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Orodrigo braga A- um modo de Bver P Numa perspectiva crítica da história da arte brasileira, a relação frictiva entre o homem e o ambiente estabelecida por Rodrigo Braga remete às pinturas Mata reduzida a carvão (ca. 1830) de Félix Émile Taunay e A derrubada (1913) de Pedro Weingartner ou mesmo aos objetos feitos com restos de queimada de Krajcberg. Nenhum dos quatro celebra a destruição ou tem o elogio do progresso na agenda. Há um lamento romântico nos três primeiros, mas não menos efetivo, diante da natureza monumental destruída. Tratam das aflições do sublime nos Trópicos luxuriantes. Rodrigo Braga não representa essa crise. Ao contrário, propõe a própria experiência da crise em situação radical do olhar. A crise, no entanto, está menos na obra e muito mais no modo de recepção da arte. Há perguntas possíveis. O que eu não sei? Quais são as leituras possíveis? O que não está visível para mim e que a obra de arte me desafia a avançar no conhecimento? O que o olhar não enxerga e, portanto, onde encontra seu limite? Arte não é serviço de ecologia nem é a sublimação da perda do Éden original. No entanto, disse Mário Pedrosa, é a maior força contra a entropia. É, então, que a arte pode nos fazer pensar sobre a perda. Essa é sua potencialidade política mais radical. Rodrigo Braga trabalha a relação inconsciente e natureza. É filho de pesquisadores na área de biologia. A ciência da vida está ali, impregnada no grão de seu discurso estético e na afetividade dessas imagens. 2

A agenda da natureza de Rodrigo Braga não é a pauta do óbvio. Ele trabalha com a morte como o fator inexorável da vida. É a partir de estados de abandono e entropia que se deslinda a positividade de sua ação: onde é possível deslocar pulsão de morte para pulsão de vida? O que vejo equivocadamente? Nenhum raciocínio mecânico avança o conhecimento. O que me desassossega em Rodrigo Braga? Este é o lugar do sujeito: estabelecer uma tyché incômoda. Uma passagem de Roland Barthes em A câmara clara define a fotografia como tyché, isto é, como encontro com o real sob a perspectiva de Lacan e aproxima nosso raciocínio simbólico do imaginário Braga. “A fotografia é o Particular absoluto, a Contingência soberana, impenetrável e quase animal (tal foto e não a Foto), em suma, a Tyché, a Ocasião, o Encontro, o Real, em sua infatigável expressão”. O que floresce na Contingência a que nos expõe essa obra que recorre à fotografia para apresentar as ações de Braga? Natureza e arte são instâncias de dádiva. PAULO HERKENHOFF fevereiro de 2011

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Ctexto educativo mamamD

Do corpo à imagem reconstruída: é assim que críticos de arte apontam o trabalho de Rodrigo Braga, que desde 2001, remodela, através de } fotografias digitais, seu próprio corpo. Entre esses trabalhos estão Unha e Carne, 2001, onde o artista une pernas e pés, como siameses; Risco de Desassossego, 2004, no qual ele perfura a pele e insere palitos de fósforo apagados ou acesos; e Fantasia de Compensação, 2004, seu trabalho mais repercutido, em que ele costura à sua cabeça partes da cabeça de um cão rottweiller. Com este trabalho, o artista ganha projeção nacional e participa de diversas exposições e residências artísticas.

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%ver glossário p.12}

Manauara radicado em Pernambuco, Rodrigo Braga nasceu em 1976. No início de sua produção, questionou o uso da tecnologia na criação de realidades, sob o plano da manipulação fotográfica. {

Sal e Prata, 2010. Vídeo 9’20” (HD, 16:9, cor, som), fotografia

Ainda em 2004, o artista abandona a fotomanipulação e passa a realizar e registrar diversas experiências do seu corpo com a natureza.

e manuscrito. (pp. 4-7) residência artística no museu da II Guerra Mundial, In Flanders Fields Museum, na Bélgica. Atualmente, Rodrigo Braga tem obras em coleções de importantes museus do Brasil (MAM-SP, MAM-RJ, MAMAM) e no Maison Européene de La Photographie, em Paris.

Dentre seus vários trabalhos, podemos destacar a série Desejo Eremita, de 2009, produzido durante três meses de morada entre as cidades Solidão e Tabira, ao norte de Pernambuco, a 400km de Recife; e também a série Mais força do que o necessário, 2010, produzida em período de

Conhecido como um artista multimídia, Rodrigo Braga usa a } performance, body art, land art e videoarte. Linguagens contemporâneas surgidas a partir do final da década de 1960, que agregam valor à sua obra, contudo, não são capazes de definir ou conceituar completamente seu trabalho. O artista 9


construiu uma obra significativa ao questionar a intervenção do homem no ambiente natural e a desnaturalização de certas atitudes humanas consideradas naturais. Podemos relacionar a obra de Rodrigo Braga, historicamente, à do artista plástico alemão Joseph Beuys (1921-1986), considerado um dos mais influentes artistas europeus da segunda metade do século XX – também pela participação ativa em questões políticas do meio ambiente. Beuys é assumidamente uma das bases para Braga, desde a graduação em Artes Plásticas, na Universidade Federal de Pernambuco. De forma por vezes chocante e com a própria imagem em foco, ambos questionam a sociedade, seus valores e convenções. Um dos recursos dos dois artistas são os animais. Em I Like America and America Likes Me (Eu gosto da América e a América gosta de mim, 1974), Joseph Beyus realizou uma performance onde conviveu por três dias na galeria René Block, em Nova York, com um coiote, considerado pelos antigos nativos da América um mediador entre os vivos e os mortos. Em ambos os artistas, podemos encontrar uma significação de cada animal geralmente relacionada a sentimentos humanos. Estes sentimentos são variáveis, porém, levando-se em consideração a cultura e localidade de quem vê. Por exemplo, para brasileiros, o cão é tido como melhor amigo do homem e leal companheiro, enquanto que na China ele é consumido como alimento. 10

A leitura proposta por Paulo Herkenhoff, curador da exposição, discute o caráter frictivo na relação do ser humano com o meio ambiente e toma como ponto de partida para esta discussão “a perda”, elemento intrínseco desse duo natural. A obra de Rodrigo Braga cria um atrito entre a ideia de ecologia difundida com os discursos “politicamente corretos” em relação à natureza e as reais práticas culturais e cotidianas com o meio ambiente. Ao mesmo tempo, mostra a relação morte e vida como um ciclo natural e dinâmico da existência de tudo o que é vivo na terra. Muitos dos animais usados pelo artista na exposição nós encontramos em feiras, supermercados etc. Como você lida com a presença destes animais mortos nas fotografias? Quais relações podem ser estabelecidas entre política e arte? O que a arte tem a ver com política? Para quê arte?

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"glossário} FOTOGRAFIA NA ARTE  É no sé-

culo XX que a Arte cria raízes para ousadas e até radicais maneiras de expressão. A fotografia deixa de servir apenas como registro e ganha seu posicionamento artístico a partir desse clima de descobertas, lado a lado com as formas mais tradicionais da Arte. O francês Henri Cartier-Bresson, foi criador da expressão e conceito de “fotografia de autor”. Ou seja, o resultado da arte fotográfica não estava na máquina, mas no olho do fotógrafo que, de forma subjetiva, determina o momento e a captura da realidade ao redor.

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ARTE DIGITAL  Arte digital é

BODY ART  O conceito de body

aquela produzida em ambiente gráfico computacional. Utilizase de processos digitais e virtuais. Inclui experiências com net art, web art e videoarte. Ao contrário dos meios tradicionais, o trabalho é produzido digitalmente, mas a apreciação pode ser feita em ambientes digitais, como computadores e projetores ou em mídias tradicionais, como fotografia, vídeo, papel e outros.

art pode ser genericamente compreendido como “a arte do corpo”. Lida com um rico elemento simbólico: o corpo humano, que toma o lugar da tela e substitui a tinta por fluidos corporais como sangue, suor, saliva etc. Faz forte referência às práticas culturais mais antigas. Chama atenção para a materialidade do corpo, reduzindo a distância entre espectador, artista e obra. LAND ART  A land art, traduzida

PERFORMANCE  Podemos con-

ceituar performance art como uma ação no tempo e no espaço no qual a ação do artista é o próprio objeto da arte, aproximando arte e cotidiano. Geralmente ligada a questões atuais e de caráter ritualístico, na performance art, a relação artística, obra e público, é repensada a partir da incorporação de novas linguagens, como música, teatro, dança, literatura e outros.

como “arte na terra”, surgiu em parte como consequência da expressão de desencanto à sofisticada tecnologia da cultura industrial e também como aumento das preocupações com o meio ambiente; tornando-se forma de protesto contra o lado comercial associado à arte tradicional. Trata-se de obras realizadas ao ar livre utilizando-se da própria natureza para concebê-las, ou seja, é a própria obra de arte elaborada através de sua manipulação. Além de não poder ser exposta nos museus, com

o passar do tempo, a obra sofrerá intervenções da própria natureza e se transformará. VIDEOARTE  O maior acesso ao

vídeo, na década de 1960, incentivou o uso não-comercial desse meio por artistas. Inicialmente, o vídeo era usado como registro de performance e body art. Mas foi o sul-coreano Nam June Paik (1932–2006) o primeiro a usar a videoarte como linguagem específica, sendo o vídeo o início e fim do trabalho, ou seja, a própria obra. As obras de Paik nos faz pensar sobre novas possibilidades de uso dos meios tecnológicos e, principalmente, a reflexão sobre a cultura de massa e a possibilidade de uso mais elaborado e libertador desses veículos.

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(rodrigo braga B mundoB Acaça de si e do Acomo geografias deB Adescobertas intervençõesB Ae apropriações) Investigar, termo bastante usual nas práticas – modos de fazer – de pesquisadores, detetives, educadores, professores e artistas, entre outros ofícios. Investigar também pode ser lido, como estratégia de caça, maneira de fazer, que visa mapear espaços, camuflar-se em geografias desconhecidas, afinar a escuta aos sons mais sutis e próprios do lugar, interrogar, ocupar territórios desabitados pelo homem, moverse disponibilizando o corpo como um sensor que sente o menor vestígio de movimento e armazena toda e qualquer informação. Tal procedimento nos parece ser perceptível nos modos de fazer do trabalho do artista Rodrigo Braga. Característica que permeia parte de seu processo criativo que vem se desaguando em trabalhos onde natureza, paisagens, territórios e ou geografias – são tocadas por seus gestos, intervenções e apropriações que resultam em obras cujas narrativas intricam o olhar ligeiro e curioso dos espectadores. Complexos apontamentos existenciais emergem das cenas criadas por Rodrigo Braga. Há inquietações provocadas e as reações são das mais diversas. O impacto de algumas cenas nasce pela imagem só, isolada na parede branca do museu, ou, por meio do nosso próprio olhar? A experiência do espectador conversa e constrói saberes. 14

Outra dimensão que marca os procedimentos investigativos do artista é o uso da imagem: fotografia e imagem em movimento. O acervo do Mamam possui dois trabalhos, Desejo Eremita, em fotografia e Sal e Prata, em fotografia, vídeo e papel. De acordo com Charlotte Cotton1, a fotografia foi defendida como arte desde o início da sua história, porém nunca foi tão difundida nesse meio como na atualidade. Há muito ela vem ganhando espaço nos museus e galerias de arte, inclusive com espaços exclusivos para esse segmento. Todavia, ela vem se manifestando na arte contemporânea sob diversas formas. Na fotografia contemporânea, a observação do objeto a ser fotografado, ou mesmo a espera do momento especial não tem sido priorizada, embora ainda faça parte do processo de concepção da obra para muitos. Na arte contemporânea, a obra fotográfica é iniciada bem antes do ato de registrar. O uso da fotografia pela arte conceitual mostra bem isso, ao fazer uso da arte fotográfica como meio de transmitir ideias. Rodrigo se coloca, em vários dos seus trabalhos, com seu rosto não voltado para o apreciador da obra, provando dramaticidade e incerteza. Esse tipo de recurso é frequentemente usado na fotografia de quadro vivo, que também, assim como 1. COTTON, Charlotte. A fotografia Braga, vale-se de recursos como arte contemporânea. São Paulo: psicológicos que provocam Editora WMF Martins Fontes, 2010. um prazer visual inquietante. 15


Fragmentos, partes, pedaços do seu corpo, por vezes são “depositados” em cenas áridas, em meio a restos de outros animais, suspensão das certezas. Esse é o caso emblemático da obra Desejo Eremita. Não temos aqui intenção de classificar o trabalho de Braga em uma categoria na arte contemporânea. Mas, de refletir sobre o uso da fotografia no campo artístico na atualidade. Artista visual, que trabalha com diversos suportes, Rodrigo Braga não se intitula fotógrafo. Mas, como artista dedicado à fotografia, explora as possibilidades de criação da obra. Manipulação de imagens, ética, psicologia e pesquisa intensa no processo de criação da obra são alguns dos sentimentos que permeiam o trabalho de Rodrigo Braga que, como fala Clarissa Diniz2, é uma ininterrupta caça ontológica à procura de seu ser e do ser alheio. CAD – COLETIVO ACERVO EM DIÁLOGO www.acervoemdialogo.wordpress.com

2. Clarissa Diniz em Mastigação e empoderamento (fonte: rodrigobraga. com.br visitado em 23.01.2011

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‘bate-papo com o artista’ Trechos de uma conversa entre Rodrigo Braga, Renata Lourenço, Carlson Landim, Beth da Matta e EducAtivo MAMAM ocorrida no dia dois de fevereiro de dois mil e onze. RODRIGO BRAGA­­­— (sobre a exposição Ciclos Alterados) Traz vários trabalhos que têm essa relação com o eco-frictivo, que seria a maneira de trabalhar os aspectos da biologia e da ecologia de uma maneira enviesada, de uma maneira estranha, digamos assim. Eu não estou defendendo nenhuma bandeira ecológica, positiva ou negativa que seja, mas, assim... problematizando a questão do nascer, do morrer, do se transformar, do ser animal, vegetal, mineral em transformação. É a transformação química, é biológica também, é matéria, mas ao mesmo tempo é simbólica, espiritual, das coisas que estão interligadas, que se convertem. A exposição poderia ter tendido para trabalhos mais poéticos, mais agradáveis, mas nem sempre está sendo agradável, como também é meu tom. (sobre o trabalho Provisão, 2009) É um vídeo em que eu cavo um grande buraco de seis metros de boca e dois de profundidade, e aí eu derrubo uma árvore que cai sobre um buraco e depois eu enterro essa árvore. Então, esse é um dos vídeos da exposição que vai estar no telão grande. E é um vídeo significativo porque é considerar esse lado 33


ecológico da transformação das coisas, só que com a intervenção da minha mão, da minha ação. Eu estou, na prática, acelerando o processo natural das coisas, de uma árvore que morreria que seria transformada pela terra e nasceria novamente. RENATA LOURENÇO — Neste vídeo da árvore (Provisão), Rodrigo, tu poderias estar, talvez, interrompendo um ciclo... Não só acelerando, mas interrompendo... Tu sabes que vai acontecer, mas interrompes. RODRIGO — Eu acelero no sentido de que interrompo a vida para acelerar a transformação. Esse é um vídeo que foi bem complicado também fazer. Mas, é aquela coisa: eu como artista acabo me permitindo fazer coisas que eu não faria naturalmente. Eu acho que há um álibi para o artista para que ele faça coisas que uma pessoa comum, digamos, comum não, mas numa situação comum de vida, de ética, seria execrado. (...) Então, assim, o fato de derrubar uma árvore eu encarei como um trabalho, como algo que não me saía da cabeça há dois anos. Então não foi uma coisa que eu fiz de supetão, foi uma coisa que me vinha, recorria. Eu lancei a proposta dentro de um edital, de um concurso. Eu digo: vou dividir essa responsabilidade como a comissão julgadora. Se eles acharem pertinente, eu vou fazer o trabalho. Foi premiado e eu fiz o trabalho. Que é da Fundação Joaquim Nabuco, o prêmio de videoarte. Meus pais são biólogos. Eu lido com a ecologia e a biologia desde a década de 70. Eu ia para reuniões 34

de ONGs desde bebê, na verdade. Meu pai plantou oitenta mil árvores. Eu plantei várias árvores na minha vida. Então as crianças me abusavam muito só em quebrar galhinhos na minha frente ou arrancar folhas. Eu ficava possesso, chateado. Então, também é um contrassenso. Mas, é um exercício de poder também. (sobre o trabalho Comunhão, 2006) É um animal morto, comigo ao meu lado, abraçado comigo. Eu estou vivo e a gente está ali junto no buraco, na terra. Eu acho que o elemento terra, a presença da terra, da lama mesmo, até a água, é tão importante quanto os dois, as duas figuras. Porque a terra faz essa transformação. E a mesma terra faz brotar tudo. CARLSON LANDIM — Rodrigo, uma pergunta: você tem tido problemas com esse tipo de trabalho? Você se envolve com animais mortos e tem sempre essas ONGs, esse pessoal que defende. Isso é proposital? RODRIGO — Não. Eu digo categoricamente que não quero criar polêmica, mas também não sou ingênuo, eu sei que vão dar problema. Mas é aquela coisa assim: eu encaro o fazer artístico como um exercício de liberdade. E de liberdade acima de tudo. O processo criativo não deve levar em conta tantas coisas ao redor não. Eu acho que ele por si tem sua necessidade própria de acontecer. Aí eu faço o que der na telha, digamos assim, meio irresponsável, para ver o que é que vai rolar. E vejo que estou preparado para isso também. 35


A série Desejo Eremita (2009) partiu de uma necessidade de me isolar. Eu havia feito outro projeto de uma residência artística durante três semanas na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, com outros artistas e foi muito proveitoso e lá eu fiz a série Paisagens (2008). Eu achei muito interessante a experiência, e em 2009 eu lancei esse projeto que foi aprovado pela FUNARTE. (...) Desejo Eremita é isso: é a necessidade de ser ermitão e se isolar. E aí, lá fui eu parar num lugar que eu não conhecia ninguém. Era longe, são oito horas de carro, de estrada; 400 km de Recife, no Sertão do Pajeú, numa cidade chamada Solidão. (...) Solidão eu só descobri depois de ter feito o projeto, eu não conhecia Solidão. Eu já tinha o título do projeto, tudo, a defesa na minha cabeça. E fui procurar: em que cidade eu posso ir? E tinha uma cidade em Pernambuco que se chamava Solidão, uma cidade de cinco mil habitantes. O trabalho sou eu em contato com essa nova realidade. E me transformando também. Tem até uma foto em que eu deixo a barba crescer e visto uma couraça de pele. (...) São as minhas transformações, acho que lida com máscaras também. Boa parte do meu trabalho lida com representação. GABRIELA DA PAZ — Eu, desde que comecei a conhecer mais o seu trabalho, já há algum tempo, eu sempre tenho uma leitura de que é como se... Vamos pensar que a civilização é algo extra natural: 36

existe a natureza e existe a cidade; existe o interior e existe a metrópole. Então, é uma vontade de fazer o homem ser natural, ser natureza. Então, essa mistura, mesmo daquilo que é natural e aquilo que é humano, como aquilo que é tudo natureza. A gente vive numa sociedade tão à parte da natureza, a gente esquece que é natureza. A gente percebe quando tem um contato a mais. Então, eu acho até complicado, às vezes, a gente criticar teu trabalho como antinatureza, como antiecológico. Eu acho que você está tão dentro da natureza, tão misturado na terra. Já é uma coisa tão concreta, tão material, matérica. Talvez, você não tenha tanto pudor em cortar uma árvore, em expor animais mortos. Porque você está se colocando naquela situação também, não é cínico. RODRIGO — É uma atitude que está muito ligada a minha experiência, a minha personalidade, a minha criação mesmo, a minha formação e por isso eu lido com mais naturalidade. A ponto de querer subverter. GABRIELA — Ir ao interior passar três meses é muito tempo. As pessoas que moram, imagina!, em uma cidade de cinco mil habitantes a 400km de Recife, que também está longe de outras cidades ou metrópoles, outras capitais. Também são pessoas que estão vivendo muito mais a natureza, sendo a natureza, do que sendo estranha a ela. RODRIGO — Sem dúvida, as pessoas comem a carne que criam... 37


RENATA — E a participação das pessoas? Tem

uma menina (referência a uma das­­fotos da série Desejo Eremita)... É tranquilo, como eles te observam? Assim, arte contemporânea numa cidade que se chama Solidão, imagina! RODRIGO — Essa relação foi criada aos poucos, paulatinamente, na medida em que eu me entrosava e ganhava intimidade com essas pessoas. De começo, eu disse: sou fotógrafo e estou fazendo um trabalho aqui, fotografando o sertão. Essa coisa de me chamar de fotógrafo facilita muito. BETH DA MATTA — Rodrigo tem muito isso do cuidar do ambiente, afinal o pai e a mãe são biólogos. Ele nasceu nessa relação de respeito com a natureza e isso é muito importante. Então, nada está fora do que ele viveu. Quando ele derruba uma árvore é para lembrar o quanto é agressivo derrubar uma árvore. No trabalho mais polêmico dele, Fantasia de Compensação, 2004, em que ele usa um cachorro para fundir com seu próprio corpo, na verdade, Rodrigo só está aproveitando o que sobrou de carcaça. O que sobrou de um sistema já existente. RODRIGO — Exatamente. Aí está o papel “ecológico” do trabalho. Põe em discussão algo que é importante. BETH — A obra de Rodrigo é um dispositivo ativado pelo olhar, e, os que espetacularizam a vida, assumem um discurso artificial a favor dos animais e da mídia, da autopromoção. RAÍSSA FONSECA — E tem muito discurso também, né? RODRIGO — Ampliar esses horizontes. 38

RENATA — Teu trabalho se enquadra em body art? RODRIGO — A body art foi um movimento da década

de 1970 (1960, 1970), a body art histórica, onde os artistas usam seu próprio corpo como suporte. A coisa acontece no corpo e na ação também, e aí são artistas que chegaram até o extremo, de mutilações e cortes etc. Eu acho que todo artista contemporâneo, artistas que atuam hoje nos anos 2000 e tal, eles não estão mais em nenhuma categoria histórica da arte (body art, land art), mas num mix disso tudo. Eu, por exemplo, nunca me mutilei nunca me cortei, mas uso meu corpo sim. Uso o recurso digital pra me mutilar, me cortar, então já é outra referência que eles não tinham. E ao mesmo tempo, uso a terra. Pode se chamar um pouco de land art no que eu faço, cavo buraco, coloco ossos, altero a realidade da paisagem. É land art? Não. É um mix de tudo. É fotografia? É o hibridismo da linguagem mesmo. É fotografia pura? Não é. O suporte é fotográfico, a lógica pode ser em parte fotográfica, mas não é totalmente fotográfica, então é vídeo, mas é experiência, é performance. Então, não dá pra dizer categoricamente, e um dos trabalhos mais simbólicos nesse sentindo é o Leito (2008), que é uma caixinha de vídeo, que mistura fotografia (é um trabalho feito todo em fotografia), a ação da performance, o vídeo (porque se passa no vídeo) e o objeto. Então, é muito difícil dizer o que é. E isso não serve só pra mim não, mas para vários 39


artistas da minha geração. Então, hoje em dia não da pra dizer “você trabalha com body art ou land art”. Seria ingênuo dizer isso. RENATA — O que te causou ou te causa alguma repulsa? Tocar o animal morto já te causou repulsa? Realmente tu te envolves? RODRIGO — Me envolvo, me envolvo demais até. RENATA — Já fazes parte daquilo, não é? RODRIGO — Eu me concentro mais quando estou em contato com a terra, a água ou o que for mais a questão tátil no corpo. É como se fosse um abraço. Um abraço da ação, uma realização. É, sabe, tudo para ao redor. Tem uns trabalhos que eu me banho com meu próprio sangue (Mais do que o necessário I e II, 2010), o médico tira da veia, vai estar na exposição... BETH — Esse eu chorei. RODRIGO — Eu tomo um banho com meu próprio sangue. Pô, só isso, botou o sangue, sentiu o cheiro, o contato, nojo nenhum, nada, sabor de sangue, normal. Mas assim, isso é como se fosse uma capa, um abraço, sabe? e a coisa acontece. Para tudo ao redor. É assim que eu me sinto fazendo o trabalho. RENATA — Inclusive com as partes dos animais. RODRIGO — Também, também. BETH — É uma grande comunhão, não é? Você tem até um trabalho Comunhão (2006). RODRIGO — O do bode. Aí eu fui, no passado, até ingênuo de dizer aquela situação de união completa 40

com o bode. Porque eu estava só de cueca, então meu corpo entra em contato com a argila fria, mas na frente entra em contato com o bode quente ainda, porque ele tinha sido abatido há poucos minutos. Eu disse isso pro jornalista e ele meteu na revista. É ingenuidade, porque para mim é natural, falar que meu corpo faz parte de uma troca. RENATA — E os jornalistas? RODRIGO — Aí o Itaú Cultural (onde o trabalho Comunhão foi exposto) começou a receber emails de correntistas milionários dizendo que iam tirar a conta de lá se o trabalho permanecesse na exposição. Aí a gente teve que montar assessoria de imprensa pra trabalhar na hora. Eu e o curador nos reunimos e escrevemos uma nota que foi dada aos jornalistas, que começaram a fazer matérias desse tipo. E, ao mesmo tempo, a exposição não tinha educativo, e se montou um educativo às pressas com seis educadores. Inclusive, eu ia viajar em seguida, à tarde, e tivemos que gravar um vídeo para o educativo, que teve que trabalhar com a minha palavra. Foi terrível, foi pior que Fantasia de Compensação, porque eu tava em São Paulo sozinho, uma pressão muito intensa. Minha primeira exposição individual em São Paulo e acontece uma bomba dessa. Chorei de desespero, foi seríssimo. GABRIELA — E são outras experiências, não é? A experiência da terra, da natureza, e dos homens... Da imprensa, da cidade grande.Tudo faz parte do teu trabalho, não é? 41


RODRIGO — Felizmente aqui em Recife a gente, a

maioria dos jornais, mesmo os novatos, entendem. BETH — Eles conhecem. RODRIGO — Conhecem, não é? A gente tem outra situação. Aqui ninguém vai detonar. Agora fora é muito... (Sobre Mentira Repetida, 2010) Estava na Amazônia há uns meses e com uma dificuldade real de trabalhar, assim, diferente da situação do sertão, que é tudo menor e tem coisas que acontecem no micro, às vezes. E lá (na Amazônia) têm muitas terras, rios e tudo gigantesco. Uma paisagem linda que não para de acontecer, meio que monótona até. E percebi que nessa relação do micro e do macro – eu, o indivíduo, e essa terra gigantesca – uma coisa que poderia transpassar seria minha... Poderia ser o som, minha voz, o grito. Então, é uma forma de expandir meu corpo pela mata, de me lançar, de me fazer maior, tão grande quanto a mata. Ecoar, fazer ecoar... Ao mesmo tempo, pela timidez eu nunca me vi fazendo isso, foi muito difícil, pra mim, gritar. RAÍSSA — Eu até percebi assim: tu vais entrando num ritmo até nesse desenvolvimento mesmo, e tem uma hora que tu já estás fazendo sem, sem se aperceber da timidez, de qualquer coisa, já se envolveu naquilo... RODRIGO — Você vê que o primeiro grito eu olho pra câmera, eu grito assim meio desajeitado, ai depois eu volto! Aí é que está: o título lida 42

diretamente com isso. A mentira repetida é aquela ideia que mentira repetida se torna verdade. Então a proposição é fictícia, de um trabalho artístico numa posição que eu me coloco em fazer, mas ela me surpreendeu enquanto eu fazia de fato, eu não esperava chorar e não esperava que meu corpo desfalecesse simplesmente. Eu não tive... eu queria gritar indefinidamente, não sabia o que ia acontecer, então a coisa que se tornou verdade, então é por ai mesmo. (...) Que eu nas visitas de campo, nas caminhadas com ele (referindo-se ao seu pai), às vezes eu estava na mata atlântica ou no manguezal. Ele chegava – ele adora – chegava num lugar aberto, que não tem ninguém e: “aaaah!”. “Grita!” dizia pra mim, “Grita, Rodrigo, grita, grita!”. Eu nunca gritei, eu nunca tive coragem de gritar em lugar nenhum. Aí também tem o rompimento de um obstáculo pessoal, de uma liberdade e do poder com a arte. CARLSON — Ele me causou um certo desespero. É, assim, tipo uma coisa bem absurda, um seriado feito Lost. Você está assistindo Lost, aí vem aquela coisa: nada liga a coisa nenhuma e é como se a pessoa estivesse perdido no meio da mata e começou a gritar pedindo ajuda, socorro, está entendendo? Até a hora que ele começou meio a que chorar, não é? como se fosse assim “ninguém está me ouvindo, como faço para sair daqui?” Me passou essa ideia... Como se não tivesse mais jeito. 43


RENATA — Eu já me preocuparia com outra coisa. Por

isso que eu perguntei à Beth: “foi ele que gravou?” “Alguém está ouvindo esse grito, alguém está vendo isso?” Como seria alguém aparecer na mata e ver aquela figura gritando? Então eu vi o vídeo de outra forma... meio os bastidores. BETH — Esse vídeo eu já vi totalmente diferente. Eu já trouxe a relação com a terra mesmo, com a natureza, o grito de você se libertar muito mais do que se sentir ameaçado. Da relação do artista com o meio, com o lugar que ele estava e por conhecê-lo também. POLLYANNA QUEIROZ — Tem algum artista que você beba da fonte? RODRIGO — Assim como a arte contemporânea é pulverizada, as referências também são bem diversas. Na última fala com o educativo, eu até citei uns nomes... POLLYANNA — Citou (Joseph) Beuys... RODRIGO — É, isso, exatamente. Atualmente é uma referência que eu tenho tido assim, de um trabalho que eu gosto... É, a gente sempre bebe do que gosta, não é? Mas é o Nelson Felix, no Rio de Janeiro, que é meio desconhecido aqui. É, mas tem mais, aqui mesmo tem Marcelo Silveira, Marcelo Coutinho. De fora, o Joseph Beuys, no sentido de ampliar a questão de arte, inclusive de arte enquanto ação social até, ação na vida, na comunidade e a relação que ele tem com a ecologia, sem falar que eu gosto dos múltiplos 44

que ele produzia, os cartazes e tal. Eu gosto da estética de Beuys. Além de Duchamp. E outros do passado que são as minhas referências enquanto estudante: Gustavo Klimt, na pintura, e Robert Rauschenberg, também na pop art, isso num sentido mais gráfico.

RENATA LOURENÇO é Gerente de Conservação e Acervo do MAMAM. CARLSON LANDIM é Gerente de Serviços de Contrato e Locações do MAMAM. BETH DA MATTA é Diretora do MAMAM. GABRIELA DA PAZ é Gerente de Serviços em Arte Educação do MAMAM. RAÍSSA FONSECA e POLLYANNA QUEIROZ são arte/educadoras do MAMAM.

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SĂŠrie Desejo Eremita, 2009. Fotografia (jato de tinta sobre papel de algodĂŁo) 50 x 75 cm e 40 x 60 cm.


PREFEITURA DA CIDADE DO RECIFE PREFEITO  João da Costa VICE-PREFEITO  Milton Coelho SECRETÁRIO DE CULTURA  Renato Lins

MUSEU DE ARTE MODERNA ALOISIO MAGALHÃES – MAMAM DIRETORA  Beth da Matta GERENTE DE CONSERVAÇÃO E ACERVO  Renata Lourenço GERENTE DE INFRAESTRUTURA  Silvia Melo GERENTE DE SERVIÇOS DE MONTAGEM  Gustavo Albuquerque GERENTE DE SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO  Wilton de Souza GERENTE DE SERVIÇOS DE ARTE/EDUCAÇÃO  Gabriela da Paz GERENTE DE SERVIÇOS DO MAMAM NO PÁTIO  Cristiane Mabel Medeiros GERENTE DE SERVIÇOS DE CONTRATOS  Carlson André Landim GERENTE DE SERVIÇOS DE FINANÇAS  Elisângela Nascimento ASSISTENTE DE SERVIÇOS  Rosângela do Nascimento BIBLIOTECA  Maria Eugênia Simões / Natália Couto (estagiária) ARTE/EDUCADORA  Juliana Lins LOJA MAMAM  Maria José Oliveira MEDIADORES  Catharine Veras / Dandara Palankoff / Ivan Rodrigo Novais /

Joana Liberal / Lorena Taulla / Maria Gabriela Lima / Marília Bivar / Marília Pinheiro / Pollyanna Queiroz / Raíssa Fonseca SOCIEDADE DE AMIGOS DO MAMAM DIRETOR PRESIDENTE  Gilberto Freyre Neto DIRETORA VICE-PRESIDENTE  Simone Gueiros DIRETOR DE SECRETARIA  Renato Valle DIRETORA TESOUREIRA  Joana D' Arc de Souza DIRETORA DE PATRIMÔNIO  Valéria Dumaresq

PROJETO GRÁFICO  Zoludesign PATROCÍNIO DA EXPOSIÇÃO "CICLOS ALTERADOS"  Instituto Tomie Ohtake APOIO CULTURAL  Sherwin Williams / Rádio Folha

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Caderno de Anotações v.1  

Caderno produzido pelo Setor Educativo do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (MAMAM) sobre a exposição "Cicos Alterados" do artista Rod...

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