RH foi responsável, na época, por fazer com que o melhor dos colaboradores de ambas as empresas fosse aproveitado na união sem abalar o desempenho deles. Para impactar o menor número de pessoas negativamente, ela contratou uma empresa de recolocação, em que mais de 70% dos dispensados ganharam novos empregos. “Procurei aproveitar tudo que fosse relacionamento com clientes”, revela. O Santander também desenvolveu treinamentos (presenciais e on-line), reuniões de integração e rodadas de engajamento para sensibilizar sobre as mudanças. Segundo ela, assegurar que o fator humano seja efetivamente levado em conta é a sua principal atribuição no cargo. Atualmente Lílian trabalha, em média, dez horas por dia. A agenda é corrida: comitês e uma série de compromissos predefinidos. Mesmo assim, não deixa de dedicar parte do dia a conversas com os funcionários sobre vida 60 FINANCEIRO abril/maio 2011

pessoal, carreira, aconselhamento e “n” outros temas. Há dois anos, sua filha de 25 foi morar sozinha. Em casa, assim como Taíse, ela conta com a ajuda de ‘funcionários do lar’. No final de semana costuma viajar e praticar atividades as quais considera relaxantes para um retorno tranquilo à rotina. Mensalmente janta com amigas e participa à noite de grupos de estudos. No Santander, um projeto chamado internamente de “Visão de futuro” resume a história de colocar o indivíduo no centro dos negócios. Após participarem de diversos workshops, os profissionais do RH, por exemplo, escolheram em que função gostariam de atuar. 87% deles foram alocados nos postos que colocaram em primeiro lugar. Os treinamentos começam logo que um novo funcionário chega. Ele é convidado a participar de um exercício geral antes de iniciar suas atividades. Ali recebe informações práticas, como direitos, benefícios e procedimentos internos. Posteriormente recebe tarefas on-line sobre características específicas do mercado financeiro. Ao longo da adaptação ao banco, outras capacitações são oferecidas para que entenda o modelo e a estratégia de negócios da instituição. Lílian coloca que há no mercado o problema do “apagão de talentos”, de falta de mão de obra qualificada. Segundo ela, o vínculo do jovem com a empresa é muito pequeno e há muitas oportunidades de emprego no Brasil. Para resolver, a rede social “Santander caminhos de escolhas” ajuda os jovens na escolha da carreira. “Queremos fazer do RH uma área diferente da tradicional, que seja mais próxima das pessoas e valorize os indivíduos”, ressalta. Resultados Uma pesquisa realizada pela empresa Vox Populi em Minas Gerais e São Paulo demonstra que Taíse e a equipe do banco Mercantil do Brasil estão atingindo a meta. Um dos pontos analisados que demonstram isso é o indicador “defensores da marca”, que representa o índice de clientes que, além de estarem satisfeitos com a instituição, a defendem no mercado. O resultado alcançado nesse índice foi de 85,5%. O levantamento foi feito com clientes exclusivos e compartilhados – aqueles que possuem também contas em


“Queremos fazer do RH uma área diferente da tradicional, que seja mais próxima das pessoas e que valorize os indivíduos” Lílian Guimarães, do Santander outros bancos. Mesmo os que têm referência de atendimento de outras instituições financeiras, aprovam o Mercantil do Brasil. A força da marca, índice que traduz a satisfação dos clientes com o desempenho geral do banco, atingiu 85,9%, sendo esse resultado ainda maior para as áreas ligadas ao atendimento humano, com 92%. A pesquisa é realizada a cada dois anos, desde 1999. Em 2010, o banco obteve os maiores saldos de desempenho na avaliação de cada uma das áreas. A instituição financeira já gastou cerca de R$ 550 mil com as pesquisas de imagem. No Santander, a meta número um de Lílian é aumentar o nível de engajamento dos funcionários com o

banco, tornando-o melhor ambiente para se trabalhar. É preciso, assim, garantir que haja contratação de pessoas na base e pessoas aptas a serem promovidas. Ela assume que é exigente, justa e dura, quando preciso. Faz planos e define o que vai ser feito por cada um quando delega tarefas. “As mulheres são mais sensíveis, possuem uma visão mais abrangente. O homem é menos profundo e mais direto. Cada um tem seu ponto favorável. Hoje, a minha equipe é mista e também vejo homens com uma sensibilidade incrível”, considera. Taíse e Lílian ainda têm muito que fazer...a jornada dupla continua e elas tiram de letra! abril/maio 2011 FINANCEIRO 61


artigogestãopública

Faltam ou sobram

recursos no orçamento do governo? Mais um governo se inicia e enfrentamos as mesmas discussões. Há um equívoco na batalha pelos cortes no orçamento: a discussão é como se reduz investimentos, porém não se fala dos bilhões de reais que poderiam ser economizados, melhorando o funcionamento da máquina pública. Essa economia é um fato possível Por Florencia Ferrer sobre algo já feito. Cortar investimentos acaba sendo uma saída absurda e fizemos uma conta com projeção nacional. Concluímos que cerca de R$ 67 bilhões podem ser poupados com a simples adoção, em todo País, de nove ou dez programas básicos de gestão. Janeiro é considerado um mês de cortes de projetos e dezembro é um mês em que nem 30% do orçamento foi executado. Trabalhando há mais de oito anos com a modernização da máquina pública, com inovação de processos, desburocratização e implementação de TI constatei mais de um caso onde conseguimos resultados. Tomando como exemplo o Estado de São Paulo, realizei cálculos que indicam que a economia feita entre 1995 e 2008, a partir de nove programas de inovação chega a R$ 32 bilhões. Essa economia vem, por exemplo, da criação do Boletim de Ocorrência Eletrônico, do IPVA eletrônico, na redução de papel e pessoal no Diário da Justiça digital ou Tribunal de Justiça, de atividades no Metrô e Sabesp, do leilão eletrônico, entre outros exemplos. Inovações semelhantes já ocorrem em outros Estados, como Minas Gerais, Acre, Espírito Santo etc. Existem outros caminhos para ajustar as contas públicas, nenhum deles é fácil, mas todos possíveis. Por isso reforço que o olhar deve ser outro quando se fala sobre cortes no orçamento. Em nossos trabalhos junto a Gestão Pública já identificamos várias possibilidades de redução de despesas, em itens que simplesmente são mal gastos. Os contratos de energia elétrica, por exemplo, dificilmente são revisados e, muitas vezes, o órgão público cresce, não muda as bases contratuais e os excedentes de consumo são pagos com tarifas muito acima da usual. Uma alteração contratual, 62 FINANCEIRO abril/maio 2011

para se adequar ao novo patamar de consumo, provoca uma economia de cerca de R$ 1 milhão ao ano num único estado, no qual estamos desenvolvendo consultoria de gestão. Considerando que o estado é pequeno, com 48 mil funcionários públicos, em todos os demais estados e União, que juntos totalizam 8,7 milhões de postos de trabalhos na administração pública, a economia seria de R$ 1 bilhão em quatro anos.. Poucos governos têm um controle efetivo do consumo. O foco para redução de custos somente é colocado na redução do preço final pago. Não há, na maioria dos governos, um controle da demanda real de combustível. Isso facilita desvios. Verificamos veículos com consumo por quilômetro de até 400% acima do especificado pelo fabricante. Estimando uma frota de 160 mil veículos de governos estaduais, o uso adequado de combustível nas frotas dos Estados, eliminando os erros e ineficiências, provocaria uma economia estimada de no mínimo R$ 300 milhões por ano. Isso sem considerar que seria necessário redimensionar a frota, podendo triplicar a economia, já que diminuiríamos as despesas com veículos ociosos. Vários são os exemplos e sabemos que anualmente se encerram com uma parte dos orçamentos. Todos esses casos os gastos podem ser interrompidos por um governante. A modernização da “máquina pública” não é uma opção , é uma condição. Parece exagero essa afirmação, porque um Estado só quebra no longo prazo, mas precisamos lembrar que o serviço público quebrou na Argentina, a Previdência quebrou no Chile, e esses governos tiveram de fazer reformas nas quais os chamados direitos adquiridos derreteram na falta de caixa. Concluímos várias saídas possíveis. A única que não pode ser adotada é uma nova punição à sociedade brasileira, aumentando a sua já insuportável carga tributária. Florencia Ferrer é diretora-presidente da Consultoria FF/e-Strategia Pública


infoacrefi

TalenTos

Bolsa de Empregos, a nova ferramenta para os associados O associado da Acrefi conta com mais um novidade: a Bolsa de Empregos, que até o final do primeiro semestre estará operando a todo vapor. Trata-se de mais uma ferramenta que a associação colocará à disposição de seus associados, num momento em que o mercado de trabalho apresenta forte ritmo de expansão. Na fase inicial, a entidade fez testes para ajustar o hotsite e na segunda etapa alguns associados já puderam colocar vagas de trabalho disponíveis na Bolsa de Empregos.

As pessoas interessadas poderão enviar currículos para a Bolsa da Acrefi, depois de sua implantação definitiva. “A Acrefi terá o controle do movimento tanto de empregadores quanto dos candidatos”, afirma Ernesto Alves, sócio da EBF Design Gráfico, empresa responsável pelo projeto. “A Bolsa de Empregos da Acrefi será uma maneira prática de empresas e pessoas em busca de emprego terem acesso on-line a um canal que lhes permitirá atender às suas necessidades.”

educação Financeira

Acrefi cria blog para o tema Em linha com a era da web 2.0, a Acrefi lançou o blog Finanças na balança, de educação financeira. Com a nova ferramenta, a associação cria mais um canal de comunicação com o público, já que o blog permite a interatividade com os usuários. A educação financeira ganha cada vez mais espaço no Brasil, e já foi incluída em currículos de importantes escolas do País. Além disso, várias empresas, instituições financeiras e principalmente associações de classe estão bastante atuantes no segmento de prestação de serviços sociais. O tema tem crescente interesse do público, que demanda cada vez mais informações sobre o assunto em busca de opções para organizar seu orçamento e para fazer investimentos. A Acrefi, consciente dessa realidade, oferece agora esse tipo de informação aos interessados também pelo novo blog, que pode ser acessado por todos.

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artigoanáliseeperspectivas

O mercado de crédito brasileiro

em 2010 O crescimento da economia está estreitamente ligado à expansão do volume de crédito concedido e, no ano de 2010, verificou-se um aumento no PIB brasileiro, conforme demonstrado no Gráfico I. O objetivo deste artigo é analisar o comportamento da Por prof. dr. Alberto Borges Matias concessão de crédito com colaboração de Patricia Balachi no ano passado, analisando as principais linhas de crédito. Em dezembro de 2010, obteve-se o recorde de concessão total de crédito dos últimos dez anos. O volume total de crédito, nesse mês, apresentou um aumento de 14,7% em relação a dezembro de 2009, e um aumento acumulado de 203,18% quando

comparado a dezembro de 2000, período inicial desta análise. Em média nos últimos dez anos a taxa de crescimento anual da concessão de crédito total foi de 12,1%. Em 2010 o crescimento ficou acima da média, alcançando o valor de 14,7%. O volume de crédito para pessoa física também apresenta uma ascensão nos últimos anos e obteve, em 2010, um aumento de 20,6% em relação a 2009. Em relação a 2000 o aumento foi de 282,95%. A concessão de crédito também cresceu para pessoa jurídica. No entanto esse aumento foi menor do que a concessão total e de pessoas físicas. O crescimento do volume de crédito para pesso-

Taxa de crescimento das linhas de crédito para pessoas jurídicas Período/linha de crédito Hot money Desconto de duplicatas

64 FINANCEIRO abril/maio 2011

2010/2009

2010/2000

0,29%

-26,62%

1,54%

234,87%

Capital de giro

19,15%

715,91%

Conta garantida

16,96%

202,75%

Financiamento imobiliário

38,06%

1984,69%


PIB X concessão de crédito R$ MILHÕES

GRÁFICO 1

400.000,00 350.000,00 300.000,00 250.000,00 200.000,00 150.000,00 100.000,00 50.000,00

ju n/ 00 ja n/ 0 ag 1 o/ 0 m 1 ar /0 ou 2 t/ 0 m 2 ai /0 de 3 z/ 03 ju l/ 04 fe v/ 05 se t/ 05 ab r/ 0 no 6 v/ 06 ju n/ 07 ja n/ 0 ag 8 o/ 0 m 8 ar /0 ou 9 t/ 0 m 9 ai /1 de 0 z/ 10

0

PIB mensal em valores correntes (R$ milhões) Total de operações de créd to (R$ milhões)

Fonte: Inaped & BC

Concessão de crédito total – PF R$ MILHARES

GRÁFICO 2

80.000.000 70.000.000 60.000.000 50.000.000 40.000.000 30.000.000 20.000.000 10.000.000

20 10

20 09

20 08

20 07

20 06

20 05

20 04

20 03

20 02

20 01

0

20 00

as jurídicas foi de 11,2% em relação a 2009 e de 168,74% em relação a 2000. Dentro da concessão de crédito para pessoas físicas no ano de 2010, algumas linhas se destacaram: aquisição de veículos, com um aumento de 53,19% em relação a 2009 e principalmente o financiamento imobiliário, com um crescimento de 120,48%, em relação a 2009. O aumento dessas linhas em relação ao ano de 2000 foi, respectivamente, 464,42% e 3955,48%. Desde o ano de 2006, o crédito de financiamento imobiliário vem obtendo aumentos, sendo que em dezembro de 2010 bateu-se o recorde de volume de crédito para essa modalidade nos últimos dez anos. Essa linha de crédito foi destaque tanto em concessão de crédito para pessoas físicas como jurídicas. Dentro das linhas de crédito destinadas às pessoas jurídicas, além do destaque em 2010 para a linha de financiamento imobiliário, que teve um aumento de 38,06% em relação a 2009 e 1984,69% em relação a 2000, a concessão de crédito para capital de giro das empresas também apresentou um crescimento de destaque em relação às outras linhas de crédito. Em 2010, essa modalidade de crédito aumentou 19,15% em relação a 2009. Já em relação ao ano de 2000 o aumento foi de 468,08%. Os demais crescimentos das linhas de crédito concedido à pessoa jurídica podem ser vistos na tabela. Conclui-se que o aumento do volume geral de concessão de crédito deve ser visto positivamente pela economia, pois exerce um impacto positivo sobre o crescimento econômico do País.

As marcações de cada ano são referentes aos meses de março, junho, setembro e dezembro Fonte: Inaped & BC

Total PJ – concessão GRÁFICO 3 140 120 100 80 60 40 20

20 10

20 09

20 08

20 07

20 06

20 05

20 04

20 03

20 02

20 01

0 20 00

Prof. dr. Alberto Borges Matias Professor Titular do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo no campus de Ribeirão Preto, e diretor do Inepad

As marcações de cada ano são referentes aos meses de junho e dezembro Fonte: Inaped & BC

abril/maio 2011 FINANCEIRO 65


artigoúltimapalavra

Por que é difícil educar

as pessoas para a poupança? Quando falamos em poupança, a primeira questão que surge é: ela é inimiga do consumo? Poupar significa passar privações? Sacrifícios? Para os países que viveram grandes conflitos, guerras ou catástrofes, a poupança é algo muito natural e faz parte do seu padrão de vida. Vejam as autoridaFábio Moraes des japonesas preocupadas com o volume alto de poupança da sua população e incentivando as pessoas ao consumo. O Brasil passou por décadas de instabilidade econômica. Os preços mudavam diariamente e as pessoas corriam às compras assim que recebiam seus salários. A estabilidade econômica trazida pelo Plano Real fez com que o País finalmente tivesse uma moeda no sentido da palavra e o receio que a inflação voltasse fez com que o consumo fosse prioridade. O aumento do crédito expandiu a capacidade de compra da população e o endividamento tornou-se uma alternativa viável. O contexto macroeconômico, aliado a uma cultura que nunca privilegiou a poupança, fez com que o nível de reservas das famílias fosse sempre pequeno e criou a sensação de que poupar significa privação. Quem pode pensar em restrição ao consumo num momento de prosperidade nunca antes experimentado pelas pessoas, principalmente pela nova classe média? A educação financeira precisa ter como principal meta desmistificar o papel da poupança e mostrar que ela precisa se tornar um hábito para o brasileiro, igualmente ao cafezinho pela manhã ou ao futebol aos domingos. A poupança traz liberdade para as pessoas. Quando um indivíduo possui reservas, torna-se mais cidadão. Pode tomar decisões com maior autonomia, como, por exemplo, mudar de emprego, abrir um negócio ou comprar um bem. A pessoa descapitalizada fica à mercê dos acontecimentos, do acaso, que normalmente não se mostra 66 FINANCEIRO abril/maio 2011

um bom aliado. Isso ajuda a explicar o real motivo da inadimplência das pessoas. Não é o desemprego ou o infortúnio que leva a maioria da população a deixar de pagar suas contas e, sim, a falta de reservas financeiras, ou seja, de poupança. Pensar de forma diferente é deixar para a providência divina o papel de gestora financeira das famílias. A população somente verá sentido em poupar quando receber informações corretas e coerentes dos agentes financeiros sobre os diversos produtos de poupança e quando perceber que guardar para o futuro significa consumir hoje e sempre. Comprar é tão bom que deve ocorrer durante toda a linha da vida das pessoas. O brasileiro convive há um bom tempo com a estabilidade econômica. Isso mostra que ela veio para ficar. O setor financeiro e o governo precisam tomar para si a responsabilidade de educar a população em relação à poupança. Educação também é assim, um processo que começa penoso e torna-se natural e automático quando é bem conduzido e quando apresenta resultados concretos para seu público-alvo. O Brasil precisa crescer e se modernizar. A população precisa se endividar com critérios e na dose certa. Para essas duas metas, a poupança é imprescindível. Para as famílias, traz bem-estar e segurança e, para o País, permite que o crédito continue se expandindo, principalmente aquele que irá financiar os investimentos tão necessários ao nosso desenvolvimento. Não precisamos mais dos cofrinhos. Necessitamos de uma mentalidade de longo prazo, produtos financeiros adequados e uma lógica de prosperidade que coloque a poupança como amiga e aliada do consumo. Fábio Moraes é economista e diretor de educação corporativa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban)


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Financeiro 68 - Abril 2011  

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