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SESSÃO PLENÁRIA DA ACADEMIA DE MEDICINA DE BRASÍLIA – AMeB

PALESTRA: DOUTORANDO, SEU CURSO CORRESPONDEU ÀS EXPECTATIVAS? CONSIDERA-SE APTO A DAR INÍCIO ÀS SUAS ATIVIDADES PROFISSIONAIS?1 PALESTRANTES: Doutorando Fernando Erick Damasceno (Centro Acadêmico da Universidade Católica de Brasília – UCB), Doutorando Pablo Kokay Valente (Centro Acadêmico da Universidade de Brasília – UnB) e Doutorando Rafael Vinhal da Costa (Centro Acadêmico da Escola Superior de Ciências da Saúde – GDF).

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Presidente da Academia de Medicina de Brasília, AMeB, Acadêmico José Leite Saraiva abriu a sessão manifestando a expectativa da Academia em ouvir a opinião dos representantes dos estudantes de Medicina das três faculdades naquele fórum, passando, em seguida, a palavra aos seus representantes. Doutorando Fernando Erick Damasceno (Faculdade de Medicina da Universidade Católica de Brasília): Fez uma breve exposição do funcionamento do curso, que adota um currículo tradicional, dividido em ciclos básico e clínico, Palestra realizada em 10/8/2010 no Auditório do Conselho Federal de Medicina – CFM, situado no SGAS 915 Sul, Brasília-DF.

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com um internato no último ano. Ressaltou o compromisso da Faculdade com as políticas do SUS, mostrando algumas atividades exercidas extra campus, tanto nacionais (Projeto Rondon) quanto internacionais (Quênia). Informou que o curso ressente-se da falta de um hospital universitário e que não se considera, como quase todos em sua turma, inteiramente preparado para assumir suas atividades profissionais quando formado. O Doutorando Fernando Erick foi sucedido na tribuna pelo representante do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina da UnB, Doutorando Pablo Kokay Valente. Doutorando Pablo Kokay Valente (Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília – UnB): Fez uma abordagem diferente das questões por acreditar que os tópicos colocados em discussão se complementavam. Considerou que sua opinião a respeito da função e importância do médico mudou ao longo do curso, passando de uma visão focada na doença para uma avaliação multifocal. Contudo, o curso atendia melhor à sua visão inicial e não à final, pois satisfazia a parte deixando de considerar o todo. Sugeriu que a formação do médico deveria ser feita de forma integrada às demais áreas relacionadas à saúde, evitando a formação precoce de especialistas, pois o estudante deveria se formar para ser um médico e não um estudante mais qualificado para procurar uma Residência. Reclamou da incapacidade de a opinião do estudante ser levada em conta e que a grade curricular estaria longe de representar a necessidade do País, praticamente ignorando as políticas do SUS. Em sua opinião, curso da UnB poderia ser muito melhor aproveitado se enfatizasse um viés mais coletivo, em vez de privilegiar os interesses de professores e alunos, ignorando os da população. 28


Anais • Ano I • Volume II

Por último, falou o representante da ESCS – Escola Superior de Ciências da Saúde, Rafael Vinhal da Costa, cujo curso é de responsabilidade do Governo do Distrito Federal. Doutorando Rafael Vinhal da Costa (Escola Superior de Ciên­cias da Saúde – GDF): Citando Voltaire, disse que o curso não correspondeu às suas expectativas iniciais, voltadas para a prática de uma Medicina tradicional feita em hospitais privados e consultórios. Sua visão da Medicina mudou, contudo, ao longo do curso, cuja ênfase é colocada nas políticas do SUS, tem suas aulas ministradas exclusivamente por médicos da Secretaria de Saúde e realiza suas atividades práticas em hospitais do GDF credenciados para tanto pelo MEC. Alegou que o curso da ESCS teria mudado paradigmas, desviando-os de modelos conhecidos para focá-los nas necessidades do SUS. Mostrando estatísticas, afirmou que o número de estudantes formados supera em muito o número de residências oferecidas, o que estimula o desenvolvimento de “cursos paralelos para futuros residentes”, diminuindo o conceito do médico generalista, voltado para a saúde da família. Lembrando que a exigência de servir às Forças Armadas serve como entrave ao planejamento do futuro pessoal egresso do curso de Medicina. Informou que o planejamento do curso é também prejudicado pela ingerência de políticos ligados à Secretaria de Saúde. Mesmo assim, os alunos da ESCS interessados em fazer residência médica têm obtido sucesso tanto nos programas do Distrito Federal como nos dos demais Estados. O doutorando concluiu sua exposição afirmando que se sente apto a exercer a profissão como médico generalista ou 29


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a entrar em um programa de residência, mas não se sente à vontade para se submeter a um exame semelhante ao sugerido pelo CREMESP – Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, devido às grandes diferenças entre o enfoque e a grade curricular da ESCS quando comparados aos das faculdades convencionais. Encerrada a fala dos doutorandos, o Presidente da Academia de Medicina de Brasília, Acadêmico José Leite Saraiva, passou a palavra ao Acadêmico Antonio Márcio J. Lisboa, fundador da AMeB, que, felicitando os palestrantes, comentou faltar às escolas médicas uma definição clara de seus currículos, ressalvando que é radicalmente contra um ensino “aos pedaços” que leve em conta apenas o aspecto físico do corpo humano. Falou, em seguida, o Acadêmico Laércio Valença, que solicitou informações a respeito da proporção entre os recém-formados que se dirigiam aos programas de família e aqueles que preferiam se especializar, sendo informado que a maioria dos estudantes da UnB e UCB procuravam um programa de residência médica ou alistava-se às Forças Armadas, enquanto na ESCS cerca de metade dos novos médicos encaminhava-se para uma carreira como generalistas, possivelmente em função da grade curricular dessa escola. Diversos acadêmicos e estudantes alternaram-se a seguir aos microfones, registrando-se as seguintes intervenções: Doutorando Vinicius: “O Programa de Residência em Saúde de Família em Sobradinho, único em Brasília, havia sido fechado pela Secretaria de Saúde do GDF”. Acadêmico Francisco F. Ginani: “As escolas médicas precisam ouvir a sociedade para saber que tipo de médicos deseja formar, uma vez que suas grades curriculares não devem se chocar com a prática da profissão”. 30


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Acadêmico Sérgio C. Camões: “O ensino médico continua a ser precário – entre outras razões, por não terem as escolas médicas hospitais que ensinem o mínimo necessário ao exercício adequado da profissão”. Acadêmico Luiz G. Salinas: “Embora todas as faculdades enfatizem o papel do SUS, parecem ignorar que os programas de residência médica mais procurados no Brasil correspondem às especialidades de endocrinologia, dermatologia e cirurgia plástica. É preciso, também o médico de família, uma vez que Medicina não é só ciência“. Doutorando Lucas: “É preciso abrir espaço aos estudantes de Medicina de todas as faculdades nos diversos hospitais de ensino da cidade, que são praticamente reservados para as faculdades públicas, especialmente a ESCS. A rede hospitalar do DF deveria aproveitar todos os estudantes, uma vez que o SUS é também para todos”. Acadêmico Luiz Augusto C. Motta: “Houve uma tentativa no passado de se juntar forças entre UnB e GDF para o aproveitamento de professores, médicos e hospitais com o intuito de se criar uma ‘superfaculdade’, que, infelizmente, não prosperou. A ideia foi posteriormente retomada, por razões políticas, apenas pelo GDF, o que levou à eventual criação da ESCS”. Acadêmico José Paranaguá de Santana: “As angústias dos atuais estudantes não são muito diferentes das do meu tempo. Embora seja preciso defender o serviço público como paradigma da igualdade, a polaridade é benéfica, uma vez que o problema da saúde pertence a todos e não deve ser tratado como exclusividade de um ou outro modelo”. Doutoranda Mayra: “A formação dos médicos deveria ser feita no contexto da saúde como um todo, incluindo os demais parceiros da área. A Medicina tornou-se um curso excessivamen31


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te técnico, dissociado das demandas sociais”. Acadêmico Antonio Marcio Lisboa: “Cabe à escola formar o médico, mas cabe ao médico individualmente decidir o que fazer com seu futuro. Os objetivos de cada um devem ser claramente demarcados”. Acadêmico Mauricio Gomes: “Não há respostas precisas para as colocações dos estudantes, uma vez que o mundo caminha inexoravelmente para a especialização. Na experiência em Sobradinho, na década de 1970, uma das razões do fracasso do modelo então adotado na UnB havia sido justamente a vontade de todos em especializar-se, o que o currículo da escola não permitia”. Acadêmico Antonio C. Teixeira: “Não se deve brigar com a realidade. O povo sabe o que quer e deve-se universalizar o que há de melhor, ressalvando-se o que é prioritário. A opção entre ser especialista ou generalista deve ser do próprio médico, tendo sempre o humanismo com fundamento”. Encerrada a participação da plateia, os palestrantes fizeram suas considerações finais, entre elas a exigência de se valorizar mais os grandes temas médicos e menos os pormenores do currículo, de se estender a todos os avanços da tecnologia, lutando mais pelo avanço da Saúde que pelos interesses nem sempre claros dos cursos de Medicina e, acima de tudo, a necessidade imperiosa de o médico e aqueles sob seus cuidados exercerem seus direitos de cidadania em sua plenitude. O Acadêmico José Leite Saraiva retomou, então, a palavra e manifestando sua satisfação com o alto nível dos debates, ressaltou a necessidade de a Academia estender suas atividades junto aos médicos mais jovens, pois a eles caberá, no futuro, colocar em prática as políticas de saúde com que sonhamos no presente. 32


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