Issuu on Google+


ESTE FOLHETO É PARTE INTEGRANTE DO ACERVO DO BEHETÇOHO EM FORMATO DIGITAL, SUA UTILIZAÇÃO É LIMITADA. DIREITOS AUTORAIS PROTEGIDOS.


INFORMAÇÕES SOBRE O PROJETO O Acervo Eletrônico de Cordéis do Behetçoho é uma iniciativa que pretende dar consequências ao conceito de (com)partilhamento dos artefatos artísticos do universo da oralidade, com o qual Behetçoho e Netlli estão profundamente comprometidos.

INFORMAÇÕES SOBRE A EQUIPE A equipe de trabalho que promoveu este primeiro momento de preparação e disponibilização do Acervo foi coordenada por Bilar Gregório e Ruan Kelvin Santos, sob supervisão de Edson Martins.

COMPOSIÇÃO DA EQUIPE Isabelle S. Parente, Fernanda Lima, Poliana Leandro, Joserlândio Costa, Luís André Araújo, Ayanny P. Costa, Manoel Sebastião Filho, Darlan Andrade e Felipe Xenofonte


ABRAテグ BATISTA

A AGONIA DE UM POVO E A MORTE DE TANCREDO NEVES

1985


Uma nação em agonia É coisa de estremecer, Um povo em aflição Não se pode desconhecer Quando se ora em conjunto Tudo pode acontecer. Eu vi o povo na rua Triste, se lamentando, Muita gente nas igrejas Fazendo prece rezando Nos bares, campos, cidades Num só assunto falando.

O presidente está nas últimas! Clamava um a chorar; Outro dizia: coitdinho! Ele não vai aguentar... Mas, com o meu pensamento - Ele tem que suportar!


Já que o povo tem agora Em Tancredo a segurança Deus do céu com o seu poder Dará nele a confiança; Mas outro quase a chorar Banhava-se sem esperança.

Eu pensava desse jeito Com toda a população Que rezava pelas ruas Sob muita iluminação Rezando para Jesus Que é nossa salvação.

Mas no fim verifiquei Com o Brasil inteirinho O corpo do presidente Envolto com verde linho Nos dando com a sua morte A coroa cheia de espinho.


Esse caso vai ficar Para sempre na história Porque o seu presidente Sobre a morte fez vitória Com a fé e esperança Teve o povo a sua glória...

Eu escrevi esse folheto Porque vi merecimento Para servir de testemunho Com o tom de ensinamento No desejo de um povo Com o seu conhecimento. Por isso vou começar Na minha iniciação Contando como correu Sem o povo, uma eleição Que viveu por vinte anos Sem os direitos do cidadão.


O Brasil vivia a força De uma grande ditadura Que durou 21 anos Na mais tremenda censura Cortando os pensamentos De quem tivesse cultura.

O exército tomou conta Fazendo a vez na política Mas, o corrupto sagaz Com sua manha fatídica Engabelou os soldados Cobrindo a farda de crítica.

Como foi estabelecido Sucederam-se os generais Com eleições indiretas E outras coisas imorais Permitiu-se que os corruptos Roubassem ainda mais.


Vinte anos se passaram Sem quase se perceber Que fazem muitas dívidas Sem o povo as merecer E ninguém podia mais O seu presidente eleger.

Começou-se uma campanha Para a democratização Mas, quem estava no poder Não queria mais eleição Alegando que o povo Tinha inválida opinião. O General João Figueredo Quis fazer a democracia Mas a gente maliciosa Essa coisa não queria Com um jeito, o general Do coração quase morria.


Nesse meio o Brasil todo Duma vez se levantou Representando a pobreza Tancredo Neves se apresentou Visitando todos os estados Logo o mundo conquistou. Por ser ele, Tancredo Neves Um homem de boa ação Que através de sua vida Foi pacato e bom cristão Não perseguia os inimigos e teve sempre o perdão.

Por ter ele, Tancredo Neves Do grande povo a simpatia Ter dito que a reforma agrária Sendo eleito, ele fazia Por ter jurado que a justiça No seu governo queria.


Por dito nos comícios Que a “dívida externa” seria Assunto para o Congresso E a “casa própria” não ia Tomar mais da pobreza Com tanta mesquinharia. Houve uma viravolta Na política da Nação Que o partido do governo Explodiu como um balão E o que estava em cima Ficou rasteiro no chão.

O candidato do governo Convencido que ganhava Contratou mais de cem moças E a ela recomendava Pra xelerar os políticos Pensando qu’isso bastava


Resultado: Tancredo Neves Teve vitória total Na eleição indireta Coisa muito imoral Mas o povo o queria E pôs o ponto final. Mas a vida tem segredos Que ninguém sabe dizer: No dia da posse dele Fez Tancredo adoecer E num hospital de Brasília Começou ele a morrer.

No começo se pensava Ser doença natural Mas depois foi publicado Na Inglaterra, a capital Dum atentado, e coisa e tal. Ou de bala ou nó nas tripas


Tancredo foi quem morreu E a própria Glória Maria Também de cá desapareceu Das reportagens que fazia Isso sim, aconteceu. Uns diziam: não se pode Tal notícia noticiar! O povo sabendo disso Quem o pode segurar? É melhor ficar calado Se não tudo vai rebentar.

Eu só sei que o presidente Em Brasília se operou Mas ninguém podia vê-lo Foi o que se publicou E medida igual a essa Toda história invalidou.


O presidente João Figueredo Foi operado do coração E ninguém o proibiu De ser visto pela nação Por que proibiram o Tancredo Esse caso... eu não sei não... Agora escrevo como lia Na TV Antônio Brito – De ver tanta contradição eu tolero o tal escrito e recomeço o narratório em cima do que foi dito.

A primeira operação Foi feita no intestino Mas pegou uma infecção Por conta do desatino Que os médicos amedrontados Discutiram o próprio ensino.


Pra São Paulo foi levado Para outra operação Pois em Brasília ele tinha Contraído a infecção Que iria dar ao povo A maior decepção.

O povo chorava tanto Que eu de dó também chorava Vendo o povo intranquilo Com sua fé que balançava As ruas e edifícios Por onde se encontrava Uma terceira operação Pegou todos de surpreza; Aí é que se rezava Naquela grande tristeza Quando dona Risoleta Mostrou sua fortaleza.


Dona Risoleta falou Como dama e mulher Que a saúde do presidente Do jeito que o povo quer Ele já estava curado, Mas seja o que Deus quiser.

A mulher do presidente Ainda disse para o povo: Não acreditem, meus irmãos Em notícias que desaprovo Só escutem as oficiais; Eu lhes peço aqui de novo.

Tenho confiança que Tancredo Em breve estará curado! Dona Risoleta falou assim Com o semblante tão nublado Que o rosto de quem a ouvia Depressa ficou molhado.


Mais uma quarta e quinta E outra sexta operação Todas elas nos deixavam Em profunda comoção Como se estivessem operando De uma só vez toda a Nação! Tinha gente que dizia: Eu prefiro é morrer Do que ver o presidente Naquele seu padecer! Outros choravam tanto Que vinha desfalecer.

Em todo canto se rezava Pela saúde do presidente Nas igrejas, nos pagados Faziam rezar a gente Na espera de que a reza Botasse tudo pra frente.


Uns diziam: ele é a síntese Da esperança nacional Nesse instante, o povo é Como Tancredo, todo igual; Ele não merece morrer Pois é o homem ideal.

Não morra Tancredo Neves Dizia Fafá de Belem Cantando com sua voz O que a pobreza inda tem, Outro dizia: esse homem Igual a ele não tem.

Num ato de extrema dor Uma sétima operação Foi feita em Tancredo Neves, Tal uma grande comoção Silenciou o Brasil todo Na sua dor e emoção.


Tancredo Neves já não tinha Lugar onde colocar Sondas, soros, injeções Aparelhos para aguentar A força bruta da morte Que o queriam levar.

Trinta e nove dias, ele Viveu nesse padecimento Lutando contra a morte No seu calvário cruente Até que Jesus Cristo Chamou-o para o firmamento. Aos vinte e um de abriu Tancredo neves morreu Às dez e meia da noite Foi o que aconteceu A morte do presidente Que com o povo sofreu.


Com a notícia da morte Estremeceu a nação O povo contrariado Perdia sua feição - Tancredo Neves é morto! É tudo desolação

Nas igrejas os relicários Estremeciam de dor Nas ruas os habitantes Naquele santo ardor Choravam a despedida do presidente doutor. A gente olhava e via Como se fosse um buraco Na expressão de um povo Que o amava de fato – Tancredo Neves morreu! Diziam os bichos do mato.


Ele tinha prometido Que pelo povo olharia Os problemas cruciantes Da nossa Ecologia Se Deus quisesse, com o povo Em breve resolveria. Os jornalistas da Globo Da Manchete e Bandeirante Sempre estiveram presentes Como soldados gigantes Dando as notícias possíveis Naqueles piores instantes.

Toda a nação brasileira Fez de Tancredo o velório Nos braços, as criancinhas De pensamento ilusório Perguntavam cadê Tancredo? Completando o auditório...


Fafá de Belem, na TV Cantou o hino nacional Com uma expressão tão bonita Que se tornou imortal E as lágrimas de quem ouvia rolou pelo quintal. Nas grandes revoluções É necessária a mulher: Foi Anita Garibaldi Joana D’Arc, ou como quer Jovita Feitosa aqui, Ou de outra nação qualquer. Foi Débora da velha Bíblia Helena de Ulisses e Tróia Cerenina de outra Rússia E Fafá na nossa história Representando a liberdade Na música de nossa glória.


O governo preparou Um grande cerimonial Com soldados de exército Da força aérea e naval Para acompanhar o enterro Até o ponto final. Do hospital ao aeroporto Era uma só multidão Cada vivente queria Tocar ao menos com amão No carro que conduzia De Tancredo o seu caixão O oficial que comandava O translado do seu caixão Teve que baixar a cabeça Para o povo em multidão Que rompeu a segurança Traçada com perfeição.


O povo acompanhou Dez quilômetros a pé O maior dos funerais Com lágrimas, canto e fé Misturando céu com a terra Tropeços, rico e ralé. A cada passo se via Por onde o morto passava Palmas, vivas e choro Numa cena que lembrava Do fantástico da televisão Pois ninguém ignorava.

Ciclista e motoqueiros E vendedores de picolé Soldados e varredores E todo mundo a pé Acompanhavam o presidente No maior mundo da fé


Na hora que a comitiva Subiu a escada do avião Dona Risoleta de ferro Voltou-se e deu com mão Acenando para o seu povo Que chorava pelo patrão. O vento soprava frio Na capital paulistana Enquanto a multidão Sem bater uma pestana Gritava: adeus Tancredo! Alá! Javé! Tupã! Osana!

Em Belorizonte aconteceu Aquilo inesperado O povo já muito triste O povo desesperado Rompeu o esquema de força Que tinham lá preparado.


Todo o mundo queria Ver o seu presidente E o que tinha empatado A passagem daquela gente Foi levado nos peitos Soldado, ferro e inocente.

Resultado: quatro mortos E mais de duzentos feridos Juntando-se aos funerais Aqueles outros gemidos Até que dona Risoleta Falou já sem sentido!:

“Meus queridos eu gostaria Que esse palácio soubesse Todos vocês para ver Como o amor enriquece Nos momentos de tristeza Que a nossa nação padece”.


A multidão ouvindo a voz Da sua dama querida Acaumou-se tal arcanjo E a solenidade então Naquela dor tão sofrida Foi pela pátria assistida.

No outro dia a tristeza Aumentou ainda mais Com a ida do caixão Para os últimos funerais Do maior dos presidentes De todos os generais.

A cidade de Tancredo Se preparou como podia Para receber o presidente Como achou-se que merecia Jogando ramais de flores Por todo canto se via.


São João Del Rei, a cidade No meio dessa tristeza Recebeu o filho amado Dentro da realeza Daqueles belos sobrados Que mostram tempo e firmeza. Tancredo é conterrâneo Do mártir da independência Por isso ficou chamando Com toda a reverência “o mártir da democracia Com honra e competência”

O enterro foi solene No seu instante final Os familiares do presidente Com todo cerimonial Não contiveram as lágrimas No toque emocional.


Falou o Dr. Sarnei Presidente substituto A beira da catacumba Em frente do povo em luto Dizendo que seguiria De Tancredo o estatuto. Ulisses guimarães No meio da agonia Falou em nome da câmara E do senado, que queria Ver tancredo neves, agora Com a nossa democracia.

O coveiro com cuidado A lage fria selou E um silêncio profundo A noite fria tomou Enquanto que o povo triste Sua esperança guardou.


Nós queremos liberdade Justiça, e democracia Emprego, salário, pão Educação e moradia As terras para os agricultores E a nossa soberania. Os índios que são tratados Como misérrimos indigentes Que sejam tão respeitados Como as crianças inocentes Mais respeito com o povo Fora as mentiras eloquentes. Neste momento termino Esse folheto fatal Desejando para Tancredo O gosto celestial E para nós brasileiros A nossa república ideal.

FIM



A agonia de um povo e a morte de tancredo neves