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Andanças

Ana Cecília de Sousa Bastos

Salvador, maio de 2014


Dedicatória

A Virgílio, companheiro: “por onde for, quero ser seu par”.

Àqueles que me fizeram ver lugares, coisas e pessoas com olhos de novidade e encantamento: meus pais, José Newton e Maria Ruth.


Agradecimentos

Aos companheiros de tantas viagens. Aos interlocutores - identificados ou anônimos - da série “Viagens”, no blog Casulo Temporário. Ao meu irmão Paulo, meu querido Id, pelo carinho e entusiasmo na editoração deste livro.


Apresentação

Trago dentro do meu coração, Como num cofre que se não pode fechar de cheio, Todos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei, Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, Ou de tombadilhos, sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa). (Em Passagem das Horas.)

Este livrinho nasce em um Casulo. Temporário, como próprio de abrigos que tais. Já o desejo dele, enquanto publicação ou marco, nasce de intermináveis conversas com meu querido amigo Glenn Rucker, quando viajamos através de nossas jornadas pessoais, por diferentes tempos e paragens – the best English classes ever! Originalmente, os textos aqui reunidos, escritos durante momentos de introspecção possibilitados por viagens, iam sendo postados no meu blog Casulo Temporário1. As impressões a partir de lugares e paisagens subjetivamente vividos vão se mesclando a memórias e a sonhos, a uma lógica sobretudo intuitiva que, de certo modo, vão roubando a cena – mais propriamente, vão roubando o cenário. Privilégio todo especial ter neste livro a co-autoria de meu filho Mário Vítor, cujo olhar sensível faz da fotografia poemas perenes2.

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www.casulotemporario.blogspot.com Fotos disponíveis em: https://www.flickr.com/photos/mvitor


Andanças. Danças de Ana, pois se nunca soube ao certo apoiar firmemente os pés no chão, coisa que costumava preocupar minha mãe, que me ensinou a “acordar para a vida”, equilibrando, na medida do possível, a tendência a “viajar” e a andar no mundo da lua. Lugares são estradas para dentro: esta, a viagem de quem se adivinha peregrina na vida. As postagens foram virando uma série, uma conversa gostosa com pessoas que “viajavam” comigo, carinhosamente comentando e também partilhando impressões. Aqui, optei por manter os nomes utilizados pelos internautas na interação comigo (nomes, não “de guerra”, mas “de blog”), indicando, sempre que possível, os endereços de seus respectivos blogs. Eu própria apareço como “Casulo Temporário”. Por vezes, os “viajantes virtuais” (na feliz expressão de Elaine) que por aqui passaram são anônimos, ou temporários: os blogs são desativados, não localizo mais seus endereços. Em contraste, outros comentários são bastante íntimos. Aos 60 anos, não mais me aflige ter ou não problemas resolvidos ou colocados, que nem aos 18 (já leitora assídua de Drummond). A vida é, enfim, a minha matéria. Estar presente, captar sinais no espaço, palmilhar o chão que Deus me dá a cada dia; aprender, sempre. Ainda me sinto com um futuro pela frente, ainda faço planos de uma vida nova, ainda escrevo poesia – sobretudo posso, mais do que nunca, experimentá-la. Deus me cumulou de bênçãos nesta vida: pais e irmãos, ninho tão acolhedor e aberto; marido e filhos tão preciosos, reserva infinita de ternura; uma netinha que revela o universo, nela própria e dentro de mim; muitos amigos, cada um tão raro, colegas e alunos que se tornaram amigos. Tantos encontros genuínos. Aos 60, sou imensamente grata pela vida. Pois é, estive andando por paragens que não passavam de fantasia para aquela menina que, quando morava no sítio Lameiro, em Crato, Ceará, gostava de contemplar sua coleção de cartões postais, cheia de lugares longínquos, remotos, inalcançáveis. De certa forma, novamente (inevitavelmente) evocando Drummond, andei por aí, sempre escrevendo, apenas para compreender que nunca saí de fato dos lugares de onde venho, onde pela vez primeira me dei conta de estar neste mundo. Daí que estes postais, sem maiores pretensões literárias, nascidos em um Casulo, me oferecem uma sala de estar aprazível, na qual posso, em boa companhia, cheia de gratidão, celebrar seis décadas de vida.

Ana Cecília.


As Viagens de Ana Cecília

Elaine Pedreira Rabinovich

Muitas vezes, o difícil é Ana Cecília viajar, mas, quando ela viaja, viaja com todas as asas do imaginário poético, num transporte do próprio “ser” (estar): Olho longamente tudo, sem pressa, sem juízo – e sem juízo, como devaneio ou delírio... Crio, na multidão, um espaço de silêncio e me maravilho com toda aquela beleza inspirada pela relação do homem com o mistério de sua criação e de seu destino. Isto porque o que a inspira é a hospitalidade genealógica, isto é, universal, a generosidade de hospedar a humanidade em seu coração que, às vezes, lhe prega peças. O sonho fala mais alto e mais longe que a conquista... Neste momento, Ana se abre, não apenas para as paisagens, como para as pessoas que compartilharam essa sua “viagem”, incluindo-as no roteiro. Um viajante virtual: ah, se houvesse um 'guia turístico-poético', você seria a autora! Outro viajante virtual: se não um guia, um roteiro turístico-poético. E também fotos, lindas fotos, que nos levam onde ela esteve, indicando o caminho. E caminhamos juntos. É incrível que a primeira “parada” nessa peregrinação – inesperada, não planejada e aparentemente fruto do acaso - seja por meio desta Palavra: Caminho, Verdade e Vida. Ao me pedir para escrever esta que seria uma apresentação, disse ela: é bom, porque você fala direto. Mas é um grande livro, um grande texto, e me pergunto se não seria melhor alguém que se esparramasse... mas não, é só ler. Como ela: na solidão. Em busca, como minhas companheiras de viagem - que não reencontrei mais, acho que precisava mesmo estar sozinha nesta inesperada, intensa e curta peregrinação - e eu mesma. No entanto, gostaria de grifar o aspecto do testemunho: em sua peregrinação, Ana presta um testemunho que dá voz a silêncios e silenciados. E são os testemunhos que tecem a história.


Árvores que retêm sua claridade por um átimo de tempo. E então, mais nada. Efêmero. Nenhuma história é necessária. Mas tenho de afirmar que sua viagem não foi solitária, pois tinha, além dos companheiros de viagem presentes, aqueles presentes pela rede Casulo. Minha conectada amiga assim se expressa, num momento de certa apreensão existencial: Postei, aqui mesmo no Casulo, ao retornar, a seguinte nota sobre o metrô:

Subways (notas extemporâneas)

Os metrôs são os intestinos das cidades neste lado do mundo que é outro. Vísceras que reconectam pessoas, fornecendo espaços transitórios pelos quais realizem o retorno ao mundo privado, afastando de cada rosto os traços que o tornam anônimo. A imensa solidão humana das multidões na cosmopolita Londres, em dia de ameaça terrorista. Este mundo, que se apresenta como espelho da civilização, é oco. É hora do rush e a multidão prossegue, seguindo impotente, quase autômata, imenso mecanismo, hidra de mil cabeças, seguindo. Este é o rosto da solidão e da mais total incomunicabilidade. Viajamos em família, os quatro juntos, e é tão bom isso, e criamos células de alegria ali dentro, como se fossem, naquele momento, modos de estar como que clandestinos, subterrâneos. Subways. Modos de estar felizes no deserto. Modos de estar felizes no deserto ... Os ciprestes se vestem de franciscanos Ou é o contrário? Plantação de girassóis. Como um exército que se move em uníssono, brigadas suaves, aveludadas milícias romanas, pachorrentamente.

Modos de estar feliz no deserto? Descubro que no silêncio está Deus.


Mas também que está aqui também na terrinha, numa esperança sempre dada: Amo Brasília, cidade em busca, altar de sacrifício. A luz intensa, sempre, e essa inatingível esperança em concreto. E passando pelo Crato ... Na feira do Crato, aqueles olhos de criança, nariz escorrendo, chupeta e saliva, espreitando pelos cantos nas barracas na feira, aqueles olhos que falavam mais do que quaisquer regras e histórias de quase aristocracia da família... E o cheiro do fumo de rolo, igual em todo o Nordeste, de fora a fora (e até na Bahia); o mascar e o cuspir no chão, e por trás dos chapéus o olhar sombrio e desdentado dos homens, facão na cintura. E o cantar, a festa, pois quando era alegria era absoluta. E a sala de visitas das casas nossas, arrumadas, o óleo passado nos móveis, a flanela, até brilhar. A sala imóvel, a qualquer hora podia chegar uma pessoa, sem causar vergonha; não sendo criança, porém. Criança passava furtivamente, na ponta dos pés, aprendendo a construir espaços secretos de solidão. A vida, a totalidade plena do viver, estavam na feira e na estrada. E de certa forma, até hoje, para mim, a verdade é uma cidade do interior. ... chegamos à Bahia: Dias em que somos acometidos pela cidade. A cidade é soberana e nós, seres involuntários na paisagem. O mar, o sempre sentimento do que é talássico, báratro, abismo. O oceano absoluto a nos envolver, envoltório simultâneo de ruas acanhadas e eternas. Dias em que a cidade se sobrepõe muito naturalmente à rotina e nada somos senão seus viventes. Dias em que palavras são apenas a superfície das coisas, e como tal as dispo e sigo nua, desmielinizada.

E aos irmãos, à irmandade, em uma troca de intimidades entre irmãos:


...porque o nosso tecido de ser irmãos é precioso. Falta o fazer saber sem o qual somos silenciosos e nos colocamos cortinas e banalidades; ele sabe que ser irmãos é poder chorar pelas mesmas coisas. Finalmente, alcançamos a “viagem” original, em Crato, Ceará: E era 'uma viagem' deitar no desconforto e no frio e olhar as estrelas, chegaríamos ao sétimo céu se este houvesse. E não sei se vi jamais algo tão belo quanto aquele céu estrelado sob o qual flutuávamos no alto da serra, tão perto de nós, tão claro, tão perto das estrelas e de seus nomes, que meu pai nos contava nas noites suaves sem luz elétrica. O seu pai ... Mas eu escolho terminar com sua mãe, ternurando-a: Minha mãe conta que até Luís nascer todos dormíamos no seu quarto; ela nunca abriu mão de cuidar de nós à noite. Eram três, quatro berços. Viro ternura e quase choro ao ver - na lembrança ainda, uma lembrança dentro de um corredor no qual minha mãe toma minha mão e seguimos (...).


Andanรงas


1. Inaugurando a série Viagens: Itália (1999)

Roma – fonte (foto: Mário Vítor).

Roma O mês é setembro. La morte i la fanciulla, Il Cameristi Toscani. O Castel Sant'Angelo, desde sempre e para sempre. O vulto da noite. Águas. As inacreditáveis cores de Roma ao entardecer, aquarela infinitamente projetada em tempo e espaço. Sou todas essas cifras musicais. Sou todos esses momentos, e as cores todas. Estou impregnada de eterno.

Firenze Até a chuva é bela em Florença, onde nenhum detalhe é sem valor. Os pingos escorrem inteiros sobre as pedras escuras. "Belissimo!" Perco-me nessa imagem única, gratuita e efêmera, que a cidade nesse momento oferece só para mim.


Rio de Janeiro

No Brasil, a primeira visĂŁo ĂŠ de um nunca visto Rio de Janeiro. As luzes da cidade adormecida, tanta paz.

A estrela d'alva e duas cores Ăşnicas desenhando sozinhas o esplendor do sol nascente.

Pavitra (Adrianna Coelho)3 disse... "Estou impregnada de eterno." e eu de suas viagens e imagens - nascentes de poemas! adorei Firenze (o poema). Beijos!

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https://plus.google.com/111380125282813075344/posts


2. De quando eu tinha uma coleção de cartões postais, e o desejo de não viajar.

Mar da Bahia (foto: Mário Vítor).

Uma bronquite me prende em casa por alguns dias. Com isso, abre-se uma clareira em minha agenda e visito amiúde esse mundo dos blogs, convencida de que é um mundo de aventuras; cada vez mais me dou conta de que nele acontecem coisas extraordinárias. Viagens. Entre o primeiro fato e essa constatação, ocorre-me postar, no meu espaço virtual, escritos de viagens reais que andei fazendo, o que é algo surpreendente para mim, ainda agora. Quando criança, morava em Crato, no interior do Ceará, e lia muito, sobretudo aventuras de grandes viajantes por terras exóticas. Mas, quando descobri que Winnetou, o herói índio cujas façanhas me fascinavam, não existiu de verdade e, mais ainda - caso houvesse existido, não poderia estar mais vivo então, e muito menos quando eu crescesse, fiquei muito decepcionada. A História, toda ela, era minha contemporânea - de verdade, em minha fantasia infantil, e não como uma figura de linguagem. Também queria correr mundo e ser pirata, fazer guerras românticas em que, claro, não havia sangue. Algumas vezes, criança pequena, fugi de casa com meu irmão Beto, pequenas fugas apenas imensas em nossa memória - o Poeta Bruno Tolentino dizia que isso era devido à minha alma corsária. E lembro-me da frustração que senti quando compreendi que, mesmo em sendo as terras coexistentes, de certa forma, no mapa de cada época, os fatos e os séculos tinham sua própria cronologia e os mundos deixavam de existir. Já adolescente, ganhei de presente, de um amigo de meus pais, italiano, uma coleção de cartões postais. Àquela altura, porém, não chegava sequer a pensar em viajar pelo mundo, é como se as decepções da infância tivessem anulado para sempre esse interesse. Quando


tinha 15 anos, tive a possibilidade de uma bolsa de estudos para a França e recusei de imediato, até porque era muito tímida para viver por um ano longe da minha família. Depois, as viagens que fiz - não muitas, mas significativas - foram sempre ocasião para escrever, talvez por representarem um corte em relação ao cotidiano tão denso de trabalho que vivemos na universidade, o qual, por vezes, me faz sentir encapsulada, desterrada das palavras que desejo percorrer. Assim é que, entre uma bronquite e essas imagens, senti o desejo de começar esta série de posts, "Viagens". Começou ontem, mas só hoje me dei conta de que seria mesmo uma série, pois "achei" uma quantidade de escritos maior do que de fato me recordava. Seguirei ao sabor das cidades, sem levar em conta a seqüência em que as viagens aconteceram. Peço a paciência dos leitores se por vezes me estender um pouco demais.

O post de hoje, como antítese, fala justamente do desejo de não viajar...

Não desejo ir à Europa. Basta-me esta gravura da Tour Eiffel na parede, que alguém me trouxe de presente. Não quero outras cidades e paragens. Na verdade, quero só silêncio, em qualquer idade. Tempo. Um pouco de sol, de ver o mar, de poder estar à toa, sem pressa. Remexer velhos papéis, alguma música, algum cinema. Arrumar a bagagem e a matalotagem de uma viagem secreta. Paz, interiores, sombras.

Cosmunicando4 (Mercedes Lorenzo) disse... amei isso... de verdade. Por vezes, também não quero viajar a qualquer lugar que não seja pra dentro de mim. Adoro viagens, mais pelo percurso do que pelo destino final... isso deve ser alma corsária ou cigana também? (risos) O fato é que você me fez pensar nas viagens que quis fazer apenas pra poder não-viajar (que loucura). Beijos.

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http://cosmunicando.blogspot.com.br/


Casulo Temporário disse... Isso mesmo, minha amiga! "fazer viagem apenas pra poder não-viajar", compreendo perfeitamente. Preparar esta série está sendo uma viagem pra mim... espero que você curta. Beijos!

Casulo Temporário disse... E saudações à sua alma corsária! Pavitra (Adrianna Coelho) disse...

Vou pegar a deixa da Padmaya (Mercedes Lorenzo): também adorei a nova foto, de ver mais de perto como figura a alma que intuo... O poema me tocou no silêncio, sem murmúrios, sem muros, sem fronteiras... uma viagem ao interior! Beijos, Ana! Maria Muadiê5 (Martha Galrão) disse... Linda poesia. Beijo.

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http://mariamuadie.blogspot.com.br/


3. Nova York (2005)

Wall Street, Nova York

Para Virgílio, Ana Clara, Vítor e Luciana, companheiros de viagem.

Esta terrivelmente bela cidade me faz chorar, a mim que não posso descrevê-la tão precisamente quanto o faz Jean Baudrillard: a cidade da prostituição total e da total eletricidade, que em relativamente pouco tempo alcançou essa qualidade histórica de cidade síntese, expressão do humano em sua época. E assim herdeira de Atenas, Alexandria, Persépolis. Por minha conta, acrescento: herdeira de Roma. Ando pelas ruas de New York, transida de frio e de beleza ante seu inacreditável mosaico de vestígios humanos. Inutilmente procuro um símbolo para a cidade. Impossível defini-la. Ainda assim penso na escultura em Wall Street. Um touro raivoso e a beleza rompendo a pedra, como se involuntária. A arquitetura da cidade era para ser uma demonstração de riqueza e poderio. O que emerge é essa estranha, absoluta beleza, nascendo de tantos contrastes. Esta cidade me faz chorar. Sua forte personalidade, sem rosto algum. Mil faces e nenhuma face. A solidão abaixo de zero me corta o coração. A pobreza é aqui um acinte de extrema violência. Pessoas catando o lixo. Homem semi-descalço, passos dolorosos. Ao cruzar com


ele, escuto um gemido que diz tudo. Homens mal vestidos no subway, reconheço seu olhar e suas mãos de trabalhadores rurais. Quase dizia: discrepantes no subway, mas não são, pertencem sim, a esta cidade, mesmo quando falam espanhol. “Pertencem”, em suas formas singulares de pertencimento. Atração e repulsão permanentes. Esta é a cidade medusa, sem rosto, tentáculos mil movendo-se por si mesmos. Todas as identidades e nenhuma identidade, exceto talvez a dos negros que se movimentam livres, em carne e osso, desafiadores, donos dos espaços. Muitas pessoas têm frio e fome na cidade de maior poder financeiro do mundo. Muitas crianças nascidas aqui vivem miseravelmente nesta que é o mais poderoso centro financeiro do mundo.

Esta cidade me fascina e me apavora, em seus múltiplos fragmentos impessoais, incessantemente inventando solidão. Eu poderia viver aqui para sempre, fascinada, e poderia, horrorizada, fugir correndo, sem jamais olhar para trás. Neste lugar onde tudo é possível, muitos artistas podem viver, instalados nesse fac-símile imediato, ilusório, de totalidade. Criando na areia como se fosse pedra, como nos é possível. Penso nos versos de Borges: Nada se edifica sobre la piedra, todo sobre la arena/Pero nuestro deber es edificar como se fuera piedra la arena… Tenho amigos que poderiam viver aqui. Esta cidade me faz sofrer, meus passos nas ruas, nenhum eco. A cidade que se inventa sem parar e nunca pode dormir. A cidade que inventa sem parar o próprio esquecimento, supremo oblivion. Onde tudo é possível (só o eu, impossível – tenho que parafrasear Drummond). Esta cidade me faz sofrer porque não posso compreendê-la, a um só tempo majestosa e infantil, grandiosa, magnífica e primitiva. Não posso compreender essa imensa via crucis, esses passos dolorosos pelas ruas. Há uma súbita, profunda, nostalgia do sagrado. Muda de espanto, estou à noite no alto do Empire State, sobre o imenso tapete luminoso, dourado, quase um altar. Tudo o que o homem construiu, o ápice de tudo por que luta, às custas de uma irreversível solidão, ao preço de um vertiginoso make up de alegria. Estamos aqui do alto do Empire State contemplando a cidade, reverenciando seu esplendor. Somos muitos, de todas as raças, lugares e credos. As imensas e ágeis filas dessa Babilônia. Um funcionário nos promete diversão e então fico sabendo que é por isso que viemos até ali: you’ll have a lot of fun, I promise you. The only bad part is to pass the security system. Digo a ele: it’s not so bad, pois ele é tão gentil. Aliás, em geral todos são gentis conosco. Nós, os turistas, somos ali os inocentes do Leblon, de quem Drummond falava – aqueles que passam óleo sobre o corpo e esquecem. Somos inocentes perversos atordoados pelo feérico espetáculo e também queremos esquecer.


Queremos a festa das luzes, como os músicos do Buena Vista Social Club caminhando na Times Square. Igualmente deslumbrados estamos nós, boquiabertos diante das luzes, diante desse fluir quase real dos luminosos da Broadway que nos encantam e nada nos dizem. A fotografia e o cinema captam o fragmento, mas não esse vertiginoso fluxo, que só é possível sentir estando aqui, fascinados. Nessa cidade monumental, os edifícios dominam. Um edifício sem janelas pretende facilitar a comunicação, evitando que os funcionários, que trabalham com telefonia, se distraiam. Igrejas espremidas entre prédios altos e sufocadas por essas outras tantas catedrais. Catedrais do nada? Catedrais do desespero, talvez, erguendo-se muito alto, para o nada. Para o Ground Zero. Ground Zero. O único lugar onde faz silêncio em New York. Chocante, no 11 de setembro e agora. Andamos no MoMa e no Guggenheim, pensando: é a perfeição. Mas as pessoas fazem um alarido de vozes e passos e penso que a contemplação da beleza se tornou insuportável para o homem contemporâneo, do qual essa cidade é uma síntese. E, no entanto, esses museus são perfeitos. Belíssimos. Em nenhum outro lugar como em New York a arte contemporânea poderia encontrar seu nicho e sua perfeita, precisa expressão. O efeito final é estranho, flagrantemente belo. Novamente quero chorar, um sentimento de indefinível e inesperada compaixão. Tudo contrastante, tanta personalidade nessa medusa em concreto armado e luz. Tanta solidão. Em nenhum lugar será tão fácil igualar verdade e ilusão. A vista do Empire State é bela, fascinante e ao mesmo tempo me entristece, diante desta cidade que é a máxima expressão da humanidade hoje, depositária de nossos maiores sonhos e de nossos mais profundos medos. É tudo isso, mas... isso é tudo?

Cidade-síntese. Seria isto possível em pleno século XXI? New York, New York. Sem dúvida é para você que Simon e Garfunkel, em The only living boy in New York, cantam: “half of the time you’ve gone and you don’t know where, you don’t know where”.

Cosmunicando (Mercedes Lorenzo) disse... Que maravilha... que passeio feérico acabei de fazer através das suas palavras... meu silêncio agora, digerindo tudo isso, é zero ground.


Vou curtir muito essa série de posts =) Beijos Denise (Denise Coutinho) disse... Ana, querida, acho que somente o silêncio e algumas lágrimas dizem em mim o que sinto ao ler esta sua crônica mais linda (até agora!). Ontem, sobrevoando Congonhas, vinda de Uberlândia, olhei São Paulo de cima e de perto, lembrando de New York, essas sensações que você tão belamente descreve. Quanto cinza e quanta vida. Prédios e carros e gentes tão assemelhados e diversos... de estarrecer. obrigada! Beijos, Denise. Maria Muadiê (Martha Galrão) disse... Ana, que texto forte, eu, que nunca lembro de New York, gostei de ler. Um beijo, M.

Pavitra (Adrianna Coelho) disse... Ana, sua viagem e suas emoções chegaram até mim... tanto o fascínio quanto o aturdimento, tanto a beleza quanto o caos... eu fiquei emocionada até arrepiar. E, tenho que dizer, sua maneira de descrever a big maçã é muito mais interessante do que a própria cidade... Esse texto, sim, foi a própria viagem para mim. Casulo Temporário disse...

Queridas, Obrigada pela sintonia. Quanto ao texto, para mim é tão forte que não posso comentar nem uma vírgula... beijos!


4. Lisboa (1999)

Foto do túmulo de Camões no Mosteiro dos Jerônimos.

Um anônimo põe uma rosa vermelha sobre o túmulo de Camões no Mosteiro dos Jerônimos (não para Vasco da Gama, o descobridor). O sonho fala mais alto e mais longe que a conquista... Lisboa, como Salvador, tem cantos e encantos. Uma cidade fascinante, cheia de surpresas. Palmilhamos indícios, buscando pegadas de nossas matrizes. Talvez os países europeus possuam alta auto-estima. Nós, colônia, ao contrário, somos sempre pouco referidos a nós mesmos, voltados à apreciação de olhares externos. Como se nós mesmos não fôssemos razão suficiente para cuidarmos de nossas cidades e de nossas vidas... Que matriz perversa, impregnando o subjetivo de cada um! A última flor do Lácio. Meu ouvido (colonizado, talvez) se encanta com o português falado em Lisboa. Não só por sua música: sobretudo o poético da estrutura da frase, sua correção e o que ressoa em mim quase clássico, castiço. E quando se canta o fado, canta-se "para dentro", quase um canto em silêncio, abafado no peito. Convidado, o público cantarola em surdina. Tudo é, porém, intensa emoção.


Museu da Marinha: na memória dos navegantes, nenhum registro da descoberta do Brasil. Quem somos nós para eles? Uma descoberta que não é a das Índias, não é a de Vasco da Gama. Parece que o Brasil não é motivo de orgulho do descobridor. Clandestino e onipresente, o amor por nossas novelas, sensualidade, axé.

No taxi, escutamos no rádio que, a esta altura do milênio, ocupados pelo técnico, os homens não conseguiram resolver ou atender às suas necessidades de afeto, calor humano, relacionamento, etc. Soa estranha essa constatação no velho mundo. O que de lá há muito estava guardado (humanismo), marca de civilização às vésperas do novo milênio. Mais importante que os monumentos dos poderosos.

Portugal: tão "piccolino", ouço dizer uma turista italiana. "Piccolino" e arrogante. Antigo e suave. Nada é abandonado, tudo é reconstruído. Cinzel do que se é, novos modos se integrando, justapostos, como se tudo o mais permanecesse intacto. Olhos felinos de quem há um milênio vê as modas aparecerem e sumirem, sendo que apenas restam os monumentos (agora começo a compreendê-los) e seu fascínio.

E não dá para rotular Portugal (como os outros tão singulares e diversos países). Seriam "portuguesas com certeza" as estórias de Inês de Castro, a rainha morta? Do pobre D. Alfonso, louco, isolado e encarcerado até a morte no mais alto das escadas do Castelo de Sintra? As rainhas loucas, Carlota Joaquina e sua cadeira de criança, de rainha aos dez anos? Isso fica, delineando lendas e registros de existências pessoais possíveis através da história.

Pavitra (Adrianna Coelho) disse... Caramba, Ana! A Padmaya falou no texto anterior e eu repito nesse: vou viajar com você a cada um desses lugares... Ah, o que me chamou muito a atenção dessa vez: "Nada é abandonado, tudo é reconstruído. Cinzel do que se é, novos modos se integrando, justapostos, como se tudo o mais permanecesse intacto." Lamento por isso não acontecer aqui no Brasil, às vezes com lágrimas... e nunca conseguir entender! Até a próxima parada! Beijos.


Elinalva (Elinalva Bastos) disse... Ler suas impressões sobre as cidades levou-me a Ítalo Calvino em "Cidades Invisíveis". Não importa o século em que estamos, porque as cidades falarão por si mesmas, de forma diferente para cada um que as vê. Abraços.

Casulo Temporário disse... Pra mim é muito bom viajar de novo nessas paisagens, agora na companhia de vocês! Beijos, Ana.


5. Espanha (1999, 2006)

Madrid, fevereiro, 1999

Detalhe da Catedral de Toledo.

É claro para nós o quanto é pobre organizar o mundo, o pensamento, nos pólos ocidental/não ocidental, sendo tão múltiplo o ocidental em si mesmo. Quanto de não cartesiano, de pouco racional vemos em todo lugar! Todas essas matrizes culturais preservadas e em luta, esta orgulhosa luta por autonomia, tudo isso foge a qualquer compreensão superficial. Essa impressão é particularmente nítida na Espanha, mesmo nesta tão rápida passagem por aqui.

Olho os homeless: desabrigados no frio, dormindo pelas calçadas da mais importante rua de Madrid. Latinos como nós, que de repente estamos remetidos a esse pertencimento tão claro. Jovens de qualquer lugar pedindo dinheiro, jovens nas cercanias do metrô e seus


olhares perdidos, alucinados. Lejos, cercano... o castelhano soa duro em Madrid, as pessoas são duras. Que fizeram de sua música, de sua língua tão bela? Sinto-me nostálgica de uma Espanha que nunca vi. Lorca não estava em Madrid. O tempo é muito pouco, fazemos uma excursão, no segundo dia. Tantos lugares impressionantes. A Madrid dos Bourbon. El Escorial: Panteão, Basílica. Valle de los Caídos, onde não vou junto ao túmulo de Franco. Toledo: reino de Castela. Almoço no Monterey, onde chega de repente para cantar, linda, a Tuna Universitária. Toledo é um esplendor, cidade medieval e cidade imperial. Vemos a Catedral - absolutamente monumental, riquíssima -, a Sinagoga da Virgem Branca, a Basílica dos Franciscanos (San Juan de los Reyes), a Fábrica de artesanato damasquino.

Caminho para Santiago de Compostela, junho, 2006. A meu pai

Detalhe da Catedral de Santiago de Compostela (foto: Joan Valsiner).


A primeira parada é a catedral de Pontevedra, Basílica de Santa Maria Mayor, onde peço à Mãe que cuide do meu coração. Ando pelas ruas de Espanha e seus lugares tão longínquos no tempo, esquecidos na história, e ainda assim preservados. Velho Mundo – não impactante nem impaciente quanto New York. A missa a que assistimos em Pontevedra é uma missa de corpo presente. Uma mãe (como a minha). Muitos filhos e netos. A emoção contida do viúvo, que cambaleia ao entrar. O filho de meia-idade (como eu) que lhe dá o braço. Contido e amoroso.

Também o meu coração está contido e as palavras, secretas. Imagens e pedidos. Para que Deus nos proteja. Mas estou a caminho de Santiago de Compostela e peço ao Senhor forças. A Mãe me compreende, de algum modo este é um caminho para/por ela.

Não rezo o bastante, não peço o bastante. Sou arrogante e me deixo obcecar por detalhes, por minha própria medida. É incrível que a primeira “parada” nessa peregrinação – inesperada, não planejada e aparentemente fruto do acaso - seja por meio desta Palavra: Caminho, Verdade e Vida.

Caminho de trem para Santiago. Peço a Deus luz e força, no dia do aniversário de meu pai. O Salmo não poderia ser mais apropriado: Felizes os que encontram em Vós sua força, E em seus corações resolvem seguir-Vos.

Assim é o meu pai, porto seguro em nossas vidas, sem estranhar que fiquemos por vezes à deriva, à mercê de imprevisíveis marés. ***

Espanha – e também Portugal – têm essa mistura de profunda alma, tanta religiosidade, e ao mesmo tempo esse “tudo é possível” de fragmentos de modernidade. O garoto de programa que encontramos em Vigo. Uma jovem com a mão machucada, que nos pede dinheiro no bar, à noite. Uma outra pobreza... Há em Vigo uma casa de Refúgio para Mulheres, com os dizeres: “Não basta perdoar, tens que pedir perdão”. ***

Aqui é Galícia e o sol é inclemente. A língua portuguesa está em toda parte.


O mar de Vigo é de um belíssimo, quase metálico azul. Profundo, quieto. É uma baía, muito linda. Grandes pássaros: gaivotas? Talvez albatrozes. Os trens são novíssimos e rápidos. O retorno para Braga será ele mesmo uma peregrinação (três conexões). Há uma linda ponte em Vigo, recortando a baía, no encontro entre rio e mar. Suspensa como eu... suspensa por cabos de aço, enquanto eu, por nervo e sentimento.

Catedral de Santiago de Compostela - Missa do Peregrino. 12 h. Todos os dias às 12 horas a missa é celebrada na nave principal dessa impressionante Catedral. Tenho a sorte de chegar a tempo justo para este momento, nessa visita tão rápida, de apenas quatro horas. A Catedral está lotada de gente, nem encontro lugar para sentar. Fico tocada pela expressão e pelo olhar das pessoas que caminharam a pé até aqui. Têm uma luz diferente. Rezo e peço para todos que amo, e para mim também, fé e esperança. O resto virá por acréscimo. Atrás da estátua de São Tiago, apóstolo de Jesus, os degraus de pedra trazem as marcas dos pés dos peregrinos que, desde o século XII, vêm de todo lugar apresentar ao Senhor a sua humanidade. O Evangelho fala do vinhateiro e do Senhor que lhes manda o próprio Filho e Sua compaixão. O padre fala que a fé é um dom de Deus e um grande presente. Perdê-la é uma desgraça. Nossa base, porém, é frágil; sozinhos, não conseguimos. Ele menciona os tantos peregrinos, especialmente os que vieram a pé, em grupo ou sozinhos, vindos de diversos pontos de partida na Europa (França, Espanha...) e de todos os continentes (inclusive – ele enumera – dois do Brasil, um de Singapura, dois dos Estados Unidos; e de toda a Europa, inclusive Tchecoslováquia). Estar aqui – ele diz – é uma experiência de catolicismo. De unidade de toda esta tão diversa gente, todos nós: crentes mas pecadores, buscando a Eucaristia como único meio de sustentar nossa fé. Fico sabendo que São Tiago foi o primeiro apóstolo mártir, por isso simboliza a coragem – o arrojo de professar a fé (em espanhol, as palavras parecem mais dramáticas). Sua resposta, quando martirizado, era uma única: “sou cristão”. Isso nos deseja a todos o padre, especialmente aos que fizeram o caminho a pé - para muitos, de iluminação e conversão. “Vamos com decisão e valentia ao encontro do Pai, para professar a fé”.


A oração dos fiéis inclui preces rezadas em italiano, em alemão, em japonês, em tcheco, além do espanhol. Respondemos: Señor, escucha y tiene piedad. Santiago de Compostela (Campo de Estrela) me comove. Mais uma vez sou tomada pela sensação de que nada do que se passa aqui comigo é por acaso. Como encontrar justo essas linhas, que sempre me marcaram: Arrancai o nosso coração de pedra, E dai-nos um coração de carne. Toda essa humanidade ferida que aqui vem, tão diversa, é sinal de esperança. Em busca, como minhas companheiras de viagem - que não reencontrei mais, acho que precisava mesmo estar sozinha nesta inesperada, intensa e curta peregrinação - e eu mesma. Jovens, pessoas de meia idade, idosos. Peregrinos que caminharam durante dias, via de silêncio e introspecção. Tantos outros, como nós, que fizeram seus próprios percursos. Nossos tantos Caminhos de Santiago, mesmo quando nem sabemos que, apesar de tudo, seguimos.

Cosmunicando (Mercedes Lorenzo) disse... Ana, seu relato me toca particularmente... sou filha de espanhóis e meu pai nascido na Galícia. No mais, estou aqui meio sem palavras, imaginando essa viagem fantástica (que um dia farei). Beijos.

Pavitra (Adrianna Coelho) disse...

E eu ainda acompanhando você nessa viagem... o que me toca profundamente é mesmo a sua emoção, Ana... Sabe, às vezes fico imaginando como foram os momentos em que você escrevia sobre essas viagens... Até a próxima! Beijos.


Casulo Temporário disse... Que forte isso, Padmaya. Viagens que se encontram e percorrem. Estivemos em Pontevedra justamente porque era a terra dos avós da minha amiga com quem viajava naquela ocasião. E é isso mesmo, Pavitra - gente como nós tem essa emoção assim, tão à flor de tudo. As viagens acabam sendo uma oportunidade de sintonizar, um deserto, um lugar de reconhecer a própria identidade, fora da vida normal e suas anestesias. É uma delícia ter a companhia de vocês, obrigada! espero que tenham paciência... ainda faltam uns dez dias nessa aventura. Em seguida, trago o outono, pensando no belo outono americano e na festa da democracia que hoje acontece lá6.

6

Refiro-me à eleição de Barack Obama em 2008.


6. Outonos (mas a História é, sim, necessária!) A Jaan e Enora, Roger e Ruth

(Fotos: Mário Vítor, Worcester, MA, EUA, novembro, 2005)


Alemanha, 2001

Não, não são flores. Esse multicor que me encanta é o outono que chega. Encontrei enfim a minha estação favorita, é esta, sem dúvida. Sensação de plenitude e madurez, talvez por coincidir com o outono que se aproxima em mim. Sobretudo é bela esta paisagem: tudo tão cuidado e verde e claro - ainda claro, me dizem, pois, quando chega o inverno, a luz será escassa e todos sentirão sua falta. A falta de luz chegará a doer (daí o moderno estilo em vidro da Universidade de Genebra). Montes e vales, essas incríveis nuances de amarelescência, o vermelho aqui e ali. A casa recoberta de folhas vermelhas em Konstanz. As folhas no chão, suavizando cada passo, nos fazendo um pouco árvores. Onde começa a copa, onde começam as raízes, onde o solo, onde eu? Ao entardecer, estamos no entre-deux: folhagem e copas, viramos hera e liame, nos vegetalizamos, sombra e claridade, ouro em pó no ar. Sim, eu faria a poesia do outono, denso, profundo, se desfazendo em silêncio. Morte, fecundidade, renascimento. E as flores ainda presentes. Tudo morre, tudo renasce, prelibando o recolhimento que aqui marca a brancura do inverno. Esse entardecer me acalma profundamente. Tudo está em paz e em correspondência com a ordem da Criação.

Nova Inglaterra, 2005

As inacreditáveis cores do outono, mais e mais, infinitamente. Mil nuances levam dos verdes aos amarelos, laranjas, vermelhos. Como por sutis caprichos, as árvores trocam de roupa, indolentemente, rapidamente, numa profusão de cores e estilos de matar de inveja o mais imaginativo designer de moda. Deixam cair suas folhas, que o vento leva, dançantes, enquanto nós restamos, na vã ilusão de reter sua efêmera, mas absoluta beleza.


Em um segundo paramos, extasiados. Mas já se vai, com o vento, como se por puro capricho da natureza. Que, sábia, nada procura reter, se tudo nascerá novamente. Mas eu me entristeço, incapaz de lembrar – ou de esquecer? -, de apreciar os ciclos da vida, presa nas armadilhas de tudo que é reter, possuir. Hoje não há chuva nem ventos fortes. As folhas caem indolentemente, suavemente, irreversivelmente, tendo alcançado seu ponto de cair. Nada mais. Silenciosa,fascinante dança. Estou estranhamente em paz, aceitando esse irresistível movimento daquilo que se vai. O sol se põe e mal posso crer no espetáculo final de seu reflexo sobre as multicores, como se iluminando tudo, levando a um paroxismo o brilho dourado. Folhagens, lagos, horizonte. Às vezes apenas os cimos das árvores iluminados. Chego a buscar com os olhos de onde vem a eletricidade, mas é o sol, seu último brilho do dia, quase pachorrentamente, mas sem qualquer parcimônia. Árvores que retêm sua claridade por um átimo de tempo. E então, mais nada. Efêmero. Nenhuma história é necessária.

Luísa7 disse... Será sempre mais uma alma sensível a sentir a metamorfose da natureza na sua fase mais multicolor: o outono! Ofereço-lhe o que escrevi sobre esta estação... Há sempre um olhar sereno que assiste ao tumulto da modificação da natureza nesta altura do ano... Seremos sempre mais um olhar sobre aquilo que a natureza oferece. O belo! O meu Outono, foi postado em 18 de Outubro. Convido-a a sentir o cheiro das folhas caídas...e demais sensações de outono!

Pavitra (Adrianna Coelho) disse...

Ana, esse me tocou como brisa... tão suave, tão lindo... Adorei a sua visão do outono - o seu sentimento, como sempre! Beijos!

7

paisagensdeportugal.blogspot.com.br


SIMONE GOIS8 disse... Olá menina, Muito bom seu texto, também amo os tons do outono. Já vou te linkar pra acompanhar seu trabalho. Abraço, Simone

Cosmunicando (Mercedes Lorenzo) disse... "Ao entardecer, estamos no entre-deux: folhagem e copas, viramos hera e liame, nos vegetalizamos, sombra e claridade, ouro em pó no ar." Isso nem dá pra comentar, Ana. Muito lindo!

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cotidiamo.blogspot.com.br/


7. Paris, fevereiro, 1999

A Virgilio, Eulina e Lia. A VĂ­tor, por seu olhar: aqui, lĂĄ, em todo lugar...


( Fotos: Mário Vítor, 2007)

Por um dia inteiro, resto muda pela emoção de estar em Paris. Todo o tempo à flor da pele, completamente sensibilizada por tudo. No segundo dia, recupero a voz diante do menininho no metrô cantando Mon Ami Pierrot. Há um gato numa janela no Quartier Latin. Aliás, em todas as cidades encontro gatos, que até vêm ao meu encontro, “falam” comigo e se deixam afagar. C'est la plus belle ville du monde. E bela de um jeito só seu. Nosso hotel parece ter sido sempre o mesmo por muitos anos. Nosso quarto tem móveis dos anos 50, 60. O hotel tem sido dirigido e cuidado pelas mesmas pessoas, os pais já idosos, e mais a filha. Monsieur fica nosso amigo. Uma tarde, Madame pintava as cadeiras com verniz. Tudo se restaura, nenhuma aflição do imediato e descartável. Contra tudo que me diziam dos parisienses, as pessoas são especialmente gentis comigo em Paris - vous, qui parlez d'une voix si douce.... Tocadas por minha emoção amorosa em relação à cidade, possivelmente. No hotel, sem que peçamos, nos emprestam um guardachuva (chove muito, faz zero grau).


Gosto das ruas de St. Germain-des-Prés e Montparnasse, suas livrarias, cafés e cinemas. Deposito flores nos túmulos de Simone de Beauvoir e Sartre, de Marguerite Duras. Sim, Paris é para mim existencialista e vagamente revolucionária. As maravilhosas e tantas livrarias, e temos que nos conter. Os nomes são lindos: L'écume des pages, Le temps retrouvé. Passaria semanas ali, interessada por tudo - até mesmo por psicologia (sempre a última escolha na minha hierarquia de interesses - cada vez mais me acontece de encontrar material significativo sobre o fenômeno psicológico em outros campos que não o próprio...). Compro alguma literatura. Em Paris há sempre alguém lendo: no metrô, nos jardins, cafés, rua. Tudo é talvez como nas outras cidades: ruas, monumentos, estátuas, vitrines, luzes, jardins. Mas o charme é único de Paris. O metrô, porém, me angustia: por vezes sujo e sombrio, por vezes ameaçador. A pobreza: músicos nos vagões, mendigos, um deles com um cartaz: J'ai faim. É bom andar pelas ruas e constatar as marcas da História: Égalité, Liberté, Fraternité. Le tombeau au soldat inconnu. Na Rue de la Huchette, a placa marcando o lugar onde um herói da Resistência foi morto em missão, pela Gestapo, em 1944. Os lugares que encontramos sem esperar: a Sainte Chapelle e seus vitrais, concertos, o Museu Rodin, seus jardins. E Camille Claudel - como dói.

Thalita Castello Branco9, disse... Senti-me ao teu lado, embaixo do teu mesmo guarda-chuva, caminhando junto da tua voz... Ah, há de chegar o meu dia, o dia de ter Paris nos olhos, Paris na boca, Paris embaixo dos pés... E mais que isso, Paris na alma. Linda a forma como tu escreves... E o desfecho com Claudel, ah! Não poderia ter sido melhor. Lembrei-me: "Il y a toujours quelque chose qui me tourmente", e também doeu.

SIMONE GOIS disse...

Pôxa, que texto, que marca pessoal deixaste e trouxeste de Paris. Deu uma inveja... de linha branca, tá! Beijos, Simone 9

https://www.blogger.com/profile/10709969310609163263

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Casulo Temporário disse... Thalita, Simone, É bom ter a companhia de vocês nesta blog-aventura que, de certa forma, é viajar outra vez! Obrigada. Ainda tenho uns oito ou nove "postais" pela frente. Já antecipo que a surpresa estará no último...

Maria Muadiê (Martha Galrão) disse... Que beleza essa série Viagens...

Casulo Temporário disse... Martha, querida! E você é super bem vinda.

Cosmunicando (Mercedes Lorenzo) disse... Andei defasada e hoje vim a Paris... ah, se houvesse um 'guia turístico-poético', você seria a autora! Aliás, pense no assunto, porque essa série está encantadora. Beijos.

Casulo Temporário disse... Padmaya, esse já é - se não um guia, um roteiro turístico-poético. Fico pensando que somos todos turistas, estamos sempre passando, só que não nos damos conta, não é? Beijos, obrigada, Ana.


8. Londres (1999, 2007)

A Eloneida e Nizam, por seu carinho.

Tensions

There she goes

Lonely in London

(Fotos: Mรกrio Vitor)

City Hall


Fevereiro, 1999

O que quero ver? The market place where Desmond had a barrow and Molly was a singer... Ou então:... go looking for flying saucers in the sky... Nosso anfitrião, tão gentil, me olha com total estranheza diante de semelhante non sense.

Mas amei Londres, a ponto de não ter tido tempo para escrever.

O cosmopolita, o universal, os tantos mundos se expressando naquelas ruas aparentemente iguais. O intenso movimento, mas não há ninguém. Ninguém olha para nós, e se olhamos as pessoas parecem se ofender.

A evocação de London, London é inevitável para alguém de minha geração:

I'm wandering round and round, nowhere to go. I'm lonely in London, London is lovely so. I cross the streets without fear. Everybody keeps the way clear. I know I know no one here to say hello ... I know they keep the way clear. I am lonely in London without fear. I'm wandering round and round, nowhere to go. While my eyes go looking for flying saucers in the sky (Caetano Veloso).


Julho, 2007

Em meio ao turismo e seus tentáculos e através da deslumbrante e fossilizada beleza do velho mundo, que parecem, ambos, nos subtrair o real da experiência em si mesma, o que mais valeu foram os encontros com as pessoas em seu cotidiano - aquilo que não foi fotografado mas permanece. Quase dez anos após a primeira tão sossegada ida a Londres, enfrentamos esse tempo de obsessiva vigilância. Até cogitei do título de um post: “brincos, rinossoro e terrorismo”. Sobre o controle no aeroporto de Londres, ritual desesperado, entre o trágico e o risível escrevi aqui no Casulo. A seriedade dos agentes manuseando um vidro de soro fisiológico ou uma bolsinha com brincos e nos dizendo: I'm looking for explosives. Já não lembro, são reais, aqueles gestos de tão relativa resolutividade? Pobre ser humano, perdido entre rituais inúteis, que apenas persistem e nada asseguram. Postei, aqui mesmo no Casulo, ao retornar, a seguinte nota sobre o metrô:

Subways (notas extemporâneas) Os metrôs são os intestinos das cidades neste lado do mundo que é outro. Vísceras que reconectam pessoas, fornecendo espaços transitórios pelos quais realizem o retorno ao mundo privado, afastando de cada rosto os traços que o tornam anônimo. A imensa solidão humana das multidões na cosmopolita Londres, em dia de ameaça terrorista. Este mundo, que se apresenta como espelho da civilização, é oco. É hora do rush e a multidão prossegue, seguindo impotente, quase autômata, imenso mecanismo, hidra de mil cabeças, seguindo. Este é o rosto da solidão e da mais total incomunicabilidade. Viajamos em família, os quatro juntos, e é tão bom isso, e criamos células de alegria ali dentro, como se fossem, naquele momento, modos de estar como que clandestinos, subterrâneos. Subways. Modos de estar felizes no deserto.


Pavitra (Adrianna Coelho) disse...

Ana, é incrível o que você escreveu sobre o metrô... Vejo isso cada vez mais, em cada esquina, essa completa incapacidade de comunicação, e por comunicação quero dizer "o mínimo de afeto" ou de reconhecimento do "outro"... Acho que viajei aqui, mas realmente vejo e me espanto com isso! Mas sigamos! Beijos.

Thalita Castello Branco, disse... Nossa... Ainda tenho dúvidas se estou lendo palavras de uma geógrafa sensível ou de uma psicóloga que se importa com o mundo. De qualquer forma, lindo. A propósito, a parte do metrô é mesmo formidável. Esse não-lugar que nos leva pra lugar algum... Casulo Temporário disse... Pavitra, Thalita, tinha acontecido a explosão de um carro-bomba no dia em que chegamos a Londres (ano passado) e escrevi isso. Vocês podem imaginar o clima... Mas, lendo vocês agora, dou-me conta também de que se trata de algo mais pervasivo, mais geral. Beijos, obrigada de novo pela companhia. Cosmunicando (Mercedes Lorenzo) disse... Hoje Londres! E a cada vez que me aconchego neste casulo, é também um olhar sobre tudo o que realmente vale a pena ser visto numa viagem... Nesta o metrô, os rituais automáticos, a solidão em meio às pessoas, e claro, Caetano! Neste post tem até fog londrino, tal o clima =) Beijos.


9. Roma (1999, 2001)

(Fotos: Mário Vitor, 2007)

Escritos como fotos de viagem. Lugar e tempo de ver à distância. Modo de percorrer juntos lugares de sonho e memória. Um retiro e um mergulho em profundezas, sob o véu de uma timidez aguçada, de um pouco à vontade civilizatório neste fim de tarde festivo em Roma. Antes de viajar, chego a sonhar com isso, essa aflição de saber falar e não poder, essa estranha dislalia que me acomete. Sou eu, meu corpo que não chega perto, meu silêncio. Sou sempre a que até compreende o idioma, mas não fala. O meu eu arrítmico, talvez... São tantos e tão profundos os sentimentos a partir de Roma que nem sei como começar. Essa cidade é excessiva, não se contém. Por isso seus habitantes se expressam tanto, falam, se expõem, sem precisar guardar nenhum segredo sobre si próprios – se já guardam algo muito maior, como relíquia, como História, como destino. Algo impossível de tangenciar, tocar, cotidianamente. Queria dividir isso com os meus queridos. Penso neles ao longo da cidade. Roma e seus tons de bege, sol e luz. Todos esses monumentos únicos, mesmo os anônimos. Como respirar entre uma beleza e outra? É tudo suntuoso, mas de uma coerência e bom gosto que aqui parecem mais aguçados do que, por exemplo, no Louvre e no National Gallery (onde há mais misturas e “coleção”). Aqui é o “site”original de quase todas as obras mais importantes, como as de Rafael, Fra Angélico, Bernini, Michelangelo e tantos outros, que as criaram para Roma, caput mundi em vários momentos da História. E os anônimos, que são como presentes de gratuidade.


Também hoje, caput mundi, espiritualmente falando. Como diz Scola em seu livro, a história desta Roma que conhecemos é inseparável da história do cristianismo. É por causa dele que ela é Roma, cosmopolita, universal, católica. Escadas, salas de infinita beleza, o chiaroescuro (fantástico!), mesmo a arte moderna (fiquei maravilhada com algumas representações modernas da Pietà e da Anunciação, fiz uma ou outra foto); tudo isso, contudo, não diminui o impacto de entrar na Capela Sistina, que é um deslumbre, mesmo entulhada de gente barulhenta (os guardas não paravam de pedir silêncio; que privilégio a visita que fizemos em pequeno grupo há dois anos atrás!). Há alguma coisa com as cores, de fato. Sem entender nada de pintura, sinto uma euforia induzida pela contemplação do teto. Distingo alguns estilos e seus efeitos. Olho longamente tudo, sem pressa, sem juízo – e sem juízo, como devaneio ou delírio... Crio, na multidão, um espaço de silêncio e me maravilho com toda aquela beleza inspirada pela relação do homem com o mistério de sua criação e de seu destino. Queria poder escrever tudo, cada detalhe que me impressionou. Mas era impossível qualquer movimento que não a fruição do belo, a reverência diante do mais que humano. Não é o “poder da Igreja” em dado momento da História, mas sua força enquanto expressão de um acontecimento mais forte que tudo, “atravessando os séculos”, como diz o canto, criando uma aliança que é nossa – o homem contemporâneo e o mesmo sujeito humano de sempre - com um terceiro, uma alteridade – um sinal talvez? Algo que é a nossa identidade. E também se liga, nessa aliança, o sentimento do criador da obra de arte ao daquele que por ela se sente tocado. Uma marca, em ambos, assinalando quem somos nós, a que somos chamados. O mesmo sentimento, outros os símbolos. Os detalhes no teto de Michelângelo: o infinito amor de Deus, sua postura, seu olhar, imagem de pura bondade contrastando com o terrível Juízo Final. Há um corpo como frangalhos, que um anjo ou profeta vingador segura com desprezo e que me dá calafrios. A total entrega e confiança e inocência do homem, como não podia deixar de ser, alvo desse amor maior que tudo. No Novo Testamento há algo assim: “quem é o homem, Senhor, para que dele cuides com tanta bondade?” É disso que me lembro aqui e agora.

Pavitra (Adrianna Coelho) disse... O teto de Michelangelo... só de pensar a minha cabeça (até ela) fica arrepiada. Essa emoção eu tomo emprestada, Ana, dentro do silêncio contemplativo que você descreve. P.S. vou ficar para trás na sua viagem, porque também farei uma daqui a pouco e só voltarei no próximo final de semana, mas nos encontraremos lá - onde quer que seja a próxima parada...


boa semana pra você. Beijos.

Casulo Temporário disse... Sim, não há como nos desencontrarmos mais! Faça uma boa viagem, querida. Beijos, Ana

Thalita Castello Branco, disse... "À porta quem virá bater? Em uma porta aberta se entra Uma porta fechada um antro O mundo bate do outro lado de minha porta!" (Pierre Albert-Birot) A sua sensibilidade me comove, Ana... A propósito, você conhece Gaston Bachelard? Não consigo ler seus textos sem me lembrar dele, de sua "Poética do espaço". Um filósofo fascinante. Abraços.

Casulo Temporário disse... Bonito trecho este, Thalita. Não conheço Albert-Birot. Já li algo de Bachelard, mas não de sua poética. Sou apaixonada pelo tema da poética de todo homem, no sentido da invenção, do que transcende o aqui e agora. Agora que você falou, vou dar uma olhada nessa poética do espaço. Beijo e obrigada!

Cosmunicando (Mercedes Lorenzo) disse... De perder o fôlego, literalmente... esse é um dos lugares do mundo em que quero estar com a mesma disposição para o encantamento, essa que trespassou seu texto. Lindo, Ana! Beijos.


10. Assis (2001) Para Marcia


Os ciprestes se vestem de franciscanos Ou é o contrário?

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Plantação de girassóis. Como um exército que se move em uníssono, brigadas suaves, aveludadas milícias romanas, pachorrentamente.

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A Viagem à Itália, de Goethe (presente de meu pai um pouco antes de minha vinda) traz também esse registro. Incrível, isto. Inegavelmente sou presa desse estigma, dessa marca sobre a qual a realidade se instaura, atravessando linhas e rabiscos, via esse filtro, sob pena de esvanecer-se, de restar o nada. Mas o tipo (apenas o tipo!) de relato que faz Goethe - outros o tempo e as possibilidades, evidentemente - não é, em natureza, diverso daquele que faço: os focos de atenção coincidem. A luz das cidades, sua gente, as obras de arte, o impacto pessoal sempre.

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Estou no ônibus para Orvietto e Assis. Que emoção ver os lugares onde viveu Francisco. A Catedral de Orvietto é belíssima. Ouvir os hinos litúrgicos no interior dessa catedral me encheu de emoção, do sentimento do sagrado em meio ao silêncio que ocupava a imensa nave gótica. O que impressiona sobre as catedrais não é que tenham substituído a escrita como forma de transmitir a palavra de Deus. Mas o fato de que o fazem com tanta arte e transcendência, transmitindo um sentimento como aquele, do sagrado, da totalidade. Essa reverência. Estamos na Úmbria, saídos da região do Lazzio. Este é o “coração verde da Itália”, contanos a guia. Também é a “Itália mística”, pela quantidade de santos que viveram aqui (Santa Rita de Cássia, São Bento, Santa Clara, São Francisco), e pela paz, tranqüilidade, beleza do lugar; concentra ainda sítios arqueológicos e importante patrimônio artístico.


São lindas de se ver as pequenas e tantas cidades medievais no alto das colinas, sobre a pedra. Mas não queria morar lá... A palavra UMBRAL poderia ter se originado daqui. Cidades medievais como fortalezas, antigo cinturão protetor de Roma ou mesmo da Etrúria. Umbral do jardim do Lácio do qual nos coube essa última flor, inculta e bela, que nos faz como somos.

***

Querida Márcia, Levo seu presente de aniversário de Assis, nestas duas palavras: “Paz e Bem”. Apenas duas, e são tudo que se pode desejar a alguém. Penso em como você gostaria de vir aqui – não apenas Londres, mas certamente também a Itália! Não necessariamente como um ritual de cultura e espiritualidade a ser cumprido embora possa ser uma espécie de peregrinação moderna, como para mim tem sido - mas porque a sua sensibilidade captaria toda essa beleza como poucos. É tudo tão intenso e significativo que às vezes não consigo dormir à noite, tão avassaladora é aqui a experiência do Belo. É tudo muito visual e muito pertencente à cidade, ao lugar onde vivem as pessoas. Tudo humano, intenso, expressões que não se contêm, exageradas (parece que estando aqui entendemos um pouco Felini); mas sempre belo. Os italianos têm um caso de amor com a eternidade e a perfeição. Em Assis, esse caso de amor se personifica em Francisco. Estive lá, criando um espaço de peregrinação em meio ao agitado ritmo de um tour de ônibus que em um só dia incluía também Orvietto. Francisco é uma nudez, um abraço amoroso ao essencial, em contraste com a exuberância de sua cultura (e origem), mas imerso nela no modo intenso e radical (eternidade e perfeição) com que se move e marca sua presença de um modo que nos chega quase violentamente. Para mim a compulsão de fotografar tudo é substituída pela de escrever. Vejo o lugar onde morreu e seu túmulo, mas, sobretudo (impressionantes!), os lugares onde viveu. É lembrando Francisco e coisas essenciais da vida, como a amizade, que desejo a você, por seu aniversário e sem-pre, Paz e Bem.

***


Certamente há algo em comum entre Assis, na Itália e Juazeiro do Norte, no Ceará. O mesmo modo de enfileirar os souvenirs nas muitas lojinhas que vivem disso. O mesmo tipo de peregrino que perambula pelas ruas – pessoas com deformidades, andando de muletas. Mesmo aqui na Europa, nada de cadeiras de roda modernas ou facilities para portadores de deficiências. Não; aqui a pobreza é um signo, cruamente exibida ao lado dos monumentos, alinhada com eles. Claro que não são muitos os pobres - isto é, se não incluo entre eles os “pobres nossos irmãos” que fazem esse turismo a jato, vazio e fotográfico, apenas aparência. Há duas brasileiras oxigenadas no seat next me, de uma lamentável pobreza. Tenho que me esforçar para interagir com elas – tipo que dá vergonha de ser brasileiro, este sim, e não os nossos nordestinos, ou os romeiros do Juazeiro ou do Canindé (que eram franciscanos, acho) e que tanto me impressionavam ao passar, quando eu era menina, no Crato: famílias inteiras, crianças inclusive, com aquela túnica marrom dos frades, de tecido grosseiro, pesado, sob o sol inclemente. Mas são, de todo modo, os daqui, pobres assim: instalados nessa condição, em um absoluto desamparo alguns drogados, aquele olhar ausente, etéreo e, em Assis, em busca de abrigo, cura ou redenção. Também eu busco redenção, anyway. Assis é linda, também eu fotografei cantos, portas, ruas, lugares anônimos cheios de encanto. E até um lindo cão pastor, com uma cara tão boa, que se deixou afagar e fotografar e cuja foto levo, é claro, para os meus amores felinos... Dos demais lugares, comprei postais, mesmo porque é proibido fotografar o interior das igrejas, o que acho muito certo; fora com os vendilhões no Templo. Roma nem liga para isso, tudo já mais secularizado talvez, a começar pela própria Igreja, mais externalidade. Mas Assis lembra todo o tempo sua identidade de lugar sagrado. O lugar onde nasceu Francisco. Onde está sepultado. E sobretudo, em Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula, onde vivia e rezava, e todos os sinais de seu trabalho ali em torno. Sem palavras. Francisco em sua cela. Francisco e os animais, ternura de Deus para conosco. Francisco e sua túnica, rude, cheia de remendos e rasgões a lã grosseira. Il Poverello e a força de sua vida. Até hoje.

***


Curioso: o barroco e o “completamente feito”- perfeito – surgiram quando a vida era sóbria e havia escassez (o único manto de São Francisco). Hoje, que se vive o supérfluo e tudo é excessivo (até a fome), a arte encontra a beleza na sobriedade – aquelas salas imensas que vemos em algumas exposições, uma única peça que se mostra, o minimalismo. Também estou impressionada com a recorrência com que encontro aqui na Itália a imagem do meu sonho nas pedreiras: depois dos ciprestes em Assis, no meio da ópera que vejo em Verona, passam frades encapuzados, feito ciprestes, exatamente as longas fileiras com archotes, passando três vezes, dando a impressão de filas intermináveis no solo – também feito pedra - do cenário. ...mas quem diria que aquela garota sonhadora (mas jamais fazendo projetos concretos) viajaria em sua coleção de postais dos 12 anos de idade?

Maykson10 disse... Nossa! Impressionado pela tua descrição sobre estes sítios de Itália e as paragens de Francisco. Lindíssimo como discorres sobre tudo, sobre os detalhes. Lindíssima tua sensibilidade. Agradecido por tua visita ao meu rincão. Sê sempre bem-vinda!

Maria Muadiê (Martha Galrão) disse... Lindo mesmo, Ana. Cosmunicando (Mercedes Lorenzo) disse... Você narra como ninguém o silêncio da paz, Ana... que belo! P.S.: estou saboreando esta série aos poucos, como um doce que não quero que acabe... (risos) Beijos

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11. Itália, Post-Scriptum A D. João Carlos

Castel Gandolfo (1991) O encontro com João Paulo II foi lindo, de certa forma surpreendente para mim. A presença do Papa é algo diferente, em meio a essa "overdose" de bispos e cardeais. O Papa é um ser mais além. Interessante: estou aqui, no "vero" seio da Santa Madre Igreja, encontrando o Santo Padre, e no entanto posso estar separada, como um ser autônomo, independente. E como tal senti-me diante de um homem santo, assaltada por uma profunda comoção ao vê-lo, tocada pela doçura de seu ser e pela acolhida amorosa (não era isto o que eu não esperava, acostumada a ver o Papa dentro de um enquadre institucional e nada mais). Em português ele me diz: "Obrigado!". Seu olhar me vê, aquele azul profundo, perspicaz. A força do olhar e da palavra (em seu discurso) contrastam de modo absoluto com o corpo frágil. A palavra é firme, sem hesitação; o olhar é jovem, penetrante , com uma alegria como se acabada de nascer. Ele está feliz com o encontro, o sorriso brinca. Naquele breve instante senti-me em um encontro pessoal; foi de fato lindo, intenso. E o profundo silêncio em que todos estávamos, espontânea reverência, consciência do raro que ali se passava. Momento guardado no coração. Para sempre.

Basílica de São Pedro (1999)


Descubro que no silêncio está Deus. Era disso que falava nos meus escritos, essa busca, essa angústia do infinito, essa falta definidora. Descubro também que ler poemas é o modo mais sublime de rezar. Não sei o que seja rezar, não sou primitiva na ligação com o místico - não deixo as veias abertas, o coração tangível, a emoção como pedra de toque. Acho na verdade repugnante comercializar com Deus, fazer pedidos e barganhas, toma lá dá cá ou arremedo disso. Só peço algo em desespero, e olhe lá, muito raramente. E depois reconsidero. Escolhas e possibilidades são sempre nossas... Eu, que não sou objetiva em tantas coisas, sou muito racional no que se refere à religião. Mas tive, mesmo assim, uma experiência totalizante, insight e choro na solidão da nave e nos espaços infinitos da Basílica de San Pietro em Roma. Algo como uma experiência mística, algo que palavras não podem traduzir. A relação com Deus é antes um ascender, um superar-se, um tangenciar o sublime e a essência da vida. É também um ser fiel a si mesmo - a essa identidade mais essencial que define o estar no mundo. Aquele momento em San Pietro foi algo assim. Um contato, um sentir-me tocada por algo que não entendia - não se tratava de uma recordação, um insight, uma visão só minha. Era antes um gozo inteiro, estético, todo o meu ser ali, vislumbre de um redirecionamento e resignificação dos acontecimentos nos quais me sentia inteira. Aquele choro ali correspondia também a um "fechamento de gestalt"- vivo um processo no qual todo o meu ser se movimenta e transforma, em direção a mim mesma, e quando esse movimento se expressa também na dimensão espiritual aí estou inteira, aí me transcendo e estou experienciando o contato com Deus. Era belo. Dessa beleza chorei. Ao mesmo tempo era feliz, inteira, e sofria e me sentia miserável traindo por tanto tempo a Deus e a mim mesma ao - sabedora desse mistério - ignorá-lo e ouvir tantos outros chamados espúrios a essa realidade, a essa inteireza; a mim mesma, enfim. Condição que conheço e desconheço, que sei e não posso nomear, que está aqui e é intangível.


12. Genebra (2001)

Jet d'eau.

O ritmo do congresso é um tanto anestesiante. Na cidade, deambulamos. Le Jet d’eau, como eu aqui, à mercê de um movimento que é externo. E, no entanto, capaz de refração. Flutuo em seu arco-íris, deleito-me com a forma em constante mutação. *** Ainda 50 minutos esperando o trem. Este congresso: o intercultural na política, na filosofia/antropologia, na sociologia, na ética, na literatura. Muitas impressões - o que significa um espaço como esse? Ir-e-vir; reconhecer-se; um modo francophone que me toca. A literatura, mil por um – nem importa que a Leïla Sebbar seja feminista pure dure sei lá mais o que (mais uma moda, mais um desses formatos de que tenho horror, acho ridículos; de um modo um tanto “feminista”, esse excesso de rótulos e ritos me envergonha em outras mulheres).

Tento abstrair os significados mais importantes desse estar intercultural, para além dos jargões, dos “politicamente corretos”, dos jogos do poder. Há uma compreensão que se dá, e apreendo essa coisa na dimensão psicológica, mesmo se a psicologia que se mostra aqui é aborrecida, irrelevante, chata, absolutamente ennuyante. Como se, para se considerar o inter, se empobrecesse o objeto.

Elaine faz projetos, se entusiasma com possíveis trabalhos conjuntos com os colegas do Benin e as duas irmãs argelinas. Muçulmanos, judeus e cristãos pesquisando juntos. Parece estranha essa forma de identificação, mas não posso deixar de pensar que por algum


motivo estamos aqui, justo nesse momento. Logo após este 11 de setembro, ainda e sempre a fraternidade entre os homens, e não a guerra. *** Da fala de Leïla Sebbar, escritora, crescendo entre Argélia e França:

Être dans mon livre: quand je suis dans mon livre je suis ailleurs. ...mais aussi um espace clos. Je suis la fille de mon père.....La fille de ma mère...Et la fille de moi-même, comme le sont toujours les écrivains.


13. BrasĂ­lia (1989-1991)


Entre discussões de doutores e o inatingível céu de Brasília, busco um lugar para um poema. Uma leve insinuação poética, talvez, apenas. Pena.

***

Fico doente, por falta de vida. Planejo repassar antigos escritos. Enquanto isso, poemas novos passam por mim. Instalada nas leituras de Psicologia, lanço sobre eles um olhar melancólico. Tanta coisa e um só olhar... Falta-me o ar. Perco-me na difícil geometria de Brasília.

Pesa-me não poder vagar sem rumo pela cidade, meu corpo habituado a perder-se, sempre seguro no traçado tão vivo da Bahia. A poesia se afasta de mim e nem mesmo sei se é em definitivo.

*** Noite em Brasília. Esses ruídos impessoais... Um choro de criança. O grito que escuto é pavor ou desvario? Encontros construídos geometricamente na noite.

Noite em Brasília A silhueta na noite. Esplanada de mistérios. Quem somos nós? Que dizem de nós esses ângulos? Chuva, infinito, solidão. Nuvens e rotações, ângulos e vieses, aéreo delírio. E esse anjo sem face,


desfigurado barroco em mesa de hotel.

(Publicado em A impossível transcrição – De tudo fica a poesia)

*** Há um traço comum entre Brasília e Nordeste, linha cruel costurando em um mesmo mapa esse mar de desigualdades. São essas mãos descarnadas, erguidas para o céu, em desespero. Apenas estendidas, desesperançadas de qualquer resposta. Apenas um apelo mudo. Cactos, ingazeiras, árvores mirradas, igualmente despidas pela seca. Em Brasília, essas mãos descarnadas dão-se ares, deixam-se envolver por uma névoa seca, e nos encantam quando se vestem de bruma ao amanhecer e ao cair da noite; assumem um quê de cosmopolitas. Mas na mesma manhã em que emudeço, fascinada, contemplando essas mãos nordestinas que clamam aos céus por entre um cinza de Europa, encontro o homem e o menino. O homem magro, camisa rente ao corpo, olhar sem viço. O menino, olhar faminto e a cola no saco plástico. O Brasil e seus retalhos, na mesma tessitura. *** Partindo, concluí que amo Brasília. Suas árvores desesperadas, seus incríveis lugares de silêncio. Amo Brasília, cidade em busca, altar de sacrifício. A luz intensa, sempre, e essa inatingível esperança em concreto.

Thalita Castello Branco, disse... Brasília é uma coisa que eu não sei ainda, mas que sempre imagino ter um cheiro familiar... Esses concretos cheios de digitais nordestinas, talvez...


(Você é psicóloga! É, é, é sim, constatei aqui e ali. E é escritora e é sensível. É uma raridade, você. Que bom ter te achado...) Beijos! Casulo Temporário disse... Verdade, Thalita - você também? sou professora na UFBa. não sou raridade não... só sou teimosa em defender certos espaços pessoais. desconfio que você também... a gente se fala mais, beijo. Cosmunicando (Mercedes Lorenzo) disse... Ana, fico sem palavras com a sua sensibilidade ao olhar os locais por onde viajou... Brasília agora foi descrita como nunca antes eu havia lido. Estive numa correria tão doida na semana que passou, que quase perco o vôo destas viagens daqui... minha poesia também anda fugindo. Mas suas palavras são sempre uma inspiração. beijos


14. Minas, 1990

Ouro Preto, 2008

Vinda da Bahia, súbito, há tempo, de ler poesia. No avião, leio Drummond e viajo, entre nuvens, com escala em Belo Horizonte. E Minas emerge das brumas: como um sonho, mais que sonho; mais que nuvens, memória. E o entardecer é luz.


Soledade11 disse... É sereno e doce, o poema, como um outono europeu :)

Pavitra (Adrianna Coelho) disse... ah, Minas é ainda um sonho para mim... esse seu poema falou também à minha memória, Ana... p.s. ainda estou viajando, depois volto para ler as paradas que perdi.. beijos!

Cosmunicando (Mercedes Lorenzo) disse... Minas! como eu queria morar lá! que poema doce... beijos

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Blog “Nocturno com gatos”, aparentemente desativado.


Intermezzo Intermezzo: entre 2010 e 2014, as viagens prosseguiram, assim como os escritos. De certo modo interrompo a sequência de postagens da Série Viagens, para incluir anotações de viagens no Leste Europeu e Grécia (2010), Estados Unidos (Boston, Worcester, Chicago, São Francisco, 2012), e Buenos Aires (2014). Estes registros não foram postados no blog. Depois, com a cidade de São Salvador da Bahia, retomo a série, tal como aparece no Casulo Temporário.


15. Divinópolis (2010)

A Adélia Prado A Marina, Miguel, Dinho, Bel e Elaine Diante do Mistério, é a imagem que me vinha na ida para Divinópolis. Tive dor de barriga, dispnéia, sibilava. Como quem vai ao encontro do mestre e sabe que não vai passar numa suposta prova. Como quem vai ao encontro de um amor adolescente, quando tudo é inseguro e não há linguagem para usar. Não há linguagem diante do amor ou da poesia. Diante do sagrado. Sagrado era a palavra que nos vinha, retornando, diante do que acabávamos de viver. Foi sagrado, Bel e eu sentíamos. Alguém mais também usou a mesma expressão. Elaine compara ao “instante com-sagrado” de Octavio Paz. Partilha e transcendência. Tudo verdadeiro, simples, profundo. Coisa de poder chegar de mansinho, pela porta aberta da amizade de Marina e Adélia. Em família. Coisa de estar juntos e deixar a coisa fluir, e tomar o café feito por Adélia, e é casa de mineiro, nada de visitas na cozinha. E conversamos, simples, natural, verdadeiramente. Coisa de olhar nos olhos a verdade uns dos outros. Não que o netinho, tenha gostado – “Vem brincar, vovó!” Simples, denso, profundamente humano. A beleza da amizade entre Adélia, Marina e Miguel, irradiando-se para nós como afeto. O cumprimento formal do início, apertando mãos, transformando-se naquele abraço de amigos ao final, quando ela sabia os nomes de todos nós – Eduardo, Isabel, Ana Cecília, Elaine, Roberta, Yuri, Rafaela. Conversa de família em encontro com amigos, histórias dos filhos e netos. A história da neta que, quando pequena, cinco ou seis anos (os dois avós vão contando juntos as coisas dos netos), presente na entrevista coletiva que a avó estava dando, também levanta o braço para, como os demais, fazer uma pergunta. Mas a mãe não deixa, receando interromper os adultos; mais tarde, a menina explica que queria perguntar: ”Vovó, você vai dormir lá em casa?” Tanta coisa guardada, a iluminar memórias de coisas lidas, três horas na tarde mineira, em torno da mesa da sala de jantar, tão aconchegante. A Nossa Senhora menina, artesanato popular, sob as fotos de família. Impossível de registrar em texto. Como dizia Adélia, a poesia é descolada das coisas, dos fatos, mas só nela fica registrada a verdade das coisas. O substrato, penso (De tudo fica a poesia). O impossível de contar o que existe, de dar conta da experiência, a não ser por esta via (do mais abstrato, penso). A festa do novo


livro (A Duração do Dia). E como o fazer poético surgia na conversa como se fosse – e é! – parte da vida, entremeado por histórias de família, netos, irmãos, lembranças de amigos (viagem e fotos de Marina), comentários sobre o cotidiano. Miguel conta que Bel e eu somos poetas. Ela pergunta se publicadas, acenamos que sim, Bel diz que sou premiada. Fico muda e sinto que estou vermelha até a alma, e só consigo também acenar quando ela pergunta: “Na Bahia?” “Concurso?” Depois ele conta do livro sobre pobreza12; Adélia e sua irmã se mostram interessadas, e digo que pensei em trazer, mas fiquei com vergonha. Ela diz: “mas como, não teve vergonha de escrever, mas teve vergonha de trazer?” Pois é, o substrato aqui foi o riso, a partilha, o respeito pela intimidade do outro, o estar entre amigos, a generosa acolhida, o afeto, o café mineiro, tudo tão gostoso, tudo cheio de sabor e saber. Tudo cheio de verdade e do que de melhor nos faz humanos.

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Living in Poverty: Developmental Poetics of Cultural Realities.


16. Budapest (2010)

A Ana Helena

Uma nova faceta da lua: parece um ovo em pé, nunca a vimos assim. Seguimos, em excursão, até que o caminho para o “Centrum” nos leva à magia de silhueta e luzes que são as duas cidades (Buda, que significa água, e Pest, que quer dizer forno ardente) às margens do Danúbio. Um fragmento de Brasil se move através desse mundo tão distante que é o Leste Europeu. Este grupo fortuitamente reunido é interessante, partilha uma identidade. Momento suspenso no fluxo da vida e de suas dores, remetendo ao que é esta vida, seu sentido, gosto e essência. Latinos, hermanos, danças. Aquarela do Brasil, Tico-tico no fubá. Acordes que nos emocionam quase que a contragosto. Tudo isso é Budapest... e suas torres eslavas.


17. Viena (2010)


Esse ritmo turístico me esvazia e satura.

Viena me dá, através de sua imponência homogênea, flashes de pura beleza, via sua arquitetura e através da generosa luz que a ilumina neste setembro – em plena lua cheia.

Aqui é um excesso de beleza, como que um susto após outro.

Viajo na viagem de meus companheiros: Virgílio, Ana Clara e Thiago, Mana, Ana Helena.

Mas minha própria viagem é silenciosa, feita desses flashes fortuitos e alheios ao pobre script oferecido ao turista.

Visitamos a casa de Freud – para mim, sem nenhuma emoção. Definitivamente não tenho qualquer paixão pelas personalidades que fizeram o mundo Psi tal como é. O que me fascina ainda é a vida como ela é, seu mundo vivido, cujos fragmentos somente a arte – ou incursões nessa fronteira - podem captar.

Há também paz.

Finalmente entro no espírito da viagem, me deixo tomar pela cidade – em parte – e em parte pelo ritmo do grupo no aqui e agora.

No ônibus, um minuto de entrega – sinto o universo que é o meu, campo energético além de tempo e espaço, sintonia que alcanço por raros, fugazes momentos.


18. Praga (2010)

A Mana

Teria valido a pena toda a preparação, todo o investimento, toda a espera, somente para ver a catedral de Praga. Crio dentro dela, em meio aos flashes e à multidão, que olha e busca ser olhada, um espaço de recolhimento. Para isso vim: para me distanciar do cotidiano, para sintonizar com o essencial. Por estes momentos fugazes de insight e compreensão, vim. *** Estrada para Berlin: a República Tcheca é toda linda. O puro encanto das cidadezinhas e do campo. Na estrada, vejo: a República Tcheca é toda linda. O puro encanto das cidadezinhas e do campo.


E de novo Praga: escrevo para familiares e amigos o seguinte email:

Praga. Praga? Praga!!!!!! Gente, Praga!!!!!!!!! QUE É QUE É ISSO????!!!!!! Não há pontos de exclamação suficientes. NÃO TEMOS PALAVRAS! NÃO TEMOS PAL...!!!!! NÃO TEM...!!!!!!! NÃ...!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!

É o que eu tinha a dizer sobre Praga.


19. Berlin (2010)

Berlin é chuva e frio. A guia brasileira, hiper-excitada, me cansa. É o último dia com o grupo; os laços aparecem, permanentes e transitórios. Fico emocionada, novamente considerando este tempo em suspenso que é o turismo. Na vida de todas essas mulheres, um novo pathway. O que esperam, sonham, desejam? É o último dia e a solidão se encarna, fantasma oculto que volta a assenhorear-se de cada vida. O retorno à casa. Problemas, solidão. Eu sou aquela que aproxima, me dizem, pela doçura, no olhar, na fala. Aqui com Virgílio, e o carinho que temos um com o outro desperta lágrimas, evoca sentimentos, acirra solidões. Tudo isto sinto.


20. Atenas (2010) A Virgílio, Ana Clara e Thiago, Sara, Roberta e Renata (as três últimas, representando todos os “Maternos”).

Atenas e o mar. Daí seus horizontes abertos e a liberdade (diz o audioguia no meu fone). São legados da Grécia para o Ocidente, principalmente: a Democracia e o Teatro. Em Atenas, então uma pequena cidade, surgiu pela primeira vez na História a ideia de que a


ordem social não está vinculada à autocracia – como no Egito com os faraós e em Alexandria, com seus tiranos. Pode haver ordem social em um sistema democrático, em que todos os homens tenham igual valor e voz. Escuto fragmentos no áudio. De repente, a frase: “Não há nada de novo sob o sol”. Da Grécia, deveria ter registrado a subida à Acrópolis, sua majestade, o incrível azul da Grécia, céu e mar, o branco das casas e edifícios, sua estranha e tão simples beleza. A sensação de estar diante da História, tantos séculos antes de Cristo, os vestígios que nos alcançam até hoje, na pedra e, sobretudo, no plano simbólico. A sensação de estar tantos séculos antes, deparar-me aqui com o cenário exato que anos atrás – no início dos anos 90 - vi em um sonho, a praça de pedra. E nada quero explicar sobre isso, além de trazer o registro do sonho em si mesmo.

Uma praça de pedra. Ágora. Sons de instrumentos em afinação. Violinos, violoncelos, contrabaixos. Uma cadeira e uma espera. Um ser mágico, minúsculo, masculino, de olhar profundo, a me fitar. A consciência, sem palavras, daquilo que o ser de olhar profundo lê em mim. A tristeza de uma pessoa querida. Silêncios de pessoas queridas que me olham, passando feito sombras.

Alguém chora, encolhido, muito longe, forma fetal em sofrimento. Sei que sou eu mesma. Não reconheço esta dor nos minutos oficiais do meu dia.


A minha própria tristeza, um choro fetal debruçado sobre si mesmo. Um choro primitivo, de antes do ser. Palavras. Cores nunca vistas.

Morte. Darkness. Imagens desconhecidas: uma outra dimensão cujos nomes não tenho. (Publicado em A Impossível Transcrição)

No mais, a aventura do hotel, a sensação de estar nesse local popular e tenso – local de prostituição e tráfico de drogas. Thiago chegou a ver alguém se picando de heroína, em plena luz do dia. O lado da cidade que intimida. Os taxis desvairados, o trânsito caótico, os homens ociosos e tensos, como se a qualquer momento uma bomba estivesse por explodir. E os turistas que encontramos em Plaka, em busca de algo “mais popular”... Atenas foi uma delícia: estar com os jovens, gente tão querida, as noites ao pé da Acrópole, os gatos e cachorros na rua. O congresso, tão bom, o inusitado de querer ver todas as atividades, tantos encontros e aberturas, clima tão bom e amigo!


21. República Dominicana (2011)

A Virgílio, Ana Clara e Thiago

São Domingos... ...e suas recorrentes estatuetas sem rosto. Sua alma escondida na mata, sob as cores dos santos que protegem suas casas. ...e tudo que me dizem as casinhas à beira da estrada, da mesma história, desse mesmo coração latinoamericano. ... essa vegetação que não é frondosa mas é cerrada. Poderia estar no Sítio Rosto, lá no Lameiro. As mesmas levadinhas, a pura música da água descendo a encosta, a serra, a montanha. Suave, persistente. Jogo de sombra de luz, memória e oblivium.


22. Estados Unidos: Boston, Worcester, Chicago, São Francisco (2012) A Bel, comadre-irmã A Glenn

Boston

Pássaro em Worcester


Chicago

Primavera de Bel, Chicago


Palo Alto


São Francisco

Lugares de sonho e encantamento, dias de profunda comunhão com amigos. Noites de sonhos e perplexidade. Aliás, o material da primeira postagem, de minha primeira viagem a Roma, se origina do registro de um sonho, no qual havia berços de criança, saudade e apreensão. Pensava eu: este sonho me veio durante o voo; meu medo de avião, talvez. Mas não: sonho intensamente quando viajo. Em Atenas, havia um sonho antes; de muito tempo antes. Também em Assis. De minhas viagens recentes, eu poderia dizer, mais do que “Meninos, eu vi!” (como em I-Juca Pirama, Gonçalves Dias), “Meninos, eu sonhei!”. Assim foi em São Francisco, Califórnia, em 2012. Durmo por breves momentos e sonho intensa e nitidamente. Há vários corpos de criança no chão. Uma paisagem de guerra, como naquele filme Henri IV, o cântico Non Nobis por sobre os corpos, campo devastado pela guerra. Sei que estamos no meio de uma tragédia coletiva e que por alguma razão aquilo está acontecendo e é inevitável, nesse tempo que nos é dado viver. Non nobis, non nobis, Domine Sed nomini tuo da gloriam13. Mas um corpo se move e eu sei que é a minha filhinha morta, mas também pode ser agora. Vou correndo, decidida, e pego a criança em meus braços e de repente sei que não é exatamente um bebê, mas um ser de idade indefinida que reconheço como eu mesma.

13

"Não para nós, Senhor, não para nós, mas para Glória de Teu Nome" (Salmo de David e lema dos Templários)


Meu sonho de pedreiras, tão recorrente, retorna. Novamente uma procissão, pessoas encapuzadas, se arrastando pelo chão, e é um momento apocalíptico, seres humanos “gemendo e chorando nesse vale de lágrimas”. Em geral estou muito longe, vendo a fila se arrastando ao longe, seguindo a linha que a pedreira forma. Mas desta vez estou perto (embora não seja parte da procissão, que de algum modo é também de pessoas que já morreram, portanto não estou nela e não faço parte). E vejo rostos conhecidos sob o capuz, e reconheço alguns, e me dou conta de quão perto estou dessa realidade que é além, transcendente. Na verdade é tudo sobre parar essa corrente que é fora de mim, não me pertence mas me envolve e carrega. A cabeça fica leve, livre disso, e o tempo para (não o espaço, como em um outro sonho quando jovem – quando eu não sabia o meu lugar no mundo, portanto, o espaço se desconfigurava); agora é o tempo, que talvez se reconfigure (mais que se desconfigure). Acho estranho que alguém perto de mim esteja falando tanto e tão rápido, se o tempo está parado e não há pressa. Quando então durmo, e sei que por rápidos momentos, vêm esses sonhos tão nítidos, que são, provavelmente, minhas questões de sempre: morte, transcendência. Agora vejo como é, compreendo e tenho insights, mas o rolo compressor vem e deixa tudo no esquecimento.


23. Buenos Aires, janeiro de 2014

A minha mãe, companheira de viagem.

Vim a Buenos Aires chorar por minha mãe, que em agosto nos deixou. Os sonhos assim me disseram. Todas as noites sonho com ela; sei que é por muito tempo, a cada vez. A cidade nos acolhe, hospitaleira. Viramos andarilhos, Virgílio e eu; caminhamos por horas, dez, doze, quinze quilômetros a cada dia. De volta ao Hotel Castellar – onde Lorca um dia se hospedou –, usufruímos dos banhos, finlandês e turco, que o hotel nos propicia. À noite, como se por natural consequência, sonho. Pela manhã, antes das caminhadas, ou em algumas pausas, descansando em um banco de um dos belos parques portenhos, escrevo. Sei que sonho por toda a noite. Para lembrar é preciso ter o repouso e o silêncio que encontro aqui.


Um sonho era eu diante do que guardei da última noite de Natal com ela. A cena dela arrumando o Natal. Sua pura, total alegria com todas as pequenas coisas da vida; e o Natal não era uma pequena coisa, podia ser sempre celebrado com toda sua força de novidade e simbólica, e na verdade da vida dela – as recordações do Natal de 1952 que ela sempre evocava, ela e meu pai apaixonados, trocando olhares na igreja, recordação tão intensa e bela, que persistiu viva pra ela, sempre, por 60 anos. E que, sem dúvida, como a história do amor deles, em sua totalidade, iluminou nossas vidas. Lembro a tristeza dela em seu último Natal, chorando desconsoladamente porque estava no hospital e não podia vir pra casa. Fomos todos ao hospital depois da breve e melancólica ceia de Natal de 2012. O Natal de 2013 foi o mais triste da minha vida. Havia porém Mariana, minha netinha, seu encantamento e total alegria ao descobrir o Natal, neste ano que era o primeiro sem minha mãe. O sonho traz minha mãe viva, e me coloca diante das saudades dela, tão intensas, além de tempo e lugar. Chorar de saudades... Sim, as lágrimas que se chora em sonhos podem ser uma forma poderosa de conexão. São lágrimas que redimem. Lá fora acontecem coisas, belas coisas. Parques, museus, bons restaurantes. O tango e sua magia, sua profunda, apaixonada tristeza. Mas é dentro que viajo. Desfilam em meus sonhos, alternadamente, mas sempre, como capítulos que sigo, como postagens numa série, cenas do sofrimento dela, cenas do adeus. A dor chega, aguda, sem freios: como se “em paz” para doer. Em Buenos Aires e em sonhos choro de saudades pela mãe que perdi. O contato com minha própria emoção, saudades e dor tão fundas, me revela a mãe que fica comigo, indelével, imensa.


24. A Cidade de São Salvador da Bahia

... que é meu amor eterno, na infância e desde a idade jovem, quando o mundo nasce de novo a cada dia e as pátrias se espraiam.

...para a qual não há palavras suficientes.


(Fotos: Mรกrio Vitor)


A Avenida Contorno e seus meninos de rua. Suas famílias de rua, miseráveis na bela tarde ensolarada, nesse deslumbre da natureza que é o brilho dessas tardes de verão na Bahia, luxúria de sol e mar. O registro de uma lembrança remota: uma viagem de trem, iniciada em Petrolina. Subúrbios de Salvador, já vislumbrado um pedaço de mar, Aratu. Um encantamento. Eu era menina, retornava a Salvador pela primeira vez, após a nossa mudança para o Crato. No trem, o grande barato era a expectativa do mar, o momento exato em que o víamos pela primeira vez, com o nome de “braço de mar”, que até hoje me causa certo espanto. Era verão, era sol. O verde, o colorido das casas, as promessas de mar: uma duna, a visão da água ao longe. Não sei que lugar era: Paripe? São Cristóvão? Ano: 1962? Teria 7, 8 anos então. Os olhos buscavam uma paisagem de infância - a minha própria, já incluindo lembrança - e encantamento. Paz, beleza eram os registros. São preenchidos por uma outra paisagem, já me dizendo como são várias as infâncias: bandos de crianças nuas, descalças, olhos grandes, escuros, brilhantes. Barrigas imensas. Uma delas, do mesmo tamanho que eu então, e de chupeta na boca. Lembro do registro múltiplo, díspar: idéias de abandono, liberdade, tristeza, alegria. Vida pulsando loucamente, cores vibrantes. Sensação como que carnaval. Na feira do Crato, aqueles olhos de criança, nariz escorrendo, chupeta e saliva, espreitando pelos cantos nas barracas na feira, aqueles olhos que falavam mais do que quaisquer regras e histórias de quase aristocracia da família... E o cheiro do fumo de rolo, igual em todo o Nordeste, de fora a fora (e até na Bahia); o mascar e o cuspir no chão, e por trás dos chapéus o olhar sombrio e desdentado dos homens, facão na cintura. E o cantar, a festa, pois quando era alegria era absoluta. E a sala de visitas das casas nossas, arrumadas, o óleo passado nos móveis, a flanela, até brilhar. A sala imóvel, a qualquer hora podia chegar uma pessoa, sem causar vergonha; não sendo criança, porém. Criança passava furtivamente, na ponta dos pés, aprendendo a construir espaços secretos de solidão. A vida, a totalidade plena do viver, estavam na feira e na estrada. E de certa forma, até hoje, para mim, a verdade é uma cidade do interior. O mar era romance, estava nos livros e na infância na Bahia - algo como se não vida, paisagem pintada no quadro da sala, bonita para viajar nela, para viver nem tanto. Porque vida era uma coisa sóbria, verdadeira, essencial, sem exageros, luxos, extravagâncias. Outra coisa era cinema, algo de se olhar. Mas a Bahia, paisagem tão bela e luxuriante, era também tão forte já, tão vida e tão cinema, dança e movimento para olhos afeitos ao corpo estanque do nordestino: registros desde aquela infância de antes dos cinco anos e novamente meu amor eterno desde a idade jovem, quando o mundo nasce de novo a cada dia e as pátrias se espraiam.

***


Janeiro: O verão veste a cidade de deslumbramento. Perambulo, de encanto em encanto. Súbito, porém, é setembro. O tempo pára pelo simples incidir do sol sobre as casas do morro que vejo da janela. O sol ilumina cores, portas e janelas. Pequenas ruelas, pequena gente, singelo recorte. O puro brilho do sol fazendo tudo o mais irrelevância. A primavera caiu sobre a Bahia, enquanto eu me trancava em frente ao computador. A natureza brinca, adolescente. O mar, como um felino. Cores, flores, amores. A natureza é doce.

Praça da Sé Estreita a rua Sinuoso o tempo Apelo silente

Olhar infantil E o riso súbito livre na boca.

Praça Castro Alves Chove de repente no centro da cidade quebrando a tarde vazia o encontro vazio a moça triste chove e eu ando pela rua e é escuro

e tenho medo do meu companheiro que passa e é infeliz e torto e sujo que cidade triste meu Deus quando chove

e tenho medo do povo que se acotovela sob as marquises cansado e triste e escuro depois do cansaço de todo o dia antes da noite de todo dia que noite sem dia que tempo escuro e chuvoso


e como meu coração bate de medo por causa do dinheiro que levo na bolsa que tempo escuro e triste e como de repente há silêncio na rua só chuva sem vozes arengas sem rumores de sol alegria dia claro

e como de repente o olhar é limpo e triste sem a máscara do sol da Bahia

Um mar visita Salvador O mar de O Piano esteve em Salvador por toda a semana. Nele confundo coração e alma até ter os olhos liquefeitos. Sonho formas de inauditas cores. Bem dentro de mim o mundo é veludo, formas dançantes, lágrimas azuis e corações de filho. As palavras migraram para outros fazeres, imagens silenciosas bailam sem normas. O avassalador espelho do mar esses dias.

Posse Dias em que somos acometidos pela cidade. A cidade é soberana e nós, seres involuntários na paisagem. O mar, o sempre sentimento do que é talássico, báratro, abismo. O oceano absoluto a nos envolver, envoltório simultâneo de ruas acanhadas e eternas. Dias em que a cidade se sobrepõe muito naturalmente à rotina e nada somos senão seus viventes. Dias em que palavras são apenas a superfície das coisas,


e como tal as dispo e sigo nua, desmielinizada.

(Os dois últimos poemas foram publicados em Uma Vaga Lembrança do Tempo).

Luísa disse... Algo aqui me bateu muito lá dentro... Algo aqui me fez sentir muito perto! Desmielinizada já sou, mas luto por o não ser... São lesões que estão lá dentro e eu procuro não ver!!! Beijo grande, de alguém que embora distante se sente muito de perto.

Pavitra (Adrianna Coelho) disse...

adoro ler seus textos, Ana! dessa vez vou destacar o que me tocou imensamente: "para mim, a verdade é uma cidade do interior." essa frase e o poema Um mar visita Salvador - lindo demais! Beijos!


25. Itacimirim, Bahia, janeiro, 2000

A meus irm達os, com amor


(Fotos: Mário Vitor)

Descanso no silêncio de Itacimirim e o dia é manso. Só me quero mar e verde e bichos e rios. Rios da infância que não são chamados e insistem em chegar, sensação de repouso e aderência ao real, a terra molhada e o cheiro de profundidade como extensão dos nossos corpos de criança, que, no entanto, dela eram feitos (“De que são feitos os meninos, de que são feitas as meninas”? perguntava). O barro e a terra onde nos plantamos até hoje. Itacimirim é conchas do mar, que aparecem a essa época do ano. Ainda aparecem, mesmo quebradas e tímidas. As caravelas e sua transparência, seu violeta infinito. Os bichinhos que emergem da na grama, besouros multicores, lagartos e até um siri que veio do mar até em casa, migrante sem norte, atordoado. O mar que um dia vai inundar nossa casa... Os gatinhos que vêm à noite brincar na grama, ariscos mas sempre vindo quando eu chamo (também porque estou aberta, relaxada, nenhuma dor de cabeça, nenhum cansaço ou irritação ou pressa ou agonia ou compromissos de não ser, e assim me reconhece o que é bicho). Os pássaros, todos reconhecidos por meu pai, e amo perguntar-lhe e nunca saber dos nomes para poder perguntar de novo e ouvi-lo em seu saber mais genuíno de menino passarinho. São muitas espécies que vivem aqui, e cantos vários, e nomes belos (casaca de couro, viana, graúna, sabiás, ferreiro...). Ouvir o mar e os pássaros, privilégio e necessidade vital. Agora o silêncio é absoluto, todos dormem nessa hora quente da tarde. Escuto o silêncio, e há pássaros ao longe, e são diversos, e são de versos, palavra nenhuma poderia preencher esse momento. Esse lugar está sempre aqui e nunca o tenho como


agora... O silêncio, o pai e a mãe, o meu amor só para mim. Mas as crianças, quando vêm, são parte da grama e do mar, se não fossem as preocupações do cotidiano que vêm junto via os adultos. E os irmãos, não sou sem eles. Como no livro de Marguerite Duras, o tudo que Luís evocava ao me dar de presente. E eu que não registrei, ou mal registrei, ocupada, e nunca o fiz sabedor do que significou para mim. Mas ele sabe, contudo, porque o nosso tecido de ser irmãos é precioso. Falta o fazer saber sem o qual somos silenciosos e nos colocamos cortinas e banalidades; ele sabe que ser irmãos é poder chorar pelas mesmas coisas. Vislumbro nossa infância de nove irmãos, de ser criança muito, e os pais tão jovens como há muito fui. Minha mãe conta que até Luís nascer todos dormíamos no seu quarto; ela nunca abriu mão de cuidar de nós à noite. Eram três, quatro berços. Viro ternura e quase choro ao ver - na lembrança ainda, uma lembrança dentro de um corredor no qual minha mãe toma minha mão e seguimos - os berços, o cestinho enfeitado e mantido tão limpo com as coisas do nenê. A caixa plástica para mamadeiras e demais utensílios, protegida em um cantinho especial da cozinha. Os objetos suaves na penumbra do quarto e o cheirinho de bebê, tão naturalmente gerado naquele tempo, misto de leite e lavanda Johnson e talco e Hipoglós e fraldas de pano sujas. Minha mãe me conta desses arranjos para demonstrar o quanto ela me queria. Desde que chegaram de Ubajara, e acho que é a primeira vez que realmente vivem, mesmo que por cinco dias, em casa de um filho na chegada de um neto – eles falaram repetidamente sobre o quarto de sua netinha caçula: muito rosa e enfeites e rendados, um exagero que eles estranham. Fico enternecida ao vê-los, esses avós convivendo com práticas de criação tão distantes da sua experiência de pais, e obtendo um equilíbrio entre estranheza, descoberta e aceitação que só se explica pelo amor. Imagino os dois com três filhos de até quatro anos de idade, e mais um por chegar. E o que minha mãe conta, de querer estar perto às noites para estender a mão sobre a gente ao primeiro chorinho ou sinal de inquietação, e acalentar baixinho, um cicio, de modo que a gente nem chegava a chorar, voltava para o sono. Não lembro, esse tempo é só imaginação. Mas me parece que vejo nitidamente como era, e sei em algum lugar que éramos crianças tranqüilas, e que chorávamos pouco, e que era um acontecimento se algum chorasse muito à noite. Não me vejo quando eu era o meu ser original... no tempo que não lembro, ainda intacta. Sou oceano nas extremidades e sou terra. A infância é mar e terra, e aquele poço profundo no Caboclo – trilha estreita, árvores mirradas, mas envolventes, a nos emprestar galhos dos quais pulávamos na água, trampolim de delícias e completude. Estou à toa e as lembranças também. As conversas fluem, as lembranças vêm, gratuitas, livres, sem nenhuma exigência de nexo. Há um novo milênio e quero verdades. Verdadeiramente viver. Sentir e significar cada momento e cada tarefa.


Maria Muadiê (Martha Galrão) disse... Ana, você é muito boa em textos longos! Escrita muito poética, delícia de ler. beijo Luísa disse... Plic!Ploc! Ouvem-se os pés a saltitar na água... Lindo texto!Lindas imagens! Respira-se bom gosto, por aqui! Será sempre um prazer visitar as suas paragens. Bom fim-de-semana! Casulo Temporário disse... Martha, Luísa, obrigada! é muito bom poder partilhar essas experiências com vocês. Maria Beatriz (Maria Beatriz de Sousa Cabral, irmã) disse... Ana, Você não é apenas a única irmã a quem eu tanto amo e admiro. Você é única. Ao ler suas palavras, viajo no tempo e sinto o cheiro da nossa infância tão longínqua, em outro cenário, sem barulho do mar, mas em contato íntimo com a mãe natureza - ar puro, água cristalina, árvores, frutos, pássaros... Tempo vivido com paz, tranquilidade, aconchego, segurança, amor, enfim, felicidade. Não lembro de nenhuma ameaça, não tínhamos os temores do hoje, e o mundo era tão infinito quanto a Serra do Araripe. Viver a infância dos nossos filhos em Itacimirim, é propiciar a eles um pouco do que tivemos. É nos permitir um prazeroso reencontro que o dia-a dia nos rouba. Agradeço sempre pela irmã que é, pela família que somos. Um abraço bem apertado (mas não me derrube...) Casulo Temporário disse... oi Maninha, assim eu vou chorar... mas é como você diz, coisas guardadas lá dentro, para sempre. amo você e acho que você é a melhor irmã que eu poderia ter! Anônimo (Roberto B. Sousa, irmão) disse... Bê kdodiabodoblog, sumiu......


Anônimo (Paulo de Tarso B. Sousa, irmão) disse... Paulo, entre lágrimas! Se pudesse, agora, escreveria algumas páginas provocadas pela sua mestria em dizer o indizível e vasculhar nos nossos antigos quintais as mais simples e puras emoções. Que surpresa (não é a primeira vez) ver tanta poesia esbanjando beleza nas palavras de Maninha, que garante, além de sorrisos esculpidos dedicadamente, momentos de singela incursão a tempos que o tempo nos traz de volta, como conchas lançadas na areia pela maré. Já tinha percebido o valor do tesouro que vocês proporcionam aos seus filhos, para que conheçam não nossa nostalgia, mas a essência de luzes e sonoridades interiores que somente a natureza pode nos dar de graça. Amo vocês! Mais do que digo e do que possam imaginar. Paulo

Adalene (Adalene Sales) disse... Ana, Fiquei profundamente emocionada com seu relato sobre a forma de dormir da tua família. Lembro que meus pais também sempre nos tiveram por perto. Mesmo quando optamos por nossos quartos, a porta deles estava sempre aberta para nos receber, ou, como era muito comum, colocávamos todos os colchões na sala para que, todos no mesmo nível, pudéssemos escutar as inúmeras lembranças da infância deles, e (re)contarmos a nossa. Meu arranjo familiar para dormir também é "todos na mesma toca". Beijos.


26. Ubajara, Ceará (2000)

A série "Viagens" termina com este post, reminiscências de viajar quando criança, junto com meus irmãos e primos – a quem esta crônica é dedicada. Assim como mais tarde na vida, em outras circunstâncias, por locais mais ou menos distantes, viajar era subtrair-se ao cotidiano e olhar o mundo com olhos de encantamento. Pois: foi ali que aprendi a viajar.

(Foto: Mário Vítor)

Soldadinho do Araripe e levadinha de água das fontes da Chapada

Imagem: Ciro Albano, vídeo completo disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?v=1465794426989363&set=vb.1438177153084424&t ype=2&theater


Crônica de uma festa de casamento

Voltando do Ceará, precisaria de pelo um dia inteiro só para me acalmar. Não o tendo, escrevo no avião, urgentemente, aflita para dar vazão a tantas palavras.

Tudo me deixa à flor da pele, este ser de uma tribo, esta herança índia pela qual sou parte dessas serras, desse recorte verde, lá do interior do mato, e me sinto tão integrada à chuva, à neblina, aos raios e relâmpagos, eu que sou tão alérgica. Este encontrar-me remetida a estar comigo vem de um modo tão veloz, vai tão longe e tão intenso que não consigo conter. Não penso: fico sabendo disso pelo olho, pelo olfato, pela pele, pelo estômago, e ainda pelas cores, dentro e fora, luz e sombra das casas à beira da estrada.

O senso térmico me remete ao denso que era crescer no interior, aprender a viver aqui, em tribo, essa colagem tão forte do tribal em nós, da qual é impossível falar, da qual calar é perder sentido.

Enquanto me preparava tão mecanicamente para a viagem, em Salvador, vinham com freqüência, sem qualquer antecipação, lembranças de Emanuel quando pequeno. É o meu irmão menor, tão doce e gentil, e que foi cedo para tão longe também, e de quem agora sei que me senti um pouco mãe - cuidei dele com tanto gosto, embora minha mãe não me deixe esquecer de quando ele caiu da janela por minha culpa. Fiz suas primeiras fotos, brinquei, conversei, e também fazia medo a ele - das bactérias e de outros perigos do mundo, o que era, sem dúvida, uma estranha forma de cuidar. Ele foi para longe, de volta à tribo, mas lá só se vê o quanto é um de nós, repetindo o pai até no modo como calça os sapatos. *** Não sei se pelo cansaço, mas estou à flor da pele.

São as casas à beira da estrada, e eu diante delas sem precisar ser forte - somente desarmada -, com vontade de chorar por tudo.

São as casas à beira da estrada, e seu cheiro que é real de tanto que a visão das casas entra em mim tocando o que está lá dentro impregnado.

É o cheiro da cozinha da casa de minha avó Sinhá, indescritível, mas impossível de desconhecer. Um cheiro feito de silêncio, de gestos suaves, de passos suaves pela cozinha


em direção à sala onde eu lia, na cadeira de balanço. Ou onde talvez me escondesse atrás do livro sem saber o que fazer com o sentimento tão intenso e desconhecido da vida contida em apenas estar ali, amando o silêncio, sons e o cheiro da cozinha. O cheiro que vinha do fogão a lenha - torresmo, um vago chá de eucalipto ou sabugueiro, feijão de corda novinho cozinhando em panela de barro, a figueira no quintal, o fumo de rolo que vovó mascava escondido, podendo ser frágil, a gente podendo ver e saber disso.

Esse olhar de avó que é lembrança tão doce, e eu queria saber chorar de saudade. A janela que se abre é de um mundo adulto no qual não éramos jamais intrusos, mas netos - e ela dizia que “não tinha nenhum neto feio”, e secretamente talvez me preferisse, recusando responder, mas sorrindo à pergunta "de qual neto gosta mais”?

Esse lugar e tempo amo, a paz daquela esquina e o café feito bem fraquinho e com bastante açúcar para que a gente pudesse tomar, e o bom não era nem o café, mas poder estar sentados em volta da mesa, escolhendo qualquer cadeira, escolhendo copo e colher ("de ouro" o alumínio amarelo, melhor ouro não havia). E conversar, e bastar pedir algo e ser sempre acolhido de alguma forma, naquela casa de poucos e sempre os mesmos objetos, que do mesmo modo estão ainda arrumados, em alguns armários e na memória: bolinhas de homeopatia, guardadas no armário de copos, que podia ser aberto sem medo, porque o andar discreto era de ser suave e delicado, não suspeitoso ou vigilante.

E mesmo vovô, que quebrava o silêncio quando vinha toc toc com suas muletas, se era bravo (contam que no dia seguinte ao casamento ele vendeu o violão de vovó, que tocava e cantava lindamente), jamais o era conosco; podia se divertir infinitamente nos contando "causos" de almanaque ou nos deixando ficar perto da janela escutando com ele as notícias da cidade que seu amigo Pedro Maia trazia.

E as palavras se distraem e migram na frase, invertidas na lembrança que teimosa vem pela pele, pelos cheiros.

***

O frio da serra, o cheiro dos eucaliptos, os tão variados cantos dos tantos pássaros no Parque Nacional de Ubajara. Estou novamente na infância, cheiros e sons, e viajava por perto do Crato, algum sítio em cima ou ao sopé da Chapada do Araripe, e era frio, e nós, crianças, vínhamos meio enrodilhadas umas nas outras em cima da caminhonete do tio, em cima de uma lona, e o carro cheirando a ração de gado ou a algo que não sei o que era, mas que era tão bom.


Nós, irmãos, juntos porque era frio, e Beto, meu irmão tão querido, que inventava estórias e descobria coisas para cantar falando da noite estrelada do Brasil (ele adorava, e eu também, uma que começava dizendo “quisera eu ser um grande poeta/pra te escrever um poema bonito”14. E era 'uma viagem' deitar no desconforto e no frio e olhar as estrelas, chegaríamos ao sétimo céu se este houvesse. E não sei se vi jamais algo tão belo quanto aquele céu estrelado sob o qual flutuávamos no alto da serra, tão perto de nós, tão claro, tão perto das estrelas e de seus nomes, que meu pai nos contava nas noites suaves sem luz elétrica. Muitas lembranças de Beto são iguais às minhas, em cheiro, cor, gênero, número e grau.

Em meio a muitas outras felicidades, sem dúvida, são tantas boas lembranças, e eu não queria ter tido uma infância diferente - temos essa felicidade de irmãos que é a de poder chorar pelas mesmas coisas, como diz meu irmão Luís Sávio.

Thalita Castello Branco, disse... Também sou muito alérgica, e cá eu moro, na capital da tribo. Volte mais vezes, Ana, por favor. Casulo Temporário disse... oi Thalita, tudo é como naquele poema de Drummond, ‘A ilusão do migrante’, conhece? Pois, como posso voltar para um lugar de onde nunca saí? beijo, Ana. Mariana (Mariana Botelho)15 disse... "São as casas à beira da estrada, e eu diante delas sem precisar ser forte - somente desarmada -, com vontade de chorar por tudo. São as casas à beira da estrada, e seu cheiro que é real de tanto que a visão das casas entra em mim tocando o que está lá dentro impregnado”. Ana, esse seu texto falou comigo, falou a mim tão alto como todas as coisas nesse meu regresso.

14 15

Brasil, Terra de Graça e Singeleza, de domínio popular.

https://www.blogger.com/profile/06029652267079196969. À época, Mariana entrou via seu blog “Suave Coisa” (desativado).


Acabo de voltar à minha terra, volto a morar nela e eu não sabia mesmo que ela tinha cheiro... Depois de algum tempo longe pude descobrir a delícia dessa peculiaridade, desse cheiro úmido e agreste ao mesmo tempo, esse cheiro da gente, esse cheiro meu. Esse trecho que transcrevi aqui, me tocou de forma tão profunda que foi como se eu estivesse diante do espelho... Obrigada por esse momento. Luísa disse... Partilhamos o mesmo valor: a familia... ...e tudo o que ela nos faz recordar, são puras pedras preciosas que alimentam a vida! Que bom regressar às origens, não é? Pavitra (Adrianna Coelho) disse... Você, Ana, tem esse jeito de deitar cá fora as emoções da gente, de emprestar memórias, sentidos, sabores e cheiros e tantas outras coisas que reanimam peles e, como o Zé Ramalho disse - cantou -, os nervos se contraem com precisão...


Dados de Edição

Criação e Digitação Ana Cecília de Sousa Bastos Editoração Paulo de Tarso Barreto Alves de Sousa (Pharol) Capa: foto e criação: Mário Vítor de Sousa Bastos Créditos de Imagens Túmulo de Camões – disponível em www.reflexosonline.com Catedral de Toledo, Espanha – disponível em www.maleiro.com Assis – site turístico da cidade italiana de Assis. Genebra, Suíça – www.genev-tourisme.com As demais fotos não identificadas são de arquivo pessoal.

Programas: Word, Paint Brush e Excell (Microsoft, 2013). Fontes: Calisto, 12, 14; Pristina, tamanho 48; Trebuchet MS, tamanhos 9, 10, 11, 12 e 20. Papéis: Couché 180 g/m2 ; Laserjet 90 g/m2 Estação: Outono de 2014 Sítio: Salvador – Bahia – Brasil E-mail: pharoleditora@gmail.com

Pharol Editora

Andancas by ana cecilia de sousa bastos 27 05  

Literatura. Impressões, memórias e sonhos de viagens.

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