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Publicação anual do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana Fórum das Artes — Edição 03 — 2013 — Ano III

Música, teatro, patrimônio, artes plásticas e visuais. Uma miscelânia de culturas em movimento, tomando as cidades festivamente, este é o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana. Revista Festival • ano 3 • número 3

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Foto: Íris Zanetti

Foto de Capa Autor: Íris Zanetti Capa: Intervenção “As Passarinhas”, com estudantes do curso de artes cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto. Verso da Capa: Espetáculo “O quintal” da Cia. Casca (Belo Horizonte).

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Festival de Inverno • Ouro Preto e Mariana • Fórum das Artes 2013


Editorial

O Festival traduzido em imagens e palavras

A

Mariana Petraglia

arte esteve por todos

Em tempos diversos, a pro-

foi marcado pela heterogeneidade das

os cantos, em suas

gramação buscou contemplar o tripé

peças teatrais e espetáculos de dança,

mais diferentes for-

que norteia o Festival, com atrações

pela mistura de estilos musicais, pela

mas. A programação

artístico-culturais, discussões acadê-

presença de nomes de destaque da

do Festival de In-

micas e ações sociais. O Fórum das

literatura contemporânea, dentre ou-

verno de Ouro Preto e Mariana

Artes, espaço dedicado à reflexão e à

tros destaques. As mais de 300 ativi-

– Fórum das Artes 2013 ocupou

troca de ideias, reuniu debates sobre

dades oferecidas atraíram um público

teatros, ruas, becos e praças e aguçou

patrimônio, educação e arte, propon-

de cerca de 80 mil pessoas, em um

os sentidos do público ao abraçar as

do novas questões a serem discuti-

encontro de diferentes estilos, idades,

artes cênicas, plásticas e visuais, as

das. Um momento diferenciado den-

raças e crenças, que compuseram um

atrações infantojuvenis, as ações de

tro do Fórum promoveu discussões

cenário propício para viver a diversi-

patrimônio, os eventos de música e

relacionadas à acessibilidade, inclusão

dade.

de literatura. O som das bandas que

social, formação de novos públicos e

O material que você tem em

desciam as ladeiras e os shows nos

qualidade da educação básica na re-

mãos reúne os momentos mais mar-

palcos das duas cidades; o cheiro do

gião dos Inconfidentes e no país. Os

cantes do Festival. É um registro das

café produzido em cena no espetácu-

diálogos, os seminários e as palestras

variadas

lo teatral; os sabores da cozinha mi-

reiteraram a preocupação da Univer-

Ouro Preto, Mariana e seus distritos

neira, explorados no circuito Culinária

sidade em contribuir e modificar os

durante o mês de julho. Um canal para

e Arte; os figurinos e os personagens

ambientes em que atua, mostrando

expressar os sentimentos dos artistas

que atraíram e hipnotizaram os olha-

que a sua missão é fazer-se presen-

e as emoções do público, a Revista

res fascinados de crianças e adultos;

te e atuante, e transformar a realida-

Festival tem o objetivo de ser um re-

as oficinas enriquecidas pela troca de

de não só da comunidade local, mas

flexo do evento e busca retratar, atra-

experiências e pelos toques pessoais

também das pessoas que circulam

vés de depoimentos, relatos, textos e

de cada participante... tudo isso con-

por Ouro Preto e Mariana nos dias

fotografias, a mistura de gêneros, de

tribuiu para a mistura de sensações

de Festival.

ritmos e de cores que tomaram as

proporcionadas pelo Festival.

Revista Festival • ano 3 • número 3

O âmbito das atrações artísticas

atrações

que

ocuparam

duas cidades históricas nesse período.

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Foto: Naty Tôrres

Foto: Íris Zanetti

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Foto: Naty Tôrres

Festival de Inverno • Ouro Preto e Mariana • Fórum das Artes 2013


Foto: Pablo Silva

Revista Festival • ano 3 • número 3

Foto: Íris Zanetti

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Organização: Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Administração Reitor: Prof. Marcone Jamilson Freitas Souza Vice-Reitora: Profª. Célia Maria Fernandes Nunes Pró-Reitor de Extensão: Prof. Rogério Santos de Oliveira Pró-Reitor Adjunto de Extensão: Profª. Ida Berenice Heuser do Prado Coordenações Coordenação Geral: Prof. Rogério Santos de Oliveira Coordenação Geral Adjunta: Profª. Ida Berenice Heuser do Prado Coordenação Executiva: Júlia Mitraud Coordenação de Produção: Mônica Gomes Coordenação de Oficinas: Tereza Gabarra Coordenação de Comunicação: Rondon Marques Coordenação Financeira: Kátia Borges Coordenação de Logística: Nadja Garbin Bicudo Coordenação do Circuito Festival: Eliane Sandi Assessor Executivo: Renan Marcheto Curadorias - Infantojuvenil: Marilene Marinho e Juliana Bergamini - Artes Cênicas: Ricardo Gomes - Artes Plásticas: Fundação de Arte de Ouro Preto – FAOP - Artes Visuais: Juan Thimóteo e Adriano Medeiros - Literatura: Marta Maia e Alexandre Agnolon - Música: Celso Alves, César Buscácio e Guilherme Paoliello - Patrimônio: Casa do Patrimônio de Ouro Preto – IPHAN

Revista

Coordenadoria de Comunicação Institucional - UFOP Coordenação: Chico Daher Coordenação de jornalismo e edição geral: Verônica Soares e Mariana Petraglia Equipe de jornalismo: Ana Paula Martins - JP/MG 12.533 Fernanda Matias – JP/MG 09.913 Mariana Petraglia - JP/MG 12.458 Verônica Soares - JP/MG 13.093 Redação: Ana Paula Martins, Bruna Fontes, Brunello Amorim, Flávia Gobato, Fernanda Mafia, Fernanda Matias, Fernanda Marques, Júlia Mara Cunha, Mariana Petraglia, Ramon Cotta, Roberta Nunes, Rolder Wangler, Rondon Marques e Verônica Soares. Revisão: Magda Salmen e Rosângela Zanetti Coordenação de equipe de fotografia: Prof. André Luís Carvalho. Fotografia: Du Tropia, Lincon Zarbietti e Naty Tôrres. Trainees de fotografia: Lídia Ferreira, Íris Zanetti, Isadora Faria. Equipe de apoio de fotografia: Carolina Lourenço Teixeira, Iago Rezende de Almeida, Mariana Antunes Borba, Osmar Lopes Neto, Pablo Henrique Heleno e Silva, Ricardo José Correia Maia. Projeto gráfico e diagramação: Mateus Marques Impressão: Gráfica RB Digital Tiragem: 2.000 • Pró-Reitoria de Extensão (Proex): (31) 3559-1358 • ACI-UFOP: (31) 3559-1222/1223 - aci@ufop.br Site: www.ufop.br e www.festivaldeinverno.ufop.br.

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Festival de Inverno • Ouro Preto e Mariana • Fórum das Artes 2013


Entrevista - Rogério Santos Abertura Sobre o tema Culinária e Arte Infantojuvenil Artes Plásticas Literatura no Festival Música Artes Cênicas Artes Visuais Patrimônio UFOP com a Escola Oficinas Conexão Festival Caravana Festival Redes Sociais Festival nas ruas Revista Festival • ano 3 • número 3

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Festival de Inverno • Ouro Preto e Mariana • Fórum das Artes 2013


diversidade, tons

Um traço Uma linha branca rasga o papel escuro Mensagem e suporte Faz curvas, forma volutas Marca uma estética Um braço Uma pele negra cava a terra vermelha Chão e suor Faz cortes, forma culturas Assinala um tempo Um passo A seiva da veia é deixada na janela azul Sangue e visão Machuca a alma, verte vidas Cicatriz inesquecível Um voo O celeste recebe a luz de um canário-do-campo Movimento e liberdade Lembra colônias, espelha a nação A riqueza das eras Um eco O encontro das cores traduz vidas no puro branco Fórum e arte Frieza da história, calor da celebração Inverno festivo, diverso Rondon Marques

Foto: Isadora Faria

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Entrevista

Rogério Santos de Oliveira

Rondon Marques

Em sua décima edição sob a organização da Universidade Federal de Ouro Preto, o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana passou por uma variedade de conformações. Desde a proposta do Fórum das Artes, em 2004, e a congregação global do evento no ano seguinte, vários coordenadores deram sua contribuição na discussão do fazer a arte e seus efeitos. Em 2013, a coordenação geral ficou sob a responsabilidade de Rogério Santos de Oliveira, professor do Departamento de Artes Cênicas e pró-reitor de Extensão da UFOP, que tem em seu currículo a experiência na área de artes, com ênfase em Direção Teatral, atuando principalmente nos temas relacionados ao teatro, à direção teatral e à interpretação. Possui graduação em Belas Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestrado em Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e doutorado pela Universidad de Alcalá/España. Já envolvido com o Festival em outras edições como curador da área de Artes Cênicas, Rogério fala sobre o conceito do evento e os projetos para o próximo ano.

Foto: Naty Tôrres

A arte que edu 10

Festival de Inverno • Ouro Preto e Mariana • Fórum das Artes 2013


Qual a busca do evento ao definir o tema como Em tempos diversos? A ideia central é o conceito de diversidade na arte, em cidades com características barrocas como Ouro Preto e Mariana, dentro de um tempo contemporâneo que traz várias representações de mundo. Essa proposta casa como uma luva no espaço simbólico dessas cidades que estão atadas às tradições e que, ao mesmo tempo, são onde a contemporaneidade agrega e rediscute a função da localidade.

mundo nas diferentes áreas. Tanto no espaço dedicado à educação quanto em outros locais, a arte educa e abre o olhar para uma leitura de mundo mais onírica, na qual o duplo espaço/tempo, quando ressignificado pela arte, torna-se outra forma de ser e de estar no mundo. O Festival educa abrindo a possibilidade do sonho, expandindo a visão do indivíduo, o desejo para que o mundo da vida possa ser também uma experiência lúdica e estética.

O Festival educa abrindo a possibilidade do sonho, expandindo a visão do indivíduo.

Qual o norte conceitual para a definição das ações do Festival de Inverno? O Festival de Inverno é organizado em um tripé conceitual: atrações artístico-culturais, discussões acadêmicas e ação social. A primeira delas envolve shows, oficinas, exposições e outras atividades que possibilitam uma vivência diferenciada na área da arte. Já, no Fórum das Artes, concentra-se uma discussão acadêmico-cultural na qual são realizados eventos que discutem temas diversos, como o patrimônio material e imaterial, junto ao Iphan, a música na contemporaneidade e a arte conceitual. Os fazeres são debatidos junto às instâncias institucionais e informais, tendo como reflexão o entorno onde está inserida, a cidade, o país, etc. A terceira parte é a que abarca a maior quantidade de ações envolvendo distritos, como a Caravana Festival, que atende escolas de 12 distritos de Mariana e Ouro Preto. Também temos o Festival com a Escola que parte de um programa de extensão da UFOP, o UFOP com a Escola, e que trabalha a formação de público a partir da fruição e do contato direto com a arte, o que deve ser ampliado cada vez mais. O Festival precisa dar, além do intuito de diversão, a possibilidade de as pessoas entenderem o mundo de outra maneira. A experiência com a arte é uma outra forma de entender o mundo. É por isso que o Festival acontece em lugares diferenciados também. Sim. A ocupação dos espaços pela arte é primordial. Quando a arte se apropria do espaço, causa uma ressignificação desses locais. Temos os espaços que são feitos para serem depositários da arte, como as galerias, os teatros, o cinema, os centros de convenções de Ouro Preto e Mariana, que, mesmo sendo preparados para isso, têm a possibilidade de receber uma arte que pode até mesmo contrapor estéticas. Também temos outros espaços que não foram feitos para receber a arte, mas que também podem ampliar significados, como as ruas, as praças e as igrejas. A arte invade e ressignifica e, com isso, o público percebe a arte de forma diferenciada. Quem vai a uma galeria já espera o contato estético, mas, em outros espaços, a surpresa transforma a vida cotidiana do cidadão, que pode entender que esse dia a dia pode ser mais rico e questionar o automatismo, a direção focada que diminui a percepção. A arte é potente e significativa, modifica a vida. Nos espaços barrocos, a arte contemporânea ressignifica a tradição. O espaço barroco deixa de ser apenas o da tradição, cristalizado, e passa a ser um espaço de potência para o novo. Podemos afirmar com isso que a arte educa profundamente o indivíduo? A arte como educação faz com que o homem repense seu estar no mundo e possa rearticular sua relação cotidiana no mesmo. Ao entender que o ser se constitui no mundo em uma relação dialética, Heidegger diz que somos no mundo, portanto, passíveis de reestruturar nossas ações a partir de nossa vivência cotidiana. Esse também é o conceito da Paideia que tem origem no período grego, que pensa o processo de educação em seu sentido mais amplo, o homem como parte integrante do todo, uma relação unificadora deste em relação ao seu processo de existência. O Festival educa o sujeito em um sentido mais amplo para que ele tenha a possibilidade de significação do

Mas para realizar tudo isso é preciso um trabalho administrativo bem organizado. As questões administravas também são estabelecidas no tripé conceitual, tendo como carro-chefe a UFOP, com o apoio direto das prefeituras de Ouro Preto e Mariana, passando pelas Secretarias Municipais de Cultura e Turismo, e da Fundação Educativa de Ouro Preto (Feop). A partir desse tripé, temos a legitimidade para realizar o Festival, com o envolvimento da academia (professores, técnicos e alunos) e de diversos outros colaboradores para a montagem de um time diferenciado. A credibilidade do evento facilita o diálogo na busca de parceiros como Samarco, Vale, Gerdau, Cemig, Oi Futuro, Petrobras, Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, Ministério da Cultura, Ministério da Educação e governo federal, além de diversos outros apoiadores que nos ajudam a realizar o Festival a cada ano. A maturidade do evento gera a legitimidade. Por isso, acho que o Festival de Inverno poderia ter uma maior amplitude e estender mais suas ações durante todo o ano. Para isso, vamos buscar novas possibilidades com os parceiros para que as ações possam ser articuladas durante o ano. Tudo só é possível com o apoio dos parceiros, que garantem a realização desse encontro diferenciado da arte. Vemos aí uma sinalização de novidades para o evento de 2014? O Festival de 2014 já está sendo pensado, fortalecendo o tripé que envolve as atrações, o Fórum das Artes e a parte social, que precisam ser potencializadas cada vez mais. Queremos trazer de volta para o Festival sua função histórica, que é pensar a arte e sua relação com o mundo, potencializando, além da diversão, a reflexão e a troca. O conceito da diversidade, trabalhado este ano, deve perdurar mesmo que como substrato. Pretendemos repensar as relações em rede do indivíduo, como ela se amplia e reflete nele mesmo sua marca. Em breve, vamos chamar os curadores para discutir a proposição e pensar em conjunto a temática do próximo ano dentro dessa relação do indivíduo com os espaços com os quais ele se insere, o que acho uma boa conversa.

A ocupação dos espaços pela arte é primordial. Quando a arte se apropria do espaço, causa uma ressignificação desses locais.

uca e modifica Revista Festival • ano 3 • número 3

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Vi va a di fer en ça!

Fotos: Naty Tôrres, Lincon Zarbietti e Du Tropia

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Festival de Inverno • Ouro Preto e Mariana • Fórum das Artes 2013


Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2013 – exalta a diversidade Mariana Petraglia

O respeito às diferenças, a liberdade de escolha nas relações pessoais, a diversidade cultural, a variedade de crenças e a multiplicidade da arte foram os valores destacados na noite de abertura do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2013, no dia 5 de julho, fortalecendo os principais ideais inseridos na temática deste ano: Em Tempos Diversos. Com a apresentação do grupo Mulheres em Chamas, formado por alunas do curso de Artes Cênicas da UFOP, o público teve a

oportunidade de assistir a uma todas as formas de expressão e é um mite o sucesso do evento. prévia do que os 24 dias de Festival reservavam e pôde entrar no clima das mais variadas manifestações artísticas que tomariam as ruas das duas cidades-sedes do evento, Mariana e Ouro Preto. O pró-reitor de Extensão da UFOP e coordenador geral do Festival, Rogério Santos Oliveira, enfatizou que, embora Ouro Preto e Mariana sejam cidades conhecidas por suas características barrocas, também produzem e recebem arte contemporânea. Segundo ele, o Festival agrega

momento de tomar as ruas com cultura e festejar. Mais de 30 atrações musicais, 40 espetáculos de teatro e dança, 30 oficinas, 22 exposições, mesas de debates, dentre outras atividades, fizeram parte da programação. O reitor da UFOP, prof. Marcone Jamilson Freitas Souza, valorizou o envolvimento da equipe organizadora, “que não mede esforços para o funcionamento do Festival, junto aos patrocinadores e apoiadores”, e afirmou que a harmonia entre os envolvidos é o que per-

Também estiveram presentes representantes das cidades parceiras. O vice-prefeito de Ouro Preto, Chiquinho Xavier, convidou o público a mostrar a beleza da cidade para o mundo neste mês de festa. O secretário de Cultura e Turismo de Mariana, Antônio Delfonso Ferreira, ressaltou a importância da parceria entre as cidades e a Universidade e pediu que outros eventos sejam realizados em conjunto ao longo do ano.

Mais de 30 atrações musicais, 40 espetáculos de teatro e dança, 30 oficinas, 22 exposições e mesas de debates fizeram parte da programação.

Abertura oficial em Mariana Ana Paula Martins

Foto: Naty Tôrres

Revista Festival • ano 3 • número 3

A abertura oficial do evento em Mariana foi realizada no dia 6 de julho, durante a Festa da Panela de Pedra, em Cachoeira do Brumado. Em sua oitava edição, de 5 a 7 de julho, a Festa promoveu a tradição da culinária mineira. Feijão tropeiro, caldos de feijão e de mandioca, churrasquinho e muitas outras delícias foram saboreadas em diversas barraquinhas na praça do distrito. A programação incluiu, ainda,

shows de bandas regionais e exposição de artesanato local. Na ocasião do lançamento em Mariana, o reitor da UFOP ressaltou que o Festival é mais uma oportunidade de a Universidade cumprir uma de suas funções primordiais, que é integrar seus alunos com a população. E adiantou: “Já estamos planejando o Festival do ano que vem e esperamos

contar novamente com o apoio das Prefeituras e promover mais uma vez a abertura do Festival em Mariana por Cachoeira do Brumado”. Criada em 2005, a Festa da Panela de Pedra é uma realização da comunidade e conta com o apoio da Prefeitura de Mariana.

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em tempos Bruna Fontes e Ramon Cotta

A união entre o antigo e o moderno foi o foco de um dos mais tradicionais eventos culturais e artísticos da região: o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2013. Entre os dias 5 e 28 de julho, moradores das duas cidades e turistas puderam vivenciar a diversidade cultural oferecida pelas atrações do Festival, dentro da temática proposta para este ano: Em tempos diversos. O tema, que contribuiu para a inserção do Festival no dia a dia da

população, também buscou entender a arte na contemporaneidade, partindo de oficinas – como um processo criativo artístico – até a finalização da arte, ilustrada em apresentações de vários segmentos. Segundo o pró-reitor de Extensão da UFOP e coordenador-geral do evento, Rogério Santos de Oliveira, “a ideia era entender o local da cultura e da arte nesse espaço contemporâneo. Era necessário absorver os vários entendimentos da arte e saber interagir com a diversidade de duas cidades históricas, repletas de memória e tradição”.

Discussões e reflexões sobre o estado da arte e sua importância hoje também foram inseridas no Festival. A preservação do patrimônio e sua apropriação por parte dos turistas e moradores foi um tema fortemente debatido. Para o coordenador, existe a expectativa de estender as ações do evento para gerar transformação social. “A intenção é aproveitar o espaço da Universidade, juntamente às parcerias, e fazer do Festival um acontecimento durante o ano todo.”

Foto: Mateus Marques

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diversos Festival de Inverno abordou a diversidade resultante do encontro entre o antigo e o contemporâneo, além de seus desdobramentos Curvas e cores deram vida ao Festival de Inverno “Cores vibrantes, uniformidade em desequilíbrio, diversidade expressa no clima da pluralidade, iguais e diversos, cada voluta idêntica à outra, mas carregando consigo uma unidade cromática individual, compartilhada com a próxima.” É assim que Mateus Marques, coordenador do Núcleo de Projetos Gráficos da UFOP, traduziu a representação da arte que deu vida a esta edição do Festival. Um dos grandes desafios da equipe do Festival 2013 foi a necessidade de criar uma arte que expressasse o tema Em tempos diversos sem tender apenas para os motivos contemporâneos, nem abusar das marcas comuns do barroco que geralmente ilustram Mariana e Ouro Preto.

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Explorando fotografias que fez pela cidade de Mariana, Mateus encontrou em um marco de janela do Museu Arquidiocesano uma pequena “voluta” e de lá surgiu a ideia. “Foi um olhar microscópico sobre a diversidade no cenário onde está o Festival”, resumiu. Para chegar à arte que retratou a temática do evento, em um momento tão diverso socialmente, o coordenador de Comunicação do Festival de Inverno, Rondon Marques, explica que foi preciso pensar nas cidades diversificadas, como são Ouro Preto e Mariana, que reúnem passado e presente, preservação e desenvolvimento. “As curvas são baseadas em uma voluta de cantaria, comum nas

construções do barroco mineiro, que sofre grandes intervenções do rococó. Assim, o moderno e o tradicional se sobrepõem intermitentemente sem delimitações claras do espaço de cada um. Um movimento que vai além do cíclico e do sequencial. Direções construídas a cada encaixe, ou a cada passo dessa nossa sociedade’’, finalizou Rondon.

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CIRCUITOS

Natureza também é cultura Trilhas destacam a diversidade do patrimônio arquitetônico e ambiental Flávia Gobato

As belas paisagens características da Mata Atlântica e do Cerrado compuseram os caminhos do Circuito Trilheiros, que promoveu cinco atividades durante o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2013. Nos passeios pelas trilhas das duas cidades, os participantes visitaram os principais parques ecológicos da região e entraram em contato com grandes cenários da história de Minas Gerais — a mineração, as arquiteturas dos séculos XVII e XVIII e as paisagens naturais — fortalecendo a importância da preservação ambiental e patrimonial. “Foi uma experiência interessante pelo contexto histórico que marca a trilha. A natureza do lugar envolve ruínas e grandes paisagens, e podemos contemplar o verde que compõe o cenário do patrimônio natural e imaterial”, contou a estudante de Turismo da UFOP Paula Reis, que escolheu a trilha Ouro Preto x São

Bartolomeu, distrito de Ouro Preto conhecido pela natureza, arquitetura e festas religiosas. A curadora do Circuito Trilheiros, Eliane Sandi, afirmou que Ouro Preto e Mariana têm um enorme potencial ecoturístico. “A diversidade de trilhas disponíveis na região vai desde o início da exploração das minas, no período colonial, até os dias de hoje. O participante entra em contato com vários cenários da nossa história.” As trilhas são organizadas pela empresa ouro-pretana Esporte em Ação, especializada em trilhas na região. O guia responsável, Rafael Barbosa, explicou que o potencial natural das duas cidades é imenso. “Temos belas cachoeiras e paisagens naturais, porém, elas são pouco difundidas entre a comunidade.Acredito que o Festival de Inverno seja uma oportunidade para conhecer melhor as belezas naturais da nossa região.”

Ouro Preto e Mariana têm grande potencial para o ecoturismo

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Festival de Inverno • Ouro Preto e Mariana • Fórum das Artes 2013


A arte dos museus no roteiro do Festival de Inverno Circuito Museus diversifica propostas de exposição para explorar o tema do evento em 2013 Brunello Amorim

Pelo quarto ano consecutivo, o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana aproveitou a riqueza histórica das duas cidades e incluiu, em sua programação, o Circuito Museus que contou com a participação de 14 instituições. A seleção de peças e instituições deu o tom aliado à temática Em tempos diversos do Festival 2013, demonstrando a variedade do patrimônio dessa região de Minas Gerais. Dentre os museus participantes, estavam o Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas, o Museu da Inconfidência, o Museu da Escola de Farmácia e o Museu das Reduções, no distrito de Amarantina, em Ouro Preto. Em Mariana, o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra foi um dos que fizeram parte do roteiro. Obras de variados gêneros estavam expostas: do famoso busto pré-histórico do Homem Fóssil de Lagoa Santa aos quadros de Manoel da Costa Atayde, passando pela arte sacra de Aleijadinho.

Para o chefe de departamento de Museologia da UFOP, professor Gilson Nunes, “o Festival de Inverno promove uma programação cultural extremamente rica em parceria com os museus. O Circuito tem o objetivo de propor um diálogo entre os museus, turistas e moradores de Ouro Preto e Mariana”. Segundo dados dos museus, cerca de 80 mil pessoas visitaram as obras expostas durante os 20 dias de Circuito. A coordenadora executiva do Museu da Farmácia da UFOP e membro da coordenação do Sistema de Museus de Ouro Preto (Smop), Rayani Aparecida da Silva, explica que o Festival de Inverno realiza um importante trabalho de divulgação das atividades dos museus, aumentando o número de visitantes. “O Circuito de Museus sempre rendeu bons frutos na democratização do acesso público ao patrimônio histórico, artístico e científico que está protegido nas instituições”, destacou.

Fotos: Naty Tôrres

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A diversidade da c misturada às cores do Circuito Culinária e Arte premiou melhores pratos relacionados ao tema Em tempos diversos Um lugar para inovar e criar diferentes combinações de cores e sabores. Na cozinha, acontecem verdadeiras alquimias. Em meio a diferentes expressões artísticas, a arte de cozinhar teve espaço garantido no Festival de Inverno – Fórum das Artes 2013, no Circuito Culinária e Arte. Criado em 2009 com o intuito de apresentar aos turistas e moradores da região os pratos criados especialmente para o Festival, o Circuito teve, em 2013, a participação de 21 estabelecimentos, que ofereceram ao público desde pratos sofisticados até lanches simples. A competição se dividiu em três categorias: prato principal, sobremesa e a inédita de lanches rápidos, e teve como uma das regras a relação do prato criado com o tema do evento: Em tempos diversos. Os jurados avaliaram 16 restaurantes em Ouro Preto e cinco em Mariana.

Fotos: Mateus Marques

Para a coordenadora do Circuito Culinária e Arte, Eliane Sandi, o concurso é uma forma de os chefs explorarem a diversidade da culinária mineira e agregarem a esses pratos ingredientes de diferentes culturas. “O objetivo do Circuito é dar abertura para os estabelecimentos das duas cidades divulgarem suas especialidades”, comentou Sandi.

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culinária mineira o Festival de Inverno Júlia Mara Cunha

Concurso Gastronômico Durante todo o Festival, três jurados do curso de Gastronomia do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) avaliaram os restaurantes participantes. Um diferencial da edição foi a participação de chefs profissionais que trabalharam na criação de pratos com o objetivo de serem vencedores. “Vários estabelecimentos tentaram misturar sabores de acordo com a temática. Com a competição, podemos ver que há uma profissionalização, o que eleva o nível das produções”, afirmou a professora do IFMG Luanda Batista. Em Mariana, apenas duas categorias do concurso foram premiadas: prato principal e sobremesa. O restaurante Lua Cheia ganhou o primeiro lugar com o prato Lombo do Garimpo, que já existia no cardápio, mas foi incrementado especialmente para o concurso. “Além de ser um prato típico e que os turistas gostam, acrescentamos a mostarda, que não é muito comum para acompanhar o tutu”, comentou a chef Marly Teresinha Alves. O estabelecimento também concorreu com a sobremesa Tacinha Lua Cheia e ficou em segundo lugar. “O doce já existia, mas modificamos a receita com a maçã ao vinho”, contou a outra chef Otília dos Santos.

Chantilly Confeitaria concorreu com a Quiche de alho poró e ficou em terceiro lugar. A torta mineirinha da Chantilly ficou em primeiro lugar entre as sobremesas e, segundo Luanda Batista, surpreendeu pela mistura interessante: “Não é comum ver uma torta sofisticada com ingredientes simples como o doce de leite”. Em Ouro Preto, na categoria prato principal, o vencedor foi o restaurante Deguste, com o prato Comer, Beber e Amar, da chef de cozinha Camila Lamas, que participou pela primeira vez da competição. “Eu me dediquei bastante para fazer o prato, fazendo pesquisas e vários estudos. É muito gratificante ter o trabalho reconhecido.” Já o restaurante Hannah levou o segundo lugar na categoria prato principal, com o Mini combinado do chef e, em terceiro, ficou o restaurante Benzadeus, com o Prato dos deuses. O lanche rápido ganhador foi o Sanduíche Formaggio D’Ouro, do restaurante Barroco e Barraco. Nas sobremesas, em primeiro lugar ficou a Trilogia Petit Gâteau, feita pelo chef Charles Cristiano, do restaurante O Passo. A Taberna Luxor levou o segundo lugar com a Mousse a Gerais e, em terceiro lugar, ficou a Tortinha de Banana com Sorvete, do Hannah Asian Sushibar.

O segundo lugar na categoria prato principal foi para o restaurante Chez Alécia, com o Consemês de legumes à moda Chez. A

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Brincar em meio à arte para entender a diferença “Somos um corpo que se construiu na diversidade. Vivenciar de formas distintas a arte possibilita encontrar o que nos diferencia do outro” – com essa frase, a curadora de Infantojuvenil do Festival de Inverno, Juliana Bergamini, definiu o trabalho realizado com as crianças. Dessa forma, a alegria e o entusiasmo próprios da pouca idade foram apresentados nos onze eventos e sete oficinas promovidos pelo Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2013 com o intuito de proporcionar diferentes experimentações. Nos espaços abertos, as pessoas foram atraídas pelas cores vibrantes, ritmos, gestos e pela ludicidade. Já as apresentações nos teatros mostraram ao público que a arte está mais próxima deles do que se imagina. Amanda Wood Souza, 33 anos, de Belo Horizonte, veio com o marido e a filha visitar os pais que moram em Ouro Preto e aproveitaram para curtir o Festival em família. “Como eu já morei aqui, sentia que julho era o momento mais interessante do ano. Queria que o Festival pudesse ter extensão durante todo o ano, pois eu cresci com o Festival de Inverno e isso fez toda a diferença na minha personalidade, criação e no meu interesse por arte e cultura”, relembrou.

Foto: Naty Torres

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Festival de Inverno • Ouro Preto e Mariana • Fórum das Artes 2013


Crianças experimentam leque de manifestações artísticas e culturais da curadoria infantojuvenil Roberta Nunes

Nas oficinas, a imaginação explorada pelo desenho

Foto: Pablo Sil

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Símbolo da infância dos brasileiros há gerações, a Turma da Mônica esteve presente no Festival de Inverno por meio do roteirista João Marcos, que faz parte da equipe de Maurício de Souza. Junto com as crianças, o artista explorou várias formas de expressão na oficina Traça traço: o desenho muito além da imaginação por meio do cartum. “Participar das oficinas no Festival é muito bom porque a gente conhece coisas novas e legais. Aprendi a fazer desenhos com números, letras e a partir de rabiscos. Eu gostei porque quando eu leio vem muitas minhoquinhas e ideias na minha cabeça, e eu gosto de colocar elas na escrita. Agora eu descobri que posso fazer isso no desenho também”, afirmou Larissa Mitroud, de 9 anos.

Fantoches como forma de expressão cultural

Foto: Isadora

Faria

Os desenhos também são inspiração para a criação e a encenação dos buratinos italianos, mais conhecidos como fantoches. Assim, Leonardo Gonçalves e Giorgia Goldoni ensinaram a dar forma e a encenar, retratando lendas da região e reforçando as tradições culturais. Descobrir a gama de possibilidades com papel, cola, tinta, tecido e fita chamou a atenção de Larissa Alves Scarpell, 13 anos, que veio de Belo Horizonte exclusivamente para a oficina. “É muito legal porque eles falam que não tem certo, se fizer errado vai ser certo também, e nisso percebemos um jeito de criar que fica ainda mais legal.”

Música Partindo para o universo musical, a oficina Criando batuques populares, com o arte-educador Renato Sérgio Costa da Cruz Ramos, revelou às crianças sons antes desconhecidos, como o coco de roda, a ciranda e o maracatu do baque virado. Lídia Fonseca de Carvalho, 9 anos, de Belo Horizonte, estava atenta aos novos ritmos. “Eu gosto muito de instrumentos porque a música sempre esteve presente na minha vida. Por isso, vim para essa oficina para trabalhar a criatividade em criar instrumentos e conhecer ritmos diferentes”, comentou. Onde está a Fronteira entre os ritmos e países? O trio Juan Pablo Ferrero, Ricardo Pesce e Vinicius Pereira do grupo Jogando Tango tocou e comentou o tango, samba, la zamba, milonga, bailão, valsas e gêneros folclóricos de diferentes países, ajudando a desconstruir as barreiras geográficas. “Uma coisa é a fronteira que se vê em mapas, e outra é a tradição que é disseminada. A pergunta continua: Onde está a fronteira? Porque a gente está mais entrelaçado do que imagina”, defendeu Ricardo Pesce. Revista Festival • ano 3 • número 3

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Interação entre criadores e público Foto: Íris Zanetti

Ouro Preto e Mariana já estão habituadas a respirarem arte durante o mês de julho. A Curadoria de Artes Plásticas incrementa ainda mais a programação cultural do Festival de Inverno – Fórum das Artes 2013. Neste ano, foram promovidas seis exposições, quatro oficinas, uma intervenção artística, além de lançamento de livro. A curadoria é de responsabilidade da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), entidade ligada à Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais. As mostras foram distribuídas em espaços conceituados das cidades. Em Ouro Preto: Frida Imaginária, de Rogério Fernandes, na Galeria de Arte Nello Nuno; Gigantes pela própria natureza, de Hélio Leites e Willi de Carvalho, na Casa dos Contos; Retrospectiva: 10 anos de trabalho, de Emiliana Marquetti, na Galeria de Arte do Instituto Federal e Tecnológico de Minas Gerais; e a coletiva Diversos, no Centro de Artes e Convenções de Ouro Preto. Já em Mariana, as exposições foram Olhar de um tempo, de Deneir de Souza Martins, no Centro de Convenções de Mariana; e Incorporações, de Mamutte (Felipe Saldanha), no Centro de Cultura Sesi Mariana.

Foto: Osmar Lopes

Foto: Íris Zanetti

Segundo a curadora Gabriela Rangel, toda a programação das Artes Plásticas foi pensada para valorizar e difundir a arte contemporânea, tendo como base a temática da diversidade. Nesse sentido, dezesseis artistas de variados estilos e técnicas, todos com grande força expressiva, uniramse para apresentar a exposição Diversos. Objetos, instalações, desenhos, técnicas, registros diversos, dispersos e abrangentes. As obras representam a produção contemporânea da arte e são dos artistas Conceição Romualdo, Cor Jesus, Danielle Carvalho, Dinho Bento, Edgar Paiva, Fábio Carvalho, Guiomar Anastácia, Inês Antonini, Lídia Miquelão, Marta Neves, Brígida Campbell, Marcelo Terça-Nada, Rodrigo Mogiz, Selma Weissmann, Thereza Portes e Thiago Pena. A diversidade foi abordada, ainda, na exposição da artista Emiliana Marquetti em sua Retrospectiva: 10 anos de trabalho, um recorte das obras produzidas em sua carreira. Cores vivas, traços inesperados e autenticidade puderam ser vistos nas telas da mostra. “Minhas criações são momentâneas e sempre inéditas”, revela Emiliana, que herdou o dom do pai, o conceituado artista plástico Ivan Marquetti (1941 - 2004).

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Toda a programação das Artes Plásticas foi pensada para valorizar e difundir a arte contemporânea, tendo como base a temática da diversidade Ana Paula Martins

Seis exposições, quatro oficinas, uma intervenção artística, além de lançamento de livro.

Cores vivas também puderam ser conferidas na homenagem à pintora mexicana Frida Kahlo feita pelo artista plástico Rogério Fernandes em sua série Frida Imaginária. Dezenas de obras foram feitas com técnicas e materiais diversificados para mostrar a Frida Kahlo da “imaginação” do criador. O artista utilizou pintura a óleo sobre tela, tinta acrílica, monotipia, pastel seco, desenho, spray, dentre outros, em uma exposição harmônica e encantadora. “Frida Kahlo, para mim, sempre foi um grande exemplo de mulher e de artista completa, gosto muito de sua arte. O meu trabalho tem muito da figura feminina, sempre exploro as musas femininas em minhas obras. Nessa série, eu trato a Frida como uma personagem imaginativa, sem me prender a dados históricos ou biográficos, pintando-a ao lado de Picasso ou Dali, por exemplo. Daí o nome Frida Imaginária”, explica Rogério Fernandes.

Diversidade de materiais e inspirações Buscando entender o corpo em sua natureza, no sensível, em lembranças e organicidades, o artista Mamutte apresentou mídias e estruturas: o corpo, a ação, a palavra, o som e a imagem para montar sua exposição Incorporações. As obras, em sua maioria, mostraram homens e mulheres nus, expondo o corpo humano de um jeito simples e em sua essência, sem se ater a tabus. Já a exposição Gigantes pela própria natureza, dos artistas Willi Carvalho e Hélio Leites, explorou o mundo em miniatura. Objetos pequenos tomaram novas formas, ganhando cores, texturas e ritmos para contar histórias e despertar emoções. Caixinhas de fósforo se transformaram em cenários. Outros materiais recicláveis foram incrementando as obras. Com prosa, verso e arte, os dois artistas distribuíram alegria, emoção e amor pelo trabalho e pelas coisas simples da vida. Cada traço e cor das obras foram descritos com elos poéticos que res-

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saltam a simplicidade da vida.

A sustentabilidade, com o reaproveitamento de materiais recicláveis, também foi abordada pelo artista Deneir de Souza na mostra Olhar de um tempo. O artista, que trabalha com artes plásticas e educação há 20 anos, criou brinquedos e engenhocas, obras construídas a partir de materiais que, comumente, são considerados lixo, como latas, alfinetes, botões, madeira, pregos, fios, sensores, lâmpadas, lentes. “Busco passar a arte por meio de novas formas e descobertas. Nas artes plásticas, uso as latas pelas cores e pela facilidade de transformá-las, dar uma sobrevida. Já com os brinquedos, penso na questão da atração, do lixo que vira algo novo”, apontou Deneir.

*** Espaço aberto à literatura A Curadoria de Artes Plásticas contou, ainda, com um momento especial: o lançamento do livro Bernardo Guimarães cronista, da pesquisadora Francelina Ibrahim Drummond. A obra traz textos e notícias inéditas sobre o autor de A Escrava Isaura e O Seminarista. O evento aconteceu no imóvel onde viveu o escritor, hoje Complexo Cultural Casa Bernardo Guimarães, que abriga a sede da Fundação de Arte de Ouro Preto. “Mostro para o leitor como se as crônicas de 1867 revelam o romancista que estava se formando. Nessa época, ele já é um poeta consagrado e crítico também. O livro reúne 12 crônicas, algumas notas sobre elas e, na segunda parte, trechos inéditos encontrados nos jornais”, explicou Francelina.

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Foto: Íris Zanetti

Proximidade com o público O colorido do grafite ganhou vida nas mãos do artista plástico Rogério Fernandes com a intervenção Live Painting em plena Praça Tiradentes, em Ouro Preto. As pessoas que passavam pelo local puderam conferir todo o processo criativo da produção da obra. “Ver o que vai sair na tela é muito bom. Uma coisa é ver a obra pronta, outra é acompanhar todo o processo”, apontou a professora de São Paulo Vanessa Cristina Rita. Rogério Fernandes também adorou fazer a obra. “Foi o que mais me deixou motivado. Ouro Preto é o berço da cultura mineira. Fizemos um contraste entre o antigo e o contemporâneo, que pode ser contemplado por qualquer pessoa que passava pela cidade. Essa é a essência da arte, tocar o ser humano onde quer que ele esteja; por isso, gosto da street art (arte urbana)”, destaca. A aproximação da arte com o público permeou toda a curadoria. Além da intervenção de Rogério Fernandes que também expôs a sua série Frida Imaginária na Galeria de Arte Nello Nuno, alguns artistas que expuseram no Festival também ministraram oficinas, como Hélio Leites, Deneir de Souza e Rodrigo Mogiz. “É uma oportunidade de realmente aproximar o público do universo artístico e da produção desses profissionais e perceber que nós também podemos ser criadores e artistas”, acrescenta a curadora Gabriela Rangel. Foram oferecidas 125 vagas distribuídas em quatro oficinas: Artes e Modéstias, Fábrica de Brinquedos, Bordando Vivências e Ateliê Nômade, totalizando a carga horária de mais de 80 horas. O Armazém dos Ofícios também esteve presente e foi montado na Casa dos Contos. É um espaço destinado à comercialização das linhas de produtos em arte aplicada, desenvolvidos nos Núcleos de Arte, de Conservação e Restauração e de Ofícios, resultado do processo ensino-aprendizagem dos diversos cursos da Escola de Arte Rodrigo Melo Franco de Andrade, da Faop.

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Entrevista

Rogério Fernandes Ana Paula Martins

Um dos destaques da programação do Festival de Inverno foi o artista Rogério Fernandes, que expôs a sua série Frida Imaginária na Galeria de Arte Nello Nuno, com as diversas facetas da pintora mexicana, e fez a intervenção urbana Live Painting, com um grande painel em plena Praça Tiradentes, em Ouro Preto. Nascido no Piauí, Rogério Fernandes sofreu grande influência da cultura nordestina, mas também tem uma relação muito próxima com Minas Gerais.

Há 15 anos, mora em Belo Horizonte, onde tem ateliê e galeria própria. Adepto da variedade de técnicas, cores e estilos, explorando a fantasia e o lirismo, é um dos artistas mais promissores e criativos da atualidade. Suas obras vão desde quadros enormes até objetos utilitários, para decoração ou moda. “Quanto mais reproduzível para mim, melhor, bem democrático, acessível. O que eu quero é produzir, produzir e reproduzir sempre e ser cada vez mais livre.”

Foto: Íris Zanetti

O que você acha de expor em Ouro Preto? Comente a sua experiência de trazer a sua Frida e os seus trabalhos para a cidade. Ouro Preto é a capital cultural de Minas Gerais, por mais que Belo Horizonte seja a capital oficial, acho que, historicamente, os principais artistas mineiros viveram em Ouro Preto. Aqui é o berço da cultura mineira. É uma honra estar em Ouro Preto e participar do Festival de Inverno, que é tão tradicional e reconhecido. Apesar de não ser mineiro, você tem uma relação muito próxima com o Estado. Eu tenho porque sou casado com uma mineira. As mulheres mais bonitas do Brasil são as mineiras (risos). Eu já havia visitado Belo Horizonte algumas vezes na minha infância, morei em São Paulo, Porto Alegre, Brasília. Em São Paulo, conheci minha esposa que é mineira, por coincidência, e queria voltar para BH. Como a minha família também já morava em Minas, resolvemos nos mudar. Moramos em Belo Horizonte faz uns 15 anos. Estou superfeliz na cidade, já estou até com sotaque. O seu trabalho é muito versátil. Tem inclusive objetos de uso pessoal e utensílios domésticos. Como é misturar telas grandes, expostas em galerias nobres, com esses objetos? Essa é a filosofia, o conceito do meu trabalho. Eu

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penso a arte em outras superfícies. Estamos no século XXI. As barreiras acadêmicas sempre me incomodaram muito quando eu estudava arte, a determinação de como as obras deveriam ser construídas. A arte não tem regra, ela é a disposição e a intenção do artista em fazer determinado trabalho. Essa ideia de o artista ser eclético não é nova, eu não sou o primeiro cara a fazer algo nesse sentido. Gaudí (arquiteto catalão do final do século XIX e início do XX) fez isso em Barcelona inteira, envolvendo a arquitetura e o design. Antigamente, não existiam designer e arquiteto, o artista fazia desde móveis até uma escultura. Da Vinci, por exemplo, era um exímio arquiteto. O ser humano não foi criado para fazer uma coisa somente. Exercitar suas habilidades é um grande desafio e eu gosto muito. Surge daí a minha compulsão em fazer objetos, coisas tridimensionais e bidimensionais, como abajur, caneca, camiseta. Considero que é tudo uma mesma superfície, muda apenas a sua intenção final. Eu também trabalho de uma forma bem cuidadosa. São sempre séries limitadas em pequenas quantidades, pois sempre quero renovar os materiais ou os produtos. É um grande carma quando o artista se repete. Daqui a 20 anos, eu pretendo fazer algo bem diferente do que faço hoje.

Como foi criar uma obra em plena Praça Tiradentes, que é o coração ouro-pretano? Isso foi o que mais me deixou motivado porque aqui é o berço da cultura, e fazer uma intervenção artística na Praça, com arte contemporânea, é diferente. A obra traz outro olhar dentro do contexto do entorno, uma composição artística do complexo arquitetônico do Brasil Imperial, ao mesmo tempo em que criamos algo contemporâneo, com outro tipo de tons e linguagens. Fizemos um contraste entre o antigo e o contemporâneo, que pôde ser contemplado por qualquer pessoa que passava pela cidade. Esta é a essência da arte: tocar o ser humano onde quer que ele esteja; por isso, gosto da street art (arte urbana), é uma arte democrática. Rogério, por que você decidiu fazer a série sobre a Frida? Frida Kahlo, pra mim, é um grande exemplo como pintora, como artista e como mulher. O meu trabalho tem uma veia feminina, eu exploro ícones femininos e, dessa vez, eu a escolhi. Eu sempre gostei muito do trabalho dela. Há cerca de um ano e meio, houve uma premiação sobre a Frida no México. Daí surgiu o conceito dessa série, a fazer uns desenhos do rosto dela e a estudar a sua vida. Muitos artistas representam a Frida, eu queria fazer algo diferente e fiz desenhos baseados nela. Não me importei muito

com os fatores históricos da Frida. Eu me preocupava mais com o personagem, com a figura feminina das flores no cabelo. Fiz uma livre associação com Van Gogh e Salvador Dali, por exemplo. Comecei a brincar com ela como personagem, sem me preocupar com a sua realidade. É algo muito imaginativo mesmo. Por isso, o nome da exposição Frida Imaginária, nenhum compromisso com fatos históricos, veracidade ou verossimilhança da história dela. Eu a tenho como uma modelo e faço variações dela com a liberdade artística. Cada uma é diferente da outra, não tem igual à outra. Cada uma tem uma personalidade diferente, como se fossem várias mulheres diferentes. Na verdade, a Frida se divide em várias, toda mulher é um pouco Frida, essa coisa de se vestir, se enfeitar, se arrumar e, ao mesmo tempo, ser guerreira e amante. Fui brincando com essa ideia e surgiu a exposição Frida Imaginária (um dos destaques da programação da Curadoria de Artes Plásticas de 2013, exposta na Galeria de Arte Nello Nuno, da Faop). Como a Frida influenciou na sua trajetória como artista? O trabalho de Frida é primoroso tecnicamente, é um exemplo a ser seguido. A técnica e a composição de cores são o seu grande legado. Eles me ensinaram muito como artista, cores vivas, cada uma em seu lugar e, no todo, você vê a obra colorida.

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o a c a t s e d a Literatur a t i r c s e e processo d e e r v li o et ir d in so r cu is d Intertextualidade, ia r o d a r cu a d s a m te m a r fo memória Fernanda Matias

radoria de es promovidas pela Cu ad vid ati s da ia nc sê es s os seus sentidos foi a a Casa Guilherme rios, em parceria com A diversidade em todo erá Lit s tro con En Os . o três rum das Artes 2013 cinas tiveram como foc ofi as e o ssã cu Literatura, durante o Fó dis de as mesas e a reflexão. a produção literária; já pelo romance, a poesia do etu de Almeida, debateram br so a, tad en es literatura: a prosa, repr Guimarães e eixos fundamentais da enções Alphonsus de nv Co de o ntr Ce no , traram em Mariana foi destaque a parAs atividades se concen Dentre os convidados, ). SA (IC OP UF da as GLBT, e do s Sociais e Aplicad tor, cineasta e ativista du tra , rgo no Instituto de Ciência atu am dr a, nalist rio Trevisan, escritor, jor ticipação de João Silvé ariano Mota. o objetivo foi jornalista e escritor Ur ammont, explicou que Gr de ar iom Gu , os ári s Encontros Liter tualidade, o discurso Uma das mediadoras do e trabalham a intertex qu s, re to au is do s do a escrita na literatur discutir o processo da ria. indireto livre e a memó

O papel da Literatura

na vida ço que as palavras têm pa es o e br So a “Literatura, bações de Mariana tam , Trevisan declarou que O Centro de Conven um da ca de ia es po ão da vida. O material ntro Literário sobre ente, é uma continuaç bém recebeu o Enco am sic ach Ma da Du escritor, indepenos palestrantes re é uma vivência do mp se contemporânea, com uto br ar olh não”. Quanto ao papel s trouxeram um novo mente de ser ficção ou do e Sérgio Alcides. Ele nte de da na ia es po que se trata s de hoje. “A tor, Urariano ressaltou cri es do sobre a poesia nos dia l cia so to a, mundo, e que deve ma de intensificar a vid compromisso com o m mais é do que uma for “u de . es cid ro, as sombras”. dela”, afirmou Al revelar o que está escu re mar uma postura diante mp se da poesia, u que nenhuma poesia as letras e indo além do an Duda Machado ressalto ass rp Pe única estões ligadas aos outra, pois cada uma é também abordaram qu s re pode ser traduzida em to au os do a dos Sobre a relação do tem isan luta pelos direitos ev Tr s. no ma hu os e se traduz por si só. eit liga, a dir ditadura, por destacou: “Tudo se inter ; e Urariano, contra a ais xu sse Festival e o Encontro, mo ho po s que iano, que está em um tem nativa. São dois autore poesia transita no cotid meio da imprensa alter em ras usam as palav ação política forte e totalmente diverso”. atu têm foram abordados nas defesa das minorias. Outros temas também mo Subjeco ia, or rad dos dois autores cu la pe s damental a presença fun “É atividades promovida mo co na Escrita, que teve humanos. Estamos pretividade Narrativa: O Eu são ativistas de direitos e qu Lio; sat ka Na r e Marta Maia, dina e Osca danças no País”, descrev mu de convidados Cremilda Me do an cis de ão ltural, com a participaç atura. teratura e Diversidade Cu du- curadora de Liter Tra a; ch Ro o str Ca de r za Ivan Marques e João Ce ão de criação Formal e Adaptaç ção de Poesia Antiga: Re Malta, os convidados André Padrões Métricos, com lo Tápia. Érico Nogueira e Marce

Poesia

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Foto: Lincon Zarbietti

Foto: Isadora Faria

Musicalidade diversa A programação musical do Festival priorizou a diversidade, intercalando conceitos de clássico e popular. A novidade da edição 2013 ficou com o ciclo de concertos e recitais, que proporcionou uma gama variada de formação instrumental, gêneros e períodos históricos. O objetivo foi mostrar ao público novas percepções e possibilidades sonoras. A seleção de artistas clássicos apresentou outros horizontes culturais, agregando conhecimento aos espectadores. Um dos destaques foi o duo de piano preparado, uma rara

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apresentação nos palcos brasileiros. Catarina Domenici e Joana de Holanda executaram Sonatas e Interlúdios, de John Cage (1912 - 1992), um dos artistas mais influentes do século XX. A técnica consiste em interferências no instrumento feitas com parafusos, materiais de borracha e de plástico. O resultado foi a emissão de sons de percussão, como sinos, tambores, chocalho, além de alteração da altura do timbre e das notas. No espetáculo: rápido e lento, pianíssimo e forte, cheio e vazio, som com silêncio, a pianista Catari-

na Domenici elogiou o espaço que a música contemporânea ocupou na programação. “É emocionante ver a casa lotada em um concerto de John Cage, com um público que não é especializado. Este é o nosso objetivo: fazer música para o público em geral. Música é para todo mundo.” Destacou-se também o carisma de Igor Levy e Vanja Ferreira que formam o duo de flauta e harpa, respectivamente, um dos mais antigos da história da música ocidental. Instrumentos que, embora diferentes, combinam seus timbres em determinados

registros.A apresentação foi aplaudida de pé, e o porte e a beleza plástica da harpa de pedais encantaram o público. Outra surpresa para o público foi o Trio Capitu, formado por três mulheres instrumentistas, que fazem parte da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Sofia Ceccato (flauta e flautim), Débora Nascimento (fagote) e Janaína Perotto (oboé) presentaram um repertório com composições dos períodos barroco, clássico, contemporâneo, além de música popular brasileira. “Procuramos peças de épocas que contem-

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Foto: Naty Tôrres

Foto: Carol Teixeira

Festival mescla música popular com ciclo de concertos e recitais, apresentando ao público novas possibilidades sonoras Fernanda Matias

plam nossa formação. Nosso objetivo é mostrar que linguagens diferentes podem ocupar o mesmo palco”, apontou Janaína. Segundo um dos curadores de Música, César Buscacio, a programação trouxe em 2013 relações de músicos que colaboraram com a criação do Festival de Inverno em Ouro Preto na década de 1960. É o caso do duo formado pela pianista Berenice Menegale e pelo barítono Eládio Pérez-Gonzalez. Diretora da Fundação de Educação Artística, de Belo Horizonte, Berenice foi uma das responsáveis pela criação do evento

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e coordenou a área de música em sua primeira edição, em 1967, até o ano de 1986. O paraguaio Eládio, que vive no Brasil, começou a sua história no evento em 1970 e, desde então, contribui para o enfoque na música do século XX e nos compositores latino-americanos. Também curador de música do Festival, o professor da Universidade Federal de Ouro Preto Guilherme Paoliello contou que o programa do espetáculo apresentado por Menegale e Pérez-Gonzalez, batizado de “O Compositor e a Canção Folcló-

rica”, reflete espaços diversos, uma vez que o concerto tem canções de vários países. Sucesso de crítica e de público A participação do público surpreendeu até os curadores. “Tendo já trabalhado na curadoria de diversos festivais, este foi o que percebemos uma presença expressiva do público. Na maioria dos recitais, houve filas na entrada do Teatro e a casa esteve quase sempre lotada”, comemorou o professor César Buscacio, que também afirmou que, pelo repertório, o público teve a oportunidade de con-

tato com uma diversidade enorme de estilos musicais. “Foi o Festival que propôs uma maior abrangência de possibilidades de repertório e conteúdo musical. A resposta do público foi visível, com presença significativa nos recitais, shows, oficinas e palestras.”

Apresentações na Praça Tiradentes, uma marca registrada do Festival de Inverno, também colaboraram para maior visibilidade das atrações musicais. O desejo de tornar a arte acessível a todos também norteou a apresentação da Filarmônica de Minas Gerais. Durante o espetáculo, o >>>>>>>>

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regente Marcos Arakaki garantiu que “esse é o papel social da Filarmônica, poder tocar ao ar livre e dar às pessoas acesso à música clássica.” Do clássico ao popular. Sob a curadoria de Celso Alves, shows de cantores populares cumpriram a tarefa de aproximar os artistas do público. Nomes consagrados fizeram parte da programação, como Jair Rodrigues, que dividiu o palco com os filhos Jairzinho e Luciana Mello, possibilitando um encontro de gerações. A essência da música foi apresentada no projeto Canção Nua, de Oswaldo Montenegro. O artista plural destacou a importância do Festival para a divulgação da cultura e popularização da arte, um evento popular, gratuito e de qualidade. “O Festival não é importante apenas para divulgação, mas para a união dos

artistas de diversas áreas que têm a oportunidade de se encontrar, trocar ideias, sair do isolamento.” Outro grande nome foi Alceu Valença, que se apresentou junto à Orquestra Ouro Preto. Valencianas é composta por quatro atos e, no repertório, constam La Belle de Jour, Tropicana e Coração Bobo. “Estar na minha cidade e ver essa praça cheia de gente para conferir o espetáculo é sinal de que estamos caminhando na direção certa”, comemorou o maestro Rodrigo Toffolo. Saindo do popular brasileiro e indo a outros países, Emmerson Nogueira apresentou sucessos de astros, como Janis Joplin, The Police, Creedence e Queen. As releituras proporcionaram o entendimento de outras perspectivas, atendendo ao tema do Festival, diversificando a

oferta para agradar a todos. A presença de pessoas de vários locais prestigiando os shows favoreceu o contato e novos vínculos. “Conheci aqui pessoas de vários lugares do mundo. O ar cosmopolita da antiga Vila Rica foi evidenciado neste Festival”, ressaltou Thainá Godinho, aluna do curso de Direito da UFOP. O cubano Fernando Ferrer, sobrinho de Ibrahim Ferrer, o lendário músico do Buena Vista Social Club, apresentou cha cha cha, bolero, salsa e merengue. Ferrer interagiu o tempo todo com os espectadores, que, inclusive, foram convidados para dançar no palco. A jovem Luciana Helena, de São Luiz do Maranhão, disse que “a música cubana traz uma sensação ímpar”. Ela veio acompanhada pela amiga Maristhela Rodrigues, que participou do Festival pela segunda vez, e

acrescentou que “a edição 2013 está mais rica, com diversas possibilidades de atrações”. Aline Calixto lembrou sambistas consagrados, como Clara Nunes, Chico Buarque e Beth Carvalho, em sua apresentação. A artista lembrou que atrações gratuitas democratizam a cultura e levam trabalho de qualidade para a população. Assim também pensa a paulista Bruna Pellegrini. “Eventos em lugares públicos proporcionam aos turistas e à população local contato com expressões artísticas que muitas vezes não conhecem’’, disse. O samba também foi o protagonista no show de Paula Lima. “Gosto de estar no palco e desse calor de compartilhar o que estou fazendo. Não sou uma cantora de estúdio. Sou uma cantora do que está acontecendo aqui e agora.”

Aline Calixto lembrou sambistas consagrados, como Clara Nunes, Chico Buarque e Beth Carvalho Foto: Íris Zanetti Foto: Du Tropia

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Foto: Isadora Faria

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Foto: Lincon Zarbietti

Quinta edição dos Diálogos Musicais abordou os acervos da música Fernanda Marques

Em sua quinta edição, o encontro Diálogos Musicais propôs ao Fórum das Artes a temática Acervos Musicais. Segundo o curador de Música, Cesar Buscacio, a escolha do tema se deu pelo fato de Ouro Preto e Mariana serem cidades com importantes acervos musicais. Três palestras compuseram a programação deste ano. Ministrada pelo professor Marcelo Abreu, a primeira palestra do conjunto História e Música: interfaces de pesquisa tratou de questões como presença, sentido, percepção, decodificação da mensagem, crítica, documentação e construção do conhecimento acadêmico sobre a produção musical.

tes compositores e obras do cenário musical. “Pude apresentar não só os principais acervos, mas como eles são formados”, revelou Toni. A palestra Sons que saem do papel: o acervo da Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro foi ministrada pelo músico e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Antônio José Augusto. Ele falou sobre grandes instrumentistas e compositores nacionais e internacionais do século XIX, enfatizando o maestro Anacleto de Medeiros, que marcou a década de 1880 com composições e arranjos próprios.

Anacleto foi fundador da Banda do Corpo Acervos, música, patrimônio e pesquisa foi a fala de Bombeiros em 1896 e muitas de suas compoapresentada pela professora da Universidade de São sições fazem parte do acervo da corporação, onde Paulo (USP) Flávia Toni e foram citados importan- se encontram milhares de partituras carregadas de

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tradições cariocas. Antônio Augusto assinalou que o Fórum das Artes proporciona uma experiência ótima de troca de informações sobre pesquisas e pesquisadores, com base no estudo da música. Ao longo do evento, importantes acervos musicais do Instituto de Estudos Brasileiros foram apresentados. O estudante de Música Ângelo Vieira sempre participou dos encontros e viu, na edição deste ano, uma oportunidade de estudo para sua pesquisa do mestrado. “Além de nos incentivar a experimentar e fazer música, a questão dos acervos musicais é muito interessante. Devemos pesquisar mais e valorizar a música brasileira e os artistas do nosso País”, concluiu.

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TEATRO Composto de singularidades, o tema – que explorava o diverso – contribuiu para que a essência das artes cênicas, o encontro, usufruísse com desenvoltura da proposta da curadoria. Constituídas pelo encontro do físico e do intelectual, as Artes Cênicas abrilhantaram mais uma edição do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2013. Embarcando no tema do evento, a diversidade foi o ponto crucial na programação da curadoria, que contou com dezenas de atrações, entre apresentações de teatro e dança. Do erudito aos traços da commedia dell’ art, o Festival reuniu 46 apresentações de 37 grupos, entre cenas e espetáculos. Além disso, ofereceu seis oficinas e organizou o Fórum das Artes Cênicas – A Criação Artística

Foto: Lincon Zarbietti

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em Processo na Universidade, que contou com três mesas-redondas e sete demonstrações de processo de trabalho. Atrações nacionais de peso, uma peça estrangeira, produções locais e os frutos de pesquisas e estudos cênicos da UFOP deram o tom proposto pelo tema à programação. Segundo o curador de Artes Cênicas, professor Ricardo Gomes, nesta edição procurou-se abrir o leque de gêneros artísticos com mais intensidade. “Convidamos espetáculos que

abordavam alguns temas historicamente ligados à questão da diversidade, grupos e artistas que trabalhavam com a pluralidade cultural e a interculturalidade.” Devido a essa variedade, o evento ainda proporcionou aos espectadores diversas perspectivas sobre a arte. “O Festival foi intenso e rico de estímulos para a reflexão e a criação, que abordaram a cultu-

ra em suas mais diversas acepções. A curadoria de Artes Cênicas também apostou nos grupos independentes, cuja coerência do trabalho continuado afirma a singularidade das suas várias propostas e opções artísticas e existenciais“, completa Gomes.

Foto: Lincon Zarbietti

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Heterogeneidade garantiu às Artes Cênicas diversidade proposta Um passeio pelos espetáculos teatrais

Bruna Fontes

A transversalidade da abordagem dos temas e o interesse pela diversidade cultural também foram característica da Curadoria de Artes Cênicas, que trabalhou com a diversidade que é composta por singularidades. Ilustrando isso, a montagem do ator e diretor francês François Kahn, Viagem à Izu, fez da proximidade sua aliada na hora da interpretação. A intimidade espacial entre espectador e ator permitiu o uso da voz e do corpo com uma sutileza surpreendente, salientando características fundamentais ao minimalismo, como a poética do gesto e da imagem. Apresentado em idioma nacional – o português –, a peça provocou nos brasileiros sensações e emoções acerca de um Japão, não do ponto de vista real, mas fiel à vivência única e singular do ator. Recorrendo à mesma proposta de um espaço cênico inusitado, Os Bem-Intencionados, do grupo Lume de teatro, da Universidade de Campinas (Unicamp), São Paulo, apostou nesse formato para configurar mais dramaticidade à peça. A ideia principal era trazer o público para dentro da cena e servi-lo, literalmente, de tudo que o espetáculo poderia oferecer. O Centro Acadêmico da Escola de Minas (Caem) se transformou em espaço de interação. Mais do que palco, foi lugar em que cena e espectadores se misturaram. Apesar de já ter apresentado em mais de 26 países, o Lume salientou as singularidades de cada apresentação. “A nossa peça é sempre a mesma, mas, ao mesmo tempo, é diferente, porque tem a participação do público”, ressaltou o ator Jesser de Souza. Com base nas especificidades das camadas sociais, em especial a indígena, a Cia. Teatro Balagan, de São Paulo, transcreveu em Recusa uma visão ameríndia, baseada nas relações de encontro, estranhamento, trocas

e negociações estabelecidas entre diversos seres, mundos e cultura diferentes. Narrada e cantada por atores que interpretavam índios, a peça já foi apresentada em autênticas aldeias indígenas em São Paulo. Defronte à realidade que abordava cenicamente, a diretora do espetáculo, Maria Thaís, revelou que “desde que começamos a trabalhar nesse espetáculo, só tivemos a certeza de que os nossos conceitos de cultura, identidade e atuação caíram por terra”. Discutindo o possível lugar da arte e da poesia, em um mundo dominado pelo pragmatismo e pela técnica, a fábula Os Gigantes da Montanha, do grupo da capital mineira Galpão, representou em cena a morte de conceitos retrógrados em prol do renascimento da arte. Sobre o desafio de transformar uma peça erudita em popular, Inês Peixoto, atriz do grupo, comentou que “o grande desafio é conseguir domar, absorver e mesclar tudo o que a rua tem a oferecer. É um trabalho muito bonito para o artista, pegar uma obra erudita e, sem barateá-la, tornála mais acessível para aquele espectador que, muitas vezes, não tem um conhecimento prévio sobre a obra”. Em consonância com o Galpão, o grupo de teatro belo-horizontino, Espanca! baseou-se no debate da arte no âmbito familiar, com ênfase no fazer teatral. Sustentada por três atores em cena, cada qual com sua peculiaridade, O Líquido Tátil abordou embates, conflitos e situações surreais, enlaçados pelos desejos inconscientes que perseguem o homem. O espetáculo foi um resultado do convite do grupo ao diretor e dramaturgo argentino Daniel Veronese, que encaixou perfeitamente a sua técnica aos anseios do Espanca!. “Foi uma forma de dar continuidade ao pensamento, porque encaramos o repertório como um pensamento que

vai se desenvolvendo”, enfatiza o ator do grupo Marcelo Castro, sobre debater o fazer teatral, dentro do próprio teatro. Encontrando na naturalidade o auge do seu espetáculo, a Cia. Luna Lunera, de Belo Horizonte, transpôs, em Prazer, passagens da obra de Clarice Lispector, tratando com simplicidade fatos e diálogos. Reforçando a ideia do singelo, o grupo utilizou da memória olfativa como importante elemento para a construção da narrativa, já que os pratos servidos no espetáculo – pão de queijo e sopa – eram feitos em cena. Dotados de especificidades e personalidade única, os personagens levaram ao palco inquietações, angústias e impasses cotidianos e o distanciamento subsequente que acarreta nas relações pessoais. Por entrelinhas, era possível compreender a mensagem proposta pelo espetáculo: deve haver coragem para buscar a alegria diariamente nas pequenas coisas. Em cada apresentação singular, um emaranhado de diferentes pontos de vista, montagens, pesquisas e valores teceram uma trama, fazendo com que cada espetáculo apresentasse uma particularidade, pautando o trabalho pelo aprofundamento das questões, com intuito de instigar e sensibilizar os espectadores que participaram do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana. Para a próxima edição, Ricardo Gomes revela que “esperamos continuar o processo de crescimento qualitativo que vem ocorrendo nos últimos anos, na direção do aprofundamento do debate sobre o papel político-cultural do Festival nas cidades de Ouro Preto e Mariana, além de reforçar o aspecto de pesquisa e formação, que deve caracterizar um festival de cultura produzido por uma universidade pública”.

Foto: Naty Tôrres

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DANÇA Bruna Fontes

humanos. Já em A sagração da primavera, foi possível observar a disparidade das cenas entre as duas montagens do grupo. O enredo podia ser interpretado como um ciclo que consumia as minorias: a fragilidade, a delicadeza e o individualismo esvaíam-se em prol da coletividade. O ponto de interseção entre ambas as montagens se deu na clareza com a qual os movimentos — que tendiam à horizontalidade e às quedas —, desenharam as metáforas a serem lidas, de modo atual, pelo público. Fora isso, viu-se, ainda, outro traço em comum nas apresentações: a música dissonante, rítmica e assimétrica de Stravinsky, interpretada por quatro pianos, que davam o tom ideal à co-

reografia, em consonância com a percussão dos corpos em queda e com os sopros das respirações. “Apesar da evolução, ainda somos primitivos”, aponta Leonardo Ramos, coreógrafo do Ballet de Londrina. Elencando a dança a suas possíveis compreensões na atualidade, Ramos advertiu que a mulher ainda sofre opressão. “É uma questão de gênero, e isso se aplica no modo cruel como continuamos a ser primitivos.” Do clássico ao contemporâneo, Tudo que se torna um levou aos palcos as experiências pessoais, afetivas e físicas, vividas dentro e fora da Cia. de Dança Palácio das Artes de Belo Horizonte ao longo dos seus 40 anos. Engajados em evidenciar a metamorfose do grupo, adquirida ao longo de sua história, dança, música e poesia transitaram por diversas vertentes artísticas. A multiplicidade por meio

Fotos: Íris Zanetti

Amor, vaidade, ciúmes e crueldade. Sentimentos humanos transfiguraram-se em coreografias marcantes e pungentes na apresentação do Ballet de Londrina. O espetáculo Petrouchka narrou as peripécias de três bonecos: a bailarina, o louro e o palhaço, que carrega o nome da obra. De forma sutil, abordou o triângulo amoroso existente entre as personagens, expondo de forma lúdica e colorida os dramas

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Contemporaneidade expressa em coreografias pungentes Do protesto à ruptura dos conceitos do ballet clássico, as apresentações de dança contemporânea proporcionaram uma nova visão a respeito de experimentações e inovações sobre a arte. do confronto, do trânsito e do diálogo entre diferentes gerações também foi fortemente destacada, criando um enlace entre o espetáculo e a temática do Festival. As coreografias, que abordavam a passagem do tempo, a celebração, o luto, a memória e a transição eram sempre acompanhados por uma trilha sonora que remetia à relação com o tempo cronológico, transcrevendo-se de canções minimalistas até as de conhecimento público, como o clássico de Frank Sinatra, Strangers In The Night. Um convite à exploração dos sentidos e da imaginação, o espetáculo Desassossego em branco apresentou uma nova forma de percepção da dança, em um formato sensível e singular. Sons, luzes e diálogos intensificaram toda a experiência do sentir. Partindo da premissa do grupo Projeto Singular em estudar as interferências da baixa visão nessa arte, a pesquisa sobre dança destinada às pessoas com e sem deficiência visual culminou no es-

petáculo, gerando a oportunidade de vivenciar prontamente o tema abordado pela apresentação. As privações, o excesso de cuidados, a lembrança viva ou remota no imaginário e a capacidade de superação e atribuição de novos sentidos foram se revelando na montagem, aludindo ao preconceito, que muitas vezes está intrínseco aos olhos de quem vê. A partir do conhecimento, do entendimento e da reflexão acerca do universo de uma pessoa com baixa visão, as coreografias sugeriam uma única vertente: Como você enxerga o mundo?

Fotos: Naty Tôrres

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Fronteiras Exposições fotográficas e mostras de filmes compuseram a programação da curadoria de Artes Visuais Fernanda Marques

Buscando aproximar as fronteiras, reais e imaginárias, entre o cinema e outras áreas, como a música, a internet e a televisão, as atividades que integraram a Curadoria de Artes Visuais foram direcionadas para oferecer uma seleção de mostras diversificadas ao público do Festival de Inverno. A opção por apresentar uma mostra de filmes raros foi atrelada ao tema do Festival, que teve como eixo principal o conceito da diversidade.“Trabalhar nessa linha dentro do audiovisual foi algo fácil. Afinal, falar de cinema é mencionar inúmeras escolas, gêneros, críticas, recepções e diálogos possíveis. Nosso objetivo foi trazer ao público um cinema de qualidade que poderia ser de difícil acesso em outras situações”, disse um dos curadores de Artes Visuais, Juan Carlos Timótheo.

Apresentando curtas, experimentações, animações e filmes que mostraram a trajetória do erotismo nos cinemas norte-americano e europeu, o cineasta Rodrigo Gerace trouxe figuras do cinema exibicionista e voyeurista, realçando filmes de Eadweard Muybridge, Auguste e Louis Lumière, Thomas Edison, dentre outros. Enquanto a programação passava na tela, Ge-

riza ações triviais. O pornô é enlouquecedor, é um binóculo do binóculo. Ele tenta sempre estar antenado com os níveis de obscenidade da época em que é feito para se reinventar e transgredir, porque ele só tem sentido na transgressão”, concluiu. Ao som de grandes clássicos do cinema, a exposição Cine signo: um lugar de memórias (áudio) visuais, do artista Thiago Pena, chamou a atenção de quem passava pelo Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), em Mariana. A instalação contou com a exposição de cartazes de filmes e a participação do artista, que interpretou cenas de alguns clássicos do cinema por meio de desenhos feitos na hora.

Nosso objetivo foi trazer ao público um cinema de qualidade que poderia ser de difícil acesso em outras situações.

A mostra Sexo, erotismo e experimentalismo no cinema mudo possibilitou a discussão sobre o erotismo em uma contemporaneidade saturada.

race situou a plateia no tempo e nos contextos sociais, políticos e econômicos das exibições. Segundo ele, o cinema é a arte subversiva por excelência, na qual tudo pode acontecer. “O cinema espetacula-

Foto: Naty Tôrres

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O aluno do curso de Cinema do Centro Universitário UNA, em Belo Horizone, Rodrigo Faleiro, ressaltou a importância das produções audiovisuais na integração da programação do Festival. “A linguagem audiovisual torna mais atrativa a exposição. A reu-

Foto: Naty Tôrres

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do Visual

Foto: Ricardo Maia

nião de imagem e som nos permite diversas interpretações, cada um traduz o que está sendo mostrado de acordo com sua vivência. Tratar de temas polêmicos nessa mostra traz para o Festival outra cara, uma dinâmica de trabalho sem preconceito e preocupado em explorar as diferentes formas de expressão.” Diversidade de olhares. Com a finalidade de ultrapassar barreiras, a Curadoria de Artes Visuais abrangeu exposições que buscaram estabelecer diálogos e discussões sobre a diversidade. Dentre as atividades que o público pôde contemplar, Ouro Preto recebeu os rabiscos, as cores e as linhas da exposição Murus, que tratou principalmente da questão das fronteiras e dos muros de todas as espécies. O lançamento da instalação contou com a presença do Coletivo Olho de Vidro, formado pelos artistas responsáveis pela exposição: os fotógrafos Alexandre Martins, Antônio Laia, Eduardo Tropia e Heber Bezerra, e o poeta Guilherme Mansur. Desde a criação do Coletivo, em 2007, o grupo apresentou uma exposição no Festival. Para desenvolver o tema deste ano, Guilherme Mansur estabeleceu uma vertente a ser trabalhada pelos

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Foto: Lincon Zarbietti

fotógrafos, dando liberdade às criações individuais. A cidade de Mariana recebeu a instalação interativa ArsJoker, que faz parte do trabalho de mestrado da artista plástica Danielle Carvalho e busca mesclar pintura e arte digital. O trabalho, exposto no ICSA, teve como objetivo mostrar a dualidade dos indivíduos. Para a artista, “a imagem nunca é única, e a exposição permite explorar em cada pessoa o que se aproxima ou o que se distancia de suas características”. O também curador de Artes Visuais, Adriano Medeiros, esteve presente na abertura da instalação e falou que “essa é uma oportunidade de aspirar cultura e pensar a arte”. A diversidade de olhares foi tema da exposição Mutatis Mutandis, de Diogo Cabral, Kaio Barreto e Thiago Almeida. Os artistas procuraram mostrar formas diferentes de ver o que todo mundo vê igual. Diogo Cabral explicou que Mutatis Mutandis quer dizer “mudando o que tem que ser mudado”, e disse, ainda, que “o principal é mostrar a pluralidade que existe no Brasil e as diversas formas de enxergá-la, sendo em cores, enquadramento e outras técnicas de fotografia”. Utilizando a fotografia na busca pelo inusitado, a instalação

Foto: Naty Tôrres

buscou a possibilidade de rebuscar o olhar, criar novos diálogos e uma nova concepção, multifacetada e complexa dos sujeitos sociais e seus meios. A exposição mostrou cores e poéticas que fogem do senso comum, retratando o nordeste, a Amazônia e até mesmo Ouro Preto, com outros olhares e cores. Jasmin Moreira, 15 anos, mora em Ouro Preto e é apaixonada por fotografia. “As cores expostas me deram a sensação de participar da foto. Você consegue senti-las, como se estivesse presente no momento em que o fotógrafo deu o clique. Fiquei encantada pela proposta e pelo trabalho dos artistas.” Juan Carlos afirmou que o público recebido durante o Festival pela curadoria foi maior que o esperado e que “foi possível traçar alguns possíveis caminhos para atrair mais público, sem perder a qualidade das mostras”. O curador afirmou ainda que o desafio para os próximos anos é “não se perder no meio de tantas possibilidades, mas, caso haja a perda entre tantos conceitos, que ela seja terreno de novas ideias, novos diálogos e novas artes, tanto no modo de fazer como no modo de ser”, finalizou.

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Foto: Naty Tôrres

Foto: Lincon Zarbietti

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Foto: Naty Tôrres

Festival de Inverno • Ouro Preto e Mariana • Fórum das Artes 2013 Foto: Lincon Zarbietti

Foto: Lincon Zarbietti


Foto: Naty Tôrres

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Foto: Lincon Zarbietti

Foto: Lincon Zarbietti

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Diversidade sob o viés do patrimônio Foto: Isadora Faria

Foto: Ricardo Maia

Foto: Isadora Faria

Curadoria explora a temática do Festival em uma programação variada, composta por oficinas, debates, apresentações de trabalho e intervenção Ana Paula Martins

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Quer um lugar mais adequado para se discutir o tema do que uma Cidade Patrimônio Cultural da Humanidade? Ouro Preto é o cenário ideal para os trabalhos da Curadoria de Patrimônio do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana. Oficinas, seminários e intervenção audiovisual trabalharam a temática da diversidade para um público vindo de vários lugares. “Falar sobre Patrimônio em Ouro Preto chama muito mais a atenção do espectador de fora do que de quem realmente está na cidade”, assinala a curadora Simone Fernandes.

oficinas com temas variados: patrimônio imóvel, gastronomia, cultura, educação patrimonial, patrimônio natural e o ser humano como patrimônio, dentre outras abordagens. As oficinas foram Histórias invisíveis – A Ouro Preto que ninguém conhece; Olhares e percepções: a fotografia como instrumento da educação ambiental; Casas, quintais e memórias: uma incursão ao espaço do vivido e da diversidade; Trabalho colaborativo e em rede: diferentes e convergentes; Gastronomia de quintal — do tradicional ao contemporâneo; e Corpo, afeto e memória: lugares inscritos no cotidiano.

A curadoria é de responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan – Ouro Preto). Foram promovidas seis

“O destaque maior foi a participação e o envolvimento do público. Foram propostas seis oficinas, e três tiveram as inscrições encerradas rapi-

damente. No total, foram 97 inscritos, com média de 12 participantes por dia em cada oficina. Isso também aponta para um lado positivo do caminho que estamos traçando”, descreve a curadora. O bancário Luiz Carlos de Macedo, 55, do Rio de Janeiro, veio curtir o Festival de Inverno 2013 e passear por Ouro Preto e participou da oficina “Histórias invisíveis”, promovida pelo blog BomSerá. Macedo se interessou pela oficina para tentar descobrir o lado diferente ou invisível da cidade. “Já fiz o turismo tradicional em outras visitas. É ótimo criar um novo olhar e conhecer os mistérios ouropretanos”, afirma. A afetividade também foi abordada nas atividades. A oficina Corpo, afeto e memória: lugares inscri-

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tos no cotidiano – ministrada pela psicóloga Cláudia Itaborahy e pela jornalista Natália Goulart – teve como objetivo trabalhar a diversidade pelo olhar da psicanálise e da arte, relacionando o corpo, o afeto e a memória, tendo a pessoa como um patrimônio afetivo, levando em consideração a pluralidade e a história particular de cada um. A oficina também é um dos resultados do programa Sentidos Urbanos, uma parceria entre UFOP, Iphan, Faop e Secretaria de Educação de Ouro Preto, que trabalha com comunidade e patrimônio. Mônica dos Anjos, professora do 2° ano da Escola Municipal Professora Juventina Drummond, adorou a oficina: “o trabalho é dinâmico e a produção é individual, fazendo da história de cada um ser patrimônio também”. Miragem - Uma das atrações da Curadoria de Patrimônio foi a intervenção urbana audiovisual Miragem-diversifica, de ver se fica, para (ha)ver cidade, resultado do projeto Miragens que envolve adolescentes de escolas públicas de Ouro Preto. As atividades para a montagem das intervenções foram realizadas na Casa da Baronesa, e as intervenções também aconteceram em Ouro Preto, na Praça Tiradentes, no adro da Igreja Nossa Senhora do Carmo e na praça Barão do Rio Branco (praça da Prefeitura). Desenvolvida pelos tutores Douglas Aparecido, Filipe Tavares e Thaiz Cantasini em conjunto com sete adolescentes, de 14 a 18 anos, a ação visou a criar uma série de pílulas audiovisuais que trabalharam as impressões e os anseios de transformação desses jovens para o espaço público urbano. “Miragem foi a possibilidade de sonhar e construir uma Ouro Preto desejada, principalmente pelos adolescentes integrantes do projeto. Uma imersão criativa, propositiva e construtiva, na qual todos os envolvidos se dispuseram a pensar e a projetar uma cidade a partir do ideal de cada um. O propósito maior foi percebermos, juntos, que há a possibilidade de sonhar e, por meio da ação-reflexão coletiva, tornar os sonhos reais”, apontou o videomaker Douglas Aparecido.

ProExt - Ações extensionistas e preservação do patrimônio cultural foram o mote do Encontro ProExt – Programa de Extensão Universitária na Preservação do Patrimônio Cultural – Práticas e Reflexões. A iniciativa visou a aproximar coordenadores, professores, estudantes, representantes da Rede Casas do Patrimônio e outros agentes interessados nos temas extensão universitária e patrimônio cultural que participaram do ProExt nos últimos quatro anos, além de avaliar o desenvolvimento da parceria entre Iphan, Ministério da Educação e Instituições de Ensino Superior (IES). O evento contou com 78 inscritos, com a média de 50 participantes por dia de atividade. Em pauta, além da criação de um documento com propostas para o Iphan e para o MEC, foi avaliada a parceria com o Ministério da Educação, com as IES e as estratégias para o acompanhamento e a avaliação das ações de extensão universitária. Para o coordenador geral do Festival, Rogério Santos de Oliveira, a importância de sediar esse encontro em meio à programação do Festival “é a possibilidade de agregar reflexões, que é o ponto central do Fórum das Artes. Por ser um programa nacional, no qual muitas universidades concorrem, a discussão desse tema é essencial e faz do Fórum das Artes o centro catalisador dessas informações para todo o Brasil”. Sônia Rampin, coordenadora de Educação Patrimonial do Iphan de Brasília, acredita que Ouro Preto é um bom lugar para debates sobre patrimônio. “O patrimônio é o tema que está na rua. Aqui, conseguimos focar ainda mais nisso, e com o Festival de Inverno percebemos o diferente uso do espaço em diversos lugares da cidade.” A partir de trabalhos apresentados por diversas instituições de ensino do País, foram debatidos as práticas, os problemas e os desafios. Os resultados das discussões foram fechados em um documento a ser encaminhado ao Ministério da Educação e será disponibilizado para consulta de toda a comunidade acadêmica.

Foto: Isadora Faria

Foto: Ricardo Maia

Minas Território da Cultura marca presença no Festival Durante o Festival, também foi realizado um projeto integrado ao programa do governo estadual Minas Território da Cultura, iniciativa que visa a descentralizar e a regionalizar as ações culturais nos municípios mineiros. A apresentação do programa, tendo como base a sua importância na disseminação cultural no Estado, foi feita pela secretária de Cultura de Minas Gerais, Eliane Parreiras, em evento no Centro de Artes e Convenções da UFOP. “Valorizar e divulgar a diversidade da cultura mineira que é riquíssima, promover o desenvolvimento de macro e microrregiões por meio de ações culturais e oferecer cursos de capacitação e fóruns de discussão são os principais objetivos desse programa”, esclareceu. Eliane Parreiras ainda elogiou a organização do Festival de Inverno, destacando a importância dos festivais nas cidades mineiras como relevante meio de promoção da diversidade cultural.“A identidade e a singularidade da cultura em Minas é o pilar para o desenvolvimento e a integração das ações governamentais voltadas para a promoção da valorização social e humana nas regiões”, finalizou. O pró-reitor de Extensão da UFOP e coordenador geral do Festival, Rogério Santos de Oliveira, assinalou que a parceria entre o “Minas Território da Cultura” e o Festival de Inverno é fundamental por fazer parte de uma rede de estímulo à integração cultural. Além da conferência com a secretária de Estado de Cultura, a integração entre o Festival de Inverno e o Minas Território da Cultura apresentou duas palestras: Economia criativa e turismo, com Fátima Tropia; e A diversidade cultural e o desenvolvimento das cidades, ministrada pelo professor da PUC Minas e da Uemg, José Márcio Barros.

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I

Encontro UFOP com a Escola no Fórum das Artes

Encontros possibilitam a discussão sobre as demandas da área e a busca de novas diretrizes.

Fotos: Osmar Lopes

Roberta Nunes

Olhares atentos, papel e caneta na mão. Aqueles que ensinam, desta vez ficaram sentados, ouvindo e participando dos debates, com muitas expectativas. Assim, mais de 150 profissionais da educação básica da região dos Inconfidentes participaram do I Encontro UFOP com a Escola, uma programação do Fórum das Artes 2013. Reunir professores, diretores, pedagogos e secretários de Educação com a equipe da Universidade foi crucial para promover um diálogo sobre as várias demandas da área. Em tempos diversos, o Festival de Inverno incentivou a ação de estabelecer objetivos, reconhecer deficiências e lutar por uma educação de qualidade. Os participantes se identificaram com a palestra sobre violência e indisciplina em sala de aula, conheceram os objetivos do programa de extensão UFOP com a Escola e, pela primeira vez, fizeram parte de uma

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mesa de debate envolvendo a comunidade educacional de Acaiaca, Mariana, Ouro Preto, Itabirito e Diogo de Vasconcelos. A diretora da Escola Estadual Professora Daura de Carvalho Neto, de Ouro Preto, Silvânia Borges Reis, acredita que essa formação pode auxiliar na adoção de novas posturas. “É uma parceria benéfica para professores e alunos. A palestra sobre violência e indisciplina, por exemplo, me fez repensar o cotidiano. Sou pedagoga e sei que a responsabilidade não é somente nossa, mas precisamos mudar algumas questões que dependem de nós. Quero levar isso para os outros professores e sei que essas informações vão nos auxiliar”, afirmou. A necessidade de qualificação diante das novas demandas do século XXI também foi comentada pelos profissionais. A professora Cida Satto, da equipe UFOP com a Escola, definiu a relevância do encontro. “Agora temos a

intenção de acompanhar o retorno dessas discussões no dia a dia das escolas, a partir dos cursos realizados. Mapeamos, identificando se as ações de fato são implantadas e analisamos como podemos contribuir para a prática pedagógica do professor. O encontro também se tornou um espaço de interlocução. Nessa troca de experiências, podemos pensar em futuros projetos”, finalizou. O Programa - O UFOP com a Escola, criado em 2008, foi considerado um dos 50 melhores programas extensionistas do Brasil, no edital Proext 2014, do Ministério da Educação. A iniciativa promove a formação continuada dos professores da rede pública, com intuito de possibilitar a análise crítica da prática, a pesquisa de métodos alternativos, o aprofundamento em assuntos específicos e a elaboração de materiais de apoio.

permanentes, que ocorrem mensalmente, entre a equipe e as escolas, são levantados os temas e, em seguida, promovidos os cursos. Em 2013, o tema desenvolvido é o de educação inclusiva. O curso, que possui carga horária de 56 horas, recebe apoio do Núcleo de Educação Inclusiva (NEI) da UFOP e é dividido em seis módulos: o que é a deficiência; as políticas públicas no Brasil; a aprendizagem e funcionamento do cérebro; as deficiências visuais, auditivas e mentais; a psicomocidade; e as salas de recursos. Os números que norteiam o programa mostram seu impacto em âmbito regional. Em 2011 e 2012, foram atendidas 1394 pessoas, dentre elas, 624 alunos, 514 professores e 256 pedagogos. Em 2013, os cursos atingiram um público de cerca de 500 professores, pedagogos, diretores e estudantes.

Com base nas necessidades trazidas pelos educadores nas mesas

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Festival com a Escola Com o cunho social e de responsabilidade com a comunidade, o Festival com a Escola é uma das ações do programa de extensão UFOP com a Escola, realizado dentro da programação do Festival de Inverno. O projeto leva atrações culturais para crianças e jovens nas escolas públicas de Ouro Preto, Mariana e região dos Inconfidentes e atingiu, nesta edição 2013, cerca de 500 pessoas. Oficinas de fotografia, mágica, iniciação musical, corpo e movimento, palhaçaria e bufonaria, dança, circo e vídeo foram oferecidas em quatro escolas públicas: Estadual Marília de Dirceu e Municipal Professora Juventina Drumond, em Ouro Preto; Estadual Santa Godoy e Municipal Wilson Pimenta, em Mariana. As demais localidades também puderam participar do Festival por meio da Rua de Lazer, outra ponte que possibilitou o acesso às atividades. Essa iniciativa proporcionou, a aproximadamente 140 crianças, a valorização do lazer e a construção de uma cultura de participação nos espaços escolares durante o período de férias. O distrito de Miguel Burnier, a 40 km de Ouro Preto, foi um dos locais que recebeu a Rua de Lazer. Cerca de 80 pessoas participaram das atividades. Marco Antônio de Almeida Costa levou a família e ficou satisfeito: “As oficinas são de extrema importância, pois é uma opção de lazer para as crianças, já que o distrito está um pouco afastado da sede.

A criançada adora, eles descobrem brincadeiras antigas porque, atualmente, ficam muito no computador. Ao participar, estou revivendo minha infância e deixando um pouco do que vivi para meu filho”, afirmou. Quem nunca foi ao Festival teve a oportunidade de participar por meio do Festival com a Escola. “Brinquei de bambolê, pulei corda e participei de todas as brincadeiras. Achei tudo muito interessante, principalmente porque posso ter isso perto da minha casa”, disse Natasha Aparecida de Araujo, de 11 anos. A satisfação em participar do Festival atingiu não apenas a plateia, mas também os artistas. O estudante de Educação Física, Felipe Valério assumiu o papel do palhaço que faz mágicas, incentiva a leitura e tira gargalhadas de crianças e adultos. “Se tem esse retorno com a participação e alegria, significa que tudo vale a pena. A gente pode ter técnicas, ferramentas e o que for, mas o riso puro é o que tem mais valor, e é isso que vejo nessas crianças”, contou. Para o oficineiro e professor do Centro Desportivo da UFOP (Cedufop), Jairo Antônio Paixão, “é muito válido trazer uma forma de lazer para perto das crianças e trabalhar os interesses culturais, físicos, artísticos e intelectuais, visando explorar e proporcionar a elas o máximo de experiências.”

Fotos: Íris Zanetti

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Oficinas para todos os gostos, idades e perfis Atividades tiveram como essência a democratização do conhecimento

Rolder Wangler

Disseminar cultura, educação e atender as expectativas de um público formado por mais de 700 pessoas. Esses foram os principais objetivos das 47 oficinas oferecidas durante os 24 dias do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2013. A ideia inicial era abranger áreas como cinema, teatro, comunicação, literatura, música, patrimônio e infantojuvenil; porém, mais do que trazer os interessados a um ambiente onde pudessem discutir, as oficinas apostaram em assuntos relacionados à temática geral do evento: Em Tempos Diversos. Mesmo buscando inovar a cada ano, uma característica sempre acompanha as oficinas: elas têm como essência a democratização do conhecimento, possibilitando o acesso de pessoas que não têm contato com esse tipo de atividade. Essa constatação foi feita pela professora e oficineira Simone Homem de Melo, da casa Guilherme de Almeida, de São Paulo. Para ela, a oficina é uma forma de se conectar ainda mais com a sociedade. “É uma maneira de a Universidade, por meio de uma programação de debates, lançar questões que ficam limitadas dentro da academia, de uma forma mais ampla.” A Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), responsável pela Curadoria de Artes Plásticas, abordou as relações construídas como forma de apregoar o diverso. Para a curadora Gabriela Rangel, essa aproximação do cidadão com a vida e a obra do artista permite descobrir também o artista que há em nós. “Preparamos as oficinas por meio de um recorte da diversidade presente na arte contem-

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porânea, abordando o diverso que há na produção, no pensamento, no processo de criação, nas formas de atuação e de inserção da arte hoje”, salientou. Uma das áreas mais marcantes e visadas do Festival, as oficinas da curadoria de Patrimônio Cultural foram muito bem recebidas pelo público e pela cidade. As atividades propuseram explorar a diversidade de olhares nas duas cidades-sede do Festival, devido à abrangência da atuação do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Cultural (Iphan), responsável pela coordenação da curadoria. As seis atividades oferecidas foram avaliadas positivamente. “Pensamos em oficinas que tratassem do tema patrimônio em suas categorias materiais e imateriais, culturais e naturais, educativas e inspiradoras de um reposicionamento diante de sua importância para o contexto nacional e mundial. Todas foram muito bem sucedidas”, afirmou a curadora Simone Fernandes. Com oito oficinas na programação, a curadoria de Literatura abordou desde a desinibição textual e escrita criativa, passando pelo mundo dos cartuns e histórias em quadrinhos, até o misterioso Palimpsesto. De narrativas embasadas em Shakespeare a autores como Franz Kafka, João Guimarães Rosa, Wilhelm Busche e Gregório de Matos, o Festival mostrou todo seu ecletismo. Essa diversidade captou não apenas os desejos dos curadores, mas também a percepção do público, aluna do curso de Letras da UFOP Juraci da Silva Carmo.“Participar de

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uma oficina é estar aberto a perceber coisas fora do seu cotidiano. Essa experiência que o Festival de Inverno me proporciona é uma forma de disseminar a cultura e buscar outras visões de mundo”, explicou. Para Alexandre Agnolon, curador de Literatura, o objetivo foi criar uma relação orgânica entre as oficinas e o tema, visto que o caráter diverso e variado da produção literária e artística contemporânea tem sido marca permanente da nossa cultura. A intenção das propostas era que o participante saísse com a sensação de ter participado de um grande diálogo, em que ambos os lados pudessem trocar ensinamentos. “O desempenho foi muito acima do esperado. Contamos com grande adesão, tanto das pessoas da comunidade de Ouro Preto e Mariana como dos alunos da Universidade, sobretudo da área das Humanidades”, comemorou. Nas Artes Visuais, foram oferecidas quatro oficinas que possibilitaram aos entusiastas da área a inserção em segmentos do audiovisual por meio do contato com os profissionais presentes. A curadoria buscou oficinas que fizessem uma junção entre as etapas constitutivas do processo de construção audiovisual e, nesse sentido, foram contempladas a pré-produção, a produção e a pós-produção. O filósofo Paulo Dias, de Curitiba, que está fazendo

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especialização em cinema, participou de uma oficina e acredita na importância da relação extraclasse. “Penso que é uma possibilidade de não só reproduzir conhecimento em sala de aula, mas de os alunos construírem o conhecimento com base nas experiências com o audiovisual.” Em parceria com o Centro de Referência Audiovisual de Minas Gerais, a curadoria ainda ofereceu uma atividade voltada para a preservação e a restauração de materiais fílmicos. Nela foi destacada a importância das histórias contadas pelo cinema. Para a oficineira Soraia Nunes Nogueira, esse contato promove uma imersão na defesa da memória audiovisual. “É uma oportunidade ótima de levar o público a conhecer o que é preservação e contar mais sobre como mexer com a película. Hoje é tudo digital, e o contato com outros materiais é muito raro.”

26 pessoas na organização dos eventos distribuídos por Ouro Preto e Mariana. Somando as parcerias com o Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) e o Trem da Vale, foram oferecidas 1.053 vagas, com um índice de 75% de aproveitamento. O Festival de Inverno encerrou a edição com a sensação de dever cumprido ao compartilhar conhecimentos. Para 2014, leva a percepção de tendências que podem virar novos temas e abordagens.

Algumas oficinas superaram as expectativas e conseguiram mais um dia de duração. Para Adriano Medeiros, curador de Artes Visuais, tanto qualitativa como quantitativamente, todas as oficinas foram muito bem recebidas pelo público. “Nosso desejo foi não só despertar novos talentos, mas aprimorar alguns já em desenvolvimento e também propor novas possibilidades, espaços, liberdade de criação e promoção de relações co criativas”, salientou. A Curadoria de Oficinas, coordenada pela pedagoga Tereza Gabarra, contou com

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Fotos: Isadora Faria

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Conexão agita as madrugadas do Festival

A programação de shows esquentou as madrugadas do público, levando diversidade de ritmos e gêneros musicais para agradar diferentes perfis, do rock ao pagode, passando pelo reggae.

Brunello Amorim

Famoso pelas festas que atravessam a madrugada, o tradicional Centro Acadêmico da Escola de Minas (Caem), localizado na Praça Tiradentes, marcou presença na programação do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2013. Dos dias 11 a 27 de julho, de quinta-feira a sábado, o Conexão Festival recebeu 12 bandas que esquentaram as madrugadas do público, levando uma diversidade de ritmos e gêneros musicais para agradar diferentes perfis, do rock ao pagode, passando pelo reggae. Alguns dos destaques foram os shows do roqueiro Marcelo Nova, do cantor pop Ratto, da banda goiana Pedra Letícia e do reggae da banda Planta e Raiz. Também se apresentaram bandas da região, como a Hocus Pocus, famoso cover da banda The Beatles e Os Traias. Durante os dias de Festival, mais de 4 mil pessoas curtiram as madrugadas do Caem. O maior público esteve presente no show da banda Pedra Letícia, que tocou pela primeira vez durante o Festival. Para atender à grande demanda, a organização do Festival de Inverno ofereceu suporte técnico, fortalecendo a parceria. “Fomos auxiliados por bolsistas, estudantes da UFOP, que exerceram as mais diversas funções”, apontou o diretor do Centro Acadêmico, Raphael Costa Souza.

Fotos: Lincon Zarbietti

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A estudante gaúcha de Artes Cênicas, Priscila Corrêa, esteve em Ouro Preto durante o Festival pela primeira vez. Ela contou que se divertiu bastante e ficou surpresa quando descobriu os shows durante a madrugada. “Participar de um evento cultural é sempre muito interessante. Melhor ainda quando há chance de curtir as madrugadas com uma boa música e com preço acessível”, completou.

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rotas alternativas Atrações nos distritos transformam rotas alternativas em pontos centrais dos espetáculos

Fernanda Mafia

Transformação pode ser a palavra que define a Caravana Festival, pois modifica a relação tempoespaço, mesmo que por uma tarde, nos lugares por onde passa. Com o objetivo de descentralizar as atividades do Festival de Inverno e levar as atrações para os distritos de Ouro Preto e Mariana, a Caravana possibilita o acesso à cultura e permite que a população dessas comunidades também receba o Festival perto de suas casas. Na edição deste ano, os distritos puderam prestigiar a exibição de curtas-metragens, a exposição fotográfica Lusófonos e o espetáculo Causos de Brasêro. Os palcos dos espetáculos foram muitos: escolas, igrejas, festas juninas e até mesmo as ruas. A cada chegada, uma surpresa. “Nunca sabemos o público que vamos encontrar”, conta Marcelino Ramos, o contador dos Causos de Brasêro. Para o produtor da Caravana Festival, Didito Camilo, a extensão e o número de distritos dessas duas cidades dificultam a chegada de projetos culturais. Segundo

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ele, os moradores dos distritos, muitas vezes, não têm a oportunidade de frequentar determinadas atrações oferecidas na cidade. “A Caravana Festival proporciona esse contato.” A produtora cultural Débora Santos contou que em alguns distritos, como Passagem de Mariana, a participação da comunidade nos eventos é grande. Segundo ela, o próprio padre convida as pessoas durante a missa, e os professores fazem questão de levar seus alunos. “A Caravana Festival aumenta o acesso às atrações culturais, principalmente porque nem todos os moradores de Passagem podem ir até as sedes.” Nesta edição do Festival, doze distritos receberam a Caravana: Engenheiro Corrêa, Lavras Novas, Miguel Burnier, Santa Rita Durão, Santo Antônio do Salto, Santo Antônio do Leite, Passagem de Mariana, Bento Rodrigues, Antônio Pereira, Furquim, Monsenhor Horta e Padre Viegas.

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Caravana Festival levou filmes, contação de causos e uma exposição fotográfica a 12 distritos de Ouro Preto e Mariana Filmes, teatro e exposição As pessoas se aproximavam devagar, caminhavam entre as fotos expostas e observavam com curiosidade. As crianças corriam para assistir aos filmes em exibição. Aos poucos, todos se acomodavam em cadeiras, bancos e até mesmo no chão e aguardavam ansiosamente pela Caravana. A exposição itinerante Lusófonos, dos fotógrafos Naty Tôrres e Du Tropia, buscou explorar as semelhanças arquitetônicas entre Ouro Preto e países europeus, como Portugal e Espanha. A fotografia, nesse caso, tem a finalidade de comprovar que, apesar da distância geográfica, não estamos tão longe desses países. Promove ainda um resgate das nossas raízes. Naty Tôrres descreveu que a exposição foi projetada para que os moradores dos distritos tivessem a chance de olhar para as fotografias e sentir uma identificação com as imagens expostas. Os Causos de Brasêro, contados por Marcelino Ramos e acompanhados musicalmente por Didito Camilo e Samuel D’Angelo, reafirmaram a mineiridade do personagem, que usa chapéu e tem um sotaque característico. As histórias contadas são “causos” de assombração, de amor e do cotidiano das zonas rurais. Magaly Gonçalves é moradora de Padre Viegas e acredita que “a contação de causos desperta a curiosidade, principalmente das crianças pela fantasia, pelo folclore e pelas lendas da região”.

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Quem faz a Caravana? Com uma equipe composta por cinco pessoas, a Caravana Festival alcançou o desafio proposto: levar a arte a lugares onde o acesso é mais restrito. Os três artistas, Marcelino, Didito e Samuel, junto aos dois monitores, não apenas passaram pelos locais, mas também levaram alegria e descontração para cada um dos moradores. A monitora Lorena Balbino, estudante de Artes Cênicas da UFOP, relatou que a experiência de construir a Caravana foi incrível. “Durante o Festival, me senti como se sentem os artistas, me esforcei para que tudo desse certo e que o espetáculo, os curtas e a exposição chegassem ao maior número possível de pessoas.” A equipe se entrega ao projeto e às pessoas que encontraram durante o roteiro. Com carinho e simplicidade, entraram na casa e nos corações dos moradores, almoçaram e tomaram café juntos. Jogaram bola, brincaram e conversaram com as crianças, que se aproximaram ao ouvir os primeiros acordes do violão. Compartilharam por alguns momentos o modo de vida pacato do interior de Minas Gerais.

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Verônica Soares

Compartilhar, curtir, comentar. O Festival esteve vivo na internet e quem não pôde estar presente teve a chance de acompanhar, mesmo de longe, cada atividade realizada no mês de julho. As redes sociais já se tornaram grandes aliadas da divulgação de eventos, mas o engajamento e a participação dos usuários durante os dias de Festival de Inverno demonstraram que há muito mais vida por trás dos cliques nos meios digitais.

Festival nas redes Alcance total das redes sociais ultrapassou 50 mil pessoas. Festival inovou em 2013 com coberturas via aplicativo Instagram

Na edição 2013, a equipe de comunicação realizou coberturas em tempo real pelas redes sociais, sendo o retorno mais expressivo registrado no Facebook. Demonstrando a força da plataforma, a página www.facebook.com/festinverno teve um aumento de 70% de seguidores em relação ao mesmo período do ano anterior, chegando a 17.491 fãs. O alcance total ultrapassou a marca de 45 mil usuários, de acordo com dados da própria rede social. O Twitter @festinverno (www.twitter.com/ festinverno) também registrou aumento significativo ao longo do último ano, fechando o Festival com mais de 1,8 mil seguidores, um aumento de 12% em relação à edição 2012. Essa ferramenta também serviu de canal de comunicação direta com o público, esclarecendo dúvidas sobre programação, inscrições em oficinas, datas e horários das atrações. No Flickr, foram compartilhadas mais de 2,7 mil fotografias, entre imagens de espetáculos, shows, apresentações de rua, bastidores e do público. Na ação “Eu curto o Festival”, que registra o público que circula pelas centenas de atrações, foram mais de 220 cliques de turistas, moradores, participantes de oficinas e da equipe do Festival. Todos os arquivos ficam disponíveis para download no endereço http://www. flickr.com/photos/festivaldeinverno/. Uma das grandes novidades da edição 2013 foi a criação do perfil do Festival no aplicativo Instagram. Com o charme dos filtros e dos efeitos de cor e luz típicos da ferramenta, o Festival ganhou outros tons, reforçando a temática da diversidade que permeou o evento. O aplicativo também permitiu o compartilhamento de vídeos curtos com trechos dos espetáculos, que deram um gostinho do que o Festival tinha para oferecer. Todo o conteúdo ficou disponível em instagram.com/festinverno. Os números do Festival e as respostas aos compartilhamentos demonstraram que as redes sociais serviram para ampliar o alcance do evento, aproximar pessoas e facilitar o feedback dos participantes. Além de colaborar na difusão das informações do site oficial, as redes foram também local de registro dos momentos marcantes e do envolvimento do público com as atrações escolhidas.

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Em tempos Interativos, Festival de Inverno lança aplicativo Ramon Cotta

A tecnologia faz parte do estilo de vida atual, e os aplicativos são ferramentas que auxiliam as pessoas no trabalho, na escola e nas horas de lazer. Em tempos cada vez mais conectados em smartphones, notebooks e redes wi-fi, o Festival de Inverno - Ouro Preto e Mariana - Fórum das Artes 2013 lançou o aplicativo uGuide Festival de Inverno, disponível para tablets e celulares com sistema operacional Android. O aplicativo — que já era utilizado pelos alunos da UFOP desde 2012, com o objetivo de facilitar a vida estudantil — foi adaptado para orientar o público do Festival. Em um evento de grande porte, com atrações espalhadas pelas duas cidades, os participantes poderiam encontrar dificuldade para se planejar e se orientar. O uGuide permitiu ao usuário marcar suas atrações favoritas, acessar notícias publicadas no site oficial e se localizar com a ajuda de um mapa. Outro destaque do software foi o sistema de notificação baseado em localização, que avisava onde seria apresentado o programa favorito do usuário – e, em caso de alterações na programação, informava imediatamente sobre as mudanças. O Revista Festival • ano 3 • número 3

Disponível para tablet e celulares com Android, o uGuide auxiliou o deslocamento do público aplicativo também estava integrado às redes sociais e filtrou tudo o que foi comentado sobre o Festival no Twitter. O uGuide teve um número total de 300 usuários, marca considerada satisfatória, dado o ineditismo da experiência. Foram marcados pelos usuários como favoritos 615 itens de toda a programação, sendo as curadorias de maior interesse a de Música e a de Artes Cênicas.

ser um instrumento de auxílio para as pessoas, o uGuide contribui para combater o desperdício de papel. “Tivemos um feedback positivo dos usuários e da organização. Teremos avanços na versão futura para os próximos Festivais, aprimorando o sistema de recomendação para os locais e atrações, auxiliando diretamente para melhorar a qualidade do evento”, contou Rabelo, já adiantando uma novidade para o próximo ano: o lançamento da versão para IOS, o sistema utilizado pela Apple em iPads e iPhones.

Desenvolvido pelo laboratório iMobilis, do Departamento de Computação da UFOP, sob a coordenação do professor Ricardo Rabelo, o aplicativo contou com o trabalho dos alunos Brayan Neves, Bernardo Reis, Iury Souza, Gustavo Quintão, William Reis e Jeferson Rodrigues. O professor Rabelo destacou que, além de

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Encontros pelas ruas de Ouro Preto e Mariana

Ramon Cotta, com Bruna Fontes

As ruas de Ouro Preto e Mariana foram preenchidas por cultura, em suas mais variadas formas, durante o mês de julho. As calçadas viraram palcos onde plateia e artistas conviveram juntos, sem hierarquia e em completa harmonia. As cidades se tornaram espaços para a democratização das expressões artísticas. Sem distinção de classe social, etnia, religião ou orientação sexual, o público foi formado pela diversidade, reafirmando o tema deste ano do Festival de Inverno. Ao longo das três semanas de evento, mais de 80 atrações de rua foram realizadas, entre teatro, concertos musicais, intervenções cênicas e cortejos, além da programação nos distritos e oficinas. As atrações de rua contribuíram para a relação do cidadão com a cidade: quando o público comparece a um espetáculo na praça, está também desfrutando de um espaço comum transformado em espaço artístico —ponto de encontro e de compartilhamento de experiências.

Foto: Isadora Faria

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Foto: Du Tropia

Festival de Inverno • Ouro Preto e Mariana • Fórum das Artes 2013Silva Foto: Pablo


Mais de 80 atrações foram realizadas nos espaços públicos das duas cidades e seus distritos. Ponto forte do Festival de Inverno, as apresentações em áreas abertas aproximam o público da arte.

O Festival ocupa as cidades Lauriano Carneiro Monteiro levou o filho, João Victor, de 5 anos, para conferir o espetáculo O Cordel Clownesco do Romeu e da Julieta, da Cia. CaravanMaschera, que aconteceu no dia 27 de julho, na Praça da Sé, em Mariana. “Gostei muito”, disse o pequeno. O pai elogiou a iniciativa. “Essa é a primeira vez que João assiste a uma apresentação teatral e isso é o melhor do Festival: promover o teatro de rua”, conta. Foto: Íris Zanetti

Foto: Du Tropia

A intervenção O Gigante e o Dragão, por exemplo, foi apresentada mais de uma vez na Praça Tiradentes, em Ouro Preto, e na Praça da Sé, em Mariana, resultado de um experimento coletivo de alunos do curso de graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, com direção do professor Daniel Ducato. O diretor explica que, a partir do momento em que a história da peça se concretizou, pensou em investigar o espaço urbano como suporte para a revelação da história. “Sabíamos do risco que corríamos devido à mutabilidade constante presente no fluxo das ruas, mas o desejo de ver os bonecos se confundindo com os carros nos abria a possibilidade de um aprendizado único naquele momento. Aceitamos o desafio”, completa. Ducato destaca que a eleição de espaços no meio urbano para o acontecimento do teatro é positivo, e a palavra de ordem para os artistas é imprevisibilidade.“A rua é espaço de troca, de contato massivo, de circulação, com características bastante distintas e que abrigam experiências singulares.

Teatro feito na rua tem mais pulsação”, enfatiza o diretor. Até mesmo o encerramento do Festival 2013 se deu no espaço urbano, envolvendo pessoas nas ruas dos centros históricos sob um olhar afetivo e poético. O Cortejo Abre Alas, realizado pelo grupo Lume, encerrou em Ouro Preto os 24 dias de maratona artística e cultural, fazendo jus ao tema do Festival de Inverno. Cânticos, esquetes teatrais, malabares, danças, sorrisos e um público – dentre eles crianças, jovens, adultos, moradores da região e turistas – encantado com o que via. Pouco a pouco, a diversidade coloriu as ladeiras da antiga Vila Rica, atingindo o objetivo esperado durante a intensa preparação que ocorreu dias antes, com a oficina que carregava o mesmo nome do Cortejo. “Estamos dando outro significado ao espaço público, tudo é feito a partir da diversidade do lugar, da arquitetura e história”, completa Jessé de Souza.

Foto: Íris Zanetti

Nos bastidores, a preocupação em estar presente nas ruas Foto: Íris Zanetti

Foto: Carol Teixeira

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Responsável pelas intervenções e lounges, Waléria Niquini, conta que as atividades na rua ressaltam o poder transformador do Festival. “É interessante esse contato do morador com as artes. Os grupos de intervenção saíam pela cidade para chamar o público para as apresentações de cada dia. Qualquer pessoa que estivesse passando pelas ruas e se deparasse com os artistas,acabaria ficando curiosa para entender o que estava acontecendo”, disse.

outros espaços das cidades. Chamamos de espaços alternativos porque, na sua natureza, eles não foram pensados para receber apresentações teatrais’’, explica Siqueira.

Mariella Siqueira, coordenadora dos eventos de rua e espaços alternativos, reforça o coro: ela explica que a coordenação de produção pensa ser a rua um dos motores do Festival de Inverno, pois, antes mesmo de dar início às atividades, é na rua que o evento começa a encontrar olhares curiosos. “Contamos com parcerias importantes com

“Da mesma maneira que temos grandes montagens na rua, também temos surpresas que precisam apenas da rua para acontecer, que descem ladeiras e encontram janelas de senhoras que recebem o Festival dentro de casa, com a porta aberta. É assim, um caminho familiar que construímos juntos entre o evento e pra quem ele é feito”, finaliza.

Ano após ano, o Festival tem ocupado cada vez mais as ruas da cidade com apresentações artísticas, confundindo-se com o espaço público das cidades. Além das tradicionais praças e das casas de teatro, becos, escadarias, museus, pontes e igrejas receberam diferentes produções artísticas.

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...e assim continua Festival de Inverno • Ouro Preto e Mariana • Fórum das Artes 2013


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Descobri que eu posso escrever... Descobri que eu posso me conhecer! Quem sou eu? Sou um ser que sonha, que luta, que ama! O ser não é algo abstrato, pois esse ser sou eu em contato comigo mesmo. Eu sou aquele que tenta me conhecer! Esse conhecer parte da percepção de que eu não sou simplesmente razão, sou emoção! Choro, fico triste, fico feliz! É só nesse momento que sou! Sou humano, necessito de outros seres humanos para me reconhecer, sou emoção, razão, sou tudo aquilo que os outros desejam, que querem que eu seja. A vida é cheia de indagações, pois é só através delas que eu percebo que posso me conhecer como sou! “SER OU NÃO SER” Essa reflexão me passou uma espécie de alegria, pois há muito tempo eu não fazia esse exercício. Mexeu com as minhas emoções, sentimentos... Neste exato momento é que eu percebo que sou algo maior que os outros possam imaginar. Por outro lado, a imaginação nos faz ser utópicos! O que é a utopia diante de nossas necessidades? Ser utópico é ser humano, e ser humano é ser masculino, feminino... Ser aquilo que gostaríamos de ser... A Utopia é maior que aquela racionalidade unilateral que nos prende em relação aos nossos sentimentos... Este é o momento da liberdade, é ser o que sou e é ser aquilo que eu quero ser! José Arlindo Nascimento, estudante de Serviço Social da UFOP, produziu esse texto durante a Oficina Desinibição Textual e Escrita Criativa, promovida pela Curadoria de Literatura no Festival de Inverno – Fórum das Artes 2013 em Tempos Diversos.

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