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Entrevista inédita com o cineasta Eduardo Coutinho

A força criativa de Henfil, o gênio do traço provocador

Censura às biografias: a quem interessa proibir livros?

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398 F EVEREIRO 2014

ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE I MPRENSA

FRANCISCO UCHA

O jornalista Tarcísio Holanda foi reconduzido à presidência da ABI por decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Tarcísio ocupava o cargo de vice-presidente da chapa Prudente de Morais, neto, quando foi vítima de um golpe dos próprios companheiros. PÁGINA 3

VIDAS ADAIL • CARLOS ALBERTO LUPPI • LOUREIRO NETO • RENATO POMPEU • SANTIAGO ANDRADE


EDITORIAL

DESTAQUES

CARTA ABERTA AO FUTURO DOMINGOS MEIRELLES O HUMOR CORROSIVO DE HENFIL. PÁGINA 16

“TODA INSTITUIÇÃO É a sombra alongada de um homem” – com esta frase do filósofo, poeta e escritor R.W. Emerson (1803-1882) podemos pensar num retrospecto sobre os homens que emprestaram sua sombra à Associação Brasileira de Imprensa para fazer dela o que, de longe, ainda reconhecemos. O jornalista e escritor Fernando Segismundo, que por duas vezes assumiu os rumos da entidade (1977/1978 – 2000/2004), definiu a missão da ABI de maneira ideal em 1969, quando disse que “além das finalidades fundamentais, a associação deve interpretar o pensamento, as aspirações, os reclamos, a expressão cultural e cívica de nossa imprensa; preservar a dignidade profissional dos jornalistas – e não apenas a de seus sócios; acautelar os interesses da classe; estimular entre os jornalistas o sentimento de defesa do patrimônio cultural e material da Pátria; realçar a atuação da imprensa nos fatos da nossa história; e colaborar em tudo que diga respeito ao desenvolvimento intelectual do País”. PARA CUMPRIR UMA MISSÃO tão densa, sem deixar-se levar por sentimentos menores e com clareza de avaliação, é preciso ter, antes de tudo, desprendimento, cujos sinônimos são abnegação, altruísmo, independência. A sombra alongada dos que deram à entidade a estatura que ela ainda porta vem-se encolhendo com o passar do tempo e deformando sua imagem – o pior dos momentos sem dúvida é este, que a Casa está experimentando agora. A ABI está passando por uma crise estrutural e de credibilidade que drena o pouco que lhe resta de prestígio junto à classe jornalística e à sociedade brasileira. A Justiça, que sempre foi provocada pela entidade para defender os legítimos anseios do povo brasileiro, agora teve que se manifestar para defender a ABI de si mesma. 2

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O MOMENTO É DE CRISE SIM, mas é também a oportunidade de uma revisão profunda para sanar problemas que têm sido postergados – um deles, a renovação do quadro de associados e de membros das instâncias decisórias da Casa, chamando as gerações mais jovens de jornalistas a darem sua contribuição e emprestarem as suas sombras para a construção de uma ABI para e com futuro. O exemplo de Barbosa Lima Sobrinho, que conduziu a entidade por três mandatos, o último indo de 1978 até sua morte aos 103 anos, em 2000, não pode ser contemplado apenas pela exceção de longevidade, mas pelo compromisso do homem que emprestou não apenas a sombra, mas todos os seus dias a uma causa da qual a ABI era apenas o instrumento.

03 E SPECIAL – A Assunção de Tarcísio

NÃO DEVE A ABI SER confundida com um prêmio de consolação aos que consideram-se merecedores de um reconhecimento, seja pessoal ou profissional, que não lhes foi concedido ao longo do tempo. Ao refletir sobre isso, podemos entender a luta encarniçada daqueles que a Justiça mandou afastar dos postos de comando da ABI, em sentença proferida de forma grave – é que para moldar-lhes a sombra encolhida, curvada, era preciso que a Casa se apequenasse. Agora, diante da crise que nos convida à mudança, teremos a real dimensão do mal que vem corrompendo a entidade nestes anos recentes.

24 Profissionais de imprensa reivindicam medidas de segurança

06 E SPECIAL – A Cronologia da Crise ○

08 O PINIÃO – O que há por trás de uma luta esvaziada de interesses coletivos? por Joseti Marques ○

09 R EFLEXÕES – Os grandes predadores, por Rodolfo Konder ○

10 C INEMA – Um Oscar para a Via Veneto ○

11 C ENSURA – Biografias íntimas, porém permitidas ○

16 HOMENAGEM – Henfil, 70 anos ○

26 H ISTÓRIA – As mil faces de Araújo Porto-Alegre ○

28 M EMÓRIA – A paternidade esquecida da imprensa ○

30 DEPOIMENTO – Eduardo Coutinho ○

SEÇÕES D IREITOS H UMANOS 18 Revelado nome do assassino de Rubens Paiva ○

19 Em novos depoimentos, velhas lembranças do horror ○

19 No Dia da Mulher, ativistas recebem pedidos de desculpas ○

L IBERDADE DE I MPRENSA 22 Em três semanas, sete jornalistas assassinados ○

25 Argentina e México tentam democratizar a mídia ○

V IDAS 33 O homem que “desinventou” o Documentário ○

34 Desenho brasileiro perde traço de Adail ○

36 Renato Pompeu, dignidade e independência ○

38 No assassinato de Santiago, um atentado contra a imprensa ○

39 Loureiro Neto, craque do rádio ○

40 Carlos Alberto Luppi, o repórter humanista ○

A LUTA ESTÁ EM CURSO – ou a ABI se levanta e se renova, ou será apenas a sombra de si mesma a se desfazer no tempo. Os jornalistas que formam a Chapa Vladimir Herzog, empunhando a bandeira da mudança, convocam aqueles que acreditam que com os instrumentos do ofício de jornalistas podemos contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, humana e igualitária. Queremos uma ABI de todos, à frente de seu tempo e com o olhar dirigido ao futuro.

05 E SPECIAL – O Retrato do Abandono

PELÉ NO TRAÇO DE ADAIL. PÁGINA 34


ESPECIAL

A ASSUNÇÃO DE TARCÍSIO AMICUCCI GALLO

O

jornalista Tarcísio Holanda, amigo pessoal do ex-Presidente Maurício Azêdo, e um dos maiores repórteres políticos do País, foi reempossado Presidente da Associação Brasileira de Imprensa, em 21 de fevereiro, após ter seu mandato cassado, através de uma série de expedientes insidiosos praticados pelos próprios companheiros da chapa Prudente de Morais, neto. Quatro dias depois da morte do exPresidente, Tarcísio que veio especialmente de Brasília para assumir o cargo na reunião Ordinária do Conselho Deliberativo, marcada para 29 de outubro de 2013, foi vítima de “um golpe de Estado”. Espelhando-se em um dos piores exemplos da Ditadura Militar, o presidente do Conselho Pery Cota utilizou contra Tarcísio o mesmo artifício do Alto Comando do Exército para impedir que o vice Pedro Aleixo assumisse a Presidência da República com o afastamento por doença do Marechal Arthur da Costa e Silva. Os detalhes sórdidos da cassação de Aleixo foram, inclusive, reproduzidos com extraordinário talento por Zuenir Ventura, no livro 1968 – O Ano Que Não Terminou. Tarcísio Holanda, um dos profissionais mais respeitados da sua geração, com 55 anos de serviços prestados à imprensa e ao País, foi humilhado de forma inominável, pelos seus próprios pares, naquela reunião do Conselho Deliberativo, onde imaginava substituir o amigo morto quatro dias atrás. Acreditava que a reunião seria breve, havia inclusive preparado pequeno texto sobre sua longa convivência com o ex-Presidente, inclusive da época em que foram colegas de Redação no Jornal do Brasil. Não foi o que aconteceu. Ninguém estava preocupado com o luto. Não se prestou nenhuma homenagem póstuma ao jornalista brilhante, mas de temperamento difícil, que ocupava sub judice a presidência da entidade, desde a última eleição em abril do ano passado. Não se pediu sequer um minuto de silêncio em memória do seu falecimento. Não foi uma reunião onde Tarcísio acreditava que fosse lembrada a perda do presidente que escolhera a dedo cada um dos integrantes daquele Conselho. Não se ouviu também nenhuma palavra que traduzisse pesar ou tristeza. Em nenhum momento pronunciou-se o nome de Maurício Azêdo. Não se ouviu uma única voz que

O jornalista Tarcísio Holanda, finalmente, assume o lugar que lhe é de direito.

exaltasse suas virtudes. A sensação era de que haviam colocado uma lápide de silêncios sobre a sua vida e o seu passado. Era como se o presidente morto há quatro dias nunca tivesse existido. O espetáculo que se seguiu, naquela tarde de outubro, foi vergonhoso e degradante, como o próprio Tarcísio comentaria, dias depois. As máscaras se desafivelaram e as ambições pessoais se exibiriam sem disfarces, de corpo inteiro, revelando a verdadeira face de cada um dos Conselheiros presentes. As ambições mais mesquinhas afloraram, de repente, de forma deplorável. Naquela sessão, seriam violados os mais comezinhos princípios da ética e do Direito sem qualquer traço de pudor.

TEXTO GELATINOSO Ancorado em “parecer jurídico” encomendado ao escritório de advocacia Siqueira Castro, o mesmo que defendia a chapa Prudente de Morais, neto, Pery Cota leu um texto gelatinoso que declarava

“vago” o cargo de vice. A decisão contrariava o Estatuto, o bom senso e uma das mais caras tradições republicanas da Casa que sempre foi empossar o vice no lugar dos presidentes que não conseguiam cumprir o mandato até o fim. Com a morte de Gustavo de Lacerda, fundador da ABI, a direção da casa foi assumida pelo vice Francisco Souto. O mesmo ocorreu com o falecimento de Belisáro de Souza, substituído pelo vice Raul Pederneiras, um dos maiores caricaturistas da época. Antes de iniciada a sessão de 29 de outubro e ser anunciado o “parecer jurídico” que cassava seu mandato, Tarcísio fora vítima de outro constrangimento inaceitável em uma entidade com o passado democrático da ABI. Fora conduzido até a varanda do sétimo andar , por um grupo de conselheiros, e pressionado a renunciar. Como recusou-se a abrir mão do cargo para o qual fora eleito, em 2010, juntamente com a maioria dos presentes, Pery Cota abriu então a sessão com a lei-

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ESPECIAL A ASSUNÇÃO DE TARCÍSIO

tura de um texto produzido, sob encomenda, pela advogada Maria Arueira Chaves. Seu parecer impedia o vice de assumir a presidência da ABI. Tarcísio Holanda ainda lembrou que sempre desfrutara da confiança pessoal do ex-presidente, de quem fora amigo por mais de 50 anos, e a quem substituíra, por inúmeras vezes, como Presidente da Casa. Ninguém lhe deu ouvidos. Transtornado, diante de tamanha demonstração de ambição e oportunismo, desabafou em voz alta para que todos ouvissem: – A presença de vocês me enoja... O presidente do Conselho, num passe de mágica, transformou rapidamente a Reunião Ordinária do Conselho em Sessão Extraordinária, cassou o mandato de Tarcísio e indicou o nome de Fichel Davit Chargel para substituir o presidente falecido quatro dias atrás. Ao ser alertado de que não poderia atropelar o Estatuto, que exigia prazo mínimo de cinco dias para a convocação de uma Sessão Extraordinária, Pery Cota respondeu com arrogância: – Sou o presidente do Conselho e tenho poder até para extinguir a ABI.

TRAPALHADAS INACEITÁVEIS A candidatura de Chargel, que até então ocupava o cargo de diretor-administrativo, foi aprovada pelo plenário. Ao perceber que o comportamento açodado do Conselho poderia ser contestado em juízo, Pery Cota decidiu convocar uma Assembléia-Geral Extraordinária para legitimar a eleição de Fichel Davit Chargel como presidente da Casa. O que se viu em seguida foi uma sucessão de trapalhadas inaceitáveis para aqueles que pretendiam conduzir os destinos de uma entidade como a ABI. No atropelo, a convocação foi realizada em datas e horários diferentes. No Edital publicado na edição 394 do Jornal da ABI, a convocação da Assembléia-Geral foi marcada para 29 de novembro às dez da manhã. No site da entidade, o Edital saiu com data diferente: 3 de dezembro, às 10 h. Em carta enviada ao corpo social, comunicavam uma nova alteração: não seria mais realizada na parte da manhã, mas às duas da tarde. Diante da quantidade de patuscadas cometidas, viram-se obrigados a reconhecer publicamente, numa espécie de mea-culpa, que o Edital não fora também publicado no Diário Oficial e em jornal de grande circulação, como determina o Estatuto. Além dos tropeços cometidos na confecção do

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texto da convocação – que apesar de mal redigido não tinha também qualquer valor legal – cometeram outro grave pecado: não comunicaram ao juízo da 8ª Vara Cívil que pretendiam realizar uma Assembléia-Geral. Durante cerca de dez meses, a Diretoria e o Conselho Deliberativo então eleitos pela Chapa Prudente de Morais, neto, omitiram do corpo social que se encontravam sub judice; ou seja, exerciam suas funções em caráter precário. Todos os seus atos poderiam ser considerados nulos, de fato e de direito, quando a Juíza Maria da Glória Bandeira de Mello proferisse a sentença definitiva que anulou as eleições do ano passado, como ela mesma adiantou no texto da tutela antecipada, onde constatou a existência de graves irregularidades cometidas pela antiga administração durante o processo eleitoral realizado em 2013. Diante das sucessivas agressões ao Estatuto e ao Código Civil, a oposição entrou com novo processo, solicitando desta vez a anulação de todos os expedientes e procedimentos praticados a partir de 29 de outubro do ano passado, tanto pelo Conselho Deliberativo, como pelo “presidente eleito”, e demais órgãos que compõem a gestão da Casa. No dia 18 de março, o juiz da 17ª Vara Cívil reconheceu a ilegalidade dos atos cometidos pela administração da ABI sob o comando de Fichel Davit Chargel e anulou sua eleição. A decisão, na verdade, acompanhava o acórdão proferido, dia 24 de fevereiro, pela 11ª Câmara Cívil do Tribunal de Justiça da Comarca do Rio de Janeiro. Através dessa manifestação, aprovada por unanimidade, os integrantes da 11ª Câmara restabeleceram a tutela antecipada da juíza Maria Bandeira de Mello que determinava o retorno da antiga Diretoria e de todos os integrantes dos órgãos da Casa até que fosse proferida a sentença definitiva. Os desembargadores deram prazo de cinco dias para que Fichel Davit Chargel deixasse a presidência da ABI. Inconformado com o Acórdão, Chargel entrou com uma petição junto à 8ª Vara Cível na tentativa de reverter a decisão, mas o recurso não prosperou. Em seu novo despacho, a juíza reconheceu Tarcísio Holanda como legítimo Presidente da entidade e concedeu prazo de 48 horas para que Chargel se afastasse do cargo e transmitisse a Tarcísio todas as informações sobre a administração da Casa, o que até agora não ocorreu.

No alto, a antiquada sala de imprensa que ainda utiliza velhas máquinas de escrever e o retrato de Barbosa Lima Sobrinho jogado no chão do que foi, um dia, um estúdio de tevê. Abaixo, o importante acervo da Biblioteca Bastos Tigre exposto à ação destruidora da luz do sol e as empoeiradas mesas de sinuca do 11º andar que chegou a ser um dos locais mais freqüentados da ABI.


ESPECIAL

O RETRATO DO ABANDONO Uma das principais preocupações da nova gestão da ABI, sob o comando de Tarcísio Holanda, foi restabelecer a democracia interna da entidade com a realização de reuniões semanais da Diretoria. Em cerca de oito anos, o antigo Presidente só promoveu 14 reuniões, quando deveria ter realizado 192. Um dos primeiros atos de Tarcísio foi também suspender a proibição infamante que impedia sócios com mensalidades em atraso de entrarem na sede da entidade, mesmo em busca de atendimento médico, no ambulatório da Casa. Ao se dirigirem aos elevadores, os sócios eram submetidos a uma situação de constrangimento. Eram obrigados a se identificar publicamente na portaria. Os funcionários consultavam então a Tesouraria para saber se estavam com o pagamento em dia. Caso contrário, eram impedidos de ter acesso às dependências do prédio, o que levou alguns associados a moverem ações contra a ABI por danos morais. Tarcísio pediu que a Diretoria fizesse um levantamento das intervenções imediatas destinadas a tirar a entidade do quadro de inércia e apatia em que se encontra, desde a morte do ex-presidente. Aprovou-se também um programa de trabalho com o objetivo de recuperar, a médio prazo, o prestígio e a importância que a entidade desfrutava no passado, quando era o fórum natural de discussão das grandes questões nacionais juntamente com outras entidades da sociedade civil. Entre os problemas que comprometiam o funcionamento do edifício-sede, constatou-se que a central de ar-condicionado estava paralisada há cerca de um ano. A falta de refrigeração impediu que o auditório fosse alugado para grandes eventos, comprometendo uma das mais expressivas fontes de receita alternativa da Casa. O orçamento da reforma das máquinas, realizado por empresa especializada, foi estimado em R$ 18 mil. O pagamento poderia, inclusive, ser realizado em quatro prestações, mas nada foi feito. Em condições normais de funcionamento, o aluguel do auditório pagaria a reforma em pouco mais de dois meses. Outra questão que chamou a atenção da Diretoria foi o emaranhado de ferragens que envolve a fachada do prédio,

Andaimes em volta do prédio da ABI, colocados por determinação da Defesa Cilvil, protegem transeuntes do perigo de queda de placas da fachada malconservada. Abaixo, o estado caótico da casa de força do prédio que necessita de reparos urgentes.

desfigurando o traçado das suas linhas originais, conhecidas como Brise Soleil. A instalação do chamado “quebra-lixo” foi iniciada na véspera do carnaval do ano passado por determinação da Defesa Civil do Município. A medida visava impedir que as placas de mármore italiano estufadas, localizadas em vários pontos da fachada, caíssem sobre as pessoas que caminham pelas calçadas do prédio. A substituição das placas danificadas, entretanto, até hoje não foi realizada. O custo do material foi orçado em R$ 12 mil, mas o serviço não andou, mesmo diante das facilidades de pagamento oferecidas pela marmoaria responsável pelo corte e polimento das placas. Cerca de R$ 50 mil foram atirados pelo ralo com o aluguel do “quebralixo” sem que fosse realizada qualquer tipo de obra na fachada. A Diretoria está providenciando também a troca dos cabos de aço dos elevadores que deveriam ter sido substituídos há mais de dois anos. A revitalização do 11º andar é outra das prioridades estabelecidas pela nova gestão com o objetivo de atrair os associados aposentados que deixaram de freqüentar aquele espaço nobre de convivência social e lazer. A Diretoria pretende colocar à disposição do sócios, revistas semanais de circulação nacional, além dos principais jornais de outros Estados, restabelecendo uma das antigas tradições do onze como salão de leitura. Com a aproximação da Copa do Mundo, vai ser também instalada nesse espaço uma televisão de plasma de 61 polegadas, em substituição ao velho aparelho comprado em 2004. Os sócios poderão assistir aos jogos da Copa num ambiente alegre e descontraído, como sempre ocorreu no passado. A realização de torneios de sinuca é uma das propostas que deverá ser também rapidamente implementada pela nova Diretoria para estimular a freqüência do onze, que se encontra totalmente abandonado. Outro projeto é aproveitar o local para a realização de cursos de inclusão digital, além de instalar computadores que ficarão à disposição dos jornalistas que necessitem transmitir textos para a Redação sem precisar se deslocar até à sede dos jornais onde trabalham. A reali-

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ESPECIAL O RETRATO DO ABANDONO

zação de cursos livres de português e técnica de redação está nos planos da atual Diretoria, que pretende também firmar convênios com universidades para a realização de seminários a fim de atrair futuros profissionais, de acordo com o processo de renovação do quadro social da ABI proposto pela nova gestão da Casa. A revitalização do antigo Centro de Memória, com a digitalização do seu extraordinário acervo, está sendo também avaliada por empresa especializada na recuperação de fitas k-7. O Centro de Memória, que se encontrava completamente abandonado, com as fitas cheias de mofo e amontoadas em caixas de papelão, pretende reunir os depoimentos recolhidos, nos anos 1980, em uma publicação especializada, Cadernos de Jornalismo ABI. Com a edição do que for possível recuperar, a publicação colocará à disposição dos interessados informações inéditas sobre revistas e jornais que revolucionaram a imprensa brasileira no século passado. Entre os títulos escolhidos estão O Lançamento de O Cruzeiro, A Reforma do JB, A Introdução do Lead no Brasil, e A Fundação e o Papel de Última Hora com depoimentos exclusivos dos principais protagonistas desse momento extraordinário da imprensa contemporânea. Uma das maiores preocupações da nova gestão é também com a melhoria do atendimento do serviço médico do sexto andar. Nos últimos anos, por descaso da antiga Diretoria, o corpo clínico não foi renovado. Várias especialidades médicas deixaram de ser oferecidas aos associados, o que contribuiu para a decadência e a má qualidade dos serviços prestados. Ao contrário de Fichel Davit e do ex-presidente falecido, Tarcísio Holanda não pretende acabar com o atendimento médico na ABI por entender que o jornalista, ao se aposentar, necessita de um serviço que atenda suas necessidades mais imediatas, como também de toda a sua família. Tarcísio autorizou a Diretoria a promover consultas com administradoras de planos de saúde a fim de estudar a possibilidade de serem criados convênios que sejam vantajosos para os associados da Casa. Quem assistiu à comovente entrevista do radialista Gil Gomes ao programa Domingo Show, da Rede Record, na tarde de 23 de março certamente perceberá as vilezas que o destino reserva aos jornalistas que se aposentam e rompem, por motivo de doença, os laços de convivência com seus antigos companheiros de trabalho.

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ESPECIAL

A CRONOLOGIA DA CRISE 1

AS RAÍZES DA CRISE QUE CONSOME AS ENERGIAS DA

MAIS LONGEVA GUARDIÃ DAS LIBERDADES afloraram na Reunião

Ordinária do Conselho Deliberativo da ABI realizada em 26 de fevereiro de 2013. O jornalista Pery Cota, que presidia a sessão, pediu ao então presidente da Casa que indicasse os membros da Comissão Eleitoral. O presidente não se fez de rogado e propôs três nomes da sua confiança pessoal: Continentino Porto (como presidente), Marcus Miranda e José Pereira da Silva, o Pereirinha. A comissão foi aprovada por unanimidade pelo plenário. Pery e o então presidente da ABI agiam de mãos dadas. Os dois sabiam que o método utilizado para a composição da Comissão atropelava o Regulamento Eleitoral em vigor. A decisão ofendia o parágrafo 1º do Artigo 5º do Regulamento que dizia ser a presidência da Comissão Eleitoral prerrogativa exclusiva de um dos membros da Diretoria da ABI . O documento era claro. Afirmava que a presidência “caberá ao Secretário da Diretoria Executiva que coordenará a eleição, não tendo direito a voto na Comissão”. Com a reforma do Estatuto patrocinada pelo então presidente da Casa, o cargo de Secretário da Diretoria Executiva foi extinto, mas suas atribuições passaram a ser exercidas pela Diretoria Administrativa. Pery e o então Presidente comportavam-se como se comandassem a assembléia de um grêmio estudantil. Ao afrontarem as regras do código eleitoral da entidade, contaminavam também todos os atos proferidos por uma Comissão viciada desde o berço. Não se podia imaginar que uma instituição com o passado de lutas da ABI fosse capaz

de utilizar expedientes espúrios que ofendem a inteligência e conspurcam as melhores tradições de uma entidade centenária que se orgulha de ser a mais antiga instituição da sociedade civil. A avalanche de iniqüidades que se abateria sobre a Casa dos Jornalistas estava apenas no início.

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participar das eleições marcadas para 26 de abril por ter “perdido o prazo”, além de conter vários integrantes em situação de inadimplência.

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A CHAPA VLADIMIR HERZOG NÃO FOI EM NENHUM

MOMENTO NOTIFICADA PARA

QUE SUBSTITUÍSSE OU QUITASSE,

EDITAL DE CONVOCAÇÃO PARA AS ELEIÇÕES DE 2013

TAMBÉM NÃO OBEDECEU AO QUE REZA O ARTIGO 20º do

Regulamento Eleitoral que determina a fixação do documento em todas as dependências da entidade. O Edital foi colocado apenas no quadro de avisos do sétimo andar.

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O COORDENADOR DA CHAPA VLADIMIR HERZOG, JORNALISTA PAULO JERÔNIMO,

NO PRAZO REGIMENTAL DE 48 HORAS, os sócios apontados com o pagamento das mensalidades em atraso, como determina o Artigo 24 do Regulamento Eleitoral. A impugnação foi decidida sem qualquer aviso prévio ao coordenador da chapa ou aos associados que dela participavam.

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OS POUCOS ASSOCIADOS QUE TOMARAM A INICIATIVA

DE REGULARIZAR SEU DÉBITOS,

POR CONTA PRÓPRIA, NO BALCÃO

PROTOCOLOU O PEDIDO DA

DA TESOURARIA DA ABI, FORAM

CHAPA DE OPOSIÇÃO NO DIA 18

IMPEDIDOS DE FAZÊ-LO. A

DE MARCO, como estabelece o Artigo 19 do Regulamento Eleitoral. Apesar do Artigo 5º estabelecer que a Comissão Eleitoral deverá ser “integrada por membros das várias chapas concorrentes”, Paulo Jerônimo jamais foi convocado a se incorporar à referida Comissão. Os integrantes reuniam-se exclusivamente com o então Presidente da Casa, sob a alegação de que este representava a chapa Prudente de Morais, neto.

presidência da Casa, além de dar férias ao funcionário da Tesouraria responsável pelo setor de cobrança de mensalidades, proibiu que qualquer pagamento fosse efetuado no balcão da entidade, violando uma das mais antigas tradições da instituição. A quitação dos débitos, de acordo com o patrono da chapa Prudente de Morais, neto, não poderia mais ser realizada diretamente na Tesouraria, mas só através de boleto bancário, emitido pelo Santander. Como a ABI não autorizou o envio dos boletos dos associados com a mensalidade em atraso, os integrantes da Chapa Vladimir Herzog não tiveram como zerar seus débitos com a entidade. Essa manobra insidiosa impediu a oposição de participar das eleições, sob alegação de que vários dos seus integrantes estavam inadimplentes.

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AO TENTAR SE INFORMAR, DIAS DEPOIS, SOBRE OS TRABALHOS DA COMISSÃO ELEITORAL, POR NÃO TER SIDO CONVOCADO a participar das suas reuniões, Paulo Jerônimo foi surpreendido com a informação de que o prazo para contestação da impugnação de candidatos havia expirado dia 20 de março. A chapa de oposição não poderia, portanto,


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OS MEMBROS DA CHAPA PRUDENTE DE MORAIS, NETO,

LIDERADOS NA ÉPOCA PELO

ENTÃO PRESIDENTE DA ABI, QUE ESTAVAM COM SUAS MENSALIDADES EM ATRASO RECEBERAM, POR SUA VEZ, TRATAMENTO PRIVILEGIADO o

que viola o princípio da isonomia associativa definido nos Artigos 53 e 54 do Código Civil. A lei determina que todos os sócios devem receber o mesmo tratamento da instituição a que estão filiados. A solução foi resolvida pelo Presidente da ABI de forma indigna, diante da importância do cargo que ocupava. Através de cheque pessoal do Banco Itaú, ele quitou, de uma só vez, no balcão da Tesouraria, os débitos de 17 associados inadimplentes que integravam sua chapa. Assinado no dia 11 de março, o cheque, no valor de R$ 595, foi depositado na agência México do Banco Santander. No verso do cheque, explicou que o mesmo destinava-se ao pagamento de associados da ABI que não estavam com a situação em dia na Tesouraria. Além de regularizar os débitos com a concessão da anistia e regularizar a situação dos integrantes da Chapa Prudente de Morais, neto, com o pagamento de uma única mensalidade (R$ 35), o presidente listou o nome de cada um dos 17 sócios em atraso que foram beneficiados com o pagamento de contribuições efetuadas com dinheiro do próprio bolso.

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DIANTE DO CONJUNTO DE IRREGULARIDADES

COMETIDAS TANTO PELA

COMISSÃO ELEITORAL como pelo então Presidente da Casa, a coordenação da chapa Vladimir Herzog ingressou na justiça com um pedido de liminar para que as eleições de abril do ano passado fossem suspensas. A juíza Maria da Glória Bandeira de Mello, da 8ª Vara Civil, acatou parte do pedido da Oposição. Diante da proximidade da eleição, determinou que ela fosse realizada sub judice; ou seja, o resultado não teria valor legal até que fossem apuradas as denúncias anexadas aos autos do processo. Entre as muitas denúncias incluía-se a má gestão econômico- financeira da entidade, exercida ilegalmente pela

mulher do então presidente, as dívidas colossais da instituição e o péssimo estado de conservação do edifício-sede, como atestou o laudo de vistoria realizado pelo arquiteto Fernando S. Krüger. A Oposição anexou ao processo várias certidões emitidas pelo Registro Geral de Imóveis do Município do Rio de Janeiro que revelaram um quadro assustador. Quase todos os andares do prédio encontram-se penhorados, inclusive as lojas do andar térreo, como garantia dos débitos devidos. A penhora dos pavimentos da mais longeva guardiã das liberdades ameaça o futuro da entidade. A ABI é um patrimônio que não pertence apenas aos seus associados, mas a toda a sociedade brasileira. Uma decisão judicial poderá autorizar, a qualquer momento, que todo o prédio vá a leilão, eliminando do cenário político a mais notável das trincheiras na luta contra o arbítrio e a opressão.

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NA AÇÃO ANULATÓRIA ENCAMINHADA À JUSTIÇA EM 24 DE ABRIL DE 2013, QUE HAVIA COLOCADO A ELEIÇÃO DA

ABI sub judice (informação que a direção da Casa havia sonegado ao corpo social), a chapa Vladimir Herzog acrescentou outra denúncia: no verso do cheque pessoal utilizado para quitar ilegalmente os associados inadimplentes da chapa Prudente de Morais, neto, o então Presidente da entidade anistiou um morto: o jornalista Tim Lopes, falecido em 2002. O presidente da ABI pagou as mensalidades em atraso de Tim, acreditando que quitava as dívidas do irmão, Argemiro do Carmo Lopes do Nascimento, candidato ao Conselho Fiscal. O ato falho do então comandante da Casa deixou a chapa Prudente de Morais, neto em situação irregular. O Regulamento Eleitoral estabelece no artigo 14 que todas as chapas só podem ser inscritas completas, com o nome correto dos seus integrantes, além dos 51 membros estarem com suas mensalidades rigorosamente em dia.

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DIANTE DESSA FALHA, A CHAPA PRUDENTE DE MORAIS, NETO FOI REGISTRADA

COM UM CANDIDATO INADIMPLENTE, O QUE A IMPEDIA DE PARTICIPAR DA ELEIÇÃO.

rotina, não são os servidores os mais atingidos. Quem sofre a maior degradação é a própria ABI”, acentuou o documento incorporado aos autos do processo.

O então Presidente declarou, na época, ao jornal O Globo (edição de 26 de abril de 2013), que o erro fora sanado com o pagamento da referida mensalidade através de recibo emitido pela Tesouraria. A emenda saiu pior que o soneto. Ao tentar se justificar, o então Presidente não percebeu que a quitação da dívida de Miro Lopes ocorrera também fora do prazo, o que impedia a situação de concorrer às eleições da Casa.

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AO LONGO DO PROCESSO VERIFICARAM-SE OUTRAS IRREGULARIDADES praticadas pelo então Presidente da ABI. Ao procurar reparar o erro por ele cometido no verso do cheque foi emitido um recibo da Tesouraria, com data retroativa, na tentativa de provar que a quitação do débito de Miro Lopes ocorrera dentro do prazo. O documento apresentado em juízo estava fora do padrão. Fora confeccionado em preto e branco, com ajuda de computação gráfica, em flagrante desacordo com o talonário utilizado pela Tesouraria da ABI. O Relatório de Atividades da Diretoria aprovado tanto pelo Conselho como pela AssembléiaGeral continha também graves omissões. Não fazia qualquer referência ao valor total das dívidas da entidade, além de sonegar a infamante demissão de velhos funcionários, sem indenização, que haviam doado os melhores anos de suas vidas à instituição. As demissões, ocultadas do corpo social,e que representaram significativa sangria nas parcas economias da ABI foram também praticadas à revelia da Diretoria. Através de nova petição, anexada aos autos, a Oposição manifestouse de forma vigorosa ao sustentar que uma instituição, com o passado da ABI, não podia violar conquistas históricas da classe trabalhadora, como o direito de receber aviso prévio, férias vencidas e horas extras, além de impedir que tivessem acesso aos recursos do FGTS. “Quando essa prática vira

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AO LONGO DA QUERELA JUDICIAL QUE SE ESTENDE

DESDE ABRIL DE 2013, OS ASSOCIADOS QUE SE ORGANIZARAM EM TORNO DA CHAPA VLADIMIR HERZOG NA TENTATIVA DE SALVAR A ENTIDADE DO COLAPSO QUE SE

AVIZINHA, FORAM VÍTIMAS DE INOMINÁVEIS AGRESSÕES VERBAIS

cometidas pelo então Presidente da Casa. Os integrantes da chapa de Oposição foram tratados como “moleques”, “gente ambiciosa”, “oportunistas” e até chamados de “quinta-colunas” , expressão muito usada nos anos 1940 para qualificar os simpatizantes do nazismo. As acusações infamantes visavam, na verdade, confundir o corpo social. Os ataques pessoais destinavam a enodoar a imagem de jornalistas respeitáveis, com um passado impecável, como Audálio Dantas, Carlos Chagas, Domingos Meirelles, Ziraldo, Zuenir Ventura, Alberto Dines, Paulo Jerônimo, Flávio Tavares, Lima de Amorim, Joseti Marques, Ana Maria Costábile, Paulo Caruso, Carlos Newton, Jesus Chediak, Tarcísio Baltar, Juca Kfuri, Anna Lee e tantos outros profissionais com relevantes serviços prestados ao País , à imprensa e à defesa das liberdades. As agressões foram publicadas tanto no site da entidade como em várias edições do Jornal da ABI. As calúnias e informações distorcidas visavam produzir uma versão falsificada dos episódios desconcertantes que ocorriam, à sorrelfa, nos bastidores da Casa. Nenhuma das acusações que constam dos autos conseguiram ser contestadas em juízo pelo então Presidente da ABI. Na última Audiência de Conciliação e Julgamento promovida pela 8ª Vara Cívil, o antigo comando da entidade arrolou cinco testemunhas de defesa na tentativa de reverter os rumos do processo. A Oposição abriu mão da convocação de testemunhas. Não se fazia necessário colher depoimentos de terceiros. As provas dos autos eram tão expressivas que falavam por si.

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OPINIÃO

O que há por trás de uma luta esvaziada de interesses coletivos? POR JOSETI MARQUES O título deste artigo, por si só, poderia poupar o leitor das linhas que se seguem. A pergunta, dirigida aos jornalistas, é o gancho que justifica a pauta e que poderia dar início à apuração da uma matéria que ninguém ainda se dispôs a escrever, porque os jornalistas não se interessam pela ABI que temos tido. E cabe a pergunta: o que justifica uma luta ferrenha, com recurso até mesmo a expedientes que ferem a honra e a ética, em nome apenas da manutenção de cargos na diretoria da Associação Brasileira de Imprensa? A inquietação surgiu ao reler a edição do Jornal da ABI, comemorativa da eleição que substituiu Fernando Segismundo por Maurício Azêdo, em abril de 2004, dando posse à diretoria da qual fiz parte, como diretora de Jornalismo. Voltar àquela edição foi uma provocação de Domingos Meirelles, eleito na época como Diretor de Assistência Social, e que disse ter-se comovido ao reler o que eram os nossos sonhos. Mas o que vi nas entrelinhas daquele jornal não foram apenas os sonhos que hoje vemos frustrados, mas uma realidade problemática que ainda aguarda apuração e sem o que a ABI jamais virá a cumprir seu ideal. Peço, aos que tiveram a paciência de nos ler até aqui, que consultem a matéria que conta as artimanhas vergonhosas urdidas pelos “inquilinos” dos cargos da ABI, para impedir a eleição que daria a vitória à chapa encabeçada por Maurício Azêdo, de oposição a Fernando Segismundo, que ocupou a presidência nos período de 1977-1978 e 2000-2004. O que aconteceu naquela oportunidade está se repetindo agora, com os mesmos lances que desrespeitam os princípios democráticos e ferem a honra de qualquer cidadão, sendo ainda mais grave se o cidadão for um jornalista a quem a sociedade confia a defesa de seus anseios. E desta vez, por aqueles que diziam defender a bandeira de uma ABI democrática, plu-

Jornal da ABI

ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA

ral. E aí, mais uma vez, cabe a pergunta: o que faz com que jornalistas lambuzem a honra e manchem o currículo em nome da permanência nos cargos de diretoria da ABI? O que se espera do jornalista que ocupe qualquer dos postos da diretoria é doação pessoal, trabalho voluntário, o arregaçar das mangas sem qualquer remuneração – e aí se inclui o posto de Diretor Presidente. Em 2004, quando assumi a Diretoria de Jornalismo da entidade, eleita na chapa a que hoje estamos nos opondo, tinha plena consciência da missão a cumprir e da doação implícita naquele compromisso. Os registros e documentos podem comprovar não apenas o quanto foi significativa a minha contribuição, mas também a de outros dedicados companheiros, como Domingos Meirelles, que não media esforços pessoais para honrar compromissos da entidade. Naquela ocasião, nos batemos pelo que acreditávamos ser “a ABI que nós queremos”. O tempo acabou por mostrar que esse “nós” daquela frase de campanha eram apenas uns poucos, e que a ABI acabaria por voltar a ser aquela mesma caixa preta, ornamentada de honrarias, mas de costas para a sociedade, para o jornalismo e para os jornalistas, descolada dos dilemas e exigências do seu tempo. Então, ainda mais uma vez a pergunta se impõe: o que está por trás de uma luta que não contempla interesses coletivos? O que foi que a ABI fez, nestes últimos 10 anos, de que os jornalistas – todos nós, os que não vivemos da ostentação de credenciais simbólicas – podemos nos orgulhar? Não vale relacionar aí a carona nas lutas entabuladas por outras entidades, em troca de descontos ou isenção no aluguel do amplo auditório da Casa; também não devem servir de argumento as reportagens que denunciam as condições graves que enfrentam os jornalistas no País e no mundo, porque as reporta-

DIRETORIA – MANDATO 2010-2013 Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Orpheu Santos Salles Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretora de Assistência Social: Ilma Martins da Silva Diretora de Jornalismo: Sylvia Moretzsohn

Editores: Domingos Meirelles e Francisco Ucha Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha Apoio à produção editorial: André Gil, Cesar Silva, Conceição Ferreira, Paulo Chico. Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva. Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ - Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: presidencia@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Diretor: Rodolfo Konder Rua Martinico Prado, 26, Cj 31 Vila Buarque - São Paulo, SP - Cep 01224-010 Telefones (11) 3868.2324 e 3675.0960 e-mail: abi.sp@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS Diretor: José Eustáquio de Oliveira Impressão: Taiga Gráfica Editora Ltda. Avenida Dr. Alberto Jackson Byington, 1.808 Osasco, SP

CONSELHO CONSULTIVO 2010-2013 Ancelmo Goes, Aziz Ahmed, Chico Caruso, Ferreira Gullar, Miro Teixeira, Nilson Lage e Teixeira Heizer.

CONSELHO FISCAL 2011-2012 Adail José de Paula (in memoriam), Geraldo Pereira dos Santos, Jarbas Domingos Vaz, Jorge Saldanha de Araújo, Lóris Baena Cunha, Luiz Carlos Chesther de Oliveira e Manolo Epelbaum. MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2011-2012 Presidente: Pery Cotta Primeiro Secretário: Sérgio Caldieri Segundo Secretário: José Pereira da Silva (Pereirinha) Conselheiros Efetivos 2012-2015 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fichel Davit Chargel, Glória Suely Alvarez Campos, Henrique Miranda Sá Neto, Jorge Miranda Jordão, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Vítor Iório. Conselheiros Efetivos 2011-2014 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Dácio Malta, Ely Moreira, Hélio Alonso, Leda Acquarone, Maurício Azêdo (in memoriam), Milton Coelho da Graça, Modesto da Silveira, Pinheiro Júnior, Rodolfo Konder, Sylvia Moretzsohn, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa. Conselheiros Efetivos 2010-2013 André Moreau Louzeiro, Benício Medeiros, Bernardo Cabral, Carlos Alberto Marques Rodrigues, Fernando Foch, Flávio Tavares, Fritz Utzeri (in memoriam), Jesus Chediak, José Gomes Talarico (in memoriam), Marcelo Tognozzi, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Mário Augusto Jakobskind, Orpheu Santos Salles, Paulo Jerônimo de Sousa e Sérgio Cabral. Conselheiros Suplentes 2012-2015 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro

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gens são requentadas de outros veículos; menos ainda pode ser citado qualquer amparo a jornalistas que vivem as difíceis condições da aposentadoria ou desemprego, porque isso realmente não há. Ao contrário, o que há é a ameaça constante de extinção de um serviço médico básico que a entidade ainda mantém em um dos seus 13 andares. As críticas aos desvios da mídia jornalística? Disso, a ABI nem passa perto! Aliás, como apontar falhas no que fazem os jornalistas, se a ABI não se relaciona com as entidades de formação dos jornalistas – as universidades e instituições de pesquisa? Em nome de que os associados pagam suas mensalidades? Para receber um jornal de manchetes adjetivadas que apenas refletem a bile do seu editor e, destituído de prestígio e alcance, a nada mais serve? Não, isso não vale o quanto nos pesa. Nos últimos dias do final do meu mandato, em 2007, lembro que uma associada que ocupava um cargo “virtual” na diretoria comemorava o final feliz de uma “grande luta da entidade”: conseguir o espaço para a construção do Mausoléo do Jornalista. Para que isso? – eu pensei. Talvez para abrigar a vaidade – que se crê imortal – daqueles que estão transformando a entidade em um puxadinho desse futuro mausoléo, dado o distanciamento em relação à vida que pulsa do lado de fora do edifício histórico. E quem será digno de ter seus restos abrigados no espaço nobre desta última honraria? Certamente, lá não terá lugar para jornalistas como o saudoso Conselheiro Arthur Cantalice, que teve um infarto fulminante durante uma reunião do Conselho da ABI, quando se manifestava e, indignado, tentava impedir tudo isso contra o que agora lutamos. Não, essa pode ser a ABI que “eles” queriam. Mas não é a ABI que nós merecemos. Publicado originalmente em 27 de abril de 2013.

Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Continentino Porto, Ernesto Vianna, Hildeberto Lopes Aleluia, Irene Cristina Gurgel do Amaral, Jordan Amora, Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Rogério Marques Gomes e e Wilson Fadul Filho.

Conselheiros Suplentes 2011-2014 Alcyr Cavalcânti, Carlos Felippe Meiga Santiago (in memoriam), Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas, Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvio Paixão (in memoriam) e Wilson S. J. Magalhães. Conselheiros Suplentes 2010-2013 Adalberto Diniz, Alfredo Ênio Duarte, Aluízio Maranhão, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel Mazola Froes de Castro, Germando de Oliveira Gonçalves, Ilma Martins da Silva, José Silvestre Gorgulho, Luarlindo Ernesto, Marceu Vieira, Maurílio Cândido Ferreira, Sérgio Caldieri, Wilson de Carvalho, Yacy Nunes e Zilmar Borges Basílio. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Carlos Felipe Meiga Santiago, Carlos João Di Paola, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria Ignez Duque Estrada Bastos e Marcus Antônio Mendes de Miranda. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Presidente, Mário Augusto Jakobskind; Secretário, Arcírio Gouvêa Neto; Alcyr Cavalcânti, Antônio Carlos Rumba Gabriel, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel de Castro, Ernesto Vianna, Geraldo Pereira dos Santos,Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, José Ângelo da Silva Fernandes, Lênin Novaes de Araújo, Lucy Mary Carneiro, Luiz Carlos Azêdo, Maria Cecília Ribas Carneiro, Martha Arruda de Paiva, Miro Lopes, Orpheu Santos Salles, Sérgio Caldieri, Vitor Iório e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DA DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Ilma Martins da Silva, Presidente; Manoel Pacheco dos Santos, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Mirson Murad e Moacyr Lacerda. REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Conselho Consultivo: Rodolfo Konder (Diretor), Fausto Camunha, George Benigno Jatahy Duque Estrada, James Akel, Luthero Maynard e Reginaldo Dutra. REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS José Mendonça (Presidente de Honra), José Eustáquio de Oliveira (Diretor),Carla Kreefft, Dídimo Paiva, Durval Guimarães, Eduardo Kattah, Gustavo Abreu, José Bento Teixeira de Salles, Lauro Diniz, Leida Reis, Luiz Carlos Bernardes, Márcia Cruz e Rogério Faria Tavares.

JORNAL DA ABI • FEVEREIRO DE NÃO 2014 ADOTA AS REGRAS DO A CORDO O RTOGRÁFICO DOS P AÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA , COMO ADMITE O DECRETO N º 6.586, DE 29 DE SETEMBRO DE 2008. O 398 JORNAL DA ABI


REFLEXÕES

ELIANE SOARES

Os grandes predadores POR RODOLFO KONDER

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ieram do mar, com a neblina do inverno, trazendo consigo os mistérios dos navios naufragados, a voracidade dos peixes e a paixão dos suicidas. Eram peludos como ursos, insaciáveis em sua ambição de conquista e implacáveis na arte de comandar. Numa tarde fria, hoje perdida nos escaninhos da História, surgiram do horizonte difuso, em forma de vultos ameaçadores, para se espalhar pelas praias. Rodearam primeiro os arrecifes, com a maestria dos velhos navegadores; depois esfaquearam a areia branca com as quilhas do seu apetite. Então, espetaram a carne do continente com suas bandeiras. Os grandes predadores abriram os flancos da terra e engoliram suas entranhas. O que não podiam comer, transportavam de volta para o mar. Derrubaram as florestas, detiveram as águas dos rios mais caudalosos, fizeram desaparecer montanhas inteiras. Mais: além da topografia, modificaram o clima. Eliminaram o inverno, por exemplo, porque não lhes aprazia o frio. E reduziram as chuvas de outono, porque a umidade os irritava. Os ilimitados bosques do litoral foram logo transformados em pastos. Mas os pastos cedo se tornaram desertos, a terra virou pó, a vida esparsa se enterrou ou fugiu para a serra. Os

rios adquiriram tons amarelados – e vomitavam peixes mortos e amarelados num oceano que também mudava de cor, com o resto da paisagem transfigurada. Junto ao mar, os grandes predadores organizaram imensos campos de concentração, onde agruparam os índios que haviam escapado à bestialidade do primeiro assalto. Na sierra, a caçada não foi menos brutal. Os fugitivos buscaram refúgio nas cavernas mais profundas, no topo das montanhas mais íngremes, nos pântanos, no oco dos abismos, na mata entrelaçada. Mas nada podia deter as garras assassinas dos grandes predadores, dotados de olhos que se esticavam até o horizonte e viam através da escuridão. Finalmente, quando tudo parecia perdido e quase não havia mais insubmissão, alguma coisa estranha aconteceu aos predadores. Eles começaram a se desfazer. Desfaziam-se por dentro, primeiro. Mas logo a erupção interior vinha à tona dos corpos, em forma de hediondas feridas que pareciam ferrugem. Os invasores enferrujavam de dentro para fora. Empalideciam, perdiam as garras poderosas e a fome insaciável, desnorteavam-se ao sol, a visão turvada pelo medo da morte. Deixaram de ver à distância, confundiam os sons mais triviais, temiam as armadilhas

do próprio faro. Quando a ferrugem brotava à flor da pele, recolhiam-se aos quartos especiais de suas fortalezas para morrer. Morreram às centenas. Morreram aos milhares. Então decidiram trazer do mar seus feiticeiros, que chegaram carregados de instrumentos de uma nova magia e de líquidos e ervas, e de estranhos ouvidos portáteis, e de facas e punhais, e de pinças e agulhas, e de fios e gazes. Durante meses, os feiticeiros trabalharam com intensidade. Depois, concluíram que os predadores haviam sido contaminados pelo vírus da própria destruição que semeavam de forma tão indiscriminada. E, contra isso, não tinham remédio conhecido. Iniciou-se a retirada. Os invasores se arrastaram para as praias, com seus trens, ônibus, carroças, carretas, automóveis e caminhões abarrotados com os destroços demuitossaques.Formaram-seimensasfilas,desde a base da sierra. Muita gente morreu na espera. Mas logo uma frota monumental de navios arfava sob o peso da carga a ser transferida para o outro lado do mar. Os grandes predadores se foram como haviam chegado – transformados em vultos que se fundiam na neblina do inverno. RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da ABI em São Paulo e membro do Conselho Municipal de Educação da Cidade de São Paulo.

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GIANNI FIORITO

CINEMA

Um Oscar para a Via Veneto Depois Depoisde deAADoce DoceVida, Vida a Itália volta ao trottoir com A Grande Beleza. P OR F LÁVIO D I C OLA

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tos como ingredientes normais da vida contemporânea, como sugere Sorrentino. Se na época retratada pela obra felliniana o mundo baila irresponsavelmente a poucos centímetros de um abismo, representado por uma guerra nuclear iminente e devastadora no apogeu da Guerra Fria, no filme de Sorrentino o espetáculo já acabou faz tempo e dele só sobraram ruínas, como atestam as sombras tenebrosas do Coliseu que se projetam permanentemente ao alcance de nosso olhar através da luxuosa cobertura do personagem principal. As diferenças na forma de ambientar a Via Veneto nos dois filmes são um sintoma de como Roma e o mundo passaram do frenesi para a melancolia em poucas décadas. A Via Veneto de Fellini é caótica, é um formigueiro onde se encontram todos os tipos paridos no baixo ventre da prosperidade recém-adquirida: starlets, travestis, prostitutas, rufiões, turistas incautos, nobres decadentes, sultões, curiosos, desocupados, uma fauna em ininterrupto trânsito pronta para ser abatida pela voracidade das câmeras dos paparazzi. Reproduzir e encenar esse turbilhão feérico que só poderia acontecer na Via Veneto tornou-se uma obsessão tão grande para Federico Fellini que ele decidiu – para desespero dos produtores de A Doce Vida – recriar fielmente um trecho dela no estúdio 5 da Cinecittà, à época o maior do mundo. Só com a liberdade ilimitada proporcionada pela reconstrução cenográfica seria alcançado o projeto felliniano de registrar a explosão de vida desse novo mundo que finalmente se erguia cintilante dos escombros da Segunda Guerra e que se exibe na passarela mais famosa do planeta. Roma pode ser o cenário supremo da vulgaridade, dos novos ricos, dos loucos e dos perdidos, mas – pelo menos – ainda está viva. Fellini diria: “Pus o termômetro num mundo doente que evidentemente tem febre. Mas se o mercúrio assinala 40 graus, no início do filme, continua a assinalar 40 no fim. Nada mudou. A doce vida continua.

Os personagens do afresco continuam a mover-se, a despir-se, a agarrar-se, a dançar, a beber, como se esperassem algo”. Já no filme de Paolo Sorrentino, percorremos uma Via Veneto obscura, quase deserta – aliás, como a cidade inteira – pontuada por inferninhos decadentes e casas de pasto com seus “menus executivos” sob medida para uma clientela de emergentes asiáticos. A vida social pública em Roma morreu, só restando a privada, confinada em coberturas, night clubs, apartamentos e palácios murados. Enquanto uma elite estúpida e brega se diverte nesses interiores sob uma penumbra de neón e uma vertigem fabricada por cocaína e sintetizadores bate-estaca, a cidade recolhe-se numa ausência quase sinistra. Essa Roma não é mais nem pagã nem papal, nem alegre ou misteriosa. Está simplesmente vazia. À espera de alguma revelação?

FLÁVIO DI COLA é publicitário, jornalista e professor, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ e coordenador do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá.

DIVULGAÇÃO/VERSÁTIL

la não é tão longa: são apenas oito curtos quarteirões. E nem antiga para os padrões romanos: foi aberta no século 19. Começa torta numa praça barroca do século 17, mas ao subir fica reta, acabando numa muralha romana. Sua arquitetura nada tem de peculiar: parece um típico bulevar novecentista de inspiração francesa com grandes hotéis e cafés. Mas nela encontramos uma placa sui generis, colocada pela prefeitura, cujos dizeres explicam por que ela entrou na história do mundanismo internacional: “A Federico Fellini, que fez da Via Veneto o teatro da Doce Vida”. Isso diz tudo da Via Vittorio Veneto: passarela do período mais fabuloso e controvertido da história moderna da Itália, os anos 1950 e 1960 – apogeu do chamado “miracolo italiano” e da transformação de Roma na Meca para onde se destinavam celebridades de todos os calibres, principalmente as cinematográficas, levadas pelo êxodo das superproduções norte-americanas para a Europa, a ponto de a capital italiana ser apelidada de “a Hollywood sobre o Tibre”. A obra-prima de Federico Fellini escandalizou despudoradamente o mundo em 1960 ao arrancar o véu solar e risonho normalmente atribuído à vida ítalo-romana. Por isso, enfrentou campanhas ferozes e todo tipo de barreiras censórias pelo mundo afora, conquistando a tapas o respeito mundial, enquanto A Grande Beleza do diretor Paolo Sorrentino – com a qual a doce vida felliniana vem sendo exaustivamente comparada – chegou serenamente à entrega do Oscar no 2 de março como o favorito na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, após protagonizar um verdadeiro arrastão de prêmios importantes, como o Globo de Ouro e o BAFTA, cercado de unanimidade e reconhecimento. Se Roma ainda é a Cidade Eterna em ambos os filmes, os tempos são decididamente outros. Se o cinismo, o amargor, o vazio e o vulgar hedonismo precisaram ser corajosamente registrados por Fellini, eles já são acei-

A Doce Vida e A Grande Beleza: dois soberbos filmes cujas estaturas não se originam apenas das suas respectivas qualidades cinematográficas, mas também da forma como se entregam incondicionalmente aos braços da cidade mais notável da história – ora metaforizada como uma grande mãe prostituta, na visão felliniana; ora como a materialização em pedra e mármore do próprio enigma da vida, representado pelo soturno jogo de luzes e sombras da fotografia de Sorrentino. Mas temos que reconhecer que a Itália e a Roma dos anos 1960 de Fellini eram muito mais divertidas: o próprio Papa, João XXIII, era um bonachão; os novos e charmosos donos do mundo – Kennedy e Kruschev – cortejavam a nova potência mundial que emergia, o país crescia a uma taxa média de 7% ao ano, as Olimpíadas de Roma foram uma das mais agradáveis e bem organizadas da história, nas telas de cinema Troy Donahue e Suzanne Pleshette trocavam olhares lânguidos embalados pela canção “Al di là” em O Candelabro Italiano; na Cinecittà, Charlton Heston salvava a civilização cristã numa corrida de bigas em Ben-Hur, enquanto Elizabeth Taylor reinava como uma Cleópatra moderna e interrompia o trânsito da cidade para fugir de revoadas de paparazzi em suas lambretas. No falso documentário sobre a capital italiana que Fellini rodou em 1972 (Roma de Fellini), o escritor Gore Vidal – quando entrevistado – nos dá uma visão tão inusitada quanto debochada da Cidade Eterna: “Roma é a cidade das ilusões. Não por acaso temos aqui a igreja, o governo e o cinema. Todas as coisas que produzem ilusões. Como estamos próximos do fim do mundo, que cidade seria melhor do que Roma – que morreu e renasceu várias vezes – para esperar pelo fim?”. Certamente, sentado num café da Via Veneto.

Marcello Mastroianni e Anita Ekberg agitam a Via Veneto na Doce Vida de Fellini.


CENSURA

Biografias íntimas, porém permitidas Esmiuçamos livros sobre a vida de artistas brasileiros para discutir, a partir de casos concretos que não sofreram contestação judicial, a questão do direito à privacidade. P OR M ÁRIO M OREIRA

A cantora Maysa cometeu duas tentativas de suicídio quando tinha apenas 22 anos e estava recém-separada. Mais tarde, atentou outras vezes contra a própria vida e submeteu-se a longas e dolorosas internações para o tratamento de alcoolismo. O cantor Nelson Gonçalves foi investigado sob suspeita de estupro de menor. Foi também preso e acusado formalmente de trá-

fico de drogas. Viciado em cocaína, só conseguia dormir à base de calmante. Quando acordava, costumava agredir quem estivesse pela frente. O poeta Vinicius de Moraes tentou se suicidar duas vezes durante seu casamento com Lila Boscoli, nos anos 1950. Na década de 1970, já casado com a baiana Gesse Gessy, viveu dias de “intensa liberdade sexual”. O cantor Erasmo Carlos enfrentou um processo sob acusação de corrupção de menores. Em viagem à Holanda em 1972, experimentou cocaína e haxixe na casa de amigos brasileiros. Vítima de diabetes tipo dois e embolia pulmonar, o compositor Milton Nascimento, que mede 1,70 m, chegou a pesar apenas 38 kg. Depois passou por cirurgias espirituais, que lhe deixaram marcas no peito. Todas essas são informações íntimas – algumas fortes, outras nem tanto, mas em vasta medida pertencentes à esfera privada de cada uma dessas personalidades. Apesar disso, todas estão disponíveis, para quem quiser ler, em biografias publicadas no Brasil. Na esteira da polêmica sobre as biografias que mobilizou importantes nomes da cultura brasileira, o Jornal da ABI se debruçou sobre livros que relatam a vida de artistas consagrados. Constatou que é possível narrar detalhes íntimos sem necessariamente provocar reações iradas. E, mais importante, sem despertar nos herdeiros do biografado a tentação de vetar a circulação da obra.

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CENSURA BIOGRAFIAS ÍNTIMAS, PORÉM PERMITIDAS

PERSONAGEM TRANSGRESSIVO Considerada uma das maiores estrelas da história da MPB, a cantora Maysa teve sua vida narrada com tintas fortes pelo jornalista Lira Neto em Maysa – Só Numa Multidão de Amores, lançado em 2007 pela

Editora Globo. Alcoolismo, dependência de remédios, tentativas de suicídio, vida amorosa e sexual para lá de agitada, problemas de saúde, conflitos familiares e dificuldades financeiras formam o variado cardápio da vida de Maysa, conforme

Lira Neto: “Se falo de um personagem que vive sob a transgressão, não posso me policiar”. Ao lado, o jornalista Paulo Cesar de Araújo, que teve seu livro Roberto Carlos em Detalhes proibido de circular.

narrada por seu biógrafo. Segundo Lira Neto, quando o único filho da cantora, o diretor de tv e cinema Jayme Monjardim, lhe pôs à disposição os diários íntimos da mãe, firmou-se um compromisso mútuo: “O livro teria que ter o mesmo espírito de liberdade da Maysa. Não faria sentido escrever com cores pastéis uma história tão intensa”, conta o jornalista. Ele afirma não ter tido “nenhum pudor nem autocensura” ao narrar detalhes da vida da cantora. “Seria uma traição à biografada. A forma como ela viveu foi ditada pela coragem, pela ousadia, com sentido transgressivo. Se falo de um personagem que vive sob a transgressão, não posso me policiar”, diz Lira, para quem a biografia é também, ela própria, um gênero transgressivo. Para não correr o risco de publicar alguma informação duvidosa ou equivocaDIVULGAÇÃO

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artigos do Código Civil que, em síntese, estabelecem a inviolabilidade da vida privada e prevêem a hipótese de proibição das biografias não autorizadas. O segundo, para votar um projeto de lei vetando a exigência de autorização para obras biográficas.

LEONARDO AVERSA/AGÊNCIA O GLOBO

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DIVULGAÇÃO/GLOBO LIVROS

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polêmica surgiu em outubro passado, quando um grupo de artistas liderado por Roberto Carlos, Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros, e reunido na associação Procure Saber, manifestou-se a favor da necessidade de autorização prévia para a publicação de biografias, como forma de proteger o direito à intimidade. Alternativamente, o grupo chegou a propor o pagamento de royalties ao biografado ou a seus descendentes. Ante a forte reação de biógrafos, jornalistas, historiadores e dos meios de comunicação, que acusaram o Procure Saber de propor a volta da censura, alguns artistas flexibilizaram suas posições ou simplesmente abandonaram o debate. Roberto Carlos, o mais proeminente, acabou se desligando do grupo. Em artigo na Folha de S.Paulo publicado no dia 13 de novembro, a Presidente do Procure Saber, Paula Lavigne, após afirmar que a associação fora alvo de um “massacre perpetrado pelas editoras, escritores e, principalmente, pela imprensa” e que o grupo era “CONTRA A CENSURA, EM QUALQUER DE SUAS FORMAS” (assim mesmo, em maiúsculas), anunciou que ela resolvera se calar. Casos de proibição de biografias são relativamente comuns no Brasil. O mais rumoroso é o de Roberto Carlos em Detalhes, lançado em dezembro de 2006 pelo jornalista Paulo Cesar de Araújo e proibido pela Justiça menos de cinco meses depois, atendendo a um pedido do ‘Rei’ sob o argumento de que a obra violava a sua intimidade. Até hoje proibido, o livro conta detalhadamente, entre outros episódios nebulosos na vida do cantor, o acidente em que a perna direita de Roberto Carlos, então com seis anos de idade, foi esmagada por um trem, provocando a amputação de parte do membro. Também notórios são os casos de Noel Rosa – Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, e Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha, de Ruy Castro, obras também barradas pela Justiça a pedido de parentes dos biografados, mas depois liberadas. Mesmo com o arrefecimento da polêmica, o assunto continua em pauta, pois tanto o Supremo Tribunal Federal quanto o Congresso Nacional estão para se posicionar a respeito. O primeiro, para julgar uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra dois

José Castello: “O mais importante é a maneira de narrar os fatos. Se eu fosse fazer outra biografia, usaria luvas delicadas. Pode-se fazer uma biografia verdadeira sem perder a sutileza”

da, ele diz que parte sempre “de uma fonte confiável”. “Uma única anotação ou declaração precisa ser sempre checada”, afirma. “Quase dez pessoas me disseram, por exemplo, que a Maysa apregoava publicamente que tinha composto Meu Mundo Caiu após ter visto o primeiro marido (André Matarazzo) na cama com a mãe dela. Mas outras disseram que ela inventava histórias, criava situações inverídicas. Lendo o diário, e comparando com outras informações, verifiquei que ela mentia para o próprio diário. Era uma forma de criar uma segunda natureza, uma persona que não correspondia necessariamente à Maysa verdadeira”. No livro, o episódio da traição é menos escandaloso: Maysa não flagrou o marido e a mãe na cama, apenas acreditava que isso tivesse acontecido. “O ex-marido a traía, ela dizia ter certeza. Teria pressentido uma insinuação da parte dele até mesmo em direção à mãe, dona Inah. Aquilo, explicava, é que teria feito seu mundo cair. Maysa repetia tal coisa à exaustão, a ponto de tornar o assunto público, repassado de boca em boca, até se transformar em verdade indiscutível. No entanto, os amigos mais próximos nunca levaram a sério aquela história”, escreveu Lira Neto. De qualquer forma, o biógrafo diz que decidiu publicar a história da suposta traição do marido com a mãe de Maysa, mesmo podendo não ser verdadeira, porque “ajuda a compor o retrato do personagem”. “Dou oportunidade ao leitor para saber que a mitologia é importante”. De acordo com o escritor, houve apenas uma informação, “muito íntima, dita por uma única fonte”, que não foi incluída no livro. “Como envolvia terceiros, tive o cuidado de não colocar, porque iria atingir outras pessoas já mortas.” Ainda por cima, a fonte pediu anonimato. A informação, segundo Lira Neto, dizia respeito


DIVULGAÇÃO

ao relacionamento sexual de Maysa com um dos muitos homens com quem se envolveu. “Não foi nem por constrangimento que excluí a informação. Tive medo de cair no bisbilhotismo e fazer o mesmo que eu próprio condeno.” O jornalista diz não ter sofrido nenhum processo em razão do livro, mas que, após a publicação, recebeu uma carta de Jayme Monjardim com críticas à obra. “A mesma pessoa que tinha sido gentil e generosíssima ao abrir os arquivos da mãe não gostou de alguns trechos, achando que eu tinha invadido a vida privada dela. Mas não faria sentido publicar o livro de outra forma”. Pouco depois, porém, Monjardim comprou os direitos para transformar a biografia em minissérie, exibida pela Rede Globo no início de 2009. “Acho que com o tempo o Jayme percebeu que o livro, em vez de denegrir a imagem da Maysa, era um livro-homenagem, que a mostrava em toda a sua complexidade”, afirma Lira. Procurado por vários dias seguidos pelo Jornal da ABI para comentar a biografia da mãe, Jayme Monjardim afirmou apenas, num breve e-mail, que não tinha vontade de falar sobre o assunto.

SEM DETALHES MÓRBIDOS

Nelsinho Rodrigues se derrama em elogios ao livro O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, que considera de importância capital no resgate da memória de seu pai: “Ele era um homem público, tem que ser falado”.

sexual do poeta, aos 15 anos, na praia do Cocotá, na Ilha do Governador, com uma moça cinco anos mais velha. Ou o fato de Vinicius, ocupado com os estudos para o concurso do Itamaraty, mandar sua primeira mulher, Tati, ao cinema em seu lugar e escrever as críticas assinadas por ele. Bem como as agressões totalmente gratuitas do poeta a um homem que dormia num banco durante uma madrugada em Paris – e que terminaram com os dois e o diplomata Rodolfo Sousa Dantas, amigo de Vinicius, “abraçados e envoltos em gargalhadas, tomando um bom conhaque”. E ainda a divertida descrição das três sessões com uma psicanalista alemã radicada no Brasil – a última delas termina com elogios do poeta às pernas da terapeuta. Ou a confusa e dramática conduta de Vinicius durante o acidente vascular cerebral sofrido num vôo de Paris para o Rio em outubro de 1979, menos de um ano antes de sua morte. Para Castello, o mais importante é a maneira de narrar os fatos. “Você pode dizer que o Vinicius era um Don Juan, e

não que na cama ele fazia isso ou aquilo”, exemplifica. “Não é preciso dar tantos detalhes. Muitos biógrafos discordam disso. Mas, se eu fosse fazer outra biografia, usaria luvas delicadas. Pode-se fazer uma biografia verdadeira sem perder a sutileza”. Segundo Castello, embora o contrato assinado entre a Companhia das Letras e a família do poeta para a republicação de toda a sua obra já previsse uma biografia não autorizada, a família pediu para ler o livro antes do lançamento – e Castello poderia escolher qualquer parente de Vinicius para fazer a leitura. O próprio editor Luiz Schwarcz lhe sugeriu aceitar o pedido, alegando que isso poderia ajudar a corrigir eventuais erros de informação. “Achei o argumento razoável e, como a família não teria o direito de mandar mudar nada, topei”, diz Castello. Quando foi à casa da filha mais velha de Vinicius, Susana, escolhida por ele para a leitura, o biógrafo teve uma surpresa. “Ela abriu a porta e disse: ‘Castello, você transformou meu pai num santo. Ele era um homem devasso, de orgias. Você escondeu

TRABALHO SEM RESTRIÇÕES

BEL PEDROSA

Autor de Vinicius de Moraes – O Poeta da Paixão, lançado em 1994, o jornalista José Castello diz que procurou ser cuidadoso ao retratar seu biografado. “Aconteceram poucos casos de pessoas que me relataram histórias que não consegui checar com outras fontes, por isso não coloquei no livro. Já o quenãoescrevipor minha própria vontade foram detalhes escandalosos.Entro nas histórias apenas o suficiente para o leitor entender quem era Vinicius. Tentei o tempo todo evitar descer a detalhes mórbidos”. Segundo Castello, o que ficou de fora foram informações sobre a “vida íntima, afetiva, sexual, ódios, sentimentos fortes”. “São coisas que achei desnecessárias porque estão ditas no livro, só não estão em detalhes. Para o bom leitor, o que está ali basta. Mas algumas histórias eu contei: as que tinham mais humor, mais leveza, mais charme, ou que fossem mais emblemáticas”, afirma. O livro vai fundo em questões como alcoolismo, problemas de saúde decorrentes do vício, crises de depressão e, claro, a intensa vida amorosa de Vinicius. Narra em detalhes as tentativas de suicídio do poeta durante seu casamento com Lila Boscoli: na primeira, tentou se atirar de um carro em movimento; na segunda, trancou-se na cozinha e abriu o gás, sendo salvo pela sogra. Episódios variados povoam o livro, como a primeira relação

meu pai’. Respondi que sabia de detalhes mórbidos da vida dele, mas que não havia necessidade de colocá-los no livro”. O mais curioso, porém, veio após o lançamento. “Um ou dois dias depois me ligou a Lygia, irmã do Vinicius, dizendo que eu seria procurado por um advogado. ‘Você transformou meu irmão num bêbado devasso’, ela falou. Sugeri então que ela consultasse a Susana para que a família combinasse em conjunto o que fazer. Nunca nenhum advogado me procurou.” Para Castello, a discrepância de reações entre as duas é compreensível. “São desabafos produzidos pela leitura que cada um faz, e isso depende da relação de cada pessoa que conviveu com o biografado. Por ter sido a primeira biografia do Vinicius, tocou muito as pessoas que conviviam com ele. Eu até gostaria de ver outras biografias dele. Às vezes, me dá aflição ser ‘o’ biógrafo do Vinicius. Afinal, meu livro é uma obra parcial, com a minha visão, em que inclusive procurei trabalhar contra a imagem clichê do ‘Poetinha’”, afirma. Por intermédio da VM Cultural, instituição que administra a obra de Vinicius, o Jornal da ABI tentou falar com algum dos filhos do poeta, mas a informação foi que, por motivo de viagem ou doença, nenhum estava disponível para entrevistas.

Ruy Castro é taxativo: “Os artistas não tinham nem sombra de razão na polêmica das biografias. E eles fizeram bem em enfiar o galho dentro.”

Outro caso em que os familiares se abstiveram de levar o autor aos tribunais foi o de O Anjo Pornográfico, livro de Ruy Castro sobre o jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Segundo o biógrafo, os parentes de Nelson – embora divididos em quatro facções, “quase todas hostis umas às outras” – o ajudaram no trabalho e nenhum deles o ameaçou com processo após a publicação do livro pela Companhia das Letras, em 1992. “Ninguém discutiu o direito de Nelson estar sendo biografado e todos colaboraram muito, nem que fosse apenas com informações. Ninguém impôs qualquer condição ou restrição”, diz Ruy. No livro, Nelson Rodrigues aparece como um personagem bem menos escandaloso que os de A Vida Como Ela É... ou os de suas muitas peças teatrais, recheadas de prostitutas, maridos traídos, velhos devassos e mulheres com furor uterino. A pecha de “pornográfico” ou “tarado” era imposta a Nelson por seus detratores e comprada por leitores desavisados. “Essas pessoas ficariam desapontadas se o vissem na intimidade: em casa, de pijama, às nove da noite, ouvindo discos de frevos pela Banda do Corpo de Bombeiros e indo dormir numa vulgar cama Drago com colchão de molas. Da qual só se levantava, no meio da madrugada, para aplacar os pinotes da úlcera com a papa de purê de batata e carne moída”, conta o livro, para concluir, no parágrafo seguinte: “Nelson não era, definitivamente, um devasso”. Ainda assim, O Anjo Pornográfico aborda muitos aspectos da vida íntima de JORNAL DA ABI 398 • FEVEREIRO DE 2014

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CENSURA BIOGRAFIAS ÍNTIMAS, PORÉM PERMITIDAS

Nelson, como os casos extraconjugais, os problemas de saúde (e conseqüentes períodos de internação), as mortes trágicas na família (as de seus irmãos Roberto, assassinado, e Paulinho, morto num desabamento, e o suicídio de sua cunhada Célia, viúva de Mário Filho), os freqüentes problemas financeiros e ainda a grave doença de Daniela, filha do dramaturgo com sua segunda mulher, Lúcia Cruz Lima. O biógrafo diz que em nenhum momento se questionou se alguma informação deveria ou não ser publicada por conta de eventual invasão de privacidade. “O que aconteceu é que cada uma das facções – exceto Lúcia Cruz Lima, sempre modesta e neutra – se achava dona da verdade sobre Nelson, e as informações, às vezes, eram contraditórias. Por sorte, eu tinha um batalhão de informantes fora da família, que me ajudavam a peneirar o material. Mantive rigorosa neutralidade durante todo o processo de apuração e escrita, mas era inevitável que, ao ler o resultado final, uma ou outra se sentisse desagradada em detalhes. No caso, publicado o livro, as irmãs de Nelson e os filhos não reconhecidos romperam comigo”, conta Ruy. Segundo ele, nenhuma informação íntima deixou de ser publicada. “Tudo que dissesse respeito à história e fosse relevante foi aproveitado. O próprio caso de Nelson com a mãe da (atriz) Nicete Bruno foi confirmado por dona Elza (primeira mulher de Nelson) e filhos”, diz o escritor, referindo-se à relação do biografado com Eleonor (Nonoca) Bruno. Para Nelson Rodrigues Filho, O Anjo Pornográfico é “ótimo”. Nelsinho diz não se importar em ver a vida íntima do pai exposta em livro: “Ele era um homem público, tem que ser falado”. O filho do dramaturgo faz uma única ressalva: o episódio da biografia em que sua mãe vai com os filhos Joffre (oito anos) e o próprio Nelsinho (quatro) à garçonnière de Nelson e do amigo Pompeu de Souza e diz ao marido, que então mantinha o caso com Nonoca Bruno: “Você vai sair daí, já, já, e voltar para casa! Senão eu atiro os nossos flhos pela janela!”. Nelsinho afirma ter ouvido de Pompeu de Souza, que estaria presente à cena, uma versão distinta, segundo a qual o que Elza disse a Nelson, na verdade, foi: “Ou você volta para casa ou fica com seus filhos e eu me atiro pela janela!”. Fora essa passagem, que o próprio Nelsinho chamou de “um pequeno detalhe”, nada. Nelsinho se derrama em elogios ao livro, que considera “de importância capital no resgate da memória do Velho”.

O CONCEITO DO BIOGRAFADO No caso de A Revolta do Boêmio, sobre a vida de Nelson Gonçalves, o biógrafo Marco Aurélio Barroso não economizou detalhes para contar o envolvimento do 14

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cantor com álcool, drogas e jogo, problemas de saúde, espancamento de mulheres, ameaças de morte e acusações de estupro de menor e de tráfico de entorpecentes. Até a colocação de uma prótese peniana é relatada no livro pelo cardiologista que tratou do cantor. Em um dos trechos, Barroso conta que Nelson, já na fase final da vida, por conta do uso excessivo de cocaína e de um descongestionante, não possuía mais mucosas nasais. “O ar que lhe oxigenava o cérebro (…) começava a encontrar resistência para chegar ao destino. Dor insuportável. (…) Nelson começava a bater com a cabeça na parede. A dor não passava, ele batiamaisforte.Chorava,gemia,urrava.”Após retirar placas de sangue coagulado do nariz, utilizando sempre um grampo de cabelo, “exausto, suando frio, Nelson, depois de duas horas de combate sem piedade e sem vencedores, se jogava na cama e apagava”. Apesar desse e de outros episódios igualmente fortes, Barroso acredita que

não ultrapassou os limites do bom senso. Ele diz que deixou de publicar uma única informação, “que várias pessoas confirmaram, inclusive um dos filhos adotivos do Nelson, sobre como ele conheceu uma das suas mulheres”. “Era algo muito escabroso. Ela ia me colocar na Justiça. Não sou maluco”, diz. “Mas esse caso foi uma exceção, pois não mudaria nada no livro, o conceito do Nelson já estava lá. O importante é o conceito do biografado, e não descer a detalhes sem importância. A única coisa que deu certo na vida do Nelson foi ao microfone. Ele era desequilibrado, egoísta, alcoólatra, cocainômano, violento, e isso tudo está no livro.” Para Barroso, “não dá para achar santidade onde não existe.” Mesmo tendo escrito o prefácio do livro, lançado em 2001, a filha mais velha do cantor, Marilene, a Leninha, hoje faz pesadas críticas à obra. “No livro há verdades, mentiras e exageros. A acusação de estupro é um absurdo, não devia ser mencionada nem sequer insinuada”, diz. “O autor era um procurador de merda, estava mais preocupado em encontrar os podres do meu pai. A imagem dele (Nelson) ficou em

parte ofendida. Eu não ia negar que ele era viciado em cocaína, mas era preciso contar também como saiu do vício. Faltou arte, maneira de escrever, e houve um peso exagerado nos fatos negativos”, acredita Leninha. “Meu pai era o maior cantor do País. Com quem ele trepava não interessa a ninguém. Sou contra esmiuçar os bagaços e as loucuras, principalmente de um artista, que sempre tem as suas e quando chega lá em cima fica tonto.” Leninha diz que não pensou em processar Barroso pelo livro. “Não é do meu feitio, cada um é responsável pelo que faz. Iria dar mais confusão ainda”. No prefácio, porém, a filha de Nelson Gonçalves elogia o autor: “Eu e ele (Nelson Gonçalves) te agradecemos, Marco Aurélio, pela lisura do teu trabalho, pela grandeza da tua alma e que este livro te dê, por acréscimo, tudo o que desejares. Que Deus te abençoe. Por mim e por ele, obrigado”. Indagada sobre a contradição entre o que escreveu para o livro e o que dissera ao Jornal da ABI, Leninha explicou que o prefácio foi escrito antes de a biografia ficar pronta. “Eu não tinha lido o livro

Invasão de privacidade? “Por volta das nove e meia da manhã, Zunga (apelido de infância de Roberto Carlos) e Fifinha (Eunice Solino, amiga do cantor) pararam numa beirada entre a rua e a linha férrea para ver o desfile de um grupo escolar. Enquanto isso, atrás deles, uma velha locomotiva a vapor, conduzida pelo maquinista Walter Sabino, começou a fazer uma manobra relativamente lenta para pegar o outro trilho e seguir viagem. Uma das professoras que acompanhava os alunos no desfile temeu pela segurança daquelas duas crianças próximas do trem em movimento e gritou para elas saírem dali. Mas, ao mesmo tempo em que gritou, a professora avançou e puxou pelo braço a menina, que caiu sobre a calçada. Roberto Carlos se assustou com aquele gesto brusco de alguém que ele não conhecia, recuou, tropeçou e caiu na linha férrea segundos antes de a locomotiva passar. A professora ainda gritou desesperadamente para o maquinista parar o trem, mas não houve tempo. A locomotiva avançou por cima do garoto que ficou preso embaixo do vagão, tendo sua perninha direita imprensada sob as pesadas rodas de metal.” Paulo Cesar de Araújo, em Roberto Carlos em Detalhes.

uma cadeira de rodas. Ficou mais difícil administrar a doença e manter a esperança de que dias melhoras viriam. O Tremendão chorava em sua impotência.” Erasmo Carlos, na autobiografia Minha Fama de Mau, falando da mãe, que tinha câncer.

“23 horas. No Bar do Martins, cada vez mais bêbado, Nelson recebe inesperada visita de seu amor, Betty White. Ele estava bebendo e jogando desde 9 horas da manhã. (…) De poucos amigos, ele passa a espancá-la no meio da rua. Mesmo apanhando, ela tenta arrastá-lo para casa.” Marco Aurélio Barroso, em A Revolta do Boêmio, biografia de Nelson Gonçalves.

“Vinicius, apavorado, recua. Fica grudado contra uma parede, como se protegesse de um furacão. (…) A mulher (Cristina Gurjão) pega o segundo castiçal e continua o seu ataque. Vinicius, tomado pelo medo, se retrai mais ainda. Ela não o poupa. Bate firme novamente, dessa vez tentando atingi-lo na virilha. Vinicius grita de dor. Há sangue espalhado pelo chão da sala. (…) Vinicius sai do apartamento em disparada.” José Castello, em Vinicius de Moraes – O Poeta da Paixão.

“A cantora trocara o efeito da bebida pelo ´barato` provocado por doses excessivas de medicamentos, que lhe causavam vertigens e tonturas. Passara a ingerir compulsivamente comprimidos de Minifage e Lasix. O primeiro, um podesoso inibidor de apetite, provocava de vista turva a dependência química. O outro, na verdade, era um remédio para insuficiência renal, cujo efeito diurético atraía consumidores ávidos por perder líquidos e, portanto, peso. Por causa deles, Maysa tinha surtos de embotamento e delírios.” Lira Neto, em Maysa – Só numa Multidão de Amores.

“Num final de semana festivo em minha casa, começou o fim. Um derrame condenou minha mãe a

“Daniela passaria todo o seu primeiro ano de vida numa tenda de oxigênio, com horríveis crises respiratórias. Desde o primeiro momento apresentou má circulação nas pernas, o que lhe provocava câimbras lancinantes. Nelson e Lúcia ainda não sabiam, mas a menina atravessaria os seus primeiros anos praticamente sem dormir, chorando de forma enlouquecedora, com dores que poderiam ter todas as origens. Devido à paralisia cerebral, jamais iria andar ou articular um movimento. Também seria muda. E irreversivelmente cega.” Ruy Castro, em O Anjo Pornográfico, sobre a doença de Daniela, filha de Nelson Rodrigues com Lúcia Cruz Lima.


ainda. Para mim, a intenção dele (Barroso) era a melhor possível. Fiz um prefácio inocente e bem-intencionado.”

SEM SOFRIMENTO

Outro membro do grupo, o cantor Erasmo Carlos retratou a própria vida em Minha Fama de Mau, lançado em 2009 pela Objetiva. O tom geral do livro é bemhumorado, e o artista de certa forma zomba de si mesmo. Ele conta, por exemplo, que, aos 15 anos, após uma cirurgia para corrigir uma fimose que lhe “dificultava a masturbação e impossibilitava a penetração”, revelou-se uma pequena anomalia anatômica, uma pele localizada “quase no meio do orifício da uretra” que fazia o jato da urina sair dividido, em forma de V – o que só foi resolvido tempos depois, durante uma transa, quando “o frenético esfregar dos sexos (…) fez com que a pele se rompesse, deixando livre para sempre o orifício da minha uretra”. O Tremendão narra também suas bizarras tentativas de disfarçar o início da calvície, que incluíram sessões de massagem com um cabeleireiro argentino que eram verdadeiras “porradas”, o uso de pilot preto no couro cabeludo e, depois, de rolha queimada (sugestão do comediante Renato Aragão). Há revelações mais sérias, embora não menos pitorescas, envolvendo pessoas com quem o compositor conviveu. Como uma moça de apelido Lilica, que participava da turma de Erasmo durante sua adolescência na Tijuca. “Todas as outras turmas nos invejavam por causa dela. Era

Autor de sua própria biografia, Erasmo Carlos faz revelações íntimas que envolvem temas familiares, geralmente um tabu entre os artistas.

nossa mãe, irmã, filha, amiga e mulher, coisas, como dizer as coisas”, afirma José tendo inclusive me iniciado no maraviCastello. “É preciso respeito ao biografalhoso e abençoado mundo da sacanagem, do. Quando se faz uma biografia, é sobre numa noite em que conseguiu se multialguma pessoa por quem se tem admiraplicar e dividir seu corpo, beijos e abraços ção ou alguma afinidade. Na medida em com dez de nós.” O nome verdadeiro de que você parte desse sentimento, é de esLilica não é citado no livro, mas, para perar que tenha cuidados. Não se trata de quem a conheceu... construir um mito, mas de buscar a verOutras informações íntimas abordam dade com delicadeza.” temas familiares, geralmente um tabu Segundo Marco Aurélio Barroso, o proentre os artistas. Erasmo fala, por exemblema está na forma como muitas biograplo, do derrame que condenou sua mãe a fias são feitas. “O Procure Saber tinha até uma cadeira de rodas e do câncer que a alguma razão, mas não para pedir autorimatou, em 2004, sete anos após a retirazação prévia. O que eles deviam exigir era da de um nódulo no que o próprio biógrafo seio. E de como ficou fizesse as pesquisas, porabalado com a morte da que os caras terceirizam ex-mulher, Narinha, no a apuração e fazem da final de 1995. “Mesmo biografia uma ficção. porque não sei lidar Uma vez o filho de um com a forma como ela biografado me disse que se foi, tirando sua próa biografia do pai dele pria vida”. Referências continha erros crassos. a suicídios na família Pesquisa é o autor que costumam ser considefaz. Terceirizar a pesquiradas invasão de privasa é desonestidade intecidade, tendo motivalectual”, diz Barroso. do a retirada de circulaLira Neto, que está ção da biografia de Noel concluindo o terceiro Rosa, por exemplo. O volume da biografia de Jornal da ABI também Getulio Vargas, acredita Marco Aurélio Barroso: “Pesquisa é o autor que faz. ” procurou Erasmo Carque “os próprios artistas los para falar sobre sua perceberam que entraautobiografia, mas a assessoria do cantor ram na discussão de forma precipitada e informou que ele estava concentrado na desinformada”. “Imagine se eu tivesse que finalização de seu novo trabalho e que por pedir permissão ou pagar à família do Fiisso não daria entrevistas no momento. linto Müller (chefe da polícia política durante a ditadura Vargas)”. Para ele, tanPOLÊMICA POSITIVA to o Judiciário quanto o Legislativo devem Para biógrafos ouvidos pelo Jornal da garantir liberdade total às biografias. “TeABI, a polêmica sobre as biografias pode nho certeza de que o Supremo e o Congrester tido um lado positivo. “Não é fácil so vão perceber que, num país democrátiestar na posição dos artistas, embora as fico, é repugnante imaginar qualquer cerceguras públicas estejam sujeitas a isso. Em amento à liberdade do biógrafo”. Já Ruy princípio, sou contra qualquer tipo de Castro foi taxativo ao afirmar, como já censura ou necessidade de autorização fizera na época, que os artistas não tinham prévia, mas talvez essa polêmica tenha nem sombra de razão na polêmica das bitido a utilidade de chamar a atenção para ografias. “E eles fizeram bem em enfiar o a questão da sensatez: como publicar as galho dentro.” DIVULGAÇÃO

Já a jornalista Maria Dolores preferiu esquivar-se de maiores polêmicas em seu livro Travessia – A Vida de Milton Nascimento. Na biografia do compositor, nascida originalmente como trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais e lançada em 2006 pela Editora Record, Dolores evitou aprofundar temas “mais delicados, que pudessem trazer algum sofrimento”. “Foi uma opção unicamente minha, ninguém me pediu ou me impôs qualquer restrição, nem os entrevistados, que foram mais de 70, nem a editora”, afirma ela. Há episódios citados no livro que claramente a biógrafa preferiu não investigar mais. Uma delas é o casamento-relâmpago de Milton com Lourdes Mathias, a Lourdeca, que durou pouco mais de um mês: “Quem os viu pôde perceber que as coisas não estavam muito bem. Ninguém sabe o que aconteceu naqueles trinta e tantos dias, a não ser os dois, que enterraram para sempre tais lembranças e jamais disseram palavra sobre o assunto. O fato é que o casamento acabou. Cada qual foi para um lado e a vida seguiu seu rumo”, narra o livro. Outra passagem citada superficialmente é a do afastamento de Milton de

XIXI EM V

MARCELO THEOBALD/EXTRA/AGÊNCIA O GLOBO

CINTIA DUARTE

Maria Dolores evitou aprofundar temas delicados: “Foi uma opção minha, ninguém me pediu ou me impôs qualquer restrição.”

sua ex-namorada Káritas e de Pablo, seu filho com ela, nos anos 1970, durante a ditadura militar. A ex e o filho moravam em São Paulo, onde Milton não era bem visto pelo então secretário de Segurança Pública, coronel Erasmo Dias, “um dos mais temidos da ditadura”. Segundo a biografia, ameaçado pelas autoridades estaduais, Milton “arrumou as malas, voltou para o Rio e desapareceu da vida de Káritas e de Pablo. Perdeu contato com os dois e não tornou a recuperá-lo, mesmo depois de voltar a São Paulo com a lenta, mas gradual, abertura política. Nunca mais se relacionou com o filho.” E fica nisso. Maria Dolores nega ter evitado o aprofundamento desses assuntos por medo de invadir a privacidade de Milton, que, segundo ela, autorizou a biografia. “Considerando o fato de que o Milton concordou em me dar as entrevistas e me abriu as portas da casa dele, foi autorizada. Mas foi algo informal, não houve um contrato, e ele leu o livro só depois de pronto”. O Jornal da ABI tentou entrevistar Milton Nascimento, mas sua assessoria informou que ele não fala mais sobre biografias. O cantor foi um dos integrantes do Procure Saber.

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HOMENAGEM

HENFIL, 70 ANOS

“MORRO, MAS MEU DESENHO FICA” P OR C ELSO S ABADIN

Fico imaginando a cena. Um jovem estagiário ou mesmo um jovem jornalista que, de repente, fazendo uma pesquisa sobre a época da Anistia, se depara com a emblemática canção O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, imortalizada na voz de Elis Regina: “(...) O bêbado com chapéu-coco Fazia irreverências mil Prá noite do Brasil. Meu Brasil!... Que sonha com a volta Do irmão do Henfil. Com tanta gente que partiu Num rabo de foguete (...)” E o jovem estagiário/jornalista pára e pensa: “Sonha com a volta do irmão do Henfil? O que significaria isso? E este irmão do Henfil não tinha nome? Por que se referir a alguém como sendo apenas irmão de outro alguém?” Até que vem a devastadora e derradeira pergunta: “Mas quem seria, afinal, este tal de Henfil?”. Sim. Por mais dolorosa que possa ser a conclusão, já existe uma geração de jovens que desconhece Henfil. Uma geração que sequer reconhece este nome tão importante, espécie de condensação/resumo de Henrique Sousa Filho, marca registrada de genialidade provocativa, que teria completado apenas 70 anos no último dia 5 de fevereiro, se estivesse vivo. Assim, foi mais que bem-vindo o evento “70 anos de Henfil – Morro, mas meu desenho fica”, realizado no Museu da República, no Rio de Janeiro, no dia do aniver-

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sário do cartunista... Ou no dia do aniversário do escritor, do humorista, do cineasta, do cronista, do jornalista Henfil. Não, não é possível definir Henfil com apenas uma de suas inúmeras ocupações. Ele era um artista de uma gigantesca força criativa, dor de cabeça constante para os agentes da ditadura militar, qualquer que fosse seu meio de expressão. Um verdadeiro subversivo, no sentido mais delicioso da palavra. “Eu não gostaria de ser conhecido como humorista, como especialista, como economista ou qualquer coisa assim”, disse Henfil, “mas como um cara que escreve, que dança, que pula, que faz política, que não faz política, enfim, desenvolver todos os meus potenciais, e não ficar numa hipertrofia, um monstrinho que só sabe fazer humor, feito uma anta que só sabe usar tênis” (Fazendo uma alusão ao curioso personagem do cartunista Jaguar). Henfil nasceu em Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte, em 1944. De família simples, virava-se como podia enquanto cursava um supletivo noturno. Foi embalador de queijos e office boy numa agência de propaganda. Nunca se deu muito bem nos estudos (repetiu logo no primeiro ano primário), mas mesmo assim decidiu fazer faculdade de Sociologia. Que logo abandonou. Partiu para o desenho, atividade para a qual sempre demonstrou muita habilidade. No casamento de uma de suas cinco irmãs mais velhas, Henfil, ainda garoto, reproduziu o altar da cerimônia num desenho que chamou a atenção de toda a família. O jovem Henfil gostava de desenhar, mas não queria a obrigação de ter de se submeter a prazos de fechamentos editoriais. Porém, com a morte de seu pai, se viu obrigado pelos irmãos e irmãs a ajudar no orçamento familiar. “Fui feito humorista à força”, afirma, referindo-se às pressões que passou a receber de Roberto Drummond, editor da revista mineira Alterosa, seu primeiro emprego na área. Ironicamente estreou como ilustrador e quadrinista na Alterosa exatamente no ano em que se implanta no Brasil a ditadura militar. Ambos – ele e a ditadura – jamais deixariam de andar lado a lado... Em campos diametralmente opostos. “Humor é a reversão da expectativa. Eles querem que a gente morra. Aí você vai e vive. Isso é humor”, disse Henfil. Em 1965, ele passa a criar caricaturas políticas para o Diário de Minas, e a partir de 1967 se torna colaborador do carioca Jornal dos Sports. Muda-se para o Rio de Janeiro e amplia sua carteira de colaborações com as revistas Visão, O Sol, Realidade, Placar e O Cruzeiro. Para o Jornal

AVANI STEIN/FOLHA IMAGEM

dos Sports, cria uma galeria de personagens representativos dos torcedores: Bacalhau (Vasco da Gama), Urubu (Flamengo), Cri Cri (Botafogo) e Pó de Arroz (Fluminense). “Eu não queria fazer cartuns esportivos sobre os clubes ou os jogadores; eu queria fazer sobre a torcida”, afirmou. “Eu descobri que o Rio de Janeiro era apenas um trampolim, uma rampa de lançamentos de foguetes, de espaçonaves humanas, e que também destrói as pessoas. Destrói quem não é carioca”, disse Henfil. Mostrando novamente seu perfeito “timming” em sempre se enfronhar no

que havia de mais explosivo em termos de repressão política, Henfil torna-se colaborador do provocativo O Pasquim exatamente em 1969, ano de maior recrudescimento do regime. Esse Henfil realmente sabia como andar no fio da navalha. 1970: enquanto o ditador militar faz populismo aproveitando o tricampeonato brasileiro de futebol, Henfil lança a revista Os Fradinhos, trazendo personagens que marcariam para sempre não só a trajetória dos quadrinhos nacionais, como a própria percepção de ser do brasileiro. Os “mestres de cerimônias” eram os “fradins”, minei-


ramente falando, Cumprido e Baixim. O primeiro, preocupado, travado, consciente de seus deveres religiosos, e vivendo eternamente sobressaltado com a situação brasileira. O segundo, espécie de alter ego de seu criador, um inveterado gozador, inquieto, sempre questionador e, melhor, ridicularizando a tudo e a todos com um humor praticamente impensável nesta nossa era do politicamente correto. Cumprido e Baixim eram uma homenagem aos frades do Convento Dominicano de Belo Horizonte, entidade que extrapolava os limites da própria religião e realizava uma ampla gama de serviços sociais na capital mineira. Henfil se dizia eternamente grato a um destes religiosos, Frei Matheus, que certo dia lhe explicara que o conceito de Inferno não era o de um lugar em chamas, mas sim da ausência de Deus. A “revelação” teria acalmado Henfil, que sempre acreditou que iria para

o inferno ao morrer. “Falam que o Baixim é um personagem ruim, mas não é. O Baixim é um personagem solidário: quando ele vê que uma pessoa está na pior, ele vai lá e põe a pessoa mais na pior ainda, pra ela perceber mesmo, o quanto está na pior ”, explica o criador dos personagens. Nesta fase da carreira, o cartunista disse que estava preocupado em se voltar “para um outro tipo de Brasil, que tinha que ser o Nordeste, com cheiro de terra, aquele Brasil que não estivesse próximo deste imenso shopping center em que o mundo está se transformando”. Assim, nesta fantástica galeria de personagens, integra-se aos Fradins um núcleo nordestino composto pelos impagáveis Zeferino, Bode Orelana e Graúna (sua única personagem feminina), invariavelmente banhados por um sol agressivo e escaldante. Eram traços de incrível simplicidade e surpreendentes possibilidades expressivas que, aliados a textos ácidos e politicamente hilariantes, serviam de catarse para todo brasileiro minimamente politizado naquela época. A Coleção Fradim passou a ser relançada em 2013, com o selo “25 Anos Sem Henfil”, graças a uma iniciativa da Ong Henfil Educação e Sustentabilidade. A série completa, composta por 31 revistas lan-

çadas originalmente entre 1970 e 1980, ganhou uma adicional edição zero e já conta com 12 revistas relançadas na íntegra, com previsão de disponibilização dos demais números ainda em 2014. Saindo do Rio, Henfil expande seus horizontes e vai morar em Nova York. Um dos motivos da viagem é tratar-se de uma hemofilia congênita, que atacava não só a ele como também aos seus irmãos, o sociólogo Betinho e o músico Francisco Mário. Mas engana-se quem pensa que o inquieto cartunista assumiria nos Estados Unidos uma passiva posição de paciente em tratamento. Pelo contrário. Seus dois anos de vida novaiorquina o inspiram a escrever o livro Diário de um Cucaracha, narrando com bom humor e sagacidade a experiência de ser um latino na Big Apple. O livro foi editado com duas versões de capa, a gosto do leitor: uma ostentando uma enorme fotografia de uma barata, e outra mais limpa, para estômagos mais sensíveis. Vale lembrar também que seus Fradins foram considerados ofensivos demais para serem distribuídos em grandes publicações norte-americanas, que os recusaram solenemente. “Ou eu trabalhava à maneira americana ou eu não trabalhava, não tinha mercado pra mim, como não tem pra ninguém. Eles queriam a minha alma, eu tinha de me transformar num porta-voz, num servidor público da cultura americana, e não mais da cultura brasileira, porque esta não entra lá, não. E o que entra, pode olhar, é dentro do baticum dele”, explicaria Henfil, anos depois, sobre a não aceitação do seu trabalho nos Estados Unidos. Além de Diário de um Cucaracha, em 1976, Henfil ainda publicou Hiroshima, meu Humor (no mesmo ano), Henfil na China (1980), Dez em Humor (coletânea de 1984), Diretas Já (1984), Fradim de Libertação (1984) e Como se Faz Humor Político (1984). Uma de suas criações marcantes foi Ubaldo, o Paranóico, um dos raros personagens da história dos quadrinhos a ter uma data precisa de nascimento: 26 de outubro de 1975. Não por acaso, um dia após a morte de Vladimir Herzog. “Eu não criei Ubaldo, o Paranóico. Eu olhei na rua, vi o Ubaldo e desenhei”. Na verdade, trata-se de uma criação feita em conjunto com Tárik de Souza, e a proposta era não denunciar simplesmente a ditadura, mas principalmente o medo que ela fez instalar na população, inclusive “o medo das pessoas que não têm porque ter medo”, no dizer no próprio cartunista. “Todo mundo se achava Ubaldo”, diz Henfil. Já nos anos 1980, a seção Cartas da Mãe, que publicava semanalmente na IstoÉ, transformara-se rapidamente em grande sucesso, graças à linguagem ao mesmo tempo despojada, divertida e crítica com a qual escrevia “cartas” direcio-

nadas à sua mãe, Dona Maria , cuja foto vinha estampada no alto da página. A figura de Dona Maria ficou tão popular que mais tarde ela viria a ser contratada da TV Globo para contracenar silenciosamente em quadros de humor criados pelo famoso filho. Sua atuação artística saiu do campo gráfico, e invadiu as artes cênicas e visuais. No teatro, fez parceria com Oswaldo Mendes para escrever e dirigir a peça A Revista do Henfil, onde seus famosos personagens criaram vida. No cinema, escreveu, dirigiu e atuou no deliciosamente anárquico Tanga – Deu no New York Times, comédia (claro) sobre uma pequena ilha miserável cujo poder é representado pelo único exemplar do jornal The New York Times que diariamente seu ditador recebe. E na televisão atuou no quadro TV Homem, dentro do programa TV Mulher, além de participar com quadros humorísticos no Jornal da Globo. Um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, e feroz defensor do movimento pelas Diretas Já, Henfil contraiu o vírus HIV numa de suas várias transfusões de sangue, necessárias ao combate da hemofilia. Morreu em 1988, aos 43 anos, no Rio de Janeiro, sem ter conseguido realizar seu grande sonho de votar para Presidente do Brasil. “Eu trabalho no serviço público. Quando eu vou trabalhar num jornal, o jornal é um serviço público, televisão é um serviço público. Então, eu estou a serviço do público. Principalmente no nosso caso, do humor, em que a gente, em princípio, é escolhido pela editoria, é escolhido por um repórter, ou por um redator amigo, mas você não resiste nem três meses se não houver uma ‘eleição direta’ ou seja, se o leitor não te comprar ”, afirmou. Este é Henfil. O “irmão dele”, na música, é Herbert de Souza, o Betinho. Mas isso já seria uma outra história. (As declarações de Henfil publicadas nesta matéria foram coletadas dos programas Super Grilo e Vox Populi, da TV Cultura, de telejornais da TV Cultura, e do Bom Dia Rio, da TV Globo).

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DIREITOS HUMANOS

Revelado nome do assassino de Rubens Paiva banco de dados digital do projeto Brasil Nunca Mais confirmam que Hughes participava de ações da repressão contra a esquerda armada, atuando em parceria com militares do Cisa (Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica). Por conta desse envolvimento, ele ganhou em 1971 a Medalha do Pacificador, distinção dada a militares posteriormente acusados de tortura. Rubens Paiva foi preso em casa, no Leblon, dia 20 de janeiro de 1971, por uma equipe do Cisa e, desde então, é considerado desaparecido. A data, segundo o depoimento, coincide com a cena do espancamento. Avólio disse que, logo após testemunhá-la, chamou seu chefe imediato, o então major Ronald José Baptista de Leão, e levou o caso ao comandante do Doi, o também major José Antônio Nogueira Belham, e ao comandante da Polícia do Exército, coronel Ney Fernandes Antunes. Em carta à Comissão da Verdade, Leão, que faleceu no início deste ano, confirmou o episódio.

Caso Rubens Paiva: Coronel da reserva revela nome do assassino do deputado.

REPRODUÇÃO

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A Comissão Nacional da Verdade (CNV) afirmou, no dia 27 de fevereiro, em entrevista coletiva, que o ex-tenente Antônio Fernando Hughes de Carvalho (foto menor) é o assassino do ex-deputado Rubens Paiva. O coronel da reserva Armando Avólio Filho, ex-integrante do Pelotão de Investigações Criminais da Polícia do Exército (PIC-PE), em depoimento à comissão, no Rio, revelou ter visto, por uma porta entreaberta, em janeiro de 1971, Hughes de Carvalho pulando sobre o corpo do preso político. A cena aconteceu na carceragem do Destacamento de Operações de Informações do 1º Exército, na Rua Barão de Mesquita, Tijuca (Doi-I). Tempos depois, ao tomar conhecimento do desaparecimento do ex-deputado, associou-o à vítima torturada por Hughes, pois as características físicas seriam semelhantes. Antônio Fernando Hughes de Carvalho, já falecido, era um oficial egresso do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR). Documentos obtidos no

Identificação representa um marco histórico É a primeira vez em que um militar ligado à repressão aponta um colega envolvido na provável morte de Paiva. Até então, a presença de Paiva no DOI fora reconhecida pelo ex-tenente médico Amilcar Lobo, já falecido. Em depoimentos dados na época em que foi denunciado pela ex-presa política Inês Etienne Romeu, considerada a única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis, Lobo disse que deu assistência a um “desaparecido político”, a quem viu “moribundo, uma equimose só e roxo da raiz dos cabelos às pontas dos pés”, numa cela do DOI da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Em depoimento recente à Comissão Estadual da Verdade e ao Ministério Público Federal, que também investigam o caso, o então major Raimundo Ronaldo Campos admitiu ter montado, por ordens superiores, uma farsa para forjar a fuga de Paiva. Com a ajuda dos irmãos e ex-sargentos Jacy e Jurandyr Ochsendorf, ele atirou na lataria de um Fusca e o incendiou no Alto da Boa Vista, no Rio. A montagem destinava-se a sustentar a versão oficial de que, ao ser levado por 18

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militares, o ex-deputado teria sido seqüestrado por terroristas. Campos disse saber que se tratava de uma operação para justificar o desaparecimento de um prisioneiro. Revelou também ter informações de que ele já estava morto. Além dos depoimentos, documentos arrecadados na casa do ex-coronel Júlio Molinas Dias, assassinado em 2012 durante um assalto, comprovaram que Paiva, depois de preso pela Aeronáutica, foi levado para o DOI. Molinas, que comandou o DOI em 1981, guardava uma folha de ofício preenchida em máquina de escrever, na qual o Exército relata a prisão de Paiva. Intitulado Turma de Recebimento, o documento contém o nome completo do político (Rubens Beyrodt Paiva), de onde ele foi trazido (o QG-3), a equipe que o trouxe (o CISAer, Centro de Inteligência da Aeronáutica), a data (20 de janeiro de 1971), seguido de uma relação de papéis, pertences pessoais e valores do ex-deputado. Consta também uma assinatura, possivelmente de Paiva, que era acusado de manter correspondência com exilados políticos.

Ex-policial do Dops admite prática da tortura Manoel Aurélio Lopes, 77 anos, ex-escrivão de polícia do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), afirmou, no dia 25 de fevereiro, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade de São Paulo, que sabia que havia tortura no Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), em São Paulo, mas que não as presenciou, pois não tinha autorização para acompanhar os depoimentos de presos. O ex-escrivão, que trabalhou no Dops entre 1969 e 1972, e no Doi-Codi, de 1972 a 1978, foi convocado para depor na Comissão da Verdade para apuração da morte de oito militantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Ele admitiu ter presenciado no Dops as práticas de tortura conhecidas como “cadeira do dragão”, que consistia em choques elétricos, e “cristo redentor”. – Nesta última, os presos ficavam nus em cima de latas de leite. Quando eles não aguentavam mais os pés cortados, caíam da lata e recebiam golpes, disse o ex-policial, que tinha o codinome de “Escrivão Pinheiro”. O depoente referiu-se aos militantes de esquerda sempre como “subversivos” e elogiou o chefe do Dops na época, o delegado Sergio Fleury, como uma “pessoa antenada e enérgica, que resolvia as coisas rapidamente”. De acordo com os membros da CNV, o depoimento foi de “enorme valor ”, uma vez que o ex-policial é o segundo agente da ditadura militar a admitir a tortura em depoimentos ao Estado brasileiro. O primeiro foi Walter Jacarandá, em audiência na Comissão da Verdade do Rio de Janeiro. (Cláudia Souza)


Em novos depoimentos, velhas lembranças do horror A crueldade em detalhes. Exposição de um manual prático da perversidade. Essas podem ser a síntese do depoimento do coronel reformado Paulo Malhães, de 76 anos, à Comissão Estadual da Verdade do Rio. Durante 20 horas, o militar, um dos mais atuantes agentes do Centro de Informações do Exército (CIE) nos anos de chumbo, esclareceu muito sobre as práticas desumanas de alguns de seus colegas. E, mais do que isso: confirmou ter ele próprio desenterrado e sumido com o corpo do ex-Deputado Rubens Paiva, morto sob torturas em janeiro de 1971. Na sessão, Paulo ainda contou como a repressão fazia para apagar os vestígios de suas vítimas. Por exemplo: um rio da Região Serrana, nas proximidades do distrito de Itaipava, foi o destino dos corpos das vítimas da temida Casa da Morte de Petrópolis. Para evitar o risco de identificação, as arcadas dentárias e os dedos das mãos eram retirados. Em seguida, o corpo era embalado em saco impermeável e jogado no rio, com pedras de peso calculado para evitar que descesse ao fundo ou flutuasse. Além disso, o ventre da vítima era cortado para impedir que o cadáver in-

chasse e emergisse. Assim, seguiria o curso do rio até desaparecer. Sobre Rubens Paiva, Malhães revelou a repórteres de O Globo que lançou o corpo no mar – depois de retirá-lo de cova improvisada no Alto da Boa Vista, onde teria sido inicialmente enterrado. À Comissão da Verdade do Rio (CEV), no entanto, contou que o destino do ex-Deputado foi o rio da Região Serrana, o mesmo em que foram jogados vários outros corpos de desaparecidos políticos. Tal contradição, é claro, causou ainda mais revolta. “É inaceitável que o Exército finja que nada acontece e não se pronuncie. Ele tem a obrigação legal e moral de vir a público, confirmar ou desmentir os relatos de Paulo Malhães e de outros agentes. Sugiro até ao comandante do Exército que compareça à audiência pública sobre a Casa da Morte, convocada pela Comissão Nacional da Verdade, e esclareça em definitivo o que o povo quer saber”, reclamou Wadih Damous, presidente da CEV. Além de explicar suas refinadas ‘técnicas’ de trabalho, em seu depoimento Paulo falou especificamente sobre o caso de Rubens Paiva. “Ele, eu calculo, morreu

por erro. Os caras exageravam naquilo que faziam, sem necessidade. Ficavam satisfeitos e sorridentes ao tirar sangue e dar porrada. Isso aconteceu com Rubens Paiva. Deram tanta porrada nele que, quando foram ver, já estava morto. Aí ficou o abacaxi; o que fazer? Se faz o que com o morto? Se enterra e se conta este negócio do sequestro. Só que o cara, primeiro, enterrou na estrada que vai para o Alto da Boa Vista. Aí, estavam fazendo a beirada da estrada, cimentando, e o cara viu que eles iam passar por cima do corpo. Foi lá e tirou.” Psicopatas Para a ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, “o depoimento do coronel mostrou que a ditadura valeu-se de psicopatas. Porém, há outros que participaram e até hoje não falaram por vergonha. Ainda há tempo para que eles mudem de idéia, sobretudo se tiverem um lampejo de dignidade”. O deputado Adriano Diogo (PT), que preside a Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, de São Paulo, completou. “Este é o depoimento de um militar que dá a dimensão de até

onde eles chegaram durante a ditadura. Uma perversidade extrema. Ele oficializa o que se tem investigado desse período. E começa a ficar claro para a população o que eles eram capazes de fazer”. Primo de Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, que comandava a VAR-Palmares na época em que a presidente Dilma fazia parte da organização, Sérgio Soares Ferreira lembrou que se passaram 43 anos desde a prisão e disse que familiares de desaparecidos políticos não podem ver o depoimento de Malhães de forma inocente. “Espero que isso estimule outros a falarem. E acho espetacular que o grande público saiba o que aconteceu. Mas, para mim, como familiar de desaparecido, o depoimento tem muitas incongruências. Se esquartejavam pessoas, quem ia lá fazer isso? Não é só cortar, tem uma técnica. O coronel fala, mas mantém o pacto de não dizer o nome de ninguém. E, em sua fala, é como se dissesse: esquece, os restos mortais não serão encontrados. Como se colocasse um pá de cal. Mas, eu não vou parar. Para nós, que somos os familiares, o processo democrático só avança quando o passado for desvendado”.

MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

No Dia da Mulher, ativistas recebem pedidos de desculpas P OR C LÁUDIA S OUZA

Em sessão especial para homenagear o Dia Internacional da Mulher, quatro vítimas da ditadura receberam, no dia 7 de março, pedidos de desculpas do Estado brasileiro por violências e perseguições sofridas durante a repressão militar. A jornalista Lúcia Leão, a advogada Aglaete Nunes Martins, a professora universitária Maria do Rosário da Cunha Peixoto, e a psicanalista Lúcia Maria de Cerqueira Antunes Borges Rodrigues vão receber indenizações relativas aos prejuízos materiais que sofreram devido à perda de empregos, exílio e prisão por motivos políticos. Os processos foram julgados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. A ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, disse durante o evento que todas as instituições públicas devem contribuir para desvendar crimes cometidos durante o regime militar (1964-1985). – Todas as instituições brasileiras têm de tomar para si a responsabilidade moral e ética de dar as mãos e contribuir para des-

vendar os crimes, que, até então, ficavam só entre os familiares e nós, ex-presas. Aglaete Nunes Martins foi a primeira a depor. Ela contou que seu escritório no Centro do Rio de Janeiro foi invadido e destruído em 1984, por agentes do extinto Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que procuravam uma gráfica clandestina responsável, segundo eles, por impressão de material subversivo. Ela foi processada pela Justiça Militar com base na Lei de Segurança Nacional. Aglaete disse que até hoje sofre restrições devido a este processo. Maria do Rosário da Cunha Peixoto, da Universidade de São Paulo (USP), trabalhava na Secretaria de Educação de Minas Gerais, em 1969, quando foi presa, em 15 de junho do mesmo ano, e só ganhou a liberdade em maio de 1970, tendo sofrido torturas durante o período em que esteve detida. Ela disse que foi forçada a pedir demissão devido aos constrangimentos sofridos no trabalho, teve dificuldade para conseguir emprego e praticamente viveu na clandestinidade, até ser acolhida pela USP. Lúcia Maria de Cerqueira Antunes Borges Rodrigues narrou à Comissão de

Sob o olhar da professora Maria do Rosário, a ministra Eleonora Menicucci fala durante a sessão especial da Comissão que julgou casos de mulheres perseguidas na ditadura militar.

Anistia que, com o golpe militar de 31 de março de 1964, seu marido, então superintendente de Reforma Agrária em Pernambuco, foi para o interior tentar organizar uma resistência armada, que acabou fracassando. Ele perdeu o cargo e o emprego de professor universitário, o que a obrigou a trabalhar no Senac pernambucano. Devido às perseguições sofridas pelo marido, o casal fugiu para o Paraguai, onde ele conseguiu ser contratado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bid) para trabalhar nos Estados Unidos. O casal retornou ao Paraguai. Ambos con-

seguiram voltar ao Brasil após a promulgação da Lei de Anistia. A jornalista Lúcia Leão foi presa aos 16 anos, em São Paulo, e passou mais de 30 dias no Doi-Codi da cidade, na época comandado pelo então coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Lúcia disse que foi molestada algumas vezes durante o tempo em que ficou presa, e que testemunhou muitos atos de violência contra outros presos. Depois de libertada, não conseguiu estudar em São Paulo e se mudou para o Rio de Janeiro, indo mais tarde para Brasília, onde trabalha na imprensa. JORNAL DA ABI 398 • FEVEREIRO DE 2014

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LIBERDADE DE IMPRENSA

EM TRÊS SEMANAS, SETE JORNALISTAS ASSASSINADOS

Crime

Também no dia 27 de fevereiro, o jornalista e radialista Geolino Lopes Xavier, conhecido como Geolino Lopes, de 44 anos, foi morto a tiros, por volta das 21h, na região central de Teixeira de Freitas, cidade localizada a 900 km de Salvador (BA). Geo Lopes deixa mulher e um filho, o também jornalista Joris Xavier Bento. Geo Lopes era um dos diretores do portal N3 e foi assassinado no interior de seu veículo, que apresentava o logotipo do portal. Os criminosos atiraram de dentro de um carro, e ainda não foram identificados. Momentos antes do crime, o jornalista estava na companhia do colega Djalma Ferreira, na Rua da Saudade. Djalma disse ter ouvido tiros após Geo Lopes chegar em casa, e que teria visto o veículo dos assassinos sair em alta velocidade. Radialista desde 1989, Lopes atuou como apresenta22

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O radialista Geolino Lopes, da cidade de Teixeira de Freitas (BA), e Pedro Palma (abaixo), dono e repórter do jornal Panorama Regional, de Miguel Pereira (RJ), são dois jornalistas que foram executados a tiros.

dor de tv, foi vereador do município de Teixeira de Freitas, entre 2004 a 2008, e era pré-candidato a Deputado Federal pelo PL para as próximas eleições. Morte cerebral

No dia 6 de fevereiro, o cinegrafista da Band, Santiago Andrade, foi atingido por um rojão na cabeça, quando fazia a cobertura de manifestação contra o aumento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro. O profissional teve morte cerebral (leia matéria na página 38). O locutor de rádio Carlos Dias, e o proprietário de uma sucata foram assassinados a tiros no início da tarde do dia 17 de fevereiro, em Patu, no Rio Grande do Norte. Morador da cidade de Lucrécia, e funcionário da Companhia de Águas e Esgotos do RN (Caern), Carlos Dias apresentava o programa Juventude Agora na Rádio Juventude, de Messias Targino. O delegado Sandro Régis, titular da delegacia de Patu, informou que os dois foram atingidos por vários disparos de armas de fogo vindos de um carro que passava na avenida principal da cidade. Para o delegado, os tiros tinham como alvo Nílson da Sucata, que segundo o titular da Delegacia de Polícia Civil de Patu, já respondeu a inquéritos por crimes na região e tinha inimigos na cidade. “O locutor de rádio estava no lugar errado na hora errada. Nílson tinha envolvimento com roubos de carros e até homicídios. Ele tem uma sucata na entrada da cidade e também revendia carros”, afirma Sandro Régis. Carlos Dias negociava a compra de um carro com Nílson no momento em que os suspeitos passaram no local. “Foram vários tiros de diversos calibres. Estou aguardando a perícia do Itep (Instituto TécnicoCientífico de Polícia), mas já identificamos disparos de pistolas ponto 40 e 9 milímetros, de uso restrito das Forças Armadas, e de espingarda calibre 12”, disse o delegado.

repórter do jornal semanal Panorama Regional, que circula em dez municípios do Centro-Sul Fluminense. Nos últimos cinco meses, o jornal passou a fazer oposição à gestão do prefeito de Miguel Pereira, Cláudio Valente (PT). Na publicação, denunciava casos sobre corrupção, desvio de verba, falta de repasses de dinheiro público, envolvendo principalmente o Prefeito e a primeiradama e secretária de Desenvolvimento Social, Kátia Kozlowski. No dia 24 de fevereiro, o Presidente da Câmara Municipal de Miguel Pereira, Eduardo Paulo Correa (PR), informou que solicitou à Comissão de Justiça da Casa que apure o desaparecimento de R$ 216 mil. A denúncia do desaparecimento da verba, cedida pela empresa de energia Light para realização de um festival de jazz na cidade, que não ocorreu, fora feita por Pedro Palma. Outro crime registrado em fevereiro foi o do câmera da TV Cabo Mossoró (TCM), José Lacerda da Silva, 50 anos, morto a tiros na noite de 16 de fevereiro, no bairro Belo Horizonte, em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Ele foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e encaminhado ao Hospital Regional Tarcísio Maia, onde morreu. O enterro foi realizado na tarde do dia 17, em Luís Gomes (RN), cidade natal de José Lacerda. DIVULGAÇÃO/PEDRO PAULO BRAGA VIZEU

O mês de fevereiro de 2014 foi o mais letal para a imprensa nacional. Em três semanas, foram registrados sete assassinatos de jornalistas, além de casos de agressão. O Brasil se tornou o país com o maior número de jornalistas mortos nas Américas, segundo o relatório anual da organização Repórteres Sem Fronteiras (RFS). Em 2013, foram cinco os jornalistas mortos no País; já em 2014, sete foram mortos em apenas 20 dias. No dia 27 de fevereiro, o corpo do jornalista Hélton Souza, de 28 anos, foi encontrado com sinais de estrangulamento, no Centro de Exposições da cidade de Valentim Gentil, região de Fernandópolis, interior de São Paulo. O crime de latrocínio (roubo seguido de morte) já foi descartado pela Polícia Civil. De acordo com o jornal Região Noroeste, os investigadores trabalham com a hipótese de que o jornalista teria ido ao local para um possível encontro. Os policiais vão solicitar a quebra do sigilo telefônico do celular da vítima para tentar identificar a última pessoa com quem ele entrou em contato. Hélton Souza, que era assessor de imprensa da Santa Casa de Fernandópolis, estava desaparecido desde às 10 horas do dia 26, quando saiu de sua casa, em Pedranópolis, para ir à academia, de acordo com o jornal O Estado de S.Paulo. O carro do jornalista foi abandonado a três quilômetros de distância do local onde um pintor, que trabalha nas obras da guarita do Centro de Exposições, encontrou o corpo do jornalista, que estava com uma camisa enrolada no pescoço e com a calça comprida abaixada. Segundo a polícia, o local, que está em obras, é usado por usuários de drogas e mendigos.

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Apagão

Em 11 de fevereiro, o radialista Edy Wilson da Silva Dias, 34 anos, foi morto a tiros por dois adolescentes, durante o apagão que atingiu a cidade de Pinheiros, no Espírito Santo. Edy era locutor na Rádio Explosão Jovem FM, em Pinheiros, e apresentava um programa aos domingos, das 9h ao meio-dia. A polícia chegou aos acusados através de uma testemunha que presenciou o crime. Um dos assassinos, um menor de 16 anos, foi preso no dia 14 de fevereiro. O outro criminoso, de 15 anos, foi preso na manhã do dia 17, por policiais militares. Os assassinos tinham registro na Polícia por roubo, furto e tráfico de drogas. A polícia investiga agora o mandante e a motivação do crime. Segundo informações da Polícia Militar, o radialista estava em frente ao mercado municipal, quando os dois menores se aproximaram em uma moto e fizeram quatro disparos, atingindo Edy Wilson na cabeça, no abdômen e no tórax. Oposição

Em 13 de fevereiro, o jornalista Pedro Palma, de 47 anos, foi morto com três tiros, na porta de casa, em Miguel Pereira (RJ), quando chegava do trabalho. Dois homens passaram em uma moto, chamaram por ele e fizeram os disparos, acertando dois tiros no peito e um no ombro da vítima. Pedro Palma era dono e único

Relatório

A Secretária de Direitos Humanos (SDH), da Presidência da República, Ministra Maria do Rosário, informou que pretende lançar, ainda neste mês de março, um relatório que reunirá mais de 200 casos de agressões contra os profissionais de imprensa no Brasil. A SDH pretende criar um observatório para acompanhar os casos de violência contra os profissionais. Os dados do relatório sobre a violência estão sendo apurados pela SDH, em conjunto com o Grupo de Trabalho Comunicadores, do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH). O GT Comunicadores vem monitorando há um ano os casos de violência contra os jornalistas e comunicadores. “Se um indivíduo for morto por ser jornalista, vamos acompanhar para que os culpados sejam punidos exemplarmente. Identificamos a existência de grupos de extermínio contratados para atacar os profissionais que desafiam e desequilibram as relações de poder. Isso é uma afronta à liberdade de expressão e de imprensa”, disse Tássia Rabelo, Coordenadora do CDDPH.


Entidades repudiam assassinato de radialista na Bahia

Segurança O governo federal criou um grupo de trabalho para determinar procedimentos padrões de segurança na cobertura jornalística de protestos. A prévia do estudo estará numa cartilha que o Ministério da Justiça prepara para distribuição em todo País e nas aulas de um curso piloto ofertado pela Academia da Força Nacional. O grupo será coordenado por Heloísa Helena Kuser, do Departamento da Força Nacional de Segurança Pública, e terá como membros representantes do Ministério da Justiça, da Secretaria Nacional de Justiça, de sindicatos de jornalistas e de empresas de comunicação. (Cláudia Souza)

O corpo do jornalista Celso Mazzieri (foto), 45 anos, foi enterrado na manhã do dia 6 de março, em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo. O jornalista estava desaparecido desde a madrugada do dia 1º do mesmo mês, em Porto Feliz, região de Sorocaba (SP). A família de Mazzieri informou que o jornalista foi visto pela última vez em Sorocaba, no dia 28 de fevereiro, por volta das 19h, quando saiu dos estúdios da Rede Brasil, na qual dirigia os programas Petrúcio Melo Show e Tarde é Show, este último apresentado pela modelo Nani Venâncio, que usou as redes sociais para pedir ajuda aos seguidores em relação ao desaparecimento de Mazzieri. No dia 5 de março, a polícia apreendeu quatro adolescentes suspeitos do assassinato de Mazzieri. Todos confessaram o crime. Eles serão encaminhados para a Fundação Casa, e deverão responder por ato infracional de homicídio. Entre os detidos está um jovem de 17 anos, que seria namorado da vítima. Ele disse à polícia que Mazzieri levou os quatro amigos à boate, mas como não voltou para buscá-los

no horário combinado, os adolescentes teriam retornado a pé, percorrendo um trajeto de cerca de 15 quilômetros. Contudo, através de denúncia anônima, a polícia localizou o carro do jornalista abandonado em um canavial em Porto Feliz. Com isso, o namorado de Mazzieri confessou onde estava escondido o corpo. Ele disse que todos entraram no carro e que um dos menores que estava no banco de trás usou a corda para enforcá-lo. Após o crime, eles esconderam o corpo da vítima em um canavial e foram para um baile funk em Sorocaba. Imagens do trajeto de 13 quilômetros feito pelo carro do jornalista até a boate estão sendo analisadas. A polícia investiga a participação de um quinto suspeito, possivelmente maior de idade, que poderia ter dirigido o carro. “O jornalista teria feito promessas de que conseguiria um emprego em comerciais de televisão para os quatro jovens. Como a promessa nunca foi cumprida, eles se sentiram enganados e planejaram o assassinato”, afirmou o delegado regional de Sorocaba, Marcelo Carriel. (Cláudia Souza) REPRODUÇÃO

A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e a Ong Repórteres Sem Fonteiras (RSF) repudiaram o assassinato do jornalista e radialista Geolino Lopes Xavier, ocorrido no dia 27 de fevereiro, em Teixeira de Freitas, cidade localizada a 900 km de Salvador (BA). A missa de 7º dia pelo falecimento de Geo Lopes foi celebrada no dia 5 de março, às 19h, na Igreja Matriz de Santo Antonio, Distrito de Teixeira de Freitas. A Unesco exigiu rigorosa apuração do crime e cobrou a implementação de medidas de segurança para profissionais da imprensa no Brasil. A Ong RSF divulgou nota repudiando o assassinato do profissional de imprensa. “Transmitimos nossas mais sinceras condolências e nosso apoio à família de Geolino Lopes Xavier. Deploramos a elevada insegurança que afeta o trabalho dos jornalistas brasileiros, e solicitamos às autoridades competentes que tenham em linha de conta a pista profissional. Esperamos que sejam adotadas medidas concretas, não só durante a cobertura de manifestações mais acessíveis a todos os jornalistas que assim o necessitarem, e em quaisquer circunstâncias”, afirmou Camille Soulier, uma das diretoras da RSF para as Américas.

Mais um jornalista morto em São Paulo

Delegacia da Baixada Fluminense investiga morte de jornalista A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DH-Baixada), em Belford Roxo, assumiu o caso da morte do jornalista Pedro Palma, no município de Miguel Pereira, região Centro-Sul do Estado do Rio de Janeiro. As investigações, que correm em sigilo, foram transferidas a pedido do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) e ficam a cargo do delegado Pedro Henrique Medina. A promotoria de Justiça do MP-RJ em Miguel Pereira vai acompanhar o caso por meio do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). Palma, de 47 anos, foi morto em 13 de fevereiro com três tiros na porta de casa, quando chegava do trabalho, no início da noite. Dois homens de ca-

pacete passaram em uma moto, chamaram por ele e fizeram os disparos, acertando dois tiros no peito e um no ombro. De acordo com Pedro Henrique Medina, a DH-Baixada teria mais recursos para investigar o caso. “Vamos ouvir novamente as partes e rever as provas para conduzir as investigações”, afirmou o delegado. Na semana passada, o delegado Murilo Montanha, da 96ª DP, em Miguel Pereira, se reuniu com o chefe de Polícia Civil, delegado Fernando Veloso, para definir qual delegacia conduzirá as investigações. Ele repassou as imagens das câmeras de segurança da casa do jornalista que podem apontar a identidade do suspeito. (Igor Waltz)

Emiliano José está livre de processo por calúnia P OR I GOR W ALTZ

A desembargadora Inês Maria Brito Santos Miranda, da segunda Câmara Criminal do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), concedeu liminar em processo de habeas corpus em favor do jornalista Emiliano José, com a suspensão de qualquer ato processual. O jornalista estava sendo processado pelo bispo Átila Brandão de Oliveira por suposto crime de calúnia. Emiliano publicou em fevereiro de 2013, no jornal A Tarde, da Bahia, o artigo intitulado “A premonição de Yaiá”, narrando episódio de tortura comandada pelo en-

tão policial militar e atual bispo, contra o ex-preso político Renato Afonso de Carvalho, dentro do Quartel dos Dendezeiros, na capital baiana. Os advogados Maurício Vasconcelos e Rafael Fonseca Teles requereram habeas corpus, com pedido de liminar. Eles alegaram que se tratava apenas de uma ação com objetivo de intimidação à imprensa, resultando em claro constrangimento ilegal. Assim, pleitearam a suspensão do processo e a tramitação de qualquer ato processual, inclusive a realização de uma audiência marcada para o último 25 de fevereiro. Em seu relatório, a desembar-

gadora argumenta que a concessão de liminar em processo de habeas corpus é uma medida excepcional, somente admissível quando inequivocamente demonstrada a ilegalidade do ato impugnado. No caso em exame – crime de calúnia supostamente praticado pelo jornalista Emiliano José contra Átila Brandão – a desembargadora entendeu a inexistência de dolo específico exigido para a configuração do crime. Também entendeu que a tramitação regular do processo até a apreciação final poderia gerar prejuízo irreparável ao paciente, autorizando, portanto a liminar pleiteada.

Câmera da Band sofre atentado no Maranhão P OR C LÁUDIA S OUZA

O cinegrafista Hilton Costa Brito, de 36 anos, funcionário de uma afiliada da TV Bandeirantes, foi atingido por três tiros, dois na perna e um no abdômen, na tarde do dia 4 de março, em Pedreiras, a 245 quilômetros de São Luís, capital do Maranhão. Ele foi submetido a uma cirurgia no Hospital Nossa Senhora das Graças. De acordo com a delegada Silvana Carvalho, que investiga o caso, o câmera estava em frente à emissora onde trabalha para fazer imagens de blocos de carnaval, quando um veículo com três pessoas parou no local. Em seguida, um dos ocupantes do carro teria saído e efetuado os disparos contra o cinegrafista. Natural de Chapadinha, município do Maranhão, Hilton estava trabalhando há um mês em Pedreiras. Em substituição a outro cinegrafista, cobria o Carnaval como contratado temporariamente pela TV Atenas.. “Devem ter me confundido com alguém. Por que minha única explicação é essa. Os disparos foram efetuados em minha direção mesmo, coisa que não entendo ainda, porque sou um cara que nunca me envolvi em brigas”, disse o cinegrafista. A delegada Silvana Carvalho informou que testemunhas do atentado e colegas de trabalho de Hilton colaboram nas investigações, com depoimentos prestados na delegacia. Violência

Em nota, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) cobrou das autoridades maranhenses o esclarecimento do caso. Leia abaixo a íntegra da nota da Abert: “A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) manifesta seu repúdio ao atentado contra o cinegrafista Hilton Costa Brito, da TV Atenas, afiliada da TV Bandeirantes no Maranhão. O crime ocorreu na tarde desta terça-feira, 4, em Pedreiras, a 245 quilômetros da capital. Brito foi atingido por três tiros enquanto aguardava, em frente à emissora, para fazer o registro de imagens de blocos de carnaval. De acordo com a polícia, um veículo estacionou próximo ao local, e um dos três ocupantes teria saído do carro e efetuado os disparos. Brito foi ferido em uma das pernas e no abdômen e encaminhado ao Hospital Nossa Senhora das Graças, onde segue em estado grave. É extremamente preocupante a escalada de violência contra jornalistas que, desde o início deste ano (2014), vitimou seis profissionais. A Abert apela às autoridades do estado do Maranhão que apurem mais este crime, que não pode ficar impune.”

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REPRODUÇÃO TV BRASIL/GABRIEL PENCHEL

LIBERDADE DE IMPRENSA

Profissionais de imprensa reivindicam medidas de segurança P OR C LÁUDIA S OUZA

A Diretoria do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ) e representantes da TV Bandeirantes reuniram-se no dia 10 de março na sede da entidade, no Centro do Rio para discutir medidas de segurança para os profissionais de imprensa. Participaram do encontro a presidente do SJPMRJ, Paula Máiran, a Tesoureira da entidade, Camila Marins, o advogado Marcelo Martins, do Departamento Jurídico e Administrativo da TV Bandeirantes, e Andressa Braga, do Departamento de Recursos Humanos da emissora. O Sindicato anunciou a criação de uma campanha com o objetivo de ampliar os procedimentos de segurança e proteção dos jornalistas, e defendeu a criação de um canal de diálogo com os funcionários sobre a importância das medidas para os profissionais que atuam na rua. O repórter cinematográfico Santiago Andrade, da Band, teve morte cerebral após ser atingido na cabeça por um rojão, no dia 6 de fevereiro último, quando registrava imagens de uma manifestação contra o aumento das tarifas de ônibus, realizada no centro da cidade. Santiago Andrade acumulava a função de motorista do veículo da emissora. Denúncia

A TV Bandeirantes está sendo investigada pelo Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro a partir de uma denúncia apresentada pelo SJPMRJ sobre as más condições de trabalho na emissora.

A empresa prestou esclarecimentos aos procuradores na última semana. Além das questões de segurança, a Band negou quaisquer irregularidades trabalhistas em suas Redações, e afirmou que é rigorosa com o banco de horas, e que não obriga estagiário a trabalhar como jornalista profissional, outra denúncia encaminhada ao Sindicato. Durante o encontro no SJPMRJ, a Band disse que está disposta a rever a política de treinamento em segurança para os jornalistas. A empresa negou, porém, que vá abolir a prática de repórteres cinematográficos serem também motoristas. O funcionário que acumula a função ganha adicional de 40% sobre o salário, segundo a empresa. A emissora afirmou ainda que, ao deslocar a equipe de Santiago Andrade para o protesto na Central do Brasil, a chefia de reportagem teria pedido que ‘as imagens fossem feitas com segurança’. Comunicado

Em São Paulo, os profissionais de imprensa que trabalham para a Agência Brasil, vinculada à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), divulgaram comunicado afirmando que não cobrirão protestos e manifestações sem equipamentos adequados. Leia abaixo a íntegra da nota dos funcionários da Agência Brasil: “Nós, empregados da Agência Brasil e da Radioagência Nacional em São Paulo comunicamos que, considerando o aumento dos casos de violência em protestos de rua, avaliamos a necessidade de colocar

O cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, depois de ser atingido por um rojão durante protestos no Rio de Janeiro.

como uma condição, para continuarmos a realizar esse tipo de cobertura, a disponibilização de Equipamento de Proteção Individual (EPI). Destacamos que a obrigação do fornecimento desses equipamentos aos empregados encontra-se expressa no Acordo Coletivo vigente. A cobrança para o cumprimento dessa exigência já foi manifestada em carta da Comissão de Empregados da EBC. Foi feita também, em ofício, pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF (SJPDF). O Conselho Curador da EBC também já se posicionou a favor da adoção de medidas de proteção. Essas foram medidas tomadas mais recentemente. Contudo, ações neste sentido já foram cobradas por nós à EBC desde junho do ano passado, quando se intensificaram os protestos. Avaliamos que houve tempo suficiente para que alguma providência fosse tomada pela empresa. Apesar das recorrentes cobranças, os equipamentos ainda não foram disponibilizados, e a cobertura de tais protestos continua a colocar os repórteres em risco. Acreditamos que a medida é necessária para resguardar a segurança dos profissionais da EBC em coberturas perigosas e arriscadas, como as que temos assistido, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Seja pela ação policial, seja pela ação de manifestantes, os riscos envolvidos em tal cobertura, embora já existissem, sobretudo desde junho do ano passado, tornaram-se mais evidentes após morte do cinegrafista da TV

Bandeirantes, Santiago Andrade, no Rio de Janeiro. Ressaltamos que o colega morto estava distante do foco do conflito entre policiais e manifestantes, em uma situação aparentemente segura. O Ministério Público do Trabalho, em matéria publicada pela ABr, destacou que as empresas podem ser responsabilizadas pelos riscos e, embora não exista norma expressa do Ministério do Trabalho e Emprego sobre a obrigatoriedade do fornecimento de equipamentos de proteção individual aos trabalhadores da imprensa, “o Artigo 7º da Constituição Federal estabelece o direito de todos os trabalhadores à redução dos riscos de acidentes do trabalho por meio do estabelecimento de normas de saúde, higiene e segurança”. Considerando que é prerrogativa dos empregados recusarem coberturas que ponham em risco sua integridade física, informamos que estamos aguardando a disponibilização dos equipamentos de segurança para que a cobertura dos protestos seja retomada. Reconhecemos o impacto desta decisão no conteúdo jornalístico da EBC, bem como para o/a cidadão/ã – que tem como fonte nosso jornalismo público. Nosso intuito é seguir trabalhando em prol da comunicação pública, sempre, porém sem que isso implique ameaça à nossa segurança. Com os EPIs em mãos, retomaremos a cobertura imediatamente. Contamos com a compreensão de vocês e estamos à disposição para dialogar. São Paulo, 20 de fevereiro de 2014."

Globo quer impedir notícias do BBB no Terra e no Uol P OR M ÁRIO M OREIRA

A Rede Globo vem tentando na Justiça impedir o Uol e o Terra de veicularem quaisquer informações sobre o reality show Big Brother Brasil 14. O argumento da emissora é o de que os dois portais fazem uso comercial do conteúdo do programa, em vez de se limitarem a noticiálo jornalisticamente. Em conjunto com a Endemol, produtora holandesa que detém os direitos mundiais do reality show, a Globo chegou a obter uma liminar no último dia 14 de março, concedida pela juíza Maria da Penha Nobre Mauro, da 5a. Vara Empresarial do Rio de Janeiro, obrigando o Uol a retirar do ar todas as notícias relacionadas ao programa, incluindo até mesmo críticas e comentários ao BBB. De acordo com a juíza, o conteúdo veiculado pelo Uol (em24

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presa controlada pelo Grupo Folha) não se restringia a mera informação jornalística, mas a “autêntica exploração comercial que, por ser desautorizada, pode caracterizar concorrência desleal”. A multa estipulada para o descumprimento da liminar era de R$ 100 mil por dia. Após a decisão, a Globo afirmou em nota que seu objetivo não era impedir a publicação de matérias jornalísticas sobre o reality show: “A cobertura jornalística é livre e pode ser feita por qualquer veículo. Vários sites cobrem o BBB regularmente, sem violar direitos autorais”, declarou a emissora. Notificado no dia 18, o Uol imediatamente cumpriu a liminar, retirando do ar todo o conteúdo referente ao programa, mas recorreu da decisão. Dois dias depois, a desembargadora Leila Albuquerque, da 18ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, relatora do processo na

segunda instância, suspendeu parcialmente os efeitos da liminar e permitiu ao portal retomar a cobertura do programa. Em seu despacho, a magistrada considerou “que tal já ocorre há anos sem qualquer impugnação judicial” e que qualquer prejuízo à emissora poderá ser resolvido em ação de perdas e danos. Em conseqüência disso, o Uol voltou a veicular com destaque informações sobre o reality show, como vinha fazendo desde o início da atual edição, no mês de janeiro. Em outro comunicado, a Rede Globo afirmou que a situação não muda com a decisão da desembargadora, já que “nunca houve proibição da realização da cobertura jornalística, mas sim de exploração comercial”. O advogado do Uol no processo, Raphael Duarte, negou a suposta exploração comercial alegada pela emissora. “Os produtos anunciados nas

páginas do BBB também aparecem nas outras páginas do portal”, afirmou Duarte. No caso do Terra, a liminar da primeira instância vetando a veiculação de notícias sobre o BBB foi entregue no dia 19 e também cumprida de imediato. Naquela própria data, à noite, o portal noticiou a proibição, ressaltando “que todas as imagens publicadas no site dedicado à cobertura do BBB 14 foram disponibilizadas pela Central Globo de Comunicação, CGCom, para a divulgação do programa da Globo por terceiros, não havendo, portanto, qualquer violação dos direitos autorais da Globo e/ou Endemol”. O Terra afirmou também que realiza a cobertura jornalística do Big Brother Brasil normalmente desde 2002 e que tentaria cassar a liminar “de modo a garantir para seus internautas o pleno exercício de seu direito constitucional de livre acesso à informação”.


Argentina e México acabam com o monopólio nas transmissões da Copa P OR P AULO C HICO

Aos poucos, bons ventos que levam à democratização do controle da mídia começam a soprar em países latinos. Recentemente, México e Argentina foram palcos de importantes decisões que buscam descentralizar o poderio de grandes grupos de comunicação, bem como estimular a maior diversidade na produção e veiculação de informações. No país vizinho, governado por Cristina Kirchner, o organismo que regula os meios de comunicação, a Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual (Afsca), aprovou a divisão do Grupo Clarín em seis empresas diferentes. A medida é necessária para que o mesmo passe a respeitar a chamada Lei de Mídia – ou Ley de Medios – que data do final de 2009. Aprovada por ampla maioria no Congresso Nacional e sancionada pela Presidente Kirchner em outubro daquele ano, a nova lei substitui o decreto da ditadura militar sobre o setor. Algo tramado no regime de exceção que, segundo estudiosos, teria beneficiado por diversas vezes a expansão do Grupo Clarín, durante a gestão dos militares nos anos 1970. Numa das investigações mais recentes, divulgada em novembro do ano passado, foram descobertos documentos que comprovam como a junta militar ajudou o Clarín a comprar parte da Papel Prensa – a principal empresa de papel jornal do país. A maior holding multimídia do país havia apresentado novo plano de negócios em dezembro de 2013, após perder uma longa batalha judicial na qual alegava que a Lei de Mídia era inconstitucional. Em outubro, a Corte Suprema de Justiça já havia considerado constitucional a proposta do governo, que limita o número de concessões de rádio e TV por proprietário e impede que as emissoras tenham presença em todo o território nacional – com exceção da TV Pública. O projeto tem como objetivo acabar com os monopólios. Para a oposição e o grupo empresarial, a norma foi desenhada para “quebrar” o Clarín – nos últimos anos, feroz crítico do governo argentino – e facilitar o controle oficial do conteúdo veiculado no país. O conglomerado, que edita o jornal homônimo, líder em toda a Argentina, é dono da maior operadora de TV a cabo e das emissoras de TV aberta e de rádio líderes de audiência. Controla ainda revistas e editora. Com tantas ramificações, monopolizava as comunicações no país, totalizando entre 150 e 200 concessões. Na prática, dominava o mercado e detinha exclusividades de transmissão, como os jogos de futebol. Nenhuma outra emissora podia pas-

sar os gols da rodada no final de semana, antes dos canais ligados ao Grupo Clarín. Isso, no entanto, já havia mudado há algum tempo, antes mesmo da validação da nova lei. Enquanto os principais clubes e emissoras ainda brigam pelos direitos de transmissão do campeonato brasileiro, em lucrativas negociações bilionárias que envolvem centenas de anunciantes, o governo argentino estatizou as transmissões dos eventos esportivos no país, ainda em março de 2011. Por meio do programa Esportes para Todos, o governo de Kirchner determinou que a tevê pública passasse a transmitir jogos dos campeonatos de basquete, vôlei, tênis e rugby, além dos campeonatos de futebol das séries B e C. A série A já era transmitida pelas emissoras públicas desde 2009. Essa foi uma perda relevante para a emissora do Grupo Clarín, que até então detinha a exclusividade dessas transmissões. “A rádio que se vê” Os privilégios dados ao conglomerado eram tantos e tão descabidos que geravam até situações surreais. Na Argentina, nação de apaixonados por futebol, os canais abertos de televisão mostravam tudo, ou quase tudo: a entrada dos times em campo, a festa de recebimento das torcidas, o aquecimento prévio dos atletas e até mesmo a pose daquela tradicional foto para a posteridade. Mas, quando o árbitro apitava o início da par-

tida, as câmeras passavam a focalizar somente as torcidas. O jogo era narrado durante 90 minutos, mas não era televisionado. Os telespectadores, de suas casas, apenas enxergavam as arquibancadas. Tal prática ganhou o apelido, dado pelos próprios jornalistas, de “a rádio que se vê”. A contar da data de 17 de fevereiro, quando foi divulgada a decisão da Afsca, o Grupo Clarín terá 180 dias para concretizar a venda de suas licenças ou a distribuição das mesmas entre os acionistas. Agente preponderante No México acontece algo semelhante. No dia 7 de março, o mais importante grupo de meios de comunicação em língua espanhola, o Grupo Televisa, recebeu um duro golpe. A agência reguladora mexicana declarou oficialmente a empresa como ‘agente econômico preponderante do setor televisivo’, o que a obriga a adotar medidas para reduzir seu poder em prol da concorrência. Como ‘agente preponderante’ se entende aquelas empresas que controlam mais de 50% do seu setor ou que por seu peso no mercado impõem suas próprias regras de negócio ao resto dos concorrentes. Atualmente, a Televisa controla 70% do seu mercado. A decisão foi conhecida no mesmo dia em que o Instituto Federal de Telecomunicações, órgão regulador do setor, liberou a licitação de duas novas redes nacionais de TV aberta. Trata-se de uma antiga reivindicação do setor, que pode causar uma

transformação no panorama televisivo do país, até agora nas mãos da Televisa e da TV Azteca – emissora que controla os 30% restantes do mercado mexicano. E, mais uma vez, a quebra de monopólios históricos é a pedra fundamental da reestruturação. Dentre as medidas com as quais a Televisa terá de arcar, estão a proibição de transmitir com exclusividade conteúdos “que no passado geraram altos níveis de audiências”, como torneios nacionais de futebol, finais de Copas do Mundo ou Olimpíadas. A empresa também deverá compartilhar sua infraestrutura com outros concorrentes através de uma tarifa pública e negociada. O órgão regulador também classificou como ‘agente preponderante’ a empresa de telecomunicações América Móvil – outra que terá que adequar-se às leis de mercado. Tanto a América Móvil como Televisa são de propriedade de dois mexicanos que integram a lista Forbes dos homens mais ricos do planeta. Carlos Slim, até este ano o homem mais rico do mundo, ocupa agora o segundo lugar, com uma fortuna de 72 bilhões de dólares (168,54 bilhões de reais). Emilio Azcárraga, proprietário do Grupo Televisa, é o número 663, graças aos seus 2,6 bilhões de dólares (6,06 bilhões de reais). A ação do Instituto regulador contra ambos os grupos é o primeiro passo da reforma das Telecomunicações, impulsionada no ano passado pelo Presidente mexicano, Enrique Peña Nieto. JORNAL DA ABI 398 • FEVEREIRO DE 2014

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N

ão dá mesmo para afirmar que o personagem central desta reportagem seja um ilustre desconhecido. Longe disso. Sua feição está estampada em herma na Praça da Alfândega, tradicional ponto turístico de Porto Alegre. Além disso, seu nome serviu de batismo para ruas em diversas cidades. Em São Paulo, o logradouro fica na Vila Ema. Na capital paranaense, Curitiba, pode ser encontrado no bairro de Guabirotuba. No Rio de Janeiro, Araújo Porto-Alegre é uma importante rua no Centro da cidade. Inclusive, endereço da ABI, no número 71, esquina com a Rua México. Embora um nome reconhecido, presente no imaginário dos brasileiros, poucos, muito poucos, sabem os detalhes do perfil e da trajetória do multifacetado Manuel de Araújo Porto-Alegre. Pois bem. Vamos, então, às apresentações: Porto-Alegre nasceu em 1806, em Rio Pardo/RS. Em 1827, já se encontrava no Rio de Janeiro. É uma das figuras mais desconcertantes da história da cultura e das artes no Brasil: muito citado, é também pouquíssimo conhecido. Entre suas diversas atividades, atuou como arquiteto; fez trabalhos de cenografia e decoração para teatro e para festas da monarquia; é considerado autor das primeiras caricaturas realizadas no País; foi idealizador da estátua equestre de D. Pedro I, no Rio de Janeiro; escreveu algumas novelas, muitas peças para teatro e diversos poemas; esteve em cargos de poder em instituições de cultura importantes da época, como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e a Academia Imperial de Belas Artes (Aiba), para a qual concebeu um amplo projeto de reformulação pedagógica, com enormes desdobramentos na arte brasileira da segunda metade do século 19. Diga aí: com um currículo desses, merece ou não ser alvo de um resgate histórico? Pois é justamente por isso que está em cartaz, desde 19 de fevereiro, no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, a exposição Araújo Porto-Alegre: Singular & Plural. Até 13 de abril, sempre de terça a domingo, das 11h às 20h, e com entrada grátis e classificação livre, o público pode conhecer os talentos deste artista múltiplo. Seguindo o costume da área de iconografia brasileira do IMS de trabalhar com obras que têm como suporte o papel, a exposição traz cerca de 50 obras, com destaque para a sua produção gráfica. Foram reunidas aquarelas, esboços, desenhos feitos a grafite e a nanquim. Porto-Alegre atuou como arquiteto, cenógrafo, crítico, historiador, escritor, jornalista e diplomata. Em busca da totalidade na sua vasta obra, a exposição também traz textos, poemas e projetos de arquitetura e cenografia. “Esta exposição é importante porque é a primeira que busca reunir toda a diver-

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COLEÇÃO LUIZ ERNESTO MORAES

HISTÓRIA

como mestre de artistas importantes, e propôs caminhos para a pintura da época. Além disso, é considerado o iniciador da caricatura no Brasil, em 1837, em que satirizava o jornalista conservador Justiniano José da Rocha. O surgimento desse tipo de desenho foi um fato de profundas conseqüências para a cultura política do Império”. A maioria das obras, com datações variadas, abrange o período em que PortoAlegre esteve na Europa pela primeira vez (1831-1837), acompanhando seu mestre Jean-Baptiste Debret, que voltara para a França definitivamente, e aprimorando sua formação como pintor. A exposição propõe relacionar esses esboços a outras produções do autor e a obras de outros pintores aos quais esteve ligado, seja como professor, ou como crítico. Para isso, além das peças que fazem parte do acervo do IMS, são apresentados ao público artigos que pertencem a outras instituiAUTO-RETRATO, 1836-1837. GRAFITE SOBRE PAPEL. 24,2 X 33,5 CM (APROX.) ções, como o Museu Nacional de Belas Artes, a Fundação Biblioteca Nacional, o Museu Julio de Castilhos, o Margs, o Museu D. João VI, o Museu Imperial, o Museu Histórico Nacional, além de coleções particulares. Um acervo impressionante, que ajuda a entender o quanto Araújo PortoAlegre foi vital para a sedimentação de uma cultura nacional. “Contamos com a ajuda de colecionadores e de diversas instituições públicas brasileiras, que inclusive nos emprestaram obras para a exposição. Metade das obras expostas pertence ao acervo de iconografia do IMS; a outra metade, veio de oito instituições diferentes”, reforça Letícia. Como Exposição em cartaz do Instituto Moreira Salles, no Rio, apresenta ao público desdobramento da exposição, que seguirá para São Paulo a partir de junho, com edia diversificada produção artística de Manuel de Araújo Porto-Alegre. ção ampliada, o IMS lançará um catálogo que reunirá imagens das obras de PortoP OR P AULO C HICO Alegre, uma seleção com seus escritos e uma cronologia, além de artigos sobre diversos aspectos da atuação do artista, feitos por sificada obra deixada pelo artista. É a priespecialistas convidados. cido dos especialistas”, conta Letícia meira exibição individual em muito temQuestiono Julia sobre o que há de mais Squeff, professora de História da Arte da po – a última foi nos anos 1980. Ele foi um surpreendente na exposição, bem como Universidade Federal de São Paulo (Uniimportantíssimo personagem da corte de sobre o posicionamento político de Porfesp) e uma das curadoras da mostra. D. Pedro II e só agora começa a ser melhor to-Alegre. “Ele era até hoje conhecido como Coordenadora de Iconografia do IMS, conhecido por estudiosos e pelo grande um pensador importante da Julia Kovensky divide a cupúblico. A primeira motivação para fazer história das artes no Brasil, radoria com Letícia. E tam“Ele foi o a exposição foi levar ao público obras inémas um artista medíocre. A bém falou com o Jornal da primeiro ditas de um álbum que pertenceu a Portoexposição mostra que ele era ABI sobre Araújo Porto-AleAlegre e que, em 2008, foi incorporado ao um bom artista, tendo sido gre. “Ele teve uma enorme impensador acervo de iconografia do IMS, e totaltambém um pintor de paisaportância na sua época, atuque quis mente restaurado. Em geral, se conhece gens bastante sensível. O que ando como o que chamaríamuito pouco a respeito dos artistas do sémais surpreende o público é mos hoje de agitador cultural: definir o culo 19 no Brasil. São conhecidas vagaque ele foi capaz de se dedicar criou várias revistas, dirigiu a que seria mente algumas obras, como A Primeira a tantas atividades diferenAcademia de Belas Artes, quis Missa, de Victor Meirelles, ou A Batalha tes, e que foi também um óticriar um museu de artes no uma arte do Avaí, de Pedro Américo. O caso de desenhista. PoliticamenRio de Janeiro, criar monubrasileira.” mo Porto-Alegre é ainda mais grave porque te, era um liberal moderado, mentos no meio desta cidadigamos assim: foi sempre fiel à monarele passou os últimos 20 anos de sua vida de, promoveu artistas diversos, entre muiquia, próximo de D. Pedro I e de D. Pedro no exterior, e morreu em Lisboa, em tas outras coisas. Ele é muito importante II. Mas achava que devia haver mudanças 1879. Então, parte de suas obras ficou discomo historiador da arte no Brasil. Resgana estrutura da sociedade. Chegou a escrepersa. Durante muito tempo apenas o tou e guardou para a posteridade os nomes ver um texto propondo a libertação graque ele publicou na imprensa era conhede artistas do passado. Também atuou

As mil faces de Araújo Porto-Alegre


IMAGENS: ACERVO INSTITUTO MOREIRA SALLES

CHER COMPAGNON DE VOYAGE, 1834. GRAFITE SOBRE PAPEL. 21,2 X 29,5 CM.

ESTUDO PARA UMA CENA DE BATALHA, S.D. GRAFITE, NANQUIM E AGUADA SOBRE PAPEL. 11,8 X 19,5 CM COLEÇÃO LUIZ ERNESTO MORAES

O retrato de Carlos Miguel de Lima e Silva, irmão do Duque de Caxias, faz parte de um álbum de caricaturas desenhado por Araújo Porto-Alegre, e hoje pertencente ao artista plástico Luiz Ernesto Moraes. Suspeita-se que Carlos Miguel tenha recebido esse álbum do próprio artista.

dual dos escravos, por exemplo. Também não teve medo de exaltar artistas negros ou mulatos do passado colonial, como o padre José Maurício Nunes Garcia, o escultor mestre Valentim. Por outro lado, nunca aderiu à voga romântica de valorização dos índios, nem ao indianismo. Achava que o progresso do País passava pela adoção de valores e princípios europeus”. Passados quase 150 anos de sua morte, será possível determinar o legado deixado por Araújo Porto-Alegre? “Ele foi o primeiro pensador que quis definir o que seria uma arte brasileira. Tinha uma preocupação com o patrimônio do País, antes que existisse essa idéia por aqui, tentando preservar igrejas e monumentos, reunindo documentos de artistas... Seu legado foi o de deixar um projeto brasileiro de belas artes – o que hoje chamaríamos de artes plásticas. Algo que depois seria retomado e resignificado por gente como Mario de Andrade, Lourival Gomes Machado, entre outros. Seus escritos influenciaram vários autores que quiseram traçar a história da arte no Brasil. Além disso, alguns artistas importantes da época foram seus discípulos, como os já citados Victor Meirelles e Pedro Américo”, conclui Letícia.

RIO DE JANEIRO, FLORESTA VIRGEM, 1856. LITOGRAFIA IMPERIAL DE RENSBURG, RIO DE JANEIRO. LITOGRAFIA SOBRE PAPEL. 31,8 X 45,0 CM

MATA VIRGEM, C.1850-1860. GRAFITE E AQUARELA SOBRE PAPEL. 21,1 X 30,0 CM

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MEMÓRIA

A paternidade esquecida da imprensa

DIVULGAÇÃO

Jornal da ABI – Esse livro, que você planejava há tanto tempo, é um acerto de contas com a memória de sua família? Leão Serva – Em verdade é mais uma tentativa de juntar informações dispersas em um formato jornalístico (mais palatável do que o ensaio histórico). E foi uma tentativa de trazer para o “Sul Maravilha” uma informação que é conhecida pelos baianos e absolutamente desconhecida em São Paulo, por exemplo.

Livro joga luzes sobre Manoel Antonio Silva Serva, empreendedor que fundou a primeira tipografia de propriedade particular do Brasil Colônia, criou o primeiro jornal e a primeira revista privados do País. P OR G ONÇALO J ÚNIOR

O jornalista paulistano Leão Serva sempre teve um interesse pessoal pelos primórdios da imprensa na Bahia e no Brasil. Não por acaso. Seu tataravô Manoel Antonio Silva Serva (1760-1819) desenvolveu um conjunto de atividades pioneiras que o coloca como um dos pais da imprensa no Brasil, apesar de raramente citado. Em Salvador, ele fundou a primeira tipografia de propriedade particular quando o Brasil ainda era colônia portuguesa e uma nação subserviente e submissa. Com seu maquinário, em 1811, lançou o primeiro número do que se tornou o primeiro jornal privado do País, Idade d’Ouro do Brazil, e a primeira revista, As Variedades ou Ensaios de Literatura, de 1812. Essas empreitadas de Manoel Antonio Silva Serva, agora reveladas pelo parente distante cronologicamente, corrigem um ruído histórico importante. Sempre que se fala do nascimento da imprensa no País, diz-se que a primazia coube ao jornalista e diplomata Hipólito José da Costa (1774-1823) que, de Londres, Inglaterra, editou regularmente aquele que é considerado o primeiro jornal brasileiro: o Correio Braziliense ou Armazém Literário, que circulou de 1° de junho de 1808 a 1823, com 29 volumes editados, no total. A diferença está no fato de que a publicação de Costa era escrita, editada e impressa em Londres, Inglaterra. Silva Serva inaugurou a imprensa exclusivamente nacional, totalmente produzida no País e, por isso, merece parte da glória histórica, ou a fatia mais elevada dela. Em uma época em que os jornais eram publicados no exterior e chegavam clandestinamente, por conveniências políticas e falta de equipamento para impressão, ou rodados pela imprensa régia, estabelecida no Rio em 1808, com a vinda da Coroa portuguesa para o Brasil, ele lançou periódicos e livros de grande valor histórico para a história da imprensa. Descrito pelo biógrafo como um empreendedor de visão ampla, Serva também demonstrou preocupação em incentivar o hábito da leitura e a arte de editar. Sua trajetória inclui ainda iniciativas relevantes como a popularização das hoje famosas fitinhas do Bonfim, ícone da cultura baiana e que encanta turistas de todo o mundo por causa da mística que as marca. Para levantar essa história, Leão vasculhou arquivos, entrevistou historiadores e reviu a bibliografia sobre o tema. Seu livro foi o vencedor do prêmio Folha Memória 2012, Programa de Orientação de Pesquisa em História do Jornalismo Brasileiro, organizado pela Folha de S.Paulo e pela Pfizer. Leão Serva é colunista da Folha de S.Paulo, jornal do qual foi editor e secretário de Redação entre as décadas de 1980 e 1990. Também foi diretor do Jornal da Tarde e da revista Placar, além de ter participado da criação do diário esportivo Lance! e do portal iG. Trabalhou como editor-chefe do Diário de S.Paulo. Mestre em comunicação e semiótica pela Puc-SP, escreveu os livros A Batalha de Sarajevo (1994) e Jornalismo e Desinformação (2001). É co-autor do guia Como Viver em São Paulo Sem Carro (2013). Na entrevista exclusiva a seguir, ele dá detalhes da produção de seu livro, o parentesco com um personagem tão importante para a imprensa e o perfil que construiu dele. Que sua história seja difundida e conhecida, pelas páginas de sua nova obra. 28

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imprensa, também baiano, vem se dedicando a levantar novas informações e incentivar o trabalho de novos historiadores. Então, muitas informações foram surgindo. Até a comemoração do bicentenário da revista As Variedades, quando Pontes Tavares, que organizou eventos em Salvador, em 2012, convidou-me para participar, na condição de descendente da família e jornalista. Ali, os estudos apresentados e as palestras me revelaram um empreendedor muito maior do que já tinha podido ver.

Leão Serva: A digitalização de documentos antigos vem abrindo um novo horizonte de acesso ao passado.

Jornal da ABI – Qual é o seu parentesco com Manoel Antonio Silva Serva? Leão Serva – Ele é o meu tataravô, primeira pessoa de que se tem notícia que trouxe esse sobrenome ao Brasil. Segundo sua principal biógrafa, Cybelle de Ipanema (que trabalhou durante muitos anos com o marido, já falecido, Marcello, e por isso ainda assina com ele todos os seus ensaios), Silva Serva teria nascido em torno de 1760 e instalado negócios e residência em Salvador, por volta de 1788. Ele vinha de Portugal. A professora Cybelle introduziu a hipótese, hoje bastante aceita, de que naquele tempo as pessoas acrescentavam a seu nome de família o nome da cidade onde nasciam, como se fosse um último sobrenome. Dessa forma, seu nome de batismo seria Manoel Antonio da Silva, nascido na Vila de Serva, no norte de Portugal, uma pequena cidade cujo nome hoje se escreve com C. No livro dela, aparecem outros personagens portugueses dessa época que reforçam essa idéia. Mas no meu livro mostro que havia outros Servas em Portugal, na época,

que vinham de outros lugares, como filhos de um irmão, que ele adotou já no começo do século 19. Jornal da ABI – Ele sempre foi uma referência, um orgulho para a família ou vocês o descobriram há pouco tempo? Leão Serva – Em verdade, meu pai falava de seu bisavô que tinha fundado um dos primeiros jornais brasileiros, na Bahia. Ele tinha informações imprecisas, que lhe narraram os pais e tios. Mais tarde, quando conheci o bibliófilo José Mindlin, ele corrigiu alguns dos erros históricos que eu tinha em minha narrativa e me deu os contatos do importante estudioso baiano, Renato Berbert de Castro, autor do principal catálogo das obras de Silva Serva até então. Eu era adolescente e não procurei Berbert de Castro. Mas meu pai o procurou, trocou correspondência com ele. Depois, ao longo dos anos, algumas coisas saíam na imprensa: a revista Imprensa publicou alguns estudos de Nelson Cadena, jornalista e historiador radicado na Bahia; Luiz Guilherme Pontes Tavares, historiador da

Jornal da ABI – Por outro lado, você joga luzes sobre um personagem importantíssimo para a história da imprensa brasileira. Por que Manoel Antonio não é tão lembrado como merecia? Leão Serva – Creio que vários fatores conspiraram para isso. Um foi o fato de que o Brasil é um país pouco devotado aos livros e à sua história. Outro foi o fato de que os estudos ficaram sempre muito restritos à Academia. Faltou, digamos, uma leitura mais humana. E acho que esse vínculo com um objeto popular (as fitinhas do Bonfim) por ser desconhecido dos estudiosos da imprensa também não foi explorado a ponto de ampliar o olhar sobre o empreendedor. Jornal da ABI – Onde é possível encontrar hoje exemplares do que ele produziu? Sobrou muita coisa? Leão Serva – Só em bibliotecas públicas e coleções particulares. Os livros dele são caros, talvez o mais barato seja o Paráfrase dos Provérbios de Salomão, que ele publicou em várias edições e aparentemente foi um livro muito popular. Ele pode ser encontrado em sebos a preços menores do que todos os demais (mesmo assim, entre U$ 300 e U$ 1.000 por exemplar). Todos os outros, sempre difíceis de achar, são mais caros. Jornal da ABI – Que perfil de personalidade você conseguiu construir de Manoel Antonio Silva Serva? Qual era o temperamento dele? Explosivo? Diplomático? Leão Serva – Era um empreendedor persistente. Acho que essa é sua principal marca perceptível. Não há muitos registros sobre personalidade específica, se era bravo ou manso, vamos dizer. Mas era persistente: du-


rante vários anos tentou um financiamento da coroa para seus empreendimentos (uma linha de crédito tipo BNDES atual) e não deixou de apresentar documentos atrás de documentos, enquanto não obteve o financiamento que considerava merecido diante das normas da época. Seu negócio gráfico aparentemente dava prejuízo ou lucros reduzidos. Várias vezes ele publicou artigos dizendo que interromperia a publicação do jornal caso o número de assinantes não crescesse. Mas, em seguida, disse que havia repensado e seguiria editando o jornal. Enfim, dá sinais claros de ser uma pessoa persistente. E empreendedora, como se viu. Hoje, o historiador Pablo Iglesias Magalhães vem revelando sinais concretos da ligação dele com a Maçonaria, que era uma informação conhecida, mas baseada até então apenas em uns poucos sinais (a imagem que serve de vinheta à capa de As Variedades é um símbolo maçônico; seu provável redator era um homem preso em Salvador por ligações com a França), o que o leva a explicar o fato de que se mantivesse sempre como uma pessoa discreta.

Jornal da ABI – Você encontrou uma pessoa muito diferente daquela que imaginava? Leão Serva – Conhecia pouco, imaginava um escritor, como seus filhos, bisnetos e tataraneto. Encontrei um empreendedor, com visão iluminista e modernizadora, com discurso contra o absolutismo (o que ele faz de forma curiosa, elogiando D. João VI, um regente absolutista, por sua grande generosidade e pelas luzes que traria ao Brasil...). Jornal da ABI – Manoel Antonio era um sujeito quixotesco como jornalista ou alguém que queria inventar a imprensa no País? Leão Serva – Acho que era três coisas: há muito de quixotesco, como se vê em suas viagens, em suas cartas ao Rei; há uma determinação grande também e um desejo de trazer a imprensa e as luzes ao Brasil (ele defendia um projeto iluminista: a imprensa, um jornal, uma biblioteca pública, enfim, um conjunto de medidas que incentivaria a cultura).

Jornal da ABI – Politicamente, como ele se identificava? Leão Serva – Era maçom, o que era uma organização proibida, associada ao combate ao absolutismo e ao poder da Igreja. Era, no entanto, um português, no sentido de que via o Brasil como parte de Portugal... Saúda a mudança da corte para o Brasil como o nascimento de um novo reino, um reino na América; depois, defende as cortes, que exigiam dotar Portugal de um regime constitucional.

de Silva Serva e analisando inclusive o formato das letras, o papel que usava. E isso foi publicado recentemente. Iglesias de Magalhães tem muitos estudos ainda em andamento, que me adiantou em parte, mas estão no prelo. A digitalização de documentos antigos vem abrindo um novo horizonte de acesso ao passado. Enfim, o mais difícil foi detectar e apontar essas novas informações ainda em produção.

Jornal da ABI – Qual a ligação dele com as fitinhas do Senhor do Jornal da ABI – Como Bonfim? Qual era seu ele lidava com a prespropósito? são dos políticos e daLeão Serva – Paralelaqueles que se sentiam mente às suas atividades ofendidos com o que comerciais, Silva Serva tipublicava? nha duas atividades sociLeão Serva – O jornal ais: era membro da Irman“A ideologia que afirma que era censurado, como se dade da Santa Casa de a internet vai libertar os pode imaginar em um reMisericórdia e da Irmanconsumidores, dando voz gime colonial e absolutisdade da Igreja do Bonfim. ta. Portanto, são poucas as No Bonfim, foi tesoureiro. a eles, que vai universalizar manifestações que se poNessa condição, buscando o acesso à informação e que de chamar de políticas. aumentar as receitas da IrElas todas eram no sentivai levar conhecimento a todos mandade, dinamizou a do de medidas de impacto produção de uma espécie os cantos é uma ideologia econômico, modernizade amuleto, uma crendice, que precede a internet: o ção técnica, abertura de que existia de amarrar no estradas etc. braço “medidas” do Bonmesmo discurso já era usado fim, cordões que tinham o para descrever a gazeta de Jornal da ABI – Como exato comprimento do braexplicar que ele tenha Silva Serva em 1811.” ço da imagem do Bonfim sido um empreendedor que havia sido trazida de pioneiro de tantas coiPortugal por um devoto sas importantes para a imprenque fundou a Igreja. Então, a IrmanJornal da ABI – Quando ele cria sa, como criar o primeiro jornal dade começou a comprar matérias o primeiro jornal e a primeira reprivado e a primeira revista? De primas e contratar pintores para favista, ambos em Salvador, Dom onde veio essa paixão? zer ricas pulseiras que eram vendidas, João VI acabara de mudar com Leão Serva – Isso é algo ainda por disseminando aquele produto para a corte para o Rio. Por que ele ser estudado: os dados, principalangariar fundos para a Igreja. Essa hispreferiu permanecer na capital mente agora sistematizados por tória é contada em detalhes no livro baiana? Iglesias Magalhães, mostram um em entrevista pelo jornalista Biaggio Leão Serva – Creio que a explicagrupo político ligado à maçonaria, Talento, que a revelou originalmente ção para isso está no fato de que reunido em torno de sua editora. Auem seu livro Basílicas e Capelinhas – estava instalado com negócios tores e livros de maçonaria são freHistória de 42 Igrejas de Salvador. constituídos na Bahia já desde a déqüentes no catálogo e nos jornais. cada de 1780. Ou seja, não dependia Daí se tira uma motivação iluminisJornal da ABI – As fitinhas eram da corte (nessa época instalada em ta, talvez. Além disso, as novas rediferentes das de hoje? Lisboa). Era difícil também imagivelações de que seu irmão tivesse Leão Serva – Sim, muito. Eram ornar alguém mudando um empreenuma loja de livros em Lisboa sugenamentos caros, pintados a mão sodimento inteiro de cidade naquela rem que estavam nesse ramo há bre tecidos caros, peças únicas por asépoca. Além disso, entendo pelos damais tempo. sim dizer. dos disponíveis que se tem que ele tinha um intenso comércio com Jornal da ABI – Alguma boa hisJornal da ABI – Ele patenteou as Portugal, que estava focado no roteitória em que ele se meteu em alfitas? ro Lisboa-Salvador. guma enrascada por causa de seus Leão Serva – (Risos) Não, mas não órgãos de imprensa? seria mal se tivesse patenteado e seus Jornal da ABI – O que foi mais diLeão Serva – O livro mostra na herdeiros tivessem uma participação fícil para pesquisar no processo verdade como os livros eram vistos, nas vendas das fitinhas. Mas, não. Inde preparação do livro? Alguma até então, mais ou menos como as clusive a ligação entre ele e essa história história importante e pouco dodrogas hoje. Eram extremamente vié possível pelos livros caixa da Irmancumentada? giados, objetos de suspeição. Fora isso, dade, não por um texto ou documenLeão Serva – O mais interessante, há uma série de informações que to que a descreva ou registre. uma coincidência, é que esse livro nasmostram que ele publicava uns livros ceu em uma época em que estão apapopulares de santos, proibidos pela Jornal da ABI – Como ele morrecendo muitos novos estudos, a BiIgreja, que vendiam muito especialreu e o que aconteceu com tudo blioteca Nacional, com seu impormente comparando à tiragem de que construiu? tante departamento de Livros Raros, seus jornais, e que eram de vez em fez um estudo impressionante, varLeão Serva – Manoel Antonio da quando apreendidos. Silva Serva morreu no Rio de Janeiro rendo todos os volumes que existiam

em uma viagem de negócios aparentemente em que buscava exemplares não vendidos de seus livros por parceiros locais e levava novos exemplares. Logo depois de chegar ao Rio, ele morreu de causa não explicada. Cuidou de seus interesses (como desembaraçar a carga de livros, devolvê-la à família na Bahia) o amigo, livreiro e editor Manuel Joaquim da Silva Porto, que era também seu parceiro comercial no Rio, personagem do livro Silva Porto – Livreiro na Corte de Dom João, Editor na Independência (ed. Capivara), do casal Cybelle de Ipanema e Marcello de Ipanema, autores de importantes ensaios de história da Imprensa brasileira. Aliás, as poucas informações que se conhece sobre sua morte são aquelas levantadas por Renato Berbert de Castro (em seu A primeira imprensa da Bahia e suas publicações) e pelo casal Ipanema em seu A Tipografia na Bahia. Jornal da ABI – Sobraram documentos da história dele na família ou depositados em algum arquivo? Leão Serva – Em minha família não há documentos desse período. Existem em arquivos públicos e alguma coisa entre colecionadores privados. Jornal da ABI – O que historiadores da imprensa, profissionais ou estudantes podem tirar de conclusão do livro e do empreendedorismo de Manoel Antonio Silva Serva? Leão Serva – Creio que é uma história cheia de informações interessantes, com as quais podemos aprender sobre o passado e o presente da imprensa. Destaco algumas coisas: (a) jornais do passado eram empreendimentos muito pequenos e focados. Isso fazia deles operações baratas face aos grandes jornais de massa que conhecemos no século 20. Isso me parece um objeto interessante de reflexão para nós que vivemos um tempo em que jornais definham. O passado pode indicar um caminho para os jornais; (b) ler o que Silva Serva e seu jornal publicavam sobre o jornal nos faz lembrar o que hoje os estudiosos falam sobre a internet. A ideologia que afirma que a internet vai libertar os consumidores, dando voz a eles, que vai universalizar o acesso à informação e que vai levar conhecimento a todos os cantos, é uma ideologia que precede a internet: o mesmo discurso já era usado para descrever a gazeta de Silva Serva em 1811. (c) também é muito interessante ler os documentos oficiais que autorizavam a atividade de imprensa e ao mesmo tempo prescreviam a censura. Há um documento do Conde dos Arcos, governador da Bahia, que recomenda que o jornalismo fosse exercido da mesma forma que hoje os políticos encastelados no poder defendem que os jornais pratiquem um jornalismo acrítico.

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DIVULGAÇÃO/SESC

DEPOIMENTO

Você acha que o documentário é de alguma forma uma extensão do jornalismo? Eduardo Coutinho – Questões gerais eu odeio. Se você me pergunta a diferença do documentário pra ficção nós não vamos sair do lugar. Não, eu fiz nove anos de jornalismo para a TV Globo, trabalhei três anos em jornal também, até fui jornalista, dirigi filmes para o Globo Repórter. Mas eu, desde que eu saí do Globo Repórter, tudo que eu faço é contra o jornalismo. Contra o jornalismo? Eduardo Coutinho – Eu odeio o jornalismo. Não estou interessado em jornalismo. Não estou interessado em informações, mapas, em filme militante, em filme político. Deus me livre. Aquecimento global, liberar maconha. Não estou interessado em filmes políticos, sociais, genéricos. Nada que é genérico me interessa. Quero saber das pessoas que eu filmo, só. Então, comigo é uma exceção, um tipo de cinema particular que eu faço, do qual é o único que eu sei falar. Não falo sobre o cinema em geral porque, bom, o documentário pode ser tudo, né? Jornalistas podem fazer excelentes documentários jornalísticos, evidente. O Michael Moore é jornalista, no fundo um cineasta, e que é um tipo engraçado e tal, mas que é um populista evidentemente de esquerda e que, enfim, usa métodos que eu não usaria. Mas é um cara altamente eficaz, está milionário e tal, mas é jornalismo. E seus filmes são úteis? São, em certa medida são. Tratar dos assuntos que ele trata... Agora, os metodos que ele usa, não me interessam. Você acha que o Michael Moore interfere muito no filme? Eduardo Coutinho – Michael Moore é um exemplo, tem mil outros. Todo cara que começa a fazer um filme dizendo “eu vou fazer esse filme para obter tal resultado” não me interessa. Vou dar um exemplo: o filme do Al Gore, não vou ver. Não estou interessado! O filme que o cara sabe que ele vai fazer para dizer que a maconha deve ser legalizada, não estou interessado! Que o mundo vai ser aquecido, o cacete a quatro, não estou interessado! Outro pra dizer que não pode comer carne. Outro pra dizer que a miséria é boa. Não quero saber disso, não interessa. Faça um livro, faça isso no jornal. Agora a experiência de fazer cinema, que é tão ingrata, que você não ganha dinheiro, que é chata pra burro, só tem sentido para mim se é uma coisa que você goste – e desse tipo de coisa eu não gosto. Tem gente que adora e faz bem. Um filme que é feito sobre o nazismo, é um filme jornalístico de um certo sentido, mas com alto nível de pesquisa e tal e interessante. Mas não é o tipo de filme que me interessa fazer. Até que ponto você, como diretor, deve interferir, por exemplo, durante uma entrevista?

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E DUARDO C OUTINHO

Tudo o que eu faço é contra o jornalismo Em entrevista inédita concedida em 2011 a Mariana Simões, então estudante de comunicação, o cineasta Eduardo Coutinho, homenageado na festa do Oscar deste ano, não escolhe as palavras para definir o que faz. P OR M ARIANA R EBUÁ S IMÕES

E

u tinha 22 anos quando comprei uma passagem para o Rio de Janeiro para entrevistar Eduardo Coutinho, que morreu no dia 2 de fevereiro, no Rio de Janeiro. Na época eu cursava graduação em Comunicação nos Estados Unidos e estava passando as férias em Brasília. Fiquei um mês trabalhando na tese: metade fazendo pesquisa sobre a obra de Coutinho e a outra metade com o telefone na orelha, tentando agendar uma entrevista com o documentarista. Quando consegui o número de telefone do escritório dele, achei que a minha entrevista estava garantida. Mas, faltando uma semana para eu voltar para Nova York, ainda não tinha dado em nada. Comecei a entrar em pânico. “Se faça de boba, minha filha”, meu pais me disseram. Eu segui o conselho: mandei um e-mail para a produtora dele dizendo que já tinha comprado minha passagem para ir ao Rio de Janeiro e que, no dia seguinte, ligaria para confirmar o horário da entrevista. “Você sabe como é, ele já está velho, não gosta mais de dar entrevista”, alguém me disse pelo telefone dias depois. Expliquei que já estava no Rio de Janeiro esperando ele me atender. A passagem custou caro, eu iria voltar logo para o exterior, fui dizendo. Eu tinha entrevistado o cineasta Vladimir Carvalho na semana anterior. Ele foi simpático ao telefone e, quando nos encontramos, ficamos horas conversando. Um homem sorridente, com boa vontade, cheio de energia. Com Coutinho foi praticamente o oposto. Quando entrei na sala para entrevistá-lo, a única que estava sorridente era eu. Coutinho estava atrás de uma mesa, me esperando, um maço de cigarros em mãos. Ele falava baixo, meio rouco. Tossia muito. Apertou minha mão. Perguntei se podia filmar a entrevista, ele gesticulou que sim e eu comecei a agradecer como uma tonta. Disse que era uma honra poder entrevistar um homem que mudou a cara do

documentário brasileiro. Fui logo acrescentando que achava ele um grande documentarista, alguém que eu admirava, mas percebi que ele não gostou dos meus elogios. Não queria se fazer de herói, nem aceitar o título de grande cineasta; era apenas um cara que gostava de documentar o encontro da câmera com o mundo. E, de fato, avisou que não fazia filmes para descobrir a verdade sobre ninguém. Tudo que eu tinha entendido sobre o trabalho dele até então foi aos poucos desmoronando. “Eu estou interessado que a pessoa fale a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa e, portanto, tem verdade e mentira juntas. Isso é inevitável”, ele explicava. De acordo com Coutinho, não era possível fazer um documentário que só contasse a verdade. Para ele, não existia uma verdade única sobre um acontecimento, mas sim várias verdades ou experiências vividas, que juntas pudessem contar uma história. Assim como os gestos e o comportamento dele, naquele dia, também contaram uma história. Quando entrei na sala, vi um homem de 80 anos que já estava cansado, cuja voz às vezes falhava, mas um homem que ao longo da entrevista foi se soltando, começou a mostrar outra cara. Apesar da aversão que sentia em dar entrevistas, eu notava o brilho no olho dele, o orgulho que tinha pelo que fazia, a paixão que sentia pela arte que havia criado. Antes de ir embora, pedi para tirarmos algumas fotos juntos. Na última, ele puxou meu braço e disse: “Agora chega de fotos genéricas, vamos fazer uma em movimento”. E aí ele acenou para a câmera e por um instante consegui capturar algo: não a verdade sobre Coutinho, mas um retrato dele naquele momento. Que se foi. Entrevista publicada originalmente no site da Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo (apublica.org) em 3 de fevereiro de 2014.


Eduardo Coutinho – Eu tento não interferir. Ou melhor, eu tento… Eu não julgo. Eu não julgo se um cara, uma pessoa que é escrava, que gosta de ser escrava, eu não vou perguntar: “mas como?!”. Se ela quiser, dá um discurso do porquê gosta de ser escrava. Eu não estou lá para mudar as pessoas, eu estou lá para ver o estado do mundo através das pessoas. A partir da relação que eu vou ter com a pessoa, que é o essencial, na qual tudo pode acontecer, podem haver conflitos ou não conflitos... Mas eu não estou lá a fim de dizer para a pessoa que ela mude de opinião, não. Aliás, a opinião não me interessa. Me interessa que as pessoas tratem de suas vidas. A partir de suas vidas, as pessoas vão ter opiniões de direita e esquerda, tanto faz, mas que são viscerais. Eu não estou interessado no conteúdo social da vida da pessoa, eu estou interessado no que a pessoa fala a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa... Portanto, tem verdade e mentira juntas, isso é inevitável. Não há solução. Ninguém consegue desobstruir a memória. Então, eu aceito aquilo que é exagero. Como sabe se o sentimento é verdadeiro ou não? Sabe, “eu gostei de um cara.” Eu sei lá se gostou ou não, ela conta a história do romance dela, é um segredo. Porque são pessoas comuns. Se eu fosse entrevistar o Napoleão não ia entrevistar sobre a vida dele – o interessante é a política dele. Quer falar sobre um político, faça um livro.

Em Boca do Lixo, você se surpreendeu com o que as pessoas falaram nos depoimentos? Eduardo Coutinho – Não há coisa mais degradante do mundo do que o cara ser filmado catando o lixo. E tive a reação deles e aí eu dizia ‘e por que?’ E depois eles diziam os motivos pelos quais trabalham no lixo. Motivos até econômicos, entende? Enfim, eu tentei ouvir o lado deles. Ninguém diz aqui é bom, mas muitos dizem “não, mas aqui eu alimentei meus filhos, eu conheci amigos”, por exemplo. O cara de esquerda supõe que aquilo dali é horrível, que a culpa é do governo, que a culpa é do capitalismo. Acontece que eu fui lá aberto e ouvi gente dizendo: “Eu prefiro isso do que ser empregada”. Tá aí um troço novo. Porque o cara nas condições terríveis do lixo, pelo menos ele é autônomo, ele não tem patrão. Alienado ou não, o cara julga um triunfo ele não ter um patrão. No Brasil inteiro deve ter um milhão de pessoas que vivem na rua vendendo coisas. E essa noção de liberdade, se é falsa ou não, não importa. O cara no lixo diz: “Olha eu trabalho aqui, agora sábado eu não venho. Sábado eu faço feira, não sei o que”. Não ter um patrão. Para quem tem herança de escravidão é um troço essencial. Tudo no Brasil está ligado ao troço da escravidão. Isso pesa muito, entende? O horror ao trabalho é um troço que vem dos 350 anos de escravidão. Pulando um pouco, o filme que me introduziu ao seu trabalho foi o Edifício Master… Eduardo Coutinho – É onde eu já estou num outro caminho, em que eu não quero dizer que aquilo ali é o inferno ou o paraíso. Eu quero simplesmente tentar ver como as pessoas vivem aquilo. Porque como eu não vivo aquilo, se eu tivesse a minha idade e tivesse morando lá, eu diria ‘pô,

Em Copacabana! Eduardo Coutinho – A maior porcentagem de idosos no Brasil é em Copacabana: tem 15% de idosos. A razão é muito simples. Tem de tudo lá: prostituição, crime, tal. Mas é um bairro que tem muita vida, comércio, tudo é perto. É muito melhor morar em Copacabana do que no Centro da cidade, que não tem nada. E a praia está perto! Então, o velhinho vai lá e passeia. Morar em Copacabana, hoje, para aquelas pessoas, foi um ganho. É uma coisa interessante, com todos os problemas que tem.

asfalto’. Isso está ligado, porque eles vivem a vida do asfalto também, vão à praia e tal, mas têm consciência do ‘nós’ favelados. Num prédio, ninguém fala ‘nós’. A diferença é essa. Como é que eu vou dizer ‘nós do meu prédio’? Eu moro num prédio normal – 30 apartamentos, 35, sei lá. Mas não vou dizer ‘nós’. Nem conheço quem mora lá, nem quero conhecer ninguém. As pessoas na favela se conhecem todas, é outro tipo de vida. Tem esse lado positivo de formar comunidade, de que é uma vida muito aberta. Então, quem se mata é quem mora no Master, em favela ninguém se mata. Já ouviu falar em algum suicídio em favela? Eu nunca vi. É impressionante, não sei se tem estudo sobre isso, mas eu não conheço caso. Um mata o outro, droga é outra coisa porque o cara é viciado, dependente, e guerra do tráfico é outra coisa. Mas suicídio mesmo, sem razão ou por depressão, é difícil. Por isso eles, os personagens de Master, falavam pouco, riam pouco, tinham pouca riqueza vocabular. Em termos de experiência de vida também não era tão forte. É por isso que tem 37 personagens – eu tinha que ter quantidade porque eu sabia que não ia ter personagens maravilhosos como tive em outros filmes que podiam ocupar dez minutos. Tem 37 pessoas no filme e acho que nenhum chega a cinco, seis minutos. Pessoas que entram por três, quatro minutos. Mas, em compensação, é 1 hora e 50 minutos de gente falando.

Eu li uma entrevista em que você dizia que, quando começou a fazer o Edifício Master, sentia medo de não desenvolver uma história boa porque era um bairro de classe média. Eduardo Coutinho – Isso aí é porque as pessoas se defendem. Você vai lá na favela e todo mundo está disposto a falar, eles têm eloquência, têm beleza na fala, têm a gíria. Cem anos de cultura em favela. A favela é um troço orgânico e forte em comparação com o asfalto. O exterior/interior não existe, você está andando e da janela alguém te chama pra entrar, entende? Eles têm consciência que tem o ‘nós da favela’ e tem o ‘nós do

Quando veio essa idéia de botar só gente falando? Eduardo Coutinho – Isso foi desde que eu voltei a fazer cinema com Santo Forte. Fui fazer um filme sobre religião, mas não queria botar culto nenhum. Queria botar gente falando sobre religião. Daí eu fiz, acabei filmando também culto, mas acabei tirando e jogando fora. Depois de longas experiências arrumando e montando, tirei praticamente tudo, mas ainda tem imagens. E eu fui reduzindo; atualmente tem um filme que não tem imagem nenhuma. Só tem um preto e tem uma pessoa que fala ou canta. E é chegar no limite. Filme que só tem pessoas falando, como

fim de linha, que fracasso’. Depende, as pessoas que eu encontrei lá, tem um aposentado que esteve nos Estados Unidos, há pessoas de classe média que estão lá um período da vida, que depois saíram de lá, e também foram para Alemanha, o cacete! Tem de tudo lá: classe média baixa, média e meia média. Entende? Então, o que me interessava era conhecer isso, o que é viver naquela cidade. Paris, Moscou, Nova York, é tudo igual. Você encontra a mesma solidão. Um cara que mora numa quitinete e que morre, dez dias depois alguém encontra pelo cheiro porque era solitário. Se encontra aqui, se encontra em Nova York, se encontra em todo lugar. Inclusive, a minha tia avó mora em um edifício igualzinho a esse... Eduardo Coutinho – Em Copacabana?

REPRODUÇÃO

Por que você começou a fazer documentário tão tarde na vida? Acho interessante que não tenha sido na faculdade que entrou nesse caminho. Você começou fazendo Direito, não foi? Eduardo Coutinho – Comecei por Direito porque era o que se fazia. Direito, Engenharia, Medicina. Mas enfim, larguei, fui trabalhar em jornalismo, depois fiz um curso de cinema e passei a fazer cinema. Agora, ninguém podia pensar em fazer documentário no Brasil nos anos 1960. Nem cinema! Quanto mais documentário. Longa metragem? Isso não existia. Som direto ia começar ainda e tal. E daí fui fazer ficção até o final dos anos 1970. Fiz um filme interrompido que tinha um lado documental, mas que ao mesmo tempo eram camponeses e atores. E daí eu parei, fui fazer televisão, teve o golpe de estado tal, tal, tal. Eu larguei o cinema durante dez anos e voltei para fazer o Cabra (Cabra Marcado para Morrer), onde fiz um trabalho de História, de jornalismo, de cinema, tudo misturado. Cabra tem tudo isso. Cabra tem tudo, pesquisei como um filho da puta. Trabalhei muito antes de fazer o filme. Sobre a história dos camponeses, pra saber que perguntas que eu devia fazer. Nos filmes que eu fiz nos últimos dez anos e tal, não faço pesquisa, não tem que fa-

zer pesquisa. Eu vou filmar num lixo e simplesmente vou ao lixo conversar com as pessoas. Isso é bom ou ruim? Você tem que perguntar pra uma pessoa que tá lá no lixo, isso é bom ou ruim? Porque eu sei que tem aquilo e tem coisa pior que aquilo.

Em tom semidocumental, Cabra Marcado Para Morrer narra a vida de João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado em 1962 na Paraíba. Impedido de continuar as filmagens devido ao golpe militar de 1964, Coutinho retoma o filme 17 anos depois colhendo depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens e também da viúva Elisabeth Teixeira, que viveu na clandestinidade, separada dos filhos desde o golpe.

Jogo de Cena. O próximo vai ser pior ainda, só tem uma pessoa que fala, um corpo falando. Então, você não tem que distrair, mostrar fotografia do filho, do neto. “Meu filho morreu”, pronto, conta a história do filho. A pessoa imagina, não preciso da foto do filho. Se é dito, a imagem é totalmente desnecessária no caso dos filmes que eu faço. Eu trabalho com cinema que se baseia na palavra. Por isso é muito difícil vender pra fora. Nunca vendeu. Para quem não entende português é difícil, a legenda passa 60 %. É por isso que meus filmes não vendem. Você acha que vocês, documentaristas, são heróis? Eduardo Coutinho – Não, não, não, não. A palavra herói não existe. Vítima e herói: não existem. Não tem coitadinho. “Ah, o coitadinho do pobre!”. Eu não fui no lixo para tratar de vítima, se não acaba a relação. Eu vou tratar ele de igual pra igual na medida que é possível. Eu quero conhecer a sua razão. As minhas razões para estar aqui eu sei – eu posso, eu quero. Agora, quais são as suas? Cada um tem suas razões para estar em algum lugar para fazer alguma coisa. Isso é o que eu quero descobrir. A razão do outro me interessa. Tentar estar no lugar do outro é a chave da questão. É impossível, mas tem que tentar, e nesse confronto de tentar entender o outro sai um diálogo que é improvisado, que é inventado, porque você inventa também quando fala. E não importa, se inventa bem, é verdade. Se é bem inventado, é verdadeiro e ponto final. “Eu fui feliz”, sei lá se é verdade.Tádizendo!Podeserquedaquiaum ano diga outra coisa. Entendeu? Tem que ser inventado com verdade. Quem inventa mal tá fora! O documentário já existe à margem do cinema brasileiro. E os filmes estrangeiros dominam o mercado brasileiro… Eduardo Coutinho -–Tem o Cinema Novo, tem o cinema brasileiro sério que sempre foi marginal e vai continuar a ser. Tem Globo Filmes e tal, as exceções, mas é 15 % do mercado. O cinema brasileiro em geral é marginal no mercado. Calcule os filmes sérios que têm alguma dimensão estética, o que seja, social, o que seja... São filmes que, se tiverem 30, 50 mil espectadores, já serão extraordinários. No mundo todo o documentário é um nicho pequeno. Pensa que na França é diferente? Passou um filme que tem 100 mil espectadores e é extraordinário, é uma festa. Na França! Entende? As pessoas vão ao cinema para ver histórias inventadas com atores. Baseadas em fatos reais ou não, mas simplesmente vão para o cinema sonhar. Sempre foi assim. E agora é sonhar em 3D. E aumentou até o nível de diferença de um cinema para o outro. Não dá pra competir com os filmes 3D americanos. Não tem como o brasileiro fazer isso. Agora daí, de re-

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Em As Canções, Coutinho convida depoentes anônimos a soltar a voz em suas músicas favoritas.

pente, pega esse esquema de novela e tal e faz o filme. São exceções. Mas o conjunto do cinema, o cinema brasileiro foi, é, e será sempre marginal. O próprio cinema vai passar a ocupar um lugar marginal. As pessoas vão ver filme aonde? Até em celular. Entendeu? Então, o ato social de ver filme vai ficar menor, vai ficar como teatro. Ou filmes que exigem telas gigantescas IMAX, sei lá. Os caras vão ver lá, vão ver esse tipo de cinema. Voltando ao Cabra. Você disse antes que não tem uma intenção política com seus filmes. Diria que nesse filme teve alguma intenção política? Eduardo Coutinho – Não tem intenção política na medida que a palavra política é equivocada. Todo filme é político. Mas eu estou interessado no social, não no político. Como é que uma sociedade existe? Por que o Brasil é como é? Por que as pessoas são como são? Primeiro, você tem que saber como as coisas são para depois, se quiser, mudar. No Cabra, eu estava fazendo uma coisa que é diferente porque o Cabra tinha um ato político de fazer o filme, porque tinha história envolvida. Isto é: minha vida parou com o filme. Esse é o fantasma. Como parou a vida dos camponeses. Apresentou para mim uma dimensão psicológica, é realmente um filme de um caráter político, mas a partir de uma coisa pessoal também. Peões, não. Qualquer cara pode filmar a greve dos operários. Eu fui e fiz um filme lá, mas não tem nada a ver com Cabra. Por isso quis que o enfoque do Peões fosse nos metalúrgicos em vez dos políticos? Eduardo Coutinho – Tem uma divisão, né? Tem a história do Lula e o João [João Moreira Salles] estava interessado e eu não, até pelo fato de que é o tipo de filme que tem que negociar cada dia o que filmar... Tinha que pedir ajuda ao sindicato, foi muito trabalhoso, muito penoso. Cem mil sindicalistas. E eu tinha que achar gente que o sindicato queria e encontrar gente que dissesse coisas que não fossem evidentes. Teve uma limitação. Não faço mais filme político, histórico. Em princípio, não faço mais. O Peões deve ter sido difícil, pois você estava pegando uma região inteira... Não era como o Master, que você ficou num prédio só… Eduardo Coutinho – Esse é o problema, ficou um negócio amplo demais. Só se eu ficasse um ano fazendo pesquisa, o que era impossível. A prisão espacial é essencial para mim. Eu preciso ter uma prisão espacial e naquela prisão eu sou inteiramente livre. Essa pobreza espacial é essencial pra eu não procurar ideologicamente aquele cara interessante. Não, nesse prédio eu tenho que achar um filme. Todos os filmes que eu filmo a regra é essa: num lugar tem que achar

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um filme. Até agora pelo menos tenho achado uns filmes que não são iguais. Mas são sempre num lugar só. Tirando Peões, todos os filmes que eu fiz recentemente são num lugar só. Numa vila que tem 80 famílias, num canto de lixo, num teatro de gente que responde a um anúncio. Se eu não pedir nada para a pessoa fazer e conversar meia hora com ela, ninguém mais controla se está filmando ou se não está. Não tem como conversar meia hora e a pessoa ficar engessada. Igual àquele momento no Peões em que o rapaz está falando e a esposa não quer participar; ela fala, mas não quer aparecer. Eduardo Coutinho – Isso é extraordinário! Justamente houve uma briga porque o fotógrafo queria que minha assistente filmasse ela. Eu não quis e ela teve razão de não ter filmado, porque o que me interessava era ela fora [de cena]. Ela sai da filmagem, portanto contra, daí ela às vezes dava palpite. Foi maravilhoso. Quem está no campo, quem está fora do campo, isso é essencial. Ao lado estava o filho deles que é débil mental. Então, tinha, a meio metro do quadro, no sofá, um filho de vinte anos completamente nervoso que gemia. Eu até perdi uma sequência interessante porque entrava o gemido do cara. Você filmando e tinha o cara aqui, a mulher aqui atrás e aqui do lado do sofá o filho gemendo. Não é que ele está com dor, o cara tem problemas gravíssimos. E você filma e… Pra eles é normal, eles vivem com aquele filho. Logo, é normal pra mim, e vamos filmar. A sua infância teve alguma coisa a ver com seu envolvimento no cinema mais tarde? Eduardo Coutinho – Não, eu era cinéfilo, uma pessoa que via filme. Ser cinéfilo é assistir a três filmes por dia, anotar no caderno. Quando eu tinha dez anos eu fazia isso. Agora, era impossível pensar no cinema brasileiro. Eu vi nove vezes uma chanchada, Carnaval no Fogo. O que eu via de cinema brasileiro era chanchada, carnaval. Isso até 1951, 1952. Fora isso eu via cinema americano, depois argentino, mexicano. Depois neorealismo, até que eu fui estudar cinema e passei a me interessar. Mas isso de fazer cinema foi um passo gigantesco, que só foi possível depois que eu voltei da Europa em 1960, 1961 quando o Cinema Novo começou a nascer e se tornou possível fazer cinema no Brasil. De uma forma marginal, mas de qualquer maneira uma tentativa de ver o Brasil que não tinha aparecido no cinema brasileiro de antes. E fora da chanchada, que realmente já não precisava mais, porque com a chegada da televisão a chanchada não tinha mais mercado. Se o Brasil não fosse tão atrasado naquela época, teria sido possível entrar antes no ramo do cinema?

dissesse que era pra promover um sindicato, eu ganhava. Se fosse catador que quisesse fazer um sindicato. Porque esses são os filmes que são politicamente corretos. Como meu filme não era, era o cotidiano dos catadores só, ninguém deu dinheiro. De todos os seus filmes, qual abriu mais portas para você? Eduardo Coutinho – Eu me identifiquei com o Cabra. Se não fosse pelo Cabra estava na televisão, TV Globo até hoje. Estaria morto. Fora o Cabra, foi o Santo Forte. Agora, prazer tive em quase todos. Se eu não tivesse prazer eu não fazia. Não sou missionário.

Eduardo Coutinho – Isso não sei. Antes do Cabra, em que eu já tinha uns 40 anos, tudo que eu fizesse não tinha importância. Só quando fui filmar o Cabra que eu me libertei. Tudo que eu fiz antes não importa, porque não sabia o que queria da vida. Quando fui fazer o Cabra, sabia o que queria fazer. Trabalhei cinco, seis anos, pesquisa, filmagem e fiz um filme à altura do que tinha sido a história. Depois fiquei 15 anos praticamente sem fazer filme, até fazer o Santo Forte. Se o Santo Forte não tivesse tido tanto êxito… Eduardo Coutinho – Se não fosse a produção do Santo Forte, eu tava morto. Se a repercussão crítica fosse ruim ou ninguém fosse ver, é possível que eu desistisse. Mas a verdade é que eu confiava, sempre confiei no filme falado que era como era e tal. Meus amigos diziam que era impossível, que ninguém ia aguentar. Todos os meus amigos, todos. Tirando uma pessoa da equipe, todos. “Não, é impossível, é uma tortura”. Mas foi gravado, aceito e foi maravilhoso. O documentário teve cinco prêmios e o público foi de 18 mil pessoas, o que até hoje é difícil fazer, e a crítica foi maravilhosa. Pensei: “pô, achei, finalmente achei e eu quero continuar a fazer isso”. E fiz e não parei de filmar de lá pra cá. Tem documentário que mostra um caso isolado, por exemplo, de uma criança pobre que trabalha nas minas da Bolívia... E você como espectador se sente muito deprimido e culpado. Mas quando sai dali, não sente continuidade… Eduardo Coutinho – Tem um monte de filmes que se aproximam do outro. Quem é o outro? O outro é o pobre miserável. O cara com defeito físico, o destituído tal, tal. E quem filma geralmente é uma pessoa de classe média, mesmo que com origem proletária. E tem a mania, america-

no adora isso, de tratar de forma paternalista. E daí o povo adora e chora e sente culpa. Isso é coisa que eu me recuso a fazer. Isso é uma coisa proibida em meu dicionário. Michael Moore, tem uma hora que ele abraça uma mulher lá que foi vítima, pra que ir lá e abraçar? Você tem que guardar distância da pessoa, não tem que consolar ninguém. Ou se consola, faz isso fora do filme. Existe o “humanismo” entre aspas, que os americanos adoram, que é filmar o pobre. O cinema humanitário é o pior cinema do mundo. O humanitário ou de mensagem. Al Gore, ou então, mensagem. E a outra coisa de americano é essa: se é um filme sobre negra e lésbica, tem que ser filmado por negra e lésbica. Sabe? Iguais filmam iguais. Quando a minha tese é outra: negro tem que filmar branco e camponês tem que filmar negro e tem que trocar. Índio tem que começar a filmar branco e branco… sabe? Nada impede que branco filme índio. Precisa dos dois lados, um do lado de dentro, um de fora. Não tem sentido que um filme sobre metalúrgico só possa ser feito por metalúrgico. Isso é uma tolice. O multiculturalismo que botou isso na cabeça. Então, pra filmar uma lésbica eu tenho que ser lésbica? É o mesmo do mesmo, entende? Não há conflito. Não vou ao cinema para ser educado, pra aprender o bem. Odeio esse tipo de coisa tipicamente americana. Eles colocam aquela narração em off que é uma voz assim divina falando… Eduardo Coutinho – Quando tem voz em off é pra tratar da pobre vítima da crueldade, os mineiros da Bolívia. E tratam de um jeito que é pra fazer o cara ter culpa, chorar. Não estou fazendo filme pra ONG, pra arranjar dinheiro. Eu fiz o filme sobre o lixo, ninguém me deu dinheiro pra terminar. Pra começar sim, pra terminar foi difícil. Por quê? Porque se eu

Você acha que Cabra não seria um filme tão bom se não tivesse sido retomado anos depois? Eduardo Coutinho – Evidente. Teria sido um documento de época importante, mas o filme é um filme com 70 camadas de sentido histórico. É uma revisão da história do Cinema Novo, do cinema brasileiro que inclui tudo: jornalismo, história, cinema, linguagem. Exatamente porque é um filme que conta a história do filme, cinema e história todo tempo, lado a lado. É extraordinário o que eu consegui, porque eu soube fazer, tive um montador que me ajudou, tive um fotógrafo que me ajudou a fazer. Enfim, é um filme que aguenta até hoje porque ele não é um filme triunfalista. Ele lida com uma verdade do personagem e não com discurso. Os filmes, em geral políticos, são triunfalistas, tomamos o poder. Mentira. Jamais faria um filme assim. Quando se ganha se perde também porque dura dez anos. E esse é um filme muito chão, simples. Cabra tem dispositivos de montagem extraordinários, tem jornal, manchete, o filme antigo, o filme que eu filmei na UNE, filmes de outras pessoas. Tem filme americano que eu roubei pra usar a imagem, que não paguei, graças a Deus. E a aventura foi essa. Por que você acha que mudou tanto sua visão entre o primeiro e o segundo filme? Eduardo Coutinho – Eu comecei a fazer documentário na TV Globo e comecei a descobrir que era aquilo que eu queria fazer. Aí foi uma escola pra fazer o Cabra, porque a rapidez com que se trabalha em televisão me ajudou a fazer isso depois, de uma forma muito mais refinada. Me ajudou, me educando e me deseducando. Cabra é um filme de suspense porque eu também não sabia o que eu ia encontrar. Quando fui filmar [pela segunda vez] eu não via a Elizabeth [personagem de Cabra Marcado Para Morrer] há 17 anos, exatamente o tanto de tempo quanto o espectador… Fui encontrar 17 anos depois, conhecer os filhos. Os conheci quando filmei com eles em 1962, 1964 e fui lá vê-los 17, 18 anos depois, como está no filme. Eu tinha que chegar filmando.


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inguém esperava mais nenhum tipo de participação brasileira na festa do Prêmio Oscar, realizada no último dia 2 de março. Nosso representante na categoria de Filme Estrangeiro não estava entre os finalistas, e não havia nenhum profissional do Brasil minimamente envolvido com os grandes favoritos. Veio, porém, a surpresa. Triste e dolorida. No tradicional momento em que a Academia de Hollywood homenageia os talentos do cinema falecidos durante o ano, surgem a foto e o nome de Eduardo Coutinho, o maior documentarista brasileiro. Ninguém esperava. Segundo o cineasta Walter Salles. “Coutinho tinha sido convidado para ser membro da seção de documentários da Academia de Hollywood, e aceito o convite. Daí a homenagem no Oscar. Mas como disse um membro do Comitê Executivo de Documentários da Academia, a razão pela qual esse convite foi feito reside no fato que, através de sua obra, Eduardo ´ofereceu uma contribuição única e duradoura para o cinema documental, e essa percepção era reconhecida no mundo inteiro. Essa é a mesma razão pela qual a notícia de seu falecimento foi incluída na cerimônia”. Da mesma forma, ninguém esperava que o cineasta tivesse uma morte tão trágica, assassinado pelo próprio filho, em 2 de fevereiro. Sim, temia-se muito pela saúde de Coutinho, que aos 80 anos era um fumante contumaz. Ele chegou a afirmar que já não ia mais ao cinema, por não conseguir ficar uma hora e meia sem fumar. Mas não era de conhecimento de quase ninguém que seu filho, diagnosticado como esquizofrênico, pudesse ter um rompante assim violento e proporcionar ao meio cinematográfico uma tragédia digna de roteiro de horror. De qualquer maneira, vai-se o homem, fica a obra. E que obra! “Tivesse feito apenas Cabra Marcado para Morrer, Coutinho já entraria para a antologia como um dos principais cineastas do País em todos os tempos”, afirma para o Jornal da ABI Luiz Za-

O homem que “desinventou” o Documentário P OR C ELSO S ABADIN

nin, presidente da Associação Brasileira de Críticos de Cinema-Abraccine. Mas ele fez muito mais. Nascido na capital paulista, Eduardo de Oliveira Coutinho, assim como várias personalidades do cenário cultural brasileiro, também cursou Direito. Mas não se formou advogado. Fascinado por um seminário sobre cinema promovido pelo DIVULGAÇÃO

Edifício Master, um prédio decadente no Rio de Janeiro é visto pelas lentes de Coutinho como um microcosmo do Brasil.

Museu de Arte de São Paulo-Masp, trocou os livros das leis pelas letras da imprensa e das artes: foi durante três anos revisor da revista Visão, e chegou a dirigir uma montagem de Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado. Seu sonho, porém, era o Cinema, arte cara e de difícil acesso naquele Brasil dos anos 1950. Cinéfilo apaixonado, decidiu se inscrever para responder perguntas sobre a sétima arte no famoso programa de perguntas e respostas O Céu é o Limite, da TV Tupi. Foi desclassificado logo em sua primeira participação, mas não desanimou: procurou a concorrente Record e se inscreveu num programa similar, O Dobro ou Nada, dizendo-se especialista em Charles Chaplin. Não era, mas começou a estudar avidamente tudo o que lhe caía nas mãos sobre o genial Carlitos. Manteve-se no programa durante nove semanas, o que lhe rendeu um prêmio em dinheiro equivalente a 2 mil dólares. O suficiente para comprar uma passagem para Paris e ir atrás do seu sonho: uma bolsa no L’Institut des Hautes Études Cinématographique-IDHEC. Ali, especializou-se em direção e montagem, e começou a fazer seus primeiros documentários, ainda de forma amadora. Ao retornar ao Brasil, em 1960, encontrou um país em ebulição política e artística, com o Cinema Novo conquistando cada vez mais espaço na mídia internacional. Integrou-se ao Centro Popular de Cultura-CPC da União Nacional dos

Estudantes-UNE, onde chegou a trabalhar na montagem da peça Mutirão em Nosso Sol, apresentada em 1962 no I Congresso dos Trabalhadores Agrícolas, em Belo Horizonte. Foi também através do CPC que, graças à experiência adquirida na França, ajudou a produzir o longa metragem Cinco Vezes Favela, desenvolvido pelo próprio Centro Popular de Cultura. Os bons resultados deste filme entusiasmaram o CPC a realizar uma nova produção, que seria a recriação ficcional da história real de João Pedro Teixeira, líder assassinado das Ligas Camponesas. Sob a direção de Coutinho, o filme se chamaria Cabra Marcado Para Morrer, e seria interpretado pelos próprios camponeses do Engenho Cananéia, em Pernambuco. Porém, apenas duas semanas após o início das filmagens, veio o golpe de 1964: parte da equipe foi presa e o projeto, obviamente, descontinuado. Dois anos depois, Coutinho, Leon Hirszman e Marcos Faria, fundam a sua própria produtora, a Saga Filmes. Ali dirigiu O Pacto, episódio do longa ABC do Amor, e foi diretor e co-autor de O Homem que Comprou o Mundo. Em 1968, uma nova experiência influenciaria fortemente sua visão da vida e dos filmes: convidado para um festival de cinema na Bulgária, Coutinho decide fazer uma escala na então Tchecoslováquia, onde se hospeda na cidade universitária de Praga. No dia 21 de agosto, acorda cedo, vai ao centro da cidade a pé, e vê a praça central tomada por tanques soviéticos e pessoas chorando ao lado da estátua de Kafka. Era a Primavera de Praga. Ouve tiros, se esconde, e corre de volta para a cidade universitária, onde juntamente com outros poucos brasileiros que ali estavam começa a pensar no que fazer. De repente, uma saraivada de balas perpassa a janela onde Coutinho está reunido com seus colegas, e todos fazem uma espécie de barricada de colchões, debaixo da qual passam a noite. No dia seguinte, pede ajuda à embaixada brasileira, que o coloca num trem de refugiados para a Alemanha e, depois, Paris. Sem dúvida, não é coincidência que, mais tarde, Coutinho desenvolveria uma visão muito especial para o cinema documental. Em 1970, co-escreve e dirige uma adaptação de Henrique IV, de Shakespeare, para o cangaço, onde o personagem Falstaff (Eliezer Fomes) se torna Faustão. Quem conhece o Coutinho documentarista, muitas vezes esquece que ele também foi escritor de talento, roteirizando ou co-roteirizando filmes como A Falecida (1965) e Garota de Ipanema (1967), de Leon Hirszman; Os Condenados, de Zelito Viana (1973); Lição de Amor, de Eduardo Escorel (1975) e o grande sucesso Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto (1976). O Coutinho documentarista começa a surgir mais intensamente a partir de 1975, quando passa a fazer parte da equipe do programa Globo Repórter, que naquele momento, apesar da ditadura, vive uma fase de grande efervescência criativa. Produzindo sempre na bitola 16 milímetros, Coutinho permanece no programa até 1984. Mas é em 1981 que sua carreira dá uma nova guinada. Os supostos “negativos per-

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Desenho brasileiro perde traço de Adail Um dos mais experientes cartunistas em atividade no mercado, com passagem por quase todos os grandes veículos da imprensa do Rio, Adail José de Paula faleceu no início de fevereiro, aos 83 anos. FRANCISCO UCHA

didos” do início das filmagens de Cabra Marcado Para Morrer, que a ditadura teria destruído, na verdade foram salvos e heroicamente escondidos por um membro da equipe. Já em época de abertura, Coutinho retoma o projeto, reencontra a viúva de João Pedro Teixeira, Elizabeth, e lhe mostra o que havia sido filmado em 1964. O filme passa então a narrar a saga de Elizabeth em busca do reencontro de seus filhos, espalhados pelo país, à luz da reflexão da tragédia que a ditadura militar significou para o Brasil. Finalizado três anos depois, Cabra Marcado Para Morrer ganha inúmeras premiações nacionais e internacionais. “É o filme definitivo sobre o período militar ”, afirma Zanin. “É um filme histórico e sobre a História, imprescindível para a compreensão tanto do período traumático em que se desenvolve como da própria história do cinema brasileiro”, afirma o crítico. De certa forma, Coutinho reinventava o gênero documentário. Após o sucesso, especializa-se cada vez mais em documentários, realiza trabalhos em vídeo para o Centro de Criação da Imagem Popular-CECIP, e escreve roteiros para séries documentais na TV Manchete. No que Luiz Zanin classifica como “um segundo capítulo de sua trajetória, Coutinho desvendou como ninguém a intimidade do imaginário brasileiro em filmes como Santo Forte, Edifício Master, O Fim e o Princípio, entre outros. Sabia, como ninguém, tirar o melhor de cada personagem que entrevistava. Aliás, não gostava do termo entrevista, e preferia dizer conversa, inaugurando assim um formidável cinema da conversa, simplificando cada vez mais seu dispositivo. Criou uma ferramenta documental que teve muitos seguidores e imitadores, mas servia apenas a ele mesmo”, afirma. Não contente em explorar ao máximo os limites e as possibilidades do gênero documentário, em 2007, aos 74 anos de idade, Coutinho inova outra vez: com molecagem e fôlego de menino, lança Jogo de Cena, onde experiências de vida são escancaradas na tela de forma a nunca esclarecer para a platéia onde se situam os limites entre realidade e encenação. Derrubam-se definitivamente os muros que separavam Ficção e Documentário, fazendo com que alguns festivais brasileiros derrubassem também esta divisão na hora de entregar suas premiações. E que outros passassem a incluir em suas fichas de inscrição o termo “Híbrido”, para o filme que não se encaixasse em nenhuma das prateleiras já conhecidas. Numa jogada de mestre, Coutinho “desinventou” o próprio gênero que havia ajudado a reinventar. “Enfim, poderia falar longamente sobre Coutinho, mas acho que a dimensão de sua perda ainda não foi suficientemente elaborada por todos nós. Não temos ainda uma idéia precisa do vazio que representa o seu desaparecimento para o cinema brasileiro contemporâneo”, finaliza Zanin.

P OR P AULO C HICO

O mês de fevereiro foi marcado por mais uma perda no mundo do desenho. Morreu na madrugada do dia 5 o jornalista e ilustrador Adail José de Paula, aos 83 anos, em Duque de Caxias. Nascido em 1930 em Registro, no interior de São Paulo, foi criado em Jaçanã, tendo sido colaborador de semanários humorísticos como O Governador e A Marmita, ainda na década de 1940. Mas foi mesmo no Rio de Janeiro onde exibiu seu talento. Trabalhou no Diário de Notícias e em outras publicações como o Cartum-JS, O Centavo (da revista O Cruzeiro), Manequinho (do jornal Correio da Manhã), O Pasquim e O Dia. Colaborou ainda com O Globo e Jornal do Brasil. Aposentou-se pela Última Hora. Durante muitos anos, foi ilustrador da revista Lide, editada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. Nos últimos tempos, desenhava para o Jornal Espírita e era conselheiro na ABI. Em abril de 2008, seus trabalhos integraram a exposição Traços Impertinentes, comemorativa ao centenário da Associação, que homenageou cerca de 50 desenhistas. “Conheci o Adail numa das idas a Ilha Grande para uma das edições do Salão de Humor, organizado pelo Ferreth. Aquela figurinha simpática, com jeito de moleque, que além de desenhar ainda fazia belas composições, que insistia em mostrar aos colegas e amigos. Lembro também que na volta para o Rio, ele veio sentado ao meu lado contando ‘causos’ do seu tempo de caserna, dos tempos em que vivia em Santos... Apesar de morar há vários anos no Rio, ainda carregava um leve sotaque do seu estado. Ele tinha um repertório intenso e divertido, mas chegou um momento em que eu estava caindo pelas tabelas e queria dar uma cochilada e o Adail ali no blá, blá, blá... Eu virei pra ele, já com certa intimidade e pedi que me deixasse dar uma cochiladinha, que eu não estava mais aguentando... Ele entendeu na boa”, conta Nei Lima, cartunista de O Dia, que segue em seu relato especial para o Jornal da ABI. “Era sempre uma festa encontrar com o saudoso Adail! Era a alegria em pessoa. Numa das últimas vezes em que nos encontramos, ele levou um livrinho seu, com cartuns sobre espiritismo. Ele era Kardecista. Fez a minha caricatura na dedicatória, que eu guardei com muito carinho e em troca dei-lhe um beijo na careca. A última vez em que o vi, foi quando ele esteve na

portaria do jornal O Dia para falar com o Zé Graúna, trazendo alguns dos seus desenhos antigos de caricaturas. Foi uma festa! Vários colegas da Redação que passaram por ele o cumprimentavam, elogiavam e o abraçavam em reverência. Notei que seus olhinhos começaram a marejar de felicidade pelo reconhecimento das pessoas que por ali passavam. O seu traço era ímpar e o estilo ainda dos ‘antigos’, do modo como Henfil e muitos outros interpretavam o cotidiano, naquele traço estilizado e limpo. Se ele deixou seguidores? Eu ainda não pude perceber isso com exatidão, mas há bastante gente trilhando neste caminho, sim”, conclui Nei Lima. Citado pelo colega, Zé Roberto Graúna também falou com o Jornal da ABI.


“Conheci o Adail em meados de 1988, na Redação do extinto jornal Última Hora. Muito mais do que um ótimo cartunista, Adail era uma grande figura humana. Gentil, ético e sempre com bom humor. Era uma espécie de ‘Garrincha da caricatura’, um misto de gentileza, ingenuidade e genialidade. Quando estivemos em Caratinga, cidade onde nasceu o Ziraldo, para participar do júri de premiação do 11º Salão de Humor de Caratinga, a pri-

meira coisa que Adail disse ao Edra, curador do evento, foi: “Quem é esse tal de Tinga?”. O Edra, então, perguntou: “Que Tinga é esse? Adail arrematou: “Ué, o cara Tinga!”...”, diverte-se Graúna. Amigos lembram que o artista não se contentava em desenhar apenas nas Redações. Na casa dos amigos, com os colegas de quarto, por onde passava deixava tudo cheio de desenhos. O trabalho profissional começou cedo, mas o talento e o interesse de Adail pela arte foi percebido antes mesmo que ele tivesse consciência do que podia fazer, quando tinha apenas sete anos de idade. “Minha irmã contava que meu primeiro desenho tinha sido de uma lavadeira com uma bacia na cabeça e uma fumacinha saindo da cabeça dela, como se estivesse irritada. Eu era bem garotinho, mas já tinha essa tendência nítida para o humor”, contou o próprio Adail, em reportagem publicada na edição 369 do Jornal da ABI, em agosto de 2011. “Adail militou por décadas na imprensa. Seus desenhos sempre tiveram certa elegância. Por isso, é consagrado até hoje e seu trabalho continua atual. Ele tinha um desenho rápido, com piadas leves, populares, que o povo gosta de ver e ouvir. É um tipo de humor que alcança a todos”, diz o amigo cartunista Chico Caruso. Graúna faz uma segunda análise. “Percebi uma mudança de estilo nos desenhos do Adail quando ele veio para o Rio, mas conseguiu manter uma linha de trabalho constante

ao longo dos anos. Eu diria que geralmente os desenhistas vão crescendo conforme o tempo, mas ele já tinha um desenho extremamente maduro quando começou”, diz. O amigo Guidacci também teve contato com Adail no Pasquim e na Última Hora. “Era uma pessoa muito carismática, muito fácil de lidar. Todos gostavam dele. Sempre teve a tônica do humor leve, que é de sua própria personalidade. Nunca foi de fazer ataques frontais, sempre apresentou um humor engraçado e traços leves. Essa característica de desenhos inteligentes, mas ‘lights’, percorreu a imprensa toda e ele manteve isso em todas as publicações”, afirmou, lembrando que Adail não era afeito a caricaturas políticas ou de ataques pessoais. Diferente de muitos chargistas que passaram pelo turbilhão da ditadura militar em busca de provocar a repressão vivida na época, Adail manteve uma linha de trabalho leve e a vontade de fazer humor pelo humor. O enterro aconteceu no dia 6 de fevereiro, no Cemitério do Irajá, Zona Norte do Rio.

Sócrates (na página ao lado), Garrincha e Adoniran Barbosa foram homenageados por Adail.

FRANCISCO UCHA

Adail e Luis Fernando Verissimo durante a exposição “Traços Impertinentes”, que homenageou o centenário da ABI em 2009: os dois tiveram obras expostas no evento.

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VIDAS MASTRÂNGELO REINO/FOLHAPRESS

Uma dúzia de histórias de “Renatão”, contadas por quem trabalhou com ele E XCLUSIVO PARA O J ORNAL DA ABI.

Sílvio Lancelotti T RABALHOU COM R ENATO P OMPEU NA VEJA ENTRE 1968 E 1976.

Renato Pompeu, dignidade e independência P OR C ELSO S ABADIN

“O Jornalismo, antes, dava valor à novidade, ao desconhecido, e hoje se repisa a mesma coisa, por razões mercadológicas, já que grande parte do público se interessa muito mais pelo que já conhece do que pelo que não conhece”. A declaração é de Renato Pompeu à repórter Ana Luiza Moulatlet, em entrevista concedida para o Observatório da Imprensa. Ela já tem seis anos, e não parece que nada tenha mudado muito de lá para cá. Ou, se mudou, foi para pior. Assim era Renato Pompeu, vitimado fatalmente por uma parada cardíaca, no último 9 de março, aos 72 anos de idade: polêmico, astuto, e sempre bastante crítico em relação à sua (nossa) profissão. Na mesma entrevista, quando questionado sobre quais conselhos daria para quem estivesse se iniciando no Jornalismo, Pompeu foi conciso, didático e ferozmente verdadeiro: “ 1) Abandonar imediatamente a profissão e escolher outra. 2) Se não for possível isso, procurar se estabelecer por conta própria na internet, com patrocínio próprio que não interfira na sua independência. 3) Se isso também não foi possível, procurar manter a dignidade profissional e preparar-se para uma vida de sacrifícios”. Por mais que estas opiniões sinalizem doses de cinismo e desilusão, elas 36

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não podem ser menosprezadas: afinal, seu autor tinha mais de meio século de experiência profissional nos mais variados veículos de comunicação. Pompeu nasceu em Campinas, interior paulista, em 1941. Chegou na capital ainda criança, e aos 18 anos entrou na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo-USP para cursar Ciências Sociais. Nunca concluiu o curso. Já no primeiro ano de Faculdade, passou num concurso que lhe abriu as portas para seu primeiro emprego na imprensa: copidesque na então Folha da Manhã, hoje Folha de S.Paulo. Pouco mais tarde, transferiu-se para o concorrente O Estado de S.Paulo, onde integrou a equipe responsável pelo desenvolvimento de uma verdadeira revolução jornalística que estava por acontecer: o lançamento do Jornal da Tarde. No icônico ano de 1968, Pompeu estava no olho do furacão, participando de uma outra equipe que faria outra revolução na imprensa brasileira: o lançamento da revista Veja. O jovem que abandonou os bancos da Faculdade de Filosofia não havia sequer completado 30 anos e já era co-responsável pelo desenvolvimento e lançamento de dois dos mais significativos veículos do nosso jornalismo. Pompeu permaneceu na Veja da sua fundação até 1981. No ano seguinte, passou a trabalhar na mundialmente respeitada United Press Internati-

onal-UPI, onde ficou até 1985, quando retornou à sua primeira casa, a Folha de S.Paulo. Culto e de grande erudição, atuou, de 1986 a 1989, na seleta equipe de redatores e pesquisadores da Enciclopédia Larousse-Cultural. Retornou ao Jornal da Tarde em 1990, onde ficou por nove anos. Fazia traduções do inglês, francês, castelhano, italiano, alemão e até russo, “se me dessem um prazo maior”, explicava, brincando. Nos últimos anos, expandiu sua área de atuação e passou a colaborar em vários veículos, como na revista Caros Amigos, Diário do Comércio, Carta Capital, Diário de S.Paulo, revistas Retrato do Brasil e Metáfora. Além de jornalista, Pompeu foi escritor, tendo publicado nada menos que 22 livros, entre ficção e não-ficção. Entre eles, os romances Quatro Olhos (1976), Samba-Enredo (1992), ambos pela Editora Alfa-Ômega, e O Mundo como Obra de Arte Criada pelo Brasil (2008), pela Editora Casa Amarela. Entre as obras de nãoficção, destacam-se Memórias da Loucura (1983), pela Alfa-Ômega, Globalização e Justiça Social (1996), pela Editora Scortecci, e Canhoteiro, o Homem que Driblou a Glória (2002), da Ediouro. Falou de tudo: de futebol a política, de poesia a economia. Ganhou um prêmio Esso e três prêmios Abril. Trabalhou até seu último dia de vida, principalmente no Blog do Renatão, que nasceu ligado à revista Caros Amigos.

1. No começo da aventura de Veja, freqüentávamos, Renato e eu, o almoço do refeitório que logo foi apelidado de “Lixão”. Depressa eu me cansei daquela comida patética e comecei a levar lanche de casa. Morava ainda com meus pais, que tinham uma empregada, a Philomena, que passou a me fazer sanduíches sensacionais, variáveis a cada dia. Certa ocasião, o Renatão (que vestia impecáveis terno e gravata), me viu, deliciado, em minha mesa, com alguns pedaços de pão branco e maionese de ovo. Pediu um deles, adorou, e perguntou onde eu havia comprado. Contei que era da minha casa, obra da Philomena, e ele reinquiriu: “Ela cobra?” Então, eu ainda conhecia pouco o Renatão, imaginei que fosse sério. Disse que consultaria a Philomena. E a Philomena informou: “Que bobagem, não cobro nada. Peça que ele escolha os ingredientes preferidos, compra, entrega a você, você me traz, e eu faço, de graça”. Relatei a conversa ao Renatão, que se ofendeu e me criticou por estar explorando a “mais-valia” da Philomena. Queria saber, de qualquer modo, qual seria o preço. Voltei a Philomena dias e dias – e ela, sempre com a mesma resposta, e o Renatão sempre com a mesma exigência. Até que, um dia, o meu saco encheu e eu passei a ele um preço qualquer. O Renatão resmungou: “Muito caro”. E me


virou as costas. Apenas semanas depois eu descobri que fora objeto de uma saborosa gozação. 2. No final de 1969, o Mino Carta me colocou como editor de uma nova área de Veja, aquela que abrigava Ambiente, Cidades, Ciência, Comportamento, Medicina, Religião e Vida Moderna. Eu dispunha de alguns subs para as áreas respectivas– e do Renatão como copidesque, editor de texto e redator especial. Enquanto toda a tropa fazia questão de utilizar as esferográficas que a Abril fornecia, ele ainda recorria a uma Parker 51, uma caneta tinteiro que tinha, dizia, desde os seus idos de colégio. O papel das laudas, porém, era vagabundérrimo. A ponta fina da caneta, em contato com o papel, invariavelmente manchava as anotações que ele fazia. A caligrafia do Renatão era irrepreensível. Ainda assim, porém, as datilógrafas que passavam o texto a limpo padeciam para traduzir determinados textos que as nódoas transformavam em garranchos. De cinco em cinco minutos, uma das moças se achegava à mesa do Renatão e implorava: “Que significa isso?” Ele, com a sua cara de jogador de pôquer, dava verdadeiras aulas sobre o sentido das palavras e das frases que utilizava. Até que, um dia, as datilógrafas se rebelaram e, numa distração do Renatão, esconderam a caneta. Ele não hesitou. Na manhã subsequente, apareceu com outra – e não moveu um só músculo do rosto. Até que lhe pedissem, ao menos, que usasse um lápis. 3. Nos piores tempos da repressão, a Redação de Veja se transformou em alvo da Censura e, pior, da Polícia Federal. Alguém, da diretoria da Abril, que tinha contatos na Ditadura, habitualmente informava o Mino Carta do que poderia acontecer. E, em muitas ocasiões, o Mino fez questão de acompanhar um detido eventual até o Doi-Codi. Quando chegou a vez do Renatão, ele recusou qualquer proteção. Disse que iria sozinho. A Abril tomou algumas providências para que o pessoal do Doi-Codi não subisse até o nosso sexto andar para pegar o Renatão. E o Renatão disse que desceria sozinho, até a portaria. Naquela noite, desabava um temporal. Uns cinco minutos depois de se despedir, o Renatão retornou à sua mesa, bem à frente da minha. Eu, perplexo, indaguei: “Não vão levar você? Já liberaram você, assim, tão depressa?” Sempre com a sua face de jogador de pôquer e um vozeirão que parecia brotar do estômago, de tão fundo que era, ele observou: “Não, esqueci o guarda-chuva”. E de guardachuva em punho, se foi. 4. Adorei dois de seus livros, o Quatro-Olhos e o da Ponte Preta, cujo título agora me foge. Elogiei ambos, quando do lançamento, em colunas alentadas na IstoÉ, acho, ou na Folha,

Renatão fez parte da equipe que desenvolveu e lançou dois dos mais importantes veículos da imprensa brasileira: Veja e Jornal da Tarde.

também não me recordo. Daí, passamos bastante tempo sem contato. No final de 2012, na noite de autógrafos do meu romance Em Nome do Pai dos Burros, percebi, no meio da fila, o Renatão. Fiz a ele uma dedicatória gigantesca, em que manifestava a saudade daqueles velhos tempos de Veja, citava os seus livros e agradecia que, ao cabo de tanto tempo, ele topasse ficar numa fila à cata da minha assinaturazinha. Ele nem leu a dedicatória. Colocou o livro debaixo de um braço, levantou o outro, do qual pendia uma guardachuva, e simplesmente foi embora.

Renato Lombardi T RABALHOU COM R ENATO P OMPEU NO E STADO DE S. P AULO E NO J ORNAL DA T ARDE .

5. Renato, irmão de outro jornalista, Sérgio Pompeu, que fora editor de Veja, também falecido, e tio do também jornalista Serginho Pompeu, que também foi do Estadão, era uma figura incrível. Falar com ele sobre futebol era receber uma aula. Sabia tudo. Tinha coleção de camisas de times europeus e muitas vezes ia trabalhar vestindo as camisas. Ouvi-lo falar sobre livros era outra aula de literatura. Fazia resenhas de livros e quando entrava numa discussão era difícil tirá-lo, principalmente quando seus argumentos eram apresentados com começo, meio e fim. Não deixava a discussão sem solução. Certa vez Renatão, como muitos o chamavam, teve uma séria discussão com um editor chefe do JT que ficou famosa. A discussão era pela rede interna, através do computador, e durou um bom tempo. Discussão que terminou sem prejuízo ou rancor para os dois lados. A voz pausada, baixa, era uma das suas características. Nunca vi ou ouvi alterando a voz com alguém. Numa das conversas com ele sobre literatura ele me deu a biografia que escrevera: O Homem Que Driblou a Glória. Era a biografia do jogador José

Ribamar de Oliveira, o Canhoteiro, apontado por muitos como o maior ponta-esquerda do futebol brasileiro, que jogou no São Paulo e na Seleção Brasileira. Dizia Renato que Canhoteiro era igual ou até melhor que Garrincha. Jornalista brilhante. Os mais novos, os focas, se encantavam com suas histórias. Histórias verdadeiras de quem passou por quase todos os grandes veículos jornalísticos do País. 6. Houve uma época em que ele começou, aconselhado por uma nutricionista, a comer cenoura. Alto, às vezes um pouco gordo, outras vezes, mais magro, saía da Redação do JT em direção ao banheiro segurando sempre uma grande cenoura. Chamava a atenção de todos. Ele não dava a mínima. O fazia no final da manhã ou no começo da tarde. Passava pelo corredor que separava as duas Redações – Estadão e JT – e, claro, os mais novos, que pouco o conheciam, comentavam a maneira de caminhar e como segurava a cenoura.

Fernando do Valle T RABALHOU COM R ENATO P OMPEU NO J ORNAL DA T ARDE ENTRE 1996 E 1997 E NA REVISTA CAROS A MIGOS , EM 2003.

7. Em uma manhã, ao chegar na Redação do Jornal da Tarde, fui checar uma matéria que, para minha pretensão de 20 e poucos anos, estava ótima. Era um abre de página com chamada na capa do jornal sobre mais um caso de jovem de classe média assassinado em assalto, nos tempos do “assassinato do bar Bodega”. Quando li a matéria publicada, notei que ela estava mil vezes melhor que a que eu tinha escrito. Perguntei, então, para outro grande editor, José Eduardo Barella, que editava a Geral na época: “Nossa, essa matéria não é a que escrevi, tá muito melhor, o que houve?” Ele respondeu: “o Renatão deu uma editada...” 8. Um dia, cheguei correndo da rua, atrasado para escrever uma matéria, achei um terminal vago e comecei. De repente, um colega bate no meu ombro: “cara, você sentou na cadeira do Renatão!” Na pressa, não tinha notado e prontamente saí em busca de outra cadeira. A cadeira do Renatão era sagrada. Contavam que foi uma de suas exigências ao Diretor de Redação da época, Leão Serva, para continuar trabalhando no jornal. Renatão pregou cuidadosamente com durex um aviso na cadeira, em papel sulfite: RENATO POMPEU.

Thiago Domenici T RABALHOU COM R ENATO P OMPEU NA C AROS A MIGOS , A PARTIR DE 2004.

9. Conheci o Renatão em 2004 na revista Caros Amigos. Eu era estagiário e ele já um jornalista consagrado e de tantos trabalhos relevantes. A memória mais gostosa da minha

amizade com Renatão é de quando ele fazia seu ritual, por telefone ou pessoalmente. Sempre perguntava “Novidades, Thiago?” e depois emendava “Qual a manchete?” A qualquer resposta, ponderava: “E isso é bom ou mau?” Invariavelmente contava uma piada e esperava ansioso por um veredito de aprovação ou negação. Renatão foi um redator sensacional, desses que escrevem copidescado. E sempre teve grande generosidade com as pessoas a sua volta, além de ser um sujeito muito sincero. Tão sincero que rompeu amizade comigo umas três vezes por questões menores. E sempre ligava, quando estava errado, e pedia desculpas pelo excesso. Nos falávamos quase que semanalmente. Sempre ele a ligar. Por sua iniciativa, o ajudei a montar o Blog do Renatão de onde brotavam pérolas de sua narrativa. 10. Ele era um sujeito muito divertido naquele ar de seriedade que mantinha. Tem um causo que sempre conto. Num fechamento, lá pelas tantas da noite, ao esperar por horas a chegada de uma reportagem que eu disse que chegaria em 20 minutos, ele levantou da mesa e veio até mim com seu andar vagaroso para dizer em tom solene: “Thiagôô, se as minhas fodas durassem os 20 minutos que você diz eu seria um homem feliz...”. Um tipo inesquecível esse Renatão.

André Bertolucci T RABALHOU COM R ENATO P OMPEU NA C AROS A MIGOS

11. O Renatão, além de um profissional ilustradíssimo, era uma pessoa com um senso de humor ímpar. Mas o que me vem mesmo à recordação quando penso nele são coisas mais simples. Grande novidadeiro, lia e assistia de tudo, incluindo as novelinhas adolescentes da Globo. Ele alternava sua enorme erudição com inúmeras brincadeiras e piadas. Famosa ficou a performance dele cantando Mãe Menininha em alemão, em tradução própria, nas confraternizações de fim-de-ano. 12. Nos últimos dez anos, por vezes encontrava com ele no bar Ponto X da Vila e conversava um pouco. Em uma destas, o encontrei debruçado sobre uma porção de batatas fritas e me disse que tinha visto em alguma notícia qualquer da internet que se fizesse uma dieta só de batatas fritas, de quatro em quatro horas, poderia emagrecer com saúde. Me fitou muito seriamente por uns minutos e depois caímos na gargalhada. Acredito que foi este espírito sempre jovial e novidadeiro que o levou a cursar já com setenta anos a faculdade de História. Fiquei muito comovido quando anunciou em seu perfil no Facebook que havia se formado no ano passado. Soube, inclusive, que já amarrava uma possibilidade de pósgraduação. É uma grande perda!

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VIDAS

No assassinato de Santiago, um atentado contra a imprensa REPRODUÇÃO

P OR P AULO C HICO

A morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes, no dia 10 de fevereiro, após ter sido atingido por um rojão em um protesto no dia 6 do mesmo mês, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, revelou os riscos gerados pela violência gratuita, por vezes praticada nas manifestações populares. A morte de mais um profissional de imprensa, em pleno exercício de seu ofício, trouxe à tona algo além de um caso isolado de agressão. Expôs em praça pública o aparente descaso de autoridades e veículos de mídia para com a segurança daqueles que, em meio aos conflitos, representam os olhos e os ouvidos de toda a sociedade. A ABI manifestou, por meio de nota oficial, seu repúdio diante do ato de violência. “A Associação, enlutada, exige a rigorosa punição dos responsáveis pela morte do cinegrafista Santiago Ilídio Andrade. A Casa do Jornalista conclama a sociedade para um amplo debate em torno do relevante papel da imprensa do Estado Democrático de Direito e para a imperiosa necessidade de regulamentação de leis que ampliem e reforcem a segurança dos profissionais de imprensa no exercício da profissão. De centenária tradição na luta pelas liberdades democráticas, a ABI manifesta apoio aos protestos e à expressão do povo brasileiro nas ruas, entretanto repudia a violência que atinge nossa categoria em escala exponencial”, dizia o texto. Ainda segundo a entidade, “a Band teve também grande parcela de culpa na morte do cinegrafista por enviá-lo para uma cobertura de risco sem colete ou qualquer tipo de proteção. Não havia sequer um auxiliar da emissora para lhe dar cobertura”. No dia em que foi atingido pelo rojão, em plena Avenida Presidente Vargas, Santiago estava sem capacete ou qualquer equipamento de segurança. Além disso, encontrava-se sozinho no local. A morte cerebral de Santiago foi anunciada no dia 10 de fevereiro. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, no dia 6 o cinegrafista chegou em coma ao hospital municipal Souza Aguiar. Sofreu afundamento do crânio, perdeu parte da orelha esquerda e passou por cirurgia no setor de neurologia, mas não resistiu. Naturalmente, o desfecho trágico chamou a atenção da sociedade para a questão da segurança dos profissionais de imprensa, sobretudo em cobertura de conflitos. A própria filha do cinegrafista manifestou-se no velório, no 38

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Reconhecido profissionalmente e muito querido pelos colegas, o atentado contra Santiago Andrade teve repercussão internacional.

dia 13, neste sentido. “Não vou deixar o nome do meu pai em vão, não vou deixar a história morrer e vou exigir que a Band dê segurança aos seus funcionários”, disse Vanessa Andrade. O diretor do comitê jurídico da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Alexandre Jobim, disse que o uso de capacetes e coletes à prova de bala podem não ser suficientes para garantir a segurança dos jornalistas que trabalham em campo. O Estado, segundo afirmou, tem a obrigação de oferecer proteção aos profissionais que atuam em zonas de conflito. “É uma questão também de como o Estado se posiciona perante vandalismos contra emissoras de televisão e atentados violentos contra empregados das emissoras”, disse. “Toda agressão, seja na pessoa do jornalista, seja na empresa, no empregador, é uma via indireta de cerceamento de liberdade de expressão”, afirmou Jobim. Desde o início dos protestos populares, em julho de 2013, foram inúmeros os casos de agressões a repórteres – tanto por manifestantes, quanto por policiais – e de depredações de veículos e equipamentos da imprensa. Diversas entidades também se manifestaram neste sentido. Os presidentes da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert), Daniel Slaviero, da

Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Celso Schröder, e da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio (Arfoc), Luiz Hermano, defenderam a punição severa dos responsáveis pelo ataque ao cinegrafista. “Nós, jornalistas de imagem, exigimos que as autoridades de segurança do estado do Rio de Janeiro instaurem imediatamente uma investigação criminal para apurar quem defende, financia e presta assessoria jurídica a este grupo de criminosos, hoje assassinos, intitulados black blocs, que agridem e matam jornalistas e praticam uma série de atos de vandalismos contra o patrimônio público e privado”, diz texto da Arfoc, assinado por Hermano. A Abert e a Fenaj também se manifestaram sobre o caso após participarem, no Senado Federal, de uma reunião temática do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional. Documento redigido na ocasião pede ao governo medidas urgentes para garantir a integridade física dos jornalistas, radialistas e demais comunicadores. “As agressões revelam nitidamente comportamentos autoritários de pessoas ou grupos de pessoas que não conseguem conviver com o estado de direito e, principalmente, com a comunicação pública. Ou ainda a ação equivoca-

da do Estado, por meio de suas polícias que, em vez de protegerem os jornalistas e outros comunicadores, tentam impedir seu trabalho”, diz a nota de repúdio aprovada pelo conselho. A pressão rendeu frutos. Após reunião com representantes da Fenaj e sindicatos da categoria, o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, anunciou, no dia 18 de fevereiro, medidas na área de segurança pública para proteção dos profissionais de Comunicação Social que atuam na cobertura de manifestações ou até mesmo fora delas. Cardozo divulgou ações do Governo Federal que se destinam à eficácia de punições e sanções a quem comete ilícitos contra jornalistas, pessoas em geral ou ao patrimônio público e privado. As ações incluem a definição de um protocolo de atuação policial com clareza sobre a atividade jornalística, a sugestão de equipamentos de proteção para repórteres e a promoção de cursos de treinamento para coberturas em áreas de manifestação, além de novas formas de apuração dos delitos e a punição dos infratores. Punição Nas mídias sociais, as reações foram de condenação do ato irresponsável, com pedidos de punição dos agressores. Na tele-


SALVADOR SCOFANO/EXTRA/AGÊNCIA O GLOBO

visão em que Santiago trabalhava, por dias, semanas, o clima geral foi de consternação. Também nas Redações de outros emissoras de tv, rádios e jornais, era possível perceber o sentimento de luto estampado nos rostos de diversos profissionais. Além de conhecido e reconhecido no meio, o cinegrafista da Band, morto aos 49 anos de idade, e com mais de 20 anos de profissão, era querido pelos colegas. Uma das reações mais contundentes, como era de se esperar, foi a da esposa de Santiago. Arlita Andrade concedeu entrevista exclusiva à TV Globo, no dia 9 de fevereiro. “Acho que esses rapazes que fizeram isso tiveram, talvez, mães que não deram os ensinamentos que dei para os meus filhos. Como é que a gente vai ter paz no mundo se não ensina para os filhos da gente? Então, isso é uma coisa que me deixou muito triste, porque ele não merecia, era uma pessoa muito boa. Ele procurava sempre ajudar a todos. Eu vi o Fábio Raposo, que assumiu ter acendido o rojão, pedindo desculpas... Mas acho que o que falta neles é o amor, o amor pelas pessoas, porque a gente não faz isso. Ele disse que foi sem intenção. Que seja, mas meu marido estava trabalhando, estava mostrando uma manifestação. Manifestação pode fazer, mas não precisa dessa violência. Perdoar? Meu marido está indo embora, eles destruíram uma família. Uma família que era unida, muito unida mesmo”. Outra manifestação de pesar que tocou a todos partiu da filha de Santiago. Vanessa Andrade, de 29 anos, disse que resolveu escolher a profissão de jornalista por causa do trabalho do pai. Quando Santiago morreu, ela revelou, em uma carta aberta no Facebook, alguns dos momentos vividos com Santiago. E lembrou que ele, em um primeiro momento,

foi contra a sua escolha. “Quando decidi ser jornalista, aos 16 anos, ele quase caiu duro. Disse que era profissão ingrata, salário baixo e muita ralação. Mas eu expliquei: vou usar seu sobrenome. Ele riu e disse: então, pode!”, escreveu ela. “Esta noite eu passei no hospital me despedindo. Só eu e ele. Deitada em seu ombro, tivemos tempo de conversar sobre muitos assuntos, pedi perdão pelas minhas falhas e prometi seguir de cabeça erguida e cuidar da minha mãe e meus avós. Ele estava quentinho e sereno. Éramos só nós dois, pai e filha, na despedida mais linda que eu poderia ter. E ele também se despediu. Sei que ele está bem. Claro que está. E eu sou a continuação da vida dele. Um dia meus futuros filhos saberão quem foi Santiago Andrade, o avô deles. Mas eu, somente eu, saberei o orgulho de ter o nome dele na minha identidade. Obrigada, meu Deus. Porque tive a chance de amar e ser amada. Tive todas as alegrias e tristezas de pai e filha. Eu tive um pai. E ele teve uma filha”, dizia trecho da mensagem.

Loureiro Neto, craque do rádio

Habeas corpus A Justiça do Rio negou, no dia 25 de fevereiro, o habeas corpus para Caio Silva de Souza e Fábio Raposo – acusados da morte do cinegrafista. A informação foi divulgada pelo Tribunal de Justiça e a decisão foi do desembargador Marcos Quaresma. O pedido havia sido feito pelo advogado Jonas Tadeu no dia anterior. “Indefiro a liminar, por não vislumbrar de plano qualquer ilegalidade no decreto prisional ora impugnado, tratando-se de prisão devidamente regular”, decidiu o desembargador. Os dois, flagrados por câmeras acendendo o artefato, são acusados pelo Ministério Público de homicídio doloso triplamente qualificado.

Em nota, a Rádio Globo divulgou uma homenagem ao radialista, descrito pelos colegas como “o mais carioca dos portugueses”: “Loureiro nasceu em Portugal, mas adotou e foi adotado por Copacabana. Conhecia os bares, os garçons, os jornaleiros, os porteiros e peladeiros. Loureiro era da praia e do futebol. Vascaíno apaixonado, foi referência e criou escola de como fazer uma cobertura esportiva. Ele era da praia, da bola e do samba. Mangueirense, foi presidente de ala na verde e rosa e um defensor das tradições e do bom carnaval. Loureiro foi o mais carioca dos portugueses”. O corpo do jornalista Loureiro Neto foi cremado no dia 28 de fevereiro, em cerimônia reservada aos familiares. Amigos, parentes e admiradores compareceram ao velório, aberto ao público, das 10h às 17h, no dia 27, na Capela 1 do Cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul do Rio. ATHAYDE DOS SANTOS/AGÊNCIA O GLOBO

AGÊNCIA BRASIL

Num evento cercado de forte emoção, cinegrafistas, fotógrafos e outros colegas de profissão fizeram uma homenagem a Santiago Andrade no local onde ele foi atingido por um rojão.

Internado desde o dia 16 de janeiro, no Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo, o radialista Loureiro Neto faleceu no dia 25 de fevereiro, quando os médicos detectaram a morte cerebral do jornalista. Com a autorização da família, os aparelhos foram desligados na manhã do dia seguinte. Nascido em Portugal, Loureiro Neto trabalhou durante mais de 30 anos no Sistema Globo de Rádio, tendo sido um dos grandes nomes na cobertura esportiva. Ao longo da carreira, foi apresentador de diversos programas na emissora, entre os quais “Enquanto a bola não rola”, “Papo de Botequim”, “Manhã da Globo”, em substituição a Haroldo de Andrade, e “Botequim da Globo”. A escola de samba Mangueira era outra paixão de Loureiro Neto, que chegou a ser presidente de uma ala na verde e rosa.

Em 1983, Loureiro Neto recebeu o prêmio Destaques do Ano.

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ACERVO ABI

VIDAS

Carlos Alberto Luppi, o repórter humanista P OR C LÁUDIA S OUZA

“Como irmão mais velho do jornalista Carlos Alberto Luppi e representante de nossa família, agradeço a inserção de matérias e notícias que homenageiam e sintetizam uma vida de muitas lutas em prol dos direitos humanos. Foi-se um grande amigo e irmão, que deixou um legado que muito nos orgulha”, disse Paulo Roberto Luppi durante a cerimônia budista em memória do jornalista, que ocorreu na noite do dia 11 de março, na sede regional da Soka Gakkai, em Botafogo, Zona Sul do Rio. Com essas palavras, a família de Carlos Alberto Luppi agradeceu as manifestações de apoio e pesar pela morte do jornalista, ocorrida no dia 4 de março. Natural de Colatina (ES), Carlos Luppi morreu aos 63 anos, no Rio de Janeiro, em decorrência de um infarto fulminante. Sua carreira se destacou pela luta em favor da democracia e dos direitos humanos no Brasil, fato que lhe rendeu prêmios, obras notáveis, além do reconhecimento e da admiração dos amigos. Prêmios Formado em Jornalismo pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Juiz de Fora (MG), Carlos Luppi foi um dos mais notáveis jornalistas investigativos do País. Publicou 11 livros-reportagem e foi o único brasileiro a ganhar o Prêmio J. Elliot de Direitos Humanos, concorrendo com jornalistas de 120 40

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países, pelo conjunto de reportagens produzidas entre 1987 e 1998 sobre a situação da criança brasileira. O início da carreira na imprensa foi no Diário Mercantil, de Juiz de Fora. Pouco depois, venceu um concurso universitário promovido pelo Jornal do Brasil e, como prêmio, ganhou um estágio na sucursal paulista do diário. Assim que se formou conseguiu ser contratado, por decisão de Alberto Dines. Cerca de nove meses depois, foi promovido ao cargo de repórter especial. Luppi trabalhou ainda na Folha de S.Paulo, no Estado de S.Paulo, e no Jornal da Tarde, entre outros veículos. Um de seus grandes trabalhos foi publicado em 1971, durante epidemia de meningite que o governo Médici teria tentado esconder da população. Carlos Luppi realizou apurações em diversos órgãos de saúde até encontrar um documento com dados que comprovavam a epidemia. Outra matéria de destaque de sua autoria resultou na reabertura do processo do caso Araceli, menina misteriosamente assassinada nos anos 1970, em Vitória (ES). Nos anos 1980, com a série de reportagens publicadas na Folha de S.Paulo e o lançamento do livro-reportagem Manoel Fiel Filho: Quem Vai Pagar por Este Crime?, Luppi derrubou a versão oficial do II Exército de que o operário Manoel Fiel Filho cometera suicídio na prisão. Órgãos de segurança emitiram nota oficial afirmando que Manuel Fiel Filho havia se enforcado em sua cela com as próprias meias. Contudo, o corpo apre-

sentava sinais evidentes de torturas, além de hematomas generalizados, principalmente na testa, pulsos e pescoço. A investigação de Luppi comprovou que o laudo oficial que apontava suicídio como a causa da morte do operário havia sido forjado. Manoel Fiel Filho, na verdade, foi assassinado em 17 de janeiro de 1976, no Doi-Codi de São Paulo. Ele havia sido preso em 16 de janeiro de 1976, ao meio-dia, na fábrica Metal Arte, onde trabalhava, por dois agentes da repressão que se diziam funcionários da Prefeitura. Manoel foi acusado de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), e de ser assinante do jornal A Voz Operária. Denúncias De 1979 a 1990, Carlos Luppi dedicouse a reportagens sobre a situação do menor no Brasil, que renderam os livros Agora e na Hora de Nossa Morte – O Massacre do Menor no Brasil (Brasil Debates, 1981), A Cidade Está com Medo (Marco Zero, 1982), escrito em parceria com o criminalista Técio Lins e Silva, e Malditos Frutos do Nosso Ventre – Conflitos e Confrontos (Cone, 1987). Recebeu duas vezes o prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, uma delas pela série de repor-

tagens “O país da pena de morte” publicada na Folha, com denúncias sobre os assassinatos cometidos pela Rota, força tática da Polícia Militar de São Paulo. No início dos anos 1990, Carlos Luppi abandonou as Redações por achar que não havia mais espaço para o tipo de jornalismo que fazia e passou a atuar como diretor de criação em agências de publicidade, tendo recebido prêmios pela criação de campanhas publicitárias, roteiros para televisão e documentários. Em 2006, retornou ao jornalismo quando publicou o livro Dinastia das Sombras – O Homem que Matou Jesus, cujo personagem principal é uma vítima da ditadura militar na guerrilha do Araguaia, entremeando realidade e ficção. Nos últimos anos, atuou como redator especial da revista e do site Justiça & Cidadania, e finalizou o livro Um Vazio no Coração do Mundo, escrito em parceria com o jornalista Hugo Studart. No ano de 2009, concedeu uma entrevista publicada no site ABI Online e no Jornal da ABI número 351, que pode ser lida no link abi.org.br/ entrevista-carlos-alberto-luppi. Luppi deixa a mulher Simonetta Ivancevic, a filha Ana Carolina Ivancevic Luppi, e a neta Lola.

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