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conteúdofinanceiro

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Capa - Entrevista do Mês

50

Acrefi debate o que muda com

como administra uma das maiores câmaras de

a nova regulamentação

pagamentos do mundo 16

Basileia III

Joaquim Kavakama, superintendente da CIP, conta

Especial Veículos Importados Importadoras comemoram boom

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Certificação Digital Bancos ganham agilidade, redução de custos e segurança nos negócios

e apontam estratégias 22

Mercado Boa Vista Serviços chega para competir

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Educação Financeira Lições da Mastercard

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Por Dentro do Varejo

seções 12 Rápidas Tudo o que acontece no mercado 15 Livros Obras que não podem faltar

artigos 28 Renato Meirelles Consumidor Emergente 34 Nicola Tingas Desenvolvimento

Confira entrevista com Antônio Machado,

39 Milton Santos Universo Financeiro

CIO do Grupo Dadalto

42 Sérgio Conforto Reflexão

Cartões

49 Angelo Garcia Mercado Estratégico 54 Salvatore Milanese Questão Jurídica

Players internacionais avançam no

64 Alberto Borges Matias Análise e Perspectivas

mercado nacional

66 José Ricardo Alves Última Palavra fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 3


expediente financeiro ISSN 1809-8843

Rua Líbero Badaró, 425 – 28o andar – São Paulo – SP Tel: (11) 3107–7177 Fax: (11) 3106–6082 – www.acrefi.org.br Presidente Érico Sodré Quirino Ferreira Vice-Presidentes Arnaldo Alves Vieira, José Renato Simão Borges, Marcio Ronconi de Oliveira, Marco Ambrógio C. Bonomi, Sérgio Antonio Cipovicci, Aquiles Leonardo Diniz, Odílio Figueiredo Neto, Bartholomeu Ribeiro e Ricardo Annes Guimarães Secretários Paulo Tabaquim e Sérgio Marra Pereira Capella Tesoureiros Cláudio Messias Ferro e Marcus André de Oliveira Diretores Regionais Athaide Vieira dos Santos, Carlos Alberto Samogim, Elcio Antonio de Azevedo, Felicitas Renner, José Antonio Rodrigues, José Newton Lopes de Freitas, Laécio Barros Junior, Leonardo Marcondes Dadalto, Paulo Henrique Pentagna Guimarães, Pedro Costa Carvalho e Teófilo Newton Mattos Diretores-Executivos Gunnar Murillo, Morris Dayan, Sandro Alexandre de Almeida, Edson Froes Castilho, Luis Felix Cardamone Neto , Marc Camp, Mateus Affonso Bandeira, Rubens Bution e Leonel Dias de Andrade Neto Diretores Conselheiros Eduardo Tavares Nobre Varella, Élcio Jorge dos Santos, Giovani Cataldi Neto, Roberto Bronzere, Paulo Sérgio Borsatto, Nelson Aguiar Junior, Marcelo Barp, Odilon Pereira Guerra e Joelcyr Carmello Filho Conselho Consultivo Membros Natos: Alkindar de Toledo Ramos, Manoel de Oliveira Franco e Ricardo Malcon Membros: Alencar Burti, Ricardo Loureiro, Jorge Hilário Gouveia Vieira, Luiz Horácio da Silva Montenegro, Miguel José Ribeiro de Oliveira, Sergio Antonio Reze e Ilídio Gonçalves dos Santos Conselho Fiscal Efetivos: Domingos Spina, Edson Ueda, David Figueiredo Suplentes: Elpídio Hoffmann, Maria Madalena Américo Marinho, Gilson de Oliveira Carvalho Diretor Superintendente Antônio Augusto de Almeida Leite (Pancho) Controller Carlos Alberto Marcondes Machado Economista-Chefe Nicolas Tingas Consultor Jurídico Cassio M.C. Penteado Jr. Auditoria KPMG Assessoria de imprensa Tamer Comunicação Empresarial

Rua Novo Horizonte, 311 – Higienópolis – São Paulo – SP Tel.: (11) 3125–2244 – CEP 01244-020 – www.gpadrao.com.br Publisher Roberto Meir REDAÇAO Editora-executiva Karin Fuchs Editora-assistente Juliana Jadon Reportagem Theo Carnier (colaborador) Fotografia Douglas Luccena Gustavo Oliveira (colaborador) Arte Editora de Arte Marina Martins Designers Érika Bernal e Marcelo Kilhian Pré-Impressão Alexandre Lima Revisora Dora Wild Publicidade Gerente Comercial – Marco Góes – mgoes@gpadrao.com.br Gerentes de Negócios Adriana Próspero e Fabiana Zuanon Facilitadoras Ana Chiesi, Fabiana Martins e Patrícia Pinheiro Impressão IBEP Gráfica Ltda.

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editorial

C

Com o aumento da concessão de crédito ao consumidor, em um País de dimensões continentais, torna cada vez mais importante a participação direta de pessoas físicas vinculadas a promotores de financiamentos ou correspondentes bancários. Diante do movimento crescente, em que novos públicos passam a demandar recursos, a força de vendas das operações de crédito precisa ser qualificada e certificada, garantindo um padrão mínimo de atuação junto ao público. Em meio a esse cenário de prosperidade do crédito e a necessidade de mão de obra cada vez mais qualificada, a Acrefi decidiu implantar, de forma pioneira, o CertiCrefi (Certificação de Funcionários de Correspondentes, Promotoras de Financiamentos e de Instituições Financeiras), em parceria com o Inepad (Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração). Como entidade que congrega as instituições voltadas ao crédito pessoal, queremos garantir o melhor padrão nessas operações. É essencial a profissionalização da força de vendas do setor, que passa a estar devidamente identificada e qualificada, com conhecimentos gerais e específicos sobre as operações de crédito e a atuação das instituições financeiras, além de normas legais e regulamentares sobre empréstimos e financiamentos. Enquanto empresas e entidades promovem a capacitação por meio de cursos presenciais ou a distância, impõe-se a necessidade da existência de entidades certificadoras, as quais devem examinar rigorosamente os conhecimentos adquiridos pela força de vendas e poder atestar o grau de aproveitamento dessas pessoas em cursos de capacitação que serão oferecidos pelo mercado. Somente após a avaliação será expedido o respectivo certificado de conclusão.

Avanço de qualidade É justamente essa a proposta da Acrefi ao criar o CertiCrefi, que representa um avanço no escopo de preparar a certificação dos profissionais, depois de concluírem os respectivos cursos. Em breve, a Acrefi vai examinar os profissionais vinculados às promotoras de financiamentos ou correspondentes e atestar seu grau de conhecimento adquirido nos cursos de capacitação. O primeiro exame será oferecido no início deste segundo semestre de forma abrangente, atingindo 50 cidades brasileiras. A certificação de conhecimentos profissionais constitui uma tendência internacional, aplicada no Brasil em relação aos agentes autônomos de investimento e corretores de imóveis. Vemos esse movimento como algo positivo e, por meio dessa iniciativa, esperamos contribuir para a maior profissionalização do mercado de crédito.

Érico Sodré Quirino Ferreira Presidente da Acrefi fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 5


capaentrevistadomês Por Theo Carnier Foram dois bilhões de transações realizadas pela Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP) no ano de 2010, em mais de 110 bancos. Este ano, a meta é avançar para a conquista da certificação BS-25999, referência em continuidade de negócio, e priorizar a participação no IPFA (Institute Payments Framework Association). Revista Financeiro Como é o ritmo de trabalho da Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP)? Joaquim Kiyoshi Kavakama Desde a criação da CIP pelos bancos, em 2001, o ritmo de trabalho tem sido frenético. No ano passado, a entidade processou dois bilhões de transações, no valor de R$ 7,3 trilhões, ou seja, no mesmo nível das maiores câmaras de pagamentos do mundo. Fazemos a compensação e a liquidação de pagamentos interbancários em tempo real e oferecemos produtos e serviços acessíveis a toda a cadeia do mercado financeiro. Financeiro Para atender à demanda dos 116 bancos clientes, a entidade tem recebido tarefas com prazo cada vez mais exíguo, como aconteceu mais recentemente com a implantação do Sistema de Controle de Garantia, em julho do ano passado? Kavakama Foram dois meses e meio para estruturar e colocar em funcionamento o sistema. Foi um esforço e tanto, mas vale a pena, já que conseguimos cumprir nossos objetivos também dessa vez e, mais do que isso, atender os nossos clientes. Financeiro Quais são os trabalhos de maior destaque da CIP? Kavakama Todos nossos trabalhos foram de alto nível, por questão de filosofia de trabalho e da demanda dos clientes. A CIP é uma entidade dos bancos, que atende às crescentes necessidades do mercado

Entre as maiores 6 FINANCEIRO fevereiro/março 2011


financeiro. Viabilizamos inovações como o Débito Direto Autorizado (DDA), lançado em outubro de 2009, desenvolvido em 11 meses, e o Sistema de Controle de Garantias (SCG), de julho de 2010, que ficou pronto em apenas dois meses e meio. Financeiro É possível dimensionar o tamanho desses trabalhos? Kavakama Em 2010 processamos dois bilhões de transações, com volume total de R$ 7,3 trilhões, equivalentes a 2,3 PIBs do Brasil. Assim, estamos já no mesmo nível das maiores câmaras de pagamentos internacionais e com uma equipe enxuta. Atualmente, temos 64 funcionários e planejamos chegar ao final de 2011 com 84. Financeiro Qual o segredo para fazer tanta coisa com tão pouca gente? Kavakama Não existe segredo. Trabalhamos com base na eficiência em processos, qualidade na condução de atividades com os clientes, uso de métricas para avaliação do desempenho operacional e alto grau de comprometimento das pessoas que trabalham na CIP com os valores da câmara. Financeiro O que o senhor considera como os pontos fortes da CIP? Kavakama Desde que entrou em operação, há quase dez anos, a CIP utiliza infraestrutura e sistema robustos para o processamento de seus produtos, o que reforça nossa reconhecida eficiência na entrega de soluções inovadoras para o sistema financeiro. A CIP oferece em seu portfólio,

do mundo

Entrevista exclusiva com Joaquim Kiyoshi Kavakama, superintendente-geral da Câmara Interbancária de Pagamentos fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 7


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de forma eletrônica, produtos e serviços cada vez mais integrados, convenientes e seguros. Financeiro O trabalho da CIP sempre foi feito em prazos curtos? Kavakama Sempre. Felizmente, conseguimos atender à demanda entregando produtos de qualidade. Foi o caso do Sitraf (Sistema de Transferência de Fundos), que faz a compensação e oferece a certeza de liquidação aos pagamentos bancários, em tempo real. O Sitraf processa uma média diária de 390 mil TED (Transferência Eletrônicas Disponíveis), que corresponde a R$ 25 bilhões. O recorde foram 697.428 transações realizadas no dia 20 de dezembro de 2010. Também foi bem-sucedida a implantação do Siloc, o Sistema de Liquidação Diferida das Transferências Interbancárias de Ordens de Crédito. Empresas como TecBan, Mastercard, Visa e Cielo são clientes da CIP nesse sistema.

“Em 2010 processamos 2 bilhões de transações, com volume total de R$ 7,3 trilhões, equivalentes a 2,3 PIBs do Brasil” Financeiro Mas o que faz o Siloc? Kavakama O sistema faz a compensação dos pagamentos bancários em D0 (no mesmo dia) e realiza a liquidação dos saldos multilaterais em D+1. Além disso, estende as vantagens da compensação multilateral a instrumentos de pagamentos com liquidação diferida para DOCs, TECs e boletos de cobrança. Nesse sistema também é processada a liquidação dos títulos registrados em cartório pelo Serviço de Liquidação de Títulos em Cartório (Seltec). Financeiro Qual a atuação da CIP em relação aos bloquetos de cobrança? Kavakama Além do Siloc, trabalhamos com o Sistema de Processamento de Bloquetos de Cobrança (Siproc), que apura os valores bilaterais a serem pagos pelos participantes do sistema correspondentes aos boletos de co8 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

brança com valor igual ou superior a R$ 5 mil, utilizando o Sistema de Transferência de Reservas do Banco Central do Brasil. Vale lembrar que temos o Regime Especial de Processamento em Contingência de Participante para Bloquetos de Cobrança (Reproc), serviço de contingenciamento aos sistemas Siproc e Siloc. Financeiro Um dos trabalhos mais falados da CIP foi o Débito Direto Autorizado (DDA), que foi adotado pelos bancos há relativamente pouco tempo. Kavakama É verdade, esse trabalho teve destaque. O DDA viabiliza a apresentação eletrônica de boletos de cobrança nos canais eletrônicos dos bancos. E foi diferenciado em relação aos projetos anteriores. Quando se tratava de TEDs, DOCs e boletos estávamos no núcleo do negócio. Já o DDA passou a ser um grande depositário de dados. Foi um marco significativo, uma plataforma que pode fazer outros serviços para os bancos. Possibilita aos participantes do sistema apresentar e consultar eletronicamente os boletos de cobrança registrados, de seus clientes cadastrados como sacado eletrônico. As informações são consultadas e atualizadas pelos bancos por meio de trocas de arquivos ou de mensagens com a CIP. Financeiro Existe outro caso de destaque da CIP? Kavakama Gostaria de lembrar do Sistema de Controle de Garantias, o SGC. Ele controla as garantias destinadas à realização de operações de crédito, para assegurar que os recebíveis do estabelecimento sejam creditados no domicílio bancário escolhido, de comum acordo entre o estabelecimento e a instituição, independentemente do credenciador que processar as transações. A CIP implantou o SGC em apenas dois meses e meio, atendendo à demanda dos bancos que operam com cartões de crédito e estavam atentos à antecipação de recebíveis, operação de crédito comum principalmente para estabelecimentos comerciais. Desde junho de 2010 acabou a exclusividade no mercado de adquirência e os bancos perceberam que necessitavam de uma centralizadora que mantivesse a certeza de recebimento do fluxo de caixa no domicílio bancário do banco credor do estabelecimento comercial. A CIP conseguiu cumprir essa tarefa.


Financeiro Pode-se dizer que a CIP é uma empresa? Kavakama Sim, a CIP é uma sociedade civil sem fins lucrativos, com 42 bancos cotistas. Oferecemos acesso rápido, simples e ininterrupto a serviços bancários básicos de milhões de clientes dos bancos, a partir dos diferentes canais de acesso disponibilizados pelas instituições financeiras. Financeiro E por que foi criada a CIP? Kavakama Quando se intensificaram as discussões sobre a reforma do Sistema de Pagamentos Brasileiro, o Banco Central avaliou como funcionava o sistema em outros países e verificou que, além do BC, adotava-se uma câmara privada que fazia grande parte das operações. Ao Banco Central ficavam reservados os grandes valores transacionados entre bancos. Para as demais operações, que formam o “varejão”, entra a câmara privada. Foi aí que os bancos concluíram que precisavam de uma entidade como a CIP. Financeiro Como está estruturada a CIP? Kavakama A câmara tem um Conselho de Administração formado por membros do Banco do Brasil, Banco Industrial e Comercial, Bradesco, Caixa Econômica Federal, HSBC, Itaú Unibanco e Santander, que representam os 42 bancos cotistas. Cabe ao conselho estabelecer a orientação estratégica das operações, fixando as políticas e diretrizes gerais da CIP. O conselho conta com o apoio das comissões de assessoramento; acompanhamento contábil e orçamentário; risco operacional, auditoria e compliance; serviços; e tecnologia. Essas comissões são formadas por representantes dos bancos associados. Financeiro Até que ponto a governança é levada em conta pela CIP? Kavakama A CIP é reconhecida pelo sistema financeiro como referência de governança e conformidade com normas, regulamentos e legislação no Brasil. A certificação ISO/IEC 27.001, por exemplo, define os sistemas de gestão de segurança e envolve o mais abrangente escopo de auditoria na América Latina. Além disso, desde sua origem os gestores da CIP realizam mapeamento de riscos, indicadores, medidas de contenção e acompanham os trabalhos fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 9


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dos responsáveis envolvidos em cada processo. A documentação descreve todos os procedimentos das atividades técnicas de TI (Tecnologia da Informação) às condutas pessoais de todos os funcionários. Financeiro Então a governança tem papel de destaque... Kavakama Sem dúvida. Temos como linhas mestras implementar serviços inéditos com prazos exíguos, garantir plena disponibilidade e segurança, agregar resultados e operar com modelo de governança exemplar. Quero lembrar também que, em consequência da importância da segurança da informação para nosso negócio, a CIP é certificada na norma internacional ISO 27.001, como já mencionado.

“Cerca de 53% dos clientes se disseram satisfeitos com o trabalho da CIP e 44% garantiram estar encantados” Financeiro E como a CIP faz para medir a satisfação dos clientes? Kavakama Desde que foi criada, a CIP tem entre suas prioridades a satisfação e a manutenção de atendimento e qualidade. Essa responsabilidade constante exige monitaração e suporte 24 horas por dia. O resultado positivo dessa postura é mostrado na pesquisa de satisfação realizada com os participantes que utilizam seus sistemas. Financeiro Qual é o grau de satisfação mostrado pelos clientes? Kavakama Para citar o levantamento mais recente, 53% dos clientes se disseram satisfeitos com o trabalho da CIP e nada menos que 44% garantiram estar encantados conosco. Foi um resultado muito gratificante. Financeiro E quanto aos custos? Kavakama A CIP sempre deu prioridade à eficiên10 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

cia e consegue repassar seus ganhos de escala aos clientes. Desde a sua criação, a CIP vem diminuindo os valores cobrados dos seus clientes em função do aumento do número de transações e ganhos de produtividade. Nosso modelo é este: ser eficiente e ter ganhos de escala. Financeiro Quais os planos da CIP para 2011? Kavakama Há projetos importantes em vista que serão divulgados em breve. Como meta para 2011 a CIP avança, por exemplo, para obter a certificação BS-25999, norma britânica para Gestão da Continuidade do Negócio. A certificação apresenta um conjunto detalhado de controles baseados nas melhores práticas de continuidade de negócios, englobando todo seu ciclo de vida. E define a potencialidade estratégica e tática da organização para planejar e responder aos incidentes e às rupturas do negócio, para dar continuidade às operações em nível predefinido como aceitável. A CIP vai, também em 2011, continuar a trabalhar em nível internacional com a IPFA. Financeiro Como é esse trabalho internacional? Kavakama Estamos priorizando nossa participação no IPFA (Institute Payments Framework Association), uma instituição internacional da qual somos membros, além de fazer parte do conselho. O IPFA tem como conceito gerar padronização para que se possa fazer transferência de recursos no mundo. Essas transferências seriam feitas em um só padrão global. Financeiro Finalizando, o IPFA já está funcionando a plena carga? Kavakama Sim. Há trabalhos importantes já em prática. As primeiras transações entre Estados Unidos e União Europeia foram feitas, por exemplo. O modelo já está com os bancos daquelas regiões. As transações de baixo valor passam a transitar por essa via, utilizando um padrão global para envio e recebimento de moedas de outros países. É como se houvesse a possibilidade de se criar um “DOC internacional”. f


notasmercado

classE c

Bancos

Domínio do mercado

Acesso ainda é limitado

As famílias da classe C representarão 41% da população em 2020 e terão maior poder de consumidor. É o que aponta um levantamento realizado pela consultoria Plano CDE, especializada no universo das classes C, D e E. Hoje, as classes B e C formam o grupo de maior representatividade, responsáveis por mais de R$ 270 bilhões da decisão de compra. A explicação se deve tanto ao crescimento das famílias desse grupo, que serão 28,7 milhões em 2020, quanto ao aumento constante da massa de renda, cuja participação saltou de 28% para 32%, entre 2002 e 2008.

Aproximadamente 39,5% dos brasileiros não têm conta bancária, o equivalente a 53 milhões de pessoas. A conclusão é do Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS), do Ipea. A maior fatia desbancarizada está no Nordeste, com 52,6% dos entrevistados. Já do total de brasileiros que não têm conta em banco, 40,6% declararam que gostariam de abrir uma e 26,6% se consideram em condição financeira para isso. O levantamento também aponta que, para a população, as instituições bancárias têm como função primordial movimentar e guardar dinheiro (62,1%), enquanto que apenas 4,5% enxergam os empréstimos como papel principal dos bancos.

ExpEctativa

inovação

Otimismo do brasileiro recua em janeiro

Pagamento por celular

A maioria da população (60%) acredita que a inflação vai subir e o número de pessoas que aposta no aumento da renda caiu de 44%, em dezembro de 2010, para 36%, em janeiro de 2011. Os dados são da pesquisa “Índice Nacional de Expectativa do Consumidor” (INEC) feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Realizada entre os dias 13 e 18 de janeiro, o estudo mostra que a confiança do consumidor caiu 1,5% em relação a dezembro de 2010.

EndividamEnto

Brasileiro paga as contas O otimismo do brasileiro em relação ao endividamento futuro melhorou em janeiro deste ano, de acordo com o Índice Nacional de Expectativa do Consumidor. O índice passou de 109,5 pontos em dezembro para 112,1, o que representa um aumento de 2,4%. A pontuação acima de cem significa otimismo e, abaixo da marca, pessimismo. Questionados sobre qual a expectativa para os próximos meses, em relação ao próprio endividamento, 46% dos consumidores afirmaram que terão o mesmo número de dívidas dos últimos três meses.

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A cidade de São José dos Campos, no interior de São Paulo, foi a escolhida para o lançamento da plataforma da Mastercard para pagamentos por celular. Em parceria com o Itaú, Redecard e Vivo, o projeto inicial prevê o credenciamento de mais de mil estabelecimentos para atender cerca de 300 mil consumidores, portadores de cartões Mastercard do banco Itaú. O principal objetivo da nova plataforma é oferecer comodidade aos consumidores e a iniciativa é inédita no mundo. “A escolha pelo Brasil se deve às características da população brasileira, jovem e conectada”, explica Gilberto Caldart, presidente da Mastercard, acrescentando que o potencial de crescimento é grande, incluindo os consumidores desbancarizados que utilizam celular. A partir do sucesso da experiência em São José dos Campos, escolhida por ser um polo de tecnologia e pela importante participação no PIB do Estado, o projeto será expandido para as demais cidades brasileiras.


consumIdor brasIlEIro

Poder de compra aumenta

O poder de compra da população ocupada brasileira apresentou crescimento de 19%, entre 2003 e 2010, equivalente a pouco mais de R$ 238, conforme um estudo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nas seis principais regiões metropolitanas do País. Nestes oito anos, os destaques foram Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Salvador, cujos trabalhadores tiveram um aumento do rendimento médio mensal de 26,5%, 27,5% e 24,4%, espectivamente.

IndústrIa

Indústria paulista cresce 10% em 2010, segundo Fiesp

Com o melhor desempenho em oito anos, a indústria paulista de transformação fechou o ano de 2010 com alta de 9,9% no Indicador de Nível de Atividade (INA), desenvolvido pela Fiesp/Ciesp. Esse desempenho fica atrás apenas do obtido no ano de 2004 (13,2%). Parte desse resultado deveu-se à recuperação da queda ocorrida em 2009 (-8,2%), ano que contabilizou os prejuízos da crise financeira mundial. supErávIt

Governo central fecha 2010 com saldo positivo de R$ 78,96 bilhões As contas do governo central (Banco Central, Tesouro Nacional e Previdência Social) apresentaram superávit de R$ 14,44 bilhões em dezembro, levando o resultado de 2010 a ficar positivo em R$ 78,96 bilhões. O montante representa 2,16% do PIB do ano passado, ficando acima da meta de 2,15%.

InvEstIdor

Bovespa móvel Em janeiro, a BM&FBovespa levou para o litoral paulista o Bolsa Móvel – veículo itinerante da Bolsa – para sanar dúvidas a respeito do mercado de ações. O veículo é equipado com estações de trabalho, ponto de internet com acesso on-line às cotações dos ativos pelo Mega Bolsa (plataforma de negociação para ações da Bolsa), folhetos explicativos e outros materiais didáticos. Com início em 2003, o programa já atendeu 130 mil pessoas no litoral brasileiro.

Educação

USP lança MBA a distância em gestão de negócios A Universidade de São Paulo (USP), um dos principais centros de pesquisa e uma das prestigiosas instituições do país, por meio da Fearp (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto) inicia seu primeiro MBA a distância em negócios. O curso é voltado a executivos de diversas áreas e possui 360 horas de duração. Foi estruturado, contando com um conteúdo inovador, de modo a unir finanças, gestão de pessoas e estratégia. O início do curso se dará em 16 de maio de 2011 e as aulas ao vivo serão realizadas nas quartas-feiras das 20 às 22 horas. O curso foi oficialmente aprovado e será certificado pela Universidade de São Paulo. Foi elaborado no âmbito do NPT (Núcleo de Pesquisa Tecnológica), que fará sua gestão pedagógica. A coordenação do programa é de responsabilidade dos professores Alberto Borges Matias, da área de finanças, Irene Miura, da área de gestão de pessoas e David Forli Inocente, de desenvolvimento de executivos. As inscrições vão até o dia 30 de março. Mais informações em www.mbausp.org.br ou via fone (16) 2111–0250.

fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 13


notasmercado

no mundo

SEGurança

País será a 7ª maior economia

Tentativas de fraude aos consumidores atingem R$ 7,2 bilhões

Confirmada a previsão do Banco Central, o Brasil deve assumir o posto de sétima maior economia mundial, atrás de Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, França e Reino Unido. Nas estimativas da 25ª edição do “O Mundo em 2011”, do “The Economist”, considerando as taxas de crescimento anuais dos Estados Unidos (1,5%), da China (8%), da Índia (6%), do Japão (1%), da Alemanha (1%), da Rússia (4%) e do Brasil (5%), a economia nacional ultrapassaria a da Alemanha por volta de 2018, tornando-se a quinta maior em poder de compra. Indo além, o estudo avalia que, caso a Índia mantenha a sua moeda desvalorizada, o Brasil poderá se tornar a quarta maior economia. Economia Global

Brasil é o terceiro país que mais cresceu No ano de 2010, o Brasil foi a terceira economia mundial que mais cresceu, com 7,3% de alta do PIB, atrás de Cingapura e China que, respectivamente, tiveram uma alta de 14,7% e 10,3%, conforme aponta o relatório “Perspectiva econômica mundial”, do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para 2011, o FMI projeta que a economia global crescerá 4,5%, 0,25% a mais que no ano passado, impulsionada principalmente pelos países em desenvolvimento, com uma projeção média de crescimento de 6,5%, enquanto que nos países desenvolvidos essa média será de 2,5%, um baixo crescimento motivado pelo retrocesso econômico de 2009.

As tentativas de fraude envolvendo consumidores atingiram o total de R$ 7,2 bilhões em 2010. Em dezembro do ano passado, as tentativas de fraudes atingiram R$ 691,1 milhões, crescendo 8,1% em relação a novembro de 2010, conforme dados do Indicador Serasa Experian de Risco de Fraude ao Consumidor. De acordo com o indicador esse foi maior valor mensal do ano, superando os R$ 662,5 milhões registrados em maio do ano passado. Para os técnicos da Serasa Experian, as vendas de final de ano aumentam o fluxo dos consumidores em praticamente todos os canais de negócios, ampliando as oportunidades para os fraudadores aplicarem seus golpes.

crédito

Expansão perante o PIB

País bate recorde

Com uma participação de 46,6% do PIB no final de 2010, a oferta de crédito no País totalizou R$ 1,703 bilhão. Na última década, o saldo das operações de crédito no Brasil mais do que quadruplicou, considerando que no ano 2000 foram disponibilizados R$ 418,258 bilhões em crédito, ou 24,6% do PIB.

O Brasil bateu recorde de investimento estrangeiro produtivo, com a soma de US$ 48,4 bilhões injetados na economia nacional, 86,7% a mais que em 2009. O valor superou as previsões do governo federal para o ano de 2010, estimada em US$ 38 bilhões. O setor que mais atraiu o investimento estrangeiro em 2010 foi o industrial (US$ 19,3 bilhões), seguido pelo primário (agropecuária, mineração e petróleo), que atraiu US$ 18,1 bilhões.

Neste ano, conforme projeções da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a maior oferta de crédito será para as empresas, com um crescimento de 17,6%, enquanto que para pessoas físicas a alta ficará em 16,7%. O motivo é o aumento da demanda das empresas por financiamentos de projetos de infraestrutura, visando à Copa do Mundo, às Olimpíadas e ao pré-sal.

Segundo o Banco Central, o país com mais investimento estrangeiro direto no Brasil no ano passado foi Luxemburgo (US$ 8,6 bilhões), seguido da Holanda (US$ 6,6 bilhões) e da Suíça (US$ 6,4 bilhões).

No ano de 2010, o número de empresas que buscou crédito cresceu 7,6% em relação a 2009, com destaque para as micro e pequenas empresas (alta de 8,5%).

invEStimEntoS EStranGEiroS

14 FINANCEIRO fevereiro/março 2011


livros

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Lições de quem entende

A obra busca proporcionar uma visão aprofundada e realista sobre o mundo financeiro e traz lições, experiências, opi niões e dicas da carreira de um gestor de fundos multimercados. Aborda também técnicas de gestão de recursos e seus novos conceitos de mercado, além de trazer dicas para os que iniciam sua trajetória profissional no mercado de investimentos. Livro “Mundo Financeiro – O Olhar de um Gestor” Autor Alexandre Póvoa Editora Saraiva Páginas 568 Preço sugerido R$ 64

Economia verde

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Regras do mercado

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Até 2015 aumentará para cinco milhões o número de investidores, incorporando segmentos das classes B e C, que tenham rendimentos de até R$ 6 mil mensais. Nesse contexto, é preciso entender as principais normas desse mercado. O título trata, assim, da lei das sociedades anônimas brasileira, considerada uma das mais abrangentes, inovadoras e avançadas do mundo. O consultor jurídico Jorge Lobo une a bibliografia nacional e estrangeira à prática de médias e grandes empresas e do mercado de valores mobiliários do País e do exterior. Livro “Direitos dos Acionistas” Autor Jorge Lobo Editora Campus Elsevier Páginas 456 Preço sugerido R$ 119

O livro esmiúça entraves ambientais comuns em diversos países, apontando soluções para questões como qualidade do ar, água e gestão de resíduos sólidos. Focado nos âmbitos político e econômico, ele detalha ainda métodos analíticos que auxiliam no planejamento e na gestão ambiental global, como modelos de mercado, análise de custo–benefício e de risco para avaliar impactos ambientais. Livro “Economia Ambiental: Fundamentos, Políticas e Aplicações” Autores Janet M. Thomas e Scott J. Callan Editora Cengage Learning Páginas 549 Preço sugerido R$ 92,90

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veículosimportados

Por Juliana Jadon

Crescimento acelerado Com uma elevação de 144% nas vendas no ano passado, as marcas de carros importados comemoram o período. Ainda assim, a participação no mercado de veículos brasileiro (3,18%) é pequena. Para aumentar esse número, as importadoras tentam quebrar barreiras Um sol escaldante esquenta as ruas da cidade de São Paulo. Ficar parado no trânsito já conhecido pelos moradores da capital é quase uma rotina. O cenário não incomoda nenhum pouco o comprador, que sai radiante dirigindo seu carro novo, com câmbio automático e ar condicionado ligado, de uma das lojas da Kia Motors, na avenida das Nações Unidas. A esposa achou o veículo interessante, pois é espaçoso e possui um porta-malas grande para colocar as coisas das crianças. Os dois filhos, um de quatro e outro de sete anos, também gostaram, uma vez que dá para ver o céu pelo teto solar. Ele fez o gosto da família com a aquisição de seu primeiro automóvel importado. 16 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

A importadora brasileira da Kia é a maior no mundo e representa cerca de 3% do total em vendas globais. Somente no ano passado foram cinco novos modelos da coreana colocados no mercado brasileiro. O Cerato foi o modelo da marca mais vendido do ano. Em 2010, as vendas de veículos importados no Brasil cresceram 144,1% em relação a 2009, totalizando mais de 105 mil unidades contra 43 mil do ano anterior. Com isso, a participação dos carros trazidos ao País por empresas importadoras – e não pelas montadoras aqui instaladas – passou de 1,44% do mercado total em 2009 para 3,18% em 2010. Os dados são da Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos


Automotores (Abeiva). Somente em dezembro, as vendas dos associados cresceram 39,6% e os concessionários comemoram o crescimento inesperado. O advento foi espantoso até para as importadoras. Na Audi Brasil, em janeiro de 2010 os gestores estimavam um crescimento de vendas de cerca de 30%. Passados 12 meses, a marca ultrapassou em duas vezes a expectativa, com aumento de 61% em relação ao ano anterior. O crescimento em porcentual está acima de outros mercados que também se destacaram, como a China, por exemplo, com um incremento de vendas 43% superior ao ano anterior. As expectativas da associação também se superaram. No início do ano, a estimativa era terminar

Dos caros, o mais barato Audi A1: Veículo que chega ao País em março, é o primeiro modelo da marca a ser comercializado por menos de R$ 100 mil. Foco é atrair novos nichos de clientes

2010 com 56 mil unidades emplacadas, quase a metade do recorde alcançado. O presidente da Abeiva e da Kia Motors do Brasil, José Luiz Gandini, lembra que até o início dos anos 90 o mercado automobilístico brasileiro basicamente só tinha produtos das marcas Volkswagen, Ford, Chevrolet e Fiat, num total de cem modelos. Com a chegada dos importados, o consumidor teve mais opções: são mais de 800 versões. “Hoje o consumidor não tem qualquer tipo de restrição na aquisição de veículos importados. Além disso, são mais completos nos quesitos luxo, premium e esportivo, e possuem inovação tecnológica, design e preços competitivos”, diz. fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 17


veículosimportados

O BMW Group Brasil – que representa as marcas BMW, Mini e vendas comparado Motorrad – trouxe novos produtos ao ano anterior ao mercado e desenvolveu estratégias referentes às vendas e ao marketing Audi............................... 61% no País. Em comparação com 2009, a BMW.............................. 55% Kia Motors ................ 125,5% alta nas vendas foi de 55% para a marca BMW no ano passado, 68% na de Ary Jorge Mini e 117% na de Motorrad – a divisão de motocicletas. Ribeiro, da Kia Motors “Com isso, assumimos a liderança no segmento premium “Importadora em 2010, tendo entregue aos clientes mais de 8,1 mil unibrasileira é dades de BMW, 1,7 mil Mini e 3,5 mil motocicletas”, diz o a maior no mundo e diretor-presidente do grupo, Henning Dornbusch. representa 3% A marca, conta Dornbusch, passou a oferecer produdas vendas globais” tos de financiamentos em parceria com a BMW Serviços

Crescimento nas

Financeiros (divisão financeira do grupo), inaugurou novos pontos de vendas e nomeou outros concessionários no País. “Esses fatores, aliados a diversas reuniões com as revendas objetivando transparência, além da realização de treinamento com as equipes de vendas, contribuíram para o crescimento das vendas no País”, considera. Para 2011, a estimativa para o mercado é bem otimista. Diante dos resultados, a Abeiva projeta um crescimento de 57%, passando de 105 para 165 mil unidades vendidas. “Queremos repetir a dose e dobrar o número de veículos comercializados para seis mil unidades entregues”, diz o diretor comercial da Audi, Leandro Radomile. Segundo Ary Jorge Ribeiro, diretor de vendas da Kia Motors, o planejamento estratégico da marca no Brasil,


José Luiz Gandini, da Abeiva “Hoje não há restrições para o consumo de veículos importados”

Henning Dornbusch, da BMW “Descobrimos uma fórmula para aumentar as vendas sem perder os valores da marca”

nos últimos anos e para os próximos, aponta um crescimento maior do que o mercado irá apresentar. Em 2009, a empresa cresceu 25%; em 2010, 125,5% e em 2011 deve crescer cerca de 85%, enquanto que a indústria automobilística nacional cresceu 10,6% em 2010 e, neste ano, deve ter elevação entre 5 e 6%. “Isso é viável por conta do lançamento de novos produtos, aliado a preços competitivos e benefícios, como a garantia estendida de cinco anos ou cem mil quilômetros”, avalia. Gosto nacional

“O consumidor brasileiro gosta de carros bonitos, equipados e que chamam atenção pelo design”, assinala Ribeiro, da Kia. Cerca de 60% dos compradores de carros da marca são homens, mas, muitas vezes, o carro sai da loja com um nome masculino, mas é a mulher quem o dirige. Segundo Ribeiro, o grau de influência das mulheres na decisão de compra chega a 75%. As crianças também opinam. Preferem carros espaçosos e com teto solar. O pai evidentemente quer fazer o gosto da família, como no exemplo do início desta matéria. Atualmente, a Kia Motors do Brasil possui 142 concessionárias plenas. Até março serão 165. O Sudeste concentra a maior parcela das vendas. Para chegar aos clientes é preciso estar perto. A Audi investiu na capilaridade dos pontos de vendas que passa-

ram de 17 para 22 unidades. Além disso, num projeto ambientação, todos os showrooms foram reformulados, com novas mobílias e iluminação. O carro mais vendido em 2010 foi o A4. O modelo de entrada sai por R$ 134,9 mil e pode chegar a R$ 229 mil. Cerca de 99% das vendas estão concentradas no modelo de menos valor. Os carros que vem para o Brasil são selecionados dentro de um leque de ofertas oferecidas na matriz alemã, de acordo com as características que o consumidor brasileiro preza. “Os brasileiros gostam de carros repletos de funcionalidades e tecnologia. Incluímos nos modelos que vem ao Brasil conexões bluetooth para celular, por exemplo. Na Europa, os carros que trafegam nas ruas não possuem tantos acessórios quanto os daqui”, compara o diretor da Audi.


veículosimportados

Tecnologia, design e atendimento personalizado não bastam. As importadoras perceberam que também é preciso conquistar pelo bolso. A aposta do ano para a marca no Brasil é o novo A1. Na Alemanha – país-sede da empresa –, ele foi o grande protagonista do bom desempenho em 2010, quando a empresa entregou por lá cerca de 229 mil unidades. O veículo que começa a ser comercializado em março deste ano é o primeiro da marca que pode ser encontrado por menos de R$ 100 mil. O “modelo de entrada”, assim como são chamados os carros com valor mais baixo, custa R$ 89,9 mil e já é vendido para os brasileiros que se propõem a aguardar a chegada ao País. O A1 está exposto em toda a rede de concessionários Audi. Existe um em cada ponto de venda. “No mercado de veículos, R$ 1 mil de diferença no preço ofertado atrai novos nichos de clientes. Até o ano passado, o nosso modelo mais barato custava R$ 110 mil. Esperamos que esse carro seja a porta de entrada de muitas pessoas para a marca Audi”, estima o executivo. Após uma pesquisa com os clientes, a BMW criou pacotes mais econômicos, colocando teto solar como opcional em alguns modelos, misturando couro com tecido e incluindo um motor menos potente nos carros, antes não utilizado pelos veículos da marca. “Descobrimos uma fórmula para aumentar as vendas sem perder os valores da marca e a percepção da mesma pelos nossos clientes”, revela Dornbusch. Em todas as marcas verificadas nesta reportagem (Kia, BMW e Audi), os clientes trocam de carro, em média, a cada dois anos. Essa periodicidade muda de acordo com o valor do bem. Segundo Radomile, carros mais caros são usados menos vezes pelo cliente – geralmente aos fins de semana ou em ocasiões especiais – e, assim, o

Leandro Radomile, da Audi “Em 2011 queremos repetir a dose e dobrar o número de veículos comercializados”

No ato da compra Os carros importados geralmente são comprados à vista, tendo como entrada outro veículo. Na Audi, cerca de 80% das vendas são dessa maneira e o restante (20%) são financiados. Atualmente, na BMW, metade da compra é feita à vista e a outra parte financiada. A Kia também possui a maioria dos consumidores pertencente às classes A e B. Cerca de 55% compram o carro à vista. E o restante (45%) a prazo, em 24 meses. O consumidor que compra a prazo dá uma entrada equivalente entre 45 e 60% do valor total do automóvel.

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usuário fica com o produto cerca de três ou quatro anos. “Com um ritmo acelerado de lançamentos, pretendemos abrir oportunidades para os clientes que trocam rapidamente seus carros”, expõe o executivo. O diretor-presidente da BMW explica que o público consumidor da marca é extremamente exigente e bem informado. Não apenas por se tratar de um produto premium, mas porque, em sua ótica, o valor agregado é primordial. Preço, tecnologia, design, capilaridade e atendimento personalizado. As importadoras de veículos vão se focar nestes pilares para conquistar o brasileiro. “Esse consumidor valoriza o atendimento recebido no momento da compra e principalmente na área de pós-vendas sempre que necessitar reparos em seu veículo. Ele quer e deve se sentir especial, receber atenção personalizada, além de ‘mimos’ inesperados, o que causa satisfação a ele”, encerra. f


entrevistaboavistaserviços

Serviços personalizados Dorival Dourado, presidente da Boa Vista Serviços, conta como a recém-criada empresa, que passa a gerir o Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), pretende conquistar mercado Por Juliana Jadon

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e o incentivo à inovação são fatores-chave para a criação e manutenção de uma empresa sólida, confiável, parceira dos clientes e com capacidade de levar soluções inovadoras ao mercado. Acompanhe entrevista exclusiva com o gestor à Financeiro. Revista Financeiro A Boa Vista Serviços já nasce com o apoio da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), empresa com mais de cem anos de mercado. Quais são os principais pontos que demonstram seu potencial? Dorival Dourado Um dos nossos valores é a qualidade e a competência dos acionistas. Por um lado temos a Associação Comercial de São Paulo, entidade com referência na defesa da livre iniciativa e do empreendedorismo no Brasil. Muito do que foi conquistado nesses 116 anos de existência é fruto do envolvimento associativo representado por ela. A Boa Vista nasce, assim, com o envolvimento associativo ao lojista brasileiro, e esse é um fator de diferenciação. Temos também o fundo TMG Capital, considerado jovem dentro do mercado de private equity, porém com uma história de realização significativa que, junto ao corpo diretivo, trabalha com posicionamento estratégico. Outros parceiros são o Clube dos Dirigentes Lojistas do Rio de Janeiro e de Porto Alegre, e a Associação Comercial do Paraná, que trazem uma parcela significativa

Foto: Douglas Luccena

São somente três meses de vida e ela já quer competir com as maiores. A favor, a Boa Vista Serviços tem uma bagagem de conhecimento, história, participação e envolvimento com o mercado de mais de 116 anos. Criada em novembro de 2010, a empresa nasce com o apoio da centenária Associação Comercial de São Paulo (ACSP), tendo como sócio-gestor o fundo brasileiro de private equity, TMG Capital. Inicialmente foram investidos R$ 220 milhões na empresa. A nova organização reúne informações comerciais de mais de 130 milhões de consumidores e empresas dos mais variados segmentos e portes, espalhadas pelo território brasileiro, devido à gestão do SCPC. Por mês, são realizados cerca de 145 milhões transações por meio do SCPC, atendendo um milhão de clientes. No comando da companhia está Dorival Dourado, executivo brasileiro que foi destaque global na Experian e possui experiência no setor de serviços, tecnologia e crédito. Com uma rotina de trabalho que pode levar 12 horas, devido à sua dedicação Dourado assume que se sente realizado no posto. Ele, diariamente, faz a “evangelização” da empresa por meio de conversas com clientes que levam na pauta os sonhos e desafios da recém-criada empresa. Na Boa Vista Serviços, a diretoria trabalha num ambiente aberto e interativo. Para Dourado, o capital humano


Dorival Dourado, da Boa Vista Serviços “Cerca de 80% da nossa verba será direcionada à ampliação da capacidade de atendimento”


entrevistaboavistaserviços de informações de outras regiões do Brasil. Trabalhamos para ampliar essa rede de parceiros, que conta com 2,2 mil entidades. Temos cerca de 700 funcionários, com um parque tecnológico de última geração e um portfólio de 34 produtos. Até o final no ano devemos lançar de 15 a 20 novos produtos. Financeiro Você foi um dos executivos com grande destaque na Experian. Como pretende repetir o feito na presidência da Boa Vista Serviços? Dourado Qualquer empresa do setor deve se mover com a premissa de entender como ajudar os clientes a melhorar o ciclo de negócios, a serem mais efetivos nas decisões, tomando-as com mais qualidade no menor prazo possível e com boa relação custo–benefício. O meu trabalho sempre foi pautado nesse pensamento. Aqui na Boa Vista Serviços não será diferente. A empresa está se posicionando como uma provedora de informações, com um portfólio de serviços de valor agregado.

“A nova organização reúne informações comerciais de mais de 130 milhões de consumidores e empresas dos mais variados segmentos e portes” Financeiro Que diferenciais essa empresa passa a oferecer ao mercado? Dourado Nossa capacidade de conquistar mercado está na característica de entender o cliente, seu porte, o segmento em que atua e em que momento do ciclo de negócios ele se encontra para, a partir disso, prover a solução. Não trabalharemos com uma solução para qualquer tipo de problema, como normalmente as grandes empresas fazem. O mercado não é pasteurizado. As empresas podem ter os mesmos problemas para resolver, mas devido a características únicas precisam de soluções personalizadas. Nós focamos nessa capacidade de construção partilhada com o cliente. Acredito que com o nosso conhecimento e tecnologia e os dos clientes somados, dois mais dois será igual a sete. 24 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

Financeiro Os novos produtos serão voltados somente ao mercado creditício ou a Boa Vista tentará conquistar novos nichos? Dourado Nossos clientes estão separados por porte e segmento. Eles apresentam necessidades diferenciadas que podem ser atendidas por outros tipos de soluções desenvolvidas pela Boa Vista. Temos a capacidade de entender o núcleo do modelo tecnológico para crédito, mas ele é composto por tecnologias, soluções e software que podem ser transportados para outras áreas de negócios. É nesse sentido que trabalhamos. Já estamos capacitados e estaremos ainda mais a prestar um serviço chamado de end-to-end. Vamos cobrir diversas necessidades e demandas de negócios. Financeiro Dê exemplos. Dourado O mais clássico é uma empresa, seja do varejo, da indústria ou do sistema financeiro em que identificamos aplicações complementares que ajudam a ter uma decisão mais correta. São soluções que visam fazer com que o cliente aumente de maneira significativa o desempenho do seu negócio. A característica da Boa Vista é a possibilidade de desenvolver soluções sob medida, baseadas no seu acervo de conhecimento, de tecnologias e, entendo, a demanda do nosso cliente. Financeiro Quais os seus principais desafios no cargo? Dourado Os principais desafios estão centrados principalmente na criação de um modelo que priorize o foco no cliente e a geração de valor para o mesmo, incentivando ao mesmo tempo o desenvolvimento de talentos. Somos uma empresa de capital humano centrado no conhecimento. Outro fator relevante é crescer de forma sustentada. Bolhas de crescimento de receita e de ampliação do nosso mercado são fáceis de criar. Mas não estamos nele de maneira transitória. A Boa Vista é uma empresa que chegou para se posicionar e ter uma longa vida na prestação de serviços, sendo reconhecida por qualidade e inovação. Financeiro Como a Boa Vista Serviços está equipada tecnologicamente? Dourado O nosso negócio é direcionado para as inovações nas mais diferentes dimensões que a palavra permite.


Desde a gestão para produtos, serviços, relacionamento e, principalmente, inovação em modernidade tecnológica. A nossa indústria está estruturada em três pilares: pessoas (capital intelectual), tecnologia (inovação) e dados. Investimos significativamente na modernização da infraestrutura tecnológica. Cerca de 80% da nossa verba ao longo do ano será direcionada a evoluções e modernizações que envolverão, entre outras coisas, a ampliação da capacidade de atendimento. Financeiro Qual o papel da tecnologia na Boa Vista? Dourado Tecnologia é um ponto-chave para essa indústria e procuramos trazê-la para a frente do negócio. Essa junção da tecnologia com as áreas de negócios pode ser o nosso fator de diferenciação com o mercado. Cada um cumprindo o seu papel, mas trabalhando de forma integrada. Estamos capacitados a ampliar de maneira significativa nossa oferta para o mercado. No final do ano, triplicamos a capacidade de processamento com a última versão das tecnologias disponíveis para processamento transacional. Numa transação típica de negócio, reduzimos em 60% o tempo de processamento e resposta. Essa é a principal medida que o cliente tem como percepção na ponta. Aproveitamos a mesma janela de tempo para ampliar o número de interações e simulações que o cliente executa. Financeiro Outros fundos, além do TGM Capital, se interessaram na companhia? Dourado Sou um executivo contratado para administrar a Boa Vista, e comecei a trabalhar junto à inauguração da empresa em 1º de novembro. Como um estudioso do meio, digo que o número de players internacionais no setor é maior do que o de empresas que temos no Brasil, e ainda existem muitas barreiras para entrarem. Envolvem questões regulatórias e o entendimento das demandas específicas de cada região. As características que se encontram na economia de outros países e também no processo de aquisição de dados também são divergentes. O mercado brasileiro apresenta nesse momento crescimento de dois dígitos, só comparado com o da Ásia. A relação crédito–PIB ainda está fora do benchmark mundial. O Brasil está com menos de 50% nessa relação, sendo que, na maior parte do mundo, e sem o crédito imobiliário, chega a 100% do PIB. fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 25


entrevistaboavistaserviços O mercado brasileiro está num momento de inflexão com relação ao crescimento e à expansão do crédito. Assim, é natural que entre na rota de empresas que operam nesse segmento. Várias que não estão no País avaliam formas de participar desse desenvolvimento. Financeiro A Boa Vista Serviços pretende abrir capital na BM&FBovespa nos próximos anos? Dourado Os acionistas possuem no planejamento um projeto de sete anos com essa perspectiva de abertura de capital, por meio de uma Oferta Pública Inicial (IPO). Financeiro Estão abertos a fusões? Dourado Trabalhamos com modelo de inovação aberta. Uma empresa como a nossa precisa estar antenada com o que está ocorrendo no mercado e em como, cada vez mais, incorporar novas tecnologias e conhecimentos específicos, desenvolvidos no mercado nacional e internacional. Temos pessoas dedicadas a pensar e a pesquisar o que acontece na indústria que de alguma maneira tem relação com o mercado de crédito. O grupo de pesquisa e desenvolvimento está atento. E, claro, sempre que fizer sentido, vamos capturar esse valor.

“O mercado está polarizado, o que não é benéfico. Os clientes precisam de alternativas e queremos ser uma”

Financeiro Como pretendem ganhar mercado perante os concorrentes? Dourado Nós não temos no Brasil nenhum método efetivo que dê percepção real de market share das empresas que operam nesse segmento, pela diversificação de produtos e complexidade. Dependendo do ângulo em que você olha, pode haver conclusões diferentes de market share. No geral, somos o segundo colocado. Já no que se relaciona às informações de pessoa física e de população não bancarizada, temos a base de dados mais completa no Brasil. Financeiro Quais as principais expectativas da empresa? Dourado Este ano teremos um crescimento significativo, com a ampliação da base de clientes, renovação de portfólio de produtos e o mercado ficará surpreso com a nossa capacidade de inovar. Isso não é uma promessa, mas uma avaliação do trabalho que é feito. No médio e longo prazo esperamos consolidar a Boa Vista como a empresa genuinamente brasileira, criadora da rede verde e amarela de informações, alinhada à demanda do mercado brasileiro, com um grande foco no varejo, no qual está o nosso DNA. Nossos planos estão estruturados para atender a esses objetivos. O mercado está polarizado, o que não é benéfico. Os clientes precisam de alternativas e queremos ser uma. Financeiro Como você avalia o Cadastro Positivo no País? Dourado Houve a aprovação do Cadastro Positivo no início de dezembro, quando o governo federal vetou e criou uma Medida Provisória (MP). Esse processo aconteceu justamente por não seguirmos uma linha a qual defendemos, que é uma discussão ampla e irrestrita com relação aos benefícios do Cadastro Positivo no longo prazo e como a sociedade brasileira como um todo (cidadãos, entidades de classe, órgão de defesa do consumidor, iniciativa provada, birô de informação) podem construir essa realidade. Não discutimos um projeto brasileiro, mas algo genérico. Perdemos, assim, uma oportunidade para mudar de patamar e elevar o nível de discussão. Existe uma Medida Provisória que precisa ser regulamentada. Defendemos uma abordagem de construção coletiva de conhecimento, com a definição de um modelo brasileiro. f


artigoconsumidoremergente

O consumidor de verdade é da classe C A classe C ou a nova classe média brasileira, responsável pelo consumo de R$ 881, 2 bilhões em 2010, ainda representa um enigma para parte dos executivos, que insisPor Renato Meirelles tem em vender seus produtos para o topo da pirâmide, como se os consumidores emergentes fossem um nicho de mercado, ao invés do que realmente são, o próprio mercado. Essa transformação não aconteceu da noite para o dia, e de oito anos para cá foi possível constatar o aumento do poder de consumo entre as classes sociais. A estabilidade econômica permitiu o aumento dos empregos formais, da renda e possibilitou o acesso ao crédito, que colocou nas mãos dos emergentes a oportunidade de transformar seus sonhos em realidade palpável. Os programas sociais do governo federal, como o Bolsa Família, também contribuíram para tirar muitas famílias da linha da miséria. O resultado foi uma intensa migração entre as classes sociais, com mais ênfase entre as famílias da classe E que subiram para a D e da D para C, criando uma classe de novos consumidores ávidos para comprar bens antes nunca cogitados.

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A TV de plasma, a geladeira duplex, o computador e o celular duo chip passaram a integrar a lista de consumo dos emergentes e hoje em dia já são itens frequentes nos lares da nova classe média, como nós do Data Popular chamamos o “Brasil de verdade”. Do montante de R$ 2,2 trilhões gastos pelos brasileiros em 2010, a classe C se destaca com seus R$ 881,2 bilhões, quase o total gasto pelas classes A e B juntas, de R$ 910,7 bilhões. A base da pirâmide, representada pelas classes D e E, gastou R$ 408,5 bilhões. Um volume bastante representativo, se ainda considerarmos que a massa salarial, especificamente da população da classe D, já ultrapassa a da B em 16%. Famílias que ganham entre R$ 511 a R$ 1.530 têm para gastar aproximadamente R$ 381,2 bilhões, enquanto que os pertencentes à classe B, com renda entre R$ 5.101 e R$ 10.200, dispõem de R$ 329,5 bilhões para o consumo. Todo esse volume destinado às compras tem como fonte a renda dos consumidores, bem como seus rendimentos e benefícios e, em grande parte, o crédito concedido no mercado que, atualmente, são exatamente as famílias de baixa renda quem mais o utiliza. Para se ter uma ideia, apenas em relação ao cheque


especial e cartão de crédito, a participação da classe D e E é de 25% e 23,2%, respectivamente, enquanto que entre os membros da classe A e B essa participação fica em 15,8% e 13,5%. Em maior porcentual, a classe média responde por 61,5% do crédito utilizado no cheque especial e por 61% no cartão de crédito. Com crédito farto e grande participação da baixa renda na sua contratação, muito se especula sobre o endividamento da população. É fato que os índices de endividamento aumentam ano a ano em relação ao PIB. Porém isso não significa um crescimento do endividamento individual, mesmo porque deve ser considerado que houve uma expansão na base de tomadores de crédito. Na prática, os índices de inadimplência não têm aumentado.

O crédito é uma corda que pode servir para o consumidor alcançar patamares mais altos do seu desenvolvimento Porém o que deve haver são iniciativas de caráter educativo para que os consumidores sejam tomadores de crédito conscientes, sem comprometerem suas rendas. Iniciativas como a da Febraban, com o portal Meu Bolso em Dia, trazem grandes lições nesse sentido. É preciso haver um novo papel do crédito sem que isso signifique privação. A nova classe de consumidores não quer esperar. Quer ter o bem. O desafio é fazer bom uso do crédito como um indutor da economia, sem que seja um complicador para a população, acarretando endividamento. Em outras palavras, o crédito é uma corda que pode servir para o consumidor

Participação do crédito CONtA CORRENtE

CARtãO DE CRéDItO 13,5%

15,8% 23,2%

25%

61%

61,5%

Classes A e B

Classe C

Classes D e E

Potencial de compras do consumidor ANO DE 2002

ANO DE 2010

16%

19% 40%

58% 26% 41%

Classes A e B

Classe C

Classes D e E

alcançar patamares mais altos do seu desenvolvimento profissional ou para ele se enforcar. O consumidor precisa saber usar o crédito para comprar bem e poder comprar sempre. A dica é ensiná-lo a fazer um planejamento financeiro, despertá-lo para a necessidade de poupar de forma que as suas compras sejam prazerosas, sem aquele receio de não saber como arcar com os compromissos assumidos. E esse é um papel de toda a sociedade! f Renato Meirelles é sócio-diretor do Data Popular Twitter.com/DataPopularRM

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educaçãofinanceira

Réplic Depois de a Mastercard

levar o programa “Consumidor Consciente” à comunidade de Paraisópolis, o desafio é multiplicar a ação em outros locais e cativar parceiros para se unirem à iniciativa

Por Juliana Jadon

Andréa Denadai, da Mastercard “Em 2010, encontramos o caminho para a educação financeira. Agora daremos continuidade”

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Carros de som e cartazes convidavam os moradores da comunidade de Paraisópolis, em São Paulo (SP), a fazer aulas de educação financeira. A euforia chamou a atenção da população, mas poucos compareceram nas palestras realizadas no final de 2007. Dessa época, Andréa Denadai, vice-presidente de comunicação da Mastercard e a principal responsável pelo programa “Consumidor Consciente” no Brasil, aprendeu a lição: “É melhor levar a educação até as pessoas, de maneira focada, do que esperar que venham para um evento desses”, ensina. No ano passado, o programa ultrapassou essa barreira. Andréa e a equipe envolvida conversaram com a diretoria das oito escolas da região e levaram educação financeira para onde estava o público-alvo. Os escolhidos foram jovens, do segundo ano do ensino médio, que começavam a entrar no mercado financeiro e a conquistar o primeiro emprego. Com as palestras ministradas nas próprias escolas, a Mastercard atingiu diretamente cerca de 300 adolescentes. Agora, Andréa e a empresa querem multiplicar o feito em outras comunidades, nas instituições financeiras e no comércio, por meio de parcerias.


as do bem Algumas delas já foram seladas. Uma com a rede varejista Pernambucanas. Os executivos da cadeia de lojas selecionaram três temas relacionados ao uso do cartão e criaram uma brochura do “Consumidor Consciente” que passou a ser enviada junto com fatura do cartão da loja. Numa outra parceria, essa com o Banco de Brasília (BRB), a instituição colocou cerca de 30 mil cartilhas na rede de agências, com as informações vindas do projeto. Segundo Andréa, o objetivo é mais amplo do que ensinar o uso correto do cartão. “Queremos educar no sentido de mostrar que não se deve gastar mais do que se ganha e que é preciso economizar e poupar para o futuro. Estando, assim, preparado para eventualidades que possam influenciar a vida financeira”, explica.

Lições Quando a Mastercard iniciou o programa no Brasil, o México também foi beneficiado. Andréa e os envolvidos percebiam que as economias nos dois países estavam amadurecendo e saindo de um patamar de pobreza para a geração de uma sociedade ao consumo maior em que uma nova faixa da população começava a ter acesso a bens e a crédito. Embora a Mastercard não seja uma empresa financeira, mas, sim, uma rede tecnológica que está no meio de uma cadeia formada por consumidores e estabelecimentos comerciais, Andréa explica que é importante para toda a sociedade trabalhar com a educação financeira.


educaçãofinanceira

Ricardo Pereira e Conrado Navarro, do Blog Dinheirama, ministram palestra sobre educação financeira

Nos estudos feitos antes do lançamento do programa na América Latina, a conclusão foi que a cultura financeira era muito baixa no Brasil. “Isso ocorre porque viemos de anos de inflação alta em que não existia a ideia de investimento para o futuro. As pessoas recebiam o salário e gastavam porque o papel perdia o valor rapidamente. Hoje, à medida que a classe C inflou, precisamos pensar nesse tema”, avalia a vicepresidente. A internet é um dos principais canais de comunicação e aprendizado do projeto. Em 2009, foi

Dicas “As pequenas e médias instituições financeiras que querem ter um projeto semelhante ao nosso devem fazer parcerias com empresas ou ONGs que já atuam nesse sentido. Começar do zero pode acarretar em gastos desnecessários e não dar certo”, aponta Andréa.

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criado um blog no portal “Consumidor Consciente”, com os consultores Ricardo Pereira e Conrado Navarro. Eles fazem parte de um dos blogs mais conhecidos do País em finanças pessoais, o Dinheirama. Os dois atualizam a página da marca semanalmente com o intuito de levar novidades relevantes aos leitores. Um segundo passo dado com sucesso no ano passado foram as gincanas de educação financeira. Os especialistas também ministram as palestras nas escolas e divulgaram o site e o blog para os alunos se prepararem para a ocasião. A Mastercard premiou os representantes das escolas com aulas de inglês. Das 20 perguntas só erraram duas. “Isso envolveu os alunos as escolas e a comunidade. Em 2010, encontramos o caminho para a educação financeira. Agora daremos continuidade”, finaliza. f


artigo artigoeconomia

A dinâmica do crédito

nos próximos anos O mundo se transforma radical e velozmente. A dinâmica da mundança Por Nicola Tingas global não poupa nada e nem ninguém. A concorrência é intensa e crescente, demandando dos agentes econômicos, sociedades e países uma permanente transformação de valores, princípios, formas, conteúdos, tecnologia e muita inovação. No Brasil, os desafios são amplos e as prioridades múltiplas, requerendo um novo padrão de educação e formação profissional, o incentivo ao empreendorismo e às novas 34 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

formas de trabalho e renda, a redução do custo Brasil, a refundação e redução da carga tributária nacional, a estruturação e implantação rápida de novos modelos de negócio. As agendas de investimento, tecnologia e inovação são extensas. Priorizam a realização de grandes projetos e/ou focos de produção e serviços, tais como: infraestrutura, energia, exploração de petróleo, transportes, estradas, portos, aeroportos, química, construção, telecomunicações, hotelaria, serviços etc.


A ampliação da capacidade de oferta agregada da economia brasileira (PIB potencial) depende de avanços efetivos nessa extensa agenda de investimentos, avanços institucionais e estruturais. Realizado isso, nos próximos anos será atingido um patamar de crescimento sustentado de 7 a 9% ao ano, contra estimados 4,5% no ano atual. A mudança da oferta estrutural da economia brasileira permitirá que esse maior crescimento do PIB absorva a crescente demanda de consumo doméstico, sem prejudicar os parâmetros de estabilidade e crescimento econômico no longo prazo. Para tanto, será determinante ter firme disposição, assertividade e racionalidade nas políticas públicas, forte investimento privado e o estabelecimento de ampla confiança entre os agentes econômicos para, assim, condicionar um ambiente de expectativas favorável à realização do ciclo de investimento para desenvolvimento da economia. O cenário mais provável para a economia brasileira nos próximos anos é de ocorrer uma escalada na expansão do investimento produtivo e de serviços, e manter-se a continuidade da forte ampliação do consumo doméstico. O financiamento desse ciclo de expansão será amplamente possível, dada a abundância de capital financeiro global em busca de oportunidades de alto retorno com baixo risco, como é o caso do Brasil. Para o investimento, o setor financeiro tem sinalizado, por meio dos bancos de atacado e do mercado de capitais, que as fontes locais são insuficientes e que os recursos terão, em grande parte, origem internacional: investimento direto, fusões e aquisições, colocação de dívida soberana e privada, organismos multilaterais de fomento etc.

Para o consumo doméstico, o financiamento continuará sendo essencialmente por meio de fontes de recurso local: por meio de emissões de títulos de direito sobre crédito futuro para lastro de captações, aportes de capital pelos acionistas, cessão de créditos etc. Na prática, a questão principal não é de obter mais recursos; mas, sim, onde e como distribuí-los melhor ao longo desta nova década. O desafio atual é identificar o perfil, a dinâmica e os nichos da demanda de crédito para investimento e demanda de crédito para

Nos próximos anos será atingido um patamar de crescimento sustentado de 7 a 9% ao ano, contra estimados 4,5% no ano atual consumo doméstico. O mercado precisa entender toda essa nova demanda e estruturar antecipadamente o que será oferecido aos investidores e consumidores em termos de crédito: perfil de risco, custo, prazo, garantias, volume etc. Este é o momento vital para que o setor financeiro público e privado, o Banco Central e demais organismos financeiros atuem com vontade e determinação na identificação do perfil futuro da demanda, no planejamento e na estruturação de um sistema de crédito capaz de atender com transparência e eficiência a realização do ciclo de expansão e desenvolvimento social da economia brasileira dos próximos anos. Estão todos convidados. Principalmente o investidor e o consumidor brasileiro. f Nicola Tingas é economista-chefe da Acrefi fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 35


pordentrodovarejo

Crescimento Consistente Novo CEO do Grupo Dadalto traz na bagagem vasta experiência do mercado corporativo. Pessoal bem treinado e alinhado com as metas das empresas são os focos do sucesso da sua gestão Por Karin Fuchs No mercado corporativo, cada executivo tem um perfil de gestão e, em comum, o que os move são os desafios. No caso de Antônio Machado, que, desde o segundo semestre de 2010, é o CEO do Grupo do Dadalto, grandes desafios não apenas fazem parte de seu currículo como também estão no seu DNA. Primeiro foi na American Express, na qual comandou o processo de abertura dos centros de operações nos Estados da Bahia e do Rio de Janeiro. Em seguida, liderou na Tim a construção e estruturação de empresas do grupo no País, nos Estados da Bahia, de Sergipe e de Minas Gerais. O sucesso rendeu a ele a participação em um megaprojeto da Vivo, quando a Telefônica Celular se unia à Portugal Telecom, em mais um processo de reestruturação de uma empresa. Antes de chegar ao Grupo Dadalto, Machado foi vicepresidente de operações do Ponto Frio. Após 30 anos seguindo o mesmo modelo, mudaria totalmente a sua gestão, substituindo toda a sua equipe de executivos. Ao longo dessa trajetória profissional e de muita bagagem, a principal lição aprendida, segundo o executivo, foi que times, quando estão bem qualificados, com boa atitude e bem direcionados, são capazes de fazer qualquer coisa. Eis a experiência que ele levou para o Grupo Dadalto. Confira nesta entrevista quais são as metas e objetivos no comando do grupo. Revista Financeiro Como foi essa nova transição em sua carreira para o Grupo Dadalto? 36 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

Antônio Machado Nos últimos dois anos, o grupo está passando por um processo de transformação profunda, para um modelo de consolidação e modernização que envolve os conselhos de sócios e administrativo (formado por membros externos e acionistas). Primeiro foi com a contratação de uma consultoria especializada e, depois, com a contratação do time de executivos, do qual eu sou o CEO. Financeiro Quais são as principais metas e desafios? Machado Os desafios são o crescimento consistente, com rentabilidade, e garantir que durante o processo de transição não haja dispersão, de forma que o grupo tenha foco e se mantenha alinhado com o direcionamento. Financeiro Da sua experiência, o que colocará em prática para manter esse foco? Machado Aplicarei no grupo o aprendizado de que times qualificados, com boa atitude e bem direcionados, são capazes de fazer tudo. A mobilização de pessoas é o caminho certo, com pragmatismo no acompanhamento de resultados para fazer com que os desafios sejam concretizados. Financeiro Quais as complexidades em gerir um grupo que opera ao mesmo tempo no varejo e como financeira? Machado Tudo começa pelo entendimento da dinâmica de resultado. A partir do momento que você identifica como gerar valor e a quais pontos devem se atentar já está


estabelecendo as bases de gestão. No dia a dia, as empresas do Grupo Dadalto são vistas e tratadas como universos de negócios independentes e os resultados têm métricas próprias. Já a estrutura de apoio é única para todas.

consignado também cresce junto aos empréstimos pessoais. Ambos são empréstimos pessoais, o que muda é a forma de pagamento.

Financeiro Há similaridades? Machado O que muda é o que se comercializa. No varejo mercantil, são produtos tangíveis e, na financeira, são produtos financeiros. Em ambos os casos você lida com o grande público. Porém os resultados das operações, assim como a dinâmica, são diferentes, o que requer gestões próprias.

Financeiro Quais são os principais benefícios aos clientes em contratar crédito diretamente na Dacasa? Machado Temos capilaridade, com a maior rede de lojas nas regiões que atuamos como financeira, no Espírito Santo e na Bahia. Além de atendermos o cliente com rapidez, nossa financeira é a única na qual ele sai da loja com o dinheiro no ato e, logo na vitrine, já se depara com simulações de valores de empréstimos e das prestações.

Financeiro Quais as linhas de crédito disponíveis pela Dacasa Finaceira? Machado Temos os cartões com bandeira própria, linhas de financiamento como empréstimo pessoal, CDC e crédito consignado e cartões com outros varejistas. Financeiro Das linhas citadas acima, quais as que têm maior participação nos negócios da Dacasa Financeira? Machado Cartão de crédito é o que tem maior participação e o que mais cresce. O mundo está migrando para o dinheiro eletrônico e seguimos essa tendência. O crédito

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Financeiro No segmento varejista, presenciamos movimentos de fusões e aquisições. Esse tipo de transação faz parte dos planos do grupo? Machado Não queremos adquirir empresas. Mas pode acontecer, conforme a oportunidade. O plano atual é de consolidação das nossas práticas e crescimento das bases nas regiões em que atuamos. Temos campo para crescer e se tivermos algum movimento nesse sentido será de aquisição. Fusões não estão em nossos planos.

CERCA DE 60% DO VOLUME DE NEGÓCIOS GERADOS PELO GRUPO PROVÉM DA DACASA FINANCEIRA

Financeiro Qual é a participação da Dacasa Financeira nos negócios do grupo? Machado Cerca de 60% do volume de negócios são gerados pela Dacasa.

Financeiro Fale sobre a venda de empréstimos on-line. Machado Há dois anos, concedemos empréstimos online. As propostas pela web são avaliadas pelos nossos analistas e os dados são confirmados por telefone. Quando liberado, creditamos o valor na conta do cliente. A procura não é pequena, mas não se compara à presencial. É uma alternativa a mais para os clientes. Financeiro Quais precauções evitam a inadimplên cia? Machado Utilizamos um sistema de credit scoring e contratamos uma consultoria para trabalhar fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 37


pordentrodovarejo

no treinamento das equipes de análise de crédito. Também investimos em um sistema de gerenciamento do call center para aumentar a produtividade, tanto na gestão de crédito como na cobrança. Foi desenvolvido pela Promov, empresa do grupo. Hoje, está em torno de 3,5%, mas nos precaver de mudanças de cenário.

um endividamento baixo; o País cresce e a tendência é que esse endividamento aumente. Em conjunto a ele, deverá haver um processo de aprendizado, de como lidar com isso. Como, por exemplo, tomar cuidado em elevar de forma acelerada os prazos de financiamento para que não se perca o controle. Ele deve ser feito de forma gradual e responsável.

Financeiro Uma iniciativa do grupo foi a criação do programa “Planejamento Financeiro”. Como ela surgiu ? Machado Clientes começaram a nos procurar para pedir dicas de como manter o controle de suas finanças e implementamos esse programa há cerca de cinco anos. As ações compreendem palestras, cartilhas orientativas que são entregues em nossas filiais e conteúdo específico no nosso portal.

Financeiro O que pode dar errado nesse cenário? Machado O pior seria uma elevação súbita do nível de endividamento das famílias que estão crescendo, das classes D para C e da C para a B. Temos um grande potencial de concessão de crédito para a realização de sonhos. Porém temos de estar atentos de que forma se dará essa evolução.

Financeiro Economistas preveem que o aumento do consumo acarretará em aumento da inadimplência. Qual a sua visão sobre esse tema? Machado O nível de endividamento no Brasil em relação ao PIB é pequeno se comparado a países desenvolvidos – o que para nós, como financeira, é uma posição privilegiada. O ponto de atenção deve estar na gestão do crédito. Existe

Grupo Dadalto Empresas Dadalto Lojas de departamento, Dacasa Financeira, D&D Home Center da Construção, Promov (call center, análise de crédito e cobrança) e FEAD – Fundação Educacional Antonio Dadalto. Número de lojas 25 lojas Dadalto, 26 unidades da Dacasa Financeira e 4 lojas D&D. Regiões de atuação Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais. Número de funcionários 2.500. Número de clientes 2,5 milhões. Cartão de crédito Dacasa Distribuído em mais de 18 mil pontos de vendas. Cartões emitidos 1,5 milhão.

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Financeiro E a taxa de juros no Brasil continua sendo a mais alta do mundo.. Machado A maior oportunidade que temos para reduzir os juros é a redução de custo. Quanto mais “bons pagadores” tivermos, com uma gestão de crédito eficiente, melhores serão as taxas de juros. Podemos ter uma sofisticação nesse sentido e, de certa forma, nós temos. Os que honram seus compromissos já conseguem melhores condições. Financeiro O que acha que falta para atingirmos uma oferta de crédito que supere100% do PIB? Machado O conjunto oferta de crédito + inadimplência reflete na taxa de juros. Com o movimento de redução da taxa Selic, dinheiro mais barato e queda da inadimplência, teremos taxas mais competitivas e maior volume de crédito. É o que acontece nos países desenvolvidos nos quais as taxas de juros são baixas. O volume de concessão de crédito evoluirá com o crescimento do País, o que já ocorre ano após ano. Os movimentos macroeconômicos farão com que o crédito evolua a patamares dos países desenvolvidos. f


artigouniversofinanceiro

Inovação, pesquisa e desenvolvimento O Estado de São Paulo é líder no setor de pesquisa, inovação tecnológica e desenvolvimento. A informação é baseada em estudos da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) e da Fundação Seade. Porém parte desse conhecimento ainda está dentro dos muros acadêmicos. Mesmo assim, segundo pesquisa da fundação Seade, a economia paulista Por Milton Luiz de Melo Santos acumulava crescimento de 8,5% até o terceiro trimestre de 2010. A inovação tecnológica tem de vir acompanhada de investimento e conhecimento. De acordo com pesquisa realizada pela Anprotec, São Paulo é o Estado que reúne o maior número de incubadoras implantadas, são cem ao todo. O Cietec USP (Centro Incubador de Empresas Tecnológicas) é um dos maiores polos incubadores da América Latina, com mais de cem empreendimentos em gestação, seguido do Rio Grande do Sul, com 61 incubadoras. Elas oferecem apoio desde infraestrutura até serviços de assessoria jurídica, marketing, serviços de capacitação, treinamento e atendimento ao cliente. O formato colabora para o crescimento e geração de empregos. Porém ainda há espaço para a ampliação do desenvolvimento no Estado e é o que a Agência de Fomento Paulista, alinhada à política de desenvolvimento de São Paulo, pretende fazer com força em 2011. Investir no fomento dos setores que se utilizam das pesquisas e bases tecnológicas e que tenham fortes características de geradores de empregos. Fomentar a expansão das pequenas e médias empresas – que são as que mais empregam em todo o País – por meio de ofertas de crédito a juros muito baixos e a prazos longos. Dessa forma é possível impulsionar o desenvolvimento de um Estado, por meio de apoio ao investimento para que as empresas ganhem competitivida-

de, avançar nas pesquisas e desenvolver produtos de maior valor agregado, além de gerar emprego. Nas últimas décadas, o Brasil vive um avanço científico que tem colaborado para construir a competência nacional em alguns segmentos, por causa dos investimentos em pesquisas. Como exemplo, podemos citar nosso know-how na exploração de petróleo em águas profundas, o que nos permite exportar tecnologia e capital humano qualificado . Investimentos pesados, de forma contínua e de longo prazo, são necessários para expandirmos conhecimento também em outras áreas. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), ligada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, é uma das principais instituições de investimento em pesquisas científicas e tecnológicas do Estado. Em 2009, por exemplo, os desembolsos da Fapesp para concessão de bolsas e auxílio a pesquisas, em todas as áreas de conhecimento, chegaram a R$ 345 milhões. Apesar do avanço brasileiro em pesquisas científicas e do reconhecimento dos empresários sobre a necessidade de investimentos nesse setor, é sabido que a produção tecnológica não é imediata. Há um tempo de maturação para o resultado da pesquisa se transformar em produto. Por isso é importante estarmos alinhados aos avanços tecnológicos para não ficarmos na rabeira do desenvolvimento. Um Estado só consegue ser grau de “estado desenvolvido” quando investe de forma contínua e no longo prazo em desenvolvimento tecnológico, inovação, pesquisas e formação de capital humano qualificado, de maneira que isso possa transformar a sociedade. f Milton Luiz de Melo Santos é economista e diretor-presidente da Agência de Fomento Paulista/Nossa Caixa Desenvolvimento fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 39


desafioscerticrefi

Certificação Acrefi Funcionários de correspondentes, promotoras de financiamento e de instituições financeiras serão certificados pelo CertiCrefi A Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), entidade que há mais de meio século congrega instituições voltadas, na sua grande maioria, ao crédito direto ao consumidor, passará a contar com a atividade de certificação, implantando para isso o Exame CertiCrefi (Certificação de Funcionários de Correspondentes, Promotoras de Financiamento e de Instituições Financeiras) em parceria com o Inepad (Instituto de Ensino e Pesquisa em Objetivo Administração), propondo-se a examinar, O CertiCrefi se rigorosamente, os conhecimentos adquidestina a certificar ridos pela força de vendas e, assim, poder profissionais que se vinculam a empresas atestar o grau de aproveitamento dessas denominadas pessoas em cursos de capacitação que secorrespondentes, promotoras de rão oferecidos pelo mercado. financiamento e Com efeito, a certificação de conhede instituições cimentos profissionais constitui nos dias financeiras. atuais uma tendência internacional, aliás, já aplicada no Brasil em relação aos agentes autônomos de investimento e atos corretores de imóveis. Nesse sentido, a certificação vincula-se à necessidade de proteger o público e os próprios profissionais, garantindo um padrão mínimo de atuação.

Necessidade da certificação

A realidade brasileira no campo da concessão de empréstimo pessoal e de crédito ao consumidor, que passou a ser um case de caráter internacional, apresenta uma modelagem de difusão do crédito com alcance nacional, pela qual ganhou importância a participação direta de pessoas físicas, espalhadas pelo País, as quais se vinculam a empresas denominadas promotoras de financiamentos ou correspondentes. Considerado esse quadro, o Banco Central do Brasil tem, com plena razão, insistido com a profissionalização da força de vendas, com o que se alcançaria, primeiro, a completa identificação e localização dessas pessoas e dotando-as de conhecimentos gerais e específicos sobre as operações de crédito; atuação das instituições financeiras; e noções das normas legais e regulamentares de regência da matéria vinculada aos empréstimos e financiamentos. Ora, a par das empresas e entidades que oferecerão cursos de capacitação presenciais ou a distância, impõe-se a existência de entidades certificadoras, as quais avaliarão os conhecimentos obtidos pelos profissionais, expedindo, após exames, o respectivo certificado de conclusão. Logo, o CertiCrefi é a proposta da Acrefi, avançando no escopo de estar preparada para a certificação dos profissionais, depois de concluírem os respectivos cursos. f

Dados do exame O Exame CertiCrefi não vincula qualquer pré-requisito quanto à formação acadêmica. A data da primeira avaliação é no dia 9 de julho de 2011. O exame será realizado em 50 cidades brasileiras. Veja cidades atendidas no portal www.certicrefi.com.br. Aprovação no exame: Aproveitamento igual ou superior a 70% das questões. Número de questões: 60 questões de múltipla escolha, com 4 alternativas. Duração do exame: 2 horas. Taxa de inscrição: R$ 300 (pagamento após a inscrição via boleto bancário). 40 FINANCEIRO fevereiro/março 2011


artigoreflexão

Despesa de defesa Há dias, eu ouvi uma pessoa séria dizer que não compreendia a justificativa para um gasto de cerca de US$ 10 bilhões na aquisição de 36 caças a jato de última geração Por Sérgio Ernesto Alves Conforto para a Força Aérea Brasileira. Discordei na ocasião, embora entenda que seja normal as pessoas pensarem por que gastar dinheiro em aviões, navios e veículos de combate em um País que tanto precisa de hospitais, escolas, estradas e tantas coisas mais, e que não tem inimigos aparentes e vizinhos incômodos. Meus argumentos, que foram ouvidos com atenção pelos presentes, deram lugar ao pedido que elaborasse este modesto e sucinto trabalho, o que faço com grande satisfação. Os estudiosos da política e estratégia tomam conhecimento da chamada Teoria do Poder (é um assunto largamente estudado no curso de estratégia militar para a gestão de negócios, da Fundação Armando Álvares Penteado) que, de forma muito abreviada, trata-se do seguinte: poder é a capacidade que uma pessoa, uma empresa, uma organização ou um país tem de alcançar aquilo que almeja. Não confundir com “potencial”, que é aquilo que pode vir a se transformar em “poder”, mas que não está efetivamente disponível no momento considerado. O poder nacional é a capacidade de uma nação conquistar seus objetivos (denominados objetivos nacionais). Democracia, saúde para todos, educação, autossuficiência energética, erradicação da pobreza, ser hexacampeão mundial de futebol, dentre tantas 42 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

outras coisas, são objetivos perfeitamente enquadrados nas aspirações da nação brasileira. Quando os objetivos de um país colidem com os de outro surgem as divergências, os antagonismos, os conflitos e até mesmo as guerras. Quando uma nação deixa de exercer o seu poder, o espaço é ocupado por outra. Fronteiras despovoadas são um atrativo para a expansão dos vizinhos. Exemplo eloquente disso é a enorme perda de território que o México experimentou em face do vizinho mais poderoso, os Estados Unidos. Os portugueses ultrapassaram o limite do Tratado das Tordesilhas, dando ao Brasil o seu atual perímetro no Oeste, reconhecido por tratados de validade incontestável. Para efeito de estudo, divide-se o poder em cinco componentes, a saber: Poder político Instituições, estrutura de governo, capacidade de influir nos organismos internacionais, alianças etc. Poder econômico Recursos de toda natureza, produção de bens, capacidade de exportação, indústrias e agricultura, reservas, atitude comercial, circulação de riquezas, emprego para a população etc. Poder científico-tecnológico Capacidade de desenvolver atividades científicas, aproveitar os recursos que dispõe para agregar valor, transformá-los em coisas avançadas, indispensáveis ao progresso, saúde e bem-estar da população; independência de fontes externas para prover necessidades de toda ordem.


Poder psicossocial O efetivo, cultura, educação, saúde, tradições, temperamento, religiosidade e aspirações de um povo. A capacidade de congregação em torno de um objetivo, solidariedade, convergência de vontades, espírito de sacrifício, tudo voltado para objetivos comuns. Poder militar Possibilidade de, se necessário, empregar a força para alcançar os objetivos nacionais, ou de protegê-los de antagonismos e ameaças externas ou internas. A despeito da apreciação didática acima, o poder é um só, é indivisível, e os componentes deverão ser harmônicos e equilibrados. Não deve haver preponderância de um sobre as outros, sob pena de haver elos fracos. Um exemplo eloquente é a antiga União Soviética, gigante nos campos militar, científicotecnológico, de política internacional, mas fraca no campo psicossocial, fruto de um regime unipartidário e coercitivo, constituída de diversas nacionalidades, bem como no campo econômico, uma vez que os recursos disponíveis não eram suficientes para enfrentar os desafios da Guerra Fria e, ao mesmo tempo, concorrer para o bem-estar da população. Um gigante de pés de barro que desabou quando os povos que o constituiu, finalmente, rejeitaram a hegemonia do partido comunista. Os desequilíbrios existentes entre os componentes do poder de uma nação são fragilidades por onde penetram as ações do poder antagônico. Ser rico e fraco é expor-se à cobiça dos ambiciosos. O Brasil é um país pacífico por excelência, satisfeito com o território e recursos, e amparado por tratados incontestáveis. As guerras de que participou foram fruto de agressões recebidas e suas forças armadas desempenham importante papel na manutenção da paz e no apoio ao desenvolvimento não só daqui mas também de outros povos. O País é também uma nação que está em processo de desenvolvimento, exploração de suas riquezas e conquista de mercados.

As jazidas de petróleo em terra e no mar, a biodiversidade amazônica, as reservas de minerais estratégicos e as águas que possui constituem um patrimônio inestimável. Olhos cobiçosos não faltam e sintetizo dizendo da assertiva tão em moda que busca convencer a nós e o mundo de que “a Amazônia é patrimônio da humanidade”. A estratégia militar predominante no Brasil é denominada “dissuasão”. Isso significa que não nos passa pela cabeça agredir, invadir ou conquistar. Mas se trata de acenar, de forma convincente, para aqueles que pensem tentar, com uma reação que fará com que o custo da aventura não compense o lucro pretendido.

Poder é a capacidade que uma pessoa, uma empresa, uma organização ou um país tem de alcançar aquilo que almeja Quanto mais ricos e pacíficos, mais fortes teremos de ser para defender as riquezas e a paz. Por isso, faz-se necessário termos aviões, navios, submarinos capazes de demonstrar que podemos defender-nos de qualquer ameaça. E que ameaças seriam essas? É perigoso elegê-las. É importante estar pronto para a pior eventualidade, pois assim exige a estatura de uma nação a caminho da grandeza pacífica. Vis pacem, para bellum, diziam os romanos. Isso continua verdadeiro. Para assegurar a paz é necessário estar pronto para a indesejável guerra. E como forças armadas não podem ser improvisadas ou obtidas no mercado, há que se buscar permanentemente o equipamento e o adestramento indispensáveis. f General Sérgio Ernesto Alves Conforto é do Centro de Estudos Estratégicos da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 43


experiênciaglobal

Tecnologia que

Uma tela amigável, que disponibiliza todas as informações úteis sobre cada cliente, otimizando o tempo do agente e aumentando a produtividade. Foi para isso que a GM Financial, empresa com uma carteira de crédito de US$ 8 bilhões nos Estados Unidos, contratou a ferramenta de script Lyrical, da Aspect. O caso foi apresentado no 1o Tivit Customer Experience. Com operações de atendimento a clientes nos Estados do Texas, Arizona, Carolina do Norte e Ontário, no Canadá, a GM Financial tem 1,8 mil agentes, com forte atuação na área de cobrança. E a Lyrical, um braço direito das operações, permite o acesso a todo o fluxo de negociação de pagamentos, incluindo os históricos, bem como a visualização, por parte do supervisor, se algum agente está fora do tempo do padrão de atendimento. A idealização da ferramenta partiu de Robert Beatty, da GM Financial. Durante almoços de trabalho, ele usava guardanapos de papel para desenhar como deveria ser a tela dos agentes. Trabalhou junto com a sua equipe interna e o time da Aspect para a implementação da Lyrical, que é capaz de rodar com a tecnologia de legado. 44 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

Assim, a Lyrical foi lançada por meio de uma campanha elaborada especialmente para os agentes, acompanhada de treinamentos para adoção da nova ferramenta. As duas telas ficaram disponíveis. Com o uso, o tempo de atendimento caiu em 25%. Hoje, em apenas três segundos é possível para o agente ver o status do cliente. Exemplo varejista

Outro caso interessante narrado durante o evento é o da ACE Cash Express, uma das maiores varejistas de serviços financeiros dos Estados Unidos. A empresa conta com uma rede de 1,8 mil lojas distribuídas em 42 Estados e oferece empréstimos, cartões de débitos e seguros, entre outros serviços, para pessoas que não têm conta bancária, de acordo com a legislação do Estado onde está presente. A média do valor de empréstimos concedidos é de US$ 1,2 mil. Seu principal concorrente é o Walmart. Atualmente as operações de atendimento ao cliente da ACE Cash Express contam com 120 operadores


faz a diferença Empresas americanas relatam sua experiência em evento em Dallas, no Texas (EUA)

ativos e 250 receptivos. Um dos principais desafios é a documentação de cadastro dos clientes, exatamente um dos motivos pelos quais esse público tem dificuldades para ser aceito por bancos. Para melhorar o mailing, a empresa tem duas estratégias: contrata

De acordo com David Garcia, responsável pela área de cobrança da ACE Cash Express, há um ano e meio a empresa também começou a focar na melhoria da gestão de campanhas, por meio da tecnologia utilizada em sua central de atendimento, incluindo o best time to call.

A empresa conta com uma rede de 1,8 mil lojas distribuídas em 42 estados e oferece empréstimos, cartões de débitos e seguros, entre outros serviços, para pessoas que não têm conta bancária uma empresa terceirizada e realiza ligações por meio de discador preditivo, que dispara automaticamente ligações por meio de um banco de dados. A empresa também oferece um sistema de correio de voz para os clientes que quiserem realizar pagamentos, por meio da URA . Por meio desse sistema, a ACE Cash Express consegue rastrear o número de onde o cliente ligou, para retornar posteriormente, se necessário.

Como resultado, houve um incremento de 5 a 6% por agente, ou US$ 2,4 mil por representante, por mês. O tempo de ligação é maior e o tempo de chamadas indisponível é menor. Além disso, a promessa de pagamento aumentou 10%, já que os agentes conseguiram encontrar as pessoas no horário mais propício para negociar os pagamentos. Embora não exista uma avaliação de riscos, o nível de inadimplência da empresa é de apenas 8%. f fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 45


cartões

Por Juliana Jadon

Players internacionais anunciam entrada no mercado de credenciamento brasileiro. A indústria de cartões no País é a que mais cresce no mundo

O Brasil possui o único mercado de cartões que cresce cerca de 20% ao ano e no credenciamento dos plásticos prevalecem somente dois grandes competidores: Cielo e Redecard. Mas esse cenário promete mudanças e ainda reflete as consequências do fim da exclusividade e da abertura do mercado multibandeira em 2010. O Santander, em parceria com a GetNet, já se posiciona para competir com consistência. Outras empresas globais, como Elavon, Global Payments e 46 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

First Data, anunciam operações no Brasil e, em breve, serão os novos concorrentes dessa indústria. Os números são abundantes. As credenciadoras e emissoras ganham cerca de US$ 20 por cartão, de acordo com a consultoria Lafferty. No ano passado, o número de cartões em circulação chegou a 628 milhões no Brasil, incluindo crédito, débito e de redes e lojas, o que representa uma elevação de 11% em relação a 2009. As transações subiram 16%, totalizando

Fotos: iStockphoto/Douglas Luccena

Solo atrativo


mais de 772 milhões. Já o faturamento gerado pelo setor disparou 21%, somando R$ 538 bilhões. Os dados são da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito (Abecs). Neste ano, a expectativa da associação que representa o setor é ainda maior. Os cartões deverão movimentar cerca de R$ 642 bilhões, em oito bilhões de transações. “É natural que empresas internacionais queiram atuar no cenário brasileiro de credenciamento. Essa manifestação mostra a capacidade que o Brasil tem de crescer cada vez mais no mercado de cartões”, aponta Paulo Rogério Caffarelli, vicepresidente da Abecs. Numa joint venture com a Credicard, do grupo Citibank, a Elavon pretende abocanhar 15% do mercado em cinco anos. A empresa entrará em operação no segundo semestre deste ano. “As margens de crescimento desse setor no Brasil são maiores e isso é o que tem atraído competidores internacionais. Não adiantará só ter bom preço, no fim do dia será preciso ter estabilidade de serviços, ser confiável e possuir produtos de qualidade”, ressalta o presidente da Credicard, Leonel Andrade. Diferenciação Numa pesquisa efetuada por uma empresa contratada, a Credicard Citi verificou que diversos players globais tinham interesse de entrar no mercado adquirente brasileiro. A negociação com a Elavon começou no início de 2010, mas, um ano antes, quando a Credicard vendeu a participação de 17% na Redecard e com a discussão da abertura de mercado, os gestores da empresa já sondavam uma maneira de participar do crescimento.

Neste ano, os cartões no Brasil deverão movimentar cerca de R$ 642 bilhões, em um total de 8 bilhões de transações

Leonel Andrade, da Credicard, “Com a Elavon, a meta é alcançar 15% do mercado em cinco anos e 4% ainda nos primeiros 12 meses de atuação”


cartões

Paulo Rogério Caffarelli, da Abecs, “2010 foi um marco divisor para a indústria de credenciamento, com o fim da exclusividade. Desde então, abriu-se um leque de oportunidades”

O presidente da Credicard explica que a regra das bandeiras estipula que empresas globais só podem operar no mercado brasileiro de credenciamento tendo um banco que por aqui atua como parceiro. Em abril de 2010, Andrade e outro executivo do Citi visitaram mundo afora diversas companhias que atuam nesse setor, incluindo a Elavon. A escolha da parceira se deu devido ao forte interesse em operar no Brasil, verificado durante as conversas, e na especialização em segmentos, como grandes redes de hotéis e varejo. E é essa oferta diferenciada que a empresa pretende trazer ao País. Por outro lado, afirma o executivo, o Citi já tinha alianças bem sucedidas com a Elavon, principalmente na Europa. No início de dezembro do ano passado, a parceria foi selada. Os primeiros dias dessa união foram usados para trocar informações, principalmente sobre a área de tecnologia que, por aqui, será usada para fazer o negócio vingar. A plataforma global da Elavon será utilizada pela empresa e passa por uma adaptação ao ambiente brasileiro, chamada internamente de “tropicalização”. A ideia é, até o final de março, ter uma equipe de 20 pessoas na Elavon Brasil. Sendo o Credicard Citi acionista, Andrade fará parte do conselho de administração da empresa. No segundo trimestre do ano serão definidos

IRO feverei o/mar o 2

Credenciadoras e emissoras ganham cerca de US$ 20 por cartão, de acordo com a consultoria Lafferty todos os fornecedores locais, a maquininha, a manutenção, e outros pontos relevantes. “Estaremos, de fato, em operação no terceiro trimestre do ano”, conta o presidente da Credicard. A tendência é que o mercado de credenciamento perca a concentração e a falta de segmentação. Andrade cita a Europa onde, por exemplo, as empresas buscam players especializados e os diferenciais são os serviços prestados. “A Cielo e a Redecard atendem desde a banca de jornal até o Grupo Pão de Açúcar, o maior varejista do País. Já, nós, iremos nos especializar”, compara Andrade. Caffarelli, da Abecs, estima que pode demorar até dez anos para essas corporações internacionais competirem de maneira igualitária com Redecard e Cielo, já que, atualmente, são cerca de 1,5 milhão de pontos de vendas no País cobertos pelas duas companhias. “2010 foi um marco divisor para a indústria de credenciamento, com o fim da exclusividade. Desde então, abriu-se um leque de oportunidades”, aponta. Segundo Caffarelli, essa disputa trará atributos para os lojistas e para os portadores de cartões. Apesar das resistências culturais, lembra ele, quando um lojista aceita um cheque o risco é dele. Já quando recebe um pagamento em cartão essa ameaça é transferida. Na outra ponta, os consumidores deverão ter atendimentos mais personalizados, com taxas diferenciadas e uma comunicação mais focada. “O maior desafio está no primeiro ano de atuação. A vantagem é que estamos no mercado brasileiro há 95 anos”, finaliza Andrade, da Credicard. f


artigomercadoestratégico

Comunicação para manter relacionamento Todos sabemos que as marcas de maior sucesso no mercado são as que conseguem criar laços com seus consumidores. A experiência do consumidor com uma marca é um processo dinâmico, que não termina, e precisa ser construído e reconstruído dia a dia. Por isso, temos de ter Por Angelo Garcia em mente que, mesmo na era das redes sociais, na qual a interatividade se torna cada vez mais necessária, as ferramentas tradicionais ainda são imprescindíveis. Especificamente nas instituições financeiras, onde a relação com o cliente necessita de confiança e solidez, todos os materiais criados precisam estar alinhados com os conceitos e a imagem que se quer transmitir. Antigamente, era comum o correntista ir à agência bancária e ser recebido pessoalmente pelo gerente, seja para esclarecer dúvidas, resolução de problemas ou aquisição de novos serviços. O tratamento pessoal contribuía para a formação da imagem e a relação de confiança. Para muitos, a agência é, e continuará sendo, o principal ponto de referência e de contato com a instituição. No entanto, a internet chegou para solucionar os problemas de tempo escasso e a crescente necessidade de agilidade. Lembro-me bem da época da inflação galopante, quando a internet era apenas uma novidade, de ir pelo menos umas duas ou três vezes por semana à minha agência bancária. Hoje só visito minha agência em casos extremos, pois carrego meu banco no bolso. O cartão múltiplo é o meu maior ponto de contato com ele. Com ele, pago compras, contas e saco o dinheiro nos caixas eletrônicos. Nesse contexto, as necessidades de comunicação assumem uma nova necessidade. É preciso saber levar informações onde o cliente está.

O envio de um cartão de crédito, por exemplo, é um bom momento para mostrar ao cliente como ele é importante para o banco e para reforçar sua imagem. Para clientes bancários, principalmente nos segmentos premium, encaminhar kits personalizados com informações relevantes de acordo com os hábitos financeiros é uma forma de aumentar a sua fidelização. O próprio design dos cartões e talões de cheques pode ser utilizado para reforçar mensagens e ampliar a identificação do cliente com a instituição. Conceitos como sofisticação, solidez, modernidade, inovação e segurança podem ser trabalhados cuidadosamente no desenvolvimento destes layouts. As informações precisam ser dispostas de maneira clara, pois, além de demonstrar respeito com o cliente, representa uma redução no número de ligações aos serviços de atendimento por telefone e, consequentemente, nos custos operacionais do banco. A simples mudança do papel para um material reciclado pode transmitir uma imagem de sustentabilidade e preocupação com o meio ambiente, conceitos que ganham importância. Na era da informação, é preciso criar oportunidades e aproveitar todos os canais possíveis para transmitir os valores e consolidar uma imagem. No mundo financeiro, a credibilidade e a confiabilidade são os maiores bens. Esses conceitos em todos os pontos de contato, seja na agência física, via internet, cartões, cheques, comunicados etc. Todo cliente espera algo a mais quando escolhe uma marca. Cuidar do design e da comunicação é um caminho para se atingir esse objetivo. f Angelo Garcia é diretor da Cauduro Associados fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 49


Basileia III

Escudo

financeiro

Basileia III: uma regulamentação que visa à proteção financeira dos bancos contra crises e oscilações econômicas internacionais Por Juliana Jadon De um lado os bancos deverão alocar mais capital. Do outro estarão mais fortes e protegidos contra períodos turbulentos. O Banco Central do Brasil vai alterar o modelo atual de Basileia, colocando uma parcela de estresse para as instituições devido ao terceiro modelo da norma. O desafio está lançado para as instituições nacionais, que devem se preparar para cumprirem o prazo e as exigências da regulamentação em 2013. A decisão do Comitê de Basileia, composto por chefes de bancos centrais e de órgãos reguladores do mundo inteiro, muda o cenário no qual as empresas estão inseridas. Toda a exposição referente à moeda estrangeira, por exemplo, afetará diretamente o índice. 50 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

“Será como passar pela volatilidade do mercado de hoje e ainda olhar a crise de 2008”, compara Clayton Neves Xavier, gerente de departamento do Bradesco, durante o encontro “Basileia III – Impactos no sistema financeiro”, realizado pela Acrefi. De acordo com a Basileia III, os bancos devem ter um mínimo do chamado capital de Tier 1 (lucros e ações retidas) de 4,5%, perante os 2% exigidos atualmente. O valor total de Tier 1 foi determinado em 6%, ante os 4% atuais. Os bancos também terão de criar uma proteção adicional de 2,5% e ainda será exigido outro “colchão de proteção anticíclico”, entre zero e 2,5%, quando há crédito em excesso.


Clayton Xavier, do Bradesco, “Será como passar pela volatilidade do mercado de hoje e ainda olhar a crise de 2008”

Para Xavier, do Bradesco, a Basileia III é uma evolução, uma vez que a regulamentação, que passou a ser adotada no Brasil em 1994 com a gestão do risco de crédito, em 2009 se intensificou com o risco de mercado. “No primeiro momento, a regulamentação detinha estritamente a visão contábil do negócio. Hoje, possui métricas e dita modelos de boa conduta e governança denatro dos bancos e financeiras. Os pilares de Basileia II, capital, supervisão e transparência de mercado, nos são importantes”, avalia. Já Lúcio Alves Anacleto, sócio do departamento de performance & technology da KPMG, lembrou que o acordo foi estabelecido em 1974 pelos presidentes dos bancos centrais dos países do Grupo dos Dez (G-10). A primeira reunião do Comitê da Basileia ocorreu em 1975 e, a partir de 1981, com os resultados das reuniões, começaram a ser estabelecidas diretrizes para o desenvolvimento dos trabalhos do comitê, com o princípio de que todo estabelecimento bancário no exterior deveria ser supervisionado de forma adequada. Anacleto aponta que enquanto a regulamentação anterior (Basileia II) tinha o foco de tornar a mediação de capital regulatório mais sensível ao risco, agora os pontos centrais visam à estrutura de capital, ao índice de alavancagem e ao risco de liquidez das instituições. Na prática, as instituições financeiras se tornam mais fortes com suas reservas de recursos mais volumosas para enfrentar períodos de turbu-

lências e oscilações econômicas. Por outro lado, ele alerta que quanto mais qualificada a estrutura de capital, mais cara a operação de um banco e isso pode onerar estruturas de pequeno e médio porte. Mais avançado O Brasil está adiantado em relação aos outros membros do Comitê Basileia em termos de alocação de capital e é um dos que mais respeitam a norma. Enquanto que o sugerido e adotado pelos países

Lúcio Anacleto, da KPMG “O Brasil, como país membro, tem a intenção de adotar o modelo integral com as melhores práticas”

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Basileia III

Alberto Borges Matias, da FEA/USP “É preciso fomentar o negócio bancário e não reduzir o risco bancário”

europeus é que se guarde 8% do capital, por uma conduta mais conservadora no Brasil o porcentual exigido é de 11% do total e, mesmo assim, encontrase no mercado nacional reservas de, em média, 18% do total. O montante alocado por aqui é maior que nos EUA, em que a média é de 10,5% e na Argentina, com uma média 8,5%. Somente na Europa a norma que visa a mais aportes exigirá captações de cerca de € 2,3 trilhões até 2017. O valor equivale ao PIB da França. “O Brasil, como País membro, tem a intenção de adotar o modelo integral com as melhores práticas”, diz Anacleto, referindo-se ao novo modelo. Clayton Xavier, do Bradesco, credita a situação econômica favorável do País a essa postura. “O impacto não tão forte da crise financeira de 2008 no Brasil pode ser atribuído, em parte, à boa adoção da Basileia”, considera. De acordo com dados do Banco Central, em junho de 2010 os bancos tinham R$ 3,9 trilhões em ativos e uma carteira de crédito de R$ 1,33 trilhão. Havia também um patrimônio de referência de R$ 385 bilhões, enquanto que o exigido era R$ 244 bilhões. No mes52 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

mo período, o Índice de Basileia estava em 17,3%. “É preciso ter, de fato, um controle dos seus ativos. Se hoje tal ativo vale R$ 100 milhões, por exemplo, será que amanhã, em outras condições de mercado, ele valerá menos?”, questiona Xavier. Ainda de acordo com Xavier, a Basiléia III determina toda a estrutura de risco de liquidação que a instituição financeira deve ter para torná-la insolvente. Para ele, a nova regulamentação não se sobrepõe a anterior, mas a complementa. “Ao mesmo tempo em que se aloca mais capital, há uma redução nos recursos que a empresa possui para ofertar ao mercado. Isso fará com que as instituições busquem outras alternativas de funding”, observa o executivo. Alberto Borges Matias, professor titular do Departamento de Administração da FEA/USP finalizou o encontro ressaltando que, de acordo com pesquisas, os indicadores de alavancagem não explicam o fenômeno de insolvência bancária. “O custo estrutural é o principal motivo. Os modelos de insolvência indicam que esse tipo de gasto é o problema. É preciso fomentar o negócio bancário e não reduzir o risco bancário”, conclui com o alerta. f


artigoquestãojurídica

Desafios da nova lei de falências brasileira A nova lei de falências e recuperação de empresas (NLFR), em vigor no Brasil desde meados de 2005, celebra seu quinto aniversário de aplicação, após ter passado Por Salvatore Milanese por muitos testes durante esse período, incluindo uma crise econômica internacional aguda (2008–2009) que afetou diferentes setores da economia brasileira. (veja no gráfico a quantidade de Recuperações Judiciais – RJs – solicitadas e concedidas). Essa reforma (promovida pela lei descrita anteriormente) era necessária para empresas que enfrentavam dificuldades financeiras no Brasil e que precisavam alinhar os seus procedimentos para lidar com crises e restruturação de empresa com as práticas adotadas em um contexto internacional. Isso fica ainda mais evidente quando consideramos que o Brasil é a oitava economia mundial, com estoque de in-

Recuperação Judicial 400 350 300 250 200 250 150 100

2º 1º Sem. 05 Sem. 06 Pedidos

2º 1º Sem. 06 Sem. 07

2º 1º Sem. 07 Sem. 08

Concedidas

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2º 1º 2º Sem. 08 Sem. 09 Sem. 09 Aprovadas

vestimentos estrangeiros passando dos US$ 22 bilhões em 2009. Os novos pressupostos relacionados à NLFR foram estabelecidos em linha com mudanças semelhantes nas leis comerciais que regem esse tipo de legislação em países como Alemanha, França, Espanha, Itália e Portugal. A nova lei de falências introduziu três procedimentos: 1) a Recuperação Extrajudicial (REJ), ; 2) a Recuperação Judicial (RJ), e 3) a Liquidação Falimentar. A lei não se aplica à empresa pública e sociedade de economia mista, instituições financeiras, cooperativas de crédito, administradoras de consórcios, entidades de previdência privada complementar, operadoras de planos de saúde, seguradoras, empresas de capitalização e outras entidades legais equivalentes. Para esse tipo de pessoa jurídica existem agências regulatórias que dispõe sobre liquidação quando fica identificado que ela não tem a capacidade econômica de honrar suas dívidas. Conheça as três formas: Recuperação Extrajudicial No caso da REJ, a empresa pode aprovar o seu plano de restruturação ou restruturar uma parte específica do seu endividamento, por meio da obtenção da aprovação de três quintos de uma a mais categorias ou categorias de credores previamente selecionada(s). Também pode ocorrer de os credores discordarem na mesma categoria. Credores trabalhistas e fiscais, titulares de adiantamentos de contratos de câmbio e empréstimos concedidos por alienação fiduciária de ativos não estão sujeitos à REJ.


Na REJ, após o devedor chegar a um acordo com os credores e seu plano de restruturação ter sido aprovado, será então ratificado pelo juiz. Esse procedimento é comparável a uma restruturação não judicial e a intervenção do tribunal só é solicitada para aprovar o acordo de execução que expressa a vontade das partes. Esse procedimento é bem menos dispendioso que o processo de RJ, poderia ser bem rápido quando um consenso é selado com os credores, mas deixa a empresa exposta a ações legais porque um período de proteção (os 180 dias) não é concedido. Nessas circunstâncias, a decisão de se usar a REJ ou a RJR depende do nível da crise financeira e impasse enfrentado junto aos credores, entre outros aspectos. Recuperação Judicial O principal procedimento introduzido pela NLFR brasileira é, indubitavelmente, a Recuperação Judicial (RJ). Um ponto significativo do processo é o fato de o devedor continua a gerenciar a empresa, com exceção dos casos nos quais existem graves motivos pelos quais os credores possam convocar uma assembléia para a remoção dos administradores de suas funções e solicitar a indicação de novos administradores indicados por tribunal. Uma vez que a empresa esteja sob RJ, é concedida para ela um período de proteção de 180 dias, durante o qual as ações legais e execuções dos credores são suspensas, exceto no caso de ações legais de credores classificados nas categorias de autoridades fiscais, titulares de adiantamentos sobre contratos de câmbio e empréstimos concedidos baseados em alienação fiduciária de ativos. Garantia real (ou garantia real prestada como garantia) é a transmissão de propriedade de um ativo do devedor para o credor como garantia de quitação de uma obrigação contratada com um credor. O devedor permanece

no controle direto do ativo, como fiel depositário, mas a propriedade da garantia real não é transferida realmente para a empresa até que a dívida seja totalmente paga. Nesse último caso, quando o ativo utilizado como garantia real não tem um impacto direto sobre a continuidade da empresa como um negócio em atividade, a ação de execução judicial ocorre normalmente. A nova lei de falências é focada na preservação da continuidade dos negócios da empresa e na proteção do emprego e função social do negócio, consequentemente possibilitando a venda de parte do mesmo, sem os riscos contingenciais de sucessão, sejam eles de natureza fiscal ou trabalhista. Outro ponto favorável da nova lei é a participação dos credores que são partes no processo, aspecto esse não incluído na lei de falências brasileira anterior. Na realidade, a assembléia geral dos credores decide se ela aprova, ou não, o plano de restruturação proposto pela empresa devedora, e pode optar pela falência da empresa. Além disso, os credores também têm o direito de formar um comitê de credores para melhor supervisionar o processo de execução do plano de restruturação, a venda dos ativos, seja sob uma recuperação da empresa ou sob falência, e a aprovação de novos financiamentos que resultem no uso de ativos que podem ser usados como garantia real. A criação de um comitê de crédito não tem sido cumprida nas RJs que têm ocorrido, principalmente devido à responsabilidade percebida pelos membros do comitê com relação ao sucesso do plano de recuperação aprovado e outras obrigações potenciais. Na RJ o juiz indica um administrador judicial para monitorar e supervisionar as execuções de uma empresa passando por um plano de recuperação. O administrador pode ser uma pessoa física ou pessoa jurídica. No Brasil, as empresas multidisciplinares estão realizando esse serviço, já que aspectos significativos que são abordados podem tratar de questões contábeis, administrativas, fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 55


artigoquestãojurídica

financeiras, trabalhistas, fiscais ou societárias, e outros direitos mais específicos, dependendo da linha de negócio da empresa devedora. Os credores que são sujeitos ao processo de RJ participam na assembeia que irá aprovar, ou não, o plano proposto pela empresa que está passando pela recuperação. Os credores são divididos em três categorias para efeito de contagem dos seus votos: categoria I – credores trabalhistas; categoria II – credores com garantia; e categoria III – credores quirografários. Credores fiscais, titulares de adiantamentos sobre contratos de câmbio e credores portando empréstimos concedidos baseados em garantia real não são sujeitos à RJ, e eles não votam na sessão de votação para a aprovação do plano de recuperação.

O Brasil é a 8a economia mundial, com estoque de investimentos estrangeiros passando dos US$ 22 bilhões Todavia, não existe nenhum impedimento para que concordem com os planos de recuperação apresentados aos outros credores. Os planos de recuperação aprovados a partir do momento em que a lei entrou em vigor apresentou um amplo espectro de soluções financeiras e econômicas, as quais incluem: w Desconto na dívida. w Restruturação do parcelamento de pagamento. w Restruturação dos termos da dívida, tais como período de carência, taxas de juro, avenças (covenants) financeiras e não financeiras. w Mudança de soluções de controle, incluindo o swap de dívida por patrimônio, novo aporte de capital, venda de patrimônio. w Alienação ou aluguel de parte dos ativos da empresa. 56 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

Isso representa uma importante inovação na NFLR em comparação com a lei anterior. Na verdade, embora esses sejam meios óbvios e convencionais de restruturação, a lei anterior era muito rígida no que se refere aos seus meios de restruturação disponíveis para as partes atingirem resultados efetivos. Outra importante inovação introduzida pela nova lei de falências dentro do contexto da RJ é o conceito de financiamento DIP (Debtor In Possession). As empresas que se candidatam ao processo de RJ enfrentam com muita frequência uma crise de liquidez severa, e a atenção gerada no público, em relação aos problemas da empresa que uma entrada de processo chama, geralmente cria barreiras de crédito adicionais para a ela, consequentemente piorando ainda mais sua crise de liquidez. Em tal cenário é vital que a empresa tenha acesso a capital, para que implemente o seu plano de recuperação. A nova lei de falências contempla proteção específica e vantagens tanto para empresas que concedem empréstimos como para fornecedores que concedem financiamento, após o pedido de recuperação, isto é, a lei dispõe que créditos após o pedido de recuperação sejam considerados demandas de altíssima prioridade, caso a RJ seja convertida mais tarde em uma liquidação falimentar. Além disso, a lei também dispõe alguma promoção na prioridade de créditos quirografários anteriores ao pedido de recuperação para credores que continuem a fornecer mercadorias e serviços durante a RJ, e no evento de uma liquidação falimentar. O plano de recuperação, após ter sido aprovado pela assembléia geral de credores, torna-se um acordo privado assinado entre as partes. Desde que não haja nenhum ato falso ou propósito ilícito, o juiz atua de modo a ratificar o acordo entre o devedor e credores, sujeitando todas as partes à vigência do plano. Uma vez aprovado o plano, a empresa permanece por 24 meses sob a RJ e é sujeita à supervisão do administrador durante esse período.


Caso o plano não seja aprovado pelos credores, ou, após ter sido aprovado, não seja cumprido pelo devedor, uma RJ pode ser transformada em uma liquidação falimentar. Liquidação Falimentar A Liquidação Falimentar é um procedimento judicialmente supervisionado no Brasil, já que o tribunal e o administrador são responsáveis por todo o processo. A Liquidação Falimentar, conforme a nova lei, não é concebida exclusivamente como uma liquidação dos ativos da massa falida, já que normalmente ocorreu no passado, mas é um processo pelo qual o administrador pode utilizar diferentes formas de realização de ativos com o objetivo de maximizar os interesses dos credores. Nesse cenário, são aceitas soluções como manter o negócio em “acompanhamento normal”, bem como soluções envolvendo a alienação do negócio como um todo, a alienação das unidades de produção separadamente, a alienação conjunta dos ativos que integram cada um dos estabelecimentos do devedor e o aluguel das unidades fabris, entre outras. A venda de ativos dentro dos limites da Liquidação Falimentar deve seguir certos procedimentos, tais como leilões (e outros) para conferir transparência ao processo e maximizar os resultados. A inovação mais importante consiste do procedimento de venda dentro da Liquidação Falimentar, que dá ao comprador total proteção contra possíveis obrigações de contingências passadas que possam afetar os ativos adquiridos. Outra inovação importante da nova lei é a regra de prioridade para a distribuição do produto das atividades da massa falida sob liquidação. Diferentemente da lei anterior, a nova lei limita o valor a ser pago à dívida trabalhista, e posiciona os credores com garantia em um nível de prioridade superior ao do nível de prio-

ridade das autoridades fiscais. Após a Liquidação Falimentar ter sido declarada, ou a recuperação judicial ter sido transformada em Liquidação Falimentar, a classificação dos créditos é regida pela seguinte sequência: 1) Dívidas trabalhistas decorrentes de pagamento de salários (devidas nos três meses anteriores à adjudicação de falência, limitadas a cinco salários mínimos por empregado). 2) Devolução em dinheiro (adiantamentos sobre contratos de câmbio estão inclusos nesse item). 3) Credores extraconcursais. 4) Dívidas trabalhistas (até 150 salários mínimos) e créditos originários de acidentes de trabalho. 5) Créditos incluindo garantias até o limite do valor do bem. 6) Créditos fiscais, com exceção de multas tributárias. 7) Créditos incluindo privilégios especiais. 8) Créditos incluindo privilégios gerais. 9) Créditos quirografários. 10) Multas contratuais e tributárias e condenações pecuniárias administrativas. 11) Créditos subordinados. Os pagamentos são feitos na forma de cascata, obedecendo a lista de prioridade acima. Após a primeira categoria ter sido paga integralmente, a seguinte recebe seu pagamento. Caso os fundos sejam insuficientes para o pagamento integral da categoria corrente, então são distribuídos pró-rata nessa categoria. Estudos de casos

Como explicado anteriormente neste documento, as negociações entre devedor e credores, possibilitadas pela nova lei de falências e recuperação, permitiram a utilização de diversos meios de recuperação, cada qual aplicável em diferentes situações de restruturação. A seguir descrevemos três casos que exemplificam diferentes maneiras para fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 57


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a restruturação de uma dívida e/ou para a restruturação de um negócio, preservando, tanto quanto possível, o valor para os credores. O primeiro caso se refere a uma recuperação judicial de uma das maiores empresas atacadistas e varejistas em sua região, que possuía 110 lojas, com receitas anuais de R$ 420 milhões (US$ 239 milhões). Essa empresa passou por um período de expansão, financiada basicamente a partir de recursos de curto prazo que levaram a um endividamento custoso e excessivo. Com a chegada da crise mundial em 2009 a empresa passou a enfrentar dificuldades na renovação das linhas de crédito, e entrou numa crise de liquidez e incapacidade de financiar adequadamente o seu capital de giro. Tendo acumulado dí-

O primeiro caso se refere a uma Recuperação Judicial de uma das maiores empresas varejistas, que possuía 110 lojas vidas de mais de R$ 110 milhões (US$ 62 milhões) junto a fornecedores diretos da operação e bancos, e cerca de R$ 150 milhões (US$ 85 milhões) em obrigações fiscais, a empresa entrou com um pedido de recuperação judicial para se proteger a apreensão de seus estoques e de seu faturamento, resultante do não pagamento de suas dívidas, especialmente com certos bancos. O modo encontrado para a restruturação dessa empresa, aprovado pela maioria dos credores em uma assembléia, foi a divisão de suas atividades em atacado e varejo, seguido de cisão e alienação da unidade de negócios de varejo, composta por 110 lojas, estoques e quadro de funcionários profissional. Outro grupo varejista, com interesse em expandir sua área de atuação, comprou a unidade de negócio. Em troca assumiu o pagamento da dívida 58 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

junto a credores da recuperação judicial, usufruindo de um desconto significativo e período de carência. Um aspecto-chave para o sucesso desse processo foi a aplicação do Artigo 60 da nova lei de falências e recuperação de empresas, permitindo a venda de uma unidade de varejo sem o comprador ser onerado pelas contingências do negócio principal. Como a lei proíbe explicitamente a sucessão de dívidas trabalhistas ou fiscais, que nesse caso eram significativas, o processo acabou acontecendo muito mais rapidamente e a valores muito mais atrativos, já que a empresa, ao tratar da venda dos ativos, foi desobrigada da realização de uma parte significativa da due diligence que seria exigida para verificar possíveis contingências. Essa negociação de vendas dos ativos de varejo em um contexto de aprovação do plano de recuperação judicial foi a solução que permitiu a recuperação parcial das dívidas dos credores, os quais num cenário de falência teriam tido uma recuperação de praticamente nada, devido às obrigações fiscais, com prioridade sobre os créditos quirografários em liquidação. A restruturação também estabelece a manutenção das atividades de atacado da empresa anterior, que é capaz de arcar com seu débito fiscal. O segundo caso se refere a uma empresa do agronegócio brasileiro atuando no Nordeste do País, que exporta frutas tropicais, com receita anual de R$ 110 milhões (US$ 62 milhões). Após anos de prejuízos operacionais decorrentes de preços desfavoráveis e problemas de produção internos, a empresa acumulou dívidas de R$ 60 milhões (US$ 34 milhões). Devido a esse alto endividamento, foi impossível para a empresa obter financiamento para a nova colheita que estava prestes a ser iniciada e (assim) suas operações foram interrompidas. Dessa maneira, buscou proteção sob a nova lei de falências e recuperação de empresas, enquanto negociava alternativas para restruturar as suas obrigações.


Devido a seu histórico de prejuízos operacionais, juntamente com a dificuldade na obtenção de financiamentos para retomar suas operações, a empresa avaliou suas alternativas, incluindo a liquidação judicial. Em um contexto de falência, a maioria dos credores não receberia nada, pelo fato de poucos bancos operarem com financiamentos de exportações (adiantamentos sobre contratos de câmbio), os quais teriam recebimento prioritário no caso de falência. Para evitar a falência e minimizar o impacto social que isso traria, a empresa optou por apresentar um plano alternativo. O plano, aprovado pelos credores, como uma alternativa aparentemente mais vantajosa que uma falência, consistiu do arrendamento de todos os ativos da empresa, como um primeiro passo, com o repasse de todos os valores recebidos para os credores. Posteriormente, com a recuperação do mercado, os ativos seriam vendidos e os valores recebidos seriam também totalmente repassados aos credores. Esse plano permitiu a recuperação dos valores para todas as categorias de credores e também possibilitou dar prioridade aos pequenos credores e fornecedores nacionais que teriam sido seriamente afetados no caso de falência, situação na qual deixariam de ser contemplados em benefício dos bancos e grandes fornecedores que se encontrassem em situação de garantia superior. O terceiro e último caso refere-se a um empresa do setor de construção civil com faturamento de R$ 50 milhões (US$ 28 milhões) que, após ter enfrentado um déficit operacional significativo, acumulou dívidas com credores quirográficos no montante de R$ 30 milhões, divididos entre 620 fornecedores operacionais e outras instituições financeiras. O meio mais adequado encontrado para a recuperação da empresa foi

a restruturação de suas dívidas por meio da Recuperação Extrajudicial. Essa resolução foi tomada por três motivos principais, a saber: (i) 60% das dívidas descobertas totais estavam concentradas em cinco credores; (ii) os cinco credores estavam dispostos a negociar, diferentemente do restante; e (iii) como era um prestador de serviços, sua imagem estaria melhor preservada nessa situação do que no caso da empresa optar por recuperação judicial. Dessa maneira, a Recuperação Extrajudicial facilitou o processo para a renegociação da dívida, já que inicialmente a empresa negociou somente com esses cinco credores. A dívida foi reestruturada com sucesso e todos os outros credores não tiveram alternativa a não ser aceitar a negociação que havia sido realizada. A dívida foi prolongada significativamente por meio de um período de carência longo e a prorrogação do pagamento do principal, que foi corrigido por taxas de juros significativamente menores que as taxas de mercado. Conclusão

A nova lei brasileira de falências e recuperação de empresas, em vigor desde 2005, foi concebida em linha com legislações similares de outros países, tornando disponível meios efetivos para a recuperação de empresas, e comprova ser um importante avanço em relação às legislações de falências anteriores. Com foco em prover efetivos meios para a restruturação e a continuidade dos negócios (operando) sob dificuldade, a nova lei proporciona significativa flexibilidade e permite ampla negociação entre o devedor e seus credores. f

Salvatore Milanese é sócio da KPMG fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 59


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Chave

virtual Empresas utilizam certificação digital para ganhar agilidade, reduzir custos e gerar segurança nos negócios Por Juliana Jadon

Selar uma união ficou mais fácil. A partir de R$ 100 é possível comprar o par de anéis que simboliza o afeto, na rede de joalherias Casa das Alianças, e esse valor ainda pode ser financiado. Na rua 12 de Outubro, na Lapa (SP), está um dos maiores e mais rentáveis entre os 18 pontos de vendas da cadeia espalhados pelo País. Somente essa loja possui 18 funcionários. Foi exatamente ela um dos lugares escolhidos pelo braço varejista do banco Fibra – a CrediFibra – para efetuar o piloto da DigitalCredi, sua mais nova ferramenta de certificação digital. A CrediFibra está presente com Crédito Direto ao Consumidor (CDC) em cerca de quatro mil clientes e em mais de dez mil pontos de venda. Márcio Ronconi, vice-presidente da instituição, conta que o atendimento aos lojistas espalhados por todo o País sempre foi feito por meio da web, pela capacidade de respostas rápidas. Mas, mesmo assim, era preciso de muita burocracia até um financiamento ser efetivado. 60 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

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Dependendo da região em que o comércio estava instalado, esse processo poderia levar até cinco dias úteis para ser concluído. Uma loja em Americana (SP), por exemplo, precisava enviar via malote os contratos de financiamento para a filial mais próxima da CrediFibra, em Campinas (SP), onde era feita a primeira avaliação do documento para, posteriormente, ser mandado para a sede da empresa em São Paulo. Outro ponto positivo é a redução do uso de papel. Pilhas de contratos armazenados em inúmeros arquivos estão com os dias contatos para a CrediFibra e seus parceiros. “Com a solução, os gastos com papel, envio, além de pessoas envolvidas no processo, caem cerca de 80%”, sinaliza Ronconi. A realidade mudou. De novembro a janeiro deste ano, foram 120 financiamentos efetuados via certificação digital somente na Casa das Alianças. O ticket médio de compras na varejista esbarra em R$ 500. O uso da ferramenta é simples. O cliente encosta o polegar no aparelho biométrico e aguarda a leitura para a emissão da assinatura digital. O equipamento imediatamente converte a impressão digital do usuário em uma chave numérica que somente aquela pessoa poderá ter, evitando-se, assim, o risco de fraude. E uma situação foi comum de se presenciar nos últimos meses na loja da Lapa. “Não preciso assinar nada?”, questiona o cliente. O vendedor responde: “Não, sua assinatura digital já foi emitida”. Em alguns casos, é preciso somente um papel: a cópia do contrato que fica com o comprador. “Apesar de o papel ser um forte elemento cultural na vida dos brasileiros, os clientes que aceitaram usar a tecnologia na Casa das Alianças saíram satisfeitos”, analisa o supervisor da rede de lojas, Alexander Santos. Segundo a percepção de Santos, esse processo de assinatura evita fraude e gera uma confiabilidade maior ao cliente. “O sistema deles é ágil. Em média, de dez a 15 minutos já está aprovado um financiamento e não é preciso mais guardar ou enviar documentos em papel”, conta. Ronconi quer atingir com o recurso uma faixa da população ainda não atendida pela CrediFibra, já que o fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 61


segurançacertificaçãodigital

gasto para se ofertar e fechar contratos de financiamentos é menor do que antes. A meta é ter como clientes uma fatia da população que busca adquirir produtos de ticket médio mais baixo. “Conseguiremos entrar num público de menor renda”, diz o vice-presidente, explicando que um CDC de menos de R$ 300 antes não era vantagem para o banco devido a todo o processo envolvido. Em janeiro deste ano, mais cem lojistas, além da joalheria, foram beneficiados com a solução. A ideia é que até o final de 2011, mil parceiros varejistas da CrediFibra adotem a ferramenta integral, com todos os equipamentos necessários instalados. Agora, a Casa das Alianças está implantando a tecnologia nas demais lojas e levando a experiência positiva para toda a rede. Bom para o banco, para a loja e para a namorada que acaba de ganhar sua joia.

A ideia é que, até o final de 2011, mil parceiros varejistas da CrediFibra adotem a ferramenta Sem riscos

Uma operação de câmbio que poderia levar dias para ser concluída agora leva minutos. Pelo portal do banco Itaú, as empresas clientes efetuam a operação de maneira segura. Basta, para isso, ter um CPF eletrônico (e-CPF) e uma conta ativa no internet banking. Assim como no Fibra, a segurança fornecida pelo Itaú aos seus clientes empresários, em parceria com a provedora de tecnologia Certsign, tem um imenso público potencial. A instituição possui mais de um milhão de CNPJs ativos como correntistas. Desses, somente cinco mil já usufruem da ferramenta segura. A operação de câmbio on-line citada acima está disponível desde 2006 na web, mas somente no ano passado começou a funcionar com certificação digital. Mesmo assim, o serviço é referência e já emitiu cerca de 130 mil contratos de forma totalmente virtual. “Esse pequeno projeto, perante outros produtos e serviços que possuem uma demanda maior de clientes, nos mostra como a certificação é eficaz”, 62 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

Agilidade Entre 10 e 15 minutos, o comprador sai com o financiamento aprovado da Casa das Alianças

avalia o diretor de produtos para pessoa jurídica do banco, Carlos Eduardo Maccariello. Além disso, considera Maccariello, a certificação permite a fidelização dos clientes com a bandeira. Quando um empresário faz uma negociação via telefone, precisa ainda ir até a agência e ler o documento para, finalmente, assinar o contrato. “Quando um correntista efetua o mesmo processo via internet, rapidamente e de maneira segura, ele não vai querer nos deixar”, considera.


Na corporação, o principal trabalho rumo ao sucesso dessa segurança é preparar mais produtos e serviços para que estejam aptos a usar os certificados. O banco está ampliando a plataforma para ter multiprodutos e não ser exclusiva ao câmbio, mas, sim, interligada com todo o sistema legado. Inclusive, já emite o CPF eletrônico com a construção de uma plataforma própria em 2010. Para Macceriello, além desse alinhamento, outra meta do mercado financeiro como um todo é a disseminação da certificação digital, sinalizando a necessidade e importância de utilizar os canais eletrônicos. “Não adianta mandar um e-mail com uma propaganda mencionando a importância do uso do canal online e da certificação digital, se aquele empresário não acessa sua caixa. Somente 55% dos nossos clientes – pequenas e médias empresas – utilizam os serviços do internet banking”, ressalta o executivo.

“Somente 55% dos clientes de pequenas e médias empresas utilizam internet banking” O governo, com a exigência do uso do Sistema Público de Escrituração Digital (SPED), a Nota Fiscal Eletrônica (NF-e) e outros projetos, pressiona as empresas a entrarem no meio virtual. Esse é um ponto forte a favor das instituições que, como o Fibra e o Itaú, querem levar a segurança para uma outra esfera. Para os executivos do Itaú, assim a agência bancária deverá se tornar um local onde os gestores de empresas tiram dúvidas de negócios e recebem dicas sobre, por exemplo, qual o melhor investimento a ser efetuado. “Somos um banco de consultoria. O cliente-empresa pode fazer qualquer transação simples dentro do Itaú 30 horas sem a necessidade de ir até a agência. Dessa forma, o gerente deve ser elevado para

Carlos Eduardo Maccariello, do Itaú “A certificação digital nos permite efetuar operações que antes eram sonho”

o patamar de consultor, ajudando-o a tomar decisões do que fazer no negócio”, diz João Carlos Borduqui, superintendente da área de empresas do Itaú. Para o diretor do banco, as empresas evoluíram nos quesitos sustentabilidade e governança, e essa revolução no ambiente de internet faz parte desse aprimoramento. “A certificação digital nos permite efetuar operações que antes eram sonho”, conclui Maccariello, se referindo à segurança do sistema. f fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 63


artigoanáliseeperspectivas

A evolução recente do crédito

empresarial no Brasil Além das tradicionais linhas de crédito para pessoas jurídicas, outro indicador de aquecimento do mercado Por prof. dr. Alberto Borges Matias de crédito brasileiro com a colaboração de Matheus Figo é a evolução do saldo de recebíveis das empresas, visto que essa conta pode ser interpretada como uma alternativa à concessão de crédito para as pessoas jurídicas. O presente artigo tem como objetivo analisar a evolução recente do crédito empresarial no Brasil. Para isso foi utilizada uma amostra de 124 empresas de capital aberto com informações de 1999 a 2009. A variável utilizada como parâmetro para analisar a evolução do crédito empresarial foi o saldo de recebíveis das empresas. Em mediana, o saldo de recebíveis das empresas aumentou 193% no período. Somente 17 empresas apresentaram redução de recebíveis, apenas 14% do total de empresas. Portanto a

Saldo de recebíveis das empresas GRÁFICO 1

R$ MIL 120.000.000,00 100.000.000,00 80.000.000,00 60.000.000,00 40.000.000,00 20.000.000,00

20 09

20 08

20 07

20 06

20 05

20 04

20 03

20 02

20 01

20 00

19 99

0,00

Fonte: Inaped & Visionarium

64 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

Taxa de crescimento

em relação ao ano anterior Saldo de recebíveis das empresas

Concessão de crédito para empresas

2000

30%

27%

2001

-1%

9%

2002

31%

16%

2003

4%

12%

2004

25%

16%

2005

8%

11%

2006

19%

8%

2007

-3%

16%

2008

17%

12%

2009

4%

-6%

13%

12%

Ano

Média

grande maioria das empresas, 107 ou 86% do total, apresentou aumento do saldo de recebíveis no período. Esses números indicam que as empresas estão aumentando o financiamento das suas vendas, causando assim um estímulo nas vendas a prazo. O gráfico 2 comprova que, em parte, o crescimento dos recebíveis é decorrente de aumento de prazo de venda. De 1999 até 2009 a mediana do prazo médio de recebimento das empresas foi de 68 para 84 dias. A concessão total de crédito bancário para pessoas jurídicas no Brasil também vem crescendo durante os últimos anos, conforme é observado no gráfico 3. De 1999 até 2009 o crescimento acumulado da concessão total de crédito pelo sistema bancário para pessoas jurídicas foi de 208%. Durante os dez anos analisados, somente no ano de 2009 notou-se uma queda


Prazo médio de recebimento das empresas GRÁFICO 2

DIAS 90 85 80 75 70 65 60 55

20 09

20 08

20 07

20 06

20 05

20 04

20 03

20 02

20 01

20 00

50

19 99

Fonte: Inaped & Visionarium

Concessão de crédito para pessoas jurídicas GRÁFICO 3

R$ MIL 120.000.000,00 100.000.000,00 80.000.000,00 60.000.000,00 40.000.000,00 20.000.000,00

20 09

20 08

20 07

20 06

20 05

20 04

20 03

20 02

20 01

20 00

0,00

19 99

na concessão de crédito para pessoas jurídicas. Destaca-se que, enquanto o setor bancário reduziu o financiamento às pessoas jurídicas neste ano elas continuaram apresentando elevação no saldo dos recebíveis. A tabela compara as taxas de crescimento do saldo de recebíveis das empresas com as taxas de crescimento da concessão de crédito para pessoas jurídicas. Na média dos dez anos de comparação, a taxa de crescimento do saldo de recebíveis das empresas foi ligeiramente maior do que a taxa de crescimento da concessão de crédito para pessoas jurídicas. O gráfico 3 demonstra a representatividade dos saldos de recebíveis em relação ao mercado de crédito para pessoas jurídicas. Na média dos dez anos de análise, o saldo de recebíveis representou 90% da concessão de crédito para pessoas jurídicas. O valor mais alto ocorreu em 2006, em que essa representatividade chegou aos 98%. Destaca-se também a ascensão do saldo de recebíveis em relação à concessão de crédito para pessoas jurídicas nos últimos dois anos, período no qual essa representatividade aumentou de 82% em 2007 para 95% em 2009. Pelo exposto observa-se crescimento dos recebíveis das empresas a taxas superiores as do financiamento bancário às pessoas jurídicas, o qual representou no mínimo 80% do saldo de recebíveis. Assim, um crescimento econômico, em parte fomentado por financiamento empresarial, fica condicionado à expansão das carteiras de crédito do setor bancário às pessoas jurídicas. f

Fonte: Inaped & BC

Representatividade saldo de recebíveis concessão de crédito para PJ GRÁFICO 4 100% 95% 90%

80% 75%

20 09

20 08

20 07

20 06

20 05

20 04

20 03

20 02

20 01

70%

20 00

Matheus Figo, analista financeiro do Inepad

85%

19 99

Prof. dr. Alberto Borges Matias Professor Titular do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo no campus de Ribeirão Preto, e diretor do Inepad

Fonte: Inaped & BC

fevereiro/março 2011 FINANCEIRO 65


artigopalavrafinal

Regulamentação do

Cadastro Positivo O Cadastro Positivo é uma boa ideia em busca de um bom projeto. Muito já se falou sobre a ideia, talvez se devesse falar mais sobre o projeto. No último dia de 2010, o presidente da República vetou o “Projeto Tourinho” (PLS 263/04) e editou a Medida Provisória n°. 518, que disciplina o Cadastro Positivo. A edição de MP para tratar do Cadastro Positivo envolve alguns problemas: um de forma, outro de conteúdo e um José Ricardo da Costa Aguiar Alves terceiro de abrangência. Quanto à forma, a regulamentação por decreto teria implicado menor desgaste político. A edição de uma MP poderá ensejar conflito entre o Executivo e o Legislativo, que passarão a discutir alterações no texto sem consenso sequer entre diferentes áreas do governo. Nessa matéria, o histórico não é promissor. O projeto apresentado pelo deputado Bernardo Ariston em 2003 (PL 836/03), que também era oriundo de uma proposta do Executivo, foi de tal maneira alterada por emendas .O mesmo pode acontecer com a MP 518. Já um decreto teria mantido a abrangência do “Projeto Tourinho” e regulamentado apenas a sua operacionalização. São muitos casos que regulamentaram dispositivos do Código de Defesa do Consumidor e assemelhados, a começar pelo Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. Quanto ao segundo problema, de conteúdo, a MP 518 contém dispositivos que dificultam a implantação do instrumento. O mais crítico é o artigo 15, cuja redação lê: “O banco de dados, a fonte e o consulente são responsáveis pelos danos materiais e morais que causarem ao cadastrado”. Existe aí um equívoco, a inserção do termo “banco de dados”, já que, banco de dados é o “conjunto de dados relativo à pessoa natural ou jurídica armazenados com a finalidade de subsidiar a concessão de crédito, a realização de venda a prazo ou de outras 66 FINANCEIRO fevereiro/março 2011

transações comerciais e empresariais que impliquem risco financeiro”. Também a questão da responsabilidade merece reparos. O texto original impõe a responsabilidade objetiva e solidária ao banco de dados, fonte e consulente. Ocorre que tanto a fonte quanto o consulente acessam o banco de dados já existente, não podendo fazer qualquer alteração em seu conteúdo. As instituições financeiras não são operadoras de Cadastro Positivo, mas, sim, potenciais usuárias . Por fim, há um terceiro problema, de abrangência. A MP 518 vai além da simples regulamentação do Cadastro Positivo. Seu texto sugere que a preocupação do legislador se centrou na proteção de dados pessoais. Ora, o Ministério da Justiça, por meio de um blog inaugurado em 30 de novembro, propôs um debate público sobre minuta de anteprojeto de lei que versa sobre a proteção da privacidade e dos dados pessoais dos cidadãos. A MP sobre o Cadastro Positivo importou essa discussão. A confederação apoia o anteprojeto de lei proposto pelo Ministério da Justiça e já encaminhou sugestões para aperfeiçoar o texto. Recomenda-se às instituições financeiras que examinem o anteprojeto e apresentem sugestões, usando o link disponível no portal eletrônico da CNF (www.cnf.org.br). Quando o anteprojeto sobre proteção de dados pessoais se converter em lei, regulará uma série de outros dispositivos, entre eles os que tratam do Cadastro Positivo. A CNF pretende continuar contribuindo para o debate sobre o Cadastro Positivo, por meio de sugestão de emendas, para que se alcance um projeto realista e exequível. Isto é, um bom projeto para uma boa ideia. f José Ricardo da Costa Aguiar Alves é vice-presidente, da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (CNF)


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Financeiro 67 - Fevereiro 2011  

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