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Copyright © 2012 by Grupo de Pesquisa Contextos e Trajetórias de Desenvolvimento EDITORES: Julianin Araujo Santos e José Eduardo Ferreira CAPA: Mário Vitor de Sousa Bittencourt Bastos CONTRACAPA: Álvaro Machado PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO: Julianin Araujo Santos

Orientandas, orientandos, colegas, amigos e familiares Quer um horizonte? 2012 (Produção independente) Salvador 2012 1ª edição

Impresso Fox Copiadora Tel.: 3015-0088

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SUMÁRIO Prefácio Isabel Lima

Ana Cecília José Newton

Orientandas(os) Anamélia Lins e Silva Franco Ana Karina Cangussú Ana Karina Santos Bartira Improta Camila Lisboa Delma Barros José Eduardo Ferreira Santos Feizi Milani Julianin Araujo Santos Letícia Marques Lia Lordelo 4


Lílian Perdigão - Uma orientadora para a vida toda Luiz Fernando Calaça - CECÍLIA Marianna Medrado Marilena Ristum Mirela Iriart - Do traço, da palavra e da escuta Miriã Alves Ramos Alcântara Renata Moreira Roberta Takei Sandra Meneses Sara Chaves Sílvia e Mílton Vívian Volkmer Viviane Mutti

Colegas, amigos e familiares Ana Maria Almeida Isabel Lima Jaan Valsiner Marina Massimi 5


Marcia Myriam Gomes - Com Verso Azul Angela Branco Antônio Marcos Chaves Denise Coutinho Lívia Simão Naomar de Almeida Filho Marcelo Castellanos Miguel Mafould Maria Cláudia Santos Lopes de Oliveira Kenneth R. Cabell Elaine Pedreira Rabinovith Ana Clara de Sousa Bittencourt Bastos Antônio Virgílio Bittencourt Bastos Mário Vítor de Sousa Bittencourt Bastos

Música Maternos José Eduardo Ferreira Santos

Aposentadoria? José Euclimar Xavier de Menezes 6


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Prefรกcio


Este livro emoldura uma homenagem dos amigos estudantes, dos colegas amigos e de todos que conhecem a Professora Doutora Ana Cecília de Sousa Bittencourt Bastos. Um livro que reúne espelhos. Em cada um deles está refletida, com alegria e afeto, a nossa própria homenageada. Foi muito fácil buscar as suas páginas: elas foram escritas por Ana Cecília nas histórias das pessoas que assinam seus depoimentos. Trata-se aqui de um texto ampliado no contexto do trabalho da jovem Psicóloga que lecionou de 1980 a 2010 na UFBA. Tem-se um texto que assimila, de forma especular, a imagem de alguém que realizou e realiza diferenciadamente o seu trabalho. A diferença deste labor docente foi se aprimorando ao longo dos anos. A olaria, entre Itapagipe e o Crato, ali permaneceu conferindo o selo de qualidade. Com esta origem de mestres, os critérios da autenticidade, da solidariedade e da generosidade foram tingindo, ano após ano, a matéria cromática que Ana ajudou a imprimir nos depoimentos dos seus alunos. Sabe Nossa Senhora da Penha as muitas penhas e penhascos que ela, a sua afilhada, atravessou. Tudo em ousadia,

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em aprender com, em parceria com, em abraço com. Ana aprendeu, seja pela família grande, seja pelo traço Cearense, a andar em penca, para alegria nossa. Andar só dói e custa. Acompanhada, ela puxa os demais, abre a roda, estica a ciranda, atravessa o mapa do Nordeste, passa pelo Brasil inteiro, avança o continente, faz ponte com a Estrela Dalva e fala, em Inglês e em Francês, com outras constelações. Um livro para uma professora que se aposentou. Esta foi uma ideia inicial exclusivamente dos seus parceiros jovens, dos estudantes que lhe conhecem e lhe acompanham. Mas a docente está continuamente a trabalhar. Onde o aposento da professora? Quem a vê não imagina o quanto o tear, humilde e singelo, tece no labirinto do tempo. Superando-se, cada dia mais, Ana vivencia no seu trabalho de pesquisa, de docência, de comunidade acadêmica, a experiência do horizonte: quer um pouquinho? Ela pergunta e vai servindo as possiblidades de trabalho e de alianças. Serve horizonte a nossa amiga na sua mesa de escrever artigos, livros e poemas.

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No texto The Fire of Life, o Filósofo Richard Rorty lamentou não ter lido mais poesia durante a vida:

I now wish that I had spent somewhat more of my life with verse. This is not because I fear having missed out on truths that are incapable of statement in prose. There are no such truths; there is nothing about death that Swinburne and Landor knew but Epicurus and Heidegger failed to grasp. Rather, it is because I would have lived more fully if I had been able to rattle off more old chestnuts — just as I would have if I had made more close friends. Cultures with richer vocabularies are more fully human — farther removed from the beasts — than those with poorer ones; individual men and women are more fully human when their memories are amply stocked with verses.

Ana Cecília vive a poesia na sua vida produtiva e deste sal da palavra confere verso ao horizonte de cada jovem,

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acendendo, na chama da docência, a sua permanência que transcende o espaço da sala de aula, é aula em si. Este livro emoldura poesia e amizades, pois assim nos tornamos, com o reconhecimento da grandeza do exemplo de Ana Cecília, mais plenamente humanos em nossas memórias estocadas em versos-espelho. Isabel Maria Sampaio Oliveira Lima Notre Dame, Fevereiro, 2012

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Ana CecĂ­lia


ANA CECÍLIA Eu e Ruth, seus felizes pais. Outra vida sagrou-a no batismo. No Educandário São João Bosco, de Crato, Ceará, cursou até o penúltimo ano do segundo grau, que foi concluído no Colégio Sacramentinas, em Salvador. Abre-se então, bem definido, o desejo de prosseguir nos estudos. Nessa fase da vida, surge-lhe Antônio Virgílio, de igual vocação acadêmica. Do venturoso matrimonio, nascem Mário Vitor e Ana Clara, que em nada os têm decepcionado. A família amplia-se. Vítor desposa Luciana. Para a alegria de todos, eis que vem ao mundo Mariana, sadia e bela. Na Universidade Federal da Bahia, concluíra o mestrado em Psicologia. Na Universidade de Brasília, o casal inaugura o Doutorado em Psicologia, então aberto, com apenas duas vagas. De fato, a Universidade embasou-os e revigorou-se para novos embates e perspectivas.

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A mão de Deus desceu, amorosa, sobre Ana Cecília que, no movimento Comunhão e Libertação, sempre procura mais ser para melhor servir. Aposentada

como

professora

da

UFBa,

assumiu,

recentemente, o magistério no Doutorado em Família da Universidade Católica de Salvador. A equilibrada vivacidade espiritual de Ana Cecília agrega amigos em diferentes áreas. Um Outro, no mistério da vida, indica-lhe e assegura-lhe o sentido de um verdadeiro apostolado. Para os irmãos e respectivas famílias, jamais foi omissa. Eu e Ruth, seus pais, de joelho agradecemos a Deus, porque geramos Ana Cecília. E pela inocência e beleza de Mariana, nossas orações culminam em aleluia. Salvador, fevereiro de 2012 José Newton

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Orientandas(os)


SONETO ANTIGO Responder a perguntas não respondo. Perguntas impossíveis não pergunto. Só do que sei de mim aos outros conto: de mim, atravessada pelo mundo. Toda a minha experiência, o meu estudo, sou eu mesma que, em solidão paciente, recolho do que em mim observo e escuto muda lição, que ninguém mais entende. O que sou vale mais do que o meu canto. Apenas em linguagem vou dizendo caminhos invisíveis por onde ando. Tudo é secreto e de remoto exemplo. Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo. E todos somos pura flor de vento. Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre. Cecília Meireles

Querida Aninha,

Há tempos, você me deu um Cecília Meireles de aniversário. Eu como uma adolescente li avidamente e agora cada dia faz mais sentido. Estou muito feliz com este momento, 2012 começa forte. Vou escrever sobre a nossa história. Nós somos as principais sabedoras 16


mas... fico emocionada quando lembro e para quem não é poeta lembranças são uma via de emocionar pessoas. Então... nos anos oitenta eu sabia que você e Virgílio tinham sido alunos de Jacy Baixota, minha mãe, em psicogenética, mas ao entrar para o curso de psicologia, nos encontramos algumas vezes no saudoso PEES1 e depois tive a chance de participar da reunião de Departamento em que soubemos da aprovação de vocês no doutorado da UNB e assim vocês foram... Não tive a oportunidade de ser aluna de vocês, o que sinto falta. Depois, eu decidi ir para Brasília fazer mestrado, e você estava lá no dia da minha entrevista de seleção, seu comentário sobre a cor da minha roupa, minhas preferências por lilás, me faz lembrar da roupa, uma calça roxa com uma blusa manteiga com flores como hortências. Entrando para o mestrado em Psicologia do Desenvolvimento tive Célia Zannon como orientadora que também era sua orientadora no Doutorado. Estive presente na sua defesa de tese e com aquelas perguntas, aquela “argüição”, aprendi que “são sete os modos de partilhar” e posso dizer que por serem sete, as sete vidas dos gatos, os

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Programa de Estudos Epidemiológicos e Sociais coordenado pelos professores Naomar de Almeida Filho e Vilma Santana no Departamento de Medicina Preventiva. 17


setes dons do Espírito Santo e alguns outros sete, sabemos, mais ainda, temos fé, que em sete sempre cabe mais um. Temos na UNB vários amigos em comum, entre eles nossa saudosa Jô, com quem Aninha cursou os créditos do doutorado e por quem fui adotada como “filha mulher”. Voltei para Salvador mestre e Ana preocupada e cuidadosa comigo me propôs e elaboramos um projeto de pesquisa: “Saúde: dever do estado, assunto de Família”. Este não foi aprovado mas... foi um início. Eram tempos diferentes, Naomar e Andrea Caprara propuseram que me candidatasse ao doutorado no Instituto de Saúde Coletiva e quem irá me orientar: “Ana”, disse Naomar. Parecia fácil, óbvio, hoje vejo como foi um ato generoso. Os temas, os autores, a pesquisa, tudo era outro, diferente dos interesses de Aninha. Cumprimos a tarefa, aí constatei que tínhamos outros comuns: meu Pai foi aluno do Professor (Prof. José Newton), pai de Ana. Meu pai veio de Feira de Santana para estudar no Colégio Antônio Vieira. O Professor foi seu professor de Português. Meu pai conta que o Professor e D. Rute moravam na Cidade Baixa, “eles tinham muitos filhos”, meu pai com alguns colegas freqüentavam a casa do Professor aos domingos à tarde quando iam corrigir um Jornalzinho que escreviam.

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Depois... eu ensinando na Ruy Barbosa tive oportunidade de ser Professora de Ana Clara. Não acho que ela guarda grandes recordações, mas aconteceu mais uma ponte, um laço. Ao terminar o doutorado Ana recomendou meu nome para integrar um Programa de Pós-graduação que estava se formando na UCSal, o Programa em Família na Sociedade Contemporânea. Fiquei na UCSAL sete anos... Ao sair Aninha entrou para UCSAL e ocupou a “minha mesa”. Levou para lá mais gatos, porque eu e nossa amiga Bel já partilhávamos alguns. Se for possível fazer entender foi um contentamento, uma honra, saber que Aninha usaria o computador, a cadeira, o lugar. Somos amigas, sabemos quem somos, contamos uma com a outra, para o trabalho e para viver a vida, temos muitos temas, partilhamos simplicidades. Quando Aninha me falou que ia se aposentar, desejei que ela fizesse pela sua saúde, agora quando ela diz que nunca trabalhou tanto como depois de aposentada, nós ouvimos rindo, uma verdade inquestionável, mas tudo é motivo de conquista para quem está por perto, para com quem partilha.

Aninha, meu muito obrigada. Este ano de 2012 será o décimo aniversário da minha Defesa de Tese. Muito obrigada pela sua Liberdade, pela sua humanidade. Você sabe que tenho um desejo de fazer doutorado novamente, este desejo nasce da 19


saudade boa do que vivemos, e dessa vez estudarei as Maternagens com identidade e interesse comuns. Seremos sempre Aninhas uma para outra. Salvador, 22/02/2012 AnamĂŠlia Lins e Silva Franco

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“Se te contentas com os frutos ainda verdes, toma-os, leva-os, quantos quiseres. Se o que desejas, no entanto, são os mais saborosos, maduros, bonitos e suculentos, deverás ter paciência. Senta-te sem ansiedades. Acalma-te, ama, perdoa, renuncia, medita e guarda silêncio. Aguarda. Os frutos vão amadurecer." Hermógenes Ana, querida, sua tranqüilidade e amorosidade tem sido inspiração para todos nós. Obrigada por cada gesto de incentivo e por estar ao meu lado neste processo de amadurecimento. Você e Bel se transformaram em dois anjos na minha vida. Como acredito que nada é por acaso, sei que muitos frutos ainda virão. Reconheço em você a verdadeira alma de um mestre, que pacientemente nos ensina a seguir nosso caminho. Obrigada! Beijos Ana Karina Cangussú Um misto de doçura, firmeza e leveza em meio ao ambiente árduo e competitivo da ciência. Essas características da professora Ana pude perceber desde meu primeiro contato com ela durante a entrevista para a seleção do mestrado, já nas aulas da sua disciplina foi fácil 21


entender como conseguir esta proeza, sua paixão pelo que faz é o segredo do seu sucesso. Não esqueço o dia em que recebi meu projeto de pesquisa de mestrado com suas observações, também tão doces e incentivadoras. Só quem é aluno sabe o quanto uma palavra de incentivo faz diferença. Com certeza, Ana fez e faz diferença para muitos alunos que já conviveram e ainda convivem e trabalham com ela. Lembro claramente de quando me deu parabéns pela minha defesa de mestrado, não foi um parabéns qualquer, mas sincero e cheio de amor. Agora acolhida por ela nesta fase só confirmo e vivencio tudo que já havia experienciado, só que de um lugar mais privilegiado, vendo de perto como combinar de forma perfeita doçura e sucesso. Ana Karina Santos

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O desafio de escrever para você começou desde o nome. Como iniciar? Ana? Me parecia muito frio... Orientadora? Distante até demais... Tia? Muito intimo e talvez não fosse a ocasião... O que fazer então se para mim você é tudo isso? Optei por unir tudo em uma palavra que sintetiza bem o meu sentimento por ti: Mãe. Exemplo de dedicação, carinho e família. Você consegue viver em harmonia com a dureza técnica da vida e a leveza poética do amor. Que orgulho sinto de ter bebido dessas águas pacíficas e translúcidas por tantos anos e é isso que torna meu carinho por ti tão especial. Mãe de minha Clara irmã, te sinto como parte da minha história e no decorrer da minha trajetória você passou a ocupar um espaço de destaque: admiração. Te desejo todas as simples maravilhas do mundo junto às cores mais belas, para que você possa pintar cotidianamente seu arcoíris. Escutei essa canção hoje e ela me fez lembrar muito de ti, da forma como a vejo... A magia e o encanto de brincar de viver e encontrar a felicidade.

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“Quem me chamou Quem vai querer voltar pro ninho E redescobrir seu lugar Pra retornar E enfrentar o dia-a-dia Reaprender a sonhar Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim Continua sempre que você responde sim à sua imaginação A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não Você verá que a emoção começa agora Agora é brincar de viver E não esquecer, ninguém é o centro do universo Que assim é maior o prazer Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim Continua sempre que você responde sim à sua imaginação A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho Como eu sou feliz, eu quero ver feliz Quem andar comigo, vem”. (Brincar de viver- Maria Bethânia) Fica em paz e com muito carinho meu. De sua orientanda, sobrinha, Bartira

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Difícil tarefa essa de deixar um relato para Ana Cecilia, ela que é reconhecida pela sua competência profissional e querida pelo seu jeito acolhedor para com todos. Ficamos juntas por um ano, quando participei do grupo Maternos enquanto Apoio Técnico. Foi tempo suficiente para descobrir a grandeza dessa mulher, seu brilho expandindo-se a todos. Com ela, adquiri perspectivas novas de conhecimento e aprendi a ser uma pessoa mais sensível. Gostaria muito que soubesse, Ana, o quanto sua existência representa para as pessoas à sua volta. Você é um grande exemplo, em diferentes perspectivas (mãe, pesquisadora, amiga)... É impressionante como consegue desempenhar todas essas funções de um modo competente e bonito! Agradeço por toda a acolhida, a confiança e o zelo para com o meu aprendizado e o de tantos outros que tiveram a sorte de encontrá-la pelo caminho. Mais do que uma orientadora, você assumiu muito bem o papel da grande matriarca do grupo! Particularmente, são tantas as portas que você me abriu que eu não seria capaz de listá-las rapidamente. Agradeço por cada uma delas! Admiro muito você, com todas as suas facetas,

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apenas aparentemente antagônicas: forte e sensível, intelectual e poeta, rigorosa com evidências e repleta de fé. Dentre muitas coisas, você me ensinou que é possível ser cientista sem perder a doçura necessária de um ser humano que simplesmente sente, sem medo de se resignar diante dos tantos mistérios que rodeiam esse mundo. Receba aí um abraço cheio do mais sincero carinho, na certeza de que qualquer homenagem seria pequena para brindá-la com as boas coisas que você merece. Você terá sempre o nosso mais puro carinho, junto a um desejo sincero de que alcance inúmeras outras vitórias em sua caminhada. Abraço grande, Camila

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Ana, eu hesitei em escrever esta mensagem por dois motivos: o primeiro deles é que sou pouco afeita a demonstrações públicas de afeto; o segundo é porque eu sabia que ia me repetir dado que sempre deixo você saber, através da nossa relação, o quanto a admiro. Decidi, no entanto, abrir uma exceção por causa do caráter perene desta homenagem. Quero então dizer para a minha querida orientadora Ana Cecília que aprecio demais o modo como ela suavemente nos guia pelas estradas da construção de discursos com sentido suficiente para figurar no panteão da empresa dita científica. Ana, você tem a capacidade extraordinária de "endurecer sem perder a ternura". Você nos orienta sem dor, como sempre repito nas reuniões do grupo. Por tudo isto me sinto afortunada na condição de sua orientanda e só tenho a agradecer por poder desfrutar de bons momentos de vida no nosso grupo de estudos e pesquisa. Ana, um abraço com muito carinho! Delma Barros Filho

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Professora Ana Cecília de Sousa Bastos, minha orientadora

Síntese da beleza da vida acadêmica e da poesia; admiração de poeta pelos poetas, de Caetano e Chico, de Carlos Machado a Bruno Tolentino, passando pela força de Carlos Drummond de Andrade, sem deixar de dialogar com Adélia Prado, passando por tantos poetas que fazem parte de nossa constelação, Ana Cecília é a própria poesia que se transforma em vida, academia, Psicologia e desenvolvimento humano em contexto para quem teve o prazer de ter sido seu aluno ou orientando. Um rio que deságua em outros mares, mas sempre com a coerência de ser rio e mar, com a abertura para enxergar a novidade nos estudos e nas teorias. Rio que nasce no Crato, de família amorosa, católica e de pais professores de dignidade sem par, chega à Bahia, por Itapagipe, depois passa por Salvador inteira, se aprofundando no Vale das Pedrinhas, Novos Alagados e trazendo a poética do desenvolvimento para as famílias, jovens, crianças, mães,

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Programa de Saúde da Família, divulgando, através de publicações no Brasil e no mundo, essa novidade. Ter sido orientando da professora Ana Cecília foi uma escola de aprendizado e de vida, pois orientação é encontro, mistério e partilha de um tempo para que algo novo, sempre ancorado na tradição, surja. Ana Cecília é o encontro com professores do Brasil e do mundo que engrandecem a Universidade: Ana Maria Almeida Carvalho, Elaine Pedreira Rabinovich, Jaan Valsiner, Maria Clotilde Rossetti – Ferreira, João Carlos Petrini, Marina Massimi, Miguel Mahfoud, os queridos professores do Programa de Psicologia da UFBA, os professores do ISC – UFBA, da UCSAL, do Mestrado e Doutorado em Família Contemporânea e tantos pesquisadores que estão em diálogo constante com ela, e, para nossa alegria, começam a dialogar conosco. Contribuir com a sociedade, dialogar com as melhores universidades do mundo, orientar pessoas tão díspares e comprometidas, formar gerações de professores, profissionais e pesquisadores, analisar a pobreza, maternidade e a violência quebrando os estereótipos, é um legado que a Bahia não poderia

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deixar passar em brancas nuvens quando da sua merecida (mas não querida por nós) aposentadoria da Universidade Federal da Bahia. “Nós precisamos ser educados para a beleza”, disse este seu eterno orientando em uma entrevista. O encontro com a professora Doutora Ana Cecília de Sousa Bastos é responsável por essa minha educação à beleza e à atividade de pesquisa que não cessa, pois “a vida é dinâmica”. 30 de novembro de 2011 José Eduardo Ferreira Santos

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Que posso dizer a respeito de Ana Cecília? Muito pouco, com certeza! Posso apenas dizer que ela foi e é uma das maiores bênçãos que Deus me concedeu. Porque encontrar um bom orientador para o doutorado é difícil, mas encontrar uma excelente orientadora para o doutorado e para a vida toda... é milagre! Não tenho a menor sombra de dúvida que, não fosse por ela, eu não teria concretizado essa grande conquista. Ana “me acolheu, escutou, valorizou, encorajou, norteou e apoiou em todas as etapas deste empreendimento, oferecendo inúmeras lições faladas, escritas e silenciosas do que é ser uma verdadeira educadora e uma pessoa do mais elevado quilate”. Uma das virtudes de Ana Cecilia é a capacidade de encorajar todos com quem entra em contato. Conheço pouquíssimas

pessoas

que

tenham

desenvolvido

o

encorajamento ao grau que ela pratica cotidianamente. Elogiar, inspirar e motivar são atitudes incorporadas ao seu modo de ser. Por isso, quando ela não se comporta assim, em situações 

Extraído dos meus agradecimentos a Ana Cecília, em minha tese. 31


extremas, é um choque para o interlocutor. Quero registrar um exemplo, que foi uma extraordinária lição de vida para mim. Na reta final para a entrega de minha tese, dediquei três semanas a tempo integral para terminar a redação da mesma. A cada encontro, Ana me dava tarefas e prioridades que precisavam ser asseguradas para a conclusão do trabalho. Um dia, enquanto eu me dedicava à escrita, empolguei-me com um assunto que, embora relacionado ao meu objeto, não estava no foco, nem poderia ser considerado prioritário. Passei um dia inteiro escrevendo duas ou três páginas sobre isso, sentindo a inspiração fluir e as ideias sendo registradas com clareza e precisão. Quando fui me reunir com Ana, eu estava orgulhoso de minha produção e fiz questão que ela lesse aquelas páginas, imaginando que ela também se entusiasmaria. Para meu espanto, ela não fez um único comentário sobre aquela digressão. Nenhum elogio, tampouco qualquer crítica. Pude apenas perceber em seu rosto a decepção de quem estava vendo os dias e horas se esgotarem, enquanto eu me dava ao luxo de perder o foco. Aquele silêncio de minha orientadora, de alguém que em todas as oportunidades destacou os aspectos positivos

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de minha pessoa, de meu trabalho, de minha pesquisa... doeu profundamente. Doeu muito mais do que se ela houvesse me esbofeteado ou xingado. Saí de lá sinceramente arrependido por não haver atendido às suas orientações. Saí de lá consciente do poder da autoridade fundamentada no amor. Saí de lá determinado a fazer de minha tese algo “condigno de seus esforços”*. O que tenho a dizer sobre Ana Cecília é muito pouco diante da pessoa que ela é, diante de tudo o que tem feito por tantas e tantas pessoas, direta e indiretamente. Só sei que, para mim, ela faz toda a diferença do mundo!!! Salvador, 28 de dezembro de 2011. Feizi Masrour Milani

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Trabalhar com você Ana tem sido, para mim, um aprendizado e a descoberta de que existem de fato pessoas que exercem o papel de professora, de orientação e de facilitação da produção do conhecimento. Nesse universo acadêmico eu não esperava encontrar pessoa tão amorosa e dedica não apenas a sua carreira, mas a formação dos estudantes. Para mim você é um exemplo de pesquisadora e profissional. Você é muito generosa, e como poucas pessoas sabe reconhecer o trabalho de cada um e sabe possibilitar crescimento. Além disso, é motivador para qualquer jovem, como eu, que pensa em ser um dia pesquisadora, sua capacidade de agregar tanta diversidade sem cercear o direito de autonomia das pessoas. Conviver com você todo esse tempo me faz acreditar que na academia é possível construir conhecimento com afetividade. Obrigada pelo seu apoio, saiba que este foi e tem sido fundamental para meu desenvolvimento pessoal e profissional. Com você estou aprendendo muito mais do que teoria, mas lições de vida. Grata por fazer parte de minha trajetória de vida. Beijos.

Julianin Araujo Santos

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Conheci Ana quando estudava psicologia em 1997, na turma de metodologia de pesquisa em psicologia. Foi uma experiência marcante, pois foi o meu primeiro contato com o pensamento científico. Ainda imatura, não compreendia muito bem o “funcionamento” da ciência, mas me sentia instigada nas aulas a pensar criticamente a psicologia científica. Não por acaso, nos encontramos em uma seleção para auxiliar de pesquisa no ISC e pude ouvir que o trabalho desenvolvido naquela disciplina garantiu a minha vaga no estágio. Acho que este foi o primeiro passo que dei na minha carreira acadêmica e posso dizer, orgulhosamente, impulsionada pela interação com minha querida professora Ana Cecília. A partir daí nunca mais me afastei da ciência e a presença de Ana tornou-se cada vez mais constante. Fui da primeira turma do mestrado do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFBA em 2002 (saudades daquele tempo...) e pude ter o privilégio de ter sido orientada por Ana nesse período. Foi um momento de trabalho intenso e grandes desafios, mas também com grandes recompensas. Pude me aproximar mais e ver a delicadeza e a profundidade que existia naquela orientadora tão

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afetiva e presente na vida dos orientandos. Percebi o quanto ela partilhava com o orientando todas as alegrias e angústias de um trabalho acadêmico; torcia para que os projetos dessem certo, sofria quando a vida não tomava o rumo esperado, compreendia quando a gente simplesmente “travava” diante da tela do computador e grandiosamente, nos dava asas para voar. Partilhei com Ana os momentos mais importantes da minha carreira profissional (e da minha vida pessoal também). Ana estava presente quando vivi a minha primeira experiência como professora, organizei o meu primeiro plano de curso, defendi a minha dissertação do mestrado, casei-me, inseri-me no mercado de trabalho, e até mesmo à distância, ela acompanhou o nascimento e o desenvolvimento de minha filha. Enfim... Ana Cecília merece toda a minha gratidão e afeto pela sua presença sempre amorosa em minha vida. Um beijo e um abraço bem apertado da sua eterna orientanda, Letícia Marques

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Minha Ana, Não sei o quanto tenho a dizer quando me é algo encomendado, mas um recado cheio de amor pra você pode começar por aquela história na casa de minha mãe. Lembra da enquete? Estávamos em família e tínhamos que pensar em quem escolheríamos como mãe, caso não tivéssemos a nossa própria. Não acompanhei a votação passo a passo, mas Ana Cecília foi campeã de audiência. Isso não é lindo? Eu não sei bem, Ana, mas acho que vai por aí a sensação que tenho ao pensar em você. Agradeci a você em minha tese assim: agradeço a Ana por me sentir sempre em seus pensamentos. Sei que não é isso exatamente, mas só posso lhe agradecer por todas as vezes em que você me acolhe e me orienta, os momentos em que lembra de mim por qualquer motivo – até para traduzir Valsiner (risos) – e agradecer, sobretudo, pelo seu olhar cheio de poesia e humanidade sobre tudo e todos que merecem sua humanidade e poesia. É um olhar fora do comum, com uma força criadora incrível; quase maternal. Acho que é isso. E talvez por isso você tenha sido a mais votada.

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Felicidades de transbordar pra vocĂŞ. Conte sempre comigo, tĂĄ? Um beijo enorme, Lia

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Uma orientadora para a vida toda Ter uma pessoa humana, acolhedora e atenciosa como orientadora é mesmo um presente que ganhei desde o primeiro dia em que comecei a trabalhar com Ana. Ana nos abraça com “toda a nossa vida”, pois é cuidadosa e compreensiva com cada um de seus orientandos. Consegue com seu jeito sereno nos educar, guiando-nos para caminhos que jamais percorreríamos se não tivéssemos alguém como ela a nos orientar. Digo que nos educa, porque é também firme nos momentos necessários, ocasiões nas quais nos provoca a assumirmos responsabilidades, através das quais crescemos e amadurecemos. Aprendemos ainda que “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, haja vista nossos progressos como orientandos.

Lapidados

pelos

“toques”

de

Ana,

que

pacientemente insiste, até que estejamos prontos a dar mais um passo. Às vezes nos referimos a ela como nossa mãe, com a qual aprendemos a ter “modos”, modos de olhar, modos de compartilhar, modos de amar. Seu exemplo de vida nos comove, e nos move.

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Ainda mais, descobrimos o mundo da poesia, que nos desperta para a beleza de cada gesto e palavra. E

finalmente,

incrementamos

nossos

currículos

quando

desfrutamos de bons momentos com Ana e nossos colegas de grupo, nos quais recuperamos a alegria de viver, compartilhando nossas histórias, vivenciando pequenos prazeres, em qualquer lugar do mundo. É claro, se possível, e de preferência, passando uma tarde em Itacimirim. Afinal, aprendemos com Ana, que precisamos sempre recuperar as forças e recarregar as baterias, pois ainda teremos muitos desafios pela frente, já que nossas possibilidades são infinitas. Para nós, a premissa de que “orientador é para a vida toda” é verdadeira, sendo assim, seguiremos firmes, carregando sempre Ana Cecília em nossos corações. Quem tem um “recurso simbólico” tão rico e precioso, segue feliz o seu caminho, mesmo que este seja difícil. Por isso, Ana Cecília, minha querida orientadora e amiga, obrigada por ser uma presença tão importante em minha vida. Beijos, Lílian Perdigão

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CECÍLIA

Abro caminho, na memória... O tempo vivido do agora Que não se perde no tempo do acaso. É recordação sensível e perene Do nascer e viver eternamente Cada palavra como poesia.

Palavras – perenes memórias Do nascer e viver do parto Do nascer e viver homem mulher Do nascer e viver poeta sonhando Do nascer e viver mil sentidos Palavras não são só palavras...

Palavras são aberturas que dão passagem Para caminhos ocultos e visíveis No dia-a-dia de nossos dias de cotidianidade mesma e sempre única

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Na extraordinária emergência de Vida.

Nesse tempo que foi e vem e vai e fica Vivemos cada dia uma nova gestação De idéias, projetos, desejos..., felicidade! Do encontro de um sorriso e um olhar De mãe, amiga, companheira, poeta Muitas faces de ti, Ana.

Um beijo carinho Do seu pequeno poeta Andarilho Luiz Fernando Calaça

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Ana, querida, Que honra em poder dividir momentos presentes e futuros com vocĂŞ. Estou muito feliz com essa nova etapa que se inicia, em poder ser sua orientanda. Um beijo enorme, Marianna Medrado Fevereiro/2012

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Algumas palavras para Ana Cecília, com muito carinho.

Quando penso em minha trajetória de formação acadêmica, a minha primeira e feliz constatação é a de que tive três ótimos orientadores. Quando me perguntei, porém, quais são os meus critérios para tal julgamento, minha resposta foi, inicialmente, pouco concisa, e eu diria até, um pouco confusa, já que estamos falando de pessoas tão diferentes como Isaias Pessotti, Carolina Bori e Ana Cecília Bastos. Entretanto, essa confusão só durou os exatos minutos em que me restringi a analisar detalhes ou estilos de orientação. Ao pensar no que realmente foi importante para mim enquanto pessoa e para a minha formação acadêmica, a tarefa tornou-se mais fácil. Embora os três orientadores tivessem estilos diversos (Isaias com um “ar professoral”, Carolina com um “ar enigmático” e Ana com um “ar acolhedor”), percebi que há dois valores comuns estampados nessas três pessoas e que, sem nenhum esforço, saltam aos olhos: o valor da alteridade e o valor da autonomia. Aliada à capacidade de trabalho e à competência, a preocupação com a emancipação do outro é uma característica 44


marcante de Ana Cecília. E isso implica, necessariamente, em outras características: a generosidade, o compartilhamento e a solidariedade. Ana está sempre indo para frente, evoluindo, mas ela não vai sozinha. Carrega sempre um grupo de pessoas junto com ela, em um movimento contínuo de promoção do outro. E faz tudo com o jeito mais doce do mundo, que sempre nos encanta a todos. Sem reprimendas, sem coerções, sem cobranças exageradas... E isto funciona? Basta olhar para o grupo que trabalha com ela para perceber o envolvimento, a seriedade e a produtividade nas suas realizações acadêmicas. Mas, essa docilidade não implica em passividade. Na sua trajetória acadêmica/intelectual, Ana é desbravadora, não se conforma facilmente aos padrões tradicionais; está sempre procurando

ultrapassá-los

de

alguma

forma,

sempre

empurrando os limites um pouco à frente. Obrigada, Ana, por ser assim e por me incluir no seu rol de compartilhamento. Marilena

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Do traço, da palavra e da escuta: Do traço liso, reto, tracejado, quase oblíquo Da palavra, margem cujo núcleo escapa abrindo múltiplas significações Da escuta, acolhida receptáculo do silêncio e da palavra

Com ela, ou através dela aprendi que escrever é tecer palavras, parir idéias e também se constituir como sujeito. Sujeito da fala, da escrita, que pode comunicar ao outro, criando campos de sentidos compartilhados. Compartilhamos mais do que conhecimento, experiências, memórias, afetos. Como numa maternagem, Ana me permitiu nascer como pesquisadora, cujo ofício de escrever, é o de criar mundos visíveis, dar voz ao outro. Não só a minha voz pôde ser dita, mas a voz dos jovens a quem entrevistei, em cujo encontro descobri que produzir dados é resignificar experiências de vida. Ética

e

subjetivamente,

as

orientações

de

Ana,

permitiram-me traçar alguns caminhos, chaves de interpretação, decifrando com muita sensibilidade, as possibilidades da escrita 46


e da escritura do outro, com traçados métricos, mas também estéticos. A

Ana

Cecília

agradeço

a

firmeza

frágil

da

mulher/mãe/orientadora, que nos conduz no mundo das palavras, lançando luz sobre o que pode ser dito e silenciado. Mirela Figueiredo Iriart

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Ana Cecília, Em nossa longa história (afinal nos conhecemos em 1993) aprendi com minha querida mestre (e agora, 'muito chiq', minha colega) muito sobre o melhor dos melhores temas da psicologia. Seria muito se fosse só isso. Muito além de mestre, sua presença bela, bem humorada e ao mesmo tempo crítica ampliou muitos horizontes e me fez sonhar e realizar tantas coisas boas. Serei eternamente grata a você com quem ainda desejo compartilhar muitos sonhos. Miriã

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Ana Cecília, minha mãe acadêmica. Mãe é exatamente a palavra; Pois que amor, paciência e coragem; São pedrinhas valiosas abundantes em você!

Minha querida orientadora; Orienta-me muito mais que o mestrado, mas na vida, sim! Você é sabedoria de uma delicadeza incomensurável. Uma poetisa; uma grande mulher; uma importante pesquisadora.

Minha doce e querida Ana Cecília; Serei eternamente grata por tudo o que aqui não necessito falar! Obrigada por aceitar-me como sou! O universo dança em alegria por cada conquista sua, e são muitas! E nós, seus orientandos, somos também obra sua, sempre seremos. Cada canto dos nossos caminhos tem sua marca.

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É com muita honra e felicidade em meu coração que te falo o quanto és amada!

Não há palavras. São lições transmitidas de coração para coração. O Silêncio é suficiente, é a conexão com a fonte. Tenho agora o sal das lágrimas e o doce da gratidão. Continue Ana, pois sua jornada nessa vida já é completa luz!

Renata Moreira da Silva - (04 de Janeiro de 2012)

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Ana, Fazer esse depoimento sobre você é algo que me emociona muito, pois traz a tona alguns anos de história da minha própria vida. Fui tentar me recordar e ao que consta você faz parte dela ha pelo menos 10 anos. E aí, ao pensar na minha própria trajetória, lembrar do que eu era com 20 anos, (Euestudante de psicologia, Eu-menina) e o que me tornei agora aos quase 30 (Eu-mãe, Eu-quase doutora, Eu-professora, Eu-mulher), percebo que de fato você foi essencial em diversos momentos. Você costuma dizer que eu vivo as coisas de forma muito acelerada, e de fato é uma verdade. Mas saiba que se eu consegui chegar aonde cheguei, você é uma das grandes responsáveis por isso, e não é da boca para fora que eu lhe chamo de minha “mãe acadêmica”. Mãe é aquela que acolhe, apóia, ensina, tem humildade para aprender, passa o melhor de si, se apega, mas sabe deixar voar, comemora as vitórias, consola nas derrotas, ama na medida certa. Obrigada por ser essa grande mãe, mãe dos maternos, mãe acadêmica, mãe de vida!

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Com amor de uma de suas filhas acadĂŞmicas mais antigas. Roberta Takei

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Sandra e Ana Tão pouco ainda de convivência. Difícil dizer de ti, sem a influência do dizer do outro e do seu próprio. Há tantas falas, escritos, poesias, livros... Sinto essa presença, mas não quero me contagiar. Deixo aqui o que há de singular do encontro; pouco, mas intenso. O que de você esta em mim.

De partida, ousadia! Lanço-me nessa forma poética, já a dizer de nós. Retorna um desejo inspirado, em parte, por parte de ti: o casulo temporário. Nos encontros sinto sua sensibilidade, além da poesia. Me encanto da doçura e força em uma mesma mulher. Reencontro com os opostos que coabita o mesmo ser. Bem ali, sala de aula, espaço muito além do visível.

Refaço-me, compartilho em silencio o seu encanto pela vida.

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Um sentimento me retira do encanto: a distancia. Pensei ser o tempo, tosco engano. O tempo nada, tudo Ê o espaço que mantemos. Imagino quando encurtarmos a distancia. Sandra Meneses

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Descobri em Ana Cecília não apenas uma orientadora flexível, que dá liberdade ao estudante e o ensina através dessa liberdade concedida. Descobri em Ana Cecília não apenas uma pessoa paciente e generosa, mas sobretudo uma amiga, uma pessoa para quem a diferença geracional, o status de professora e quaisquer outros atributos que a vida e a experiência lhe trouxeram, não a colocam em patamar de superioridade em relação a nós, estudantes. O respeito a cada uma de nossas singularidades, algumas até incômodas, é o que mais admiro em Ana. Posso dizer que nessa vida eu não a conheci, eu a encontrei. Sara Santos Chaves

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Querida Ana,

Tivemos com você uma rica experiência: aprendemos a ser bons pesquisadores, compartilhamos o afeto mais sincero da nossa amizade e ainda ganhamos uma família, cujo fruto mais lindo é Davi. Te amamos muito! Silvinha e Mílton

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Querida Ana...

Trilhar a trajetória acadêmica – repleta de desafios e obstáculos – tendo você como guia, é um privilégio, um presente que a vida me proporcionou. Cada dia ao seu lado tem me ensinado sobre a pessoa que um dia gostaria de ser: atenciosa e afetuosa com as pessoas, muito competente profissionalmente, sensível à realidade humana e comprometida com a realização de mudanças – tudo isso, sem perder a simplicidade. Apesar de saber das tantas qualidades que possui, às vezes ainda percebome surpresa com o modo especial pelo qual lida com as pessoas que te cercam, em particular, nós, seus orientandos. A sua sensibilidade de, em muitos momentos, conseguir enxergar a pessoa por trás do acadêmico, do estudante, tornate, ao meu ver, uma pessoa e orientadora diferenciada. Além, é claro, de toda a reflexão teórica, repleta de criatividade e poesia, que nos propicia a cada encontro contigo. Deste modo, só tenho que te agradecer por tudo e desejar que encontre ao longo do caminho da vida muitas alegrias e realizações. Beijo grande, Vívian

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Conviver com Ana Cecília foi um presente que a vida acadêmica me proporcionou, mas que trouxe repercussões significativas para os diversos posicionamentos que assumo vida afora... Conheci primeiro seus Poemas, ao acaso, o que me despertou o interesse em conhecê-la pessoalmente. Tive o privilégio de ser sua aluna e orientanda no Mestrado em Psicologia da UFBa, como também sua bolsista de Apoio Técnico da CAPEs. A rica experiência de participar do grupo de pesquisa sob sua coordenação também foi muito marcante, tanto no sentido intelectual quanto afetivo. E quem não quer se envolver com as atividades do CONTRADES? Eu, particularmente, estive tão envolvida que tive de me afastar para vivenciar a maternidade em todo o seu pulsar... Afinal, uma vez Maternos, sempre materno! Sua generosidade é contagiante, a habilidade em equilibrar o desenvolvimento intelectual com o moral, algo raro nesse mundo, vasto mundo... Seus ensinamentos são tão

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substanciais que continuam a nos alimentar através do tempo e dos diferentes espaços que adentramos.

Sou grata pelo privilégio de conhecê-la.

Saudades,

Viviane Mutti

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Colegas, amigos e familiares


Ana Cecília (para mim, sempre Aninha) Acho que talvez nem todas as pessoas consigam atravessar a vida conservando uma espécie de essência, uma inteireza que de alguma forma as define, faz com que a gente as reconheça, as reencontre apesar do tempo e da distância. A menina que conheci em 1977 numa sala de aula do Mestrado em Educação da UFBA; que perdi de vista durante vários anos, e que reencontrei e reencontro hoje, já avó, é sempre a mesma menina: encantada com o conhecimento e a descoberta, movida/ comovida pelo que pode aprender com as pessoas simples para quem seus olhos se voltam, e pelo que pode retribuir a elas. A menina que não levanta a voz nem quando se descabela com os milhões de dados que acumulou, mas que continua sempre buscando, porque é com/ por eles que aprende e compreende. Aninha poetisa até quando escreve um texto científico; mística na relação com o mundo; sábia na relação com as pessoas, que cativa com sua suavidade e sua capacidade de escutar; idealista, mas nunca dogmática, sempre receptiva e compreensiva para um modo diferente de pensar, para uma outra perspectiva.

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É essa alma de criança, que todos temos, mas nem todos conseguimos expressar com tanta sinceridade, que encontro transparente em Aninha, alma e coração de menina na mulher esposa, mãe, professora, pesquisadora, militante e – que privilégio! – minha amiga. Com carinho, Ana 31 de dezembro 2011

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Há muitas maternidades na minha comadre Ana Eu a amo porque ela as recolhe em autentico e generoso gesto Eu não seria o que sou sem a minha co-madre. Esta é a sua condição: a de ser mana, sendo mãe e a de ser maternal, sendo irmã. Ana coleciona mapas de maternidade, costurando-lhes pontes de afeto, assertiva e eficazmente. Ela vira o avesso até daquilo que é cru, amargo ou lento dandolhe, afinal, uma outra forma de ser bom, este selo de humanidade. Os da minha geração e os das gerações seguintes, uma vez tendo passado a chuva ou recebido a sombra na estação solar de Ana, sabem muito bem, alfabetizados que estão, da professora filha dos professores. Na vida de minha comadre, tudo se metamorfoseia, até aquilo que é chato ou triste. No futuro, como no presente, nada resiste ou resistirá a esta lição que nutre Ana em sua gestacional existência humana. Possa o comadrio entre fé e poesia virar rio no tempo.

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Possa, enquanto rio, desatar nos oceanos e ninar a terra inteira. AmĂŠm. Bel

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Dear Ana, Your poetic spirit invigorates all your young students and creates new reality of young creating new knowledge. Jaan 27/02/2012 Jaan Valsiner

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O sorriso de Ana Cecilia Bastos nos traz a luminosidade solar da Bahia de todos os Santos. A dimensão poética é realmente parte de sua pessoa e a faz olhar a realidade com o ponto de fuga a que toda poesia verdadeira remete: sua infindável abertura ao Mistério. Mesmo a realidade mais dura e mais sofrida, como são os contextos da vida humana marcados pelas condições de pobreza material a qual ela dedicou tantos trabalho de pesquisa, é transfigurada por este olhar à espreita da revelação de uma beleza escondida, mas sempre presente. Esta atenção ao valor presente em cada experiência humana é o que dá energia de atuação, abertura e impulso criativo às suas pesquisas. A maternidade é tema caro a Ana Cecília e objeto de tantos estudos por ela desenvolvidos: e este tema a meu ver nos remete imediatamente à área mais ampla de atuação de Ana Cecília: a Psicologia Cultural. Hanna Arendt afirma que a cultura é a construção de uma morada onde o humano possa ser cultivado, uma construção feita por atos humanos realizados para além das meras atividades voltadas à sobrevivência da espécie. Parece-me que a opção de Ana Cecília pela Psicologia Cultural e sua maneira de atuá-la nos trabalhos científicos acerca

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da experiência humana da maternidade, possa ser entendida à luz desta afirmação. O que torna o humano tal e proporciona um desenvolvimento saudável também do psiquismo humano é a possibilidade da existência de um lugar onde o ser humano possa ser acolhido e reconhecido: uma mãe, uma morada, uma cultura. Obrigada Ana Cecília, por tudo o que você é e por este olhar que conduz também o nosso na direção e no horizonte de sua mirada! Marina

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Com Verso Azul Foram infinitos. São infinitos os dias de convívio com ela. A infinitude da qual números não dão conta. Só a poesia. Dá conta do impossível de dizer, do imponderável. Dito mesmo por ela: “De tudo fica a poesia”. Eram infinitos, insuportavelmente infinitos aqueles dias. Eu aqui, ela em Brasília. Me vejo hospedada na casa de familiares. Desesperadamente na casa que não é a minha. Desesperadamente porque não escolhi estar aqui. Desesperada-mente não escolho. Me encolho entre as quatro paredes de um quarto e escrevo. E as palavras no caderno são borrões encharcados de tão desesperadamente. Um dia, a título de consolo, escrevo no meu caderno: “Ceciliana, o azul do teu verso e basta”. Basta para conter o que transborda sem borda. O insuportável transborda sem borda. Por um instante basta para conter a torrente de lágrimas. É o azul do seu verso e por um instante algo foge do sentido convencional, foge das palavras ditas em tom piedoso, foge das tentativas de apaziguar o que não é apaziguável. “Ceciliana, o azul do teu verso e basta”. Basta para eu me permitir viver mais

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um dia, apesar do exílio. Nesse meu tempo de dor aqui, sem que eu saiba, em Brasília ela pega algum caderno e escreve:

“Viagem” “Ela registrou seus sonhos no caderno que lhe dei de presente. Ela arrumou na mala pedaços de sua alma. Suas veias abertas sangram em despedida. Ela diz adeus para lugar nenhum e parte, sem quandos nem ondes. Fantasmas melancólicos dormem em sua cama solitária. A lágrima sobre a mesa”.

“Ela” no poema, era eu. Sou eu. E é verdade factual que Ana Cecília me presenteou com um caderno para registrar meus sonhos. Naqueles tempos idos, tão longínquos, quando eu ainda nada sabia de psicanálise e sonhava em profusão. É da verdade poética eu ter arrumado na mala pedaços de minha alma. Ninguém viaja de alma inteira para um destino indesejado. E era preciso trancar na mala a alma em pedaços. Do

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contrário ela não viria. Permaneceria lá, inteira, e desapontada com este meu corpo de marionete. É da maior verdade poética que eu tinha veias abertas sangrando em despedida. Acho que é de Eduardo Galeano um livro intitulado “As Veias Abertas da América Latina”. Fala de devastação feita pelo imperialismo às nossas riquezas naturais. Eu era a América Latina devastada, me despedindo da minha riqueza usurpada que ficou para trás. Ana Cecília fala no seu poema, de uma hemorragia que nada estanca. O adeus que dou quando parto, é a lugar nenhum. Adeus a mim mesma que parecia irresgatável. Sem que eu pudesse me devolver a mim mesma. “Sem quandos nem ondes”. Eu não sabia por quanto tempo, nem onde teria que ficar. A cama que lá deixei, vazia, solitária, abrigava como leito, a melancolia dos fantasmas. Abrigava a pergunta “o que o outro quis de mim?”. Irrespondível, porque impossível despertar do sono os fantasmas. A angústia, intolerável, qual sentinela insone aqui, vela o sono fantasmagórico que se apossa impertinente da minha cama, lá. Ao olhar da poeta não escapa, ainda que apenas uma, a lágrima sobre a mesa.

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O poema “Viagem”, transcrição quase possível da minha dor quando me mudei de São Paulo para Salvador, está na página 105 do livro “A Impossível Transcrição” de autoria de Ana Cecília. Foram infinitos, são infinitos os dias de convívio com ela. A impressão é que a conheço desde sempre, desde que o mundo é mundo. Difícil imaginar minha vida sem o azul do verso de Ana Cecília. Se formos pela discutível verdade dos fatos, eu a conheci em 1972. Fazemos agora 40 anos de amizade. Segundo ela, o que a interessou em mim foi a minha calça marca TOPEKA, signo de pobreza. Naquela época, o sonho de consumo de um estudante recém-ingresso na UFBA era possuir uma calça de marca LEE. Na sala de aula, éramos, as duas, únicas a estampar a nossa condição sócio-econômica desprivilegiada, numa etiqueta de calça. Isso, segundo ela conta, a aproximou de mim. Nela me interessou a dramaticidade do seu rosto imóvel, qual a máscara de teatro japonês. Sua voz quase inaudível, pedindo licença. O seu rosto de músculos impassíveis, muito branco, podendo, a qualquer momento, se perturbar assumindo o tom de uma rosa escarlate. A sua boca pequena, a sua fala contida. O rosto de Ana

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Cecília, como um texto de Clarice Lispector, encerra um drama de modo silente, pudico, que somente se insinua sem estardalhaço.

Finalmente

irrompe,

violento,

quando

ela

enrubesce. Havia

também

nela

um

certo

ar

de

Macabea

(personagem principal do romance “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector), quando chamava cebola de “cibola” e se deixava divagar por entre fantasias “poliânicas” que a faziam, perigosamente, acreditar-se imune, totalmente dispersa e desatenta à cruel realidade da maldade humana. Ana Cecília pairava acima, inatingível, como se asas tivesse, de tudo o que possa ser mesquinho, pequeno e perverso. Então nos tornamos amigas. Ambas de calça TOPEKA, ambas apaixonadas por Carlos Drummond de Andrade. A minha amizade com Ana Cecília sempre foi o privilegiado espaço da transgressão para mim. Se com os demais outros eu me sentia convocada, nas décadas de 70 e 80, a ser a behaviorista com ares de cientista que tudo sabe e a tudo pensa poder controlar, ao lado de Ana Cecília eu era a alma super sensível e delicada no acolhimento à poesia, o lado alternativo

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que lia com encantamento “O Eu Dividido”, livro que representava o discurso da anti-psiquiatria, e era também a simpatizante do existencialismo, embora jamais tenha partilhado com Ana sua paixão por Simone de Beauvoir. Generosa e conciliadora, Ana conseguia enxergar a escritora em Simone. Eu, nada conciliadora embora generosa, não conseguia tolerar o tom de militância imprimido por Simone à sua relação com Sartre, o que para mim tornava menor o seu mérito como escritora. Eu e Ana embora tivéssemos opiniões diferentes, não discordávamos. Ana Cecília não se dá ao trabalho de discordar. Não me lembro de jamais tê-la visto participando de uma discussão acalorada. Simplesmente ela pensa como gosta e ao outro autoriza fazer o mesmo. Como eu estava dizendo, a minha amizade com Ana Cecília foi um espaço para o exercício da transgressão. Hoje, eu sei, que graças a este espaço se abriram na minha trajetória pessoal, atalhos cuja travessia resultou no meu desejo por ocupar o lugar de psicanalista. Dentro daquela professora universitária pretensiosa e arrogante que eu era, não se apagou a centelha da Marcia de calça TOPEKA que Ana Cecília reconhecia.

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Dentre as pessoas que se dispuseram a homenagear Ana Cecília pela sua aposentadoria da UFBA, há uma, a mesma que me convidou a escrever sobre Ana, indignada com o fato de os doutores da UFBA não haverem manifestado nenhum apreço pelos longos anos de serviço prestados por Ana. A indignação desta pessoa tem o tom otimista de quem acredita poder tirar leite de pedra. Não podendo tirar se surpreende. Arroubos de juventude otimista. Na minha leitura, o silêncio dos doutores acadêmicos é a maior homenagem que eles poderiam prestar a Ana Cecília. Como que dizer “você não pertence à nossa tribo”. E não pertence mesmo. Quando eu me afastei da UFBA para estudar na USP e tendo planos de voltar, eu indiquei Ana Cecília para ocupar o meu lugar. Não por ser minha grande amiga, nem por ter competência indiscutível. O ouvido de Ana Cecília não se afina muito bem com a palavra “competência”. Indiquei, por ser ela minha parceira de transgressão, tendo uma enorme vantagem sobre mim: concilia-dora, ela convive com qualquer tribo sem fazer rupturas. Ana Cecília tem o raríssimo dom de ocupar com serenidade seu lugar, qualquer que seja a tribo, sem

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se sentir convocada a reverenciar caciques. Ela consegue permanecer fazendo seu trabalho com seriedade a despeito de quaisquer senões. Eu não queria no meu lugar uma pessoa apenas muitíssimo competente e séria. Eu, apaixonada que era pelos meus alunos, queria deixar para eles a do verso azul, do “Eu Dividido” da calça TOPEKA. A que como Carlos, veio pra ser “gauche” na vida. E assim foi. Ana Cecília prestou longos anos de serviço à UFBA sem trair seu estilo pessoal. Jamais deu indícios de pertencimento ao como chama Lacan, “Discurso Universitário”. Manteve-se sempre afastada do que hoje considero pernicioso, discurso positivista cientificista. Sem desrespeitar as regras da instituição, com sabedoria, manteve-se acima e ausente das disputas de poder, da tendência ao carreirismo, do afã de publicar para rechear o currículo. Embora eu não tenha exatamente acompanhado seu trabalho na UFBA por ela própria (preferimos conversar sobre poesia do que sobre academia – rimou), tenho notícias dela por dois ex ainda orientandos seus. Jovens iluminados pela centelha do entusiasmo por um fazer socialmente relevante, por escutar nas suas pesquisas o outro

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assenhoreado e reconhecido no seu lugar de sujeito. Não o sujeito da investigação dita científica. Mas o sujeito da subjetividade a quem Ana sempre cuidou de dar voz nos seus estudos qualitativos. Tão longe esteve ela dos “cacoetes” da academia, que eu me permiti chorar copiosamente de emoção, sem me censurar, na defesa de mestrado de seu orientando Dinho. Primeira ocasião em que voltei a colocar meus pés em São Lázaro, depois dos dolorosos “acidentes” de percurso que cercaram a minha saída definitiva da UFBA. É que eu não estava indo à UFBA. Eu estava indo assistir Dinho. E há alguém mais que Dinho capaz de representar e testemunhar o que foi a passagem de Ana Cecília pela UFBA? Marcia Myriam Gomes Salvador, Fevereiro de 2012

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Ana Cecília querida, Flores precisam de luz, pássaros de liberdade ... Pessoas como você, não apenas precisam de luz e liberdade, mas também irradiam toda essa beleza em movimento vivida com alegria, muita luz e o sentido de liberdade que nos leva a criar, a descobrir, a desvendar, e nos instiga a viver plenamente. Felicidade é o nome dessa luz, que você tão lindamente compartilha com todos nós. Com carinho, Angela

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Cara Ana Cecília, Sinto-me muito honrado por sua amizade e coleguismo. Tanto pessoal como profissionalmente trocamos experiências que têm sido muito importantes para mim. Um grande abraço, Antônio Marcos Itacimirim (BA), 27/02/2012

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José Newton e Ruth são seus pais. Eu os admirei antes mesmo de tê-la conhecido. Deles, ela recolheu o dom da poesia, a doçura firme, o sentido pleno da palavra educar, o xale com que abraça delicadamente a vida. Antonio Virgílio, seu marido, meu mestre de sempre, com quem ela partilha a graça de Mário Vítor e Ana Clara. Mariana, primeira neta, novo elo de sua ciranda encantada. Seus irmãos, muito queridos, de quem ela fala com brilho nos olhos e no sorriso, aqui presentes sob o nome de Maria Beatriz; os gatos; um paraíso chamado Itacimirim; o grupo de pesquisa; nossa casa em São Lázaro; uma maneira toda própria de viver a religião (da forma mais singular que eu já conheci); a ampla, criativa e renovada Psicologia que suas mãos tecem para todos nós; seu casulo (permanentemente) temporário; amigos condensados nos nomes de Isabel Maria Sampaio Oliveira Lima, Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, Carlos Machado e Elaine Pedreira Rabinovich; a poesia que inunda sua vida em mistério tecido de memória; seu silêncio cheio de sons, sua música em palavras; tantas canções de Caetano; a força de um nome Crato; o céu no final do mês de maio; o mar visto por

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seus olhos; uma vaga lembrança do tempo com todo o meu amor e gratidão Era uma vez... a impossível transcrição do que ela é para mim: Ana Cecília. Denise Coutinho 23 de fevereiro de 2012

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Ana, minha Mate, é ótimo ser sua colega e amiga! Uau! Que frase feita para uma presentear uma poetisa! Mas é isso! Um beijo, esperando sempre contar com essa “Maitisse”!

Lívia

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Ana Cecília foi minha aluna no Mestrado em Saúde Comunitária da UFBA. Luminosa, sensata, brilhante, carinhosa e alegre. Quando

ela

voltou

do

Doutorado

brasiliense,

compartilhamos por vários anos o curso de Metodologia da Pesquisa Científica daquele programa. Continuava sensata, brilhante, carinhosa e alegre, sempre luminosa. Organizamos um modelo de curso que pretendia articular pesquisa quantitativa (minha área) e qualitativa (sua área). Concluímos que nada disso fazia sentido: nem separar qualidade de quantidade nem juntá-las nesse estranho híbrido “quali-quanti”. Terminamos mudando tudo no curso, a começar pelo nome, para Epistemologia e Metodologia da Pesquisa em Saúde, pois concordamos que a pesquisa científica não tem o monopólio dos saberes. Muito jovem (privilégio feminino), aposentou-se, porque não tinha mais paciência com a sisuda insensatez da burocracia acadêmica.

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Ana jubilou-se para continuar sensata, carinhosa e alegre, sempre luminosa, brilhante. Naomar de Almeida Filho 23 de fevereiro de 2012

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Ana, Estou muito contente em conhecer uma pessoa tão gentil e que consegue traduzir essa gentileza em eventos, situações e processos tão convidativos a trocas interessantes entre as pessoas. Sou grato pela abertura e interesse! Forte Abraço Marcelo

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Ana Cecília, Sua presença chegou de presente, de surpresa, com silêncio ... e ficou. Para sempre. “seu olhar faz melhor o meu”. Quero meus olhos brilhando sempre mais. Obrigado. Gratidão infinita. Deus te faça feliz! Miguel 27/02/2012

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Querida Ana, Tenho muita alegria de ter passado a compartilhar de sua amizade, carinho, da intimidade de sua casa, da sua família – seja em Clark ou em Salvador. Te agradeço pela chance de estar nesse momento singular de seu grupo, em Itacimirim!! Merecida homenagem de seus queridos alunos, que eu endosso com alegria!! Felicidades!! Maria Cláudia

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Ana Cecília! Thank you so so so much for allowing me this cultural and intellectual experience. I am now Brazilian – having experienced carnival, having learned Portuguese, and having eaten all of your delicious food. Also thank you for this wonderful workshop. The intellectual stimulation from all of the wonderful people you brought here cannot be mattered anywhere else. Most importantly, you will Always be my adopted Brazilian Mother! Kenneth R. Cabell

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Ana rima com banana Cecília rima com Bahia Na Bahia tem muitas bananas mas só uma Ana Cecília amiga. Elaine

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Mãe, amiga, confidente... Em alguns momentos já começa a exercer o papel de filha em sua própria casa (rs). Misturam-se os papéis. És também para mim professora e orientadora, assim como materna para os seus alunos. Difícil definir tal relação e tal sentimento. Apenas posso dizer que és o exemplo para mim e não sei o que seria da minha vida se não fosse o calor do seu abraço e a ternura do seu olhar, sempre me encorajando e me acolhendo.

Te amo! Ana Clara

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Há homenagens formais e que menos dizem da pessoa do que da posição que ela ocupa. Todavia, há homenagens que nascem da necessidade de expressar o reconhecimento tanto à pessoa quanto ao papel que ela desempenha na nossa vida ou na vida de um grupo, de uma comunidade. Este certamente é o caso do gesto tecido por alunos e colegas de Ana Cecília neste momento.

Todos queremos expressar o que significa tê-la

conosco nos seus múltiplos papéis de esposa, mãe, colega, professora, amiga. E esse desejo coletivo tem uma razão muito simples e muito clara – a sua forma verdadeira de ser e se posicionar no mundo, aliada à sua capacidade de estabelecer vínculos profundos e autênticos com as pessoas das quais se aproxima. Vínculos que sempre apóiam, ajudam e direcionam as pessoas para alcançarem o melhor de si. Uma capacidade que, como vemos, não se limita às fronteiras locais e nacionais, pelos amigos que conseguiu fazer nesta trajetória de pesquisa e que estão vindos de diferentes partes do mundo para discutir os trabalhos realizados por sua equipe. O momento é o mais oportuno, como um gesto de agradecimento após todo o empenho e dedicação para realizar

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este evento científico tão importante para o seu grupo de pesquisa, em especial para tantos alunos, futuros pesquisadores da Psicologia. É também uma mensagem de que valeu a pena não transformar a aposentadoria em uma dedicação exclusiva à poesia, por ela tão desejada, apesar da forma tão natural com que a poesia se integra ao seu fazer científico e profissional. E eu que tenho a felicidade de tê-la como companheira, fico imensamente feliz por vê-la realizando sonhos, alcançando objetivos e concretizando esta trajetória como pesquisadora e professora da forma tão significativa, que torna mais do que merecida esta homenagem coletiva. Virgílio

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Como resumir Ana Cecília numa fotografia, mesmo que esta valha mais que mil palavras? Como condensar a leveza de sua alma, a doçura de seu olhar e o colorido de seu sorriso em um único registro? Seria muita pretensão minha, ou tudo caberia numa fotopoesia?

Mário Vítor Bastos

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MĂşsica Maternos


Maternos (José Eduardo Ferreira Santos)[1] Para Ana Cecília de Sousa Bastos e os “Maternos” Esse nome Carrega minha mãe Outras mães Outros chãos De viver De criar Esses olhos Que escapam dos véus Novos céus Novo mar Novos céus Olhos meus Esse filho Que é parte de mim É um milagre Que vem E eu não sei Traduzir

[1] Composta em 16 de dezembro de 2011.

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“E eu não sei traduzir...” Assim termina os versos da canção que acabamos de interpretar. Ela, a canção, assim como a noite que se inicia, é a nossa tentativa de tradução do nosso amor e profundo agradecimento a você, Ana Cecília. Amigos, orientandos, colegas de profissão, família e alunos, estamos aqui para te oferecer esse presente, essas palavras, poemas e essa canção. Uma tradução de tantos momentos e dedicação à UFBA durante todos esses anos, é o que te entregamos nesta noite. Com carinho, “Maternos” Itacimirim – Bahia, 27 de fevereiro de 2012

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Aposentadoria?


Tento uma espécie de breve genealogia do Programa em Família na Sociedade Contemporânea da UCSAL. Há quase 12 anos, “o pai da criança”, o doutor em sociologia/PUC-SP, Prof. Giancarlo Petrini, hoje Bispo da Diocese de Camaçari, teve a iniciativa de, implantando na Bahia uma sessão do Pontifício Instituto João Paulo II, propor a um conjunto de companheiros, a criação de um mestrado em Ciências da Família, adequando a matriz curricular da sede em Roma à realidade local. Um desses companheiros foi Dom Lucas Neves, articulador, junto às autoridades em Roma, do empreendimento. Com a chancela do hoje Patriarca de Veneza, Angelo Scola, criou-se no Brasil um mestrado com forte ênfase nas Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, cujo foco traduzia, para o âmbito antropológico, os princípios cristãos relativos ao debate acerca da família. Este é o berço do que hoje se chama Programa em Família na Sociedade Contemporânea da UCSal, Programa que mantém, através de várias ações acadêmicas conjuntas, fortes relações com o Instituto João Paulo II, nutridas esses anos por publicações conjuntas, circulação internacional de professores, a exemplo do

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que vemos hoje aqui, com as presenças do Presidente do IGP2, Melina, e de Lafiti. Meu relato se concentra na organização que o Programa teve que efetivar frente a reestruturação do Stricto Sensu em andamento no Brasil. À época de origem do mestrado, ainda sob a chancela exclusiva do IGPII, de 1998 a 2003, a CAPES cobrava uma inscrição de mestrado e doutorado no sistema nacional de pós-graduação, o que veio a coincidir com a demanda da UCSal em criar níveis de pesquisa avançadas. O cientista político dr. Petrini, com sua habilidade de articulador, ensejou atender a demandas isoladas, fazendo-as convergentes. Fato é que, após um intenso investimento no sentido de ajustar a proposta internacional à realidade nacional, criou-se o Programa em Família na Sociedade Contemporânea, hoje unidade acadêmica da UCSal, inscrita no Comitê Interdisciplinar da CAPES. Seu escopo é a promoção do desenvolvimento de pesquisas sistemáticas, avançadas e interdisciplinares com foco no tema família, contando com especialização, mestrado acadêmico e doutorado.

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Naqueles anos iniciais, o nome da Profa. Dra. Ana Cecília Bastos oferecia ao Programa três coisas de suma importância: 1. sua pertença a um Programa consolidado da UFBA/ISC, sua produtividade impressionante, sua generosa inciativa de apoiar a criação deste Programa, ao qual ofereceu inúmeros suportes como colaborar na composição do corpo docente que ofereceria o suporte e a sustentação a um Programa Acadêmico de Stricto Sensu deste porte; 2. o exercício de docência em disciplinaschave, como metodologia, em cujo espaço foi extremamente democrática convocando vários professores a participarem dos desafios de pensar a reflexão e a prática de produção de conhecimento a partir de um arrojado arcabouço metodológico; 3. a competência em fazer circular pesquisadores de nível internacional no âmbito do Programa, muitas vezes condividindo visitas programadas para o seu Programa de origem com n[os outros, que iniciávamos a gestão do Família na Sociedade Contemporânea. Costumo dizer que a Profa. Ana Cecília foi, efetivamente, um útero fecundíssimo para a geração dos primeiros esboços de funcionamento do Programa que hoje se tornou o que podemos conferir.

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À época, a Profa. Ana Cecília não podia formalizar sua inserção plena no Programa, em razão de seu vínculo profissional com a UFBa. Não obstante, sempre foi colaboradora ativa, entusiasta da idéia, e parceira comprometida em todas as ações necessárias ao desenvolvimento e consolidação do Programa. De 2000 a 2011 passou-se uma década, para finalmente uma das “gestantes” do Programa se tornasse efetivamente membro de suporte de uma Unidade Acadêmico de Stricto Sensu com visíveis esforços de crescimento e consolidação de parte dos profissionais aqui vinculados. “Aninha”, como os mais próximos a chamamos, se aposentando da UFBA, pôde ter disponibilidade para vir contribuir com maior oficialidade a que o Programa continue essa história de progressão na fabricação do conhecimento, como passo agora a relatar. No

seu

histórico,

Família

na

Sociedade

Contemporânea/UCSal já conta com duas avaliações trienais, delas obtendo notas 4 e 5 respectivamente (2006 e 2009), e alguns elementos formais conferem a força crescente desse jovem Programa, com dados visíveis de consolidação: é o único centro brasileiro que estuda sistemática e interdisciplinarmente

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a família. Também é registrado como o único com nota 5 no Comitê Interdisciplinar criado por uma instituição particular (são 17 instituições públicas no Brasil com esta nota no Comitê Interdisciplinar). De todos os 17 Programas, é o exclusivo no nordeste a obter este conceito da CAPES. E o único com somente 10 doutores, número menor entre todos os programas do sistema CAPES. O sistema registra, na média, o dobro de pesquisadores associados aos programas congêneres, sobretudo aqueles que possuem o curso de doutorado. Em termos técnicos: trata-se de uma proposta inovadora, e os indicadores obtidos pelos docentes por ela responsáveis o confirmam. A área de concentração é Família em Mudança, e suas linhas de pesquisa são: Família e sociedade (3), Contextos familiares e subjetividade (4), e Direito, família e sociedade (3), que promovem um contínuo esforço de interpenetração nas atividades que realiza. A Profa. Batos se inscreve na área de Contextos familiares e subjetividade, como o 5o. Integrante desse núcleo vigoroso de produção de conhecimento. Tendo

como

resultado

mais

relevante

de

sua

consolidação a formação de mestres (135 até o momento) e

101


doutores (2), o Programa fomenta pesquisas que buscam a multi referencialidade e a verticalização de temas que cobram a convergência e o cruzamento das especialidades que lhe fornecem suporte. Tais pesquisas reiteram o exercício acadêmico em docência e pesquisa, dado que forma competências para a lide com redes conceituais e metodológicas sustentadoras do tema que privilegia. Reconhecido em fins de 2004 pela CAPES, o Programa contemplava em seu projeto original um curso de Mestrado, visando formar pesquisadores e professores para assumirem posições de liderança em instituições regionais vinculada à Educação Superior. Desde que se instaurou e iniciou seu percurso de consolidação, o Programa constatou que parte significativa de sua demanda está profissionalmente vinculada às Administrações Públicas nos âmbitos federal, estadual e municipal (parte atua como funcionários públicos), ou atuando no ensino superior (na condição de professores da rede pública ou privada) ou desenvolvem atividades como profissionais liberais (em consultórios/escritórios particulares, clínicas e hospitais) ou ainda em ONG’s, dando atenção à complexidade do

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fenômeno familiar. Deste modo, o Programa colabora para a difusão de conhecimento e a emergência de interligações entre a UCSal e a comunidade local/regional e internacional. Os campos nos quais os estudantes formados atuam são o direito de família, o serviço social, a saúde coletiva, o cuidado com infância, adolescência e velhice e o plano de políticas para a juventude, migrações e igualdade, e ações voltadas para a afirmação da cidadania/combate à pobreza. Como passo decisivo no itinerário de consolidação do Programa, foi implantado em 2008 o curso de Doutorado, conseqüência natural do seu primeiro triênio de funcionamento. Trata-se do primeiro Doutorado instalado na UCSAL, inédito em sua configuração temático-interdisciplinar no cenário acadêmico brasileiro, mantendo a organicidade pedagógica da Proposta original apresentada ao Governo Federal. A implantação do doutorado traz como incremento ao Programa a adição de uma nova linha de pesquisa nomeada de Família, direito e sociedade. Por que essas três linhas? Elas estruturam o Programa: 1. pela existência de uma demanda dos pesquisadores para sistematizar uma rede epistêmica da família referenciada

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interdisciplinarmente no direito, na sociologia, na psicologia; 2. pela exigência crescente do tratamento conferido à família considerando a complexidade com que o fenômeno hoje se organiza. Os resultados das pesquisas aqui desenvolvidas, disponíveis no Banco de Teses e Dissertações, bem como na produção dos artigos, livros e capítulos de livros, reiteram e reforçam o forte investimento dos profissionais que aqui atuam na construção de um centro de pesquisa de referência no tema. Se por um lado os pesquisadores do Programa utilizam o repertório de autores, teorias, conceitos e métodos comuns aos centros de pesquisa nacionais e internacionais na matéria, por outro, busca refletir e inovar na produtividade reflexivometodológica e empírica no debate sobre a família, introduzindo variantes específicas da realidade brasileira, colaborando fortemente, inclusive, com publicação científica que agrega valor à produtividade nacional sobre o tema. Vale destaque a publicação que a profa. Bastos organizou, contando com a colaboração de vários membros deste Programa: Living in Poverty: Developmental Poetics of Cultural Realities. 1 ed. Charlotte, NC, Estados Unidos: IAP - Information Age Publishing,

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2009, articulando uma problemática relevante acerca da organização familiar, através de um debate em torno da Psicologia Cultural, campo de pesquisa que tem explorado com vigor, em cooperação constante e fecunda com o psicólogo Jaan Valsiner, pesquisador do âmbito internacional, cuja amizade tem rendido ao Programa Família na Sociedade Contemporânea tantos frutos. Atualmente surgem fortes indicadores para este jovem Programa projetar e inserir em sua estrutura uma nova linha de pesquisa em Saúde e políticas públicas da Família, para que se albergue os inúmeros pesquisadores da àrea, desejosos de aqui poderem realizar os seus projetos de modo mais adequado, fato que potencializa a oportunidade de parcerias com órgãos de governos e ongs que trabalham diretamente na intervenção das dinâmicas familiares. A interdisciplinaridade caracterizadora das investigações aqui desenvolvidas cruza diversas abordagens que reconhecem a família como matriz do processo civilizatório, o que solicita do Programa a construção de um marco teórico-conceitual mais abrangente, capaz de integrar com rigor, diferentes níveis de

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análise, representados, por amostra, na enumeração que se segue: 1. Espaço social: é nele que os seus membros participam e atribuem significado a eventos que lhes conferem identidade (Lévi-Strauss, 1976); 2. Fato social pleno: é a partir de suas fronteiras

que

os

indivíduos

estabelecem

intercâmbios

constitutivos das mediações entre grupos sociais (Mauss, 1932); 3. A família é considerada espaço de vivência das ocorrências elementares constitutivas da vida (Sarti, 2003); 4. É reputada como lugar de estruturação psíquica que oferece aporte ao desenvolvimento dos sujeitos (Mizhari, 2004); 5. É entidade promotora do desenvolvimento da cidadania (Pereira, 2004); 6. Possui estatuto de fundamento social (Giddens, 2005; Therborn, 2006); 7. Tem como atribuição o estabelecimento das normas basilares de conduta (Braganholo, 2005); 8. Rede de relações que tem significado concreto e simbólico através da qual é formada a identidade, a solidariedade e a conexão com o contexto social (Donati, 1996); 9. É constructo social, mediante o qual o imaginário acerca do parentesco consubstancia sentido de vida (Piscitelli, 2006), etc.

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Do ponto de vista da estrutura da UCSal, o Programa contribui significativamente. Isso ocorre sob três modalidades principais: a maioria dos docentes está envolvida no ensino de disciplinas de cursos das ciências humanas. Todos os professores orientam alunos da graduação em iniciação científica, contando com incentivo de agências de fomento – FAPESB, CNPq e cota da própria UCSal, além dos voluntários. Essa presença tem projetado a imagem do Programa como centro formação acadêmica de profissionais qualificados, que busca estimular o ingresso de alunos na carreira de pesquisador, incentivando potenciais candidatos a participarem das seleções, disseminando um

modo peculiar de

fazer

pesquisa em

Família,

o

interdisciplinar. Um dos resultados dessa inserção se verifica com a presença de egressos da UCSal nos processos seletivos do Programa, o que significa investimento na formação continuada no âmbito institucional. Vale notar que um número também expressivo de candidatos e estudantes do Programa é de professores do próprio quadro da Universidade, o que demonstra que a política de re-qualificação e formação

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continuada

do

seu

corpo

docente

tem

funcionado

positivamente. Todos os docentes do Programa desenvolvem seus projetos específicos de pesquisa fomentados por órgãos públicos. Merece destaque o projeto coletivo que teve dois anos de duração e investigou práticas e crenças parentais de educação de filhos. Esta pesquisa, coletiva intitulada “Gênero e família em mudança: participação de pais no cuidado cotidiano de filhos pequenos”, teve recursos aprovados em edital específico do CNPq. Sua concepção mobilizou os docentes das três Linhas de Pesquisa, assim como vários estudantes do Programa, cujos esforços convergiram para a interdisciplinaridade, em busca de levantamento de questões relevantes do cotidiano da família nos dias atuais. Mediante a utilização de dispositivos de mensuração de práticas e concepções dos pais no cuidado com os filhos, o projeto teve como objetivo geral contribuir para uma reflexão interdisciplinar sobre paternidade, maternidade e redes de apoio, acessando debates sobre geração, gênero e sentidos de feminilidade e masculinidade no contexto contemporâneo, sobre o processo de reconstrução das figuras paternas e maternas, tal

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como se reflete na vida cotidiana da família, pensada como agente primário de cuidado, de socialização e de aculturação, de preservação ou de transformação de valores, de relações e de lugares sociais e também de contradições e violências. Exatamente por isso, nele se indagou: como são os pais e mães de hoje na vida cotidiana? Como se dão as relações sociais no grupo familiar considerando a tríade mãe, pai e filhos? Qual o lugar dos outros membros da família nos cuidados com os filhos pequenos? Que modelos dispõem os filhos/filhas, e que caminhos podem ser supostos para essa geração futura? Em que medida vêm sendo desestabilizadas categorias como a divisão sexual do trabalho e do poder, considerando em particular ciclo e curso de vida de diversos de grupos familiares? Dos projetos executados até o presente momento, esse ganha relevo por ser, desde a sua gênese à sua execução, análise dos

resultados,

etc.,

obra

coletiva

que

caracteriza,

significativamente, a busca continuada de integração do corpo docente e o envolvimento desejado com os alunos na construção de conhecimento interdisciplinar, o que exige exercício dialógico em relação a conceitos e métodos disciplinarizados. A

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contribuição da Ana Cecília no desenvolvimento desse projeto foi muito fértil. Destacamos como mecanismo que tem sido utilizado pelo Programa para consolidar as suas metas a circulação do corpo docente, dos mestrandos e dos doutorandos, quer seja nacionalmente,

quer

seja

internacionalmente,

que

têm

frequentado centros de pesquisa do país e do mundo, se beneficiando e reciprocedendo estes benefícios através do intercâmbio de métodos, autores, conceitos, teorias que lidam com o tema da família. Este dispositivo confere uma visibilidade mais acentuada de ocupação continuada do Programa em manter o foco de seus objetivos, justamente por investir fortemente no escambo, junto a pesquisadores de outras instituições, de um modus faciendi inovador no âmbito da investigação. A intensa participação dos pesquisadores do Programa em reuniões científicas internacionais e nacionais é um outro fator que promove a sua inscrição no cenário dos centros que se afirmam como inovadores nos estudos interdisciplinares de família. Prova disso é este importante Seminário Internacional "Famiy and culture" organizado e executado pela Profa. Ana

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Cecília e sua equipe de trabalho, constituída por colegas, inclusive do Programa, orientandos e colaboradores diversos. Ademais, o tópico publicação tem recibido cuidados do Programa, bem além das exigências estabelecidas pela CAPES para avaliar as estratégias de manutenção deste centro como uma referência de excelência no cenário de investigação interdisciplinar em Família. O número de publicações próprias é impressionante, a exemplo da Coleção Família na Sociedade Contemporânea, composta por 5 volumes, publicada pelas Edições Paulinas, além de coletâneas, resultantes de organização de reuniões científicas aqui realizadas. Neste particular, uma simples visita o link Lattes do CNPq poderá subsidiar as informações acerca da produção que a Profa. Ana cecília tem organizado e feito autoralmente, como mebro integrante do nosso Programa. Um outro dado importante a ser declarado é a submissão e aprovação, no ano de 2010, de Projeto de infra-estrutura elaborado pelos Programas da UCSAL, com forte presença do Programa

em

Família

na

Sociedade

Contemporânea,

apresentado ao edital da FINEP, cujos recursos serão investidos

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no incremento das condições ideais estruturais para fazer pesquisa. Especificamente para Família, a construção do edifício para ampliar os espaços de pesquisa existentes contempla a criação do “Observatório de família(s)”, voltado, sobretudo, para estudos de família em área urbana em situação de pobreza. Neste projeto também está incluída a construção de um estúdio de pesquisa que adequará o espaço de gravação de entrevistas com convidados que visitam o Programa, bem como albergará equipamentos adquiridos em outros projetos em um dispositivo mais ajustado de gravação e editoração de reuniões científicas, produzindo multimeios. Todos esses indicadores parecem documentar que o jovem Programa Família na Sociedade Contemporânea foi um dispositivo acadêmico acertado pela UCSal para oxigenar o presente e o futuro de desafios de uma Instituição cinquentenária que, não obstante a passagem do tempo, dá mostras de vitalidade, particularmente na pós-graduação, avaliada externamente com critérios universais e transparentes de um sistema que nos reconhece como centro de formação de excelência e de produção de pesquisa de relevância.

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Nesse âmbito se inscreve a mais jovem aquisição da casa. Na verdade, “prata da casa”, a quem muito rapidamente aprendemos a admirar, por reunir competência, firmeza e uma extrema doçura, que acolhe generosamente um número impressionante de parceiros, estimulando muito positivamente a investir fortemente neste Programa. Nossa reverência a você, grande amiga. José Euclimar Xavier de Menezes

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Quer um horizonte?  

Livro-mensagem de alunos, colegas, amigos e familiares de Ana Cecília

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