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A RECONSTRUÇÃO DO BRASIL DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO:

O BRASIL PRECISA INVESTIR MAIS Em que estágio o Brasil se encontra hoje em relação a outros países com relação a ciência e tecnologia? Você compara com a Coreia, que nos anos 50 estava mais ou menos na mesma situação brasileira. Só que eles investiram pesado na educação. Foi o primeiro país do mundo a tomar empréstimo com o Banco Mundial para desenvolver Ciência e Tecnologia. Adotaram uma abordagem da reengenharia, que consiste em ir fabricando cada vez mais de um objeto, partindo do componente mais fácil até o mais complexo, completando toda a cadeia. Foi o que eles fizeram com a indústria automobilística. O Brasil não produz nenhum carro brasileiro, os coreanos fizeram esse milagre com educação. Enquanto nós fechávamos o país, os coreanos abriam. Nós geramos um modelo de substituição de importações, que nada mais é do que um modelo de importação de tecnologia, ao invés dessa tecnologia ser produzida aqui, total ou parcialmente. Isso gerou a ausência da participação das universidades, do ensino superior, das linhas de iniciação científica no desenvolvimento industrial nesses anos de desenvolvimento. Como a tecnologia e a inovação podem contribuir para superar a atual crise? A ciência e a tecnologia são ferramentas importantíssimas para a solução dos problemas do país nas mais diversas áreas, como defesa, agricultu-

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ra e infraestrutura. Mas está entre os maiores desafios do Brasil. Em países desenvolvidos esta é a área que mais recebe investimentos em épocas de crise. Em plena crise financeira internacional de 2008, os Estados Unidos elevaram o investimento público em ciência, tecnologia e inovação. Dos 20 principais países exploradores de patentes, próprias ou compradas, como é a grande maioria no país, o Brasil é o 19º. Este é o melhor indicador que nós temos de utilização da inovação. O número de patentes tiradas no Brasil, 300 por ano, é muito pouco. Nós gostamos também de dizer que o brasileiro é muito criativo, mas existe um organismo internacional que estuda a criatividade. Tenho a lista dos 16 primeiro países mais criativos e o Brasil não está entre eles. Resumindo, nós não só estamos atrasados como não sabemos que estamos atrasados. De que maneira podemos melhorar esse quadro? É possível decidir por políticas de inovação, como a disponibilidade de capital de risco para investir. Outro dos elementos importantes é a abertura do mercado, porque com ela você cria a competição e é ela que estimula a inovação e a riqueza. A nossa participação no comércio exterior é da ordem de 2%, é nada. Temos que fortalecer esses mercados e ampliá-los. É possível que o atual governo, mesmo que transitório, possa deixar marcas positivas. Uma delas, anunciada pelo ministro de

José Israel Vargas Ex-ministro de ciência e tecnologia e exembaixador do Brasil junto a Unesco

Relações Exteriores, José Serra, é romper com a barreira representada pelo Mercosul para o acordo com a União Europeia. Qual deverá ser a política governamental quanto à cultura da inovação e ao papel da universidade no desenvolvimento tecnológico? Não sei se o governo está querendo uma nova política tecnológica. O problema mais importante é que o atual sistema bancário não disponibiliza linhas de crédito para o desenvolvimento tecnológico, pois é uma atividade de risco. Para isso é necessário capital de risco. Fonte de financiamento a juros baixo. Eu não vejo nenhum banco público ou privado envolvido nisso, a não ser a Finep, que existe para esse fim, mas o investimento total no Brasil em ciência e tecnologia é da ordem de 1% do PIB, enquanto em todos os outros países desenvolvidos e em desenvolvimento todos estão acima de 2% do PIB.

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Maio junho 2016  
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