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ACADEMIA DE MEDICINA DE BRASÍLIA

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O CINQUENTENÁRIO DE FORMATURA DA 1ª TURMA DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA


Marcus Vinicius Ramos Organizador

O Cinquentenário de Formatura da 1ª Turma de Medicina da Universidade de Brasília: 1970 - 2020

AMEB Brasília, DF 2020


A 1ª Turma da Faculdade de Medicina inaugura o “Minhocão”, ainda em construção.

A 1ª Turma inaugura a Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho (UISS)


O C  F  ª T  M  U  B:  - 


Obra de divulgação cultural e distribuição gratuita. Permitida reprodução total ou parcial, obrigatória a citação da fonte.

Printed in Brazil – impresso no Brasil Primeira edição em 2020 Projeto gráfico, diagramação e capa: Marcos Aurélio Pereira Revisão: Marcus Vinicius Ramos Atendimento ao leitor: acadmedbr@gmail.com

Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária Marjorie Gonçalves Andersen Trindade, CRB-1/2704

R175c Ramos, Marcus Vinicius Cinquentenário de formatura da primeira turma de medicina da Universidade de Brasília : 1970 a 2020 [o] / Marcus Vinicius Ramos (Org.). – Brasília : AMEB, 2020. 134 p. 21 cm. ISBN 978-65-88803-00-4 1. Biografia. 2. Universidade de Brasília. I. Faculdade de Medicina. I. Título. II. Academia de Medicina de Brasília. CDU 929

Academia de Medicina de Brasília SGAS 607, Edifício Metrópole, cobertura 1 Asa Sul, Brasília-DF, CEP 70 200-670 Internet acadmedbr@gmail.com Portal: https://academiamedicinadebrasilia.org.br/ Telefone 61 3346-3655


Não é verdade que as pessoas deixam de perseguir seus sonhos porque envelhecem. Envelhecem porque deixam de perseguir seus sonhos. Gabriel Garcia Márquez


A Diretoria Executiva da Academia de Medicina de Brasília agradece a colaboração dos membros da Comissão do Cinquentenário de Formatura, assim como a dos demais alunos da Primeira Turma de Medicina da Universidade de Brasília, sem a qual não teria sido possível a edição deste livro.


Sumário APRESENTAÇÃO__________________________________________________________ 11 À PRIMEIRA TURMA DE MEDICINA DA UnB, DAS ENTIDADES MÉDICAS DO DISTRITO FEDERAL_______________________________________________________ 17 A IMPORTÂNCIA HISTÓRICA DA 1ª TURMA DE MEDICINA DA UnB___________ 19 MENSAGEM DO CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO DISTRITO FEDERAL AOS PRIMEIROS MÉDICOS FORMADOS EM BRASÍLIA_______________ 21 AOS EGRESSOS DA PRIMEIRA TURMA DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA______________________________________________________________ 23 A PRIMEIRA TURMA DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA: INEDITISMO E ANTECIPAÇÃO DO FUTURO________________________________ 25 À PRIMEIRA TURMA DE MEDICINA DA UnB, DOS MEMBROS TITULARES E EMÉRITOS DA ACADEMIA DE MEDICINA DE BRASÍLIA_____________________ 27 CINQUENTA ANOS DE HISTÓRIA – 1970 - 2020______________________________ 45 À PRIMEIRA TURMA DA FACULDADE DE MEDICINA POR OCASIÃO DO CINQUENTENÁRIO DE FORMATURA_______________________________________ 47 A PRIMEIRA TURMA_______________________________________________________ 55 QUEM FOMOS, QUEM SOMOS_____________________________________________ 57


Apresentação A história é um labirinto. Acreditamos que exista uma saída, mas não sabemos onde está. Não havendo ninguém do lado de fora que nos possa indicála, devemos procurá-la nós mesmos. O que o labirinto nos ensina não é a saída, mas quais são os caminhos que não levam a lugar nenhum. Norberto Bobbio

Cinquenta anos é tempo bastante para a apreciação dos fatos que influenciam o processo contínuo do desenvolvimento humano, muito intensamente os vividos pelos médicos, haja vista o enorme acúmulo de conhecimento agregado e incorporado às suas práticas, com resultados impactantes para a saúde e bem estar de todos. Esses profissionais continuamente expandiram os conhecimentos promissores, otimizaram aqueles que são estáticos e acima de tudo, identificaram suas lacunas. Na linha histórica, na dinâmica moderna, se diz que o saber dobra a cada cinco anos e parece que esse intervalo está sendo encurtado. Na trajetória da vida, o foco em objetivo bem estruturado chega à maturidade, com implicações, uma delas pertinente a todos, que é a experiência com tudo que a envolve: falhas, sucessos, necessidades (algumas supridas, outras não) e ainda, caminhar novas estradas ou ver com novos olhos. A Academia de Medicina de Brasília (AMeB), tem um importante papel na manutenção da memória e registro dos fatos marcantes da história da nossa cidade, especialmente no âmbito da medicina. No cumprimento dessa vocação, torna-se fundamental apontar os exemplos de profissionalismo, dedicação, competência e construção realizados pelas pessoas; mostrar e registrar os trabalhos dos que nos antecederam, mantendo o elo entre os mais antigos e os atuais, numa corrente contínua que se iniciou no passado e se pretende que nunca terá fim. Este livro é um memorial dedicado aos primeiros médicos que se graduaram em Brasília, que aqui viveram e vivem, que participaram da história da cidade, que criaram vínculos sociais no 11


exercício da arte e da nobreza da medicina. Constitui, pois, um assentamento, um resgate e uma ratificação de cunho histórico da profissão no Distrito Federal. A Academia de Medicina de Brasília manifesta sua gratidão a esses pioneiros, principalmente porque aqui ficaram e mostraram, nesses 50 anos, seus valores, destacando-se como referências nacionais e internacionais. Todos tiveram sua importância por terem cuidado das pessoas, por terem propiciado o alívio do sofrimento, por terem transmitido a esperança. Os fatos podem mudar, mas os seres humanos permanecem. Os que permanecem devem possuir a capacidade de enxergar mudanças e reconhecer o valor e ensinamentos dos antepassados; devem desenvolver a capacidade da doação para exemplo aos pósteros, de forma que a corrente não se quebre. Aqueles que têm uma visão ampla da evolução dos conceitos e da ciência e se dedicam ao exercício do bem usufruem do reconhecimento. Por isso, nossos parabéns a todos. Vocês facilitaram a procura pelo caminho da saída do labirinto da história.

Diretoria Executiva Academia de Medicina de Brasília (AMeB)

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O Cinquentenário de Formatura da 1ª Turma de Medicina da Universidade de Brasília: 1970 - 2020


Academia de Medicina de Brasília DIRETORIA Biênio 2020 – 2021

Presidente Acad. Marcus Vinicius Ramos Vice-Presidente Acad. Etelvino de Souza Trindade

1ª Vice- Presidente Acad. Isis Maria Quezado S. Magalhães

Secretário Geral Acad. Augusto Cesar de Farias Costa

1º Secretário Acad. Osório Luís Rangel de Almeida

2º Secretário Acad. Mário Pedro dos Santos

Diretor Financeiro Acad. José Ulisses Manzzini Calegaro

Diretor Científico Acad. Nasser Simão Sarkis

Conselho Fiscal Acad. Mouranilda Tavares Schleicher

Acad. Jair Evangelista da Rocha Acad. Rosely Cerqueira de Oliveira

Conselho Fiscal Suplente Acad. Edno Magalhães

Acad. Antonio Geraldo da Silva Acad. Janice Magalhães Lamas

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Academia de Medicina de Brasília PATRONOS Luiz Torres Barbosa, Henrique A. G. Vasconcelos, Raimundo de Moura Britto, Paulo Marcelo Martins Rodrigues, Manoel Dias de Abreu, Leônidas de Mello Deane, Nicola Casal Caminha, Sérgio Franco, Walter Edgard Maffei, Fernando Paulino Soares de Souza, Helena Cortopassi Sales, Oswaldo Seabra, Odair Pacheco Pedroso, João Tranchesi, José Rabello Neto, Gilmar Borges, Hilton Rocha, Carlos Justiniano Ribeiro Chagas, Jairo de Almeida Ramos, Delmont Bittencourt, Alberto Barreto, Gaspar de Oliveira Vianna, Virgílio Alves de Carvalho Pinto, Alberto Lima de Moraes Coutinho, César Beltrão Pernetta, Amaury Domingo Coutinho, Alfredo Alberto Pereira Monteiro, Luiz Eurico Ferreira, Luiz Venere Décourt, Daher Elias Cutait, Fernando Augusto Ribeiro de Magalhães, Abércio Arantes Pereira, Joaquim Almeida Cardoso, Aparecida Gomes Pinto Garcia, Mário Castro d’Almeida, Ovídio Borges Montenegro, Roberto de Vilhena Moraes, Juscelino Kubitschek de Oliveira, Francisco Victor Rodrigues, Hélio Barbosa Ferreira, Edson Porto, Isaac Barreto Ribeiro, Miguel Paes de Carvalho, Ady Prates Flores, Milton Rabello Filho

PRESIDENTES Antônio Marcio Junqueira Lisboa (1989-1991), Ely Toscano Barbosa (1991-1993), Elias Tavares de Araújo (1993-1995), Laércio Moreira Valença (1995-1997), José Antônio Ribeiro Filho (19971999), Renault Mattos Ribeiro (2000-2003), Francisco Floripe Ginani (2003-2004), Manoel Ximenes Netto (2004-2006), Sérgio da Cunha Camões (2006-2008), José Leite Saraiva (20082010), José Leite Saraiva (2010-2012), Janice Magalhães Lamas (2012-2014), Edno Magalhães (2014-2016), Renato Maia Guimarães (2016-2018), Marcus Vinicius Ramos (2018-2019), Marcus Vinicius Ramos (2020-2021)

ACADÊMICOS EMÉRITOS E COPATRONOS Antonio Márcio Junqueira Lisbôa, Odílio Luiz da Silva, Francisco Pinheiro Rocha, João da Cruz Carvalho, Pedro Luiz Tauil, Wilson Eliseu Sesana, Tito de Andrade Figuerôa, Hélcio Luiz Miziara, Manoel Ximenes Netto, Sérgio da Cunha Camões, Elias Tavares de Araújo, Ely Toscano Barbosa, Fábio Lage Correa Rabello, Eraldo Pinheiro Pinto, Leopoldo Pacini Neto, Vanize de

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O Cinquentenário de Formatura da 1ª Turma de Medicina da Universidade de Brasília: 1970 - 2020


Oliveira Macedo, Renault Mattos Ribeiro, André Esteves de Lima, Antônio Zappalá, Renato Maia Guimarães, José Antônio Ribeiro Filho, Oscar Mendes Moren, Ruy Bayma Archer da Silva, João Eugênio de Medeiros, Francisco Floripe Ginani, Paulo de Andrade Mello, Roberto Ronald Cardoso, Maria Ophelia Galvão Araújo, Renato Ângelo Saraiva, Célio Rodrigues Pereira, José Leite Saraiva.

ACADÊMICOS HONORÁRIOS Jofran Frejat, Rômulo Maroccolo

ACADÊMICOS TITULARES Elisa de Carvalho, Marcus Vinicius Ramos, Augusto Cesar de Farias Costa, Laércio Moreira Valença, Carlos Alberto de Assis Viegas, Janice Magalhães Lamas, Luiz Augusto Casulari Roxo Motta, Mário Pedro dos Santos, Edno Magalhães, Rosely Cerqueira de Oliveira, Ana Patrícia de Paula, Antônio Geraldo da Silva, Maria Mouranilda Tavares Schleider, Marcos Gutemberg Fialho da Costa, Emmanuel Dias Cardoso, Procópio Miguel dos Santos, Iphis Tenfus Campbell, Jair Evangelista da Rocha, Leonardo Esteves Lima, Lucimar Rodrigues Coser Cannon, Simônides da Silva Bacelar, Regina Cândido Ribeiro dos Santos, José Ulisses Manzzini Calegaro, Etelvino de Souza Trindade, Osório Luiz Rangel de Almeida, Isis Maria Quezado Magalhães, João Batista Monteiro Tajra, Eduardo Freire Vasconcellos, Alba Mirindiba Bomfim Palmeira, Nasser Sarkis Simão, Maurício Gomes Pereira, Luiz Fernando Galvão Salinas, José Paranaguá de Santana, Geraldo Damião Secunho, Armando José China Bezerra, Geraldo Magela Vieira, Ronaldo Mendes de Oliveira Castro, Florêncio Figueiredo Cavalcanti Neto, Francileide Paes da Silva, Francisco Diogo Rios Mendes, José Carlos Quinaglia e Silva, Sérgio Lincoln de Matos Arruda.

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À PRIMEIRA TURMA DE MEDICINA DA UB, DAS ENTIDADES MÉDICAS DO DISTRITO FEDERAL


A Importância Histórica da 1ª Turma de Medicina da UnB

Fruto de um projeto inovador e considerada por muitos como a tentativa mais séria feita até então no Brasil para se ensinar ao futuro médico a realidade social do país, a 1ª turma de medicina da Universidade de Brasília comemora este ano o cinquentenário de sua formatura. Com diferentes motivações e expectativas, seus alunos vieram de todos os estados para estudar numa faculdade de medicina que tinha seu foco no trabalho em equipe, na abordagem multidisciplinar e na participação conjunta da comunidade sob seus cuidados, o que divergia completamente do modelo até então adotado pelas demais escolas médicas brasileiras. Divergente também era o padrão daqueles estudantes: com uma idade média mais alta que a habitual, muitos já tinham algum tipo de emprego e formação política, atividade que de resto contagiava a quase todos os demais alunos, pois era praticamente impossível não se envolver nas vicissitudes pelas quais passava a UnB naquela época (1965-1970). Memória e História reivindicam retratar a verdade: ambas procuram contar “o que realmente aconteceu” no passado, às vezes se revezando, às vezes trabalhando em conjunto. Mas a memória, “além de passível de ser manipulada, pode deixar de existir, por perder seus suportes materiais. Nada mais pungente que ouvir a frase ‘já não existe mais’ repetida à exaustão por aqueles que perderam seus marcos e tiveram seus rastros apagados”. Afinal, as lembranças, se apoiadas apenas na transmissão oral de certas recordações, não passam de meros fragmentos do passado e usualmente têm curta duração e conteúdo limitado. A memória da 1ª turma de medicina da Universidade de Brasília precisa, portanto, apoiar-se em outros meios e suportes mais firmes para ser duradoura. Foi utilizando esta linha de pensamento que a Academia de Medicina de Brasília (AMeB) se propôs a publicar os depoimentos dos alunos e de alguns dos seus professores no momento em que é comemorado o cinquentenário de formatura dessa turma singular. Acompanhar passos tão diversos – e paradoxalmente tão homogêneos – por tanto tempo, significa se preocupar com o que aconteceu com esses atores históricos e ter uma noção de suas individualidades e aspirações, suas peculiaridades e paixões. Significa reconstruir o projeto original da escola, identificar a participação de seus professores, alunos e funcionários no desenvolvimento do curso e reconhecer as medidas e práticas adotadas por eles na atenção à saúde dispensada à comunidade de Sobradinho. Significa recuperar a memória de 19


um período em que a Faculdade de Ciências Médicas, hoje Faculdade de Medicina, refletiu, mais que nenhuma outra, as lutas e contradições da fase inicial da Universidade de Brasília e da nossa cidade. Significa abrir as portas para a compreensão do que somos, do que fomos, do que poderemos vir a ser. Aos colegas da Primeira Turma, a Academia de Medicina de Brasília dedica esse livro.

Marcus Vinicius Ramos Presidente da Academia de Medicina de Brasília (AMeB)

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O Cinquentenário de Formatura da 1ª Turma de Medicina da Universidade de Brasília: 1970 - 2020


Mensagem do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal aos Primeiros Médicos Formados em Brasília Cinco décadas se passaram desde que os alunos da primeira turma de medicina da Universidade de Brasília (UnB) iniciaram um dos cursos mais importantes para a humanidade. Os tempos são duros e ser um profissional da saúde é hoje, mais do que nunca, uma contribuição para a vida, pois ele que dá o melhor de si, todos os dias, em prol da saúde de um desconhecido, muitas vezes perdendo horas de sono ou grandes momentos com a família. Como não se interessar por uma turma que entrou na UnB em 1965, formada por 77 alunos, sendo apenas sete mulheres? Naquela época, o número de médicas ainda era pequeno e as mulheres buscavam “o seu lugar” na profissão. Quando penso nos desafios sociais que enfrentaram nos últimos 50 anos tenho a certeza que foram muito privilegiadas em participar de tantas conquistas. Os primeiros alunos a ter aula no Instituto Central de Ciências, mais conhecido como o “minhocão”, inauguraram o Hospital Regional de Sobradinho, ofertando assistência médica a população do Distrito Federal. O Sistema Único de Saúde (SUS), ainda em construção, contou com ajuda de muito desses médicos, que não tinham acesso a tecnologia como a disponível atualmente, mas que com o estudo, dedicação, contato com o paciente, ética e empenho, fizeram um trabalho excepcional durante anos. Foram muitas as aquisições que mudaram e marcaram a história da UnB, do DF e do país. A medicina viveu uma transformação nos últimos 50 anos, como nunca aconteceu na historia da humanidade e vocês não só foram testemunhas, como também foram partícipes dessa transformação. A formatura da turma ocorreu em 1970, com a materialização de um sonho, mas completar 50 anos de formado é algo ainda maior. A medicina é vocação, dedicação, prazer, amor, cansaço... Talvez não haja outra profissão na qual seja possível fazer tanto bem ao ser humano, por isso, a satisfação de ser médico supera todas as dificuldades e os desânimos que encontramos no meio do caminho. É com muito orgulho que o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) participa de um momento tão ilustre nesta homenagem a esses grandes profissionais que transformaram para melhor a história, a medicina e a vida de todos nós. Farid Buitrago Sánchez Presidente do CRM-DF

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O Cinquentenário de Formatura da 1ª Turma de Medicina da Universidade de Brasília: 1970 - 2020


Aos Egressos da Primeira Turma de Medicina da Universidade de Brasília A Associação Médica se congratula com a Academia de Medicina de Brasília na comemoração dos 50 anos da primeira turma de Medicina formada pela Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília. A medicina é um ato de amor e vocação. É dedicação exclusiva, cuidado e obstinação. É atuar dia após dia com o coração cheio de perseverança. Neste cinquentenário, parabenizamos os profissionais que dedicaram suas vidas aos cuidados com o próximo. Não há dúvida de que a saúde na Capital Federal avançou ao longo dos anos e esse resultado se deve à devoção incansável de muitos de vocês. Com certeza a caminhada foi dura, foi intensa, às vezes exaustiva, até chegar aqui. Nesta trajetória, com vestibular realizado em 1965, com oitenta vagas, alguns ficaram pelo caminho ainda no período universitário e outros mais adiante, depois de cumprirem o seu papel como médicos. Neste momento, temos ainda quase seis dezenas desses bravos guerreiros entre nós, que atuaram e ainda atuam; preceptores e professores, distribuindo cuidados e conhecimento aos seus discípulos, seus pacientes e familiares. O agradecimento é a palavra de ordem no momento em que vivemos. A vocês, pelo exemplo impecável de exercício da medicina e pelo esmero exemplar, parabéns. Fica o reconhecimento da entidade e o meu pessoal como dirigente atual da AMBr.

Ognev Cosac Presidente da Associação Médica de Brasília (AMBr)

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A primeira turma de Medicina da Universidade de Brasília: ineditismo e antecipação do futuro A primeira turma de estudantes de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) iniciou o curso em 1965 e formou-se em 12 de dezembro de 1970. Na Universidade idealizada pelo educador Anísio Teixeira e pelo antropólogo Darcy Ribeiro e projetada pelos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, foram os primeiros a ocupar o Instituto Central de Ciências, o Minhocão. A história do curso de Medicina da UnB desde cedo se entrelaçou à da saúde pública do Distrito Federal. Esteve sob a ameaça de ser suspenso, pela falta do que hoje se chama cenário de prática, uma vez que o Hospital Universitário de Brasília só viria a ser inaugurado em 1972. Não fosse o convênio proposto pelo então secretário de Estado de Saúde e presidente da Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF), Francisco Pinheiro Rocha, de cessão da unidade de saúde em convênio pelo prazo de 10 anos, aquela turma teria que completar o aprendizado em outra instituição. Em 1968, como internos, inauguraram a Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho (UISS), que viria a se tornar o Hospital Regional de Sobradinho. Não fica somente por aí a afinidade do curso de Medicina da UnB com a história da saúde pública do Distrito Federal. A Universidade era vanguardista e o projeto inicial do curso antecipava diversos aspectos do que se consolidou, em 1978, na Conferência de Cuidados Primários em Saúde, realizada em Alma-Ata. Uma década depois da experiência da UnB em conjunto com a FHDF, a Declaração de Alma-Ata propunha a ação de todos os governos e de todos os que trabalhavam nos campos da saúde e do desenvolvimento da comunidade mundial para promover a saúde de todos os povos com base na implementação de uma política universalizada de atenção primária à saúde. Esse conceito de uma medicina integral, racional e moderna, visando à criação de uma consciência preventiva e voltada para os problemas de cada comunidade já vinha sendo aplicado no curso da UnB e fez florescer a UISS como uma experiência inovadora, em sintonia com o Plano Bandeira de Mello. A turma de 1965 da UnB chegou formada aos anos 1970 preparada para se integrar perfeitamente ao projeto de saúde coletiva que ganhou força naquela época e culminou com o movimento da Reforma Sanitária que gestou o SUS, em 1988, e a implementação da Política Nacional de Atenção Primária à saúde, na década de 1990.

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Foi uma geração que viveu, sob diversos aspectos, momentos únicos na história da Universidade e da Medicina, tanto no âmbito local quanto nacional. Pela trajetória conjunta e individual, os integrantes a primeira turma do curso de Medicina da UnB constituem um baluarte para toda a comunidade médica do Distrito Federal e para toda sua população.

Marcos Gutemberg Fialho da Costa Presidente do Sindicato dos Médicos do Distrito Federal – SindMédico

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O Cinquentenário de Formatura da 1ª Turma de Medicina da Universidade de Brasília: 1970 - 2020


À PRIMEIRA TURMA DE MEDICINA DA UB, DOS MEMBROS TITULARES E EMÉRITOS DA ACADEMIA DE MEDICINA DE BRASÍLIA


A M J L Ex-Professor de Pediatria da UnB Membro Emérito da Academia de Medicina de Brasília

A Faculdade de CiÊncias Médicas da Universidade de Brasília

A partir de 1965, pensei em ser professor universitário e tentar concretizar algumas ideias, o que seria impossível no Rio, por implicar profundas mudanças no ensino da medicina. Em 11 de janeiro de 1967, o Professor Agnelo Collet transmitiu-me o convite do diretor, Professor Luiz Carlos Lobo, para organizar as atividades de assistência, ensino e pesquisa em Pediatria na recém-criada Faculdade de Ciência Médicas da Universidade de Brasília. Aceitei-o e, no dia 1º de março, assumi o cargo e o desafio. O “hospital universitário” era um barracão de madeira, em Sobradinho, cidade-satélite a trinta quilômetros de Brasília, com 27.000 habitantes. Optei por sair do HSE, uma das glórias da medicina brasileira, e trabalhar no velho e decadente Hospital Rural de Sobradinho (foto) onde, não raramente, matavam-se ratazanas, cobras e escorpiões que, colocados em vidros, faziam parte de um “museu”. O consultório resumia-se a uma sala debaixo da escada; a enfermaria contava com dez leitos; havia apenas dois pediatras eu e a Dra. Marília Meira. Tremendo desafio que só foi aceito porque a lei que criara a Universidade de Brasília dizia que: “na organização do seu regime didático, inclusive do currículo de seus cursos, a Universidade de Brasília não estaria adstrita às exigências da legislação geral do ensino superior.” E a Faculdade de Ciências Médicas era estruturada com proposições revolucionárias como “formar um profissional indiferenciado, capaz de atender às necessidades básicas de saúde da população – promoção, prevenção, recuperação e reabilitação – em diferentes níveis de atenção – primária (domiciliar, postos e centros de saúde), secundária (hospitais comunitários), terciárias (hospitais especializados e maternidades).” 29


Para que esse objetivo fosse atingido, impunha-se a implantação de um currículo e de metodologias educacionais diferentes dos existentes em outras escolas. Uma das principais inovações era a de acabar com a fragmentação do ensino provocada pela existência de inúmeras disciplinas autossuficientes, que impediam uma visão holística do ser humano. Era o que eu queria. Começar do zero e testar minhas ideias. Larguei a segunda maior clínica do Rio, só suplantada pela do meu saudoso amigo pediatra Rinaldo de Lamare, e mudei-me para Brasília, ganhando a décima parte e trabalhando em regime de dedicação exclusiva. Em maio do mesmo ano, mudávamos para a Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho (UISS), que iria sediar a maior experiência pedagógica relacionada com o ensino médico no país. O desafio era formar médicos em um hospital comunitário responsável pela saúde dos habitantes de uma pequena cidade, contando com um corpo docente constituído, em sua maioria, por professores sem titulação universitária, trabalhando em tempo integral e dedicação exclusiva. Com a finalidade de promover a integração de programas de promoção da saúde e prevenção de doenças com os de recuperação (hospitalares), pela primeira vez no Brasil, alunos de uma escola médica foram enviados para estagiar em áreas rurais, urbanas, em centros de saúde. Pioneiro em nosso país, o programa de integração docente-assistencial iniciado em 1968 por nós e pelo grande sanitarista Dr. Átila de Carvalho, na Unidade Sanitária de Planaltina, foi um sucesso. Em 1969, também pela primeira vez no Brasil, foram definidos os objetivos educacionais e as competências a serem alcançadas em cada local de estágio, pelos alunos, internos e residentes, registrados em várias publicações, que foram largamente utilizadas como modelo no país e no exterior. Em 1967, criamos, pela primeira vez no país, as disciplinas de Neonatologia e Crescimento e Desenvolvimento, hoje existentes em quase todas as escolas médicas. Conseguimos uma boa integração com a Obstetrícia graças ao trabalho do Prof. Pablo Chacel, obstetra, e criamos também o programa “Mãe Acompanhante”, que passou a ser um programa prioritário da Sociedade Brasileira de Pediatria e foi incluído no Estatuto da Criança e do Adolescente, tornando-se obrigatório. A Comissão de Promoção de Programas de Residência em Pediatria na América Latina, da Academia Americana de Pediatria, indicou como modelo o Programa de Residência da Faculdade de Ciências da Saúde. A Residência de Pediatria na UISS foi considerada a mais completa do Brasil pelo Professor Eduardo Marcondes, presidente do Comitê de Residência em Pediatria da Sociedade Brasileira de Pediatria. A excelência do ensino da Pediatria na Universidade de Brasília pôde ser atestada pelas inúmeras visitas de importantes professores e pediatras e pelos convites para divulgá-la no Brasil e no exterior – Argentina, Uruguai, Peru, Panamá, Costa Rica, Rep Dominicana, México, Guatemala. Fui membro da Comissão de Residência Médica do MEC (8 anos), da Sociedade Brasileira de Pediatria. Profissionais competentes e com alto grau de comprometimento social foram ali formados e, hoje, ocupam posições de destaque no meio médico. Essa experiência pedagógica, vivida intensamente, 30

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permitiu-me concluir que, para serem formados bons médicos generalistas, capazes de promover, proteger e recuperar a saúde de 80% da população, necessita-se, sobretudo, de um corpo docente motivado, dedicado e competente, que goste de ensinar e esteja profundamente comprometido com as necessidades sociais e de saúde da população.

Aos meus alunos cinquentenários Vocês estão completando 50 anos de formados. Eu, 75. Foram meus primeiros alunos e, boa parte do que fiz, foi inspirado em nossa convivência diária. Tal como em Pediatria, interagimos com nossos filhos e alunos, e ambos nos ensinam muito. De vocês, agradeço o carinho e a amizade que me dedicaram. Tinha um hábito, ao encontrar algum de vocês, como o Marcus Vinicius, de dizer com orgulho: “Foi meu aluno”. Minhas esposas, Therezinha (falecida) e Beth pediram-me que parecia que eu seria o responsável pelas vitórias. Mas a verdade é que, ao saber de seus feitos, eu tenho uma reação igual àquela que eu teria se fossem meus filhos: “Eu me orgulho de vocês”. Sejam felizes é o que lhes deseja este velho professor. Antônio Márcio Mensagem que me ajudou a vir para a nossa querida Faculdade de Ciências da Saúde. Dedico-a a vocês: “Deve-se ter em mente que a tragédia da vida não é não poder alcançar seus objetivos. A tragédia da vida é não ter nenhum objetivo a alcançar. Não é uma calamidade morrer sem poder realizar nossos sonhos, mas é uma calamidade não sonhar. Não é um desastre ser incapaz de incapaz de conquistar seu ideal, mas é um desastre não ter um ideal a conquistar. Não é uma desgraça não poder alcançar as estrelas, mas é um desastre não ter estrelas a alcançar. O maior pecado não é falhar, mas sim não tentar o suficiente.” Benjamin Mays.

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E M Ex-Professor de Anestesiologia da UnB Membro Titular da Academia de Medicina de Brasília

A T  UB    UISS*

Iniciei a minha residência médica em Anestesiologia na UISS, em 08 de janeiro de 1968, 23 dias após receber o diploma de médico da Universidade Federal da Bahia. A UISS era o hospital Escola da Universidade de Brasília, situado a 30 km do Plano Piloto, na cidade satélite de Sobradinho-DF. O Hospital era um pouco escuro, e o único sinal de juventude era a presença dos residentes: éramos apenas 12 nas diversas especialidades. A noite era um pouco triste, como também a escura cidade de Sobradinho, na visão noturna daquela época. De repente, o inicio de um dia com mais vozes, mais movimento, mais alegria e juventude. Era a primeira turma do Curso de Medicina da Universidade de Brasília, lá pelo sétimo semestre, chegando ao Hospital. Para nós, residentes, foi igual a volta às nossas escolas, e logo ocorreu uma relação amigável e de companheirismo entre residentes e alunos. Era divertido observar os “foras” comuns na chegada de alunos ao Hospital. Passamos a conhecer melhor a cidade, graças às novas amizades. Várias dessas amizades perduram entre ex-alunos e ex-residentes que, como eu, permanecem em Brasília até os dias atuais. Assisti, em 1970, à formatura da primeira Turma de Médicos graduados pela Universidade de Brasília. Turma constituída por jovens que acreditaram naquela Universidade, numa cidade que, à época, tinha apenas cinco anos de existência. Também acreditei em Brasília, que adotei pelo coração como a minha cidade. Há 53 anos convivo profissional e socialmente com muitos desses colegas da Turma de 1970 de forma amistosa e cordial. Parabéns à Universidade de Brasília pelos 50 anos de formatura da sua Primeira Turma de Médicos! Aos colegas e amigos dessa Turma um grande abraço!

Edno * Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho.

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O Cinquentenário de Formatura da 1ª Turma de Medicina da Universidade de Brasília: 1970 - 2020


E P P Ex-Professor Adjunto de Urologia da UnB Membro Emérito da Academia de Medicina de Brasília

A P T  M  UB

Nasci em Fortaleza, em 12 de março de 1934. Fui aluno do Colégio Cearense do Sagrado Coração, estabelecimento dos irmãos maristas até ingressar no curso de medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), em 1954. Formei-me em dezembro de 1959 e durante todo o curso minha meta sempre foi especializar-me na área cirúrgica. Naquela época fazer residência médica não era um objetivo tão procurado e quase obrigatório como hoje, mas aperfeiçoei-me em cirurgia geral na Casa de Saúde São Miguel, no Rio de Janeiro em 1960, tendo como preceptor o professor Fernando Paulino, residência muito procurada inclusive por médicos de países vizinhos. Voltando para Fortaleza fui para o Instituto de Assistência e Previdência dos Industriários, o antigo IAPI, onde atuei como perito e posteriormente como cirurgião, até novembro de 1967. Em 1961 ingressei como assistente no Departamento de Cirurgia da Universidade Federal do Ceará, inicialmente como voluntário. Nesse departamento, com o inestimável apoio de um de seus titulares, comecei a migrar para aespecialidade de Urologia. Ressalto que já na Universidade do Ceará fazia experimentação com transplantes renais em cães. Em parceria com Antero Coelho Neto, que em 1967 também iria para a Universidade de Brasília (UnB), abri um consultório de urologia. Em novembro daquele mesmo ano, recebi um convite para participar do bloco do sistema urinário do curso de medicina dessa universidade. Seria apenas uma participação de aproximadamente trinta dias. Além dos Drs. Antero e Célio Pereira, que já pertenciam ao quadro de docentes do bloco, vieram também como professores convidados dois nefrologistas, o Dr. Marcelo Marcondes, de São Paulo e um outro de Belo Horizonte (de quem infelizmente não me lembro do nome), ambos também muito competentes. Formamos um grupo afinado e produtivo. Embora fosse o menos experiente, consegui trabalhar de modo satisfatório, pois já tinha seis anos como professor assistente na UFC. No programa didático da UnB, urologia e nefrologia formavam uma única disciplina. Os docentes convidados foram apresentados aos alunos num anfiteatro do “Minhocão” sem haver problema algum com o paulista ou o mineiro, mas quando anunciaram o meu nome, explodiu uma 33


gargalhada geral. Na época meu sobrenome não tinha significado pejorativo no Ceará, fiquei sem entender. A galhofa permaneceu por todo o tempo em que atuei na UnB, mas o curso transcorreu muito bem: o grupo tinha um ótimo padrão. A anatomia do sistema e alguns temas de patologia urológica ficaram sob minha responsabilidade. A anatomia era ensinada pelo próprio urologista, resultando daí que cada acidente anatômico era relacionado a uma técnica operatória ou a uma patologia do sistema sempre que possível, o que facilitava muito a memorização. Da mesma forma, a utilização de experimentos em cães e ratos foi de grande valia – fez muito sucesso a demonstração de como a obstrução do ureter levava à produção de hidronefrose. A anatomia, a fisiologia e a patologia se encaixavam com facilidade. Este tipo de ensino, que me parecia tão lógico e inteligente, foi um dos motivos que me influenciaram a aceitar o convite para ficar em Brasília, apesar da minha vida já estar organizada no Ceará. Além disso, havia um excelente convívio entre os docentes, pois não havia grandes diferenças de idade entre titulares e assistentes. Qualquer docente tinha fácil acesso à diretoria da escola, o que não se via nas faculdades tradicionais. Outro ponto positivo era o material didático – tudo que precisávamos para as experiências em laboratório e em animais estava sempre à nossa disposição e não havia atropelos no biotério da faculdade. O regime de dedicação exclusiva para os professores era obrigatório, o que considero ser o regime ideal, desde que remunerado de forma justa. Nosso sistema de ensino chamou atenção fora do Brasil e foi imitado em alguns lugares: vários países mandaram observadores. O hospital de Sobradinho, hospital de clínicas da faculdade, funcionava muito bem, era um prazer trabalhar ali. Sinto saudades daquele tempo...

Eraldo

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O Cinquentenário de Formatura da 1ª Turma de Medicina da Universidade de Brasília: 1970 - 2020


F F G Ex-Professor de Cirurgia da UnB Membro Emérito da Academia de Medicina de Brasília

À Distância do Tempo: ConsideraçÕes Atuais soBre a Primeira Turma de Médicos da UnB

Reportar à atualidade fatos e acontecimentos de uma época em que estivemos envolvidos, enseja não só recordações, mas conduz a reflexões, fazendo-nos convergir com a perspectiva dos seus desdobramentos e repercussões. Torna-se então, oportuno submeter à prova o conceito que a história é uma ciência carregada de imaginação. É a ela, porém, negada a afirmação que seja possuidora de um sentido secreto, mas revelado, nem tão pouco um significado que ela por si só não tem. No entendimento da história tem de haver um ponto de vista, uma perspectiva e um interpretação. É como iremos enfocar a importância que se apresenta a nós a celebração do cinquentenário de formação da primeira turma de médicos da UnB. Pessoalmente, sinto-me especialmente envolvido nesse acontecimento, já que estive visceralmente ligado a todas as etapas do seu desdobramento como o procurarei deixar a conhecer na narrativa que se segue. Para alcançar esse intento, contando com o ato de escrever, que é necessariamente uma forma de ação cujas palavras se transformarão no ato de emprestar toda a relevância e importância a aquele período que, com certeza, influenciou uma fase da história de Brasília. É cativante e ao mesmo tempo paradoxal conceber que todo o movimento que nos sensibilizou na transitoriedade daquela época, deixa transparecer o que leva a permanecer no tempo. O período que vamos evocar é o transcorrido entre as décadas de 60 – 70, quando se desenvolveu uma das grandes experiências do ensino médico no Brasil. Antes, porém, para melhor compreensão do que se passou, é importante fazer um curto relato de como se deu o meu engajamento em tal acontecimento. No ano de 1962 fui designado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, tempo em que exercia liderança estudantil, na qualidade de presidente do Diretório Central dos Estudantes, uma missão institucional junto ao Ministério da Educação. Brasília, nos primórdios da sua construção causou-me um desconcertante impacto que reper35


cutiu indelevelmente em meu espírito, cravando uma indisfarçável certeza de retorno, que mais tarde veio concretizar-se, levando-me a fincar raízes profissionais e familiares que se estende até a presente data. Concluído o curso médico, e já aceito para o programa de cirurgia geral na cidade do Rio de Janeiro, resolvi especular com uma visita à Brasília, mesmo desprovido de qualquer arranjo ou comprometimento prévios. Informado por colegas que a Universidade de Brasília estava implantando o seu hospital escola, dirigi-me até a Unidade Integrada de Saúde-UISS onde fui recebido pelo coordenador de cirurgia, o professor Hélio Ferreira Barbosa. O curso de medicina estava cumprindo as etapas curriculares iniciais e o hospital se preparava para o desempenho do ensino protocolar. O programa da cirurgia geral já continha em sua grade o treinamento em cirurgia geral, cujos detalhes estavam sendo ultimados. Mesmo assim, considerando que o início desse programa estava previsto para o próximo ano, consegui, com insistência e senso de desprendimento e disponibilidade, convencer o professor Hélio, que após consulta à sua equipe, resolvesse aceitar-me. Admitido como primeiro residente de cirurgia da UISS, restou-me a gratidão e a consciência de que o acontecimento consagrou a minha volta a Brasília cursando um aprimoramento que constituiu num marco profissional incontestável. O êxito dessa escolha foi colimado pelo convite em permanecer no hospital, na qualidade de docente, condição que permaneci até a minha aposentadoria. No contexto dessa história, vale relatar o entusiasmo de que fui tomado ao fazer as escolhas acima referidas. Para começo, identifiquei-me amplamente com a linha programática do ensino a ser executado, baseado no conceito da medicina integral e comunitária eivada dos conceitos da multidisciplinaridade e da ênfase aos critérios social e epidemiológico. O médico integral advindo dessa formação era capacitado em sólidos e consistentes valores humanísticos. Acrescento que essa experiência de ensino e prática médica proporcionou-me estender as minhas lealdades e reforçar as minhas convicções. É oportuno inserir nesse relato que o país experimentava, naquele momento, uma influência marcante derivada do movimento sanitarista-desenvolvimentista, que procurava influenciar tanto na elaboração do currículo do ensino acadêmico, como na cobertura dos serviços médicos brasileiros, dando um novo formato a estruturação no campo dos recursos humanos em saúde. Esse movimento era liderado pela Organização Pan-Americana de Saúde – OPAS, que conseguiu estabelecer um marco político-institucional e simbólico, proporcionando mudança e entendimento do papel de políticas públicas de saúde, e consequentemente dos seus profissionais, no campo deste desenvolvimento social e econômico dos países latino-americanos. Para enfrentar a realidade sanitária do país o suporte desses objetivos projetava condicionantes para formar um profissional de saúde mais atento às circunstancias e a nossa realidade nacional e regional. O método de ensino tinha que ser aprimorado, fazendo-se a conexão das ciências sociais com a saúde, deslocando-se da medicina social para a saúde coletiva. O escopo da medicina integral associava-se intrinsecamente a uma sólida formação na prática médica, 36

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sustentado por um suporte hospitalar exemplar. Simbolicamente, procurava-se introduzir o médico na história das mentalidades, objetivando aperfeiçoar sua forma de pensar, de viver, individual e coletivamente na sua tomada de decisões. Assumindo que o desenvolvimento do meu projeto pessoal e profissional ia alcançando um sucesso marcante, ocorreu um forte abalo quando da desocupação da Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho. A década de 80 foi marcada por uma decisão precipitada da reitoria da UnB, e deixar o hospital e, consequentemente o seu programa de ensino, mudando o enfoque curricular para uma outra instituição hospitalar, na justificativa da desatualização da UISS para enfrentar uma realidade tecnológica no ensino e na assistência à saúde. O desastre deste movimento repercutiu de imediato, não só na exclusão de médicos e alunos numa linha programática de ensino e assistência médica, como no desaparecimento do pertencimento pela universidade de uma instituição preparada para receber alunos, professores e funcionários. Essa realidade começou a ser modificada dez anos depois quando foi designado o atual Hospital Universitário de Brasília – HUB, por decisão do presidente da república. Falhou então a mudança na justificativa de encontrar um centro de formação mais tecnológico premiando as exigências mercadológicas, o currículo médico premiava agora uma nova perspectiva em consonância com o pensamento político da nação. Foi um período que faz lembrar a pensadora Anna Funder: “A falência das utopias, o homem vagueia sem crenças definidas e sem caminhos que agreguem uma coletividade.” A intempestividade da saída de Sobradinho, não planejada no que era indispensável, não conseguiu notar que na ciência biológica com a resolução de problemas desafiadores relativos ao diagnóstico e a terapêutica das diversas especialidades médicas, distanciava o aluno e o futuro médico da abordagem integral do ser humano no contexto social. Novo estágio, novos desafios e novas prioridades foram postas no ensino da medicina na UnB, quando a partir da década de 90. É como celebrava o poeta Paul Valéry: “O mar recomeço das ondas.” Embora não se reconciliando com aqueles pressupostos da formação médica em Sobradinho, é preciso acreditar que a educação médica deva sempre estar voltada para o coletivo dos indivíduos e ao ambiente físico, social, político, econômico e cultural através de políticas públicas e condições favoráveis ao desenvolvimento da saúde. Temos que levar em consideração que um dos meios de reduzir as desigualdades é o aprimoramento do atendimento primário, o que certamente cobrirá a maior parte das necessidades com a saúde de uma pessoa. A experiência de Sobradinho fortaleceu a minha convicção de que o ensino da medicina privilegia duas tendências: uma profissional e técnica, outra cultural e formadora da cidadania. 37


Demonstrando a ciência da responsabilidade que assumimos com isso, e da permanência que tomam os nossos atos que são inscritos e poderão ser avaliados, como nesse instante o faço no âmbito da nossa memória da vida. Inspirando-me no poeta Fernando Pessoa afirmo que vivi sem saber a experiência de Sobradinho só para hoje ter aquela lembrança. Sinto perto o que está longe, nada é, tudo passa.

Ginani

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O Cinquentenário de Formatura da 1ª Turma de Medicina da Universidade de Brasília: 1970 - 2020


F P R Ex-Secretário de Estado da Saúde do Distrito Federal Membro Emérito da Academia de Medicina de Brasília

A cessão da Unidade Integrada de SaÚde de SoBradinho (UISS) pela Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF) À Faculdade de CiÊncias Médicas da Universidade de Brasília (UnB) Neste ano de 2020 comemoram-se os 50 anos da formatura primeira turma de medicina da Universidade de Brasília (UnB). A criação da faculdade, que teve início em meados dos anos sessenta, me leva a relembrar fatos quase esquecidos. Eu ocupava, naquela época, o cargo de Secretário de Saúde e Presidente da Fundação Hospitalar do Distrito Federal, no governo do Professor Eng. Plínio Cantanhede, então prefeito da nova capital. Em 1966, minha equipe e eu estávamos em meio à construção de três unidades hospitalares, projetadas pelo arquiteto mineiro Hélio Ferreira Pinto, sob a orientação e supervisão do Prof. Odair Pacheco Pedroso, da Universidade de São Paulo (USP), especialista em organização hospitalar: os hospitais da L2 Sul, o de Sobradinho e o do Gama. Foi quando dois jovens estudantes da Universidade de Brasília, membros do Diretório Acadêmico de Medicina, foram à minha residência expor a problemática que estavam a viver: tinham concluído o curso básico no Instituto Central de Ciências, mas não poderiam continuar em Brasília por falta de um hospital ligado à universidade para prosseguirem nos seus estudos. Sensibilizado, prontifiquei-me a ajudá-los, marcando uma reunião com o então Reitor da UnB, Prof. Laerte Ramos de Carvalho. Expliquei-lhe a situação dos projetos hospitalares em construção e que pretendia concluí-los até o fim do ano. Coloquei-me também à disposição para que a Universidade de Brasília escolhesse, dentre as três obras, a que melhor lhe atendesse para que firmássemos um convênio com a Fundação Hospitalar, a fim de possibilitar a continuação dos estudos médicos dos seus alunos. Outrossim, a Reitoria constituiu uma comissão de professores do Rio de Janeiro e de São Paulo, da qual fiz 39


parte, para organizar o curso de medicina, entre eles o Professor Dr. Luiz Carlos Lobo, ao qual fui apresentado na época. Entreguei as obras dos hospitais da L2 Sul, Sobradinho e Gama em 22 de novembro de 1966, 17 de dezembro de 1966 e 15 de março de 1967, respectivamente. A comissão formada pela Reitoria entendeu que a unidade de Sobradinho era a que melhor se identificava com o projeto de escola médica que se queria implantar, com forte apelo social e inovador. Assim, no dia de sua inauguração o Hospital de Sobradinho foi destinado, por convênio firmado pela Fundação Hospitalar do Distrito Federal com a UnB, a servir como hospital escola da Fundação Universidade de Brasília (FUB) por dez anos, ajudando a consolidar a recém-criada Faculdade de Ciência Médicas da Universidade de Brasília como uma das melhores do país.

Pinheiro

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H L M Ex-Professor de Histologia da UnB Membro Emérito da Academia de Medicina de Brasília

RecordaçÕes da Primeira Turma de Médicos da UnB

As comemorações do cinquentenário de Primeira Turma de Médicos da Escola de Ciências da Saúde da UnB, hoje chamada de Faculdade de Medicina, são acompanhadas de recordações que gostaria de trazer para esse evento. Na realidade, não pertenci ao primeiro corpo docente, pois fazia parte do Instituto Central de Biologia (ICB) que era coordenado pelo Prof. Friedrich Gustav Brieger, e que foi na realidade, o embrião que formou a escola de medicina. E como havia a necessidade de começarmos o curso, fui o primeiro médico de Brasília a ser convidado a dar as aulas da disciplina de Histologia, e até 1968 fui responsável pela matéria, quando o Prof. Gilberto Santa Rosa veio do Rio e dividiu comigo o trabalho de dar as aulas. No início participava também do curso o Prof. Octávio Della Serra, em Anatomia e posteriormente, o casal Bráulio e Heloisa Magalhães Castro. Todos eles já vieram pertencendo à Faculdade, mas eu continuei sempre vinculado à Biologia. Participei várias vezes de conversações com Luiz Carlos Lobo e José Roberto Ferreira, e dentre os episódios que guardo na lembrança foi o de que logo no começo houve uma greve que duraria mais de dois meses e nesse período fui procurado pelos alunos Humberto Haydt, Mauricio Vasques e Alcir pereira da Silva, que me pediram que os deixassem frequentar o meu laboratório no Hospital Distrital, enquanto perdurasse a paralização. Eles fizeram um excelente trabalho sobre o movimento e índice do número de biópsias. Alunos das turmas seguintes também trabalharam comigo em serviços administrativos naquele hospital, cujos nomes fogem à minha memória. Não era minha intenção ser professor ou seguir a carreira do magistério, no entanto fui guindado a dar aulas por solicitação do Prof. Paulo Becker, que ministrava Citologia e me fez o convite do então Reitor Laerte Ramos de Carvalho. Senti-me recompensado por participar da Faculdade de Medicina nesta cidade que lutávamos para a sua fixação, e me lembro ainda que a primeira aula foi ministrada no Auditório Dois Candangos. Foi muito gratificante, fiz muitos amigos, e voltei para a UnB, anos depois.

Miziara 41


M G P Professor Emérito da UnB Membro Titular da Academia de Medicina de Brasília

Meu depoimento para a Primeira Turma de Medicina da UnB

Cheguei a Brasília no longínquo ano de 1968. Vinha do Rio de Janeiro, onde havia me formado pela Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, hoje UFRJ, e passado quatro anos em estudos de pós-graduação na Europa, nas cidades de Madri, Espanha, e Bruxelas, Bélgica. No regresso ao Brasil, pretendia permanecer no Rio de Janeiro, mas não foi o que ocorreu. Fui convidado para trabalhar em Brasília, no período em que a cidade estava ainda sendo construída. A Universidade de Brasília mandou passagem e pagou minha estadia durante algum tempo. Eu gostei e fui ficando. Meu contrato de professor da UnB requeria tempo integral e dedicação exclusiva. Fui exercer atividades na Faculdade de Medicina, lotado no Hospital de Sobradinho, então denominado Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho. A minha chegada coincidiu com o início do treinamento clínico dos alunos da primeira turma naquele hospital. Meu entrosamento com os estudantes foi excepcional na minha opinião. Em sua maioria, eles permaneciam o dia no hospital, o que facilitava nossa aproximação. Tínhamos atividades juntos em enfermaria, ambulatório e comunidade. Almoçávamos em um mesmo lugar e havia os plantões. Em pouco tempo, eu e os outros professores, sabíamos o nome de cada aluno. O contato continuado com estudantes nos faz permanecer jovens mais tempo e ver o mundo mais cor-de-rosa. Essa aproximação teve muitos reflexos. Um deles foi meu casamento com uma estudante da terceira turma de medicina, Cleire Paniago. Da primeira turma formada na Faculdade de Medicina da UnB guardo especial carinho. Foi com essa turma que aprendi a ser professor universitário, sem ter sido ensinado para isso. O hospital possuía biblioteca, de acervo excelente e continuadamente renovado. As bibliotecárias sabiam do que eu me interessava e guardavam material de leitura para mim. A gentileza não era só comigo. Fazia parte do modo como incentivavam a leitura e o uso da biblioteca. Coisa rara neste país de poucos leitores e de bibliotecas conservadas como museus, afugentando usuários. O tempo vivido no Hospital de Sobradinho foi dos mais gratificantes de minha vida e se revestiu de grande aprendizado, tanto intelectualmente como em coisas da vida. Muitos dos meus 42

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amigos atuais são dessa época. Pena que o tempo passe tão rapidamente... Quando penso que fui professor da primeira turma da Medicina da UnB durante três anos, que essa turma formou em 1970 e faz agora aniversário de 50 anos de formatura, acho inacreditável ... A passagem do tempo sempre nos intriga. Oscar Niemeyer afirmou aos 104 anos de idade que a vida é um sopro. Pedro Calderón de la Barca, escritor espanhol do século 17, escreveu que a vida é um sonho. Essas lembranças me fazem refletir sobre o sentido da vida. Ainda vou chegar a alguma conclusão. Continuo frequentando a UnB, como voluntário, onde oriento alunos de pós-graduação. Acho que continuarei a fazê-lo enquanto puder. Os tempos de Sobradinho me marcaram. Sempre trabalhei em tempo integral, o que me sobrou tempo para nutrir o intelecto. Tive recompensas na vida universitária. Após a aposentadoria, a UnB me concedeu o título de Professor Emérito e fui eleito membro titular da Academia Nacional de Medicina, sediada no Rio de Janeiro. Trata-se de instituição quase bicentenária. Fundada em 1829 e, desde sua fundação, os acadêmicos se reúnem cada semana, às quintas-feiras. Essas reuniões constituem motivo para eu estar sempre visitando aquela cidade que tanto marcou meus anos de infância e juventude.

Maurício

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CINQUENTA ANOS DE HISTÓRIA  - 


À Primeira Turma da Faculdade de Medicina por ocasião do Cinquentenário de Formatura Costumeira é a tarefa de homenagear o pioneirismo daqueles que construíram com coragem e inteligência soluções para resolver os problemas prioritários da população. Na área da educação, o surgimento da Universidade de Brasília representou fato notável na história do Distrito Federal e do Brasil e o pioneirismo que caracterizou a sua fundação resultou na criação de cursos com propostas inovadoras e arrojadas em diversas áreas, dentre as quais se destaca a do curso de medicina. Os pioneiros pensaram e implementaram o ensino em medicina na UnB com uma visão transformadora que inspira até hoje as nossas ações no enfrentamento do permanente desafio de formar médicas e médicos capazes de exercer com sólida formação técnica, aliada à indispensável sensibilidade humana e à prática permanente da alteridade, a arte de cuidar da saúde da população. No entanto, é comum esquecermos de reconhecer o esforço daqueles que, frente à notável proposta organizada pelos mestres, decidiram aceitar o desafio de trilhar um rumo novo, assumindo corajosamente os riscos e abrindo com o seu caminhar os horizontes vislumbrados pelos construtores. Assim, a primeira turma formada em medicina pela UnB desbravou com firmeza o percurso traçado no inovador projeto de formação e, certamente, participou de forma crucial na construção de tudo aquilo que foi novo e que molda até hoje o nosso presente. Na ocasião do cinquentenário de formatura da 1ª. Turma de Medicina da Universidade de Brasília coube a mim o privilégio, como diretor da Faculdade de Medicina, de escrever estas palavras de homenagem às pessoas que marcaram definitivamente a história da nossa faculdade, caminhando junto aos mestres pioneiros na inauguração do futuro do qual usufruímos hoje e que certamente iluminará de forma permanente a caminhada dos que nos sucederão. Dessa forma, a Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília saúda a 1ª. Turma e reconhecendo o significado histórico da sua participação na construção do ensino da medicina no Distrito Federal, sente-se honrada ao se juntar à comemoração do cinquentenário da sua formatura. Gustavo Adolfo Sierra Romero Diretor Faculdade de Medicina Universidade de Brasília 47


L C L Professor Honoris Causa da Universidade de Brasília Fundador da Faculdade de Medicina da UnB

A Fundação da Faculdade de Medicina da UnB

Em 2020 comemora-se os 50 anos de graduação da primeira turma da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília. Criar a Faculdade de Medicina da UnB foi o mais importante desafio que tive ao longo da minha vida. O convite me foi formulado por Ernani Braga, ex-diretor da Escola Nacional de Saúde Pública e recém nomeado diretor do departamento de Recursos Humanos da Organização Mundial da Saúde, e José Roberto Ferreira, diretor executivo da então Associação Brasileira de Escolas/Faculdades de Medicina. O Reitor Laerte Ramos de Carvalho, sucessor de Zeferino Vaz, havia convidado, depois de múltiplas tentativas, Edgard Barroso do Amaral, professor da USP para criar a faculdade que já tinha cerca de 80 alunos que haviam terminado seu ciclo básico nos Institutos Centrais da UnB e haviam optado por medicina. O Prof. Barroso pensou em usar a estratégia adotada na criação da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, viajando à Europa para convidar docentes para o novo empreendimento. Os tempos eram diferentes dos antes encontrados na Europa do pós-guerra e sua viagem não obteve sucesso. O convite formulado era um grande desafio, que me atraiu de pronto. Levou-me a deixar o Rio de Janeiro e o trabalho na UFRJ e vir para o planalto central, no início de 1966, para participar da experiência inovadora de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, que tinha sido a criação da UnB e participar do espírito de afirmação da identidade nacional, que caracterizara a construção de Brasília. A UnB estava à época em uma situação difícil, na decorrência da renúncia coletiva de 223 de seus professores, em protesto pelas demissões arbitrárias de 29 docentes, feitas por reitores nomeados pelo regime militar instalado no país. Com isso ela estava meio sem ânimo, ou interrompida, como dizia o Professor Roberto Salmeron. Mas apesar desse ambiente complicado, movido pela ideia de implantar um projeto de curso médico com forte cunho social e inovador, aceitei a empreitada. A reitoria da UnB constituiu uma comissão que contava com vários professores, sobretudo de São Paulo (Edgard Barroso do Amaral, Walter Leser, Jairo Ramos, Isaias Raw, Octávio Della 49


Serra), José Roberto Ferreira e Francisco Pinheiro Rocha, secretário de saúde do Distrito Federal, para definir a nova faculdade. Fui convidado a definir os marcos conceituais que norteariam a criação da nova escola. Ênfase no aprendizado do aluno, cursos interdisciplinares, ensino modular e em tempo integral foi a proposta inicialmente apresentada. Envolvia, desde logo, professores das ciências sociais (antropologia, sociologia, psicologia, epidemiologia, demografia), de ciências básicas (anatomia, histologia, bioquímica, fisiologia, patologia, microbiologia e parasitologia) e ciências clínicas (clínica médica, cirurgia, pediatria, gineco-obstetrícia e especialidades). Já havíamos tentado implantar cursos integrados de ciências básicas na UFRJ, mas a experiência fracassou quando foi perdido o apoio do Decano do Centro de Ciências da Saúde, Professor Carlos Chagas Filho, que havia sido designado como embaixador do Brasil na UNESCO. Propusemos realizar os cursos em bloco de tempo de 3 a 6 semanas, visando contratar inicialmente professores de outras universidades e hospitais como visitantes e assegurar desta maneira: 1 – Concurso de docentes altamente qualificados desde o início da escola. 2 – Garantir a participação em tempo integral, por períodos curtos, de docentes das várias áreas do conhecimento, convidados para participar nos cursos integrados que se propunha. 3 – Desenvolver cursos modulares, no ciclo básico do curso, abrangendo os vários sistemas orgânicos do homem e que se iniciava com um curso sobre Mecanismo de Agressão e Defesa indicando, assim, a importância da interação do homem com seu meio físico, biológico e social. Os alunos da escola, representados por Armando Vasconcelos, Eleutério Rodrigues Neto e José Silvério Guimarães, acompanhavam todos os nossos passos em Brasília. Queriam saber tudo, conferir tudo, questionar tudo! Queriam saber que professores se fixariam em Brasília, dentre os convidados como professores visitantes, como equiparíamos os laboratórios multidisciplinares que planejávamos para o ciclo básico, onde se desenvolveria o ciclo clínico, que recursos teríamos para equipar o hospital de ensino, etc. O Reitor Laerte Ramos de Carvalho havia indicado uma verba para implantar o curso de Medicina e com esses recursos começamos a solicitar a compra dos equipamentos dos laboratórios multidisciplinares de ensino, onde se desenvolveriam os cursos integrados do ciclo básico do curso e os dos laboratórios de pesquisa que pretendíamos implantar. Buscando integrar a nova escola e seus docentes e alunos na universidade, decidimos implantá-la no prédio ainda em construção do Instituto Central de Ciências, tendo que negociar a realização dos cursos com a colocação de suas enormes vigas pré-moldadas. José Roberto Ferreira e eu elaboramos um documento básico, o livro verde, como era chamado, delineando os princípios que propúnhamos para a Faculdade de Ciências Médicas e que, 50

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como de regra, foi apresentado e discutido com um grupo de professores. O documento ressaltava conceitos básicos como ênfase no aprendizado, colocando o aluno como agente ativo do processo ensino/aprendizagem, integração das disciplinas, procurando elaborar a teoria a partir de projetos experimentais desenvolvidos por grupos de alunos em laboratórios multidisciplinares, discussão de problemas comunitários e o princípio de cobertura de serviços de saúde e não apenas assistência na estruturação do ciclo clínico do curso. No ciclo básico propunha-se desenvolver o ensino por sistemas orgânicos, através de experiências integrando as várias disciplinas desse ciclo e, indo mais longe, pela integração da patologia, da clínica e das ciências sociais. O aprendizado da morfologia, da bioquímica, fisiologia e fisiopatologia era enfatizado, buscando transmitir uma compreensão plena dos processos de funcionamento dos órgãos e suas alterações patológicas. Em 8 de agosto de 1966 foram dadas as primeiras aulas no prédio do Instituto Central de Ciências. A aceitação do conceito de aprendizado interdisciplinar norteava o ciclo clínico e o de cobertura de serviços de saúde, admitindo uma responsabilidade social na organização desses serviços, de modo a atender as demandas e necessidades de uma população definida, caracterizava a formação integral que se pretendia em medicina. Essa decisão conceitual levou à escolha da Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho (UISS), responsável pelo atendimento da população dessa cidade satélite e área rural adjacente, como campo de formação clínica dos alunos. A participação efetiva do aluno, no ciclo clínico, em todas as atividades desenvolvidas pela Faculdade, com responsabilidade crescente e supervisão permanente, era a estratégia pedagógica proposta. A organização dos cursos integrados em blocos de ensino permitiu convidar professores de várias universidades a virem a UnB como professores visitantes por períodos curtos. Mas tínhamos todos uma grande preocupação em se obter uma massa crítica de professores na Faculdade, que garantisse a troca de experiências necessária ao desenvolvimento de pesquisas médicas. Muitos vieram e, contaminados pelo espírito inovador da escola e da UnB, pelo seu ambiente criativo e altamente estimulante, discutindo tudo a todo o tempo e com a participação sempre desafiadora dos estudantes, aqui ficaram. Em outubro de 1966, o Professor Barroso do Amaral pediu demissão do cargo de Coordenador da Faculdade de Ciências Médicas e eu fui designado para substituí-lo nessa posição, o que fiz até ser demitido pelo Reitor Caio Benjamim Dias, em 10 de agosto de 1970. No período em que estive coordenando a implantação da Faculdade tive o privilégio de contar com a colaboração engajada e constante dos Professores Antero Coelho Neto e Álvaro Alberto de Pinho Simões, que exerceram o cargo de vice-coordenador e dos Professores Odílio Luiz da Silva e Agnelo Augusto Braune Collet na direção da UISS. Deve-se à liderança de Collet e de jovens docentes 51


como Henri Jouval, o trabalho desenvolvido na comunidade de Sobradinho visando atender suas necessidades e demandas em saúde. Em dezembro de 1966 a Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho (UISS) foi cedida pela Fundação Hospitalar do Distrito Federal à Faculdade de Ciências Médicas por um prazo de 10 anos. O secretário de Saúde do Distrito Federal, Francisco Pinheiro Rocha foi decisivo na concretização desse convênio. Os Professores Agnelo Alberto Braune Collet, Hélio Barbosa Ferreira, Odílio Luiz da Silva, Zairo Eira Garcia Vieira, Antônio Marcio Lisboa, Pedro Pablo Magalhães Chacel, Antero Coelho Neto, Álvaro José de Pinho Simões, João Bosco Salomon, Jacques Bulcão, Gilvan Juvenal Dutra, José Carvalho Ferreira, Affonso Renato Meira, Oswaldo Martins Reis, João Batista Macuco Janine e Dejano Tavares Sobral foram convidados a organizar o ciclo clínico da Faculdade. A eles se somariam, entre outros professores associados e assistentes, Henri Eugène Jouval Jr., Eraldo Pinheiro Pinto, Francisco Krause Martins, Célio Rodrigues Pereira, Fernando Santos, Paulo Tavares, François Wertheimer, Lise Mary Alves de Lima, Renato Saraiva, Antonio Carlos Moretzhon de Mello, Plínio Caldeira Brant, Lucia Ypiranga de Souza Dantas, Reginaldo de Holanda Albuquerque, Geniberto Paiva Gonçalves, Fernando Miranda Henriques, João Geraldo Martinelli, Bráulio Magalhães Castro, Paulo Espirito Santo Saraiva, Renato Figueira, Valdenor Barbosa da Cruz e Luiz Meyer. Contava inicialmente com quinze consultórios, radiologia, laboratório de patologia clínica e anatomia patológica. As primeiras enfermarias e demais dependências da UISS inclusive a unidade de ensino, foram implantadas em 10 de julho de 1967, sete meses apenas após a sua cessão pela FHDF! A UISS assumiu desde logo a responsabilidade pela prestação integral de serviços de saúde à população de Sobradinho e da área rural ao seu redor. Ressalte-se a importância oportuna da doação feita pelo Senado de duas ambulâncias, já usadas, mas ainda em boas condições de funcionamento. O documento que propunha a Faculdade dizia que “o objetivo do ciclo de formação clínica não é demonstrar o máximo de eficiência e sofisticação de um serviço de saúde, mas sim treinar o futuro médico para ser o mais eficiente possível em face às diversas condições dos serviços existentes e à situação sanitária do País” antecipando de muitos anos as decisões da OMS e de sua reunião de Alma Ata. Os alunos, que ingressaram na UISS em janeiro de 1968, iniciaram a sua formação através de um curso de Introdução à Medicina Comunitária e realizaram, sob a orientação de Affonso Renato Meira, o levantamento das condições sociais e de saúde da comunidade de Sobradinho, onde discutiam temas como epidemiologia, demografia, bioestatística, saneamento, nutrição, planejamento e administração de saúde e, desde logo, deontologia médica. Através desse trabalho integrado discutia-se a importância do estudo das condições sociais, ambientais e econômicas da população e a determinação social das enfermidades, levantando a 52

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sua estruturação e o seu arcabouço social – como escolas, grêmios e igrejas – e se buscava definir prioridades de ação para nortear o trabalho a ser oferecido, sempre discutindo essas propostas com os docentes, os profissionais da equipe de saúde e a própria comunidade. O trabalho era sempre integrado e coletivo. O ciclo clínico compreendia os cursos de Introdução à Medicina Integral, Medicina Integral de Adultos, Assistência Materno-Infantil, Medicina Integral de Crianças e Internato em Medicina Interna, Cirurgia Geral, Pediatria e Obstetrícia. O importante era dar condições para o aluno ver o doente, e não apenas a doença, estar preparado a resolver os problemas de saúde mais comuns e conhecer suas próprias limitações. Capacitar o aluno a lidar com condições estressantes de sofrimento e morte era também uma meta proposta. Sessões de “psicodrama” eram feitas com essa finalidade, sempre sob a supervisão de médicos e psiquiatras. Havia uma participação efetiva e permanente do aluno em todas as atividades desenvolvidas na comunidade, centros de saúde, hospital comunitário (ambulatórios, enfermarias, centros cirúrgico e obstétrico, emergência). Seu aprendizado era, pois, todo feito em regime de “clerkship clínico”, ou internato, desde que começava sua formação clínica. Por isso, tanto os alunos como os docentes atuavam em regime de tempo integral e dedicação exclusiva. Não havia férias escolares longas e sim a obediência a escala de serviços e plantões como qualquer dos docentes e funcionários da UISS. A ideia de se ter a UISS como Hospital da Escola, buscando formar um médico indiferenciado, era, no entanto, discutida por vários professores especialistas que viam na atividade centrada na população daquela cidade uma restrição ao seu desenvolvimento profissional. E assim era, pois, cobrindo uma população de cerca de 35.000 pessoas, dificilmente um endocrinologista atenderia senão pacientes com diabete ou bócio. Que dizer de outras especialidades? Que nosologias poderiam encontrar em Sobradinho? Por outro lado, além de atender pacientes em Sobradinho, os nossos docentes tinham também que participar do ensino dos blocos integrados do ciclo básico. Mas como atender a seus anseios legítimos de desenvolvimento especializado? Criou-se assim, um “conflito” entre professores “generalistas” e “especialistas”, minando a unidade do corpo docente da faculdade. A solução seria a construção do Hospital de Base, especializado e, portanto, terciário no atendimento, próximo ao Campus da Universidade. O Hospital do então IPASE, em construção e próximo ao campus da UnB, preencheria essa necessidade. Com o aval do Presidente do IPASE, José Roberto Ferreira e Agnelo Collet, com a colaboração de outros professores da Faculdade, fizeram um estudo detalhando os recursos humanos, os equipamentos e os recursos materiais necessários à operação do Hospital. Um convênio foi discutido com o IPASE, que admitia terminar as obras do Hospital, equipá-lo, e pagar o custo das suas atividades 53


assistenciais, assegurando uma dotação orçamentária para tal fim por um período de 10 anos. Tudo discutido, faltava assinar o convênio e assegurar assim um campo, não só para a atividade especializada de docentes, como também para a formação pós-graduada dos alunos. A dificuldade residia em convencer a reitoria a aceitar o novo convênio, vez que ela não nutria confiança no cumprimento das promessas feitas pelo IPASE e não entendia, por outro lado, a necessidade de se dispor de dois hospitais para a formação dos nossos alunos. A não assinatura do convênio criou um desalento em muitos docentes da Faculdade. Uma série de discussões internas e um esforço muito grande da Reitoria em diminuir o papel da direção da escola, eis que incentivava que os chefes de departamento apresentassem diretamente à Reitoria as suas necessidades e pleitos, minou a unidade pretendida na faculdade. Esse ambiente de tensão na Faculdade, promovido pelo Vice-Reitor José Carlos Azevedo, com a aquiescência do Reitor Caio Benjamim Dias, foi finalmente resolvido com a minha demissão do cargo de Coordenador. O convite para as cerimônias de formatura, organizadas pelos alunos da primeira turma da Faculdade de Ciências Médicas, ora comemorando 50 anos de formados, em que o orador foi Humberto Haydt de Souza Mello, dizia o seguinte:

“Nesta escola não tivemos obstáculos a transpor, mas deveres a cumprir. Nosso estudo não foi a prova da memória, mas o aprendizado do entender. Nossos mestres estiveram a nosso lado sem a distância do título e o vazio da cadeira. Não fizemos um curso: vivemos ciência, criamos um método, tornamo-nos médicos”.

O ideal traçado na criação da escola estava cumprido!

Lobo

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A PRIMEIRA TURMA

Adip Nagim Alexim, Alberto Domingues Vianna, Alberto Pereira de Castro, Alcides de Oliveira Dourado Filho, Alcyr Pereira da Silva, Álvaro Nelson Saunders da Silva, Antônio Herculano Rodrigues, Antônio Paulo de Menezes Filho, Armando Silveira de Vasconcelos, Asor Pereira de Faria, Avenor Augusto Montandon, Benedito Soares Neto, Bernardete R. Sasaki, Carlos Alberto da Raja Gabaglia, Carlos Eduardo Moreira, Carlos Armando Ávila, Carlos Arnaldo Neves, Clinton Schelb, Daniel Emídio de Souza, Douglas Linhares Tinoco, Edvaldo Athayde Cavalcanti Filho, Eduardo Flávio de Oliveira Queiroz, Eleutério Rodriguez Neto, Eugene Tarapanoff, Franklin Batista Tormin, Frederico Filgueiras Pohl, Geraldo Ener de Andrade, Humberto Haydt de Souza Mello, Iran Maia Júnior, Ivan Pedro Tavares, Jaldo Aguiar Barbosa, João Batista de Araújo, João Batista da Paixão Júnior, Joarez de Azevedo, José Egídio Novais Simões, José Gomes Avelino Sobrinho, José Henrique da Silva Corrêa, José Marques de Souza Ramos, José do Patrocínio Campos, José Silvério Peixoto Guimarães, José Wolney Valente, Joviniano José dos Santos, Kazuko Kihara, Kleber Luiz da Silva, Levy Schettini Pereira, Luciano Wagner Guimarães Lírio, Lucídio Gomes Avelino, Luiz Carlos de Carvalho, Luiz Henrique Biondi, Lycia Maria Gomes de Souza, Máiron Raimundo da Silva Lima, Maria Batista Gonçalves Amorim, Maria Luíza L. de Vasconcelos, Marco Antônio da Costa Porto, Marcus Vinicius Ramos, Mário Márcio Moura de Oliveira, Mário Magno de Oliveira, Maurício Pereira Vasquez, Mauro Guimaraens, Mecenas Gomes Avelino, Milton Rui Germano Braga, Murilo Ramos Rivetti, Neilo Bueno, Ney Oliveira de Carvalho, Paulo Motta Nardelli, Paulo Roberto Viana de Andrade, Ricardo Lafetá Novaes, Roberto Salerno, Rosali Ziller de Araújo, Sandra Ayres de Aquino, Sebastião Aparecido Alves, Sebastião Pinto de Almeida, Videte Cury Pereira, Vander Alvarenga, Waldimar Jardim de Carvalho, Waldir de Santana, Wellington Wanderley Sesana.

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IN MEMORIAM Adip Nagim Alexim, Alcyr Pereira da Silva, Álvaro Nelson Saunders da Silva, Antônio Paula de Menezes Filho, Asor Pereira de Faria, Bernadete Rodrigues Sasaki, Carlos Arnaldo Neves, Douglas Linhares Tinoco, Eleutério Rodriguez Neto, Humberto Haydt de Souza Mello, Joarez de Azevedo, José Wolney Valente, Maurício Vasques, Milton Rui Germano Braga, Neilo Bueno, Ricardo Lafetá Novaes, Sebastião Aparecido Alves, Videte Cury Pereira, Argeu Maurício Vaz de Oliveira*

* Faleceu antes de completar o curso.

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QUEM FOMOS, QUEM SOMOS


A D V

Nasci em Natal, RN, em 15 de junho de 1944, onde meu pai atuava como médico do exército durante a 2ª Guerra Mundial. Eu tinha dois anos quando ele foi transferido para Niterói, RJ, onde vivo até hoje. Fiz meu curso primário no Colégio Municipal Joaquim Távora, o ginasial no Colégio Salesiano e o científico no Colégio Brasil. Em 1965 passei no vestibular da Universidade de Brasília (UnB) onde fiz grandes amizades que cultivo até hoje, mesmo morando longe de lá. Casei-me em Brasília e voltei para Niterói logo depois da minha formatura. Esse casamento durou dez anos e depois de quatro anos separado, casei-me com Márcia Saad Silveira, com quem vivo feliz até hoje. Tenho dois filhos maravilhosos, ele radiologista como eu, ela administradora. Fui professor do Departamento de Radiologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Chefe do Serviço de Radiologia do Hospital Universitário Antônio Pedro. Doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, estou aposentado há cinco anos, mas continuo a trabalhar em Niterói, no Instituto de Radiologia – Diagnósticos por Imagens (IRSA). Meu esporte favorito era a pesca submarina – hoje faço cerâmica, além de fotografar. Foi muito bacana ser da 1ª turma de Medicina da UnB. Foram dias inesquecíveis, morando em garagens, em “república” (com o Turco) e na “lâmina”, com o Clinton e com o Marcão e seu “sapato podre”. Bons tempos...

Alberto

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A  O D F

Nasci em Paratinga, BA (região do médio São Francisco) em 6 de dezembro de 1946, filho de Alcides de Oliveira Dourado (farmacêutico) e Lindaura Magalhães Dourado (do lar). Sou casado com Vanilda Duarte Dourado (psicóloga) e sempre residimos em Brasília – DF. Temos quatro filhos: André (engenheiro), Moema (psicóloga), Rodrigo (economista) e Paula (nutricionista). Meus filhos são casados com Rita, Aristótenis, Natália e Marcelo, respectivamente, e nos deram 6 netos. Fiz o curso primário na minha cidade natal (1954-1957), o ginasial em Januária, MG, no Ginásio São João (1958-1961) e o científico em Brasília, no colégio Elefante Branco e no CIEM (1962-1964). Depois de formado, fiz estágio em cirurgia geral no Hospital Regional de Taguatinga (1971-1972), residência médica na mesma especialidade no Hospital das Forças Armadas (19731974) e fiz cursos de cirurgia videolaparoscópica (1991-1994). Sou membro do Conselho Regional de Medicina, da Associação Médica de Brasília, do Sindicato dos Médicos e do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Fui aprovado em concursos públicos para cirurgia geral na Fundação Hospitalar do Distrito Federal (1976) e no Instituto Nacional da Previdência Social (1977), e também para gastrenterologia nesse mesmo Instituto (1977). Sou especialista em cirurgia geral pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões (1982). Em minha vida profissional fui 1º tenente médico (convocado) pela Marinha do Brasil (1971); médico da Fundação Educacional do Distrito Federal (1971-1995); do Instituto Nacional da Previdência Social (1975-1977); da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (1976-1978); da Fundação Hospitalar do Distrito Federal nos hospitais regionais de Planaltina (1976), Taguatinga (1977-1985) e Asa Norte (1986-1996). Na atividade privada, trabalhei como cirurgião geral no Hospital Santa Lúcia (1975-2018). Chefiei a Unidade de Cirurgia do Hospital Regional de Taguatinga (1984-1985), a Unidade de Cirurgia Geral do Hospital Regional da Asa Norte (1987-1989) e fui instrutor de residentes em Cirurgia Geral no HRT (1978-1986) e no HRAN (1986-1995). Fui também presidente da 60

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Sociedade Brasileira de Cirurgia Laparoscópica (capítulo do DF, 1993-1995); membro eleito da comissão de Ética Médica do HRAN (1991-1992); membro da CCIH do Hospital Regional de Taguatinga (1985) e Presidente da CCIH do Hospital Santa Lúcia (1994). Ao longo de todos esses anos participei e apresentei trabalhos científicos em congressos locais e nacionais de cirurgia geral, cirurgia laparoscópica e gastrenterologia. Enquanto estudantes secundaristas, já temos o pensamento voltado para definir a nossa profissão, tentando definir nossas aptidões: eu tinha o exemplo da dedicação e do trabalho do meu pai, que era mais que um farmacêutico em Paratinga, era o “médico” da cidade. Cresci neste ambiente de pacientes, tratamento, medicamentos e saúde. Esse exemplo do meu pai teve muito peso na minha decisão de me tornar médico, embora tivesse uma irmã mais velha que fizesse pressão para que eu seguisse a carreira de Direito. Minha melhor realização profissional foi uma vida médica construída com dedicação e correção, um ato contínuo de inúmeras cirurgias, muitas horas operando, muitas noites operando, devolvendo saúde e satisfação a muitas e muitas pessoas, reintegrando-as às suas família e trabalho. É motivo de satisfação e orgulho muito grande quando você vê seu esforço de trabalho e estudo resultar em uma pessoa com saúde. Considero uma realização, durante toda a minha vida como cirurgião na rede pública, ter participado ativamente como docente nos programas de Residência Médica, transmitindo ensino aos jovens colegas. Vejo também com orgulho que durante toda a perigosa vida que trilhei como cirurgião, não respondi a nenhum processo judicial ou junto às entidades médicas. Participar da equipe pioneira de cirurgia vídeo-laparoscópica em Brasília, juntamente com meu colega de turma e cirurgião geral Jaldo, foi outro orgulho que exigiu dedicação e atenção àquele momento de mudança, o que foi percebido por nós da equipe. Esse esforço beneficiou muitos cirurgiões de Brasília. Brasília é a nossa capital, aqui estou desde 1962: entrar para o curso de medicina na UnB foi uma luz forte que surgiu, não havia ainda a ideia de “primeira turma”. Essa ideia surgiu depois e fazer parte dessa história passou a ser um orgulho, um orgulho que foi crescendo à medida que o nosso curso evoluía. Tivemos períodos políticos tumultuados a partir de 1964, mas hoje temos a visão de que fomos uma primeira turma de médicos com um espírito profissional muito bom e muito bem formada tecnicamente. Não tenho dúvida que essa formação se estendeu para vários lugares, principalmente para a medicina de Brasília, onde se radicou a maioria dos colegas. Temos aqui, volta e meia, o prazer e a honra de sermos citados como a “Primeira Turma de Médicos de Brasília”, a qual comemora neste ano de 2020 o seu jubileu de ouro!

Alcides 61


A H R R

Ingressei na UnB em 1962, no curso de economia, passando para o de medicina apenas em 1965. Fiz o internado em Sobradinho e posteriormente especializei-me nos Hospitais de Base (19711972) e dos Servidores da União (1973). Fui estagiário no Hospital da Universidade Federal do Paraná (nefrologia) e no Hospital Emílio Ribas, da Secretaria de Saúde de São Paulo (infectologia). Trabalhei a partir de 1972 no serviço médico do Banco do Brasil e fui Diretor da Secretaria de Saúde do Superior Tribunal de Justiça (STJ), órgão responsável pelo atendimento médico dos seus funcionários (1986). Participei da equipe médica do Hospital dos Servidores da União (HSU), atual Hospital Universitário de Brasília (HUB), quando foi realizado o primeiro transplante renal inter-vivos bem sucedido da cidade. Como principal atividade paraprofissional, pratico o judô, onde sou quinto dan. Muito me honram os nove anos em que estudei na Universidade de Brasília, tanto no curso de Economia quanto no da tão “sonhada” Faculdade de Medicina. O curso demorou para começar a funcionar porque os laboratórios de pesquisas tardaram a ficar prontos e eram indispensáveis para que as turmas de 16 alunos trabalhassem ao mesmo tempo. O grande “Minhocão”, que seria utilizado para essas atividades, também demorou mais tempo do que o previsto para ser entregue. Algumas greves também causavam a paralização de aulas. Os alunos eram muito politizados e atentos ao momento pelo qual passava o nosso país, e acompanhavam as paralizações de outras instituições. Os professores sempre tinham uma palavra de moderação em relação às greves, mostrando o prejuízo para nossa formação, embora soubessem que eram necessárias. A Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho (UISS) era uma unidade modelo onde podíamos avaliar o que estávamos aprendendo, praticar técnicas cirúrgicas e fazer partos. Os alunos mais antigos faziam questão de receber bem aqueles que vinham de outros estados, ajudando os novatos a se sentirem integrados rapidamente. Até hoje, mais de 50 anos depois do início da primeira turma de Medicina, prevalecem a amizade e o reconhecimento de tudo que aprendemos e vivenciamos na “nossa” UnB.

Antônio Herculano 62

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A S  V

Nasci na cidade de Fortaleza, CE, em 2 de outubro de 1941 e me especializei em Radiologia. Sou membro titular do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem desde agosto de 1978. Fui médico da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará e Diretor de Saúde de Fortaleza (1972-1974); médico da Fundação Legião Brasileira de Assistência e Coordenador de Execução da Divisão de Medicina da Diretoria Estadual do Ceará (1971-1975); Capitão-de-Corveta Médico do Corpo de Saúde da Marinha e Chefe da Divisão de Radiologia do Hospital das Forças Armadas de Brasília (1984- 1988); médico da Secretaria de Saúde do Governo do Distrito Federal e Chefe do Serviço de Radiologia do Hospital Regional do Gama (1980-1996). Haver participado da primeira turma de médicos formados na Universidade de Brasília foi uma honra e um privilégio. Uma honra, pelo nível dos docentes que nos transmitiram o saber médico, dentro de um projeto que se pretendia inovador e capaz de constituir exemplo para o futuro do ensino médico em nosso País. Um privilégio, por ter podido colaborar com a implantação do projeto, na exata medida do possível, interagindo intensamente com os colegas discentes, todos conscientes e engajados na importância daquele momento histórico.

Armando

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A A M

Nasci em Araxá, MG, fiz internato em Cirurgia na Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF) e fui 1º tenente médico da Marinha do Brasil nos 2 anos seguintes à minha formatura. Após uma passagem como Secretário de Estado da Saúde do Amapá (1974-1975), fiz Residência médica em Cirurgia Geral nos hospitais Getúlio Vargas e Ipanema no Rio de Janeiro. Sou especialista em Saúde Pública (Instituto Castelo Branco da Escola Nacional de Saúde Pública) e em Cirurgia Geral. Assessor do Ministério da Educação em Brasília e da DATAPREV no Rio de Janeiro, também fui diretor de departamento e secretário adjunto de planejamento da Direção Geral do INAMPS e membro de comissões interministeriais que planejaram e desenvolveram a reforma sanitária que resultou na criação do SUS. Um dos responsáveis pela implantação do sistema AIH no Brasil, fui também vereador (1997-2000), superintendente do Instituto de Previdência Municipal (2001-2004), diretor da Santa Casa, presidente da Câmara Técnica de Saúde e secretário adjunto municipal de saúde de Araxá. Sou cirurgião geral do município e do hospital da Unimed em Araxá, diretor técnico da Clínica Santti (Belo Horizonte, MG), médico credenciado do DAC/ANAC e membro do Conselho Nacional da Associação Brasileira de Ultraleves (ABUL). Autor do livro Medicina de Aviação: Fisiologia de voo (UNIUBE, 2009), sou piloto privado de avião, detentor das medalhas Santos Dumont e Fernando Almeida e em 2014 fui escolhido pelo Conselho Regional, Associação Médica e Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, como um dos Médicos Mineiros em Destaque. Sou casado com Maria Cecília Spínola Montandon, tenho cinco filhos e oito netos. Eu era um jovem recém egresso do segundo grau do colégio diocesano de Uberaba em 1965. Naqueles tempos, jovens como eu aspiravam acesso a uma faculdade. Eram tempos turbulentos, o Brasil estava começando a viver um período político complicado e os militares tinham assumido o governo. Falava-se em ditadura, em golpe militar. Eu era muito ingênuo e não entendia toda aquela agitação, mas a queria ser um estudante universitário. As opções que tínhamos era seguir carreira em “humanas” ou “exatas”. Meus pais queriam que fosse médico. Por outro lado, me sentia mais 64

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a vontade com as matérias tidas como voltadas para o ingresso nos cursos de humanas. E me senti seduzido gradualmente pela ideia (romântica?) de ser médico, profissional destacado pela sociedade. A despeito da turbulência política e das dificuldades financeiras, me lancei na busca do sonho, e enfrentei 3 vestibulares para 3 faculdades. Uma delas era uma universidade recém-nascida no planalto central, na capital de república, Brasília – a UnB. Quando a conheci, por ocasião do vestibular, fiquei fascinado. Tinha um astral diferente. Não era uma mera e isolada faculdade. O vestibular não era para um curso específico, no caso medicina. Era para todas as áreas, todos os cursos. Depois, se aprovados, optávamos pelo curso que aspirávamos. Embora jovem, a UnB respirava um ar de desenvolvimento e pesquisa. Os professores eram os melhores, recrutados de outros estados. Especificamente, os professores das ciências médicas eram egressos da antiga capital federal, o Rio de Janeiro, principalmente da UFRJ. Nos orgulhávamos de ver aqueles docentes com a aura da cátedra, referências da ciência médica. Éramos oitenta no início. O Instituto Central de Ciências, o ICC, popularmente conhecido como “Minhocão” estava inacabado. Um prédio de concreto de dois andares, em forma de arco, com um comprimento de centenas de metros! Lá foi instalada a nossa faculdade. A primeira a ocupar o enorme prédio. Laboratórios e salas muito bem equipados, tudo da melhor qualidade. O dia todo ficávamos envolvidos com os estudos, aulas teóricas e práticas, laboratórios e experiências. Tudo era maior do que nossas expectativas. Nossas atividades se resumiam ao Minhocão e só saíamos de lá pra almoçar no restaurante da universidade, o SAPS. Me lembro que a comida era muito boa e pagávamos muito pouco por ela, com uma espécie de vale refeição. À noite, normalmente exaustos, deixávamos a universidade pra dar aulas nos colégios da Fundação Educacional do Distrito Federal. Quase todos éramos professores. Éramos a elite cultural de Brasília. A não ser os estudantes da Universidade, poucos eram aqueles na cidade que podiam cumprir esse papel pedagógico. E quase todos nós éramos pobres, precisávamos conseguir o nosso próprio sustento. No quarto ano, e a despeito das turbulências políticas e intervenções policiais na UnB, deixamos o campus e partimos para o estágio hospitalar. Esse internato era feito no hospital universitário (UISS), na vizinha cidade satélite de Sobradinho. Ali passamos pelo treinamento e aprendizado prático da clínica, essencialmente as clínicas básicas – Médica, Pediátrica, Ginecológica-Obstétrica e Cirúrgica. Foi ali que sentimos a medicina entrar de fato em nossas veias. Começamos a nos sentir médicos e a assumir responsabilidades que nos acompanhariam toda a vida. O orgulho nos enfunava o peito. Os professores, ícones nas suas respectivas áreas, nos enchiam de entusiasmo. Tantas e tantas histórias, lendas e mistérios! Deixamos aquele hospital com a certeza de que estávamos prontos pra ir à luta, com enormes desafios pela frente. Vale salientar que a nossa escola formava médicos generalistas, com ênfase em saúde pública. Víamos o paciente integralmente, da sua patologia ao seu contexto familiar e social. Era uma nova mentalidade de formação, inspirada no que de mais avançado poderia 65


ter o ensino médico. Darcy Ribeiro e o professor Anísio Teixeira, forjaram as principais bases para essa revolução do ensino. O professor Luiz Carlos Lobo, jovem expoente da medicina carioca, nosso diretor e ícone maior, fez cumprir essa nova orientação. Nos formamos com glória, felizes e orgulhosos, envergando nossa becas com faixas verdes, no plenário da Câmara Federal, no dia 12 de Dezembro de 1970. Cinquenta anos se passaram! Nós, a “Primeira Turma” (e as dezenas de outras que se seguiram), provamos para nós mesmos e para a sociedade brasileira a eficiência do ensino médico da UnB, inspirado na ciência, na ética e na moral.

Avenor

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B S N

Nasci em 12 de abril de 1946 em Alto Garças, MT, cursei o ginásio e comecei o colegial em Alto Araguaia e Cuiabá, também em Mato Grosso. Terminei o colegial e fiz o “terceirão” e “cursinho” em Goiânia, GO. O vestibular para a Universidade de Brasília, a bem da verdade, foi feito por influência dos colegas do cursinho. Hoje sinto muito orgulho e uma sensação de ter feito uma ótima opção Voltando para Cuiabá, durante 45 anos trabalhei na Santa Casa de Misericórdia como cirurgião geral e durante 30 anos exerci a função médica na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, onde fui chefe do Departamento de Saúde por mais de 10 anos, antes de me aposentar. Fui também médico concursado no Ministério da Saúde, de onde também já me aposentei. Atualmente sou médico perito no Detran-MT, após ter feito o curso de medicina de trânsito. Faço também trabalho voluntário como médico, quando necessário. Estudar na primeira turma da UnB significou para mim descobrir um novo método de ensino médico, que era, à época, uma maneira especial e empática de se ocupar de um ser humano que necessitasse de assistência à sua saúde, principalmente na fase de vivência hospitalar, em Sobradinho.

Benedito

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C E M

Nasci em Goiânia, GO, em 17 de dezembro de 1945. Meus pais eram José Francisco Moreyra e Carolina Anacleto Moreyra, ambos nascidos fora do Brasil, respectivamente na Argentina (Córdoba) e em Portugal (distrito da Guarda). Sou o mais novo de três filhos, tendo como irmãos Sérgio Paulo e Yara. Casei-me com Maria Odete Mesquita Moreyra em 1981, e tivemos dois filhos, Maria Fernanda Moreyra Coelho e Lucas Mesquita Moreyra. Minha infância e adolescência foram marcadas pela convivência com muitos parentes, tios e primos, seguidas da juventude, que é o melhor enredo. Depois do primário, estudei durante seis anos do nível secundário no Liceu de Goiânia. Fiz o sétimo ano no Colégio Universitário da Universidade Federal de Goiás. Eu já vislumbrava a possibilidade de pertencer à 1ª turma de medicina da Universidade de Brasília – vale destacar que eu e minha família estivemos na inauguração da nova capital. Aprovado no vestibular para a UnB, tive grandes desafios e batalhas, sem um vestígio sequer de arrependimento, porém. Já formado e tendo realizado o sexto ano no Hospital de Base, restava uma residência de boa qualidade a seguir. Consegui vaga na residência de clínica médica do Hospital dos Servidores do Estado (IPASE), no Rio de Janeiro. Recebi uma excelente formação, aprendi muito ali. Após dois anos, fui para São Paulo a fim de estagiar na enfermaria de cirurgia torácica da Santa Casa de Misericórdia, dirigida pelos Drs. Febus Gikovate e Nairo Trench. Permaneci no estágio por quase dois anos. Trabalhei como médico da prefeitura de São Bernardo do Campo até julho de 1976, quando retornei a Brasília, concursado, para assumir cargo na Secretaria de Saúde, onde permaneci até me aposentar (2003). Em novembro de 1977 fiz concurso público para o Hospital das Forças Armadas, onde trabalhei como médico pneumologista, por mais de 25 anos. Saí quando, aprovado em concurso, passei a compor o quadro de médicos do Tribunal Superior do Trabalho, em julho de 2003. Ali me aposentei no ano de 2014. Devo dizer que sou grato a Deus por ter feito parte dessa turma pioneira. No começo lidamos com muita poeira, obras em andamento, uma biblioteca ainda em construção de acervo, mas nada 68

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disso prejudicou o curso ou nossa formação. Na verdade, Brasília sequer contava com transporte público, mas nossas caminhadas para a universidade renderam boas conversas e deixaram ótimas recordações. Tenho orgulho de dizer que participei do início da Faculdade de Medicina da UnB, que por tantos anos tem formado profissionais de destaque e contribuído imensamente para nossa sociedade. Continuo a viver em Brasília, com esposa, filhos e netos.

Carlos Eduardo

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Nasci em Miraí, na zona da Mata Mineira, em 19 de janeiro de 1943. Fiz internato eletivo em oftalmologia no Hospital Distrital, atual Hospital de Base de Brasília (HBB). Posteriormente, fui estagiário em oftalmologia no mesmo hospital, enquanto prestava serviço militar obrigatório no Hospital das Forças Armadas (HFA), onde atuei na montagem da Unidade de Oftalmologia daquele nosocômio (1971). Fiz residência médica em oftalmologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (FMRP-USP), serviço do Professor-Doutor Almiro Azeredo (1972-1973). Sou doutor em Medicina pela FMRP-USP e membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e da American Academy of Ophthalmology. Fui médico oftalmologista da Câmara dos Deputados, ingressando na área administrativa ainda na graduação, sendo posteriormente remanejado; médico oftalmologista da Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF), atuando no HBB; médico do trabalho lotado nesta especialidade na Junta de Perícias Médicas (remanejamento), onde permaneci até à aposentadoria. Todas essas posições foram conquistadas por concurso público. Considero minha pesquisa mais relevante as “Tabelas de Optótipos de Baixo Contraste – Medida da Sensibilidade ao Contraste com Modulação Quadrada” (FMRP-USP, 1989). Participei em banca examinadora de Doutorado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) e tenho como principal atividade paraprofissional ser membro da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), onde fui admitido por processo seletivo. Fazer parte do grupo que compõe a 1ª turma de Medicina da UnB é uma grande honra. No pioneirismo, tempos de turbulências e incertezas vivemos. Mas sentia, na força e determinação dos colegas, que o destino traçado nos levaria à vitória, alcançaríamos nosso objetivo. E assim foi … . 50 anos se passaram desde a colação. Nossa escola, nossa casa, nossa família. Agradeço a Deus por me ter permitido viver esta aventura. E a viagem continua …

Clinton 70

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D E  S

Nasci em Nova Aurora, GO, no dia 17 de novembro de 1940, fiz meus estudos iniciais em Anápolis e Goiânia. Era professor de química e biologia, formado em Farmácia pela UFG (Universidade Federal de Goiás), quando ingressei na Universidade de Brasília como aluno do Curso de Medicina. Fiz residência médica no Hospital de Sobradinho então Hospital Universitário, sob a supervisão do Dr. Luiz Meyer (psiquiatra recém-chegado de volta ao Brasil), especializei-me em psiquiatria. Posteriormente iniciei formação psicanalítica pelo Instituto de Psicanálise de São Paulo através da sua sede em Brasília. Trabalhando em Goiânia e concursado pelo antigo DASP, fui médico do INPS e do IPASGO (contratos interrompidos em 1988), onde exerci a chefia de diversas comissões na área da Previdência Social, como as de Acompanhamento de Desempenho Hospitalar, Comissão de Credenciamento de Serviços Médicos e Farmácia. Fui também Diretor do Pronto Socorro e Ambulatório de Psiquiatria da Santa Casa de Goiânia durante cerca de cinco anos, a partir de 1980. Era um serviço modelo que oferecia atendimento médico ambulatorial, internações rápidas (até 72 horas), atendimento farmacêutico e contava com o apoio do Serviço Social, ambulâncias e encaminhamento de pacientes considerados mais graves para os hospitais credenciados para internações mais prolongadas. O objetivo do Serviço Psiquiátrico da Santa Casa era oferecer atendimento ambulatorial, farmacêutico e diagnóstico social o que, eventualmente, contrariava os interesses econômicos dos hospitais psiquiátricos locais. Em função das mudanças políticas na área da saúde o citado serviço foi fechado. Fui membro do Conselho Regional de Medicina, participei de congressos de psiquiatria e proferi inúmeras palestras sobre medicina e saúde mental em serviços de psicologia e pedagogia em escolas e faculdades. Em colaboração com um colega e em convênio com a PUC-GO, criei a “Vertente Psicanalítica”, uma instituição que oferecia curso de formação de psicoterapeutas pelo uso da contribuição psicanalítica e que funcionou por cerca de 15 anos antes de ser interrompido.

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Além de textos publicados na revista “ALTER”, periódico destinado a publicações psicanalíticas em Brasília, cultivo uma produção literária que inclui romances, contos e crônicas, em um total de 14 livros, até o momento. Entre eles, um livro-documento que apresenta a visão de um estudante da UnB no final do ano de 1965 intitulado “Dias de Agonia” e com alguma ficção acrescentada ao relato das invasões sucessivas vividas pela UnB, as perseguições, as prisões de alunos e professores e o fechamento final da Universidade durante a ditadura. Incentivado a ser médico pela curiosidade de saber “que bicho é o ser humano?”, pergunta ainda não respondida completamente, (mas quem sabe... um dia...), sinto-me em primeiro lugar, honrado por ter o meu nome ligado à Universidade de Brasília. O curso de Medicina da UnB seguia a trajetória traçado alguns anos antes pelo movimento denominado “A Nova Escola” e que contava com a contribuição de Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Anízio Teixeira. O curso, na concepção adotada na UnB – antes do desmantelamento da Universidade, evidentemente –, enfatizava os aspectos sociais, os processos do adoecimento ligados aos acontecimentos da vida das pessoas, fora, é claro, as leituras obrigatórias da fisiologia e fisiopatologia, por exemplo, que todo curso médico deve ter. Em Goiânia, trabalhei durante muitos anos na Santa Casa de Misericórdia e essa formação do curso médico foi absolutamente fundamental para a leitura de tudo que acontecia na grande miséria nacional que podia ser vista nos ambulatórios, enfermarias, nas filas intermináveis e na soma imensa de problemas sociais e familiares que não tinham solução médico-psicológica. Após alguns anos nesse sofrimento sem fim e tendo concluída a minha formação psicanalítica, afastei-me de tudo isso. Estou no consultório como psicoterapeuta, ocupado com as intermináveis angústias humanas levadas até lá diariamente por muitas pessoas e, nos raros momentos livres, permaneço ocupado com os livros, muitos, alguns publicados, alguns ainda na “forma” e muitos nas estantes aguardando o momento da leitura. Mas, nem por isso, duvidem: a vida é boa, aliás, o melhor bem que possuímos. Apesar de todas as desventuras, injustiças e incompetência... VIVA A UnB!

Daniel

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Nasci em São Vicente, SP, em 17 de Outubro de 1941. Depois de formado, fiz especialização em Medicina Tropical na Universidade Federal da Bahia em Salvador (1971) e mestrado em Saúde Pública na área de nutrição materno infantil (Elementos para establecer un programa de Salud y Colectividad en una Población rural de la Republica de Guatemala), feito no Instituto de Nutrición de Centro América y Panamá (1972). Fui pesquisador assistente no Clinical Research Center, Food Science and Nutrition Department, Massachusetts Institute of Technology, onde completei meu doutorado com a tese Studies on acceptability and protein quality of a soybean protein isolate (1972-1977). Fui ainda bolsista da Organização Mundial de Saúde, OPAS/OMS (1971-1972) e da Ford Foundation (1973). No Brasil, fui membro do comitê de assessores em saúde pública e nutrição do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico – CNPq (1982-84); Diretor da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (1985); Diretor do Hospital Universitário – HDA (1987); Vice-Reitor da Universidade de Brasília (1989); Chefe e Professor Titular do Departamento de Nutrição da Faculdade de Ciências da Saúde – UnB (1990). Entre diversos artigos publicados, destaco dois: Nitrogen balance studies in young men to assess the protein quality of an isolated soy protein in relation to meat proteins (Wayler, A.; Queiroz, E.F.O. in Journal of Nutrition, 1983; 113: 2485-2491) e “Deficiência de vitamina A em pré-escolares de uma população vivendo na periferia de Brasília” (Queiroz, E.F.O. & Junqueira, M.I.M.B. – Laboratório de Nutrição, Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade de Brasília, 1984). Citado pelo ex-reitor da Universidade de Brasília, Antônio Ibañez Ruiz, em seu livro “Em tempos de pensamento Inquieto”, como um dos responsáveis pela “desenvoltura da Faculdade de Ciências da Saúde na segunda metade da década de 1980”, considero que minha realização profissional se deve em grande parte ao meu papel como Gestor Acadêmico. Vejo minha passagem em Sobradinho com muito carinho, onde a UISS proporcionou o entrosamento com a comunidade de maneira extensa e intensa na área de atenção primária da saúde. 73


Numa Brasília recém fundada, a sensação de primeira turma era a de desbravamento e pioneirismo.

Eduardo

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Nasci em 4 de outubro de 1945 em Goiânia, GO, onde estudei da primeira à quarta série primária no Colégio Batista, a quinta série (admissão ao ginásio) no Instituto Presbiteriano e o ginásio e científico no Colégio (Liceu) Estadual de Goiânia. Fiz internato em otorrinolaringologia (1970) e residência em pediatria (1971-72) e hematologia (1973) no Hospital de Base de Brasília e estágio em onco-hematologia no Hospital da Criança da Universidade Columbia – Nova York (1980), tornando-me o pioneiro da Oncohematologia Pediátrica em Brasília e no Brasil. Na vida profissional trabalhei na Unidade de Pediatria do Hospital de Base (1974-2011) e na Unidade de Hematologia do Hospital de Apoio/SES-DF, no Hospital Presidente Médici (19732006), e atualmente faço parte do quadro clínico do Hospital da Criança José Alencar – UCB, todos em Brasília, DF. Fui preceptor de ensino do Hospital de Base e tenho imenso orgulho de haver ajudado na formação de profissionais brilhantes que atuam na área de oncohematologia pediátrica. Em 1986, fui incentivador e um dos fundadores da Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (ABRACE). A importância da medicina em minha vida é enorme. Eterno aprendizado, estudo constante. No inicio havia muitas perdas de vidas. Aprendi muito sobre a morte e o morrer. Com o passar do tempo novas drogas e exames permitiram a cura da maioria dos pacientes acometidos. É muito gratificante ser convidado para casamento, aniversário de quinze anos e outros eventos de pacientes que tratei quando criança e estão curados. Houve um tempo que o número de casos me permitia saber o nome da criança, nome dos pais e irmãos, bem como a história de cada paciente; infelizmente, isso hoje é humanamente impossível, pela quantidade de casos existentes. Mas, continuo me esforçando para memorizar o máximo possível de cada caso por mim atendido. Ser aluno da Primeira Turma de Medicina da Universidade de Brasília foi um privilégio. Durante toda minha formação aprendi o valor da vida e o respeito à individualidade de cada pessoa. 75


Fazer parte do curso oferecido pela UnB, com projeto inovador de ensino sendo ministrado por professores renomados do país, permitiu a formação de uma turma de médicos com capacitação especial e extraordinária.

Edvaldo

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Filho de pai russo e mãe croata, nasci em 5 de fevereiro de 1945, final da 2ª Guerra Mundial, em Vorsfelde, na Alemanha. Meu pai, Vsevolod Tarapanoff, engenheiro formado em Belgrado (Sérvia) foi trabalhar em uma firma alemã que atuava na área de construção de rodovias. Meus pais tiveram mais três filhos: Igor, Oleg e Kira. Aos 2 anos, tive difteria e fiquei internado por um bom tempo. Fomos transferidos para um campo de refugiados em Hägnisen, administrado pelos britânicos no país, onde vivemos até 1949. Viemos com o navio A.H. McRae e minha mãe ao avistar a costa brasileira, se encantou e escolheu ficar com a família no Brasil. Inicialmente residimos na Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo. Depois fomos morar na Vila Alpina, onde havia uma comunidade russa que se reunia na Igreja Ortodoxa da Paróquia da Santíssima Trindade. Minha mãe cantava no coral e eu e meus irmãos éramos coroinhas. Fiz o primário no Externato Nossa Senhora do Carmo e iniciei o ginásio no Colégio Estadual São Paulo. Meu pai recebeu um convite da empresa Novacap, que era responsável pelo gerenciamento da construção da nova capital em Brasília em 1958 e ficou morando em um alojamento de madeira. Em maio de 1959, quando foi construída uma casa para a família, fomos morar em Brasília. E nesse mesmo ano fui estudar no Colégio Dom Bosco. Em 30 de agosto de 1960, houve a inauguração das novas instalações do colégio pelo então presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira. Na ocasião, peguei sua assinatura no convite impresso pela instituição de ensino. No ano seguinte, continuei o ginásio na Comissão de Administração do Sistema Educacional de Brasília (CASEB). Em 1962, fui estudar no Colégio Centro de Ensino Médio (CEM) Elefante Branco e concluí o científico no Centro Integrado do Ensino Médio (CIEM), modalidade educativa inovadora em período integral e ligada à Universidade de Brasília (UnB). Iniciei o curso de Medicina na Universidade de Brasília (UnB) em 1965. Tratava-se da primeira turma e começamos as aulas práticas nas instalações do Instituto Central de Ciências (“Minhocão”). Pelo fato de sermos os únicos universitários a utilizar o prédio, criamos laços de amizade mais duradouros. Um fato que marcou minha vida universitária foi a invasão do prédio por membros do 77


Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em busca de líderes estudantis durante uma aula de Histologia no laboratório. Em 1968, passamos a estudar na Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho (UISS). Comecei a vivenciar o dia-a-dia de um médico, tendo contato mais próximo com os pacientes e a compreender melhor o sofrimento humano e como tratá-lo. Um professor marcante na minha vida foi o Dr. Antônio Márcio Junqueira Lisboa, que era pediatra. Antes de começar o internato no Hospital de Base de Brasília no início de 1970, participei do Projeto Rondon 5 na cidade de Ponte Branca (MS). Quando retornei, iniciei o internato já voltado para a área pediátrica. Foi um período cansativo, mas de muito aprendizado. A formatura foi realizada em dezembro, no mesmo dia em que se graduou meu irmão Igor, em Geologia. Ser parte da primeira turma tem um “sabor especial”, porque ela sempre será lembrada como tão pioneira e inovadora como foi o discurso de Juscelino Kubitscheck referindo-se à nova capital, Brasília. “Deste planalto central, desta solidão, que em breve se tornará o cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço mais uma vez o olhar sobre o amanhã do meu país e antevejo uma alvorada de fé e esperança no seu grande destino” são palavras de que me recordo até hoje. Em 1971, fui eleito vice-presidente da Associação Nacional de Médicos Residentes (ANMR) do Brasil juntamente com o Dr. Cid Célio Jayme Carvalhaes, residente em neurocirurgia. Continuei no Hospital de Base por mais dois anos e passei a morar no hospital. Tive como colega na Pediatria, inclusive como residente-chefe, Máiron Lima e Bernardette, entre outros. Após realizar as provas da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), resolvi ir para São Paulo. Meu primeiro emprego foi como pediatra na Sociedade da Assistência Médica, Comércio, Indústria Limitada (SAMCIL) em 1973. No ano seguinte, comecei em duas prefeituras do Grande ABC: Fundação Municipal de Saúde (FUMUSA), de 1974 a 1977, em São Caetano do Sul e Fundação de Assistência à Infância de Santo André (FAISA), de 1974 a 1984. Em 1984, entrei na Intermédica, onde trabalhava em regime de meio período (de março daquele ano até agosto de 1985). Também dei plantão aos sábados na AMICO (de abril de 1985 a fevereiro de 1986). Em junho de 1989, entrei por concurso na Prefeitura Municipal de Mauá, onde atuei como médico pediatra até agosto de 2002, participando em campanhas de vacinação. A empresa em que atuei mais tempo em minha vida, sendo a maior parte em período integral em hospital particular, foi o Hospital e Maternidade Brasil (HMB). Foram 33 anos e meio de dedicação exercendo todas as atividades: sendo responsável pelos pacientes que costumava atender, na enfermaria, no Pronto-Socorro e eventualmente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Eugene 78

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Nasci em 11 de agosto de 1941 em Luziânia, GO e fiz residência em Clínica Médica no Hospital de Base do Distrito Federal de janeiro de 1971 a janeiro de l972, quando fui para a Faculdade de Medicina de Mogi das Cruzes, SP. Lá fui professor assistente do departamento de medicina interna, com especial dedicação à disciplina de Reumatologia, de janeiro de l972 a janeiro de 1974. Em setembro de 1973 fui aprovado em concurso público para médico reumatologista do antigo Hospital dos Servidores da União (HSU), hoje Hospital Universitário de Brasília (HUB). Tornei-me especialista em Reumatologia após provas escrita e títulos em 1974. Aprovado em 1976 em concursos públicos promovidos pelo Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) e pela Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF), fui lotado no Hospital de Base, onde fui chefe da unidade de Reumatologia (1979-1988) e da seção de Medicina Interna (1988-1996), gerente de controle de ambulatórios e leitos hospitalares (2004-2005) e preceptor no programa de residência médica na área de Clínica Médica (1985-1988). Consultor na área de reumatologia da Sociedade Brasileira de Medicina Física e Reabilitação, sou coautor de trabalho realizado no HBDF sobre “Tratamento pela sinovectomia do joelho de cisto poplíteo na Artrite Reumatoide” (Revista Brasileira de Ortopedia, setembro1984). Fui conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (1983-1988) e graduei-me em Teologia pelo Curso Superior de Teologia da Arquidiocese de Brasília em 2011. Ser médico foi uma determinação e ter tido o privilégio de graduar-me na Primeira Turma de Médicos da Universidade de Brasília me honrou e gratificou enormemente. No exercício da profissão passei por várias instituições, mas a que mais me marcou foi o Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF). Minha longa e salutar convivência com esse nosocômio (hoje Instituto Hospital de Base) ainda me traz muitas saudades, e não poderia ser diferente. Quando Brasília começou a ser construída, em 1956, eu era um adolescente com 15 anos na minha cidade de Luziânia; passei a viver uma grande expectativa com aquela movimentação de máquinas e caminhões transportando material, principalmente areia e cascalho, que eram dragados do 79


rio Corumbá e passavam pela cidade para chegar aos canteiros de obras da futura capital. Inúmeras vezes vínhamos nesses caminhões e ajudávamos a descarregá-los com pá ou enxada tendo em vista que em sua grande maioria, as carrocerias eram de madeira e não tinham o recurso do descarregamento mecânico. Jamais me esqueci de um outdoor no canteiro de obras onde, por volta do ano de 1958, descarregávamos um caminhão: “Construção do Primeiro Hospital Distrital de Brasília”, primeiro nome do HBDF. No aniversário dos 50 anos do hospital, em 12 de setembro de 2010, o jornal Correio Braziliense, em reportagem intitulada “O Hospital Cinquentão”, deu ênfase ao meu vínculo com a instituição classificando-me como pioneiro por ter sido servidor da Prefeitura de Brasília (no início era uma prefeitura) e ter-me graduado em medicina na primeira turma de médicos da UnB. De fato, estive presente em vários e importantes eventos no período da construção da cidade – na Primeira Missa, em maio de 1957 e na inauguração da nova capital, em 21 de abril de 1960. Em outra reportagem, de 4 de maio de 2013, com o título “De Pedreiro a Doutor”, o mesmo jornal fez referência à minha pessoa como parte de um capítulo da história do Hospital de Base e do Distrito Federal, por ter ajudado a descarregar areia no canteiro de obras e depois trabalhado como médico. Em 1966, após concurso público e já aluno da UnB, fui nomeado pelo prefeito Plínio Cantanhede oficial administrativo da Prefeitura do Distrito Federal, pedindo para ser lotado no Primeiro Hospital Distrital de Brasília (1º HDB), onde poderia trabalhar a noite, uma vez que passava o dia na Universidade. Trabalhei como datilógrafo (não havia ainda computadores) e muitas vezes, após o trabalho e também em finais de semana, ia para o Pronto Socorro para aprender a prática médica com os médicos plantonistas, muitos dos quais já me conheciam, uma vez que eu trabalhava no laboratório emitindo os resultados de exames. Em janeiro de 1971 iniciei meu trabalho como médico residente: éramos literalmente residentes, morávamos no hospital, o dormitório ficava no 12º andar, lá trabalhávamos, fazíamos as refeições e estudávamos. Em 1976, após aprovação em novo concurso público, iniciei minhas atividades como membro do corpo clínico, função que exerci até 2011 quando por força da aposentadoria compulsória, fui desligado. Como instrumento de Deus, procurei contribuir para aliviar as dores e o sofrimento de tantos que nos procuravam com a esperança de ter mais conforto e mais qualidade de vida. Refletindo sobre toda essa realidade de muitos anos, só tenho agradecimentos a fazer, primeiramente a Deus, por tudo que me foi oferecido e concedido como graça, à família que nunca faltou com seu incentivo, alimentando-me a esperança de alcançar o êxito, aos professores, preceptores, colegas que nos motivaram a prosseguir na caminhada e com os quais tivemos uma convivência fraterna, enfim, a todos os que me favoreceram para o exercício da atividade médica. Por professar a fé cristã não posso deixar de me referir ao evangelista que exerceu a medicina, São Lucas, nosso padroeiro, cuja festa é celebrada no dia 18 de outubro, não por acaso dia em que é 80

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comemorado o Dia do Médico. Em seu Evangelho, Lucas fundamentalmente defende a salvação para todos os povos, todas as nações, independentemente de raça ou credo. Finalizo esse relato citando um ensinamento do nosso patrono, um versículo extraído do seu evangelho:

Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: – Somos simples servos; fizemos o que devíamos fazer (Lc 17:10).

Franklin

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Nasci em Três Lagoas, MS, em 22 de julho de 1943, filho único de pai austríaco e mãe “baiana-mato-grossense”. Fiz meus estudos secundários no Colégio Arquidiocesano em São Paulo e estudei medicina na Universidade de Brasília, formando-me na primeira turma de médicos do Distrito Federal, em 1970. Casei-me em Brasília com Eliana Tereza Horta Barbosa e tivemos três filhos: Henrique, também formado em medicina (UnB); Roberta, doutora em psicologia (UnB) e Marianne, administradora com MBA pela Universidade Católica. Henrique e sua esposa Patrícia me deram três netos (Felipe, Bruno e Manuela); Marianne e Hailton um (Vinícius), e Roberta e Davi mais um (Rodolfo). Sou especialista em Administração Hospitalar pela Sociedade Brasileira de Medicina Hospitalar e em cirurgia geral, tanto pelo Ministério da Educação como pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões, onde cheguei a Vice-Presidente Nacional. Em 2006 recebi o título de Cirurgião Emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Escrevi os livros: “Manual do Abdome Agudo Infeccioso”, “A Parede Abdominal”, “Catálogo de Orientação de Residência Médica e Estágios”, “Tubos, Sondas e Drenos” e “Família Dantas Filgueiras”, além de ter escrito e assinado 11 capítulos em livros nacionais e internacionais. Fui editor e fundador da “Revista de Saúde do Distrito Federal”; publiquei mais de 100 (cem) artigos em revistas nacionais e internacionais e organizei e participei de inúmeros congressos médicos; fui membro das bancas examinadoras do Colégio Brasileiro de Cirurgiões para concessão do Título de Especialista em Cirurgia Geral por 6 (seis) anos seguidos; membro titular da Academia de Medicina de Brasília (2002-2011); membro da Associação Médica de Brasília e Brasileira; membro Associado do Instituto Histórico e Geográfico do Mato Grosso do Sul e ex-professor extramural da Universidade de Brasília. Entre comendas e títulos honoríficos destaco: “Comendador da Ordem do Mérito Médico e Científico Carlos Chagas; “Oficial da Ordem do Mérito das Forças Armadas” (condecorado pelo ex-Presidente da República Fernando Henrique Cardoso) e “Médico Honorário do Hospital Santa Luzia”, em Brasília. 82

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Desde criança não conhecia outra profissão, queria ser médico. Como todo estudante, após terminar seus estudos, queria passar em qualquer faculdade de medicina, e vigiava todos vestibulares da área. Fui aprovado na USP e na Universidade de Brasília. Matriculei-me na UnB. A USP naquele ano havia criado o vestibular unificado (CESCEM) e demorava para convocar os aprovados. Quando fui convocado pela USP, já estava cursando o segundo semestre de medicina em Brasília. Paralelamente, a força da aura e o charme da cidade de Brasília, que acabara de conhecer, cativaram-me definitivamente. Era uma cidade pujante e albergava uma magnitude ímpar, criada por pessoas especiais e triunfantes. A cidade irradiava liberdade, que todos sentiam no próprio ar, e consequentemente demonstrava trabalho, cultura, educação, facilidade de ir e vir, além de muito moderna. Queria participar e tentar ser um deles. Uma cidade que nascia há pouco tempo e já tinha poder da atração. O encanto se iniciou com a Primeira Turma da Faculdade. A sua Faculdade de Medicina, que seus alunos ajudariam a criar, comungava com as virtudes da cidade. O curso de medicina foi inflado por professores renomados, vindo de algumas partes do país, em especial de São Paulo e Rio de Janeiro. Centros ávidos de educação e cultura a serem transmitidas e que fatalmente foi causa de fixação dos novos alunos na jovem faculdade da UnB. “Veni, vidi, vici” (Júlio Cesar, 47 a.C.).

Frederico

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Nascido em Sacramento, MG, em 26 de junho de 1943. Intensivista e cirurgião cardiovascular no Hospital de Base do Distrito Federal por concurso público. Participou de diversos cursos, congressos e simpósios, proferindo palestras e publicando trabalhos, especialmente sobre próteses valvulares cardíacas, técnicas de implantação de marca-passos e tratamentos cirúrgicos de hipertensão renovascular. Além de Administrador, foi chefe da Residência Médica, das seções de Enfermarias e Doenças Cardiovasculares, da Unidade de Cirurgia Cardiovascular, do Centro Cirúrgico e do setor de Emergência do Hospital de Base de Brasília.

Ivan

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J A B

Nasci em Porto Franco, MA, em 11 de dezembro de 1943. Sou casado, tenho três filhos (dois deles também médicos) e sou avô de seis netos. Fiz meu curso primário no Grupo Escolar Tiradentes em Cristalândia, o ginasial no Colégio Estadual de Porto Nacional (ambos no atual estado do Tocantins) e o científico no Ateneu D. Bosco, em Goiânia, GO. Fiz minha residência em cirurgia geral na Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho (1971-1972). Trabalhei como médico concursado na Secretaria de Saúde do Distrito Federal, onde fui chefe da unidade de Cirurgia Geral do Hospital Regional da Asa Norte (HRAN) e vice diretor do Hospital Regional de Taguatinga (HRT); no Hospital das Forças Armadas, chefiei a Unidade de Cirurgia. Membro Emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (e Mestre do Capítulo no Distrito Federal), sou também sócio fundador e membro titular das Sociedades Brasileiras de Videocirurgia (Sobracil) e Cirurgia Metabólica (SBCB). Participei de diversos congressos médicos nacionais e internacionais da minha especialidade, de bancas examinadoras de concursos para cirurgia geral promovidos pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal e fiz cursos internacionais de treinamento em cirurgia bariátrica (Cincinnati, EUA) e cirurgia colo-retal e hérnia por vídeo (Miami, EUA). A nossa geração de cirurgiões gerais se beneficiou com o desenvolvimento da cirurgia por vídeo-laparoscopia. Tivemos o privilégio do pioneirismo da sua realização em Brasília, um momento transformador e motivador para a cirurgia geral no Distrito Federal. Foi com muito orgulho que dividi este feito com o nosso colega Alcides Dourado. Durante todos estes anos tratei meus pacientes na sua integralidade, focando não apenas na sua patologia, mas também levando em conta todo o seu contexto, seguindo os ensinamentos preconizados pela nossa faculdade, tendo a saúde como um bem estar físico e mental. Ter sido aluno da primeira turma de medicina da UnB foi motivo de muita felicidade, para mim e para minha família. Participar com nossos amigos professores de todas as dificuldades da implantação da nossa faculdade, bem como ter a oportunidade de conviver com colegas, que se 85


tornaram também amigos, mesmo se tratando de grupo tão heterogêneo, originário de todos os recantos do Brasil, se constituiu num grande aprendizado. Finalizando, rendo minhas homenagens aos colegas que nos deixaram durante esta jornada, com sentimentos de carinho, saudade e gratidão.

Jaldo

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J B  A

Nasci em 8 de maio de 1940, em Dores do Indaiá, MG, fiz meu internato no Hospital de Base de Brasília e posteriormente, estágio de aperfeiçoamento no serviço de clínica médica do Hospital da Base Aérea de Brasília, onde servi como 2º tenente médico (1971-1975). Através de concurso público, tornei-me médico perito do Ministério da Saúde (1973-1995) e da Polícia Militar do Distrito Federal (aprovado em 1º lugar), onde me aposentei no posto de coronel (1996). Nessas instituições fui chefe da clínica Médica do Hospital da Base Aérea de Brasília, do serviço médico do Ministério da Saúde e da clínica médica da Policlínica da Polícia Militar. Dei aulas na Fundação Educacional do Distrito Federal sobre programas de saúde (1972-1973), participei da comissão examinadora de candidatos aos concursos públicos para sargentos enfermeiros e para médicos civis da Polícia Militar do Distrito Federal (1975), tendo sido presidente da banca examinadora desse último. Considero minha melhor realização profissional o reconhecimento dos meus pacientes, sendo procurado por eles até a presente data. O caso que mais me impressionou foi o de um paciente em 2012, que tinha um câncer de pâncreas e que operado pelo colega e amigo Frederico Pohl, goza de boa saúde até os dias atuais. O que mais me incentivou a ser médico foi a vontade de diminuir o sofrimento do ser humano. Ter sido aluno da Primeira Turma de Medicina da UnB representa um grande orgulho, pois contribuí de forma ativa para a história da medicina da Universidade e de Brasília. É uma honra fazer parte desse seleto grupo de médicos.

João Batista

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J E N S

Sou natural de Alegre, ES, onde nasci em 15 de outubro de 1946. Depois de formado, iniciei minha residência em clínica médica no antigo Hospital Distrital de Brasília (1971), sendo posteriormente contratado como professor assistente pela Faculdade de Medicina da Organização Mogiana de Ensino e Cultura (OMEC), em Mogi das Cruzes, SP, com especial atenção à especialidade de nefrologia (1972-1974). Neste período, fiz estágio na unidade de transplante renal do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) com o Prof. Dr. Jenner Cruz e aprendizado da terapia hemodialítica com o Prof. Dr. Vicente Cesar Massola, ambos em 1973. Sou especialista pela Associação Médica brasileira em Medicina Intensiva e também em Nefrologia. Retornando a Brasília, fui contratado como nefrologista do Hospital das Forças Armadas (HFA) e aprovado no concurso público para nefrologista do Hospital Presidente Médici (IPASE), atual Hospital Universitário de Brasília (1974). No ano seguinte, fui aprovado também em concurso público para a Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF) e lotado na unidade de clínica médica do Hospital Regional de Taguatinga (1975). De lá fui transferido para a unidade de Terapia Intensiva de Adultos do Hospital de Base do Distrito Federal, onde dei início ao tratamento por hemodiálise dos pacientes com insuficiência renal aguda, quando da aquisição de rim artificial. Permaneci naquela unidade até 2003, quando me aposentei e onde dou nome a uma de suas salas. No Hospital Presidente Médici, fui o introdutor da técnica de biópsia renal percutânea sistemática na propedêutica das glomerulopatias. Na vida privada, exerci minhas atividades profissionais na empresa “Nephron Brasília Serviços Médicos Ltda.” (1992-2013) e a partir de 2014, já de volta ao Espírito Santo, na Clínica Capixaba do Rim (Vitória e Cariacica) e no Instituto do Rim (Guarapari), locais onde mantenho ainda hoje consultório especializado em nefrologia e terapia hemodialítica crônica. Ter-me formado na primeira turma de Medicina da UnB sempre foi para mim motivo de honra e orgulho. Numa empreitada pioneira, em momento turbulento da vida política nacional, 88

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implantou-se na UnB a primeira faculdade de medicina de Brasília. Como a apressada e febril construção da nova capital por Juscelino, nossa faculdade também surgiu a toque de caixa. Assim, num início improvisado, assistimos às aulas de antropologia, química, física, biologia... somente a roupa branca do professor de antropologia lembrava-nos de estar estudando medicina! A Primeira Turma era constituída, no entanto, por estudantes maduros, alguns já chefes de família, e também por outros, como eu, mais jovens, mas todos imbuídos da determinação de seguir a carreira médica. Minha visão àquela época era tão somente centrada no estudo e no aprendizado da ciência médica. Não politizado, digamos, eu seguia (e usufruía) a corrente da efetiva implantação da Faculdade de Medicina da UnB, onde fora admitido ao ser aprovado no primeiro vestibular de medicina da UnB. As aulas eram dadas inicialmente nos anfiteatros (quem não se lembra do “ICR”, o “Instituto Central do Ronco”, onde tivemos aulas de Física com o famoso Professor Roberto Salmeron na sonolenta hora após o almoço?) e nos laboratórios recém-construídos no “Minhocão” (Instituto Central de Ciências), tudo em meio às ruas não asfaltadas, áreas não ajardinadas, só poeira e/ou lama e a trepidação causada pelas máquinas em trabalho contínuo. As primeiras matérias realmente pertinentes a um currículo de medicina chegaram às custas de muitas reivindicações feitas pela própria turma. Com a ida para a “UISS” (Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho), percorrendo os longos e solitários corredores do hospital, nos plantões noturnos de PS, entranhava-se em mim a onipresente visão da Medicina Comunitária, massivamente doutrinada pelos nossos Professores. Hoje, quase completados 50 anos de jornada na Medicina Clínica, pai de duas filhas médicas, com incontáveis horas de labuta em prontos-socorros, UTIs, enfermarias, ambulatórios (entes públicos) e em consultórios particulares, sinto-me plenamente realizado na minha opção vocacional pela Medicina e como afirmei, com muito orgulho e honra por pertencer à Primeira Turma de Medicina de Brasília.

José Egídio

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J G A S

Nascido em 29 de julho de 1939, em Registro do Araguaia, GO. Fez especialização em oftalmologia na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Criou e chefiou o Departamento de Oftalmologia da Casa de Saúde de Campinas (1976-1978) e foi presidente do Departamento de Oftalmologia da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas (1982-1983).

José

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J H  S C

Nasci em Ponta Porã, MS, em 22 de outubro de 1942 e estudei no Colégio Militar do Rio de Janeiro e no Elefante Branco, em Brasília. Entrei para a Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB) em 1963, passando para a de Ciências da Saúde em 1965, formando-me em medicina no ano de 1970. Entre 1971 e 1972 trabalhei no Hospital das Forças Armadas (HFA) em Brasília. Fiz residência e cursos de pós-graduação em Radiologia no Hospital dos Servidores do Estado (HSE), na Pontifícia Universidade Católica (PUC/RJ) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (1973-1974). Voltando para Brasília, trabalhei na Secretaria de Saúde (1976-2012) e no Hospital dos Servidores da União/Universitário de Brasília (1976-2011). Passados 50 anos da nossa formatura, quando digo aos colegas mais novos, inclusive aos mais recentes, que sou da primeira turma de medicina da UnB, vejo neles muita admiração e respeito, mostrando assim como nosso curso até hoje é considerado conceituado e diferenciado. Não é preciso dizer mais nada: a duração da voz geral fala por si só.

José Henrique

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Nasci em 4 de abril de 1943, na fazenda Palmeiras, município de Santa Maria da Vitória, BA, filho de Deocleciano Marques de Souza Ramos e Hilda Mafra Ramos. Fiz o curso primário em minha cidade (1953-1957) e o ginasial e o científico em Salvador (1958-1964). Em 1965 prestei o vestibular inaugural do curso de medicina da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília, onde me graduei em 1970. Durante o curso fui professor do ensino médio (Biologia) no Colégio Elefante Branco e na Escola Normal de Brasília. Fiz internato no Hospital de Base de Brasília e nesse período participei de um breve estágio extracurricular no Hospital Regional da SUDECO em Aragarças, pelo Projeto Rondon no Campus Avançado da UnB. Completei meu treinamento em clínica médica no mesmo Hospital de Base de Brasília (1971-1972), onde fui chefe dos residentes. Tenho diplomas de especialista em Clínica Médica e Terapia Intensiva e fiz também especialização em Endocrinologia e Metabologia. Sou sócio fundador da Sociedade Brasileira (1973) e da Brasiliense (1974) de Terapia Intensiva; membro-fundador da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional do Distrito Federal. Fui aprovado em exame curricular para a Unidade de Terapia Intensiva do Hospital das Forças Armadas (HFA) em Brasília (1972) e contratado como “staff” em 1973. Fui também aprovado em concursos públicos da Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF) para médico intensivista de urgências (1974) e para a clínica médica (1975). Fui chefe de equipe do Programa Saúde em Casa durante todo o governo de Cristóvão Buarque (1995-1998). Na iniciativa privada, exerci minha atividade profissional no Hospital Santa Marta, em Taguatinga, DF, atuando na enfermaria, emergência e ambulatório. Apresentei diversos trabalhos e palestras, realizei e publiquei pesquisas e trabalhos científicos, atualizei meus conhecimentos em congressos, recebi inúmeras homenagens. Minha melhor realização profissional foi ter participado do Programa Saúde em Casa, onde atendia a população mais pobre e carente, desde a mais tenra idade ao mais idoso ou incapaz, em todo tipo de doença. Visitava, andando com membros da equipe, toda a área pré-estabelecida e suas 92

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moradias, executando a maior parte do trabalho com o auxílio de uma equipe de 12 pessoas em média, incluindo uma enfermeira, 2 técnicos de enfermagem e 2 dentistas. O caso que mais me impressionou como médico foi o de uma moradora de Santo Antônio do Descoberto, GO, no entorno de Brasília. Cuidei dela desde que apareceu no Posto de Saúde da Ceilândia, quando eu estava iniciando minha atividade médica na FHDF. Pessoa muito humilde, de sorriso fácil e de bom coração, me procurava uma a duas vezes por semana, com todo tipo de queixas e muitas vezes sem ter se alimentado pela carência de recursos. Dois ou três anos após iniciar atendimento na Ceilândia fui transferido para o HRT, em Taguatinga. Essa paciente também. Tinha diabetes e que de início era monitorado com hipoglicemiantes orais. O controle durou pouco, e Júlia engravidou. Internei-a várias vezes para equilibrar sua doença com insulina, mas o controle era precário, devido à falta de alimentos. Quando fui transferido para o HRAN, ela e o filho vieram juntos, parecia a única forma que achavam para manter um pouco de saúde e sobreviver. Um dia recebi um telefonema de um de seus filhos dizendo: “– Sabe, Dr. José Marques A minha mãe morreu”. E pediu ajuda para comprar uma carroça para trabalhar pegando frete. Ser médico para mim significou uma última alternativa para sobreviver ou adquirir condições para viver mais e tentar estudar a Ciência que mais diretamente e na prática, me explicasse os mistérios do viver e do morrer. O contexto e o meio em que vivi e sobrevivi serviu como um estímulo muito forte para buscar a saúde e para chegar ao médico. Sair deste meio para ser médico parecia um sonho impossível... Já com 12 anos e como um entre outros vencedores de uma competição, estava no último ano antes do exame de admissão, que era uma prova para o ingresso no Curso Ginasial. Certo dia, antes do começo das aulas a professora entrou na sala com uma seringa na mão e informou que a injeção era para ela. Indagou quem a queria aplicar, olhando para todos e creio que apenas eu retribui o olhar. Ela se dirigiu para mim e entregou-me a seringa e foi explicando. Sei que apliquei a injeção à altura do deltoide. Nem me lembro se houve comentários porque tudo me pareceu muito natural. Compreendi, no entanto, que isto havia me estimulado a pensar nos meios de aprender a tratar as pessoas doentes. Meus pais moravam em uma vila do interior de Goiás quando cheguei a Brasília e fui de taxi para um hotel no Núcleo Bandeirante. Cidade com habitações todas de tábua, lembrando cenas dos filmes do faroeste americano. Ruas muito movimentadas e com muita poeira. Um amigo do meu pai, comerciante e caixeiro-viajante, Sr. Habib Chater, que já me conhecia, ficou sabendo da minha situação e veio ao meu socorro, inclusive me presenteando com blusa de frio, para me conduzir em seu automóvel pela manhã até a Universidade de Brasília no local e horário das provas. Feito o vestibular, fui de ônibus para Anápolis, onde pernoitei esperando para pegar no dia seguinte outro ônibus, para a casa de meus pais, em Natinópolis, Goiás. Minha sorte estava lançada. 93


Diminuída a tensão com a notícia da minha aprovação no vestibular para Medicina, não tinha condições de festejar coisa alguma. Imaginava que tinha que enfrentar com dificuldades a sobrevivência em Brasília. Felizmente a UnB tinha um programa de acolhimento para os mais carentes, dando oportunidade de moradia e alimentação no restaurante universitário. Na festa dos calouros, os aprovados, de cabeças raspadas e caras pintadas ou fantasiados, desfilaram na Avenida W3 Sul, então a principal da Nova Capital...

José Marques

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Nasci em Belo Horizonte e me transferi para Brasília em 1963, mais especificamente para a UnB, onde prestei vestibular para Administração/ Economia. Iniciei o curso e após algum período percebi que minha vocação era outra. Me inscrevi para o curso de Medicina há pouco tempo iniciado, sendo aprovado, iniciando a graduação. Tinha curiosidade de saber o motivo de minha opção, a qual me foi revelada pela Dra. Virgínia Bicudo em suas aulas como sendo consequência de problemas de atendimento médico-familiar. Após a formatura na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Brasília, dediquei-me por quase cinco anos à residência em Cardiologia e após essa, especializei-me em Hemodinâmica no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo. Concluída a especialização, mudei-me para Goiânia onde desenvolvi minha vida profissional. Aprovado em concurso público para o Ministério da Saúde, fui colocado no Hospital Geral de Goiânia. Nessa instituição fui Chefe da Residência Médica, Preceptor Geral do Ambulatório, Diretor de Assistência Médica e Diretor Geral. Participei de bancas examinadoras do Ministério da Saúde, dei palestras em Congressos Brasileiros de Hemodinâmica, presidi o Congresso Brasileiro de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, e colaborei com capítulos em livros. Dediquei-me à organização das instituições de saúde como presidente por várias gestões do Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde do Estado de Goiás e fui membro do Conselho Regional de Medicina Coube a mim iniciar o primeiro serviço de Hemodinâmica da região Centro Oeste. Ao lado de outros cinco colegas médicos, fundei a Clínica do Coração, hoje um hospital de alta complexidade – o Hospital do Coração de Goiás. Também tive a satisfação de ser homenageado com o Diploma de Honra ao Mérito do Estado e com o título de Cidadão Goiano. Ao fazer um balanço dos 50 anos de formado, considero minha maior realização na prática da especialidade e na profissão médica a primeira angioplastia em que atuei como cirurgião único em 1988. Mas o caso que mais me impressionou dentre os que cuidei nestas cinco décadas foi o de um paciente em choque cardiogênico e infarto do miocárdio por oclusão do tronco da coronária 95


esquerda e também da coronária direita. Outro grande orgulho e satisfação que guardo destes anos de profissão é o de ter sido aluno da primeira turma de Medicina da UnB, o que significa a realização mais marcante em minha vida profissional e meu divisor de águas. Não posso terminar este depoimento sem um agradecimento à minha família, meus filhos, noras, genros e netos queridos, além de um todo especial à Sílvia, minha companheira querida.

José Silvério

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Nasci em 27 de junho de 1940, em Caratinga, MG. Nas décadas de trinta e quarenta, praticamente não havia médicos no interior do estado. Cresci dentro de uma farmácia, assistindo meu pai, farmacêutico, ser forçado a substituir o médico, figura praticamente inacessível às pessoas mais humildes. E as via deixar a farmácia com sacolinhas de medicamentos doados pelo inesquecível “Seu Tatão da Farmácia”, meu amado pai. Naquela época aprendi a fazer curativos e a pedalar uma bicicleta para aplicar injeções nos pacientes acamados da periferia da minha querida cidade de Caratinga. Foi o início do sonho de vir a ser médico. Depois de formado, fiz minha residência médica em ortopedia no Hospital Regional de Sobradinho (1970-1972) e um estágio de atualização na “Clínica de Ortopedia, Traumatologia e Tratamento da Escoliose” da Universidade de Roma (1972-1973). Recebi meu título de especialista da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia em maio de 1975. Fui chefe do serviço de ortopedia e traumatologia do Hospital Nossa Senhora Auxiliadora, em Caratinga (1975-1988), ortopedista do Hospital Geral de Duque de Caxias, RJ (1991-2008) e ortopedista do Hospital Albert Sabin, em Juiz de Fora, MG (1992-2009), do qual sou sócio fundador. Esse hospital foi inaugurado pelo próprio Professor Sabin, cerca de seis meses antes de morrer. Em 1972, ainda residente no Hospital de Sobradinho, eu fazia a correção cirúrgica de uma fratura diafisária de fêmur com uma haste de Küntscher quando houve falta de energia no hospital. Eu já havia iniciado a conduta e não pude realizar as radiografias de controle que comprovariam o correto posicionamento da haste no canal medular. Mas como houve a “fixação da fratura” (que mais tarde se mostraria enganosa), dei por encerrado o procedimento. Horas depois, com a energia já restabelecida no hospital, as imagens evidenciavam que a haste estava posicionada fora do canal do fêmur. Relatei minha falha ao realizar a cirurgia ao paciente, assim que ele se “recuperou da anestesia”, comunicando-lhe a necessidade de se corrigir o erro. Ele poderia escolher outro cirurgião ou até mesmo outro hospital para a realização da nova cirurgia. Mas o paciente, com a maior serenidade, 97


solicitou que eu mesmo corrigisse a falha que lhe havia relatado. Eu o “reoperei”, reconhecendo então que este fora um momento marcante e absolutamente útil para a minha formação e vida profissional. Esse caso me impressionou bastante e creio que essa foi a maior lição recebida no meu processo de formação, pois responsabilidade e humildade são as maiores virtudes que devemos procurar ter em nossa vida profissional. Durante treze anos de atividade no Hospital Nossa Senhora Auxiliadora, em Caratinga, adotei como rotina começar o dia de trabalho em visita ao berçário. Dessa forma passei a diagnosticar e a tratar pacientes portadores de pés tortos congênitos e de luxações congênitas de quadril. E após meses de manipulação de pés tortos e aplicação de gessos repetitivos, eu finalmente os via caminhar, com adequada postura corpórea e/ou suficiente apoio plantar. Isso representava para mim uma emoção e uma benção, divididas com seus pais, ver as crianças correrem. E correrem para uma vida de lutas, em igualdade de condições físicas. Essa foi a minha melhor realização profissional. Ter sido aluno da Primeira Turma de Medicina da UnB tem muitos significados. Havia o nosso sonho pessoal de sermos médicos ainda a ser realizado e o sonho de mestres da medicina de criar uma escola com novos métodos de ensino e de aplicação mais humana do saber e da assistência médica. Havia a realidade de um país em transformação social, onde centenas de professores, mestres e doutores, tinham sido banidos, e havia a nossa realidade próxima – sangue, suor e lágrimas de colegas desaparecidos e/ou mortos durante o golpe militar. Mas havia também nossa determinação de participar, a qualquer custo, da criação e implantação da “Faculdade de Ciências da Saúde” da Universidade de Brasília!

Kleber

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Nasci na primeira metade do século passado no povoado de São José do Barreiro, distrito de São Roque de Minas, MG, e fui registrado em Passos, na rua das Candeias. Sou o quarto filho de uma prole de cinco. São José do Barreiro está próximo à cachoeira de Casca d’Anta, considerada pelo naturalista francês Saint-Hilaire “como um dos mais belos monumentos naturais brasileiros.” A Colônia Agrícola Nacional de Goiás, CANG, hoje Ceres, foi criada em 1941 por Getúlio Vargas durante a política de expansão econômica que ficou conhecida como “Marcha para o Oeste”. O Engenheiro Agrônomo Bernardo Sayão foi o seu primeiro administrador. Dinâmico e entusiasta atraiu uma forte migração, principalmente pelas “notícias de solo fértil e de apoio do Governo”. 1944, fim da guerra. Motivados por estes acontecimentos e ouvindo o “canto da sereia”, as famílias Schettini, Pereira e Bernardes resolveram embarcar nesta aventura e três meses depois, usando os meios de transportes disponíveis, chegaram finalmente ao sonhado “eldorado”. Lá passei a minha infância e parte da adolescência, fiz o curso primário e o ginasial. Como os nossos recursos eram minguados, comecei a trabalhar muito cedo e nesse período fui leiteiro, padeiro e verdureiro ambulante, além de caixeiro de loja de secos e molhados. Em 1960 nos transferimos para Anápolis onde fiz o curso científico e me preparei para os vestibulares. Nesta ocasião criei e trabalhei em uma lanchonete chamada “Biolanches”, que funcionava durante as vinte e quatro horas do dia. Fui aprovado nos vestibulares de Filosofia, Economia e Direito. Em l964 vim para Brasília, passei no vestibular da UnB e iniciei o curso de Direito. Com a criação do curso de Medicina em l965, me foi dada a oportunidade de ter meu vestibular reavaliado – na ocasião, vestibular único – e a minha prova foi considerada suficiente para o curso de Medicina. Durante a minha permanência na Universidade fui inicialmente monitor de Física no Centro Integrado de Ensino Médio (CIEM), monitor de Genética no Departamento de Biologia da UnB e professor de Biologia da Fundação Educacional do Distrito Federal (FEDF), lotado no Colégio do Gama, no período noturno. Nesta ocasião morava com outros vinte estudantes, de diversos cursos, 99


em um apartamento de dois quartos na SQN 407 e estudava na Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho (UISS), nosso hospital escola. No último ano, dediquei-me, orientado pelo professor Gilvan Dutra, à Radiologia, fazendo o primeiro semestre no hospital de Sobradinho e o segundo no Hospital de Base. Formei-me no dia 12 de dezembro de 1970 e no dia 16 de janeiro de 1971 casei-me com a colega de turma Lycia Maria Gomes e Souza. Fomos em seguida para Strasbourg (França) onde ficamos até o final de 1972. Lá fui acolhido como Resident Etranger des Hospices Civils da Université Louis Pasteur. Em 1973, de volta a Brasília, fui contratado pela Universidade de Brasília como Professor A-1 da Faculdade de Medicina, em tempo integral. Pedi desligamento da UnB e fui admitido no Hospital das Forças Armadas (HFA), em tempo parcial, como médico radiologista, onde trabalhavam os Drs. Gilvan Juvenal Dutra, Wilson Eliseu Sesana, João Luiz Fernandes e meu colega de turma, Sebastião Aparecido Alves. Ainda em 1973 fui admitido na Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF). Em 1975, com os colegas Welington Wanderley Sesana e Sebastião Aparecido Alves, criamos uma clínica de radiologia em Taguatinga, o Centro de Radiologia Taguatinga – CERTA. O Dr. Welington Sesana se desligou do grupo e transferimos a clínica para o Hospital Anchieta, também em Taguatinga. Com a morte do Dr. Sebastião assumiram as suas filhas médicas que permaneceram na sociedade por pouco tempo. As circunstâncias políticas da década de 60, a criação tempestuosa do curso de medicina e a arregimentação de um grupo bastante heterogêneo de estudantes que, a todo custo lutava para se impor, propiciaram a esta turma a formação de uma personalidade coletiva impoluta da qual me orgulho de pertencer.

Levy

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Eu vi Brasília pela primeira vez no final de 1964, ano do golpe que implantou a ditadura militar por 20 anos. Passei no vestibular para medicina na UnB e logo tive a intuição de que tinha vindo para ficar. Tudo era começo: Brasília era um canteiro de obras, quadras inteiras em construção; a UnB idem, o minhocão era fantástico; os espaços enormes. Os professores tinham elevado reconhecimento científico. Tudo aquilo me encantava, nós respirávamos curiosidade e desejo de saber. Contudo, não demorou e a mão pesada da ditadura demitiu todos os professores. E agora, o que fazer? A UnB seria reaberta? Quando? Ninguém sabia. Frustração. Desorientação. Alguns meses se passaram até que as aulas fossem retomadas. Nós da medicina tivemos a sorte de contar com um diretor competente e dinâmico, Luís Carlos Lobo. O curso havia sido concebido de forma moderna e estimulante, semelhante ao da Johns Hopkins University dos EUA. Entre os alunos havia amizade, solidariedade e união com os colegas dos outros cursos. Entretanto, os tempos eram de instabilidade política, com muitas greves, colegas presos e invasões da polícia no campus. Assim, também havia a desconfiança de ter informantes em nosso meio, os chamados “dedos-duros”. Participei da luta contra a ditadura como militante da Ação Popular, a AP. Acreditávamos na construção de uma sociedade mais justa e democrática. O medo de ser preso e torturado era constante. Quando a AP fez a opção pela luta armada, saí da organização, mas continuei a minha participação de forma independente. Nosso país passa atualmente por mais um momento difícil, mas acho inaceitável pensar que a solução está no retorno da ditadura. Será que não aprendemos nada com a experiência? Além de toda essa atividade política, eu lecionava no Colégio Elefante Branco. Como atleta amador participei dos Jogos Olímpicos da UnB e dos Jogos Universitários Brasileiros. Foram seis anos de muito esforço e fortes emoções. Concluímos o curso em dezembro de 1970, casei-me no ano seguinte e agora sonho com as bodas de ouro. Tenho quatro filhos e seis netos: uma construção de muito amor. O Hospital de Sobradinho foi a realização de um sonho, superando incertezas e angústias. Era uma proposta ousada, de formar médicos preocupados com a realidade da comunidade e atentos 101


aos problemas sociais e suas repercussões na saúde física e emocional. Lá tivemos professores de alto nível, que acreditavam nos ideais defendidos com entusiasmo pelo diretor de nossa faculdade. Nós éramos pioneiros em Brasília, na UnB e no Hospital, um momento único que ficará marcado na história dos formandos de 1970. Aliás, nossa turma era especial, a começar pelas diferenças de idade, de 17 até mais de 50 anos; os colegas vinham de várias partes do país e nossa rica convivência era marcada por grande diversidade cultural e ideológica. Continuei meu percurso profissional na residência em Psiquiatria, trabalhei em hospital psiquiátrico e fui aprovado no concurso do Hospital Presidente Médici, atual Hospital Universitário. Lecionei no CEUB e depois retornei à Faculdade de Medicina da UnB, como professor. Enveredei para a psicanálise: fiz formação na Sociedade de Psicanálise de Brasília onde leciono até hoje. Sigo atendendo em meu consultório, com curiosidade e entusiasmo. Assim, contínuo estudante, aprendo com meus pacientes e alunos. Sinto que minha vida é interessante e rica, principalmente do ponto de vista afetivo e intelectual. Gracias a la vida que me ha dado tanto.

Luciano

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O Cinquentenário de Formatura da 1ª Turma de Medicina da Universidade de Brasília: 1970 - 2020


L C C

Nasci em Caxias, MA, em 1o de setembro de 1944 e fiz meus estudos básicos em São Luís do Maranhão, cursando o ginásio no Liceu Maranhense e o curso científico no colégio Elefante Branco em Brasília, sendo egresso da 1ª turma do curso científico deste colégio. Após a formatura em medicina no ano de 1970, ingressei no curso de mestrado em Engenharia Biomédica na Coordenação dos Programas de Pós Graduação em Engenharia – COPPE (atualmente Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ), obtendo o título de Mestre em Engenharia Biomédica (MsC). Defendi minha dissertação de mestrado sob o título: “Eletroanestesia: Estudo Crítico, Projeto de um Gerador e sua Aplicação”. Assumi o cargo de professor assistente do Departamento de Fisiologia e Patologia da Universidade Federal da Paraíba – UFPB em 1974, via concurso público, ensinando Fisiologia para diversos cursos da área de saúde. Na UFPB fui um dos responsáveis pela criação do curso de pós-graduação em Engenharia Biomédica, no qual lecionava a disciplina “Instrumentação Biomédica”. Em 1981 iniciei o meu curso de doutoramento em engenharia biomédica na University of Saskatchewan, Canadá. Defendi minha tese de doutorado em 1985 sob o título: The Use of ECG Body Surface Mapping in the Early Stages of Myocardial Infarction, obtendo o título de Doutor em Engenharia Biomédica (PhD). Orientei inúmeros trabalhos de iniciação científica e de conclusão de curso. Durante o período em que fui professor do curso de Mestrado em Engenharia Biomédica da UFPB orientei dezoito dissertações de mestrado e duas de doutorado. Publiquei mais de 100 trabalhos entre comunicações, resumos, trabalhos completos em congressos e artigos em revistas especializadas. Participei de numerosas bancas de concursos de professores, bancas de defesa de mestrado e de doutorado. Publiquei o livro “Instrumentação Médico-Hospitalar” (Barueri, São Paulo: Manole, 2008). Aposentado da UFPB passei a lecionar fisiologia no Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ. Ali, continuei ensinando na graduação e orientando trabalhos em nível de graduação e de pós-graduação, continuando também como Professor Voluntário na UFPB, onde mantive por longo período o meu laboratório de pesquisa. 103


Entre prêmios e títulos destaco: primeiro lugar entre trabalhos do X ENIC – Área de Engenharia, UFPB/CNPQ; prêmio de melhor trabalho do I Congresso Norte-Nordeste de Fisioterapia, Sociedade Brasileira de Fisioterapia; Título de Pioneiro na Área de Engenharia Biomédica no Brasil, concedido pela Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica – SBEB (primeiro médico com título de pós-graduação em Engenharia Biomédica no Brasil); homenagem recebida no XXVI Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica (XXVI CBEB, 2018) pela minha contribuição na Área de Engenharia Biomédica no Brasil. Fui também Professor Visitante convidado do The Muroran Institute of Technology, Muroran, Hokkaido, Japão, durante um período de dois meses, iniciando em Janeiro de 2002; Coordenador de Tutoria da Região Nordeste no curso de capacitação à distância, Gerenciamento da Manutenção de Equipamentos Médico-Hospitalares (GEMA), promovido pelo Ministério da Saúde em 2002; Presidente do III Congresso Latino-Americano de Engenharia Biomédica (III CLAEB), realizado em conjunto com o XIX Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica, setembro de 2004, realizado em João Pessoa – PB. Participar da primeira turma de medicina da Faculdade de Ciências da Saúde da UNB foi muito marcante na minha vida. Conhecer e conviver com colegas excepcionais, de diferentes partes do Brasil, e ter o privilégio de ter sido ensinado por mestres da qualidade de Eduardo Osvaldo Cruz, Luiz Carlos Lobo, Marcos Luis dos Mares Guia, Paulo Tavares, Antero Colho Neto, entre outros, é algo difícil de descrever, qualificar e expressar em um mero texto como esse.

Luis Carlos

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L H B

Fiz residência em cirurgia geral no Hospital Maia Filho em Porto Alegre e a partir de 1973 trabalhei em São Domingos do Sul, distrito de Casca, RS, distante 250 km de Porto Alegre. Em 1975 ingressei na Secretaria Estadual da Saúde como médico-chefe em Casca, para onde me mudei em 1976. Fui admitido em clínica e cirurgia por concurso público para o INAMPS em 1980 e passei a residir em Taquari, RS em 1982. Retornei para Porto Alegre em 1985, onde aposentei-me e continuo morando. Cheguei a Brasília de noite, vindo do sul, após inumeráveis curvas, que me fizeram pensar que o motorista do ônibus errara o caminho. A uns 10 km, num alto, há uma curva, que mais tarde chamaria de “Alá” (de “alá Brasília!”), da qual vislumbra-se, finalmente, em toda extensão, a grande cidade branca. Iria realizar meu sonho, talvez destino, pois visitara a cidade 2 anos antes, em excursão e tive certeza que iria voltar lá. Não sabia porque, pois ainda não havia decidido o que iria ser. Já havia tido uma outra premonição em Porto Alegre: adolescente, havia passado ao lado de uma parede alta com o brasão da república e soube que ali seria o Hospital de Clínicas de Porto Alegre e também tive certeza que iria voltar lá. Com o dinheiro costurado pela minha mãe no forro do paletó, fiquei espantado com o tamanho da Rodoviária onde desembarquei, que me pareceu maior do que a cidade de onde saíra. Numa experiência sobre doença de Chagas, no Minhocão, tivemos que observar parasitas no sangue obtido cortando a cauda de ratos. Fomos divididos em grupos e havia ratos em duas caixas, uma com os infectados e outra de controle. Um dos colegas que pegou grupo de controle observou que o sangue tinha Tripanosoma! Foi um pavor: mesmo estando todos protegidos com luvas, corremos para fora da sala, assustados. Alguns disseram que chegaram a tomar outro banho! No Hospital de Sobradinho, recordo algumas noites de muitas risadas no dormitório quando se juntava a turma com a qual eu tinha mais afinidade. Lembro-me do Montandon, do Raja Gabaglia e do Humberto, acho que havia mais uns dois ou três. No final do estágio em Sobradinho fui à Secretaria, onde num quadro de avisos dos aniversariantes do mês de junho, descobri que quase todos esses aniversariavam junto comigo. Signo? 105


No sexto ano decidi me voluntariar para as Forças Armadas. Já me via, orgulhoso, ostentando a farda verde-oliva como meu pai, mas passados alguns meses, comecei a pensar em como era inexperiente e incompleto. Senti que teria que me aperfeiçoar e fazer residência, só que o ano já estava terminando e não havia me inscrito em nenhuma. Quis o destino que fosse almoçar com o Arnon (de Santa Catarina), que me indagou se estava fazendo residência. Ante minha negativa, disse que sabia de uma última residência que ainda admitia inscrição, em Porto Alegre. Sugeriu que me inscrevesse, mas teria que correr, pois era o último dia para tal. As pressas fui ao Correio, enviei um telegrama com a minha solicitação e dias após veio a confirmação. Foi assim que voltei a Porto Alegre e fiz residência em cirurgia geral no Hospital Maia Filho, que hoje não existe mais. Além de cirurgia abdominal, havia torácica e neurocirurgia, onde aprendi também a fazer anestesia geral. Que eu saiba, fui o único da nossa turma a vir para o sul, não sei se alguém mais veio de São Paulo para baixo. Certo dia, passando pelas enfermarias, avistei um paciente com sinais que nos eram muito familiares: fui até o posto de enfermagem e perguntei aos colegas como estava sendo tratado o paciente com malária. Me olharam espantados e fui considerado gênio, pois ele estava sem diagnóstico há semanas. A doença de Chagas é mais comum aqui no Rio Grande do Sul. Em 1973 fui trabalhar numa vila do interior do estado, São Domingos do Sul, distrito do município de Casca na serra gaúcha, sozinho num hospital com 20 leitos. Fiz muitas cirurgias com anestesia geral, auxiliado por freiras, o respirador era um Takaoka e graças à experiência da residência, eu controlava a oxigenação pela coloração do sangue arterial. Em 1975 entrei para a Secretaria da Saúde estadual, onde fui médico-chefe por seis anos. Após quatro anos na vila, mudei-me para a sede do município, Casca, no qual trabalhei por outros quatro anos junto a dois colegas. Em 1980 ingressei no antigo INAMPS, hoje Ministério da Saúde. Em 1982, mudança para a cidade de Taquari e de lá para Porto Alegre onde me encontro ainda agora. Ah! Meu destino no Hospital de Clínicas? Fui operado nele. Cirurgia eletiva. Espero que tenha sido cumprido e nunca mais tenha que voltar lá...

Biondi

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L M G S P

Relato aqui minha experiência relativa ao curso de Ciências Médicas da Faculdade de Ciências da Saúde, como era chamado o nosso curso de medicina na Universidade de Brasília (UnB). Eu era egressa do Centro Integrado de Ensino Médio (CIEM) quando prestei o Vestibular para a UnB. Para o exame vestibular que dava acesso àquele curso, constava também de um grande número de testes psicotécnicos. Na faculdade propriamente dita, aprendíamos o conteúdo da matéria por sistemas. Assim, havia o sistema respiratório, o cardiovascular, o musculoesquelético, além dos estágios nas enfermarias de pediatria, ginecologia e obstetrícia, clínica médica e cirúrgica, laboratórios e patologia. Complementando o nosso aprendizado, fazíamos visitas domiciliares aos pacientes que seguíamos no ambulatório, anotando as particularidades de moradia, o acesso a meios higiênicos, relacionamento familiar, no intuito de pesquisar outros determinantes da doença. O nosso curso de medicina, neste formato, tinha a capacidade de nos manter todo o tempo aderidos a esses conteúdos. Uma experiência inesquecível! Após a Colação de Grau, o espaço que se abriu para mim foi uma viagem à Strasbourg (França), acompanhando o recém-marido em seu projeto de se aperfeiçoar em Radiologia. Mas as coisas não foram fáceis para mim. Tudo porque, ao me apresentar ao Monsieur le Professeur, o Chefe de Serviço onde eu iria estagiar, eu não possuía o documento de aceitação, no caso, a carta resposta, por ter viajado antes de recebê-la. Fui para Strasbourg mas não poderia ser reconhecida sem o comprovante de compromisso. Quem poderia me aceitar para estagiar em seu serviço? Por sorte, havia um chef de service em Anestesiologia que já havia admitido, há tempos, um estagiário brasileiro que havia tido um desempenho muito bem sucedido. Aprender a nova especialidade possibilitou minha permanência na Alsácia e me tornou uma anestesiologista. Ao cabo de dois anos, voltamos ao Brasil e eu, com o certificado de “Assistente Estrangeiro em Anestesiologia”, fui admitida por concurso no Hospital de Base do DF e, posteriormente, também 107


no Hospital do IPASE. Posteriormente fiz o curso de Medicina do Trabalho da Fiocruz e exerci esta especialidade no Instituto de Saúde do DF, onde instalei o Serviço Especializado em Saúde e Medicina do Trabalho (SESMT), para controle médico preventivo periódico dos funcionários. Nesta época, iniciei um trabalho de psicanálise pessoal como analista-didata que durou seis anos. Ali, no campo da saúde mental, encontrei o lugar definitivo de trabalho. A partir de então, busquei cumprir os requisitos necessários e me tornei psicanalista pela Sociedade de Brasília, filiada à SOBRAP, reconhecida pela Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Lycia

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M A  C P

Concluído o terceiro científico em Belo Horizonte, era chegado o momento de pegar o rumo do Distrito Federal, anunciei nos últimos dias de aula; logo um colega se manifestou, caído de amores pela Universidade de Brasília, mas não pela Medicina. Dei-lhe uma carona e ainda bem no começo da viagem ele me perguntou: você conhece Sobradinho? Respondi que mal conhecia Brasília, mas gostaria de saber a razão da pergunta e a resposta não só nada esclareceu, como trouxe aquela “senhora” nebulosidade ao ambiente: “– você vai ver!” Alguns dias depois, e com as provas já concluídas, nos encontramos por acaso na UnB, quando lhe perguntei se retornaria comigo. A resposta veio rápida e enfática: “– claro, claro, mas antes do retorno temos que ir a Sobradinho!” E encaramos os quase 25 quilômetros desde a UnB até Sobradinho, trilhando uma pista sem asfalto e estacionamos à sombra, num clube recém-inaugurado e reparem só: o meu colega também não conhecia aquela cidade satélite, mas sem qualquer dificuldade e inexplicavelmente, lá chegamos! E de súbito, três beldades em minguados trajes de banho se deslocavam em sentido contrário ao nosso. Uma delas, clicando seu relógio de pulso nervosamente, veio em minha direção e me disse: “– vim aqui hoje só para me encontrar com você e já estava indo embora por causa da sua demora!” Não nos conhecíamos e ela se portava como se estivesse se aproximando de algum amor antigo, com enormes possibilidades de reatamento. Mas exato essa beldade? E não teria ela sido o fulcro da resposta enigmática: “– você vai ver?” Na realidade, o primeiro vestibular para medicina da Universidade de Brasília fora a causa, a explicação possível e justificável do meu encontro com a mulher com quem me casaria e nos entenderíamos primorosamente por mais de quarenta anos, período em que fomos brindados com a chegada dos nossos quatro lindos pirralhos: Humberto, Marcos, Fábio e Ricardo. Então, de repente, não mais que de repente, chegáramos ao incrível dia 12 de dezembro de 1970 e lá estávamos todos portando o sonhado diploma de médico, os formados na primeira turma de medicina da Universidade de Brasília. 109


Mas havia ainda algo mais a se providenciar: a residência médica, já imaginada com seu elenco de dificuldades, antecedera duas outras “surpresas” concomitantes e tão significativas quanto a própria residência médica. Minha aprovação em concurso para professor da UnB, logo depois da conclusão da residência médica e em seguida, minha indicação para assumir a direção do Hospital de Sobradinho! Essas “surpresas” praticamente somavam suas responsabilidades e ocorrências por terem tido seus inícios vivenciados em curtos espaços de tempo, cada uma delas, claro, tendo sua parcela de sobrecargas sempre sobrepujadas pela participação dos ensinamentos e posicionamentos pessoais do meu mestre Dr. Odílio Luiz da Silva e do querido e saudoso “mestrinho”, João Alves de Carvalho. Todas essas experiências fizeram com que minha trilha na UnB fosse deixando em minha vida profundas e indeléveis marcas, desde o vestibular de 1963, até minha aposentadoria no Hospital de Sobradinho (HRS) e no INSS. Eu não estaria sendo justo e honesto com a UnB caso não deixasse aqui registrado que com ela e por meio dela, tomei conhecimento e pude aprender, além do que aprendi na área de medicina, muito além do que jamais poderia imaginar! E cito como exemplo o que ouvi de um paciente num dado atendimento ambulatorial no HRS, em outubro de 1969: “ – procure melhorar demonstrando amor a Deus e a si próprio, em virtude do sofrimento que você vem suportando”. E só consegui entender a razão daquela manifestação em 11 de novembro do mesmo ano, ocasião em que meu pai, então portador de lesões tumorais em ambos os pulmões e internado na UTI, fora a óbito no exato momento em que eu realizava uma cirurgia no centro cirúrgico do mesmo hospital. A partir daí, passei a ostentar a estranha posição de ser o único sobrevivente da minha família que originalmente se compunha de pai, mãe e meus três irmãos. Demorei a perceber, mas percebi a presença da UnB ao longo da minha vida.

Marcos Antônio

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M V R

Nasci em Belo Horizonte, MG, e vim estudar em Brasília por sugestão de um amigo de meu pai, que a caminho da nova capital, almoçou em nossa casa. Ao saber que eu iria fazer o vestibular para medicina (eu não gostava de matemática...), sugeriu que o fizesse na UnB, universidade que “estava reinventando a educação superior do país”. O exame seria em alguns dias e as inscrições já estavam abertas. Impressionado pela conversa, e achando que seria uma garantia extra ao da UFMG, parti com mais dois colegas para a nova capital, em janeiro de 1965. Fiquei impressionado antes mesmo de chegar a ela: quem vem de Belo Horizonte avista Brasília a dezenas de quilômetros, uma grande mancha branca destacando-se entre o verde do cerrado e o azul do céu. O tio de um daqueles colegas era engenheiro da Novacap e ficamos em sua casa, na Vila Planalto. Espalhados pela cidade, prédios em construção dividiam espaço com acampamentos, ruas e viadutos surgiam no meio do nada, havia gente (e poeira) por toda a parte. Após as provas (que duraram quase uma semana), voltei para casa com uma decisão tomada: caso passasse, viria morar em Brasília e estudar em sua universidade. Pouco depois estava de volta, sozinho: com dezessete anos, havia me tornado o mais jovem estudante de medicina da UnB. Até serem interrompidas em novembro de 1965, as etapas previstas para o desenvolvimento do curso foram sendo cumpridas sem maiores percalços, embora o governo militar considerasse a UnB “um foco subversivo” a ser extirpado. A nomeação de Laerte Ramos de Carvalho como Reitor incendiou a Universidade e resultou na renúncia dos coordenadores dos institutos, no pedido de demissão em massa do seu corpo docente, na greve de solidariedade de seus alunos e no estado de hibernação do curso de Medicina. As aulas foram retomadas no primeiro semestre de 1966, depois do Prof. Edgard Barroso do Amaral, nosso primeiro Coordenador, ter sido substituído pelo Prof. Luiz Carlos Lobo. Enquanto aprendíamos antropologia, psicologia, estatística e matemática (meu antigo desgosto!), a nova coordenação – imprensada entre os alunos, que queriam começar a estudar medicina, e as forças policiais, 111


que os agrediam e humilhavam – conseguiu montar a grade curricular e equipou os laboratórios multidisciplinares que dariam suporte ao curso. A instalação oficial da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília se deu em 8 de agosto de 1966, com a ocupação de um pequeno número de salas no subsolo da Ala Sul do Instituto Central de Ciências (ICC), ainda em construção. E menos de dois anos depois, em janeiro de 1968, sua primeira turma inaugurava a Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho (UISS), um hospital recém construído cedido à UnB pela Secretaria de Saúde do GDF, sob a gestão do Dr. Pinheiro Rocha. Durante o curso dei aulas noturnas de Ciências Físicas e Biológicas, no Ginásio de Sobradinho. Formado, casei-me com a irmã de um colega de turma, o Ricardo: como eu, Clarinha também era egressa da UnB. Fiz minha Residência em Chicago, onde morei por cinco longos anos. De volta a Brasília, trabalhei no atual Hospital de Base, onde já tinha feito parte do meu internato. Na iniciativa privada, fui sócio do Centro Radiológico de Brasília por quase três décadas, uma referência nacional na formação de residentes e no diagnóstico por imagens. Trabalhei também em outros hospitais da nossa cidade e por diversas vezes voltei aos EUA para fazer cursos de especialização e/ou aperfeiçoamento. Membro Titular da Academia de Medicina de Brasília e seu atual Presidente, acumulei, como os demais colegas, títulos, prêmios e homenagens ao longo da minha vida profissional. Como eles, coloquei meu conhecimento e experiência a serviço dos meus pacientes e dos estudantes que ajudei a formar, que hoje se espalham por todo o Brasil. Com esses e aqueles, aprendi mais do que ensinei. Minha relação de amor com a Universidade de Brasília não terminou na noite de 12 de dezembro de 1970. Alguns anos antes de me aposentar fiz novo vestibular e mais uma vez voltei aos seus bancos, dessa vez como estudante de História. No campus fiz a nova graduação, o mestrado e parte inicial do meu doutorado (fiz o restante em Oxford), concluído em 2014. Continua ainda hoje com meus filhos, que também se graduaram na UnB e que juntamente com minha nora, pertencem ao seu corpo docente. O que representou para mim fazer parte do primeiro grupo de médicos formado pela UnB? Cinquenta anos depois do início daquela jornada, respondo como o poeta Thiago de Mello, ele mesmo um ex-estudante de medicina:

“O que passou não conta? Indagarão as bocas desprovidas. Não deixa de valer nunca. O que passou ensina Com sua garra e seu mel 112

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Por isso é que agora vou assim No meu caminho. Publicamente andando. Não, não tenho caminho novo. O que tenho de novo É o jeito de caminhar. Aprendi (o caminho me ensinou) A caminhar cantando Como convém a mim E aos que vão comigo. Pois já não vou mais sozinho.”

Tenho certeza que meus colegas concordarão com ele e comigo.

Marcus Vinicius

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M B G  A

Nasci em Limoeiro do Norte-CE, em 1942. Aos 4 anos fui morar no Rio Grande do Norte, onde fiz o primário no grupo escolar Almino Afonso. Voltei ao Ceará aos 11 anos, para fazer o Ginásio na escola normal rural de Limoeiro do Norte. Cursei o científico no Liceu do Ceará, em Fortaleza. Fiz o vestibular para medicina na Universidade Federal do Ceará e lá cursei os dois primeiros anos. Casei-me em 1964 e vim para Brasília e fui transferida para a Universidade de Brasília em 1965, onde fui integrada à Primeira Turma de Medicina da UNB. Fiz internato e residência em pediatria no Hospital de Base do Distrito Federal (197-1973), obtendo o de título de especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Com os interesses sempre voltados para as causas sociais, exerci minhas atividades profissionais no SESI da Ceilândia desde da inauguração da cidade, em 1973, por 18 anos. Trabalhei também na Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF), tanto na Ceilândia quanto no Guará II. No INAMPS, trabalhei no Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO) do Núcleo Bandeirante, no Gama e no Guará I. Nunca trabalhei em clínicas particulares. Estar na primeira turma de medicina da UNB foi importante, porque pudemos ver o crescimento da Universidade, a construção de novos prédios e o desenvolvimento dela como um todo, sempre abrindo caminho para novas turmas. Cada dia era uma expectativa de como seria o próximo bloco e como seria estruturada a nova matéria, pois era tudo novo ali, ainda não existia nada totalmente programado. Desde que vim para Brasília e para a UnB, visualizei uma oportunidade de crescimento na minha profissão. É muito importante nos sentirmos pioneiros e desbravadores de novos caminhos. Hoje estou aposentada, com uma família bem estruturada; tenho três filhos, dois dos quais nasceram durante o curso. Seis netos, uma formada em fisioterapia, 3 já cursando o ensino superior e uma dela seguindo meus passos, na medicina. Uma bisneta de um ano. Me senti muito realizada na minha profissão, trabalhando como gostava, sempre tentando ajudar o próximo e mostrando para eles que todos temos condição de crescer, se nos esforçarmos.

Maria Batista 114

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M L A  V

Nasci em Ribeirão Preto, SP, no dia 23 de novembro de 1943. Especializei-me em pediatria e posteriormente em medicina do trabalho. Trabalhei como médica pediatra na Secretaria de Saúde do Estado do Ceará no Centro de Reidratação de Fortaleza (1971-1974); na Caixa Beneficente dos Funcionários da Nova Capital- BENECAP (1974-1977); no Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social-INAMPS (1980-1993) e no Ministério da Saúde-Instituto Nacional de Alimentação, Nutrição e Coordenação Materno-Infantil (1993-1995). Tenho pós-graduação lato sensu em Medicina do Trabalho, Faculdade de Medicina de Itajubá – USC-CEDAS (1999-1999). Sobre ter sido aluna da Primeira Turma de Médicos da Universidade de Brasília, há coisas que não retrocedem, mas que nos recordam bons momentos ou horas difíceis: a pedra atirada, a palavra dita, a ocasião perdida, o tempo passado. Os companheiros de jornada que nos fortaleceram, orientaram ou partilharam as dificuldades, são os que ainda hoje nos emocionam e agora dividem conosco reminiscências e nostalgias. Alguns se foram, nós ainda continuamos mais um pouco. Cinquenta anos servindo ao próximo com nossa Ciência e nossa Arte, tal como falaram os nossos Mestres. Nossa Escola de Medicina da Universidade de Brasília. Saudades...

Maria Luiza

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M M M  O

Provavelmente tomei conhecimento de que poderia ser médico em 1950. Não sei exatamente os motivos que me levaram a essa conclusão, mas sei que sou proveniente de uma família de muitos médicos em Mato Grosso e talvez tenha sido esse um dos fatores mais importantes. Meu pai queria ser médico, mas suas condições financeiras à época não permitiram que ele fizesse o curso – seguiu a carreira militar. Mas havia também muitos fatores que me atrapalhavam. Em Cuiabá eu morava na casa da minha avó, que ficava em frente ao necrotério: nos fins de semana chegavam sempre corpos de vítimas de acidentes e eu detestava pensar neles. Isso me fez pensar em mudar minha decisão, até que a vida, na sua pujança total, e não a morte, definiu minha preferência. Faria o pré-médico e seguiria o curso de medicina pelo meu pai e assim o fiz. Todos os meus amigos de Cuiabá já tinham ido para Rio de Janeiro e São Paulo, ir para uma cidade grande mantinha em mim o vontade de vencer. Saí de Cuiabá e fui morar em São Paulo, numa casa em que não conhecia ninguém. Minha diversão era somente os estudos. Foram anos difíceis – as pressões eram grandes e eu me sacrificava ao máximo. Mas no final do ano fui fazer o vestibular, com gente que eu não conhecia e que falavam que sabiam muito mais do que eu. Naquela ocasião meu pai foi transferido do Mato Grosso para Brasília e eu fui até lá para saber como era o curso de medicina, que falavam ser inovador. Fui até a Reitoria e lá conversei com a Dona Arilda, que me deu ciência a respeito do curso que nem havia começado. Fiz o vestibular e confesso que não o achei difícil para o que eu havia estudado em São Paulo. O resultado não saiu logo e eu tive em seguida a oportunidade de me matricular no curso que havia escolhido no vestibular do Centro de Seleção de Candidatos às Escolas Médicas e Biológicas, o CESCEM (atual Fuvest), embora aquilo não me satisfizesse. Quando saiu o resultado em Brasília, tive pressa em me matricular para garantir o resultado. Era aluno do Dr. Barroso e tive uma enorme decepção com o curso, que inicialmente consistia em cultivar os descendentes de Drosophila melanogaster. Essa decepção são era só minha e um grupo da 116

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colegas agia por baixo dos panos para trocar o coordenador do curso. Um novo Coordenador foi escolhido, era o professor Luis Carlos Lobo. Embora tivesse muita bagagem em seu curriculum, era desconhecido para a turma. O curso começou a tomar outra configuração. As aulas passaram a ser ministradas no Instituto Central de Ciências, o ICC. Matérias como Psicologia Médica e Bioestatística foram ficando para trás, dando lugar a tópicos diretamente relacionados à medicina. Novos professores chegavam, entre eles os Drs. Otávio Della Serra, Odílio Silva, Fernando Santos, Bráulio Magalhães Castro, Paulo Carvalho, Paulo Barbosa, Antero Coelho Netto, Eraldo Pinto, Pablo Chacel, Manoel Rezende, Antonio Márcio Lisboa, João Batista Janine, Gilvan Dutra, João Luis Fernandes e tantos outros. Vieram também técnicos, como os Srs. Deolindo (Patologia) e João Camargo (Ortopedia). Já estávamos falando de um curso de medicina da alto quilate quando fomos para o um hospital onde poderíamos aplicar os conhecimento que nos foram ensinados. No hospital (UISS) tínhamos o Drs. Zairo Eira Garcia Vieira (“que guardava em seu nome uma poesia”) e Hélio Barbosa, com seus famosos cães de experimentos que lhe deram o codinome “mata canis”. O hospital tinha como Diretor o Dr. Haroldo Lobo e Secretária geral sua esposa, a Sra. Marisa Albuquerque. As turmas que se seguiram às nossas eram conhecidas como basófilos, numa alusão às células do sangue. O curso transcorria e em breve teria que escolher a especialização que seguiria. Eu queria uma especialidade que fosse cirúrgica, pois de onde vinha, o médico tinha que fazer tratamentos mais agressivos. Nos dois últimos anos da faculdade tive mais férias e ficava o tempo inteiro dentro do hospital, vendo tudo para melhor escolher. Lembro-me de duas especialidades que não conseguiria fazer – Ortopedia e Anatomia Patológica. Pois fui me interessar por Ortopedia e devo isso a um Mestre, que me transportou de uma especialidade de força para uma de movimentos. Escolhi a Ortopedia e estudei muito, inclusive com Chefes de outras áreas. Passei por locais diferentes que Sobradinho, fiz muitos amigos pelo Brasil afora, recebi convites para ficar em outros lugares, mas a vontade de voltar para Sobradinho sempre foi mais forte. Voltei para concluir o curso de especialização com dois outros colegas de turma, os Drs. Kleber e Marcos Antônio, que muito me ensinaram com sua experiência de vida. Em duas ocasiões tentamos montar um Hospital, mas os dificuldades financeiras era muito grandes e não conseguíamos decolar. Casei-me quando concluí minha residência médica e tive três filhos, Márcia Maria, Mário Márcio e Mara Lucia, joias que me enchem de felicidade. Minha história na Faculdade de Ciências da Saúde me proporcionou muitas alegrias, mas também me causa lágrimas, pois me recorda coisas que deixei passar e não aproveitei.

Mário Márcio 117


M G

Depois de formado, fiz residência médica em cirurgia geral no Hospital de Base (1971-1972) e a partir de 1973, após concurso público para a Fundação Hospitalar do Distrito Federal-FHDF (UTI e cirurgia geral), passei a trabalhar naquele hospital onde fiquei até 1992, quando me aposentei. Em 1974 fui aprovado, também em concurso, para o antigo Hospital do IPASE, hoje Hospital Universitário de Brasília (HUB), aposentando-me em 1990. Fui professor de cirurgia geral do curso de medicina da Universidade de Brasília e chefe desse serviço no Hospital Universitário (1985-1990), diretor do Hospital de Base (1990-1992) e trabalho na prática privada desde 1973, no Hospital Santa Lúcia. Continuo a praticar diversas atividades esportivas: judô, maratona, triatlo, enduro equestre e cavalgada. Tenho orgulho de ser da primeira turma do curso de medicina da Universidade de Brasília, de comemorar 50 anos de formado, de ser pioneiro no primeiro grupo de médicos formados em nossa cidade e de continuar atuando no mercado de trabalho da cidade até hoje.

Mauro

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O Cinquentenário de Formatura da 1ª Turma de Medicina da Universidade de Brasília: 1970 - 2020


M R  S L

Nasci em 28 de agosto de 1943, em Caxias, MA. Fiz residência em pediatria (1971-1972) e especializei-me em gastrenterologia pediátrica nos hospitais de Base do Distrito Federal (janeiro-agosto) e Alejandro Posadas, Buenos Aires, Argentina, serviço do Prof. Horácio Tocallino (setembro-dezembro) de 1973. Posteriormente fiz novo estágio no exterior, no Hospital Ramon y Cajal, Madrid, Espanha, serviço do Prof. Hector Escobar de Castro (1990). Trabalhei como médico da Unidade de Pediatria do Hospital de Base (1974- 2006), onde fui chefe dos residentes (1972) e do setor de gastrenterologia pediátrica (1974-2004). Presidente da Sociedade de Pediatria do Distrito Federal (2001-2002), do 10º Congresso Brasileiro de Gastrenterologia Pediátrica, realizado em Brasília em maio de 2001 e pioneiro da Gastrenterologia Pediátrica em Brasília e no Brasil, participei da formação de dezenas de gastrenterologistas pediátricos que atualmente exercem a especialidade em Brasília e outras cidades brasileiras. Durante minha vida profissional fiz diversas palestras sobre minha especialidade na Unidade de Pediatria do Hospital de Base, na Sociedade de Pediatria do DF, nas reuniões científicas do comitê de gastrenterologia da Sociedade Brasileira e nos Congressos Brasileiros de Pediatria. Tendo sido membro do conselho de gastrenterologia pediátrica da Sociedade Brasileira de Pediatria, sou sócio fundador da Sociedade Latino Americana de Gastrenterologia Pediátrica. Escrevi um capítulo sobre colite alérgica in “Gastrenterologia Pediátrica” (Jamal Webba, Francisco Penna e Fagundes Netto: Medsi, 1983) e outro sobre alergia alimentar in “Gastrenterologia Pediátrica de Nutrição” (Dorina Barbiere, 2005). Considero minhas melhores realizações profissionais a difusão da gastrenterologia pediátrica em Brasília (e no Brasil) e o pioneirismo no diagnóstico da “Intolerância Alimentar”, especificamente naquela relacionada à proteína do leite de vaca. O que mais me impressionava entre os pacientes era a resposta imediata a um diagnóstico feito corretamente.

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Ser aluno da Primeira Turma de Medicina da Universidade de Brasília me ensinou a ter como incentivo maior servir aos menos favorecidos. Foi uma honra sem precedentes participar daquele projeto inovador de ensino e ter vivido a epopeia da criação da Faculdade de Medicina da UnB.

Máiron

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P M N

Nasci no Rio de Janeiro e fiz o curso primário (Escola México) e ginasial (Colégio Militar) na mesma cidade. Cursei o científico em Brasília, no colégio Elefante Branco. Depois de formado fiz estágio de atualização em clínica médica em Curitiba, PR e na Universidade de Florença, na Itália. Fui aprovado em sete concursos públicos, tanto em Brasília quanto em São Paulo, e trabalhei como médico do Banco do Brasil e do Governo do Distrito Federal (GDF) até a aposentadoria, em 1995. Exerci também minhas atividades profissionais em seis cidades do litoral paulista. A primeira turma foi uma experiência sem precedentes e muito significativa, sem falar no estágio em Sobradinho, que acrescentou muito em nossa convivência. Foi uma turma em que fiz amigos que duraram a vida inteira, todos com destaque na profissão.

Paulo

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P R V  A

Nasci em 25 de fevereiro de 1942 na cidade de Ouro Fino, MG, na casa de meus avós maternos, filho de Paulo Vianna de Andrade e Dolores Barbosa de Andrade. Meus pais residiam em Belo Horizonte onde meu pai, que era piloto da FAB, servia no aeroporto da Pampulha. Morei em BH até os 4 anos. Minha mãe era extremamente cuidadosa e me levava mensalmente ao pediatra mas nem por isso, ao longo da infância, me livrei das doenças com as quais um pediatra poderia sonhar ou perder noites de sono – caxumba, catapora, sarampo, estomatite herpética e difteria. Além disso, eu não era um paciente com o qual um pediatra gostasse de lidar. Em 1946, meu pai se desligou da aeronáutica e viemos morar em Pouso Alegre, onde moravam meus avós paternos. Neste ano nasceu meu irmão Carlos Henrique, que também é médico e professor de Cardiologia. Morávamos numa chácara no centro da cidade, onde meu avô tinha uma fábrica de queijos. Tinha também um campinho de futebol, quadra de vôlei, carneiros, cavalos, cabritos, jabuticabeiras e um ribeirão que passava nos fundos e desembocava no Mandu, rio com uma variedade enorme de peixes. Lá era o paraíso que eu poderia almejar. Eu jogava futebol, nadava, andava a cavalos e pescava. Fiz o primário e iniciei o ginásio no Colégio São José de Pouso Alegre. No quarto ano fui para o Liceu Salesiano de Campinas, onde estudei interno e terminei o ginásio. Em 1958 fui estudar no Colégio Marista de Poços de Caldas e em 1959 voltei para Pouso Alegre e terminei o colegial. Neste ano nasceu meu outro irmão, Mauro. Em 1960 fui para Belo Horizonte fazer o cursinho para o vestibular de Engenharia. Sim, ia fazer Engenharia, não por vocação, mas porque tinha tios engenheiros de muito sucesso na profissão. Na verdade, o que eu gostava mesmo era de tomar cerveja e jogar futebol. Eu estava naquela fase de não saber o que fazer – onde pintar vestibular, você vai. Até que um dia, um primo que estudava comigo e ia fazer vestibular para Arquitetura falou que em Brasília estava abrindo uma universidade. Fomos pra lá em fins de 1962. Fiz inscrição para Economia. Não havia ainda cursos de Engenharia e Medicina. Cursei Economia até meados de 1964. Quando abriram os novos cursos tive créditos para ingressar na Engenharia 122

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ou Medicina. Cheguei a preencher uma ficha de inscrição para Engenharia, mas tive um estalo: por que fazer Engenharia se eu era péssimo em matemática? Rasguei a folha e preenchi a de Medicina. Foi a coisa mais acertada que eu poderia fazer na vida. Quando estávamos no quarto ano fomos para o hospital de Sobradinho, onde passamos a ter aulas práticas. Tive a oportunidade de acompanhar um menino de dois anos que tinha tido encefalite pós sarampo. Estava cego, surdo-mudo e inerte, praticamente um vegetal. Passei a acompanhá-lo diariamente e pouco a pouco ele foi recuperando suas funções. Usava somente Prednisona como medicamento. Ao cabo de dois meses estava totalmente recuperado. Depois, com o exemplo de professores, como o Dr. Krause e Dr. Lisboa (para lembrar de alguns), passei a me interessar pela especialidade. Fiz um ano de internato em pediatria no hospital L2 Sul, de Brasília. Depois de formado, fui convocado para o serviço militar na Marinha, onde exerci o cargo de pediatra por treze meses. Em 1972, casado e com uma filha, vim para Ouro Fino trabalhar como o primeiro pediatra da cidade. Na época, a mortalidade infantil era alta. Havia muita desnutrição e doenças que hoje são raras. Trabalhei muito, perdi muitas horas de sono, tudo isso contando com a valiosa paciência da minha mulher, Nádia, que só as mulheres de médicos sabem ter. Mas o sacrifício foi válido. Tive muitos casos graves, seria difícil enumerar qual o mais sério, mas valeu a pena. A pediatria do hospital tem o meu nome. A prefeitura também me homenageou com uma nova sala de vacinação. Sou membro da Sociedade Brasileira de Pediatria e tenho o título de especialista. Trabalhei como pediatra no Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (IPSEMG) durante 30 anos, onde me aposentei. Trabalhei duro para ter uma vida digna, mas nunca coloquei o dinheiro como meu interesse primário e sempre procurei olhar o lado dos outros em primeiro lugar. Tenho 4 filhos, Ana Beatriz, Ana Cecilia, Gustavo e Eduardo e 5 netos, que ajudam a me distrair das agruras da idade. Tenho orgulho de pertencer à primeira turma de Medicina da UnB. Continuo trabalhando e tendo sempre como inspiração o exemplo de abnegação e idealismo de nossos professores, que abandonaram suas cidades de origem e suas clinicas particulares para se dedicarem de corpo e alma à formação da primeira turma de médicos de Brasília. Eles nos transmitiram, além dos conhecimentos científicos, valores humanos fundamentais que dignificam a profissão do médico.

Paulo Roberto

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Nasci no dia 15 de novembro de 1942. Fiz meu internato no atual Hospital de Base do Distrito Federal e residência médica no Departamento de Otorrinolaringologia do Hospital Italiano de Buenos Aires, Argentina, no serviço do Prof. Juan Manoel Tato (1971-1972). Fui médico otorrinolaringologista da Associação Pavoniana, no Centro de Audição e Linguagem Ludovico Pavoni de Diagnóstico e Tratamento da Surdez Infantil (1973-1985), serviço pioneiro em Brasília e sobre o qual publiquei trabalhos na Revista Brasileira de Otorrinolaringologia. Sou médico aposentado do Senado Federal e do Ministério da Saúde, mas ainda exerço minha atividade profissional em consultório particular, no Centro Médico de Brasília, onde estou desde 1976. A primeira Faculdade de Medicina do Distrito Federal foi implantada em 1965, depois de muita luta por um grupo de obstinados. Nós, da primeira turma, fomos privilegiados, pois após o terceiro ano, ocupamos o Hospital de Sobradinho (só pra nós) onde desenvolvemos todas as atividades clinico-cirúrgicas em primeira mão, o que nos enche de orgulho e que jamais esqueceremos. Sinto muita falta dos colegas que nos deixaram e que não poderão participar da comemoração dos 50 anos.

Roberto

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S A  A

Após minha formatura, fiz pós-graduação em endocrinologia no Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (1972), mas não prossegui com minha carreira médica. Em 1978 fui aprovada em concurso público para fiscal de rendas da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro e em 1984 graduei-me em Administração Pública pela Faculdade de Economia e Finanças do Rio de Janeiro. Aposentei-me como fiscal de rendas, na chefia da Divisão de Consultas da Coordenadoria de Consultas e Estudos Tributários, em 2005. Eu já havia sido aprovada no vestibular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia, mas meu pai convenceu-me a fazer também o vestibular da UnB. Ele achava que, estando na Capital do Brasil, as oportunidades no futuro seriam muito melhores. Aprovada também no novo vestibular, comecei os estudos em 1965. Era uma universidade nova, com um curso de medicina em implantação. Estávamos em Brasília, a novíssima capital do país, construída no até então esquecido coração do Brasil, mas que constituía a esperança e o ideal de uma nova nação. E no âmago dela a UnB, com a meta de lançar as sementes do conhecimento e desenvolvimento no Planalto Central. Corpo docente recém-contratado, competente e corajoso, mas enfrentado uma série de dificuldades numa nova universidade, com uma faculdade dando seus primeiros passos. Sem muita atenção a isso, seguimos nossa rotina simples de estudar, aprender, passar de ano. Veio a construção do Minhocão e fomos um dos primeiros ocupantes de suas salas e laboratórios!!! Em 1968, tivemos a inauguração do Hospital de Sobradinho, nosso hospital escola. Para lá nos “mudamos” e tivemos nossos primeiros contatos com os pacientes. Ficávamos no hospital em horário integral, e começamos nossos plantões médicos e atendimentos ambulatoriais. Fazíamos visitas à comunidade local, pois a ideia era de termos um contato mais próximo com os pacientes. Casei-me em julho de 1969, mas continuei firme nos estudos e trabalho, contando sempre com o apoio de meu marido. No último ano de faculdade, em 1970, pudemos escolher entre fazer 125


nosso internato no Hospital de Sobradinho ou no então denominado 1º Hospital Distrital de Brasília, hoje Hospital de Base do Distrito Federal. Foi nesse que fiz meu internato na Pediatria. Foram seis anos de uma experiência única, com muita dedicação, muito estudo, mas também de muita emoção e companheirismo! Em 12 de dezembro de 1970 tivemos nossa colação de grau! A coroação do esforço e dedicação daqueles 77 jovens!!!

Sandra

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S P  A

Casei-me duas vezes. Tenho dois filhos do primeiro casamento, Larissa e Sebastião Júnior, os quais me deram 5 netos: Diego, Felipe, Maria Luiza, Camila e Ângela. Do segundo casamento, tenho 2 filhos: Karen de dezessete anos e Danilo de dez. Filhos e netos com mais ou menos a mesma idade se misturam numa “gangue”. Minha atividade profissional é modesta: fui médico da Força Aérea Brasileira (sou 2º tenente da reserva da FAB com muito orgulho) e sou radiologista pelo Colégio Brasileiro de Radiologia. Com a evolução da área de imagem, esse título deveria ter sido renovado, mas nunca o fiz. A partir de 1986, iniciei-me na área de ultrassom após cursos pontuais realizados em São Paulo, mas com dedicação mais exclusiva, somente a partir do ano 2000. Desde então exerci essa atividade na cidade de Londrina e em sua região metropolitana, com alguns intervalos. Em 2000 retornei à minha cidade natal para tratar de assuntos de herança, onde foquei até a 2004. Lá trabalhei na minha especialidade. De 2005 a 2012 trabalhei na Atenção Básica de Saúde, o chamado “médico de família”, na cidade de Jataizinho, nas proximidades de Londrina. A partir de então vinha atuando em US com maior exclusividade em cidades dessa região e encerrei minhas atividades em 05 de maio de 2020 no Hospital da Santa Casa em Cambé e não Cambridge, como insiste em sugerir o corretor automático. Em tempo: sou formado em odontologia pela antiga Faculdade de Odontologia da UFMG. Lá deixei muitos amigos que nunca mais vi e dos quais tenho imensas saudades. Gosto de musica. Bach, Beethoven, Mozart, Chopin, Brahms e outros. Mas acho que o ápice é Bach. Se os anjos tocam, devem tocar a música de Bach. MPB: Dominguinhos, Paralamas e outros. Sertanejo: Almir Sater e outros. Poesia: Afonso de Guimarães (Ismália), Paul Verlaine (Folhas de Outono). TV: Me divirto com vídeos antigos dos saudosos Chico Anysio e Rogério Cardoso. Poeta frustrado, com obra limitada a um singelo poeminha escrito há uns 20 anos que não ouso enviar. É isso. Não sou intelectual. Grande parte do meu tempo gastei com livros técnicos. Quanto à medicina, faria tudo de novo, mas penso que o ensino de saúde em geral deveria dar maior enfoque ao 127


ensino em políticas públicas de saúde. Penso, sem intensão de polemizar, que países com medicina mais atrasada estão se dando melhor com a pandemia da Covid 19, talvez por conta disso. No mais considero que fui um médico razoável, poeta medíocre e um colega e amigo não tão bom. Me perdoem, mas que estou danado de entusiasmado em contatar o grupo e com a viva esperança de reencontra-los, isso estou. Fazer parte dessa Primeira Turma foi uma experiência única e inesquecível. Todos nós, em maior ou menor grau, direção, professores, alunos e funcionários irmanados na construção de uma escola de Medicina a partir do zero. Tivemos que atolar o pé no barro, literalmente. Pediram e está aí todo esse palavrório. Mineiro da minha região é assim: você dá corda e ele desata a falar. Um grande abraço a todos.

Sebastião

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Nasci em Aguanil, distrito de Campo Belo, MG, em 25 de janeiro de 1944, filho de uma família de 8 irmãos. Lá morei até os 8 anos, quando me mudei para Campo Belo, onde vivi e estudei até os 18 anos em escolas públicas e no Colégio Dom Cabral de Padres Holandeses da Ordem dos Crúzios. Terminei o colegial no Colégio Arnaldo de Padres Alemães continuando os estudos de línguas, Inglês, Frances e Alemão. Em 1965 fui para Brasília, aprovado no vestibular de Medicina da UnB entre os 16 primeiros classificados. Durante todo o curso lecionei à noite em cursinhos pré-vestibulares, como professor de inglês e depois de biologia. Nesses cursos fiz inúmeras amizades, entre elas com a aluna Miyoko, que viria a ser minha esposa querida. Formado em medicina, optei pela cardiologia, fazendo minha especialização no Hospital Distrital, onde fui também chefe dos residentes. Mudei-me em seguida para Patos de Minas, onde eu e Miyoko constituímos família. Temos quatro filhos (dois são médicos, uma psicóloga e outra arquiteta e administradora) e sete netos. Em Patos fundei, juntamente com mais três colegas, o Hospital Vera Cruz, do qual fui Diretor por nove mandatos: este hospital conta hoje com medicina de alta complexidade, como CTI de adultos e neonatal, neurocirurgia e cirurgia cardíaca. Fui presidente da Associação Médica Regional e da Unimed local participei de inúmeros cursos e apresentei diversos trabalhos científicos em congressos da especialidade em São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Goiânia, entre outras capitais. Trabalho como cardiologista até hoje, colaborando com atendimento a aqueles que não tem condições financeiras através de entidades filantrópicas, como a Sociedade São Vicente de Paula. Entre minhas atividades paraprofissionais, fundei, também com amigos, o Lions Clube Giovanini e o Clube do Cavalo, onde crio cavalos da raça quarto-de-milha. Sou Cidadão Patense, título outorgado pela Câmara de Vereadores de Patos de Minas. Lembro-me que na adolescência, quando cuidava de minha avó, assistia às consultas e exames clínicos nela realizados por um dedicado colega, o Dr. Píndaro Massote, o que muito me impressionava. Conquanto tenha sido essa a experiência que mais me incentivou a ser médico, considero 129


como minha melhor realização profissional a criação da empresa Clínica Vera Cruz Ltda e a posterior construção do Hospital Vera Cruz, do qual fui Diretor Clínico e Administrativo por 8 mandatos. Ter sido aluno da Primeira Turma de Medicina da UnB significou para mim a maior realização pessoal, possibilitando uma grande realização profissional, dada a completa formação médico-científica adquirida naquela Universidade.

Vander

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W J  C

Nasci em Anápolis, GO, no dia 28 de outubro de 1945. Fiz residência médica em Terapia Intensiva no antigo Hospital Distrital de Brasília (1971-1972) e estágios em Medicina Desportiva na Escola Superior de Educação Física de Goiás (1980) e na Unidade de Cirurgia Cardiovascular do Hospital de Base do Distrito Federal (1984). Sou especialista em Cardiologia, certificado pelo Conselho Federal de Medicina. Entre minhas atividades profissionais, trabalhei como médico clínico e intensivista nos Hospital das Forças Armadas (1972-1996), como cardiologista do Ministério da Agricultura (1974) e fui chefe da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Regional da Asa Sul (HRAS), atual Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB) por um período de 12 anos. Participei de dezenas de cursos e congressos e fui palestrante sobre temas inerentes à minha especialidade em diversas mesas redondas e reuniões científicas. Acredito ter sido minha maior realização profissional o desenvolvimento do projeto de ambulância especial para UTI-Móvel, utilizando recursos próprios da instituição Fundação Hospitalar do Distrito Federal, com grandes adaptações e orientação tanto para adulto como para criança, em 1988. Sou também sócio fundador da Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva (1973). Como médico especialista em Terapia Intensiva e tendo atuado por muitos anos nessa área, tive a oportunidade de ajudar muitos pacientes em estado grave a se recuperarem. Mas sem dúvida alguma, o caso que mais me impactou em toda a minha trajetória foi o acidente do meu filho, André. Ele foi atropelado por um carro aos 9 anos de idade e sofreu traumatismo craniano, fratura de ossos da face e permaneceu em coma por mais de 10 dias. Mesmo com todo o envolvimento emocional, resolvi que seria eu o médico intensivista que assumiria o caso. Devido à gravidade e a ao mau prognóstico, por algumas vezes desacreditei na possibilidade de cura e ausência de sequelas. O tratamento foi longo e difícil, mas tivemos êxito na sua recuperação. O que mais me incentivou a ser médico foi minha predileção em estudar as ciências biológicas, em especial o corpo humano. Ter sido aluno da Primeira Turma de Medicina da UnB tem um significado muito grande para mim. É muito gratificante fazer parte da primeira geração de médicos 131


formada em Brasília. Não nascemos aqui e viemos todos de outros estados e cidades acreditando que seria um local ideal, cheio de oportunidades para se iniciar a vida profissional. Nos formamos e prestamos um serviço de excelência, na área da saúde, para a população dessa cidade ainda tão jovem. Crescemos juntos com Brasília e, sem dúvida alguma, ajudamos a escrever sua história.

Waldimar

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W W S

Filho de José Sesana e Arminda Marquesine Sesana, nasci em 16 de dezembro de 1939, em Barracão de Baunilha, na comarca de mesmo nome, município de Colatina, ES. Foi nessa pequena localidade que minha família se criou e onde iniciei meus estudos na escola primária. Concluí o antigo curso ginasial em Colatina e o científico no Rio de Janeiro, tendo cursado os dois primeiros anos ainda no Espírito Santo, no Colégio Estadual. Após algumas interrupções nos estudos – sobretudo devido a certas dificuldades inerentes à condição econômica – acabei vindo para Brasília onde, cerca de um ano e meio depois, prestei vestibular para a Universidade de Brasília (UnB). Foi o primeiro vestibular específico para o curso de medicina, em 1965. À época, contávamos com pessoas excepcionais: nossos professores, praticamente todos com pós-graduação, eram pessoas extremamente competentes. No núcleo universitário, os estudantes dos diversos cursos tinham a oportunidade de se relacionar entre si. Estávamos, porém, no início da ditadura militar e uma sucessão de problemas internos surgiram na universidade. Nossas atividades foram parcialmente suspensas, inicialmente com nuances de violência por conta da ação da polícia militar e posteriormente com violência declarada, extremamente explícita. Muitos professores deixaram a universidade e nosso curso sofreu com esses reveses, sem dúvida alguma. Mas tínhamos uma orientação precisa e tínhamos também aquilo que eu julgava ser preponderante na Universidade de Brasília: uma formação. Considero ter nascido de fato para a existência quando ingressei na UnB. Não só por causa do relacionamento entre os cursos e da possibilidade de troca de opiniões com os estudantes das outras áreas, mas sobretudo porque a universidade me permitiu (e acredito a todos nós da turma) desenvolver uma conscientização social extremamente importante. Entendi essa formação social mais ao fim do curso, no início do internato. Foi o incentivo da UnB que fez perceber a importância de exercer uma profissão voltada para o coletivo. Tivemos uma prática voltada para o humanismo, interessada pelas pessoas e respeitosa pelas suas necessidades. Não fosse a ditadura militar, as condições teriam sido ainda muito mais favoráveis. 133


Eu agradeço enormemente à Universidade por ter-me dado essa visão voltada para o social, como já me referi anteriormente. Sou egresso de estudos em seminário, com dificuldades de orientação na vida, na formação de opiniões, na materialização de desejos que fizessem as coisas melhores. Na UnB, adquiri um empenho formal, que nunca me abandonou, de que as coisas definitivamente podem ser melhores. Mas é preciso um coletivo nisso. A nossa turma teve esse coletivo. Tenho muito a dizer a respeito de minha formação na UnB, mas o tempo é escasso, o espaço é escasso. Sou imensamente grato por ter tido a oportunidade de cursar medicina nessa universidade que eu reputo extraordinária e não posso fazer nenhum tipo de comparação com os momentos atuais. Não me sinto no direito disso porque, definitivamente, o que tivemos foi um privilégio. Colegas admiráveis, pessoas de excelente formação profissional e caráter, pessoas que tenho prazer em encontrar e que me fazem lembrar muito o tempo vivido. Desejo que a UnB tenha condições de continuar fazendo o melhor e que essas condições lhe sejam proporcionadas pelos órgãos responsáveis pela educação brasileira, sem os quais não teremos chance alguma.

Welington

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J W V (Dianópolis/TO 20/12/1941 – Brasília/DF 30/12/2015) In Memoriam

Nasceu na cidade de Dianópolis/TO em 1941, onde fez o curso primário. Ao lado dos estudos, sua infância e adolescência transcorreram em contato com as atividades de cuidado com o gado e com a terra em companhia do pai. Elas seriam, junto com a medicina, a segunda paixão de sua vida. O curso secundário foi concluído em Goiânia/GO no Colégio Ateneu Dom Bosco, onde estudou entre 1961 e 1963. No ano seguinte ao término do segundo grau, foi para a capital recém-construída para prestar vestibular, ingressando na primeira turma de Medicina da UnB em 1965 e formando-se em 1970. Recém-formado, prestou o serviço militar como 2º tenente médico, inicialmente no Grupo de Artilharia de Campanha de Brasília/DF, e depois no Hospital das Forças Armadas (HFA), onde também fez residência, especializando-se em Urologia entre 1973 e 1976. Mediante concurso público, ingressou na Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF), cargo no qual permaneceu até a sua aposentadoria. Na Fundação Hospitalar exerceu o seu ofício no Hospital de Base, então Hospital Distrital, e no Hospital Regional de Taguatinga. Como médico da Fundação Educacional atendeu a estudantes da rede pública do Distrito Federal em diversas escolas-classes. Em 1980, também por concurso público, foi admitido como médico no INAMPS – Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social, autarquia que daria origem ao atual INSS – Instituto Nacional do Seguro Social. Também exerceu a medicina em instituições privadas como o Hospital São Lucas, o Hospital Santa Luzia e a Clínica Madel. Como médico do INSS, transferiu-se em 1985 para Barreiras/BA para ficar mais próximo de sua cidade natal, situada na fronteira. Porém, manteve o cargo de médico na Fundação Hospitalar do DF, passando a desempenhá-lo pelo sistema de plantão durante os fins de semana. Num desses deslocamentos entre Barreiras e Brasília chegou a sofrer um acidente de automóvel de alguma gravidade mas que não deixou sequelas. 135


Assim que Dianópolis passou a contar com um posto de saúde do INSS, pediu transferência de Barreiras para viver e trabalhar ali. Dessa maneira, poderia dedicar-se tanto à medicina quanto à criação de gado e ao cuidado com as terras da família. No começo dos anos 90, definitivamente radicado em Dianópolis, exerceu por duas vezes o mandato de vereador e chegou a ser secretário de saúde do município, período em que participou das discussões e das ações referentes à municipalização do sistema de saúde brasileiro. Aposentou-se no início dos anos 2000 e faleceu em Brasília em 2015. Certamente graças a sua dedicação à medicina e à sólida formação obtida na Universidade de Brasília, o dr. Zé Valente, como era conhecido, tonou-se um ótimo médico, muito conceituado tanto na capital do país quanto na pequena Dianópolis. Nessa cidadezinha do sudeste tocantinense, sua memória segue viva em histórias de tratamentos bem sucedidos e de diagnósticos certeiros de doenças obscuras ou mesmo prosaicas contadas por muitos daqueles que foram seus pacientes.

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Este livro é um memorial dedicado aos primeiros médicos que se graduaram em Brasília, que aqui viveram e vivem, que participaram da história da cidade, que criaram vínculos sociais no exercício da arte e da nobreza da medicina. Constitui, pois, um assentamento, um resgate e uma ratificação de cunho histórico da profissão no Distrito Federal. A Academia de Medicina de Brasília manifesta sua gratidão a esses pioneiros, principalmente porque aqui ficaram e mostraram, nesses 50 anos, seus valores, destacando-se como referências nacionais e internacionais. Todos tiveram sua importância por terem cuidado das pessoas, por terem propiciado o alívio do sofrimento, por terem transmitido a esperança.

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O CINQUENTENÁRIO DE FORMATURA DA 1ª TURMA DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA  

Este livro é um memorial dedicado aos primeiros médicos que se graduaram em Brasília, que aqui viveram e vivem, que participaram da história...

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Este livro é um memorial dedicado aos primeiros médicos que se graduaram em Brasília, que aqui viveram e vivem, que participaram da história...

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