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ESTE FOLHETO É PARTE INTEGRANTE DO ACERVO DO BEHETÇOHO EM FORMATO DIGITAL, SUA UTILIZAÇÃO É LIMITADA. DIREITOS AUTORAIS PROTEGIDOS.


INFORMAÇÕES SOBRE O PROJETO O Acervo Eletrônico de Cordéis do Behetçoho é uma iniciativa que pretende dar consequências ao conceito de (com)partilhamento dos artefatos artísticos do universo da oralidade, com o qual Behetçoho e Netlli estão profundamente comprometidos.

INFORMAÇÕES SOBRE A EQUIPE A equipe de trabalho que promoveu este primeiro momento de preparação e disponibilização do Acervo foi coordenada por Bilar Gregório e Ruan Kelvin Santos, sob supervisão de Edson Martins.

COMPOSIÇÃO DA EQUIPE Isabelle S. Parente, Fernanda Lima, Poliana Leandro, Joserlândio Costa, Luís André Araújo, Ayanny P. Costa, Manoel Sebastião Filho, Darlan Andrade e Felipe Xenofonte


HOMERO DO RÊGO BARROS

PECHINCHA E CARESTIA

RECIFE 1978


Quem é que vai pechinchar Dentro de um super-mercado Se ali, por tubarões, Tudo já vem tabelado? Quem for pechinchar, portanto, Sai ridicularizado. Nas feiras, os negociantes Não querem vender barato. (Mandam o povo pechinchar Mas não ignoram o fato) Quem pechincha a ouvir se arrisca Resmungos ou desacato. Na praça ou no interior, A exploração é grande; Quem quiser ver, vá comprar Porém pechinchar não mande Que pechincha, hoje, é anúncio Que pelas TVs se expande.


Atráves delas são lindos Conselhos e ensinamentos, Mas o povo é quem carrega Na pele seus sofrimento; A pechincha é mais um logro Nos seus dias nevoentos. Na vida quem mais pechincha É quem dela não precisa... Mas nunca a pessoa pobre Que já de fome agoniza, Pois o preço cada vez Mais alto se padroniza. É a ambição de certos homens Que fez a vida tão cara. O Brasil, país tranquilo, Não deve ter sorte amara, Entretanto a Carestia Nele não é fruta rara.


Se nos países em paz, A Carestia apavora Como se fosse um fantasma Que em vão o povo deplora, Imaginem nos em guerra Onde se mata e devora! Quem é que vai pechinchar Ante exploração tão braba? Hoje em dia melhor vivem Os índios na sua taba, Do que nós com a carestia Que nunca, nunca se acaba Não deixa o Custo de Vida Nenhum freguês pechinchar... A remarcação não para Em termos de majorar... Ninguém pense que ela venha Para os preços congelar.


Desde o ano quarenta e dois Que a carestia surgiu... Se baixou alguma vez Ninguém sabe, ninguém viu... Só sabemos que a esperança Dela acabar se sumiu. Dizem alguns que a Carestia É um problema mundial, Que seja! mas, quem inventou Essa mãe negra do mal? Foram os homens prepotentes Ou o Pai celestial? É claro que o santo Deus Não inventou o Dinheiro, Porém sim o gênio do homem, O qual sendo interesseiro Não se lembra que o Senhor É dono do mundo inteiro.


Ser problema mundial, Portanto, não justifica... Isso é acomodação, Informe de gente rica Que tudo tendo à vontade Na indiferença fica. Ao rico não falta nada Na sua abastada mesa Nunca em vida passou fome Pra saber o que é pobreza, Sua prata dá de sobra Pra fazer qualquer despesa. E ao pobre? Seu dinheirinho Começa logo a faltar... Quando vai fazer as compras Tem vontade de voltar Do caminho, vendo a hora Que não vai poder comprar.


Quem é o culpado disso? O bom Deus não pode ser... O pobre batalha, sua, Cumpre bem com seu dever, Mas com o salário que ganha Não pode sobreviver. Deu Lampião o Nordeste, Veio a polícia e o matou... No entanto com a carestia Ninguém ainda acabou, Pois ela é arte dos homens Que no mundo se alastrou. Carestia é como Guerra. Serviço de capadócio, Que agrada muito aos grandes E nada ao pobre beócio, Pois aqueles vêem nas guerras Um lucrativo negócio.


Surgiu, então, a pechicha Para o povo tapear; Carestia é um mal sem cura, Um câncer dentro do lar Da pobreza, que nasceu Para lutar e pensar. A Carestia é um vírus Que só afeta a pobreza, Pois seu poder não atinge A legião da riqueza, Esta não sente os reflexos Dos seus males, com certeza. Com a Carestia reinante O rico atravessa bem E senda de sua vida, A sorte dizendo amém. Mas, o pobre precipita Sua ida para o Além.


É que a fome vai minando Seu estômago vazio E ele, o pobre, enfraquece, Deixando de ser sadio Até que um dia viaja Para o Além, sem dar um pio. A Carestia não deixa Pobre sustentar família, Pois seu salário não dá Nem pra comprar a mobília; Quem mora aqui no Nordeste Sofre mais do que em Brasília. O alto Custo de Vida É, portanto, responsável Pela morte dos que ganham Um ordenado miserável, Lutando para viver De maneira deplorável.


E quem é que aumenta os preços? Ninguém quer ser o culpado. Roupa, comida, instrução Tudo, tudo é majorado... A carestia é um truste Que vem do negro mercado. Quem é que vai pechinchar, Com a Carestia assim forte Atacando, sem piedade, Leste, Oeste, Sul e Norte? Talvez à ONU coubesse Melhorar do mundo a sorte. A Carestia é madrasta Da propalada pechincha E a pobreza é um cavalo, Pobre corcel que relincha: Trabalha, sua e não ganha Nem um terço dos Garrincha!


A Carestia, leitores, Já está virando extorsão E quem se fizer de besta, Sem externar reação, Terminará liso e louco Gritando: − “Pega o ladrão!” Quem apregoa a pechincha Com isso quer despistar, Pois não toma providências Prá Carestia para... E o vendedor aproveita A fim de bem faturar. Urge intensa vigilância Dos senhores da SUNAB, Visando que esse deboche Contra a pobreza se acabe, Que a pechincha é gozação, O povo disso bem sabe.


A solução, já se vê, É caso de autoridade, Pechinchar não baixa os preços Dos tubarões da Cidade: Enquanto falam em pechincha Eles remarcam à vontade. Hoje (ó dor!) a Carestia Os pobres mata de fome; Mas, pode ser que a SUNAB Entre na luta e honre o nome, Revelando as Casas que O preço aumentam ao que come.

FIM


Pechincha e carestia  
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