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ESTE FOLHETO É PARTE INTEGRANTE DO ACERVO DO BEHETÇOHO EM FORMATO DIGITAL, SUA UTILIZAÇÃO É LIMITADA. DIREITOS AUTORAIS PROTEGIDOS.


INFORMAÇÕES SOBRE O PROJETO O Acervo Eletrônico de Cordéis do Behetçoho é uma iniciativa que pretende dar consequências ao conceito de (com)partilhamento dos artefatos artísticos do universo da oralidade, com o qual Behetçoho e Netlli estão profundamente comprometidos.

INFORMAÇÕES SOBRE A EQUIPE A equipe de trabalho que promoveu este primeiro momento de preparação e disponibilização do Acervo foi coordenada por Bilar Gregório e Ruan Kelvin Santos, sob supervisão de Edson Martins.

COMPOSIÇÃO DA EQUIPE Isabelle S. Parente, Fernanda Lima, Poliana Leandro, Joserlândio Costa, Luís André Araújo, Ayanny P. Costa, Manoel Sebastião Filho, Darlan Andrade e Felipe Xenofonte


BASTIANA G. DE ALMEIDA JOB

A SAGA DO PROFESSOR


Meus colegas de trabalho, Meu amigo professor Com você agora falo Enfatizo o seu valor; E pela sua coragem Eu lhe presto esta homenagem A sua dedicação Nesta missão dolorosa, Mais espinho do que rosa Louvo a sua vocação! Nestes versos vou falar De toda a sua labuta Tudo que tem de enfrentar Nesta vida de disputa; Porque nesta profissão, Quem não tiver vocação Vai remar contra a corrente; Mil peripécias fazer Pra poder sobreviver De maneira mais decente.


Você, que há tempos, ensina Tanta gente a aprender Já sabe que a sua sina É trabalhar e sofrer; O mestre que é farol Útil como a luz do sol Merece mais atenção E ser mais valorizado, Mas sempre é posto de lado Sem nenhuma explicação! Não há mesmo explicação Pro mestre compreender Não existe um cidadão Que possa assim lhe dizer: − Ensinar é coisa à-toa, A vida de mestre é boa. O contrário é que acontece: Muita gente diz assim: − Eta vidinha ruim, Professor sofre e padece!


E padece porque quer Ensinar tudo certinho Fará tudo que puder Pra mostrar o bom caminho; Desdobra-se para crescer Mais e mais que aprender Para melhor ensinar Está sempre a fazer curso Investe todo o recurso Esperando melhorar! Faz vergonha o seu salário Aquele “tiquim” assim! Sua vida é um calvário Seu penar nunca tem fim; No dia do pagamento Em vez de um grande momento, É um dia de aflição; Seu dinheiro é retalhado Pois comprou tudo fiado Ou, então, à prestação


Tá devendo em todo canto Do açougue, ao armazém Seu olhar já tem o espanto Da triste vida que tem; Ao mercantil se dirige A conta de lá o aflige Lá a dívina é bem maior: Pois paga o que já comeu Que triste carma é o seu Merecia algo melhor! Quando chega o fim do mês Ai meu Deus, ai meu Jesus! De tanta conta é freguês Tem que pagar água e luz; O colégio do menino Lá o prazo é pequenino E o seu cheque não chegou; Vai pagar tudo com multa Todo mês é esta luta Mas nunca se acostumou!


Mas chegou o grande dia Do pagamento afinal... É uma grande notícia Manchete até de jornal; O repórter lá na Rádio Num tom de voz solidário, Diz assim o locutor: Caso não haja boicote Pra atrasar o malote Tem paga pro professor! Afinal o professor Está até saturado Todo mês, a mesma dor Todo mês, o mesmo enfado; Ouve, sempre, alguém falar: − O malote vai chegar! Outro gozador se atreve Jocoso passa a dizer: − Mas se o carro não bater Numa vaca, em Várzea Alegre!


Isto parece piada Mas, acreditem, não é! É assim a nossa estrada Parece ter um caié; E haja fila pra entrar Logo duas pra enfrentar: Lá na DERE, é a primeira; De posse do contra-cheque Correndo, vamos ao BEC Passar por outra canseira! E naquela fila aflita, Tripa roncando de fome, Um gaiato ainda grita: − “Quem mandou votar no home?” Se dá um riso cansado, Que via crucis pesado! Só coisa de brasileiro Outro momento infeliz, De repente, o Caixa diz: − No Banco, faltou dinheiro!


Ah! Se fosse apenas isso Que o mestre tem de passar! Além desse rebuliço Que tem cheiro de azar Não findam os maus momentos; Pois logo mil documentos; Tão pedindo, com urgência, Recomeça a correria Da Escola à Delegacia Haja a santa paciência! É xerox de identidade, Do título de eleitor, Diploma de faculdade Se você já terminou; Xeroque o pó-degiz, PASEP ou, então, o PIS contrato, CIC e Diário Mande o curso que tiver E acredite, se puder, Vai subir o seu salário!


Acalentando a esperança A gente até se ilude Torcendo pra que esta dança O seu ritmo ainda mude; Mas não muda e a roda-viva Como diz o Patativa: O tempo sempre rodando, Dia vai e dia vem Nada acontece, porém, O mestre sempre penando! Quando o professor consegue Ter uma vida melhor, Acreditem que ele segue Um caminho de suor. Três turnos ele trabalha, Toda a semana, sem falha, Nas escolas da cidade Faz a peregrinação Cumprindo a árdua missão Pra ter mais tranquilidade.


Por isso, às vezes, escuta Piadas de lá e cá Não sabem da grande luta Dizem que ele é Marajá; Só porque tem um fusquinha E a casa ajeitadinha Acham que ele é um Barão; O professor ri consigo Lembra o seu malabarismo Pra driblar a inflação. 15 de outubro, o dia Consagrado ao Professor Ele pensa com alegria Hoje, o seu governador Vai lhe dar um bom aumento, Inesquecível momento Na garganta sente um nó Desfeito num só segundo Como o Professor Raimundo O seu aumento foi OH!...


Professor que trabalhou Que nem um burro de carga Nada tem, nada lucrou A não ser infanda mágoa Ainda faz um “PROVÃO” Que é uma humilhação Pra mais lhe afundar a chaga; Da profissão se ressente, Dentro dela ele se sente Igualzinho à merda n’água... Esses que estão no Poder Estudam na proveta? Pois eles fingem não ver Que o mestre faz pirueta; Já está sem esperança: O que dirá à criança: − Que tudo vai melhorar? Como pode transmitir Da cara pátria, o porvir Vendo tudo piorar?


Tem que haver um outro jeito Para este quadro mudar Nós temos este direito De nossa vida aprumar; Nós não estamos de esmola Nem a gente se consola Vendo tudo acontecer: Desta classe tão ativa Está assim à deriva Sem poder sobreviver. É triste a realidade Desta árdua profissão Tudo o que disse é verdade Sem sofisma, ou ilusão; Usei minha consciência E a minha experiência Pra falar do magistério; E quem, a ele, abraçar Primeiro é melhor pensar Este assunto é muito sério!

FIM


A saga do professor  
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