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Menino Carvoeiro é uma história fictícia, porém muito comum e atual em várias partes do sertão brasileiro, a qual foi criada a partir da composição da música “Menino Carvoeiro”, com a qual conquistei o 1º lugar no Festival “Canta Limeira”. A partir disso me aprofundei em pesquisas e procurei documentários exibidos nas TVs, reportagens de jornal, textos que circulam pela internet e relatos feitos por pessoas que já passaram por essa condição subumana de trabalho. Talvez a grande maioria das pessoas que consomem carvão vegetal não tenham a mínima noção da origem desse combustível que alimenta o braseiro de sua churrasqueira, geralmente acesa por motivo de alguma comemoração. O carvão vegetal provém da combustão da madeira sem o contato com o ar. São aproveitadas para sua produção as matas virgens e as capoeiras do cerrado, formadas após o desflorestamento, sem preocupação alguma com seleção das madeiras. Enquanto comemoramos nossas conquistas, centenas de crianças se acabam em carvoarias clandestinas espalhadas pelo nosso país. É um trabalho indigno, que precisa ser denunciado e erradicado. Além do consumo doméstico, existe também um outro consumidor em potencial: As grandes Siderúrgicas. Estas consomem a maior parte desse combustível barato, mas deveras insalubre.


Existe ainda,

por trás dessa exploração, o fator de desequilíbrio

ambiental. Normalmente, não se faz o replantio das áreas desmatadas, causando a devastação do nosso cerrado, que se transforma no ouro preto da exploração infantil e do serviço escravo. Para se produzir três sacos e meio de carvão é necessário, no mínimo, um metro cúbico de lenha.

Marcos Lima


M達o de Menino Carvoeiro


MENINO CARVOEIRO

Paisage em meio as nuve de fumaça. Lugá onde mora a morte da vegetação do cerrado centro-oeste. Combustive das futura festa civilizada. Oro negro do sinhô nosso patrão, produzido ás custa da nossa infância isquecida. Pra nóis, veneno qui suga nossas vida e que dá nome pra nossa lida. Nesse lugá, passamo muita tristeza. Mais argumas alegria tamém. Eu num iscrevo, mais aprendi umas palavra bunita orvino as prosa dos home rico qui vem aqui por di veiz inquando pra mó de comprá tudim o que nóis faiz. Pensava eu, que era só nóis nesse mundo de meu Deus que trabaiava com carvão, de tanto que nóis trabaia de sol a sol. Mais já fiquei sabêno pelas conversa dos compradô que aparece por aqui, que tem ôtros lugá como esse espaiado pelo sertão afora. Pra mó de nóis num ficá sem tê nem o que cumê é qui nóis trabaia cada veiz mais. E tamém pro sinhô nosso patrão não se zangá e mandá tudim nóis imbora daqui. Nóis somo os “menino carvoeiro” e esse é nosso distino.


“ Paisagem” de uma Carvoaria Foto: “Projeto Luz das Carvoarias”

Hoje é dia de festa. Padim tá rino á toa! Acaba de nascê o caçula que veio como promessa pra miorá a situação de nóis tudim aqui. Eu, mais meus irmão já num aguentamo mais lidá cum as coisa tuda aqui sozim. Pricisamo dimais de ajuda, e Salvadô acaba de nascê. Ele veio té cum nome mais maió qui os nosso. Salvadô do Santo Dia! Mainha coitada! Tá lá jogada no chão do barraco se recuperano dispois de tê parido mais um fio. Mais tá tamém filiz de tê dado mais um fio home pro padim. Nóis já tamo ficano véio e cansado. Tem dia qui nóis nem respira mais direito e as perna bambeia de tanta dor, só de pensá que amanhã antes do sol nascê, nóis cumeça tudim traveis.


Meu nome é Vantecir. Já tô cum 12 ano. Mais tenho meus outro irmão mais novo. Vantuir cum 10 ano, Gamaliel cum 9, Suzeneide que era pra tá cum 7 ano, mais morreu quando tinha 4 ano, Suzemira cum 6, Suzane cum 4 e agora Salvadô que acaba de nascê. Tinha mais dois que nascero morto, que num chegaro nem a tê nome, mais padim nem ligô por dimais, pra mó de que era mais duas muié. Padim tinha té disistido de fazê mais fio, cum medo de fazê mais muié. Elas num dura por dimais tempo nessa lida. Elas são mais fraca e num tem a corage que nóis menino tem. Nóis entra e sai naqueles forno de fazê carvão o dia interim sem nem mermo um chinelo nos pé. As minina fica cum a serventia das lenha e tapano cum barro os buraco dos forno, que é serviço mais fáci. Suzemira é a mais forte. Parece té um muleque. Essa guenta entrá nos forno cum nóis menino. Suzane não. Ela chora e nóis manda ela fazê ôtras coisa. Penso em trabaiá pelo menos até os 16 ano, que nem meu irmão Valdenir que já morreu. Ele era meu miló amigo. Já se faiz dois ano que ele se foi. Foi ele que me insinô como entrá no forno e segurá a respiração até contá 32. Assim o serviço rende mais e dá pra ganhá um bucadim mais de dinhêro. Foi assim que Suzeneide morreu. Ela num sabia contá direito pra mó de que era por dimais novinha inda e ficô por dimais de tempo drento do forno respirano as fumaça. Nóis num tava por perto pra ajudá ela, e ela num güentô!


Quando nóis achamo, ela tava té inchada do calô do forno e co zóio isbugalhano de tanto tussí. Nossa vida há de miorá um bucado agora que nasceu Salvadô, nosso irmão caçula. Vô intão contá proceis um bucadim mais da história de nossa vida.

Menino Carvoeiro Foto: “Projeto Luz das Carvoarias”


Na verdade já existiro ôtros Salvadô por aqui. E na esperança de mudá nossa vida, foi que padim resorveu fazê um pra ele tamém. Foi uma promessa qui ele feiz de colocá o nome do próximo fio home de Salvadô. Quando eu nasci, meu irmão Valdenir já tinha 4 ano. Ele sempre foi meu orgulho. Foi cum ele que aprendi tudim aqui e que dispois pude insiná pros meu ôtro irmão a lidá cum carvão. Me lembro como se fosse hoje ele ralhano cumigo: -

Vantecir tome cuidado muleque! Tu vai se queimá! Sai daí! Num fique

por dimais tempo aí drento! Se num sabe contá não muleque? E padim só oiava as orde dele. Tamém, ele já sabia tudim ali. E padim cunfiava nele! As veiz ele mandava té no padim! Segundo mainha conta, ele já nasceu na lida do carvão. Cumeçô cedim. Enquanto ela ajudava padim na lida, Vantecir ficava no cantinhu dele quétim. Mainha fazia prele um cobertinhu de foia de palmêra e ele ficava lá enquanto mainha e padim se acabava na lida. Cum pocos meis, ele fazia dos carvão, bichinhu de brincá. Era só achá um carvão de jeito diferente que ele já usava de brinquedo. E num é que ele tinha vaquinha, cabritim, calango, passarim! Cum dois ano, ele já queria ajudá, mais mainha num dexava. Precisô té fazê um cercadim pra prendê ele lá drento, sinão quando via, tava ele lá no meio da lida. E por de veiz em quando, ele tomava uma queimada nas mão de pegá carvão inda quente.


Mais num teve jeito. O cercadim num segurô esse minino por dimais tempo não! Quando pensava que não, tava ele pra fora pegano os gaio e levano pro padim que nem mainha fazia. Cumeçô divagazim e quando dero conta, já tava ele cum poco menos de treis ano ajudano na lida todo dia. E padim ficava todo orgulhoso de tê um muleque tão isperto. As veiz quando mainha ficava aduecida, ele é que ajudava padim na serventia das lenha. Ia mais devagazim, mais ia. E foi assim que ele foi aprendeno, té que mainha imbuxô de mim. Padim dizia que tinha que nascê mais um fio home que era pra mó de ajudá que nem o Valdenir. Assim ia podê miorá de vida quando o outro fio já pudesse trabaiá. Valdenir já tinha 4 ano quando eu nací. Padim ficô por dimais filiz quando viu que tinha nascído mais um fio home. Mais dispois ficô por dimais é bravo da vida quando viu que mainha ia tê que ficá uns tempo sem podê trabaiá, pra mó de que a partera falô qui ela perdeu por dimais sangue quando me pariu e pricisava de tomá cuidado pra num morrê de animia. Eu tamém dei por dimais trabaio dispois de nascido! Aqui as criança já nasce té meio fraco, pra mó de que as mãe num come direito e dispois de uns dia, o leite de mainha secô. Disse madrinha Jupira que isso se deu pra mó de que mainha recebeu a visita de dona Olegária que tava sangrano por dibaxo na hora que eu mamava


nas teta de mainha. E quando isso acuntece, a visita leva o leite imbora. Intão eu tive que sê criado cum farinha e leite de cabra. Madrinha Jupira é a benzedêra que mora na vila aqui pertim, á uma hora pra traiz do morro do Zé tortim. Ela que é tamém a madrinha de nóis tudim. É só dá uma dorzinha qualqué em nóis que mainha corre lá pra ela fazê umas reza e receitá umas erva que ela planta, que nóis sara rapidinho. É uma santa muié. O povo diz que ela benze té bucho virado, nó nas tripa, mal oiado, picada de cobra, tirícia e um monte de coisa. Eu mermo já perdi as conta de tanta veiz que mainha já me levô lá. É que eu chorava por dimais quando eu nascí. Mainha diz que eu chorava dia e noite sem pará. E ela tentava de tudo preu pará. Té passava as noite cantano umas cantiga preu pegá no sono. E quando num dava certo, mainha corria lá na madrinha Jupira que fazia umas reza e eu drumia. Dispois que eu crecí, té chorei umas veiz de mintira, só pra mainha me levá na casa de madrinha, pra mó de que eu gostava por dimais dela. Mais tamém fazia isso pra fugi um poquim da lida. Valdenir foi quem insinô pra nóis os segredo de fazê os carvão direintim e isso quem insinô pra ele foi padim. Primêro a gente corta as madêra, dispois dêxa elas do tamaim que cabe em cada forno. Dispois de preparada tudas madêra i infilerada, fechamo os forno e dêxamo um buraco para mó de tocá o fogo. Pra mó de sabê quando tá ficano


no ponto nóis tem um segredo. Nóis óia as cor das fumaça. Quando as fumaça tá branca, inda num tá bão. Quando já tá bão, a fumaça fica azul. Se o fogo tivé forte por dimais é só nóis tapá uns buraco que nóis chama de janela de respirá, que o fogo fica mais fraquim. Quando as madêra cuméça a cuzinhá, temo de esperá 4 dia e mexê cos ôtros forno. Dispois de 4 dia de cuzimento, é priciso isperá mais 4 dias pra mó do forno isfriá e ficá no ponto. Dispois disso, é só abrí as porta feita de tijolo e barro, tirá os carvão e insacá.

Carvoaria em funcionamento Foto: “Projeto Luz das Carvoarias”

Mais aqui é sempre curreria e nas maioria das veiz, nóis nem ispéra de isfriá di tudo e mermo qui tem as fumaça inda, nóis já pricisa de tirá os carvão de drento dos forno, que é pra se adiantá. Isso custa um bucadim mais de sofrimento, pra mó de que nóis pricisa de guentá as caloria que é drento do forno.


Padim conta qui quando ele aprendeu a trabaiá na lida do carvão, ele aprendeu trabaiano na *caiêra. Que era mais difici e mais pirigosa de se mexê. Conta padim que resorvero mudá de jeito de fazê carvão, dispois que andaro acunteceno uns acidente cum criança. O modo de lidá co carvão é o mermo, mais as caiêra são diferente, pra mó de que os forno são aberto no chão, dispois as lenha são colocada drento dele e dispois cuberto cum terra. Quando aqui a lida era na feita na caiêra, umas criança andaro se distraino quando brincava e pisaro em cima do forno, que disbarrancô e elas caíro drento cas lenha inda em brasa. Elas queimaro pé, mão e perna. Dispois desse ocorrido por duas veiz, eles resorvero mudá pros forno de balão. Aqui no cerrado o calô já judia de nóis por dimais, e cos forno aceso fica por dimais quente inda. Tem dia qui parece qui a cabeça da gente vai se ispludí de tanta caloria. Padim diz que nóis tem que sê macho e guentá fazê assim, que é prá mó de rendê a lida. Eu nunca gostei muito da lida cum carvão que nem Valdenir, e ele sabia disso.

*

Caiêra ou Caieira: Forno proveniente de uma vala aberta no solo, o qual será coberto cum terra após a colocação das lenhas para fabricação do carvão.


Quando ele pircibia que padim ia ralhá cumigo por mó de não tê acabado minha lida, ele me ajudava rapidim preu me adiantá. Ele era que nem nosso anjim da guarda. Quando nóis pricisava, tava ele lá! Certa veiz, ele salvô té o mocotó. Mocotó era nosso cachorrim. Padim num gostava muito qui nóis ficasse brincano co Mocotó pra num se distraí na lida. Mais nóis se esquecia e de veiz em quando tava nóis nas carrêra co mocotó. Um dia padim se infesô e quiria dá fim na vida dele, mais Valdenir entro na frente dele e num dexô. Nóis tudim choramo de medo e num brincamo mais cum ele na hora da lida. Mocotó era cachorro sabido, vivia pulano em vorta de nóis e dispois saía na carrêra, quereno que nóis corresse atrais dele. Mais se ele via padim, ele logo deitava no chão e esperava padim saí pra outro lado pra cumeçá tudim dinovo. Ele avisava sempre nóis dos pirigo que tava rondano. Quando tinha uma cobra por perto ele logo cumeçava as latição pra mó avisá nóis. E aí Valdenir corria lá pra ispantá a bichinha. Nóis mais piqueno nunca fomo picado de cobra, mais Valdenir já tinha sido picado umas duas veiz, por mó de que sempre no meio dessas lenha que nóis junta, sempre se isconde uma ou ôtra cobra, mais madrinha Jupira salvô a vida dele. Nóis té intende por mó de que elas vem. É qui nóis derruba as casa delas e trais aqui pra fazê carvão, aí elas vem atrais pra prucurá as casa delas.


Foi madrinha Jupira que deu pra nóis o Mocotó, que era cria da cadela que ela tem lá. Uma das diversão que o Mocotó mais gostava era corrê atrais das borboleta do cerrado. Ele era meio tonto, mais esse era o jeitim dele. Quando Vantuir nasceu, eu já tinha 2 ano, eu num me lembro disso, mais mainha diz que eu num gostava dele. Diz mainha que eu sempre fazia de tudo prele chorá. Diz ela que eu vivia colocano furmiga cortadera nas perna dele pra mó dela picá e ele chorá. Certa veiz mainha me colocô de castigo ajueiado no mio por conta disso. Aí eu num fiz mais. Quando Vantuir cresceu um bucadim mais e que cumeçô a intendê as brincadera, foi qui eu peguei gostá dele. Mainha sortava nóis peladinho no terrero e nóis brincava de colocá as furmiga pra brigá cum aranha e ôtros bichim. Valdenir insinô pra nóis como fazê forno de carvão de brincadêra. Nóis juntava barro em cima dos pé e dispois qui tira o pé de drento, o forno fica igualzim dos de verdade. Dá té pra colocá uns galho drento tocá fogo se quizé, mais nóis usava mermo pra prendê as furmiga lá drento. Quando nóis brincava, eu é que era o dono da carvoaria. Assim eu pudia de sê rico e comprá um caminhão cheim de farinha pra num passá mais fome. Mainha pelejô por dimais pra que Vantuir vingasse. Ele nasceu de 7 meis e por uns tempo foi madrinha Jupira que ajudô cuidá dele. Penso eu que é por


isso que eu num gostava muito dele. Pra mó de que quando eu quiria ficá cum madrinha um bucadim, era dele qui ela tava cuidano, e eu ficava aburrecido. Por diversas veiz ele quase que morreu! Uma dessas veiz que foi a mais cumpricada, mainha diz que foi por disdidratação. Num sei direito qui é isso, mais mainha diz qui foi pra mó de que o Vantuir ficô cum caganêra por dimais tempo. Nessa veiz eu chorei de trizteza e num quiria qui ele se fosse. Vantuir sempre foi dos muleque, o que mais deu trabaio pro padim e pra mainha. Sempre foi de muita brabeza. Nunca quis seguí as orde de padim e quando chegô o tempo de cumeçá na lida do carvão, ele fugia e se iscondia no mato e só paricia no fim da tarde. Quando não, ia pra casa de madrinha Jupira e ficava lá por mais de dia. Outra coisa qui ele fazia, era fingi qui tava aduecido, mais quando nóis saía pra lida, ele passava o dia brincano co mocotó pro meio das mata do cerrado. Mainha sabia qui era tudo fingimento dele, mais pro padim num dá uma cóça nele, ela num contava nada pro padim. Ele sempre gostô tamém de judiá das irmã mais nova, só pra vê elas chorá. Suzeneide foi a que mais sofreu nas mão dele. Quando Valdenir via essas malvadeza, té que ele ralhava cum Vantuir, mais ele era danado e sempre voltava a fazê. Certa veiz ele arrancô a cabeça da buneca de sabugo que mainha fez pra Suzeneide e amarrô no rabo do mocotó, só pra ele saí correno por aí


arrastano a cabeça da buneca. Té qui tava ingraçado! Mais Suzeneide chorava por dimais e Vantuir jurava que não tinha sido ele não. Hoje té qui ele ajuda um poquim na lida do carvão, mais quando nóis se distrai ele disaparece e dispois fala qui tava no matim fazeno as nicicidade dele. Suzeneide sempre foi a fia mais amorosa e prefirida de mainha. Foi a primera das fia muié. Antes dela morrê, era ela qui cuidava de mainha quando mainha tava aduecida e antes de saí pra lida, ela ajudava tamém mainha cas coisa de casa. Certa veiz ela enfeitô nosso barraco interim cum flô do campo. Mainha té chorô de aligria de vê a lindeza qui ficô o barraco. Quando chuvia qui as flô se abria, lá tava ela pegano flô pra pô nas coisa. Padim num gostava muito não. Ele quiria mermo é té ganhado mais um fio home. Padim dizia que muié num prestava muito pra ajudá na lida. Mais té qui Suzeneide ajudava bastante. Nóis colocava ela pra fazê mermo é a serventia das lenha. E ela era bem isperta! Certa veiz ela foi mordida de iscurpião e nem falô nadica pra ninguém, só prá mostrá pros minino que ela guentava. Mais quando anoiteceu ela caiu em febre e quase qui num guentô. Mainha precisô corrê cum ela lá pra casa de madrinha Jupira na iscuridão da noite mermo. Madrinha já tá té custumada cum essas coisa. Já tem os remédio certim pra tudo. Dessa veiz Suzeneide aprendeu qui num devia brincá cum essas coisa.


Quando Suzeneide morreu, foi uma tristeza muito grande pra nóis tudo. Ela já tava grandinha. Tinha feito 4 ano há pocos dia. Tava filiz da vida pra mó de que mainha tinha dado pra ela de presente uma buneca nova que mainha mermo feiz. A buneca tinha ganhado té nome! Era Pitelma. Esse nome ela tirô das idéia dela. Por onde ela ia, ela levava a Pitelma junto. Era té ingraçado! Pra mó de que ela cunversava cum essa buneca que nem se fosse gente. Padim já tava té meio preocupado achano que Suzeneide tava bilolano dos parafuso. Nesse dia em que ela morreu, nóis tava na lida deusde cedim, antes té do sol nascê. Valdenir é que acordava tudo nóis. Padim já tava em pé mais mainha já fazia tempo. Ele saía cedim pra tirá o leite das cabra pra nóis tomá cum farinha pra mó de podê guentá na lida. Tudo acunteceu por mó de que Gamaliel tava impricano cum Suzeneide de que ela num largava da buneca e que ela num guentava fazê o tanto de carvão que ele fazia no dia tudim. Intão ela resorveu mostrá pra ele que as minina consiguia. Intão eles resorvero trocá de lugá. Gamaliel ficô cum a serventia das lenha e Suzeneide de colocá e tirá de drento dos forno. Gamaliel era mais rápido que Suzeneide. Tamém ele era dois ano mais véio qui ela. E ela num tava dano conta de colocá tudim que nem ela pensava. E tamém era mermo mais difici.


Lenha que vai ser colocada no forno. Foto: “Projeto Luz das Carvoarias”

A lida no forno é pra mais de difici! É por dimais abafado, pesado e tem tamém as fumaça que entra no nariz e nos zóio da gente que chega té da ardedura. Por de veiz em quando que nóis se esquece de fechá o nariz pra num respirá fumaça, nóis se afoga e pricisa saí rapidim pra num caí lá drento mermo do forno. Valdenir aprendeu cum padim e ensinô nóis a contá té 32 que é pra num ficá por dimais tempo lá drento. Mais isso as minina inda num sabia fazê. E nóis nem se alembrô disso. Quando nóis saímo de casa pra í pra lida, fomo pedí as benção pra mainha e ela disse que tava co coração apertadinho por dimais e que era pra nóis tomá cuidado e pra í cum sinhô nosso Jesuis. Valdenir inda falô pra mainha: - Pode dexá mainha que eu tomo conta deles direitim.


Lá pro meio da manhã, padim pricisô saí um bucadim e pidiu pra Valdenir passá as orde pra nóis mais pequeno. Assim que padim saiu, Valdenir deu as orde: -

Agora eu que mando nas coisa aqui, té padim vortá. Seis tem que fazê

tudim que eu mandá. Nóis rimo da cara dele. Ele num tinha cara de quem sabia mandá. Valdenir gostô por dimais de dá as orde. Paricia padim mandano! Ele repitia tudim igualzim padim: - Vantecir! Num demora muito pra tirá os carvão se não passa do ponto. - Suzeneide! Num se esqueça de separá os tamaim das lenha. E Suzeneide respondeu: - Sim sinhô padim. E tudo nóis caímo nas gargalhada. Té mermo Valdenir riu da brincadera e até parô de passá as orde e falô. - Vão fazê as coisa direitim pra quando padim vortá ele num ralhá cum nóis. Quereno se adiantá dos atraso na lida, foi que Suzeneide ficô um bucadim mais enquanto nóis paramo pra tomá um bucadim de água. Quando nóis voltamo, num vimo a Suzeneide. Mais pensamo que ela tinha ido tomá água e ido no matim. Nem se preocupamo!


Quando pegamo dinovo na lida, foi que Vantuir achô ela caída drento do forno. Puxô ela pelas perna e saiu correno chamá nóis, qui tava nos forno de trais. Padim num tava lá inda, tinha ido no casarão do sinhô nosso patrão pra mó de sabê das coisa que ele tava quereno e num tinha vortado inda. Valdenir ralhô cum ela, mais já num diantava mais. Ela tava té co zóio isbugalhano de tanto qui tussiu. Gamaliel e Vantuir saíro de carrêra pra mó de chamá ajuda e eu fui procurá padim na casa do sinhô nosso patrão. Já na picada encontrei padim vindo e contei tudim pra ele que saiu na carrêra mais eu pra vê cumé que isso se deu. Padim tentô de tudo pra fazê Suzeneide respirá traveis, mais num deu nada certo. Padim ficô danado da vida por dimais cum nóis. Nunca tinha visto padim danado daquele jeito. Ele pegô Valdenir pelos braço, sacudiu e brigô cum ele. Quiria sabê pra mó de que ele num tinha visto aquilo. Falô que ele devia de tê cuidado dos mais novo. Enquanto ele num tava ali. Foi uma choradêra muito grande. Veio té os amigo de padim que lida nos ôtro forno que fica nas bateria do ôtro lado de trais da fazenda do sinhô nosso patrão. Té o mocotó trôsse a Pitelma na boca e colocô em cima de Suzeneide pra ela brincá cum ele.


Padim chorano, pegô Suzeneide no colo e nóis fomo tudim trais dele, levá ela pro barraco. Mainha num tava nem sabêno de nada inda. Quando nóis chegamo, mainha tava cuidano de Suzane e preparano as coisa de cumê pra dispois levá pra nóis na lida. Quando ela viu que nóis tava chegano, paricia té que já tava adivinhano que tinha coisa ruim acunteceno. Ela entrô em choradêra e saiu gritano de encontro a nóis. Coração de mãe té parece que já sabe das coisa que acuntece cos fio dela. Ela chegô té nóis e viu que era cum Suzeneide a sua fia mais quirida. Ela se ajuelhô no chão em cima das pedra mermo e implorô pra nosso Sinhô Jesus Cristo num levá Suzeneide não! Que se era pra levá arguém, era pra levá ela, que já tava mais véia. Mainha tem um xodó por dimais grande cum todos fio, mais cum Suzeneide era bem mais. Foi por dimais triste de vê mainha daquele jeito. Valdenir achano que tinha sido curpa dele, saiu triste e foi andá pro meio do cerrado, e nem viu Suzeneide sê interrada. Ficô disaparecido por dois dia. Té qui acharo ele drumino no meio duma quiçaça e trusséro ele divorta pra casa. Aparecêro um monte de gente pra vê a Suzeneide morta. Mainha colocô uma rôpa de passeio nela e tamém um monte de flô por sobre o corpo dela, que nem ela fazia em casa quando floria os campo.


Té o sinhô nosso patrão veio lá pra vê ela. E falô pro padim num ficá triste, pra mó de que inda tinha sobrado mais uns par de fio e que amanhã era ôtro dia e a vida tinha que continuá. Madrinha Jupira tamém veio e insinô umas reza pra nóis fazê, pedino pros anjinho tomá conta dela pra nóis. Nóis fazemo essa reza té hoje quando é niversário de morte de Suzeneide. Madrinha disse que dispois de já acuntecido num era pra nóis ficá por dimais triste pra mó de que Suzeneide era uma boa minina e que se o Sinhô Jesus levô ela é pra mó de que ele quiria ela do ladim dele. E que lá pra onde ela foi é um lugá bem miló de que esse onde nóis passa por um monte de provação de tristeza e tamém té fome por de veiz em quando. Dispois de um montão de hora de reza, Suzeneide foi inrolada cum pano, colocada numa rede e levada pra interrá no pé duma arvre no campo dos morto que fica pertim do morro do Zé Tortim. No caminho, nóis fomo cantano umas cantiga triste que madrinha Jupira dizia qui era cantiga de dispidida. Té o mocotó acumpanhô nóis. Na horinha de atravessá o córguim no pé do morro, madrinha Jupira pegô uma varinha de cipó pra mó de dá uma piza no defunto de Suzeneide, pra mó de que eles diz aqui que quando vai atravessá as divisa de terra da moradia, os defunto fica arredio que fica inté pesado de num querê que nóis atravesse pra ôtro lado.


Diz eles que dispois de atravessá as águas do rio é que se sente mais o peso. A maió tristeza foi quando fôro interrá a Suzeneide. Foi choradêra de tudo qui é lado. Mainha inda num tava conformada co acuntecido e cumeçô a cantá uma cantiga de niná qui ela cantava pra nóis quando nóis tava cum medo de drumi. - Drome nenê, mainha tá aqui. Drome filiz, Que os anjo vai te protegê. Era mermo como se Suzeneide tivesse drumino. Suzane inda era por dimais piquena e Suzemira inda num sabia o que tava cunteceno. Ela achava que Suzeneide tava mermo só drumino e que dispois ela ia acordá. Suzemira queria té dá uma vorta de rede tamém e ficô té aburrecida pra mó de que num dêxaro. Mainha mandô interrá Pitelma juntim cum ela, qui era pra mó dela brincá cos anjinho quando ela tivesse lá na casa de nosso Sinhô Jesuis. Quando nóis saimo de lá do campo dos morto, mocotó num quiria vim imbora cum nóis, cumeçô té querê cavocá o chão pra tirá Suzeneide de lá. Té que nóis démo um péga nele e ele saiu na carrêra. Mainha nunca se esquece de levá flô lá no campo dos morto onde tá Suzeneide toda veiz que é tempo de florada no cerrado.


Nóis passamo uns dia bem triste, té qui o tempo passô e nóis fomo se conformano. Só Valdenir que num se corformô de num tê cuidado direitim de Suzeneide naquele dia. Gamaliel pensô té que mainha ia mandá ele imbora de casa por tê impricado cum Suzeneide naquele dia qui ela morreu. Ele se alembrô do dia que ele foi dêxado pra morá cum nóis. Nóis temo Gamaliel como nosso irmão tamém, mais de verdade ele num é fio de padim e mainha não. Gamaliel era fio de Dona Dorica e de Sêo Tumaiz que dexô ele pra morá cum nóis. Dona Dorica era uma dona dessas que os home tudo acha bunita. Sêo Tumaiz trôsse ela pra morá lá nas terra do sinhô nosso partão, dispois de imbuxá ela. Antes de í morá co Sêo Tumaiz, ela morava numa dessas casa de luiz vermeia qui tem nas vila. Meu irmão Valdenir té me falô que padim levô ele lá uma veiz pra cunhecê e que lá o povo faiz maió festança tudo dia.


Barraco de uma família de Carvoeiros Foto: “Projeto Luz das Carvoarias”

Acho que foi por isso té qui Dona Dorica foi imbora. Pra mó de que aqui num tem dessas festança, só tem é muito trabaio. Um desses dia que vem uns caminhão pra mó de levá os carvão que nóis faiz aqui, Dona Dorica entrô no caminhão pra dá um passeio cum sinhô que convidô ela e nunca mais vortô. Sêo Tumaiz foi quem ficô cum Gamaliel pra tomá conta. Ele era um home por dimais da conta de bão, só que dispois que Dona Dorica foi simbora, ele cumeçô a tomá umas bebida que dêxava ele jogado pro chão. Ele nem guentava mais a lida e só arrumava cunfusão. Teve uma veiz que quase que padim tocô fogo no Sêo Tumaiz drento forno junto cas lenha. Nóis já tinha té fechado o forno cum barro e tava tudo pronto pra tocá fogo pra queimá as lenha, quando pareceu o Sêo Everardo preguntano do Sêo Tumaiz pro padim, dizeno que ele tinha passado lá no barraco dele cuma garrafa di bebida e dispois tinha sumido, dizeno qui tava vino prosiá co padim. Foi aí qui nóis discunfiamo e saímo prucurano Sêo Tumais em tudo qui é lugá, té qui achamo uma garrafa di bebida caída do lado de um dos forno e padim resorveu abri aquele forno pra mó de tirá as dúvida. Assim qui padim abriu o forno já viu o Sêo Tumaiz lá drento sentado e drumino.


Padim arrastô ele pra fora e levô ele pra dá um banho nele no riacho. Foi por muito poquim qui padim num tocô fogo no forno cum ele lá drento. E essa num foi a urtima veiz qui ele feiz isso. Mais aí nóis se acostumamo de oiá drento dos forno antes de fechá de barro, té que o sinhô nosso patrão ficô sabêno de tudas essas coisa errada qui ele andava fazeno e mandô ele imbora dali. Té hoje nóis num teve mais noticia nem dele nem de Dona Dorica. Mainha e padim cum dó de Gamaliel, pegaro ele pra criá e ele é que nem se fosse nosso irmão de verdade, pra mó de que deusde 1 ano ele mora cum nóis. Gamaliel é minino levado, como diz mainha! Ele é iscurinho que nem o Sêo Tumaiz pai dele. Ele diz qui num lembra nadica nem do padim nem da mainha dele de verdade e que a famia dele é nóis. Gamaliel gosta muito de fazê brincadêra. Ele é que as veiz faiz o nosso dia sê mais filiz. Padim ralha cum ele, mais as veiz tamém se diverte cas idéia dele. Dia desses ele pintô nóis tudim de carvão e nóis falava que nóis era tamém fio de Sêo Tumaiz. Padim e mainha riro muito de nóis interim pintado de carvão. Dispois nóis fomo tomá banho no riacho das guaracema pra tirá a cardição toda. Por de veiz em quando, quando padim dêxa, nóis vamo no riacho prá brincá um bucadim. Isso acuntece quando aparece umas pessoa istranha nas terra do sinhô nosso patrão que diz ele que esse povo vem pra mó de querê


acabá ca nossa lida. Nesses dia, nóis se esconde tudim, e nosso patrão fala que se eles perguntá se nóis trabaia na lida do carvão, é pra nóis falá qui não. Pra mó de que se não eles num dêxa mais nóis trabaiá e ganhá nosso sustento. Eu já ví mermo que são uns home meio isquisito. Nóis chama eles de patativa. Pra mó de que eles é por dimais faladô e aparece só de veiz em quando que nem passarim nas época de cria. Nesses dia nóis fica muito preocupado, mais o sinhô nosso patrão diz qui nóis num pricisa de se preocupá não, pra mó de que quando eles vem quereno fechá tudim, é só moiá a mão deles que eles vão tudim imbora. Eu num entendo pra mó de que esse povo tem tanto medo de água. Mais qui funciona, funciona! Quando eles chega, nóis grita: - Lá vem os patativa! Então tudim nóis sai na carrêra e se imbrenha nas quiçaça. Dispois nóis vão saindo e vão tudim lá pro riacho. Qualqué dia eu vô falá pro padim dizê pro sinhô nosso patrão moiá eles lá no riacho. Quem sabe eles num desaparece de veiz! Esses são uns dos pôco dia dos que nóis se diverte. Pra mó de que tem umas ôtra festa lá na vila, mais por aqui num tem muita não. Dia desses Gamaliel mais Vantuir inventaro uma brincadêra nova que nóis gostamo por dimais. Té padim quis brincá cum nóis. É a carrêra de calango.


Aqui no cerrado no meio das mata tem por dimais desses bichim que são arisco que só veno. Nóis pegamo eles e fazemo um cercadim donde eles num consegue fugí. Ai nóis apostamo carrêra cum eles. Nóis damo té nome pra eles. O meu se chama carcará, e ele já ganhô mais de 5 carrêra. Já é o calango qui mais ganhô, pra mó de que eu tenho um segredim qui eles num sabe. O carcará na verdade é calango muié. Eu discubri que os calango muié corre mais que os calango home. Intaum eu ingano eles. Gamaliel já tá discunfiado e andô quereno oiá o carcará, mais eu falo que priciso i no matim fazê xixi e saiu de finim. Padim tamém tem um calango, mais o bichim é lerdo por dimais, nunca ganhô nadica. Nóis aposta de quem ganhá, pode cumê um bucadim mais qui os ôtro nos dia qui tem farinha cum fejão. Suzemira e Suzane tamém já ganharo umas carrêra, mais eu vi qui o Valdenir ajudô elas, pra elas pará de chorá. E quando elas ganha, elas faiz maió festança! É té bunito de se vê. Já tamo té pensano em aumentá o tamaim do cercadim, pra mó de que já tem uns amiguim de Vantuir quereno entrá nas disputa. Suzemira é danada! Ela põe medo no Gamaliel. Ela diz pra ele que se ele num dexá ela ganhá arguma veiz, ela conta pro padim que era ele que ficava brincano de jogá o chapéu dele pro mocotó buscá, té qui furô o chapéu de padim. E aí Gamaliel fica cum medo e ajeita pra ela ganhá por de veiz em quando.


Suzemira é minina isperta, diferente das ôtra. Ela gosta mais das brincadera dos minino. Ela gosta de subí nas arvre, de fazê luta, de pulá das arvre drento do riacho, essas coisa de minino. Ela num gosta muito das brincadera de minina não! Na lida ela é mais isperta té qui Vantuir, tem dia que ela faiz quase duas veiz mais carvão que ele. Padim já falô pra ela í mais devagá pra num se machucá, mais ela num qué sabê. Ela qué sê que nem era Valdenir que era quem mais trabaiava. Ela diz que quando for grande ela qué tê uma carvoaria pra ela e que padim e nóis tudim num vai mais pricisá de trabaiá, pra mó de que ela qué dá uma vida miló pra nóis. Que é pra nóis podê cumê farinha e fejão tudo dia. Ôtro dia ela feiz uma coisa que padim num pode nem sabê, sinão ele dá uma cóça lascada nela. Ela pegô a serra giradêra de cortá tora de arvre. Essa serra é por dimais pirigosa, já cortô té pé e mão de home grande por aqui. Se padim sabe! Essa serra é quase da arturinha dela, mais ela incasquetô qui ia cortá uma tora pra mostrá pro padim que ela era forte que nem os minino. Na horinha que ela foi tentá ligá, apareceu o sinhô Zé Coxo e num dexô. E intaum mostrô pra ela pra mó de que não se podia brincá cum aquilo. Zé Coxo ficô cum esse nome dispois de cortá o pé quando iscapô a serra giradêra das mão dele num dia que ele tava serrano umas tora. Ele contô pra ela que era a primera veiz que ele tava veno aquele tróço.


Pra mó de adiantá mais a lida, o sinhô nosso patrão comprô essa serra. Pra mó de que eles só cortava tóra nas machadada. Té as tora de um metro de grossura que as veiz levava té hora pra se cortá. Aí dispois que veio essa serra, a lida nos corte das arvre e das tora ficaro mais rápida. Só que tamém ficaro por dimais pirigosa. Já teve home que perdeu mão, dedo e ele perdeu um pé. Nesse dia ele disse que sofreu por dimais. Era sangue qui ispirrava pra tudo que é lado. O pé num chegô a discolá tudim da perna, mais ficô pindurado. Quando levaro ele pra cidade pra arrumá, o dotô falô pra ele qui ele ia grudá o pé dele traveiz, mais que ele num ia andá direito. Mais dispois deu cumpricação das inframação e eles tivéro que cortá o pé dele fora. Agora ele trabaia, mais num é mais a merma coisa. Agora ele pricisa de iscorá pra mó de num caí quando vai fazê as coisa. O sinhô nosso patrão té que foi bonzim cum e ele e dexô ele continuá trabaiano, pra mó de podê se sustentá. Dispois que Suzemira orviu essas história do sinhô Zé Coxo, ela se aquietô. Mais se padim sabe que ela tava mexeno na serra giradêra, ela toma uma cóça das boa! Que nem eu já tomei umas veiz. Padim é home bão, mais por de veiz em quando ele perde as cabeça, pra mó de que ás veiz a gente fica sem tê o que cumê e ele se preocupa. As veiz o sinhô nosso patrão fala qui as venda num foi boa e atrasa de pagá nóis. Intão nóis passa ás veiz treis ou quatro dia sem tê de cumê. Padim ás veiz nesses dia dêxa nóis í brincá pra mó de enganá a fome. Aí nóis sai pra caçá tanajura. Nóis


té qui gosta de cumê esses bichim, mais num é sempre qui elas aparece. Mais quando tem, nóis pega elas, coloca pra fritá, e dispois cumê tudim. Certa veiz teve umas aparição de gafanhoto aqui no cerrado e nóis fritamo té gafanhoto. E num é qui os bichinho tamém é gostoso! Padim já falô um monte de veiz de mudá de vida, qui isso num é vida de gente, mais as coisa é por dimais difici por aqui. Os imprego num é fáci e o que nóis sabe fazê é só carvão. Certa veiz padim contô pra nóis qui quando ele cunheceu mainha, eles té fôro morá na vila, mais lá as coisa tamém num fôro das miló. Padim foi tentá na lida de carregá caminhão de fazê intrega das coisa da cooperativa, mais num deu certo não, pra mó de que padim num sabia lê e mandava as coisa tudinha errada, té que mandaro ele imbora. Dispois ele foi tentá trabaiá nas prantação, numas terra duns home que oferecero tabaio pra ele. Disse padim qui era umas pranta qui ele nunca tinha visto. Umas foia diferente qui os home chamava de erva. Era pra mais de légua de prantação. E eles cuidava bem delas! Os home té qui pagava bem, mais dispois deles cuidá tudim delas diretim, qui tava tudo verdim e fartava só uns dia pra cumeçá a lida da colheita, aparecero lá os home da pulícia e prendero tudo mundo qui tava por lá. Té os dono das terra fôro preso. Os home da pulícia chegaro tudo sorratero e de arma tudo nas mão. E era cada arma! Diz padim qui ficô disisperado pensano qui era bandido! Saiu correno e os home saíro correno atrais dele e dero té tiro. Sorte


qui ninhum acertô ele! Jogaro eles tudo drento de um carro e levaro tudim pra tal de cadeia. Padim disse qui ficô drentro duma gaiola por mais de meis. E os home da pulícia disse pra eles qui aquilo num pudia prantá pra mó de que era proibido. Padim conta qui num sabia, pra mó de que num pudia prantá umas pranta tão bunita e qui num fazia mal pra ninguém! E ele falô pos pulícia que eles ganhava sustento e tinha té o que cumê prantano aquelas pranta tão bunita! E sem sabê pra mó de que, ele levô té uma cóça dos home da pulícia qui chamô ele té de safado. Dispois de uns dia qui padim foi sabê qui aquilo era uma tal de maconha e qui aqueles home tudo ajeitadim e qui tratava eles tão bém, era uns home qui era procurado das pulícia té da cidade grande. Diz padim que esses tempo que ele ficô preso num fôro fáci não. Eles num pudia nem tomá sol, as única vantage qui tinha era qui eles tinha o que cumê. Ele tentô ispricá pros home da pulícia qui ele num sabia de nada, mais os home dizia qui ele foi pegô de fragante, coisa qui ele nem sabia o qui era, pois ele nunca foi isso. Aí ele disse pros home da pulícia qui fragante era as mãe deles. Foi aí qui padim tomô ôtra cóça. Mainha pricisô té í por de veiz em quando pra levá as coisa pro padim e tentava ispricá pros polícia que padim era home bão, mais eles num quiria sabê das ispricação de mainha não!


Dispois de um bão tempo drento daquela gaiola, veio lá uns home e sortaro eles tudim, pra mó de que intendêro que eles num sabia de nada e qui num era amigo daqueles home dono das terra. Aí intão foi que padim vortô pra lida do carvão. As veiz a gente intende as brabeza de padim, mais as veiz nóis num intende não. As veiz nóis se pergunta se padim acha a vida assim tão difici, pra mó de que ele feiz tanto fio? Suzane mermo quando nasceu, mainha diz que padim ficô muito disinxabido. Pra mó de que ele tava quereno mais um fio home e mainha deu pra ele mais uma fia muié. Diz ela que padim ficô por mais de meis sem cunversá cum ela e que eles brigaro muito. Demorô pro padim aceitá a dicisão do nosso Sinhô Jesuis de mandá mais uma fia muié. Mainha diz qui foi muito difici pra ela guentá as ranhetici do padim, mais se Jesuis mandô pra ela uma fia muié, é pra mó de que era o distino seno cumprido. Suzane nasceu bem no ano que Susemira morreu. Das veiz Jesuis mandô Suzane pra mainha num sentí tanta falta de Suzemira. É o que mainha acha! Padim inda num gostô muito e num acridita nessas coisa. Padim sempre quiz tê tudo fio home que era pra mó de ajudá na lida do carvão pra ganhá um bucadim mais de dinhêro.


Padim diz qui num é que as minina num ajude, mais os minino é mais forte e trabaia mais. As minina são por dimais devagar e chora por qualqué coisa. Mainha diz que padim tem o coração indurecido pelas dificurdades da vida. Nóis minino percebe isso e então nóis ajuda a esmolecê as dificurdade ajudano na lida sem recramá por dimais. E quando nóis vê que as minina tão por dimais cansada, nóis ajuda elas a terminá rapidim as coisa delas, que é pro padim num ralhá por dimais cum elas.

Forno tapado com barro. Foto: “Projeto Luz das Carvoarias”

Suzane num gosta de quando Valdenir manda ela tapá cum barro, os buraco que aparece nos forno. Como ela é mais piquinininha, ela só faiz até uma


certa arturinha, onde ela arcança. Nas parte de cima sô eu que faço. Essa lida tamém num é fáci não. Suzane já queimô as mão por diversas veiz nessa lida. E a quentura e fumacêra do lado dos forno é por dimais grande, então ela das veiz fica abobiada. Umas veiz Suzane já dismaiô de ficá fazeno essa lida . Mais aí nóis põe ela na sombra e joga água na cabeça dela e ela acorda devagazim. Nóis até já acustumamo de fazê isso. Eu mermo tumém já disacordei pra mó de tá fazeno isso de barriga vazia! Das primera veiz a gente té fica assustado, mais dispois a gente se acustuma e té si diverte cum essas coisa. Certa veiz padim quiria dá uma cóça no Gamaliel pra mó de que ele feiz isso por querê. Ele ficô no meio das fumaça pra mostrá pra Vantuir que ele guentava mais tempo que ele no calô e na fumaça. Foi que ele disacordô e dispois té demorô por dimais tempo pra acordá. Padim disse que da próxima veiz ele ia tomá uma cóça de ficá cá pele toda lascada se fizesse isso traveis. Nóis nem sabe mais qui qui é pió. Se é o calô disgracento que acaba cas força da gente ou as fumaça qui entra pelo nariz que arde té o zóio. Nossas mão tamém vive saindo as pele e é toda carocenta de tanto queimá e carregá lenha e carvão. Dia desses eu perguntei pro padim, pra onde vai tudo esses carvão que nóis faiz aqui!


É carvão por dimais, que nóis chega a ficá cum dor no corpo interim no final das tarde. Padim diz que o povo da cidade usa pra mó de fazê festança. Lá nessas festança, eles usa pra assá carne. Aí nóis ficamo tentano imaginá o tanto de carne qui esse povo come veno o tanto de carvão que os caminhão vem aqui buscá. E tamém o tanto de festança que esse povo faiz. Será qui esse povo das cidade num trabaia não? Nóis aqui num temo tempo nem de ficá duente e esse povo só faiz festança? Eta povo priguiçoso! Certa veiz veio um povo da vila lá onde mora madrinha Jupira pra mó de dizê pro padim que as criança daqui pricisava de istudá. Eles dizia que istudano as coisa podia miorá no futuro. Mais padim dizia pra eles qui essas coisa num tinha pricisão por aqui não. Qui pra lida do carvão num pricisava de lê nem de escrevê. E que o futuro dos fio dele, ele mermo fazia. O povo tentô fazê cum que padim colocasse nóis na iscola, mais padim num arredô pé. Té que Suzeneide pidiu pra mainha cunvencê o padim pra que ela pudesse í cunhecê a iscola. Dispois de mainha falá por dimais cum ele, ele dexô nóis tudim í conhecê a iscola. Nóis acordamo cedim e fomo. Eu mais Suzeneide, Suzemira, Vantuir e Gamaliel. Valdenir num quiz sabê de í não. Ele dizia que ele já sabia o que pricisava sabê. E que pricisava ajudá padim.


Fomo na maió das aligria pra cunhecê a iscola. Era pra mais de hora de caminhada pra mó de chegá lá. Té qui gostamo nos primero dia de fazê essas coisa de desenhá as letra desses tal de beabá. Mais quando nóis vortava lá da iscola, nóis tinha qui trabaiá o dobro pra mó de adiantá as lida qui tava tudim atrasada. Nóis num guentamo por dimais tempo não. Era duma cancêra qui nóis acabamo disistino. A única qui ficô por quase dois meis foi Suzeneide. Ela aprendeu té iscrevê o nome dela. Quando mainha viu, té chorô di filicidade. Padim nem ligô e té ralhô cum ela, pra mó de que quando tava na hora da lida ela ficava iscreveno o nome dela tudo quanto é lugá cum carvão. Tem lugá qui té hoje tem o nome dela iscrito. Quando mainha vê argum por aí, té chora de saudade de Suzeneide. Suzeneide acabô disistino tamém pra mó de que ficô aduecida por uns tempo e num guentava caminhá té lá. Nóis num sente falta de sabê lê e iscrevê não. Nóis sente falta mermo é de podê brincá nas hora que dá vontade! Quando Valdenir morreu, foi a maió perda pra tudos nóis. E inda mais pro padim! Padim num se conforma té hoje e vive falano de Valdenir cum o maió orgulho pros cumpanhêro de lida. Valdenir é nosso anjo da guarda. Ele se acabava na lida pra protegê nóis de se machucá e de se daná cum trabaio dimais. Era ele quem saía nas madrugada pra botá reparo nos forno. Essas coisa que padim num guenta mais fazê!


Quando num tinha quase o que cumê, Valdenir dava a parte dele pra nóis repartí. E ele ficava mais de dia sem cumê. Só cumia quando tinha pra todo mundo. Quando padim num tava por perto, ele é que era nosso pai. E nóis respeitava ele por dimais. Nóis achamo que o Sinhô nosso Jesuis levô ele pra mó dele discansá um bucadim de todo o sofrimento que ele passô aqui na lida té os urtimo minuto de vida dele. Pra Valdenir num tinha discanso. Muitas das veiz que nóis ia pro barraco pra mó de discansá e cumê, ele ficava inda na lida pra prepará as coisa pro dia seguinte. Ficava ele mais mocotó. Mocotó num arredava as pata de lá inquanto Valdenir num voltava pro barraco. Os dois era por dimais cumpanhêro. Valdenir era o braço direito de padim e por isso, quando ele morreu, padim sintiu falta dele por dimais. Ele é quem dava as orde quando padim adoecia. Padim já é home cansado e sempre falô pra Valdenir que era ele quem iria sê o home da famia quando ele faltasse. Mais por força do distino, Valdenir se foi primero. Isso se sucedeu da teimosia de Valdenir. Padim sempre gostô que ele trabaiasse pra mais de um home. Mais tamém sabia que isso das veiz custava dele se esforçá por dimais. Num tinha dia e num tinha noite pra ele. E mermo cum chuva tava ele lá, pra garantí que nóis ia tê de cumê dispois da lida terminada. E foi pelas teimosia que ele passô por dois dia na lida embaixo de uma chuva dessas lascada que Deus mandava. Foi aí que ele adoeceu. Valdenir já tava sem cumê por treis dia e sabia que tava chegano a temporada das chuva e que pricisava de terminá cum uma quantidade de carvão que o sinhô nosso


patrão tinha mandado. Sinão nóis num recibia pela lida do meis. Intão ele ficô imbaxo de chuva mermo. Juntano as cancêra e a falta de cumida na barriga, ele acabô ficano meio fraco e pegô segundo madrinha Jupira, uma peneumoninha. E foi das braba! Mainha pricisô té de chamá madrinha Jupira no nosso barraco pra ajudá a fazê o Valdenir miorá. Só que madrinha Jupira logo viu que num ia sê fáci. Madrinha diz que essa misturança de calô, fumaça e friage de chuva é por dimais pirigosa. Madrinha Jupira mais mainha pelejaro por quase cinco dia pra disminuí a febre de Valdenir. Mais dessa veiz a doença foi mais forte que ele. Enquanto Valdenir delirava de febre, as única coisa que ele se preocupava, era de quem ia cuidá das coisa por aqui se nosso Sinhô Jesuis chamasse ele pra í morá do ôtro lado. Antes dele se partí inda ele me chamô juntim dele e me pediu pra cuidá dos irmão como ele sempre cuidô. Dizia ele qui nóis era uma famia e qui um dia as coisa ia miorá pra nóis. Madrinha tentô di tudo! Tudas erva qui ele tinha, ela trôsse. Feiz reza, feiz banho, feiz de tudo. No quinto dia de febre forte, Valdenir se intregô. Foi choradêra pra tudo lado! Té padim chorava feito criança. Mainha intão nem se fala! Valdenir era querido por dimais por tudo mundo que vivia aqui na lida dos carvão.


Té o sinhô nosso patrão veio sabê de Valdenir dispois qui ele foi pra junto do Sinhô Jesuis. Disse ele que foi uma perda muito grande pro padim e pros rendimento de nossa lida tamém. Pra mó de que ele era o braço direito de padim. Mainha num disgarrô nem um tempim do corpo de Valdenir inquanto não saiu o interro. Era o segundo fio crescido que mainha perdia em tão poco tempo. Pra mó de que mainha já tinha tido dois ôtros fio que nascero morto. Tava fazeno um ano que Suzeneide tinha morrido. Das veiz até, eles vão se incontrá lá em cima. Té o mocotó qui era cumpanherão do Valdenir, passô por tudos esses dia remungano por volta do barraco e nem quiria cumê. Parece té qui ele sabia qui qui tava cunteceno. Madrinha Jupira colocô no Valdenir as rôpa mais boa que ele tinha, pra mó de parecê que ele ia só fazê um passeio. Madrinha sempre dizia isso pra nóis tudim. Que a morte é como um passeio. Que a gente vai pra otrô lugá mais miló qui esse e dispois se incontra lá tudim dinovo, e quem vai primero, fica olhano pelos ôtro qui fica aqui, pra mó de orinentá os passo de quem ficô, té se incontrá tudim dinovo. Tomara que madrinha tenha razão, assim nóis fica mais tranquilo teno arguém qui olhe por nóis tudim aqui. E Valdenir vai sabê como fazê isso, pra mó de que ele era o mais isperto dos carvoero qui eu já cunheci.


Pra nóis criança o dia do interro do Valdenir num foi tão ruim assim, pra mó de que Madrinha Jupira trôsse um monte de coisa pra nóis cumê. Nóis já tava sem coisa de cumê a dois dia. As única coisa qui nóis tinha cumido era uns restim de farinha qui mainha ganhô de Sinhá Jacinta, que mora tamém aqui nas terra do sinhô nosso patrão. Suzane té falô uma coisa qui mainha ralhô cum ela, mais a criançada achô foi ingraçado. Suzane disse qui quando morrê mais arguém por perto, ela vai no interro só pra mó de podê cumê umas coisa gostosa que nem madrinha Jupira trôsse pra nóis. Tô té aqui pensano cas minhas idéia de que parece té qui Valdenir morreu de propósito. Só pra nóis te arguma coisa de cumê. E não é de se duvidá qui ele fizesse uma coisa dessas não! Pessoa boa era esse meu irmão qui nunca mais vô isquecê. Na hora de saí pro interro, mainha num quiria qui levasse o Valdenir. Se agarrô na rede e num quiria dexá levá. Madrinha Jupira falô umas palavra pra ela e mainha sortô da rede e foi acumpanhano de pertim e cantano umas canção de tristeza. Foi o interro cum mais gente qui eu já vi por aqui por perto. Fiquei té orgulhoso de Valdenir, de tanta gente qui tinha qui gostava dele. Tem gente qui morre por aqui qui a gente as veiz nem fica sabêno. Só sabe mermo quando vai procurá a pessoa e num acha.


Eu mermo pra mais de veiz fui levá recado de padim pra umas pessoa qui quando cheguei lá, ele já tinha morrido. Aqui nessa terra dos isquecido á assim mermo e ninguém liga não. Mais cum Valdenir foi diferente. Quando mainha puxava um canto qui o povo sabia, o povo todo cantava juntim cum mainha. Quando não, era só mainha cantá umas treis ou quatro veiz e o povo já aprendia e acumpanhava mainha. Os home amigo de padim se revesava pra carregá o corpo de Valdenir. Tudo eles fizero questão de ajudá carregá. Valdenir deu sorte té na hora de atravessá o córguim, quando chegamo lá, o córguim tava seco e Valdenir se livrô da sova qui pricisa dá no difunto pra mó dele dexá atravessá as água. Ele foi interrado bem do ladim de nossa irmã Suzeneide. O mocotó dessa veiz num quiz mais vortá pra casa cum nóis. Ele num arredô os pé mais de lá do ladim onde Valdenir foi interrado. Gamaliel chegô té dá uma cóça nele pra mó dele vim imbora mais num teve jeito. Mocotó chegô té a latí pro Gamaliel, que chingô ele e dexô ele por lá mermo. Mais tarde Suzemira vortô lá mais Suzane e levô água pra ele pra mó dele num morrê de sede. Tentaro trazê ele divorta, mais num conseguiro e ele acabô ficano por lá mermo.


No ôtro dia, Gamaliel vortô lá cum cipó na mão pra mó de trazê o Mocotó nem qui fosse amarrado, mais ele tava mortinhu da silva. Do jeitim qui ele ficô lá, ele morreu em cima de onde foi interrado o Valdenir. O dia custô de passá. Paricia qui num ia nem se acabá de tanta tristeza. Dias dispois, padim chegô aduecê de tanta amargura. Padim quis largá tudim aqui e í simbora, foi té falá co sinhô nosso patrão pra mó de encerrá as conta dele e levá tudim nóis imbora daqui. Mais quando ele falô de í imbora o patrão mostrô pra ele o tanto de conta que ele tinha pra pagá do armazém onde nóis compra as coisa de cumê e das necessidade, e padim quase caiu de costa. Era tanto número que padim ficô abestado, pra mó de que se nóis passasse a vida interinha aqui, nóis num conseguia pagá. E padim é home sério que aprendeu qui dívida a gente tem que pagá té mermo co sangue da gente. E isso ele sempre insinô pros fio dele. Assim que padim miorô e vortô pra lida, foi que nóis cumeçamo a sentí mais falta de Valdenir. A lida já num rendia mais como rendia quando Valdenir era vivo e as coisa cumeçaro a piorá. Se é qui tinha como ficá pió do que já era! Mais padim sentino a falta de Valdenir cumeçô a querê qui eu fosse igualzim a ele. Eu inda era por dimais piqueno pra tê as merma responsabilidade qui Valdenir tinha. E padim cobrava de mim que eu fosse igualzim Valdenir. Sofri por dimais nas mão de padim por conta disso. Eu num conseguia fazê tudas


coisa que Valdenir fazia quando era vivo e intão eu chorava! Nas noite quando eu ia drumi, eu orava pra Valdenir me mostrá os miló caminho pra aprendê a sê igualzim a ele. Mainha nos insinô a quando tivesse em dificurdade por dimais difici, orá pra que os anjinhu ajudasse a gente, e pra mim agora Valdenir era um anjo no céu do mermo jeito que ele era aqui na terra. O tempo passô e divagazim eu fui aprendendo umas coisa e padim tamém foi abrandano o coração e intendenu qui nóis era diferente de Valdenir e que nem ele mermo conseguia sê igual. Dispois de um tempo, os forno picisaro sê mudado de lugá, como se faiz de tempo em tempo, pra mó de que as madera do cerrado vai se acabano e os forno pricisa de sê montado por perto de onde tem arvre, qui é pra ficá mais ligêra a lida. Quando nóis monta os forno num lugá pela primera veiz, o lugá é tudo verdim, mais dispois de um tempo aquilo tudo fica esfumaçado e sem nenhuma arvre nem pra fazê sombra pra nóis nos dia de calô de raxá mamona. Dá té uma tristeza de vê cumé qui as coisa fica dispois qui nóis tamo lá por uns tempo! Parece té qui a tristeza e a distruição acumpanha nóis pra tudo qui é lado. Té os bicho e os passarinho foge de nóis. Tamém, quem é qui qué ficá no meio dessa fumacêra toda? Dependeno das distância do barraco, qui os forno é montado, nóis nem mudamo o barraco, mais se é por dimais longe, nóis pricisa de mudá ele tamém.


Aí é mais trabaiera! Dispois de um tempo qui Valdenir morreu, o sinhô nosso patrão notô lógo que disminuiu bastante a quantidade de varvão qui nóis fazia e acabô pegano um ôtro rapaiz pra trabaiá lá tamém, pra mó de adiantá mais a lida. Como ele num tinha famia por aqui, ele foi morá junto co Zé Coxo. Té qui ele paricia de sê uma pessoa muito boa, pra mó de que ele tava sempre por perto ajudano nas nossa dificurdade. Sempre qui padim pricisava de arguém pra fazê um bucadim mais de força, era só chamá que ele vinha sempre na maió presteza. O nome dele era Jovilso. Mainha achô meio istranho, pra mó de que ele num tinha muita cara de quem já tinha trabaiado na lida de carvão. Mais aqui, mermo qui num se sabe nada, é rapidim pra mó de se aprendê. Deusde que tenha força e vontade. E isso ele tinha! Padim té andô preguntano pra ele qui qui é qui ele fazia antes de vim trabaiá aqui na lida dos carvão, mais ele sempre disconversô e falava qui fazia umas par de coisa, mais nunca ispricô o que era essas par de coisa. Mais como ele era prestativo de mais da conta, padim nem ligô por dimais pressa coisa de sabê de tudo da vida dele. Mainha é qui sempre ficava ispiculano, mais nunca discubriu nada dimais.


Dispois de uns meis qui o Jovilso já tava lá na lida, padim pidiu pra ele í carregá umas madêra mais pesada qui já tava cortada lá na entrada da mata, pra mó de que Suzemira num tava guentano de trazê. Dispois de um tempim, padim istranhô de que eles tava demorano pra vortá e mandô Gamaliel dá uma ispiculada pra mó de que eles tava demorano. Gamaliel foi, procurô, procurô e num achô eles. Intão vortô e contô pro padim qui num tinha achado eles não! Padim intão ralhô cum Gamaliel, dizeno qui ele num prestava nem pra achá os ôtro e que ele devia de tê ido no lugá errado. Dispois de um tempo, lá vem a Suzemira na carrêra e o Jovilso cum cara isquisita trazeno as tóra no carrim de mão. Padim perguntô pra mó de que eles demoraro e Jovilso falô qui pricisô de arrumá o carrim di mão qui tinha iscapulido a roda e por isso qui demorô. Dispois padim perguntô pra Suzemira e ela cunfirmô qui foi. Padim intão agradiceu o Jovilso e té falô qui esse era rapaiz isperto, pra mó de que se fosse quarqué um dos fio dele, num ia sabê nem arrumá o carrim de mão. Que o único qui era mais isperto já tinha morrido. Eu, Gamaliel e Vantuir num gostamo muito dessas coisa qui padim falô não! Então nóis ficamo de zóio no Jovilso. Ele logo notô qui nóis tava de bronca cum ele. Mais pra mó de nóis num ficá assim cum discunfiança dele, ele insinô pra nóis umas brincadêra qui ele sabia.


Ele insinô tamém pra nóis a fazê umas mágica e tamém contá umas história e umas piada. Foi umas das pôca veiz qui nóis tava aprendeno umas coisa diferente. Nóis já tava té sisqueceno da falta do Valdenir. Dispois de um tempo que Jovilso já tava por aqui, ele quiz dizê pro padim qui ele devia mudá o modo de colocá as madera drento dos forno pra mó de cabê mais. Padim num gostô nem um poquim e falô pra ele qui era pra ele cuidá miló da lida dele e dexá que das madêra drento do forno padim cuidava. Qui ele num sabia quase nada e já quiria mudá os modo de fazê as coisa por aqui. Jovilso pidiu discurpa, saiu disinxabido pro meio das mata e vortô só mais tarde. Assim qui padim pôde, foi falá co sinhô nosso patrão, pra mó de que esse tal de Jovilso tava se intrometeno nas lida dele. Nosso patrão intão falô pro padim que esse rapaiz era rapaiz isperto e que era pro padim num se istranhá cum ele não, pra mó de que esse rapaiz sabia té dirigí trator e que pra adiantá e pra rendê mais a lida, ele tinha comprado um trator qui tava té pra chegá. Padim intão baxô a cabeça e saiu. Mainha notô por varios dia qui padim num tava se sentino bem cum esse rapaiz qui tinha chegado. Mainha notô tamém qui padim tava cum medo de que Jovilso tomasse o lugá dele.


Mainha ficô preocupada que dessas mal querência, num saisse coisa boa. Principalmente por já cunhecê as reação de padim quando tá contrariado cum arguma coisa. Mainha contô qu certa veiz, padim já teve um disacordo cum um sinhô que veio trabaiá aqui no carvão e quiz mandá nas coisa que padim já fazia por dimais tempo. Esse sinhô andô ispaiano pro povo que padim num sabia fazê as coisa direito e que assim da forma que padim fazia, a lida num rendia que nem pudia rendê. Assim qui essas nuticia chegaro nos orvido de padim, ele ficô danado de bravo e foi tirá sastifação cum esse sinhô. Foi uma brigaiada feia por dimais! Chegaro té a riscá faca no chão. Por pôco qui padim num tomô uma facada no buxo. Na horinha que isso ia acuntecê, o povo que tava por perto separaro os dois. Pra coisa num ficá mais feia do que já tava, o tal sinhô si foi imbora daqui e num vortô nunca mais. E é por isso que mainha fica assim preocupada! Padim é um pôco istorado cum essas coisa. Dias dispois o tal do trator chegô. Padim regalô um zóião quando viu o tamaim do bichim. Era por dimais grande.


Nesse dia o sinhô nosso patrão veio junto e falô pra tudo mundo qui aquela máquina era por dimais pirigosa i qui era só pra Jovilso dirigí, pra mó de que Jovilso já sabia mexê cum esse tipo de coisa. Logo dispois qui o sinhô nosso patrão se foi, pedimo pro Jovilso carregá nóis no tratô pra dá uma vorta. Ele levô nóis tudim, foi só aligria! Só padim num quis andá no tratô. Disse ele qui essas máquina só atrapaiava e que o certo era fazê as lida como sempre fôro feita. E disse que: Se Deus deu duas mão pra mó da gente fazê as coisa, num era priciso dessas máquina. Quando vimo aquele tratô carregano aquelas tora toda, ficamo por dimais filiz! Achano que nossa lida ia ficá mais fáci. Mais se inganamo! O tratô trazia era mais serviço mais rápido. E nóis pricisamo de levantá mais forno e trabaiá por mais tempo pra dá conta de enchê tudim eles. E num é qui de madrugada padim saiu pra vê os forno e acabô ino reiná no tratô? Gamaliel foi quem orviu o baruio do tratô seno ligado e me chamô. Aí nóis fomo iscondidim e olhamo pra vê quem era. E lá tava padim sentadim no tratô e apertano os butão. Di repente aquele tratô cumeçô a andá e bateu num forno qui tava té aceso. Padim num sabia o que fazê e entro num disispero. Cumeçô a chamá por Jovilso que já tava té vino, pra mó de que ele tamém já tinha orvido que arguém tinha ligado o tratô. Inda bem que ele tava por perto, si não padim ia acabá derrubano os forno tudim.


Jovilso subiu correno no tratô, disligô ele rapidim e falô pro padim num fazê mais isso não, pra mó de que era muito pirigoso. Aí padim inventô umas discurpa sem sintido falano qui o tratô tinha ligado sozinho e que ele tava tentano disligá. Claro que o Jovilso num acreditô! Mais feiz di conta qui acreditô só pra num chateá padim. Eu mais Gamaliel vortamo na carrêra pro barraco e ficamo lá quétim pra mó de padim num sabê qui nóis tinha visto tudo cumé qui foi. No ôtro dia cedim, padim saiu contano pro povo que de madrugada tinha cuntecido umas coisa istranha por lá. Qui aquele tratô devia tá co capeta, pra mó de que ele tava cuidano dos forno de madrugada e o tratô se ligô sozim e saiu andano e derrubano o forno. Aí ele subiu correno no tratô e tentô disligá. Ele aperto tudos botão e virô a chave do bichim e nada! Num disligava de jeito ninhum. Intão ele chamô Jovilso que veio pra ajudá e em dois eles conseguiro dominá o bichim. Té mostrô o forno dirrubado e os carvão tudo ispaiado. E o povo todim acriditô qui padim tava falano a verdade. Eu mais Gamaliel demo muita risada das mintira de padim, mais num falamo nadica prs ninguém. O povo ficô tudo cum medo do tratô e num quiria nem chegá perto do bichim mais. Fôro té uma turma falá co sinhô nosso patrão pra mó de que eles num quiria mais aquele tratô por lá. Aí o patrão mandô eles tudo tabaiá que eles


tinha mais o que fazê e falô que o tratô ia ficá. E se arguém num quisesse, era pra acertá as conta e i imbora. Intão o povo vortô pra lida, mais ficaro tudo cum um zóio la lida ôtro no tratô. Teve gente qui trabaiava cum pau do lado e falô que se o bichinho discanbasse pro lado dele, ele dava paulada té distruí tudim. No fim acabô ficano divertido. Eu mais Gamaliel ria o tempo tudim desse povo morreno de medo do tratô. O pobrema foi quando Jovilso resorveu contá diferente. Ele contô pro Zé Coxo, que saiu contano pros ôtro que padim é quem foi reiná no tratô e ele saiu andano. Padim ficô danado da vida co Jovilso que tava dismintino ele. E por quase que saiu uma briga. Inda bem que o povo num dexô. Dispois desse acuntecido, padim ficô de cara virada co Jovilso e num via a hora de pegá ele. Passamo o dia consertano o istrago que padim feiz no forno. Pra mó do sinhô nosso patrão num ficá nem sabêno do ocorrido. Dias dispois acunteceu umas coisa que quase cumpricô a vida de padim. Suzemira tinha saído pra mó de pegá umas lenha e padim foi procurá, pra mó de que ela tava demorano pra vortá. Quando padim tá entrano na mata, vê o Jovilso passano as mão nas perna de Suzemira.


Padim num quis nem sabê e saiu na carrêra pra batê no Jovilso que tava bulinano cum a fia dele que tinha só 6 ano. Padim ficô doido! Pegô um pedaço de pau e deu uma cacetada bem na costa do Jovilso, que pulô tamém pra cima do padim e cumeçaro a rolá pela mata e brigá feio. Inda bem que tinha gente por perto que orviu a gritaria de Suzemira e veio vê o que tinha acuntecido. Separaro padim de Jovilso e perguntaro pro padim pra mó de que eles tava brigano e padim disse que ele tava bulinado nas perna de Suzemira. Então perguntaro pro Jovilso se era verdade e ele dismintiu. Falô que a Suzemira tinha torcido o jueio e ele tava fazeno uma massage pra mó dela podê andá. Padim num acreditô e falô que ele era um aproveitadô e que ia matá ele. O povo pra resorvê as coisa chamaro o sinhô nosso patrão que colocô os dois pra se intendê e falô: -

Se os dois num se acertá e pará cum essas briga drento das minha terra

, eu vô mandá os dois imbora daqui. E tem mais, se eu sobé que Jovilso tá mesmo bulinano cas fia de Sêo Bastião, eu mando capá! Intendido? Intão os dois sairo e vortaro pra lida. Mais já num era mais a merma coisa. Naquele dia o povo todo trabaiô tudo disinxabido. Tudo mundo trabaiô quétim. Jovilso saiu pro meio das quiçaça e disapareceu. Passô vários dia e nada de Jovilso.


Perguntaro pro Zé Coxo se ele sabia donde tinha se infiado Jovilso e nada. Ele disse qui té as coisa dele tinha ficado tudim lá no barraco. Dispois de uns dia, o Leonir que tamém trabaiava lá na lida, veio dizeno que tinha incontrado um difunto morto lá no meio das mata. Que ele tava dirrubano umas arvre, quando sintiu um chêro isquisito de coisa morta e foi vê e era um difunto de um home. E que parecia sê de Jovilso. Na horinha o povo todo olhô pra cara de padim, achano que padim tinha dado fim na vida de Jovilso. Padim ficô amarelo! Foi logo falano: -

Fui eu não! Tá certo que eu num gostava nem um bucadim dele, mais

foi eu não! Padim saiu na carrêra e sumiu. Tava morreno de medo que o povo achasse que tinha sido ele e levasse ele pra cadeia. Padim morria de modo de sê preso dinovo, pra mó de que ele já sabia que na cadeia as coisa num era boa não. Chamaro o sinhô nosso patrão, que chamô a pulícia pra sabê quem era o difunto, pra mó de que ele já tava té se istragano e num dava pra sabê se era Jovilso mermo. Veio lá uns home cum caxão, carregaro o difunto e levaro imbora. Dispois de uns dia veio a notícia de que era Jovilso mermo. Ele tinha sido matado cum umas facada. Aí a coisa isquentô pro lado de padim, pra mó de que ele tinha falado na frente do povo que ele quiria matá o Jovilso.


A pulícia chamô tudo mundo pra conversá. Té eu mais as criança toda. E tudo mundo falô qui o padim tinha mermo falado que quiria matá Jovilso. Té mermo padim confirmô qui tinha mermo falado. Só que padim tamém jurô de pé junto que num ttinha sido ele. A pulícia falô que ia pricisá de investigá as coisa tudo direitim e que queria qui ninguém dêxasse as terra do sinhô nosso patrão té que tudim tivesse iscrarecido. Padim passô por dias preocupado, té num trabaiava direito. Ele tava cum medo de que a pulícia falasse que foi ele e levasse ele pra cadeia. E isso ele num quiria! Chegô té falá pra mainha que se eles fosse prendê ele, ele ia fugí presse mundo afora, mais pra cadeia ele num vortava mais não. Uns dia dispois a pulícia vortô lá dinovo e foi falá co sinhô nosso patrão. Contô pra ele qui Jovilso tinha sido morto por uns home qui num gostava dele, pra mó de que ele tinha participado de um rôbo numa maderêra que ele tinha trabaiado. Mais pra mó de dá um susto ne nóis tudim, o sinhô nosso patrão resorveu pregá uma peça e chamô o povo todo lá pra cunversá dinovo cum a pulícia. Dispois que o povo todo tava lá riunido, o sinhô delegado falô que ia prendê tudo mundo. Pra mó de que ninguém quiria assumi a curpa, intão ele ia levá tudo mundo.


O sinhô nosso patrão falô qui pra ele tudo bem, a não sê que se nóis adiantasse a lida de um meis em cinco dia, ele num dêxava de prendê nóis tudim.

Bateria de Fornos Foto: “Projeto Luz das Carvoarias”

Foi uma conversêra pra tudo lado! Mais paricia que era mió qui sê preso por uma coisa qui num fizemo. Té qui o sinhô delegado falô pra nóis qui era brincadera deles e que nóis tava livre. Pra mó de que, quem tinha matado o Jovilso já tava preso. O povo todo ficô aliviado e té trabaiamo o dobro naquele dia.


Dispois desse acuntecido, as coisa vortô a se como era antes. O tratô ficô lá parado por uns tempo té co sinhô nosso patrão resorveu de insiná o Sêo Leonir pra lidá cô bichim. Antes de acertá cô Sêo Leonir a tratorá, o Zé Coxo pidiu pra tentá aprendê, mais num deu certo pra ele. Como ele num tem um pé, num dava pra impurrá os pedal qui tem no tratô. Deu pra vê na cara dele qui ele ficô por dimais sintido de num tê consiguido. Dispois ele falô pra nóis qui sempre tinha sido o sonho dele de dirigí um trem desses. Ele falô que deusde criança ele ficava olhano os tratô qui vinha abrino istrada no meio das mata e ficava té sonhano acordado. Disse ele qui essas istrada qui passa por perto das terra do sinhô nosso patrão, ele viu abrí tudim elas, que essa era a diversão dele. Padim tamém ficô por dimais aliviado dispois que passô esse caso do Jovilso. Disse ele que num quiria vortá pra prisão não e disse tamém qui era pra nóis num fazê coisa errada nunca nessa vida, pra mó de que lá na cadeia as coisa num é nada boa. Pocos dia dispois, aproveitano que o sinhô nosso patrão foi viajá e tinha falado qui ia passá uns tempo fora, padim levô nóis pra passeá na vila, lá onde mora a madrinha Jupira. Ficamo lá na casa da madrinha por 3 dia.


Passeano lá na vila eu mais meus irmão, vimo uma cabana grande por dimais da conta e fomo lá vê oqui qui era. Era um tal de “Circo do Teleco”. Perguntamo intão o que fazia nesse tal de “Circo do Teleco” e aí contaro pra nóis que denoite tinha umas apresentação de artista, palhaço, mamulengo e umas ôtras coisa, que nóis nem sabe dizê o que é, mais que tinha que se pagá pra podê assisti. O sinhô que vendia as entrada falô qui custava um real por cada um que entrasse. Fomo intão correno té a casa da madrinha e pedimo pra mainha pedí pro padim dexá nóis í assistí, mais padim falô qui num tinha dinhêro pra nóis gastá cum essas porcaria. Ficamo triste por dimais pra mó de que nóis tinha visto que devia de sê divertido e nóis nunca tinha ido vê essas coisa que tinha lá drento. Mais mermo assim quando se escureceu, nóis fomo lá rodiá o tal de circo. Nosso zóio brilhava de vê as coisa que o povo vendia lá do lado de fora. Tinha um monte das coisa de cumê, tinha uns brinquedo tão bunito que Suzane ficô tão filiz, qui num parava de olhá pra eles. Té que o home de cara toda pintada e de bola vermeia no nariz colocô um desses brinquedo na mão dela. Ela sigurô aquele bichim nas mão e agradiceu o home, mais aí o home falô pra ela que se ela quizesse um desses, ela tinha que cumprá e que custava 3 real. Intão eu pedí pra Suzane devorvê pra mó de que nóis num tinha dinhêro ninhum. Intão Suzane entrô na choradêra e num quiria devorvê pro home de nariz de bola. Ela só devorveu dispois qui eu lembrei ela das coisa qui padim


falô de fazê coisa errada e sê preso. Intão ela devorveu. Mais mermo assim continuô na choradêra. Enquanto eu falava pra Suzane devorvê o brinquedo do home, Gamaliel tava na cerca olhano as coisa qui acuntecia lá drento. Té qui um ôtro minino qui tamém tava lá, chamô ele pra entrá por debaxo da lona. E num é qui ele foi! Entraro na carrêra e se infiaro por debaxo da lona. E o danado assistiu tudim qui passô lá drento. Saiu de lá numa aligria só! Dispois contô tudim pra nóis cumé qui era esse tal de circo. Falô pra nóis que tinha um home lá que sortava té fogo pra boca. Mais nóis num somo besta e num acreditamo, pra mó de que a gente sabe que essas coisa num ixiste. A num sê que o home tivesse ingulido carvão! No caminho divorta pra casa de madrinha Jupira, falei preles num falá nada pro padim das coisa qui acuntecêro lá, pra mó dele num ralhá cum nóis. Mais foi a merma coisa qui falá pra contá. Vantuir foi o primero a abrí aquela boca. Só pra mó de que num conseguiu entrá no circo, foi logo intregano o Gamaliel. Padim colocô Gamaliel de castigo por dois dia e ele teve que ficá sentado num cantim sem saí de lá té qui nóis vortasse lá pra lida. De madrugada, Suzane ficô aduecida. Chegô queimá de febre. Madrinha intão me perguntô o que é que tinha contecido lá no circo, pra sabê pra mó de que ela tava assim e então eu contei pra ela o causo do brinquedo. Intão madrinha feiz lá uns benzimento e deu umas erva préla tomá. Madrinha disse que era as lumbriga que tava avorossada.


E num é qui Suzane pois lumbriga té pela boca! Dispois que madrinha cuidô dela, ela miorô e drumiu. Padim proibiu nóis de vortá lá. Foi uma tristeza! Pra mó de que eu mais Vantuir tava doidim pra tentá entrá por dibaxo daquela lona tamém. Madrinha Jupira veno que nóis tava tudo inquieto, deu de presente pra nóis uma bola. Foi o presente mais lindo qui nóis ganhamo té hoje. Pra mó de que os único brinquedo qui nóis tivemo na vida foi os brinquedo que mainha e padim mermo fazia cum carvão, galho e sabugo de mio. Nóis paricia criança brincano caquela bola! Foi corriria por dois dia sem pará. Foi té bom pra Suzane sisquecê do brinquedo do home de nariz de bola. Passado os treis dia, pedimo a benção pra madrinha e vortamo dinovo pra lida. Mais trussémo a bola cum nóis. Chegamo no barraco já tava denoite. Num deu nem pra brincá ca bola traveis. No ôtro dia logo de manhãzinha Gamaliel mais Vantuir num quiria nem í pra lida, só pra mó de brincá de bola, mais padim num dexô não. Disse pra eles que se eles num fosse, ele ia furá nossa bola. Mais qui dipressa os dois saíro pra lida. Gamaliel acha qui ele é o miló de nóis no jogo de bola. Tá se gabano e diz té qui qué sê jogadô de futebol quando crescê. Té qui ele é um pôco jeitosim ca bola mais num é pra tanto não! Certa veiz padim tava vendo nóis brincá e falô uma coisa qui nóis tudim rimo dele.


Nóis tava jogano e Gamaliel feiz um gol e padim disse qui Gamaliel tinha puxado pra ele. Intão nóis rimo por dimais, pra mó de que padim se isqueceu que Gamaliel num é fio dele de verdade. Té as minina jogava bola cum nóis. Suzemira tamém chuta bem a bola, é até miló que Vantuir. Quando era pra mó de iscolhe os time, eu iscolhia ela e dêxava Vantuir de lado. Num sei nem como que ela aprendeu a chutá bola! Pra mó de que nóis nunca tivémo bola por aqui. Pena qui nossa aligria num durô muito tempo não! Passado um meis e poquim nossa bola furô. Foi uma tristeza pra nóis tudim. Era nosso miló divertimento. Inda bem que nóis tivemo essa bola pra mó de distraí nóis por um tempim, pra mó de o sinhô nosso patrão demorô por dimais pra vortá das viage dele e acabô o dinhêro do padim e tamém as coisa de cumê. O povo todo aqui da lida ficô num miserê só. Ninguém tinha como ajudá ninguém. Té o armazém donde nóis compra as coisa de cumê num tinha nada! Intão nóis pricisamo de saí nas istrada qui rodeia as terra do sinhô nosso patrão pra mó de tentá vendê um pôco de carvão pra podê arrumá dinhêro pra cumprá as coisa lá na vila. Num foi nada fáci não. Nóis fomo nóis tudim pra lá. Pricisamo de carregá os saco nas costa numa caminhada de mais de hora. Quando passava arguém de caminhão, era difici de pará. Nóis fomo quase atropelado umas par de veiz.


Nos dois primero dia num vendemo nem um saco se qué. Fomo vendê o primero saco no tercero dia qui nóis já tava por lá. Pra mó de que além de nóis, tinha mais cinco famia lá cum nóis vendeno carvão, qui tava tudim na merma situação qui nóis. Nesse dia té qui nóis tava cum sorte. Mais tamém quase qui foi uma tragédia. Suzane tava distraida na istrada brincano mais Suzemira e num viu quando o caminhão tava vindo e o caminhão brecô bem inciminha dela. Suzane té dismaiô. Mainha ficô disisperada achano qui tinha perdido mais uma fia. Té o moço do caminhão ficô por dimais preocupado e pidiu discurpa pro padim pelo acuntecido. Padim té discurpô o moço, pra mó de que ele viu que num foi curpa dele. Dispois de umas abanação, o moço do caminhão passô um bucadim de água na cara de Suzane e ela acordô. Ela dismaiô pelo susto qui levô, mais tamém pela fraquesa de num tê cumido por mais de dia já. Intão o moço veno nossa situação, cumprô cinco saco de carvão de nóis. Intão foi uma aligria só. Padim té teve uma idéia, mais mainha num dexô e brigô cum ele. Padim quiria que Suzane fizesse aquilo traveiz quando viesse ôtro caminhão. Pra vê se nóis consiguia vendê mais carvão. Mainha ficô por dimais brava cum padim e falô qui prifiria morrê de fome que colocá a vida dos fio no pirigo de sê atropelado de verdade. Essas venda rendeu pra nóis treis real, que mainha pegô e foi até a vila pra mó de cumprá umas coisa de cumê pra nóis.


Quando vortamo pro barraco no final da tarde, nóis pudémo de aliviá a fome um bucadim. Mainha cumprô um poquim de farinha e um bucadim de fejão, qui ia tê que durá por um bão tanto de dia. O sinhô nosso patrão, foi chegá das viage dele sete dia dispois e inda ficô por dimais bravo cum nóis, pra mó de que nóis paramo ca lida do carvão pra í na istrada vendê. E inda falô qui nóis era fraco por dimais, pra mó de que nóis num guentava ficá tão poquim tempo sem cumê nada. Inda bem que o sinhô nosso patrão vortô, pra mó de que nóis num guentava nem mais um tiquim de ficá nessa situação. As minina mais novinha já tava té cumeçano a variá de tanta fome! Elas já tava inxergano coisa qui num ixistia. Suzemira chegô a mordê uma pedra falano pra nóis era um pedaço de pão. Nesse urtimo dia lá na istrada, nóis tivemo té qui dexá os carvão por lá mermo, pra mó de que pricisamo de trazê os mais novim carregado de cavalim, pra mó de que tava tudo fraquim. Viemo no caminho de volta rezano pro nosso sinhô Jesuis tê pena di nóis e nos ajudá mais uma veiz, té qui cheguemo divorta no barraco e vimo qui o sinhô nosso patrão tinha vortado. Foi a nossa salvação e das ôtra famia tamém. As veiz eu fico abestado de vê cumé qui nóis consegui de sobrevivê num lugá como esse!


Padim diz qui nóis deve de tê feito arguma coisa muito de ruim em outras incarnação nossa aqui pela terra, pra mó de nóis merecê todo esse sofrimento qui nóis passa aqui. Mais mermo seno tão difici assim a vida, nóis buscamo força uns nos ôtro e acabamo veno qui tem gente qui vive té pió qui nóis por aqui.

Carvão saído do forno Foto: “Projeto Luz das Carvoarias”

Na maioria das veiz nóis acaba se ajudano uns aos ôtro aqui nessas terra. Mais tem veiz qui num tem nem como.


Tem famia aqui qui já morreu té dois numa merma semana. E foi no barraco de Sêo Leonir e Sinhá Toninha. Foi logo dispois da época de chuvarada, que é quando os musquito ataca. Nessas época tamém tem as cumpricação das muléstia qui aparece vinda desses bichim. Nessa veiz o povo lá na casa de Sinhá Toninha pegô febre amarela. Eita muléstia que acaba cas nossas força! Quando se tem sorte a febre vem mais fraca. Mais se vem forte e pega a gente fraco, num tem jeito! Morre mermo! A gente fica té por semana sem jeito nem de alevantá. Aqui mermo na nossa famia, já perdemo as conta de quantas veiz pegamo essa muléstia. Quando num é um, é ôtro! Só qui eu sei, mainha já pegô umas cinco veiz. Padim intão! Esse intão é o sinhô das febre amarela. Dispois dessa muléstia matá tanta gente por aqui, ano passado veio um povo da vila fazê vacinação ne nóis aqui. Teve gente qui quiria entrá duas veiz na fila só pra mó de garanti que num ia mais ficá adoecido. Mais as moça da vacinação ispricaro qui num tinha pricisão de tomá duas veiz agora, só quando eles vortasse numa ôtra veiz. Mais teve tamém quem tivesse cum medo das agulha e fugiu pro meio da quiçaça e num votô mais, té qui as moça fôro imbora. Suzemira mermo, foi uma das que foi priciso de segurá, pra mó dela num fugí. Feiz um berrero! Num quiria tomá por jeito ninhum. Só tomô dispois que mainha ispricô pra ela que era de pricisão. Que era pra mó de num aduecê.


Padim tamém tava dano uma de valente, mais eu vi na cara dele que ele tava por dimais preocupado. Paricia qui tava quereno iscapulí, mais minha num disgrudô dele. Os moço da vacinação disse pra nóis carvoêro qui essas muléstia aparecero aqui por causa dos disinquilibro ambiental. Eu num sei qui qui qué dizê isso, mais deve de sê arguma coisa que tem de vê cum as mata qui nóis dirruba pra mó de fazê carvão, pra mó de que eles dissero qui nóis divia de plantá ôtras arvre no lugá das que derrubamo. Se for vê, eles num tão errado não! Mais quem manda aqui num é nóis não. Nóis só faiz o qui o sinhô nosso patrão manda, e ele só manda nóis derrubá e queimá. O sinhô nosso patrão é home iscrarecido e disse pra nóis qui essas terra é dele e ele faiz dela o que ele quizé. E o carvão que nóis faiz aqui é pra mó de o povo da cidade podê fazê festança. E se eles faiz festança cum nosso carvão, qué dizê tamém que eles gosta qui nóis faiz bastante carvão. Assim tamém eles pode fazê bastante festança. Intão isso qué dizê qui tudo mundo fica filiz de nóis derrubá as arvre. O sinhô nosso patrão diz tamém qui nóis ajudamo o pogresso. Pra mó de que antes aqui nessas terra tinha só mato e mais mato. Agora tem bastante casa, pra mó de que agora tem ispaço pra construí. A única coisa que nóis percebe aqui é qui tá cada veiz mais difici de achá uns bicho qui nóis via antes. Só de cobra padim diz que já matô pra mais de


cem. Mais padim diz tamém que antes quando num tinha dinhêro pra cumprá coisa de cumê, ele sempre caçava tatu ou um ôtro bicho e preparava de cumida. Hoje té esses bicho tá difici de achá. Bicho tá difici! Mais criança o povo daqui aprendeu a fazê. E bastante! As famia qui tem menus, tem cinco fio. Tem té aqueles que já déro fio imbora. Uma das cumadre de mainha, Sinhá Santina, nas disisperança da vida, certa veiz trocô uma fia de 1 ano por uma cesta de cumida qui dava pra um meis. Mainha diz que dispois qui a cumida terminô dinovo, Sinhá Santina se arrependeu do feito, mais já era tarde. Mainha diz que por de veiz em quando acuntece umas coisa assim por aqui. Mainha diz tamém qui tem um povo qui é aproveitadô qui aparece por aqui e vem cumas cunversa de querê ajudá e acaba carregano os fio da gente pra bem longe daqui. Eles vem cuma cunversinha de que vai sê mió pra eles, que eles vão sê mais filiz e qui não vão mais tê qui passá fome, e o povo acaba entregano o próprio fio pra essas pessoa qui eles nem sabe donde vem. E eles fai isso em troca de um bucado de cumida ou mermo um rolim de dinhêro. Diz mainha que té cum ela já viero falá de levá os fio dela pra morá na cidade grande. Mais mainha diz qui si ela feiz, ela tem de cuidá. Mermo que seja nas dificurdade! Mais os fio que Deus deu pra ela cuidá ninguém tira! Só Deus. Mainha diz tamém qui quando esse povo tá rondano por aqui, a gente tem que ficá de zóio nos fio da gente e num dexá eles ficá cunversano cum istranho


longe da gente, pra mó de que já teve famia qui teve fio levado iscondido. Eles aparece cum arguma coisa de cumê ou argum brinquedo bunito e oferece pro fio da gente. Dispois convida eles pra passeá e vai levano eles imbora e a gente acaba ficano sem eles. E isso já cunteceu por aqui por mais de veiz tamém. Tem causo de mãe qui num foi nem atrais de recramá, pra mó de que acabô achano que deve de tê sido mió assim pras criança. Assim eles num vão passá fome. Certa veiz quando Sinhá Jacinta teve um fio disaparecido, ela foi cunversá cum a pulícia lá da vila e dissero pra ela qui nem sempre as criança levada daqui é bem cuidada. Dissero pra ela qui tem criança qui eles pega e dispois coloca pra trabaiá no farol das cidade grande, pra mó de pedí dinhêro. E tem tamém té uns qui eles mata pra tirá as coisa de drento pra vendê. Num sei pra mó de que qui essas pessoa vende as coisa qui tem drento da gente, mais eles diz que é isso que acuntece. Quando Sinhá Jacinta ficô sabêno dessas coisa, ela ficô por dimais disisperada. Mainha diz qui dava pena de vê como ela ficô! Mais tamém num é de menos! Nunca mais Sinhá Jacinta teve nuticia do fio dela. Aqui por essas terra, o povo pegô uma mania qui deu certo uma veiz e agora vem tentano pra mó de vê se dá certo traveis. Tô falano da história do tanto de Salvadô que tem aparicido por aqui.


Conta mainha qui essa história cumeçô na merma época que ela pariu Valdenir. Tinha uma famia que morava aqui nas terra do sinhô nosso patrão. Sinhá Durvalina e Sêo Everardo. Eles tivéro treis fio: Severina, Sebastião e Salvadô. Salvadô era o fio mais novo dos treis, mais na época que Valdenir nasceu, Salvadô já tinha deiz ano. Sinhá Durvalina dizia pra mainha que Salvadô era por dimais diferente dos ôtro fio dela. Pra mó de que ele era mais atencioso, mais isperto e inteligente por dimais. Té qui um dia chegô por aqui um sinhô que veio pra carregá carvão num caminhão e gostô por dimais de Salvadô. Cum poco tempo que ele ficô por ali na carvoaria, ele já notô as diferença entre Salvadô e os ôtro minino e resorveu de í falá cá famia dele. Falô que o minino num pudia de ficá aqui nesse fim de mundo sem uma oportunidade de miorá de vida, pra mó de que ele era muito inteligente. Sinhá Durvalina e Sêo Everardo orviro tudim o que o home tinha pra dizê. Disse Sinhá Durvalina pra mainha que o home ispricô pra ela tudim as coisa na cidade grande como era e que mermo lá na cidade era difici de se vê um minino inteligente assim. Intão o home propois de carregá Salvadô cum ele. Prometeu de dá moradia e istudo pra ele. E quando ele já tivesse incaminhado na vida, eles trazia o minino pra buscá o resto da famia pra morá na cidade. Sinhá Durvalina cunversô cum Sêo Everardo e veno que as condição que eles pudia dá pra Salvadô num era das mió, resorvero aceitá a proposta desse sinhô, de levá Salvadô pra cidade grande, onde ele ia podê istudá e sê arguém na


vida. Pois foi isso qui fizero, mais antes de tomá essa dicisão, fôro cunversá co sinhô nosso patrão pra sabê mió das intenção desse home e se o sinhô nosso patrão cunhecia mermo onde Salvadô ia morá. Sinhá Durvalina era por dimais cuidadosa cum esse minino, tanto que quando percebeu as diferença dele, colocô ele pra í istudá na iscola lá da vila. Passado pocos dia de aula, os professô lá da iscola mandaro chamá Sinhá Durvalina pra cunversá, pra mó de que Salvadô já sabia té iscrevê, sem nunca de tê ido nas iscola. Sinhá Durvalina num sabia nem o que falá pros professô, pra mó de que nem ela sabia disso. Dispois da cunversa co sinhô nosso patrão ele pegô direitim as informação donde morava esse sinhô que ia levá Salvadô e sigundo ele, eles ia pra Campina Grande. Conta mainha que cum muita dô no coração, Sinhá Durvalina mais Sêo Everardo se dispidiro de Salvadô e intregaro ele pro home, mais o coração deles dizia que eles tavam fazeno a coisa certa. Por vários ano o povo daqui nunca mais tinha orvido mais falá de Salvadô nem desse sinhô qui levô ele, pra mó de que nem carregá carvão aqui ele num tinha vindo mais. Sinhá Durvalina e Sêo Everardo já tinha té disistido de vê dinovo o fio tão quirido deles. Quando cinco ano dispois, por notícia vinda do sinhô nosso patrão dizia que esse sinhô que carregô Salvadô daqui pra cidade grande, tinha morrido


numa batida de caminhão e que Salvadô tinha ido morá cuma ôtra famia lá de Sum Paulo. Sinhá Durvalina intão deu graças ao Sinhô Jesuis e pidiu prele cuidá de Salvadô pra ela. Disse mainha que Sinhá Durvalina num sabia se ficava triste ou se filiz, pra mó de que num sabia se Salvadô tava bem ou se pió qui aqui. Se bem que pra sê pió que aqui, só se Salvadô tivesse preso em cadeia! Passáro mais deiz ano e nada mais de sabê nuticia de Salvadô. As coisa aqui na lida do carvão tava cada veiz pió. Era só sofrimento e Sinhá Durvalina mais Sêo Everardo já tinha té disistido de revê o fio traveis. Já num tinha nem mais isperança de vida por mais tempo. Sinhá Durvalina já tinha perdido a vista de um zóio e Sêo Everardo sofria duma dessas duença de purmão qui sempre pega os trabaiadô das lida de carvão. Quando num desses dia cheio de glória que o Sinhô nosso Jesuis guarda pra nóis, aparece aqui nas terra do sinhô nosso patrão, um moço num carrão bem bunito, preguntano de Sinhá Durvalina e Sêo Everardo. O povo chegô té a pensá qui fosse arguém da turma dos “patativa” que aparece aqui por de veiz em quando pra mó de fazê a gente pará cá lida no carvão. Mais quando sinhá Durvalina viu aquele moço, ela se atirô de jueio no chão e agradiceu Nosso Sinhô Jesuis pelo milagre de trazê divorta o fio querido dela. Era Salvadô que tinha vindo buscá a famia pra mó de í imbora dessa miséria de vida. Salvadô agora era quase um doutô. Ele tava istudano na iscola


de médico e tava bem de vida agora, pra mó de que tinha recebido dinhêro dêxado de herança do sinhô que levô ele daqui e que morreu tempo dispois. Foi uma aligria só nesse dia! Salvadô jurô pra mainha dele qui nunca mais nem ela nem a famia dele ia passá por esses sofrimento. Salvadô num ficô aqui no carvão nem mais um tiquim de tempo. Pegô a famia toda e levô tudim eles imbora. Num levaro nem rôpa, nem nadica de nada. Fôro lá na casa do sinhô nosso patrão e acertaro tudim as conta da famia e sumiro por esse mundão á fora. Dispois desse caso ocorrido aqui na lida do carvão, muitos dos fio home que nascero por aqui recebero o nome de Salvadô, que era pra mó de quem sabe, acuntecê a merma coisa qui acunteceu cá famia de Sinhá Durvalina mais Sêo Everardo. Padim tamém ficô por dimais imocionado ca história, criô corage e tentô faze mais um fio pra ele tamém. Isso cum a promessa de que se nascesse fio home, ele dava o nome de Salvadô pra ele tamém. Quando mainha imbuxô, padim ficô por dimais isperançoso de que desse certo. Padim falava que se deu certo cum Sinhá Durvalina e Sêo Everardo, haveria de dá certo cum ele tamém. Pricisava só de tê isperança e confiá no Sinhô nosso Deus. Pela idade de mainha, ela teve um monte de cumpricação durante esse tempo de ispera do nosso Salvadô. Madrinha Jupira teve qui vim pra socorrê mainha um bucado de veiz. Teve sumana de mainha nem pudê í pra lida cum


nóis. Aí as coisa cumpricava mais inda pro nosso lado, pra mó de que o serviço aumentava. Por conta dessa ispera por dias mió, nóis sofremo por dimais, pra mó de que padim tirô de nóis té as hora de discanso dispois de enchê a barriga. Paricia qui nóis tudim tava imbuxado. Nóis num via a hora desse minino nascê! Nóis tava té cum medo de imaginá o que padim ia fazê se por qualqué força do distino, no lugá de minino, viesse mais uma minina! Nóis achava que se acuntecesse mermo de vim muié, padim mermo assim ia colocá o nome de Salvadô nela, só por conta da isperança de mudá de vida. Padim té já andava fazeno os prano de pra quem ele ia intregá nosso Salvadô pra mó de podê í pra cidade grande tamém e dispois vortá pra buscá nóis tudim aqui. Ele té já andava sondano os carregadô de carvão que vem por aqui e já ispiculava cum eles cumé qui era avida deles na cidade donde eles morava. Padim já tinha té os prifirido dele! Mainha é qui num tava muito filiz cum a idéia de dá o fio dela pros ôtro criá não! Mainha nunca foi de abrí mão das criação dela. Dizia ela, qui prifiria morrê de lidá cum carvão pra sustentá os fio, de que dá um fio dela imbora. A isperança era tão grande que té nóis minino e as minina, já tava fazeno os plano de cumprá coisa bôa. Vantuir dizia qui quiria de tê uma bola. Suzemira quiria podê cumprá um monte de coisa boa de cumê. Suzane quiria uma buneca que fosse mais linda


que a Pitelma que era da Suzeneide. Gamaliel dizia qui quiria tê dois cachorro que nem o Mocotó. E eu quiria uma bicicreta. Quando chegava di noite lá no nosso barraco, quando já era hora de drumí, nóis iscutava padim falano baxim cum Salvadô inda no buxo de mainha. Qui era pra ele vim cum bastante saúde que era pra mó de crescê e de tirá nóis tudim dessa miséria. Mal sabia Salvadô, qui nem tinha nascído inda, que as coisa aqui era por dimais cumpricada e que pra dá um jeito nesse miserê todo era priciso de sê muito mais qui Salvadô. Era priciso de sê um milagrero dos grande! Prá mó de que as miséria por aqui num é coisa pôca não. Padim andava tão abestado, que por diversas veiz saiu correno da lida pra mó de sabê cum mainha se Salvadô já tinha nascído. Mainha té ralhava cum ele! Pra mó de que ela num tinha nem quatro meis de imbuxada inda e padim ficava lá rodiano pra sabê se ela já tinha parido. Nóis achava que padim já tava té ficano bilolado cum essa idéia! Ás veiz nóis pegava ele cunversano cos forno sozim. Padim falava pros forno qui um dia ele ia dexá tudim eles lá e ia pra cidade grande morá co fio dele, e qui num ia mais pricisá de ficá lá tussino o dia interim nos meio daquelas fumaça qui saía dos forno. O tempo foi passano e cada veiz mais aumentava a agunia de padim. E o pió é qui tinha tamém as disputa cum ôtras famia qui tamém tava isperano um Salvadô.


Na merma época qui mainha imbuxô, ôtras duas muié aqui do carvão tamém imbuxáro e se nascesse home, tamém ia chamá Salvadô. Intão ficava um cunversê de que o meu vai sê mió di qui o seu, ou qui o meu vai sê doutô e o seu não. Essas coisa de gente qui num vê a hora de saí dessa miséria! Teve um dia qui eu fiquei bravo por dimais cum Vantuir, pra mó de que ele foi contá pro Sêo Tunim qui padim já tava iscolheno aguém pra mó de levá o nosso Salvadô pra longe daqui. E num é qui Sêo Tunim tamém cumeçô a sondá os caminhonero que vinha carregá carvão! Nem contei pro padim, se não padim era capaiz de dá uma cóça em Vantuir. Quando mainha já tava de seis meis, quase qui ela perdeu nosso irmão Salvadô. Nossa lida tava por dimais atrasada, pra mó de que tinha passado uns dia que tinha chuvido por dimais. O Riacho que passa aqui pertim tinha té jogado água pra fora, qui chegô té a enchê os forno de água. Teve dois forno qui té disabô. Assim qui o tempo estiô, que nóis pudemo vortá pra lida. Mainha quiz í junto pra mó de ajudá, sinão quando nosso patrão fosse pagá por nossa lida, nóis num ia recebê era nadica de nada. Pra mó de que já teve meis de chuvê dessa manêra e nóis ficamo té deveno pro sinhô nosso patrão. Logo de manhãzinha quando chegamo lá nos forno, a terra tava toda moiada inda e tava uma lama só.


Mainha foi caminhá lá pro meio dos forno e se iscorregô, bateno cas costa no chão, qui chegô té a perdê o sintido! Padim se disisperô! Veio na carrêra pra mó de ajudá mainha, mas num tinha nem jeito cum essas coisa. Quem ajudô mainha a vortá e a se recuperá traveiz foi o Sêo Tunim, futuro pai do ôtro Salvadô. Padim agradiceu ele por dimais e té convidô ele pra sê padrim do nosso Salvadô. De tão filiz, Sêo Tunim tamém convidô padim mais mainha pra sê padrim do Salvadô dele tamém. Que se prometêro um pro ôtro de que se um dus dois miorasse de vida, um ajudava o ôtro. Madrinha Jupira foi chamada pra ajudá mainha, qui ficô incostada sem podê se isforçá por quase um meis. E padim, a cada hora vinha pra vê se tava tudo bem co nosso Salvadô. Padim só sucegô, quando mainha tocô ele de lá, falano qui tava tudo bem. Inda bem que num cunteceu nada co nosso Salvadô, se não padim ia tê um tróço. Dispois desse dia padim num dexô mais mainha vim trabaiá nos forno, que era pra mó de garantí a chegada do nosso Salvadô. Nunca ví tanto sonho colocado em cima de uma criança só! Inda mais sem tê a certeza de que ia sê home e que vai sê diferente de nóis.


As criança qui nasce aqui, já nasce tudo fraca e sem mermo sabê se vai vivê um dia se qué. Só sobrevive mermo pela graça de nosso Sinhô Jesuis Cristo. Hoje padim tá se regalano de aligria! Nasceu o Salvadô qui ele tanto isperô. Olhano assim mei de quarqué jeito, ele num parece nadica de nada cum quem veio pra tirá nóis dessa miséria. Mais padim diz que ele tem muito jeito sim, pra mó de que ele paricia que tinha a cabeça um pôco maió qui a nossa quando mainha pariu nóis. E padim diz que gente inteligente tem qui tê a cabeça maió, pra mó de cabê mais coisa drento Mainha tá lá jogada no chão do barraco, se recuperano do parto. A partêra, Sinhá Benedita, disse pro padim que o parto foi difici por dimais, pra mó de que o Salvadô paricia qui num quiria nascê. Ele tava té si inrolano no cordão e curria o risco té di morrê inforcado. A sorte foi qui madrinha Jupira tava junto e ajudô cum umas reza. Hoje parece qui cumeça uma nova vida aqui na lida do carvão. Padim já té chorô de filicidade. Assim qui padim pegô o Salvadô no colo, ergueu ele pro alto e deu um grito pra agradecê a Deus por tê mandado o seu Salvadô, ou mió, o Salvadô do Santo Dia, que é o nome que padim resorveu colocá nele. Agora eu tô chegano mais padim aqui na casa do sinhô nosso patrão pra mó de mostrá o Salvadô pra ele cunhecê. - Licença sinhô patrão?


- Entra Sebastião! -

Peço vossa licença pra mó de le mostrá meu fio mais novo que acaba

de nascê. - Mais um Sebastião? Que disposição heim! Tu em veiz de trabalhá fica fazendo filho homem? -

Não sinhô. A gente tem trabalhado muito sim sinhô! Mais esse aqui há

de sê o derradêro. Esse há de sê o fio que vai ajudá nóis a miorá de vida. - E tu diz isso pra mó de que? Tu acha que esse vai trabalhá mais que os outros? Pra mó de que esses filhos que você fez até hoje, tirando o mais velho que já morreu, o resto é tudo mole heim Sebastião! - Inda não sabemo não sinhô, mais Deus há de orví nossas préce. - O como vai se chamá esse disinfiliz Sebastião? - O nome dele é Salvadô do Santo Dia sim sinhô. - Salvadô? Mais um Salvadô por aqui? - Sim sinhô! Mais esse só vai cumeçá na lida quando tivé pelo menos 3 ano de idade. Primero vamo dexá o minino firmá saúde. Dispois nóis vemo cumé qui vai sê. Quem sabe esse fio num se torna um dotô!


-

Pois é Sebastião. Quem sabe? Mas enquanto seu filho Salvadô não se

forma doutô, é bom o senhor voltar pra lida, antes que o mês acabe e você não ganhe o suficiente nem pra dar de cumê pra esse garoto. - Sim sinhô, sinhô patrão. Já tô me arretirano. Vamo simbora Vantecir, o sinhô nosso patrão tem muito mais o que fazê. - Vamo sim padim. Eu tô aqui pensano cos meu pensamento e tentano imaginá o que vai sê de padim mais nóis tudim, se esse Salvadô que padim feiz num salvá nóis dessa vida disgramenta! Das veiz pode sê que nóis aguente mais arguns ano na lida, mais pode sê que a lida no carvão acabe cum nóis tudo antes de Salvadô nos ajudá. Essa pode sê a nossa urtima chance! Mais se acuntecê de nóis consegui arguma mióra e nóis consegui sobrevivê mais alguns ano, eu conto proceis o que acunteceu cos minino carvoêro.

E isso não é o FIM!


Meninos Carvoeiros Foto: “Projeto Luz das Carvoarias”


MÚSICA “MENINO CARVOEIRO” - Música premiada com o Primeiro lugar no Festival “Canta Limeira” no ano de 2006. Festival promovido pela Secretaria de Cultura de Limeira Secretário da Cultura: José Farid Zaine.

Letra: Marcos Lima Padim hoje tá filiz Tem motivo pra cantá Filho home eu nasci Bem aqui nesse lugá Ele até me deu meu nome Foi com muita alegria Oceis pode me chamá Salvadô do Santo Dia Me mostrô pro seu patrão Le falô com vaidade Vai trabaiá no carvão Com treis ano de idade

Carvoveiro, carvoeiro Filho vindo desse chão Sua história, sua vida Faz ferida no sertão

2x


Meu distino tá traçado Nas mão de nosso Sinhô Vô cresce pra trabaiá E inrrica o seu doutô Vô ganha meus deiz real Trabaiano o meis intero Junto com meus otro irmão Os menino carvoeiro Vô podê até cumê Tê um caxote pra drumi Minha vida pra sofrê E uma cova se eu parti Carvoveiro, carvoeiro Filho vindo desse chão Sua história, sua vida Faz ferida no sertão

2x

www.tocpercussivo.blogspot.com


REPORTAGENS A seguir, algumas reportagens feitas em algumas regiões do Brasil, onde ainda persite essa atividade pseudo-industrial, onde crianças e adultos se sujeitam a esse trabalho á procura de subisistência. Desde novembro de 97, pelo menos 20 menores queimaram mãos e pés ao cair em covas de terra em Paragominas.

Fornos de carvão mutilam crianças no PA

ULISSES CAMPBELL FREE-LANCE PARA A AGÊNCIA FOLHA, EM PARAGOMINAS

A falta de segurança nas serrarias e o trabalho infantil em carvoarias de Paragominas (322 km de Belém) estão produzindo uma geração de crianças mutiladas no Pará. Desde novembro de 97, pelo menos 20 menores queimaram mãos e pés ao caírem dentro de fornos rudimentares de carvão, conhecidos como caieiras. Os fornos ficam escondidos no chão, e as crianças caem quando estão brincando ou ajudando os pais nas serrarias. Além dos pés, muitas delas queimam as mãos ao tentar se apoiar no carvão em brasa. Com os dedos grudados, algumas não vão à escola, pois não conseguem segurar um lápis.


O número de crianças mutiladas é oficial, consta dos registros do hospital municipal e do conselho tutelar, mas o total pode ser maior, pois há dificuldades para contabilizar os acidentes. Depois que caíram nos fornos de carvão, Damázia Gonçalves, 10, Melissa Piedade, 7, e Leandro Sodré, 8, sonham com a mesma profissão: medicina. O intenso contato com médicos despertou o desejo das crianças. Leandro já passou por seis cirurgias. Desde o ano passado, o ortopedista Luiz Fausto da Silva, 29, que trabalha no Hospital Municipal de Paragominas, faz as cirurgias nas crianças queimadas. É hoje apontado como "salvador". De acordo com o Sindicato das Serrarias e Madeireiras de Paragominas, 76 empresas de beneficiamento de madeira estão em atividade no município. No auge da atividade, havia mais de 200.(©Folha de São Paulo) De janeiro a setembro, fiscais flagraram 230 casos; em uma carvoaria, foram achados fornos adaptados para crianças Fonte: http://www.sindicatomercosul.com.br/noticia02.asp?noticia=2903

A QUEM INCOMODA ?

Trabalho infantil gera lucro pra quem explora, pobreza pra quem é explorado, faz parte da cultura econômica brasileira e está diretamente ligado ao


trabalho escravo. A quem incomoda a luta contra o trabalho infantil? Incomoda aos que se incomodam com a luta contra o trabalho escravo. Incomoda aos que se incomodam com a luta contra o trabalho degradante. O combate ao trabalho infantil incomoda a quem lucra com o trabalho infantil, a quem lucra com o trabalho escravo e a quem lucra com o trabalho degradante.

A quem incomoda a dignidade humana; a quem incomoda a beleza, a resistência, a sensualidade, a honestidade, a capacidade de organização do pobre; a quem incomoda a imagem bonita dos menos favorecidos? A quem incomoda a denúncia das injustiças da pobreza? Incomoda aos ricos e incomoda a uma parcela da classe média. Pra existir um rico quantos pobres tem que existir? Me perguntou um dia um carvoeiro, cansado de trabalhar, desde criança.

Ataliba dos Santos estava cansado de não assinar a carteira, não estudar, cansado de nãos... E cansado de não ter respostas. Enquanto fotografava pensava a quem interessa o desequilíbrio social? No Brasil, o trabalho infantil não é conseqüência da pobreza, mas sim instrumento financiador dela. Empregar crianças significa lucro fácil. A exploração infantil gera o desemprego dos pais, trabalho escravo, crianças doentes, subnutridas, morando em precárias condições, prejudicadas na sua capacidade intelectual e no seu direito à educação, lesadas no seu direito ao lazer, ao carinho, à alegria; sem infância.


“A gente custa muito pra entender que nasceu pra ser peixe de engordar gato que engorda rico e, em casa, a gente fabrica com todo amor os próximos peixinhos. Pra fugir disso, botei todo mundo pra estudar, mas sinto um aperto no peito porque sei que o ensino é muito ruim. Filho de pobre, mesmo depois de estudar um, dois, quatro anos, continua analfabeto. “As palavras de José dos Santos, carvoeiro na região do cerrado, em minas Gerais expressão a luta para mudar uma realidade. José dos Santos está tentando romper uma corrente perversa que alimenta uma cadeia de trabalho degradante nas carvoarias brasileiras, assim como nos sisais, nas fazendas, nos canaviais, nas pedreiras e em vários setores do segmento rural que alimentam indústrias urbanas. O trabalhador que vive em trabalho degradante ou análogo a escravo, é, na sua imensa maioria, analfabeto, e foi explorado como trabalhador infantil. Aconteceu assim com seus pais e seus avós. O caminho normal é acontecer com os filhos e netos. Infelizmente, ainda não existe no Brasil uma política social que faça a associação entre trabalho infantil e trabalho degradante, análogo a escravo ou escravo, de forma a romper esse círculo. A realidade é que o trabalhador escravo de hoje foi o trabalhador infantil de ontem. A realidade do trabalho nas carvoarias brasileiras merece uma análise diferenciada. Muitas vezes o trabalho não é considerado trabalho escravo, outras vezes sim. Porém, sempre é um trabalho extremamente pesado e quase sempre, mesmo em casos de carteira assinada, um trabalho degradante. Acaba com a


saúde do trabalhador. Muitas vezes, olhar uma carvoaria em pleno vapor é, do ponto de vista humanitário, algo inaceitável.

Fonte: http://www.pime.org.br/mundoemissao/justicasocialinfantil.htm Revista Mundo e Missão UM SONHO QUASE IMPOSSÍVEL!

Os pequenos carvoeiros Edson Pereira dos Reis tem oito anos e seu sonho é jogar futebol. Um sonho que tem poucas chances de se tomar realidade. Analfabeto, ele trabalha com o pai na fazenda Financial, de propriedade da Carvão Tocantins Sul Ltda, no Mato Grosso do Sul. Edson sabe carregar forno, tocar fogo, descarregar, pegar no garfo, pegar na esteira. Não ganha nada por isso. O pai é responsável por "tocar" 40 dos fornos da fazenda, que derruba e queima, em um mês, cerca de 680 mil árvores, numa destruição de 120 hectares de floresta. No total, cerca de 10 mil pessoas trabalham nas carvoarias da região que engloba os municípios de Ribas do Rio Pardo, Três Lagoas e Águas Claras. São homens, mulheres e crianças que, no final do mês, ao invés de salário, vêem crescer a sua dívida com o barracão onde adquirem comida, remédios e instrumentos necessários para o trabalho.


Ebson Castilho, de 5 anos, também é carvoeiro e, como Edson, nada recebe. Ele diz que quando crescer quer sair da carvoaria, porque no carvão não se vê nada. Os pais, Antônio e Sueli, também querem sair, mas não podem fazer isso enquanto não pagarem a dívida de 700 reais que têm com o patrão, por despesas com comida. "Não sei que comida - diz Sueli - porque meu filho está sem leite há 15 dias". O cenário de uma carvoaria é medonho. O calor dos fornos chega a mais de 40 graus, a fumaça asfixia e a poeira do carvão entra pêlos poros e narinas. Um trabalhador fica em média 10 horas por dia abastecendo, retirando ou colocando fogo nos fornos. À noite, na hora que seria a do descanso, a família é obrigada a vigiar cada forno para evitar o risco de uma explosão. As crianças trabalham como adultos, envelhecem antes do tempo, não tem brinquedos e a maioria nunca foi à escola.

A evidência do trabalho escravo foi tanta que em novembro de 1994 o Ministério Público e a Procuradoria Regional do Trabalho de Mato Grosso do Sul instauraram um inquérito civil para apurar os fatos. Até hoje, entretanto, nenhuma medida foi tomada.

Fonte: http://www.sinttelrio.org.br/01escrav.htm


O COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO

DRT/BA liberta 45 trabalhadores no Oeste do Estado

06/06/2006 - O Grupo Especial de Combate ao Trabalho Escravo da Delegacia Regional do Trabalho na Bahia (DRT/BA), em parceria com a Polícia Militar, libertou 45 trabalhadores da Carvoaria Nova Invernada, localizada no município de Formosa do Rio Preto, região Oeste do estado, em uma operação realizada no final de maio. Os trabalhadores foram encontrados em condições análogas às de escravidão. Alguns estavam alojados em barracos de lona afastados da sede da carvoaria, enquanto outros dormiam em construções impróprias. Os Equipamentos de Proteção Individual (EPI), obrigatórios por lei, não eram fornecidos pela carvoaria. A água era entregue por um caminhão pipa enferrujado e os trabalhadores estavam em débito com a venda local, o que caracteriza servidão por dívida. Depois da fiscalização da equipe, os trabalhadores foram libertados e encaminhados a um hotel, onde aguardarão os pagamentos. Serão pagos R$ 81.344,12 em rescisões. Todos receberão seguro-desemprego no valor de um salário mínimo e serão incluídos no Programa Bolsa Família.


Com mais essa ação do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), já chega a 336 o número de trabalhadores libertados no Oeste da Bahia, somente de janeiro a maio deste ano. Jornalista responsável – Eugênio Afonso Estagiária – Tiara Rubim (71) 3329.8430 / 8154.0253 eugenios.drtba@mte.gov.br

Fonte: http://www.mte.gov.br/delegacias/BA/conteudo/noticias/default80.asp


PROJETO SOLIDÁRIO

Projeto Luz das Carvoarias ensina a arte da fotografia a crianças do Direito de Crescer.

Buscando desenvolver o senso artístico das 50 crianças participantes do Programa Direito de Crescer, a Girassolidário iniciou, em março de 2004, o projeto Luz das Carvoarias. Um dos objetivos era despertar o olhar dos meninos e meninas para a arte, utilizando a fotografia como ferramenta. Na primeira fase do projeto, as crianças fotografaram as carvoarias. Na segunda, exposições itinerantes foram levadas para escolas e locais públicos, com a sustentação de palestras sobre trabalho infantil para os alunos. As exposições aconteceram entre os meses de agosto a dezembro de 2004. O Luz das Carvoarias buscou mais do que o incentivo ao estudo: colaborou para o desenvolvimento da criança e do adolescente como cidadãos de direitos e deveres. O projeto teve o apoio do FIC (Fundo de Investimentos Culturais) da Secretaria de Cultura Esporte e Lazer de Mato Grosso do Sul e da VIVO.

Nas oficinas, ministradas pela fotógrafa Vânia Jucá, as crianças aprenderam desde os conceitos básicos de fotografia até luz e revelação. Além


de Campo Grande e Brasília, as fotografias foram exibidas na Suíça, Hungria e Polônia. Ribas do Rio Pardo, a 100 quilômetros de Campo Grande, ficou conhecida mundialmente no início dos anos 90 pelas denúncias de trabalho escravo e exploração de mão-de-obra infantil nas carvoarias da região. O ensaio fotográfico está aberto ao público na PRT 24/Ms que fica na rua Pimenta Bueno, nº 138, bairro Amambaí, das 8 às 18 horas. As exposições itinerantes são acompanhadas por palestras sobre trabalho infantil para estimular a discussão sobre o tema.

Fonte: http://www.prt24.mpt.gov.br/asscom/release/2005/jan/exp_fotos.htm http://www.girassolidario.org.br/index.php?can_cod=25&con_cod=98


O AUTOR

Marcos Lima

Comentário

O cenário desta história, é só mais um como tantos outros que existem no mundo. A pobreza e as más condições de vida são uma permanente situação em qualquer estilo econômico e em qualquer país.


O trabalho de subsistência é sempre uma resposta á má distribuição de renda. Falta de estudo e sobra oportunismo por parte de alguns que querem se aproveitar da mão de obra barata. Isso não acontece só em carvoarias. Vimos por aí, dezenas de outros tipos de trabalho que também geram essa condição de trabalho degradante e escravo. Já existem algumas leis e algumas organizações que buscam acabar com esse tipo de trabalho, mas enquanto esse tipo de atividade interessar á alguns aproveitadores, isso nunca vai acabar. Mesmo assim não podemos desistir de sonhar com melhores condições de vida. Mesmo que seja na busca do nosso “Salvador do Santo Dia”. A dignidade é o mínimo que se espera conquistar. Qualquer pessoa que sonha com um futuro melhor para sí e para sua família merece respeito. Se cada pessoa fizer o mínimo para mudar esse tipo de cenário, por menor que seja, pode ser o caminho para um futuro bem mais humano.

Marcos Lima


BIOGRAFIA Marcos Lima Nascido em Rio Claro, no ano de 1966, vindo para Limeira aos 5 anos de idade. Músico Percussionista, Luthier de instrumentos percussivos, Compositor, Poeta e Escritor. Formado em Administração de Empresas, Coordenador do Projeto “Toc Percussivo”, professor de percussão. Presidente da ACARTE – Associação Cultural dos Artistas e Técnicos de Limeira Analista de projetos Culturais do MinC – Ministério da Cultura - Conquistou o 3º lugar no 1º Concurso de poesias com tema ecológico de Limeira com a poesia “Destino de um Cabra Forte”. - Conquistou o prêmio de “Aclamação Popular” no Festival Festi Afro 2005 com a música “Minha Raça é Brasileira” Letra de sua autoria. - Conquistou o 1º Lugar no Festival Canta Limeira 2006, com a música “Menino Carvoeiro” Letra de sua autoria e defendendo a mesma com as crianças do “Projeto Toc Percussivo”


- Menção honrosa em Setembro 2006 com o conto “A Vingança do Homem que Virava Peixe” e também com a poesia “Quadro Torto” no Festival Limeira em Cantos e Contos”

É AUTOR DOS CONTOS:

“A VINGANÇA DO HOMEM QUE VIRAVA PEIXE” “ VACA DE FERRO “ “ O MINERIM DE ALI PERTIM” “ AMIGAS DE MORTE” “ A ESCADA DA QUASE DISCÓRDIA” “ E ENTÃO ELE ACORDOU” “ O VIOLÃO ENCANTADO”

PÁGINAS NA INTERNET: Facebook: https://www.facebook.com/marcos.lima.1044 Twitter: @Toc_Percussivo


MENINO CARVOEIRO  
MENINO CARVOEIRO  

Menino Carvoeiro é uma história fictícia, porém muito comum e atual em várias partes do sertão brasileiro, a qual foi criada a partir da com...

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