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Editoria

Edição 141 | Ano XX | maio/junho 2014 www.aborlccf.org.br

Páginas Azuis Professor Mário Sérgio Cortella fala sobre ética e moral

Médico PJ Saiba o que fazer para abrir seu consultório

Vale a pena ser médico?

Anos de estudo, plantões intermináveis, remuneração insuficiente, cansaço, estresse e vida pessoal em segundo plano. Ainda assim, a Medicina é o curso com maior procura no vestibular e menor índice de desistência nas faculdades maio / junho 2014 | www.aborlccf.org.br

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CURSO DE REVISÃO SISTEMÁTICA E META-ANÁLISE Editoria

O QUE O OTORRINO PRECISA SABER PARA LER E ESCREVER PALESTRANTES: RUI IMAMURA, CRISTIANE RUFINO MACEDO, RONALDO FRIZZARINI E FÁBIO DE REZENDE PINNA *Vagas limitadas

Quando:

25 e 26 de Julho de 2014

Horário:

25/07 • 8h00 às 18h00 26/07 • 8h00 às 12h00

Local:

Auditório Luc Louis Maurice Weckx Sede da ABORL-CCF

OBJETIVO DO CURSO

FORNECER AS BASES PARA O ASSOCIADO CONSUMIR E PRODUZIR REVISÕES SISTEMÁTICAS E META-ANÁLISES COMISSÃO ORGANIZADORA WILMA TEREZINHA ANSELMO-LIMA • MARIANA DE CARVALHO LEAL GOUVEIA • EULALIA SAKANO

REALIZAÇÃO INSCRIÇÕES http://www.aborlccf.org.br INFORMAÇÕES 2 | Revista VOX OTORRINO eventos@aborlccf.org.br | Telefone: (11) 5053-7502

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Mensagem do Presidente

A humanidade e a ética A ética é uma premissa da condição humana. Só o homem tem a capacidade de discernir o que é certo ou errado. Nesta edição da VOX, cujo tema central é a ética, propomos a discussão sobre nosso comportamento como médicos e cidadãos. Estamos dando à nossa vida pessoal o mesmo peso que damos à profissional? Prezamos a qualidade das nossas relações? Estamos preparados para as pressões inerentes à nossa escolha profissional? E no trato com nossos pacientes, estamos sendo corretos, prudentes, atenciosos?

Dr. Fernando Ganança Presidente da ABORL-CCF

Estamos vivendo plenamente nossas vidas ou operando no piloto automático? Estas questões se perdem no cotidiano de nossas obrigações, preocupações e afazeres, mas, como o homem pode ser pleno se não atende suas próprias expectativas, se não realiza seus projetos, se não consegue deslanchar a carreira como gostaria, se não encontra um tempo para o lazer, a família ou para desenvolver um hobby? Todas essas questões permeiam esta edição. Propomos a reflexão para que nos tornemos, sempre, pessoas melhores. Forte abraço.

DIRETORIA 2014 Dr. Fernando Ganança - São Paulo/SP Presidente

Dr. José Eduardo de Sá Pedroso - São Paulo/SP Diretor Tesoureiro

Dr. José Alexandre Medicis da Silveira - São Paulo/SP Presidente da Comissão de Residência e Treinamento

Dr. Sady Selaimen Costa - Porto Alegre/RS Diretor Primeiro Vice-Presidente

Dr. Felippe Felix - Niterói/RJ Diretor Tesoureiro Adjunto

Dr. Leonardo Haddad - São Paulo/SP Presidente da Comissão de Título de Especialista

Dr. Domingos Tsuji - São Paulo/SP Diretor Segundo Vice-Presidente

Dr. Paulo Saraceni Neto - São Paulo/SP Assessor do Diretor Tesoureiro

Dr. Márcio Fortini – Belo Horizonte/MG Presidente da Comissão de Defesa Profissional

Dra. Francini Grecco de M. Pádua - São Paulo/SP Diretora Secretária Geral

Dr. Edilson Zancanella - Indaiatuba/SP Presidente da Comissão de Comunicações

Dr. Otavio Marambaia Santos - Salvador/BA Presidente da Comissão de Ética e Disciplina

Dra. Renata Cantisani Di Franceso - São Paulo/SP Diretora Secretária Adjunta

Dra. Eulália Sakano - Campinas/SP Presidente da Comissão do BJORL

Dra. Renata Dutra de Moricz - São Paulo/SP Assessora Diretora Secretária Geral

Dr. Fabrízio Ricci Romano - São Paulo/SP Presidente da Comissão de Eventos e Cursos

Dr. Renato Roithmann - Porto Alegre/RS Presidente da Comissão de Educação Médica Continuada

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06 10 14 18 24 26 30 34 40

Páginas Azuis Professor Mário Sérgio Cortella explica ética e moral

44º Congresso Brasileiro Atividades sociais e Fórum Nacional dos Residentes

Campanha da Voz Tudo o que aconteceu no 16º Dia Mundial da Voz, em abril

Gestão Saiba se você está pronto para abrir um consultório

Defesa Profissional Negligência, imprudência e imperícia, como se defender em caso de denúncia

Carreira Vale a pena ser médico? Os desafios e gratificaçãoes da carreira

Ética Dr. Otávio Marambaia e sua definição de ser médico

Perfil As incríveis máquinas do Dr. Pedro Cavalcanti

Agenda Cursos e eventos da ABORL-CCF


Carta ao Leitor

EXPEDIENTE

O assunto é ética Caro colega, Nesta edição da VOX, abordamos um tema que permeia nosso cotidiano, mas nem sempre nos damos conta do quanto ele está presente em cada atitude de nossas vidas: ética. Como cidadão ou como profissional, a ética é a forma como vivemos e convivemos neste mundo e, para falar sobre isto, convidamos o professor Mário Sérgio Cortella para discorrer sobre o assunto nas Páginas Azuis. Ainda sobre o tema, trazemos um artigo brilhante do colega Otávio Marambaia sobre ser médico e outro, bastante esclarecedor, sobre bioética, do advogado Alexandre Martins.

Av. Indianópolis, 1.287 CEP 04063-002 | São Paulo/SP Fone: 11 5053-7500 Fax: 11 5053-7512 Vox Otorrino Diretor de Comunicação: Edilson Zancanella Comissão de Comunicações: Marcelo Piza Fabio de Rezende Pina João Vianney B. de Oliveira Paulo Roberto Lazarini Ricardo Jacob Macedo Allex Itar Ogawa Marco Antônio Corvo Maria Dantas C.L. Godoy Vinícius Magalhães Suguri Renato Marinho Correa

Dr. Edilson Zancanella Presidente da Comissão de Comunicações

Ainda discutindo as obrigações da nossa profissão, trazemos uma matéria sobre gestão, no qual orientamos como abrir um consultório, o que precisa ser levado em consideração na hora de dar este passo profissional e, em conteúdo digital, um guia completo publicado pelo CFM sobre a burocracia envolvida neste processo. Ser médico não é fácil, nós sabemos. São anos de dedicação e sacrifícios muitas vezes não reconhecidos. Diante das dificuldades, questionamos: Vale a pena ser médico? A resposta você encontra na página 26. Também falamos de Defesa Profissional, esclarecendo as diferenças entre negligência, imperícia e imprudência e o que fazer em caso de denúncia.

Coordenadora de Comunicação da ABORL-CCF Adriana Santos Editora-chefe: Eliana Antiqueira / MTB: 26.733

Fotos: Vicent Sobrinho / Alexandre Diniz / Dreamstime / Acervo

No perfil deste mês, o colega potiguar Pedro Cavalcanti nos conta sobre sua paixão por carros antigos, passado de pai (e mãe!) para filho. E ainda, a cobertura do 16º Dia Mundial da Voz, informações sobre o curso promovido pela comissão do Brazilian Journal em julho e as datas do curso itinerante da Rinologia.

Coordenação de Publicação e Diagramação: Julia Candido

Boa leitura!

Reportagem: Sheila Godoi e Caroline Correa

Produção: Estação Brasil Produção Editorial Fone: 11 3542-5264/0472 Impressão: Eskenazi Indústria Gráfica Periodicidade: Bimestral Tiragem: 6.000 exemplares Os artigos assinados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da ABORL-CCF.

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ESPAÇO LEITOR Sugestões de pauta, críticas ou elogios? Fale conosco. voxotorrino@aborlccf.org.br

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Páginas Azuis

Gigi Kassis

Ética é teoria, moral é prática. Cada época, sociedade e cultura tem sua ética própria, mas alguns valores, como honestidade, afetividade e respeito sobrevivem à passagem do tempo. Nesta entrevista, o professor Mário Sérgio Cortella fala com clareza sobre ética e moral, temas que domina e ensina, e propõe a reflexão sobre nosso comportamento social.

Por Eliana Antiqueira

Mário Sérgio Cortella é uma estrela de primeira grandeza no ensino e discussão da filosofia. Ex-monge, professor com mestrado e doutorado em Educação, seguidor de Paulo Freire, mantém um olhar acurado sobre a sociedade e analisa as mudanças de comportamento inerentes a cada época e explica a diferença entre ética e moral.

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Ética e moral são a mesma coisa?

princípios e a ética é concepção sobre eles.

Não. Estão conectadas e se referem à mesma coisa, que é a conduta humana. Ética é um conjunto de princípios e valores que dirigem a conduta de cada pessoa. A moral é a conduta. Ética é a concepção, moral é a prática. Um exemplo. Estou saindo de um consultório e encontro um celular que um colega esqueceu. Tenho um princípio ético: o que não é meu, não é meu. Pegar o celular e devolver, ou levá-lo comigo, ou fingir que eu não vi, é uma conduta moral.

Ética é um inconsciente coletivo ou é formada pela época e cultura?

Ética é um valor individual? Não. A ética é sempre de um grupo, de uma comunidade, de uma sociedade, o que existe é uma moral individual. Moral é a prática de seus

Não é um inconsciente coletivo não, é uma formação de base concreta, são princípios e valores, ou seja, há os meus senões e razões para fazer ou não fazer coisas. Significa que ela não é estática, está ligada à dinâmica da vida, não é exclusiva nem há uma ética universal, que tenha validade para todas as pessoas, em todos os lugares, a qualquer tempo. O que mais se aproxima de uma ética universal é a Declaração de Direitos Humanos, de 1948. Algumas pessoas se colocam, especialmente no campo das religiões, como portadoras de uma ética universal, ainda assim, a ética é relativa

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Páginas Azuis à cultura, à sociedade e ao tempo em que ela está, o que não significa que o lema seja “vale qualquer coisa”. Uma coisa do ponto de vista ético só pode ser compreendida se você olha o RG dela, a data de nascimento, o local, a paternidade, a maternidade. Ética não é automática, é aprendida. Aliás, esta é a grande diferença entre nós e os animais. Um animal tem instinto, nós também, só que nossos instintos são domáveis, podemos controlar a tal ponto que, o mais forte instinto para o ser humano, que é o de sobrevivência, nós o negamos. Somos capazes de cometer suicídio, como também somos capazes de comer o que nos faz mal, de viver de forma errada, de propositalmente nos colocarmos em atividades de risco, o que nenhum outro animal faz. Nenhum outro animal que a gente conheça salta de paraquedas, pratica Fórmula 1, sobe num ringue para receber chutes. A ética não é instintiva, porque se for instintiva não é ética.

“Algumas pessoas se colocam, especialmente no campo das religiões, como portadoras de uma ética universal, ainda assim, a ética é relativa à cultura, à sociedade e ao tempo em que ela está, o que não significa que o lema seja vale qualquer coisa.”

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A medicina é uma profissão universal. A ética médica é universal? Não. Inclusive, mesmo que se tenha o Juramento de Hipócrates como um ponto de referência, ele é muito mais um código deontológico, ou seja, uma moral do dever, do que se deve ou não fazer prescrevendo, do que uma concepção ética universal. A medicina é exercida de vários modos, em várias sociedades. Se nós olhamos a medicina ocidental, ela tem uma série de pontos de coincidência em seu princípio de conduta, em sua deontologia, mas o mesmo não vale para a medicina oriental. Por exemplo, durante séculos, muitas sociedades não permitiam a abertura de cadáveres, portanto, aquilo que a gente chamou de anatomo-patologia seria uma impossibilidade tanto na pesquisa quanto no ensino. No século 16, quando Vassali e outros vão começar a lidar com a abertura de cadáveres, isso é feito de forma escondida. Parte da sociedade árabe também não aceitava que se lidasse com corpos mortos. Quem vai introduzir isso é Avicena. A suposição de uma ética nem mesmo no campo da medicina tem a mesma expressão. Haja vista, por exemplo, que a medicina brasileira é mais refratária ao controle da dor do que a medicina norte-americana. O número de fármacos, de opiáceos, que podemos usar como cuidado paliativo, morfina, por exemplo, é muito maior na sociedade norte-americana do que na nossa. E mesmo no Brasil, aquilo que não induz ao risco negativo, que é a possibilidade de cuidados paliativos, só agora está entrando. Nós entendemos um vínculo entre alguns fármacos como drogas, no sentido negativo da expressão. Até no campo da otorrinolaringologia,

Leitura recomendada Ética e vergonha na cara (Papirus 7 Mares) Mário Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho

em algumas sociedades, o exame para auferir a audição não é feito por um médico é feito por um profissional de saúde, mas não por um otorrino. Em outras se entende que isso é privativo do ato médico. Por isso, insisto: não significa que vale tudo, significa que as coisas valem no seu contexto. Mas a medicina tem princípios universais? Evidentemente. No campo médico há uma série de princípios que são universalizantes. A atenção ao paciente, a necessidade de cuidado, a recusa à humilhação, ao atendimento de qualquer modo... Tudo isso são princípios e ganham uma universalidade maior do que a prática que tem outra intervenção. Exemplo final: algumas sociedades admitem a ortotanásia como um indicativo, e nem chamam de eutanásia. Outras entendem isso como agressivo. Há sociedades que permitem a interrupção da gravidez por parte do médico, outras consideram isso um ato criminoso. Este comportamento mais calcado em decisões científicas e não morais são mais observados em sociedades laicas, sem a pres-

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Páginas Azuis são de grupos religiosos. Qual a interferência da religião sobre a ética? A religião tem uma enorme influência. Nenhum de nós é neutro. A ideia de que um médico é neutro é impossível. Ele pode ser objetivo. A neutralidade é a suposição de que eu me aproximo de um paciente, de um objeto, de uma pesquisa ou de um colega sem nenhum tipo de juízo anterior. Isso é impossível. A gente tem sim mais simpatia por quem está perto de nós em relação à mesma origem, à mesma prática social ou até mesmo em relação ao mesmo time de futebol. Temos simpatias e antipatias que precisam ser conscientes para que possamos ser objetivos. Para ser objetivo tenho de ter clareza de quais são os meus conceitos prévios. A melhor forma de afastar um fantasma é acender a luz. As sociedades laicas, historicamente, são recentes. Têm, no máximo, 300 anos. Ainda hoje temos teocracias fortes, como os países islâmicos. Nas sociedades teocráticas ela é decisiva, porque a conduta é referenciada pela religião. Nas sociedades laicas, mesmo

“A ideia de que um médico é neutro é impossível. Ele pode ser objetivo. A neutralidade é a suposição de que eu me aproximo de um paciente, de um objeto, de uma pesquisa ou de um colega sem nenhum tipo de juízo anterior.”

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que não haja a identificação entre a prescrição religiosa e a prática do cidadão, ainda assim a influência existe. Não há como a gente lidar com algumas coisas no campo da ação sem ter a nossa história toda junta. Como dizia Miguel de Unamuno, filósofo espanhol, “eu sou eu, somado à minha circunstância”. Eu venho com um combo, que é tudo que eu vivi, tudo que eu penso, e a religião tem sim influência. Vamos pegar a Testemunha de Jeová que proíbe a transfusão de sangue. Há uma parte dos médicos que respeita isso até o limite que a lei coloca. Na urgência de salvar a vida, sai de cena o direito do indivíduo e entra o dever do médico. Não é algo tão pacífico, mas é um fato. Há outros que acreditam que o paciente é soberano, e aí há uma discussão sobre soberania. O que eu posso fazer como paciente decido eu mesmo? Será que eu posso recusar um tratamento? Hoje existem várias normatizações sobre isso, e, no Brasil mais ainda, porque nós estamos começando a ter agora aquilo que hoje é assustador na medicina norte-americana que é a judicialização da relação médico/paciente. Essa judicialização sai do campo da ética e entra no campo do Direito, e o Direito nem sempre está lidando com a ética, mas sim com a moral. Há uma expressão incorreta do ponto de vista filosófico que é o código de ética. Existe um código de conduta, um código de moral. Ética é composta de princípios; moral, de direitos e deveres. Há uma influência forte não só no campo da religião. A maçonaria tem uma presença forte na medicina, embora não seja uma religião, mas uma congregação de homens e algumas mulheres para a prática de princípios que entendem adequados. A ideia de irmandade, de fraternidade tem tanto impacto quanto uma religião de qualquer natureza.

“Vou dizer uma frase que parece óbvia à primeira vista: todo ser humano sempre viveu na era contemporânea. Sem exceção. Somos contemporâneos assim como nossa ética.”

Qual o paradigma ético dos nossos tempos? Vivemos uma revolução social que mudou nossa forma de ver e viver neste mundo. A sociedade já entendeu esta nova ética? Vou dizer uma frase que parece óbvia à primeira vista: todo ser humano sempre viveu na era contemporânea. Sem exceção. Somos contemporâneos assim como nossa ética. Há 50 anos, um pai podia espancar uma criança, podia bater na esposa, podia lavar a honra com sangue. Há 150 anos, uma pessoa que não fosse branca podia ser escravizada, vendida, comprada. E como se codificam essas mudanças que acontecem de forma tão rápida em termos históricos? Alguns princípios persistem, como a ideia de afetividade, de respeito recíproco, de honestidade. O que temos hoje é uma sociedade muito mais apressada. Não veloz, apressada. Há questões que não existiam antes e não adianta eu recorrer à filosofia e à religião. As redes sociais são um exemplo. Tanto Orkut quanto Facebook são de 2004, têm dez anos. Não dava para falar de bullying como é possível hoje, não

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Páginas Azuis dava para falar de assédio moral como é possível hoje. Hoje, as plataformas digitais trouxeram novas formas de comunicação. Posso trabalhar com formas de difamação que ultrapassam o campo da fofoca. A ética não acompanha todas as situações de mudança no mesmo ritmo que esta mudança acontece. A construção não se dá só numa situação em que se muda para melhor. Algumas coisas avançaram, outras não. Um exemplo banal: há 20 anos saiu a lei do cinto de segurança. No princípio, as pessoas usavam para evitar a multa, hoje está incorporado ao cotidiano, é um hábito, a indústria criou carros que não dão partida se o cinto não estiver colocado. A ideia de assepsia de um ambiente hospitalar era muito relativa, hoje é um princípio de qualidade. Há um movimento de percepção. Nunca vivemos numa sociedade com tanta oferta de consumo. A ética conflita com o lucro? Não. Ao contrário. A ideia de lucro, se entendido como a remuneração justa por um trabalho oferecido, um produto vendido, um serviço prestado, não pode ser entendida como antiética. Antiético é o lucro obtido de forma canalha, por meio do engano, da patifaria. O consumo exacerbado é antiético, mas não porque é consumo, mas porque é exacerbado, compulsivo. Nossa geração está fazendo algo extremamente perigoso para o futuro, que é um saque antecipado do futuro. Durante séculos da história da humanidade, a geração atual se preocupava em criar meios para que a próxima vivesse. Nós não. Estamos esgotando o meio-ambiente, a estrutura de capacidade orgânica, os relacionamentos, a segurança... Isso é uma forma de abandono do futuro que virá.

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No código de ética da medicina existe o princípio da não maleficência, que apregoa, entre outras coisas, “reivindicar infraestrutura adequada”. O que acontece com a ética quando a teoria se depara com a prática em locais nos quais os médicos não têm essa estrutura de trabalho? Nesta hora, não há solução individual possível. A prática médica, durante muito tempo, foi exclusivamente individualista. O “meu” paciente, o “meu” consultório, na “minha sala”. Essa individualização excessiva, por ser uma profissão liberal na tradição, embora esteja deixando de ser, fez com que houvesse quase que uma soberania do profissional. Quando houve uma mudança de condições, uma precarização maior no atendimento da saúde coletiva, os médicos estavam isolados.

“...: a união desfaz a força! Há uma força negativa que se opõe a melhores condições de saúde na sociedade. Se a união faz a força, também desfaz quando a força é maléfica.”

E a única saída é coletiva. Seja nas associações, nos sindicatos, nas entidades da categoria. É dificílimo reunir pessoas dessa área porque se acostumaram, durante décadas, a ser o profissional no seu consultório, com a porta fechada. Alguns continuam isolados e reclamando, em vez de se associar a outros e ga-

nhar força. Vamos inverter a frase: a união desfaz a força! Há uma força negativa que se opõe a melhores condições de saúde na sociedade. Se a união faz a força, também desfaz quando a força é maléfica. E a grande questão ética no meio não é agir ou não, mas, como diz uma antiga frase: os ausentes nunca têm razão. A omissão é uma forma de cumplicidade. “Ah, mas o governo”. Lamento, os governos são passageiros, e quem lá está não tomou o poder à força, isso acontece em ditaduras, vivemos numa democracia. As entidades de classe hoje estão voltadas para questões pontuais, mais ligadas ao exercício da atividade como atividade econômica do que ao exercício da atividade como cidadania, de base social. Claro que há de se defender a atividade econômica, seria bobagem não fazer isso. Quando chegamos ao ponto de trazer médicos do exterior, - que são importantes para nossa sociedade, não é como queríamos que fosse, mas é assim que é, porque como dizia o Betinho, na época da campanha contra a fome, “quem tem fome, tem pressa” -, estamos remando e jogando água. Enquanto a gente não tem, tem que ter alguém que faça e, para o paciente, é indiferente se o médico vem de Cuba, dos Estados Unidos ou da Espanha. A discussão teórica a gente tinha que ter feito antes. O mato tá seco e alguém riscou o fósforo. Nessa hora, o que houve: uma reação corporativa extremamente perigosa, que quase significou a permissão do abandono por parte da comunidade médica. Os princípios hipocráticos como referência inicial precisam continuar tendo validade como concepção.

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Congresso Brasileiro

Não perca nada! Programe-se para aproveitar o melhor do 44º Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial. Por Eliana Antiqueira

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ês a mês, o 44º Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia vai ganhando os contornos finais. O evento, que acontece em novembro, na cidade de Porto Alegre, deve repetir o êxito dos anos anteriores, com centenas de

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médicos do Brasil e do exterior reunidos em busca do que há de mais moderno na especialidade, novidades tecnológicas apresentadas na exposição paralela, troca de experiências com os colegas e ampliação da rede de relacionamento. “Será, com certeza, um con-

gresso inesquecível”, diz Dr. Fabrizio Romano, presidente da Comissão de Eventos da ABORL-CCF. “Estamos trabalhando muito e conseguimos montar uma grade científica de altíssimo nível. Além disso, a parte social promete agradar a todos os gostos!”

maio / junho maio /2014 junho |2014 www.aborlccf.org.br | www.aborlccf.org.br


Congresso Brasileiro

Fórum Nacional de Residentes

Um dos eventos mais esperados do Congresso é o Fórum Nacional de Residentes. Neste ano, o encontro acontecerá no dia 14 de novembro, das 14h às 17h, na sala 9, do Centro de Convenções da FIERGS. O objetivo do fórum é reunir residentes em otorrino do país todo para promover a troca de conhecimento, a discussão e o debate entre os participantes, proporcionar uma formação complementar e prepará-los para a entrada no mercado de trabalho. A participação é gratuita, mas as vagas são limitadas.

Conheça a programação do Fórum Nacional de Residentes 2014 Horário

Palestrante

Tema

13h30

Abertura

“Que caminho seguir depois da residência”

Dr. Fernando Ganança 13h45

Dr. Arthur Menino Castilho

“Especialização em subárea Devo fazer Fellow? Onde?”

14h05

Dr. Fabrizio Romano

“Estágio no exterior. Como, onde e quanto tempo”

14h25

Dr. Ubirajara Sennes

“Pós-graduação vale a pena?”

14h45

Dr. Rogério Panhoca

“O desafio de continuar aprendendo sozinho”

15h05

Dr. Reginaldo Fujita

“Primeiro(s) trabalho(s): consultório ou prestador?”

15h25

Dr. José Eduardo de Sá Pedroso

“Montando um consultório de otorrinolaringologia: o que devo priorizar?”

15h45

Dr. Jamal Azzam

“Credenciamento das operadoras de saúde suplementar: road map”

16h05

Debate com a plateia

16h25

Considerações finais

16h30

Encerramento

Inscreva-se pelo site

www.aborlccf.org.br/44cbo e garanta seu lugar.

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Congresso Brasileiro

Cursos de instrução

As inscrições para os cursos de instrução se encerraram em 10 de maio, e os inscritos podem ter certeza de que receberão conteúdo de alto nível. Os cursos seguirão o modelo já aplicado em grandes congressos promovidos por instituições de referência em Otorrinolaringologia, como a American Academy of Otolaryngology Head and Neck Surgery, sempre ministrados no período da tarde em aulas de 45 minutos de duração, com até três instrutores em cada sessão. Aqueles que atenderam o prazo e incluíram suas propostas de cursos, podem verificar o resultado se foram ou não aprovados a partir de 1º de junho, no site da Associação. As propostas foram avaliadas pela comissão julgadora que analisou, entre outros quesitos, a experiência dos palestrantes no tema sugerido, o impacto e a atualização do assunto.

Parte social

O Congresso Brasileiro também é um momento de interação social. Tanto a cerimônia de abertura quanto a festa de encerramento são momentos para reencontrar velhos amigos, celebrar e compartilhar. A cerimônia de abertura terá lugar no Centro de Convenções da FIERGS, às 19 horas do dia 12 de novembro. Após a solenidade oficial, o público

Yamandu e Borghetti: o melhor da música tradicional gaúcha

será brindado com a apresentação de dois dos maiores expoentes da produção musical do Rio Grande do Sul: Renato Borghetti e Yamandu Costa. Borghettinho, como é conhecido, é um dos mais consagrados defensores da tradicional música gaúcha. Antropólogo e folclorista, toca gaita-ponto (um tipo de acordeom) e foi o primeiro músico brasileiro a ganhar um disco de ouro com um álbum instrumental. O violonista Yamandu Costa é considerado um gênio do violão de 7 cordas.

Vencedor de diversos prêmios de música, nacionais e internacionais, é, atualmente, o artista brasileiro que mais se apresenta no exterior. Juntos, os músicos prometem um show inesquecível com a fina flor da nossa música. A animação na festa de encerramento, celebração por mais um ano de sucesso do Congresso Brasileiro, ficará sob a responsabilidade da banda Grinaldos. Conhecidos na cena paulistana, o grupo leva ao sul, o melhor do pop rock nacional e internacional e promete colocar todo mundo para dançar.

Banda Grinaldos: pop rock para animar a festa. Conheça mais em: https://www.youtube.com/watch?v=KR3uGspPHVk

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Editoria

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Campanha da Voz

Boca gigante conquista São Paulo Público que esteve no Parque do Povo visitou estrutura inflável e conheceu mais sobre o funcionamento da laringe. Por Caroline Correa Fotos: Alexandre Diniz

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16ª edição da Campanha da Voz promovida pela Academia Brasileira de Laringologia e Voz, com o apoio da ABORL-CCF, repetiu o sucesso que a consagrou como uma das mais reconhecidas e eficientes campanhas de saúde do Brasil. Neste ano, a tradicional boca gigante inflável ficou exposta no Parque do Povo, em São Paulo, nos dias 12, 13 e 16 de abril, o Dia Mundial da Voz. Médicos e residentes em otorrinolaringologia se revezaram nos três dias do evento para atender o público que visitou a megaestrutura. As crianças, como sempre, foram, as que mais se divertiram com o inflável gigante e ouviram atentamente as

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explicações dos profissionais sobre o processo de produção da voz, além dos principais elementos da boca e laringe, como dentes, língua, amígdalas, úvula e cordas vocais. Além da boca gigante, outras atrações garantiram a diversão do público. Os palhaços Fuska e Gaiato arrancaram gargalhadas de baixinhos e grandinhos e os beatboxes Borracha e Mautari fizeram a festa com os jovens que circulavam pelo parque. Os padrinhos da campanha, a dupla sertaneja Fernando e Sorocaba mandaram seu recado em uma mensagem sobre os cuidados com a voz. Os cantores cederam sua imagem gratuitamente à 16ª Campanha da Voz.

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Campanha da Voz

Recado do Fernando e Sorocaba, padrinhos da Campanha https://www.youtube.com/watch?v=pg-QE6G41iI

A ação da Academia, que contou com o apoio da ABORL-CCF, recebeu destaque de importantes veículos de comunicação. O SPTV 1ª edição esteve no local convidando a população a participar da campanha e visitar o inflável. A equipe do jornal Repórter São Paulo, da TV Brasil, também foi ao Parque Povo conversar com os visitantes. Dr. Gustavo Korn, coordenador da Campanha Nacional da Voz, concedeu entrevistas às rádios CBN, Globo e Você, falando sobre ação promovida pela ABLV e cuidados vocais. “Esta edição da campanha foi um sucesso. Vale a pena destacar o apoio da imprensa, com mui-

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Campanha da Voz

16 ANOS

tas reportagens, e das crianças, que se mostravam realmente interessadas no funcionamento do aparelho fonador e no interior da laringe”, afirma. “É sempre válido ressaltar a importância de ações de orientação e conscientização como a Campanha da Voz, que promove um processo de sensibilização permanente em relação aos cuidados vocais. Nossa intenção é destacar essa mensagem constantemente, e construir um legado sobre prevenção de doenças, principalmente o câncer de laringe”, conclui o coordenador.

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Borracha, Fuska e Gaiato garantiram a diversão do público

Dr. Gustavo Korn cercado de crianças: público infantil é curioso e interessado no funcionamento da laringe.

Dr. Gustavo Korn em entrevista à imprensa

Detalhe do interior do inflável gigante

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Veja os destaques do Dia Mundial da Voz: https://www.youtube.com/watch?v=et0qsS10KG0 maio / junho 2014 | www.aborlccf.org.br


Editoria

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Gestão Editoria

Médico PJ Sonho de carreira de muitos médicos, o consultório próprio tem muitas vantagens, mas, para dar certo, precisa ser muito bem planejado e estruturado. Por Sheila Godoi

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medicina existe desde que a humanidade se entende assim. E ainda hoje, a informalidade impera para muitos dos profissionais da saúde. Um colega aluga uma sala dentro do consultório de outro, muitas vezes sem contrato, e as coisas vão ficando, vão ficando... O médico opta por participar de uma cooperativa, necessariamente como pessoa física, mas acaba enfiando os pés pelas mãos na hora de prestar contas e pagar impostos ao governo. Entra nessa conta também a baixa rentabilidade no vínculo com as operadoras de saúde e as glosas. A abertura do consultório é o projeto de muitos médicos em início de carreira, entretanto, o índice de quebra é alto, em um curto espaço de tempo. O que foi feito de errado? Os especialistas concordam que se existe um caminho “mais seguro” para

se percorrer antes de qualquer CNPJ ficar pronto, esse caminho é o do plano de negócios. Processos desenhados e maduros, contabilidade saneada, fluxo financeiro diário, painel de controle para suportar decisões estratégicas, gestão de pessoas com recrutamento, seleção, capacitação, inclusão, treinamento continuado e plano de carreira. Tudo isso leva tempo para acontecer de maneira satisfatória e está totalmente ligado ao projeto corporativo, que nem sempre é tido como prioridade nas empresas de saúde. O preparo técnico e especializado do médico é fundamental, mas não basta, como explica a consultora do SEBRAE (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), Maísa Blumenfeld. “É importante ter a visão de que os pacientes são clientes

“Um empreendimento é como um filho. Você nunca será dono dele e sim o criador, cuidador, mantenedor, orientador e eternamente o pai” Dr. Jamal Azzam

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Gestão

e têm expectativas em relação ao serviço prestado como um todo. O primeiro passo é colocar no papel o planejamento do negócio e a viabilização da sua abertura.” Dr. Jamal Azzam tem uma história curiosa. Interessado na experiência das pessoas recorda-se de ter ouvido muitos colegas e professores durante o período de graduação. Uma delas veio de um médico por quem tinha absoluta admiração. “Jamal, fechei meu consultório. É muito difícil ficar contratando secretária, pagando, cuidando da limpeza e de tudo mais. Eu não consigo ter paz e ser médico de verdade, então fechei”, disse o colega em certa ocasião. “Isso me fez refletir sobre administração. O segredo estava no suporte para o exercício do meu trabalho. De que adiantaria ser um grande médico se tudo que gira em torno não funciona?”, perguntou-se e foi aí que ele leu um livro de marketing pela primeira vez. “Li não... Devorei!”, brinca, acrescentando mais títulos à lista de leitura. O negócio de estreia era um pequeno

Guia de bolso O CFM possui um “Manual de Procedimentos Administrativos”, que contempla todo o processo de abertura de uma empresa médica. Acesse aqui para entender passo a passo:

http://portal.cfm.org.br/images/mpa_pj.pdf consultório. Logo, ele já estava no comando de uma clínica junto de outros dois sócios. Mas a sociedade não completou o primeiro aniversário, uma vez que os interesses eram diferentes. “O duro foi descobrir isto enquanto o barco estava navegando”. Em 1988, abriu a clínica que leva seu nome e da qual é o único dono. Apesar da dedicação inicial ao entendimento das estratégias administrativas, Dr. Azzam conta que teve uma espécie de “estalo” ao se reunir com uma operadora de saúde para um acerto de contas em aberto. Ele percebeu que a empresa detinha todo tipo de informação sobre

Pergunte(-se)! 1. Mercado: há demanda? Quem são e onde estão os concorrentes? 2. Localização: é adequada para atingir o público definido? É viável financeiramente locar uma sala neste bairro ou cidade? O acesso é fácil e estratégico? 3. Equipamento técnico: é adequado às demandas dos clientes? Que outros investimentos devem ser feitos? E em quanto tempo? 4. Colaboradores: a equipe está bem preparada? Há mão de obra suficiente para estabelecer um ciclo de trabalho que se complete? 5. Dimensionamento: o capital a ser aplicado está bem distribuído no médio prazo? Está contabilizando perdas, como furtos e quebras? 6. Sociedade: valerá a pena? São profissionais confiáveis? É um negócio para muitos anos? 7. Atendimento: vai incluir pacientes de convênios? Qual será a rentabilidade? 8. Você: quanto quer ganhar? Quanto quer se dedicar? Está preparado para lidar com a gestão de pessoas? Tem noções de gestão econômica? Mantém relacionamento com múltiplos fornecedores e parceiros? Saberia como agir se fosse necessário encerrar as atividades?

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“O segredo do consultório é o dimensionamento.” Dr. José Eduardo de Sá Pedroso as consultas, procedimentos e cirurgias em aberto, dados dos pacientes, datas de atendimento, detalhes de glosas, etc. “Então, pensei: ‘eles sabem tudo de mim. Até mais do que eu mesmo.’ E decidi saber mais do meu próprio negócio”, recorda. Hoje, a Clínica Jamal conta com cerca de 50 colaboradores, para as áreas de recepção, segurança, finanças, TI, call center, manutenção, entre outras.

Legalmente empresário

Antes de tudo, é preciso estudar e, principalmente, questionar. Quem é o público-alvo do consultório? Onde estão essas

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Gestão

Agenda A 44ª edição do Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia contará com cursos voltados para a abertura do consultório próprio no Fórum de Residentes, que acontece dia 14 de novembro, das 14h às 17h. (Veja a programação na página 11).

pessoas? Como chegar a elas? A lista de perguntas pode ser das mais extensas. Para ajudar nas respostas, há consultorias especializadas no desenvolvimento de estudos de mercado e sustentabilidade do negócio. Vale também consultar um escritório de contabilidade para levantar quais são as exigências legais, fiscais, contábeis e trabalhistas de determinado tipo de empresa médica. Na dúvida, há ainda os escritórios de advocacia focados no segmento de saúde e que podem ajudar no campo jurídico e ético da profissão. A Lei 6.839, de 30 de outubro 1980, determina que todas as empresas devem ser registradas nas entidades de fiscalização, o que significa que, para funcionar, o consultório médico deve estar cadastrado e atender à normatização do Conselho Regional de Medicina. Tão importante quanto a prestação de contas e o cumprimento dos processos burocráticos

é a obtenção do alvará sanitário. Para solicitar, é preciso apresentar alguns documentos e se encaixar nas regras previstas pela ANVISA.

Sonho de formando

Ingressar e obter sucesso num mercado que está em pleno funcionamento pode não ser tão fácil como se imagina, mas é a meta profissional de boa parte dos profissionais, como foi o caso do Dr. José Eduardo de Sá Pedroso. “No início da carreira, o médico tem que ter outras fontes de renda, trabalhar em outros empregos, mas o lugar mais importante da vida dele, aquele que ele tem que ir atrás e cultivar é o próprio consultório. Tenho isso como premissa desde que me formei”, relata. Dr. Reginaldo Fujita passou por maus bocados até chegar à estrutura sólida que tem hoje. “Primeiro trabalhei em várias instituições como prestador de serviço. Procurei um lugar sem concorrência de otorrino, procurei sócios de outras especialidades e tentei abrir contato com convênios para obter credenciamento. Muitas vezes, ia ao consultório para estudar, pois a agenda ficava vazia, mas não desisti”, lembra. As operadoras de saúde, aliás, são parte relevante nesse processo. Dr. Pedroso participou de uma sociedade de médicos por quase 20 anos e há cerca de seis meses optou por um negócio mais particular, justamente porque pretendia mudar o seu

Livro de cabeceira O segredo de Luisa, de Fernando Dolabela, traz ao leitor o drama vivido por uma jovem que tem a ideia de abrir uma empresa para vender a goiabada produzida pela tia. A leitura aborda questões de marketing, plano de negócios, finanças, administração e organização empresarial (Editora Sextante, 304 páginas). A partir de R$ 39,90, na Livraria Cultura.

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“A melhor propaganda é o paciente bem atendido. Prepare-se e estude bastante. Seja gentil e educado com seu paciente.” Dr. Reginaldo Fujita público-alvo. Hoje, passam pelo consultório, onde atende com a esposa pediatra, apenas pacientes particulares e não mais associados de planos de saúde, como ocorria no modelo anterior de negócio. Ele explica: “Nos convênios, a margem é muito pequena. Dão muito trabalho e pagam muito mal. Além disso, o paciente não tem a menor noção do quanto é repassado ao médico”. No início, as operadoras de saúde contribuíram para que ele se posicionasse no mercado. Hoje, a decisão foi ter tempo e foco especiais para o atendimento aos pacientes particulares.

Nada de ansiedade (ou utopia)

Ninguém disse que seria fácil. Os cinco primeiros anos de consultório, Dr. Pedroso praticamente pagou para trabalhar. De acordo com Maísa, do SEBRAE, o retorno do investimento varia bastante dependendo do perfil da organização, contudo o tempo médio para se obter esse retorno é de 24 meses. O importante aqui é não enfiar os pés pelas mãos. A “megalomania”, nas palavras do Dr. Fujita, é um perigo iminente quando se fala em iniciar um negócio. Sustentar uma empresa tem um preço alto, como

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Gestão Editoria

Invista! De acordo com a consultora do SEBRAE, Maísa Blumenfeld, os principais investimentos após a abertura da empresa devem contemplar:  Inovação nos equipamentos  Capacitação e treinamento para os funcionários  Investimento em parcerias técnicas e comerciais  Foco no relacionamento com o cliente

bem lembra Dr. Pedroso: “Não adianta montar um consultório gigante para atender dois ou três pacientes por mês. O que você ganha não paga essa estrutura”.

Ops, foi mal!

Dizem por aí que se deve aprender com os erros. Ok. O que é preciso colocar na balança é que uma simples falha pode ser fatal para a estrutura de uma empresa. Por isso, é necessário ter muita cautela nos passos. Não é segredo para ninguém que muitas empresas – e isso não se restringe às de saúde, mas nestas ocorre com frequência – vão por água abaixo por falta de gestão eficiente. A consultora Maísa reforça que um dos principais erros, senão o mais grave, ocorre justamente quando o médico possui preparo técnico excepcional, mas deixa de lado as questões gerenciais do negócio. Para Dr. Fujita, outra falha comum acontece quando o médico contrata uma contabilidade para resolver os processos burocráticos da empresa e não acompanha de perto o andamento dos números. “Deve-se escolher um contador de confiança e, mesmo assim, pagar você mesmo todos os impostos, deixando a cargo do contador apenas a emissão do boleto”, aconselha. Maísa concorda com o otorrino e complementa: “É um erro grave não ter os números do negócio nas mãos. É importante trabalhar com um software de gestão ou manter um profissional para os processos administrativos, mas o médico deve conhecer os números para tomar as decisões estratégicas”. Dr. Azzam acredita que um negócio é como um filho que, se bem conduzido,

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será um sucesso, se mal conduzido, poderá levar a resultados catastróficos. “Ter um filho é criar um ser para o mundo. Você nunca será dono dele e sim o criador, cuidador, mantenedor, orientador e eternamente o pai. Mas nunca o dono!”, compara. A divulgação é mais um item que acaba ficando de lado em detrimento de outras prioridades. Estabelecer e executar um plano de marketing pode fazer o negócio tomar importantes proporções no médio prazo. E aqui vale a pergunta: aonde se quer chegar com a empresa nos diferentes espaços de tempo?

O paciente é o seu cliente...

... E ele, definitivamente, quer ser tratado como tal. Qualidade do serviço técnico e do negócio como um todo não são itens opcionais. São essenciais para fidelizar consumidores de qualquer tipo de serviço. Quem quer chegar a um espaço de saúde e verificar problemas básicos de manutenção? Colocar-se no lugar do paciente pode ajudar a identificar pequenos problemas.

“O grande desafio do empreendedor é unir conhecimento técnico e empresarial.” Maísa Blumenfeld Saúde é, de fato, mercadoria? Muita gente concorda que sim. Para o Dr. Pedroso, a questão não é tão pragmática, nem tão romântica, como é colocada muitas vezes. “Devo pensar como o paciente pensaria. O que ocorre desde a marcação da consulta até a hora em que ele vai embora do consultório? Ele foi bem atendido? Ficou confortável? Teve entretenimento? O médico sorriu? Conversou sobre outros assuntos? Há uma série de detalhes nesse processo”, explica. E é aí que o atendimento se torna a chave da fidelização do, então, cliente. Não é a toa que, atualmente, ouve-se falar tanto em CRM, ou Customer Relationship Management, que é, nada menos, do que estratégia de captação e engajamento do consumidor. Tamanha a importância que a palavra atendimento tomou.

Papel e caneta na mão O SEBRAE oferece alguns cursos para empreendedores. O Empretec é um intensivo realizado durante seis dias para quem já tem um plano de negócios estruturado e quer ganhar um preparo prático. O investimento é de R$ 1.300,00 e o curso é exclusivo para pessoa jurídica. Já a Modelagem de Negócios é uma oficina com linguagem moderna e aplicação do método Canvas para futuros empreendedores. O curso tem carga horária de 12 horas e custa R$ 190,00. Mais informações em www.sebrae.com.br.

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Artigo

A bioética e a relação com o paciente

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s avanços científicos da área médica ocorridos nos últimos 40 anos fez surgir uma preocupação crescente com os aspectos éticos da medicina, diante dos grandes avanços da biologia molecular, da biotecnologia, do mapeamento genético e acima de tudo, por conta dos inúmeros casos de denúncias de experiências realizadas contra seres humanos sem qualquer consentimento ou mesmo um protocolo a garantir a saúde dos envolvidos. A “bioética”, expressão criada pelo professor Van Potter, da Universidade de Wisconsin, em 1970, vem sendo cada vez mais utilizada por profissionais das áreas da saúde, filosofia e do direito. Apesar de se considerar o Código de Nuremberg seu precursor, seguido pela Declaração de Gijón, a bioética foi o centro das atenções quando também estava em voga o mapeamento do genoma humano. Como ciências, a biologia, a medicina e até mesmo a nanoengenharia sempre irão gerar novas polemicas e novos embates no campo da ética, ficando a sociedade científica sempre a espera de uma nova revolução coperniana. Dentre os vários princípios sugeridos ou apresentados pela bioética, desejamos, nestas poucas linhas a que nos propusemos a escrever, tecer comentários sobre o chamado princípio da autonomia, no qual esta garantido o direito de escolha do paciente, o chamado “livre arbítrio”, onde o profissional de saúde deve respeitar a vontade soberana do paciente. Com efeito, o Código de Ética Médica, em seu art. 24, exige que o médico permita ao paciente decidir livremente sobre sua pessoa e seu bem-estar, vejamos o texto na íntegra:

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É vedado ao médico: Art. 24. Deixar de garantir ao paciente o exercício do direito de decidir livremente sobre sua pessoa ou seu bem-estar, bem como exercer sua autoridade para limitá-lo. Assim, deverá o médico acatar a decisão do paciente, sob pena de estar cometendo infração ética. Sobre este aspecto, gostaria de citar Paulo Freire, em sua obra Pedagogia da Autonomia, o qual nos admoesta que “O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”. Assim, Freire nos remete a um estado social onde um princípio ético, de per si, tem o condão de mudar uma realidade fática, submetendo a sociedade a uma exigência de comportamento, onde cada ser humano deve ter respeitada sua individualidade, seu querer e suas ideias. Na mesma linha, a ilustre jurista Maria Helena Diniz, no livro “O estudo atual do biodireito”, ao tratar do princípio da autonomia, nos afirma que tal princípio, em verdade “Reconhece o domínio do paciente sobre a própria vida (corpo e mente) e o respeito à sua intimidade, restringindo, com isso, a intromissão alheia no mundo daquele que está sendo submetido a um tratamento. Considera o paciente capaz de autogovernar-se, ou seja, de fazer suas opções sob a orientação dessas deliberações tomadas, devendo, por tal razão, ser tratado com autonomia”. O Código Civil Brasileiro, em observância do princípio da autonomia, fez incluir em seu texto dois artigos

referentes à liberdade de escolha do paciente. No primeiro deles, podemos enquadrar os pacientes acometidos de doenças raras, que queiram após a morte, doar seu corpo para estudos, conforme abaixo transcrito: Art. 14. É válida, com objetivo científico, ou altruístico, a disposição gratuita do próprio corpo, no todo ou em parte, para depois da morte. Assim, não se tratando de interesses econômicos, ou seja, desde que a pessoa não tenha recebido nenhum benefício, poderá dispor do seu corpo, após a morte, para estudos científicos, sendo certo que, tal disposição pode ser revogada a qualquer tempo. No artigo seguinte, o Legislador fez incluir na Lei Civil que ninguém pode ser obrigado a se submeter a procedimento médico que lhe traga risco de vida, como abaixo: Art. 15. Ninguém pode ser constrangido a submeter-se, com risco de vida, a tratamento médico ou a intervenção cirúrgica. Caro leitor, gostaria que você me enumerasse três, apenas três procedimentos cirúrgicos onde não houvesse nenhum risco de vida, seja por qualquer motivo, reação alérgica, infecção ou qualquer outra intercorrência, com o seu silêncio, entendo que ninguém pode ser submetido a qualquer intervenção sem o prévio consentimento. Neste ponto do meu pequeno texto, estamos diante de duas realidades distintas, duas linhas paralelas, que se cruzam no infinito e sobre tal infinito de possibilidades desejo me debruçar. Ora, se por um lado

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Artigo

o princípio da autonomia permite ao paciente escolher o caminho de seu tratamento e por força de lei o médico deve respeitar tal princípio, como saber se a escolha do paciente realmente é a melhor para o seu caso? Ou seja, como ofertar autonomia sem ofertar conhecimento, como escolher sem conhecer? Entendo, como a grande maioria dos seres humanos, que a vida é o bem maior, o qual deve ser tutelado e protegido pelo Estado, através de leis e normas escritas. E acredito ainda que em seguida vem a saúde, a integridade do funcionamento dos órgãos e o bem estar físico e mental devem também receber lugar de destaque. Porém, não concordo em retirar do profissional de saúde a responsabilidade de zelar pelo bem estar do paciente e entregá-lo ao próprio paciente, o qual poderá, ou por erro ou por ser induzido, escolher o pior caminho ou

ainda o caminho errado para sua melhora. Como diria Leonardo Boff, em “A Águia e a Galinha”: “Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação. Sendo assim, fica evidente que cada leitor é coautor. Porque cada um lê e relê com os olhos que tem. Porque compreende e interpreta a partir do mundo que habita.” As expectativas e as perspectivas do médico e do paciente e de seus familiares são diferentes, logo, o médico não pode apenas atender a solicitação do paciente, porque agindo assim não estará respeitando a sua autonomia, mas sim chancelando uma escolha que certamente estará eivada de inverdades. O que queremos trazer a lume é a

necessidade de se dialogar com o paciente, criando conjuntamente uma escolha, que certamente será a melhor, ouvindo e falando, ponderando e contestando, construindo um caminho, cujos percalços podem ser harmonicamente superados, evitando frustrações, desilusões e processos. Dialogar com o paciente é permitir que haja o surgimento de uma vontade, para assim, tal vontade ser respeitada, atendendo-se não só o princípio da autonomia, como também o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, demonstrando a boa-fé do profissional de saúde para com seus assistidos.

Alexandre Martins dos Santos é advogado especializado em Direito Médico, autor do livro Responsabilidade Civil do Médico (Editora DOC)

NOVO BJORL Agora editado pela Elsevier

BRAZILIAN JOURNAL

GOLOGY

OF OTORHINOLARYN

VOLUME 79, NUMBE

R 6 – NOV/DEC, 2013

: 0.545 IMPACT FACTOR 2012CITATION JOURNAL © THOMSON REUTERS (2012) REPORTS, SCIENCE EDITION

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Defesa Profissional

Errar é humano! Negligência, imprudência e imperícia: três palavrinhas que assombram os médicos. Nenhum ser humano está livre do erro, mas, em se tratando de médicos, exige-se cuidado redobrado em todos os procedimentos. Por Eliana Antiqueira

“E

rrare humanum est”, afirma o conhecido ditado latino. O que poucos sabem é que uma segunda oração completa seu sentido: “perseverare autem diabolicum”. Em bom português: errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico. O diabo, no caso, esconde-se atrás da falta de informação, de apoio apropriado e de esclarecimentos sobre como evitar, sanar, ou pelo menos minimizar, o erro. Na medicina, o inferno de qualquer profissional é o risco de ser denunciado por negligência, imprudência ou imperícia. A negligência se caracteriza pelo desleixo, o descuido, para com o paciente e seu tratamento. Já a imprudência é a falta de cautela ou das precauções necessárias. A imperícia é a constatação da inaptidão, da ignorância, da falta de qualificação técnica, teórica ou prática, ou ausência de conhecimentos elementares e básicos da profissão. Um médico sem habilitação em cirurgia plástica que realize uma operação e cause deformidade em alguém pode ser acusado de imperícia, por exemplo. O médico é passível de julgamento em dois tribunais: o da Justiça comum, que segue os preceitos do Código Penal e Civil, e o dos Conselhos de Medicina, cujos julgamentos se baseiam no Código de Ética Médica. O principal artigo do Código de Ética Médica (CEM) que caracteriza o erro médico é o artigo 1º, determinando que “é vedado ao médico praticar atos profissionais danosos ao pa-

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ciente, que possam ser caracterizados como imperícia, imprudência ou negligência”. No Brasil, não existem dados estatísticos sobre o número aproximado de erros médicos cometidos anualmente, mas estimase que existam, hoje, cerca de dez mil processos tramitando nos tribunais contra profissionais acusados de falta de ética e profissionalismo na prática da medicina. “As falhas médicas vêm aumentando em parte justamente por este quadro degenerado do sistema de saúde do país. A péssima remuneração dos médicos e a falta de condições ideais de trabalho são os motivos apontados pelos profissionais, bem como o estresse constante, que os torna mais passíveis de falhas e cometimentos enganosos”, explica o advogado Romualdo Flávio Dropa, autor de premiadas monografias jurídicas, em seu artigo “Erro Médico”. Também concorrem para este aumento, a insatisfatória formação ética do médico, que contribui para a ocorrência de desvios na conduta durante o exercício da profissão. Os pontos fundamentais na prevenção do erro médico que devem ser abordados na graduação são: aprimoramento da relação médico-paciente e da comunicação entre médicos, pacientes e familiares, valorização do compromisso social do médico, ênfase na educação continuada e no trabalho em equipes multiprofissionais, além de incentivo ao correto preenchimento dos registros médi-

cos em prontuário. “Para atingir estes objetivos, é necessário um ensino de Ética Médica e Bioética mais abrangente, que não só apresente os artigos do CEM, mas também discuta as questões do dia-a-dia que estão intimamente ligadas à conduta médica e seus dilemas morais. Para isto, o ensino da Ética Médica deve ser ministrado ao longo de todo o curso de medicina, por meio da discussão de casos concretos e com a participação ativa dos alunos”, afirma Dr. Otávio Marambaia, presidente da comissão de Ética e Disciplina da ABORL-CCF.

Da denúncia ao julgamento Dr. Auro Caldeira Valadares, advogado membro da Comissão Estadual de Defesa do Médico da Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), explica como acontece o processo de denúncia por erro médico. “A denúncia é apresentada ao CRM, onde um conselheiro nomeado conduzirá a investigação. Caso persistam dúvidas na conduta adotada é aberto um processo ético profissional (conhecido por PEP), e o médico será intimado a apresentar nova defesa, desta vez acompanhado por advogado e indicar testemunhas. O

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Defesa Profissional julgamento ocorrerá em uma seção plenária que contará com a presença de onze conselheiros que avaliarão e julgarão verbalmente os votos de um relator e um revisor, sendo facultada as partes a fazerem as suas defesas orais. Cada conselheiro presente votará nominalmente pela absolvição ou condenação do médico acusado”. Toda decisão proferida está sujeita a ser reexaminada em instância superior pelo CFM. Às decisões proferidas pela justiça comum, cabem recurso nos Tribunais de Justiça. As penas variam de advertência confidencial em aviso reservado, censura pública, suspensão temporária do exercício da profissão e cassação. O advogado, no entanto, recomenda que as partes entrem em acordo, desde que o valor seja inferior às despesas com a condução do processo. “É de notório conhecimento que qualquer ação judicial esbarra na morosidade da justiça brasileira fazendo com que um processo judicial se arraste por vários anos, o que acarreta num enorme desgaste emocional para o médico”, diz.

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Com vasta experiência na defesa de médicos denunciados por erro médico, Dr. Auro aponta que o erro recorrente é o descaso. “Acompanhei médicos que foram condenados no Conselho Regional de Medicina, mesmo tendo agido de corretamente no tratamento do paciente. O problema foi que eles não elaboraram um prontuário para o paciente, não fizeram anotação da conduta, e assim o conselho alegou que não havia provas e não atenderam às normas do código de ética médica. Em outro caso, desta vez na justiça comum, o médico foi condenado, mesmo tendo feito tudo correto, porque o perito indicado pelo juiz para avaliar o caso informou que o médico não demonstrou que havia esclarecido ao

paciente sobre os riscos e cuidados que deveriam ser adotados. O médico perito alertou para a ausência do termo de consentimento informado e o juiz entendeu que houve negligência por parte do médico”, conta. Dessa forma, é possível concluir que a desatenção do médico que não preenche um prontuário, que não fornece as informações necessárias ao paciente ou mesmo não apresenta um termo de consentimento informado - ações simples e inerentes ao cotidiano profissional -, está sujeito a uma denúncia e a toda dor de cabeça que a segue. Logo, advertem os especialistas, prevenir é o melhor remédio para evitar esta enxaqueca.

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Carreira

Vale a pena ser médico? Sim, vale. Mas não é fácil. Seis anos de faculdade, mais um longo período de residência, atualização constante, sacrifícios na vida pessoal, remuneração questionável e, não raro, comprometimento da saúde. Apesar de todos esses contras, a relação candidato/vaga nos vestibulares é de 32 para um. Por Eliana Antiqueira

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ma reportagem publicada em abril, no jornal norte-americano The Daily Best, com o sombrio título “Por que ser médico se tornou uma das profissões mais miseráveis”, apontou um dado alarmante: nove em cada 10 médicos desencorajam outras pessoas para seguirem a profissão, e 300 médicos cometem suicídio todos os anos naquele país. Considerando-se que os EUA são a maior potência ocidental do planeta, um país rico, com incentivo à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico, como será então a situação do médico aqui em terras tupiniquins? Existem hoje, no Brasil, cerca de 350.000 médicos (um para cada 543 habitantes). Segundo a Organização Mundial de Saúde, este número excede ao recomendado, que aconselha um profissional da medicina para cada mil habitantes. Anualmente, o país forma 16,5 mil médicos em 183 escolas, destas 79 públicas (48 federais, 24 estaduais e 7 municipais) e 104 privadas. A relação candidato/vaga chega a 32 para um. Ou seja, a medicina ainda lidera na preferência do vestibulando. Mas será que esses jovens sabem o que os espera? “Há pelo menos uma década sou membro do Conselho de Medicina e pude ver o dano que as políticas públicas de saúde, da intermediação buscando o lucro sobre o trabalho médico e as próprias agruras inerentes à profissão têm causado ao médico. Isto

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Carreira

resulta em muita frustração e até na fuga para o consumo de drogas lícitas e ilícitas. Na maioria dos casos, não é a medicina que os frustra, mas as condições dificílimas e até degradantes em que a exercem. Pior agora, com esta aventura inconsequente deste programa eleitoreiro do governo federal”, desabafa Dr. Otávio Marambaia, presidente da Comissão de Ética e Disciplina da ABORL-CCF. Mas, calma, não rasgue o diploma ou tranque a matrícula ainda. Há luz no fim do túnel! “Nossa atividade médica experimenta mudanças, evoluções em diferentes aspectos, quer os relacionados não somente à assistência, mas também ao ensino e à pesquisa. Também cresce o envolvimento dos médicos na gestão, quer pública ou privada. O exercício da medicina no Brasil pode caminhar para que comecemos a nos dedicar cada vez mais a buscar melhorias para a saúde do nosso povo, informando e dedicando-nos às estratégias que visem melhorias”, aposta Dr. Florentino Cardoso, presidente da Associação Médica Brasileira. Medicina é o curso superior que oferece mais vantagens profissionais, segundo o estudo Radar: Perspectivas Profissionais - Níveis Técnico e Superior, divulgado em julho de 2013 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). De acordo com o levantamento, baseado em informações de 2009 a 2012 do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego, uma avaliação que considera salário, jornada de trabalho, facilidade de se conseguir um emprego e cobertura previdenciária faz que a carreira médica tenha as condições consideradas as mais interessantes a um futuro profissional. O salário médio dos médicos ao longo da carreira, ainda segundo o IPEA, é o mais alto: R$ 8,4 mil; seguido pelo dos empregados no setor militar e de segurança, R$ 7,6 mil; e dos profissionais em serviços de transporte (engenheiros de trânsito, especialistas em logística, pilotos de aviação, administradores de portos e aeroportos, por exemplo), R$ 6 mil. Mas, obviamente, a medição não

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O exercício da medicina no Brasil pode caminhar para que comecemos a nos dedicar cada vez mais a buscar melhorias para a saúde do nosso povo, informando e dedicando-nos às estratégias que visem melhorias.” Dr. Florentino Cardoso

inclui os custos com a formação, com a montagem de um consultório, com os inúmeros impostos e a necessidade constante de atualização profissional. Não só a remuneração, no entanto, coloca a medicina em primeiro lugar no ranking de profissões do instituto. A facilidade de encontrar um emprego, expresso pela taxa de ocupação de 97% dos médicos formados, também é a maior entre as carreiras e a cobertura previdenciária, de 93,3%, são fatores determinantes. Os números não mentem. Será? Os médicos e os estudantes de medicina afirmam que o cenário da carreira não é bem esse pintado pelo estudo do IPEA. Eles reclamam das condições de trabalho, dos salários baixos, especialmente nos primeiros anos de profissão, e das jornadas de trabalho excessivas. As cargas horárias são muito pesadas. Não é raro um médico recém-formado ter de trabalhar 60 horas semanais para ganhar mais ou menos R$ 2 mil. Além da extensa jornada de trabalho, muitos ainda têm de manter um segundo emprego, geralmente em forma de plantões, para complementar o salário, especialmente os que fazem a residência fora da cidade de origem e em hos-

pitais públicos, em que recebem uma bolsa de estudos em média no valor de R$ 2,6 mil, incluindo auxílio-moradia. “Sim, o mercado de trabalho do médico mudou”, atesta Dr. Florentino. “Continua tendo grande oferta, mas há uma crescente precarização das relações de trabalho, especialmente no setor público e mais ainda nas pequenas e médias cidades. Claro, que hoje temos mais informação, o que ajuda termos maior conhecimento da realidade da vida do médico em diferentes lugares”. São vários os fatores que concorrem para essa precarização citada pelo presidente da AMB. “Há um número absurdo de escolas médicas sem nenhuma condição de oferecer qualidade de ensino para os alunos, além do alto custo associado a ela e pouquíssimas oportunidades de se cursar uma boa residência médica e complementar a formação profissional adequadamente”, explica Dra. Wilma Terezinha Anselmo Lima, Chefe do Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. A médica aponta ainda que as dificuldades da carreira também afetam o

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Carreira

profissional no aspecto pessoal. “Acredito que, como somos seres humanos afetivos, isso é normal. Vivenciamos o atendimento público e suas precariedades; participamos de comissões polêmicas; coordenamos disciplinas, ambulatórios; chefiamos departamentos... Todas essas funções administrativas, que nos fazem responsáveis por melhorias no ensino e no atendimento, nos tornam vulneráveis. Difícil mesmo, entretanto, é quando nos vemos diante da impossibilidade de resolver o problema do paciente. É impossível conviver com esse tipo de frustração sem mudar o comportamento”, afirma. Um artigo publicado em 1991, na Revista Brasileira de Clínica e Terapêutica, de autoria do agora aposentado professor associado do Departamento de Psiquiatria da Unifesp, Luis Antonio Nogueira Martins, destacava, já naquela época, alguns fatores estressantes associados ao exercício profissional, como sobrecarga horária, privação de sono, contato intenso e frequente com a dor e o sofrimento, contato com a morte, com pacientes difíceis, incertezas e limitações do conhecimento médico, o que acarretava o medo do erro médico. Todos esses elementos concorrem para o surgimento de um distúrbio psíquico, precedido de esgotamento físico e mental,

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chamado de Síndrome de Burnout (leia mais na página 29). “Ser médico é estar médico. Isso interfere na nossa vida de forma intensa e cabal”, confirma Dr. Marambaia. O otorrino Marco Antônio Corvo concorda que é preciso saber conciliar a vida pessoal e a profissional. “Muitas vezes acabamos priorizando o trabalho, pelas nossas inúmeras responsabilidades profissionais”. Entre suas responsabilidades, que inclui investir no consultório, depois de 13 anos de estudos ininterruptos entre a graduação e o doutorado, está a necessidade constante de atualização. Ele programa-se para participar de pelo menos dois congressos anuais de grande porte e, a cada dois ou três anos, do congresso da Academia Americana. “É um investimento, não tem como não se manter atualizado. É uma exigência profissional”, afirma. Dr. Marambaia completa: “De modo permanente e contínuo

me dedico à leitura, a participação em eventos médicos e a realização de projetos de publicação científica no grupo que faço parte”. Até aqui, as notícias não parecem boas. Mas se existe uma verdade absoluta em relação à medicina, é que quem faz não se arrepende. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), o índice de desistência nas faculdades de medicina do país é de apenas 4%, bem distante das profissões consideradas “descoladas”: processamento da informação (36%), marketing (35%) e ciências da computação (32%). “Vim de uma família de poucas posses, fui o primeiro médico da minha família, vivi em uma época em que tudo era difícil. Mas o principal plano da minha vida era, e continua sendo, cuidar de pessoas”, declara Dr. Otávio Marambaia. “A medicina nunca deixará de ser nobre, pois lidamos com o bem maior das pessoas: a saúde”, completa Dr. Florentino Cardoso. Quanto ao desânimo que pode surgir diante dos desafios profissionais, Dr. Marambaia recomenda: “sejam mais junco e menos carvalho”.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), o índice de desistência nas faculdades de medicina do país é de apenas 4%, bem distante das profissões consideradas “descoladas”: processamento da informação (36%), marketing (35%) e ciências da computação (32%).

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Entrevista

Síndrome de Burnout: muito além do estresse Psicóloga com longa experiência na pesquisa sobre a incidência e as causas da síndrome, que é muitas vezes confundida com estresse e depressão, a Dra. Ana Maria falou à VOX Otorrino sobre as características do distúrbio, a incidência e seus desdobramentos.

Em que consiste a Síndrome de Burnout? Quais seus sintomas? Prof. Dra. Ana Maria Teresa Benevides Pereira Membro do GEPEB - Grupo de Estudos sobre Estresse e Burnout Profa. Adjunta da PUCPR Pontifícia Universidade Católica do Paraná e Orientadora do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação para a Ciência da UEM - Universidade Estadual de Maringá Orientadora do Programa de Doutorado da UAM - Universidad Autónoma de Madrid

A Síndrome de Burnout é uma reação ao estresse ocupacional que se tornou crônico. Sem possibilidade de lidar com as tensões do ambiente de trabalho, o profissional busca uma forma de se manter em seu posto laboral e desenvolve o burnout. Assim sendo, esta síndrome vai além do estresse. Esta possui uma dimensão denominada exaustão emocional, que é o elemento representativo do estresse na síndrome, com sintomas como ansiedade, irritabilidade, cefaleias/enxaquecas, dores musculares, insônia, dificuldade de relaxar, isolamento, crises de choro, instabilidade emocional, impaciência e/ ou outros. Os sintomas podem variar de pessoa para pessoa, pois dependem de características individuais e situacionais. Além da exaustão, a pessoa também passa a apresentar um

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distanciamento emocional dos demais, denotando atitudes de desumanização. É considerada uma característica defensiva da síndrome, uma forma de se proteger das demandas, em especial as afetivas, do ambiente ocupacional (pacientes, clientes, alunos, colegas de trabalho...). Como, de forma geral, o Burnout sobrevém em profissionais idealistas, perfeccionistas, responsáveis, fortemente identificados com seu trabalho, estes se desapontam com suas atividades laborais, sentem-se ineficientes e apresentam reduzida realização no trabalho. Esta é considerada por alguns autores como a terceira dimensão da síndrome. Há pesquisadores que consideram as duas primeiras dimensões descritas como as centrais para se caracterizar o Burnout, assim como outros que acrescentam a culpa como uma dimensão viável. Como diferenciá-la de um simples caso de estresse?

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Entrevista

O estresse ocorre quando a pessoa acredita não possuir recursos necessários para fazer frente às demandas, quando sente que algo a ameaça e se percebe sem a capacidade suficiente para o enfrentamento. O Burnout é decorrente de um estresse ocupacional, isto é, necessariamente do ambiente de trabalho. É sempre um distresse, isto é, um estresse considerado negativo (diferentemente do eustresse, um estresse positivo como a promoção no emprego ou a mudança para uma casa nova e desejada). Por outro lado, manifesta a dimensão de desumanização, o que não ocorre no estresse. Esta é uma doença moderna, reflexo das mudanças da sociedade em relação às pressões por resultado no trabalho, por sucesso? Provavelmente o Burnout sempre existiu. No entanto, o mundo moderno se deu conta de que as exigências do trabalho, principalmente em ambientes que mantinham condições organizacionais “tóxicas”, perdiam seus melhores funcionários (vide as características citadas acima) acarretando queda da qualidade e produtividade, turn over, bem como custos com licenças médicas, novas contratações e treinamentos. Profissionais da saúde, em geral, são bem atingidos pela síndrome. Por que esta categoria é mais afetada? Inicialmente, nos anos 70 do século passado, se atribuiu esta síndrome aos profissionais de saúde e educação. Posteriormente se verificou que qualquer

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profissional pode estar sujeito a desenvolver o Burnout, pois as características do local de trabalho são mais importantes do que a atividade em si. Inclusive, desde 1999, o Brasil admite o Burnout como Doença do Trabalho. Quem são os mais atingidos, homens ou mulheres? Independe do gênero. No entanto, em setores onde a presença masculina é mais marcante, as mulheres podem apresentar índices mais elevados, possivelmente pela cobrança mais intensa de seus pares, além da dupla jornada de trabalho a que, em geral, estão submetidas (afazeres domésticos, maternidade). A síndrome tem tratamento? Qual? Medicação, terapia? Principalmente nos momentos mais agudos da síndrome, a medicalização pode fornecer

um substancial alívio. Entretanto, um exame das condições de como o trabalho vem se desenvolvendo e a psicoterapia pessoal são elementos fundamentais. Quais os possíveis desdobramentos da síndrome caso não haja um diagnóstico rápido? O processo pode ir se agravando levando o trabalhador à incapacidade funcional. Casos de suicídio também têm sido relatados. Há algum estudo que aponte o número de casos no Brasil? Infelizmente, no Brasil, boa parte dos casos está mascarada sob o rótulo de “depressão” ou “estresse”. Cheguei a acompanhar casos que haviam sido diagnosticados como Burnout, mas que no momento da aposentadoria foram intitulados como depressão.

Leitura recomendada Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador

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Ética

Ser Médico D

Por Dr. Otávio Marambaia Presidente da Comissão de Ética e Disciplina da ABORL-CCF

esde o surgimento desta onda de desconstrução da medicina e dos médicos pairou sobre nós todos uma sombria nuvem. De tanto receber flechadas, vindas e orquestradas por um governo e um partido que sonham com o totalitarismo, os médicos têm variados motivos para frustrar-se. Se de um lado não vimos as chamadas “forças vivas” da sociedade saírem em nossa defesa – pelo contrário! –, por outro, nós próprios ficamos desnorteados diante do tsunami de críticas e ataques raivosos a revelar que em muitos nichos da comunidade brasileira, tal qual fogo de monturo, estava a chama da inveja, da raiva até, sobre nós. Enfim percebemos também que as nossas entidades nunca estiveram preparadas – e precisamos repensar suas estratégias para um ataque de tal magnitude diante do qual ficaram patinando em dúvidas e incertezas. Que tempos estes! Saímos dos píncaros do Olimpo para o Hades da execração pública. Tal crise revelou rancores contra nós que nunca, nos mais delirantes pensamentos, poderíamos imaginar. A crise gerou outra: a de identidade. Afinal que profissional emergirá desta hecatombe? Humano, já sugerem alguns, como se inumanos fossemos! Despojados e crédulos que a mesma sociedade que nos vê como arrogantes e mercantilistas nos proverá de tudo que necessitamos para sustentar nossas famílias e sonhos? Generalistas quando se reverbera tanto contra o reducionismo especializado? Médicos do SUS e não do sistema privado? Nesta hora não tenho resposta cabal. Na verdade, perguntas e mais perguntas giram agora na minha e nas cabeças dos médicos. A principal delas: o que é ser médico?

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Não posso responder de outro modo sem dizer das coisas que sinto e senti durante toda a minha caminhada de vida e de profissão: ser médico é fazer de conta que a dor do outro é a sua própria. E ainda assim não demonstrar para poder tratá-la. Ser médico é, estando doente, fingir não estar para cuidar dos outros – “ e médico fica doente, doutor”? Ser médico é ser confundido com o estóico sacerdote, mas ser cobrado como um rei. Ser médico é não “estar”, mas ser sempre médico em qualquer lugar: “Há algum médico aqui?”... Ser médico é fazer “ouvidos de mercador” quando tantos impropérios lhe são proferidos e tratar com desvelo aquele que lhe injuriou. Ser médico é estar exausto e ainda assim encontrar forças para continuar no atendimento em detrimento da sua própria vida e dos seus. Ser médico é sentir-se derrotado e frustrado ao não vencer a doença e não conseguir curar o seu paciente. Ser médico é estar disponível e atender àquele pedido no meio da festa ou do sono. Ser médico é cuidar da vida e ser mensageiro da esperança! Quantas vezes fomos ou sentimos isto nas nossas vidas? Fomos médicos em todas as vezes que assim fizemos ou nos fizeram. Ainda assim devemos continuar a fazer, independentemente desta difamante campanha orquestrada por estes incompetentes e oportunistas de plantão, certo que, se em tal atitude perseverarmos, “que nos seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrados para sempre entre os homens; se dele nos afastarmos ou infringir, o contrário aconteça.” (Hipócrates)

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Educação Continuada

O que há de novo?

C

aros colegas, pacientes com rinossinusite aguda evoluem para resolução completa dos sintomas e, na  maioria das vezes, têm etiologia bem definida: virus.  Pacientes com rinossinusite crônica (RSC), por definição, naqueles nos quais o processo inflamatório persiste por mais de 12 semanas, têm etiologia bem mais difícil de ser esclarecida.   Alguns pacientes com rinossinusite crônica  se apresentam com polipose nasal.  Outros não.  Assim são classificados em dois grupos: RSC com e sem polipose nasal, o que não resolve a questão da etiologia.  Enquanto os pesquisadores se esforçam para evoluir no melhor conhecimento da rinossinusite crônica, diversos tratamentos são empregados, incluindo medicamentos e cirurgia.  Este artigo  é muito importante pois sintetiza as principais formas de manejo clínico da rinossinusite crônica com polipose nasal e discute brevemente as indicações cirúrgicas. Boa leitura.   

Dr. Renato Roithmann

Tratamento Clínico para Rinossinusite Crônica com Pólipo Nasal: o que realmente funciona e o quando indicar cirurgia? Edwin Tamashiro, Fabiana Cardoso Pereira Valera, Wilma T. Anselmo-Lima Docentes da Divisão de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP, Serviço de Rinossinusologia do Hospital das Clínicas da FMRP – USP.

A

s formas de rinossinusite crônica que se apresentam com a formação de pólipo nasal (RSCcPN) ainda continuam sendo um grande desafio de tratamento para os médicos otorrinolaringologistas. Apesar dos pólipos nasais estarem comumente associados à asma, doença respiratória exacerbada pela aspirina (AERD) e pacientes com fibrose cística, ainda não são conhecidos os mecanismos fisiopatogênicos precisos que levam ao desenvolvimento de inflamação crônica na cavidade nasossinusal. Um reflexo da imprecisão etiopatogênica são as inúmeras alternativas terapêuticas testadas na literatura, que incluem o uso de antibióticos, corticosteroides tópicos e sistêmicos, descongestionantes nasais, diuréticos, anti-histamínicos, anti-leucotrienos, anti-IL5, anti-IgE, lavagens nasais, dessensibilização à aspirina, entre outras formas de tratamento. Diante de tantas alternativas, torna-se difícil para o otorrinolaringologista geral optar pela melhor forma de tratamento clínico para as RSCcPN. A grande maioria dos autores concorda que o tratamento das RSCcPN deve

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ser primariamente clínico, maximizado, sendo necessária abordagem cirúrgica em alguns casos quando há falha terapêutica. Baseado nessas premissas surge então uma primeira indagação óbvia: o que seria tratamento clínico maximizado? Para se definir tratamento clínico maximizado, é preciso primeiro saber o que realmente funciona. Revisões sistemáticas recentes têm demonstrado que, apesar da euforia e esperança apresentada por alguns estudos, poucas formas de tratamento são realmente eficazes para o tratamento clínico das RSCcPN quando avaliadas de modo geral e coletivo (Alobid I, Mullol J. Role of medical therapy in the management of nasal polyps. Curr Allergy Asth Rep 2012, 12(2):144-53. Fokkens et al. EPOS 2012: European Position Paper on Rhinosinusitis and Nasal Polyps. A summary for otorhinolaryngologists. Rhinology 2012; 50(1): 1-12.). Dentre as diversas alternativas

acima citadas, apenas o uso de corticosteroides tópicos e orais têm sido demonstrados por estudos placebo-controlados (nível de evidência Ia) como eficazes no tratamento da RSCcPN, com recomendação A. Os corticosteroides tópicos apresentam boa eficácia no controle ou na redução do póli-

po nasal, melhora na obstrução nasal e nos parâmetros objetivos de patência nasal, melhora da rinorreia e na sensação do olfato, além de melhora em escores de qualidade de vida. Dentre os corticoides tópicos, vários deles têm sido eficazes, como dipropionato de beclometasona, budesonida, propionato de fluticasona e furoato de mometasona. Quanto aos corticosteroides orais, algumas evidências apontam que para casos de RSCcPN mais extensa, a administração de corticosteroide sistêmico seguido de aplicação de corticosteroide tópico é mais eficaz em longo prazo do que o uso isolado de corticoide tópico. Em virtude da ausência de estudos controlados envolvendo corticosteroides de depósito e da dificuldade de manejo em caso de efeitos adversos, recomenda-se a não utilização dessas formas de corticoide. Entretanto, nem todos os pacientes respondem de maneira satisfatória e esperada aos corticosteroides, configurando muitas vezes falha de resposta terapêutica. Entre outros aspectos a se considerar, temos a dificuldade de adesão do paciente ao tratamento, a extensão da doença impossibilitando o alcance dos me-

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Educação Continuada dicamentos até a cavidade dos seios paranasais e finalmente a resistência intracelular aos corticoides, um capítulo à parte que tem sido muito estudado nos dias de hoje (Tuncer et al. The effectiveness of steroid treatment in nasal polyposis. Auris Nasus Larynx 2003; 30: 263-268; Valera F, Brassesco MS, Castro-Gamero AM, Cortez MA, Queiroz RG, Tone LG, Anselmo-Lima WT. In vitro effect of glucocorticoids on nasal polyps. Braz J Otorhinolaryngol. 2011;77(5):605-10. Valera FC, Queiroz R, Scrideli C, Tone LG, Anselmo-Lima WT. Evaluating budesonide efficacy in nasal polyposis and predicting the resistance to treatment. Clin Exp Allergy 2009 Jan;39(1):81-8).

Outra forma bastante popular de tratamento, mas que não apresentam evidências suficientes para recomendação generalizada são os antibióticos. Quando administrados em curto prazo (<4 semanas), em casos de RSCcPN não agudizados, alguns estudos apontam resultados controversos em relação ao controle dos sintomas e à melhora de parâmetros endoscópicos (ex: doxiciclina, acetil cefuroxima e amoxicilina-clavulanato). No entanto, em casos de agudização, o uso de antibióticos é recomendado para alívio dos sintomas. Em virtude dos poucos dados acumulados até então, seu uso não é recomendado para o tratamento das RSCcPN de maneira generalizada. Da mesma forma, o uso de antibióticos por tempo prolongado (>3 meses), especialmente os macrolídeos, também não tem eficácia comprovada. Outras terapêuticas, como o uso de anti-histamínicos e lavagens nasais, apresentam benefício comprovado em grupos particulares de pacientes com RSCcPN. Anti-histamínicos devem ser usados em pacientes com rinite alérgica e lavagens nasais e devem ser usados em pacientes com rinorreia e congestão nasal significativa, desde que não apresentem pólipos grandes que obliterem toda a cavidade nasal. As demais terapêuticas mencionadas, como antifúngicos, descongestionantes, mucolíticos, anti-IL-5, anti-IgE, fitoterápicos, imunomoduladores, bloqueadores de bomba de próton e dessensibilização à aspirina ou não apresentam eficácia ou não apresentam estudos suficientes que permitam extrapolações seguras. Assim, os resultados baseados em evidências têm definido e moldado o conceito de “tratamento clínico maximizado” ao longo dos últimos anos. No entanto, quando comparadas enquetes de otorrinolaringologistas a respeito do que definem “tratamento clínico maximizado” para RSC (Sylvester et al. Int Forum Allergy Rhinol 2013; 3(2):129-32; Dubin et al. Am J Rhinol 2007; 21(4):483-8), percebe-se que mesmo nas

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enquetes recentes há uma significativa discrepância em relação às recomendações eficazes de tratamento das principais diretrizes de RSCcPN. O que há cerca de uma década envolvia múltiplas opções terapêuticas simultaneamente, hoje “tratamento clínico maximizado” baseado em evidência basicamente se concentra no uso de corticosteroide tópico associado ou não ao corticoide sistêmico. Considerando que o tratamento primordial para os pacientes com RSCcPN é clínico e que a falha ao tratamento clínico maximizado seja o principal motivo de indicação cirúrgica para os pacientes com RSCcPN, alguns poderiam pensar que tem havido uma mudança na filosofia de tratamento desta doença, minimizando tratamento clínico e maximizando o tratamento cirúrgico. No entanto, ainda não há na literatura evidências suficientes que diferenciem a eficácia dos diversos tratamentos apontados diante de condições distintas de RSCcPN, como em diferentes graus de extensão da doença (como em quadros leves, moderados e intensos) ou mesmo em diferentes graus de intensidade de sintomas. Além disso, a dificuldade de caracterização de insucesso terapêutico frente ao tratamento clínico, baseada na mensuração de queixas subjetivas, continua sendo um grande desafio para quem vai decidir o momento mais apropriado para se indicar a cirurgia. De modo geral, em nosso serviço didaticamente qualificamos três tipos de pacientes que necessitam de momentos e abordagens cirúrgicas distintas: Pacientes que necessitam de tratamento clínico “maximizado” para realizar cirurgias “mínimas”. São tipicamente os pacientes com RSCcPN leves, com boa resposta ao corticoide tópico, que necessitam de poucos ciclos de corticoide oral, com poucas taxas de agudização e poucos cursos de antiobioticoterapia. Geralmente não apresentam fatores de risco de mau prognóstico, como asma, doença respiratória exacerbada pela aspirina, fibrose cística ou imunodeficiências. Habitualmente as indicações cirúrgicas costumam ser feitas após prolongado tratamento clínico, no qual a cirurgia deve ser indicada apenas em doença residual relacionada a incômodo pelo paciente, preservando o máximo possível as estruturas anatômicas sadias. Pacientes com necessidade de tratamento clínico “maximizado” com cirurgias moderadas, com remoção de todo tecido doente, incluindo na maioria das vezes a concha média e a realização de abertura dos óstios sinusais de modo mais amplo que os casos anterio-

res. Exemplos desses pacientes são aqueles com grau de sintomas ou extensão da doença moderada a grave, com resposta parcial a corticoides, que necessitam de múltiplos cursos de corticoide e antibiótico sistêmicos, pacientes com fatores de mau prognóstico como asma e AERD e que foram submetidos a poucos ou ainda não foram submetidos a tratamento cirúrgico. Nos casos em que há associação com doenças pulmonares, como asma moderada ou AERD, é importante ressaltar que o controle dos sintomas de vias aéreas superiores após tratamento clínico e cirúrgico, leva também ao importante controle dos sintomas de vias aéreas inferiores, com menor necessidade de corticosteroide sistêmico e uso de broncodilatadores. Pacientes que necessitam de tratamento clínico “maximizado” com cirurgias amplas. São tipicamente os pacientes com polipose nasossinusal (RSCcPN acentuada) que não respondem à corticoterapia, que necessitam de múltiplos cursos de antibiótico ou corticoide sistêmico, que já foram submetidos a múltiplos procedimentos cirúrgicos ou que estão associados a fatores de mau prognóstico, especialmente fibrose cística e AERD. Nesses indivíduos, provavelmente a indicação cirúrgica mais precoce pouparia o prolongamento de tratamentos clínicos pouco eficazes, abrindo a possibilidade de se tratar a doença sinusal com lavagens e aplicação de medicamentos tópicos (ex. antibióticos em maior concentração, surfactantes, corticoides tópico em maior concentração, etc). Cirurgicamente, a depender do caso, opções como etmoidectomia anterior e posterior completas com turbinectomia média e/ou superior e megaantrostomia do maxilar são exemplos dessas abordagens mais amplas. Apesar das revisões sistemáticas a respeito das evidências de tratamento clínico das RSCcPN apontarem resultados de certa forma frustrantes no momento, é preciso entender que a RSC apresenta um amplo espectro de apresentação clínica extremamente variada, com diferentes combinações de fatores de risco, fatores prognósticos, microbiologia e marcadores biológicos distintos. Apesar das evidências apontarem que a grande maioria das terapias já testadas para RSCcPN não apresentam eficácia comprovada de modo coletivo, é importante frisar que alguns subgrupos específicos poderiam sim ter benefício a algumas dessas terapias. O desafio futuro é compreender a complexidade e a heterogeneidade dessa doença para, assim, melhor tratarmos nossos pacientes.

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Perfil

Infinita highway Dr. Pedro Cavalcanti é otorrino e está satisfeito com os resultados da profissão. Mas também é apaixonado por carros antigos e fez desse hobby o combustível para não tirar o pé da estrada. Por Sheila Godoi

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uando chegou ao Brasil, na década de 1970, o Ford Maverick era o sonho de consumo dos jovens. Todo mundo queria ter o modelo. O carro, que veio ao país para concorrer com o clássico Opala, da Chevrolet, fez sucesso de imediato nas curvas e retas da vida. Mas a fama de beberrão e a crise do petróleo acabaram desbancando as vendas da máquina. Ao todo, foram produzidas pouco mais que 108 mil unidades, das quais a maior parte era do modelo Cupê – de duas portas. Quatro desses carros tem um dono muito peculiar. É Pedro Cavalcanti, otorrinolaringologista na maior parte do tempo e amante dos carros antigos nas horas vagas.

“A otorrino me deu tudo aquilo que sonhei” A história do médico com os carros antigos existe desde cedo, quando seu pai, o microempresário Pedro de Oliveira Cavalcanti, comprou um Ford 1928. “Esse é um carro com alto índice de originalidade e que nós mantemos na família desde 1968”. Esse foi o primeiro passo no desenvolvimento de uma admiração pelo antigo mobilismo e que viria a sobressaltar as demais recentemente, em 2006. “Quando eu completei meus 50 anos, senti a necessidade de alimentar um hobby. A primeira coisa que

me veio à cabeça foi ter carros antigos, participar da história do automóvel e, isso, hoje, é uma paixão, não só minha, mas de toda a minha família, e que eu pretendo passar para os filhos”, garante. No trabalho ou nas estradas, a família sempre o acompanha. A administradora hospitalar Valéria Cavalcanti, com quem é casado há 35 anos, é responsável pela gestão das cinco unidades da Clínica Pedro Cavalcanti. Da união, nasceram três filhos: Pedro Guilherme, otorrinolaringologista; Paulo Humberto, administrador hospitalar; e Priscylla Cavalcanti, estilista. Mas a lista tem ainda um nome ilustre: a matriarca Francisca Dantas Cavalcanti, conhecida como Dona Titi, que aos 88 anos se mantém frequentadora assídua dos eventos de automóveis antigos. “Nós temos ao menos um encontro mensal de carros antigos. Além disso, todo o fim de semana, eu escolho um dos carros para passear com a minha família, inclusive a minha esposa e a minha mãe”, diz o médico, com satisfação. Dr. Pedro conta que a viagem mais

Ford 1928: relíquia de família

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“Esses carros têm menos tecnologia, mas, em compensação, possuem uma rusticidade que faz com que seja um prazer dirigir”

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Perfil

especial que realizou com a família para um encontro de carros antigos ocorreu na pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte, Carnaúba dos Dantas, a cerca de 240 km de Natal. “É uma cidade que tem turismo religioso e, o mais importante, é onde minha mãe nasceu. Foi um grande evento na cidade e, para mim, um prazer enorme termos levados o Clube do Carro Antigo do RN até lá”, informa. Os encontros promovidos pela instituição acontecem mensalmente, segundo Dr. Pedro, que também é presidente do clube. Ao todo, são 70 sócios participantes de eventos que chegam a reunir 160 automóveis antigos. “As pessoas podem reviver o tempo do carro que foi do pai, de quando ele era jovem e mostrar para os filhos como é a história do automóvel nesse país.” Um desses momentos ocorreu em paralelo ao 40º Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, realizado em Natal, em 2010. Foram expostos cerca de 60 carros antigos no centro de convenções da cidade. Apesar dos quilômetros rodados Brasil adentro, ele fala das dificuldades de logística para participar de eventos longínquos. Um dos objetivos daqui pra frente é trazer os carros para o Encontro Paulista de Autos Antigos, o maior do segmento no país. Juntos, ele e o irmão, Jarbas Cavalcanti, têm 12 carros antigos e duas motos. Mas não gostam de serem taxados de colecionadores. “Parte do acervo foi deixada por meu pai. Eu e meu irmão adquiri-

Dona Titi Dantas: a matriarca divide a paixão por carros com o resto da família

“Para mim, os modelos Maverick eram os mais bonitos, mais musculosos e com motor apaixonante, que era o motor V8, da Ford. Quando eu era jovem, eram sonho de consumo” mos alguns. Não somos colecionadores, somos usuários. Nós usamos os carros antigos para andar e passear”, diz. O favorito, Maverick, foi sua primeira aquisição. “Meu primeiro carro antigo

Favorito Modelo: Maverick Fabricante: Ford Lançamento no Brasil: 1973, no Rio de Janeiro – no ano anterior, havia sido exposto no Salão do Automóvel, em São Paulo Produção no Brasil: 108.106 unidades

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comprado foi um Maverick, 1978, carro que era o meu sonho, porque eu queria ter o motor V8”, detalha. “Até hoje sou um apaixonado por Maverick. Tenho quatro e cada vez que eu ando em um deles é um prazer, como se fosse um retorno à minha época de adolescente”, assume. Nas palavras de Dr. Pedro, os modelos eram os “mais bonitos, mais musculosos e com motor apaixonante”. Ao que tudo indica, o gosto é pela história, pelo sentimento de nostalgia, por dirigir clássicos. E qual será a próxima aquisição? “Quem tem carros antigos nunca fica procurando “aquele” carro antigo. Eu digo para a minha esposa que não vou mais adquirir carros, mas vez ou outra aparecem carros que nos traz uma lembrança da infância e nós temos o entusiasmo de fazer com que esses carros façam parte do acervo”, garante. É tudo uma questão de feeling. “É como quando o jovem olha para uma moça bonita, uma paixão que surge e não se pode segurar”, finaliza.

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Otologia

Prepare-se para o Four Otology 2016! Evento na Bahia reuniu 250 congressistas e já tem data marcada para a próxima edição

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uem perdeu a 16ª edição do Four Otology, que aconteceu de 10 a 12 de abril, em Salvador (BA), anote aí na agenda: a 17ª acontecerá de 12 e 14 de maio de 2016. A edição deste ano do Four Otology contou com a presença de 250 otorrinolaringologistas de todo o Brasil, sob o comando da Sociedade Brasileira de Otologia (SBO), em parceria com a Associação Brasileira de Otorrinolaringoloia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), o evento foi destaque na mídia local e consagrou-se como oportunidade de atualização profissional e troca de conhecimento científico.

Dr. Paulo Lazarini entre palestrantes renomados

Segundo o presidente da SBO, Dr. Paulo Roberto Lazarini, o encontro proporcionou importante intercâmbio de conhecimento. “A presença dos convidados internacionais

assistindo a outras apresentações durante toda a reunião, discutindo informalmente os temas com os otorrinolaringologistas brasileiros e elogiando o alto nível científico do Four Otology foi algo notado e comentado entre todos nós”, disse. Com  mesas redondas, palestras, apresentações de casos clínicos e conferências internacionais de Bruce Gantz, Jaime Hernandez Uribe, Thomas Lenarz e Vincent Daurrozet, o Four Otology 2014 discutiu uma série de temas importantes. Implantes auditivos no tronco encefálico, diagnóstico diferencial de tumores do APC, otite média crônica e surdez sensório neural estiveram em pauta durante o congresso.

Marcelo Tepedino, presidente da comissão científica do Four Otology, Paulo Lazarini, presidente da SOB e Fernando Ganança, presidente da ABORL-CCF

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“Queremos agradecer o empenho, força e entusiasmo com que a equipe de funcionários da ABORL se dedicou ao evento da SBO. O trabalho deles esteve sempre acima do que o profissionalismo exige, o que demonstra o seu grande apego aos nossos associados”, agradeceu Dr. Lazarini.

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Curso BJORL

Brazilian Journal promove curso em julho Curso de revisão sistemática e metaanálise é recomendado a todos os otorrinos que produzem artigos científicos.

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os dias 25 e 26 de julho, o auditório da ABORL-CCF vai receber o curso Revisão Sistemática e Meta-Análise - O que o otorrino precisa saber para ler e escrever, promovido pela Comissão organizadora do BJORL, formada pelas doutoras Wilma Terezinha Anselmo-Lima, Eulalia Sakano e Mariana de Carvalho Leal Gouveia. Com o objetivo de fornecer as bases para o associado consumir e produzir revisões sistemáticas e meta-análises, o curso é uma oportunidade única para aperfeiçoar o método científico na elaboração de artigos. “Quando comecei a convidar os colegas para escrever assuntos importantes de revisão para o BJORL, recebia sempre a mesma resposta: ‘Artigo de revisão simples sim, mas mais complexo é muito difícil, falta conhecimento sobre a metodologia. ’ Fui descobrindo aos poucos que em muitos cursos de pós-graduação de nossa especialidade não existia cursos de revisão sistemática e meta-análise”, explica Dra. Wilma.

Com a ideia de criar um curso específico sobre o tema, saiu em busca de quem pudesse ajudá-la. “Foi dessa maneira que descobri um otorrino na USP, com formação e participação contínua em Harvard sobre o assunto, o Rui Imamura. Ele aceitou nosso convite prontamente e tem nos ajudado desde o ano passado no Congresso Brasileiro, ministrando o curso sem qualquer compensação financeira. Gostaria, aliás, de deixar aqui nosso agradecimento especial a ele pela disponibilidade, desprendimento e colaboração fundamentais”. Também ministrarão o curso os doutores Fábio de Rezende Pinna, Ronaldo Frizzarini e Cristiane Macedo. O curso de dois dias vai explorar os temas de forma detalhada. A revisão sistemática é uma revisão planejada para responder a uma pergunta específica e utiliza métodos explícitos e sistemáticos para identificar, selecionar e avaliar criticamente os estudos incluídos nessa revisão. A meta-análise é o método estatístico utilizado na revisão sistemática.

Serviço: Curso de revisão sistemática e meta-análise Data: 25/07 – 8h às 18h 26/07 – 8h às 12h Local: Auditório Luc Louis Maurice Wecx (ABORL-CCF) Inscrições:

www.aborlccf.org.br Informações: eventos@aborlccf.org.br Telefone: (11) 5053-7502

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Rinologia

Pé na estrada!

Curso Itinerante de Rinologia passa por Recife, Campinas, Porto Alegre e Rio de Janeiro e aborda atualizações em obstrução nasal. Por Sheila Godoi

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ovas técnicas de tratamento, outros formatos de diagnóstico, mudanças no quesito prevenção e na reincidência de uma doença. A verdade é que a medicina está em constante evolução. Sob a proposta de atualizar os conhecimentos em rinites e sinusites, a ABORL-CCF e a Academia Brasileira de Rinologia firmaram uma parceria para levar um curso itinerante a quatro cidades brasileiras:  Recife  Campinas  Porto Alegre  Rio de Janeiro O presidente da Comissão de Cursos e Eventos da ABORL-CCF e coordenador nacional do projeto, Dr. Fabrízio Romano, explica que o objetivo é realizar um update na área de obstrução nasal. Entre os temas, serão abordados os diagnósticos diferen-

ciais e a investigação, os tratamentos clínicos das rinites alérgicas e da polipóse nasal e o tratamento cirúrgico da obstrução nasal. Para Romano, a parceria entre as sociedades é rica. “Uma das grandes missões da ABORL-CCF é levar educação médica aos associados e a ABR, como braço científico, tem um importante papel nesse processo”, ressalta. Dr. João Telles, presidente da ABR e também coordenador nacional do curso, concorda com o colega: “O projeto itinerante é uma forma de levar informações substanciosas às outras localidades, elevando o nível de conhecimento dos rinologistas. Juntas, as sociedades priorizam a formação e a integração”. Para participar, basta se inscrever gratuitamente na data e local de realização do curso. Mais informações podem ser obtidas no telefone (11) 5053-7500.

Boa leitura! Dr. João Telles recomenda o livro Tratado de ORL, que traz um rico embasamento teórico na área de rinologia. À venda na loja virtual da ABORL-CCF, a partir de R$ 750,00 (associados quites) ou R$ 1.180,00 (não sócios).

O Curso Itinerante de Rinologia já tem quatro cidades e coordenadores confirmados. Confira: “Uma das grandes missões da ABORL-CCF é levar educação médica aos associados e a ABR, como braço científico, tem um importante papel nesse processo” Dr. João Telles

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Cidade

Coordenador

Recife (PE)

Dr. Corinto V. Pereira

Campinas (SP)

Dra. Eulália Sakano

Porto Alegre (RS)

Dr. Renato Roithman

Rio de Janeiro (RJ)

Dr. Guilherme Almeida

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Editoria

Julho

Agosto

14 a 19 de julho II Curso Teórico e Prático de Formação e Treinamento para Otorrinolaringologistas em Implantes Cocleares Coordenação: Dr. Rodolpho Penna Lima Júnior Local: Rua Auriz Coelho, 235, 2º andar – Natal/RN Informações: (84) 8829-6975

4 de agosto de 2014 a 9 de fevereiro de 2015 Otomaster 2014 Coordenação: Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento, Dr. Felipe Fortes e Dr. Luiz Carlos Barboza Júnior Local: Fundação Otorrinolaringologia – São Paulo/SP Informações: (11) 3068-9855

25 a 26 de julho Revisão Sistemática e Meta-Análise Coordenação: Dra. Wilma Terezinha Anselmo Lima, Dra. Mariana de Carvalho Leal Gouveia, Dra. Eulália Sakano Local: ABORL-CCF – São Paulo/SP Informações: (11) 5053-7502 31 de julho a 2 de agosto I Congresso de Otorrinolaringologia do Hospital Israelita Albert Einstein VIII Simpósio de Tratamento da Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono Coordenação: Denilson Fomin, Luci Black Tabacow Hidal, Luis Carlos Gregório, Marcio Abrahao, Paulo Marcelo Zimmer, Sergio Luis de Miranda, Marcelo dos Anjos, Pedro Luiz Mangabeira Albernaz, Pedro Wey Barbosa de Oliveira, Rodrigo Oliveira Santos Local: Hospital Israelita Albert Einstein – São Paulo/SP Informações: (11) 2151-5239

Centro de Convenções FIERGS Av. Assis Brasil, 8787 Porto Alegre/RS Coordenação: Departamento de Eventos da ABORL-CCF Informações: (71) 2104-3477 (71) 2104-3434 (11) 5053-7500 (11) 5053-7512

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7 a 9 de agosto Rhinoplasty 2014 Coordenação: José Antonio Patrocinio, Lucas G. Patrocinio, Tomas G. Patrocinio Local: OTOFACE – Uberlândia/MG Informações: (34) 3215-1143 7 a 9 de agosto Dissecção do Osso Temporal Coordenação: Prof. Dr. Paulo Roberto Lazarini Local: Santa Casa de São Paulo – SP Informações: (11) 2176-7235 11 a 15 de agosto IV Curso de Dissecção do Osso temporal, Eletrofisiologia da Audição e Monitoramento de Nervos Cranianos da Clinica Paparella Coordenação: Prof. Dr. Luiz Carlos Alves de Sousa Local: Clinica Paparella de Ribeirão Preto – SP Informações: (16) 3610-8459 14 a 16 de agosto 13º Congresso da FORL Coordenação: Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento Local: Centro de Convenções de Goiânia – GO Informações: (11) 3068-9855 15 a 16 de agosto Cursos Teórico-Práticos no Tratamento da SAOS em 2014 – Curso de Cirurgia de Cabeça e Pescoço: Prótese Prototipada e Fixação Interna Rígida Para Reconstrução Mandibular e ATM – Artroscopia Coordenação: Dr. José Antonio Pinto e Dr. Nelson Colombini Local: Núcleo de Otorrino, Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Medicina do Sono de São Paulo – SP Informações: (11) 5573-1970 20 a 22 de agosto 87º Curso Teórico-Prático de Cirurgia Endoscópica Naso-Sinusal, XVI de Dissecção em “S.I.M.O.N.T.” (Sinus Model Otorhino Neuro Trainer) Coordenação: Dr. Aldo Stamm e Dr. Leonardo Balsalobre Local: Complexo Hospitalar Professor Edmundo Vasconcelos – São Paulo/SP Informações: (11) 5080-4357

20 a 22 de agosto X Curso de Anatomia e Dissecção do Osso Temporal Coordenação: Dr. Iulo Barauna e Prof. Dr. Aldo Stamm Local: Complexo Hospitalar Professor Edmundo Vasconcelos – São Paulo/SP Informações: (11) 5080-4357 22 a 23 de agosto Cursos Teórico-Práticos no Tratamento da SAOS em 2014 – Curso Multidisciplinar: Odontologia do Respirador Oral na Criança e Adolescente. Tratamento Odontológico Junto à Otorrinopediatria Coordenação: Dr. José Antonio Pinto e Dr. Nelson Colombini Local: Núcleo de Otorrino, Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Medicina do Sono de São Paulo – SP Informações: (11) 5573-1970 22 a 24 de agosto 8º Curso Prático de Rinite Alérgica e Alergia Coordenação: Dr. Sergio Maniglia e Dra. Gisele Kuntze Local: Hospital IPO – Curitiba/PR Informações: (41) 3314-1597 28 a 30 de agosto XLIV Curso de Cirurgia Funcional e Estética do Nariz Coordenação: Prof. Dr. José Eduardo Lutaif Dolci e Prof. Dr. Ivo Bussoloti Filho Local: Santa Casa de São Paulo – SP Informações: (11) 2176-7235 28 a 30 de agosto 91º Curso de Cirurgias Endoscópicas Endonasais Coordenação: Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento, Dr. Marcus Miranda Lessa e Prof. Dr. Richard Voegels Local: Hospital Universitário Prof. Edgard Santos – Salvador/BA Informações: (11) 3068-9855 29 a 30 de Agosto Cursos Teórico-Práticos no Tratamento da SAOS em 2014 – Cirurgia de Moldes Para Avanço Maxilo Mandibular e Cirurgia de Modelos em Prototipagem Coordenação: Dr. José Antonio Pinto e Dr. Nelson Colombini Local: Núcleo de Otorrino, Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Medicina do Sono de São Paulo – SP Informações: (11) 5573-1970 29 a 30 de Agosto Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono: A-Z Coordenação: Dr. Luis Carlos Gregório e Dra Fernanda Martinho Haddad Local: Hotel Travel Inn Live Lodge Ibirapuera – São Paulo/SP Informações: (11) 5080-4933 30 de agosto XIII Jornada de Otorrinolaringologia em Itaperuna/RJ Coordenação: Dr. Paulo Tinoco Local: Auditorio Ayrton Moreira Basto – HSJA – RJ Informações: (22) 99710-3131

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Notícias da ORL

XII Congresso Norte Nordeste reúne grandes nomes em Maceió

D

e 1º a 3 de maio, aconteceu no Hotel Radisson, em Maceió, o XII Congresso Norte Nordeste de Otorrinolaringologia. Presidido pelo Dr. Marcos Melo, o evento reuniu cerca de 300 especia-

Palestra do Dr. Lucas Patrocínio, de Minas Gerais

listas, de todos os estados das regiões, e também um grande número de médicos vindos de São Paulo. A programação científica reuniu temas como Otorrinopediatria, Otologia, Plástica Facial, Otoneurologia, Laringologia, Rinologia, Medicina de Sono, com palestras de profissionais renomados como Oswaldo Laércio, Agrício Crespo, Alexandre Felippu e Lucas Patrocínio. O evento contou ainda com a exposição de pôsteres com trabalhos aprovados pela comissão científica. Dr. Fernando Ganança, presidente da ABORL-CCF, compareceu ao congresso para prestigiar o trabalho dos colegas do Norte e Nordeste, buscando a aproximação com as associações regionais. Representando a ABORL-CCF nos debates realizados, o Dr. Rodolfo Bor-

saro Bueno Jorge discutiu a organização das cooperativas médicas no painel “Miscelânea – O que o Otorrino deve saber sobre Cooperativas”. “Os otorrinos se mostraram insatisfeitos com atual realidade de honorários médicos e também com relacionamento injusto e desigual dos convênios”, disse. “A cooperativa de especialidade médica combate, através da união de todos, a relação nociva ‘médico-convênio’ promovendo honorários mais justos e reajustes anuais com ganhos reais”. A palestra do Dr. Rodolfo está disponível para o associado. Além de contribuir com o debate do Congresso Norte-Nordeste, a ABORL-CCF montou um estande no evento, com publicações e informações sobre a associação.

Lançamento do livro Otoneurologia Clínica Em 22 de abril, a Livraria da Vila, em São Paulo, recebeu o lançamento da obra Otoneurologia Clínica, publicação da Editora Revinter em parceria com a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial. O livro, que reúne capítulos teóricos e práticos sobre o tema, é de autoria dos doutores Denise Utsch Gonçalves, Fernando Freitas Ganança, Marco Aurélio Bottino, Mario Edvin Greters, Maurício Malavasi Ganança, Raquel Mezzalira, Roseli Saraiva Moreira Bittar e Sergio Albertino. Os autores, de forma espontânea, cederam todos os direitos, inclusive sobre as receitas decorrentes da comercialização da obra, a favor da ABORL-CCF. A publicação já está disponível nas principais livrarias do país ao custo de 169 reais.

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Otoneurologia Clínica, obra escrita por oito autores

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HumORL

NÃO TOQUE NO VERDE José Seligman

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ratava-se de uma sala de partos em um grande hospital. A parturiente em posição e a equipe médica pronta. Recobertos por aventais de cor verde-claro, o obstetra, a anestesista, a instrumentadora e o pessoal da retaguarda portavam a mesma cor dos campos cirúrgicos que cobriam a paciente e as mesas auxiliares. Obviamente, material esterilizado.

nascimento de sua primeira filha. Envolvido pelas dificuldades em colocar os propés, a máscara facial, o gorro e o avental cujo cinto fazia uma volta completa em seu corpo, atrasara-se para entrar na sala. O grupo, entretanto, mantinha-se à espera. Quando terminou de vestir-se, uma funcionária levou-o até a sala. Já na porta recitou as orientações:

O pai, neste momento, baixou o olhar e deu-se conta de que os ladrilhos do chão formavam figuras coloridas onde imperava a cor verde. Não teve dúvidas, entrou na sala na ponta dos pés cuidando para não tocar nos ladrilhos verdes, dando passos ora pequenos ora largos com todo o cuidado como se estivesse dançando.

Faltava apenas o pai da criança que insistira em presenciar a manobra de

— Não toque em nada, mantenha-se preferentemente com os braços para trás e,

Isto, passado o primeiro instante, sob as gargalhadas da equipe médica.

especialmente, não toque em nada verde.

Colega, Aziz Lasmar e José Seligman estão dando andamento ao quinto volume de histórias médicas com bom humor. Se você tem alguma, envie, por favor, para azlasmar@ig.com.br e/ou para seligman@terra.com.br

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Editoria PROMOÇÃO >

COORDENAÇÃO GERAL >

PR OF. DR . MAR C OS MOCELLIN

PALESTRANTES INTERNACIONAIS

PALESTRANTES NACIONAIS Ant ônio Carlos Cedin (SP) Caio Márcio Correia Soares (PR)

Dean Turium i (USA) - Head of the Division of Facial P last ic & Reconstruct ive Surgery. Departm ent of Otolaryngology - Head and Neck Surgery. Coll ege of Medicine University of Illinois at Chicago.

Carlos Robert o Ballin (PR) César Augu st o Sarraf t Berger (PR) El en Carolina David João De Masi (PR) Fábio Fabricio Maniglia (PR) João J. Maniglia (PR) João Luiz Garc ia De Faria (PR) José Ant ônio Pat roc ínio (MG) José Eduardo Lut aif D olci (SP) José Robert o Parisi Jurado (SP)

Pi etro Palma (Itália) - Graduated at the University of Bologna, Italy. He co-authored two textbooks with prof. Sul sent i, ent itl ed “Chirurgia Funzional e ed Estet ica del Naso” and “ I Disordini Ostrutt ivi Respiratori nel Sonno”.

A P OI O I N STI T UCI ON AL:

Leão Moc ellin (PR) Marco César Jorge D os Sant os (PR) Marcos Moc ellin (PR) Ricardo Fabric io Maniglia (PR) Rogério Pasinat o (PR) Shirl ey Pignat ari (SP) Washingt on Luiz Cerqueira Almeida (B A )

PATRO CÍNIO MAS TER:

INSCRIÇÕES E MAIS INFORMAÇÕES NO SITE: WWW.NARIGAO.COM.BR maio / junho 2014 | www.aborlccf.org.br

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Editoria

CURSOS DE INSTRUÇÃO: Inscrições abertas! MATRICULE O SEU CURSO NO MAIOR EVENTO DA ESPECIALIDADE NA AMÉRICA LATINA

CURSOS PRÉ-CONGRESSO

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Revista Vox Otorrino - Nº 141  

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