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financeiro

financeiro arevistadocrédito edição

66 nov dez

ENTREVISTA EXCLUSIVA COM GABRIEL JORGE FERREIRA, PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DO FUNDO GARANTIDOR DE CRÉDITOS (FGC)

CONFIRA COMO OS LÍDERES DAS FINANCEIRAS ESPECIALIZADAS GEREM SEUS NEGÓCIOS

novembro/dezembro 2010 edição 66

Brasil em destaque PRESIDENTES DE BANCOS DE CAPITAL ESTRANGEIRO APONTAM O BOM MOMENTO DA ECONOMIA NACIONAL E OS DESAFIOS DOS PRÓXIMOS ANOS

CETELEM PAÍS É O SEGUNDO MAIOR MERCADO ESTRATÉGICO


conteúdofinanceiro

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Entrevista do Mês

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Gabriel Jorge Ferreira, presidente

Fnac cria novos conceitos

do Fundo Garantidor de Créditos,

de lojas para conquistar consumidor

fala sobre o papel da instituição 14

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Capa – De olho no País

Vida Pessoal Executivo da Confederação Nacional das Instituições Financeiras mostra

especialistas colocam o Brasil em pauta

sua coleção de obra de arte africana

Especial – Financeiras Mercado Brasil é segundo mercado estratégico para o Cetelem BGN

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Presidentes de bancos internacionais e

Conheça as estratégias de atuação dos gestores 38

Por dentro do Varejo

Cobrança em debate

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Tecnologia móvel Bancos apostam na mobilidade para cativar clientes

artigos 44 Lucio Anacleto Basileia 49 Antonio Glup Universo Financeiro

Acrefi e Serasa Experian realizam

53 Paulo Rabello de Castro Reformas

encontro sobre esse mercado

54 Alberto Borges Matias Análise e Perspectivas 58 Carlos Thadeu de Freitas Gomes Política Monetária 66 Sérgio Vale Última Palavra novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 3


editorial

O

O Brasil vive hoje tempos de alto grau de aceitação da gestão do governo federal, principalmente no que se refere à economia. Todos sabem que o presidente termina seu mandato com aprovação recorde da opinião pública, e que isso se deve em grande parte ao mercado interno e aos mecanismos de financiamento. O País superou os piores momentos da crise internacional com base na demanda, nas compras dos próprios brasileiros, que continuaram adquirindo todo o tipo de bens com um empurrão de incentivos governamentais diretos – como a isenção de IPI para os automóveis – e indiretos – como o aumento real do salário mínimo. Na outra ponta, no auge da crise, o Fundo Garantidor de Créditos criou um programa para ajudar os bancos que precisavam de funding de forma que pudessem continuar fazendo operações de crédito. Todo bom desempenho da economia nacional só se viabilizou porque existe no Brasil uma estrutura eficiente de pequenas e médias financeiras que deram ao mercado a capilaridade necessária para que houvesse – mesmo – um acesso democrático às linhas de financiamento.

É hora de investir em corte de gastos, inovação e educação

Érico Sodré Quirino Ferreira Presidente da Acrefi 4 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

Foto: Flávio Roberto Guarnieri

Com esse acesso, o brasileiro não só tomou crédito, mas aprendeu a fazê-lo com responsabilidade e não apenas nas horas de dificuldade financeira: financiamento é instrumento de realização de sonhos, mas também – e principalmente – de crescimento de pessoas físicas e jurídicas. As financeiras acompanharam as necessidades de um mercado mais maduro, trabalhando em critérios de concessão de crédito cada vez mais especializados e rígidos. Com isso, foi possível evitar bolhas de consumo e também aumento da inadimplência. Nesse cenário chegou o mês de dezembro de 2010, trazendo tanto felicidade quanto estranheza. Felicidade, porque o Senado Federal aprovou um antigo pleito do setor, o projeto que cria o Cadastro Positivo. Ainda é preciso vê-lo regulamentado, mas já se trata de uma clara indicação de novos avanços, necessários, que darão força ao mercado, prestigiando o bom pagador. A estranheza veio no bojo das medidas que o governo adotou para conter o crescimento do crédito daqui em diante. Segundo o governo, foram medidas macroprudenciais. É compreensível a preocupação com um descontrole inflacionário, mas seria muito mais eficaz atuar no DNA do problema, que é o crônico desequilíbrio fiscal do governo brasileiro. Ou seja, cortar gastos desnecessários e reduzir o tamanho do Estado. É hora de mover a roda da economia, aumentando a competitividade das empresas nacionais, sua produtividade e investir na base: inovação e educação já!


expediente financeiro ISSN 1809-8843

Rua Líbero Badaró, 425 – 28o andar – São Paulo – SP Tel: (11) 3107–7177 Fax: (11) 3106–6082 – www.acrefi.org.br Presidente Érico Sodré Quirino Ferreira Vice-Presidentes Arnaldo Alves Vieira, José Renato Simão Borges, Marcio Ronconi de Oliveira, Marco Ambrógio C. Bonomi, Sérgio Antonio Cipovicci, Aquiles Leonardo Diniz, Odílio Figueiredo Neto, Bartholomeu Ribeiro e Ricardo Annes Guimarães Secretários Paulo Tabaquim e Sérgio Marra Pereira Capella Tesoureiros Cláudio Messias Ferro e Marcus André de Oliveira Diretores Regionais Athaide Vieira dos Santos, Carlos Alberto Samogim, Elcio Antonio de Azevedo, Felicitas Renner, José Antonio Rodrigues, José Newton Lopes de Freitas, Laécio Barros Junior, Leonardo Marcondes Dadalto, Paulo Henrique Pentagna Guimarães, Pedro Costa Carvalho e Teófilo Newton Mattos Diretores-Executivos Gunnar Murillo, Morris Dayan, Sandro Alexandre de Almeida, Edson Froes Castilho, Luis Felix Cardamone Neto , Marc Camp, Mateus Affonso Bandeira, Rubens Bution e Leonel Dias de Andrade Neto Diretores Conselheiros Eduardo Tavares Nobre Varella, Élcio Jorge dos Santos, Giovani Cataldi Neto, Roberto Bronzere, Paulo Sérgio Borsatto, Nelson Aguiar Junior, Marcelo Barp, Odilon Pereira Guerra e Joelcyr Carmello Filho Conselho Consultivo Membros Natos: Alkindar de Toledo Ramos, Manoel de Oliveira Franco e Ricardo Malcon Membros: Alencar Burti, Ricardo Loureiro, Jorge Hilário Gouveia Vieira, Luiz Horácio da Silva Montenegro, Miguel José Ribeiro de Oliveira, Sergio Antonio Reze e Ilídio Gonçalves dos Santos Conselho Fiscal Efetivos: Domingos Spina, Edson Ueda, David Figueiredo Suplentes: Elpídio Hoffmann, Maria Madalena Américo Marinho, Gilson de Oliveira Carvalho Diretor Superintendente Antônio Augusto de Almeida Leite (Pancho) Controller Carlos Alberto Marcondes Machado Consultor Jurídico Cassio M.C. Penteado Jr. Assessoria de imprensa Tamer Comunicação Empresarial

Rua Novo Horizonte, 311 – Higienópolis – São Paulo – SP Tel.: (11) 3125–2244 – CEP 01244-020 – www.gpadrao.com.br Publisher Roberto Meir REDAÇAO Editora-executiva Karin Fuchs Editora-assistente Juliana Jadon Reportagem Eliana Nigro (colaboração) Fotografia Douglas Luccena Colaboradores: Eduardo Sousa e Gustavo Oliveira Arte Editora de Arte Marina Martins Diagramadores Alexandre Braga e Érika Bernal Pré-Impressão Alexandre Lima Revisora Dora Wild Publicidade Gerente Comercial – Marco Góes – mgoes@gpadrao.com.br Gerentes de Negócios Adriana Próspero e Fabiana Zuanon Facilitadoras Ana Chiesi, Fabiana Martins e Patrícia Pinheiro Impressão IBEP Gráfica Ltda.

6 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010


entrevistadomês

Solidez garantida do sistema financeiro Entrevista exclusiva com o presidente do Conselho de Administração do Fundo Garantidor de Créditos Por Eliana Nigro Gabriel Jorge Ferreira, presidente do Conselho de Administração do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), membro da Junta de Administração da Finame, ex-presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), da CNF e ex-vice-presidente do Conselho do Unibanco, fala sobre a atuação do FGC no recente episódio do PanAmericano e do projeto – em audiência pública – que altera o regime de administração do fundo. Confira: Revista Financeiro Como o senhor vê a atuação do FGC depois de ter sido o prumo do mercado em suas últimas turbulências? Gabriel Jorge Ferreira Deve-se reconhecer que o Brasil, há alguns anos, aprimora a estrutura normativa do sistema financeiro nacional, com ênfase nas medidas de controle e de supervisão do setor. Minha experiência de 50 anos em bancos indica que seria preciso olhar com cuidado a habilitação dos gestores das instituições financeiras que hoje se pauta em requisitos formais como, por exemplo, ter curso superior ou experiência anterior em cargo em instituição financeira. Talvez devesse haver alguma evolução nesse campo, como a realização de entrevistas com o candidato a cargo no mercado financeiro para avaliar sua aptidão e seu conhecimento do negócio financeiro. 8 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

Financeiro Que papel o FGC teria nessa reavaliação de mecanismos de controle e de envolvimento em operações de socorro no sistema financeiro? Ferreira A autoridade monetária, responsável pela normatização e supervisão do sistema financeiro, acompanha permanentemente a evolução do mercado de forma a avaliar a necessidade de aprimoramento das normas. No final de 2009, o Banco Central colocou em audiência pública minuta de projeto de resolução de falência de instituições financeiras, no qual é atribuído ao Fundo Garantidor de Créditos um papel mais participativo nas soluções de problemas no mercado. O fundo passaria, assim, a ter maior peso na solução de dificuldades de empresas do setor, pois poderia prestar assistência financeira direta para as instituições associadas com problemas, dentro de determinadas condições de custos, prazos e garantias. Financeiro Que outros pontos estariam contemplados no projeto? Ferreira O trabalho do Banco Central prevê a alteração do regime de administração do fundo, que passaria a ter um conselho totalmente independente do setor financeiro como forma de prevenir eventuais conflitos de interesse e acesso a informações sigilosas.


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entrevistadomês

Financeiro O que representou para o sistema financeiro a recente participação do FGC na solução da última turbulência do mercado? Ferreira: A participação do FGC no episódio PanAmericano revelou-se de grande utilidade por haver viabilizado a operação financeira que permitiu ao controlador promover a capitalização do banco, no nível reclamado pela autoridade supervisora, nos prazos e condições estabelecidos. Ou seja, o Banco Central detectou o problema, notificou o controlador da instituição para capitalizá-la ou associar-se a quem pudesse fazê-lo ou vender o controle. No caso, o controlador dispunha de patrimônio, mas não de recursos líquidos para atender à exigência do Banco Central de capitalização. Foi dentro desse raciocínio estritamente financeiro que o FGC se dispôs a prestar assistência de liquidez ao empresário financeiro, que ofereceu como garantia seu complexo empresarial pelo valor patrimonial de R$ 2,7 bilhões, mas de valor econômico bastante superior. Financeiro E se a instituição tivesse sido liquidada. Qual seria a atuação do FGC? Ferreira O FGC estaria obrigado a garantir os créditos de seus depositantes até o valor de R$ 2,3 bilhões e, nessa hipótese, como confirma a experiência anterior do FGC nos casos de instituições liquidadas, as perspectivas de recuperação seriam muito remotas ou até mesmo nulas. Com a solução encontrada, o FGC, além de não ter prejuízo, contribuiu para a normalidade do mercado 10 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

e estabilidade do sistema financeiro. E fica o registro de uma iniciativa, inédita no mercado, em que o acionista controlador de uma instituição financeira comprometeu todo seu patrimônio empresarial para viabilizar a salvação do banco, resguardando assim os interesses de todos os credores, clientes, depositantes e funcionários. O aporte financeiro do controlador foi integralmente utilizado para a recomposição patrimonial do banco, de forma que apenas ele suportou a perda e preservou a integridade da participação societária dos principais acionistas. Financeiro O mercado ficou turbulento, houve um clima pouco favorável para os negócios em geral. Em sua opinião, o que deve ocorrer daqui em diante? Ferreira Essa reação inicial do mercado é natural em situações desse tipo. Mas a poeira já começou a assentar, sem retrocesso no mercado de cessão de direitos creditórios, que é uma prática usual e frequente no mercado. Ainda não se sabe ao certo o que aconteceu – isso ainda está sendo apurado –, mas, uma vez que se saiba exatamente o que ocorreu, certamente o próprio mercado aprimorará os mecanismos de instrumentação de efetivação dessas operações. Eventualmente, a Cetip – Balcão Organizado de Ativos e Derivativos – poderia fazer esse papel; mas tudo dependerá da análise de custos, processamento e agilidade das operações, que são realizados no mercado dentro do princípio da boa-fé e confiança que caracteriza o negócio financeiro.


Financeiro A cada turbulência ou com a evolução natural do mercado, o FGC vem tendo seu papel alterado, ampliado e se fortalece. Esse é um processo que tende a continuar? Ferreira Historicamente é isso que vem acontecendo. O FGC foi criado em 1995, em meio a uma crise do setor financeiro, quando ocorreram quebras de instituições financeiras de grande porte, causando grande trauma no mercado. Isso levou as autoridades a pensar na instituição de um mecanismo de garantia para assegurar a estabilidade do sistema financeiro. Financeiro Até então essa atribuição era do Conselho Monetário Nacional, que tinha um mecanismo próprio. Como foi essa evolução? Ferreira Antes da Constituição de 1988, quando ocorria a quebra de uma instituição financeira, o Conselho Monetário Nacional autorizava o Banco Central do Brasil a cobrir os depósitos de até determinado valor, usando os recursos da chamada Reserva Monetária, constituída com o produto da arrecadação do IOF. Esses recursos eram segregados do orçamento e administrados pelo Banco Central, mas, com o advento da Constituição de 1988, esse mecanismo deixou de existir, surgindo daí a necessidade de criação de novo modelo de garantia de depósitos. Financeiro E como é esse modelo? Ferreira O artigo 192 da Carta prescreve que o sistema

financeiro nacional deverá ser regulado por meio de leis complementares, disciplinando cada um de seus segmentos. Certamente a matéria do Fundo Garantidor estará contemplada nessa regulação. É bom lembrar que a redação original do artigo 192 mencionava, exemplificativamente, os temas que deveriam ser legislados, e fazia reverência explícita à criação de um seguro de depósitos, sendo vedada a utilização de recursos públicos. Por isso, quando da crise de 1995, o então ministro da Fazenda, Pedro Malan, convocou os presidentes dos bancos para discussão do tema. Eu participei ativamente desse processo, e naquele momento foi decidida a criação do Fundo Garantidor de Créditos, com patrimônio a ser formado exclusivamente por recursos privados, mediante contribuições das entidades associadas. Após intensos estudos técnicos, cálculos e discussões legais, o FGC foi finalmente criado por meio da Resolução 2.197/95 do Conselho Monetário Nacional, que estabeleceu a contribuição de 0,3% ao ano sobre a totalidade do passivo das instituições financeiras e fixou em R$ 20 mil o valor da garantia por CPF. Posteriormente, o limite foi majorado para R$ 60 mil e o BC autorizou a redução das contribuições para os atuais 0,15% anuais. Financeiro Com contribuições dessa ordem, como se insere hoje, no sistema financeiro, o Fundo Garantidor de Créditos? Ferreira Hoje o patrimônio do FGC é de R$ 29 bilhões, o quinto maior do sistema financeiro, computado aí inclunovembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 11


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HOJE O PATRIMÔNIO DO FGC É DE R$ 29 BILHÕES, O QUINTO MAIOR DO SISTEMA FINANCEIRO

sive o do Banco do Brasil. Esse valor assegura aos depositantes e credores de instituições sob intervenção e/ou liquidação uma garantia de até R$ 60 mil individualmente. Mas nem sempre foi assim. Em 2005, por exemplo, diante de situação conjuntural, algumas instituições apresentaram dificuldade de liquidez, o que trazia reflexos negativos para os bancos pequenos e médios. Por isso, o FGC foi autorizado a aplicar seus recursos também na aquisição de carteiras de créditos de suas associadas de forma a trazer tranquilidade ao mercado. Foi uma experiência muito bem sucedida, pois o fundo não teve qualquer perda nessas aplicações.

Financeiro Em 2008 houve nova adequação do perfil do FGC. Que efeitos isso teve sobre o mercado na sua visão? Ferreira Houve um efeito muito saudável, pois a nova frente de atuação do FGC tranquilizou o mercado e normalizou a captação das instituições associadas. Além disso, nessa época, o Banco Central adotou medidas preventivas importantes, como a retomada do acesso ao redesconto e ainda a redução do depósito compulsório das instituições, desde que direcionados para aquisição de direitos creditórios de instituições associadas à carteira do FGC. De outro lado, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil foram autorizados a adquirir participações societárias em outras instituições. Também é preciso destacar a criação do seguro diferenciado sobre depósitos a prazo em função do qual a instituição associada, mediante uma contribuição adicional de 1% ao ano sobre o seu passivo, passava a contar com uma garantia especial no valor de R$ 20 milhões. Outra medida importante foi o BC ter permitido ao FGC aplicar seus recursos na aquisição de CDBs de emissão das associadas, garantidas pelos recebíveis destas. Financeiro Finalizando, como o senhor avalia o resultado dessas mudanças evolutivas do FGC? 12 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

Ferreira: O sistema financeiro nacional é hoje muito sólido, pois o BC, já desde 1995, veio adotando medidas que muito contribuíram para o seu fortalecimento. Entre elas, é importante lembrar a qualidade da supervisão exercida em bases consolidadas e edição de conjunto de normas com forte foco nos controles das instituições financeiras, auditoria interna e externa independente, regras de compliance, administração de riscos e ainda a instituição do comitê de auditoria, importante mecanismo de controle com a finalidade de zelar pela governança comprometida com as melhores práticas de gestão, observância das normas legais, regulamentares e códigos internos das instituições, adequação e qualificação técnica e independência da auditoria interna. Há também o acompanhamento do programa de trabalho do auditor externo independente no exame das demonstrações financeiras e controles das instituições, capacitação técnica dos profissionais e realização de seus trabalhos com efetiva independência. f


notasmercado

COFRES CHEIOS

ACREFI

Superávit primário é o maior da série do Bacen

Em prol da leitura

O setor público, formado pelos governos federal, estaduais e municipais, registrou superávit primário – economia feita para o pagamento de juros da dívida – de R$ 27,756 bilhões em setembro, de acordo com o Banco Central (BC). Esse é o maior resultado da série histórica do BC, iniciada em dezembro de 2001. O governo central (Tesouro, Banco Central e Previdência) contribuiu com R$ 25,594 bilhões, enquanto os governos estaduais registraram superávit de R$ 1,335 bilhão. Os governos municipais apresentaram superávit primário de R$ 318 milhões e as empresas estatais de R$ 509 milhões, excluído o grupo Petrobras.

Desde 2005 a Acrefi é parceira do programa “São Paulo: um Estado de leitores”, uma iniciativa da Secretaria Estadual da Cultura que tem como objetivo zerar o número de municípios do Estado sem bibliotecas públicas, incentivar a leitura e facilitar o acesso aos livros. Entre as colaborações, a entidade já ajudou na revitalização da biblioteca pública da cidade de São Pedro (SP) e, recentemente, doou parte dos recursos obtidos durante o seu 5º Seminário Internacional, que será utilizada na revitalização ou criação de novas bibliotecas. Ana Paula Steffens, Cláudio Barata, Valdilene Fagá, Domingos Spina, Antonio Augusto de Almeida Leite (Pancho), da Acrefi. Ao lado José Luís Goldfarb da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo e Carlos Alberto Marcondes Machado, da Acrefi


mercadoemascensão mercado emascensão emascensão

Ascensão das classes sociais, aumento de renda e crescimento da oferta de crédito. Os bons ventos sopram a favor do Brasil

Economia a todo o vapor 14 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010


Por Karin Fuchs e Juliana Jadon

Fotos: Douglas Luccena

Diferentemente dos principais países desenvolvidos, a crise financeira mundial não afetou tanto o Brasil. O País enfrentou bem todos os percalços graças à evolução vivenciada nos últimos anos, seja pelo aumento da renda familiar, com os programas de incentivo do governo, seja por termos o menor nível de desemprego dos últimos 20 anos. Fabio Barbosa, presidente do Santander Brasil e da Febraban, enfatiza que, embora a situação internacional seja complexa com a queda do rating da Espanha e a atual crise na Europa, o País apresenta diversas oportunidades no mercado interno. Para os bancos, esse cenário só traz oportunidades já que, diz ele, 22% da renda das famílias é consumida pelo mercado financeiro. “O crédito no sistema financeiro nacional saltou de R$ 400 bilhões em dezembro do ano passado para R$ 1,3 trilhão em agosto Fabio Barbosa, do Santander deste ano”, lembra. “O crédito As oportunidades as quais o executivo se refere estão no sistema financeiro apoiadas em um tripé de estabilidade financeira dos últisaltou de mos anos: “com a inclusão de uma nova classe de consuR$ 400 bilhões midores, a questão do bônus geográfico – nunca tivemos em dezembro do ano passado um porcentual tão grande de pessoas trabalhando em todo para R$ 1,3 o país – e as grandes obras que requerem investimentos e trilhão em agosto” movimentam toda a economia”, pontua.

Brasil prioritário

Conrado Engel, presidente do HSBC, concorda com o executivo da Febraban. “Mais de 30 milhões de pessoas saíram das classes D e E no Brasil e foram para a C. Isso faz a economia girar”, afirma. O plano estratégico do HSBC, apresentado há dois anos, elegeu três regiões como prioritárias para alcançar 60% dos seus resultados financeiros nos países emergentes. Na Ásia, os destaques são China e Oriente Médio, e na América Latina o principal mercadoalvo é justamente o Brasil. Porém, entre os gargalos, Engel enumera o endividamento externo, o déficit em conta corrente de mais de US$ 70 bilhões previstos para 2011 e a necessidade de melhorar a poupança interna. “Além disso, os próximos anos vão requerer investimentos em infraestrutura e a capitação de recursos em longo prazo não pode depender somente do BNDES. É preciso buscar outras formas para financiar o crescimento do Brasil. Outro gargalo que temos é o déficit de mão de obra qualificada”. Desafios que o País tem de enfrentar para realmente conquistar o quinto lugar no ranking das maiores economias mundiais. Para Barbosa, captação de longo prazo para desenvolver financiamentos extensos é exatamente um dos maiores


mercadoemascensão desafios dos bancos no setor de crédito. “Isso significa novas alternativas de funding e é fundamental para os bancos se sentirem seguros no financiamento de longo prazo”, ressalta. Destaque entre os BRICs

Já o presidente do BNP Paribas no Brasil, Louis Bazire, ressalta que o Brasil é o País que tem a economia mais madura entre os Brics (Brasil, Rússia, China e Índia). Em número de habitantes, a população no Brasil representa 15% da chinesa e, no entanto, a área de cultivo é relativamente a mesma. “O Brasil é o centro da nossa estratégia latinoamericana. Esse é um sinal absoluto da nossa confiança no País”, conta. Assim como Engel e Barbosa, Bazire também pontua que os gargalos no País são as curvas de investimento e poupança. “É fundamental que os bancos tenham processos que permitam a liquidez de longo prazo. O Brasil se tornou o foco das Américas como plataforma de investimentos dos bancos.” Conrado Engel, do HSBC “Mais de 30 milhões de pessoas saíram das classes D e E no Brasil e foram para a C. Isso faz a economia girar”

Mauro Leos, presidente da agência de classificação de risco Moody’s, faz uma observação. “O Brasil é uma economia para ser pensada nos próximos cinco anos e não somente no próximo. Hoje, o País é grau de investimento e isso significa que os riscos de se colocar dinheiro aqui são baixos. Porém será que o Brasil está preparado para todos os choques positivos?”, questiona. Estímulo para o resto do mundo

Na avaliação de Albert Fishlow, professor emérito da Universidade de Colúmbia (EUA), os países em desenvolvimento deram estímulo para o resto do mundo no período de crise. “O planeta está globalizado, mas o sistema financeiro nem tanto e, por isso, esses países em crescimento não foram tão atingidos”, avalia. Há ainda, de acordo com Fishlow, mais pontos a favor para o Brasil, principalmente com os investimentos que virão em função das grandes obras previstas no setor de infraestrutura devido à Copa do Mundo e às Olimpíadas, que ocorrerão em solo nacional. “O aumento da produtividade é a fonte da alta da renda per capita do Brasil e da elevação mão de obra qualificada. Além disso, há por aqui a ideia de redução da desigualdade social”, observa. Para Francisco da Silva Coelho, presidente da Ordem dos Economistas do Brasil, é preciso pensar estrategicamente nos próximos anos com todo ufanismo de crescimento da economia brasileira que está na ordem do dia, mas sem perder de vista o contexto da globalização. “Claramente haverá queda na atividade econômica mundial. Os perigos existem e não devemos esquecê-los”, provoca. De acordo com as projeções do mercado, a taxa de crescimento do País ficará em 7,5% do PIB neste ano. Para 2011 a previsão é de um crescimento menor, entre 4,5 e 5% do PIB. Carteira eletrônica

A mobilidade é uma tendência irreversível e, cada vez mais, uma porta de entrada para o mundo dos negócios, mudando constantemente a forma de se relacionar. Na visão de Ethevaldo Siqueira, consultor nas áreas de telecomunicações, tecnologia da informação e economia digital, o celular não tardará em se transformar em uma carteira eletrônica. Na opinião de Ben Verwaayen, presidente da


Para Louis Bazire, do BNP Paribas, o País tem a economia mais madura entre os BRICs

Alcatel-Lucent para América Latina e Caribe, em 2025 o Brasil terá redes de banda larga interligando casas, escritórios, bancos e aeroportos. “O impacto e a importância estratégica da banda larga se tornam cada vez maiores. Teremos o celular como uma verdadeira carteira eletrônica”, diz. Com a marca de quase 190 milhões de celulares em operação e mais de dez milhões de usuários da tecnologia 3G, registradas em agosto deste ano, o Brasil é o quinto maior mercado mundial de telefonia celular. O desafio, destaca Laércio de Oliveira Pinto, presidente da unidade de negócios Credit Services da Serasa Experian, é transformar inovações tecnológicas em mais comodidade ao consumidor e mais renda. “Cada vez mais o computador é usado como mídia de convergência e de interação entre as pessoas. Tudo isso vai influenciar a forma de interagir com os negócios.” Tornar a experiência de compra pelos canais na web cada vez melhor, assim como ofertar produtos de maior valor agregado, como imóveis e veículos que requerem uma análise de crédito mais criteriosa e formas diferenciadas de pagamentos também são desafios que estão por vir. De acordo com Cláudio Oliveira, diretor-executivo comercial da Redecard, existe uma preocupação em relação à fraude no comércio eletrônico, mas há como evitá-la, utilizandose mecanismos adequados de segurança. “Já existem muitos filtros para essa finalidade e é perceptível o grande crescimento do comércio eletrônico. O que muda, entre a loja física e a virtual, é a gestão.” Carlos Vianna, líder de consultoria para a área de gerenciamento de riscos da Accenture, defende que é preciso

conhecer o consumidor, criando uma inteligência para interagir com ele. “Esse é um mundo novo e um dos caminhos é criar uma campanha maciça que eduque a sociedade e o usuário da internet a filtrar conteúdos.” Mauro Leos, da Moody’s “O Brasil é uma economia para ser pensada nos próximos cinco anos”

Perspectivas do novo governo

Na análise do cientista político Bolívar Lamounier sobre o momento atual do Brasil, nunca antes na história houve um presidente que manteve a sua popularidade em alta até o final do mandato. “A presidência se agigantou

novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 17


mercadoemascensão

imensamente em relação ao poder. Isso foi extremamente agravado pela personalidade do Lula. Não quero faltar com o respeito ao presidente, mas isso é uma coisa que atropela a constituição e as leis com certa frequência.” Com Dilma Rousseff no poder, Lamounier prevê que ela não conseguirá manter a popularidade como o seu antecessor. “Eu precisaria estar muito errado para acreditar que a popularidade da Dilma dura três, quatro ou cinco meses. Não vai durar. Ela nunca terá a popularidade do Lula e a perderá muito mais rapidamente que quaisquer presidentes recentes. Isso aconteceu com o Barack Obama e com o Bill Clinton, porque não acontecerá com ela?”, questiona. E como os bons ventos sopram a favor do Brasil, independentemente de quem estará no comando, a economia continuará em ritmo crescente. “Neste ano o crescimento do PIB será próximo a 8%. Em 2011, em menor porcentual, entre 4 e 4,5%, impulsionado pelas expansões do consumo e da oferta de crédito”, mensura José Roberto Mendonça de Barros, economista e sócio da MB Associados. Segundo ele, junto à expansão estão grandes desafios. “Os gargalos são grandes, a começar pela falta de oferta de 18 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

Albert Fishlow, da Universidade de Colúmbia (EUA) “Os países em desenvolvimento deram estímulo para o resto do mundo no período de crise”

profissionais qualificados no mercado. Porém, dada a escassez de mão de obra, dá para dizer com certa segurança que a massa real de salários vai continuar crescendo nos próximos anos, mesmo que nós cresçamos apenas 4%.” Na pauta do novo governo, defende Rubens Sardenberg, economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), deve estar uma política mais responsável do ponto de vista fiscal, o que ajudaria também a reduzir taxas de juros. “Não há dúvida que houve uma piora significativa na questão fiscal e é difícil imaginar que haverá grandes aprovações de reformas no novo governo. Olhando adiante, o volume de financiamentos é tão grande que é impossível avançar nesse modelo sem a iniciativa privada, o que requer melhorar a segurança para atrair capital privado. O novo governo será mais dependente ainda do sucesso econômico”, avalia. Os desafios que virão são grandes. Mão de obra escassa e um país caro são apenas alguns deles. “Se de um lado temos a valorização do real, do outro está o aumento do custo Brasil, afetando quem produz para o mercado interno. O Brasil é um país que ficou muito caro. Além disso, estamos no início de um desequilíbrio pátrio-econômico, em função dos demasiados gastos do governo nos últimos anos. Nas projeções, teremos um acúmulo previsto de R$ 400 bilhões de déficit em conta corrente, entre 2010 e 2014”, analisa Mendonça de Barros. Tributos elevados e infraestrutura precária, de acordo com ele, também são alertas apontados pelo economista. “Para o Brasil se qualificar para crescer de forma sustentável, mais do que 4%, seria decisivo que o novo governo tenha uma visão clara de todas as questões citadas anteriormente, para que possa ir adiante e enfrentá-las.” Uma análise detalhada do que esperar para os próximos anos foi apresentada durante a 5ª edição do Seminário Internacional Acrefi. Em comum, os executivos do mercado financeiro não têm dúvidas: o Brasil é o destaque mundial. Muitos desafios há pela frente, mas a situação é bem diferente de tempos atrás, em que um espirro em um país vizinho causava uma gripe em todo nós. O mundo mudou e principalmente o Brasil também. Quem mais diz que somos subdesenvolvidos? f


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Há espaço Por Juliana Jadon

Notoriamente a oferta de crédito no País vem evoluindo ano a ano. Em 2003, ela representava 23% do PIB, porcentual que chegou a 45% no final de 2009. Estimativas da Febraban apontam que a oferta de crédito aumentará aproximadamente 19% em 2011, mesmo nível previsto para o final deste ano. A estabilidade econômica, assim como o aumento da renda e ascensão das classes sociais têm impulsionado o consumo e, consequentemente, a busca por crédito. Neste cenário, as instituições financeiras têm uma participação de 10% do volume de crédito ofertado no País – um total de R$ 1,5 trilhão, sendo R$ 500 milhões

destinados à pessoa física – e, cada vez, elas estão se especializando em nichos de mercado, seja em produtos, regiões ou linhas de negócios. José Renato Simão Borges, vice-presidente da Associação das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) e do banco Sofisa, além de coordenador da Comissão de Crédito e Cobrança da Acrefi, analisa que na última década as operações de crédito em estabelecimentos comerciais eram exclusivamente das financeiras, enquanto que os bancos de grande porte estavam concentrados na sua rede de distribuição (agências).


para todos De lá para cá, essas grandes instituições descobriram que há frutos para colher nesses locais, como concessionários de veículos e redes varejistas, e passaram a estruturar financeiras para neles operar. Alguns dos grandes bancos compraram, inclusive, financeiras com boas carteiras de crédito. “O consumidor vai até as lojas para ter o crédito lá mesmo. Isso demonstra que o papel das financeiras era importante lá atrás e agora continua tão relevante quanto”, avalia Simão Borges. A concentração bancária não é um problema por aqui, diz Simão Borges, pois existe ampla competição no setor. Há quatro grandes bancos que detêm mais de 70%

Nos últimos dez anos, a participação do crédito no PIB mais do que dobrou. Financeiras ampliam mercado em nichos específicos, seja de produtos, regiões ou linhas de negócios


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do financiamento de veículos nacional, por exemplo. Nesse cenário centralizado, um dos trabalhos é baseado em escala e o outro em diferenciação. “As financeiras ganham pela diferenciação e especialização, seja de produtos, regiões ou linhas de negócios. Num país continente como o nosso, as divergências regionais de cultura, pessoas e demandas de crédito são grandes. A concentração trás oportunidades para as financeiras principalmente porque esses bancos de grande porte passam por processos de integração”, opina. Competir com os bancos maiores realmente não é o foco. Para Pedro Costa Carvalho, presidente da carioca Lecca Financeira, os principais desafios das financeiras especializadas, em geral, estão na identificação de nichos do mercado nos quais os grandes players não atuam ou não têm interesse em oferecer um serviço de qualidade. Tais nichos geralmente demandam customização e atendimento diferenciado, e para atendê-los é preciso ter cuidado para não montar uma operação cara e manual. Uma das metas é atrair a maior quantidade de investidores, promovendo a pulverização do funding, com uma operação que tenha custo compatível. Para se sobressair, algumas das financeiras se tornaram bancos múltiplos, como você verá nesta matéria, diversificando assim o leque de produtos e serviços financeiros ofertados. Outras se associaram a redes varejistas e passaram a prover cartões de crédito para os clientes. Outras nasceram para suportar operações de grandes empresas. A principal atividade praticada por elas é o Crédito Direito ao Consumidor (CDC). Para

correr baixo risco de inadimplência, optaram por atuar no financiamento de veículos – pelo qual a garantia é o próprio bem – e no crédito consignado descontado em folha de pagamento. A rentabilidade dos negócios está alicerçada no nível de exposição ao risco e ao spread. “É uma questão de apetite pelo risco. Todas as oscilações que podem surgir e que comprometam de alguma maneira a rentabilidade dessas empresas devem estar previstas no modelo de negócios e na postura dos funcionários no momento de ceder o crédito”, diz Eduardo Pozzi Lecchesi, especialista em mercado financeiro e professor da Faculdade de Administração da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Para Simão Borges, as perspectivas para o mundo das financeiras especializadas são boas. O crescimento do PIB nos próximos anos, estimado entre 4 e 5%, se dará embalado no aumento da renda e do mercado de crédito. “O crédito deve fechar o ano com uma relação próxima a 50% do PIB. Se compararmos esse montante ao de outros países, vemos que podemos dobrar essa carteira”, estima. E ainda em 2011 poderá vigorar no País o Cadastro Positivo. O vice-presidente da Acrefi acredita que essa será a principal alavanca para o crescimento do crédito nacional. “Com esse banco de dados teremos a melhora da qualidade da carteira, o aumento do crédito e a inserção de novas pessoas no sistema financeiro brasileiro. O Brasil será, digamos, o último dos moicanos a aproválo”, finaliza.


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Ganhos de todos Aquiles Leonardo Diniz, principal executivo do banco Intermedium, acredita que incentivar os colaboradores é a melhor maneira de fazer o negócio crescer

Aquiles Leonardo Diniz, do Intermedium “Para atingir o Brasil todo usamos os recursos de correspondentes”

“Se o banco Intermedium ganha, os funcionários também ganham.” A frase é de Aquiles Leonardo Diniz, principal executivo e diretor operacional do banco múltiplo mineiro. Não é só por meio da participação nos lucros que os funcionários de lá recebem remuneração variável. Se o desempenho da área em que atuam for muito bom, também há a possibilidade de ganhar o “reconhecimento” do Intermedium. Tudo para incentivar os profissionais a levarem a empresa a crescer. Fomentar a atividade econômica é a principal vocação desenvolvida por eles desde sua raiz. Sediada na cidade de Belo Horizonte (MG), possui presença também em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Com um patrimônio líquido de aproximadamente R$ 150 milhões, atua no mercado de passivos por meio dos CDBs (Certificados de Depósitos Bancários), LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) e FIDCs (Fundos de Direitos

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Creditórios), e no de ativos com operações de capital de giro (middle market), crédito imobiliário, crédito ao consumidor e consignado. Para consolidar o crescimento, o banco aumentou neste ano o capital realizado pelos acionistas. Foram aportados R$ 24 milhões. O Índice de Basileia, que comprova a qualidade da estrutura de capital e posicionamento da instituição no mercado, passou de 30,51% em dezembro de 2009 para 35,31% em abril de 2010, reafirmando o espaço para crescimento dos ativos de crédito. A carteira de crédito do Intermedium possui R$ 300 milhões, divididos em crédito pessoal, com 60%; middle market, com 25%; e por fim imobiliário (15%). Diniz revela sua principal estratégia: “somos um banco de andar e não de rede. Para atingir o Brasil todo usamos os recursos de correspondentes”. Ainda esse ano, o Intermedium lançou um Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDC) no valor de R$ 85 milhões. Um dos produtos que está em expansão é a carteira de crédito imobiliário. Nessa modalidade, a expectativa de Diniz é dobrar a carteira. Em 2008, o Intermedium atingiu R$ 10,5 milhões nesse quesito e passou para R$ 35 milhões em 2009. Em 2010, deve chegar a R$ 70 milhões no crédito imobiliário. O executivo lembra que o principal desafio de uma financeira é encontrar um nicho de mercado que não seja competitivo e se especializar. O achado do Intermedium é o consignado. Com a criação de convênios – a expectativa é de mais quatro estaduais até o final de 2010 – e um aumento nas áreas de atuação, Diniz quer no próximo ano dobrar também a carteira de middle maket e inflar em, ao menos 30%, a de consignado. Diniz provavelmente ficará feliz no próximo ano e os funcionários do Intermedium, sem dúvida, também.


Crédito planejado João Paulo Pompermayer, diretor-operacional da Todescredi, fala sobre a empresa que financia as marcas do Grupo Todeschini Planejar é tudo. Ao menos para o apoio financeiro do Grupo Todeschini, a Todescredi. Tem como foco principal financiar os consumidores das marcas Todeschini, Criare e Italínea, empresas da corporação que produzem e vendem móveis planejados para cozinhas, salas de estar e jantar, banheiros, lavanderias, closets ou para qualquer espaço que o cliente preferir. Essas bandeiras estão presentes em de mais de 1.100 pontos de vendas espalhados pelo Brasil. Pode parecer fácil financiar a própria produção, mas não é bem assim. “O cliente pode optar por outras formas de pagamento nas lojas que fogem das mãos da Todescredi. Para atraí-los é preciso criar promoções e taxas competitivas”, expõe João Paulo Pompermayer, diretor-financeiro do Grupo Todeschini e diretor operacional da Todescredi. O principal mercado é São Paulo, que conta com 40% das operações assistidas pela Todescredi. Com o boom imobiliário e a construção de milhares de apartamentos com cerca de 50 metros quadrados na capital, a companhia deve crescer organicamente devido ao aumento da demanda por espaços planejados. “O consumidor quer comodidade independentemente do tamanho de seu lar”, opina o diretor. A Todescredi Crédito, Financiamento e Investimento foi fundada em junho de 2008 e tem como acionistas a empresa Todeschini e seus controladores. O principal produto é o CDC, operando também concessão de crédito, desconto de recebíveis, crédito consignado (para os próprios funcionários do grupo) e capital de giro para a rede de lojas. O desafio é oferecer linhas de crédito a juros competitivos com a agilidade, segurança (baixo risco) e rentabilidade, o que diga-se de passagem não é uma equação fácil. O funding todo vem do grupo capitalizado. A carteira de crédito está dividida em Todeschini (60%), Criare (30%) e Italínea (10%). A carteira ativa ultrapassa R$ 100 milhões e o volume financiado já alcança a

João Paulo Pompermayer, da Todescredi “Nossos clientes normalmente possuem alto poder aquisitivo”

cifra de R$ 250 milhões. Desde a fundação da Todescredi, foram firmados mais de 18 mil contratos. “Nossos clientes normalmente possuem alto poder aquisitivo. O ticket médio por compra é variado e o financiamento normalmente é fechado entre dez e 12 parcelas”, aponta Pompermayer. O executivo atua há 35 anos na indústria. Ele considera seu modelo de gestão participativo, em que a premissa é valorizar o ser humano. A empresa já foi, inclusive, a melhor para se trabalhar no Brasil pela revista “Exame”. “Nos tornarmos, assim, uma das maiores financiadoras de móveis planejados do Brasil, mas ainda temos um volume potencial de financiamento muito grande. Nossa carteira usufrui somente 20% do potencial. Não chegamos ao vôo cruzeiro. Há muito para explorar”, encerra Pompermayer. novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 25


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Pessoas e tecnologia Cláudio Ferro, diretor do Ficsa, conta como o banco é um dos mais rentáveis entre os de pequeno e médio porte

Cláudio Ferro, do Ficsa “O maior número de clientes são servidores públicos, aposentados ou pensionistas do INSS”

Uma revolução. Há três anos, o banco Ficsa mudou seu controle acionário. O Quis Participações, cujo o grupo de investidores detém dois terços no Grupo Equipav e três quartos na Organização Polimix, adquiriu 100% do controle do banco Ficsa. O grupo acordou a instituição inoperante por dois anos. Na nova gestão, três diretores com cerca de 30 anos de experiência no mercado financeiro, entre eles, Cláudio Ferro, desenvolveram junto aos acionistas um novo modelo de atuação. Sem presidente, os três comandam de maneira igualitária a instituição, que passou de familiar para um ambiente profissional. O Ficsa foi totalmente reestruturado, desde o seu quadro de funcionários e correspondentes – com no mínimo 12 anos de experiência – até toda a infraestrutura operacional. Somente na área de tecnologia da informação – que contempla, entre outros itens, sistemas de credit score e uma web ágil e segura para a captura de negócios –, o investimento foi de cerca de US$ 10 milhões. De acordo com uma avaliação da revista “Valor 100”, o Ficsa está entre os 20 bancos de pequeno e médio porte mais

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rentáveis, com menor custo operacional e que mais cresceram em suas carteiras de crédito. No primeiro semestre deste ano, a carteira de crédito quase dobrou, atingindo R$ 508,759 milhões. No mesmo período de 2009 era R$ 264,378 milhões. Num acordo com os acionistas, Ferro e os outros dois gestores se comprometeram a compartilhar todos passos e decisões tomadas na instituição. Formaram uma equipe de cerca de 105 pessoas, que vieram de diversos bancos de variados portes. O novo Ficsa resgatou o mesmo público-alvo da fundação em 64: as classes C, D e E. Por isso, atua com mais de cem correspondentes bancários em todo o País. Cada correspondente possui uma equipe de cerca de 15 pessoas, que atuam no modelo “porta a porta” e no espaço físico. “Nos últimos anos a classe C foi a que mais cresceu no Brasil e, por isso, acertamos em nossa aposta. Agora o nosso principal desafio é diversificar e lançar novos produtos financeiros para essa faixa econômica da população”, ressalta. O maior número de clientes são servidores públicos, aposentados ou pensionistas do INSS. Por isso, o nível de inadimplência da carteira é baixo e gira em torno de 3,3%. “Nosso negócio é dividido entre crédito consignado, com 45% da carteira, e financiamento de veículos, com 65%. Não financiamos 100% do valor bem, normalmente pouco mais de 60%. Isso nos dá segurança”, conta o executivo. A meta agora é atingir uma carteira de crédito de R$ 1 bilhão até o final de 2011. Para isso, novos produtos serão lançados. “Temos carência nos mercados de varejo e estamos em busca de lacunas. O Brasil mudou. Há uma nova classe de consumo muito ávida. É preciso estar atento a isso”, finaliza Ferro.


Ética no centro dos negócios Com essa premissa, o diretor-presidente da Finamax, Francisco Oliva, fez a empresa acumular resultados positivos Sentado ao lado da ouvidora da Finamax, o diretorpresidente da empresa, Francisco Oliva, ouve atentamente todas as reclamações que chegaram ao setor. Ele deseja, com isso, saber quais são os gargalos que fizeram clientes terem experiências ruins ligadas à companhia. Essa cena é somente uma das muitas em que os funcionários da Finamax vislumbram Oliva trabalhar com ética. Na corporação, ele coloca esse conceito no centro dos negócios e é assim que a empresa fazer a empresa crescer. Desde o início das operações, em 1995, o faturamento da empresa só inflou e, em 2009, apresentou alta de 12% comparado ao ano anterior. Até o final do ano passado, a financeira realizou cerca de 424 mil operações de crédito, sendo 395 mil para pessoa física e 29 mil para empresas. Oliva passa o que sabe para a neta, futura presidente da empresa, Ana Oliva. Ela o acompanha, por exemplo, às reuniões com os investidores nas quais ele faz questão de estar presente para apresentar dados sobre as letras de câmbio, principal instrumento de captação de recursos. Em breve, ela assumirá o comando. No momento de renovação já assume o posto de presidente em algumas frentes. A Finamax se posicionou no mercado apostando em um crescimento sustentável. Hoje, a empresa atua no interior do Estado de São Paulo e está presente em 31 cidades, contanto com 35 agências. Oliva é também o acionista majoritário e fundador da Finamax. Carlos Alberto Samogim conta que o forte da financeira é o setor de carros, que responde por 60% da carteira de crédito. O restante (40%) é voltado para crédito pessoal. Como principal instrumento de captação possui o produto Letra de Câmbio. Samogim aponta que parte da carteira de veículos é representada por clientes que refinanciam pagamentos em atraso, pois estão pendurados no cheque especial. Assim, a

ideia é oferecer uma opção de pagamento mais adequada de acordo com o rendimento mensal dessas pessoas. O modelo de expansão está alicerçado em agentes credenciados. Foi assim que Oliva levou a Finamax a diversas cidades interioranas. A expectativa é ainda este ano conquistar novas praças. Samogin acha que o maior desafio das financeiras é a bancarização. Na Finamax, isso se tornou oportunidade. “Preferimos trabalhar com um público bancarizado”, conta. Lá para obter crédito é preciso ter emprego com carteira assinada. O ticket médio dos empréstimos é de cerca de R$ 1,5 mil. “Como uma financeira independente, temos de crescer na raça. Fazemos tudo da melhor forma possível para ter essa condição”, finaliza o executivo, com orgulho.

Carlos Alberto Samogim, da Finamax “Preferimos trabalhar com um público bancarizado”

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Varejo no bolso É assim que Teófilo Newton Mattos, gestor da financeira Herval, chama o cartão de crédito da empresa

Teófilo Newton Mattos, da Herval “O nosso cartão tem a cara do varejo e foi feito para atender especificamente a esse setor”

Nas prateleiras de uma loja com no mínimo 1.500 metros quadrados há ferramentas, utensílios domésticos, eletrônicos, sapatos e outros diversos produtos. O cliente caminha pelos corredores, escolhe alguns artigos e vai ao caixa. Ele está numa das mais de 70 lojas Taqi, em Porto Alegre (RS). A rede varejista é parte do grupo empresarial Herval, que possui mais de 50 anos de atividade e conta com um guarda-chuva financeiro com o mesmo nome. Na hora de pagar, o operador de caixa o oferece um cartão de crédito e ele aceita, passa os dados solicitados e, em 15 segundos, o consumidor já tem a resposta e pode usufruir do modelo de pagamento. A Herval Financeira foi constituída há cinco anos com o objetivo de rentabilizar o negócio varejista do grupo, financiando as vendas a prazo e gerando recur-

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sos mais competitivos no mercado brasileiro. “Com a criação da financeira tivemos uma grande economia fiscal”, conta o gestor da financeira Herval, Teófilo Newton Mattos. A instituição é responsável por 80% dos financiamentos do varejo do Herval. Além da Taqi, a Herval possui oito lojas Apple e outros varejos. São mais de 300 mil cartões emitidos, com um ticket médio por compra de R$ 320. O plástico oferecido nas próprias lojas do grupo conta com a bandeira de crédito Goodcard. Há dois anos, houve uma reestruturação estratégica das marcas dentro da Herval. As lojas que também detinham o nome passaram a se chamar Taqi. Isso ocorreu para que os grandes clientes das indústrias e outros setores em que atua não o relacionassem como um concorrente. “Como diz o jargão, ‘dinheiro não tem cor, é preciso saber usá-lo’”, brinca Teófilo. Assim, a Herval já emite o plástico para outras redes varejistas, como um open private label. Neste ano, conta Teófilo, o ticket médio da compra aumentou mais de 30% e a rentabilidade da financeira cresceu mais de 10%. “O nosso cartão tem a cara do varejo e foi feito para atender especificamente esse setor. Ele é o varejo no bolso”, diz. Para correr baixo risco a empresa investiu pesado em um software de aprovação de crédito. Foram mais de 600 horas de desenvolvimento. O programa avalia o risco por região, CPF, CNPJ e ainda classifica compartimento de pagamento dos clientes. Hoje, a carteira de crédito da Herval Financeira está em quase R$ 90 milhões, com rápido giro entre cinco e seis meses. “Nossa meta é acompanhar o crescimento do grupo e ao mesmo tempo entender o que acontece no mercado. No varejo, o desafio é fazer com que o cliente vá a loja”, diz o executivo.


Custos qualitativos Com meritocracia e investimentos em tecnologia, o presidente da Lecca Financeira, Pedro Costa Carvalho, gere a companhia Com a ajuda de uma consultoria especializada, Pedro Costa Carvalho, presidente da carioca Lecca Financeira, revolucionou o ambiente de trabalho. Toda a estrutura de remuneração foi revista com a ideia de fortalecer o conceito de meritocracia. Assim, são mais bem-remunerados aqueles que realmente se dedicam à empresa e possuem expertise nas áreas em que atuam. O setor de tecnologia também é uma das prioridades. Carvalho afirma que investe pesado para aumentar o nível de automatização das operações, tornando-as mais eficientes: com maior qualidade e menor custo. “Para crescer de maneira sustentável, além de focar no desenvolvimento de produtos e parcerias, demos especial foco nas áreas de TI e RH, fundamentais para o nosso negócio”, conta. Durante a crise de 2008, a financeira de Carvalho adotou uma postura conservadora na gestão do fluxo de caixa. Nesse sentido, o presidente fechou as torneiras, deixando uma brecha para os parceiros considerados mais fiéis. Assim, aproveitou o momento para fidelizá-los. Carvalho também conversou durante o período de turbulência econômica com os investidores para posicioná-los sobre a situação privilegiada da empresa em termos de qualidade da carteira. Além de atravessar a crise com resgates residuais na captação, a Lecca, afirma ele, foi uma das poucas instituições de pequeno e médio porte que não interrompeu a liberação de recursos para operações de crédito. “Esse cenário contribuiu para o aumento da nossa credibilidade junto ao mercado”, avalia. Hoje os principais produtos financeiros da Lecca são crédito consignado, administração e antecipação de recebíveis, investimento em renda fixa (como letra de câmbio, FIDC, RDB e outros) e cartões de crédito. Para atender os pequenos e médios supermercadistas, a Lecca possui dois tipos de cartão de crédito. Com o private label, o lojis-

ta pode reduzir custos na operação de cartão e o risco de inadimplência. Já o híbrido soma isso à bandeira de crédito Good Card. Tal plástico possibilita ao cliente utilizar o cartão em mais de 200 mil estabelecimentos credenciados e é uma das apostas da vez. “Nossa meta é fechar 2010 com uma carteira de R$ 200 milhões, e o ano que vem com R$ 300 milhões”, estima. O crédito consignado compõe a maior fatia da carteira. “Com o objetivo de atuar em nichos que os grandes bancos não atuam, construímos parcerias com correspondentes bancários, desenvolvendo produto e atendendo a necessidades específicas”, aponta Carvalho uma das estratégias de sua empresa. Paralelo a esse movimento no consignado, Carvalho também trabalha para estimular o crescimento dos outros produtos. “A intenção é manter o peso de cada operação equilibrado dentro do portfólio e não depender de uma só operação. O maior desafio no momento é promover o crescimento da carteira sem comprometer a rentabilidade”, finaliza.

Pedro Costa Carvalho, da Lecca Financeira “Nossa meta é fechar 2010 com uma carteira de R$ 200 milhões”

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Cartão da vez Mais de 50% do faturamento da Riachuelo é proveniente do cartão bandeirado, fornecido pelo seu guarda-chuva financeiro Midway Dona Maria não possui dinheiro suficiente para comprar a calça de R$ 70 que vislumbra na vitrine da Riachuelo. Mas se ela parcelar o valor no cartão da loja, em cinco vezes sem juros, adquirir o produto não será nenhuma dificuldade e ainda levará para combinar uma blusa de R$ 50. O cartão Riachuelo responde pela maior parte (54%) do faturamento da rede varejista e possui 17 milhões de usuários. O plástico é processado e concedido pelo braço financeiro da rede de lojas, a Midway Financeira. Constituída em 2008 na cidade de São Paulo, a Midway pertence ao bem-sucedido Grupo Guararapes cuja holding controla, entre outras empresas, a rede de lojas Riachuelo. Criada com o propósito de ser o agente financeiro do grupo, já nasceu com números expressivos devido à rede varejista. Com a financeira, o cartão foi aperfeiçoado e a rede varejista não precisa mais de parcerias com outras instituições financeiras para prover crédito pessoal. A maior fatia de clientes da Riachuelo (60%), assim como dona Maria, são mulheres que fazem uma compra média de R$ 120 parcelados. Por meio desse private label, a Riachuelo oferece variadas formas de financiamento, além de serviços financeiros, tais como empréstimos pessoais, seguros e assistências. Desde julho deste ano, alguns clientes convidados por pagarem sempre suas faturas em dia podem ter um cartão híbrido, com as bandeiras de crédito Visa ou Mastercard e gastá-lo em qualquer outro estabelecimento que o aceite. “Nossa expectativa é fechar 2010 com 300 mil usuários do novo plástico. Primeiramente vamos escolher clientes da nossa própria base e no próximo ano iremos ofertá-lo ao mercado. Agora, o cliente tem um mundo para gastar”, diz o diretor de crédito e risco da Midway, José Antônio Rodrigues. 30 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

José Antônio Rodrigues, da Midway “Vamos lançar dois novos produtos, em um deles garanto que seremos o único player financeiro”

Antes mesmo dessa oferta, em março deste ano ocorreu a primeira etapa do projeto em que num lançamento exclusivo dos cartões híbridos aos funcionários todo o sistema e processo operacional que envolvem o produto foram testados. Tudo, conta Rodrigues, para garantir que não houvesse erros. Rodrigues avalia que o consumidor muda os hábitos, inclusive, em relação aos meios de pagamento. Segundo ele, antigamente clientes como dona Maria ficavam felizes em comprar parcelado e ir até a loja mensalmente, mesmo que mais de uma vez, para pagar as faturas de um carnê. “Isso mudou no momento em que o consumidor experimentou pagamentos com um cartão Visa ou Mastercard e, numa única fatura, concentrou outras compras e pagou pela internet. Se nesse momento não fizéssemos esses cartões, ficaríamos para trás”, diz. Para ainda este ano, Rodrigues possui duas jogadas: “Vamos lançar dois novos produtos em um deles garanto que seremos o único player financeiro que atua no varejo a ter”, provoca.


Novos ares Sebastião Cunha, superintendente geral da Múltipla Financeira, torna a companhia mais competitiva Em 2009, a Múltipla Financeira alterou completamente sua estratégia de atuação. Como a maioria das financeiras especializadas, a companhia era focada no financiamento de veículos. Com resultados pouco favoráveis, principalmente na crise em 2008, foi preciso mudar. Desde o ano passado a Múltipla se focou no middle market. De lá para cá, a carteira de empréstimos saltou de R$ 10 milhões para R$ 60 milhões. Para reforçar a equipe, uma contratação estratégica em março do ano passado: Sebastião Cunha, que foi ex-presidente da Federação Latino América de Bancos (Felaban), além de presidente do antigo banco Sudameris e executivo internacional do banco Real por 25 anos. Sebastião, que se mudou havia três anos para Fortaleza (CE), não tinha a intenção de atuar novamente no setor bancário. Mas foi convidado e achou interessante o desafio de melhorar o desempenho da financeira. Sebastião chegou com o intuito de competir e trouxe a ideia: “se a empresa possui contato com tantas outras de médio porte, vamos nos focar nesse seguimento”. A estratégia surgiu devido a Múltipla ser o braço de finanças do Grupo Marquise. O grupo atua em 17 Estados brasileiros e em cinco segmentos: construção civil, ambiental, finanças, hotelaria e comunicação. Por isso, Sebastião achava que conseguiriam ter como clientes empresas que ou consomem ou vendem algo ao grupo. Para ele, a empresa nasceu em julho de 2009, quando adotou o novo posicionamento estratégico. Sua aposta deu certo e fez a carteira de crédito crescer (conforme mencionado no início da matéria). Com atuação nas regiões de Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Minas Gerais, a sede da Múltipla está instalada em Fortaleza, mas gerentes comerciais atuam nas outras cidades. A Múltipla conta com departamento jurídico, comitê de crédito e mesa de operações próprios.

Sebastião cotidianamente caminha por toda a empresa e checa a parte operacional. Participa também de um comitê de crédito, o qual preside. Nele são aprovadas ou não as linhas de crédito de acordo com os critérios da empresa. A ideia é que, no máximo em 48 horas, o cliente tenha a resposta. Para o ano que vem, ele promete novidades. Afirma que a Múltipla vai lançar dois novos produtos financeiros, mas faz parte da estratégia não falar sobre eles ainda. A fase é de desenho do que será ofertado no ano que vem. “Estamos nos transformando numa empresa competitiva”, diz.

Sebastião Cunha, da Múltipla Financeira Foco em empresas de médio porte é a aposta


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Midas dos negócios Horlando Kaesmodel Filho, presidente da Negresco CFI, tem o dom de fazer negócios darem certo

Marcelo Almeida, da Negresco, “São cerca de 2.700 varejos conveniados que oferecem crédito direto ao consumidor”

É assim que é reconhecido em Minas Gerais, onde está sediada a empresa. Apesar de ser o presidente do conselho da financeira, se relaciona com os clientes e até se tornou amigo dos dirigentes das principais redes de lojas que se associaram e disponibilizam o cartão Negresco. A financeira Negresco atua em 11 cidades no Centro e no Sudeste do País. São cerca de 2.700 varejos conveniados que oferecem crédito direto ao consumidor, cheque e carnê como forma de pagamento dos produtos apoiados pela empresa. Mais de dois milhões de pessoas já fizeram operações pela Negresco. O principal público são as classes C, D e E, com um gasto médio de R$ 900, parcelados em 12 meses. Mensalmente, esses clientes fazem cerca de 50 mil compras com o cartão da Negresco. A aprovação é simples. Via internet, o lojista envia para a Negresco os dados do cliente e aguarda o crédito ser aprovado ou rejeitado dentro de, no máximo, cinco minutos. A Negresco possui uma política de crédito própria, pela qual, se o contrato não for aceito, a empresa envia o porquê para o vendedor que aguarda o retorno na loja. Este passa para o cliente o motivo. “A intenção, com isso, é que a pessoa regularize sua situação e volte para usar o nosso crédito”, diz Marcelo Ferraz de Almeida, diretorgeral da Negresco CFI. Com a crise financeira mundial, a maior dificuldade

para os gestores da Negresco foi contar com linhas de crédito de bancos. “Por isso tivemos que praticar uma política restritiva de concessão. Aceitávamos somente clientes que ofereciam baixo risco”, lembra Almeida. A medida deu certo. A média mensal de desembolsos do CDC em 2007 era R$ 11,8 milhões, em 2008 devido à crise caiu para R$ 10,5 milhões; em 2009 engordou para R$ 13,5 milhões e agora está gira em torno de R$ 25 milhões. Para não deixar a mina desabar no período turbulento, a Negresco lançou um FIDC e captou R$ 60 milhões. Os recursos foram utilizados para dar continuidade às operações. “Foi a primeira vez que tivemos acesso ao mercado de capitais. A ideia é tornar frequente esse tipo de operação”, conta Almeida. Exemplo disso, em outubro lançou “FIDC Credipar Mais” para captar R$ 100 milhões e já ter o volume de recursos necessário para suportar a época natalina e o primeiro trimestre de 2011. A expectativa é que em dezembro as vendas do varejo façam o crédito cedido pela empresa crescer cerca de 25%. “Nos últimos 12 meses, fizemos R$ 339 milhões em financiamentos já para suportar o Natal.” A principal aposta de Almeida e dos gestores da Negresco é o novo cartão que será lançado no próximo ano com a bandeira Mastercard. As compras dos usuários não estarão mais restritas aos varejistas conveniados. A ideia é também diversificar mais os produtos financeiros com a venda seguros e títulos de capitalização, por exemplo. Em 2011, quando o novo plástico estiver em operação isso já será possível. Hoje, 88% da operação é crédito pessoal. Os Kaesmodel também pretendem encontrar pepitas de ouro em Estados como Mato Grosso, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A estratégia é focada na área comercial, que vai a campo prospectar redes de lojas.


Sopro cearense Com mais de 400 mil clientes, José Newton Lopes de Freitas toca avante a Financeira Oboé Da paixão pelo instrumento musical de sopro veio o nome do grupo Oboé. O símbolo da financeira é colecionado com muito carinho por José Newton Lopes de Freitas, presidente da financeira e do grupo sediado em Fortaleza. Até mesmo as peças de marketing da Oboé possuem a imagem do artefato sonoro. A ligação com essa ferramenta mostra que a financeira também é algo importante para Freitas. “Temos um conglomerado financeiro de menor porte, mas com presença nas principais áreas do mercado financeiro e de capitais, incluindo a estruturação e a administração de fundos de investimento (FIDC, FI, CP), além de sistema de cartão de pagamento com suporte em tecnologia própria”, conta Freitas sobre as áreas de atuação. Freitas, especialista no setor financeiro, possuiu também diversos livros publicados, sendo que um deles é sobre finanças e o outro mostra clientes como pessoas únicas. Na gestão, criou o Curso de Aprendizagem Bancária (CAB). Por meio da Fundação Oboé, autorizada pelo Ministério do Trabalho, patrocinou também os cursos de gestão financeira, administração, ciências contábeis e relações internacionais. O cartão e o crédito consignado, juntos, fazem a maior orquestra dentro da empresa. Os principais públicos na área de empréstimo consignado são as classes B, C e D. Na área de cartões, as fatias C e D. A carteira de R$ 60 milhões é distribuída em 102.643 usuários de cartões do Sistema OboéCard, administrado pela Oboé Tecnologia e Serviços Financeiros. Tudo parte do mesmo grupo e sob a gestão de Freitas. “Com mais de 230 mil cartões emitidos, a administradora realiza o pagamento de salários por meio de saque por cartão em mais de

José Newton Lopes de Freitas, da Financeira Oboé O cartão e o crédito consignado são os principais produtos

60 caixas eletrônicos. O OboéCard é o número um do Ceará”, calcula Freitas. Recentemente a Oboé concluiu a implantação da gestão da qualidade e agora vai entrar na fase final da certificação ISO 9001. “Temos compromisso com a qualidade, sem pendência de reclamação de cliente em Procons ou Banco Central”, diz o executivo. “Vamos começar a colher os frutos de nosso esforço na formação de uma boa base de clientes. Em apenas 12 anos já conquistamos mais de 400 mil”, encerra, conservador, sem dar números da financeira. Ele quer levar a sinfonia do OboéCard para os Estados vizinhos. No Brasil, esse som vai tocar... novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 33


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Financeira de relacionamento Marcelo Picanço, diretor-executivo da Portoseg, cria sinergias entre os produtos do braço financeiro da Porto Seguro com os serviços da companhia O telefone toca na central de atendimento da Porto Seguro: uma senhora acabou de comprar oito lustres para sua residência nova no bairro do Morumbi (São Paulo) e quer que alguém de confiança vá instalá-los. A Porto Seguro envia imediatamente um prestador de serviços exclusivo da rede e especialista nesse tipo de demanda. No final do serviço, ela paga em quatro vezes sem juros com o cartão de crédito, também da Porto Seguro. Essa transação é apoiada pelo braço financeiro da seguradora, a Portoseg. O pedido da senhora pode parecer estranho, mas na Porto isso é comum. O serviço de “livre escolha” é muito utilizado e contempla qualquer solicitação que ajude nos lares dos clientes. Foi em 2002 que nasceu o guarda-chuva financeiro da empresa, a Portoseg, com um posicionamento chamado internamente de “financeira de relacionamento”. “Ao contrário da maioria das financeiras, começamos e continuamos o nosso negócio baseado na área de relacionamento da Porto Seguro. Nossos clientes são os segurados, os corretores e prestadores de serviços das empresas as quais nos relacionamos”, conta Marcelo Picanço, principal gestor e diretor-executivo da financeira. Entre os principais produtos financeiros estão o financiamento de veículos, o capital de giro – utilizado geralmente pelos próprios corretores de seguros – e o crédito consignado privado para os funcionários das empresas relacionadas. Em 2008, numa aposta certeira, Picanço colocou no mercado um cartão de crédito internacional com a bandeira Visa. A ideia na época era fazer algo diferente já que, segundo o executivo, os clientes Porto já possuíam cartão de crédito. Hoje, a carteira de financiamentos do plástico gira em torno de R$ 700 milhões. Os outros produtos juntos totalizam R$ 300 milhões. 34 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

Marcelo Picanço, da Portoseg, “A principal estratégia é combinar os nossos produtos com os negócios da seguradora”

“Nossa principal estratégia é combinar, ou seja, fazer com que os nossos produtos tenham sinergia com os negócios da seguradora. O negócio deve ser rentável, mas por meio de uma estratégia seletiva”, revela. O cartão, por exemplo, pode ser oferecido para toda a base de segurados. A maioria deles (mais de 90%) é emitida no momento em que é fechado o seguro de um veículo. Os corretores contam com o apoio da promotora de vendas CrediPorto, com 70 funcionários. Com o plástico, o cliente pode financiar o carro, o seguro e pagar tudo na mesma parcela. Para o próximo ano, Picanço quer fortalecer a marca Portoseg e crescer acompanhando o ritmo do mercado (em torno de 20%). “Alguns dos próprios segurados não sabem da nossa existência. Esse trabalho será focado no nosso público de hoje”, finaliza.


Muitas cifras Carlos Eduardo Schahin, presidente da Cifra Financeira, fala sobre a empresa que possui uma carteira de crédito de R$ 1 bilhão

Carlos Eduardo Schahin e equipe, da Cifra “Fazemos os nossos preparativos para aproveitar a expansão do País”

Um ano de recordes mensais sucessivos em queda de inadimplência. Esse é um dos motivos de orgulho de Carlos Eduardo Schahin, presidente das empresas Financeiras Schahin, da qual a Cifra faz parte. E é exatamente para falar sobre ela que o executivo, chamado pelos mais próximos de “Cadu”, concedeu entrevista exclusiva à Financeiro. O Schahin é um grupo sólido e diversificado, com atuação nos principais setores do País: engenharia, imobiliário, telecomunicações, petróleo e gás, energia e finanças (com banco, corretora e financeira). A financeira Cifra atua no financiamento de veículos e motos usados, crédito consignado e financiamento de serviços, por meio de parcerias com despachantes. Nesse último, a Cifra financia o pagamento de multas, por exemplo. Já no financiamento de veículos, o bem é a própria garantia e, por isso, por meio de parceria e da criação de um Centro de Armazenamento, a Cifra guarda e recupera os carros apreendidos por falta de pagamento dos

clientes. “Essa ação é parte importante de nossos resultados positivos”, avalia Cadu. A carteira de crédito da Cifra está na faixa de R$ 1 bilhão. Cerca de 60% desse montante é composto por financiamento de veículos e o restante (40%) é consignado – em que 70% dos clientes são pensionistas do INSS. Além dessa, existem outras carteiras por meio de parcerias com os bancos estrangeiros Cetelem, HSBC e Santander que, juntas, totalizam mais R$ 800 milhões. A Cifra atende clientes da classe B até a D, mas a principal é a C. Em toda a sua história, a Cifra atua com o modelo de correspondes não-bancários. Com isso, são aproximadamente cinco mil pontos de venda, que cobrem todos os produtos ofertados. “Esses correspondentes nos permitem chegar a todo o País já que somos uma financeira de andar (a Cifra ocupa um andar de um edifício em São Paulo). Com somente exclusivos, temos um índice de problemas baixo”, pontua Cadu. O executivo não descarta a possibilidade de ofertar, no próximo ano, produtos complementares como consórcios e seguros. A Cifra quer acompanhar o crescimento do País e do mercado nacional. Sem citar números sobre as expectativas e mantendo as estratégias de atuação em segredo, Cadu diz: “estamos fazendo os nossos preparativos para aproveitar a expansão do País”. Ele conta que um grupo de pessoas qualificadas cuida do dia a dia da financeira e que o papel dele como gestor é acompanhar os resultados e questionar quando preciso. “Temos confiança no reconhecimento pela evolução conquistada nos últimos dois anos. Nossa equipe tem a capacidade de aproveitar a condição propícia do País, sabendo quais os nichos de atuação e o foco do esforço comercial que precisa”, finaliza. Se tudo ocorrer bem no próximo ano, os sócios da Cifra acumularão também muitos dígitos em seus balanços. novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 35


especialfinanceiras

Maré do crédito Jorge Lage Campus, diretor-financeiro da carioca Socinal, fala sobre a aposta nas características regionais para coletar novos clientes Ao abrir a caixa de correspondência avista-se um convite para obter crédito. E por que não aceitá-lo se o momento é oportuno? Esse é um dos meios que a Socinal, sediada em Araruama (RJ), ainda utiliza para conquistar novos clientes. Não importa se o contato ocorre com o toque do telefone, com as batidas na porta das mãos dos correspondentes ou por meio de mala-direta. A estratégia da empresa é respeitar as características culturais de cada uma das regiões em que está presente. “Com 18 meses de atuação, cobrimos 35% dos municípios com mais de 25 mil servidores, sem contar as centenas de micro, pequenas e médias empresas que utilizam seus produtos e serviços de crédito”, conta o diretor-financeiro Jorge Lage Campus. A Socinal operou até a sua transformação em financeira com o objetivo de incentivar o microcrédito, trazendo uma alternativa de investimento e ocupando posição de destaque junto às classes empreendedoras não assistidas pelo sistema financeiro. . O reconhecimento desse trabalho foi validado com a autorização do Banco Central do Brasil no final de 2008 para transformação da então Socinal Microcrédito em Socinal – Crédito, Financiamento e Investimentos. Essa nova razão social permitiu diversificar sua linha de atuação e atingir outros mercados pela oferta de novos produtos. A financeira dispõe hoje de R$ 35,1 milhões em crédito e um crescimento de 197% em 18 meses. O número de clientes ativos saltou de 4,8 mil para 7,4 mil com 54% de crescimento. O patrimônio passou de R$ 7,366 milhões para R$ 8,894 milhões com uma evolução de 20,74%. “Esperamos fechar o ano com uma receita operacional bruta total de R$ 13 milhões este ano. Para atingir a meta não há segredo. Basta ter respeito ao cliente, as regras de negócio e atendimento personalizado”, conta o diretor financeiro. 36 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

Para o produto consignado público, atua somente por intermédio de uma promotora utilizando seus corretores para o contato direto com os servidores. Essa atividade ocorre no trabalho, na casa ou mesmo nos escritórios de atendimento que estão distribuídos estrategicamente nas regiões de atuação da financeira. “Devemos nos posicionar para atender uma massa cada vez maior de clientes e empresas se capitalizando para suprir essa demanda. Não podemos perder a ‘onda’ por não estar preparados para competir em preços e serviços com nossos concorrentes”, estima Campos. Contando com o crescimento da atividade econômica, da renda per capita da população e da estabilidade da economia brasileira, na Socinal projeta-se um cenário de expansão do crédito para os próximos dois anos, mas o executivo não divulga números. Os executivos da Socinal posicionam suas pranchas. Resta saber qual será a força da maré.

Jorge Lage Campus, da Socinal “Com 18 meses de atuação, cobrimos 35% dos municípios com mais de 25 mil servidores”


Primeiro bilhão Com possibilidade de uso em mais de 2 milhões de estabelecimentos, o cartão Sorocred deve trazer bons frutos para Luiz Carlos do Nascimento, diretor-presidente O diretor-presidente da Sorocred, Luiz Carlos do Nascimento, prevê que a empresa vá faturar R$ 1 bilhão este ano. A empresa, que inicialmente prestava assessoria para bancos em financiamentos de veículos, em julho de 2010 passou a operar como financeira regulamentada pelo Banco Central e agora pode ofertar um novo leque de produtos ao mercado. Foi nessa transição de razão social que Nascimento assumiu a cadeira mais importante da financeira. Antes, ele foi diretor-financeiro e até supervisor de operação. Presente desde o início, acompanhou todo o crescimento da companhia que hoje possui quatro milhões de cartões emitidos, entre private label, cartão presente, de crédito e benefício . O gasto médio por compra com o cartão das lojas conveniadas gira em torno de R$ 80. Normalmente esse valor é gasto quatro vezes ao mês, o que gera um consumo médio mensal de R$ 320. Entre 80 e 90% dos usuários do plástico são das classes C, D e E. O mínimo oferecido pelo plástico é de R$ 300 e varia de acordo com a renda mensal. A resposta da Sorocred para o produto é praticamente imediata. A principal tacada de Nascimento ocorreu em outubro, quando o cartão Sorocred passou a ser aceito em qualquer estabelecimento onde há uma maquininha da Redecard e ou da Cielo. O salto é de ter presença em 150 mil pontos de vendas para mais de dois milhões. “Prevemos, com isso, um crescimento nas vendas de 40% até o final do ano”, estima. A maioria dos parceiros lojistas é dos setores de roupas e supermercados. “A Sorocred atua em todo Estado de São Paulo, onde está 90% da operação. Os outros 10% estão divididos entre Brasília, Recife, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e do Norte”, conta.

Outras novidades são as letras de câmbio e o RDB, voltados para investidores. Nascimento ressalta que esses produtos trazem rentabilidade aos investidores e também servem de funding para a companhia. “Queremos com a rede de atuação expendida e os novos instrumentos de funding conquistar clientes também nas classes A e B”, expõe . Quando Nascimento chega ao escritório, lê as principais notícias nos jornais de economia e, em seguida, liga para colegas para comentá-las. Tudo para acompanhar o mercado e crescer de forma estruturada e segura, num ambiente altamente regulamentado. “Trabalhamos com os pés no chão e um quadro enxuto de pessoas capacitadas. É importante acompanhar o dia a dia da operação, olhar os índices de inadimplência, ter uma equipe motivada, com um bom ambiente de trabalho”, considera. f

Luiz Carlos do Nascimento, da Sorocred, “Trabalhamos com os pés no chão e um quadro enxuto de pessoas capacitadas”

novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 37


mercadocetelem

Novos horizontes O País é o segundo mercado estratégico para o grupo Cetelem BGN Brasil. Inovação e qualidade são os focos para se diferenciar

Há mais de um ano na presidência do Cetelem BGN Brasil, o principal desafio no cargo para Marcos Etchegoyen é transformar as duas bandeiras (Cetelem e BGN) numa marca única e conhecida no mercado. O Cetelem BGN é parte de um dos maiores grupos financeiros do mundo, o francês BNP Paribas, que possui R$ 6,2 bilhões em ativos no solo nacional, tudo em crédito ao consumo. As duas empresas juntas (Cetelem e BGN) já superaram R$ 1 bilhão em patrimônio líquido. “Fora da França, estamos presentes em 23 países, sendo que o Brasil é o segundo mercado estratégico para o grupo. Temos envergadura para crescer no mercado nacional, mas devemos fazer isso de maneira sustentável. Por

No mundo A Cetelem atua globalmente e pertence ao Grupo BNP Paribas, líder europeu de serviços bancários e financeiros de abrangência mundial. É o primeiro banco privado da zona do euro. Considerado a sétima empresa mundial do setor bancário, o grupo está entre os seis bancos mais sólidos do mundo. Com presença em mais de 84 países, possui cerca 200 mil colaboradores e uma carteira de 20 milhões de clientes no banco de varejo.

38 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

mais que nossos números sejam vigorosos, aqui há concentração bancária e para se diferenciar é preciso de inovação e qualidade”, ressalta Etchegoyen. Com a porta de sua sala sempre aberta, o executivo ouve o que tem a dizer os funcionários que o procuram, principalmente aqueles que possuem contato direto com os clientes. “Busco fazer uma gestão produtiva. Modifico os processos de acordo com o feedback que recebo desses profissionais sobre o que dizem os clientes”, aponta. Internamente, Etchegoyen passa aos funcionários algo que levou consigo durante toda a sua carreira. Cada um, segundo o executivo, deve ser dono do seu próprio negócio e da sua carreira. Isso, para ele, significa querer mais dentro da empresa em que se atua, economizar mais e escutar o cliente. “Costumo dizer que é preciso ser brilhante no que é básico e depois correr atrás da excelência. Com uma equipe que saiba traduzir isso, não há como errar”, avalia. Em números

Em 2009, a Cetelem fechou o ano com ativos totais de R$ 3,6 bilhões, contra R$ 1,9 bilhão em 2005, um

Foto: Divulgação

Por Juliana Jadon


crescimento de 95% em quatro anos. Já o patrimônio líquido do primeiro semestre deste ano foi de R$ 504 milhões. As receitas de operações de crédito totalizaram R$ 632 milhões, um aumento de 94% ante os R$ 326 milhões obtidos ao final do ano passado. No Brasil desde 1999, a Cetelem focou os primeiros três anos de sua operação na parceria com o Carrefour, com cartão de bandeira própria do varejista. Ampliou seu portfólio e se especializou no varejo com o lançamento, em 2002, do cartão Aura. Assim, estabeleceu parcerias com outras redes de varejo. O plástico é utilizado para financiamento de compras nas redes Fnac, Fast Shop, Colombo, Telhanorte, Armarinhos Fernando, entre outras. Expectativas

Em 2007, a Cetelem adquiriu o banco BGN, detentor de crédito uma carteira de consignado com R$ 2 bilhões. Hoje, a companhia possui uma carteira de crédito distribuída em empréstimo pessoal, cartão, consignado, capital de giro, outros financiamentos e títulos de crédito a receber. Há cerca de um ano, iniciou o financiamento de automóveis. Etchegoyen conta que a operação ainda está em teste, apesar de já ter uma carteira de crédito de R$ 230 milhões. A expectativa é que o Brasil continue com a ascensão social para o Cetelem BGN ajudar a fomentar o crescimento da economia. “Dentro de cinco anos devemos ter uma presença respeitada no País. Queremos que cada um dos quatro produtos que trabalhamos tenha uma fatia de mercado relevante. Gosto de ter metas que não me deixam dormir bem”, diz o presidente. Etchegoyen também revela que lançará em março de 2011 dois novos produtos já utilizados com sucesso em outras partes do globo. A estratégia neste momento é não falar sobre eles, apesar da ansiedade em contar, assumida durante entrevista exclusiva à Financeiro.. Para o principal executivo do Cetelem BGN Brasil, o próximo ano trará, ainda bem, muitas noites em claro. f

Marcos Etchegoyen,, Etchegoyen do Cetelem BGN Brasil “Gosto de ter metas que não me deixam dormir bem”


créditoemdebate

Cobrança em debate Executivos apontam desafios do setor de cobrança durante encontro da Acrefi e da Serasa Experian Por Juliana Jadon

Riscos mundiais em 2011, segundo Paulo Rabello de Castro w Corrosão da confiança dos Estados Unidos como líder. w Dificuldade da rolagem de títulos na Europa. w Aumento de juros (chance maior em 2012). w Guerras comerciais. w Novo mergulho econômico mundial.

40 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

ro, o Brasil é um dos poucos países desenvolvidos que ainda não possuem algo semelhante e ainda existe por aqui o alarmante nível de endividamento crescente. “O próximo governo talvez esteja mais preparado para aprovar o Cadastro Positivo.” Cliente-alvo Quem é o credor? Qual a estratégia para abordá-lo? Você o conhece a fundo? O que fará para mantê-lo de maneira lucrativa dentro da instituição? São perguntas que Gustavo Oliveira, gerente de pré-vendas da Serasa Experian, apresentou aos participantes. Segundo ele, 1% do público inadimplente no banco de dados da Serasa deve até 30 dias e quase 25% têm dívidas atrasadas em um período de 31 a 700 dias. Quanto mais antiga a dívida, mais difícil de o consumidor quitá-la. Os níveis de recuperação chegam a 2% nos que estão com dívidas acima de 180 dias sem quitar e, entre os devedores, 44% deixaram de pagar para uma empresa, enquanto que 30% devem para mais de um local. “É importante que as instituições saibam como estão perante o mercado”, disse Oliveira se referindo aos níveis de recuperação de crédito e endividamento. Para gerar eficiência, o gerente acha que as assessorias de cobrança devem investir menos nos clientes que apresentam maior probabilidade de pagamento. Isso trará redução das despesas operacionais e otimizará o indicador

Fotos: Douglas Luccena

Aproximadamente 24% da população brasileira tem alguma conta em atraso, seja do cartão de crédito, cheque ou carnê de loja. Os principais pontos levantados durante o evento Cobrança em Debate, realizado em outubro pela Acrefi e a Serasa Experian, foram exatamente as principais maneiras de acabar com essas dívidas por meio da otimização do processo de cobrança. Ricardo Loureiro, presidente da Serasa Experian e Experian América Latina, abriu o encontro lembrando que a inadimplência começa no processo de concessão do crédito, em que a análise do risco que os consumidores representam para as provedoras ainda é ineficaz. “Sabemos que precisamos mudar o processo de concessão do crédito. O Cadastro Positivo, projeto que defendo há mais de dez anos, realmente trará melhores condições para o nosso mercado”, prevê. Os benefícios do Cadastro Positivo são muitos. Com esse rico banco de dados, o índice de inadimplência do País, por exemplo, cairia de 6% para 3,4%. Segundo Lourei-


Ricardo Loureiro, da Serasa Experian, “Precisamos mudar o processo de concessão do crédito”

de eficiência. Dentro desse processo é possível encontrar maneiras de potencializar o pagamento. Para finalizar, o executivo lembra o bom período para cobrar. “Estamos numa época de alta de recuperação devido ao 13º salário. Os credores querem pagar agora para poder buscar mais crédito”, afirma. Desafios Como atuar em parceria com as empresas de cobrança, fazendo com que elas estejam alinhadas às suas estratégias de negócios? Esse foi o principal ponto levantado durante o painel principal. A boa notícia é que a massa salarial cresce e o volume de crédito a pessoa física também. Cerca de 40% dos devedores possuem uma linha de crédito em mãos, como cartão de crédito, por exemplo. Essas pessoas podem usufruir desse crédito para pagar o que está pendente, mas qual o atrativo que damos a elas para isso? A área de recuperação, opina José Renato Simão Borges, vice-presidente da Acrefi e do banco Sofisa, deve ser considerada uma unidade de negócios. “Na instituição na qual eu atuo, esse setor gera, inclusive, um balanço anual, pois é responsável por gerar algum ganho.” Henrique Alves, superintendente de relacionamento com o cliente da BV Financeira, considera que as financeiras não possuem tanta margem para performar. Por isso, a tendência é que as empresas de cobrança trabalhem mais alinhadas às estratégias dos bancos. “Isso vai acabar no ‘fazer mais com menos’.

A taxa de contato com a pessoa certa está caindo a cada dia e isso é algo que sai caro para as assessorias de cobrança. O negócio todo deve ser avaliado com transparência. Um dos desafios é ter mão de obra qualificada, sujeita à remuneração que as empresas de cobrança estão dispostas a pagar”, aponta. Soluções Na BV Financeira, por exemplo, foi reduzida a quantidade de prestadores de cobrança a partir da identificação de que o modelo praticado estava saturado e que também

Gustavo Oliveira, da Serasa Experian “As instituições devem saber como estão perante o mercado”

novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 41


créditoemdebate que ofertar e a quem. São 26 milhões que estão à margem do crédito e não estariam mais”, analisa.

Paulo Rabello de Castro, da SR Rating, diz que o País já comemora o que há para comemorar

os parceiros precisavam revisar os processos para trabalharem de maneira alinhada. “Não conseguíamos atingir novas metas. Assim, decidimos investir em tecnologia para otimizar o processo”, explica Henrique Alves. A BV Financeira, em quase dez anos de atuação, possui uma carteira de crédito de R$ 46 bilhões. Mas antes de adotar a tecnologia, Paulo Santos, diretor de crédito e cobrança da Casas Bahia, acredita que é preciso dar tempo para os parceiros se adaptarem a novas práticas de negócios. As tecnologias adotadas mundo afora na área de recuperação de crédito e de gestão do risco, entre sistemas de credit score e outras, são as mesmas que existem no Brasil e o que pode fazer a diferença é a qualidade do profissional que atua na ponta. “Está na hora de esquecer a crise e investir em pessoas. Quem parar no tempo nesse contexto sofrerá grandes perdas no futuro”, avalia. Para Laércio de Oliveira Pinto, presidente das Unidades de Pessoa Física e Jurídica da Serasa Experian, a solução é o Cadastro PositiLaércio de vo, o que faria a inadimplência do Oliveira Pinto, da Serasa País cair 45% . “Com esse banco de Experian, dados, o consumidor ganha algo lembra que um Cadastro muito importante que é a sua repuPositivo faria a tação. Como a história do crédito inadimplência de cada um passará a ter um valor, do País cair 45% isso ajudará o mercado a saber o

42 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

Mercado próspero Segundo Simão Borges, mais de 20 milhões de pessoas migraram para a classe C e o salário real nos últimos dez anos mais que dobrou. A taxa de desemprego está em queda, com níveis inferiores a muitos países, e apenas cerca de 17% da renda da população, em média, está comprometida. Além disso, mais da metade dos brasileiros não tem carro, computador ou conta bancária. A previsão é de 35 milhões de pessoas bancarizadas nos próximos anos e, em dez anos, esse montante irá dobrar. “O crédito imobiliário no Brasil é de 3% do PIB. No Chile, um país muito menor que o nosso, é de 17%. Para veículos também é o mesmo porcentual, enquanto que no solo chileno essa relação é de 6% do PIB e nos países desenvolvidos chega a 9%”, aponta Borges, ao mostrar as oportunidades de crescimento de crédito que há no País. Para finalizar o encontro, o economista e fundador da agência de classificação de risco SR Rating, Paulo Rabello de Castro, palestrou sobre as “Perspectivas econômicas para 2011”. De acordo com ele, o País já comemora o que há para comemorar e passa por um auge econômico. “A expansão do PIB nacional será persistente no primeiro semestre do próximo ano e o crédito para pessoa física e jurídica também seguirá favorecido. Porém é preciso acompanhar o cenário externo que afetará fortemente o Brasil em 2011 (ver box), que não é tão frutífero assim.” f


desafiosbasileia

A Basileia III e seus efeitos para o mercado O conjunto de novas regras anunciados pelo BIS (Bank for International Settlements) em 12 de setembro desse ano, amplamente referenciado pelo mercado Por Lúcio Anacleto como Basileia III, foi uma resposta da organização internacional a recente crise financeira global de liquidez das instituições financeiras. Enquanto o seu predecessor, o Acordo de Basileia II, tinha como foco tornar a medição de capital regulatório mais sensível ao risco, dessa vez, porém, os pontos centrais da discussão foram a estrutura de capital, o risco de liquidez e o índice de alavancagem. Mesmo com toda a importância das novas regras, o programa de reformas do Comitê de Basileia está apenas em seu início. Sem dúvida, o Acordo de Basileia III representa uma grande evolução, porém faz parte de uma agenda muito mais ampla, que colabora para a construção de um sistema financeiro global mais seguro e resiliente. Estrutura de capital

A Basileia III aumentará consideravelmente a qualidade do capital dos bancos que, além da classificação de Tier 1 e Tier 2, institui também o core capital no Tier 1. Pelo menos, metade do capital alocado por um banco será composto por capital de nível I. O restante do capital Núcleo do capital nível I

Capital nível I

Capital total

Capital mínimo

4,5

6,0

8

Buffer de conservação de capital

2,5 8,5

10,5

(%, ponderados ao risco)

Mínimo + buffer de conservação Buffer contracíclico

7 0 – 2,5

2,5%

camada contracíclica

2,5%

camada de conservação de capital

13% 8% 4,5% núcleo capital nível 1 1,5% capital nível 1 2,0% capital nível 2

44 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

capital mínimo

alocado será formado por itens que possuem uma menor liquidez para absorção de perdas. Além disso, o núcleo do capital nível I (core capital) contará apenas com ações ordinárias e lucros retidos. A atenção dedicada ao núcleo do capital nível I demonstra o comprometimento do Comitê de Basileia com a qualidade do capital alocado pelos bancos. Como aspecto positivo, destaca-se a qualificação do capital para absorção de eventuais perdas, o que consequentemente proporciona mais robustez aos bancos. Em contrapartida, o capital regulatório mais qualificado possui um custo maior, podendo representar uma limitação na tomada de decisões estratégicas por instituições com níveis de alavancagem significativos. A recente crise também demonstrou o efeito cíclico dos choques financeiros, e a introdução dos novos buffers representa o esforço do Comitê de Basileia em promover o provisionamento prospectivo, conservando capital para uso em períodos de crise e protegendo o sistema bancário global. Foram introduzidos novos colchões de capital: w Colchão de conservação de capital A calibragem internacional para esse capital é de 2,5%. Com a nova ferramenta, os reguladores terão a segurança de que os bancos possuem uma reserva de capital dedicada exclusivamente à absorção de prejuízos durante períodos de estresse. w Colchão contracíclico Se acumularia durante períodos de rápido crescimento do crédito. Caso reguladores nacionais julguem que esse excesso de crédito esteja agravando o risco no sistema, eles teriam a autoridade para exigir que os bancos mantenham mais este buffer. O principal objetivo dessa nova medida é eliminar o efeito cíclico presente na Basileia II (conforme tabela ao lado). Dessa maneira, a calibragem de capital proposta internacionalmente fica composta da forma explicitada a seguir. A fim de aumentar a transparência, as instituições financeiras terão de divulgar todos os componentes do capital regulatório, juntamente com os cálculos efetuados para se chegar ao índice de capital regulatório.


Risco de liquidez

Outro aspecto extremamente importante do Acordo de Basileia III é a introdução de padrões mínimos de liquidez. Esse fato é especialmente significativo, dado o fato de que anteriormente não havia nenhum acordo internacional para se manter níveis mínimos de liquidez. w Liquidity Coverage Ratio (LCR) Visa assegurar liquidez suficiente de recursos para atender às necessidades de caixa no curto prazo (30 dias), mesmo sob um forte estresse. w Net Stable Funding Ratio (NSFR) Observa o horizonte de médio prazo e avalia o equilíbrio dos vencimentos dos ativos e passivos. A métrica é destinada a minimizar a exposição ao risco que representa o funding de ativos de médio/longo prazo, por meio de passivos de curtíssimo prazo. Além dos padrões mínimos de liquidez citados, o comitê listou um conjunto de métricas que deverá ser utilizado pelo órgão regulador para monitoramento do sistema financeiro: descasamento de prazos contratuais, concentração de funding e instrumentos de acompanhamento do mercado. Alavancagem

Outra importante causa para a crise financeira global foi a acumulação de alavancagem no sistema bancário internacional. A fim de limitar esse acúmulo, o novo acordo reforça os requerimentos mínimos com uma métrica simples. O Comitê de Basileia decidiu testar um índice de alavancagem de 3% – a razão do capital nível I para o total de ativos não ponderados ao risco mais exposições Off-Balance Sheet (OBS) – por um período com início em 2013. Esse período de teste possibilitará que o comitê monitore o impacto da alavancagem sobre os modelos de negócios dos bancos, e como é a interação entre os requerimentos mínimos baseados em risco e a alavancagem total do sistema financeiro.

Capital nível I

Alavancagem =

Ativos não ponderados ao risco + Exposições OBS

O indicador acima ajudará os reguladores a conter um possível excesso de alavancagem no sistema, além de servir como uma contingência aos padrões de capital ponderados ao risco. Adequação à realidade nacional

As reformas de capital, com a introdução de um sistema global e padronizado para manutenção de liquidez e alavancagem, formam o ponto central da agenda financeira. Internacionalmente, foram definidos os deadlines para implantação dos requisitos, expostos a seguir. O Banco Central do Brasil iniciou a discussão com a indústria com o objetivo de estabelecer os requerimentos e prazos de adequação. Vale lembrar que para a implantação de Basileia II esse regulador adotou prazos e níveis de capitais maiores do que acordados no mundo. O ímpeto global e melhor regulamentação à introdução do novo Acordo de Basileia III geram a oportunidade para alavancar mais a cultura de gestão de riscos no sistema bancário, por meio de uma visão integrada de todos os riscos, seja de mercado, liquidez, operacional, entre outros. Esse processo deve ser provocado pelo quadro executivo sênior de cada organização por meio de uma definição clara do apetite ao risco de sua instituição. Isso garantirá que os acionistas, clientes e demais stakeholders tenham uma compreensão da estratégia de negócio associada a riscos. Um grande número de medidas pode garantir que a instituição tenha domínio dos riscos em todos os níveis da companhia. f Lúcio Anacleto é sócio da área de financial risk management da KPMG no Brasil

Basileia III no Brasil 2011 Índice de alavancagem

2012

Monitoramento por supervisão

2013

3,5%

Capital mínimo (core)

2014

2015

3,5%

4,0%

Buffer de conservação LCR NSFR

Início

2016

2017

Implementação paralela (jan/13 a jan/17) divulgação jan/15

2018

2019

Pilar 1 em janeiro

4,5%

4,5%

4,5%

4,5%

0,625%

1,250%

1,875%

2,500%

Valendo em janeiro Início

Valendo em janeiro

novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 45


mercadopordentrodovarejo

Aposta no

Por Karin Fuchs

diferenciado A Fnac chegou ao Brasil em 1999 ao adquirir o Ática Shopping Cultural, trazendo da Europa um conceito totalmente diferenciado. Literalmente quebrou as vitrines internas, liberando o acesso de todos os clientes a qualquer produto eletroeletrônico. A possibilidade de tocar e experimentar logo conquistou o consumidor e o modelo não tardou a ser copiado por outros varejos. Com dez lojas físicas (São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e no Distrito Federal), além do portal de vendas pela internet, a Fnac chegou ao Brasil por um programa de expansão de lojas fora da Europa e, até hoje, é o único País com operações que excede o mercado europeu. Seguindo o modelo francês, todas as lojas são grandes, com espaços de três e quatro mil metros quadrados. Tanto nas lojas físicas como no portal são cerca 350 mil itens referenciados, dos segmentos de informática, áudio, vídeo, telefonia, livros e outros. Apesar de livros ser o carro-chefe das vendas, a linha de infotel (informática e telefonia) é a que responde pela maior parte do faturamento, 25% do total, seguido por livros (20%) e, em terceiro lugar, audio, vídeo e foto correspondem a 18%, porcentuais semelhantes à Fnac na Europa. “À parte as diferenças culturais, as características das classes médias dos mais diversos países têm cada vez mais se aproximado. É a globalização da cultura e do comportamento. Por outro lado, o público brasileiro tem cada vez mais se interessado por tecnologia de ponta e novidades nas áreas cultura e informação”, analisa Jacques Brault, diretor da Fnac Brasil. 46 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

Inovações Internamente, a grande aposta da Fnac são os espaços diferenciados. Exemplo disso são os eventos diários e gratuitos no interior de suas lojas, como o Fórum Fnac e a Galeria Fnac, e o espaço dedicado às crianças de até 12 anos, o Fnac Kids, uma das áreas mais importantes na formatação atual das lojas que, além de CDs, livros e DVDs, começou a incluir também jogos e brinquedos educativos. Já a revistaria nas lojas faz tanto sucesso que outras unidades na Europa estudam implantar algo parecido. E, importado da matriz, o conceito de Apple Shops, lojas oficiais da marca dentro das lojas, transformou a Fnac Brasil na maior revendedora Apple da América Latina. A da América Latina foi inaugurada recentemente na unidade Morumbi, com cerca de 200 metros quadrados. E como um facilitador, todas lojas passarão a ter um balcão de serviços, com assistência técnica, manutenção e instalação. Já na linha de produtos, o destaque é para a de bemestar, em experimentação na unidade Pinheiros, podendo ser ampliada para as demais lojas, com itens como massageadores e medidores de frequência cardíaca. Canais diferenciados E por falar em globalização, a Fnac Brasil estreou no comércio eletrônico praticamente no mesmo tempo que a sua irmã francesa, em 2000. “A Fnac Brasil foi a única, fora a França, que nunca parou de investir

Fotos: Douglas Luccena

Fnac inova nos espaços internos das lojas e na venda de produtos pela internet com novos conceitos: outlet e one day shot


Jacques Brault, da Fnac Brasil “O mercado brasileiro é o mais promissor para a empresa e onde tem os melhores resultados”

nessa área. Hoje, o site é a loja de maior faturamento e a operação brasileira na área é a que mais cresce no mundo”, destaca Brault. A Fnac Brasil não divulga números regionais. Em 2009, o grupo faturou € 4,37 bilhões somando lojas físicas e virtuais. Pontuando as inovações no comércio virtual, Brault destaca o Fnac Outlet, lançado em abril deste ano. “Ele se tornou uma verdadeira febre entre os clientes Fnac. Eles logo perceberam que ali está uma grande oportunidade de compra. São produtos de qualidade a preços incríveis, seja porque dispomos de grande quantidade, seja porque são modelos que devem sair de linha. Tudo devidamente informado ao cliente. Hoje já temos cerca de 150 mil clientes cadastrados e mais de 300 mil visitantes por mês.”

Mais recentemente, foi a vez do aplicativo oficial Fnac One Day Shot, que pode ser baixado gratuitamente na AppStore, desenvolvido para rodar facilmente em iPhone, iPod Touch e iPad. “Com ele, cadastrando-se no site da Fnac, pode-se comprar apenas um produto por dia, oferecido a condições imperdíveis, inclusive domingos e feriados, e sempre em quantidades limitadas, com preços incrivelmente baixos, que pode ser comprado com somente alguns toques e pago com qualquer cartão de crédito”, explica o diretor-geral. Segundo ele, nos dois primeiros meses de lançamento, a AppStore já registrou cerca de 15 mil downloads, o que faz com que o Fnac One Day Shot seja um dos dez aplicativos mais baixados. “A repercussão tem sido tão boa,

Lucro Informática e telefonia respondem pela maior parte do faturamento, com 25% do total

novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 47


mercadopordentrodovarejo que a iniciativa pode se estender a outros países onde a Fnac está presente.” Facilidades aos clientes No mundo inteiro, a Fnac conta com 3,5 milhões de clientes associados ao programa de fidelização do cartão Fnac. No Brasil são cerca de 200 mil. Atualmente, revela o diretor-executivo da Fnac, cerca de 60% dos clientes financiam suas compras, sendo 40% deles pelo cartão da loja, com a bandeira Aura, da Cetelem. “As vantagens são muitas, incluindo grande quantidade de itens financiados sem juros, alguns em até 12 vezes”, afirma, acrescentando que entre os meios de pagamento, os cartões (loja e outras bandeiras) representam 76% das vendas. Os demais 24% dividem-se em: cartão de débito (13%), dinheiro (8%), boleto bancário (2%) e cheque (1%).

Além do parcelamento de compras, descontos na primeira compra efetuada com o cartão e promoções e campanhas para pagamento em até dez vezes sem juros, há uma versão de upgrade, o cartão Fnac Privilège, com vantagens ainda mais exclusivas e personalizadas, como uma forma de retribuir a preferência de clientes associados mais assíduos. “Para cada R$ 1 gasto nas lojas ou no site, por exemplo, creditam-se dez pontos no cartão Fnac e 15 pontos no cartão Fnac Privilège. Ao acumular 120 mil pontos em um ano há, automaticamente, o upgrade do cartão Fnac para o cartão Fnac Privilège”, explica o executivo. Também com o cartão, cliente Fnac conta com dois limites de crédito independentes, que podem ser usados simultaneamente: Rotativo (para pagamento em até 40 dias sem juros, com limite de até R$ 10 mil) e Extra (três vezes o limite rotativo para uso exclusivo na Fnac, com o limite de até R$ 30 mil). Independentemente de comprar 48 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

nas lojas, o cartão possibilita saques em terminais eletrônicos do Banco 24 Horas e em bancos interligados em todo o Brasil, e a aquisição de empréstimo pessoal. Exclusivamente aos clientes foi criada uma central de soluções; uma linha exclusiva entre o associado Fnac e a Cetelem para desbloqueio ou bloqueio de cartões, revisão do limite de crédito, alterações cadastrais, informações sobre extrato, compras e pagamentos e funcionamento geral do cartão. Pioneira na oferta de seguros no varejo, os clientes contam com coberturas que vão desde seguro opcional para desemprego, incapacidade temporária, invalidez ou morte, até as especificamente para produtos, tais como: contra furto e roubos qualificados de produtos, garantia estendida e contra quebra acidental. “A Fnac sempre está interessada em oferecer a cada cliente tudo

o que ele precisa ou pode vir a precisar. Hoje o mercado brasileiro é o mais promissor para a empresa e onde a Fnac tem atualmente seus melhores resultados e, aºo mesmo tempo, maiores possibilidades de expansão. Ainda este ano, passaremos Portugal e a Espanha e seremos o País de maior faturamento da empresa, depois da França. A nossa previsão de crescimento para este ano é de 30%”, finaliza Brault. f

Fnac em números w 10 lojas físicas, mais o portal de vendas pela internet. w 350.000 itens referenciados. w 200 mil clientes associados no programa de fidelização do cartão Fnac. w 3,5 milhões de clientes associados no mundo. w 76% das vendas por cartões de crédito. w 40% das vendas financiadas pelo cartão Fnac. w 24% das vendas à vista (boleto, cheque ou dinheiro).


artigouniversofinanceiro

Como formalizar

corretamente as operações Nas financeiras não existem áreas mais importantes que as outras. Todas têm papel fundamental na cadeia de negócios e no direcionamento estratégico dado pela administração executiva. Mas podemos destacar responsabilidades específicas de cada área, lembrando seus papéis individuais. Dentre as atividades cruciais para o sucesso dos negócios, a de formalização é impar, não só para o relacionamento comerPor Antonio Glup cial, pagando as operações dentro dos prazos acordados com os parceiros comerciais, mas, principalmente, dando segurança jurídica às operações contratadas pela financeira. A seguir, analisemos quatro pontos. Comprovantes de renda

O financiamento de automóvel aprovado pela área de crédito deve considerar a real renda mensal e não de período de férias ou de outros ganhos, por exemplo. Outros pontos de atenção: as horas extras regulares e comissões sobre vendas ou produtividade só são razoavelmente comprovadas com pelos menos os três últimos holerites; renda de autônomos somente é estimada mediante RPA (recibo de pagamento de autônomos) e/ou extratos de conta corrente de períodos longos; a renda de investidores é checada contra cópias de contratos de locação devidamente registrados em cartórios, acompanhada de cópia da Declaração de Imposto de Renda e seu recibo de entrega; e a renda de empresários é conferida com a apresentação de declaração de contabilista habilitado mediante checagem da autenticidade da carta e do registro do contabilista no site do CRC do Estado, mais extratos bancários.

Comprovantes de residência

Aceitar demonstrativos que não possam ser checados com seus respectivos emitentes é um risco muito grande. Daí a recomendação de muitas instituições (em algumas, a proibição) em não aceitar comprovantes que não sejam contas de consumo, como água, esgoto, energia, gás ou telefone fixo, que comprove uma ligação física com o domicílio do proponente. Documentos de identidade

É preciso conhecer as características principais de cada documento aceito como tal e reconhecer os que estão fora dos padrões e as adulterações mais comuns feitas pelos mal-intencionados. Jamais deve ser aceito documento que estiver fora da validade e/ou em estado de conservação precária. Além disso, o cartão do CPF não é documento de identidade, mas é obrigatório que todo cliente de instituição financeira tenha o seu próprio. Qualidade das cópias

As cópias dos documentos de identidade, mais as dos comprovantes de renda e residência, são sempre a base com o que trabalham os formalizadores e, junto com outros documentos comprobatórios que podem ser solicitados pela área de crédito, elas não podem ser aceitas se não tiverem uma boa resolução. Todas devem ser obtidas do documento original. O motor do crédito só funciona direito se todas as engrenagens e componentes da instituição funcionarem em harmonia. f Antonio Glup é gerente da área de detecção e prevenção a fraudes da Credifibra S/A – Crédito, Financiamento e Investimento novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 49


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Por Karin Fuchs

Diplomata de carreira e amante da arte africana Executivo da CNF, José Ricardo Alves roda o mundo em busca das melhores peças. Uma paixão que começou nos tempos de universitário e que não terá fim

Diplomata licenciado e atual vice-presidente de relações institucionais da CNF(Confederação Nacional das Instituições Financeiras), José Ricardo da Costa Aguiar Alves tem muitas histórias para contar, que vão além do âmbito profissional e dos projetos técnicos habitualmente desenvolvidos por ele. Mas que, de alguma forma, estão diretamente relacionados a eles: a sua paixão pela arte africana. Tudo começou na França nos tempos de estudante em que cursava doutorado em economia internacional na Fondation Nationale des Sciences Politiques (SciencesPo). Um belo dia resolveu conhecer o Marché Aux Puces, o Mercado de Pulgas da cidade de Saint-Ouen, no norte de Paris, onde atualmente mais de 1.400 antiquários se reúnem em uma área de 11 quilômetros, ofertando de tudo o que se possa imaginar. Em uma dessas lojas, especializada em arte africana, Alves se deparou com uma estatueta da tribo dos baoulé, que representa a noiva ideal. Segundo a história, os baoulé acreditam que cada um – homem e mulher – tem um companheiro espiritual representado por uma figura esculpida, um “marido espiritual” (blolo bla) ou “esposa espiritual” (blolo bian). Foi amor à primeira vista. Porém, em tempos de estudante em que a mesada é curta, Alves vivia com US$ 300 50 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

mensais e nem podia sonhar em se dar esse luxo. Sem tirar a estatueta da cabeça, por mais duas vezes ele voltou à loja até que perguntou o preço: “US$ 100”, foi a resposta do comerciante. Um valor irrisório hoje, mas que, na época, faria muita falta. Para conseguir o sonhado objeto, o executivo fez o que considera hoje uma loucura. “Enviei uma carta à minha mãe dizendo que eu tinha conseguido um emprego de modelo nu, na faculdade de Belas Artes. Claro que era mentira. Em resposta, ela me escreveu indignada dizendo que eu não precisava disso e junto mandou uma nota de US$ 100. Não pensei duas vezes e corri para comprar a estatueta.” Um marco para Alves se tornar conhecedor da arte africana, resultando em uma coleção de 312 peças catalogadas por ele mesmo e guardadas em seu museu particular, em Brasília (DF). Acaso ou destino, o fato é que a carreira de diplomata ajudou a criar o seu acervo. Na hora certa, no lugar certo Já formado e de volta ao Brasil, anos depois o executivo foi trabalhar na embaixada em Washington, Estados Unidos, onde há boas galerias. “Foi quando comecei a garimpar peças e, literalmente, trocar figurinhas, como


Foto: Douglas Luccena

fazíamos no recreio. Comprava peças e trocava”, lembra. Uma prática também adotada anos depois, quando, em Nova York, trabalhava nas Nações Unidas. A oportunidade mais do que certeira veio com o convite para assumir o consulado na África do Sul. Afinal, é por Joanesburgo que todas as peças de arte africana passam antes de chegarem às galerias do mundo. Simpático e comunicativo, Alves não tardou em fazer amizades e ser o primeiro a ser avisado quando as cargas chegavam. “Passei quatro anos garimpando containers. Era uma diversão ver aquelas peças amontoadas. O meu critério era totalmente visual. Depois, fiz viagens ao Gabão, a Angola e à Costa do Marfim para procurar outras. Ao longo do tempo desenvolvi um olhar mais apurado e, hoje, vejo que muitas que dei grande valor, não tinham nenhum e outras, que adquiri por acaso, tem grande valor.” Uma aula de história E como toda obra tem uma história por trás, Alves já antecipa que arte africana não é primitiva. “É uma arte sofisticada, com uma beleza e um magnetismo poderosos, tanto que foi fonte de inspiração para os impressionistas”,

diz o executivo, dando como exemplo Picasso que, além de colecionar objetos africanos, criou a partir deles uma nova linguagem artística, explicitamente em sua obra “As Meninas de Avignon”, com fortes recursos de máscaras; ou, ainda, o famoso escultor suíço Alberto Giacometti, que tem em suas esculturas semelhanças perfeitas às dos quenianos. Matisse, Gauguin, Modigliani e Vlaminck também foram influenciados pela arte africana. A origem da arte africana remota aos primórdios, aos usos e costumes das tribos, e vai até o século 19. José Ricardo Alves explica que a grande arte africana é a da África Ocidental, da África do Sul até Mali, excluindo o norte do continente onde há uma arte própria, como a egípcia, a da Tunísia e a dos países árabes. “Tem autores que incluem a África do Sul e outros não, por considerarem a arte zulu muito peculiar. E, na linha do tempo, é uma arte que vai até a Segunda Guerra Mundial. Depois dessa época, já é vista com reserva, pois foi quando os colecionadores despertaram para essa arte e, consequentemente, vieram as falsificações.” O auge para os colecionadores, pontua Alves, é o século 19, “sobretudo no período das colonizações francesas e belgas em continente africano”, ensina.

José Ricardo Alves, da CNF “O que mais me apaixona é pesquisar a história de uma peça”

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vidapessoal

Arte e características Da tribo baoulé, o marco são as estatuetas das noivas ideais (blolo bian). Das diferentes etnias da Nigéria encontram-se máscaras Ngil com rostos compridos, repletos de misticismo, simbologia e espiritualidade, e as famosas trancas de porta Dogon, do Mali. “A tranca de porta no Mali significa status. Como característica, ela parece um diabo, comprida com um chifrinho e orelhas compridas, e a tranca é na forma de cruz. Conforme a sua beleza, ela diz a você quem a pessoa é e a sua importância naquela sociedade”, explica Alves. O gosto do colecionador é totalmente pessoal, uma identificação inexplicável, conforme afirma o executivo da CNF. “Tem gente que se especializa em região, em tipo de arte ou em natureza da peça. Toda a arte africana remete a uma pesquisa antropológica e o que está em jogo é a fascinação. Tem várias tribos de colecionadores e a minha é de estatuetas, das noivas ideais da Costa do Marfim.”

Outra classificação importante, além da época, é o material. “As peças de bronze são as menos valorizadas, por serem de um material reutilizável, o que não garante a originalidade. As de madeira são melhores, porém estão sujeitas a danos, como, por exemplo, cupins. Para protegê-las, as tribos as passavam no fogo. Tenho peças que até hoje cheiram fumaça. Já as de terracota são mais nobres, com uma produção sofisticada que dura para sempre”, diz o especialista. Originalidade Para comprovar a autenticidade da peça, o mais simples é pelo certificado de galeria. Como nem sempre isso é possível, já que peças são garimpadas de colecionadores, mais histórias há por detrás delas. “Em setembro, comprei uma máscara em Paris e, para comprovar a sua legitimidade, fui me informar com a família do colecionador na Bélgica, que me enviou fotos do avô em Gana, com a máscara ao fundo. O que mais me apaixona é pesquisar a história de uma peça.” E como garimpar é o principal hobby de Alves, ele está sempre pronto para aumentar a sua coleção. “A última loucura que fiz foi quando estava na África do Sul e soube que as peças de uma família do Gabão iriam a leilão. No dia seguinte, já estava lá. Do Gabão, quase fui à Libéria, informado de que lá havia muitas peças. Só mudei de ideia na última hora, pois é um país complicado em termos de violência. Mas é assim mesmo, por impulso.” Outra sintonia Apenas um clique separa o mundo corporativo do universo africano. Das responsabilidades diárias, execução de projetos técnicos e todos os trâmites para aprovação no Congresso Nacional vivenciados por José Ricardo Alves, pensar em sua coleção o transfere para um outro mundo. “É como mudar de canal da televisão, do Discovery Chanel para um filme denso. Quando paro e penso na beleza que irradia das minhas peças e todo o sacrifício que fiz para tê-las, tudo vale à pena e eu entro em outra sintonia. É mágico”, conclui. f

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artigoreformas

Movimento Brasil Eficiente O Movimento Brasil Eficiente (MBE) reúne o setor produtivo nacional, federações empresariais, empresas de segmentos variados e a sociedade civil em torno de uma proposta de reformulação fiscal e tributária que garanta ao País um crescimento econômico sustentável, consistente, constante e acelerado. O estudo foi Por Paulo Rabello de Castro efetuado pelos economistas Raul Velloso e Paulo Rabello de Castro e pode conduzir o crescimento econômico e a geração de empregos à média decenal de 6% ao ano, praticamente dobrando a renda per capita da população em 2020. Isso será possível desde que a carga tributária caia para patamares de 30% do PIB ao fim da década. Confira: Primeira proposta Aprovar meta decenal (2011–2020) inscrita em lei própria, de ajuste do gasto público e de contenção da carga tributária, que chamaremos de Lei do Brasil Eficiente. Segunda proposta Aprovar meta decenal de crescimento, entre 2011 e 2020, na média de 6% ao ano, impulsionada por investimento da ordem de 25% do PIB no período e trazendo o nível de pobreza dos atuais 24% para apenas 15% da população. Terceira proposta Limitação gradativa ao aumento do gasto público, monitorado por Conselho de Gestão Fiscal, a ser criado nos moldes do Conselho Monetário Nacional (conforme o artigo 67 da Lei de Responsabilidade Fiscal), que estabelecerá ajustes anuais em tributos e empenhos de despesas para atender ao estrito cumprimento da meta decenal de redução da carga tributária. Quarta proposta Redução gradual da carga tributária, conforme a Lei do Brasil Eficiente (2011–2020), na base de um ponto porcentual por ano até se atingir o patamar limite de 30% do PIB. Quinta proposta Simplificação e racionalização do Sistema Tributário Nacional, mediante conjugação de impostos e contribuições diversas,

assim se reduzindo a sua quantidade e os custos de sua administração pelo contribuinte. Sexta proposta Transparência total na cobrança de tributos incidentes sobre a circulação econômica, mediante adoção de um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) que aglutine todos os tributos hoje incidentes de cobrança federal (como IPI, PIS e Cofins, CIDE e IOF) e federativos (como ICMS e ISS) para que o contribuinte pague uma só vez e saiba com qual alíquota final está, de fato, arcando. Sétima proposta Dedicar a arrecadação integral do novo Imposto de Renda (IRPF + IRPJ + CSLL + Contribuição Patronal ao INSS) ao financiamento da Previdência Social brasileira, mas limitando o gasto total previdenciário (INSS + regimes próprios) a 10% do PIB até 2020. Oitava proposta Destinar, por ano, até 5% do PIB à infraestrutura nacional, por meio de investimentos do setor público, alocando a totalidade do Fundo do Regime Geral da Previdência Social, a ser criado, conforme o artigo 68 da LRF, pelo recolhimento mensal das contribuições individualizadas de seus participantes. Nona proposta Limitar o crescimento da despesa de pessoal, fomentando a ascensão por mérito e o treinamento continuado, e das despesas em assistência social, por meio de aperfeiçoamento dos critérios de elegibilidade, desestimulando o socorro permanente, consolidando programas superpostos e realizando aferições rigorosas de seu retorno efetivo. Décima proposta Adotar cinco metas na gestão educacional: aferição, responsabilização, premiação, descentralização e priorização, a fim de se obter no Brasil, nos próximos 20 anos, avanço em escolaridade comparável ao da Coreia do Sul em duas décadas passadas. f Paulo Rabello de Castro é um dos idealizadores do MBE e sócio-fundador da SR Rating novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 53


artigoanáliseeperspectivas

As receitas de crédito e tesouraria

dos bancos brasileiros Analisando o comportamento da taxa de juros e do volume de crédito nos últimos cinco anos, nota-se uma Por prof. dr. Alberto Borges Matias queda na primeira vacolaboração de João Francisco P. dos Reis riável e um aumento na segunda; a Selic, por exemplo, caiu de 18,25% para 10,66% no período analisado, e o volume de crédito teve um aumento acumulado de 73,94% no período, batendo o recorde de concessão de crédito dos últimos cinco anos. O reflexo do comportamento dessas variáveis nos bancos brasileiros pode ser visto ao se analisar os demonstrativos financeiros dessas instituições, notando-se que houve um aumento na participação das receitas com crédito e queda na participação do resultado de tesouraria. No gráfico 1 nota-se a ascensão da concessão de crédito do País, e no gráfico 2 a queda da taxa de juros Selic.

Concessão total (PF e PJ) de crédito MILHARES R$

GRÁFICO 1

200.000.000 180.000.000 160.000.000 140.000.000 120.000.000 Variação no período analisado: 73,94%

100.000.000 80.000.000 60.000.000 40.000.000

jul/10

jan/10

abr/10

jul/09

out/09

jan/09

abr/09

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out/05

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abr/05

20.000.000

Fonte: Inepad & Visionarium

54 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010


Taxa de juros – Selic

20%

15%

10%

5%

jun/10

dez/09

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dez/06

jun/06

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0% jun/05

Com a queda da taxa de juros, houve uma queda nas participações das aplicações em tesouraria, uma vez que essas aplicações são constituídas na maior parte por títulos da dívida pública e esses têm sua remuneração atrelada à taxa Selic. Em contrapartida à redução da participação das aplicações em tesouraria, a participação das receitas de crédito aumentou com a queda na taxa de juros. De acordo com o gráfico 3 é possível aferir que as participações de receitas de crédito e tesouraria são inversamente proporcionais, em que a curva de participação das receitas de crédito passou de 79% para 89%, enquanto a curva de participação de resultado de tesouraria passou de 32% para 19%, ambas no período de 2005 a 2009. É importante também comparar os valores absolutos das receitas de crédito e das receitas com tesouraria. O gráfico 4 comprova a ascensão das receitas de crédito diante da queda das receitas de tesouraria. Conclui-se neste artigo que a curva das receitas de crédito acompanha o movimento da curva da concessão de crédito e a curva das receitas de tesouraria acompanha a curva da taxa Selic. Como nos últimos cinco anos houve uma tendência de aumento na concessão de crédito e queda da taxa de juros, as receitas de crédito aumentaram e as de tesouraria diminuíram. O mesmo movimento ocorreu quando foram comparadas as participações da receita de crédito e de tesouraria. f

GRÁFICO 2

25%

Fonte: Inepad & Visionarium

Participação das receitas de crédito x tesouraria GRÁFICO 3

100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% 2005

2006

Participação das receitas de crédito

2007

2008

2009

Participação das receitas de tesouraria Fonte: Inepad & Visionarium

Receitas de crédito x receitas de tesouraria R$ MIL

GRÁFICO 4

500.000,00 450.000,00 400.000,00 350.000,00

Prof. dr. Alberto Borges Matias Professor Titular do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo no campus de Ribeirão Preto, e diretor do Inepad João Francisco P. dos Reis, analista financeiro do Inepad

300.000,00 250.000,00 200.000,00 150.000,00 100.000,00 500.000,00 0 2005

2006

Receitas de tesouraria

2007

2008

2009

Receitas de operações de crédito Fonte: Inepad & Visionarium

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Em defesa do setor A Acrefi tem o objetivo de congregar as empresas do setor, defender seus legítimos interesses, fortalecer as relações entre os associados e promover o desenvolvimento de suas atividades. Por isso, a Acrefi criou comissões para debater os assuntos relevantes desse mercado. Conheça um pouco sobre elas:

Outros Produtos Sandro Almeida, diretor-executivo do banco Carrefour, coordena a nova Comissão Outros Produtos, focada em produtos e serviços financeiros que não são relacionados ao tema veículos. A ideia é adicionar na agenda da Acrefi a discussão sobre crédito pessoal, cartão de crédito, CDC e cartão lojista. No dia 5 de agosto ocorreu o primeiro encontro. Almeida pretende colocar em pauta o papel dos associados na educação financeira da sociedade. “Com o aumento da classe C, queremos posicionar a Acrefi como facilitadora não só dos bancos e financeiras, mas também dos clientes, possibilitando a inclusão da classe C de maneira sadia. Se tratarmos de educação financeira, certamente vamos perpetuar o período de vida dos clientes nas instituições”, estima Almeida.

Assuntos jurídicos Recentemente a Acrefi, por meio de sua Comissão Jurídica, disponibilizou um parecer para todos os associados, elaborado pelo escritório Arthur Alvin, sobre a cobrança das tarifas bancárias. O documento trata em especial sobre a tarifa de cadastro, relacionada à pesquisa da situação cadastral dos clientes bancários, em benefício a segurança do sistema financeiro nacional. “Essa comissão é a que tem a presença de profissionais do segmento. Participam entre 35 e 50 pessoas por reunião. Nelas, além de temas importantes, se compartilha a estratégia da área. Isso tem sido vital, pois norteia os associados em como se colocar diante de diversas situações”, diz Eduardo Gasparoto, coordenador da Comissão Jurídica.

Veículos Compliance O objetivo principal dessa nova comissão, criada em agosto, é estudar o Custo de Observância. O Banco Central não faz diferenciação de porte de bancos e financeiras nos normativos e, por isso, a comissão criará um grupo de trabalho para estudálos, visando ao custo de acordo com a realidade dos associados. Sérgio Darci, ex-diretor do Banco Central, participa dos encontros para ajudar com o seu parecer. Na primeira reunião, 38 representantes de instituições estiveram presentes. “Queremos ouvir o que as outras instituições gostariam de debater já para fechar um planejamento de 2010”, finaliza a coordenadora da Comissão, Gislene Cabral de Sousa.

“São cerca de 2,8 milhões de veículos vendidos, o quarto maior mercado mundial de automóveis, ficando atrás apenas da China, dos Estados Unidos e do Japão. Sim, esses números são brasileiros. E precisamos nos preparar. Novas montadoras pretendem se instalar no País, como a coreana Hyundai e a chinesa Chery. Semana passada, a japonesa Suzuki, a chinesa Haima e o grupo brasileiro Rossin-Bertin, também anunciaram projetos de linhas de montagem no Brasil. Com 303,1 mil automóveis, caminhões e ônibus comercializados, o último outubro foi o melhor para o setor da história nacional. Com certeza o potencial e a importância que os financiamentos de veículos terão a cada dia se mostram mais fortes e a Comissão de Veículos tem com principal objetivo a preparação para esse mercado tão promissor”, aponta Fernando Ruiz, coordenador da Comissão de Veículos Acrefi.


DE >> COMISSÃO CRÉDITO E COBRANÇA José Renato Simão Borges Borges, presidente da Comissão de Crédito e Cobrança e vice-presidente da Acrefi, entende que a área de cobrança evoluiu para uma área de recuperação de crédito e de clientes. Passou a ser uma unidade de negócios e é o que da sustentabilidade a principal atividade da instituição financeira: o crédito. Acompanhe entrevista com o executivo: Financeiro Quais as novidades e conquistas dessa comissão? Borges Lançaremos até o final do ano “Cartilhas de Boas Práticas” para mitigar riscos de ações cíveis e outra de “Cobrança” (recuperação de crédito), bem como trabalho de estruturação do site Acrefi de Veículos em leilões. Normalmente as ações contrárias as instituições financeiras ocorrem por falhas em processos bancários. Queremos nesse âmbito reforçar o que está bom, corrigir o que está errado e fazer o que ainda não é feito. Um questionário é enviado aos associados da Acrefi para coletar informações. Depois dessa etapa, montamos um grupo de trabalho que reúne os dados e funciona como uma subcomissão. O material é, então, validado pela comissão. Essa cartilha contará com o apoio do Instituto Geoc.

Foto: Douglas Luccena

Cadastro Positivo Dia após dia a necessidade de se obter informações positivas para decisão de crédito aumenta. Isso porque, os níveis de desemprego estão queda, e a renda e o volume de crédito crescentes. Com isso as pessoas ficam mais endividadas. Nesse contexto para uma melhor decisão em crédito se faz necessário o Cadastro Positivo. “Hoje o Acrefi+, em parceria com a Serasa Experian, conta com 22 instituições trocando informações positivas onde, em setembro, atingimos mais de um milhão de consultas”, aponta Wellington Alves dos Santos, coordenador da comissão do Cadastro Positivo.

Financeiro Qual o principal assunto em pauta no último mês? Borges A nova CET (Custo Efetivo de Transação). Esse assunto teve ampla discussão no encontro, pois envolve o Banco Central. Financeiro Há algum outro ponto que gostaria de comentar? Borges Tivemos melhoras nos níveis de inadimplência neste ano, porém os indicadores públicos são muito restritos. Estamos trabalhando na criação de novos indicadores de inadimplência segmentados por produto, linha de negócios e região. Outra ação importante é a aproximação com a Fipe e Molicar para discutir o modelo de avaliação de veículos.


artigopolíticamonetária

Políticas restritivas para o crédito O Banco Central anunciou recentemente medidas de contenção do crédito: o aumento do compulsório, a elevação da alocação de capital para algumas operações e a redução dos limites para a compra de carteiras de crédito. As medidas possuem caráter prudencial e procuram evitar o aparecimento de bolhas de crédito, mas não substituem a política monetária tradicional feita via taxa de juros, e possivelmente tem impacto limitado no atual ambiente de expansão fiscal. O preço de um ativo é considerado uma “bolha” quando seu comPor Carlos Thadeu de Freitas Gomes portamento independe de seus fundamentos. A possibilidade de um ativo entrar em trajetória de bolha, resultando em uma alocação ineficiente de recursos, surge quando as expectativas dos agentes formam um componente importante, alimentando um processo de crenças autorrealizáveis. As ações tomadas pelo Banco Central procuram evitar o aparecimento de processos dessa natureza, e estão em linha com o que tem sido sinalizado pelo BIS para o novo Acordo de Basileia, o qual deve exigir regras macroprudenciais mais rígidas. No entanto o efeito do aumento do compulsório sobre a inflação parece ser limitado. A medida tende a encarecer as linhas de financiamento de bens de consumo duráveis, porém a persistência do IPCA acima da meta não tem sido determinada por esses bens, mas, sim, pela demanda excessiva pelos bens não comercializáveis e também por choques nos preços das commodities agrícolas. Logo, a taxa de juros Selic seria o canal mais amplo e eficaz para convergência da inflação para a meta de 4,5%. O aumento dos depósitos compulsórios e a taxa Selic são instrumentos complementares e não substitutos. O primeiro atua diretamente no crédito e indiretamente na demanda. Os juros têm mecanismos de transmissão mais potentes, afetam o preço dos ativos em geral e tendem a reprimir a demanda agregada como um todo, reduzindo as pressões inflacionárias. Já as medidas anunciadas recentemente afetam setores isolados da economia e, embora tenham certa relevância do ponto de vista preventivo e regulatório, a magnitude e a duração de seus impactos não estão claros. As particularidades do mercado de crédito no Brasil, como os altos spreads bancários e elevada participação de 58 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

crédito subsidiado, fazem com que os efeitos de medidas de política monetária, convencionais e não convencionais, sejam limitados. No caso da elevação do compulsório, ele deve atuar sobre o aumento dos spreads bancários, pois reduz a liquidez do mercado interno reduzindo a disponibilidade de recursos disponíveis para novos empréstimos. De forma similar, atua a elevação da exigência de capital para empréstimos de longo prazo concedidos às pessoas físicas. Todavia, tais medidas terão impacto em apenas algumas modalidades de crédito, sobretudo no financiamento de bens duráveis para pessoas físicas, e podem provocar um redirecionamento da demanda por crédito para outras modalidades, como cheque especial e cartão de crédito. Adicionalmente é preciso reconhecer o efeito da medida adotada nas expectativas do mercado. Se o aumento do compulsório for interpretado como o adiamento de uma decisão de política monetária, as taxas de juros futuras irão subir, pois os agentes esperarão um aperto monetário maior no futuro. Quando as taxas de juros futuras sobem, a estratégia do carry trade se torna mais rentável, resultando num maior influxo de capitais e valorizando ainda mais a taxa de câmbio nominal. Portanto, apesar de atuar de forma limitada sobre os desequilíbrios internos reduzindo o excesso de liquidez e, consequentemente, a expansão monetária derivada do ritmo acelerado de crescimento do crédito ao consumidor, as medidas podem contribuir para agravar os desequilíbrios externos no curto prazo. Sendo assim, ainda que os instrumentos de política monetária utilizados tenham sucesso no sentido de evitar bolhas de crédito, possivelmente terão impacto apenas secundário na trajetória da inflação e no produto. Enquanto isso, o caráter pró-cíclico da política fiscal no curto prazo, e as incertezas em relação a ela, no longo prazo gerarão volatilidade e alimentarão pressões inflacionárias. É importante também que o Banco Central, em contraponto, consiga transmitir efetivamente via seus comunicados o novo orçamento para o próximo ciclo de aperto, para agir sobre as expectativas de forma a otimizar o efeito da política monetária. f Carlos Thadeu de Freitas Gomes ex-diretor do Banco Central e economista-chefe da CNC


livros

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Lâmpada acesa

Apesar da crise, as pessoas continuam a comprar e são mais cautelosas sobre o que precisam e na maneira como escolhem. Algumas das maiores empresas do mundo, como a Hewlett-Packard, Disney e Microsoft, nasceram em períodos de recessão econômica. O autor aborda como as empresas podem ganhar vantagem competitiva por meio da criatividade e da inovação, sobrevivendo em qualquer clima econômico. Livro “Criação e Inovação no Caos” Autor Jeremy Gutsche Editora Campus-Elsevier Páginas 280 Preço sugerido R$ 89,90

Tecnologia do sucesso

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Em ascensão

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De país atrasado, dependente da exportação de poucos produtos primários, o Brasil tornou-se uma das maiores economias do mundo no século atual. Uma trajetória fortemente marcada por bruscas reestruturações da economia mundial, como a crise iniciada em 1929, o longo ciclo de crescimento pós-Segunda Guerra Mundial, os choques do petróleo e dos juros na década de 70 e, por fim, a reestruturação produtiva na década de 90. O livro busca resgatar os aspectos mais essenciais para a formação da atual economia nacional. Livro “Economia Brasileira. Da Colônia ao Governo Lula” Autor Marcos Cordeiro Pires Editora Saraiva Páginas 392 Preço sugerido R$ 78

Na obra, o jornalista Edson Perin democratiza o conhecimento sobre o uso da Tecnologia da Informação (TI), traduzindo conceitos técnicos e complexos para a linguagem cotidiana dos profissionais de negócios. Estão esmiuçadas em “TI para Negócios” soluções e sistemas para empresas como, por exemplo, gestão empresarial (ERP), relacionamento com clientes (CRM), Nota Fiscal Eletrônica (NFe), comércio eletrônico (b2b e b2c), computação em nuvem, entre outros. Livro “TI para Negócios. Como Fazer a Tecnologia Trabalhar pelo seu Sucesso e da sua Empresa?” Autor Edson Perin Editora Netpress Books Páginas 160 Preço sugerido R$ 35

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tecnologiamóvel

Seu

Ricardo Macedo, analista de sistemas, localiza as agências mais próximas com aplicativo do Itaú Unibanco

Celular, internet banking, ATMs e diversas outras maneiras de utilizar os serviços dos bancos fora das agências. Canais remotos ganham cada vez mais importância para clientes que prezam conveniência e já respondem por mais de 66% das transações bancárias Por Juliana Jadon


Fotos: Douglas Luccena/Divulgação

banco,com você Quem nunca precisou de dinheiro físico para comprar algo e não pôde por estar só com o cartão do banco em mãos? Numa noite de sexta-feira, Ricardo Macedo, analista de sistemas de 24 anos, quase passou por isso. Decidiu ir a um pub junto com um grupo de amigos. Eles estavam num barzinho na avenida Paulista, em São Paulo. O destino escolhido só aceitava dinheiro e Ricardo estava sem. Ao invés de pedir emprestado, ele sacou o iPhone e acessou o aplicativo do Itaú Unibanco que localiza os caixas eletrônicos mais próximos. Foi caminhando, enquanto seus colegas aguardaram o retorno por cerca de dez minutos. No dia seguinte, de casa mesmo, acessou o internet banking pelo computador pessoal para controlar as finanças. Ele faz isso quase que diariamente. Para Ricardo acessar o portal de seu banco ele utilizou o canal de atendimento bancário mais procurado no País, segundo o “Diagnóstico do sistema de pagamentos de varejo do Brasil”, elaborado pelo Banco Central. A web já responde por quase 31% das transações bancárias, ultrapassando os terminais de autoatendimento (ATM). Além disso, os canais que permitem a realização de transações sem atendimento presencial – internet, ATMs, centrais de atendimento, diversos tipos de celulares e PDAs – responderam, no ano passado, por 66,7% das transações bancárias. Isso demonstra que os canais remotos hoje são de suma importância para os clientes bancários. O estudo “O setor bancário em números”, divulgado em maio pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), aponta o internet banking como segundo colocado na realização de transações bancárias, respondendo por 20% das operações – 9,3 bilhões do total de 47 bilhões de transações registradas no ano passado. Já os caixas eletrônicos são o principal meio de relacionamento com os correntistas, com um terço das transações totais.

Geraldo Afonso Dezena, vice-presidente de tecnologia do Banco do Brasil (BB), lembra que os bancos brasileiros passaram por uma verdadeira revolução com o avanço dos canais de autoatendimento. No final da década de 80 e durante a década de 90, a capilaridade dessa rede aumentou; no final dos anos 90, houve o avanço da internet e, a partir de 2000, das tecnologias móveis. No BB, o internet banking representa 300 milhões de transações e cerca de 25% do total. “A maioria das operações que se fazia no caixa há 20 anos pode ser efetuada em casa fora do expediente bancário. Não há dúvida de que o banco está em qualquer lugar”, opina. De acordo com Laércio Albino Cezar, vice-presidente de tecnologia da informação do Bradesco, os melhores produtos, serviços e atendimento da instituição presentes em todo o País são apoiados pela área que gere. Há 15 anos, o Bradesco foi o primeiro banco brasileiro a disponibilizar o internet banking aos clientes. Hoje são 2,4 milhões de usuários do canal que o utilizam para efetuar transações, emitir boletos, aplicar dinheiro e se relacionar com o banco por meio de chat. Segmentar o atendimento aos clientes é uma das estratégias no portal do Bradesco. O Netempresas, internet banking para pessoa jurídica, por exemplo, possui 700 mil contas cadastradas. O número representa mais da metade dos 1,2 milhão de clientes pessoa jurídica da instituição. O canal possui cerca de 940 serviços disponíveis. “Para cada um dos perfis existem produtos especificados de acordo com segmento ou nicho de atividade”, diz Laércio. Laércio conta que para melhorar o atendimento nos diversos canais o banco criou em 2008 um projeto denominado “TI melhorias”. O plano que engloba 28 vertentes já concluiu 27 e hoje se encontra na fase mais novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 61


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Geraldo Dezena, do Banco do Brasil “Não há dúvida de que o banco está em qualquer lugar”

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crítica: a da preparação para uma nova arquitetura de sistemas que permitirá mais agilidade em novos produtos e serviços. São 1.200 pessoas trabalhando somente nessa última parte. “Este ano, o orçamento para a área de tecnologia da informação é de R$ 3,5 bilhões. A previsão é que, até 2012, o ‘TI melhorias’ seja finalizado”, expõe. Em mãos O Citi Brasil fez algo semelhante ao Itaú em 17 de agosto. O banco lançou o “Citi Brasil”, tecnologia que permite a usuários de iPhone localizar agências e caixas eletrônicos da instituição financeira. A subsidiária brasileira é a primeira no mundo a adotar a tecnologia. “Temos clientes que gostam de inovação. Cerca de 30% da nossa base, composta por pessoas que fazem parte da classe C para cima, já utiliza essa tecnologia”, conta Márcia Ambrosano, superintendente de canais remotos do Citi Brasil. Foram mais de cinco mil downloads registrados, uma semana após o lançamento do serviço e o aplicativo do Citi foi o terceiro mais requisitado na App Store, serviço para o iPhone, iPod Touch e iPad, criado pela Apple para que usuários naveguem e baixem aplicativos da iTunes Store. Junto a Márcia, 22 pessoas trabalharam diretamente no projeto do aplicativo, desde a idealização até o desenho e o desenvolvimento. Uma parceria

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com uma empresa de tecnologia também foi importante. Da decisão de fazê-lo até ficar pronto correram três meses. Uma das funcionalidades é o recurso de realidade aumentada – mistura de virtual e elementos do mundo real. Com o uso de vídeo e da função bússola, o usuário aponta o celular para a direção em que deseja ir e o sistema fornece todos os pontos de atendimento daquela região com imagens tridimensionais. O serviço funciona apenas no modelo 3Gs. Nas versões 2G e 3G, esse serviço aparece como um mapa que surge na tela do celular, mostrando a localização do usuário e todos os pontos de atendimento da região. Além disso, permite traçar rotas, apresenta detalhes dos pontos de atendimento, fale conosco via e-mail e aponta telefones úteis, como SAC e ouvidoria. No Itaú, a corrida mobile se estendeu também para o iPad. De julho até o final de agosto, foram feitos 6.119 downloads do aplicativo do Itaú feito especificamente para o dispositivo na versão Personnalité, que contempla clientes pessoa física de alto poder aquisitivo. Por isso, a instituição liberou o acesso a outros segmentos como Uniclass e varejo. No ranking da App Store Brasil, o aplicativo do Itaú Personnalité chegou a ser o 20º mais baixado em geral e o primeiro da categoria financeira. Ele permite a localização de agências, caixas eletrônicos e dispensadores de cheque mais próximos. Além disso, é interligado com os principais indicadores de mercado e canais de atendimento do Itaú 30 Horas. Os aplicativo do Citi e do Itaú estão disponíveis para download gratuito na App Store (http://store.apple. com/br). Para localizar uma agência ou posto de atendimento bancário em qualquer ponto do País, a Febraban também disponibiliza em seu site na internet uma ferramenta de busca no endereço www.febraban.org.br/ buscabanco. Qualquer pessoa pode acessar. Celular-cartão Num sábado de setembro, Marina Cavalcante e Silva, estudante de 16 anos, foi passear num shopping


Laércio Albino Cezar do Bradesco “Este ano, o orçamento para a área de tecnologia da informação é de R$ 3,5 bilhões”

em Brasília (DF). Ao ir embora, notou que havia perdido seu dinheiro. Sem cartão ou qualquer outro meio de pagamento ligou para o pai, João Correia e Silva, e pediu socorro. Pelo celular, ele autorizou um saque no caixa eletrônico em sua conta no Banco do Brasil. Marina só teve que digitar no terminal da instituição o número da agência bancária e a senha da conta corrente. Tirou R$ 30 e pagou o táxi para voltar para casa em uma cidade satélite de Brasília, Águas Claras. João utilizou o “Saque Sem”, solução que permite aos clientes tirar até R$ 100 dos terminais de autoatendimento sem a necessidade de cartão, utilizando apenas um celular cadastrado para autorizar a operação. “Pensamos nessa opção para a eventualidade de perda ou esquecimento do cartão”, diz Geraldo Dezena. Outra iniciativa do Banco do Brasil é a recente parceria com a Cielo e a Oi para operar um sistema de mobile

payment em todo o País. A proposta é compartilhar as expertises dos três parceiros de forma a oferecer mais comodidade e mobilidade aos clientes. O acordo alia a tecnologia da Oi, a capacidade de crédito do Banco do Brasil e a maior rede de pagamentos do País operada pela Cielo. A ideia é que a parceria amplie a rede de aceitação de pagamento por meio de celular, que passará de 75 mil para 1,8 milhão de estabelecimentos. “Esse novo player vai levar a cultura do celular como forma de pagamento para pessoas não bancarizadas. Além disso, é uma maneira de formalizar essa economia”, avalia Márcia Ambrosano, do Citi, que considera a concorrência criada por esse novo player saudável. Denílson Molina, diretor de cartões do Banco do Brasil e participante da empreitada, conta que o contrato foi fechado após um ano de negociações. A operação envolve dois negócios: o Banco do Brasil e a Oi firmaram um acordo para emissão de cartões de crédito cobranded e pré-pagos, no formato tradicional baseado na tecnologia mobile payment e, em outra frente, Cielo e Oi anunciam a criação de uma joint venture, direcionada ao desenvolvimento da aceitação de mobile payment no Brasil. Assim, as duas empresas conversam também com outras operadoras para que elas façam parte da plataforma. “O Banco do Brasil quer liderar a curva de adoção dos meios de pagamentos móveis. Achamos que com essa parceria assinada em setembro iremos consolidar esse objetivo”, destaca. A meta inicial é fazer com que clientes da baixa renda utilizem os serviços móveis e fomentar a bancarização dos públicos pertencentes às classes de D e E. Agora o desafio para Molina é que o Banco do Brasil conheça com mais profundidade os clientes da Oi para criar ofertas, produtos e serviços específicos, além de construir canais de relacionamento e a estratégia de marketing baseado nessa pesquisa. Temos 180 dias para colocar tudo isso funcionando no mercado”, conta Denílson. novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 63


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Márcia Ambrosano, do Citi O banco foi o primeiro a fazer o celular funcionar como token

Remotamente seguro Ricardo assume que utiliza o iPhone para acessar os serviços do banco somente duas vezes por mês. Um dos fatores que o impedem é ter de usar o token do banco – que é disponibilizado em formato de chaveiro. Ao invés de acoplar o dispositivo junto às chaves, ele normalmente o esquece na gaveta de sua mesa no trabalho ou em casa. O Citi foi o primeiro banco no Brasil a fazer o celular funcionar como token e sanou esse tipo de problema do “esquecimento” para seus clientes. Com uma chave dinâmica gerada pelo mainframe do banco, eles recebem uma senha pelo número de celular e no e-mail cadastrado. Numa pesquisa, a superintendente de canais remotos chegou à conclusão de que o custo de enviar tokens a clientela é alto. E quando o aparelhinho quebrasse, seria preciso que a instituição arque ainda com as despesas de manutenção ou com os custos de um novo. Cerca de 65% dos internautas clientes usufruem do celular-token como garantia de segurança. O website da instituição possui em média 2,5 milhões de acessos por mês. “Somos doentes por segurança. Se não temos algum dispositivo que busque isso, é porque as nossas

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áreas de prevenção a fraude e a segurança da informação não permitiram. Provavelmente as equipes desses setores julgaram que ainda é preciso de estudos e pesquisas sobre tal aparato”, diz Márcia. Para os clientes do HSBC, o celular também é um instrumento de autenticação. Eles são identificados por meio do número do CPF e do token em seu celular, ao invés do número da conta bancária. Esse novo método possibilita aos clientes usarem seus telefones para acessar os serviços em canais como internet banking e caixas eletrônicos. Já no Bradesco, Laércio quer levar para a internet o exemplo de segurança dos terminais de autoatendimento e transformar a mão em chave. Para a segurança nos ATMs, o banco implantou a biometria. O leitor identifica a palma da mão do usuário. Em 2006, o Bradesco anunciou ser o primeiro banco da América Latina a disponibilizar a tecnologia pelo canal. Atualmente são dois milhões de clientes cadastrados no ATM biométrico onde a leitura da mão é a primeira chave para a entrada na conta. Depois dessa etapa, ainda é preciso digitar a senha pessoal na tela do ATM para acessar a conta, mas Laér-


cio estima que dentro de dois ou três meses a mão poderá ser a única chave para o acesso a conta nos terminais. Bastará para isso o cliente autorizar. Desafios do mobile Há anos os principais bancos no Brasil colocaram serviços no celular como consultas a saldo e outras funcionalidades básicas, mas ainda há barreiras a serem quebradas para fazer isso fazer parte do dia a dia dos correntistas. Para conquistar clientes como Ricardo, os bancos terão de inovar no celular como meio de pagamento. “Eu acharia muito bom! (o celular como maneira de pagar). Mas teria de ser algo seguro e prático, porque eu já carrego meu cartão de débito no bolso”, diz. Uma pesquisa realizada com cerca de dois mil consumidores brasileiros pela Forrester Research no ano passado mostra que há um longo caminho para convencer o correntista a adotar o mobile. Isso porque, apesar de o pagamento móvel ser conhecido por 87% dos entrevistados, apenas 3% dos usuários de smartphone, por exemplo, admitiram usar seus terminais para fazer operações bancárias. E mais: sem um serviço específico, 47% não têm interesse em usar o celular para fazer pagamentos. No Bradesco, Laércio reconhece que o serviço de acesso à conta pelo telefone móvel ainda é incipiente quando se olha para o volume transacionado em outros canais. O banco processa cerca de um milhão de transações por mês via celular. Com o aparelho móvel é possível fazer o mesmo que numa agência bancária, menos sacar dinheiro. Para o executivo, esse canal ainda possui fatores que o impedem de avançar. “É preciso que haja padronização entre operadoras de telecom, bancos e fabricantes do mobile. Temos de continuar avançando nessa questão para o celular se tornar um meio de pagamento efetivo.” A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) possui um grupo de trabalho que, com a participação de membros dos principais bancos no Brasil, discute a padronização dos serviços de pagamentos móveis, além de todos os entraves para emplacar, de fato, o tipo de

serviço. A executiva do Citi participa das reuniões e acha interessante os pontos levantados durante as conversas, como, por exemplo, o uso do celular como forma de pagamento no transporte público. Seria possível, segundo ela, dispensar assim o cartão Bilhete Único utilizado atualmente. Outro fator debatido é a possibilidade de efetuar transações b2b, ou seja, de pessoa para pessoa via celular. Ela concorda com Laércio: “O Brasil precisa de regulamentação nesse sentido.” Banco do futuro O setor bancário brasileiro é o que mais investe em tecnologia. No ano passado, destinou R$ 16 bilhões ao setor. Assim, muita coisa ainda deve evoluir em todos os aspectos do conglomerado financeiro nacional. “Na

Sem um serviço específico, 47% dos correntistas não têm interesse em usar o celular para fazer pagamentos Microsoft acreditamos no conceito de ‘três telas e a nuvem’. Isso quer dizer que, independentemente do que a pessoa irá fazer, terá um dos três dispositivos: computador de casa, celular ou televisão conectados. Esses serão a ponte com o banco em tempo real”, diz o gerente de novas tecnologias, Richard Dalceno Chaves. “Em alguns anos, as agências bancárias praticamente deixarão de ser um ambiente transacional para serem pontos de encontro com os clientes”, estima Dezena. Segundo ele, será possível que o cliente receba uma oferta ativa em seu celular, no momento exato em que passar por uma loja varejista, podendo, com poucos cliques, comprar o objeto ofertado, à vista ou financiado,. A largada tecnológica já foi dada. Aos bancos resta romper barreiras culturais dos clientes não acostumados com o uso da tecnologia sem pecar na usabilidade dessa ponte de serviços financeiros. Aos clientes sobrará cada vez mais comodidade e conveniência. f novembro/dezembro 2010 FINANCEIRO 65


artigopalavrafinal

Os desafios do próximo governo Passada a eleição, a discussão voltará a ser centrada nas condições de crescimento da economia brasileira para os próximos anos. Por mais que o atual governo passe uma mensagem de que está bom como está, na verdade não é bem assim. O governo Lula vem deteriorando graPor Sergio Vale dativamente a política econômica nos últimos anos, com mudanças sutis em algumas políticas e omissão em assuntos que deveriam ser mantidos na pauta. Quando começou seu governo em 2003, mais do que o ajuste fiscal que foi feito na época, a novidade eram as microrreformas que foram mantidas. O crédito consignado, medidas para fomentar o mercado imobiliário, a nova Lei de Falências, criação da Anac, entre outras, formam medidas concentradas nos primeiros anos do governo de Lula. No segundo mandato, essa visão foi gradualmente trocada por políticas de curto prazo. A crise ajudou o governo a usar a política fiscal para estimular o crescimento no curto prazo. O segundo mandato foi o de incentivar a rápida expansão. A cara final do governo Lula é diferente da inicial. Posto isso, será essencial saber como o próximo governo terá que agir a partir de 2011. Será necessário voltar ao ritmo de microrreformas que caracterizaram o governo FHC e os primeiros anos de Lula. A insistência do atual governo é que todas as reformas econômicas relevantes se resumem à tributária. Apesar de necessária, não é suficiente e passa longe do que deveria ser uma verdadeira reforma tributária. Essa teria de passar por uma diminuição significativa da tributação sobre produção e consumo, similar ao padrão mundial. 66 FINANCEIRO novembro/dezembro 2010

Diria que mais do que uma correta reforma tributária, outras têm de vir em conjunto para serem efetivas para a economia. Primeiro a previdência terá que ser pensada. Seu déficit hoje está acima de R$ 40 bilhões por ano, com uma população envelhecendo rapidamente. As projeções demográficas mostram que a idade mediana do brasileiro deverá passar de 29 atualmente para 46 anos em 2050, se igualando a países desenvolvidos. O problema é que hoje a previdência é essencial para a população idosa. Se não fosse a previdência, 70% dessa população viveria abaixo da linha de pobreza contra os 10% de atualmente. Politicamente é difícil fazer essa reforma, mas quanto antes a discussão for colocada em pauta, melhor. A reforma trabalhista também é relevante, já que é um custo de competitividade significativo. As exportações de manufaturados perdem espaço para os asiáticos em parte porque o custo da mão de obra é muito maior por aqui.. Por fim, o governo terá que escolher: ou mais políticas sociais ou mais infraestrutura. Dada à necessidade evidente dessa última, além dos jogos e do pré-sal, os gastos sociais se tornaram difíceis de diminuir. O governo terá de fazer uma “escolha de Sofia”. Mas, nesse caso, a solução que poderia vir pelo congelamento temporário de novas contratações e de aumentos de salário do setor público parece fora de cogitação. Não são fáceis os desafios do próximo governo. Mas sem passar por uma atuação em conjunto dificilmente conseguiremos chegar um dia a um padrão chinês ou indiano de crescimento. f Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados


Edição 66 - Novembro 2010  
Edição 66 - Novembro 2010