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ESTE FOLHETO É PARTE INTEGRANTE DO ACERVO DO BEHETÇOHO EM FORMATO DIGITAL, SUA UTILIZAÇÃO É LIMITADA. DIREITOS AUTORAIS PROTEGIDOS.


INFORMAÇÕES SOBRE O PROJETO O Acervo Eletrônico de Cordéis do Behetçoho é uma iniciativa que pretende dar consequências ao conceito de (com)partilhamento dos artefatos artísticos do universo da oralidade, com o qual Behetçoho e Netlli estão profundamente comprometidos.

INFORMAÇÕES SOBRE A EQUIPE A equipe de trabalho que promoveu este primeiro momento de preparação e disponibilização do Acervo foi coordenada por Bilar Gregório e Ruan Kelvin Santos, sob supervisão de Edson Martins.

COMPOSIÇÃO DA EQUIPE Isabelle S. Parente, Fernanda Lima, Poliana Leandro, Joserlândio Costa, Luís André Araújo, Ayanny P. Costa, Manoel Sebastião Filho, Darlan Andrade e Felipe Xenofonte


SALETE MARIA DA SILVA

MULHER – CONSCIÊNCIA NEM VIOLÊNCIA NEM OPRESSÃO

JUAZEIRO DO NORTE 1997


Os números de violência Tem crescido sem para Pra garantir resistência É preciso não calar Do Cariri pro Brasil Quero me manifestar Nos quatro cantos do mundo A gente escuta contar Mataram tantas mulheres Outras mandaram matar Estupram até meninas Dentro do seu próprio lar Este é um problema grave Não podemos consentir A matança de mulheres Ficou comum por aqui Ao invés de lamentar Acho melhor reagir


É o mundo capitalista Próximo do novo milênio Em que pensem as conquistas Do nosso último decênio Concluem os humanistas: Na barbárie é que vivemos Há muito tempo as mulheres Sofrem grande opressão Contra a história que isto Nasce com a acumulação Do produto do trabalho Em algumas poucas mãos Coma divisão das tarefas A mulher ficou no lar Cuidando de sua casa E para filhos gerar E sem ser remunerada Não pode se emancipar


Antes disto a mulher Viveu em plena união Pois havia a igualdade Na base da educação Era da comunidade Os meios de produção A maternidade tinha Importância sem igual A mulher era rainha Não era um ser marginal Respeitada no trabalho E na vida social Mas isso já faz um tempo A história já mudou Passamos pelo escravismo O feudalismo passou Agora o capitalismo Vive tempos de terror


A história da mulher É a história da opressão Da mulher trabalhadora E da esposa do patrão A igualdade jurídica De fato não existe não Sociedade machista Gera incompreensão Aniquila a mulher Perdendo em evolução Pensa que o cabra homem Sozinho faz o verão Oprimida e explorada A mulher ainda está Pouco ganha, se empregada Nada ganha se casar Exerce tripla jornada Mas tem forças pra lutar


Lutar contra a violência Da qual é vitima fatal Exigindo o cumprimento Da qual preceito legal Não aceitando o silêncio Como resposta final Lutar por salário igual Ao homem em mesma função Lutar por manifestar A sua opinião Nem que baixe a polícia E acabe na prisão Decidir, quando preciso Se quer ter filhos ou não Cuidar do seu próprio corpo Sem nenhuma imposição Com livre escolha do método De anticoncepção


Ter informação idônea Sobre doenças do sexo Não ter medo nem vergonha Se libertar dos complexos Ser uma mulher feliz As vésperas do novo século E para tanto é preciso Não cochilar, não dormir Pois se a mulher tem juízo Não poderá consentir Que o machismo perdure Enquanto ela existir É preciso somar forças E lutar contra as mazelas Meninas, velhas e moças Vamos deixar as querelas Vamos fazer um país De justiça, sem sequelas


Somos muitas companheiras Por este país imenso Umas laboram na feira Conforme nos disse o censo Algumas são enfermeiras Outras moram no convento Professora, vendedora Faxineira, advogada Motorista, promotora Cozinheira, operária Camponesa, jogadora Tantas são desempregadas Mulheres, mães e amantes São companheiras, enfim Sonham com um mundo justo Trabalham para ser assim Geram os filhos do mundo Pra qu’este não tenha fim


Mulheres existem muitas Metade, posso dizer Do povo de nossa terra Conforme ouvi dizer Tem mulheres de mais na Pátria Poucas, porém, no poder É por isso que as leis E as decisões importantes Que na história se fez Deste povo inquietante Poucas delas tem a vez Da mulher no seu seblante Trinta e quatro deputadas Tem meu Brasil, somente Apenas seis senadoras Pra representar a gente O Congresso Nacional Revela-se incoerente


Mas isto pode mudar Basta o Brasil querer Uma Pátria não é livre Sem a mulher também ser É possível governar Pluralizando o poder O Código Civil caduca Denuncio pra vocês Avilta nossas mulheres Essa Lei de dezesseis Uma peça de museu Vigora em 96 O homem ali é o “chefe” Tem o “pátrio poder” Anula seu casamento Pode a noiva devolver Se esta já não for virgem Conforme tinha de ser


É do ano de 40 O nosso Código Penal Uma lei tão importante Há meio século igual Se a vida é dinâmica Mude o preceito legal E sobre esta lei “estável” Não preciso comentar Se ao flagrar o “Ricardão” Quiser a “honra lavar” A “violenta emoção” Pode a pena atenuar E que dizer do estrupo? Crime dos mais desgraçados? Para o Código ele fere Costumes convencionados A mulher sofre agressão O moral é que é lesado


Alguns espertos dirão Mas, doutora, a Carta Magna Já botou tudo por terra A mulher tá amparada Amparou o que morreu Porque se encontra calada A lei somente é pouco É preciso decisão Sem atuação política Não há emancipação A conquista do presente Foi no passado a ação Nós mulheres já cansamos Das manchetes nos jornais Companheiras que amamos Alvo de golpes fatais A impunidade fica Elas não voltam jamais


A violência doméstica É assunto de polícia É preciso providências Logo que tomar notícia Trabalho profissional E diligência propícia Não se deve ser omissa Se o marido é o agressor Pois ninguém tem compromisso De apanhar por amor Se na novela é bonito O rei do Gado acabou Não tolere, não transija Não permita a violência Cultive a auto-estima Não aceite a prepotência Ser feliz é ter prazer Do contrário é doença


Se informe de seus direitos Lute e cobre do Estado Se o ego tá insatisfeito Deixe a vergonha de lado Vá exigir do prefeito Reclame do deputado Cobre do seu município O Conselho da mulher Cadê a delegacia? Você ainda tem fé? E a creche do seu filho? Lute enquanto puder Só posso lhe garantir Que direito você tem Mas pra que serve o direito Se na prática ele não vem? Então adote uma tática Brigue por isso também


Licença maternidade É direito “amarrado” Não é patrão quem decide Se deixa ou não ser gozado Se você for impedida Procure um advogado Se você é separada E não deu causa a questão Se tem filhos menores Não perca a ocasião Reclame do “dito cujo” Seu direito de pensão A C.L.T prevê E á preciso cobrar Condições especiais Para a mulher trabalhar Da higiene ao descanso Até da hora e lugar


Sobre aposentadoria Não é preciso ter medo E como não poderia Não existe mais segredo Dependendo do seu caso É cinco anos mais cedo A Constituição diz Que somos todos iguais Então arregace as mangas Vá da saúde atrás Escola para os filhos Não pode faltar jamais Se acaso é domestica E trabalha sem pudor Saiba que existem direitos Relativos ao labor A Lei Máxima assegura Não será nenhum favor


Se por acaso for presa Ou pena estiver cumprindo E tiver um bebezinho Do seu leite consumindo A lei vai lhe garantir Este momento tão lindo Se por ventura for negra Por isso discriminada Não aceite tal afronta Não fique desanimada Isto constitui um crime De fiança inaceitada Não aceitar o machismo Também implica lutar Contra toda violação Que se possa observar Em nossa sociedade E onde quer que se vá


A começar por aqui Pelo Cariri amado Onde o machismo covarde Não se mostrou acanhado Ficou em muitas famílias Para sempre tatuado Lesões no corpo e na mente Assassinatos brutais Comoveram nossa gente Arrancaram nossa paz Resta um apelo inocente: Não se repitam jamais Anônimas ou conhecidas Estas mulheres merecem Justiça por suas vidas E não apenas as preces Não sendo a lei cumprida O Direito, então, fenece


Chorando nossas Yaras Nos encontramos então Soraias, Anas e Laras Não faleceram em vão As Marias que ficaram Com certeza lutarão Acredito que nós todas Podemos tentar de novo Devagar, sem desistir Como pintinho no ovo Bicando aqui e acolá Somando com nosso povo Não deixe que este verso Seja mera distração Sinceramente, confesso Não foi esta a intenção Quero que lhe seja útil Em alguma ocasião


Devo esclarecer a tempo Que nossa luta é igual Companheiro e companheira Vítimas do capital Somente a nossa união Destruirá este mal A vitória não se espera É preciso conquistar A luta começa hoje Basta você se engajar Acredite, companheira Nunca é tarde pra lutar.

FIM



Mulher – consciência nem violência nem opressão