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ESTE FOLHETO É PARTE INTEGRANTE DO ACERVO DO BEHETÇOHO EM FORMATO DIGITAL, SUA UTILIZAÇÃO É LIMITADA. DIREITOS AUTORAIS PROTEGIDOS.


INFORMAÇÕES SOBRE O PROJETO O Acervo Eletrônico de Cordéis do Behetçoho é uma iniciativa que pretende dar consequências ao conceito de (com)partilhamento dos artefatos artísticos do universo da oralidade, com o qual Behetçoho e Netlli estão profundamente comprometidos.

INFORMAÇÕES SOBRE A EQUIPE A equipe de trabalho que promoveu este primeiro momento de preparação e disponibilização do Acervo foi coordenada por Bilar Gregório e Ruan Kelvin Santos, sob supervisão de Edson Martins.

COMPOSIÇÃO DA EQUIPE Isabelle S. Parente, Fernanda Lima, Poliana Leandro, Joserlândio Costa, Luís André Araújo, Ayanny P. Costa, Manoel Sebastião Filho, Darlan Andrade e Felipe Xenofonte


ELOI TELES

TESTAMENTO DE JUDAS


O mestre Figueiredo Filho, escreveu certa vez: “Judas, carnaval do pobre”. Em Crato, Auto da malhação de Judas, vêm do século passado. Já em 1891, escreveu Paulo Elpidio de Menezes, em CRATO DO MEU TEMPO: “...Chegava o momento esperado com ansiedade: A aparição do comboio do estravagante préstito. Em fim, lá vem ele entrando pela estrada do Pimenta Na frente o cavaleiro que conduzia na lua da sela, um boneco, do tamanho de um homem trajando calça e palitó pretos, bem calçado e de cartola... Após o suicídio por enforcamento, a cabeça em frangalhos pela explosão das bombas que a enchiam, o corpo do inditoso discípulo de Jesus, era arrastado pelas ruas e bairros, onde a molequeira triunfante satisfazia os desejos de vingança...” Assim estamos apenas mantendo uma tradição centenária. Méritos àqueles que durante esse longo percurso, mantiveram viva essa tradição. Eloi Teles


Querido povo do Crato Com licença, eu me apresento Sou Judas Iscariotis Não venho fazer lamento E não vim pedir perdão Pois quem comete traição Tem que sofrer o tormento Eu venho é pra ser punido Porque sou um réu confesso Sei que fui covarde e vil Por isso perdão não peço Mas venho abraçar vocês Quem trai não pode ter vez Diante o rei d’universo

Venho também pra pedir Um pouco de atenção Porque antes de morres Diante da multidão Eu mostro que não compensa Qualquer tipo de ofensa Principalmente a traição


Eu trai o mestre amado Filho de deus verdadeiro Recebi mízeros dinheiro Meu gesto de covardia Provocou naquele dia De cristo à morte ao madeiro

Fui em quem traiu Jesus Dando-lhe num beijo no rosto Por isso morreu na cruz E eu senti amargo gosto Cristo foi para o calvário E esse Judas mercenário Hoje acaba ao sol posto E por isto estou aqui No meio da multidão Esperando a minha morte O salário da traição Vim responder por meus atos Não farei como Pilatos Que não entrou na questão


Porém já que vou morrer Já que não tenho perdão E não tendo a quem deixar Minha herança, eu faço então Pra vocês meu testamento Agora, neste momento Faço a distribuição

O que eu tenho é muito pouco Mas eu dou de coração Junto a multidão eu venho Pedir para o escrivão Deixar tudim anotado Escrevendo com cuidado Esta grande relação

Espero repartir bem Toda riqueza que tenho Não posso agradar a todos Porem é com grande empenho Que pra fazer doação Diante esta multidão Perante a todos eu venho


Se alguém ficar sem nada Não é esse o meu desejo Todos são meus camaradas Eu aproveito o ensejo De deixar pra terra amada Gente boa, ilustrada O meu derradeiro beijo

Podem chamar o escrivão Para escrever o que digo Que prestem bem atenção Qu’eu vou dizendo ao amigo É o meu último desejo Pois que o carrasco já vejo Que vem acabar comigo Eu contratei três poetas Seu Elói e Correinha E o Luciano Carneiro Conforme a vontade minha Pra fazer meu testamento Ao derradeiro momento Pois são poetas de linha


Fernando Henrique Cardoso Presidente da nação Eu trai a Jesus Cristo Você traiu o povão Ao grande cara de pau Eu vou deixar o real Caindo com a inflação

Para o Fovernador Tasso Que outro igual nunca se viu Pois quem era adversário Hoje não dá nem um pio Deixo um Ceará pra frente Progressista, diferente Pronto pro ano dois mil Para Moacir Siqueira O meu querido joinha Cuidar bem deste Crato Desta cidade qué minha Deixo toda esperança Com um voto de confiança No progresso da terrinha


Queridos Vereadores Da camara municipal Pra vocês deixo dinheiro E um projeto especial Para soerguer o Crato Que ele seja de fato De fama nacional

Para Carlos Rafael Secretário de Cultura Que interceda pelo Crato Lá dentro da prefeitura Termine nosso teatro E os artista do Crato Tenha um teatro à altura

Meus queridos açougueiros Que no preço o pobre açoita Não dar bola pra fiscal Numa atitude afoita Compra gado até roubado Pra vocês deixo um bocado De carne morta na moita


Deixo com muito prazer Pra polícia militar Uma viatura nova Para bandido enfrentar Vagabundo, desordeiro Cheira cola e maconheiro Que vivem a pertubar

Mais irmãos do seminário Aonde Judas viveu Peço que vocês não sejam Um traidor como eu Sempre ajudei esta gente Vejam como realmente O bairro desenvolveu

Para o professor Tomé Presiente da FUMDEL Pelo trabalho que faz A ele tiro chapéu Cuide bem do nosso esporte Receba um abraço forte De Judas, o xeleléu


Povo do Barro Vermelho Meu Bairro Pinto Madeira Gente que eu muito amo Nesta hora derradeira Deixo uma jumenta cega E uma conta na bodega Da cabeça da ladeira

Eu não podia esquecer Quem se lembrava de mim Querido Domício Bastos Meu saudoso MUCUIM Ele com seus ancestrais Promoveram até demais Esta festa do meu fim

Para Antonio Vicelmo Eu lembrei neste momento Nada deixo, porque Judas Admira seu talento Nem que você meta o pau Peço que no seu jornal Divulgue meu testamento


Para Raimundo de Pia Meu sobrinho, meu moleque Que com o seu carro pipa Faz um bico na SAAEC Pra lhe ajudar, meu pequeno Eu quero lhe deixar “ZENO” Antes que ele desmonheque Pra meu parente Sampaio Do Lanches Tupinambá Deixo uma peruca velha Para a carece tampar Ainda com muito gosto Para fazer tira gosto Deixo um casal de preá Deixo os moto-táxi Que rodam pra todo lado O meu velho capacete Com dois buraco de lado E um colete sem graça Que um dia lá na praça Eu tomei de um veado Meu irmão Luiz Jacú


Que e Flamenguista doente E toda hora se zanga Com os bêbados da nascente Pra você meu bom menino Meu título de vascaíno Eu lhe deixo de presente Para luzimar soares Popular cego jabá Organizar sua vida Com prazer vou lhe deixar Dois microfones quebrados E um calção velho rasgado Pra você se orientar

Para todo carroceiro Que de Judas é irmão Deixo uma carroça velha E o meu burro chotão Pra mostrar que fui dencente Vou deixar muita aguardente Para tomar um pifão


Para meu colega Salmíneo Um amigo de primeira Eu lhe deixo de lembrança A minha velha pinteira Que eu fumava maconha Escondido, com vergonha Por fazer esta besteira Para mundinho Siebra Meu sobrinho delicado Eu deixo muita muamba Venda com muito cuidado Tudo que deixo pra ti Eu roubei de um travesti Na calçado do mercado

Genézio da Cinelândia Que não dá água a ninguém E quando fica zangado Não abre nem para o trem Pra você Genézio eu deixo O chapéu de semi-eixo E um quilo de xerém


Para Angelo Pereira Que a anos jogou bola Deixo pra fazer suada O triangulo de merola Pra você que é sisudo Deixo um preso queixudo Daqueles que cheira cola

Pra meu irmão Paulo Freitas Que não me sei da lembrança Deixo muito contrabando Do Paraguai e da França Para lhe comprar fiado Vou deixar todo assanhado Meu primo Amigo da Onça Para Vicente Padeiro Quem Judas tem afeição Deixo pra fazer seresta O meu velho violão Vicente é de confiança Por isso dou de lembrança Cuecas samba-canção


Para a turma de coroas Que bebem no calçadão Pedem sempre pra ouvir Eu só quero o vaneirão Pra vocês que nada falta Deixo aquela bicha alta Chamada Vera Verão

Pra turma de Moto-taxi Do posto do calçadão Jogam dado dia e noite Com a maior confusão Deixo uma moto quebrada Que roubei de um camarada Na estrada do fundão Pra Chico Boa Sorte Que Juda também já foi A traição que fiz a Cristo Peço você me perdoe Pra você Chiquinho deixo Um quilo de quebra queixo E a peruca de um boi


Pra Joaquim da primavera Não se esquecer de mim Avise pra Portugal Que hoje vai ser meu fim E eu vou deixar pra vocês E pra todo português O engraxate “Gerrim”

Pra seu Elóia poeta Luciano e Correinha Deixo uma jumenta magra Com dois surrão de farinha Pro resto da academia Beber água boa e fria Deixo um pote e uma quartinha Pessoal da barateira caixa d’água e mutirão do são José ao lameiro do buriti ao fundão aceitem um beijo falso e também um forte abraço de Judas, o enrolão


pra Chico de alagoano que é de Garcia também deixo uma galinha cega mostro que lhe quero bem você é rapaz disposto prepare um bom tira gosto de galinha com xerém para todo motorista de carro de aluguel deixo meu catatau velho que lhe chamam lorél ainda com muito gosto queiram aceitar no rosto o amargo beijo de fel para seu Almir carvalho da Boate colibri deixo 3 litros de cana da Vale do Cariri ainda para seu dengo um retrato do flamengo quando esteve por aqui


para meu neto Irlânio conhecido por boquinha que sua boca parece mais um surrão de farinha e agora deu pra brigar pra você eu vou deixar uma franga de galinha

pessoal da Caixa d’água neste instante derradeiro peço não vão esquecer este Judas fofoqueiro que entregou Nosso Senhor a vocês também eu dou o meu beijo traiçoeiro Meu querido Zé de Zumba Você que é meu irmão E que sempre prestigia Esta nossa tradição Deixo lá no tamanqueiro Um velho pai de chiqueiro Duas porcas e um barrão


Meus parentes, os caretas Não vão fazer sururu Pois eu vou deixar farofa Com cozido de tiú Pra ser festa animada Vou deixar oito canada De cana pau de urubu Adeus a turma querida Da fundação cultural Por cultuar minha festa Já tão tradicional Não se esqueçam de mim Lles deixo um bandolim Comprado em Abidoral

Eu não podia esquecer Meu irmão Zé albanito Por ser falso como eu Chora esperneia e dá grito Para beber com fubúia Lhe deixo um caco de cuia Com a banda de um sibito


Vou partir mas deixo agora Pro meu irmão Luiz Sarmento Uma gaiola furada Com duas rolinhas dentro Ainda pra seu transporte Pra Juazeiro do Norte Deixo meu velho jumento Para a mulher traidora Que diz que ama e não ama Assim que o marido sai Ela vai fazer programa Dizer a ele eu não digo Deixo pra ela o castigo De dormir na minha cama

Pro homem que não importa Que a mulher não lhe obedeça Faz tudo porque não quer Que ela se aborreça Espere até q’eu mande Um par de chifre bem grande Pra lhe enfeitar a cabeça


Pra o rapaz que arranja noiva Não quer que a mãe se oponha Deixo uma companheira Bem travessa e bem medonha Mexeriqueira e briguenta Pobre, feia e ciumenta Pra lhe matar de vergonha Pra moça que não escolhe Bom rapaz pro casamento Deixo um analfabeto Que coma feito jumento Para viver ao seu lado Dormindo de bucho inchado E arrotando fedorento

Para a turma do IBAMA Que cuida bem da floresta Deixo um abraço apertado E convido pra minha festa Pra assistirem o meu fim Que eu sou infeliz assim Mas dou valor a quem presta


Para a turma do DETRAN Deixo o meu muito obrigado Por multarem carro velho Com documento atrasado E motorista sem carteira Carro não é brincadeira A vida requer cuidado

Médicos e Médicas do Crato Uma alerta vos darei Não traiam seus pacientes Não hajam fora da lei Vejam o que me aconteceu Trai Cristo, ele morreu Fiquei louco e me enforquei

Professores e professoras Deste querido lugar Que seja da rede pública Ou da rede particular Eduquem bem seus alunos Que não cresçam infortúnos Traiam Deus deem pra roubar


Todo ano eu volto aqui Pra mim, nada é diferente Sou o mesmo traidor Odiado dessa gente Parece mesmo uma praga Quem aqui deve, aqui paga Torno a morrer novamente

Mas agora a minha morte É de forma divertida Numa tradição folclórica De fama reconhecida Não morro me maldizendo Porque sei que tou morrendo Para o folclore ter vida Agradeço a comissão Que todo ano se empenha De me confeccionar Pra que eu de novo venha Morrer de forma esquisita Pra festa ser mais bonita E prazer o povo tenha


Volto no ano dois mil Ainda não sei o mês Para morrer novamente Conforme queiram vocês Entre vaias e mal trato E os folcloristas do Crato Reviva a festa outra vez

FIM



108º auto da malhação de judas