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SESSÃO PLENÁRIA DA ACADEMIA DE MEDICINA DE BRASÍLIA – AMeB

PALESTRA: O QUE NÓS, MÉDICOS, ESTAMOS DEIXANDO PARA OS FUTUROS COLEGAS?11 PALESTRANTE: Doutor Alexander Jorge Saliba, clínico-geral, pediatra, homeopata e apresentador do programa de rádio Conversando sobre Saúde.

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inha vida como médico.

Quando me formei, saí da faculdade como um ferrenho

alopata, claro, com aquele sentimento tão comum aos médicos, de saber tudo e deter o poder sobre a vida e a morte. Chegava a ser arrogante quando falava de certos assuntos. O tempo foi passando e eu apanhando da Medicina, que considerava ser o melhor que havia. Um belo dia, o Doutor Maurício Vasquez me presenteou com um livro em francês sobre homeopatia, L’Homeopathie Sans Peine, que mudou minha vida. Os conceitos ali externados coincidiam com os da vida. Insatisfeito com os resultados da minha prática médica como alopata, resolvi, por insistência de alguns pacientes, conhecer a homeopatia. Estudando homeopatia e a praticando, fui entendendo melhor que a função do médico era muito mais que buscar diag Palestra realizada em 11/10/2011 no Auditório Tito Figuerôa – SindMédico, situado no SGAS 607, Edifício Metrópolis, Cobertura 1, Brasília-DF, sede da AMeB.

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nósticos e receitar medicamentos, na verdade e no meu entendimento, o médico é, em alguns momentos, a última esperança de alguém que sofre e tem de entender isso, que é único dentre todas as outras profissões. Hoje, eu vejo a Medicina como uma arte de curar que tem que ter como objetivo permitir que o resultado de um tratamento correto venha a devolver ao paciente a possibilidade de viver os altos fins de sua existência. Contudo, vejo a Medicina com reservas quanto ao seu futuro se nada for feito para mudar o médico. Não existe como continuar a manter essa Medicina perdulária, cara, impossível de ser mantida por pessoas, empresas e governos. Essa medicina que esta aí já é muito distante da Medicina real. Quem pode e deve ser médico. “Um bom médico é necessário que seja homem de letras e amante do saber; de outro modo será oficial de Medicina, mas não médico” (do livro Método Para Aprender e Estudar a Medicina, de Antônio Nunes Ribeiro Sanches, médico português radicado no Brasil em 1763). Tomei a liberdade de citar esse conceito porque o considero absolutamente atual. Nunca foi tão necessário humanizar o médico. Pequena análise da Medicina atual De positivo. • Avanços notáveis nos meios de diagnóstico. Não resta dúvida de que, em termos de diagnóstico, estamos avançadíssimos e continuamos avançando. A tecnologia existente permite cada vez mais que entremos nos meandros do organismo que padece de alguma enfermidade. 80


Anais • Ano I • Volume II

• Crescimento dos resultados positivos de modo geral. Do ponto de vista de resultados positivos nos tratamentos aplicados, mesmo com as limitações do arsenal terapêutico disponível ao clínico, graças ao diagnóstico mais preciso, é possível ministrar menos medicamentos e, assim, permitir uma reação pontual e com menor quantidade de efeitos colaterais indesejáveis. • Aumento da expectativa de vida. Estudos demonstram que o corpo humano foi feito para durar uns 55 anos funcionando bem. Então, passar dessa idade é sempre temeroso. Antigamente, uma pessoa de 55 ou 60 anos era considerada velha; hoje em dia, não é bem assim. O dinamismo dos dias atuais, a não aceitação da idade pelas pessoas, a alimentação abundante, o acesso às frutas e ao que a Medicina proporciona, empurraram a velhice para depois dos 70 anos. Vemos com frequência pessoas lá pelos 80 anos trabalhando e produzindo sem dar muita bola para idade. • Cirurgias com avanços nunca antes imaginados. Quem tem mais de 30 anos de Medicina, com certeza, espanta-se com as coisas incríveis que os cirurgiões fazem todos os dias. Ninguém consegue acompanhar os avanços da cirurgia em todos os campos. As superações são constantes e continuadas. • Mescla do orgânico com o eletrônico. Não faltam exemplos do que há pouco tempo era obra de ficção científica. O pesquisador brasileiro Miguel Nicolelis está produzindo resultados fantásticos, utilizando impulsos elétricos do cérebro de um macaco para mover estruturas mecânicas, como próteses. Não vai demorar muito e várias “infuncionalidades” adquiridas ou congênitas serão solucionadas desta forma. 81


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De negativo. • Especialização extrema contra o não entendimento do todo. Eu tive um professor na UnB que dizia que o especialista é alguém que sabe tudo de nada. Claro que aí existe um exagero da crítica, mas ele não estava tão longe da verdade. A especialização pode bitolar o médico, coloca antolhos. Quando isso acontece, teremos alguém que entende o corpo humano como pedaços que funcionam separadamente e não como um processo harmônico e funcional em conjunto; portanto, quanto mais especializado, mais distante da verdadeira cura. • Dependência dos exames complementares de diagnóstico. Quando eu estudei Medicina, meus professores diziam que primeiro temos de dar o diagnóstico e depois pedimos exames para confirmar se estávamos certos ou não. Hoje, o exagero é evidente. O médico, em regra, não ouve o paciente, escuta a queixa, pede um monte de exames e marca a próxima consulta, quando então medicará de acordo com o diagnóstico laboratorial. Em uma das minhas análises de concessão de benefícios, na empresa onde trabalho, recebi dois pedidos de exames em nome de dois pacientes jovens, com boa saúde, mas que, por algum motivo, foram à clinica da médica que é devidamente auxiliada por um nutricionista que também se autointitulava “doutor”. Os dois pedidos já estavam impressos, com o mesmo conteúdo, idêntico, indicando que não importa qual a doença ou qual o tratamento, os exames são os mesmos: 96 exames por paciente! Sem dúvida, uma demonstração eloquente de capacitação médica extraordinária ou o exercício eloquente de falta de ética, conhecimento, bom senso e respeito para com 82


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o paciente e para com a Medicina. Prefiro essa segunda opção. • Prescrição exagerada de medicamentos. Analisando prontuários e receituários, em regra, encontramos prescrições monumentais e de difícil entendimento. Remédios de todas as cores e tamanho, mas nem sempre algo específico para a patologia tratada. Só podemos observar, pois a ética nos proíbe de opinar ou interferir, mas não me impede de ficar indignado diante dessa demonstração de falta de competência. É preciso melhorar o entendimento médico das patologias de que tratamos. • Os médicos não conhecem mais a vis medicatrix naturae. É uma pena que a Medicina atual desconhece o grande trabalho de Hipócrates, quatrocentos anos antes de Cristo. O pai da Medicina descobriu que o corpo humano está apto a produzir cura, desde que não haja obstáculos a ela. Isso ocorre porque todo organismo vivo possui a via de cura natural (vis medicatrix naturae). Toda doença tende à cura, apesar do médico, já dizia o Doutor Aventino Agostini, meu professor de Patologia Clínica na UnB. Brincadeiras à parte, isso parece ser verdade. Li uma vez em um livro sobre os grandes problemas da Medicina, que em uma greve dos médicos em Israel, não me lembro mais o ano, durou uns 30 dias e a mortalidade dos pacientes internados caiu mais de 40%. Com o término da greve, a mortalidade dos internados subiu mais de 50%. Acho que o professor Agostini estava certo. • Relação médico-paciente comprometida. É comprometida pela pressa do médico, pela falta de humildade para entender que não sabe tudo de tudo, nem pode fazer diagnóstico por indução. Nossos colegas levados pela 83


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pressão que eles mesmos geraram por aceitarem trabalhar em condições absolutamente distantes do bom trabalho do médico acabam fazendo um trabalho ruim, sem foco, sem contato, sem diálogo e é claro, tentam corrigir a besteira pedindo uma grande quantidade de exames. Sem relação médico-paciente não existe Medicina eficiente e eficaz. • Modismos da Medicina. Os modismos da Medicina estão aí e sempre voltam. Quem não se lembra ou ouviu falar da moda de se tirar apêndices como forma de prevenir apendicites? Ou amígdalas, pois houve um tempo que a Medicina decidiu que amígdalas não tinham função definida. Atualmente, alguns colegas se apegam a exames da moda, mesmo que não tenham nenhuma indicação para aquela patologia a ser investigada, mas está na moda, então, por que não pedir? O que falta para que a Medicina volte ao seu modelo original? • Formação humanista para o médico. Parece-me que cada vez mais os médicos são formados em suas academias, leia-se escolas, para serem o mais científicos possível, e essa visão cientificista termina por afastar o médico do que é mais importante na Medicina, o humanismo, tão necessário para entender as razões e os porquês das enfermidades dos que buscam a cura para os seus males por meio de nosso trabalho. Sem humanismo, o médico torna-se um burocrata frio que consegue até encontrar formas de tratamentos, mas não tem nenhum tipo de proximidade com seu paciente, o que considero 84


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ser fundamental para que qualquer tratamento dê certo do ponto de vista da cura completa e duradoura. • Falta conhecimento sobre Filosofia aos médicos. O médico, quando tem acesso aos conceitos filosóficos compreende sua arte de forma diferente, foge do lugar comum, não sacrifica valores para obter ganhos a qualquer custo. A Filosofia cria as bases para o entendimento das razões e dos porquês do comportamento humano, de suas dores e de suas angústias. Quando o médico entende por que o paciente sofre, quais são as razões filosóficas de sua patologia, assim como qual seria o comportamento correto diante de cada situação, a Filosofia ajuda na compressão dos processos de enfermidade e na cura e seu trabalho terá um índice de sucesso muito maior. O estudo da História da Medicina nos permite compreender como e por que chegamos onde chegamos. A ciência e a compreensão do homem e suas enfermidades não começa no século vinte e nem se consolida no século vinte e um. Os homens tratam dos homens há milhares de anos e isso gerou uma história. Conhecer e analisar essa história dará ao médico a compreensão de situações que ele normalmente despreza quando apenas se liga a relações científicas que lhe foram ensinadas. Agindo assim, ele não consegue abstrair nem acrescentar e, com isso, perdem o médico e o paciente. Apesar dos avanços da Medicina, alguns conceitos com mais de dois mil anos ainda são viáveis e utilizáveis, mas é preciso saber que eles existem. • Conhecimento geral. Médicos que apenas são médicos, que apenas conhecem da sua profissão, estão vivendo fora da realidade. Medicina não é apenas o exercício de um sacerdócio, aliás, de sacerdotes temos pouco ou 85


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nada. Somos vendedores de serviços e, geralmente, não sabemos cuidar do nosso “negócio”. Não entendemos de mercado, de ciências não médicas, de processos sociais, de negociação, da força da unidade e por aí vai. Ser um bom médico, focado na profissão é muito bom, mas não resolve o problema da Medicina atual, a falta de união diante dos desafios que estão acontecendo há mais de 30 anos e nós estamos apenas olhando e sofrendo as consequências. Apenas a visão ampla permite ao homem interferir no meio e não ser apenas mais um a seguir o que lhe é impingido. Portanto, dar ao médico uma visão geral do mundo e das ciências de um modo geral, irá contribuir para que esse médico tenha maior poder de decisão em todos os sentidos, incluindo-se aí as decisões médicas. A visão social é fundamental para que o médico exerça sua profissão de forma ampla, geral e coerente, sem que tenha necessidade de defender aspectos políticos para ver valer sua opinião. Visão social não é fazer caridade ou dar consultas de graças para pobre, ou como alguns colegas meus fizeram, ir para interior para ajudar quem não podia ter um médico do serviço público e a única coisa que conseguiram foi voltar “quebrados” para Brasília. Na verdade, a visão social proporcionará ao médico um modelo mais adequado de trabalho dentro das limitações e condições que ele determinar. E isso quer dizer que ele produzirá e ganhará seus proventos sem precisar aviltar sua labuta ou agir como um argentário sem ética ou moral. Então, eu vejo que a forma para que as novas gerações de médicos venham a atuar de forma diferente ao modelo que temos no momento, vai depender de uma série de informações que esse profissional começará a receber no lar, mas que se86


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rão oferecidas, estudadas, discutidas e sedimentadas na universidade. Essas informações não podem se restringir apenas à informação científica necessária à formação do futuro médico. Quanto maior for o número de informações consistentes que esse jovem vier a receber nos bancos da universidade que mexam com os seus conceitos e sedimente sua correta formação, maior será a ingerência dessa pessoa ao meio, menor será sua abstração e melhores serão as transformações que ele patrocinará ou participará. Claro que ética, moral, boa conduta têm um componente familiar indiscutível, mas nem toda boa árvore dá bons frutos e nem toda má árvore dá frutos ruins. Isso quer dizer que se pode formar o homem independente de sua origem e para isso é necessário oferecer a oportunidade correta de acesso à informação necessária. Eu entendo que quando o ser humano conhece e entende as várias nuances da vida e, por consequência do comportamento humano, ele aprende a se conhecer e por consequência, conhecendo-se, entende que pode e deve viver sua vida plenamente em todos os sentidos e assim será um bom cidadão e, claro, um bom médico. Quem assim age supera as dificuldades e entende os conceitos éticos de sua profissão. Conhecendo e aceitando os princípios da ética e do modo correto de tratar seu semelhante, esse profissional, com certeza, se mais eficiente em seu trabalho, sem a busca frenética de riqueza e brilho social a todo custo. E o que podemos fazer efetivamente para mudar o estado atual da Medicina e dos médicos no Brasil? Devemos humanizar o médico desde o seu primeiro momento na universidade. Devemos fazê-lo entender que a verdade não está em um único ponto, mas é vasta, abrangente e só a mente livre de preconceito poderá julgar sem reservas o que é bom ou ruim dentre 87


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tantas situações e conceitos que não são apresentados todos os dias. Fazer o médico entender que apenas um bom exame e uma receita correta sem a boa reação entre ele e o paciente não cumpre os ditames da Medicina. Abolir de vez a prepotência de alguns profissionais que acreditam que o paciente tem de obedecê-lo sem questionar. Com o advento da internet, os pacientes buscam informação sobre o que foi receitado e quando a informação é incorreta, como acontece muito, o médico se desgasta. Então, apenas quando a empáfia e a prepotência são abolidas, combatidas ou pelo menos minoradas, o médico poderá ver seu paciente como alguém que sofre, que está fragilizado por isso e só essa condição seria suficiente para mudar seu comportamento e ser um pouco mais cordial. Devemos ensiná-lo muito mais pelo exemplo que pelo discurso, que a Medicina é a mais nobre das profissões, pois é a única que vê o rei nu. Ensiná-lo desde os primeiros momentos que só ele pode e deve valorar seu trabalho. Fazê-lo ver as mudanças, o reconhecimento, a valorização do profissional, o pagamento correto por seu trabalho, seja em que esfera for, depende unicamente dele. Ninguém lutará pelo médico a qualquer tempo. Temos de mostrar a geração atual que os erros que são hoje praticados podem e devem ser mudados; caso contrário, não haverá futuro para a Medicina, nem sequer nos moldes atuais. Mas, para mim, o mais importante é mostrar com exemplos que na Medicina, acima de tudo, só o amor pela arte que abraçamos é que nos fará ser verdadeiramente médicos.

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Palestra:O QUE NÓS, MÉDICOS, ESTAMOS DEIXANDO PARA OS FUTUROSCOLEGAS?