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Ana Cecília de Sousa Bastos

A impossível transcrição (De tudo fica a poesia)

Salvador, dezembro, 2007 :: 1 ::


Copyright do texto © 2007 Ana Cecília de Sousa Bastos Copyright das ilustrações © 2007 Álvaro Machado Capa Álvaro Machado e Mário Vítor de Sousa Bastos Projeto gráfico e editoração eletrônica Vanessa Cardim e Mário Vítor de Sousa Bastos Revisão do texto A Autora Impressão Gráfica BeloVisual

Biblioteca Central Reitor Macêdo Costa - UFBA B327

Bastos, Ana Cecília de Sousa. A impossível transcrição : (de tudo fica a poesia) / Ana Cecília de Sousa Bastos - Salvador : Edição do autor. xiii, 158 p. : il. ISBN 978-85-000-0000-0 CDD - 869.91

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A José Newton e Ruth, meus pais, e a Maria Luiza, Ia (in memoriam), que são, em minha vida, matéria de poesia. :: 3 ::


Poesia à flor das palavras Francisco Carvalho Quando li, faz algum tempo, o livro de estréia de Ana Cecília de Sousa Bastos, professora universitária em Salvador, Bahia, tive a convicção de que se tratava de uma pessoa profundamente sintonizada com os pólos magnéticos da linguagem poética. Confesso que me empolguei com o primeiro livro de Ana Cecília, com a pertinência de seus procedimentos estéticos e as numerosas estratégias formais que testemunhavam a autenticidade, a força e a modernidade de sua veia poética. Com o passar do tempo, li outros manuscritos seus dignos de aplauso, numa indiscutível evidência de que sua poesia não era uma escultura de areia, que se desfaz ao menor sopro do vento. Mais recentemente, vim a receber os originais de novo livro de poemas de Ana Cecília (A Impossível Transcrição). Nesse admirável universo de palavras, a Autora consolida sua visão do mundo e da vida, das pessoas e das coisas, das sensações e dos reflexos que ora iluminam, ora evidenciam a complexidade do Ser. “Vivo em um mundo de palavras. Palavras que são substrato volátil, atravessado pelo concreto, contaminado de vida.// Buscar a poesia, reencontrar a forma dessa coisa oculta”. Ela tem convicção de que a linguagem é um planeta sonoro em contínuo movimento. Um planeta feito de estruturas voláteis que se evaporam. Conforme faz questão de salientar, “De tudo fica a poesia”. :: 4 ::


E a poesia, expulsa dos jornais e anfiteatros onde se exibe a fina flor dos ventríloquos que anunciam a chegada de uma nova era – a poesia, embora ameaçada de todas as formas pelo colunismo arrogante, vai à luta, protesta em praça pública sob o beneplácito destas palavras de Jorge Luís Borges: “A beleza não é privilégio de uns quantos nomes ilustres. Não professo nenhuma estética. Cada obra confia a seu autor a forma que procura: o verso, a prosa, o estilo barroco ou o linear” (Los Conjurados. Alianza Editorial, p. 13, 1985). O livro, dividido em três partes, é composto de aproximadamente 100 poemas. A temática é rica e sugestiva. A Autora oferece opções as mais variadas para os leitores de poesia, que vão escasseando dramaticamente. Desde o haicai importado dos mestres japoneses até os poemas em prosa, que a poesia, como todos sabem, não é privilégio do verso. Conforme explica, seus haicais são “silogismos extemporâneos, sem compromisso lógico ou métrico”. Dois exemplos para conferir: “Um dia era música,/dissolvo-me em ondas,/ nada sou senão eco.// Por que desfazer/no silêncio das noites/a inútil tessitura de cada dia?”. A poeta Ana Cecília contempla o mundo como se o estivesse vendo pela primeira vez. “O mar, como um felino./Gato e maresia./Sabedoria de estar no mundo feito/âncora e vôo”. À semelhança da Casa do Pai, a poesia de Ana Cecília tem muitas moradas. Moradas que nem sempre escancaram as portas, o que nos leva à busca de reflexões para decifrar os enigmas de sua escrita poética. No poema Noite em Brasília, depois de aludir a criações arquitetônicas que :: 5 ::


ornamentam os espaços vazios da metrópole, uma pergunta paira no ar: “Quem somos nós?”. Mas a perplexidade da poeta se encaminha noutra direção: “E esse anjo sem face/desfigurado barroco/em mesa de hotel”. Esse “anjo sem face” é a metáfora da criatura que perde a identidade entre os arranha-céus plantados na terra e outros mitos que gorjeiam nos espigões de cimento armado. As ficções poéticas de Ana Cecília de Sousa Bastos não nos deixam indiferentes. Suas inquietações e expectativas metafísicas nos impregnam de palavras, de imagens e de signos que nos revelam a identidade do Ser, de seus paradoxos e conflitos. Versos como estes flagram as inquietações da Autora: “A experiência religiosa é tumulto e não paz./ Tumulto e sobressalto./ Fagulhas e percepção./Aceitar e imergir na escuridão./ Confiar”. Em outra página do livro, explica o seu modo de lidar com a essência das coisas: “Deixo clandestino tudo o que é essencial./E a poesia se cala”. Se “a poesia se cala” onde o essencial se encontra de forma clandestina, significa dizer, suponho, que a poesia se desvela numa expressão de nível emocional, enquanto a essência se projeta na esfera da racionalidade. Em outro poema do conjunto, Ana é mais explícita quando admite que somos uma caverna que se move, que é dotada de sensações e possui estímulos de natureza diversa. Uma caverna que ama, sonha e escreve poemas, sente medo e remorsos e, finalmente, se dissolve em cinza fugidia. “O silêncio da caverna,/a escuridão da caverna,/tudo o que nos devolve a nós mesmos”. Em outro poema (Pânico), faz esta confissão direta sem receio de atropelar nossas veleidades :: 6 ::


românticas: “Poemas/sobem/à flor/da pele/feito/baratas/tontas”. Arraigada na convicção científica do universo biológico, escreve poema em que fala, sem falsos pudores, dos impulsos do próprio corpo: “Esse lugar onde todos os dias nasço e sei de mim,/estranhamente raízes e asas,/chão e cosmos”.//”Estrutura reticulada pela qual me conecto e sou”. Para Ascendino Leite, consagrado escritor nacional, “Do inferno é que se volta”. Para J.P. Sartre, filósofo de reflexões inquietadoras, “O inferno são os outros”. Existem várias outras formas de inferno. Uma delas é saber que não existem textos definitivos. Por melhor que venha a ser a forma encontrada para a prosa ou a poesia, sempre haverá uma alternativa capaz de substituí-la com vantagem. (Jamais esqueci informação de Manuel Bandeira sobre Castro Alves. O poeta escrevera este verso num de seus sonetos? “No seio da morena há tanta amora”. O irreverente Bandeira observa que o poeta reescrevera o verso da seguinte maneira: “No seio da morena há tanto aroma”. E o fizera por estar convencido de que no seio da morena não havia tantas amoras, mas apenas duas). A escritora Ana Cecília sabe do que estou falando. Tanto isso é verdade que num de seus poemas escreve estes versos reveladores: “O impacto da palavra:/ olhar e medo./ Pedaço escuro do labirinto./ E uma luz lanternando”. Enquanto a violência dos déspotas bombardeia cidades e criaturas indefesas; enquanto os mísseis do Pentágono semeiam bombas nas lavouras de arroz dos meninos da África; enquanto crianças e velhos desenterram avidamente toneladas de carne podre para expulsar a fome atávica herdada de seus :: 7 ::


românticas: “Poemas/sobem/à flor/da pele/feito/baratas/tontas”. Arraigada na convicção científica do universo biológico, escreve poema em que fala, sem falsos pudores, dos impulsos do próprio corpo: “Esse lugar onde todos os dias nasço e sei de mim,/estranhamente raízes e asas,/chão e cosmos”.//”Estrutura reticulada pela qual me conecto e sou”. Para Ascendino Leite, consagrado escritor nacional, “Do inferno é que se volta”. Para J.P. Sartre, filósofo de reflexões inquietadoras, “O inferno são os outros”. Existem várias outras formas de inferno. Uma delas é saber que não existem textos definitivos. Por melhor que venha a ser a forma encontrada para a prosa ou a poesia, sempre haverá uma alternativa capaz de substituí-la com vantagem. (Jamais esqueci informação de Manuel Bandeira sobre Castro Alves. O poeta escrevera este verso num de seus sonetos? “No seio da morena há tanta amora”. O irreverente Bandeira observa que o poeta reescrevera o verso da seguinte maneira: “No seio da morena há tanto aroma”. E o fizera por estar convencido de que no seio da morena não havia tantas amoras, mas apenas duas). A escritora Ana Cecília sabe do que estou falando. Tanto isso é verdade que num de seus poemas escreve estes versos reveladores: “O impacto da palavra:/ olhar e medo./ Pedaço escuro do labirinto./ E uma luz lanternando”. Enquanto a violência dos déspotas bombardeia cidades e criaturas indefesas; enquanto os mísseis do Pentágono semeiam bombas nas lavouras de arroz dos meninos da África; enquanto crianças e velhos desenterram avidamente toneladas de carne podre para expulsar a fome atávica herdada de seus :: 8 ::


A mulher de maio

Carlos Machado

Para Ana Cecília

A mulher de maio atravessa, em linha reta, a Praça do Calendário. Na cabeça, margaridas espaciais, gatos ronronantes e receitas de alfenim. A mulher de maio não cabe em si, não cabe na cidade. E, no entanto, vai. Auto-insuficiente, ela se transforma em outras coisaturas – fio d’água, beija-flor, lagarta de múltiplas peles, cartomante sem baralho e cineasta que desenrola na palma da mão seu inumerável carretel de prodígios. A mulher de maio está no meio da nuvem e dispara uma chuva azul de bem-me-queres. Quer nascer de novo. Mas, por enquanto, passa disfarçada de pedestre diante do Relógio de São Pedro e de todos os relógios.

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Poesia e arte plástica: as ilustrações de Álvaro Machado José Newton Alves de Sousa

Poemas em densidade formal enraizada em seu interior, mistério e inquietude. Sínteses aladas, porque essências incontidas. A poesia estremece em conteúdos libertários. Expressão e sentimento que se não contêm em estruturas disciplinadas. Um aprendizado insatisfeito, pois não se cristalizou em trágicas auto-suficiências. Abstrações a transcenderem momentos vividos. Uma poesia ela mesma. Álvaro Machado vive uma arte singularmente sua. Uma sensibilidade que recria, ilustrando, com indiscutível talento, poemas deste livro, produziu, simultaneamente, posto que noutro plano, mas com evidente autenticidade, outros poemas, num convívio harmonioso e intercomplementar. Os traços artísticos de Álvaro Machado são formas que identificam e magnificam o próprio autor. Os poemas e as ilustrações formam, aqui, um duo admiravelmente integrado, como que numa só arte, pois lendo os poemas em sua forma propriamente literária, Álvaro Machado reveste-os, recriativamente, de uma expressão toda sua, simples, porque autêntica; forte, porque irmã. Poesia e arte plástica, neste caso, e sem rigor específico, como dissociar uma da outra? :: 10 ::


Palavras que vêm antes

Uma carta muito especial, onde o meu mais querido poeta expressa sua sábia intuição do que seja este impossível movimento da escrita.

À querida filha Ana Cecília:

Este é um universo poético em que o tempo flui, ora em momentos de saudade, ora de apreensão, nem sempre aclarados de sol, mas sempre reveladores de abismos e culminâncias. A consciência do ser por vezes é uma angústia em procura e por vezes uma realidade que dói. Mas uma plenitude ôntica é fonte motivacional permanente. A palavra, aqui, é abismo e força, sentimento e beleza, solidão e liberdade. Move, comove, fere, queima, procura e liberta. É pólo e substância. O próprio ser da poetisa é mistério transfigurante, é dor, é grito, é consciência, caminho, encontro e reencontro. Infinito endolorido e metanóia. A palavra, aqui, não é mercadoria de vitrine, mas uma voz do interior mais recôndito e mais carente de comunicar-se. Nela, as incertezas transitam pelas angústias e pela esperança; esta, nem sempre explícita, mas ao alcance da percepção participante. Da infância à maturidade, a poesia brota nestas composições, numa sofrida busca que é prenúncio de um amanhecer metafísico.

José Newton

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SUMÁRIO Poesia à flor das palavras. Francisco Carvalho. A mulher de maio. Carlos Machado. Poesia e arte plástica: as ilustrações de Álvaro Machado. José Newton Alves de Sousa

IV VIII IX

Palavras que vêm antes. Uma carta muito especial.

X

Este livro

1

Livro 1: Novos Haicais Explicação

4

Um dia era música

5

Teria sido apenas uma estória

6

Penélope

7

O ser que se alinha

8

Blowing in the wind

9

Escritos que se querem escritos

10

Se a eternidade

11

Adolescentes

12

Casas

13

Da colagem do tribal

14

Luto

15

O impacto

16

O tempo e a vez

17

Tristeza

18

:: 12 ::


O mar

19

Ser mãe

20

A experiência religiosa

21

Deixo clandestino

22

Lados inexplorados

23

Essa multitude

24

O clandestino, dói

25

Um sonho me atravessa

26

Noite em Brasília

27

Aparição

28

Chapada Diamantina

29

Livro 2: Ficções Apresentação

32

Capítulo Um

34

Capítulo Dois

35

Capítulo Três

36

Capítulo Quatro

39

Capítulo Cinco

40

Capítulo Seis

42

Capítulo Sete

44

Capítulo Oito

45

Capítulo Nove

47

:: 13 ::


Capítulo Dez

48

Capítulo Onze

50

Capítulo Doze

51

Capítulo Treze

52

Capítulo Quatorze

54

Capítulo Quinze

55

Capítulo Dezesseis

56

Capítulo Dezessete

58

Capítulo Dezoito

59

Capítulo Dezenove

63

Capítulo Vinte

65

Capítulo Vinte e Um

67

Capítulo Vinte e Dois

68

Capítulo Vinte e Três

70

Capítulo Vinte e Quatro

72

Capítulo Vinte e Cinco

73

Capítulo Vinte e Seis

75

Capítulo Vinte e Sete

77

Capítulo Vinte e Oito

78

Capítulo Vinte e Nove

80

Capítulo Entre Dois

81

Livro 3: Lavra

:: 14 ::


Lavra

88

Passagem

89

Volátil

90

Acesso

91

Engano

92

Vertigem

93

Sombrios umbrais de silêncio

94

Anticaleidoscópio

95

Pós-moderno

96

Criança na rua

97

Rede

98

Olhar de avó

99

Espólio (Para Maria Luiza)

100

Pedra

105

Senda

107

Definição do gato

108

Brincadeira

110

Pânico

113

Onírica (Sonhos em seis tempos)

114

Viagem

119

Stacatto

120

Pane

121

:: 15 ::


Imagens de Salvador sitiada

123

Estrada do Côco

125

11 de setembro

126

Milagre de Natal

128

Ano Novo

131

Ao remetente

132

Janelas

133

Calmaria

134

Gestação

135

Poema materno inacabado

136

Poema erótico

138

Ensaio

139

Labirintos

140

Móbile

141

Uma mulher

143

Casulo

144

Transparência

145

Freqüência

146

Caracol

147

Passante

148

Da beleza de Deus

149

Nuvem

151

:: 16 ::


Acenos

152

O ilusionista

153

Dorian Gray

154

Equação

156

Vertigem

157

Post Scriptum

158

:: 17 ::


ESTE LIVRO As palavras e a poesia: estou vindo, e as imagens em todo o tempo, desconexas porque livres de algo que se rompeu e nem sei nomear ainda, nem sei falar como essa pessoa que reconheço enfim, mas não importa que não tenha palavras nesse reconhecimento, é um modo só. E é tudo. As palavras e a poesia: durmo, sonho, velo, algo que se desvela e revela-se súbito: por a palavra no poema é incrustar uma pedra antes bruto minério em jóia rara e única. Extraí-la de si mesma para iluminá-la, torná-la coisa outra, pérola em nova concha. Pérola que já não é, mas coisa outra, coisa criada, realidade.

:: 18 ::


As palavras e sua dança, que me querem serva fiel. Tarefa de ser eterno, talvez coisa encantada. Rumos que não sei, talvez destino. Ana Cecília.

:: 19 ::


:: 20 ::


Explicação Novos Haicais, que defino não pela métrica, mas pela natureza - poemas autocontidos, que se resolvem abruptamente. Poemas de fragmentos, extremamente condensados, cujo final é quase a golpes de machado. Às vezes nem isso. Silogismos extemporâneos, sem compromisso lógico ou métrico. “Se, mas (ou e), logo”. Ou muito pelo contrário.

:: 21 ::


Teria sido apenas uma est처ria n찾o fosse acontecer no ver찾o. O dia era pastoso e nada podia ocorrer na tarde mansa. E nada ocorreu.

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Penélope

Por que desfazer no silêncio das noites a inútil tessitura de cada dia?

:: 24 ::


O ser que se alinha ao infinito. Encontro de essĂŞncias.

:: 25 ::


Blowing in the wind

De quanto tempo precisa um poema para ser fabricado?

:: 26 ::


Escritos que se querem escritos, mesmo que o dia os condene a fragmentos. Pairam sobre as horas quedam estรกticos. E eu, transida.

:: 27 ::


Se a eternidade ĂŠ um dia palavra e densidade um minuto.

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Adolescentes deslizam pelas ruas. Aprendizado de paredes, calรงamento, becos. Camuflagem e vitrine.

:: 29 ::


:: 30 ::


Da colagem do tribal em nĂłs, impossĂ­vel falar. NĂŁo fosse calar perder sentido.

:: 31 ::


Luto

Os passos no corredor E as mãos vazias Risos e cores incidentais E as mãos vazias Os passos no corredor E o olhar silente O mármore frio E o coração ausente Os passos no corredor E a tristeza, premente.

:: 32 ::


O impacto da pr贸pria palavra: olhar e medo. Peda莽o escuro do labirinto. E uma luz lanternando.

:: 33 ::


O tempo e a vez da Era de Aquarius. Ato suas pontas aos fios dos anos 70 que há em nós, meio encardidos, velhos, às vezes imprestáveis. E ainda assim parte do que somos.

:: 34 ::


Tristeza que se espraia nesse quase inverno. Lá fora é escuro e silêncio de falas. Só vozes. Toda eu sou canais para o outro, Mas silencio, imóvel.

:: 35 ::


O mar, como um felino. Gato e maresia. Sabedoria de estar no mundo feito 芒ncora e v么o.

:: 36 ::


:: 37 ::


A experiência religiosa é tumulto e não paz. Tumulto e sobressalto. Fagulhas de percepção. Aceitar imergir na escuridão. Confiar.

:: 38 ::


Deixo clandestino tudo o que ĂŠ essencial. E a poesia se cala. E atalhos e tĂşneis e transversais do tempo.

:: 39 ::


Lados inexplorados do inconsciente sempre haverá. Pequena a percepção, grande o mistério. Prolongado o silêncio. Só, poucas vezes, cismo.

:: 40 ::


Essa multitude de poemas, mas o papel estĂŠril, o screen vazio. A solidĂŁo.

:: 41 ::


O clandestino, dรณi.

Mesmo que seja apenas uma palavra solta em uma sessรฃo de anรกlise.

:: 42 ::


Um sonho me atravessa o mĂŞs, abismal.

:: 43 ::


Noite em Brasília A silhueta na noite. Esplanada de mistérios. Quem somos nós? Que dizem de nós esses ângulos? Chuva, infinito, solidão. Nuvens e rotações, ângulos e viezes, aéreo delírio. E esse anjo sem face, desfigurado barroco em mesa de hotel.

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Aparição

Impressionada pelas palavras alheias. Ladra de palavras sem disfarce. Seria de bom grado escriba, apenas ecoando palavras alheias, perdida no silêncio úmido das bibliotecas, onde o nome da rosa se oculta. Porque dói ter a minha própria idéia, Dizer a palavra que é a minha própria. Nisso desapareço. E meu fantasma me assombra.

:: 45 ::


CHAPADA DIAMANTINA

A maciez da pedra, violência da branda ação das águas, eternamente.

O regaço da montanha, côncavos de doçura e suavidade na aridez do sertão.

O silêncio da caverna, a escuridão da caverna, tudo o que nos devolve a nós mesmos.

:: 46 ::


As flores, as flores. Bromélias, orquídeas, jasmim. Exuberância. Luxo da pedra. O medo de aventurar-se no desconhecido, de confiar-se ao infinito, e a boa surpresa quando é possível.

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De tudo fica a poesia, como substratum. O que não pode ser tirado. Subterfúgios da mente humana frente ao mundo. Palavras que se desatam da vida e seus fragmentos.

Vivo em um mundo de palavras. Palavras que são substrato volátil, atravessado pelo concreto, contaminado de vida. Exercício necessário, este de revestir palavras de abstrato, mesmo se dentro contêm carne e sangue. Ainda assim, buscar o geral, o abstrato, na arte como na ciência, a mesma ânsia fundamental do saber, ânsia pelo sentimento no qual todos se reconheçam, porque humano.


Usar as palavras, ainda, para ocultar, ainda que seja este um vão exercício, ainda que se desfralde, como um lençol transparente sobre a carne nua, o puro sentimento, à revelia do poeta. Talvez a análise e esse afã de revelação que me toma tenham me tirado a palavra poética. Talvez seja alguma coisa outra, a compreender. Escrever, para além do registro da vida quando intensa e surpreendente. Que se impõe e me submete. Buscar a poesia, reencontrar a forma dessa coisa oculta. No fragmento do cotidiano. No mais inconfessável. Nessa ficção. 1

1

Ficção: 1. Ato ou efeito de fingir; fingimento. 2. Coisa imaginária. Invenção. 3. Literatura de ficção. (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Dicionário Básico da Língua Portuguesa.) “O poeta é um fingidor” (Fernando Pessoa).

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Capítulo Dois

Que escolha é essa? O peso de uma certa sabedoria versus o peso da expectativa de que devo, já, morrer. A radical recusa desses moldes, todos eles. Tudo está aqui: essa dimensão de tempo nos incorpora definitivamente.

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Capítulo Três

A vida não cabe numa sessão de análise. No entanto, contém-se nela, de modo imprevisto. E que faço com as lágrimas que só agora dimensiono? E essa paralisia? Não me conhecia em paredes. Não me sabia sem fluir. É assim esse estranhamento. Vou me desmontando, e é como se não pudesse controlar, avalanche de múltiplos eus, sem governo, direção desconhecida, líder cego ou inexistente. Nessa intensidade, a crise de asma, familiar, é porto seguro, onde repouso, exausta. Por que deixei meu corpo crivado de balas, indefeso, vagando em qualquer campo de batalha? Cegueira ou onipotência, cruzei trincheiras indevidas, nesse cego suicídio. Cegueira. Morrer para não sofrer. Não sei, agora, de qual ferida cuidar. Não sei como manusear essa metralhadora de palavras e silêncios, quase não lugares, quase nadas, ou desejados como se nada fossem. Alvos ocos, tiros implodidos dentro de mim mesma. :: 53 ::


Até mesmo o fato em si, não posso estabelecer; como compreender? Estou imperceptível, não percebedora. E deixariam de ser minhas as palavras? E deixariam de ser meus os silêncios? Onde posso estar, assumindo o risco de não saber quem sou? Fujo para o constante adoecer: cegueira, identifico-me em espasmos, lesões, descamações, tumores, cores de morte, hipnotizada pelo não controle dos processos de deterioração, possuída por eles, vertigem de morte. A asma: úlcera na alma. O animus se apaga; infecção na alma, de onde a vida alumia.

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Capítulo Quatro As muitas camadas e peles do silêncio. Labirintos de não-revelação. Não posso falar de não ser amada, das trilhas da rejeição. Não posso encarar o que parece ser, à minha revelia. Essas peles escondem a mulher que temo ser. Falar do corpo, do medo do outro e de sua rejeição é sempre ser surpreendida como um flagrante. Eterno caracol me torno.

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Capítulo Cinco

À beira de um abismo está o caderno no qual escrevo. Meus dedos se movem na pauta invertida. Esquerda direita. Caderno e abismo, Atração e repulsa. Imagem nítida. Sonho sem verbo. Aonde me levam as palavras, Desatadas de sua couraça? Entre submergir e navegar, respiro. Perco o material de que é feita minha angústia. Essas palavras mesmas Despidas de seu gordo invólucro de névoa e aflição difusa Perdem qualquer magia. A poesia submerge, Imagens nítidas, Vãs. :: 56 ::


Capítulo Seis

Dia da mulher, o que não me diz absolutamente nada. Quero falar do espaço do sonho, dessa insistente coisa que me tem acometido: olhos abertos e semi-adormecida, vejo filmes outros que não os da tela, seqüências inteiras; leio totalmente outros livros, textos efervescendo na mente silenciosa. Tão forte isso, que nem ouso mais contar o que li ou o que vi, tanto se entrelaçam os textos dentro e fora de mim. Vivo enredada nas coisas. Enredada também no que leio e vejo, mas ainda é o texto, que nem cinema. Habituo-me ao silêncio. Nele, passado o estranhamento, me encontro. Posso escrever, estou à flor da pele. Recupero falar comigo mesma. Porque é um pouco também como se as palavras estivessem livres, não precisassem constantemente ter impacto. O problema é que as palavras têm constantemente impacto. Tenho estado mais profundamente “ferida” pelo desejo de Deus. Desejo do infinito. Os rituais me :: 57 ::


tocam sempre; cânticos antigos, o côncavo da igreja mais do que tudo. As palavras litúrgicas e sua infinita, profunda beleza. “A nós descei, divina luz”. Nós aqui, desamparados a não ser pelo amor. Existe algo de destino nos encontros que acontecem. Estar ferida de Deus é estar amorosamente diante da dor humana, própria e do outro.

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Capítulo Sete

Enfeito a vida de mil cores, e lagos profundos, mas me atropelo nas pequenas coisas medíocres e não consigo emagrecer. Pelo contrário, como biscoitos e coisas de que nem gosto tanto, compulsivamente e como se não importasse. Mas me importo; não consigo mais manter a mesma negligência comigo mesma. Não quero perder a mim mesma. Mas de fato estou triste. Quero ficar recolhida. Há algo recolhido no peito, que me faz suspirar. Os sentimentos, hoje, não encontram palavras. Covardia, não posso abalar essas estruturas e deixar essa avalanche de coisas no screen, expapel, indiferente à forma que elas queiram assumir.

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Capítulo Oito

Se eu vou editar meus escritos? Se sou honesta quando escrevo? Ou impedida de sê-lo por essa compulsão ao disfarce? Há uma tristeza profunda, sempre ignorada, revelando um modo de ser triste, silenciosa, suave, editando a vida para evitar o que ela tem de difícil ou rude, ou duro. Ou uma compulsão a virar-me pelo avesso, a estar comigo, a morrer um pouco. O vulto fugidio da imagem. O nada. O não nada, no nada. Aquilo que não se põe em palavras, sob pena. Sob pena, mas. O que se gasta e esgarça, o que se pensou ser acontecimento, puro ato. Aquilo que algum dia supus ver, enganoso. Há uma nuvem de lágrimas sobre meus olhos. Há um véu de palavras sobre o meu ser, cachoeira de neblina e fumaça.

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Capítulo Nove

Tal como um documento legítimo. Aliás, um não documento, nada a documentar, nada editado. Minha ambição é o texto que pode ser transcrição pura, impossible dream. A dor e seu oposto, pura anestesia. O gosto da vida, difuso, oculto, óbvio, escorrendo e a gente sem ver. Impossível transcrição: estou sempre editando. Só o corpo, e talvez, faz a pura transcrição. Estamos condenados a construir, sempre, inventar, mediar a coisa pura.

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Capítulo Dez

Na análise, o tempo é pouco para anotações, para outras olhadas que não as das sessões. Tudo intenso, contudo. O divã é um submarino, penso. Sobre ele pendo, meus pensamentos tortos. As palavras vão mesmo se soltando, voando, pendendo sobre mim, e eu afundo, me deixo chorar. O divã-submarino me leva para camadas profundas, à minha revelia, desatando as pontes em volta da fortaleza... Faço questão de mim, fico lúcida nas situações, sem medo, sem peso quase. Sou mesmo pura emoção, untouchable reference. Volto do show de Milton, Tambores de Minas, embriagada por sua beleza até o dia seguinte. As coisas reais me parecem vãs, não existe este momento em que pessoas estão conversando, só essas impressões da música são reais. Divago, quase deliro, quase não suportando esse estado. No entanto, sendo eu mesma. Isso sou eu, ficar entregue a essas impressões durante todo o domingo, sem fazer nada e tudo isso, :: 62 ::


contudo. Nas sessþes, sofro, vagueio por onde passa minha dor. Não entendo, sonho, escuto, falo, esqueço completamente quando o submarino finalmente emerge.

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Capítulo Onze

Estou inquieta, estrangeira na análise, como se nunca tivesse estado lá. Longos silêncios; não tenho o que falar?! Máscaras me ocupam, estou cansada, esqueço tudo, nada me ocorre. Ou tudo é banal, e nisso silencio. O divã me deixa paralisada, não quero entrar de fato nesse submarino. Entretanto, entre tanto, sonho com o mar recorrentemente. Escrevo aos trancos, não posso rever meu texto.

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Capítulo Doze

Vou me desenrolando e ela aí está, essa angústia, essa lucidez frente ao ser, como se desnudo. Angústia de ser, não coerente, mas autêntica. Impossibilidade de explicar-me a mim mesma, ainda mais frente ao outro. Essa lucidez, porém, não tem palavras, atinge uma totalidade que as palavras não alcançam.

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Capítulo Treze

Caetano diz: “...eu sei que o mundo é um fluxo sem leito E é só no oco do seu peito Que corre um rio. Por que forjar desprezo pelos vivos e fomentar desejos reativos? Apaches, Punks, Existencialistas, Hippies, Beatniks de todos os tempos, uni-vos. - Sim, mas não, nem isso. Apenas alguns santos, se tantos, nos seus cantos E sozinhos”. Apesar disso, parece que não podemos viver sem ocupar lugares pré-moldados pelo outro. Eu quero estar entre “alguns, se tantos, nos seus cantos, e sozinhos”. Mesmo se magoam a acusação, o julgamento, todas as pressões para que esse “fluxo sem leito” se torne algo estruturado no/pelo outro. Mas eu só estudo a construção social do sujeito para melhor defender meu direito à solidão minha eterna obsessão de liberdade. Já aos 20 anos o queria. :: 66 ::


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Capítulo Quinze

Uma urgência do contato com as palavras, todas as que me atravessaram esses dias e se foram, volatilizadas, para um lugar ao qual não retorno. E no entanto elas estão lá. Uma urgência como a do gozo, a de um orgasmo ao qual chegar no incomensurável agora. A urgência da próxima inspiração, quando falta o ar. Um susto perceber que torno equivalentes três urgências: o escrever, o orgasmo, a inspiração quando falta o ar...

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Capítulo Dezesseis

Ocorre um desvanecimento da escrita. Como se nem memória houvesse de algum dia ter se produzido algo. Mesmo assim persiste a ânsia: aquela de me fazer equivaler à palavra, de colar palavra e existência, de modo a não saber onde uma e outra começam. Mas o tempo é escasso. A escrita é fugaz e se desvanece. Desvanece a mim, que me adiro à letra, em vão. Essa angústia que me veste é do corpo. O peso, “a força da idade”. Suas marcas em meu rosto. Estou talvez mais real e não sei contar estórias. Por isso as palavras esvaem-se, desnortedas, perdidas desse limbo fantasmagórico ao qual pertencem e do qual, amadurecendo, me distancio. Ainda assim me perseguem. Aos cinqüenta anos, talvez não deseje memórias, mas vida. O aqui e agora me interessa e muito. O corpo e suas possibilidades, reconsideradas, :: 69 ::


desejadas quando parecem se perder. Desejo também reclusão, uma regra de silêncio. Reconectar-me, ainda uma vez e sempre. Tão fáceis a dispersão, a perda do centro da vida. Quero isolar-me, estar dentro e inteira, mas tudo em volta chama à dispersão. À flor da pele, brasa ardente no peito, intacta sob camadas de amortecedores (amor tecer dores).

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Capítulo Dezessete

Não sei como confessar o meu pecado, ou qual o meu pecado. Sei das cortinas esgarçadas com que o dissimulo. “Estar presente é chegar igual a si próprio”, sabendo que Deus nos precede, diz o Salmo. Enganos, artimanhas, tudo isso para recusar a condição de criatura, e não deixar que o Espírito me encha e me conduza. Ao mesmo tempo a responsabilidade da lucidez.

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Capítulo Dezoito

Tudo que há por trás do poema. Tudo que é não dito e resvala, cristalino, para a superfície do verso.

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Atrás do poema.

Atrás do poema tem gente trem bicho menino mulher de cócoras espiando. O poema é veia aberta, arco tensionado sobre o qual a vida incide, feito música. O poema, wide screen. O poema não é sem o que há por trás do poema, mesmo que eu me torne em sal se olho para trás.

2 Poema que nasce de um diálogo intertextual com o poema de José Chagas (“Por trás do poema) e de conversas pela internet com Carlos Machado, a quem sou grata pelas sugestões e pelo olhar refinado e sensível. Sobre José Chagas, ver o boletim Poesia.net, no endereço http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet113.htm

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Talvez eu seja uma estátua de sal. Wide screen, a vida passando através. O meu poema é hoje esse “rio que em si mesmo se afoga seca em suas areias a vontade de mar”. O poema já estava ali muito antes que alguém pudesse descobri-lo. O poema é a pura matéria, verbo inaugural. A ponte por onde passavam os três cabritinhos, o sempre lobo no rio à espreita. Tela por onde a vida passa, fora dela o nada. Tudo espia por trás do poema. Memórias, silêncios e dores. Um sonho. Silêncios e disfarces. Luzes acesas que ficaram para trás, ao longe, não mais meus guias. Coração de criança e desejo de morte. Vida que chega por vias inesperadas, sem cabimento. O poema não tem cabimento, e está sentado como um gato :: 73 ::


à espreita do nada. Atrás do meu poema há febre e veias tensas. Uma longa espera. Trilhas não seguidas e tudo o que não fiz. Desejos inconfessos e tesos. Atrás do meu poema estou desperta e silente. Atrás do meu poema sou mulher.

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Capítulo Dezenove

Sim, este ano me atravessa, pós-doutoral, sabático, um Sabá. Descubro-me bruxa em noite desvairada. Desairada. Sem asma (mesmo que sem ar), porém, estranhamente. Camadas que se desfazem aos poucos, sobre mim, em torno de mim, coisas que me paralisam e dissimulam, e onde estou, quem sou...? Começo a sentir, a estar, a ser eu mesma, e os outros me estranham. Coisas inesperadas e que me fazem bem, e que me revelam, fotografia há muito tempo guardada intocada. Sob essas camadas todas: quieta, sensata, adequada... cuidando de tudo e todos... estou aqui, ainda viva, intensa, emotiva, impulsiva, passional e nada racional. Essa eu reconheço. A pessoa que escreve poemas não é diferente de mim. Esse ano me atravessa, sim, e estou nua frente a mim mesma, e novamente intacta. Tudo me revisita, tudo ganha cores e intensidade como se em carne viva. Mas em carne viva eu sou. :: 75 ::


Capítulo Vinte

Tudo espia por trás do poema. Memórias, silêncios e dores. Um sonho, hostilidades. Fragmento de corpo no qual alguém bate, de alguém que não aparece, não se sabe quem é. Essa a imagem no meu sonho, entrecortada, filtrada por febre e mal estar: corpo hostilizado, sem dono, sem algoz. Por que a hostilidade deixa marcas mais fortes que o amor? Por que essas marcas no avesso insistem? A dor faz essas coisas, o medo, as sombras. O poder do mal. Nossa tendência de negar “a inexorável positividade do real”, de nos movermos por abismos, contra a salvação. Seria isso, sim, o pecado original. Ali onde travo é onde não seja mais adolescente. Ali onde não é fantasia, nem inconseqüência, nem brincadeira. Ali, calo. São os malquereres do corpo, esses os abismos. Não sei se quero a palavra clara dos psicanalistas. Antes me fecho aqui, em copas, em tristeza e solidão. Preservando labirintos. :: 76 ::


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Capítulo Vinte e Dois

Trago comigo este caderno vinho, como uma partilha. Secreta. O tempo é secreto e meu coração se compacta a si mesmo, receando expandir-se e desdobrar-se. Os sentimentos são indefinidos e me falta o ar. Falta-me a expressão. Falta-me o interlocutor. A impossível sintonia, apenas esboçada, nunca plena. Tenho uma oração e muitas canções desesperadas, nesse espaço agora deserto e mudo. Palavras de outros me tomam. Sou vazio. Sou posições do self a serem preenchidas.

Desconecto-me da emoção e tenho crises de asma. Sirenes de polícia cortam o silêncio da noite americana, talvez reais, talvez cinema. As coisas soam irreais e parecem estar fora do mundo. Mesmo assim me fascinam. Clivagem dentro/fora. Impossível expressão. :: 78 ::


Olhos e almas contundidos pelos horizontes, quando o corpo precisa do aconchego da casa. Amigos poetas, queria suas palavras emprestadas para contar o quão profundos são esses poços que me contêm. São essas algumas das palavras que me possuem – como se sem agency, sou neste momento alguém com uma “world-to-subject position”. Além do oceano. Além do horizonte. Nesse limbo.

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Capítulo Vinte e Três

Nova Inglaterra. As inacreditáveis cores do outono, mais e mais, infinitamente. Mil nuances levam dos verdes aos amarelos, laranjas, vermelhos. Como por sutis caprichos, as árvores trocam de roupa, indolentemente, rapidamente, numa profusão de cores e estilos de matar de inveja o mais imaginativo designer de moda. Deixam cair suas folhas, que o vento leva, dançantes, enquanto nós restamos, na vã ilusão de reter sua efêmera, mas absoluta, beleza. Em um segundo paramos, extasiados. Mas já se vai, com o vento, como se por puro capricho da natureza. Que, sábia, nada procura reter, se tudo nascerá novamente. Mas eu me entristeço, incapaz de lembrar – ou de esquecer? -, de apreciar os ciclos da vida, presa nas armadilhas de tudo que é reter, possuir. Hoje não há chuva nem ventos fortes. As folhas caem indolentemente, suavemente, irreversivelmente, tendo alcançado seu ponto de cair. Nada mais. Silenciosa, fascinante dança. Estou estranhamente em paz, aceitando esse irreversível movimento daquilo que se vai. :: 80 ::


O sol se põe e mal posso crer no espetáculo final de seu reflexo sobre as multicores, como se iluminando tudo, levando a um paroxismo o brilho dourado. Folhagens, lagos, horizonte. Às vezes apenas os cimos das árvores iluminados. Chego a buscar com os olhos de onde vem a eletricidade, mas é o sol, seu último brilho do dia, quase pachorrentamente, mas sem qualquer parcimônia. Árvores que retêm sua claridade por um átimo de tempo. E então, mais nada. Efêmero. Nenhuma história é necessária.

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Capítulo Vinte e Quatro

E nem a poesia. Se tudo o que posso agora é escrever desatinos, é congelar a memória em momentos irreais de tão gastos. Se tudo que posso é sintonizar ilusões passadas, nenhum presente. No que é presente não existo. É tão nítida essa outra realidade e me iludo. Essas impressões doem e são estranhas, e pulverizam o meu dia, tornando a noite insone e solitária.

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Capítulo Vinte e Cinco

Fico aqui. Não sei do poema, de seu doce amargo. De suas palavras cindindo o meu coração, me fazendo refém de emoções. Tenho nostalgia da poesia. Do fluxo que molda palavras e brinca com elas, na imprecisão vertiginosa do texto, qualquer que seja. ...pois esqueço que escrever é dor; ato visceral do qual a marca no papel ou no screen é mero reflexo. Não sei em que espaços me disfarço tanto, disfarço essa tanta consciência de coisas e gestos e sentimento, escolho essa inércia que me faz morta.

Sonho a delicadeza (utopia) enquanto em mim a poesia é presença: o ofego, o suspiro, o entrecortado afeto. Lente que distorce a superfície do dia e faz o viver fluido total, ferida aberta. É tão visceral que sonho a delicadeza, as puras :: 83 ::


imagens, o imagĂŠtico delĂ­rio, a geometria das palavras. Um descompromisso? Uma fuga, sim. Na estrutura de meus poemas vejo a estrutura do meu modo de estar na vida, de pressentir de longe sua fatia mais densa, apetitosa e verdadeira. Enquanto isso as palavras fogem e sou esfinge.

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Capítulo Vinte e Seis

E não se move. Minha liberdade em jogo, e é dramático esse momento. Divisão paralisante, terreno desconhecido, sinais obscuros, ausência de palavras, emoção estanque e explosiva. Uma terrível ausência de gestos – que retornam em sonho, seguindo esse obsessivo reconstituir de lembranças que ora me toma. Noutro contexto, já fui presa dessa paralisia (“deserta de palavras”, escrevi). Presa da emoção, como se fosse o todo. Falar daquilo que não sei,

trocar o projeto conhecido pelo vertiginoso desafio. Faço isso, com paixão. Vou falar daquilo que não sei ainda e que por isso me apaixona.

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Capítulo Vinte e Sete

Still. Still é a palavra com que o professor designa meu bebê natimorto. Still am I, now. Respiração que não se move, energia que não se pode mover, distendida, dividida, impossível tanto. Releio minhas próprias palavras, vertigem inútil. E ainda não consigo dar às coisas e ao meu desejo o seu nome.

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Capítulo Vinte e Oito

Inferno astral ou o que seja. Compressão sobre a alma. Tenho pressa, ânsia pelo que me escapa. Tudo como que se me esvai, e nem a palavra, o gesto, o silêncio podem estancar. Hemorragia em que perco de mim substância, plasma, alma, coração. O tudo que em mim é coincidente com esse substrato. Fugidio, frágil. Untouchable. Denso como brumas e certezas do ser. Espasmos que me atravessam brônquios e útero até que me quedo desarmada. Tudo são imagens, cenas, memórias. Espasmos na alma. Conexões. Refúgios clandestinos, no tempo e no espaço. Corro para ficar só, triste, triste que nem uma coisa, que nem um bicho. Ferido. Incomunicável. :: 87 ::


Capítulo Entre Dois

E a família se move, aconchego de gerações. O irreversível repetir, o ser em ondas, que resiste, encolhe-se, inventa, permanece. São as cores do jardim da nossa casa. Caleidoscópica visão. Hiperbólicas são as palavras, ou o coração? O jardim tem cores, flores e nomes, sem falar nos pássaros tudo palavras do pai. Cada um dos netos tem seu nome inscrito em uma árvore cuidadosamente escolhida. (Houve um jardim certa vez, em cujo avesso também escrevi meu nome, cenário intocado e estórias.) Cores, flores e destinos podem ser dissolvidos e selados no brincar e estar juntos. Também eu sou feita como são feitos as meninas e os meninos, irmãos e primos, longa, multicor, caleidoscópica cumplicidade. “Os mano, pô, as mina, pá”. Também eu sonho sonhos Feitos do mesmo material. ...laranjas, iglus tumulares, árvores que nos :: 89 ::


envolvem como um lençol, e lá vêm desencaixotados os meus exemplares do “Mundo da Criança”, volumes 1, 2 e 3 (os que não me quiseram vender no sebo em Porto Alegre). O volume dois, meu predileto. “Deixa-me, deixa-me, fonte, 3 dizia a flor .” Eu, tonta de terror, branca de terror, muda de terror. Não me leves para o monte, Eu fui nascida no mar. Pois estava ali, no fascínio inigualável daquele poema, o terror do não ser, só igualado ao desejo de ser do mesmo material que aqueles e não outros meninos e meninas. ...E a fonte, serena e fria, e a fonte, cruel e indiferente, e a fonte, zombeteira e fria, “corria, corria... levando a flor”. O desejo da escrita e do selo, o rir e o chorar pelas mesmas coisas: chuvas de verão ou sereno da madrugada, ou pela casa limpa às nove horas da manhã. Ou por esse menino cheio de nove horas. 3

O poema em surdina é “Deixa-me, deixa-me, fonte”, de Vicente de Carvalho.

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A casa é branca, branca de terror. De tanto terror perdi meu avô. A casa se perde na memória, a menina se perde nas cores do jardim da casa, nas dores das horas de que é feita a casa. A menina se perde no terror daquilo que não sabe. No movimento que não pode fazer, no labirinto das horas que não compreende, tão estranha essa lógica. Muda de terror, escondeu-se a menina entre as cores do jardim da avó. Claros e escuros e olhos que percorrem sem nada dizer, sequer as idéias maravilhosas que lhe ocorriam em silêncio. Claros e escuros e pernas a percorrer corredores, varandas, terra e o côncavo de árvores e colos. Pois no avesso das cores e no silêncio das flores esteve a menina passando o tempo, cismando e vendo, tecendo um tempo de vida secreta, aquilo que veio a ser a sua diferença. :: 91 ::


AtĂŠ que um dia, no alto de uma colina de onde se via o mar, encontrou-se a menina, talvez ilesa, nem tĂŁo secreta, e nem mais em fuga, no avesso das cores, surpresa das dores que pĂ´de encarar, desfeito o quebranto das juras secretas, sabendo que era nascida no monte e nascida no mar.

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Lavra

Cumprir a sina, a dor, o fado. O doce fardo. Palavras que vêm, mão que pesa, memória que foge, coração que mente. Covarde mas não em definitivo.

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Passagem

Tudo fervilha e me quero palavra escrita. Que fazer com portas que se abrem? Onde abrir comportas? Pontes, ilhas, via principal, não importa. Mas importa a essência, o significado, a coisa viva e mais preciosa. Não tenho tempo de ser só formas. Sou tumulto, e meu nome não se escreve na pedra.

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Volátil

Quero as palavras que se volatilizaram, efêmeras, enganosas, vãs. Mesmo assim as quero. Vivo por elas, tecido de areia movediça que se faz caminho, que se faz cruz e redenção.

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Acesso Escuto o silêncio e há pássaros ao longe e são diversos e são de versos. Palavra nenhuma preenche esse momento, esse lugar que está sempre aqui, nunca meu como agora. Apaixonada pelo silêncio. Nenhum carro, nenhuma voz, rádio ou TV, mas os sons essenciais.

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Engano Talvez nem sejam precisas palavras. Jamais ser達o exatas palavras.

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Desreal A palavra vertigem. Deixá-la ir, quase gozo em víscera e músculo, estremecimento, inconsciência, abismo. Deslizar, desmoronar, esvair-se no fluido acontecimento, moção e promontório, alma vivente no corpo. É isso, pois não? Essa aderência da palavra ao instante real em que sou. Inteireza, lucidez, desrazão e mito. E estou indo, e vou, e sou.

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Sombrios umbrais de silêncio Sombrios umbrais da noite sem esperança. Frágeis silhuetas de homem recortadas. Tempo de total pobreza. Sombrios umbrais de silêncio. Temas se calam proíbem ou se espreguiçam na noite parda em que por palavras desterro o essencial.

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Anticaleidoscópio

Branco branco muito branco isso é morte Nesses dias sem devir assim aurora é feita Nessas noites de tragédia expectantes em que me demoro inerte morta

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Pós-moderno

A insinuação do mórbido. A imagem violenta. O sangue e o quase deleite da minha emoção. E me dimensiono, frágil ser humano que sucumbe no limiar deste pobre século. Onde alguém com lanterna em busca do homem?

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Criança na rua

Por que brinca você nessa tristeza infinita da cidade? Não posso transpor essa ante-sala da esperança que tão forte se delineia no cinza. Não posso e contudo me entrego nua louca de desejo como nem sei desse estranho alvoroço.

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Rede

Quando meu avô morria, o cheiro já morto de sua pele preenchia o quarto onde estávamos, silenciosos em volta da cama. O acontecimento de sua morte ocupava todo o espaço. O quarto, o olfato, as mentes, os corações. Meu pai sentava-se, órfão. Sua mão, pálida, crispando-se no punho da rede. Seu olhar, perdido em cenas passadas e invisíveis. O cheiro daquela morte visita-me, por vezes, instalado em minha própria pele.

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Olhar de avó

E por que esse retorno aflito de terra e lugar? Não suporto essa agonia do presente. Esse vazio, essa dor, essa posse absoluta do efêmero. Antes absoluto esse desejo de raízes... Estrada, carro de boi, pés descalços, vozes, tardes. Antes fora eu reencontrada nesse olhar de avó que é lembrança tão doce.

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Pedra

Porque meu corpo ingrato não te nutriu nem aqueceu quisera-me eu tão fria quanto o mármore gelado da mesa onde ficaste, imóvel, rígida, sem cor. Quisera negar meu desejo aflito de te dar calor te apertar junto a mim falar-te “meu amor”, “minha filhinha”. Sufocar por completo quisera a esperança inútil de que nada no mundo houvesse que não um só movimento teu. Apenas o privilégio quisera de, imóvel e fria, ficar contigo. :: 111 ::


Definição do gato.

Contato portátil com a natureza. Nuvem atravessando a mesa e outros espaços imprevistos. Nova casa se revela na fotografia felina, em ângulos de precisão e neblina. O mundo visto em sobressaltos: O desafio e o salto, sempre mais alto, sempre mais belo, o gato amarelo. Elo.

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Brincadeira O muro mágico da brincadeira. Tempo em suspenso, vozes e movimento como heras enramando-se no vácuo. O brincar estende cortinas mágicas e envolve tudo, até o olhar austero, imediato e alheio. Subo nesse palco e, surpassando distâncias, posso ainda conceber a intensidade, o momento presente pleno, a vida. Gritos, luta, emoções extremas, vividas sem transição, tudo se realizando ali. O escuro. O espaço. A terra, poeira ou água. A terra molhada de chuva. Narizes escorrendo. Pó, lanhuras que nem doem, que se esquecem de doer, pés descalços, pele rajada, joelhos sempre arranhados. Cor de criança. Rolar na terra, que invade nariz, boca, olhos, garganta, alma, o gosto de ser do mesmo corpo da terra, sangue e veias, por essas vias irmanados. Correr, lutar, coração saindo pela boca, :: 114 ::


sempre disparado. Irmãos e primos, um só organismo, bicho enorme de mil cabeças, braços e pernas, movimentando-se sozinho e junto. O mesmo coração de menino ou de menina, o mesmo desespero de chegar. O exercício lúdico dessa aflição de busca, eterna companheira. E o fim, a meta? Essa é a questão jamais colocada, pois brincadeira é coisa que não tem fim, nem precisa ter, ela é em si mesma, repetindo-se todo o tempo, terminando e começando sempre, fazendo funcionar o organismo. Brincadeira é permanência em si mesma, desde que faça disparar o coração. Desde que reúna vozes e ímpeto, vultos em labirintos de claros-e-escuros, uma eventual fogueira, vagalumes, besouros e sapos, estrelas cintilantes, dor e machucados, euforia e pranto, destemor e medo pânico, a vida em desabalada carreira. Frêmito, ânsia. Alegria, sofreguidão. Infância. :: 115 ::


Onírica (Sonhos em seis tempos) Sonhos Os sonhos revoltaram-se contra a avalanche de palavras corretas em meu cotidiano de agora. Irrompem soberanos, sem pistas para interpretação, sem pontos de contato com os temas de todo dia. Os sonhos desafiam o registro. Inventário de imagens de sonhos ao longo de meses: Uma praça de pedra. Ágora. Sons de instrumentos em afinação. Violinos, violoncelos, contrabaixos. Uma cadeira e uma espera. Um ser mágico, minúsculo, masculino, de olhar profundo, a me fitar. A consciência, sem palavras, daquilo que o ser de olhar profundo lê em mim. A tristeza de uma pessoa querida. :: 117 ::


Silêncios de pessoas queridas que me olham, passando feito sombras. Alguém chora, encolhido, muito longe, forma fetal em sofrimento. Sei que sou eu mesma. Não reconheço esta dor nos minutos oficiais do meu dia. A minha própria tristeza, um choro fetal debruçado sobre si mesmo. Um choro primitivo, de antes do ser. Palavras. Cores nunca vistas. Morte. Darkness. Imagens desconhecidas: uma outra dimensão cujos nomes não tenho.

Diacrônico Um sonho me atravessa o mês abismal.

Religare. Todos, enfim, sabendo que estamos gemendo e chorando neste vale de lágrimas. :: 118 ::


Longa fila em oração, archotes tremulando. É um vale, são pedreiras, são preces. E a consciência de que é para lá que nos encaminhamos, sendo tudo o mais trivialidade, coisas sem importância acontecendo, apenas em compasso de espera.

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Pedreiras Praças de pedra, recorrentemente. Imagens tão fortes, como de um refúgio definitivo. Imagens passando, sempre submersas, e no entanto essenciais.

Olhos Atrás de seus olhos minha mãe guarda os meus cabelos cortados. Eu estava morta ou de há muito partida. Atrás de seus olhos as coisas estão muito bem postas: gavetas, papel de seda, laços de fita. Eu olhava por seus olhos e via assim translúcidos, os ossos de sua face, móveis, diáfanos, dissolvendo-se em névoa.

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E lá estavam, estendidos sobre panos dobrados, meus longos cabelos de criança cortados para que eu não ficasse raquítica e porque não cuidava bem deles: não queria lavar, não prendia que prestasse, não queria desembaraçar. A não ser que ela o fizesse, dia de sábado, usando óleo “Suave”, para não doer.

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Viagem

Ela registrou seus sonhos no caderno que lhe dei de presente. Ela arrumou na mala pedaรงos de sua alma. Suas veias abertas sangram em despedida. Ela diz adeus para lugar nenhum e parte, sem quandos nem ondes. Fantasmas melancรณlicos dormem em sua cama solitรกria. A lรกgrima sobre a mesa.

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Stacatto É o verão que se insinua. É a gota de sangue na letargia da tarde. O aconchego das nuvens ao entardecer. Rosas e azuis. Não vi o semblante das ruas e pessoas. Talvez alguns passos. Não vi o suor ou a lágrima colados ao humano. O dia é cor de shopping e estou morta.

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Pane

As palavras estão impacientes como livros amontoados em prateleiras. Anseio por manejá-las todas, e não adivinho qual vou usar primeiro. Por que o carro quebrado há-de interromper a escolha das palavras após sua tão longa espera? É assim a hora da cidade, impaciente, voltando para casa. O carro e eu quebramos na via de alta velocidade. Fico imprensada entre carros e palavras velozes. Hirta como esculturas habitando um ferro-velho.

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Imagens de Salvador sitiada

O silêncio felino nestas noites em que o absurdo nos toma. As fotos de Salvador tomada pela violência. Em Pituaçu, o artista palmilha silencioso e melancólico os vestígios da destruição. Perplexo, atônito. A criança chora sem nada compreender. O desconexo das imagens e o longo caminho da cidade. A cidade submersa, a cidade ao sol. O corpo ferido da cidade. A cidade viva e violenta. A morte. Busco a sintonia possível com seu movimento sempre tão dentro da minha própria pele.

A cidade emudece, paralisada. Silêncio onde havia gritos e algazarra. Gritos onde tudo era murmúrio. O gato passa silencioso e atravessa o opaco em luvas de algodão e espinho. :: 125 ::


Estrada do Côco.

Um coqueiro é um bicho esquisito, árvore quase mística, caule retorcido em quase desespero, mãos espalmadas ao céu. Os coqueiros parecem rezar, esquisita procissão que se recorta, e parecem conter o mar, e parecem conter a areia, e parece que me esvaio, e nada somos, e nada é.

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11 de setembro

Denso, denso. Minutos que se poderiam esculpir. Setembro vem impiedoso. Manhattan dinamitado, coração implodido. E pensar o quanto lamentamos “não poder, sozinhos, dinamitar essa ilha”...

Nossa pequenez, a vida e o turbilhão de cartas postas sobre a mesa. Nenhuma mesa, aliás, nenhum chão, nenhuma certeza.

A fissura da imprevisibilidade e da medida que cabe ao homem, ante a Salvação prometida, vivida, feito morte e vida.

Nossa cegueira, nossos falsos ídolos. O coração pequeno, minha viagem contida numa guerra. Minha própria guerra me ocupa. Vida a que me apego, vida que vislumbro, :: 127 ::


vida de que fujo. Graça imerecida, vãs as minhas palavras. 4

Só Tu, Senhor, tens palavras de vida eterna .

4

Evangelho de São João, 6. 68

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Milagre de Natal . É abril e eu, que mal sei rezar, rezo5a Deus por um milagre. Não sei se nos fere a Sua ira ou a Sua misericórdia, mas estamos feridos de Deus, feridos da ira de Deus. O nosso coração contemporâneo é de pedra, mais para a pedra do World Trade Center do que para a pedra da Igreja da Natividade. Coração analfabeto, perdido de sinais e só entendido de semiótica. Queria encomendar, de preferência via e-mail, um milagre divino e absoluto, Deus ouvindo e aplacando os clamores de Seu povo. Um milagre que em mim aplaque esse alvoroço esse nó na garganta essa dor das faces paralisadas e para sempre suspensas, dos olhos de criança tanques de guerra e “cadáveres insepultos sobre o berço do Menino”. Milagre definitivo, com o qual eu não tenha nada a ver, bem fora de mim e bem distante das dores do cotidiano perto de mim, tal qual águas do Mar Vermelho se abrindo ou templos que desabam e se reconstroem em dias. Mas que não seja eu o fluido, o mutável, a água 5 Texto que nasce de mais um diálogo intertextual, sobre o cerco à Igreja da Natividade em Belém, em 2002. Wilson Senne me escrevia sobre esse fato e referia-se aos “cadáveres insepultos sobre o berço do Menino”.

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que lava teias e dores, que fique intacto esse coração de pedra.

A igreja cercada é um estranho sinal, atravessa corpos vivos e mortos, pessoais e institucionais, percorre infovias e me faz, hoje, perplexa, rezar. A igreja cercada é um milagre.

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Ano Novo

Para mim é sempre um espanto que cheguem os anos, assim como os dias marcados, as datas inventadas, esperemos por elas ou não.

A vida é um espanto. O poema, sua expressão mais absoluta.

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Ao remetente

Onde morava a poesia? Não nesse lugar de direções Não nessa ausência de vácuo. Sem abismos ou delírio, Não divago. Sem o vago, impreciso, Não há nada.

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Janelas .............................................................. O windows acaba de converter automaticamente minhas marcas em pontos pretos não interrompidos. Quais são minhas marcas? Há um nevoeiro do qual surge o poema. Sua beleza vem do trabalho insano para despistar, não deixar marcas. Poema cuja única ambição era o silêncio.

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Calmaria

Esta calma quisera tempestade trocar o momento estático pela ebulição.

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Gestação Por que difícil se faz a palavra? Temas que se calam ou proíbem. Ecos distantes. Fogos fátuos à espreita. Espera sobre si mesma debruçada.

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Poema materno inacabado Mãe é feito sangue consagrado no parto, o coração trêmulo. Memórias de mãe são como sangue. Sangrar é anúncio, pois que mãe é matriz. Sangue é via veias artérias vida. Memória tem artérias e são vermelhas. O sangue marca os ciclos e se lava com água, amor e silêncio. Quando a menina em susto vê o sangue, vem a mãe, e vem a água, e lavam os panos. Pois que mulher existe entre panos, e o silêncio é ouro. A natureza fala por gestos e lágrimas e sangramentos, o que também se conhece pela palavra amor. A mãe se desdobra antes de retornar a si mesma, em concavidades. Agora cabe à filha o mesmo ancestral gesto de trazer a água e lavar as marcas do corpo quando não sabe de si mesmo. E o silêncio é outro. O cuidado sustenta o existir, sem palavras. Mãe é feita de concavidades, colos que se estendem por sobre os dias, e através das noites. :: 138 ::


Nunca se ausenta a mãe das madrugadas, mesmo se as madrugadas podem trazer sua ausência. Não deveriam. Mãe nunca é ausente, Ela transparece nos gestos e legados.

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Poema erótico

O universo pulsa dentro do meu sexo, esse lugar onde sou o inusitado, o possível, o sempre desconhecido, deep inside e terrivelmente exposto. Esse lugar onde todos os dias nasço e sei de mim, estranhamente raízes e asas, chão e cosmos. Isto que está sempre mas agora se quer em nomes. Nomes de peles e mucosas e órgãos e toques e cores e sumos como fibras óticas, estrutura reticulada pela qual me conecto e sou.

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Ensaio

Escrever, ainda, sob a sensação do clandestino. Certa mistura de lugar, vestes e gestos. O telefone ainda quebra a precária composição.

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Labirintos

Falta-me o interlocutor. O diálogo é entre sombras. Estas se movem na noite E seus gestos, no silêncio, Compõem louca dança. Frenesi insuspeito. Vejo-me em labirintos. Não conheço pai, mãe ou varão. Estou imóvel e Calo-me.

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Móbile

Novos espaços, e os mesmos labirintos de ocultamento e disfarce. Perturbação e enleio, desconforto no próprio eu. O eu está desconfortável. Como o equilibrista do Cirque du Soleil, confia naquele que segura os fios. Seu movimento é ilusão, só existe nas mãos daquele. O equilibrista está desconfortável. Inventa nós e tranças. Abismos e angústias nada mais são que disfarces. O salto no infinito.

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Uma mulher

Hoje é julho e sou uma mulher. Sou só e nua. Quero, sim, o fruto proibido, rubro e teso em minha pele. Quero a última gota, latejo e açoite, o gozo impossível, pleno fugaz (e)terno. Não conheço essa aflição que sou eu no mais secreto. Desfibrilação, desfalecimento, desvario que se desata. Desejo que se desvela, nu e sem decência. Não posso nomear o que me toma, e me reduz, e me arrebata, e só, e nua. O silêncio da caverna.

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Casulo

E pode ser que me esconda esgarçando meus contornos, diluindo formas, sendo ambígua e nunca sim ou não.

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Transparência

Onde inscrever essa sintonia, Essa aderência às coisas em suas horas? São poros que se abrem querendo ser coisa, Alcançar o estado de coisa, objeto dado, feliz e total em seu existir. São assim esses momentos: Transparência.

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Freqüência

Colar essa aflição de música ao mistério interior e essencial da palavra. Torná-la ritmo, cadência, mistério que se completa à minha revelia. Mas as palavras me fogem, vêm e se esvaem, em volteios, o papel intangível, o silêncio dominando, contendo esses momentos de fugaz sentir, música andeja que era eterna e está sempre nessa freqüência rara cujo limiar cai por vezes tão fugazmente.

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Caracol

As palavras me tocam, me constituem, sĂŁo o centro dos dias. Mas pouco escrevo, descompasso, sem sintonia ou equilĂ­brio. Malabares que deixo cair, Desequilibro. Sem trabalho, compromisso ou poesia.

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Passante por vezes quedo-me hirta imitando os passantes a chuva chove a si mesma e eu desespero-me de ser

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Da beleza de Deus

Olhos alados. Palavras sem trégua. Mas não escrevo, poesia distante. Meu manuscrito circulando. Leitores reticentes. Dentro de mim o dragão, olhos alados. Sou um continente e seus rios que correm, mansos e em fúria. Sou as palavras desatadas quando algo me desperta, algo gratuito e fortuito disperso em algum atalho, eu sem caminhos. Apenas um caminho, e eu distante. Rios fluem mansamente. Persisto no erro, furiosamente. Rios fluem, e sou eu. Perco a palavra e o destino. Só o amor de Deus me salva, a mim, que não fiz por merecer. :: 150 ::


Nuvem

Há um estado de enxaqueca no qual se tecem as palavras e do qual se põem a vagar no mistério da poesia. Preciso desse nebuloso, desse à flor da pele, para deixar fluir o texto, nessa semi-inconsciência tão próxima da absoluta lucidez.

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Acenos

Hoje o dia tem acenos e é volátil. Versos me espiam pelos cantos da casa e se dissolvem em preguiça no corredor. Percorro três canções e a vida dos insetos me assombra, tamanha maravilha. Há um trânsito de vozes e segredos rumo à varanda. No silêncio da rua sombras experimentam roupagens, atravessam vãos, como se fosse domingo. De manhã cedo era o dia do Senhor, havia abraço, choro, aflições e o Magnificat. Volto para casa repleta.

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O ilusionista O tempo varre a memória, devastador. O tempo desfigura imagens. Suave ou brusco, atenua contornos, desfaz ilusões, deixando nua a minha recordação. O tempo torna anônimas as marcas em minha própria face, como se não fossem vestígios do que vivi.

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Dorian Gray

O telescópio Hubble, da Nasa, encontrou uma galáxia digna do ‘Retrato de Dorian Gray’, do escritor Oscar Wilde. O protagonista do livro permanece jovem com o passar dos anos, enquanto um quadro com sua imagem envelhece misteriosamente. Assim como a pintura, a galáxia I Zwicky 18 parece mais velha quanto mais os astrônomos a estudam (Notícia divulgada em http://www.uol.com.br, 17/10/07).

Enquanto isso, no vasto mundo, periga de aumentar o preço do pão e a fome. Periga de um peixinho ter insônia devido a uma mutação genética e ao desequilíbrio ecológico. Periga de a barbárie entrar em todas as casas, de nos perdermos sem fotografia, sinal ou identidade, cumprindo os atos burocráticos mas não os necessários, enredados nos anéis de Saturno do esquecimento, como se fosse vida. :: 154 ::


Equação

O poema e seu mistério. Paralaxe. Palavra que me atravessa o fim de ano. Acordo com ela, não sei o que significa, embora. Paralaxe. Esse movimento, contudo.

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Vertigem

E Deus que me chama, de Sua misericórdia, e me mostra caminhos, e cava abismos diante de mim para que eu possa ter a exata medida do meu ser. Para que eu não me fixe nem me instale a não ser na vertigem de Sua morada. Este Reino que não é deste mundo mas nele se constrói, neste caminho de maravilha, assombro, pavor e miséria.Esta, a única conexão possível, tudo o mais circunstância, caminhada, contingência. Deus cava abismos diante de mim para que eu seja salva.

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Post Scriptum

Quando tinha medo nem de leve ousava ser-me. De lugar ou gente perdia-me. E todavia, intacta.

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Ana Cecília de Sousa Bastos. Nascida em Salvador, Bahia, 29 de maio de 1954. Marcada para sempre pelo mar de Itapagipe e pela chapada do Araripe, Crato, Ceará, onde passou parte da infância e a adolescência. A mais velha dos nove filhos do poeta cearense José Newton Alves de Sousa e de Maria Ruth Barreto Alves de Sousa. Casada com Antonio Virgílio Bittencourt Bastos, mãe de Mário Vítor e Ana Clara. Escreve desde a adolescência – único modo possível de estar no mundo, Deus permitindo. Vencedora do Prêmio Copene (atual Brasken) de Cultura e Arte em 1999, teve seu livro Uma vaga lembrança do tempo editado pela Casa de Palavras/Fundação Casa de Jorge Amado. Publicações esparsas anteriormente: Poemas (edição de autor), 1976; alguns poemas (imprensa universitária, antologias). É professora da Universidade Federal da Bahia (Departamento de Psicologia e Instituto de Saúde Coletiva) e pesquisadora do CNPq.

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Álvaro Machado Nascido em Salvador, Bahia, em 03 de dezembro de 1970. Artista plástico autodidata, já aos 15 anos obteve menção honrosa no concurso de desenho para jovens artistas promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Em 2005, ganhou o Prêmio Brasken Cultura e Arte em Artes Plásticas, com a exposição O Artista e o Ouro. Aos longos desses anos, participou como ilustrador/colaborador do suplemento literário do jornal “A Tarde” e de diversos livros e revistas literárias. Realizou exposições em diversas galerias em Salvador.

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A Impossível Transcrição (De tudo fica a poesia)