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SESSÃO PLENÁRIA DA ACADEMIA DE MEDICINA DE BRASÍLIA – AMeB

PALESTRA: OS 200 ANOS DE CHARLES DARWIN E A EVOLUÇÃO NATURAL5 PALESTRANTE: Acadêmico Edmundo Machado Ferraz (Academia Pernambucana de Medicina): Professor de Cirurgia da Universidade Federal de Pernambuco.

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harles Robert Darwin (1809-1882) é hoje considerado um dos quatro cientistas mais importantes da história da

humanidade. Em 2009, foram celebrados no mundo inteiro os 200 anos de seu nascimento e 150 anos da publicação de sua mais importante contribuição, o livro “A Origem das Espécies” (The Origen of Species). Esse livro marcou uma dramática modificação no pensamento científico a partir de sua publicação. Publicado nos seus 50 anos, Darwin, com uma grande maturidade e experiência, lançou a Teoria da Evolução baseada na interpretação de seus achados para a compreensão da história da humanidade. A seleção natural é considerada por Richard Dawkins (A Devil’s Chaplain, 2003), a ideia mais revolucionária da história da ciência. A longa viagem realizada no navio Beagle com curta permanência nas Ilhas Galápagos (1831-1836) gerou sua posterior Palestra realizada em 24/5/2011, no Auditório Tito Figuerôa – SindMédico, situado no SGAS 607, Edifício Metrópolis, Cobertura 1, Brasília-DF, sede da AMeB.

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formulação da teoria da evolução. “O mistério dos mistérios: o surgimento de novos seres na terra” e suas explicações como as espécies mudam ou evoluem, o tornaram o mais polêmico cientista de todos os tempos, atingindo essa controvérsia, os dias atuais, desafiando, também, os pensadores de todos os credos religiosos até o presente momento. O tempo e a evolução têm confirmado a grande maioria da sua contribuição, como ocorreu com Galileu Galilei, Isaac Newton, Einstein e Watson e Crick. Darwin nasceu em 12/2/1809, em Shrewsbury na Inglaterra, filho de Robert W. Darwin (1766) e Susannah W. Darwin. Seu pai era um médico bem-sucedido, assim como o seu avô, Erasmus Darwin (1731-1802), médico dedicado à ciência, estudioso da história natural, particularmente da botânica, já que considerava que todas as formas de vida da terra eram aparentadas e tinham uma única origem. Erasmus foi o fundador do “Clube da Lua” (Lunar Society), que se reunia nas noites de lua cheia, permitindo a seus membros voltar para casa com o caminho iluminado pelo luar (sendo, por isso, chamados de “lunáticos”). Charles Darwin estudou Medicina na Universidade de Edimburgo, na Escócia (1825-1827) e, posteriormente, na Universidade de Cambridge (1828-1831). No período de 1831 a 1836, viajou pelo mundo, cruzando o Atlântico para dirigir-se à América do Sul, passando pela costa do Brasil (Recife, Salvador, Rio); Argentina, passando pela Patagônia para o Oceano Pacífico, Chile, Equador e Ilhas Galápagos, onde considerou que tinham se originado todas suas ideias. Em 1831, Charles Darwin recebeu um convite para juntar-se ao “HMS Beagle” como naturalista para uma viagem ao redor do mundo. Foi um convite irrecusável para quem almejava tornar-se clérigo para ter a tranquilidade de torna-se um biólo44


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go. O contato com o paraíso ecológico das Galápagos influenciou decisivamente sua vida, permitindo formar uma nova concepção da formação, existência e evolução da vida na terra. Darwin retornou da viagem reconhecido como um experiente naturalista, detentor de importantes coleções que paulatinamente enviava a Londres durante a viagem no Beagle, formando um importante acervo admirado por todos. Em 1837, após retornar à Inglaterra, começa a escrever o primeiro caderno de anotações sobre a mudança das espécies. Em 1839, casou-se com Ema Wedgwoad. Apenas em 1858 foi lido um texto sobre a Teoria da Evolução da autoria de Darwin e de Alfred Russel Wallace, outro estudioso da evolução natural na Sociedade Lineana em Londres. Em 1859, foi publicado o livro “A Origem das Espécies”, quando Darwin tinha 50 anos. Na década de 1870 Darwin publicou cinco volumes sobre plantas e mais um livro, “A origem do Homem” e, em 1872, “A Expressão das emoções nos homens e nos animais”. Em 1881, publicou outros livros sobre as minhocas. Faleceu em 19/4/1882 aos 73 anos, sendo sepultado na Abadia de Westminster. Apesar do grande reconhecimento em vida recebido por Darwin, a Teoria da Evolução provocou grandes controvérsias, surgindo duas grandes questões sem respostas à época da publicação da “Origem das Espécies”: uma era o pequeno tempo de existência da terra (6.000 anos ou 100 milhões de anos, na opinião de Lord Kelvin), a outra foi o esfriamento da terra, que ocorreu mais lentamente do que imaginava Kelvin. A seleção natural é um simples mecanismo de longa evolução que leva as populações de seres vivos a sofrerem mudanças ao longo do tempo por meio da variação, herança, seleção e adaptação. Os membros de uma mesma espécie variam em tamanho, coloração, habilidade em lidar com doenças além de ou45


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tras modificações que os habilitam à sobrevivência. Essas variações resultam de mutações ao acaso, também chamadas de “erros de cópias”, que podem ser repetidos proporcionando o aparecimento de novas espécies. Quando os organismos se reproduzem, passam o seu DNA, um autêntico kit de instruções genéticas (com ou sem erros) transmitindo as características hereditárias que podem sofrer variações ao longo dos tempos e novas interferências genéticas. Outro aspecto importante é o meio ambiente que não suporta populações que ultrapassem sua capacidade de recursos. Sobrevivem aqueles mais capazes de encontrar comida, de evitar os predadores e que tenham chance de reprodução, passando seus DNAs. As diferenças vão se estabelecendo na cor e na capacidade de mimetismo, visão mais acurada, mandíbula mais desenvolvida, maior altura que representa vantagem aos predadores o que, ao longo do tempo, modifica gerações sucessivas, tornando-as mais adaptadas para a sobrevivência. Alfred Russel Wallace formulou sua teoria da seleção natural pouco antes de Darwin publicar o seu livro. Realizou uma expedição à Amazônia (1842-1852) e concluiu que “toda espécie surge de outra pré-existente, aparentada”. Em 1855, publicou o livro “Sobre a lei que regula a introdução de novas espécies” e enviou o seu livro para Darwin, que já vinha desenvolvendo sua teoria há 20 anos. Com centenas de páginas escritas, Darwin aceitou a ideia de Lyell e Hooker de apresentar sua teoria sobre a origem das espécies na Sociedade Lineana em julho de 1858, juntamente com a de Wallace, propondo que ambos compartilhassem o crédito dela. Essa atitude é reconhecida como um exemplo notável de cooperação científica. Wallace concordou com a proposta ao saber da apresentação três meses após. Ambos foram amigos e colaboradores daí em diante. 46


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Darwin considerava que todo ser vivo originava-se de um ancestral comum. Considerava existir uma enorme grandeza nessas formas de vida com diferentes complexidades originalmente geradas de uma única forma de vida. Sobre tal fato, considerou Richard Dawkins que Darwin ofereceu ao mundo 150 anos atrás uma singela explicação científica para a enorme diversidade da vida existente na terra – a evolução pela seleção natural. Desde então, outros cientistas se sucederam identificando o DNA, estudando os vírus e as mutações genéticas, mapeando o genoma, identificando e catalogando fósseis encontrados em locais e situações inesperadas, confirmando a importância do estudo pioneiro de Darwin no desenvolvimento e na elucidação dos importantes fenômenos biológicos que vieram a confirmar que a evolução procede nem sempre de forma gradual. Darwin já havia considerado que não é a espécie mais forte que sobrevive ou a mais inteligente, mas a que melhor se adapta às novas circunstâncias. Em seu livro, “Charles Darwin, a revolução e evolução”, Rebecca Stefoff (Cia das Letras, 2007, tradução do original de 1996) dedica um capítulo final ao legado de Darwin. Considerou que embora Charles Darwin tenha recebido em vida um extraordinário reconhecimento por sua contribuição, existe até hoje uma grande resistência às suas ideias, particularmente em grupos religiosos. Considerou a autora que “em grande medida foi o mesmo tipo de resistência enfrentada por Copérnico quando pela primeira vez afirmou que a terra girava em torno do Sol”. Ainda no ano 2010, enquete realizada nos Estados Unidos considera que apenas 40% de sua população aceita a teoria de evolução natural criada por Darwin. Uma das crenças mais arraigadas era de que a Bíblia (a Septuaginta foi traduzida por mais de 70 eruditos e representa a mais antiga versão em gre47


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go do texto hebraico do Antigo Testamento) era um livro que ensinava verdades científicas. Os evangelhos foram copiados à mão. Além dos erros naturais, alguns escritos usavam sua interpretação, como ocorreu com “jovem mulher” em hebraico, que foi traduzido como “virgem” para o grego, como foi traduzida erroneamente muitos anos após a morte de Cristo. Em 1925, relata Rebecca em seu livro, John T. Scopes, professor de escola pública de ensino médio no Tennessee foi levado a julgamento sob a acusação de ensinar a teoria da evolução após uma nova lei estadual ter proibido o ensino desse tema nas escolas públicas daquele estado. Seu julgamento foi um marco na história da ciência. A American Civil Liberties Union protestou argumentando que a lei violava o direito de Scopes à liberdade de expressão. Scopes foi condenado em primeira instância a pagar uma multa de cem dólares posteriormente revogada devido a um detalhe jurídico. A questão foi magnificamente relatada em um famoso filme na década de 1960 chamado “O vento será sua herança”, interpretado por Frederic March (no papel do promotor) e Spencer Tracy no papel do advogado de defesa, demonstrando a radicalidade como se processava o debate entre os “criacionistas” e os “evolucionistas” que tentavam estabelecer a diferença entre as teorias, fatos e crença ou fé. Posteriormente, surgiram os “Cientistas da criação” que aceitavam a existência da terra em bilhões de anos e os novos dados dos registros fósseis e geológicos, as relações entre as diferentes espécies de plantas e animais e seu caráter evolutivo, considerando que por trás de tudo havia um “Regime Divino”. Darwin não chegou a conhecer os trabalhos de Gregor Mendel (1822-1884), monge e naturalista austríaco, que a partir de estudos iniciados em 1850, demonstrou em ervilhas os fenômenos da dominância e da recessividade, em que as característi48


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cas dominantes (altura) apareciam em todos os descendentes da primeira geração e em 3/4 dos descendentes da 2ª geração. Os artigos de Mendel foram publicados em uma revista de circulação local de história natural e como Mendel assumiu um cargo de supervisão em um mosteiro e trocou suas atividades de investigador por funções administrativas, seu trabalho foi muito pouco conhecido. Com a sua morte, em 1884, todas suas anotações e textos foram jogados fora sendo somente por volta de 1900 que outros cientistas que estudaram a hereditariedade reconheceram a importância de seus estudos e avançaram na identificação dos genes que regulam a hereditariedade. Em 1953, James Watson e Francis Crick decifraram a dupla hélice do DNA, que já havia sido demonstrada, mas não identificada por Rosalind Franklin no King’s College em Londres, em 1950, tendo o próprio Watson reconhecido em 2000 a importância de sua contribuição – não citada no trabalho de única página publicado na revista Nature em 1953 – com a sugestão da proposta de estrutura do DNA logo consagrada com o prêmio Nobel daquele ano. Rosalind faleceu vítima de câncer do ovário em 1953, e apenas em 1968 Watson publicou “The Double Helix”, onde reconheceu o trabalho de Rosalind (ao qual teve acesso clandestinamente), mas permitiu que tirassem a conclusão que Rosalind não antecipou e foi ignorada na referência bibliográfica (Rosalind Franklin, the Dark Lady of the DNA, Brenda Maddox, Perennial, Happer Collins Publishers, 2002 UK). Por meio do DNA as informações genéticas dos organismos são transmitidas aos descendentes e neles se combinam. O gene é a unidade da replicação e o organismo é seu veículo (ou máquina da sobrevivência) como afirmou Richard Dawkins (“O Gene Egoísta”, Cia das Letras, 1989), referindo também que “o gene é uma replicação de longa duração existindo sob a forma 49


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de muitas cópias de si mesmo ou um fragmento de cromossomo pequeno o bastante para durar o tempo suficiente para funcionar como uma unidade de seleção natural”. Existiram na sopa primordial e agora nas diferentes máquinas de sobrevivência (animais, plantas, bactérias e vírus). Os genes são unidade da hereditariedade e como os diamantes, são eternos, mas, na opinião de Dawkins, continuam vivos como cópias de si mesmo e suas expectativas de vida devem ser medidas em milhares ou milhões de ano. Viaja intacto do avô ao neto e persiste sem se fundir com outros por todo esse tempo (1 milhão de anos). Os seres vivos já existiam na terra há mais de 3 bilhões de anos, sem que soubéssemos a explicação. Foi Charles Darwin que decifrou o enigma construindo no seu dizer, uma explicação coerente e convincente da razão por que existimos e uma forma pela qual a simplicidade se torna complexidade, como os átomos desordenados se agruparam em estruturas cada vez mais complexas até que surgiram todos os seres vivos conhecidos como o homem que tem mais de um octilhão de átomos.

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