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ESTE FOLHETO É PARTE INTEGRANTE DO ACERVO DO BEHETÇOHO EM FORMATO DIGITAL, SUA UTILIZAÇÃO É LIMITADA. DIREITOS AUTORAIS PROTEGIDOS.


INFORMAÇÕES SOBRE O PROJETO O Acervo Eletrônico de Cordéis do Behetçoho é uma iniciativa que pretende dar consequências ao conceito de (com)partilhamento dos artefatos artísticos do universo da oralidade, com o qual Behetçoho e Netlli estão profundamente comprometidos.

INFORMAÇÕES SOBRE A EQUIPE A equipe de trabalho que promoveu este primeiro momento de preparação e disponibilização do Acervo foi coordenada por Bilar Gregório e Ruan Kelvin Santos, sob supervisão de Edson Martins.

COMPOSIÇÃO DA EQUIPE Isabelle S. Parente, Fernanda Lima, Poliana Leandro, Joserlândio Costa, Luís André Araújo, Ayanny P. Costa, Manoel Sebastião Filho, Darlan Andrade e Felipe Xenofonte


JOÃO MARTINS DE ATHAYDE

ROMANCE DE JOSÉ DE SOUSA LEÃO DO AMAZONAS

JUAZEIRO DO NORTE 1977


Entre as histórias do mundo temos uma de primeira que se deu no Amazonas na colina da Mangueira aonde existia um negro que era a fera da ribeira Este negro de quem falo era natural da terra já tinha sido soldado já tinha vencido guerra na coragem era um leão ou tigre de pé de serra Lá na guerra do Peru ele tambem se achou cem soldados peruanos a esse negro enfrentou o negro e dez companheiros a todos ele enchotou


Lá em Sena Madureira ele tambem deu um fogo para manobrar o rifle seus braços já tinham 1 jogo qualquer 1 que o enfrentava tinha de pedir-lhe arrogo Dos soldados da policia é quem mais coragem tinha se fosse prender um homem se estivesse em casa vinha no contrário sendo duro vinha na rede ou na linha Um dia este dito negro voltava de uma caçada um tigre emboscava ele para dar-lhe uma botada o negro lascou-lhe a boca com uma só cutilada


Já tinha trinta e dois anos doze de praça volante em quinze não sei porque atirou no comandante de quinze até dezesseis tornou-se um judeu errante Embarcou para a Bolivia em um vapor gaioleiro subiu no Rio Amazonas embora fosse escoteiro o que mais lhe aperreava era não levar dinheiro Criminoso do Amazonas na Bolivia não tem crime escrivão não borra o livro nem tipografia imprime da mesma forma é Manaus no sistema do regime


Chegando o negro em Bolivia do crime foi perdoado só não ganhava era saldo que lá não era soldado pra ganhar o pão da vida foi trabalhar alugado João Pessoa de Queiroz aquele nobre senhor da capital de Bolivia era desembargador deu um passeio em Goiás o negro foi portador De Goias foi a São Paulo foi a Santa Catarina de volta a Bueno Aires que chamamos Argentina o negro voltou com ele para cumprir sua sina


Lá residia uma moça por nome Dona Maria era filha de um doutor a mais bonita que havia o negro a simpatizava mas ela não conhecia A moça conhecia bem nossa língua portuguesa italiana, alemã espanhola e francesa era de alta linhagem decendia de nobreza Rapazes que residiam naquela mesma cidade pediam-na em casamento ela com dignidade dizia: eu não caso agora tambem não tenho vontade


Um capitão argentino partiu de Buenos Aires andando por muitas terras percorreu muitos lugares desto vez foi a Bolivia percorreu aqueles lares Chegando ele em Bolivia às onze horas do dia passando na rua Bela foi vendo o que pretendia dentro de um jardim botânico encontrou Dona Maria A moça estava bem pronta trajada de sêda fina tinha o olhar de uma santa de beleza peregrina parecia ser um anjo feito pela mão divina


Estava ela com três moças naquele jardim de riso o argentino avistou-a ficou quase sem juízo disse consigo: só sendo um anjo do paraiso Este dito capitão já tinha sido solteiro casou no ano de quinze no dia dez de janeiro só amava a duas cousas moça bonita e dinheiro O capitão disse ao criado estou quase sem sentido não amar aquela moça antes não fosse nascido se homem por mulher se perde me considero perdido


Ele disse ao criado: vou fazer-lhe uma visita eu vou visitar o pai daquela moça bonita vou ver se a sorte me quer se não me fugir a dita Quando foi no outro dia seguiu ele e o criado passando na rua Bela aonde era o sobrado o doutor estava em casa em um marquesão sentado Bom-dia, o capitão disse: sem se mover do lugar o doutor correspondeu e lhe disse: pode entrar diga quem, é cavalheiro que dá-me a honra em falar?


Eu muito bem, Deus louvado do presente até agora como deixou a família a sua honrada senhora? Se é casado ou solteiro queria dizer onde mora? Eu moro em Buenos Aires num bangalô na avenida ando percorrendo as terras para distrair a vida mas tenho muitas saudades da genitora querida E seu pai é falecido? Disse o capitão que sim deixou apenas dois filhos e uma riqueza sem fim minha mãe é a meeira herdeiros, eu e Joaquim


No ministerio da guerra meu pai era tesoureiro e era em Buenos Aires um dos maiores banqueiros morreu deixou em depósito mais de 1 milhão em dinheiro No sertão da Argentina tambem era fazendeiro nos deixou oito sobrados uma praia de coqueiro 4 armazem de molhados crédito no mundo inteiro Nisto o doutor sorriu por esta forma lhe diz: o senhor é rico mesmo pois eu conheço o país a sua vida é ditosa só nasceu pra ser feliz


Nisto deram nma palestra jataram garbosamente o doutor chamou a filha e esta chegou presente aquele anjo do lar vivia no mundo inocente A tardinha o capitão retirou-se de momento junto com o seu criado sem nenhum impedimento mas não podia tirar a moça do pensamento O capitão pensativo disse ao criado: me ouça se o dinheiro comprar erro eu tenho dinheiro e força com o dinheiro eu compro erro caso com aquela moça


Lhe disse o criado: é não passa de uma asneira homem guardar castidade não se dar maior leseira o senhor pode casar-se dez, doze vezes que queira Pois bem, disse o capitão: eu me recordo a tabela amanhã faço uma carta tu entregas ao pai dela se não der-me em casamento eu vou ver se rapto ela No outro dia o capitão estava neste pensamento escreveu para o doutor declarando seu intento mandou pedir ao doutor sua filha em casamento


O doutor recebeu a carta formou um plano certeiro respondeu ao capitão sei que o senhor tem dinheiro mas eu não tenho uma filha para dá-la a estrangeiro O criado traz a carta entregou ao capitão dizendo: eu bem reconheço da sua reputação não casa porque não é filho da mesma nação O capitão suspirou dizendo para o criado: amanhã as sete horas você vai para o mercado vá ver se encontra o negro aquele que foi soldado


Quando foi no outro dia o criado sem receio dirigiu-se ao mercado como quem vai a passeio encontrou-se com o negro deu-lhe o recado, ele veio O negro chegou em casa já era pela tardinha disse o capitão: boa-tarde entregou uma cartinha dizendo: quero que leve esta carta a Mariquinha José de Souza, você que faz aqui na cidade? morrendo não tenho dinheiro se enterra na caridade rapte Maria pra mim que eu dou-lhe felicidade


Vai comigo a Bueno Aires que preciso de um vigia lá te pagarei bem pago como ninguem pagaria comida e roupa lavada e mais dez mil réis por dia Se aprecias o campo eu preciso de um vaqueiro ou então dou-te uma venda se não for-me traiçoeiro você aqui trabalhando juntará muito dinheiro Disse o negro: capitão é certo que o senhor diz desde o ano de quinze eu deixei o meu país vivo aqui despatriado trabalhando e nada fiz


Pois bem, disse o capitão me pega esta cartinha e me faça o favor de entregá-la a Mariquinha se ela disser que foge vai você e a mocinha Disse o negro ao capitão: eu vou fazer seu mandado um homem como o senhor merece ser chaleirado eu cheléro até às últimas afim de bom resultado O negro levou a carta e deu a Dona Maria ela quando leu sorriu lhe respondeu que fugia fizesse por sair logo que demora não servia


O negro troxe a resposta entregou ao capitão ele quando leu sorriu quando viu a narração deu um suspiro profundo sentiu uma comoção Nisto chegou seu criado do hotel americano disse: capitão agora conversei com Caetano chegou de Buenos Aires veio em seu aeroplano O capitão muito calmo disse ao seu criado: vá-me chamar o Caetano dê-lhe o seguinte recado que não vou mesmo em pessoa devido está ocupado


Nisto o criado saiu deu-lhe o recado ele veio o capitão perguntou-lhe: - Caetano anda a passeio? disse Caetano: eu vim passar três dias e meio Respondeu o capitão: chegou o que eu queria eu estou embaraçado vapor não tem garantia me aluga o aeroplano? pode dizer a quantia Disse o Caetano: eu alugo mesmo sem lhe conhecer pra raptar uma moça faço o que posso fazer só lhe custa trinta contos por menos não pode ser


Respondeu o capitão: chegou o que desejava que o senhor vinha aqui eu mesmo nunca esperava trinta contos ainda é pouco se pedisse mais eu dava O capitão disse ao negro por esta forma assim: vá diga a Dona Maria que à tarde venha ao jardim e à meia-noite em ponto esteja esperando por mim Eu vou daqui em um carro como quem vai passeando e quando eu chegar no jardim já vocês estejam esperando ela entra e nós saímos nada de está esperando


O negro deu-lhe o recado ele então ficou ciente pra fugir à toda pressa era esta a sua mente porem se quem foge erra ele errou perfeitamente O capitão argentino firmado em seu ideal pra raptar uma moça pra fora da capital quando caía uma chuva tremenda e terrencial Dona Maria e o negro no jardim o esperaram no portão parou o carro a ambos nele entraram entraram no avião e pelos ares voaram


Vamos agora tratarmos na subida do balão o relâmpago faiscava no retumbar do trovão a tempestade mugia o vento varria o chão Veio do norte um furacão trazendo a calamidade duzentas milhas por hora na sua velocidade nisto o capitão sentiu o rigor da tempestade O balão ia voando pelos ares se estendendo o furacão o pegou de pouco foi o torcendo em vez de Buenos Aires para Manaus foi descendo


Pois o balão ia rápido as asas desmantelaram-se o balão caiu num rio quatro pessoas afogaram-se Dona maria e o negro iam na proa e salvaram-se Morreu os aviadores o capitão e o criado o balão caiu no rio num lugar raso areiado com o peso da ferragem ficou ali atolado A cena misteriosa nunca visto como aquela Dona Maria salvou-se saiu por uma janela o negro da mesma forma salvou-se junto com ela


O cofre do argentino Dona Maria o guardou seiscentos contos de réis com o que tinha enterrou do rio saltou em terra o negro lhe acompanhou Dona Maria salvou-se de morrer naquela luta mais adiante passavam numa tenebrosa gruta onde caiu novamente numa mão tirana e bruta O negro disse sorrindo Maria és uma flor o capitão já é morto perdeu-se teu defensor que deu a vida por ti hoje eu dou por teu amor


Maria lhe respondeu: não vê que não amo a tu se eu amar a um negro é melhor um diabo nu uma rosa não se adoma com um cravo de urubu Dizendo isto chorando com lágrimas sentimentais o negro disse: Maria a força tu me amarás quem quer ser boa e honesta não sai da casa dos pais Pegou ele atormentá-la com seu brutal coração Maria disse chorando: José, tenha compaixão! nisto apareceu um homem trazia um rifle na mão


Era João Lins de Mendonça pobre rapaz seringueiro que desceu do Piaui a fim de ganhar dinheiro para alavanca do rifle era melhor cangaceiro O rapaz disse ao negro: solta negro, esta inocente; o negro tomou um susto mas falou rapidamente aí disse umas pilherias prosa de homem valente O negro disse: amarelo esta moça me pertence vá dar o seu saber ao diabo é melhor que você pense; João disse; moleque horrendo respeite o piauiense!...


O negro disse: menino acho bom que vá embora João perguntou: o que faz aí com esta senhora? Na minha propriedade miseria não se demora O negro disse: pançudo não quero que me aborreça e bom ir logo furando ou então não estremeça se não te solto uma bala tiro-te fora a cabeça O negro disse: amarelo eu não quero ouvir lorota dou-te o céu por descanso e a miseria por derrota o rifle serve de vela e o diabo toma nota


O Mendonça disse; negro tua bala não me mata se teu rifle mentir fogo porem meu punhal não nega você acerta a estrada por onde o diabo navega O negro disse: amarelo quem tem herança não furta eu garanto que você outro homem não insulta para não vir catucar o diabo com vara curta João lhe disse: moleque arrependido não estou meu jogo não tem descarte fique de trinta que eu vou você quer moça bonita se quer uma bala eu dou


O negro disse: amarelo te engana contra a razão pois nunca viste 1 guerreiro reminar uma nação está conversado com ele José de Souza Leão João disse: tu nunca visses o mestre da gerigonça botar a sela em leão na serra vaquejar onça está conversando com ele é João Lins de Mendonça O negro disse: amarelo eu sou o leão do norte no Amazonas me chamam o motor do braço forte ou nunca encontrei duro para não lhe dar a morte


O leão rende-se oculto o lobo beija-me os pés dos leões da tua marca eu já venci mais de dez vou te mostrar quem sou eu quero saber quem tu és Maria disse chorando: oh! meu Deus de piedade valei-me pai de concordia por vossa santa bondade sou criminosa e perdida sem haver necessidade Mendonça disse pra moça: procure um lugar vasto a senhorita não se tema Deus é pai não é padrasto saia de perto do negro que eu vou dar-lhe 1 arrasto


Quando findou-se as palavras Mendonça entrou em ação saia fogo do rifle como a chama de um vulcão ou chaminé de usina fazendo a comparação O negro era guerreiro campeão de tirania João era 1 bom cangaceiro firmado na pontaria partiram de peito a peito bala vinha e bala ia Lins era bom no cangaço mas inda se embaraçava porque na boca do rifle o negro não encontrava o negro atirava em João por fora a bala passava


Dona Maria, coitada deu-lhe um desmaio e caiu passou por ela uma bala só por Deus não a feriu ela envolvida nas folhas do lugar não se boliu O negro era ligeiro que só piaba no rio e Mendonça estava irado com a furia de um gentio acabou-se a munição e partiram a ferro frio João lhe disse: muleque o meu tempêro é ensoço; disse o negro: e como o meu é sem sal o meu almoço João no punhal era um gato porem o negro era osso


João em menos de 1 minuto deu mais de trinta facadas o negro tirou nos braços todas estas punhaladas de cem a duzentas braças se ouvia as bordoadas O negro disse: amarelo homem se mata é assim se tu tens pena da vida partas de lá vens a mim garanto que em dez minutos um de nós dois terá fim Disse isso e pegou João como quem ia danado João lembrou-se do perigo porque já tinha passado mandou-lhe um tiro na testa que saiu do outro lado


Não morreu logo do tiro porem logo enlouqueceu Mendonça disse alto: cabra você agora comeu conheça que a madeira de dar em doido sou eu Assim morreu Zé de Souza nas mãos de um cangaceiro perdeu a fama e o nome a moça com o dinheiro morreu no campo da luta dado as provas de guerreiro Maria se vendo livre a Mendonça assim lhe diz: me leva pra tua casa que é do mesmo país guardo a minha honestidade que eu te faço feliz


João disse: está garantida devemos sair daqui tomaram uma canoa desceram no Javari subiram no Amazonas saltaram no Piauí Os pais de João Mendonça vendo seu filho, alegrou-se tinha mais seiscentos contos que Dona Maria trouxe não havia impedimento com quinze dias casou-se João depois de casado não lhe cabia a ternura contemplava sua esposa cheia de graça e doçura se admirava de ver nela tanta formosura


Era bela como o dia risonha como à aurora como o perfume da flor que o tempo não descora dessas que dá esperança ao homem que lhe adora Coitado do capitão morreu e não fez defesa o negro tambem morreu nada valeu-lhe a destreza e João por sua bravura foi quem ganhou na empresa O mundo é sempre assim quando um sobe outro desce quando um morre outro vive um sorrir outro padece ao homem no meio do mundo Deus em pessoa aparece


Ora leitor, analise que horrivel situação quando Maria se viu ao poder do tal negrão o que não seria dela se não aparecesse João Por isso e por aquilo todo mundo se maldiz João era um cangaceiro praticou tudo que quis porem defendeu a honra Deus protegeu, foi feliz O doutor telegrafou que a filha tinha fugido que pegassem o capitão porem foi tudo perdido telegrafaram pra ele contando todo ocorrido


Nas margens do Javari encontrou-se o avião mortos dois aviadores juntos com um capitão tinha um criado tambem e mulher não tinha não João disse a sua esposa: vou escrever a seus pais contando como encontrei-a nas mãos d’um negro voraz fico esperando pra ver a resposta que nos traz Afinal João mandou esta carta preferida dando noticia ao doutor de sua filha querida como foi que a defendeu quase de tudo perdida


Dizia a carta: doutor eu sendo um cangaceiro tomei a sua filhinha das mãos de um desordeiro estava forçando ela com horror e desespero O negro era valente muito bruto e atrevido encontrou-a sem defesa num bosque desconhecido tomei a sua filhinha lutei ele foi vencido Ela pediu-me que eu lhe guardasse a virgindade eu então lhe prometi honrar sua honestidade hoje Ê a minha senhora pra minha felicidade


O doutor escreve a ele mostrando satisfação entre nós não há intriga só pode haver união sou teu sogro e tú meu genro da minha predileção O doutor mandou chama-lo para sua residência João acudiu o chamado que vinha com muita urgência deu-lhe todos possuidos sem a menor imprudencia Foi assim que se casou Mendonça e Dona Maria se Deus não a protegesse nas mãos do negro morria morra o homem por afoito mas não pela covardia


O capitão argentino no avião liquidou-se o negro era valente porem na luta acabou-se bom só foi para João que com Maria casou-se Quem ouvir essa historia não diga que é façanha a moça para casar foge até para Alemanha mão de moça é um segredo tem uma joia no dedo em vez de alisar, arranha

FIM


Romance de josé de sousa leão do amazonas  
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