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TOM DEFESTA

ilustração de josÉ afonso: luis silva

concerto de encerramento

CONCERTO DE TRIBUTO A JOSÉ AFONSO Porque em todas as fronteiras é bem-vindo quem vier por bem, aqui prolongamos uma festa começada na Galiza, em Santiago… homenageia-se o Zeca mas, muito mais do que isso, ele estará presente.

Terra daFratertondela nidade 28ACERT JUL’12


porque

SIM!

Perguntar qual o porquê de uma homenagem a José Afonso em Tondela, bem podia ter este título como resposta. De facto, evocar o Zeca – não como carpideira chorosa, mas com a alegria de o cantar e a emoção de partilhar a sua universalidade – é tão natural aqui como em qualquer outro lado. Nem a obra e atitude humana nele impressas ou por ele expressas cabiam em localismos com fronteiras. Então, agora, é aqui! Prolongando manifestações que, não solenizando mitos, lembram o poeta, o músico, o homem… e a vida. Muito particularmente a Terra da Fraternidade galega de Santiago de Compostela, em maduro Maio passado, repetida em Orense no mês seguinte. Aqui, sítio de amigos antigos e novos. Sempre novos… Aqui, neste Tom que sempre se quis, como agora, de Festa. Aqui, onde a ACERT nunca isolou a intervenção estética e cultural dos princípios e horizontes de justiça e igualdade, não como objectivo mas como ponto de partida. Assim vamos construindo esta Terra da Fraternidade, sem agradecimentos solenes, mas abraçando com a gratidão fraterna e cúmplice da partilha todos os que nela participam, de todas as formas. Aqui, onde é sempre bem-vindo quem vier por bem.

Alegria da Criação | José Afonso Plantei a semente da palavra Antes da cheia matar o meu gado Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita num terreno ao lado A palavra rompeu Cresceu como a baleia No silêncio da noite à lua cheia Vi mudar estações soprar a ventania Brilhar de novo o sol sobre a baía Fui um bom engenheiro um bom castor Amei a minha amada com amor De nada me arrependo só a vida Me ensinou a cantar esta cantiga Feiticeira Mãe de todos nós Flor da espiga Maldita para tiranos Amorosa te louvamos tens mais de um milhão de anos Rapariga Quando o lume nos aquece No grande frio de Inverno Vem até nós uma prece Que assim de longe parece Uma cantiga Magistrada Nossa natural Vitoriosa Curandeira dos aflitos Amante de mil maridos Há mais de um milhão de idos tormentosa Quando a fera encarcerada Que dentro de nós suplanta Quebra a gaiola sozinha Voa voa endiabrada Uma andorinha

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ilustração: Prumix

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Aqui se credita a Fernando Catroga a expressão “céu da memória”, alma e nervo desta carta.


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Terra daFratertondela nidade 28ACERT JUL’12 CONCERTO DE TRIBUTO A JOSÉ AFONSO*

(A banda base do concerto)

A Cor da Língua / Acert + musicos convidados Acompanhar Zeca e os músicos do nosso encantamento Um projecto musico-teatral que constrói pontes entre os escritores de língua portuguesa, deixando-nos enfeitiçar pela paleta de cores que plasticamente a remodela. Neste espectáculo, prossegue-se uma relação intensa de partilha, matriz de um projecto que, com várias formações, perdura há 30 anos. Teremos como maestro e mestre, Zeca Afonso e as suas canções. De muitas partes, recebemos cada um dos músicos solidários oferecendo a hospitalidade da nossa música. Tratámos cada um dos temas, melhor do que se nossos fossem. Sabemos que são preciosidades. José Afonso deixou uma obra criativa — musical, poética e humana — universal. E, “somos nós os seus cantores”, num tempo sem tempo. Arranjos, Direcção musical e percussões: Rui Lúcio Guitarras: Carlos Peninha Violoncelo: Lydia Pinho Contrabaixo: Miguel Cardoso Flauta e voz: Luísa Vieira Voz: José Rui Martins Participação especial Trompete: Adriano Franco Trombone: Pedro Santos Saxofones: Hugo Gama Flugelhorn: Ricardo Formoso Violino: Manuel Maio Guitarra: André Cardoso Teclados: Filipa Meneses Guitarra: Miguel Cordeiro Violino: Henrique Apolinário

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Este concerto só é possível graças á solidariedade de todos os participantes, tendo como ponto comum, também o facto de já se terem apresentado nos palcos da ACERT. A todos eles, um abraço fraterno, por também fazerem deste Tom de Festa a sua Terra da Fraternidade! Cantos da Liberdade Carlos Clara Gomes e Aurélio Malva Couple Coffee Chévere Fran Pérez Narf Francisco Fanhais João Afonso Júlio Pereira Lourdes Guerra Luis Pastor Manuel freire Najla Shami New Sketch Presença Das Formigas Sebastião Antunes Trigo Limpo Teatro Acert

site: http://www.acert.pt/trigolimpo/registo.php?id=39

Uxía

agradecimentos

Vitorino

Luis Silva (autor da ilustração) Associação Terra da Fraternidade (Galiza) Bea Bogalho Xoán Quintáns Caramuxo - camisolas da Galiza Associação José Afonso

Zeca Medeiros *40 anos da 1ª interpretação pública de “Grândola Vila Morena” edição portuguesa do concerto de Santiago de Compostela de maio’12


Participantes do Concerto na Acert Porque em todas as fronteiras é bem-vindo quem vier por bem, aqui prolongamos uma festa começada na Galiza, em Santiago… homenageia-se o Zeca mas, muito mais do que isso, ele estará presente.

A PRESENÇA DAS FORMIGAS O grupo recebeu o Prémio Zeca Afonso, Festival Cantar Abril’09. O seu álbum de estréia – Ciclorama (2011), conta com as participações especiais de Amélia Muge, Fraser Fifield e Ricardo Matosinhos. João Lisboa, no jornal Expresso, expressou as suas impressões sobre o CD: “Aquilo que, no álbum de estreia do septeto do centro-norte luso, se escuta foi já bastamente decantado e destilado nos alambiques de Fausto, José Afonso, Sérgio Godinho, Gaiteiros de Lisboa e Amélia Muge (…) cada um dos ingredientes se identifica são apenas as mais subtis essências combinadas em doses infinitesimalmente exatas com sabedoria de perfumista. (...) Tudo moldado sob a forma de canções que (os elementos do grupo) elevam às mais oxigenadas alturas da música portuguesa de hoje.” site http://www.myspace.com/apresencadasformigas

CARLOS CLARA GOMES O Cantautor de Viseu que fala todos os dias com o Zeca É, sem dúvida, pelo que realiza, o cantautor do Distrito de Viseu. Sem rodeios, Carlos Clara Gomes tem tido um percurso coerente e multifacetado nas diversas aventuras musicais do seu percurso de mais de 35 anos de canções. A solo, em muitos grupos que integrou e nos projectos que cruzam música com o teatro e a literatura, este cantautor tem composto temas que fazem parte de álbuns seus e outros em que participa. José Afonso, sempre presente no seu repertório e inspirando-o na música e no posicionamento engajado com causas. Em Festivais, nas colectividades, nos bares, nas digressões, com centenas de músicos e grupos com quem partilha a sua música, sempre solidário e utópico! “Nós somos quem salta à noite por sobre os muros | Nós somos os que reclamam o tal futuro”, escreve e canta… Em parceria musical com Aurélio Malva (elemento da Brigada Vitor Jara) site: http://www.myspace.com/carlosclaragomes

CANTOS DA LIBERDADE Tocar a liberdade e celebrar a música dos cantautores e os cantos da Liberdade. Formado inicialmente para actuar no 25 de Abril em Taveiro, em 2009. Músicos com afinidades e com outros projectos em comum (Orquestra Haeminium, A Cor da Língua, Orquestra Smooth…). Este projecto estabelece o seu repertório na orquestração de temas de Sérgio Godinho, Fausto, José Mário Branco, Adriano Correia de Oliveira e, sobretudo de José Afonso. O espectáculo decorre também num quadro de apresentação de audiovisual com cronologia das músicas, enquadradas em momentos da história mundial em que foram criadas.

CHÉVERE Zeca Afonso é também Chévere! Chévere é cultura pop, faz teatro pop, utiliza cores planas e grandes superfícies. Toma a sua linguagem do extremadamente popular e dos meios de comunicação de massas (o cinema, a tv, a banda desenhada, a música rock, internet...), códigos perfeitamente reconhecidos pelo público que Chévere transtorna, deforma ou modifica ironicamente (e com um distanciamento muito evidente, brechtiano ou não), tratando de falar ao espectador no seu mesmo idioma para estabelecer unha comunicação muito directa a partir duma cumplicidade imediata. Chévere é loucura, a utopia artística e a subversão do pré-definido.

COUPLE COFFEE “Co’as Tamanquinhas do Zeca”, um tributo ‘tropical’ a Zeca Afonso Ela faz tudo o que quer com a voz, ele sola, acompanha, e mais do que isso: seu baixo canta. Couple Coffee é o casamento musical de Luanda Cozzeti e Norton Daiello, artistas brasileiros residentes em Portugal. Dessa alquimia resulta uma música espantosa, original e sofisticada. A comunicação com o público é imediata. Não há quem fique indiferente a tanto virtuosismo. Em Abril de 2007 a banda editou o seu segundo álbum - “Co’as Tamanquinhas do Zeca!”. Centrado na obra de José Afonso, este álbum trouxe uma perspectiva fresca para a obra de Zeca e foi transformado num original espectáculo que recebeu aplausos por todo o país. site: http://www.myspace.com/couplecoffee

FRAN PÉREZ Entre a Galiza e Tondela, passando pelas geografias do Zeca Compositor e cantor com longo percurso, parte do qual está ligado ao mundo Lusófono. Tendo a Galiza como ponto de partida, explora sonoridade e poemas que são resultado das suas aventuras por vários países. Em colaboração com o produtor Toño Vázquez, artistas como Marcos Teira, Pepe Sendón ou Xavier Belho, o Trigo Limpo ACERT e a agência Nordesía, impulsionou experiencias de criação, intercâmbio e co-produção: “BUMBA” com os moçambicanos “Timbila Muzimba”, ou mais recentemente com “Aló irmão”, com Manecas Costa (nº 1 no “As 10+ Sem Espinhas” - RDP/África). Há mais de duas décadas que é assíduo colaborador da ACERT, para quem criou músicas de cena e a direcção musical de 14 edições da “Queima Judas ACERT”. Uma afinidade particular e casual o liga a José Afonso: o navegar na música de Moçambique. site: http://www.myspace.com/uknarf

FRANCISCO FANHAIS Vemos, ouvimos e lemos! Uma voz da resistência à ditadura. A sua música “Vemos Ouvimos e Lemos” foi emblemática e continua actual, tal como os álbuns que editou desde 1969. Tomou contacto com a música de José Afonso por um professor que, aos vinte anos, lhe deu a escutar um 45 rotações com “Menino do bairro Negro” e “Vampiros. Conta que, ao ouvir o disco, pensou “Como gostaria de cantar como ele e dizer, através da música, as coisas importantes que ele diz”. Aos 23 anos foi ordenado padre, tendo sido, seis anos depois, proibido de exercer o sacerdócio, de cantar e de dar aulas pelas suas posições contra a ditadura. Emigrou para França em 1971, só regressando após o 25 de Abril. É o actual presidente da Associação José Afonso, de quem foi um companheiro inseparável. site: http://ffanhais.com.sapo.pt/ffanhais.html

JOÃO AFONSO A emotividade de uma voz simbólica e singular Cultivou, desde cedo, o gosto de cantar, tendo colhido influências, quer da música urbana africana, quer da música popular portuguesa, através do seu tio José Afonso. O projecto “Maio Maduro Maio” (parceria com José Mário Branco e Amélia Muge) leva-o a optar pela música, deixando o curso de Agronomia. O seu primeiro álbum a solo, “Missangas”, surgiu em 1997 Melhor Voz Masculina Nacional (Blitz). Seguem-se: “Barco Voador”, “Zanzibar”, “Outra Vida” e “Um Redondo Vocábulo”. Participa em dezenas de álbuns de outros autores, percorrendo os palcos do mundo. Além da apresentação dos seus espectáculos e participações em festivais, colabora habitualmente com Uxía e Luis Pastor, interpretando temas seus, dos dois cantautores e de José Afonso. Imprescindível neste concerto! site: http://www.myspace.com/joaoafonsomusic

JÚLIO PEREIRA “[Zeca] fomentava relações fraternas no meio musical” Multi-instrumentista, compositor e produtor. Até aos 20 anos, foi músico em grupos de rock de referência nos inícios dos anos 70. Ao fazer um arranjo de uma música de José Afonso, usou o cavaquinho pela primeira vez. - “A partir daí o Zeca pedia-me que o tocasse nos seus concertos, momento em que ele descansava a voz. Mais tarde fiz um disco com esse instrumento.(…) - Ainda existe – creio – uma grande relutância dos Portugueses – não os jovens, claro - em considerá-lo mais músico do que “revolucionário”. A verdade é que era o que foi… As duas coisas!”. Criou álbuns marcantes da música tradicional portuguesa, destacando-se a sua colaboração com José Afonso com quem colaborou regularmente tocando em vários palcos do mundo, produzindo os seus últimos discos. site: http://www.juliopereira.pt/

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LUIS PASTOR e LOURDES GUERRA

TRIGO LIMPO TEATRO ACERT

“Grândola Vila Morena, é o hino mais bonito, de todos os que se fizeram no Séc. XX”

O Zeca Afonso , sem saber, entro no primeiro espectáculo em 1976

A sua voz é inconfundível. Como caracterizou José Saramago, “áspera e ao mesmo tempo suave, como o foram as vozes dos grandes trovadores do século passado.” Lourdes Guerra, voz gémea de Luís Pastor, prolonga o encanto… Muitos anos decorreram sobre múltiplas cumplicidades de Luis Pastor com músicos e a música portuguesa. A amizade com José Afonso foi o advento de uma particular forma de abordagem musical e de identificação do valor da música para dar voz aos que a não tinham. Por tudo isto, assume-se como “portunhol” e “afromenho”. Luís Pastor guarda sempre Zeca no seu repertório e memória, dando sinais permanentes da sua admiração pela sua obra e postura humana. Passaram quatro décadas e 20 álbuns desde o início do seu percurso musical, Luís Pastor permanece fiel ao título de seu primeiro álbum. Fiel a uma atitude, a princípios, a um compromisso e a uma forma aberta de fazer música. site: http://www.luispastor.com/

Amador em 1976. Continua a amar em 2012. Faz teatro, varre a casa, carpinteira, anda pela rua… faz da vida uma geringonça. Espalha afectos a loucos que querem entrar nas viagens e aventuras. É profissional nos objectivos e voluntário nos sonhos. Espalha brasas, sem ter medo de se queimar. Um dia, em 1976, sem que o Zeca soubesse, cantámos as suas canções e ele entrou, sem saber, no primeiro espectáculo. “Povo Acordou” era o nome da primeira peça. “O que faz falta é agitar a Malta!”. Fazemos por isso Zeca! site: http://www.acert.pt/trigolimpo/

MANUEL FREIRE Ele bem sabe que o sonho… Entrou no Teatro Experimental do Porto, em 1967. Entretanto estreava-se na música, com um EP que continha “Dedicatória”, “Eles”, “Livre” e “Pedro Soldado”, em 1968. O disco não escapou à censura, vindo a ser proibidos quatro temas. Estreou-se na televisão, no Zip-Zip, em 1969, para cantar “Pedra Filosofal”, poema de António Gedeão, que o popularizou. O EP “Dulcineia” foi lançado em 1971, em 1972 colaborou na banda sonora da longa-metragem de Alfredo Tropa, “Pedro Só” e editou, em 1973, o LP “De Viva Voz”, gravado ao vivo com José Afonso e José Jorge Letria. Foi um dos muitos músicos que, conjuntamente com Zeca Afonso, participou no influente e extraordinário espectáculo que encheu o Coliseu, a 29 de Março de 1974, acabando num coro de “Grândola Vila Morena”. site: http://deltacat02.com.sapo.pt/manuelfreire.html

NAJLA SHAMI “Zeca semeou palavras e músicas a sentimentos com que a colectividade faz mover o mundo” Compositora e cantora de grande versatilidade com uma ampla trajectória no mundo da música, das artes e do ensino. Nasceu em Santiago de Compostela de pai palestiniano e mãe galega, a mistura é o factor que define toda a sua carreira musical. O jazz, funk, blues, música brasileira, galega, espanhola ou árabe são ingredientes habituais no seu trabalho. A sua música é marcada pelo encontro com músicos de distintas partes do mundo como Brasil, Portugal, Angola, Galiza, Espanha, semeando músicas da lusofonia. Combina a sua paixão pela música com o ensino, colaborando com diferentes escolas como professora de técnica vocal e linguagem musical. A viagem que faz pelos temas de Zeca Afonso é singular e emocionante. site: http://www.myspace.com/najlashami

NEW SKETCH A música alternativa canta Zeca Grupo de jovens músicos que lançaram o CD “Ao Tom Dela” que, como dizem, “é um sinal de alerta de quem deseja estar inquieto, comprometido com a poética interventiva e com uma música que não quer ser como a água: sem cheiro, sem sabor e sem cor.” Congregam músicos locais e da região, tendo um repertório de música alternativa, denotando uma preocupação na abordagem poética de intervenção social. Ao Tom Dela, são recados deles para um mundo que, para ser New, tem que ser um Sketch. Cantam os sinais de Zeca sem entrelinhas. site: http://www.myspace.com/newsketchband

SEBASTIÃO ANTUNES Zeca com Folk Sebastião Antunes inicia a sua atividade profissional em 1988 com a edição do single “Caixinha de Música”, com o grupo Peace Makers. Vocalista, autor, compositor e professor de música. Tendo apresentado primeiramente alguns projetos a solo, foi o mentor do grupo Quadrilha, sendo o seu vocalista, autor e compositor. Sebastião Antunes, além de músico, é um contador de histórias repletas de sentimentos e crenças. São contos que revelam as tradições das “gentes da terra” e as suas lendas, as histórias contadas à lareira, as moças brejeiras, as sortes da lua, os encantos do campo e os mistérios da noite. Estudioso da música tradicional portuguesa, recria-a com a mestiçagem de temas folk de muitas latitudes. Sebastião Antunes colaborou com a ACERT na ManiFesta 96 gravando o tema “Ponte da Misarela” no CD “ManiFestaSons” Canta Zeca em forma de tributo e prazer. site: http://www.myspace.com/sebastiaoantunes

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UXÍA “Zeca é um criador universal. Uma pessoa consciente do seu tempo” Cantautora de Pontevedra é uma das guardiãs das raízes musicais galegas. Os mais de 25 anos de carreira artística, converteram-na numa das vozes galegas mais populares e reconhecidas internacionalmente. Construiu uma trajectória marcada pela defesa acérrima do orgulho da língua e da cultura galega, exercendo protagonismo não só em actividades artísticas, mas também de comprometimento social. Uma das vertentes artísticas que mais prioridade tem marcado a carreira de Uxía, nos últimos anos, foi a sua incessante aproximação ao universo musical lusófono.. A sua ligação à cultura portuguesa é permanente, marcando com a sua presença neste concerto um momento continuado de solidariedade, cantando temas José Afonso que, com a sua interpretação, já são distintivos nos concertos onde se apresenta. http://www.myspace.com/uxiasenlle

VITORINO “Zeca faz uma escola que, no fundo, ele é que a inventa” Presente em alguns momentos chave da Música Popular Portuguesa (por exemplo o célebre concerto de Março de 1974, no Coliseu), Vitorino foi companheiro de palco e canções de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Sérgio Godinho e outros nomes fundamentais da música portuguesa dos últimos trinta anos. Em 35 anos editou 22 discos, sem nunca se afastar dos valores em que acredita, manifestando-os destemidamente, e sempre com uma qualidade artística reconhecida. “Semear Salsa Ao Reguinho” foi logo considerado, apesar das condicionantes existentes na época, um ponto de referência na redefinição de padrões estéticos e caminhos que a música popular viria a trilhar a partir do meio da década de 70. site: http://vitorinosalome.com/

ZECA MEDEIROS A voz “[de Zeca Afonso] ergueu vilas morenas | Maio maduro que havemos de colher” Autor de músicas e letras, de cinema e teatro, funde e confunde o valor da palavra com a tradição e cultura açoriana, acrescentando-lhe com uma mestria incontornável o tom grave e rouco da sua voz, ora embalador, ora poderosamente desconcertante. Em concertos ou nos seus filmes, deixa marcas da sua sensibilidade. Um embaixador das terras açorianas e da sua música, repleta de sentimentos precisos, onde impera a melancolia, numa verdadeira festa de emoções. Muitos discos, palcos e ecrãs, apresenta a sua música e junta-se a muitos outros companheiros. É assim que ele é feliz. A ACERT atesta os seus afetos fraternos. José Medeiros faz das palavras verdadeiras armas de pensamento, por isso, o encanta interpretar Zeca Afonso, sempre. site: http://www.myspace.com/zecamedeiros


Poemas em tributo a José Afonso o porquê da sua publicação neste jornal Entre os muitos poemas de tributo a José Afonso, encontrámos um conceito que presidiu à seleção. Partilhamos as razões:

Carta ao Zeca | José Mário Branco

José Mário Branco, Sérgio Godinho e Janita Salomé companheiros que queriam muito ser viajantes no concerto “Terra Fraternidade” e que, por compromissos já assumidos, se tornam, desta forma e como desejavam, participantes activos com os poemas que dedicaram a Zeca Afonso.… que, cada um dos leitores, encontre a música que as suas palavras inspiram. João Pedro Grabato Dias um dos pseudónimos usados pelo nosso António Quadros “Pintor”. Natural de Santiago de Besteiros, falecido há 18 nesta sua freguesia do Concelho de Tondela. Escritor, pintor, pedagogo e até especialista em apicultura… Companheiro de viagem da ACERT copm quem muito aprendemos. A ACERT criou uma exposição sobre a sua obra. Como reconhecimento o seu nome está firmado numa rua em Tondela, por iniciativa da Câmara Municipal. Amigo de José Afonso e autor da letras de uma das sua músicas “Sete Fadas me Fadaram”. Hélia Correia uma escritora de muitas aventuras com a ACERT. Dispensa-nos explicações pelos ternura que nos contagia, tal como fez a Zeca com o poema que se publica.

Soneto para o José Afonso | João Grabato Dias (António Quadros / Pintor) O sílex maxilar abaixa e vibra, viva rocha fremindo o escárnio e a dor dos outros, que a sua é apenas flor enrazinhada ao maxilar e frívola quase, como quem não pretende. Víboras de ar contente enpinam-se ao calor da alheia orelha, e passado e amor e presente e gente, ganham a estrídula razão que inda não tinham. No paul de vicioso bafo, um tremendal de coxas rãs coaxam no azul um vazio silênclo. E à barragal do porto aconchegado em ocul ta estultícia chega um vento de sal…

Quando a Luz Fechou os Olhos | Janita Salomé Quando a luz fechou os olhos Amansou a terra um ar morno De cinza, doce, de cores desmaiadas Pelos perfumes vindos no bafo da noite Do ramo mais fino do silêncio Soou o rouxinol num canto dorido De seda e ondas, que soltava em cada nota Um fio delicado de fumo como fogo-fátuo Teceu um véu e ali se guardou De volta às entranhas da vida Basta um sopro mágico, liberto, Para que a luz acorde a cantar

Vieste de menino de oiro pela mão Acordar a madrugada E fez mais às vezes uma só canção Do que muita panfletada Grandes janelas soubeste abrir Por onde o ar correu sem te pedir Que não se cansem de nascer As fontes onde vais beber Nunca mais te hás-de calar Ó Zeca, para nós Canta sempre sem parar Que é seiva e flor A tua voz

José Afonso | Hélia Correia Em louvor da desordem. Exaltando o vinho e os seus fermentos. Em louvor dos motivos e em louvor da pura insensatez, nos sentaremos nós ouvindo este homem, atravessados pelo seu galope. Como a uma criança, aconchegamos tudo aquilo que ele amou. Tudo o que é térreo e sujo e sorridente, e oferece o rosto de chapão à luz. Coisas que nos deslizam sob a pele disparando calor. Regendo as linhas fundamentais da vida. Há um nó de caminhos onde este homem se pôs a esconder pólvora e sementes, calendários rurais. Dele não pode falar-se sem que se ouça a espantosa alegria. Sem que de novo bata pelos sítios o eco de um tambor. É bem possível que a canção vele, oculta nas cidades. Que se incline nos nossos pensamentos como um espelho lunar, duro e pacífico. E sob o seu olhar nos desloquemos por entre a turbulência. E dela venha um íntimo sentido e o seu ardor nos saiba conduzir. Pois deste homem ficou o ofício. Os meios. Sabemos de que modo se levantam as pedras sobre as pedras. Sabemos de que modo as aguçar. Existe ainda um cordão de linguagens. Vibra teimosamente o ar, movido por sopros e até mesmo por fadigas. E a sua voz empurra e alimenta essas circulações. É o vento do sol que permanece.

Vestiste a capa de caloiro coimbrão Para ultrapassar o fado E, em cada Natal, teu fruto temporão Nunca foi ultrapassado Na distracção jogas à defesa Com o humor disfarças a tristeza Cantas a esp’rança e o amor Que o povo te ensinou de cor Nunca mais te hás-de calar Ó Zeca, para nós Canta sempre sem parar Que é seiva e flor A tua voz Nem tudo o que reluz é oiro, pois então E bem gostaria o facho De te ver calado e manso pela mão Com medalhas no penacho Co’a tua ronha felina e sã Vais-lhe atirando as flechas de amanhã O olho pisco a acender E a garganta a acontecer

Poema | Sérgio Godinho Eh Zeca Afonso canto para ti ainda era moço quando te ouvi

E os surdos mudos tapam os olhos sopram canudos catam piolhos

Convite à dança fizeste a quem era criança soube-me bem

Coçam sovacos abrem a cova metem em sacos a tua trova

Eh Zeca Afonso mal tu sabias que duro osso que então roías

Mas não te afobes quem te amofina só fez que sobes na nossa estima

Menino de oiro no teu trenó foi mau agoiro deixar-te só

Há nas janelas do teu olhar duas donzelas ainda a espreitar

As mafarricas vieram todas pobres ou ricas celebram bodas

Olham para o mundo para o alecrim respiram fundo cantas assim

Disparam tiros de tudo comem até vampiros e um lobisomem

Senhor arcanjo Vamos dançar afina o banjo pelo luar 8)


Um pássaro igual a ti | Viriato Teles Provavelmente, o mundo está mesmo feito às avessas! Anda um tipo como este Zeca a vida inteira a dar a voz e o corpo pelas causas dos outros, passam-se anos a fio de viola às costas a cantar as utopias sonhadas no dia-a-dia, e acaba tudo assim. Estupidamente, numa madrugada de chuva indecisa, como se nada tivesse acontecido antes, como se todo o passado não fosse senão um sonho longínquo. Nós, no entanto, sabemos que não foi um sonho. Crescemos a ouvir Menino de Oiro e Os Vampiros, aprendemos de cor os versos de Vejam Bem e de Grândola. Aprendemos, com o Zeca Afonso de todos os cantares andarilhos, a saborear o gosto dos encantos e das emoções, a desejar e a lutar pelas cores da liberdade. Com Zeca e os seus companheiros aprendemos, ainda, que é muito menos fácil formular perguntas que encontrar respostas. Que as veleidades da ‘vida artística’, na qual ele nunca se encaixou, são como os foguetes de romaria, que desaparecem no ar após um instante de brilho e que, portanto, o importante é estar vivo, ter como única certeza a inquietação permanente. Há coisas assim, que parecem impossíveis. Depois vêm as inevitáveis cortesias-de-velórios, mas quanto a isso estamos conversados. Afinal somos um país de homenagens póstumas, não é? Que o digam o Adriano, Jorge de Sena, Fernando Pessoa. Que o diga agora o Zeca, ele que foi sempre tão dado a encolerizar-se com estas coisas. Veja-se a Televisão, que esperou a sua morte para mostrar, lacrimosa, as suas cantigas. Veja-se o poder, que tudo lhe

negou em vida, para descobrir agora (só agora, ó céus?) que, afinal, Zeca é um símbolo da democracia e da resistência antifascista! E proclama hossanas em sua glória, como se já não bastasse a dor que ficou. Felizmente, os que aprenderam com Zeca as mais belas lições de liberdade já se aperceberam também de todo o ridículo que se esconde por detrás destes lamentos hipócritas. E sabem que José Afonso, poeta e trovador, não é dos que morrem assim, sem mais aquelas. Sabemos que o sonho permanece, em cada esquina, em cada rosto, em busca da terra da fraternidade. Quanto a ti, Zeca, faz como sempre fizeste até aqui: não lhes ligues, ri-te deles, lá desse cantinho onde agora te encontras, provavelmente a contar ao Adriano as últimas cá de baixo. Afinal, já sabes como é: o mundo está mesmo feito às avessas. Se assim não fosse ainda agora por cá te teríamos, a mandar vir como era teu hábito contra «essa cambada engravatada e escolopêndrica» que insiste em controlar a gente. E até vão fazer de ti nome de rua, imagina! Olha: lá fora, aqui mesmo a dois passos desta mesa de onde te recordo, há um pássaro a recolher-se da chuva que, teimosa, vai caindo. Ou serão lágrimas? Seja como for, o pássaro é igualzinho a ti: por mais que tentem, ninguém consegue impedi-lo de voar. * Crónica publicada originalmente no Se7e de 25 de Fevereiro de 1987, dois dias após a morte de José Afonso, e incluída no livro As Voltas de um Andarilho, de Viriato Teles (ed. Assírio & Alvim, 2009)

Achégate a min maruxa | Uxía

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O Zeca é o máximo expoñente da Música Popular Portuguesa, un músico extraordinario e autodidacta cunha rara sensilibilidade para a poesía e para transmitir o sentir musical de todo un pobo. Coñecía ben o Fado de Coimbra, a música tradicional do seu país, da que bebeu en numerosas ocasións e da música africana, moi presente na súa discografía. Toda ela é un tesouro que se vai recuperar agora nunha nova edición que saeu coincidindo co 25º aniversario da súa morte. Morte... Non me gusta esta palabra cando falo do Zeca porque para min e para moit@s está máis vivo e de actualidade que nunca. As súas palabras e as súas cancións, como todas as grandes obras de arte, non pasan de moda. Nin siquera o repertorio máis comprometido é circunstancial. Hoxe podemos interpretar Grândola cun nó na gorxa ou Utopia ou calquera outra que ainda hoxe soa nas manis  da “geração á rasca”. Foi tamén un activista na relación coa nosa Galiza que para el era unha especie de Patria espiritual.  El foi e segue a ser un exemplo de cómo combinar as raíces e unha linguaxe propia. O compromiso e a beleza, o lirismo e a realidade. Poucos autores no mundo conseguiron dun xeito tan rotundo e natural esa conxunción irrepetíbel. A emoción e a precisión musical e esa voz fermosa e trémula que o seu sobriño João Afonso herdou. A súa sabiduría vital nunca me deixou indiferente, despois de anos e anos de escoitar e coñecer cada melodía, cada acorde, cada nota. E unha vocación de universisalidade da que procuro alimentarme, sempre. Nunca poderei agradecerlle bastante todo o que aprendín e sigo aprendendo. Cando interpreto “Verdes são os campos” ou “Menino do Bairro Negro”, sinto que estou en comunión con él.  De non nacer nun país pequeno como Portugal, o que lle resta visibilidade pública a nivel mundial, sería equiparable a Leonard Cohen, Bob Dylan, Brassens... Ainda así, creo que cos anos vaise recoñendo a súa figura en todo o mundo. Non en van é o compositor portugués máis divulgado de todos os tempos. É referencial e moi respectado entre a comunidade musical e literaria mais non é suficiente, tendo en conta que é o mellor escritor de cancións en portugués.  Moi simples na súa forma, e moi ricas no seu contido, o retrato social dun país, un narrador de historias fantástico. Ese é o Zeca, para min...

Tondela recebeu a visita do Zeca… | Paula Torres Seja bem-vindo quem vier por bem Não me lembro exactamente em que ano foi, mas terá sido pouco tempo depois do 25 de Abril. A ACERT ainda não existia, a solidariedade não era coisa institucionalizada. Os cantautores de Abril, Zeca, Vitorino, Janita, Fausto, achavam que o interior tinha direito a ouvir a música que eles tinham composto e continuavam a compor. Juntou-se a eles o Camilo Mortágua, o último dos aventureiros do nosso tempo, e partiram por esse interior fora, a cantar em tudo que fosse lugar... salas, celeiros, velhos teatros ou mesmo a rua. Não tinham cachet, cantavam pelo pagamento da alimentação e alojamento. Passaram por Viseu. Precisavam de ficar em algum lado para comer e dormir. O Camilo sabia que em Tondela havia uma casa onde cabiam sempre mais... cinco. A seguir ao concerto vieram todos para o Fojo. Havia uma mesa grande e muita boa disposição. Saíram as violas dos sacos, começaram a cantar... primeiro calmamente, porque havia crianças a dormir, e depois, pela noite fora, o tom foi subindo. O primeiro a desistir foi o Zeca, estava cansado, precisava de silêncio absoluto para dormir. Era o único que tinha direito a um quarto individual, mas o seu sono foi perturbado pelos barulhos de uma quinta: cães, gatos, galos, pássaros. Não conseguiu dormir... estava já muito doente. No dia seguinte levantou-se quase à mesma hora que os outros se deitaram, e então aí passeou pela quinta, sentou-se à sombra, conversou com as crianças. A meio da tarde seguiram viagem rumo a outros interiores e a outras casas, que igualmente ficariam com a memória de um dia, de uns tempos, inesquecíveis. Tondela, Julho de 2012

foto: ricardo©haves

Cando interpreto “Verdes são os campos” ou “Menino do Bairro Negro”, sinto que estou en comunión con el. 


De onde somos todos… | Carlos Santiago

Reproduzimos do jornal galego “Dioivo”, a propósito da realização de “Terra da Fraternidade” em Santiago de Compostela, pela oportunidade que lhe reconhecemos, uma entrevista conduzida por Carlos Santiago, companheiro de aventuras & loucuras.

Uma conversa com João Luís Oliva e Júlio Pereira. Os dois participaram em 1985 na produção do último disco do Zeca, Galinhas do Mato, um em labores executivos e o outro na direcção musical junto de José Mário Branco, quando o cantor lutava com a fase mais dura da doença. Conversa com João Luis Oliva

Alguma vez temos falado em tua casa desta lenda galaica de o Zeca ter cantado o Grândola ao vivo pela primeira vez em Santiago de Compostela e vocês, tu e o Júlio Pereira, revoltaram-se com o cabrito na boca. Já sabes que nós os galegos sempre andamos a roubar as certidões de nascimento de grandes portugueses como Luiz de Camões, um gajo que vocês acreditam ter nascido em Chaves ou Lisboa, mas que muitos galegos sabemos, brincalhões que somos, nado em Ponteareas. Ora bem, ao Zeca só conseguimos tirar-lhe a primeira luz do Grândola, ainda com alguma legitimidade pois já ouvi ao próprio Zeca afirmar em entrevista que foi na Galiza onde primeiro a cantou. Achas que os portugueses algum dia nos desculparão estes latrocínios culturais? Olha que a “revolta” não deve ter sido assim tão grande… Até porque a dimensão da vida e da obra do Zeca não cabe na pequenez das fronteiras políticas. Não há, portanto, latrocínios a perdoar, mas antes partilhas a saudar. Ainda por cima, quando isso é um bom pretexto para o evocar festivamente, sem aquelas formalidades sorumbáticas habituais em efemérides comemoracionistas.
Afinal, o “portuguesismo” do Zeca resultava do tempo, do modo e do lugar em que viveu (tal qual como o teu “galeguismo”); mas a sua obra criativa – musical, poética e humana – é universal. De Lisboa, Maputo, Amesterdão, Chaves, Santiago de Compostela, Buenos Aires, Ponteareas ou Tombuctu. De onde somos todos… Foste um dos envolvidos na produção de Galinhas do Mato, o último disco do Zeca e foi nessa altura que privaste com ele, nos seus últimos anos. A doença estava avançada e suponho que vocês, os muitos amigos que o acompanharam na aventura, tinham consciência de o disco ir ser o

seu adeus. Foi duro trabalhar com essas emoções de fundo? Pois, se calhar não deixava de estar no pensamento, nesse final de 1985, que aquele era o último disco do Zeca. Como disseste, a doença agravava-se, e mesmo a voz dele, que aparece em dois temas, não foi sequer gravada na altura; foi aproveitada do registo, dois anos antes, no trabalho para o disco “Como se fora seu filho”, de que esses temas – “Escandinávia Bar” e “Década de Salomé” – acabaram por não fazer parte. E o Zeca já não descia para o estúdio, que era na cave; ficava numa sala de entrada, no rés-do-chão, mas a acompanhar o decorrer da gravação com auscultadores e a intervir no trabalho através de um microfone. Intervenções sublimes, de simplicidade: uma vez, quando o “Cramol” (coro feminino, com genealogia no GAC, Grupo de Acção Cultural “Vozes na Luta”) estava a gravar uma linha de voz para o tema “Alegria da Criação”, e depois da primeira tomada de voz, o Zeca, reticente, mas sempre gentil, comandava – “Está muito bem… mas agora vamos gravar de novo e, desta vez, cantem a rir-se.” E, depois de cumprida a instrução, o trabalho ficou por ali, admirável, sem comparação com o anterior registo; só por estarem a rir-se…
Era por isto, pela sua presença criadora e criativa e, mesmo quando ele não estava, pela cumplicidade de pensamento do Júlio Pereira e do Zé Mário Branco (velhos companheiros de muitas estradas, estúdios e vidas) que, na sua ausência, e antes de decidirem o que quer que fosse, sempre pensavam qual seria a opinião do Zeca e, na dúvida, telefonavam-lhe. Era por isso, dizia eu, que o Zeca estava sempre presente e, apesar da indesmentível degradação do seu estado físico, se sentia sobretudo que se estava a produzir “mais um disco do Zeca”, e não o último. Com a alegria da sua força criativa, e não com tristeza de comiseração; estávamos ao lado de uma pessoa que continuava a sua marcha sentida e solidária da vida.
Lembro-me até de, na altura das gravações, estarmos a jantar na Pinheiro Chagas, onde o Zé Mário e eu vivíamos, e o Zeca polemizar activamente sobre o percurso político da sociedade portuguesa, em vésperas de eleições legislativas e presidenciais, e lamentar que músicos por quem tínhamos apreço andassem a fazer fretes a partidos do poder. O que estava em causa não eram os partidos; era o poder. E o poder… era o que já se via (sempre se viu e agora, porque é agora, mais claramente se vê).
 Tenho curiosidade em saber uma coisa; presumo que ele não andasse por aí com aquela auréola dos mitos e dos santos, bem ao contrário, mas como foi para ti encontrar um homem como ele, com essa dimensão épica, por assim dizer? Nem eu já sei!… Claro que ele tinha, para mim, e para quase toda a gente, a auréola que dizes. Conhecê-lo foi uma emoção sem medida – quando editámos, na “Regra do Jogo”, o livro “Livra-te do Medo. Estórias e Andanças de Zeca Afonso” de José Salvador –, mas ter trabalhado com ele – mais tarde, por mediação cúmplice do Júlio Pereira – é o ponto mais simbólico do meu percurso andarilho; nunca deixei de o registar, mesmo, heterodoxamente, em circunstâncias de formalidade curricular académica.
Mas, depois, e muito mais que isso, conviver e trabalhar com ele era a coisa mais fluente e natural que se pode imaginar. O rigor e a exigência que tinha relativamente ao trabalho e à vida, a complexidade problemática com que a

encarava, traduzia-se porém numa simplicidade de trato e numa descomplicação admiráveis (olha o exemplo do “cantem a rir-se”). Mas uma simplicidade sentida e quase automática, nada daquelas simplicidades construídas para que se dissesse que “fulano é tão simples…”. E era sempre admirável ouvir as suas palavras sábias, de uma sageza muito mais feita de perguntas que de respostas (embora, claro, com as suas teimosias de estimação).
 “Sou o meu próprio comité central”, afirmava o cantor que se envolvia nas coisas pelo lado existencial e não se deixava seduzir pelo mundo social da música, as suas estruturas e artifícios. Parece que uma figura como a de Zeca Afonso seria hoje impossível, mas não é isso o que o faz intemporal ao mesmo tempo? Descruzo o argumento! Hoje, como ontem, uma figura como a dele é possível e, por isso, o Zeca é intemporal. Mesmo admitindo a dificuldade de se conciliarem, numa só pessoa, o seu talento e força criativa com a sensibilidade social e a força solidária da sua vida, creio (como ele…) que sempre haverá pessoas assim, embora com individualidades únicas; e a do Zeca é, de facto, irrepetível. Aliás, é por isso que isto da História, apesar de (demasiados) períodos que aparentam retrocessos, na última análise do tempo longo, caminha para melhor.
E quem se deixe “seduzir pelo mundo social da música, as suas estruturas e artifícios” também sempre houve. Se o Zeca não ia pelos “artifícios” e pelo “mundo social da música” da moda e das revistas cor-de-rosa, ia pela solidariedade próxima com obreiros do mesmo ofício, que sempre acompanhava com atenção preocupada e, sem conselhos moralistas, com partilha de opiniões e opções sobre o que era o seu entendimento. Quanto a “estruturas”, entendo o que queres dizer: estás a referir-te a “lobbies” acalentados pelo poder. A esses, não! Mas sempre deu o seu contributo e participou em acções para que o trabalho de conjunto (na música como noutros desempenhos sociais) se produzisse da melhor forma. A Zélia Afonso, mulher dele, disse em algum meio que o Zeca foi sempre uma pessoa mal-amada pela comunicação social e pelas elites políticas. Achas que Portugal ainda tem uma dívida moral para com o seu mais grande cantor, que deu voz e corpo a um dos grandes símbolos do 25 de Abril? A Zélia sempre terá a sua razão… que maior será por ter sido a grande companheira da vida e da obra, dos sabores e dissabores, das alegrias e angústias do Zeca. E, de certeza, ela não está a falar de comendas e formalidades de circunstância, mas de reconhecimento público (e publicado) da sua obra. Mas eu, e de um horizonte menos próximo e de empenho obviamente diferente, sou menos, digamos, institucional: se as elites políticas sempre o mal-amaram (embora sempre se quisessem servir dele) e a comunicação social, em geral, não lhe tivesse dado o relevo merecido (mas também houve jornalistas que o fizeram), a força e a importância da vida e obra do Zeca vai muito para além desse reconhecimento institucional dos poderes. É que elas são sentidas e reconhecidas por todos e pelo tempo. Como dizemos que uma coisa que não é divulgada pela comunicação social não existe, bem podemos dizer que a comunicação social que não reconhece o Zeca, é ela própria que não existe. Ade-

mais, é ver quem – e, sobretudo, como – tem lugar na História… Vi algumas entrevistas antigas com o Zeca através da net, e surpreendeu-me muito a sua capacidade de análise face à situação política após o 25 de Abril. De facto muito do que ele falava, da transição da sociedade rural para o consumismo irracional, das derivas impostas pelo FMI e o deus banqueiro, das divisões da esquerda, do próprio fracasso da experiência revolucionária em Portugal... volta agora a uma segunda actualidade, se calhar a uma actualidade eterna que nunca acaba de ser superada. O seu cepticismo será também o nosso, animais devorados pela pós-modernidade? Em vez do “cepticismo”, eu ia mais pelo desencanto e desilusão relativamente a um processo que se tinha iniciado de uma forma tão esperançosa e para o qual ele tanto tinha contribuído, real e simbolicamente. Agora é que dava para a gente falar do “eu sou o meu próprio comité central”. Era essa desilusão e desencanto com direcções e dirigentes (pós)revolucionários, que se tornam os carcereiros da própria revolução; presos dos poderes institucionais e das estruturas que, invocando interesses e mitos do “colectivo”, sempre se preocupam com a preservação e reprodução dos seus próprios interesses e mitos. E a individualidade que o Zeca reivindicava nessa frase não era egóide ou solipsista. Pelo contrário, era a condição da alteridade solidária, do reconhecimento da individualidade do “outro”, mas sem a prisão de amarras, muros e ameias, que ele sabia (ia sabendo) sempre defendiam sucessivas instalações no(s) poder(es). Desengano e desilusão, mais que cepticismo, de um homem que continuava a acreditar numa sempre adiada cidade de “gente igual por dentro, gente igual por fora”. Já para acabar pergunto-te pela passagem do tempo e as armadilhas da memória, e como fica na tua lembrança aquele homem revoltado contra as situações. O tempo, ele próprio a grande armadilha, não é? Bem, mas a memória indelével que sempre terei do Zeca vai muito para além da do “homem revoltado contra as situações”. Foi, de facto, nessa dimensão de combate que o conheci antes de o conhecer; foi também essa dimensão de lutador pela liberdade real (e não formal) que sempre esteve presente depois de o conhecer. E essa é, digamos, a matriz das convicções e da força do homem que recordo e da sua memória exemplar. E também de muitos outros aspectos que, afinal, decorriam dessas convicções: o reconhecimento do “outro” e o seu sentido de justiça, mas também a intolerância perante o modo e as atitudes do que (e de quem) contrariava o caminho para a alcançar.
Mas é muito mais que isso: é a memória da doçura (nunca piegas) do artista, do poeta e do músico, do criador de peças que, muito mais que clássicas, e embora marcando um tempo, são a expressão intemporal do percurso do espírito de criação da humanidade. Conversa com Júlio Pereira. Disse-me o João Luis Oliva que foi o Zeca quem te entusiasmou a pegar no cavaquinho. Numa dada altura andava entusiasmado com este instrumento e estando a fazer os arranjos de uma música sua, de roupagem minhota, toquei-o. A partir daí o Zeca pedia-me que o tocasse nos seus concertos,

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momento em que ele descansava a voz. Mais tarde fiz um disco com esse instrumento. Pelo que tenho lido foi em 76 que começaste a colaborar com ele, no teu primeiro trabalho a solo “Fernandinho vai ao vinho” e no disco do Zeca “Com As Minhas Tamanquinhas”. Como foi o teu encontro com o Zeca, a sua “pegada” em ti, que dizemos os galegos, como músico e como pessoa? Foi o mais frutífero encontro com um músico. O Zeca diferenciava-se em muitas coisas dos outros Cantautores. Nunca esquecia um “colega” quando dava entrevistas no estrangeiro. Fomentava relações fraternas no meio musical. Era um homem fascinante nas viagens. O facto de ser fascinado pela História e pela Filosofia permitia-nos – em viagem – ficarmos mais conhecedores deste ou daquele povo; vínhamos mais ricos para casa. Se alguma vez não gostava de um certa maneira minha de tocar naquela música em vez de rejeitar explicava-me com alguma história vivida, do género: “uma vez vi umas mulheres que dançavam em roda com uns chocalhos nos pés e faziam este ritmo”… e aí fazia-me entender o caminho.

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Foram dez anos juntos na estrada, no trabalho e na vida, e imagino que ficaram grandes recordações. Mas gostava de saber como era o Zeca no quotidiano, na relação com as pessoas, quais as situações que o inspiravam como criador. A memória de cada um é um baú… pessoal. Sei que era de uma sensibilidade rara em relação ao ser humano. Sobretudo em relação à fragilidade do próprio ser humano. Vivia e olhava o que presenciava mas tudo lhe ficava na memória. Penso que quase todos os arranjos dos seus temas iam beber ao que lhe ficava dessas memórias. Um dia o Zeca foi convidado para ir tocar

num teatro em Cangas (ou lá perto… não me recordo). Acontece que o concerto não foi anunciado e… estavam apenas 7 pessoas na plateia! Discutimos se devíamos tocar ou não – sugestão dos músicos – pois era prática no Teatro aqui em Portugal não se fazer a performance quando não há número justificativo de público. Mas o Zeca disse sim. Vamos tocar! E cantou! No final as 7 pessoas levantaram-se entusiasmadas e bateram-lhe palmas sem parar. Aí o Zeca agarrou na viola e – nunca tinha acontecido – cantou mais n músicas sozinho! Aí percebi que o Zeca deixou mesmo 7 amigos na Galiza! Para além do engajamento político, ele era de facto um grande músico e um grande poeta, e aliás de uma modernidade invencível. Achas que há consciência disso na cena musical actual? Do seu lugar excepcional na história da música e da poesia portuguesas? Ainda existe – creio – uma grande relutância dos Portugueses – não os jovens, claro – em considerá-lo mais músico do que “revolucionário”. A verdade é que era o que foi… As duas coisas! O Zeca não conseguia isolar o seu lado criativo da realidade dos cidadãos. Pessoalmente tenho pena que o seu lado musical – sobretudo a seguir ao 25 de Abril – não tenha sido considerado como inequivocamente merecia. A verdade é que José Afonso cantou inúmeras vezes no estrangeiro – abrindo as portas ao conhecimento da música que se fazia em Portugal (para além do fado) – como pioneiro – e a imprensa portuguesa não lhe atribui grande importância. Aponta-se muitas vezes que o Cantigas do Maio foi um disco marcante não apenas como ponto alto da sua carreira musical senão também como símbolo referencial de uma nova geração de músicos portugueses, da que tu próprio fazias

parte junto de Luís Cília, Fausto, Vitorino, Janita Salomé, José Jorge Letria ou Sérgio Godinho, que reconheciam em Zeca Afonso o impulso para um alargamento das expressões da música popular. Também gosto muito desse disco. A junção de Zeca ao Zé Mário foi muito importante. O Zeca gostava mesmo de trabalhar com mais jovens…! Era isso mesmo a imagem da sua eterna juventude! Lembro uma noite, num daqueles jantares do João Luis, que falavas da pouca influência da música africana na música espanhola, o que contrastava com o acolhimento dos elementos africanos na vossa tradição. Nesse senso a música de Zeca Afonso é considerada por alguns críticos como grande precedente da chamada World Music, pela sua integração de elementos de procedência cultural diversa. Ele próprio reconheceu em muitas ocasiões que o encontro com África fora decisivo na evolução da sua carreira musical, assim como a sua peripécia vital no espaço colonial. Sou dessa opinião. Como disse à pouco José Afonso foi um fantástico embaixador cultural. Foi talvez o primeiro que mostrou ao mundo – nos Países onde tocámos – a música que tínhamos além do Fado. De facto em Portugal tivemos a sorte de conviver com os Países Lusófonos em Africa. Infelizmente num horrível contexto. Ainda assim José Afonso foi pioneiro nesse “aproveitamento” musical fruto da sua vivência em Moçambique. Também o Fausto foi importante nesta matéria. Participaste no concerto do Coliseu de Lisboa, em 83, penso que o último do Zeca. Viriato Teles, no booklet que acompanha a edição do concerto em Dvd, lembra o estremecimento deste verso “Águas das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar” com o que a voz do

Zeca comoveu a plateia. Como lembras as emoções daquele dia? Tenho tendência para esquecer as questões mais emocionais. Foi um dia (situação) fora do normal. O Coliseu era a maior sala de Lisboa, era o primeiro concerto de música deste género, era a grande emoção por parte dos organizadores e amigos e sobretudo o facto de sabermos que o público já sabia que o Zeca estava doente. Certo é que todos viemos felizes para casa! Mergulhando na net encontrei esta frase tua, dita em 91, a propósito do fascínio do Zeca Afonso pela música erudita e da sua sensação de inferioridade enquanto músico popular. “O que a Arte nos provoca é isso mesmo: a noção do nosso exacto tamanho. A música não engana ninguém, muito menos um músico. A música é que não deixa um músico mentir.” Não achas que no caso de Zeca Afonso, música e verdade – essas duas grandes palavras – encontraram-se de um jeito sublime? O Zeca tinha um refinado sentido de humor… Era um homem simples porém culto e de uma extrema sensibilidade para as coisas e para as pessoas. Ele sabia que a verdade e a mentira fazem parte da vida. E o que a música dá é só o que tu sentes quando a ouves. “Ainda bem que é verdade, ainda bem que é mentira”…

Entrevista publicada no Dioivo de 9 de Maio de 2012 site: http://dioivo.eu/


TONDELA Cidade sem muros nem ameias Este sentido de uma Terra da Fraternidade está bem patente no conceito geral do Tom de Festa e, de forma particular, nesta 22ª edição. O motivo é fácil de perceber: ­– Nunca um Tom de Festa envolveu nos espetáculos da sua programação um envolvimento de tantos criadores da “casa” – mais de duas dezenas de músicos trabalharam em arranjos de idêntico numero de temas que irão ser interpretados (arranjos e execução musical em quatro dos espetáculos); cerca de uma centena de participantes no espetáculo comunitário teatro-musical de rua que abre o Festival: Filarmónica Tondelense, Coral Polifónico da Casa do Povo de Tondela, três grupos de teatro de amadores do Concelho: Teia (Alvarim), “Os Cestos” de Nandufe, adcr de S. João do Monte e atores “por conta própria” – uma semana de ensaios e construção cenográfica dirigida pelo Trigo Limpo teatro Acert e Marta Fernandes da Silva e dezenas de voluntários constroem o edifício cultural no Novo Ciclo: erguendo palcos, adaptando espaços, carpinteirando sonhos…

Carta escrita por José Afonso, dirigida aos amigos que organizaram uma festa …no dia 27 de Janeiro de 1984, em Braga. Por não poder estar presente, leu-a em seu nome, Francisco Fanhais

A Acert está bem acompanhada. Todos aqueles que a acarinham não se confinam à preparação do Festival. São plurais: Vêm de longe incentivos, palavras amigas, gestos fraternos e um parceria cordial da Comunidade e da Câmara Municipal de Tondela que demonstra que é através da cultura que o país do interior menos se diferencia do litoral, que mais destrói, esboroa, a ideia de que o interior não é local de partida, mas de atração e fixação duma população ativamente empenhada em ser fraternalmente feliz. Com a cultura, em Tondela, aglutina-se saber, conhecimento e cidadania participativa!

(…) Mas esta festa não pode ser só uma homenagem a um homem. Seria bem pouco. Tem que ser também, um encontro de pessoas que recusam a anestesia que o sistema nos quer impingir e, sobretudo, um apelo à juventude para que mantenha sempre o espírito crítico e uma atitude de esclarecida resistência face aos pseudo-valores que a sociedade capitalista nos pretende impor. Se é certo que a situação actual, não é a mesma de antes do 25 de Abril, importa manter a capacidade de indignação e sermos capazes de rejeitar a hipocrisia dos detentores do poder. Reafirmo a disposição de me deslocar mais tarde a Braga, onde espero encontrar os amigos, dialogar e conviver com os jovens e, com todos aqueles, para quem a justiça e a fraternidade são a razão da sua luta.

Obrigado companheiros, Um abraço do Zeca

FAZ-TE SÓCIO DA ASSOCIAÇÃO JOSÉ AFONSO

Edição: ACERT Associação Cultural e Recreativa de Tondela
 Rua Dr. Ricardo Mota, s/n
3460-613 Tondela
 t. 232 814 400
| email: geral@acert.pt site: www.acert.pt

site: www.aja.pt email: associacaojoseafonso@gmail.com

Coordenação: José Rui Martins e Zétavares Impressão: Tondelgráfica Agradecimentos: AJA, João Luis Oliva e Tondelgráfica 1.000 ex.impressos em Julho de 2012


Jornal Terra da Fraternidade