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ANAIS • Ano I • Volume 1

Francisco Pinheiro Rocha

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niciando este depoimento, quero agradecer aos colegas que fazem parte dessa jornada da Academia de Medicina

a oportunidade que me foi concedida para falar sobre a história da Medicina de Brasília. Indiscutivelmente, é um assunto bastante palpitante, principalmente pela presença, neste recinto, de várias pessoas que participaram, não só da evolução da Medicina nesta cidade, como também da evolução e construção da rede hospitalar do DF. Antes de abordarmos o sistema médico de Brasília como foi projetado, temos que retroagir para falar sobre o Hospital Pioneiro de Brasília, o chamado JKO (Juscelino Kubitschek de Oliveira), que foi construído, provisoriamente, para dar assistência médica àqueles que vieram edificar a cidade. Esse hospital, que ficava ao lado da Cidade Livre, primeiro núcleo residencial de operários, engenheiros e comerciantes (atual Núcleo Bandeirante), prestou assistência à população por mais de dez anos, vindo a ser desativado em 1966. O JKO era administrado parcialmente pelo Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários (IAPI), Ministério da Saúde e Novacap. Vários colegas que trabalharam naquela instituição permanecem em Brasília. É importante que seus nomes sejam citados para que também 39


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venham colaborar, explicando o funcionamento e a história do JKO que hoje abriga o Museu Vivo da Memória Candanga. Gostaria de lembrar os nomes de Gustavo Ribeiro, que ocupou o cargo de diretor da instituição, Edson Porto, Fran Teixeira Lima, Isac Ribeiro e José Richilieu de Andrade Filho. No decorrer da construção de Brasília, o Departamento Administrativo da Novacap foi dirigido pelo médico Ernesto Silva. Consciente da peculiaridade de Brasília, cidade projetada para o futuro, moderna, não apenas em seu aspecto arquitetônico, Ernesto Silva convidou o técnico em organização hospitalar Henrique Bandeira de Mello para elaborar o Plano Médico Hospitalar do Distrito Federal, que ficou pronto em 1959. O Plano Bandeira de Mello em tudo se diferenciava dos planos hospitalares em vigência então no Brasil. Em sua concepção, ele era constituído por dez Hospitais Distritais, um Hospital de Base, Hospitais Rurais e Unidades Satélites. Toda a rede hospitalar, prevista para o atendimento da saúde preventiva e curativa de uma população de 500 mil habitantes, seria administrada por um único órgão, totalmente independente das demais entidades prestadoras de assistência médica pública no País. Esse órgão, a Fundação Hospitalar do Distrito Federal, foi criado em 1960, com a inauguração da capital. O primeiro Hospital Distrital de Brasília foi inaugurado no dia 12 de setembro de 1960, pelo Presidente Juscelino Kubitscheck. Ele funcionava em sua quase totalidade, na grande área ambulatorial. O prédio vertical, com onze andares, ainda não estava concluído, abrigando apenas algumas clínicas. No lugar onde, atualmente, situa-se o ambulatório de Cardiologia ficava 40


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o Centro Cirúrgico, constituído por duas salas onde as equipes operavam simultaneamente. Em 1964, na administração do engenheiro Plínio Catanhede, quando então fui nomeado Secretário de Saúde e Presidente da Fundação Hospitalar do DF, é que foi possível concluir o primeiro Hospital Distrital de Brasília. Iniciamos pela infraestrutura hospitalar e inauguramos casa de força, cozinha, lavanderia. O Centro Cirúrgico foi transferido para onde hoje funciona o Centro de Procedimento. Novas enfermarias clínicas foram criadas. Fizemos a urbanização da área hospitalar e, em 1965, tínhamos um Hospital Distrital em sua quase plenitude. Convidamos, então, o professor Odair Pedroso, técnico em organização hospitalar e primeiro diretor do Hospital das Clínicas de SP, para implantar o organograma funcional do primeiro Hospital Distrital. Com sua equipe, o Professor Odair Pedroso trabalhou, por seis meses em Brasília, elaborando também o plano direcional do segundo Hospital Distrital (atual Hospital Regional da Asa Sul), então em construção. A explosão demográfica da cidade, a demanda por serviços especializados, nos fez, sob a orientação do Instituto Nacional do Câncer – na pessoa de Ozolando Machado – criar o Serviço de Cancerologia. Do Inca – RJ vieram Juraci Couto Mergulhão e Félix Gollo, pioneiros da rádio e quimioterapia em Brasília. Em novembro de 1965, inauguramos o Hospital da L2 Sul que seria, preservando a concepção Bandeira de Mello, o segundo Hospital Distrital. Entretanto, pela necessidade premente de leitos na área de ginecologia, obstetrícia e pediatria, o hospital deu ênfase a esses serviços. 41


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Cinco anos haviam decorrido da inauguração de Brasília e criava-se um problema para a implementação, na íntegra, do plano Bandeira de Mello. Aos poucos, o primeiro Hospital Distrital, acrescido de serviços especializados (cirurgia cardiovascular, rádio e quimioterapia, entre outros) foi se transformando no atual Hospital de Base de Brasília. Em 1965, a população de Brasília já atingia 200 mil habitantes e a explosão demográfica era nas áreas periféricas, nas cidades-satélites. O estudo de Bandeira de Mello previa os Hospitais Distritais ao longo das Asas Sul e Norte, com 300 ou 400 leitos, prestando assistência, cada um aproximadamente, a 50.000 pessoas. Nossa realidade, entretanto, era outra. Taguatinga já era um centro populacional grande e em desenvolvimento crescente, mas era servida pelo Hospital São Vicente de Paula – hospital provisório, mantido pela FHDF, mas dirigido por entidade religiosa – que amenizava os problemas de saúde da população naquela cidade. Sobradinho, entrada norte da cidade, com quase 30 mil habitantes foi escolhida para abrigar um hospital. Esta decisão foi de minha responsabilidade como Secretário de Saúde. O Hospital Distrital de Sobradinho foi inaugurado em dezembro de 1966 com 260 leitos e entregue à Universidade de Brasília em convênio assinado com a Secretaria de Saúde e o reitor da UnB, Laerte Ramos de Carvalho. Esse convênio permitiu que, por um período de dez anos, a comunidade de Sobradinho tivesse assistência preventiva e curativa em condições condignas. A Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho – Hospital Escola 42


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– deu continuidade ao curso de Medicina e diplomou os primeiros médicos em 1970. Na entrada sul de Brasília surgira a cidade do Gama. Decidimos construir ali outro hospital e o inauguramos em 14 de março de 1967, desafogando os hospitais do Plano Piloto e dando assistência à população do entorno, que crescia assustadoramente. O Hospital do Gama, também com 260 leitos, mantinha a integração das medicinas curativa e preventiva e possuía um pavilhão para pacientes portadores de tuberculose. Brasília contava então, em 1967, com quatro hospitais em pleno funcionamento, o que permitiu certo alívio em relação à assistência médico-hospitalar da população. O Plano Hospitalar Bandeira de Mello previa a construção de uma Escola Superior de Enfermagem. Demos prioridade, entretanto, à construção de uma Escola de Auxiliares de Enfermagem, pois grande era a carência de profissionais técnicos para as instituições hospitalares. A Escola foi construída em anexo ao primeiro HDB e inaugurada em 30 de novembro de 1965. Outro trabalho, realizado foi a construção e inauguração do Centro de Profilaxia da Raiva, onde também funcionou o Setor de Cirurgia Experimental. Gostaria, também, de registrar o nome dos Médicos e Enfermeiros que formaram o corpo clínico do primeiro HDB nos primórdios de seu funcionamento. Limitar-me-ei ao período que vai de sua inauguração até 1976 quando este hospital passou a ser designado com Hospital de Base do DF.* Acadêmico Francisco Pinheiro Rocha: Médico cirurgião do Hospital de Base do Distrito Federal e ex-Secretário de Estado da Saúde do Distrito Federal. * A lista à qual se refere o expositor encontra-se nos Anexos.

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