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Pauta02 Notas, estórias e apontamentos musicais

Concerto

Banda de Alcobaça Entrevistas

Rui Morais Dalila Vicente Trio Impressões Foto-reportagem

CIMCA 2011 Espetáculo de Natal A Arte da Percussão Forróbodó É Tão Bom Cantar em Coro

Pauta é um jornal da Academia de Música de Alcobaça com distribuição gratuita e propriedade da Banda de Alcobaça


Ficha Técnica

Índice

Propriedade Banda de Alcobaça Rua Frei António Brandão, n.º 50-52 2460-047 Alcobaça

Breves notas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4

Diretor Rui Morais

Rui Morais Entrevista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8

Edição David Mariano Design e Paginação Velcro Design Fotografia David Mariano e Velcro Design A Pauta é uma publicação eletrónica de consulta e distribuição gratuita, estando todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor.

Atualidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 Banda de Alcobaça Foto-reportagem

Sérgio Carolino A Capella . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24 CIMCA 2011 Foto-reportagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26 Trio Impressões Entrevista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42 Espetáculo de Natal Foto-reportagem Dalila Vicente Entrevista

3º Curso de Percussão Formação

Telefone 262 597 611

A Arte da Percussão Foto-reportagem

Telemóvel 96 254 35 44 / 42 Site www.academiamalcobaca.com www.facebook.com/academiamalcobaca Para subscrever a Pauta ou deixar-nos uma recomendação, crítica ou dúvida, envienos um mail para: press@academiamalcobaca.com

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Todos os textos foram escritos ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

Fax 262 597 613

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É Tão Bom Cantar em Coro Foto-reportagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74 Forróbodó Foto-reportagem

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Letras e Sons . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88


Editorial por

Rui Morais

Presidente da Banda de Alcobaça Diretor-Executivo da Academia de Música de Alcobaça

Quo Vadis Ensino Artístico? Como temos afirmado nos últimos anos, a Banda de Alcobaça apostou na formação de qualidade como a sua prioridade. Foi isso que levou à criação da Academia de Música de Alcobaça e à subsequente autorização de funcionamento como escola de ensino vocacional de música, por parte do Ministério da Educação (ME) em 2002. Passados 9 anos, a conclusão que tiramos é que a música, a dança e outras áreas artísticas são tratadas pelo(s) Governo(s) como “filhas de um Deus menor”. Legislação dispersa e complexa, ausência de regras bem definidas, falta de fiscalização para distinguir o trigo do joio, total ausência de incentivo ao mérito, são alguns dos problemas evidentes. Mas o que se passou no ano letivo de 2010/2011 ultrapassa tudo o que possamos imaginar, sendo possível apenas porque este é realmente um “sector” muito particular, onde a ausência de união e capacidade reivindicativa é bem patente. Vejamos os momentos essenciais. O anterior Governo introduziu mudanças radicais no ensino artístico vocacional nas férias escolares de 2008, pois pretendia alargar, e bem, o ensino da música a muitas mais crianças. Essas mudanças foram não apenas de ordem curricular e organizativa mas tinham como pressuposto um novo quadro financeiro. Apesar do pouquíssimo tempo para as escolas de música se organizarem face à nova realidade, estas fizeram-no com assinalável sucesso. Foi feito um trabalho de sensibilização e articulação para o ensino vocacional da música (ensino da música especializado e exigente) envolvendo escolas de ensino “regular”, pais e alunos num processo cuja organização é bastante complexa, pois mexe com a constituição de turmas, contratação de pessoal docente, dispensa de disciplinas, definição de horários, etc. Passados apenas dois anos e quando as medidas contidas na reforma começavam a estabilizar, a Ministra da Educação decide congelar os apoios financeiros a novos alunos na rede particular e cooperativa através de um despacho a 3 de agosto de 2010 (é curioso como o ME faz tantas alterações em Agosto…). Todas as expectativas criadas a futuros alunos e respetivos pais foram, assim, abruptamente interrompidas… Mas mais uma vez as escolas de música adaptaram-se tendo iniciado o ano letivo dentro de uma relativa normalidade, pese embora a introdução de novas regras (mais uma vez…). Como as coisas podem sempre piorar, o ME decide já em 2011 que as verbas acordadas não

podem ser pagas através do Orçamento Geral do Estado e que, por isso, as escolas de música têm de concorrer a verbas comunitárias destinadas habitualmente à formação profissional… Como é possível gerir uma escola nesta permanente instabilidade e incerteza? Como é possível apostar num corpo docente estável e de qualidade? Como é possível assegurarmos, em suma, um ensino artístico de qualidade? ···································································································· A Banda de Alcobaça (BA) comemorou esta quarta-feira, dia 30 de novembro, 26 anos desde que ressurgiu, devido ao empenho de alguns alcobacenses, com um concerto onde apresentou o seu novo disco. Num país em que as filarmónicas dominaram o panorama musical durante dezenas de anos, acompanhando as procissões e tocando nos coretos, como foi possível que a BA se tenha transformado numa banda de concertos? É uma história longa que este pequeno texto não tem a pretensão de contar mas que em síntese começa a 30 de novembro de 1985 pela batuta do maestro Víctor Santos e que, já em meados dos anos 90, continua com Pedro Marques, maestro da BA durante vários anos e responsável musical pela edição do primeiro disco da Banda de Alcobaça, em 2001. Passados dez anos, correspondendo este tempo quase na sua totalidade àquele que Rui Carreira tem assumido como diretor artístico da BA, pareceu-nos óbvio que era chegada a altura de gravarmos um segundo disco. É verdade que a BA já tinha gravado, entretanto, algumas obras, quer para a coletânea das melhores bandas do distrito de Leiria quer até para um disco do grupo de pop alcobacense The Gift, entre outros trabalhos que nunca chegaram a ser editados… Mas não tínhamos nenhuma gravação pensada como um todo, coerente musicalmente e representativa do trabalho dos últimos anos, onde se acentuou o carácter sinfónico deste agrupamento. Espero, por tudo isto, que todos tenham o mesmo prazer a ouvir este disco como os músicos e maestro tiveram nos ensaios, nos concertos e nas gravações que o concretizaram! É, pois, evidente que a BA tem hoje um projeto original e ambicioso que constitui um caso paradigmático do potencial da sociedade civil. Prova-se que é possível construir algo a partir da visão, estratégia, liderança e empenho de um grupo de pessoas unidas em torno da música.


Breves notas

Academia de Música de Alcobaça encerrou ciclo de concertos para bebés “Espaço de Sons” foi o último de quatro espetáculos que em 2011 visaram estimular os bebés através da música A Academia de Música de Alcobaça (AMA) encerrou na manhã do passado dia 27 de novembro, domingo, pelas 11h00, no Cine-Teatro de Alcobaça – João d’Oliva Monteiro, o ciclo de Concertos para Bebés “À Procura dos Sons”, apresentando aquela que foi a última das suas propostas temáticas: “Espaço de Sons”. Este foi o derradeiro capítulo de um conjunto de quatro espetáculos anteriormente dedicados ao Mar, à Floresta e ao Deserto que assim conheceu o seu epílogo numa atmosfera cénica marcada por diversos elementos astronómicos: planetas, estrelas, galáxias, cometas, sistemas solares, entre outros, onde o objetivopassou por estimular, através do canto e do movimento, a aquisição e o desenvolvimentode competências musicais junto das crianças. Num ambiente interativo, pais e bebés foram assim convidados a envolverem-se num espaço que combinou música e multimédia, movimento e luzes, acompanhados em palco pelas intérpretes habituais, Maria João Costa e Ana Carlota Silveiro, por Jorge Marinheiro, no teclado e sintetizador, e por Camila Moreira, bailarina e professora da Academia de Dança de Alcobaça (ADA).

Concurso Dançarte teve a participação da Academia de Dança de Alcobaça Competição destinada a premiar jovens bailarinos de escolas nacionais e estrangeiras realizou-se entre 8 e 10 de abril em Faro A Academia de Dança de Alcobaça (ADA) participou com os seus alunos na última edição do Concurso Internacional de Dança – Dançarte. Este concurso, que se realizou entre os dias 8 e 10 de abril em Faro, destinou-se a jovens bailarinos de escolas nacionais e estrangeiras, sendo organizado pela associação Beliaev Centro Cultural, entidade que conta com o apoio do Teatro Municipal de Faro, bem como de diversas outras entidades oficiais e privadas da região. Abrangendo as modalidades de dança clássica, dança contemporânea e dança de carácter, o Dançarte destina-se à faixa etária dos 8 aos 24 anos, sendo os concorrentes distribuídos por vários escalões, em função da idade, e pelas categorias Solista, Dueto e Grupo. A presença da ADA nesta importante competição nacional revelou, mais uma vez, não só o crescimento e o dinamismo de um dos projetos mais destacados da Academia de Música de Alcobaça, como a colaboração determinante que tiveram pais, professores e alunos ao possibilitarem a participação num evento onde estiveram presentes escolas de todo o país.


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Academias de Música e Dança de Alcobaça destacados em programa da RTP1 Equipa de reportagem do programa televisivo Portugal em Direto divulgou várias atividades da instituição A Academia de Música de Alcobaça (AMA) foi um dos principais temas no passado dia 25 de fevereiro do programa Portugal em Direto (habitualmente emitido de segunda a sexta a partir das 18 horas), através da presença de uma equipa de reportagem da RTP – Radio e Televisão Portuguesa que realizou nas suas instalações algumas peças de cobertura televisiva. Tendo como objetivo promover e divulgar as atividades da instituição, em destaque estiveram o workshop “Forróbodó”, os Cursos de Dança da Academia de Dança de Alcobaça (ADA) e os Cursos de Música da AMA. Entre os vários entrevistados, houve ainda a oportunidade de ouvir Rui Morais (Diretor da AMA), Eliana Mota e Camila Moreira (formadoras e professoras da ADA), além de vários alunos e professores. O programa Portugal em Direto define-se por ser um espaço de informação nacional apresentado pela jornalista Dina Aguiar, apostando na atualidade nacional e sempre atenta aos problemas das populações, dispondo ainda de meios técnicos e meios humanos especiais que lhe permitem deslocar-se às localidades mais recônditas de Portugal, para garantir em cada emissão, sempre, um debate alargado sobre um tema de interesse local e nacional.

Escola Básica da Cela venceu Concurso de Canções do 1.º Ciclo do Concelho de Alcobaça Escola Básica de Alcobaça e Escola Básica do Bárrio ocuparam os restantes lugares do pódio A Escola Básica da Cela, pertencente ao Agrupamento de São Martinho do Porto, foi a grande vencedora do Concurso de Canções do 1.º Ciclo do Concelho de Alcobaça com a canção “Amar só por amar”, conquistando o 1.º lugar, enquanto a Escola Básica de Alcobaça (turmas 1.º B, 2.º A e 2.º B) ficou em 2.º lugar com o tema “Um dia” e a Escola Básica do Bárrio ocupou a 3.ª posição com a canção “Eu quero” (ambas do Agrupamento Frei Estevão Martins - Alcobaça). Integrada na Festa da Criança e do Ambiente, este ano sob o tema “A Música e a Floresta”, e no Cistermúsica Júnior, a Final do Concurso de Canções do 1.º Ciclo do Concelho de Alcobaça decorreu no passado dia 6 de junho obtendo uma das maiores afluências de público de sempre: cerca de mil espectadores e participantes assistiram ao desfile de canções no palco do Mercoalcobaça. Esta é uma iniciativa organizada pela Academia de Música de Alcobaça, em parceria com a autarquia, que decorre já desde o ano letivo de 2007/2008 – uma atividade ambiciosa na qual participam todos os alunos inscritos nas Atividades de Enriquecimento Curricular de Música e Expressão Musical do 1.º Ciclo dos cinco agrupamentos de escolas (mais de 2000 alunos). O Concurso de Canções do 1.º Ciclo do Concelho de Alcobaça tem como objetivos criar hábitos de performance, promover a interdisciplinariedade entre os alunos e fomentar a vivência de palco nas suas várias vertentes (musical, plástica, dramática e movimento).

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Atualidade

Academia de Dança de Alcobaça recebe Workshop “Newstyle” pelo bailarino Hugo Marmelada Ação de formação será a última de um ciclo de três workshops que se realizaram desde o passado mês de outubro A Academia de Dança de Alcobaça (ADA) encerra, no próximo dia 27 de dezembro, um Ciclo de Workshops dedicados a vários géneros de dança e dirigidos por alguns dos melhores bailarinos nacionais na sua área, entre os quais Kelly Nakamura (Contemporâneo), Bruno Sky Fly (Breakdance) e Hugo Marmelada (Newstyle). Foram estes os nomes contemplados nesta iniciativa de formação, intitulada “3D – 3 Meses, 3 Danças”, que tem tido lugar todos os meses antes do final do ano e que se apresentou com o objetivode partilhar ao vivo, e a “três dimensões”, a arte e a diversidade da dança. A terminar, na próxima terça, dia 27 de dezembro entre as 18 e as 20 horas, teremos então Hugo Marmelada com o Workshop “Newstyle”, uma ação de formação que decorrerá no Clube Alcobacense (local de aulas da ADA), já depois do sucesso de participação dos dois Workshops anteriores: “Contemporâneo” de Kelly Nakamura, que se realizou a 8 de outubro, e “Breakdance” Bruno Sky Fly, a 5 de novembro. Hugo Marmelada nasceu em Lisboa (1987) e começou a dançar hiphop aos 11 anos de idade, tendo ingressado no Curso de Formação de Bailarinos da Academia de Dança Contemporânea de Setúbal aos

14, onde integrou a Pequena Companhia como intérprete em obras de Carlos Prado, Iolanda Rodrigues, Bárbara Griggi, Cláudia Novoa, Gagik Ismailian, Olga Roriz e Vasco Wellemkamp. Em 2003 venceu o “MTV Shakedown European Dance Contest”. Convidado pela MTV, participou ainda no videoclip “Yeah” do cantor americano Usher. Em 2006 finalizou a formação na Academia de Dança Contemporânea de Setúbal e desde então tem trabalhado com diversas companhias e projetos, enquanto na área do hip-hop tem trabalhado para várias marcas e empresas como a Vodafone, NBP – série televisiva “Morangos com Açúcar”, MTV European Music Awards, Billabong,entre outros. Em battles de newstyle tem vencido vários eventos como a Eurobattle 2009, Soulsession 2010 (Noruega), Street Chalenge 2010 (Noruega), entre outras.


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Academia de Dança de Alcobaça tem inscrições abertas para Cursos Livres de Dança “Ritmos Brasileiros\Variados”, “Capoeira” e “Danças de Salão” revelam nova aposta da Academia de Dança de Alcobaça em ritmos mais diversificados A Academia de Dança de Alcobaça (ADA) tem mais uma vez abertas as inscrições para um conjunto de Cursos Livres de Dança que foram estreados no passado mês de abril e aos quais se junta agora o Curso de “Danças de Salão”. Revelando novamente uma aposta em ritmos mais latinos e tropicais, nomeadamente através dos Cursos de “Ritmos Brasileiros\ Variados” e “Capoeira”, este último em parceria com uma escola conceituada da nossa região, o Grupo de Capoeira GingaCamará, temos aqui a prova do sucesso de projetos como o Workshop “Forróbodó” (ver foto-reportagem na pág. 80) e o Curso Livre de “Forróbodó - Ritmos Brasileiros”, que decorreram nos passados meses de abril e junho respetivamente, nas instalações do Clube Alcobacense, ambos sob a orientação da professora Camila Moreira, também docente da ADA. Assumindo uma nova denominação, o Curso “Ritmos Brasileiros\ Variados” é composto por músicas brasileiras, entre outras, e tem como objetivoensinar a alunos de todas as idades, com ou sem qualquer experiência antecedente, alguns dos ritmos mais carismáticos da nação brasileira, tais como o Samba, Axé e Pagode.

Também em ligação ao Brasil, o Curso Livre de “Capoeira” pretende revelar-nos o universo de uma das danças mais célebres da nação brasileira, em colaboração com o Grupo de Capoeira Ginga Camará. Por último, o Curso Livre de “Danças de Salão” traz-nos uma variedade de ritmos que integra as seguintes formas de dança: Salsa, Mambo, Tango e Merengue, numa parceria com a Fundação Cultural – Armazém das Artes.


As Duas Vidas da

Banda de Alcobaรงa Rui Morais Entrevista


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Na data dos 26 anos do seu Ressurgimento e findas as Comemorações dos 90 Anos da sua Fundação, Rui Morais, Presidente da Banda de Alcobaça (BA), traça-nos um retrato da atividade de uma das instituições mais dinâmicas na região, responsável por alguns dos projectos musicais mais relevantes na história do concelho de Alcobaça. Uma história com duas vidas para contar, desde 1920 até aos dias de hoje, mas sobretudo desde 1985, quando a BA após um interregno de 28 anos renasceu das cinzas para dar lugar a uma escola de música e ao início de uma viagem que actualmente encontra nas suas Academias de Música e de Dança, ou na organização de eventos como o Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça ou o Concurso Internacional de Música de Câmara (CIMCA), algumas das suas áreas mais fortes. Um projecto que não pára de crescer, consciente que a sua história continua a ser escrita, rumo ao futuro, rumo a outras vidas. A Banda de Alcobaça (BA) encerrou em Março as comemorações dos 90 anos de existência e celebrou agora os 26 Anos do Ressurgimento. Que balanço faz das comemorações? Faço um balanço muito positivo. Em relação à banda de música sublinho três eventos que realizámos como a gravação de um disco “ao vivo”, um marco importante porque ficará para o futuro, a participação no concurso de bandas em Vila Franca de Xira que devido a trabalho de casa feito com exigência e qualidade permitiu vencermos na nossa categoria, afirmando a BA como uma das melhores bandas do país. Finalmente, tivemos ainda os concertos de abertura e de encerramento destas comemorações. Comemorar agora os 26 Anos do Ressurgimento tem ainda um valor simbólico especial: por um lado, trata-se de uma espécie de segundo nascimento ou ressurreição, por outro, estes últimos 26 anos mostram uma instituição mais viva do que nunca. Concorda? Claramente, pois apesar da fundação da BA remontar a 1920, o facto de ter ressurgido em 1985 após um interregno de quase três décadas, faz com que a realidade hoje seja, sobretudo, o reflexo deste Ressurgimento. Desde 1985 foi possível não só fazer renascer a banda de música como também afirmá-la no panorama nacional, foi possível criar uma escola oficial de música, organizar um dos melhores festivais de música clássica, entre muitas outras atividades. De onde vem esta relação com a música e com a BA? É muito simples de explicar: a BA surge muito ligada ao Lar Residencial de Alcobaça que funcionava então no Mosteiro e onde o

meu pai trabalhava. Um dia chegou a casa e inscreveu-nos (a mim e aos meus irmãos) na escola de música da BA para termos aulas com o Prof. Álvaro Correia Guimarães, que tinha estado ligado a outras bandas do concelho e que ensinava um pouco de todos os instrumentos. Fui então para a BA aos 9 anos e a partir daí continuei sempre a estudar música, para além dos estudos normais, indo muito cedo para o Conservatório. Fruto dessa minha ligação à música acabo também por ir para Lisboa muito cedo, aos 15 anos, uma vez que eu pretendia seguir estudos superiores noutra área. Mais tarde vou para a Faculdade de Direito (entretanto tinha terminado o Conservatório), e aí ligo-me aos movimentos associativos. É por isso com alguma naturalidade que faço parte da Direção pelo Professor Gaspar Vaz, até que quando ele sai acabo por assumir a presidência, isto há cerca de dez anos. Alguma vez se imaginava ver como Presidente da BA? Inicialmente não, mas a partir de um determinado momento como eu tinha estado ligado ao movimento associativo, quer como Presidente da Associação Académica de Direito quer da Associação Académica de Lisboa, percebi que poderia desempenhar um outro papel, para além de músico, na BA. Depois de uns anos de pujança “instalou-se” uma crise de renovação muito grande, inerente a este tipo de coletividade. Não nos esqueçamos que a BA ressurge em 1985 baseada em crianças que estavam a ser formadas na escola de música e por outras pessoas mais experientes, músicos de outras bandas do concelho. O maestro Vítor Santos que era muito competente, muito empenhado e dedicado, fez a BA trabalhar e evoluir muito, mas também o conseguiu fazer devido à progressão, muito


Entrevista Rui Morais

rápida nalguns casos, dos jovens músicos que foram para o Conservatório. Foi a primeira geração que estudou música a sério, pelo que os músicos mais velhos, amadores, acabaram por sair naturalmente até porque o nível da BA foi subindo muito. Portanto, a BA ganhou esta qualidade homogénea mas ao mesmo tempo nós não éramos assim tantos, entre uns mais profissionais e outros mais amadores, éramos cerca de 15, e uma banda não é feita de 15 músicos. O que quer dizer que quando alguns destes músicos deixaram de aparecer, senão aos concertos, pelo menos aos ensaios, a banda começa a entrar numa crise, até porque a escola de música não conseguiu, quer em termos quantitativos quer qualitativos, assegurar essa renovação. A BA tinha de iniciar um novo ciclo e eu tinha a convicção que o caminho a seguir passava pela criação de uma escola oficial de música, abandonando assim o ensino filarmónico tradicional.

A Banda de Alcobaça no ano de ressurgimento

“A BA tinha de iniciar um novo ciclo e eu tinha a convicção que o caminho a seguir passava pela criação de uma escola oficial de música, abandonando assim o ensino filarmónico tradicional.”

Quais são diariamente os grandes desafios de liderar um projeto deste tipo? Hoje em dia os desafios são muitos e complexos, pois estamos a falar de uma instituição que é proprietária da Academia de Música de Alcobaça (AMA), estabelecimento de ensino vocacional de música e dança autorizado pelo Ministério da Educação (ME), que conta com mais de 100 professores. Um dos pricipais, até por causa do contexto financeiro que vivemos, é desde logo assegurar os financiamentos que permitam pagar os ordenados ao fim do mês e trabalhar com alguma qualidade, pelo menos. Por outro lado, sinto que estamos a fazer um trabalho a médio e a longo-prazo, que está ainda a meio (a AMA tem “apenas” nove anos). Se bem que crescemos muito, ao nível dos professores, mas também dos projetos, com o ensino artístico especializado (vulgo Conservatório), com o ensino da música no 1.º Ciclo (cerca de 2000 crianças anualmente), no Pré-Escolar privado e público e no ensino Sénior, existem escolas de música autorizadas pelo ME com muitos mais anos de experiência do que nós. Como Presidente da BA e Diretor-Executivo da AMA, sinto que ainda estou a formar uma equipa que me permita no futuro próximo desligar-me do dia-a-dia para me focar nas questões estratégicas. Em síntese, os dois grandes desafios hoje são o enquadramento jurídico-financeiro e a questão das instalações, sendo este um dossier já com alguns anos que me deixa algo frustrado. No entanto, continuamos a trabalhar com a Câmara Municipal de Alcobaça (CMA) para que rapidamente a situação se resolva, pois as atuais instalações não chegam para os alunos e projetos que desenvolvemos. De facto, a face mais ativa da BA está hoje na sua escola: a AMA, que trabalha com mais de 4500 alunos e perto de uma centena de professores. Dentro das várias valências que esta possui, o Ensino Articulado, 1.º Ciclo, Pré-Escolar, Cursos Vocacionais, Academia de Dança, entre muitas outras, quais são as áreas que gostaria de destacar? Desde logo pela natureza da escola, os Cursos Vocacionais ou de ensino artístico especializado, principamente os que funcionam em regime articulado: alunos que frequentam de forma articulada uma área vocacional de música ou de dança com a escola de ensino regular. Isso leva a que tenham de estar integrados numa mesma turma, que haja uma verdadeira articulação para a marcação de horários, de salas disponíveis, para além de que o currículo e a carga horária são diferentes. É preciso um diálogo permanente entre a AMA e as direções das escolas e diretores de turma para que tudo funcione. É muito exigente mas muito gratificante. Sente que a AMA está plenamente integrada na realidade populacional do Concelho de Alcobaça ou ainda sente que há mais trabalho a fazer nesse campo? É sempre possível melhorar, mas penso que o nosso trabalho está muito mais divulgado do que no passado recente. Este último ano investimos muito na área da comunicação, sendo muito mais ativos e profissionais, utilizando os meios tradicionais e explorando ao máximo a Internet.


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“Somos um sector do ensino onde as regras estão permanentemente a mudar, sem qualquer certeza na viabilidade do próximos anos.” Apesar do ensino artístico especializado de música ter crescido nos últimos anos, também graças à aposta do ME, recentemente a política de cortes indicia uma regressão neste campo. De que modo é que a AMA pode ser afetada por isso e por consequência os pais e alunos? Esse é o grande problema que temos, não só a questão financeira mas, sobretudo, a incerteza que vivemos ano após ano. Não nos esqueçamos que o ME faz uma reforma profunda no ensino artístico nas áreas da música e da dança em 2008 e 2009, reforma essa que teve aspectos muito positivos ao trazer mais alunos para as áreas artísticas. Quando finalmente as escolas conseguiram estabilizar, o ME em Agosto de 2010 congela o financiamento para novos alunos, pondo em causa as expectativas de milhares de crianças a nível nacional. Isto, do ponto de vista dos princípios, foi grave, mas do ponto de vista prático e financeiro para Alcobaça foi gravíssimo pois tínhamos então 200 novos alunos, fruto de um trabalho de sensibilização durante meses junto das escolas e dos estabelecimentos de ensino. No fim deste trajeto, seguindo as regras impostas pelo ME, é que nos vêm dizer que afinal não pode haver crescimento nas escolas e que todo este trabalho de tem de ser deitado fora! A partir daqui foi o descalabro, pois como se não bastasse esta “travagem a fundo” para o ano letivo de 2010/2011, em Janeiro de 2011 volta tudo a mudar com o financiamento do ensino artístico a transitar do Orçamento do Estado para o Programa Operacional do Potencial Humano (fundos comunitários). Portanto, somos um sector do ensino onde as regras estão permanentemente a mudar, sem qualquer certeza na viabilidade do próximos anos.


Entrevista Rui Morais

Para terminar, o que podemos esperar ainda no futuro de uma instituição como a BA e de todos os seus projetos associados? O principal objetivo é consolidar a AMA com uma das maiores escolas de ensino artístico do país assegurando paralelamente a qualidade do ensino ministrado e dos seus projetos, não só ao nível da música, mas também da dança. Esta é uma área muito específica, com uma exigência muito grande do ponto vista físico, pois tem uma enorme carga horária. Nunca teremos aqui as centenas de alunos que temos na música, e nem é suposto termos, mas gostaria de a curto prazo ter uma turma em regime articulado só de dança! Quando falo em consolidação da música e da dança, tenho de falar ao mesmo tempo do corpo docente. Como atualmente a AMA precisa de muitos professores que, na maioria dos casos, têm de vir de fora da região, queremos tentar criar condições para que muitos destes se fixem por cá.

“Gostava ainda que conseguíssemos desenvolver uma orquestra, local ou regional, em conjunto com outros parceiros, como as autarquias e escolas de música da região” Depois ao nível das grandes atividades, temos de continuar a a afirmar o Cistermúsica, que para o ano fará 20 anos, nomeadamente a nível internacional, e o CIMCA que, apesar de mais recente, tem sido um sucesso, pois havia uma lacuna na dinamização e divulgação da música de câmara em Portugal. Por outro lado, como é um concurso muito virado para fora e com prémios aliciantes, tem sido procurado por dezenas de concorrentes estrangeiros. Finalmente a médio prazo, gostava ainda que conseguíssemos desenvolver uma orquestra, local ou regional, em conjunto com outros parceiros, como as autarquias e escolas de música da região. Porque é que o Oeste não pode ter uma orquestra? Sei que estamos em crise, mas a crise também significa desafio, criatividade e oportunidade. O Algarve tem uma orquestra regional, o Norte tem uma orquestra regional, as Beiras têm uma orquestra regional, porque é que nós não podemos ter? Se for um projeto partilhado por todos não é assim tão difícil.

www.bandadealcobaca.pt


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Banda de Alcobaça Historial

A Banda de Alcobaça (BA) teve, na sua origem, um agrupamento musical composto apenas por instrumentos de metal. Chamava-se Fanfarra Alcobacense e extinguiu-se pouco tempo antes da fundação da Banda. A sua atividade durou de 1900 a 1912, tendo alcançado um alto nível artístico-musical, que lhe valeu o honroso título de Real Fanfarra Alcobacense concedido pelo rei D. Carlos e pela rainha Dona Amélia. Fundada em 19 de março de 1920, a BA levou, durante quase 40 anos, a sua música a inúmeras localidades, tendo atuado numa vasta área do território nacional. Depois de um interregno de 28 anos, a BA voltou à atividade em janeiro de 1985, graças ao empenho de um grupo de Alcobacenses que, para o efeito, criou uma escola de música. Esta veio a dar resultados bastante positivos, pois para além de ter formado músicos para a BA muitos destes seguiram os seus estudos no Conservatório Nacional. Desde o seu ressurgimento a 30 de novembro de 1985, a BA tem vindo a afirmar-se no panorama musical português devido ao repertório executado, mais próximo de uma orquestra de sopros ou mesmo de uma banda sinfónica do que de uma banda filarmónica tradicional, e à qualidade dos seus jovens músicos, que foram concluindo a sua formação musical. Por outro lado, nos últimos anos a principal prioridade da BA tem sido a formação através da Academia de Música de Alcobaça (AMA), escola de música autorizada pelo Ministério da Educação desde o ano letivo de 2002-2003, como escola especializada no ensino da música (vulgo conservatório). A AMA, autorizada pelo Ministério da Educação desde o ano de 2002, como escola de ensino artístico especializado de música propõese formar futuros músicos, criadores, professores, mas também ouvintes. Na verdade, o ensino artístico não só promove a aquisição de competências nos domínios da execução artística especializada a nível vocacional como também ajuda a formar pessoas, desenvolvendo aprofundadamente o seu sentido estético e capacidade crítica. Com um corpo docente composto por cerca de 100 professores, a AMA conta com mais de 4500 alunos em todos os seus projetos, sendo a sua atividade principal os Cursos Artísticos Especializados de Música e Dança frequentados por cerca de 650 alunos. Outras áreas relevantes são, desde 2006, as aulas de Enriquecimento Curricular de Música no 1º Ciclo, iniciativa que abrange mais de 50 escolas do 1º Ciclo em todo o Concelho de Alcobaça e a formação no Ensino Pré-Escolar (Público e Privado). Através de uma parceria com a USALCOA – Universidade Sénior de Alcobaça a AMA ministra ainda cursos neste universo. Para além das atividades letivas, a AMA organiza, desde 2002, o Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça, um dos mais importantes eventos do género no país, e o Concurso Internacional de Música de Câmara de Alcobaça, em colaboração com a Câmara Municipal de Alcobaça, cuja última edição se realizou entre os dias 10 e 15 de abril de 2011. Neste ano letivo (2011/2012), numa parceria com a Escola Secundária D. Inês de Castro (ESDICA), abriu o Curso Profissional de Instrumentista de Sopro e Percussão e o Curso Profissional de Instrumentista de Jazz, este último uma das raras ofertas a nível nacional. Também recentemente, um novo projeto nasceu: a Orquestra B, classe de conjunto dirigida pelo Prof. Rui Carreira (igualmente maestro da BA) e cuja estreia decorreu no Espetáculo de Final de Ano Letivo 2010/2011. Formada por jovens alunos da AMA tem o objetivo de desenvolver e aperfeiçoar as suas capacidades técnicas e artísticas, permitindo assim pôr em prática os conhecimentos adquiridos na disciplina individual de instrumento. Esta orquestra pretende ainda fazer a “ponte” com a BA (Orquestra A). Para além das atividades letivas, a AMA organiza, desde 2002, o Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça, um dos mais importantes eventos do género no país, e o Concurso Internacional de Música de Câmara de Alcobaça, ambos em colaboração com a Câmara Municipal de Alcobaça. Ao longo de 2010, a BA comemorou os 90 anos da sua fundação com várias iniciativas, das quais destacamos a participação no “Concurso de Bandas do Ateneu Vilafranquense”, onde a BA acabou por vencer na sua categoria e a gravação de um disco com algumas das obras mais emblemáticas que esta tem executado nos últimos anos. O Concerto Comemorativo dos 26 Anos do Ressurgimento da BA, realizado no passado dia 30 de novembro, no Cine-Teatro de Alcobaça – João d’Oliva Monteiro (ver foto-reportagem nas páginas seguintes), serviu também para apresentar publicamente o referido disco.


Veja aqui as melhores imagens que marcaram o Concerto Comemorativo dos 26 Anos do Ressurgimento da Banda de Alcobaça, uma noite com várias surpresas e momentos especiais que ficou também assinalada pelo lançamento de um novo disco ao vivo.

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Alcobaça


Foto-reportagem Concerto Banda de Alcobaรงa


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Banda de Alcobaça comemorou 26 Anos do Ressurgimento Concerto de aniversário marcado pela apresentação de novo disco gravado ao vivo A Banda de Alcobaça (BA) celebrou no passado dia 30 de novembro, no Cine-Teatro de Alcobaça – João d’Oliva Monteiro, os seus 26 Anos do Ressurgimento num concerto que foi ainda marcado pelo lançamento de um disco ao vivo que inclui parte do repertório que a caracterizou ao longo dos últimos anos. Gravado no Cine-Teatro de Alcobaça, a 19 de março de 2011, durante o Concerto Comemorativo dos 25 Anos do Ressurgimento da Banda de Alcobaça, este disco sublinha o trabalho de cerca de nove anos do Maestro da BA, Rui Carreira, que aqui propõe o registo de um programa onde são abarcados, resumidamente, os muitos géneros, épocas, estilos e compositores tocados ao longo deste tempo. Segundo Rui Morais, Presidente da BA, e numa Mensagem da Direção que pode ser lida no booklet deste disco, “esta é uma gravação pensada como um todo, coerente musicalmente e representativa do trabalho musical dos últimos anos, onde se acentuou o caráter sinfónico deste agrupamento.” Não se trata de uma iniciativa inédita, sendo esta já a segunda edição discográfica da BA que há precisamente dez anos atrás, por ocasião das Comemorações dos seus 80 Anos, havia então editado o seu primeiro disco, gesto raro na época para uma banda deste tipo. Mas esta não foi a única surpresa na noite de mais um aniversário memorável. Quem esteve no Cine-Teatro de Alcobaça teve também oportunidade de assistir, antes da entrada da BA em palco, a dois momentos especiais que caracterizam atualmente o trabalho desta instituição na área da formação: a atuação, em estreia absoluta, do Ensemble de Professores da Academia de Música de Alcobaça, e a interpretação de três coreografias clássicas por alunas da Academia de Dança de Alcobaça. Contudo, o momento alto do espetáculo ficou naturalmente reservado à BA que não só recriou algumas das obras mais marcantes do seu mais recente disco como apresentou ainda novas peças que se vêm agora juntar ao seu repertório. Por último, a BA encerrou o Concerto Comemorativo com a emblemática “Canção de Alcobaça”, acompanhada pelo Coro da USALCOA – Universidade Sénior de Alcobaça e terminando em apoteose com a descida simbólica ao palco da “velha” bandeira que há precisamente 26 anos atrás assinalou o Ressurgimento daquela que é hoje em dia uma das instituições mais vivas do concelho.

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A Capella Sérgio Carolino Artigo de Opinião

A mecânica da respiração aplicada aos instrumentos de sopro Por vezes, enquanto professores, tornamos esta maravilhosa arte de fazer música demasiado difícil. Muitas vezes os professores pensam em demasia na parte física da performance, como por exemplo, ter uma postura correta, um bom posicionamento do bocal nos lábios, ou mesmo a posição da língua no interior da cavidade bocal. O resultado final deve ser sempre o de extrair uma sonoridade bonita e musical. Possuir o conhecimento técnico, ajudará a corrigir os maus hábitos, providenciando também bons exemplos de como o estudante deve soar. A imitação é e será sempre o melhor professor! Neste pequeno texto, um dos aspetos que gostava de falar e clarificar é o da mecânica da respiração aplicada aos instrumentos de sopro, dado que, uma boa respiração e um bom controlo respiratório, são dois fatores primordiais e essenciais na obtenção de uma excelente sonoridade! O ar flui a partir de uma zona de alta pressão para uma região de baixa pressão. Assim sendo, para inserir o ar nos pulmões vindo da atmosfera, a pressão através dos pulmões – ou seja, a pressão intrapulmonar – deve ser menor que a pressão atmosférica. Similarmente, para fazer sair o ar dos pulmões, a pressão intrapulmonar deve ser maior que a pressão atmosférica. A pressão preenchida pelo gás (dióxido de carbono) no interior dos pulmões pode ser alterada pelo volume da cavidade torácica. Assim, quando o volume da capacidade torácica aumenta, aumenta também o volume dos pulmões. O aumento do volume dos pulmões baixa a pressão intrapulmonar abaixo da pressão atmosférica, e o ar flui para dentro dos pulmões até que a pressão nos pulmões iguale outra vez a pressão atmosférica. Como consequência, o ar flui para fora dos pulmões até que a pressão no interior dos pulmões fique igual ao da pressão atmosférica. Inspiração ou inalação, refere-se ao movimento do ar para dentro dos pulmões. O ar move-se para dentro dos pulmões quando o volume da cavidade torácica – assim como os pulmões – aumenta, e a pressão intrapulmonar diminui. Existem duas maneiras de aumentar o volume da capacidade torácica durante a inspiração. Uma delas é através da contração do diafragma. Quando contrai, o diafragma desce de posição, baixando a sua abóbada. Este movimento aumenta a dimensão longitudinal da cavidade torácica. A segunda maneira consiste em elevar as costelas. Na posição de relaxamento, as costelas inclinam-se para cima e para baixo da coluna vertebral. A contração dos músculos, como a dos músculos intercostais, os quais estão situados entre as costelas, empurra as costelas para cima. Este movimento aumenta a dimensão da cavidade torácica anterior-posterior. Durante uma normal e relaxada respiração, a contração do diafragma tem um significado dominante em aumentar o volume da cavidade torácica e baixando a pressão intrapulmonar. A elevação das costelas é mais evidente aquando de uma respiração forçada.

Expiração, ou exalação, refere-se ao movimento do ar para fora dos pulmões. Como previamente escrito, o ar move-se para fora dos pulmões quando o volume da cavidade torácica – assim como a dos pulmões – diminui, e a pressão intrapulmonar aumenta. Durante uma respiração forçada, o volume da cavidade torácica é diminuído através de um processo passivo, o qual não envolve contrações musculares. Quando os músculos se envolvem numa respiração relaxada, a recolha elástica dos pulmões, a parede peitoral, e a estrutura abdominal fazem regressar as costelas e o diafragma à sua posição de repouso. Esta atividade reduz o volume da cavidade torácica e aumenta a pressão intrapulmonar. Durante uma respiração forçada, como ocorre em exercício, os músculos estão envolvidos numa redução adicional de volume de ar da cavidade torácica. Os músculos do abdómen anterior irão ajudar a forçar a expiração, exercendo pressão na víscera abdominal, forçando o diafragma para cima. As intercostais, os traversus thoracis, os quandratus lumburum, e os músculos serratus inferiorposterior assistem também na redução do volume da cavidade torácica tapando a “gaiola” das costelas.

Compreender as Funções do Diafragma Um dos erros mais comuns nos professores de música tem sido o da explicação da função do diafragma durante a respiração. No livro “A Fisiologia da Respiração: Um Livro para Estudantes de Medicina” do Dr. Arend Bouhuys, Bouhuys escreve no Capítulo 11, intitulado “Actos de Respiração Voluntários: Falar, Cantar, e Tocar Instrumentos de Sopro”, “Os Eixos musculares são numerosos nos músculos intercostais, os músculos mais importantes no regulamento da pressão subglótica. O diafragma, que tem apenas alguns eixos musculares, não tem qualquer função durante o falar ou o cantar.” A função do diafragma é simplesmente o da inspiração, não da expiração. Na verdade, se o diafragma não relaxar depois da inspiração, irá impedir a expiração.

Sérg Ca

Bibliografia Dr. Arend Bouhuys “A Fisiologia da Respiração: Um Livro para Estudantes de Medicina” Textos dos doutores Spence e Mason

Tuba Solo da Professor na Artista Inter


gio arolino

a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música a Escola Superior de Música, Artes e Espetáculos rnacional Yamaha

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Sérgio Carolino BIOGRAFIA Tubista Português e Artista Internacional Yamaha, Sérgio Carolino é um dos tubistas mais aclamados no panorama internacional, estando em constante atividade tanto como solista e professor nos mais diversos festivais de música, conservatórios e universidades um pouco por todo o Mundo - (Espanha, França, Suíça, Finlândia, Bélgica, Holanda, Eslováquia, Alemanha, República Checa, Hungria, Inglaterra, Áustria, Austrália, EUA, Noruega, Tailândia, Peru e Brasil) e brevemente o Japão, a Colômbia e a Argentina. O seu primeiro disco a solo em nome próprio de nome “Steel aLive!”, recebeu em 2008 o “Roger Bobo Award Prize for Excellence in Recording”, organizado pela International Tuba-Euphonium Assotiation (ITEA) e entregue na Universidade de Cincinnatti, nos EUA. Recebeu também o prémio de Músico Revelação de Jazz 2004 em Portugal, pelo crítico de jazz José Duarte para além de ter ganho o Prémio Carlos Paredes pelo 1º disco do trio TGB “TubaGuitarra&Bateria”, editado pela editora portuguesa, Clean Feed. Em junho de 2010, recebeu o seu segundo “Roger Bobo Award Prize for Excellence in Recording” pelo disco “Agreements&Disagreements”, do projeto com Anne Jelle Visser, 2tUBAS&friends, entregue na Universidade Estatal do Arizona, Tucson, EUA. O seu vasto leque de interesses e a sua curiosidade musical leva-o por diferentes caminhos de expressão musical, desde o típico repertório clássico ao mais puro jazz e música improvisada. Estabeleceuse como um virtuoso no repertório standard e contemporâneo para tuba. Desde 2000, está envolvido em novos e inovadores projetos musicais: os “TGB” com Mário Delgado e Alexandre Frazão, “2tUBAS&friends” com Anne Jelle Visser (tuba), Duo e Trio “XL” com Telmo Marques (piano) e Jeffery Davis (vibrafone/marimba), diretor do ensemble português de tubas “How Low Can You Go?”, “European Tuba Trio” com François Thuillier (tuba) e Anthony Caillet (eufónio), “The Postcard Brass Band”, “TUBIC” com a companhia SA Marionetas, os “The Low Frequency Tuba Band” com Marcus Rojas, Jay Rozen e Oren Marshall (tubas), “TUBAX” com Mário Marques (saxofone), “Tu B’Horn” com José Bernardo Silva (trompa), “Tuba ‘n Saxes”, “Mr SC & The Wild Bones Gang”, e mais recentemente, o duo “TUBAB” com o baterista Jorge Queijo. Atualmente, Carolino é professor de tuba e música de câmara na Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo (ESMAE) do Instituto Politécnico do Porto (IPP) e, desde 2002, tuba solo da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música. Recentemente concebeu um novo e único instrumento, o qual batizou com o nome de Lusofone “Lúcifer”, inspirado no Orenophone de Oren Marshall e construído pelos mestres norte-americanos, Tim Sullivam e Harold Hartman. Para mais informações: www.myspace.com/sergiotubabondcarolino


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Simantra Grupo de Percussão foi o grande vencedor da 2.ª edição do CIMCA Prémios na Categoria Sénior deram o 2.º lugar ao Trio Anès e a 3.ª posição ao Trio Musicalis, Duo Liz venceu 2.º Prémio na Categoria Júnior onde o Júri decidiu não entregar o 1.º Prémio

Categoria Sénior, Carla Raposeira, Coordenadora da Área Cultural da Fundação Inatel, também responsável pela entrega do 2.º Prémio na Categoria Júnior, Nuno Azevedo, Embaixador do Concurso, João Pedro Lopes, representante da SONAE e patrocinador da competição através da marca Continente – Modelo, além do Diretor Artístico e Presidente do Júri, António Rosa.

O grande vencedor do 1.º Prémio do II Concurso Internacional de Música de Câmara “Cidade de Alcobaça” (CIMCA) foi o Simantra Grupo de Percussão, decorrida a Final da Categoria Sénior no passado dia 14 de abril no Cine-Teatro de Alcobaça – João d’Oliva Monteiro. Formado em 2009, este grupo levou assim para casa um cheque no valor de 5000 euros e a oportunidade de realizar concertos na temporada de 2012 no Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça, Centro Cultural de Belém e Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura. Nas restantes posições, ficaram o Trio Anès, que ocupou o 2.º lugar (Prémio no valor de 2500 euros), cabendo a 3.ª posição ao Trio Musicalis (Prémio no valor de 1500 euros), tendo o Júri decidido ainda atribuir uma Menção Honrosa ao Trio Pessoa. Já na Categoria Júnior, o Duo Liz venceu o 2.º Prémio da competição (o 1.º lugar nesta categoria não foi atribuído por decisão do Júri), ficando no 3.º lugar o Trio Densité, seguindo-se o Trio com Piano do Conservatório Nacional com uma Menção Honrosa. Ao Duo Liz coube, portanto, um cheque no valor de 1500 euros e ao Trio Densité uma quantia no valor de 1000 euros. Ambos os agrupamentos actuaram no último dia do CIMCA, a 15 de abril, concertos que conquistaram a audiência e decorreram durante a Cerimónia de Entrega de Prémios e o Concerto dos Laureados da competição no Cine-Teatro de Alcobaça – João d’Oliva Monteiro (sede da competição), apresentada pelo Presidente da Banda de Alcobaça e Diretor-Executivo da Academia de Música de Alcobaça, Rui Morais. Entre os convidados, contava-se o Presidente da Câmara Municipal de Alcobaça, Paulo Inácio, responsável pela entrega do 1.º Prémio da

Também o elenco que compôs o Júri do CIMCA, onde se incluíam nomes como Pedro Burmester, Alexandre Delgado, Hugo Assunção, António Oliveira, Luiz Fernando Pérez Herrero (Escuela Superior Reina Sofia, Madrid) e Gunter Pfitzenmaier (Staatliche Hochschule für Musik – Karlsruhe), assistiu à cerimónia, sendo agraciado com uma salva de palmas pelo público.


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E os Vencedores são... Simantra Grupo de Percussão Qual foi a importância da conquista do CIMCA? Na verdade vencer um concurso sempre faz bem ao curriculum de qualquer artista. Um concurso com dimensões internacionais é melhor ainda. Apesar de recente, deu para perceber o alto nível do CIMCA tanto em termos de organização como da participação de grupos oriundos de diversas partes do Globo. Que repercussão pode ter este prémio para o Simantra Grupo de Percussão? Ainda é cedo para dizer. Mas temos certeza que os três concertos que realizaremos por conta do concurso (Guimarães 2012, CCB e Cístermúsica) nos ajudarão a divulgar o nosso trabalho e possivelmente ampliar a rede de contatos para a realização de espetáculos. Fomos noticiados em diversos jornais pelo país (Aveiro, Beira Interior, Alcobaça) e isso nos ajuda a divulgar o trabalho de percussão feito em Portugal. O que foi que vos levou a participar no CIMCA? Como disse, enriquecer o curriculum foi o principal objetivo. O prémio foi consequência. Não tocamos pelo prémio, mas pela possibilidade de “mostrar a cara”, de poder dar o nosso recado. E acho que isso aconteceu perfeitamente! Ter recebido o prémio foi algo que nunca poderíamos imaginar por estarmos competindo com grupos de formação tradicional e excelente nível artístico e técnico. Foi um desafio! O percussionista está sempre a ser desafiado. Acredito por exemplo que a logística que teve que ser criada para irmos a Alcobaça foi algo inédito dentro da história dos concursos de música de câmara em Portugal. Nós literalmente preenchemos o palco do teatro de Alcobaça por completo com o nosso instrumental. De que forma tiveram conhecimento da realização do CIMCA? No nosso meio artístico as notícias sempre correm e se espalham.

Mini-entrevista

Não tenho certeza em como recebemos a informação, mas possivelmente foi em alguma conversa de corredor no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. Depois, obviamente, fomos até o site do CIMCA para melhor nos informarmos. Que experiência e sentimentos retiraram da vossa participação no CIMCA? Em primeiro lugar dizer que quem mais ganhou com esta edição foi a música contemporânea e a sua produção em Portugal. Premiar um grupo que tem no seu cerne a produção de música contemporânea escrita para percussão foi decididamente um voto de confiança do júri ao novo, ao moderno e ao experimental! Estamos certos que a nossa qualidade também mereceu esse voto. Mas ver um concurso desta envergadura sair da rota do conservadorismo, da ótica tradicionalista, realmente nos enche de esperança com relação às produções musicais futuras em Portugal. Ademais, adoramos a cidade de Alcobaça que é um primor de sítio para se conhecer e estar-se bem! A partir de agora, qual será o futuro dos Simantra? O próprio país atravessa uma fase económica e cultural de incertezas por isso não tem sido fácil divulgar o trabalho do Simantra. As pessoas sempre dizem “parabéns”, “excelente trabalho”, mas em concreto mesmo quase nada está a acontecer. A rota dos teatros é muito fechada e sempre olham com desconfiança para as produções jovens e nacionais, oxalá tivessem a mesma leitura progressista do júri do CIMCA! Mas o espírito do percussionista é sempre o de encarar os desafios! Estamos certos e trabalhamos sério para que o Simantra Grupo de Percussão tenha um belo futuro pela frente. Gostaria de agradecer este espaço e dizer que a cidade de Alcobaça poderá sempre contar como o nosso grupo e seus integrantes!


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Biografia Formado no ano de 2009, o Simantra Grupo de Percussão nasce da necessidade de se organizar um grupo de estudos e práticas interpretativas destinado ao repertório da música escrita para percussão. Seus integrantes possuem prémios de interpretação a nível internacional em países como Itália, Portugal e Brasil, tendo extensa experiência em palco em território nacional e estrangeiro. O grupo funciona como um laboratório de pesquisa buscando também a interacção das diferentes expressões artísticas (artes do corpo e artes visuais) com a música contemporânea. Seu trabalho de investigação inclui a valorização e execução do repertório percussivo realizando estreias, primeiras audições e encomendas de obras. A recuperação (arquivo e execução musical) de obras históricas contidas no repertório mas com pouco conhecimento do público também é uma das preocupações desse

grupo. Os pilares de sustentação desse projecto passam por ilustrar novos caminhos, novos olhares sobre a performance musical e pela produção e difusão de uma originalidade estética vinculada ao pensamento intelectual-artístico que esteja ao alcence de todos. Apesar da formação recente, o Simantra Grupo de Percussão já “solou” diante da Orquestra de Sopros da Universidade de Aveiro, o “Concert Pour Trois Percussionists et Orchestre D’Harmonie”, de Emannuel Sejourné e vem realizando concertos com estreias e primeiras audições de obras, como a “prémiere” da obra “Recycling”. “Coalling and Sampling” (versão para grupo) de Edson Zampronha no IV Festival Internacional de Percussão de Tomar – Tomarimbando e concerto realizado no CIANTEC’09 – International Congress of Art, New Technologies and Communication contando com primeiras audições europeias.


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O CIMCA é o único concurso internacional de Música de Câmara realizado em Portugal [...]. Portanto, sendo pioneiro, tem um papel de destaque importantíssimo. Ricardo Monteiro / Simantra


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Um excelente momento de intercâmbio cultural e artístico. Extremamente bem organizado, demonstrando seriedade e competência por parte dos profissionais envolvidos. Fernando Chaib / Simantra

Premiar o esforço e o talento é reconhecer, hoje, os caminhos do nosso futuro coletivo. Premiar a criatividade é dar um sinal de que esse nosso futuro conduzirá a novos horizontes e a novas perspectivas da nossa vida em sociedade. Nuno Azevedo / Embaixador do Cimca 2011


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A grande qualidade dos nossos músicos é reconhecida nos panoramas nacional e internacional e é também graças ao seu esforço e empenho que se consegue criar e manter um evento desta dimensão. Paulo Inácio / Presidente da CMA

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Premiados CIMCA 2011 ········································ Vencedores da Categoria Sénior 1.º Lugar

Simantra Grupo de Percussão Fernando Chaib (Percussão) · Ricardo Monteiro (Percussão) Leandro Teixeira (Percussão) 2.º Lugar

Trio Anès Sae Lee (Piano) · Ryoko Yano (Violino) Seok-Woo Yoon (Violoncelo) 3.º Lugar

Trio Musicalis Mario Pérez (Violino) · Francisco Escoda (Clarinete) Eduardo Raimundo (Piano) Menção Honrosa

Trio Pessoa

Otto Pereira (Violino) · Raquel Reis (Violoncelo) João Crisóstomo (Piano)

········································ Vencedores da Categoria Júnior 1.º Lugar Não atribuído 2.º Lugar

Duo Liz Eva Mendonça (Flauta) · Ricardo Pereira (Violino) 3.º Lugar

Trio Densité Mafalda Carvalho (Flauta Transversal) Samuel Marques (Clarinete, Clarinete Baixo) Laura Felício (Piano) Menção Honrosa

Trio com Piano do Conservatório Nacional Bárbara Costa (Piano) · Sílvia Martins (Violino) Pedro Silva (Violoncelo)

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Fizemos pequenas alterações, ténues, no sentido de permitir a consolidação por um lado, e por outro, o melhoramento de alguns pontos, que pensámos ser importantes [...]. António Rosa / Presidente do Júri


A organização foi exemplar, os prémios bastante bons, assim como os participantes e o júri foram de grande nível. Trio Densité


Um trio de boas

impress천es Trio Impress천es Entrevista


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Foram um dos grandes vencedores do Concurso Internacional de Música de Câmara “Cidade de Alcobaça” em 2009 (Categoria A: reservada a uma média de idades inferior a 20 anos), a primeira edição de uma competição que é já hoje considerada uma das mais importantes do seu género no país. Uma conquista que permitiu ao Trio Impressões todo um mundo novo de oportunidades no universo da música de câmara em Portugal e a passagem por alguns dos espaços e eventos mais relevantes do nosso meio artístico como o Centro Cultural de Belém, a Casa da Música no Porto ou o Cistermúsica. Vera Santos, Rui Ramos e Bernardo Pinhal: são estes os jovens de um trio pouco usual no campo da música de câmara (flauta, clarinete e piano) que ao fim de quase dois anos nos falam sobre a influência que a vitória no concurso teve no percurso da formação e na sua carreira como instrumentistas. E ainda deixam conselhos. Em 2009 venceram a primeira edição do Concurso Internacional de Música de Câmara “Cidade de Alcobaça” (CIMCA): qual foi a sensação dessa conquista? Vera Santos: Eu falo do meu caso e como sou de Alcobaça, foi bastante motivante ver o apoio das pessoas daqui da zona, da família e dos amigos. Sendo um primeiro concurso de música de câmara na minha terra, Alcobaça, foi bastante importante. Como Trio Impressões, foi uma conquista bastante significativa também porque tínhamo-nos formado há poucos meses, em agosto de 2008, e termos logo conseguido um prémio destes, passado pouco tempo de trabalho, foi bastante positivo. Rui Ramos: Impulsionou o nosso grupo e o nosso trabalho, começámos a trabalhar com outro ânimo para os concertos que se seguiram, o que foi muito importante.

“[A vitória no CIMCA 2009] abriu-nos portas de casas de espetáculos importantes onde de outra maneira não teríamos possibilidade […] de podermos fazer concertos, recitais e etc.”

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Um dos objetivos do CIMCA é divulgar jovens músicos e em especial a música de câmara: de que modo é que vencer esta competição vos ajudou no percurso da vossa formação? VS: Nós tínhamos todos muito pouca experiência de música de câmara até essa altura, pelo menos, e eu sinto que abriu-nos portas de casas de espetáculos importantes onde de outra maneira não teríamos possibilidade, e mais neste momento, de podermos fazer concertos, recitais e etc. Na nossa vida como instrumentistas é super importante fazer música de câmara, porque nós sabemos que a vida dos instrumentistas em Portugal não é fácil; são as orquestras, a música de câmara e depois só aqueles que são muito bons é que têm a oportunidade de fazer outras coisas e outros projetos, mas foi bastante importante, porque deu-nos muita experiência que eu acho que nós não tínhamos e que passámos a ter.

“Uma coisa que a música de câmara traz de muito bom para os instrumentistas é a capacidade de podermos interagir uns com os outros, de conhecermos as pessoas com quem estamos a trabalhar, não só pessoalmente, também musicalmente, e isso faz crescer qualquer um” Ao fim de dois anos ainda sentem que essa vitória foi determinante na vossa carreira de músicos? VS: Sim, acho que sim, e de outra maneira não tínhamos evoluído tanto, penso eu, porque uma coisa que a música de câmara traz de muito bom para os instrumentistas é a capacidade de podermos interagir uns com os outros, de conhecermos as pessoas com quem estamos a trabalhar, não só pessoalmente, também musicalmente, e isso faz crescer qualquer um. RR: Basicamente, foi o conhecer mais pessoas, meios novos, tanto aqui em Alcobaça, quando participámos no Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça, e na organização do concurso, que foi


Entrevista Trio Impressões

uma organização muito boa. Expandiu o nível dos nossos conhecimentos, o que foi importante. Como instrumentista também foi importante porque a música de câmara, como a Vera já disse, é um caminho e um futuro em que investimos, e onde é importante investir. Foi essa a nossa escolha... VS: ...e que nos dá muito prazer. Ao longo dos nossos concertos eu senti uma evolução: como é lógico nós ainda estamos numa idade de evoluir como instrumentistas e cada concerto que passava sentíamo-nos melhor do que o anterior, sentíamos que o impacto nas pessoas era cada vez melhor e maior. Conseguimos tocar em Lisboa, no Porto, em Algés, tivemos contacto com variadas plateias, variadas faixas etárias, variados estatutos dentro do mundo da música; havia pessoas que nos ouviam que estavam relacionadas com a música e havia pessoas que não faziam a mínima ideia quem erámos, da nossa história e sinto que o impacto foi bastante positivo, e isso deve-se ao concurso. RR: E fomos sempre bem recebidos em todo o lado.

“Nós ainda estamos numa idade de evoluir como instrumentistas e cada concerto que passava sentíamo-nos melhor do que o anterior, sentíamos que o impacto nas pessoas era cada vez melhor e maior” Para além do prémio monetário, uma das oportunidades do galardão foi precisamente a possibilidade, já referida por vós, de tocarem no Cistermúsica, na Casa da Música no Porto e no Centro Cultural de Belém (CCB): como é que decorreram esses concertos e até que ponto foram importantes no vosso caso? VS: Eu gostava de falar precisamente do Cistermúsica que foi o primeiro concerto, na Igreja Paroquial de Santo André na Cela, perto de Alcobaça, onde tive a oportunidade de ter na plateia muitos amigos, muita família. Senti-me muito bem e muito realizada por conseguir fazer um recital com duas pessoas muito chegadas a mim, o Rui [Ramos] e o Bernardo [Pinhal],o que me permitiu mostrar o trabalho que eu tinha andado a desenvolver na escola até esse momento e a minha própria evolução em termos musicais. No CCB acho que foi uma experiência fantástica porque a sala estava lotadíssima, não cabia nem mais uma pessoa, isto durante os Dias da Música, altura em que há sempre muita gente a circular no CCB, acho que foi uma experiência espantosa.

RR: E com públicos completamente diferentes, em cada sala recebiam-nos de forma diferente, especialmente na Cela que pelo facto da Vera ser praticamente da terra levou a que fóssemos recebidos muito calorosamente. Penso que foi o concerto que mais emoção nos transmitiu. VS: Na Casa da Música foi um bocadinho diferente, foi mais tarde e só em novembro passado, já tínhamos outro repertório e já estávamos diferentes, estreámos uma peça que um compositor amigo nosso escreveu e dedicou a nós, o Daniel Moreira. As expectativas eram outras, o público era outro, foi completamente diferente. Mas para além destes concertos que conseguimos fazer a partir do concurso, fomos convidados também a fazer um concerto no Palácio dos Anjos em Algés no ano passado, onde também fomos muito bem recebidos, um concerto que correu muito bem. Todos estes três concertos, como o Rui estava a dizer, foram concertos que nos marcaram de maneiras diferentes, com públicos diferentes, expectativas diferentes, mas todos muito enriquecedores.


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Sentem a necessidade de mais concursos deste tipo em Portugal? VS: Sim, eu acho que é muito importante e até à data não conheço nenhum assim, penso que haverá um na Póvoa do Varzim, mas com o prestígio e a capacidade de trazer músicos internacionais não creio que haja em Portugal. E como eu comecei por dizer ao início, a vida de um instrumentista em Portugal é muito complicada; ou se toca em orquestras ou se dá aulas, o que também é enriquecedor, não para todos, mas para bastantes músicos, mas a música de câmara continua a estar muito presente na nossa vida e é uma maneira de estimular as pessoas a dedicarem-se mais à música de câmara e a tirarem mais partido dela, é um mundo fantástico. RR: E é uma das poucas possibilidades de uma pessoa continuar ligada a um instrumento visto que os concursos e as orquestras não são para toda a gente. Uma maneira de continuar ligado a um instrumento é fazendo música de câmara e é importante investir nisso através de concursos que com esta relevância não há muitos em Portugal.

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E neste momento que balanço fazem do vosso percurso? VS: Como eu já falei, termos conseguido ter uma peça dedicada ao nosso grupo, para nós é um feito enorme e ainda por cima de um compositor que o ano passado foi compositor residente da Casa da Música, o que é um estatuto mesmo difícil de atingir e bastante importante. Para nós foi uma honra, também porque se trata de uma pessoa chegada, pessoalmente é nosso amigo, e foi um momento importante para nós. Como grupo, o nosso objetivo é continuar a trabalhar, continuar a procurar fazer concursos, procurar fazer concertos, procurar expandir o repertório para a nossa formação, porque é uma formação não muito usual: clarinete, flauta e piano, não é de facto uma composição de um quarteto de cordas ou de um quinteto de sopros que tenha repertório de muitos compositores e acho que é importante enriquecer esse repertório porque é uma formação com bastantes possibilidades e sonoridades. Nós, pelo menos, gostamos. RR: É nossa intenção ajudar a expandir um bocado esse repertório que é muito limitado e que para além da música francesa do Séc. XX pouco mais há fazer do que aquilo que já trabalhamos.

“Como grupo, o nosso objetivo é continuar a trabalhar, continuar a procurar fazer concursos, procurar fazer concertos, procurar expandir o repertório para a nossa formação” E atualmente, que retrato traçam do panorama da música de câmara no país? VS: Eu acho que não há propriamente muitos grupos com muito sucesso em Portugal, até porque eu sinto que da parte do público ainda não é muito fácil aceitar e ir ver um concerto de propósito por causa “daquele” grupo de música de câmara. Ou é o caso, por exemplo, do Quarteto de Cordas de Matosinhos ou qualquer outro grupo que tenha já de facto uma história e um nome, mas se não forem esses poucos grupos é muito difícil uma pessoa predispor-se a ir ver um concerto de música de câmara. E isso, de facto, acho que ainda é uma falha da cultura em Portugal, porque uma coisa é irmos ver uma orquestra, que é uma coisa imponente e que toda a gente gosta de ir ver, mas a música de câmara ainda não está enraizada na cultura em Portugal e acho que é uma pena. RR: Havendo, apesar de tudo, grupos de qualidade em Portugal.


Entrevista Trio Impressões

Como trio, de que modo as vossas relações se estabelecem artisticamente dentro do grupo? Como é que decidem que peças tocar? Ou como é que conseguem conciliar os vossos horários em prol da formação? RR: Relativamente ao repertório não é muito difícil escolher o que tocar devido à escassez. Portanto, pouco mais há do que nós realmente temos no nosso repertório. Em relação à nossa agenda, é um bocado complicado porque somos de três cantos do país; eu sou de Mirandela, a Vera de Alcobaça e o Bernardo de Matosinhos, tínhamos um ponto em comum que era a Escola de Música do Porto, mas que agora, terminados os cursos, não é tão fácil conciliar devido aos empregos. VS: Mas tentamos e fazemos por isso. Em relação ao repertório, começámos por trabalhar coisas que nos foram sugeridas por uma professora, a nossa professora de música de câmara, Raquel Lima, por isso começar foi fácil, já que a professora tem muita experiência e conhece muito repertório; foi ela que nos indicou este tipo de repertório. Agora, o repertório que ainda resta e que nós ainda não trabalhámos, normalmente juntamo-nos, combinamos uma data para ler repertório, assim meio na brincadeira para ver se vale a pena trabalhar ou não, e se é propriamente da nossa escolha. Há uma democracia entre os três e não há ninguém que se imponha nesse aspeto, tentamos sempre trabalhar coisas que nos dão prazer e que achamos que nos vão trazer bons momentos musicais.

Como foi referido, para além do grupo, cada um de vós tem outras atividades e projetos: podem contar-nos algo sobre isso? VS: Estamos os dois a dar aulas e o Bernardo também, neste momento eu estou a tirar um Mestrado, o Bernardo acabou a licenciatura e está em Espanha a tirar o Mestrado em piano, e para já, penso que falo pelos três, a nossa vida basicamente resume-se a estudar, dar aulas e ensaiarmos como trio. Digamos que neste momento não temos muito mais tempo para outros projetos. Tanto eu como o Bernardo ainda continuamos a estudar, o que de facto ocupa-nos bastante tempo. O Rui está parado neste momento, mas tem expectativas de continuar a estudar, por isso acho que nos próximos tempos, pelo menos nos dois próximos anos, talvez, não vamos poder ter muito mais tempo para outros projetos, mas o Trio Impressões tem expectativas de continuar a fazer música. RR: E o mais difícil já foi feito, portanto, era um crime agora desistirmos do trio.

“A música de câmara ainda não está enraizada na cultura em Portugal e acho que é uma pena. Havendo, apesar de tudo, grupos de qualidade em Portugal.” Mas em termos concretos têm alguns planos para o futuro? RR: Em termos concretos, ainda não temos planos. VS: Temos na ideia participar em concursos em Espanha e Itália, já estivemos a falar nisso e estamos a recolher material para continuar a trabalhar, basicamente é isso. Para terminar, que tipo de conselhos têm para os futuros participantes do CIMCA? VS: Acima de tudo que se divirtam tanto como nós. Porque tanto nas provas como nos concertos, fosse o Concerto dos Laureados ou no Cistermúsica, CCB e Casa da Música, acho que acima de tudo nos divertimos imenso a tocar juntos e sentimos mesmo o que estávamos a fazer e acho que isso é o mais importante. Sentir o que estão a fazer, não estarem a tocar só por estarem a tocar, sentirem que estão a fazer alguma coisa de valor e transmitir a energia do grupo para o público, para o júri e para quem estiver a ouvir. RR: E que a pessoa absorva tudo que houver para absorver no concurso onde há a possibilidade de ouvir grupos maravilhosos que tocam muito bem. Foi o que nós fizemos e aprende-se imenso neste concurso a ouvir outros grupos.


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Trio Impressões, jovens músicos de câmara O Trio Impressões são um projeto surgido do Verão do ano de 2008 quando Bernardo Pinhal, Rui Ramos e Vera Santos, alunos da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto (ESMAE), participaram no Estágio Internacional de Orquestra orientado pelo maestro Jean Sébastian Béreau. Rapidamente perceberam que partilhavam interesses comuns e, estudando na mesma escola, tinham a oportunidade de desenvolver um projeto interessante como complemento da sua formação musical. Assim, sob a orientação da professora Raquel Lima, associaram esta ideia à disciplina de Música de Câmara, daí surgindo o Trio Impressões. A participação no I Concurso Internacional de Música de Câmara “Cidade de Alcobaça” foi desde cedo um objetivo do grupo e uma meta a atingir. O facto de terem alcançado o primeiro lugar da categoria A tornou-se desde então um grande incentivo para o grupo, reforçando a sua grande vontade de continuar a trabalhar mesmo fora do plano curricular, e dando a conhecer o repertório existente para esta formação (e até mesmo alargando-o) salientando toda a sua beleza e qualidade.


Foto-reportagem


Espetáculo de

Natal A Academia de Música de Alcobaça e a Academia de Dança de Alcobaça realizaram no passado dia 11 de dezembro de 2010 mais um grandioso Espetáculo de Natal numa iniciativa que cruzou pela primeira vez o trabalho desenvolvido pelos professores de música e dança durante o ano letivo.

Antecipando aquele que será já o próximo Espetáculo de Natal no próximo dia 10 de dezembro, pelas 21h30, no Cine-Teatro de Alcobaça- João d’Oliva Monteiro aproveitamos para rever aqui as imagens da produção do ano passado.


Foto-reportagem Espetáculo de Natal

Academia de Música de Alcobaça promoveu evento único dedicado à quadra natalícia combinando música e dança Integrado no espírito da época e novamente dedicado à quadra natalícia, decorreu no dia 11 de dezembro, no Cine-Teatro de Alcobaça – João d’Oliva Monteiro, mais um Espetáculo de Natal que teve o condão de juntar o melhor de dois mundos no capítulo da aposta na formação da Academia de Música de Alcobaça: a música e a dança. Uma noite fundamental onde se celebraram os valores fundamentais do Natal e o público teve a oportunidade de testemunhar todo trabalho já desenvolvido durante o atual ano letivo por alunos e comunidade escolar naquele que constituiu verdadeiramente um

evento único. Noite ainda onde se demonstrou porque razão o trabalho de todos os alunos e professores nesta área acabou por produzir um conjunto de imagens tão únicas e especiais. Não nos cansamos de dizer: este foi um momento essencial onde os espectadores puderam mais uma vez testemunhar a aposta e o empenho da Academia de Música e Dança de Alcobaça em trazer ao mundo (das crianças e dos adultos) um pouco da magia da música e da dança.


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Nascida para a

MĂşsica Dalila Vicente Entrevista


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Dalila Vicente é Coordenadora do Pré-Escolar e do 1.º Ciclo na Academia de Música de Alcobaça (AMA), uma das áreas de trabalho que mais tem desenvolvido o ensino da música em todo o Concelho de Alcobaça, fazendo ainda parte da Direção da Banda de Alcobaça (BA), instituição que acompanha desde o seu ressurgimento em 1985. Oriunda de uma família de músicos e apaixonada pela música desde que nasceu, retrata-nos a implementação de alguns dos projetos mais emblemáticos da AMA ao longo dos últimos anos, desde as Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) ao Pré-Escolar, passando ainda pelo Ensino Sénior. Num percurso sempre dedicado à música e ao ensino, aqui temos a história de alguém que sabe que a música não pode ser imposta, mas antes ser dada a descobrir. Pela simples razão de que nasce connosco, a coisa mais natural do mundo. A sua ligação à AMA, e antes disso à BA, já vem de longe. Podenos contar um pouco dessa história? Sim, eu vim para a BA no ressurgimento, a convite do meu pai que fez parte do núcleo dos fundadores do ressurgimento. Vim eu e os meus irmãos, já andava na altura a estudar no Conservatório em Lisboa e iniciamos o nosso percurso aqui na BA, e durante largos anos eu e a minha irmã fomos instrumentistas da BA e depois mais tarde acabei por ficar na própria direção da BA também. Atualmente, continuo na direção e sou professora da AMA. Estando tanto tempo ligada à BA, qual é a importância que a música tem na sua vida? A música na minha vida existe desde que eu nasci. Os meus pais, ou melhor dizendo, o meu pai era músico, na família do meu pai todos eles eram músicos, tinham um conjunto, os Irmãos Vicente, portanto, eu ouço música desde a barriga da minha mãe. Comecei a aprender música formalmente com cinco anos de idade, na altura piano, depois entrei para o Conservatório em Lisboa com nove anos, fiz o meu percurso em piano e trompete, sempre vivendo em Alcobaça e estudando em Lisboa e a música acompanhou-me sempre ao longo da minha vida, e espero que continue a acompanhar.

“A música na minha vida existe desde que eu nasci. […] Portanto, eu ouço música desde a barriga da minha mãe” Mas até que ponto é que vai essa relação com a música? Eu não consigo passar um dia sem música, seja a ouvir música, seja a tocar a qualquer instrumento, seja a partilhar músicas com outras pessoas, a ler música, a música está sempre presente.

E como é que surgiu esta oportunidade de liderar o projeto das Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC), além de outros, obviamente, na AMA? O ensino da música em Portugal sempre foi até há poucos anos feito por pessoas que eram instrumentistas e não tinham a formação pedagógica. Eu tive a oportunidade ao longo da vida de ter participado em vários projetos que me davam formação pedagógica, nomeadamente fazendo parte da Sinfonia, que era uma loja de música propriedade dos meus pais, na época na área das novas tecnologias, nos cursos Yamaha e Technics, formação essa que não existia e era uma novidade em Portugal. E isso deu-me acesso a saber trabalhar em grupo com crianças, portanto, tive acesso a uma formação que não era muito comum cá. Quando vim para a AMA, implementámos isso aqui e quando se deu esta novidade das AEC’s no 1.º Ciclo fui naturalmente convidada. Já tinha esse “knowhow” e a direção entendeu que eu seria a pessoa mais indicada para estar à frente desse projeto, que é um projeto que me dá muito gozo fazer porque temos a possibilidade de desenvolver musicalmente todas as crianças do Concelho de Alcobaça. Todas sem exceção, portanto, estamos a falar de um universo de 2500 crianças. É um trabalho fantástico. Precisamente, desde o ano letivo de 2006/2007, ano em que a AMA abraçou o projeto das AEC’s no 1.º Ciclo, passaram já quase cinco anos de trabalho nesta área. Que balanço podemos fazer? Em sala de aula é um balanço muito positivo, embora tenhamos algumas dificuldades, nomeadamente em recrutar profissionais com as habilitações exigidas por lei, porque os cursos que habilitam as pessoas para dar estas aulas têm vindo a fechar no país ao longo dos anos, e nós aqui em Alcobaça não temos Ensino Superior, portanto, é uma dificuldade que sentimos. No entanto, o que conseguimos fazer nas salas de aula com as crianças já se nota no 2.º Ciclo. Quando as crianças passam para o 2.º Ciclo faz-se uma avaliação diagnóstica e ao longo dos anos nota-se uma evolução nos conhecimentos musicais das crianças. E é engraçado, porque também ao mesmo tempo conseguimos envolver as famílias numa área que não era muito comum. E nesse sentido, qual é a importância que podem ter as AEC’s


Entrevista Dalila Vicente

na vida de um aluno e ainda mais em idades como esta? Atualmente, devido aos media, o que as crianças ouvem, seja em casa, seja no centro comercial, seja onde for, passa muito pela música “mainstream”, pela pop. Já nas aldeias, ainda se vai ouvindo música tradicional, mas é muito raro, portanto, onde elas têm possibilidade de ouvir outros géneros de música, se não for a escola a dar, não ouvem. Assim, se ninguém souber que existe, ninguém lê “Os Lusíadas”, portanto, nós temos essa função de complementar aquilo que a criança não tem em casa e a que pode ter acesso. Pode e deve ter, na minha opinião, acesso na escola. E ao mesmo tempo, através das crianças conseguimos chegar à família mais alargada, aos pais, aos avós, que vêm participar com as crianças em determinados eventos que nós fazemos, como o Concurso de Canções, por exemplo. Ou seja, no fundo, estamos a formar gente nova, as crianças, que no futuro se tornarão adultos, mas ao mesmo tempo também estamos a formar as próprias famílias, que se calhar não tiveram a oportunidade de serem sensibilizadas para a música e que assim acabam por entrar um pouco nesse universo. Exatamente. Tivemos há pouco tempo uma experiência muito interessante, estamos a receber visitas de estudo do Pré-Escolar aqui no edifício da AMA e numa dessas visitas disse-me uma menina de quatro anos: “a minha avó anda a ter aqui aulas de música.” E era verdade, a avó dessa menina vinha no dia seguinte ter uma aula de música no projeto USALCOA – Universidade Sénior de Alcobaça, portanto, neste momento abraçamos as gerações desde os quatro meses de idade até aos 89 anos, que é a nossa aluna mais velha.

“Em primeiro lugar, para se conseguir liderar alguma coisa nós temos de saber o que é que queremos. Se não tivermos os nossos objetivos bem definidos perdemonos no caminho” A AMA trabalha com mais de 50 escolas do 1.º Ciclo no Concelho de Alcobaça, cerca de 30 professores e mais de 2000 alunos. Como é gerir todas estas pessoas e estas entidades? Em primeiro lugar, para se conseguir liderar alguma coisa nós temos de saber o que é que queremos. Se não tivermos os nossos objetivos bem definidos perdemo-nos no caminho. Depois é preciso saber ouvir o outro lado, ter a humildade de ir junto das pessoas e ouvi-

las e perceber o que é que elas querem do serviço que nós estamos a prestar. Em relação aos professores, estar atento, saber quais são as dificuldades que eles têm, tentar resolver essas dificuldades para eles conseguirem melhorar. Nós aqui fazemos isso reunindo todos os meses com os professores para que eles tenham a oportunidade de ouvir, mas também de expor as dificuldades que eles sentem no dia-a-dia. Uma outra coisa que eu faço frequentemente é dar aulas e convidar os próprios professores a assistirem às aulas para depois poderem refletir sobre aquilo que viram. Fazemos também sessões de reflexão no final de cada período, temos reuniões periódicas, e digamos que ao longo dos cinco anos temos vindo a afinar algumas estratégias de trabalho que têm vindo a ter bons resultados, tanto assim é que somos inspecionados pela Inspeção Geral de Educação, e é a única AEC no Concelho que tem resultados muito positivos em toda as inspecções. Sentiu no início da implementação deste projeto alguma forma de resistência das entidades, escolas, ou até mesmo de professores, pais e alunos? Senti muita resistência, o que eu considero que é muito natural porque este programa da escola a tempo inteiro onde se inserem as AEC’s veio revolucionar completamente um sistema, um modo de trabalho que já estava instituído há muitos anos, há décadas; portanto, mudar drasticamente aquilo que era a norma não é fácil. Ainda por cima mudar de uma forma onde habitualmente só estaria um professor e passaram a estar quatro. Não é fácil partilhar a sua sala de aula, os seus alunos, com mais três pessoas que não se conhecem de lado nenhum, que vieram, chegaram e “caíram ali de pára-quedas”. Houve necessidade de construir relações. Houve necessidade das pessoas perceberem que a aula de música não era apenas cantar umas cançõezinhas, que tínhamos conteúdos para ensinar, que a música era uma mais-valia na vida das crianças e também dos próprios professores titulares. Sobretudo, a maior resistência foi dos profissionais que estavam já em campo a receber estes novos profissionais que chegavam ali. Quais são as grandes diferenças que sente ao fim destes anos com a introdução nas escolas das AEC’s? Na generalidade pode-se dizer que há maior abertura, nalguns sítios já se consegue trabalhar em parceria, consegue-se fazer articulação, a escola está mais aberta à comunidade. Há localidades, aldeias e escolas onde se consegue trabalhar inclusive com os pais, o que era uma dificuldade, portanto, eu penso que estamos no bom caminho, ainda não é perfeito, obviamente, mas estamos no bom caminho. Vendo que os filhos acabam por ficar mais ricos com a relação criada com a música, sente que os próprios pais também acabam por ter o desejo de tocar música ou de entrar nesse mundo? Esse desejo, por vezes, é notório na passagem do 4.º ano para o 5.º ano quando elas têm a oportunidade de se inscreverem no Ensino Vocacional e aí, no ato da inscrição, os pais dizem: “quero que os meus filhos aprendam piano porque eu não pude aprender” ou “quero que o meu filho aprenda violino porque eu não pude aprender”. Isso existe, sim. Vê com alguma preocupação a dinâmica de cortes que o Minis-


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tério da Educação tem vindo a empreender nestas áreas e acha que isso pode afetar o trabalho que se fez até agora? Não vejo com alguma preocupação, vejo com muita preocupação. Um professor em sala de aula não deve estar preocupado se aquilo que está fazer vai ter continuidade ou não. Um professor tem de estar preocupado com o seu trabalho. Se o professor souber que o que está a fazer hoje não vai ter sequência amanhã perde o élan daquilo que está a fazer. Além do mais eu não consigo conceber que se corte a possibilidade a uma geração inteira, porque é isso que está a acontecer, de ter acesso a uma educação artística. Não entendo isto, a educação artística ou a Arte é o que diferencia o Homem do animal, o animal não tem educação artística, o Homem tem. Isto é o que nos diferencia da espécie animal e dos restantes. Não entendo, é superior à minha capacidade.

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“Houve necessidade de construir relações. [...] das pessoas perceberem que a aula de música não era apenas cantar umas cançõezinhas, que tínhamos conteúdos para ensinar, que a música era uma mais-valia na vida das crianças”


Entrevista Dalila Vicente

Mas sente de facto o perigo de muitas destas atividades acabarem ou de pelo menos alguns alunos não terem a oportunidade que outros durante os últimos cinco anos acabaram por ter? Ninguém sabe no estado atual em que o nosso país está o que vai acontecer, portanto, é uma situação que temos de encarar como possível. Para além disso, e passando agora para outro dos projetos da AMA, em idades praticamente opostas, existe ainda uma parceria com a USALCOA – Universidade Sénior de Alcobaça. Quais têm sido os grandes frutos desta relação? Em relação à USALCOA é muito grato porque todos os dias assistimos aqui a lições de vida, os nosso séniores têm 50 anos, o mais novo, e 89, o mais velho. São pessoas dinâmicas e que vão absolutamente contra aquela ideia do “velhinho desgraçadinho” e “coitadinho”. Vêm com muita alegria, entregam-se, trabalham, têm levado o nome de Alcobaça longe, estiveram em Itália, já foram aos Açores, enfim, são um exemplo a seguir. Em relação ao pré-escolar, onde tem havido igualmente um trabalho profundo, mas apesar de ser uma idade bastante precoce, quais são as diferenças e as atenções que se devem ter no ensino da música nessas idade em comparação, por exemplo, com o 1.º Ciclo? Ou seja, como é que consegue meter nessas crianças tão jovens o desejo da música? Eu diria de forma diferente; não é como se consegue meter, é só ter o cuidado de não matar. Todos nós somos seres musicais, o primeiro som que nós ouvimos, o primeiro ritmo, é o coração da nossa mãe e estamos nove meses imersos nisto e imersos num mundo sonoro. Quando nascemos já temos nove meses de música sem darmos por ela. O que se passa no pré-escolar, tal como as outras atividades que se fazem num jardim de infância, é dar a descobrir, dar a conhecer, deixar manipular. Também fazemos muito aproveitar a música para fazer a oralidade, pegar numa baquete para desenvolver a motricidade fina, para desenvolver a lateralidade fazemos canções com movimento, enfim, eu diria que a “música dá para quase tudo e mais alguma coisa”, jogos de matemática, lógica e espaço. A música é matemática pura, portanto, está tudo envolvido na música. Mas há um método, há uma fórmula? Há. Existem vários métodos já provados cientificamente, mas o que eu digo é: se houvesse um método que fosse a solução global e eficaz era esse método adoptado em todo o mundo, o que nós fazemos é, de cada método, escolher aquilo que melhor se adapta a cada sala, a cada circunstância, a cada criança, é isso que nós temos de fazer. O que funciona numa instituição pode não funcionar noutra, nós temos instituições, por exemplo, que são da Igreja Católica e temos outras que são da Igreja Baptista, obviamente, não podemos ensinar os mesmo conteúdos, as mesmas canções num lado como no outro. Temos de ter a perceção da instituição onde estamos e trabalhar sempre em articulação com os projetos educativos dessas instituições. Temos um outro projeto que é um grande orgulho da AMA, nós trabalhamos em todo o pré-escolar público do Concelho de Alcobaça de forma gratuita e isto é um orgulho muito grande, não tenho conhecimento que exista em mais algum

lugar. Nos cinco agrupamentos escolares, todas as crianças deste Concelho têm acesso à música. Tem normalmente reações dos pais? Ou os pais falam com os professores e estes vêem ter consigo contar a reação a todo este trabalho? Sim, no que diz respeito no pré-escolar público os titulares de grupo fazem sempre uma avaliação de cada trimestre e essa avaliação tem sido extremamente positiva. Este projeto é o segundo ano que existe, em relação aos pais, o contacto direto que eu tenho com eles dá-se nas festas, festas de final de ano, festas de Natal, e é fantástico, é muito bom. Muitos pais dizem: “eu gostaria imenso de ter tido esta oportunidade e não tive”, “na minha época não se usava”, é muito bom.

“Eu não consigo conceber que se corte a possibilidade a uma geração inteira, porque é isso que está a acontecer, de ter acesso a uma educação artística” E em que áreas sente que é preciso evoluir mais e trabalhar com mais profundidade a música? Nós aqui no nosso Concelho temos ainda algum défice ao nível das necessidades educativas especiais, podemos ainda investir muito nesse sentido. Podemos investir ainda na população mais idosa, além da USALCOA, porque estou a falar das IPSS’s, idosos mais dependentes e que não se possam deslocar, porque quem está na USALCOA são pessoas autónomas, e os restantes não são ou não têm acesso aqui à sede do Concelho. Nessa parte, eu gostaria ainda que fosse possível apostarmos. Também ao nível dos jovens que estão, por exemplo, na CPCJ (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens) e que poderiam ter um projeto de vida ligado à música, porque não? Nós sabemos hoje como a música é tão importante para eles, basta ver os grupos portugueses que surgem, as letras fantásticas que são feitas pela população jovem. Portanto, acho que nestes dois vetores ainda temos muito espaço, muito para andar e falta-nos seguir por aí. Por último, se pudesse deixar uma mensagem aos pais que ainda não vêm a música como um futuro ou uma possibilidade de vida qual seria? Eu diria que todo o meu percurso profissional, portanto, todo o meu ganha-pão, toda a minha vida, vem da música, e como eu, os restantes professores que trabalham nesta casa e todos os milhares


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neste país. Já há muito que a música deixou de ser apenas para aqueles “doidinhos que fazem umas coisas”. O que eu costumo fazer quando os pais estão renitentes é convidá-los a assistir a uma aula. É muito bom.

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Miquel Bernat


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3.º Curso de Percussão traz Miquel Bernat e Joaquim Alves a Alcobaça Ação decorre de 20 a 23 de dezembro com a direção artística do músico alcobacense Manuel Campos A caminho de mais uma edição, o 3.º Curso de Percussão vai voltar a realizar-se no Cine-Teatro de Alcobaça – João d’Oliva Monteiro, entre os dias 20 e 23 de dezembro, novamente sob a Direção Artística de Manuel Campos, conceituado percussionista alcobacense que desde o início tem liderado esta ação de formação. Apresentando desta vez uma Masterclasse pelo conceituado Prof. Miquel Bernat, que abordará a vertente solística do intérprete a partir da análise a obras apresentadas pelos participantes, esta iniciativa renova ainda a presença do Prof. Joaquim Alves que, após o sucesso da última edição, nos volta a trazer a sua veia inovadora na aproximação a novos ritmos associados à cultura urbana e alternativa. Mais uma vez promovido pela Academia de Música de Alcobaça, o 3.º Curso de Percussão tem como principais objetivos desenvolver, dinamizar e incentivar a troca de conhecimentos e experiências artísticas entre percussionistas destinando-se a alunos de qualquer escola de música, profissionais e/ou simpatizantes do mundo da percussão.

Miquel Bernat Miquel Bernat é percussionista e pedagogo. Entrou no mundo da música aos seis anos, por herança familiar, na localidade onde nasceu: Benisanó (Valência). Tal como em outras pequenas localidades, existem aí exímios músicos (tocadores de caixa de rufos) de bandas filarmónicas. Desde essa altura que nunca pensou tocar outra coisa senão percussão. Decidido a seguir a carreira musical, estudou no Conservatório de Valência. Rumou depois a Madrid para se formar a nível superior. Aos 19 anos concorreu para a vaga de percussionista da Orquestra de Barcelona. Entrou, mas logo percebeu que precisava de novos rumos. Foi estudar para os conservatórios de Bruxelas e de Roterdão com o norte-americano Robert Van Sice, com quem começou a interessar-se por sonoridades contemporâneas, e passou pelo Aspen Summer Music Course, nos Estados Unidos. Ainda não tinha terminado o curso quando o professor o convidou para ser seu assistente em ambos conservatórios. Começou assim, aos 21 anos, a carreira como pedagogo que o trouxe, mais tarde, a Portugal. Quando foi convidado pelo diretor da Escola Profissional de Música de Espinho a lecionar Masterclasses, em 1991, era já um músico de prestígio, fundador dos grupos Ictus Ensemble de Bruxelas e o Duo Contemporain de Roterdão. Tinha já arrecadado vários galardões, como o Prémio Extraordinário Final de Curso (conservatórios de Madrid e Bruxelas), o Prémio Especial de Percussão e o segundo prémio de interpretação de Música Contemporânea, com o Rotterdam Percussive (concurso Gaudeamus, Holanda), bem como o segundo prémio do Aspen Nakamichi Competition (EUA), como solista. Espinho permitiu ao músico começar a criar raízes em Portugal. Em 1994 surge a oportunidade

iniciar novo rumo tanto na sua vida profissional como na vida da música portuguesa: é convidado a dirigir o primeiro curso superior de percussão, na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (Porto). Com a liberdade que lhe foi concedida, implantou um curso virado para a contemporaneidade. Foi a necessidade de tocar ao vivo, juntamente com os seus alunos e outros músicos, que surgiu, em 1999, o Drumming – Grupo de Percussão (DGP), coletivo com um conceito inovador que cruza diversas sonoridades. O DGP destaca-se pelas suas propostas irreverentes. Em 2001, foi o grupo residente do Porto – Capital Europeia da Cultura. Seguindo a ideia de «espetáculo total» como forma de expressão artística, Bernat gosta de quebrar fronteiras. Trabalhou com coreógrafos conceituados como Anne Teresa de Keesrmaeker e Roberto Olivan. Especialista em música contemporânea, tem contribuído para expandir as suas possibilidades, propondo abordagens inovadoras e a invenção de novos meios. Já incentivou a criação de obras e difundiu peças que a ele lhe foram dedicadas. Recentemente, formou o colectivo Musica Presente, que é já uma referência na criação musical europeia.

Joaquim Alves Joaquim Alves começou os seus estudos musicais em 1989 na Escola Profissional de Música de Espinho e em 1993 foi estudar para o Conservatório de Roterdão. É Licenciado em Percussão pela Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo. Durante estes anos teve como professores, Carlos Voss, Elisabeth Davis, Miquel Bernat, Robert van Sice, Emannuel Séjourné, Manuel Campos e Nuno Aroso. Em 1990 e 1991 participou em estágios da OPJ e de 1993 até 1995 nos estágios da Orquestra de Harmonia de Jovens da União Europeia. Entre os anos de 1993 e 2003 trabalhou variadíssimas vezes como artista convidado com a Orquestra Gulbenkian, Régie Sinfonia, ONP, OSP e Orquestra do Norte. Em 2000 estudou música popular brasileira e percussão teatral com percussionistas brasileiros, como Vinícius Barros, Rogério Boccato, Dalga Larondo. Desde 2005 tem feito, como monitor e formador, workshops de percussões brasileiras, Cajon Flamenco e Peruano, ritmos e percussões alternativas, em alguns festivais como o Andanças (2005, 2006, 2008, 2009), no festival de percussão de Tomar Tomarimbando (2007, 2009, 2010). Em 2007 e 2008 foi monitor dos workshops “Princípios do Ritmo”, “Ritmos Urbanos” e “Ritmos do Mundo” na Casa da Música do Porto inserido no seu Serviço Educativo. Em 2008 criou o Workshop “Lixo com Ritmo”, com o qual tem percorrido várias regiões de Portugal (Porto, Matosinhos, Póvoa do Varzim, Espinho, Vila do Conde, Torres Vedras, Vila Real, Miranda do Corvo, S. Pedro do Sul, Covilhã, Guimarães) Em 2008 e 2009 foi o monitor dos “Dias da Percussão” no Conservatório de Música de Vila Real. Em 2009 e 2010 foi formador do workshop “Tambor das Sílabas” na Casa da Música, inserido no seu Serviço Educativo. É professor de Percussão desde 1993 na Escola Profissional de Música de Espinho e coordenador da classe de percussão da mesma escola desde 2002.


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AMA promoveu 2º Curso de Percussão com os percussionistas Markus Leoson e Joaquim Alves Presença de conceituado percussionista sueco e workshop dedicado a ritmos inovadores através do lixo e da reciclagem foram os grandes destaques A Academia de Música de Alcobaça (AMA) realizou entre os dias 20 e 23 de dezembro, no Cine-Teatro de Alcobaça - João d’Oliva Monteiro, o 2º Curso de Percussão, uma iniciativa que contou com a direção artística do músico alcobacense Manuel Campos e teve entre os seus formadores Markus Leoson e Joaquim Alves. A introdução a uma série de ritmos inovadores (hip-hop, kuduro, funk, samba, reggae, entre outros) através do lixo e da reciclagem, segundo um workshop de Joaquim Alves, além da presença do conceituado percussionista sueco Markus Leonson, foram os grandes destaques desta iniciativa. Atualmente considerado um dos percussionistas mais solicitados a solo, embora também trabalhe como professor, Markus Leoson dá frequentemente aulas de Mestrado em várias escolas de música e festivais. Além do prémio de solista sueco que lhe foi concedido em 1995, venceu diversos concursos internacionais de música como o Concurso EBU IFYP 1997 (Fórum Internacional de Jovens Artistas e Intérpretes) em Bratislava e o ARD Concurso Internacional de Música de Munique no mesmo ano, tendo levado também para casa o prémio de segundo lugar no Concurso Nórdico de Solistas em Reykjavik de 1995.

Depois da passagem do percussionista sueco Markus Leoson nos dois primeiros dias, foi a vez de Joaquim Alves mostrar aos seus alunos, entre os dias 22 e 23 de dezembro, que há muita música para tirar de todos aqueles objetos que normalmente atiramos fora e julgamos inúteis. Afinal, pode haver um instrumento (pelo menos de percussão) em cada objeto que encontramos no lixo: foi isso que o Workshop “Lixo com Ritmo” acabou por confirmar, tendo como base ritmos como o hip-hop, o kuduro, o funky, o samba reggae, entre outros, aqui associados a objetos como garrafas, bidões, bilhas, colheres de pau, sacos plásticos, tambores de máquinas de lavar loiça, latas e etc. O resultado foi único e as fotos comprovam como tudo se desenrolou nos bastidores de mais esta experiência formativa que teve como grande culminar um Concerto Final no Cine-Teatro de Alcobaça João d’Oliva Monteiro e onde os alunos mostraram a que ponto se podem tirar ritmos e harmonias do que consideramos lixo.


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Foto-reportagem É Tão Bom Cantar em Coro

É Tão Bom

Cantar em Coro Auditório da Biblioteca Municipal de Alcobaça recebeu Coros Infantil e Juvenil da Academia de Música de Alcobaça


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“É Tão bom Cantar em Coro” mostrou o trabalho dos alunos durante o ano e as qualidades do canto coral para os mais jovens A Academia de Música de Alcobaça apresentou no passado dia 25 de fevereiro, sexta, pelas 19 horas, no palco do Auditório da Biblioteca Municipal de Alcobaça, uma audição dos Coros Infantil e Juvenil da Academia de Música de Alcobaça. Composto por alunos entre os 6 e os 9 anos e os 12 e os 15 anos respectivamente, estes apresentaram-se ao público numa iniciativa que levou o sugestivo título “É Tão Bom Cantar em Coro”. Este evento procurou não só mostrar o trabalho desenvolvido pelos alunos ao longo do atual ano letivo, sob a direção da professora Oxana Khurdenko, assim como as qualidades do canto coral junto dos mais jovens.

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Foto-reportagem É Tão Bom Cantar em Coro


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Foto-reportagem

Forróbod Academia de Dança de Alcobaça promoveu Workshop de Carnaval com ritmos brasileiros durante o mês de fevereiro onde alunos de todas as idades aprenderam algumas das danças mais carismáticas da época, tais como o Samba, Axé e Pagode. E naturalmente, todo o mundo acabou na rua a dançar.


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Foto-reportagem Forróbodó

“Forróbodó” realizou-se em fevereiro no Clube Alcobacense e teve como objetivo ensinar alguns dos ritmos brasileiros mais famosos do Carnaval E eis como decorreu o workshop “Forróbodó”: foi assim durante os dias 12, 19 e 26 de fevereiro, nas instalações do Clube Alcobacense, através de mais uma iniciativa da Academia de Dança de Alcobaça, sob orientação da formadora Camila Moreira e com um número de inscritos que ultrapassou todas as expectativas. A poucas semanas do início do Carnaval, esta foi a melhor forma de treinar ritmos e movimentos ao som do maravilhoso universo da música brasileira numa clara antecipação da época festiva que todos os alcobacenses habitualmente anseiam por esta altura do ano. Marcado por músicas brasileiras, o objetivo desta iniciativa consistiu em ensinar a alunos de todas as idades, com ou sem qualquer experiência antecedente, alguns dos ritmos brasileiros mais carismáticos da época, tais como o Samba, Axé e Pagode. Graças a estas imagens podemos observar como decorreram a primeira e última sessão de aulas do workshop junto das duas turmas que compuseram o workshop (jovens e adultos); dias onde o riso e a animação foram uma constante, sempre com muito ritmo e empenho de todos os inscritos, terminando a sua participação numa demonstração ao ar livre e em frente ao Mosteiro de Alcobaça que permitiu ao público não só assistir como ter também a oportunidade de experimentar.


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Letras e Sons

História do Jazz, José Duarte Sextante Editora José Duarte é um dos nomes incontornáveis do jazz em Portugal e porventura um dos maiores divulgadores do género, considerado uma autêntica autoridade ao nível do conhecimento e da memória musical neste campo. Autor do programa de rádio “Cinco Minutos de Jazz”, um clássico que já passou pela Rádio Renascença, Rádio Comercial e hoje em dia é emitido na RDP Antena 1, neste livro apresenta-nos, numa primeira parte, a história do jazz, organizada segundo os principais movimentos, por ordem cronológica, à qual se segue uma cronologia de 1917 a 2009, integrando os principais eventos ligados ao jazz e integrados noutros eventos do mesmo ano. Não só: aqui temos ainda acesso a informações, biografias e sugestões sobre o mundo do jazz, numa obra que se pretende acessível e é profusamente ilustrada. Membro da International Association for Jazz Education e da Jazz Journalists Association, José Duarte colaborou em 2001 na segunda edição do “The New Grove Dictionary of Jazz”, tendo sido recentemente distinguido com a Medalha de Mérito do Ministério da Cultura.

Dvórak – Vida e Obra, Neil Wenborn Bizâncio O compositor checo Antonín Dvorák é um dos gigantes da música do século XIX, associado ao período romântico e que integrou em muitas das suas peças melodias populares da Morávia e da sua Boémia Natal. A sua sinfonia “Novo Mundo” é uma das criações mais apreciadas do repertório clássico, e a sua produção rica e variada continua a ser essencial nos concertos que se realizam em todo o mundo. Catapultado para a fama pelo tremendo êxito das suas “Danças Eslavas”, Dvorák era, no fim da vida, um dos mais célebres compositores do mundo, orgulhando-se, contudo, de ser apenas um “simples músico checo”, tão inspirado pelas tradições do povo como pelas obras-primas de Mozart, Beethoven e Wagner. Esta obra, parte de uma coleção destinada a retratar a vida e o trabalho de alguns dos mais célebres autores da música universal, traça o percurso de uma extraordinária carreira criativa que incluiu a música tocada por aldeãos na Boémia rural, as grandiosas recepções da Inglaterra vitoriana e o dinamismo da Nova Iorque fin-de-siécle (contém ainda dois CDs).

Leonard Bernstein – A Intervenção Cívica de um Músico Americano, Barry Seldes Bizâncio Não estamos perante um livro qualquer: esta obra de Barry Seldes não só se apresenta perante os amantes da figura do compositor Leonard Bernstein de uma forma muito acessível, como revela ainda documentação que nos permite uma melhor compreensão da sua carreira e do modo como, nos anos 1950 e 1960, a cultura americana estava profundamente ligada ao poder político. Desde a sua estreia como maestro em 1943 até à sua morte em 1990, a carreira de Leonard Bernstein nunca conheceu outra coisa a não ser o êxito. Neste extraordinário e inovador relato da vida política do maestro, Barry Seldes analisa a sua carreira no contexto da América da Guerra Fria, das listas negras do Departamento de Estado na década de 1950, da sua voluntária exoneração da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque, até ao humilhante documento que se viu forçado a assinar para reaver o seu passaporte, bem como a tentativa de Nixon para sabotar a sua carreira. Recorrendo aos arquivos do FBI, até há pouco indisponíveis, bem como aos arquivos pessoais de Bernstein, o autor associa pela primeira vez os grandes êxitos artísticos do maestro à sua intervenção cívica.


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Franz Liszt – The Complete Songs, Mathew Polenzani (tenor) & Julius Drake (piano) Hypérion Franz Liszt é um dos grandes nomes da música com lugar reservado na história, considerado um dos maiores pianistas (senão mesmo o maior) do seu tempo é ainda apelidado como um dos inventores do pianismo moderno, sem esquecer toda a vastíssima obra que caracteriza a sua carreira e o facto de ser o pai do poema sinfónico orquestral. A juntar a tudo isto, vivemos em 2011 a efeméride que assinala os 200 anos do seu nascimento, razão para nos depararmos com o lançamento da edição completa de canções para canto e piano do compositor húngaro, escritas em seis idiomas distintos e que aqui entram no reportório do canto lírico. Para isso, a editora Hyperion foi buscar o famoso tenor norte-americano Mathew Polenzani, figura muitas vezes associada à Metropolitan Opera de Nova Iorque, e o pianista Julius Drake, numa colaboração que se revela como um dos grandes acontecimentos do ano no mercado discográfico. Canções onde a tradição do bel canto e o lirismo operático se cruzam com a genialidade da obra de Liszt.

Sinfonia N.º 2, Simon Rattle EMI Classics Não é a primeira vez que o britânico Simon Rattle (atualmente maestro titular da Orquestra Filarmónica de Berlim) abraça a obra de Gustav Mahler: há já vários anos atrás, na direção da Orquestra Sinfónica da Cidade de Birmingham (onde conquistou grande parte da visibilidade que hoje tem), havia gravado esta mesma “Sinfonia N.º 2”. É preciso não esquecer que a obra do compositor austríaco sempre ocupou um lugar especial na sua relação com a Orquestra Filarmónica de Berlim, aliás, foi em 1987, precisamente na primeira vez em que a orientou, que escolheu a Sinfonia Nº 6, tendo ainda em 2000 editado uma Sinfonia Nº 10 com a mesma orquestra (trabalho que lhe valeria um Grammy). Considerada uma das composições mais brilhantes de Mahler, isto num ano em que se celebram os 100 anos da sua morte, este disco conta igualmente com as vozes de Kate Royal e Magdalena Kozena, a par do Coro da Rádio de Berlim, num registo captado em outubro de 2010 que ajuda a redescobrir uma das criações mais bem sucedidas e populares de Mahler.

Bernstein, Gershwin, Novacek, D’Rivera, Jon Manasse & Jon Nakamatsu Harmonia Mundi George Gershwin e Leonard Bernstein são habitualmente apontados como dois dos maiores nomes ao nível da composição capazes de terem levado a sua música a um diálogo profundo entre o jazz e a música “clássica” ocidental, sem deixarem ao mesmo tempo de revelarem uma evidente atração e curiosidade pela cultura popular, onde o jazz, mais uma vez, tinha um lugar especial e fundamental. Num disco de duetos para piano e clarinete, sob a chancela da editora Harmonia Mundi, encontramos aqui dois músicos aclamados com história no jazz, a dupla Jon Manasse e Jon Nakamatsu, a investir precisamente por esse terreno tão caro a Gershwin e Bernstein, aos quais se juntam John Novacek e Paquito D’Rivera. A “Sonata for Clarinet and Piano” (1942) de Bernstein e “Three Preludes” (1926) e “I Got Rhythm” (do musical “Girl Crazy” de 1930), de Gershwin, são algumas das obras centrais nesta edição onde o jazz e a tradição musical europeia se conjugam, num universo onde ainda cabem temas como “Four Rags For Two Jons” (2006) de John Novacek e “The Cape Cod Flies” (2009) de Paquito d’Rivera.


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PAUTA 02  

PAUTA traz-nos entrevistas, foto-reportagens, artigos de fundo, críticas e notícias sobre as mais diversas atividades da Academia de Música...

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