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Daiane Servo

VOLUNTARIADO

Você já fez sua parte hoje?

Esta edição do Passe a Folha conta histórias de pessoas que dedicam parte do seu tempo a construir uma sociedade melhor, em diferentes espaços. Em troca, elas não exigem nada. Não pedem voto e nem dinheiro. Ao contrário: são doadores de solidariedade e de esperança para aqueles que não tiveram a mesma sorte.


Fundação Aury Bodanese/Divulgação

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Angelino dos Santos, com um grupo de voluntários, em uma ação comunitária

Para além da informação Professor Vagner Dalbosco O jornalista é um contador de histórias. E elas são muitas. Em cada cidade, no interior de cada comunidade, nas avenidas, nos bairros, nas ruas e na particularidade de cada cidadão, é possível encontrar e contar uma grande história. Afinal, existe vida além das fontes oficiais que inundam boa parte do jornalismo cotidiano, como se não existisse vida além do poder e das instituições legalmente constituídas. Produzida na disciplina de Grande Reportagem, no 7º período, esta edição do Passe a Folha apresenta histórias de ações voluntárias e pessoas anônimas aos olhos da mídia convencional, mas que cotidianamente fazem a diferença em algum lugar da sociedade e ajudam a construir um mundo melhor. O voluntariado é uma atividade crescente e já movimenta 140 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo dados do programa de Voluntários das Nações Unidas (VNU). No Brasil, embora não haja uma política articulada e organizada nesse setor, o voluntariado também envolve milhares de pessoas que desenvolvem atividades de forma individual, em entidades, organizações não governamentais, empresas, igrejas e escolas, entre outras. Muitas delas ocorrem em Chapecó e demais municípios do oeste catarinense. Produzida na disciplina de Grande Reportagem, esta edição do Passe a Folha traz à tona histórias de pessoas, entidades e ações voluntárias dedicadas a ajudar quem mais precisa – pessoas e animais – e, assim, construir uma sociedade melhor. Com uma linguagem leve, descontraída e distante das costumeiras amarras meramente informativas da técnica jornalística tradicional, o texto convida você a participar dessa leitura prazerosa, recheada de reflexões sobre inúmeras práticas de solidariedade e cidadania que ocorrem à nossa volta.

Jornal laboratório do curso de Jornalismo Reitor: Prof.Odilon Luiz Poli Vice-reitora de Ensino, Pesquisa e Extensão: Prof ª. Maria Aparecida Lucca Caovilla Vice-reitor de Planejamento e Desenvolvimento: Prof. Cláudio Alcides Jacoski Vice-reitor de Administração: Prof. Antonio Zanin Diretor da Área de Ciências Sociais Aplicadas: Prof. James Antônio Antonini Coordenadora do curso de Jornalismo: Prof ª. Mariângela Torrescasana. Rua Attílio Fontana 591-E, Bairro Efapi Cx. Postal 1141, CEP 89809-000, Chapecó/SC Fone (49)3321-8254 passeafolha@unochapeco.edu.br / www.unochapeco.edu.br

Disciplinas: Grande Reportagem Professor/editor responsável: Vagner Dalbosco (200110187) Redação: Acácia Sehnem, Alex Sandro dos Santos, Aline de Menezes, Ana Bourscheid, Ananda Buttenbender, Augusto Zeiser, Beatriz Cerino Baffa, Daiane Servo, Fernanda Moro, Gabriela Hoff, Gesélio Catalan, Gilberto Bortese, Luan Vosnhak, Marcelo Fassbinder, Paulo Gomes, Paulo Vargas, Rafael Miotto. Sabrina Basso e Suellen Santin. Tiragem: 2.000 Editoração eletrônica: Camila Veloso/ ACIN Jornalismo Coordenação ACIN Jornalismo: Aline Dilkin (Mtb/SC004074 JP) Impressão: Jornal Voz do Oeste


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A dedicação que não tem preço “Eu não tenho, mas posso ajudar”

Fundação Aury Bodanese/Divulgação

Gabriela Hoff e Rafael Miotto

Angelino (de chapéu amarelo) em uma das ações de voluntariado que realiza Uma história de vida baseada em valores começa na família, e ao longo do tempo aprendemos o que é solidariedade e como se colocar no lugar do outro, como trabalhar em equipe ou planejar ações. Esse é mais um trecho da dedicação da vida de Angelino Flores dos Santos, que se tornou história que hoje não tem preço. Em uma família de oito filhos, a infância foi difícil, as dificuldades financeiras eram inúmeras e a família recorreu à última alternativa para continuar: a “fé”. Angelino Flores dos Santos é balanceiro de produção em uma Cooperativa Agroindustrial, em Chapecó, tem 27 anos e mora no bairro São Pedro. A vida tratou de ensiná-lo da maneira mais difícil. Nem sempre as coisas foram fáceis e as dificuldades insistiam em bater a porta. Aos sete anos, Angelino perde o pai e as responsabilidades aumentam. Era muito difícil morar em um bairro que detinha a fama de violência e drogas no município, porém a família nunca desistiu de estudar e trabalhar muito. De origem humilde e simples, sempre teve consigo a união e o amor em ajudar. - Lembro-me de meu pai muitas vezes doando comida para a igreja, para os outros, e nós não tínhamos o que comer – revela.

Trabalhar e construir um futuro. Esta sempre foi a sua meta. Estudou até o 2º grau, mas não conseguiu concluir. Seu sonho em iniciar uma faculdade ainda bate forte no peito. No ano de 2005 foi buscar a vida na cidade de Concórdia, em uma empresa que lhe prometeu 6 meses de trabalho, mas ao término de 30 dias todos foram demitidos e receberam R$ 70. - Não tinha dinheiro nem para voltar para casa, muito menos fazer um lanche. Passei fome. Angelino voltou para Chapecó e foi convidado a trabalhar em um frigorífico local, quando as possibilidades começaram a aparecer e o sonho despertar. O envolvimento com as atividades da empresa foi notório. Angelino trouxe o amor e a união que aprendeu quando criança para dentro de seu ambiente de trabalho. A participação no Programa Amigo Energia, da Fundação Aury Luiz Bodanese, despertou sua missão. - O esforço depende de cada um. Ninguém vai a lugar algum se não tirar o pé do chão. Ao longo dos anos, Angelino se aproximou e buscou cada vez mais desenvolver o voluntariado. - Toda ação que é desenvolvida, lá está ele, tocando violão, jogando dominó, contando

histórias, alegrando a todos - afirma Isalete dos Santos, que é assistente social do Centro de Convivência do Idoso, parceiro da Fundação. As ações que são desenvolvidas pela Fundação envolvem diversos trabalhos em albergues, casas de idosos, hospitais, casamentos coletivos, ações comunitárias. Trazer no rosto de cada voluntário o respeito, o carinho e principalmente o amor é algo que não tem preço. O voluntariado demonstra a qualidade de vida que traz junto de si, pois sabe que ajudou alguém. Angelino segue seu caminho, com muitos sonhos e realizações. Pai de família, casado há nove anos e com sua filha de um ano e três meses de idade, ele não tem dúvidas sobre a importância em ajudar o próximo. - A minha vida sempre foi na humildade, a cada dia você aprende que ninguém é mais do que ninguém, estou disposto a me doar de coração aberto e ajudar quem for, ser voluntário é poder transformar aquilo que eu posso, alias todos podem, com muita garra e força de vontade. A vida não pode ser um rascunho, tem pessoas que vivem num contexto o tempo todo e quando querem voltar atrás e passar a limpo é tarde demais.


Daiane Servo

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Pastoral da Criança: sem fronteiras na promoção da vida Beatriz Cerino e Daiane Servo

Ser voluntário é ter disposição. Na Pastoral da Criança, ser voluntário é servir com muita dedicação a crianças carentes de zero a seis anos e gestantes que precisam de orientação para iniciar essa nova vida. A Pastoral da Criança tem o objetivo de promover saúde e desenvolvimento, tanto da mãe quanto do bebê. Para as voluntárias, compartilhar experiências, conhecimento e tempo são as principais características desse trabalho. Orientar, acompanhar e cuidar. Essa é a rotina de Mariana Antunes há três anos. Mãe e voluntária na Pastoral da Criança, Mariana trabalha pesando e medindo crianças na Aldeia Toldo Chimbangue, lugar onde mora.A Aldeia Toldo Chimbangue é uma reserva indígena de Chapecó. Fica num lugar afastado, saindo da cidade, sentido Sul. Para encontrar a aldeia, é preciso enfrentar um longo caminho de terra. Pouca é a movimentação de carros. Ônibus? Apenas fretados, que passam para buscar trabalhadores dos frigoríficos de Chapecó.

Na reserva, mato alto e casas antigas, uma bem afastada da outra. Uma cena de velho oeste abandonado, com as plantações secas, depois da estiagem que atinge o oeste de Santa Catarina. Durante o caminho, a coordenadora paroquial, Assunta Rodrigues, mostra que uma parte da reserva era de agricultores de Chapecó que foram indenizados quando o espaço virou reserva indígena. Hoje, com a área ocupada pelos índios, a agricultura deixou de existir. Assunta conta que os índios perderam essa cultura e hoje trabalham na cidade apara se sustentarem. Já faz 15 anos que a Pastoral foi para essa região a partir de uma iniciativa da atual coordenadora da comunidade, Cleusa Rodrigues, que também é moradora da aldeia. Neste processo, a líder continua orientando e auxiliando as mulheres da comunidade. Todo mês, ela reúne as mães com seus filhos para debaterem algum tema e para a pesagem das crianças, no momento chamado por elas de Celebração da Vida.

Cleusa conta que, neste último mês, a falta de água gerou num grande problema para as mães da comunidade. Das 42 crianças acompanhadas pelo grupo da líder, 10 tiveram diarréia. Com o auxílio da Pastoral da Criança e o trabalho de Cleusa e das outras voluntárias da comunidade, o problema está sendo solucionado. Para a líder, isso é motivação. - Para ser voluntária tem que ter amor para dar, e gostar muito do que faz, senão não aguenta – explica.

Uma comunidade, um grupo e um agradecimento

Com 34 anos, Mariluce de Oliveira viu o projeto da Pastoral da Criança crescer. Quando teve sua primeira filha, aos 16 anos, a índia da Aldeia Toldo Chimbangue, área de reserva indígena em Chapecó, conheceu o projeto e começou a acompanhá-los. Com eles, aprendeu a amamentar e a cuidar de seu bebê.


A segunda criança também recebeu ajuda do projeto. Hoje, com nove anos, é saudável. E depois de conhecer bem todo esse trabalho, Mariluce passou a fazer parte do grupo de uma forma diferente: há cinco anos é líder no projeto da Pastoral. Passa a diante tudo que aprendeu, de forma voluntária. Além de líder, há oito meses Mariluce é mãe novamente e voltou a ser acompanhada, recebendo multimistura e orientações. A índia conta que fazer parte da Pastoral da criança é gratificante. - Nós vamos nas casas das outras gestantes e mães e elas nos atendem bem. Tomamos chimarrão e conversamos. Daí, faço as perguntas que tem que fazer e vou embora. Quando demoramos muito para ir, elas já perguntam “o que aconteceu, por que demorou? E é assim mesmo que acontece. Karina Lemes da Rosa, também participante do projeto, conta que espera ansiosamente pela visita das líderes. Aos 17 anos, Karina tem um filho de quatro meses para cuidar, e agradece a ajuda da Pastoral. - Eu tive uma gravidez de risco e elas me ajudaram. Me ensinaram a me alimentar e a cuidar da criança. Karina conheceu o grupo de líderes ainda quando levava o sobrinho, seis anos atrás. Este cresceu, mas o carinho pelo grupo nunca diminuiu: assim que ficou grávida, voltou a frequentar as reuniões da Pastoral no postinho

Daiane Servo

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da Aldeia e hoje leva Vinicius Daniel para o encontro de Celebração da Vida. Com um sorriso no rosto, a índia só tem a agradecer. - É muito bonito o trabalho das voluntárias!

Alimentação enriquecida Combater a mortalidade infantil no início era uma das principais metas da Pastoral da Criança. Além da formação e informação, há 15 anos um dos recursos usados consiste na combinação de sementes e cascas variadas na produção de alimentos saudáveis e uma farinha enriquecida, chamada Multimistura. Esta farinha é resultado de um processo de tratamento de sementes e nutrientes que, em muitos casos, não são valorizados na mesa brasileira como as cascas. Desta forma a matéria prima da farinha é farta, sendo em sua maioria vinda de doações. Com o devido manuseio, esta farinha tornase um poderoso aliado no combate à desnutrição e outros pequenos males como os vermes. A ingestão é feita por mães, gestantes e crianças que ajudando também na produção e enriquecimento do leite materno.

A alimentação saudável é outra grande preocupação da Pastoral, pois com isso evitam-se muitos outros males. Desta forma, a família é orientada a aproveitar melhor os nutrientes de frutas e verduras que, mesmo nas cascas, tem poderosos componentes. Para a realização destas formações, bem como para a articulação de reuniões e compra de materiais para as líderes, a organização Nacional da Pastoral da Criança repassa cerca de R$ 1,71 por cada criança acompanhada. Se houverem 10 crianças atendidas, por exemplo, o valor repassado será de R$ 17,10. Estes recursos provem de doações, já que a Pastoral não tem fins lucrativos. O lanche oferecido nas Celebrações da Vida é resultado de uma ideia que deu certo. Mais uma vez, o voluntariado faz a DIFERENÇA!

Liderança na Pastoral da Criança é algo que se aprende

O voluntariado é uma marca da Pastoral da Criança desde a sua criação, no ano de 1983. Com o básico necessário de escolaridade (ler e escrever), muitas líderes já foram capacitadas para atuar em suas comunidades, visitando e orientando as famílias. Para ter-se uma ideia, no Brasil, só em 2011 foram realizadas 20 milhões de visitas domiciliares pelas líderes. Para este resultado, calcula-se que cada líder voluntária/o dedica, em média, 24 horas por mês a esse trabalho. Para exercer estas atividades, todas as voluntárias da Paróquia Santo Antônio, de Chapecó, seguem a prática nacional, sendo capacitadas através do Guia do Líder, que contêm orientações para o acompanhamento de mães, gestantes e crianças. Além do Guia, a Pastoral oferece cursos para que as líderes multipliquem seus conhecimentos na comunidade. São oficinas para a produção de brinquedos, saúde bucal, alimentação e liderança, entre outros. Geralmente, as líderes são pessoas da própria comunidade que tem maior contato e conhecimento das necessidades de cada região. Trabalhando nesta perspectiva local, as líderes podem propôr, bem como participar de formações que melhorem o atendimento nas suas comunidades. Vários cursos são oferecidos e visam aprofundar os conhecimentos das líderes, principalmente na área da saúde para a promoção da vida. Em algumas comunidades as líderes capacitadas, ainda, promovem oficinas com as mães para repassar os conhecimentos adquiridos.


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Projeto Farroupilha: escola para o voluntariado Paulo Gomes

Quando nos foi dada a tarefa de fazer uma reportagem sobre o voluntariado para o Jornal Passe a Folha, inúmeras fontes apareceram em minha mente. Há dez anos, apresento o Programa Condá na Comunidade, onde todos os sábados interagimos com dezenas de lideranças comunitárias. De repente me deparo com a missão de destacar o trabalho, a história de um entre tantos voluntários. Tarefa difícil. Para facilitar a escolha fomos enumerando alguns critérios. Não precisaram muitos. O primeiro foi na área social, e já no segundo me defini. Voluntários que dedicam seu tempo com pequenas vidas, crianças. A reportagem no Passe Folha pode servir de ferramenta de

estímulo, motivação. Não tive dúvidas. Esta reportagem vai retratar um pouco do trabalho de uma jovem voluntária. Nossa história tem como personagem principal uma jovem de 15 anos de idade, que por amor à tradição e ao próximo se dedica a transformar a vida de dezenas de crianças através da cultura gaúcha. Ela integra uma equipe de dezenas de voluntários que, a cada sábado à tarde, concretizam o inédito Projeto Farroupilha: Tradicionalismo a Serviço da Vida – pioneiro no Brasil. O Projeto iniciou as atividades no Dia do Gaúcho, em 20 de setembro de 2010, e se estende a outros CTGs do município. Envolve ações que visam resgatar os valores

Gabriela Gabrieli Marca

familiares e culturais não somente das crianças, mas de toda a comunidade escolar, oferecendo ao público infantil uma opção cultural que pode melhorar a qualidade de vida e a realidade social no meio em que as crianças estão inseridas. Conta com as parcerias da Unochapecó, que proporciona as pilchas para cada criança; do poder público municipal; que envolve profissionais das secretarias de Educação, Cultura e Social para o desenvolvimento das atividades; e a Rádio Super Condá, com todo o apoio de articulação e markting. Mas é na disposição de uma jovem de 15 anos que o projeto se ancora a cada sábado. Passados um ano e meio de implantação, a jovem Gabriela Marca é elemento fundamental para o sucesso da iniciativa no CTG Coxilha do Quero-Quero. Filha dos hoje patrões do CTG Coxilha do Quero, Valmor e Ivani Marca, estuda na Escola Estadual Irene Stonoga, onde cursa o segundo ano do ensino médio. É tida pelos colegas como uma pessoa amável, disposta, extrovertida e de fácil amizade. Para o colega Anderson Rodrigues, “Gabi”, como é chamada por todos, é uma pessoa interessante de se conviver, amiga e companheira. É no CTG Coxilha do Quero-Quero que a jovem assume a postura de uma prenda de destaque. Ensaia em média três horas por semana na invernada juvenil, onde esbanja simpatia. Extrovertida e motivadora, a geminiana é uma das líderes da turma e tem o carinho de todos os integrantes. Mas é a cada sábado que o olhar terno e o sorriso de menina se transformam em uma liderança do Projeto Farroupilha. É ela quem comanda os ensaios que transformam a vida de crianças a partir do momento que assume o papel de instrutora, a quem crianças e suas famílias chamam respeitosamente de professora. Para a coordenadora do Projeto no CTG, Verenice Bortolini, Gabriela tem um senso humanitário incomum. Tem sensibilidade no relacionamento com as crianças e suas famílias, o que a leva a ter domínio da turma de 40 pequenos de 4 a 6 anos de idade. Para Verenice, o Projeto está descobrindo um talento dentro do CTG Coxilha do Quero-Quero, uma “grande” liderança. A idealizadora do Projeto, Jociani Coletti Gomes, hoje atuando na Fundação Cultural


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Atividade com crianças do Projeto Farroupilha no CTG Coxilha do Quero-Quero de Chapecó, onde acompanha o Projeto desenvolvido em seis CTGs do município, ressalta o papel dos voluntários. Para Jociani, a presença dos instrutores das danças gauchescas é a alma do Projeto. A pedagoga demonstra admiração pelo desempenho e doação de Gabriela e faz questão de apontar o carinho das famílias, o amor das crianças pela jovem.

O dia-a-dia da prenda voluntária

É sábado e Gabriela vai se dirigir para o CTG para mais uma tarde de atividade do Projeto Farroupilha. Após os afazeres cotidianos de uma jovem na casa dos pais, casa arrumada, louça limpa e tudo no lugar, a jovem retoca a maquiagem e se dirige ao CTG Coxilha do Quero-Quero. Chega no tablado em cima do horário. Com um sorriso estampado, é recebida com muito alvoroço pela criançada. Beijos, abraços, profe de lá, profe de cá. Em poucos instantes a turma está apostos. Começam as atividades. A instrutora já tem a lição preparada. 1,2,3,4 ponta e taco. 1,2,3,4 ponta e taco. - O Matheus era tímido e inquieto, agora ele conversa e está mais calmo. Ele adora ir no Projeto – revela Bárbara Padilha, ao observar as mudanças do filho Matheus, de apenas 5 anos. Já a professora Rose Restelo observa que as crianças estão mais tranqüilas e dedicadas no ambiente escolar. Para ela,

o Projeto Farroupilha mudou o cotidiano das crianças, da família e refletiu na autoestima da comunidade. Gabriela responde com humildade cada vez que é perguntada sobre a decisão de atuar como voluntária do Projeto Farroupilha. - Eu aprendo com eles. Segundo ela, os “pequenos” do Centro de Educação Infantil Municipal (CEIM) São Pedro ensinam muito. Religiosa, a jovem diz acreditar que foi Deus quem colocou as crianças em seu caminho, e ela no caminho das crianças. Por isso a oração do Pai Nosso é realizada a cada encerramento de atividade. O Patrão Marca, pai de Gabriela, embarga a voz ao falar sobre a filha. Resume a conversa com a declaração de que está orgulhoso. Já a patroa, Dona Vani, confessa que Gabriela realiza hoje o que ela gostaria de ter feito no passado. A senhora de prosa alegre se emociona ao ver as crianças chamar a filha de professora. Na sala da Casa da Patroa, a imagem de Cosme e Damião com um rosário abençoa a família. É no final de tarde de uma segunda-feira abafada que chego a casa de Gabriela para encerrar a matéria. Na varanda a postos, uma cuia de chimarrão e uma térmica dão as boas vindas. A jovem, esbanjando simpatia, nos recebe ao lado de Dona Vani. A patroa trabalha em sua cozinha industrial, preparando pastéis

e doces. Pede desculpa por estar envolvida com os afazeres. A conversa com a bela prenda de olhos claros foi na companhia dos deliciosos quitutis. Tive cautela com meus questionamentos para que a jovem ficasse bem à vontade. Não usei gravador, apenas anotações e de maneira discreta. Na verdade foi um bate-papo descontraído, percorrendo a trajetória do projeto inédito no mundo do tradicionalismo nacional. Não há nada de semelhante no Brasil. O surpreendente é que Gabriela ainda não havia refletido sobre tamanha responsabilidade. Um brilho iluminou o sorriso da prenda ao se dar conta do papel desenvolvido no projeto. Uma vez questionada sobre a responsabilidade, demonstrou personalidade e felicidade. Disse que não se sente uma instrutora, mas que é uma aprendiz. Sorrindo, revela que tudo o que faz é por amor a tradição, especialmente para crianças que até então não imaginavam vestir uma pilcha. Encerro meu trabalho com duas perguntas a jovem, seus sonhos e o que pesnsa sobre o mundo em que vive. Gabriela quer cursar fisioterapia, acredita que isso ajudaria pessoas excepcionais. E por fim, a jovem revela seu espírito de humanidade e voluntariado, ao responder que não concorda com a injustiça social.


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O lar dos sem teto Dona Claudete acolhe em sua casa cachorros e gatos desde 1989

Ana Paula Bourscheid e Sabrina Basso

Canceriana, de estatura mediana, Dona Claudete acolhe os animais abandonados pelos seus donos desde 1989. Animais feridos, debilitados, com sarnas e pulgas. Todos recebem cuidados especiais até que seu estado de saúde melhore e possam entrar na fila de espera por um novo e definitivo lar.  Natural do estado vizinho do Rio Grande do Sul, do município de São Valentin, veio

para Chapecó acompanhada de seus pais. Aos 53 anos de idade brinca ao relembrar dos seus pais. - Minha mãe gostava de animais, meu pai de namorar. Apegada à família, Dona Claudete divide sua atenção entre os animais, a filha, as netas e a irmã, portadora de Síndrome de Down que mora com ela. Além da dedicação com os animais, ela divide seu tempo com o trabalho como monitora no Abrigo de Mulheres Vítimas da Violência. Há cinco meses, ela está se habituando à nova atividade. - No início não gostei, mas você acaba se acostumando. Durante seis anos, Dona Claudete trabalhou no Albergue João Piltz, na mesma cidade, onde são atendidos os moradores de rua e desabrigados do município.  Da renda mensal de R$ 1 mil, são gastos em média R$ 500 com os tratamentos dos animais. Por isso, Dona Claudete conta com o apoio de algumas doações de ração e medicamentos. A ajuda alivia os gastos e colabora com seu trabalho voluntário, que não é nada fácil. Afinal, são oito quilos de ração a cada refeição, além dos cuidados com a higiene e a saúde dos amigos.   Dona Claudete procura fazer a castração de todos os animais, evitando a contaminação através de doenças e a proliferação de mais animais abandonados. Atualmente, conta com o apoio da ONG Voluntários Amigos dos Bichos e da Prefeitura Municipal.  Uma das despesas mais caras que Dona Claudete já teve com seus “hospedes”, foi com uma cachorra da raça boxer, que teve que realizar duas cirurgias. Os gastos de R$ 400 foram custeados com o apoio de amigos e também de uma veterinária que conhece o trabalho de Claudete. Não fosse essa ajuda, a cirurgia custaria R$ 1 mil.  Questionada de onde vem todo o carinho pelos animais, um suspiro acompanhado do silêncio toma conta do ambiente. Até os pequenos param as suas travessuras. E quando já não se espera uma reposta, lágrimas correm dos olhos de Claudete que desabafa:

Ana Paula Bourscheid

É no final de uma rua de pedras no bairro Bela Vista, em Chapecó, que eles encontram seu refúgio. Uns vem por conta própria, outros trazidos pelos braços amigos de Dona Claudete, como é chamada. Assim, a família de 40 cachorros e 12 gatos se reúne no terreno de 375 metros quadrados, em uma casa simples de alvenaria, mas com espaço suficiente para abrigar animais desprotegidos.

Dona Claudete acolhe em sua casa cerca de 40 cachorros


Ana Paula Bourscheid

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- Foi uma época muito deprimida da minha vida e que descobri que os cachorros podem ser mais carinhosos que o ser humano. Cada um desses animais tem um espaço especial no coração daquela senhora que transborda de amor pelos bichinhos. Se tivesse a oportunidade de realizar um sonho, brincando ela diz: - Uma plástica para ficar 20 anos mais nova. Mas, logo em seguida, a resposta verdadeira brota de uma lágrima. - Compraria um espaço maior para poder cuidar dos meus animais, quem sabe uma chácara. A grande alegria dessa senhora é chegar na rua de casa e ver o Palito, a Babalú, a Mel, o Tiririca, a Bela e a sua grande paixão, Pikachu. A cachorra é sua companheira há 18 anos. O que mais surpreende é que Claudete sabe o nome de cada companheiro que habita sua casa. Segundo ela, Palito é o encrenqueiro da turma; Mel é a carinhosa; Tiririca não quer abandoná-la; Bela é a arteira; Pretinha é só amor e Babalú quer toda a atenção. E assim continuam as descrições de cada um dos moradores da sua casa. Além destes, ainda cita a Fiona, o Sherck, a dupla Patati e Patatá, a Chiquinha, a Margot, a Madô e o Véio. Amigos que lhe devem a vida, foram por ela retirados das ruas, onde eram surrados, maltratados e abandonados como se fossem lixo. Todos os cachorros são de pequeno e médio porte. Os mais velhos, segundo Dona Claudete, são os mais difíceis de serem adotados. Ela conta que tem animais que não querem ir embora de jeito nenhum, como o cachorro Tiririca, que quando percebe o interesse de alguém em adotá-lo, logo arranja uma maneira de se esconder, e só volta para casa quando o tal sujeito foi embora. Ai de quem querer levá-lo a força: - O danado arruma um jeito de se defe n d e r. Conforme Dona Claudete, todos os cães e gatos estão para adoção. O único critério para levar seus amigos para casa é assumir compromisso em cuidar do bichinho com muito carinho. Por isso ela é criteriosa na seleção dos pais adotivos, que devem assinar um termo de responsabilidade. E

Dona Claudete e sua cachora Pikachu, que vive com ela há 18 anos

que se comprometem em cuidar bem do novo membro da família. O abandono de animais em Chapecó Conforme a coordenadora da ONG Voluntários Amigos dos Bichos, Jovane Bottin, existem cerca de três mil animais abandonados na cidade. Alguns são considerados cães comunitários que tem uma casa, mas vivem pela rua e são alimentados por moradores da região onde vivem. Entre as doenças que podem gerar problemas públicos de saúde estão a cinomose e parvovirose, que acometem somente os animais. Já as doenças que podem ser transmitidas para os seres humanos destacam-se verminoses, dermatites e dermatoses. Segundo Jovane, essas doenças acabam onerando o poder público, pois necessitam de tratamento e tem potencial de disseminação.

Entre os fatores desse aumento do abandono estão a adoção impulsiva e a utilização do animal até que esteja em situação saudável, a partir do momento que exige cuidados maiores é simplesmente deixado de lado, preso em um canil ou abandonado nas ruas da cidade. Conforme a diretora da ONG, o excesso de nascimentos é a principal causa de abandono. - Não existem lares responsáveis para tantos nascimentos. Os maus-tratos são causados por más pessoas, que não compreendem o cão ou gato. E a impunidade é o maior incentivo para quem não tem compaixão pelos animais. Para ela, uma das melhores soluções para diminuir o número de animais abandonados é a castração em massa e gratuita. - Não existe outra forma mais eficiente de trabalhar esta questão. Isso deve estar aliado aos programas de educação e sensibilização nas escolas, entidades e comunidades.


Suellen Santin

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O caminho para melhorar o todo Suellen Santin e Aline Cristiane de Menezes

Uma miscelânea de cores e tamanhos. Alguns estão impacientes, outros serenos. Juntos se aprontam para o que pode ser seu grande dia. Na casa de cada voluntário, as últimas preparações são feitas para que tudo ocorra bem na feirinha. Enquanto são presos em coleiras para não escapar, entram com furor dentro do carro, ansiosos para o passeio inesperado. Segurá-los não é tarefa fácil, mas o caminho curto não dá muito tempo para que eles aprontem peripécias. Ao desembarcar do automóvel, pata por pata vai pisando nos ladrilhos do canteiro da avenida central de Chapecó. Lá, outros amiguinhos os aguardam. O movimento de carros e pessoas exalta os bichos, que ficam inquietos por estarem presos. Os filhotes são colocados num cercadinho e os demais amarrados aos bancos e caules das árvores. Aos poucos as pessoas se aproximam. As crianças que avistam os animais de

longe puxam os pais para atravessarem a rua e darem uma olhadinha. Algumas pedem, esperneiam; outras, insistem impacientemente - Muitas pessoas se empolgam e vem até aqui para ver os animais, mas poucas são as que realmente decidem levar um para casa, conta Mari Baldisseira, quando participava da ONG de animais, que promovia a feirinha e hoje já não existe. Mari é a personificação da meiguice, do tipo de pessoa que você sente que fala mesmo através do olhar. Ela é voluntária desde 2008, quando voltou a morar em Chapecó. Já trabalhou como voluntária em vários projetos sociais e em ONGs e acredita que esse é o tipo de tarefa que você faz com o coração. - Acho que todo mundo pode fazer um pouquinho a mais. É uma doação do seu tempo, conhecimento e habilidades, em prol de algo maior.

Desde criança ela demonstrava sua ligação forte com os animais. A primeira palavra que pronunciou foi Géli, o nome do cachorro que fez parte da sua infância. Momento que parece ter determinado o destino de preservar o equilíbrio entre humanos e animais. - Muitas pessoas criticam as ações voluntárias em prol dos animais alegando que o esforço voluntário deveria ser focado nas pessoas, mas, geralmente, estes que criticam, não ajudam nem um nem outro – comenta Mari. Ela argumenta ainda o fato de o ser humano ter voz e condições para buscar ajuda, o que os animais não têm. Hoje Mari tem em casa seis animais. Todos eles, exceto a labradora Felícia, foram pegos da rua. Lili Beth é a mais velha de todos. Sua pelagem caramelo aos poucos é substituída pela cor branca. Já com 15 anos de idade - estimativa de vida longa para um cachorro de pequeno porte, que vive em média de 9 a 13 anos –


Quando trabalhava na ONG de animais, lembra que nos momentos em que surgiam despesas inesperadas, os voluntários se uniam e faziam um mutirão para juntar o dinheiro necessário. Por isso, a voluntária acredita que a diferença do trabalho em organizações e da iniciativa individual é a de que com a união de pessoas que lutam por uma causa, as ações podem se tornar mais significativas. Suellen Santin

a vira-lata acompanhou muitos momentos importantes da história da família. Já o gato Luigi vive na casa de Mari há nove anos. Antissocial, prefere ficar sozinho nos fundos do quintal ao estar na companhia dos demais. Numa tarde chuvosa, Mari se aproximou do seu fusca verde, e viu Sophia lá, usando-o como abrigo. O destino da cadela não poderia ser diferente. No mesmo dia, ela já fazia parte da família. O segundo felino a entrar para o grupo foi a gata Dara. Ela “sobrou” de uma feirinha, foi levada à casa da Mari para aguardar a adoção, foi ficando e conquistando um lugarzinho no lar. Já a vira-lata Violeta, extremamente dócil e muito longe dos padrões de beleza definidos pela sociedade para um cão, como descreve Mari, vivia num abrigo, onde era maltratada pelos outros animais. Ela sofreu agressões e ainda foi acometida pela cinomose canina - virose que ataca o sistema nervoso central e pode até resultar na paralisia dos membros. A sequela da doença, aliada à sua beleza incompreendida, fizeram com que ela fosse levada a várias feirinhas de adoção, mas nunca encontrasse um lar. Por isso, o destino foi o mesmo dos demais bichanos já citados: a casa de Mari. Além dos moradores atuais, muitos foram os animais que já passaram pela “Hospedaria da Mari”. A protetora dos bichos desabafa com indignação seu desprezo pelas pessoas que os abandonam ou os maltratam. Para ela, o principal motivo que leva os seres humanos a agirem dessa maneira é a ignorância. - Ninguém é obrigado a ter um animal de estimação, mas se tem, é obrigado a cuidar dele. Também não é incomum ver pessoas que maltratam animais por pura maldade. Pra mim, esse tipo de pessoa não merece estar viva.

Mari Baldissera

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- Acho que o voluntariado evoluiu muito nos últimos anos. Cada vez mais pessoas estão doando o seu tempo em prol das coisas que acreditam, mas ainda há um longo caminho. Um estudo realizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, em 2006, revelou que 23% dos brasileiros se dedicam a ações voluntárias. O crescimento do voluntariado corporativo também é uma estatística apresentada pela Pesquisa Perfil do Voluntariado. A pesquisa mostra que o crescimento de empresas que investiam mais de R$ 200 mil reais em voluntariado foi de 19%, em 2007, para 36%, em 2010. O voluntariado é um contrassenso importante: ao mesmo tempo em que muitas pessoas se tornam cada vez mais individualistas, por causa da própria dinâmica do mundo, outras tantas estão aprendendo que doar um pouco do que têm: seja tempo, dinheiro ou conhecimento que contribuem para formar uma sociedade mais justa e humanitária. Hoje, apesar de não desempenhar mais o voluntariado em grupo, o espírito de ajudar o próximo permanece vivo. Ela ainda realiza ações para os animais que vivem na rua, abriga os que são abandonados na porta de sua casa, divulga os trabalhos de outras pessoas e organizações e, acima de tudo, propaga seus valores e a importância do respeito a todos os seres. Se perguntar a ela o porquê de tanta dedicação aos animais, a resposta é tão sincera que é dita de maneira automática. - É o caminho para melhorar o todo. E, no voluntariado, quanto mais você dá, mais você ganha.


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O idoso também precisa de atenção Alex Sandro dos Santos

Em Chapecó, já é possível constatar a existência de creches; hospitais; instituições que atendem pessoas especiais; de defesa aos idosos; aos menos favorecidos; aos animais. Todas trabalham na forma de parcerias, recebendo apoio do poder público, das igrejas, do comércio local e da sociedade como um todo. Dentre estes está o trabalho desenvolvido no Centro de Convivência do Idoso de Chapecó (CCI) – um exemplo de solidariedade. O programa tem como objetivo atender pessoas em situação de risco social, sem moradia ou abandono familiar. Fundado em 20 de junho de 1972 e inaugurado em 21 de outubro de 1990, presta serviços aos que na melhor idade não possuem respaldo familiar. Segundo a assistente social Isalete dos Santos, coordenadora do programa, todos internados recebem atenção necessária e cuidados especiais

Alex Sandro dos Santos

Com entusiasmo e um belo sorriso, Luciana Falcão é um exemplo entre os voluntários chapecoenses. Já há seis anos vem desenvolvendo trabalho junto àqueles que na melhor idade vivenciam seus últimos dias, muitas vezes esquecidos pela sociedade. Funcionária da Justiça Federal, reserva seus sábados e finais de semana em prol dos idosos. A estratégia da jovem tem sido da atenção e carinho com ensaio de teatros, canções e um papo descontraído. Atualmente existem diversas organizações que se utilizam do trabalho voluntário de milhares de pessoas, não só no Brasil como em todo mundo. Bons exemplos de organizações internacionais são a Cruz Vermelha e o Rotary Internacional. Ambos agem sem fins lucrativos, capaz de colaborar com programas já existentes e estimular o surgimento de novas iniciativas para que haja cada vez mais voluntários.

Atividades em grupo levam mais alegria aos idosos

de pessoas capacitadas para seu bem estar, além de acompanhamento afetivo e psicológico. Um programa levantado para possibilitar esperança de vida aos que ali vivem. A instituição tem capacidade para atender 18 idosos internos e quatro semiinternos, de ambos os sexos. Atualmente atende 15 pessoas, sendo oito mulheres e seis homens, e uma idosa semi-interna. Os internos são selecionados pela assistente social da Fundação de Assistência Social de Chapecó (FASC) Devem possuir idade acima de 60 anos, estar em situação de risco social e pessoal, sem moradia ou abandono familiar. O programa é mantido por doações de entidades sociais, privadas, da comunidade e por recursos direcionados pelo poder público. As despesas do programa recebem incentivo financeiro do Lions Clube através de recursos adquiridos em promoções. O centro recebe também muitas doações voluntárias da comunidade e doações fixas mensais disponibilizadas por empresas em prol do programa. Os idosos internados recebem aposentadoria e têm 50% de sua arrecadação retida nos caixas do programa, outros 50% são gastos com cuidados pessoais. Os internos contam com convênio da Unimed, onde recebem exames e consultas médicas quando necessário. E em parceria com a universidade Unochapecó, estudantes de fisioterapia vão até o CCI uma vez por semana para desenvolver exercícios e atividades com os internos. Eles desenvolvem atividades artísticas, culturais, esportivas e de laser. Além disso, os idosos têm permissão para sair do centro para lazer e religião, sempre acompanhada de responsáveis do centro de convívio. O trabalho voluntário torna-se expressivo quando voltado ao idoso. Diante dele surgirá logo uma pergunta: o que haverá por detrás daquele olhar de quem quer mais do que uma conversa desatenta? Mãos calejadas pelo tempo, olhos embaçados e roupas simples,


Alex Sandro dos Santos

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Além de familiares e amigos, visitas são feitas por pessoas desconhecidas que se dedicam ao vonlutariado Vicente Valkoski expressa um passado de muitas histórias. Mora no local há seis anos e afirma: - O local é muito bom de si viver. Seu amigo e companheiro na roda de chimarrão, Enio Roose diz ter passado por várias casas de recuperação e, hoje, aos 71 anos de idade, está feliz por receber auxilio da instituição. Os dois amigos trazem consigo histórias do passado bem guardadas em sua mente. Seus olhar inquietante lembra a vulnerabilidade de uma criança sem proteção e faz com que nós venhamos refletir sobre nossas ações. Desde 1985, a Organizações Unidas instituiu o dia 05 de dezembro como o Dia Internacional do Voluntariado. O objetivo da ONU é fazer com que, ao redor do mundo, sejam promovidas ações de voluntariado em todas as áreas da sociedade, uma data de conscientização social. Existe o questionamento de que vale ser voluntário. - Ser voluntária é um ganho! ganho de vida, ganho de amor! Postura de vida que nos aproxima de Deus – comenta Luciana, responsável pelo departamento da terceira idade no Ministério Fé para as Nações

Sua dedicação assídua ao grupo de idosos no CCI percorrem longos seis anos. Ela diz estar feliz em poder ajudar e junto ao ministério que congrega realiza esta ação voluntariamente, pois acredita que isto a aproxima mais de Deus. Ser voluntário é uma via de mão dupla, onde você se doa e recebe alegria, realização pessoal e um grande amadurecimento de vida. O espírito voluntário promove o crescimento pessoal do indivíduo, propiciandolhe a aquisição de habilidades e conhecimentos, ajudando-o no desenvolvimento de seu potencial, ao participar na resolução de seus próprios problemas. Uma nova maneira de se enfrentar a vida. - Voluntariado é o compartilhamento daquilo que se tem de mais precioso: o amor – opina Marines Tessaro, acadêmica do curso técnico em enfermagem A opinião de Marines demonstra que ser voluntário é poder ajudar ao próximo e colaborar na qualidade de vida da comunidade. O voluntariado ajuda quem precisa contribuindo para um mundo mais justo e mais solidário. Por meio da diferença igualitária,

muitos ainda sofrem sendo alvos dos problemas sociais. O desemprego, a falta de moradia, saúde e educação, tem oprimido famílias em favelas e submundos. Estes como agentes despertam o espírito de voluntariedade em profissionais voltados ao bem do próximo. Neste cenário surgem atores sociais, verdadeiros heróis, que lutam por políticas justas de respeito ás liberdades. Assim sendo, o voluntariado promove a transformação social do povo que sofre no reflexo do subdesenvolvimento. O voluntariado, sempre presente na tradição brasileira, atravessa gerações como agente de transformação. Historicamente restrito ao ambiente religioso, motivado por valores de caridade e amor ao próximo, hoje está associado ao exercício da cidadania. No conceito atual, voluntário é aquele que movido por uma ética de solidariedade doa seu tempo, trabalho e talento para causas de interesse social e comunitário. Que a sociedade se conscientize com o exemplo de Luciana e repense suas ações com o próximo.


Gesélio Catalan

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Os anjos moram ao lado Gesélio Catalan e Paulo Vargas

Quando as pessoas necessitam de ajuda e pedem auxílio aos céus, muitas vezes são os anjos que aparecem. Rogar por outros santos e serem atendidas pelas Marias, Bernardetes, Arletes, Anas, Brunas, Fátimas, Clacis, Édias e os Valdomiros, também são dádivas de Deus. São estes e mais de 300 voluntários anônimos que formam a Avhro-Associação dos Voluntários do Hospital Regional do Oeste. Eles se reúnem de segunda às sextasfeiras, durante o período da tarde até quase às 18 horas. O local é muito próximo do hospital e ocupa um andar inteiro de um pequeno prédio na cor verde. Percebendo a necessidade de apoio voluntário da comunidade a Associação ganhou vida há quase dez anos, quando algumas mulheres criaram o primeiro grupo de voluntariado num momento em que o Hospital Regional do Oeste passava por dificuldades. A iniciativa ganhou dimensões até então inimagináveis, conta a integrante da atual diretoria e voluntária Maria das Graças. Atualmente nem todos os voluntários vão até a sede para prestar o serviço.

- Há pessoas que trabalham em casa e produzem objetos em tricô e crochê. Nos bairros com habitantes em situação de extrema pobreza, são feitas entregas de alimentos. E outros no próprio hospital, em atendimento à família quando o paciente é internado. E também nas atividades lúdicas com as crianças hospitalizadas – relata Maria. Quem não imagina o que poderá encontrar ao subir as escadarias, vai se deparar com um ambiente de alegria e camaradagem. As conversas são diversas e muitas reações, inclusive risos, que se misturam nos descontraídos bate-papos. Ao chegar ao corredor de circulação dos apartamentos a iluminação é natural, através de longas janelas envidraçadas. Na sala frontal, compõe a recepção uma pequena mesa e cadeiras com os assentos empalhados, iguais aos móveis de muitas casas dos antigos moradores da região. Na mesma sala outros móveis são usados para a embalagem dos produtos confeccionados. Já em outro ambiente, na sala de costura que leva o nome de Vilma da Silva, uma

das pioneiras da entidade, a tarefa é alinhar cuidadosamente as peças de tecido que serão reaproveitados. Sentada à máquina de costurar está Arlete, senhora de olhar leve e carismático, próprio de pessoa do bem, voluntária nas horas que destina para a Associação. Ao relatar o sentimento do serviço prestado, ela confessa: - Aqui cada um faz um pouquinho e no final se tem um belo resultado. O som da máquina de costura é como uma locomotiva que percorre o pano, do simples modelo à peça pronta que terá muita utilidade. Faz também a satisfação e o dever cumprido da simpática e atenciosa Ana. Tanto ela como Arlete ingressaram há poucos dias na instituição, e afirmam que pretendem ajudar sempre. - Estive pensando em me ocupar com alguma atividade resolvi ajudar o próximo e dessa forma encontrei a Associação. O que fizemos aqui é muito gratificante – conta Ana. Em outra linha de produção, o casal Valdomiro e Claci, empresários na cidade


alimentos, amor e afeto para os que realmente precisam. Naquela tarde de Quinta-feira Santa, o grupo organizou o lanche compartilhado. Cada um levou um prato. Sucos, pães, bolachas e gróstolis, guloseima típica da região. As geleias recheavam a mesa para o encontro da semana que antecedia a Páscoa. Um momento de “ressurreição” que alimenta ainda mais o espírito de união dos anjos anônimos que buscam fazer o bem. Enquanto as iguarias eram servidas, a presidente repassava informações decorridas na reunião com a diretoria. Todas tiveram a oportunidade de questionar e opinar sobre os assuntos. Os preparativos das comemorações dos 10 anos da entidade, no dia 6 de julho deste ano, foram os mais comentados. Enquanto isso no mesmo espaço que estava sendo servido o lanche, no corredor principal do andar do prédio, surgiu Gironimo Pigozzo, 66 anos. Ele é motorista de uma cooperativa na cidade de Palmitos e viera buscar uma cesta básica para entregar ao amigo Albino Lunardelli, paciente do hospital, que se reabilita em casa. Periodicamente o paciente recebe esse auxílio da Associação. - Eu venho seguido buscar a cesta, isso ajuda muito a família do Albino, isto é muito bom! – comenta o motorista, posicionado em pé diante da porta que dá entrada à recepção, com os produtos acondicionados numa embalagem plástica transparente seguros pela

Gesélio Catalan

e integrantes de um tradicional clube de serviço, encontram ainda tempo para cooperar. Eles caprichosamente preparam a mesa de corte para a confecção de fraldas e absorventes que são destinadas as pessoas carentes internadas no Hospital. Ponto a ponto, a linha de costura dá forma ao trabalho voluntário de todos. Isso é compensado na esperança de quem verdadeiramente necessita. No olhar atento ao corte do tecido, uma vez ajustado, é conferido novamente e segue para a máquina especial doada pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários. Do segundo andar do prédio nos altos do bairro Santa Maria, avista-se a dupla de torres da Catedral Santo Antonio, de onde nos momentos de fé e reflexão são invocados os pedidos para a materialização do sonho da construção da sede própria. - O hospital paga o aluguel das salas para nós trabalharmos. Estamos em busca de viabilidade da nossa sede e já providenciamos os projetos pra ver se conseguimos. Se Deus quiser, não vai demorar muito – conta Maria das Graças, com um olhar de esperança. Esperança essa que é passada em cada novo artigo produzido pelas mãos e bom senso desses que se dedicam em ajudar o próximo. Esperança que os pacientes recebem através de cada peça elaborada. Como disse Aristóteles, “a esperança é o sonho do homem acordado”. E acordados estão as crianças, idosos, pessoas especiais, moradores de rua, jovens, velhos, todos carentes e num só clamor: a voz do agradecimento para aqueles que usam do seu tempo para produzir roupas,

Gesélio Catalan

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mão, enquanto a secretária providenciava o documento para registrar a entrega. A movimentação dos voluntários entre as salas é como se estivessem em casa. O trajeto mais percorrido é o da sala de costuras ao depósito de kits de roupas infantis já embaladas. Enquanto uns selecionam produtos na cozinha para compor as cestas básicas que serão distribuídas nos bairros onde existem os programas da própria Associação, outros transportam os lanches até os veículos que serão levados ao bairro Bom Pastor. Lá, seria comemorada a Páscoa, com as crianças do Projeto Amigos da Natureza. O tamanho da bondade dos voluntários da Avhro vai além do entusiasmo. Ela reflete na produção anual de 32 mil unidades de fraldas infantis, geriátricas e absorventes. Por mês são produzidos três mil pijamas, 350 enxovais e mil kits de higiene, além de 100 cestas básicas que correspondem a 25 toneladas de alimento no ano. Somente a contribuição da comunidade não basta para a aquisição da matéria prima necessária à produção, por isso a entidade promove dois eventos anuais para fins de adquirir fundos e viabilizar a compra do material. Por isso a participação de outras organizações é relevante para a continuidade das ações. Basta ligar para (49) 3321-6500. Porque um simples ato de doação representa muito para quem nada tem.


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O ensino nos malabares Augusto Zeiser

Augusto Zeiser

O que passa em sua cabeça quando, dentro do seu carro, parado no semáforo, vê uma pessoa fazendo malabares na rua? Porque ele está ali? Para mendigar, conseguir alguns trocados para comprar comida ou droga? Nem sempre! A realidade é verdadeira e o estereótipo de que quem está no semáforo apenas está ali por não ter opção. Porque precisa estar ali para suprir necessidades básicas ou vícios. Esta mesma realidade também pode mostrar outras faces. O malabarismo tem sua origem na antiguidade, por volta de 4000 a.c., no Egito antigo. Na grécia antiga, por volta dos séculos IV e V a.c., surgem malabaristas pintados em vasos ou esculpidos em cerâmica. Mas foi no Império Romano que foi concretizado como uma arte. O malabarismo virou forma de recreação, usada em feiras e espatáculos nas arenas. Igor Renee Abe Lagos, brasileiro, mas filho de mãe japonesa e pai chileno, mora há um ano em Chapecó e é malabarista de sinal. Ao contrário de outros, ele não está ali mendigando, está trabalhando. - Para mim é uma troca, eu apresento a minha arte, passo meu chapéu sem pedir nada, se a pessoa gostou ela contribui com o que achar direito – explica. Lagos faz diversos tipos de malabarismos, com claves, bolinhas, de contato, além de slackline, monociclo e perna de pau. Natural de

São Paulo, é malabarista há 10 anos. Conta que com 18 anos largou os estudos e decidiu entrar nessa profissão. A inspiração veio devido aos inúmeros Argentinos que no começo da década passada, influenciados pela crise econômica que atingiu o país vizinho, foram morar em São Paulo e tinham como profissão o malabarismo em sinal. Na capital paulista também começou a dar aula de malabares e se orgulha quando fala de antigos alunos. - Cinco alunos meus de São Bernardo estão no Cirque Du Soleil, e o Anderson da Silva, considerado o melhor malabarista do Brasil, também aprendeu comigo – orgulha-se. Com uma mochila nas costas e fazendo malabares em sinal, ele já conheceu quase todo o Brasil. - Só não visitei o Amazonas, Amapá, Acre, Rondônia e Roraima – conta. Segundo ele, a locomoção nesses locais é mais difícil pois em muitos lugares se chega apenas de barco, mas ele traça uma meta. - Até os 30 anos quero conhecer todos, hoje tenho quase 29. Lagos demonstra grande respeito pelo lugar onde desempenha sua profissão. - Eu não gosto de gente fumando cigarro perto de mim, ali é como se fosse meu escritório. Se algum carro joga bituca fora eu vou lá, ajunto e falo pra ele: “acho que caiu da sua mão. Você não gostaria que eu jogasse um cigarro no chão do seu escritório?

Quando chegou em Chapecó, Lagos sentiu uma carência de espaços e oportunidades para ensinar malabares. Ele, assim como muitos outros, reclamava dessa situação e não fazia nada para muda-la. Decidiu então elaborar um projeto para se tornar professor de malabares na cidade e apresentá-lo para a Fundação Cultural de Chapecó. - Nunca ninguém tinha elaborado algo assim aqui na cidade. O primeiro foi recusado, mas o segundo foi aceito. Nesse, Lagos se dispôs a trabalhar mais horas e a Prefeitura teria apenas que emprestar uma caixa de som e ceder algum espaço público para serem realizadas as atividades. - Ano passado consegui aprovar o projeto e a prefeitura cedeu um espaço no Ecoparque e uma caixa de som Como 2012 é ano eleitoral, esse ano ele conta apenas com o espaço no Ecoparque e não mais com a caixa de som. O início do projeto era voltado para pessoas mais alternativas e que procuravam uma nova forma de entretenimento. Mas logo Lagos viu que o foco teria que ser outro. - Eu vi que as crianças estavam interessadas em aprender e me voltei para elas. Ele sente que aqui em Chapecó parece haver um certo receio de aproximação nas pessoas. - Aqui você tem que ser apresentado para a pessoa, quando ela poderia simplesmente chegar e dizer: oi!. Com educação e grande didática, Lagos vem a cada domingo conquistando cada vez mais pequenos malabaristas. As práticas circenses são passadas às crianças de forma simples e segura. Ele faz questão de acompanhar de perto as atividades que as crianças estão desempenhando até mesmo para garantir segurança a elas. Os objetivos de Lagos não são poucos. - A ideia é formar uma escola aqui – revela. Segundo ele, precisa apenas que a prefeitura compre os materiais e ceda o espaço. Ele não faz questão de ganhar por isso. Lagos espera repetir aqui algumas coisas que conseguiu em São Paulo, como ajudar jovens a se livrar das drogas. Esse ano Lagos também pretende a ensinar monociclo, voltado para corridas. - É um novo esporte e eu espero difundi-lo aqui em Chapecó. Apesar das dificuldades que vem enfrentando no Oeste Catarinense, Lagos se sente realizado em desenvolver essa atividade e pretende levá-la adiante para outros chapecoenses.


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Uma voz no escuro Quando criança, ela costumava sentar-se ao chão depois de trazer para dentro de casa pedaços de galho para enfeitar o pinheiro improvisado para a ceia de natal. Um exemplo de criatividade que a incorporaria ainda mais na fase adulta. Arteira, costumava fugir para os bailes da cidade como a grande maioria das moças da sua idade. Namoros proibidos não a intimidavam. Esperta, era destaque entre os alunos da escola. Sua inteligência e altruísmo faziam com que ela sentasse junto aos colegas para ajudar aqueles que aparentavam dificuldades no ensino. Efeito disso foi o casamento que veio a acontecer justamente com um dos colegas que orientara. Prestes a casar-se, Leonir Ranzi descobriu estar com a meningite. Beirava seus vinte e poucos anos quando levou uma rasteira do destino. Viveu duas semanas agonizantes deixando a família e os irmãos em pânico. Os sintomas se rebelavam em crise de ataque epilético, sendo necessários sete homens para segura-la até sua consciência voltar ao normal. Era domingo quando sua mãe, Antônia, ganhara Luciane, a irmã caçula. Na segunda-feira do dia seguinte, seu outro irmão, Lucinei, na época com três anos, apresentava sinais da meningite. Vendo-se em apuros, foi acompanhar sua família no hospital. Sua mãe, ainda sob recuperação do parto, dividia o hospital com os filhos. Na época, o médico havia proibido o contato com os infectados, mas não foi o que aconteceu. Havia mais um dos filhos de Antônia infectado pela meningite. Depois de a família enfrentar a batalha para salvar as crianças, chega a autorização do médico para que o irmão Lucinei e a irmã mais velha passassem a se recuperar da em casa, depois de quase dois meses no hospital. Mas a sorte não tinha ido ao encontro da sua mãe. - Meu bebê estava com a barriga inchada, chamei o médico e ele disse que só rezando, pois minha filha não viveria, recorda a mãe Antônia. Paira-se no ar a revolta e a incompreensão pelo fato de o bebê da Antônia ter sido vítima de erro médico ao ter recebido soro e uma mamadeira oferecida a Luciane. A irmã caçula, que havia sido parida naquele domingo, hoje é cadeirante. Igual a todos os outros, ela vive uma vida repleta de alegria. - Não tenho do que me queixar, sou muito feliz assim do jeito que sou – relata a irmã Luciane.

Volta por cima e o voluntariado

Hoje Leonir está recuperada da meningite. Especializou-se em educação especial e deficiência visual, e é professora em uma faculdade em Itapiranga, no Oeste de Santa Catarina. Mulher de estatura baixa, cabelos escuros, pele morena, sorriso discreto, é a mais velha dos 12 filhos de Antônia e Osvaldo Werner. - Ela é um herói – diz a mãe Antônia. Com passos curtos, Leonir Ranzi sorri por onde passa, dificilmente está sem uma pasta ou material entre os braços. Seu percurso ao

Acácia Sehenm

Acácia Sehenm

sair de casa cedo para o trabalho à leva em direção a Galeria Biduski, localizada na cidade de Maravilha, no Extremo Oeste Catarinense. É neste lugar que a professora passa seus dias dedicando-se ao ofício de educadora, no escritório conhecido como O Cantinho de Estudos. Uma sala comercial diferente de todas as outras da Galeria. A sala divide-se em três ambientes. Já na entrada do escritório, é possível sentir tranqüilidade e aconchego. O lugar é o espaço destinado à Terapia de Casal, área da qual a professora também é capacitada e para as aulas de reforço. Nos fundos da sala comercial, uma mesa e um computador junto às almofadas e as mesas brancas com inúmeras canetas e papéis. O Cantinho de Estudos é resultado do trabalhado voluntário de Leonir com crianças que sofrem de TDH (Déficit de Atenção), baixa visão, deficiência mental e visual. - As crianças que aqui passaram apresentavam todo tipo de preconceito, chegavam com muito medo, desorientados, sem avaliação concreta da sua dificuldade, da sua deficiência. Eu já consegui levar um aluno para a Associação Catarinense para Integração do Cego (Acic), com sede em Florianópolis – comenta Leonir. A alfabetização dos alunos com deficiência é exercida com a criatividade da professora, que confecciona ferramentas de trabalho com calendário feito de retalho e restos de materiais, fita métrica, lupa, caixinha de medicamentos vazios, régua, alfabeto e historinhas em alto relevo – todos criados a mão por ela e trabalhados através método Braille. - Desde pequena ela vivia com trapos de panos, tesoura, tinta, papel para lá e para cá – lembra a mãe. Nas aulas realizadas no Cantinho de Estudo, é exigido dos alunos o interesse pelo conhecimento tátil dos objetos a sua volta, muitas vezes não aceito por eles por estarem vivendo uma alfabetização diferente.

- Depois do aluno se adaptar aos métodos de ensino aprendizagem, compreendendo a sua forma, tamanho e o contorno dos objetos, passam para a fase onde eles interagem com jogos que ajudam a diferenciar, comparar e associar formas de dificuldades crescentes e de diferentes tamanhos – explica a professora. Dentre todos os casos de crianças portadoras de alguma deficiência que a professora alfabetizou, está o caso dos pais da menina que com um ano e dois meses de idade. Eles passaram a observar que os olhos da criança estavam estranhos, como se balançassem muito horizontalmente. Outras pessoas também passaram a assinalar que ela olhava muito na altura dos joelhos, e não no rosto. Algo de anormal estava acontecendo. Até que num dia comum, enquanto almoçavam, a mãe da criança levantou-se da mesa e a menina indagou sobre quem havia se retirado da mesa: ela realmente apresentava dificuldade na visão. Ela estava com uma doença rara e grave e ainda hoje pouco conhecida: a Osteopetrose. - Na maioria das vezes o pai e a mãe não sabem, e quando sabem é uma informação muito empírica, superficial da avaliação – desabafa Leonir. Depois de uma vida superando obstáculos, a vida de Leonir completa-se com o Cantinho de Estudos. No Brasil e no mundo são poucas as pessoas que se especializam nessa área de especialização do método Braille. O sistema ou método de ensino Braille foi criado para a leitura com o tato dos dedos para cego inventado pelo francês Louis Braille, no ano de 1827, em Paris. O sistema de Braille aproveita-se da sensibilidade epicritica do ser humano, a capacidade de distinguir na polpa digital pequenas diferenças de posicionamento entre dois pontos diferentes. Um cego experiente pode ler 200 palavras por minuto. - Minha filha nunca disse um “não” para alguém – explica, orgulhosa, a mãe de Leonir. Inclusive para si mesma!!!!


Por mais 24 horas de sobriedade! Gilberto Bortese e Marcelo Fassbinder

Está na simplicidade, na união e na força de vontade de cada integrante o segredo do Grupo de Alcoólicos Anônimos Nova Vida, da pequena cidade de Nova Erechim, no Oeste de Santa Catarina. Respeitamos as regras que norteiam as organizações de alcoólicos anônimos no mundo e divulgamos apenas as iniciais dos integrantes entrevistados. Nos encontros quinzenais, os cinco membros dão exemplo de superação. Participamos de uma dessas reuniões para observar de perto o trabalho desses ex-alcoólatras que buscam, através da força de vontade e do apoio de familiares, mais 24 horas de sobriedade. Esse é o lema e o tema do grupo. A justificativa para o baixo número de participantes do grupo, que já teve 15 membros, vem logo no início da conversa. - Muitos companheiros caíram na tentação e voltaram a beber – disse o integrante do grupo A.D.C., 65 anos. Os integrantes contam que sabem de vários casos no município de pessoas que estão dependentes do álcool, mas que não participam das reuniões da organização. Mostrando um pouco de humor, A.D.C. contou uma pequena história de vida em uma cidade vizinha. Ele relatou nada mais do que uma verdade que é constante. - Um companheiro que foi para a clínica de recuperação voltou e começou a beber novamente. Quando foi perguntado porque ele estava bebendo, com muita ironia disse que era pra comemorar a recuperação. Conforme a secretaria de Saúde de Nova Erechim, existem vagas e recursos financeiros públicos para o tratamento em clínicas da região. Porém, as pessoas não buscam ou não querem ajuda. Ao abrir a reunião, o coordenador convidou a todos para fazer a oração da serenidade, assim como em todas as reuniões. Integrantes e convidados se colocam de pé para fazer a oração que pede proteção divina para que os membros não caiam na tentação de ingerir bebidas alcoólicas novamente. Logo após, um comentário na pequena sala, porém aconchegante, mostra que além de tudo, a fé por Deus é grande entre os participantes. - Quem abandona Deus, será da mesma forma, abandonado por ele, disse um dos participantes. A.D.C. é um dos fundadores da entidade e está há 12 anos pedindo a cada dia mais 24 horas de sobriedade. Não soube responder exatamente, mas acredita que por 20 anos foi dependente da bebida alcoólica e enfatiza que o grupo foi a sua salvação. Acompanhado pela esposa, que preparou o chimarrão aos presentes, A.D.C. lembrou que o apoio da família é fundamental na recuperação. - Acredito que a minha família está mais contente que eu mesmo pela minha recuperação. Era uma guerra – resume A.D.C., referindo-se aos tempos de dependente. Com muita humildade, ele relata os momentos difíceis vividos naquele período e fica com a voz tremula ao contar sobre a relação com a família.

Gilberto Bortese

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Disse que o desprezo dos filhos era grande, e que a esposa estava desanimada. Ele mesmo poderia estar prejudicando a própria saúde. - Estava tudo fora do lugar, eu não tinha horário pra nada. Hoje mudou cem por cento. Estou vivendo novamente. Quando parei de beber, vi que minha família e a assistente social do município queriam me ajudar mesmo e tinham razão em tudo o que falavam. Conforme informações do próprio grupo Nova Vida, o alcoólico nunca admite que está viciado. Este é um dos principais problemas enfrentados para a recuperação: o convencimento do alcoólatra. - Todos bebem socialmente – ironiza A.D.C. Além de estar satisfeito pela sua recuperação, ele mostra alegria ao comentar que está ajudando os companheiros de grupo. O trabalho voluntário é de todos. Todos ouvem dicas, conselhos e histórias para continuarem sóbrios. - Nas nossas reuniões, a gente recarrega a bateria pra semana. Ele nos relatou ainda que passou a ser discriminado nos tempos de dependente. - Quando eu chegava em um bar pra jogar um baralho, numa festa ou numa roda de amigos, eu percebi que as pessoas não queriam estar perto da gente. Essa é a realidade dos alcoólatras. Hoje percebo como eu era. Na época não imaginava que incomodava as pessoas. Achava sempre que eu estava correto, mas a realidade era outra. Quem está bêbado fala várias vezes a mesma coisa, tem sempre razão. Muitos acabam ficando agressivos, o que acaba afastando as outras pessoas. Diferentemente de A.D.C., o integrante D.O. nos contou que a decisão de se tratar foi dele próprio. - Quando eu vi que já não tinha mais o controle da bebida, eu optei por buscar ajuda. Eu chamei a família da minha mulher pra ajudar no serviço porque eu queria me tratar. O amor pela família é evidente entre os alcoólicos anônimos do grupo Nova Vida. D.O. estava acompanhado do filho na reunião e, por uns minutos, interrompeu a entrevista para falar com a esposa que já estava preocupada com o horário adiantado. Então ele explicou que

estava conversando conosco e prosseguimos com a conversa. Num outro ponto importante da entrevista, D.O. nos contou sobre a importância de participar do Nova Vida. - No momento que eu voltei da clínica, não estava entendendo direito o que estava acontecendo. Assim como qualquer outro paciente, eu também fiquei meio fora de si. Foi aí que apareceu o grupo Nova Vida. Quando ingressei, comecei a entender o que estava ocorrendo. Por isso acho que é fundamental para um dependente participar do grupo após o tratamento. Aqui nos ajudamos, aprendemos e repassamos coisas boas. Mais do que um grupo contra o alcoolismo, o grupo Nova Vida é uma família. O respeito e a atenção de um para com o outro são pontos marcantes para quem conhece o trabalho realizado por eles. Os encontros são basicamente marcados pelo bate-papo descontraído entre os membros, mas também é bastante perceptível o envolvimento religioso como objetos de forças de cada um por mais 24 horas de sobriedade. Mas o trabalho do grupo muitas vezes encontra barreiras, muitas delas vindas dos próprios “amigos”. E esse motivo fez com que muitos retornassem ao vício. A.D.C. comenta com certa tristeza que muitos falam: “não precisa participar desse grupo, é só se cuidar com a bebida”. Mas esse cuidado nem sempre é possível sozinho. Por isso ele destaca novamente o papel importante dos alcoólicos anônimos, ao reforçar também que o dependente de álcool deve aceitar que precisa de ajuda, caso contrário os encontros não servirão para nada. - Algumas visitas em casas são feitas, agora com menos freqüência que antes. Já teve casos em que a família pediu para irmos embora porque o dependente não aceitava sua condição e poderia ser até agressivo. O certo é que o grupo segue na busca por mais 24 horas de sobriedade Uma batalha vencida a cada dia; uma busca incessante não só para não beber, mas também para manter a família unida. Um esforço que vale a pena, e que essas pessoas mostram ser possível fazê-lo.


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Um voluntário armado

Chapecoense, que virou soldado americano, fala sobre a atual situação dos Estados Unidos, o medo de um novo ataque terrorista e as experiências vividas no Afeganistão Luan Vosnhak

Chapecó – Era uma terça-feira de sol para os moradores de Nova York. A data, 11 de setembro de 2001, poderia passar despercebida para as oito milhões de pessoas que vivem na cidade mais populosa dos Estados Unidos. Muitos ainda seguiam para o trabalho, outros estavam em suas casas quando tudo aconteceu. As 8h46 colidia, contra a torre norte do World Trade Center, o primeiro avião que faria o trajeto Boston/Los Angeles. Aproximadamente 15 minutos depois, outro avião se chocava contra a torre Sul. Distante dali, o brasileiro Alexandre Danielli se preparava para, dois anos depois, arrumar as malas e se tornar soldado americano. Nascido em Chapecó, Alexandre esteve envolvido, desde cedo, em movimentos estudantis no ensino médio. Conforme ele, embora nunca estar filiado a partido nenhum, aprendeu com a “esquerda” política, entre 1997 a 2000, a nunca desistir de seus sonhos. Boa parte da família vive hoje nos municípios de Xanxerê, Chapecó e Joaçaba. Ainda em 1999, Alexandre estudou no Instituto Adventista Cruzeiro do Sul (IACS), na cidade gaúcha de Taquara. Após viver por um bom tempo em Joaçaba, Alexandre partiu para os Estados Unidos em março de 2003. Foram cinco anos de um rigoroso processo seletivo e 18 meses de treinamento para, finalmente, fazer parte do grupo Marine Corps, o Corpo de Fuzileiros Navais americano. Atualmente ele é lance corporal, ou a mesma hierarquia de um cabo no Brasil.

servir o país seria uma ótima oportunidade para realizar meu sonho”, comenta. Pergunto para Alexandre porque ser um fuzileiro americano e não um soldado brasileiro. A resposta é rápida: - Para ser soldado no Brasil você precisa ter 18 anos, uma boa estatura e torcer para ser chamado, pois as vagas são poucas. Outro ponto ressaltado é a baixa remuneração e os poucos benefícios, se comparados a um soldado americano. “Aqui somos tratados como heróis, somos os primeiros a brigar numa guerra. Treinamos por mais de um ano antes de ir a uma base militar”, enfatiza. Na primeira de suas experiências o brasileiro morou, de agosto de 2010 a fevereiro de 2011, nos três estados do Sul do Afeganistão. A região é um dos focos da insurgência talibã contra o governo do presidente Hamid Karzai, apoiado pelos EUA.  Sua missão como diplomata militar era descobrir as necessidades do povo e desenvolver projetos sociais e econômicos com a população. Segundo Alexandre, essa é a única maneira do país afegão ficar auto-sustentável. “Chegava a trabalhar 24 horas por dia, 7 dias na semana, sem folga por 7 meses. Durante esse tempo perdi 3 colegas, um deles pisou numa bomba. Quando tentei salvá-lo já não dava mais tempo, ele havia perdido muito sangue”, relembra.

O sonho transformado em realidade

“O Afeganistão é um ótimo país. Um povo que precisa de ajuda e trata bem as pessoas. Eles não entendem porque outras nações não contribuem com ajuda além dos 35 países membros da OTAN”, diz Alexandre. Para ele, a solução é continuar desenvolvendo projetos sociais e econômicos no país. Alexandre Danielli/Divulgação

“Sempre quis ser político nos EUA. Ainda pequeno fui questionado por uma professora sobre o que queria ser quando crescer. Escrevi em meu trabalho que pretendia ser Senador nos Estados Unidos. Desde que moro aqui há oito anos, aprendi que para ter credibilidade junto aos americanos,

Um brasileiro no Afeganistão

Embora a permanência no Afeganistão já tenha custado  aos EUA a vida de 1.680 militares e o valor de US$ 2 bilhões por semana, ele diz que somente assim  haverá geração de empregos. Conforme Danielli, o terrorismo lá é uma maneira para que as pessoas tenham alternativas para o sustento da família. Em uma de suas ações no Talibã, o soldado contribuiu para que fazendeiros trocassem a plantação de ópio por milho e trigo. Segundo os camponeses, a produção era entregue ao grupo terrorista talibã, cuja principal fonte de renda era o ópio. Alguns dias depois, a equipe de fuzileiros retornou à fazenda e encontrou todos os camponeses mortos. Para ele, o ato foi uma maneira de vingança. Outro fato que sempre vem à mente do brasileiro é a morte de uma mulher em público. “Lá eles fazem o que querem: maltratam, batem ,cortam, e ninguém pode fazer nada, pois tudo é permitido na religião muçulmana. Quando as pessoas entram em desespero por dinheiro, comida, religião, ou qualquer fator relacionado, a probabilidade para cometer crimes é muito maior, não tem outra saída na cabeça deles”. Após ser ferido em combate, Alexandre retornou em março do ano passado para San Diego, Califórnia, onde vive com o filho, Justus, de cinco anos. Por uma questão de segurança, Alexandre prefere não comentar sobre os detalhes de missões militares pelo mundo afora, mas diz que com o crescimento econômico do Brasil e por ser um país de “não muçulmanos”, o Ministério da Defesa brasileiro deve ficar atento, pois o país pode se tornar um novo alvo para ataques terroristas.

Ajuda sem limites

“Quando revejo as imagens de todo esse tempo trabalhando fora penso primeiramente em meu filho, Justus. São tantas histórias de crianças que vivem em condições precárias que, quando estou em outros países onde a situação de vida é deplorável, só consigo pensar em ajudá-las”, diz Alexandre. Conforme Alexandre, não há como delimitar apenas um trabalho voluntário quando um soldado vai para uma ação em outro país. “Você acaba atuando como pai de pessoas desconhecidas, professor de crianças analfabetas e emissor de uma mensagem de paz”.

A volta para casa

Atualmente Alexandre vive em San Diego nos Estados Unidos. Ele divide o tempo entre ações sociais, organizações de eventos beneficentes e a administração da empresa de assessoria política. O soldado foi um dos organizadores do Brazilian Day San Diego, um evento de música onde reuniu cantores e artistas brasileiros com o objetivo de arrecadas alimentos que foram destinados a famílias carentes do Estado.


Berço para gestantes: projeto auxilia futuras mamães Preparativos e ansiedade. Dérique Eduardo virá ao mundo. Após três anos de espera, Solange Machado está na expectativa pelo nascimento do primeiro filho. Desempregada, Solange explica com indignação que perdeu o emprego por ter engravidado. - Eu não estava doente. Estava grávida – disse. Sem muita ocupação durante o dia, Solange sentia a necessidade de atividades para relaxar durante os 9 meses de gestação. - Aqui encontrei a tranqüilidade e paz para aguardar e me preparar para o nascimento do meu filho – afirma a jovem de 25 anos. Esta é a história de uma das mais de 15 mulheres que freqüentam o Berço - Programa criado pela Associação Espírita Nosso Lar, que desenvolve trabalhos com gestantes. Lá, elas recebem atenção: alimentos e aprendem a fazer o próprio enxoval. O Berço foi criado há mais de 30 anos, e atualmente conta com 17 voluntárias que dedicam o seu tempo para desenvolver tarefas sociais de ajuda às gestantes. Uma gravidez altera a rotina, o corpo, a mente e o espaço, pois o bebê que irá nascer precisa de um espaço para crescer e viver. A mãe precisa se alimentar bem e preparar o enxoval para esse novo ser que vem ao mundo. Além de ensinar a fazer o enxoval, o projeto conta com o apoio do Programa Mesa Brasil do Serviço Social do Comércio (Sesc). Trata-se de uma rede nacional de bancos de alimentos contra a fome e o desperdício que oferece frutas e verduras às gestantes. Elas podem levar os produtos para casa e manter uma alimentação balanceada e saudável. Ao chegar ao ambiente, você é recebido por risos. Com o barulho das máquinas de costura, a fala precisa ser mais alta para ser ouvida. As conversas rolam a tarde toda. Na pausa para o lanche, elas são mais acaloradas. A sala é ornamentada por fios coloridos que, conforme o trançado e movimento das mãos se tornam pequenas peças que, logo, logo, estarão vestindo bebês. O processo de ensino não é fácil.

Fernanda Moro

Ananda Buttenbender e Fernanda Moro

O trabalho de ensino artesanal é cuidadosamente passado às futuras mães

Ananda Buttenbender

- Paciência - receita Thaís para uma voluntária. Os primeiros passos de aprendizado do tricô são delicados e precisam de atenção. Com persistência o ponto se acerta. Thaís Pace é uma das voluntárias mais antigas do Berço. Ela explica que o projeto é desenvolvido pela Associação, juntamente com a comunidade. Iniciou o voluntariado em 1999. - Quando me aposentei procurei algo que me completasse e fizesse me sentir útil. Além de ser voluntária, ela também faz parte de uma associação de artesãos de Chapecó. Quando fala do trabalho desenvolvido no Berço, é notável a alegria estampada em seu rosto. Ela conta muitas passagens vividas no espaço. - Muitas vezes as gestantes chegam tristes e acanhadas, com uma história triste para contar, mas o objetivo das voluntárias vai além de ensinálas a fazer roupinhas. É aumentar a auto-estima e levar dignidade à elas. A artesã ressalta que a vivência entre as pessoas é um trabalho de auxilio social. - É gostoso e cansativo, mas vale a pena, diz Thaís. Esse sentimento de voluntariado está no sangue. Afinal, Thaís iniciou os trabalhos no Berço a convite da Mãe, Dona Eleny Olivares Pace, que é voluntária do projeto há 19 anos. - É um espaço que me completa, comenta Eleny, enquanto trança um fio de linha branco continuamente com as mãos, que pouco a pouco forma o desenho de um lindo casaco. - É um presente para meu bisneto que está chegando – sussurra. O trabalho é realizado em conjunto. Ela conta que a neta Descontração marca a realização das atividades. Gabrieli está grávida

de 3 meses e também participa do Berço. Gabrieli explica que chegou até o ambiente por influência da família, e que passar a tarde na companhia de outras gestantes faz bem a ela. A futura mamãe ainda não sabe se o bebê é menino ou menina, mas a avó já tem certeza no palpite. - É um menino, vai se chamar Francisco exclama, com um sorriso vibrante nos lábios. Muitas histórias se misturam na pequena sala de 8 X 8 metros. Em meio a brincadeiras, é impossível passar despercebido a simpatia e o bom humor da Preta, como é conhecida e gosta de ser chamada. Preta é voluntária há 15 anos e inicialmente procurou o Berço porque precisava de ajuda, e hoje se sente feliz em ajudar. - Aqui ajudamos e somos ajudados. Não deixo de vir, eu gosto. Quando ainda trabalhava, Preta falava pro chefe que iria ao psicólogo, mas todas as quintas-feiras ela fazia outro tipo de terapia: seu destino era o Berço. - Gosto tanto das mulheres que conheci aqui que chego a sonhar com elas. Ela salienta que o espaço é riquíssimo em boas histórias, e principalmente no quesito fazer amizades. Nem a distância impede as gestantes de participarem do projeto. Silmara Geib mora no loteamento Expoente e vai até o bairro Santa Maria para participar do Berço. Ela conta que conheceu o espaço através das amigas. Está esperando seu quarto filho e participa do projeto pela segunda vez. - Eu não sabia fazer enxoval e aprendi. Além de ser uma atividade terapêutica e ocupar o tempo, também pode ser uma renda extra – complementa. O ciclo para as futuras mamães se completa em nove meses. Mas o trabalho das voluntárias não. Ele é realizado continuamente e o exemplo é repassado para filhas, sobrinhas e vizinhas, enfim, até a atitude contagiar mais voluntárias. O Berço prolonga seus trabalhos e assim segue o modelo de cooperação social, de portas abertas para as mamães que desejam produzir com as próprias mãos o enxoval para seus filhos.


Passe a Folha - Edição 48