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A implacável censura durante a ditadura militar Nosso cinema e a revista Playboy enfrentaram horrores para sobreviver aos vetos dos censores do regime.

PÁGINAS 12 E 30

393 S ETEMBRO 2013

ÓRGÃO OFICIAL DA A SSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA

O sargento Abílio Correa de Souza foi um dos seis torturadores do dirigente do Movimento Revolucionário 8 de Outubro-MR-8, morto em maio de 1971 em sevícias comandadas pelo Brigadeiro João Paulo Moreira Burnier. Dos seis, quatro já morreram. PÁGINA 20

VIDAS FRANCESC PETIT • RADHA ABRAMO • RUY FERNANDO BARBOZA • DAVID FROST • ANTONIETA SANTOS


EDITORIAL

DESTAQUES TÂNIA RÊGO/ABR

03 IMPRENSA - A era da independência ○

07 MEMÓRIA - Destroços na correnteza por Rodolfo Konder ○

08 CENTENÁRIO - Perilo Galvão, que levou a ópera às nossas casas ○

10 AUTOCRÍTICA - As Organizações Globo confessam, meio século depois, que foi um erro apoiar o golpe militar de 1964 ○

12 DEPOIMENTO - Leonor de Souza Pinto ○

16 LANÇAMENTO - Como era sacana o meu cinema ○

28 CRISE - Abril em xeque ○

30 IMPRENSA - A batalha da Playboy contra a censura militar ○

36 ANTOLOGIA - Vinicius e o sentido do jazz ○

38 LEMBRANÇA - Artur da Távola inesgotável ○

39 CINEMA - O neo-realismo de Olmi ○

O RIO DE JANEIRO MUTILADO MAURÍCIO AZÊDO MESMO PASSADOS BONS PARES de anos, cariocas, fluminenses e brasileiros que adoram esportes ainda têm bem vivas na memória as imagens dos dias em que autoridades da União, do Estado e da cidade do Rio de Janeiro fizeram espetaculoso oba-oba em torno da decisão das entidades internacionais de conceder ao Brasil o encargo e a honra de sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2014, decisão adotada em 30 de outubro de 2007, e, logo depois, em 2 de outubro de 2009, de homenagear a cidade do Rio de Janeiro com o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Nas praias, praças públicas e em habituais espaços de comemorações coletivas, as multidões sensibilizadas pela estridência do comportamento oficial entregaram-se a ruidosas manifestações de júbilo, festejando o que lhes pareciam conquistas merecidas pelo Brasil, que vivia então a euforia do bom desempenho da economia e dos avanços em importantes índices de desenvolvimento social. O TEMPO ENCARREGOU-SE de lançar uma ducha fria sobre os entusiasmos iniciais, pela revelação, a pouco e pouco, do que as supostas conquistas representaram e representam em termos de desembolso de recursos públicos e, tão grave quanto isto, em sacrifício de prerrogativas da própria soberania nacional, visível na vergonhosa submissão às imposições colonialistas da Federação Internacional de Futebol Association, a poderosa Fifa. Em seu Caderno de Encargos, a corrupta entidade dos cartolas do futebol do mundo inteiro impôs ao País a obrigação de derrubar e construir está2

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dios e até de lhes mudar o nome, abandonando a tradicional denominação de estádio para adotar a de arena. Ainda agora verifica-se o esforço de imaginação de administradores de estádios construídos nessa orgia com os dinheiros públicos para dar a esses elefantes-brancos alguma utilidade social.

40 DESIGN - O som, a palavra e a fúria de Ziraldo ○

43 PRECIOSIDADES - Enfim, juntos, numa hemeroteca exemplar ○

AS CONSEQÜÊNCIAS DESSES desregramentos não se esgotam na subtração dos dinheiros que faltam para programas e projetos de interesse do conjunto da sociedade, como a implantação de sistemas de transporte público que poupem as pessoas comuns dos transtornos, dos desconfortos, dos sacrifícios e das humilhações a que ora são submetidas; que assegurem eficaz assistência à saúde às populações que dependem da organização dos serviços médico-hospitalares do Poder Público; a melhoria da qualidade da educação, que atualmente é uma grande promotora do analfabetismo funcional. A essas seqüelas da falência dos Governos soma-se algo imaterial, como a perda de valores e bens que se incorporaram à História do nosso povo, como se deu com a destruição e reconstrução do Estádio do Maracanã, decisão que privou o povo carioca e, com ele, o povo brasileiro, de uma excepcional referência afetiva, cuja perda é agravada pela imposição de preços de ingressos que escapam ao poder aquisitivo da grande massa da população. Ao fim e ao cabo da aventura e das ilusões daqueles dias de 2007 e 2009, o Rio de Janeiro é vítima de grave e irreparável mutilação. Os que a promoveram não merecem perdão.

42 EXPOSIÇÃO - Um olhar sobre a América Latina

44 LIVROS - Saramago volta às origens ○

SEÇÕES 090 A CONTECEU NA ABI Militarização da força policial, uma causa das agressões a jornalistas ○

18 L IBERDADE DE I MPRENSA Emiliano José impõe nova derrota a torturador ○

D IREITOS H UMANOS 19 A ABI pede à Presidente Dilma que interceda junto ao Ministério do Planejamento em favor dos anistiados da Lei nº 8.878/94 ○

20 Repórter de O Globo relata as horas finais da tortura de Stuart Angel pela repressão ○

21 Comissão Estadual da Verdade e parlamentares fazem visita histórica nas antigas dependências do Doi-Codi ○

22 Supremo e Executivo tratam com impiedade aposentados e pensionistas da Varig e Transbrasil ○

23 Comissão da Verdade quer reabrir investigação sobre a morte de Dona Lyda ○

23 Coronel Jacarandá confessa que torturou no Doi-Codi e aponta três cúmplices ○

26 Uma história familiar que conta o drama de um país ○

V IDAS 46 Francesc Petit, Radha Abramo ○

47 Ruy Fernando Barboza, Antonieta Santos, David Frost ○


MUNIR AHMED

IMPRENSA

Repórteres apostam em carreiras fora das grandes Redações movidos pela autonomia e a paixão pela profissão. POR BRUNO FONSECA

E

m seu blog, estrategicamente intitulado “Reportagens 3x4”, ela publica, semanalmente, textos sobre mulheres ribeirinhas na Amazônia, jovens estudantes da periferia paulistana e até mesmo um amolador de facas brasileiro nas ruas da França, como ela mesmo descreve: “histórias de pessoas que costumam escapar do radar da grande imprensa”. Além de alimentar o blog – que foi idéia sua, é importante dizer, desde o

formato à periodicidade e o conteúdo – a jornalista Ana Aranha ocupa seu tempo com reportagens freelancers e também um mestrado em documentário na Inglaterra, onde irá viver até o próximo ano. Este é o dia-a-dia de Aranha, que, desde 2011, não trabalha em uma Redação com outros repórteres, não possui um patrão direto a quem se reportar e não recebe indicações de pautas para produzir – a rotina de um jornalista independente. JORNAL DA ABI 393 • SETEMBRO DE 2013

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DIVULGAÇÃO

IMPRENSA A ERA DA INDEPENDÊNCIA

A experiência de Aranha com projetos independentes começou enquanto trabalhava na Redação da revista Época, quando conheceu a Panos London, organização não governamental (ong) inglesa que financia reportagens de jornalistas do hemisfério sul. Graças a esse contato, Aranha realizou diversas investigações que dificilmente seriam bancadas pela imprensa brasileira e que foram publicadas em jornais como o Guardian (Inglaterra), El Mundo (Espanha), Svenska Dagbladet (Suécia) e Gazeta (Polônia). Paralelamente, ela se reuniu a outros jornalistas para conceber e realizar uma revista feita para e por jovens da periferia de São Paulo, a ZZine, que teve quatro edições de 5 mil exemplares distribuídas nas escolas públicas do Capão Redondo. Além disso, Aranha também se envolveu com a Agência Pública de jornalismo investigativo, iniciativa brasileira que financia reportagens independentes de temas de interesse público. Foi o bom resultado do seu trabalho em veículos internacionais e também dos seus projetos no Brasil que a convenceu a deixar o posto fixo na Redação e partir para uma carreira independente. “Essas pareciam ser atividades desafiadoras que me permitiam uma relação diferente com meu trabalho, de maior desafio e autonomia. Por isso, me joguei”, conta Aranha.

O jornalista Marques Casara iniciou cedo suas atividades profissionais. Ainda no terceiro período do curso da Universidade Federal de Santa Catarina já atuava como repórter no Diário Catarinense. Após sair do periódico, “freelou” para diversos jornais de São Paulo até que, formado, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde, nos anos 1990, passou pela extinta TV Manchete, a revista Época e a TV Globo. Em 2000, ele se transferiu para a capital paulista, trabalhando na Editora Abril e também na ong Ação Educativa. Entretanto, em 2002, ele decidiu mudar os rumos da sua carreira. Casara obteve um financiamento do Instituto Observatório Social para uma grande investigação sobre a mineração predatória na Amazônia, trabalho que lhe rendeu o Prêmio Esso de Jornalismo em 2003, na categoria “Informação Científica, Tecnológica e Ecológica”. A partir do reconhecimento alcançado com esta empreitada, novas portas se abriram e Casara conseguiu financiamentos para produzir outras reportagens focadas nas cadeias produtivas de grandes indústrias e empresas, o que acabou se tornando uma especialização do jornalista, com premiações no Vladimir 4

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Aposta global em um“outro” jornalismo

As trajetórias de Aranha e Casara não são experiências isoladas, antes o contrário. Há diversos exemplos de jornalistas que deixaram grandes Redações e hoje se dedicam à reportagens independentes, negociando variadas formas de financiamento – opção que é relativamente comum em outros países. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, jornalistas conduzem investigações de forma independente que depois lhes rendem parcerias com veículos de mídia e importantes prêmios de imprensa. A repórter independente Alejandra Xanic Von Bertrab, por exemplo, con-

Ana Aranha: “Me joguei nessas atividades desafiadoras que me permitiam uma relação diferente com meu trabalho, de maior desafio e autonomia.”

quistou um Pulitzer por investigar a rede de corrupção e subornos que foram parte de uma agressiva estratégia de expansão dos supermercados WalMart no México. Já a jornalista Alexa O’Brien cobriu, inicialmente por sua própria iniciativa e sem o suporte de nenhum veículo de mídia, o caso do soldado whistleblower Bradley Manning e os vazamentos para o Wikileaks. O’Brien acompanhou o julgamento realizando transcrições diárias e produzindo textos sobre o assunto, conseguindo, depois, um acordo com o jornal Daily Beast e parcerias para publicação da sua produção em diversos veículos, como o Guardian e o Huffington Post. Na América Latina, há também diversos exemplos de repórteres que iniciam carreira independente, muitas vezes, fundando suas próprias agências e grupos de investigação. Na Guatemala, o jornalista Martín Rodríguez Pellecer fundou o Plaza Pública, site independente com pautas focadas em direitos humanos. Já na Colômbia, a repórter Juanita León,

que já trabalhou para o Wall Street Journal, agora dirige o Silla Vacía, site independente que se tornou referência para a cobertura política no país. “A nível pessoal, queria ser independente. Poder ser responsável por cada coisa que se publique no veículo e não me queixar, a não ser de mim mesma. A nível profissional, desejava criar um meio que contasse como se exerce o poder em Colômbia. Parte do privilégio de ter poder neste país é poder escolher o que se diz sobre si e o que se cala, e eu sentia que tinha suficiente independência do poder para contar como ele funcionava por dentro e contribuir para que os colombianos entendessem melhor em que país vivem”, afirma León na apresentação do site. A proposta do Silla Vacía encontra similares no México (Animal Político), no Chile (Ciper), na Nicarágua (Confidencial), em El Salvador (El Faro), na Argentina (El Puercoespín), no Peru (IDL-Reporteros), dentre vários outros. No Brasil, além da vontade dos jornalistas de investigarem temas de interesTATIANA CARDEAL

Das grandes Redações à carreira independente

Herzog em 2006 e 2009 por trabalhos sobre mão-de-obra infantil na mineração e de exploração sexual de crianças e adolescentes na BR-163, respectivamente, e um novo Esso, na categoria honra ao mérito, por denunciar grupos que se beneficiam com a devastação da Amazônia. “Eu percebi que havia um caminho a ser seguido que estava descolado da grande imprensa, da mídia industrial, e que eu poderia tentar algo mais arrojado que seria a produção de reportagens mais longas e que me dessem a condição de apurar com bastante profundidade sem estar premido pelo prazo do jornalismo factual ou das revistas semanais”, diz Casara, hoje, com mais de dez anos de experiência como jornalista independente.

Casara percebeu que havia um caminho a ser seguido: produzir reportagens mais longas sem estar premido pelo prazo do jornalismo factual.


DIVULGAÇÃO

se público e se tornarem “donos” da sua própria pauta, há também os efeitos da controversa crise dos meios de comunicação, que, apesar de se expressar globalmente com redução de postos nos principais jornais do mundo, tem-se mostrado mais intensa no País nos últimos anos. Somente em 2012 e 2013, houve demissões significativas de jornalistas em praticamente todos os grandes grupos de comunicação brasileiros, de impressos a redes de televisão. Para se ter uma idéia, em 2012, 1.230 jornalistas foram demitidos de Redações no Brasil. Em 2013, apenas considerando os jornalistas registrados com carteira na cidade de São Paulo, foram 280 demissões. “Está cada vez mais difícil trabalhar na mídia tradicional, que tem menos dinheiro do que há algumas décadas. A falta de vagas abre espaço para freelancers e correspondentes, mas também há muitos jornalistas que saem do trabalho em Redações, pois querem se dedicar a projetos independentes”, comenta a jornalista francesa Anne Vigna, que atualmente reside no Brasil. Vigna começou como freelancer em Paris, escrevendo para o Le Monde Diplomatique. Após um período na França, ela se mudou para o México, onde foi correspondente por cerca de oito anos como freelancer para o Le Monde e outros veículos da imprensa francesa, belga e suíça. Após essa experiência, decidiu vir ao Brasil, sobretudo, com o aumento da violência no México nos embates entre o Estado e o narcotráfico. No Rio de Janeiro há dois anos, Vigna continua a trabalhar como freelancer para imprensa internacional, além de colaborar com produções de televisão e documentários que vêm ao Rio. “Acredito que é uma tendência em vários lugares que jornalistas apostem em projetos independentes, principalmente com a internet, que facilita a publicação de conteúdo”, acrescenta.

Faça o teste e pergunte a um jornalista que apostou em uma carreira fora da mídia tradicional o porquê de sua decisão. Invariavelmente, a resposta irá esbarrar na liberdade de escolher suas pautas e conduzir as reportagens longe do ritmo e modelo de produção das Redações. “Eu não tenho interesse em trabalhar para a grande imprensa porque tem muita pressa e pouco dinheiro. A principal vantagem de ser independente é que eu posso me dedicar o tempo que for necessário para apurar uma informação, podem ser semanas ou meses. Isto me conferiu muita qualidade ao meu trabalho, além de visibilidade e reconhecimento dos meus pares”, pondera Marques Casara.

A opinião é compartilhada por jornalistas que apostaram recentemente na carreira independente. Yan Boechat começou a atuar como jornalista em 1994, em um jornal local de Santa Catarina. Em 1998, ele veio para São Paulo no curso de focas do Estadão e, posteriormente, trabalhou na Gazeta Mercantil. Boechat chegou a trabalhar no portal iG, mas deixou o emprego há cerca de um ano e atualmente trabalha exclusivamente como “freela” para diversas publicações. Além disto, ele realizou viagens por conta própria para o Nordeste, para fotografar a seca, e para o Norte da África, para investigar os desdobramentos da Primavera Árabe. “Foi um ótimo começo e a sensação de sair para buscar histórias sem a pressão da Redação. Procurar os assuntos que eu gostaria de escrever foi um sopro de liberdade. Estamos vivendo um processo de profundo retrocesso nas condições de trabalho dos jornalistas em todas as Redações. Em todos os jornais e revistas não se tem mais tempo para nada, dinheiro para nada, espaço para nada. Por conta disso, muitas vezes o rumo das matérias

é decidido já nas reuniões de pauta, antes mesmo de o repórter sequer ir à rua para apurar de fato o que está acontecendo. Já presenciei, inúmeras vezes, a definição do título e todo o tom de uma matéria em uma reunião de pauta”, critica. A liberdade para abordar determinados temas que não encontram espaço nas Redações é uma vantagem recorrente apontada por jornalistas que investem na carreira independente. Para Spensy Pimentel, a independência foi fundamental para produzir reportagens sobre questões indígenas e de cultura das ruas, como o Hip Hop. Spensy iniciou a carreira em São Paulo no final da década de 1990, quando “frilava” para veículos da Folha, Uol e Editora Abril. Ele escreveu também para as revistas Caros Amigos e Sinopse, especializada em cinema. Após um período como assessor de imprensa do então Presidente de Honra do PT, o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Spensy trabalhou na Agência Brasil, em Brasília. Também colaborou com a ong Repórter Brasil, a Agência Pública e atualmente colabora com diversas revistas, dentre elas a DIVULGAÇÃO

A liberdade da pauta independente

Spensy (de camisa azul e mochila): A independência foi fundamental para produzir reportagens sobre questões indígenas e de cultura das ruas.

Anne: “Começar uma carreira independente é realmente mais complicado, mas é totalmente possível e prazeroso, é um esforço que vale a pena.”

mexicana Desinformémonos, além de produzir reportagens para o venezuelano Telesur e ter concluído o doutorado em Antropologia na Usp. “Os temas que eu buscava investigar eram, em geral, considerados pouco interessantes para a mídia comercial. Isso acabou me levando, naturalmente, para a independência, no sentido de buscar continuar investigando o que era prioridade para mim. Falo, sobretudo, do movimento Hip Hop e da luta indígena em MS, dois assuntos que me acompanham, de alguma forma, até hoje”, comenta.

Outra rotina de produção jornalística

Se trabalhar com jornalismo independente possibilita liberdade na escolha da pauta, é consenso que a carreira exige muita disciplina e planejamento. “Você faz o seu próprio horário, o que não significa que não precise de planejamento. Eu posso dormir toda manhã, mas preciso trabalhar até tarde para cumprir minhas tarefas. Entretanto, se eu quiser, posso trabalhar 18 horas em um dia e, no outro, ir à praia”, comenta a jornalista franco-marroquina Lamia Oualalou. Lamia começou a carreira na imprensa francesa, trabalhando no jornal Le Figaro. Após ir à Argentina para uma reportagem sobre a crise no país, em 2001, começou a cobrir a América Latina para a imprensa francesa. Em 2007, depois de diversas viagens ao continente, saiu do Le Figaro e veio tentar carreira independente no Brasil. Aqui realizou “freelas” para a imprensa internacional, colaborou com a revista CartaCapital e participou da criação do site Opera Mundi, focado em política internacional. Há cerca de um JORNAL DA ABI 393 • SETEMBRO DE 2013

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IMPRENSA A ERA DA INDEPENDÊNCIA

A delicada equação financeira

Além da disciplina no planejamento da rotina de produção das matérias, outro ponto fundamental para jornalistas independentes é a auto-suficiência financeira – aspecto que é ainda mais complicado para profissionais que iniciam a jornada independente. Na visão de Yan Boechat, o “começo de carreira” implica vários saldos negativos entre gasto e receita, sobretudo quando se dedica a reportagens por prazer ou convicção, mas que não tenham retorno financeiro adequado. Além disso, ele critica a baixa remuneração dada a reportagens de fôlego. 6

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ano e meio, ela lançou a revista independente Samuel. “Fico metade do meu tempo com a cabeça no mercado francês, a outra metade no mercado brasileiro, o que me permite um equilíbrio. Como trabalhei muito tempo em Redação, sei bem como funciona. Se acontece uma tragédia na Itália, um confronto no Egito, a imprensa internacional vai focar naquilo no momento, não adianta tentar vender uma pauta sobre a discussão do aborto no Brasil, por exemplo. É preciso planejar as suas ações porque a grande frustração do jornalista independente é propor uma pauta e não ter resposta ou ela ser recusada”, reflete. A jornalista Anne Vigna procura manter os contatos com editores de revistas internacionais, com os quais conversa de três em três meses, em média, para definir pautas e alinhar assuntos. Embora reconheça a importância de se especializar em um tema, ela ressalta a importância de ser flexível, justamente para lidar com as variações de temas em voga na imprensa – e evitar os períodos que não se emplacam pautas na mídia. “Já aconteceu comigo, sim. São tempos nos quais você precisa fazer outras coisas, buscar outros temas, ou então investir em pesquisas mais longas, o que é uma oportunidade rara se você está em uma Redação”, aponta. Já Ana Aranha ressalta que jornalistas independentes precisam saber lidar com a falta de estrutura. “Em uma Redação profissional, há uma equipe para auxiliar o trabalho de apuração: fotógrafos, revisores, produção. No modelo independente, nós também encontramos equipes e formamos parcerias interessantes, mas nem sempre isso é possível. Como o orçamento é mais curto, geralmente é o próprio repórter que deve produzir suas matérias, o que toma bastante tempo, além dos casos em que também temos de fazer a revisão ou temos de pedir para que colegas façam (de graça, pela amizade) o que não é nada profissional”, detalha. Segundo Aranha, ela procura circular entre lugares e grupos diferentes para encontrar os personagens das matérias do seu blog, além de sempre acompanhar o que está saindo na grande imprensa e na imprensa alternativa para ter idéias.

Lamia: “A grande frustração do jornalista independente é propor uma pauta e não ter resposta.”

“Com os orçamentos ficando cada vez mais apertados e com tantos profissionais demitidos nos últimos tempos, a lei de oferta e demanda está desfavorecendo os jornalistas. Paga-se mal, exige-se muito e há grande oferta de profissionais qualificados no mercado. Hoje uma grande reportagem, que demanda tempo, esforço e dinheiro, não compensa mais financeiramente para a maior parte dos jornalistas que dependem da profissão para sobreviver. Cada vez mais, o jornalismo independente de qualidade está se tornando um hobby, algo desassociado da geração de riqueza necessária para o sustento”, questiona. Já Marques Casara possui uma visão um pouco mais otimista sobre o tema. Segundo ele, que não deixa de reconhecer os eventuais apertos financeiros, há, sim, possibilidades de financiamento para jornalistas independentes. “Claro, a preocupação econômica é maior porque não tenho um provedor fixo. Um jornalista contratado sabe que vai receber um salário no dia ‘x’ para pagar as suas contas, mas eu não, eu preciso criar um planejamento para que os meus projetos me sustentem. Mas não vejo desvantagens, vejo dificuldades. Ao orçar um projeto eu preciso ter muito bem detalhado o que vou gastar na execução e o que vou ter de despesas pessoais. Existem hoje ongs e organizações com recursos interessadas em financiar investigações sobre temas que darão visibilidade às questões e demandas que elas desejam colocar em pauta na sociedade”, pondera. O jornalista e pesquisador Spensy Pimentel aposta em um equilíbrio entre as duas funções para se manter financeiramente e preservar a sua independência jornalística. Na sua visão, evidentemente, a carreira independente tem altos e baixos, mas ele aponta que o trabalho em Redações e grandes corporações tampouco é garantia de tranquilidade. O grande entrave, diz ele, para o desenvolvimento de iniciativas independentes ainda

passa pelo modelo de distribuição de verbas publicitárias e concentração dos meios de comunicação. “No Brasil, de modo geral, a legislação ainda favorece uma concentração da produção – falo, sobretudo, de rádio e tv. Falta incentivo para que as grandes empresas ajudem a fomentar a produção independente. Também temos um problema com as publicações independentes que é uma herança da ditadura: vários empresários com visão progressista foram perseguidos até a falência naquela época. Quem mais tinha apoio público eram os mais conservadores. O reflexo disso é que em termos de publicidade é, às vezes, muito difícil conseguir apoio. A evolução da internet, como espaço para o jornalismo, é um alento, mas o problema é que a reportagem, muitas vezes, envolve certos gastos”, disserta.

Na companhia de si mesmo

Excetuando projetos específicos de reportagens ou quando repórteres fundam agências de investigação, a grande maioria do trabalho de jornalistas independentes é marcada pela solidão. “Às vezes você gostaria de compartilhar mais idéias com colegas, conhecer o que outras pessoas estão desenvolvendo e trocar experiências. É preciso realmente gostar de trabalhar sozinho”, comenta Anne Vigna. Para Lamia Oualalou, a solidão costuma ter mais impacto na rotina de jornalistas acostumados a trabalhar em Redações. Estes profissionais, diz, precisam se acostumar a trabalhar sem receber as demandas e conselhos dos editores, ou mesmo a companhia dos colegas de escritório. “Você precisa fazer propostas aos editores todos os dias, sabendo que muitos deles não irão nem responder. Agora, pelo menos, temos os smartphones para checar e-mails em qualquer lugar. Antes eu ficava em casa esperando por horas uma resposta, que às vezes não

chegava, com medo de ir para a rua e perder uma chamada do editor internacional”, relembra. Outro ponto importante para jornalistas independentes é cuidar da segurança, seja pelo trabalho solitário, seja pela falta de suporte de um veículo de mídia. Diz Marques Casara que é preciso desenvolver alguns protocolos de segurança para evitar ficar isolado em determinados locais ou mesmo acabar sendo cercado ou ter materiais levados. “Em 2002, passei 30 dias no Amapá sozinho, a ponto de o carro quebrar no meio da Serra do Navio e eu precisar pedir socorro para a própria empresa que estava investigando. Eu disse: Olha meu caro, temos duas alternativas, ou você me ajuda a consertar o carro ou eu fico aqui. Felizmente ele me ajudou”, recorda.

Paixão pelo jornalismo

Apesar das dificuldades da carreira independente, é consenso entre os jornalistas que seguem este caminho o retorno em realização pessoal e profissional. Em outras palavras: é a paixão, esta palavra piegas, que mantém estes profissionais, muitos deles já veteranos, firmes em propostas independentes. “Descubra o que realmente te interessa e te acrescenta algo nesta vida. A vida é curta. Não vale a pena gastar tempo com bobagem”, aconselha Spensy Pimentel. “Procure evitar um estilo de vida que te exija muitos gastos financeiros e você será mais livre para buscar os temas que considere mais relevantes e urgentes”, acrescenta. Anne Vigna aposta no mesmo raciocínio: uma carreira independente é um esforço que vale a pena. “Vai ser mais complicado no começo porque é realmente mais complicado que a carreira tradicional, mas siga em frente porque é totalmente possível e prazeroso”, diz. Hoje, com 40 anos, a francesa não acredita que a independência dificulte a aposentadoria e espera poder se dedicar cada vez mais a pesquisas mais longas, sem estar preocupada com atualidades. “Acho uma realidade bastante possível quando você tem experiência na área e contatos na mídia”, pondera. Nas palavras de Yan Boechat, produzir uma reportagem sem precisar enquadrála no “pacotinho ideológico” de determinada publicação é simplesmente fantástico: “É absolutamente prazeroso ter o poder de definir sobre o que escrever e definir como escrever, mas não acho que a grande imprensa seja algo maléfico – ao contrário, acho que ela ainda é uma grande escola para quem está começando – nem que o jornalismo independente seja a panacéia para a crise que vivemos. O que acho é que a grande imprensa vive uma profunda crise, financeira, de identidade e de representatividade, e que novos caminhos precisam ser explorados”.


ELIANE SOARES

MEMÓRIA

Destroços na correnteza Para onde nos levam as ondas da História? POR RODOLFO KONDER

‘‘S

omos nossa memória”, escreveu o genial Jorge Luis Borges, “este quimérico museu de formas inconstantes, e este amontoado de espelhos partidos”. Somos efetivamente nossa memória – individual, coletiva, nacional, histórica. E ela nos relembra, ensina, emociona, educa, protege, adverte. Pode até nos libertar. Basta não ignorá-la. Ela nos mostra que mesmo os bosques apodrecem e se extinguem – como lembrava Alfred Tennyson – carregados pelas águas de um rio incontrolável. Desfizeram-se também naquele rio o Império Egípcio, junto ao Nilo, e o Império Britânico, às margens do Tâmisa. Foi-se o Império Inca, como se foram igualmente com ele os conquistadores espanhóis liderados por Francisco Pizarro. Mais ao norte, os maias e os astecas – povos altamente sofisticados, que dominavam a matemática e a astronomia, além de desenvolver técnicas incríveis de construção e irrigação – também naufragaram nos rios implacáveis da História. Falavam com os deuses, mas naufragaram. E nada protegeu o Império Soviético das corredeiras do tempo, nem seus foguetes espaciais, nem suas armas nucleares. Sumiram assírios e caldeus, desapareceu a Babilônia. A memória nos permite conhecer os enredos da aventura humana. Ela nos fala de todos os impérios, de todos os regimes, de todos os poderes que os homens acumularam – e perderam. Desvenda

os mistérios do nosso passado, é um encontro dramático com a fragilidade dos povos, das culturas e das instituições. No campo minado da violência, nossa memória registra centenas de guerras, milhões de mortos. Somente na Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, morreram 50 milhões de seres humanos. Com o fim do conflito, entramos na Guerra Fria – a presença do Armagedon, durante mais de 40 anos, em nosso horizonte próximo. Uma espada nuclear descomunal que pendia sobre nossas cabeças. Esta disputa ideológica e econômica entre Estados Unidos e União Soviética envolveu conflitos freqüentes, empobreceu a humanidade com o seu simplismo e emburreceu os seres humanos com o seu maniqueísmo. Com a chegada ao poder, em Moscou, de Mikhail Gorbachov, as tensões diminuíram, até o almejado fim da Guerra Fria, em 1989. No dia 9 de novembro daquele ano, os alemães derrubaram a marretadas uma muralha de 160 quilômetros, erguida em 1961 para evitar as fugas dos que ainda sonhavam com a liberdade, na Alemanha Oriental. A muralha, conhecida como o Muro de Berlim, simbolizava a divisão do mundo. Parecia eterna e intransponível, mas caiu da noite para o dia, como um castelo de cartas. Então, veio finalmente a paz? Doce ilusão. A partir dos anos 1990, a memória registra o que a revista Newsweek chamou de “a volta do tribalis-

mo”. Conflitos tribais, entre vizinhos, multiplicaram-se, na Sérvia, na Moldávia, no Kosovo, na Chechênia, na Ossétia do Sul, em Ruanda. A violência se abateu sobre o Afeganistão e a Argélia, a Armênia e o Azerbaijão, o Burundi e o Líbano, a Serra Leoa e o Curdistão, o Tibet e a Córsega. A luta armada localizada varreu os cinco continentes. Chegamos ao século 21 sem sonhos e com algumas esperanças efêmeras. Talvez conseguíssemos finalmente aliar o pessimismo da razão ao otimismo da vontade. Mais uma ilusão. Logo ressurgiram os velhos lagartos, maiores e mais vorazes. A corrupção se generalizou. A droga cobriu todas as utopias. O nazismo saiu do túmulo para assombrar novamente o mundo com o seu fanatismo. Surgiu até um personagem lambrosiano, de olhos juntos e apertados, para negar o Holocausto. Hoje, as certezas dão lugar às dúvidas. O nazifascismo está aí mesmo. As pessoas que ainda se lembram olham-se num espelho partido. Vivem imprensadas entre frágeis esperanças e profundas desilusões. André Malraux previu que o século 21 seria “o século da cultura”. Neste momento sem ética, porém, a correnteza da História certamente nos carrega como destroços, na direção de um abismo insondável. RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da ABI em São Paulo e membro do Conselho Municipal de Educação da Cidade de São Paulo.

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REPRODUÇÃO

CENTENÁRIO

Perilo Galvão, que levou a ópera às nossas casas

Desembargador suspende decisão que favorecia Meirelles e seus contras.

Criador em 1953, na Rádio MEC, do programa Ópera Completa, ele despertou em milhares de ouvintes o amor à música clássica. P OR I GOR W ALTZ

O programa Ópera Completa, da Rádio MEC, é hoje um marco na História do Rádio brasileiro, considerado o mais longevo depois de A Hora do Brasil. Criado em 1953, o programa é apresentado desde então no fim das tardes de domingos e em seus primórdios chegou a competir em audiência com a televisão que começava a ser implantada no País. Sua concepção só foi possível graças ao trabalho de Perilo Galvão Peixoto, visionário amante de música erudita, que este ano completaria 100 anos. Baiano de nascimento, filho de mãe sergipana e pai alagoano, Peixoto passou grande parte da infância e da juventude em Penedo, interior de Alagoas. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1935 e mudouse em 1937 para o Rio de Janeiro, onde se dedicou à dermatologia no Hospital Gaffrée Guinle. Em seu consultório no bairro do Leblon, atendeu a pacientes ilustres, como o escritor Graciliano Ramos, e prestou relevante serviço social atendendo gratuitamente moradores da antiga Favela da Praia do Pinto, extinta pela Prefeitura nos anos 1960. A paixão pela música clássica e sua vontade de divulgar o gênero entre a população o levaram a dividir sua vocação entre a medicina e o rádio no

Jornal da ABI ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA Editores: Maurício Azêdo e Francisco Ucha presidencia@abi.org.br / franciscoucha@gmail.com

Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha Edição de textos: Maurício Azêdo Apoio à produção editorial: Alice Barbosa Diniz, Conceição Ferreira, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo, Ivan Vinhieri, Mário Luiz de Freitas Borges. Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva. Diretor Responsável: Maurício Azêdo Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ - Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: presidencia@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Diretor: Rodolfo Konder Rua Dr. Franco da Rocha, 137, conjunto 51 Perdizes - Cep 05015-040 Telefones (11) 3869.2324 e 3675.0960 e-mail: abi.sp@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS Diretor: José Eustáquio de Oliveira Impressão: Taiga Gráfica Editora Ltda. Avenida Dr. Alberto Jackson Byington, 1.808 - Osasco, SP

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início dos anos 1950. Para isso, contou com o apoio de sua esposa, Marina Quartin de Moura, pianista do programa Atendendo aos Ouvintes, da Rádio MEC. Apontado por Artur da Távola como um dos maiores radialistas do País no século XX, Peixoto esteve à frente da produção e da apresentação do Ópera Completa entre 1953 e 1956, quando teve que deixar o programa por razões políticas. O General Henrique Teixeira Lott, então Ministro da Guerra, teria ordenado ao então diretor da Rádio MEC, Celso Brant, que substituísse Peixoto na apresentação do programa. “Ele não aceitou ficar apenas na produção e decidiu largar tudo. Graças ao apoio dos colegas de trabalho, teve a possibilidade de se despedir no ar e nunca mais retornou à Rádio”, conta Fernando Moura Peixoto, filho do radialista. Sob o comando de Peixoto, o Ópera Completa transmitiu concertos ao vivo do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, entrevistas com cantores e músicos nos bastidores e com celebridades na platéia, comentários de espetáculos, ajudando a criar um formato mais tarde copiado em outros programas de rádio e televisão. Falecido aos 89 anos, em 2002, ele é praticamente esquecido pela mídia e seu nome nem sequer consta na página do programa na internet.

JUSTIÇA

Com mandatos já extintos desde 13 de maio passado, o grupo queria reassumir cargos na Diretoria da Casa.

Após sua saída da Rádio MEC, Peixoto, que foi associado da ABI por 52 anos, convidado pelo então Presidente da Casa, Herbert Moses, buscou dedicar-se à outras áreas. Ele e a esposa, a pianista Marina Quartin de Moura, criaram canários da raça Roller e foram campeões carioca, brasileiro e mundial. Ele trabalhou em prol da divulgação das competições de aves até 1975, quando faleceu sua esposa, vítima de câncer. Integrante da Sociedade Brasileira de Médicos EscritoresSobrames, Peixoto ajudou a fundar em 1987 a Academia Brasileira de Médicos Escritores-Abrames, onde ocupou a cadeira de n.º 3. Até hoje, essas duas instituições são as únicas no mundo a agregar profissionais de medicina que produzem obras literárias e poesias. Em seus últimos anos de vida, Peixoto viveu praticamente recluso. Sua morte foi muito pouco lembrada pelas instituições pelas quais trabalhou. Em 2004, recebeu o título de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro, proposto pelo jornalista Antônio Castigliola e pela Deputada Heloneida Studart.

DIRETORIA – MANDATO 2013-2016 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Fichel Davit Chargel Diretor Econômico-Financeiro: Sérgio Caldieri Diretora de Assistência Social: Ilma Martins da Silva Diretor de Arte e Cultura: Henrique Miranda Sá Neto Diretor de Jornalismo: Alcyr Cavalcanti CONSELHO CONSULTIVO 2013-2016 Ancelmo Gois, Aziz Ahmed, Chico Caruso, Miro Teixeira, Nilson Lage, Teixeira Heizer, Villas-Bôas Corrêa. CONSELHO FISCAL 2013-2014 Adail José de Paula, Dulce Tupy Caldas, Geraldo Pereira dos Santos, Jarbas Domingos Vaz, Jorge Saldanha de Araújo, Lóris Baena Cunha, Manolo Epelbaum. MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2013-2014 Presidente: Pery Cotta Primeiro Secretário: José Pereira da Silva Segundo Secretário: Moacyr Lacerda Conselheiros Efetivos 2011-2014 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Dácio Malta, Ely Moreira, Hélio Alonso, Leda Acquarone, Maurício Azêdo, Milton Coelho da Graça, Modesto da Silveira, Pinheiro Júnior, Rodolfo Konder, Sylvia Moretzsohn, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa. Conselheiros Efetivos 2012-2015 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fichel Davit Chargel, Glória Suely Alvarez Campos, Henrique Miranda Sá Neto, Jorge Miranda Jordão, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Vítor Iório. Conselheiros Efetivos 2013-2016 André Moreau Louzeiro, Benício Medeiros, Bernardo Cabral, Carlos Alberto Marques Rodrigues, Dulce Tupy Caldas, Fernando Foch, Germando de Oliveira Gonçalves, João Máximo, Marcelo Tognozzi, Milton Temer, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Mário Augusto Jakobskind, Sérgio Cabral, Sérgio Caldieri e Zilmar Borges Basílio Conselheiros Suplentes 2011-2014 Alcyr Cavalcânti, Carlos Felippe Meiga Santiago (in memoriam), Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas, Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz,

Acolhendo petição do escritório Siqueira Castro Advogados, o Desembargador Roberto Guimarães, da 11ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, concedeu efeito suspensivo no processo movido contra a ABI por Domingos Meirelles. A decisão do Desembargador Roberto Guimarães, baseada em exposição das advogadas Marcela Sussekind e Maria Arueira, do escritório Siqueira Castro, tem o seguinte teor: “DECISÃO PEDIDO DE RECONSIDERAÇÃO A Associação Brasileira de Imprensa – ABI requer reconsideração da anterior decisão, através da qual não foi deferido o efeito suspensivo ao presente Agravo de Instrumento. Com efeito, de uma análise mais percuciente deste recurso, constato que existe anterior decisão da lavra do eminente Des. Antonio Duarte, proferida em Mandado de Segurança, restabelecendo “..na integralidade a posse dos eleitos para a diretoria da ora Impetrante, ocorrida em 20/05/2013 e os plenos poderes de gestão e administração da entidade.” Destarte, inteira razão assiste à ABI agravante, quando requer a reconsideração de meu anterior decisum, pelo que o reconsidero para receber o presente Agravo de Instrumento em seu efeito suspensivo, até julgamento deste recurso por esta E. Câmara Cível. No mais, restam mantidas as determinações da decisão ora parcialmente reconsiderada. Intimem-se. Rio de Janeiro, 23 de agosto de 2013.”

José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvio Paixão (in memoriam) e Wilson S. J. Magalhães.

Conselheiros Suplentes 2012-2015 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Continentino Porto, Ernesto Vianna, Hildeberto Lopes Aleluia, Irene Cristina Gurgel do Amaral, Jordan Amora, Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Rogério Marques Gomes e Wilson Fadul Filho. Conselheiros Suplentes 2013-2016 Antônio Calegari, Aluízio Maranhão, Carlos de Sá Bezerra, Daniel Mazola, Gilson Monteiro, Ilma Martins da Silva, José Cristino Costa, Luiz Carlos Azêdo, Manoel Pacheco, Marceu Vieira, Miro Lopes, Moacyr Lacerda, Paulo Gomes Netto, Vilson Romero e Yacy Nunes. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Carlos Alberto Marques Rodrigues, José Pereira da Silva, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Marcus Antônio Mendes de Miranda e Zilmar Borges Basílio. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Presidente, Mário Augusto Jakobskind; Secretário, Daniel Mazola; Alcyr Cavalcanti, Antônio Carlos Rumba Gabriel, Carlos de Sá Bezerra, Carlos João Di Paola, Ernesto Vianna,Geraldo Pereira dos Santos, Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, Lênin Novaes de Araújo, Lucy Mary Carneiro, Luiz Carlos Azêdo, Maria Cecília Ribas Carneiro, Milton Temer, Miro Lopes, Modesto da Silveira, Vilson Romero, Vitor Iório e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DA DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Ilma Martins da Silva, Presidente; Manoel Pacheco dos Santos, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Mirson Murad e Moacyr Lacerda. REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Conselho Consultivo: Rodolfo Konder (Diretor), Fausto Camunha, George Benigno Jatahy Duque Estrada, James Akel, Luthero Maynard e Reginaldo Dutra. Assistente: Rosani Abou Adal REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS José Mendonça (Presidente de Honra), José Eustáquio de Oliveira (Diretor), Carla Kreefft, Dídimo Paiva, Durval Guimarães, Eduardo Kattah, Gustavo Abreu, José Bento Teixeira de Salles, Lauro Diniz, Leida Reis, Luiz Carlos Bernardes, Márcia Cruz e Rogério Faria Tavares.

JORNAL DA ABI • SETEMBRO DENÃO 2013ADOTA AS REGRAS DO A CORDO O RTOGRÁFICO DOS P AÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA , COMO ADMITE O DECRETO N º 6.586, DE 29 DE SETEMBRO DE 2008. O 393 JORNAL DA ABI


ACONTECEU NA ABI

Militarização da força policial, uma causa das agressões a jornalistas Debate promovido pela Diretoria de Jornalismo aponta inúmeros fatores que geram violências contra os profissionais de imprensa. EVERALDO D'ALVERGA

P OR C LÁUDIA S OUZA

A ABI promoveu na noite do dia 21 de setembro um debate sobre o tema Violência contra Jornalistas, que contou com a participação de profissionais da área, especialistas em mídia e direitos humanos, associados da Casa e cidadãos comuns preocupados com o tema. Mediados por Alcyr Cavalcanti, Diretor de Jornalismo da ABI, formaram a mesa do encontro Margarida Pressburger, membro do Subcomitê para Prevenção da Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes (SPT) da Organização das Nações Unidas, a jornalista Paula Mairan, Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e o sociólogo Paulo Bahia, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na abertura do seminário, Alcyr Cavalcanti destacou que a violência policial contra jornalistas pode ser observada em diversos períodos da vida política do País. “A Polícia Militar atuou fortemente como força auxiliar do aparato repressivo, o chamado braço sujo da ditadura. Para eles interessa a lógica do confronto e o aparato de guerra. Infelizmente, esta é uma realidade recorrente no Brasil e difícil de ser modificada. Muito se fala em desmilitarização da força militar, e neste sentido a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República vem tentando dialogar com autoridades da área de segurança para que sejam implantados alguns procedimentos, como a restrição ao armamento de baixa letalidade”, disse Alcyr, que defendeu esta iniciativa como incentivo para a redução dos casos de violência contra a imprensa, como registrados durante as manifestações de junho-julho em todo o País. “Os profissionais de imprensa foram gravemente feridos e tivemos uma morte. São repórteres e fotógrafos atingidos pela crescente violência. Não sabemos onde isto vai parar, nem as autoridades. São flagrantes de arbitrariedade e de violação dos direitos humanos inaceitáveis no Estado Democrático de Direito. Em seguida, o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, saudou a platéia e os convidados do encontro e manifestou repúdio às agressões aos profissionais de imprensa: “A ABI dá as boas-vindas a todos e deseja um debate fecundo dentro desta linha de denúncia dos casos de violência que se repetem pelo Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro e São Paulo, contra o Estado Democrático de Direito, além da violação do direito de ir e vir sem condicionamentos de qualquer natureza e sem necessidade de autorização de espécie alguma da autoridade policial”.

Margarida Pressburger, ao lado de Alcyr Cavalcanti: “Estamos vivendo um momento muito peculiar”

“A garotada não tem medo”

Na mesma linha do pronunciamento do Presidente da ABI, Margarida Pressburger condenou o recrudescimento da violência policial e chamou a atenção para o papel social do jornalista no contexto da democracia. “Estamos vivendo um momento muito peculiar no Brasil, pois ao mesmo tempo em que crescem as manifestações, demonstrando que a juventude está ativa, explode a violência daqueles que deveriam nos proteger. A violência contra jornalistas, contra aqueles que nos trazem a notícia e que cumprem uma missão, é inaceitável, assim como a violência contra manifestantes pacíficos, como estamos vendo acontecer. Estou preocupada, mas não tenho medo. A garotada também está enfrentando todos os medos nas ruas. Gostaria de sublinhar o trabalho da Mídia Ninja, que nos oferece a informação isenta, livre da manipulação que caracteriza alguns jornais de grande circulação em todo o País. O que estamos vendo são imagens reais de uma sociedade que está nas ruas levantando bandeiras importantes e repudiando qualquer forma de violência”, disse Margarida Pressburger. Censura e manipulação

Paula Mairan também assinalou a mobilização popular como um marco na trajetória de luta dos movimentos sociais no País: “A atual conjuntura sinaliza o despertar de consciências e representa um importante momento histórico. Contudo, observamos reações adversas a situações que fragilizam a categoria dos jornalistas, que foram construídas ao longo do tempo e se revelam agora em forma de violência. O jornalista sofre a violência do Estado, a violência dos patrões e a violência de alguns manifestantes, justamente uma ca-

tegoria que historicamente sempre combateu a violência. Durante a ditadura, por exemplo, a participação dos profissionais de imprensa foi essencial na luta contra a opressão e a censura. Muitos jornalistas morreram e tantos outros foram presos e torturados em nome da liberdade de imprensa e da liberdade política no País”. Para a recém-eleita Presidente do Sindicato dos Jornallistas do Município do Rio de Janeiro, a violência contra a imprensa evidenciada pelos manifestantes está relacionada ao monopólio da mídia imposto pelos donos dos meios de comunicação: “Vivenciamos no País a ausência de espírito democrático na comunicação. A mídia está concentrada nas mãos de poucos empresários, que controlam a linha editorial dos veículos, resultando em censura e manipulação. A revolta da população contra a manipulação da notícia está sendo transferida para a figura do jornalista. Nada justifica a violência contra os profissionais de imprensa”. O aprofundamento do debate sobre a realidade da mídia no Brasil é, na opinião de Paula Mairan, fundamental para ampliar o diálogo com a sociedade: ”Há pouca compreensão sobre o verdadeiro papel do jornalista. Desejamos trabalhar com autonomia e respeito ao código de ética da nossa categoria, que, por exemplo, nos dá o direito de negar tarefas que possam ferir os valores éticos da profissão. A crescente violência representa uma ameaça à liberdade de imprensa e à democracia. Vejo com muita preocupação a tentativa de preservar a segurança e o trabalho dos jornalistas passando pela via militarizada. A solução está na ampliação do diálogo da categoria com a sociedade. É preciso que a população entenda o sistema de monopólio no qual se insere a imprensa brasileira”.

O inimigo: o povo

O sociólogo e cientista político Paulo Bahia discorreu sobre o contexto histórico da trajetória da Polícia Militar no Brasil e o perfil repressor das forças de segurança: “A violência contra os jornalistas é emblemática no sentido em que representa a violência contra todas as formas de liberdade. A Polícia Militar brasileira foi criada em 1808, como uma força de segurança para proteger o Estado e a Família Imperial contra o povo, para eles a figura do inimigo. A estrutura da PM está organizada até os dias de hoje em torno da defesa do Estado, e não da população. Precisamos de uma nova estrutura policial que defenda a soberania nacional, mas também a sociedade. Essa discussão tem pelo menos 60 anos. Já era feita por Tavares Bastos e por Rui Barbosa. É preciso destacar que convém às elites um tipo de polícia que percebe a população como inimiga”. Em sua análise, Bahia ressaltou que, apesar das limitações impostas ao jornalista pelo monopólio das mídias de largo alcance, o discurso da imprensa consegue ser percebido: “O trabalho da imprensa gera ruídos, e os fatos acabam transbordando, mesmo diante da imposição de uma linha editorial. A discussão clássica que enaltece a versão em detrimento do fato é utilizada porque são produzidas narrativas e versões, mas os fatos estão aí para superá-las”. Bahia destacou o exemplo de outros países para a renovação da estrutura policial: “A criação de uma nova polícia é uma solução viável. Esta realidade já foi vivenciada na Inglaterra, em Nova York, oito vezes, em Chicago, seis vezes, na Alemanha pós-unificação, e na Polônia. O momento atual é de preocupação porque estamos vendo um estado de natureza esquizofrênica e uma estrutura jurídicopolítica e cultural sob a forma de regime de exceção. Precisamos refutar qualquer tipo de violência e lembrar que o jornalista a enfrenta dentro e fora das Redações. O monopólio da fala é limitado no momento em que cada um de nós pode filmar, editar e postar a informação. Este processo comunicativo horizontal e circular está gerando alegria e esperança. A população se encantou com a política e quer participar dos processos decisórios. Esta é a mensagem das ruas”. A platéia opina

Na segunda parte do evento a platéia interagiu com os debatedores fazendo perguntas sobre o tema principal do debate e a respeito de assuntos correlatos de interesse dos jornalistas, expondo suas opiniões a respeito.

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AUTOCRÍTICA

As Organizações Globo confessam, meio século depois, que foi um erro apoiar o golpe militar de 1964 Em extensa justificativa, o conglomerado da família Marinho faz uma revisão de seu comportamento desde a derrubada do Presidente João Goulart. Para surpresa do grande público, as Organizações Globo promoveram no fim de agosto e princípio de setembro uma autocrítica de seu comportamento desde o golpe militar que derrubou o Presidente constitucional João Goulart, em 1º de abril de 1964. A decisão do Conglomerado Globo foi adotada no âmbito do seu Projeto Memória, com o qual o jornal reproduziu todas as páginas que editou ao longo de seus 88 anos, e precipitada pelas manifestações de rua de junho e julho passado, que incluíram vigorosas demonstrações de repúdio à atuação dos veículos dos Marinho nos 21 anos de regime militar. Em artigo em seu Observatório da Imprensa, o jornalista Alberto Dines apontou a decisão como impensável e reclamou que a Folha de S. Paulo siga esse exemplo. O texto da autocrítica: “RIO - Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura. Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro. Há alguns meses, quando o Memória estava sendo estruturado, decidiu-se que ele seria uma excelente oportunidade para tornar pública essa avaliação interna. E um texto com o reconhecimento desse erro foi escrito para ser publicado quando o site ficasse pronto. Não lamentamos que essa publicação não tenha vindo antes da onda de manifestações, como teria sido possível. Porque as ruas nos deram ainda mais certeza de que a avaliação que se fazia internamente era correta e que o reconhecimento do erro, necessário. Governos e instituições têm, de alguma forma, que responder ao clamor das ruas. De nossa parte, é o que fazemos agora, reafirmando nosso incondicional e perene apego aos valores democráticos, ao reproduzir nesta página a íntegra do texto sobre o tema que está no Memória, a partir de hoje no ar: 1964

Diante de qualquer reportagem ou editorial que lhes desagrade, é freqüente que aqueles que se sintam contrariados lembrem que O GLOBO apoiou editorialmente o golpe militar de 1964. A lembrança é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá-la. É História. O GLOBO, de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como “O Estado de S.Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”, para 10

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Na edição de 31 de março de 1964, todas as manchetes da primeira página de O Globo refletem a preocupação com a “crise” em Brasília e o avanço da “influência comunista no Brasil”. No dia 2 de abril, o editorial afirma: “Ressurge a democracia!”

citar apenas alguns. Fez o mesmo parcela ção de João Goulart, iniciada tão logo conimportante da população, um apoio expresseguiu, em janeiro de 1963, por meio de pleso em manifestações e passeatas organizabiscito, revogar o parlamentarismo, a saída das em Rio, São Paulo e outras capitais. negociada para que ele, vice, pudesse assuNaqueles instantes, mir na renúncia do Presi“A divisão ideológica do dente Jânio Quadros. justificavam a intervenção dos militares pelo Obteve, então, os poderes mundo na Guerra Fria, temor de um outro golpe, plenos do presidencialisentre Leste e Oeste, a ser desfechado pelo Premo. Transferir parcela comunistas e capitalistas, substancial do poder do sidente João Goulart, com amplo apoio de sinse reproduzia, em maior Executivo ao Congresso dicatos – Jango era critihavia sido condição exigiou menor medida, em cado por tentar instalar da pelos militares para a cada país. No Brasil, ela posse de Jango, um dos uma “república sindical” – e de alguns segmentos era aguçada e aprofundada herdeiros do trabalhismo das Forças Armadas. varguista. Naquele tempela radicalização Na noite de 31 de marpo, votava-se no vice-prede João Goulart.” ço de 1964, por sinal, O sidente separadamente. GLOBO foi invadido por fuzileiros navais Daí o resultado de uma combinação idecomandados pelo Almirante Cândido Araológica contraditória e fonte permanengão, do “dispositivo militar” de Jango, como te de tensões: o presidente da UDN e o se dizia na época. O jornal não pôde circuvice do PTB. A renúncia de Jânio acendeu lar em 1º de abril. Sairia no dia seguinte, 2, o rastilho da crise institucional. quinta-feira, com o editorial impedido de A situação política da época se radicaser impresso pelo almirante, “A decisão da lizou, principalmente quando Jango e os Pátria”. Na primeira página, um novo edimilitares mais próximos a ele ameaçavam torial: “Ressurge a Democracia”. atropelar Congresso e Justiça para fazer A divisão ideológica do mundo na Guerreformas de “base” “na lei ou na marra”. Os ra Fria, entre Leste e Oeste, comunistas e quartéis ficaram intoxicados com a luta capitalistas, se reproduzia, em maior ou política, à esquerda e à direita. Veio, então, menor medida, em cada país. No Brasil, ela o movimento dos sargentos, liderado por era aguçada e aprofundada pela radicalizamarinheiros – Cabo Ancelmo à frente –,

a hierarquia militar começou a ser quebrada e o oficialato reagiu. Naquele contexto, o golpe, chamado de “Revolução”, termo adotado pelo GLOBO durante muito tempo, era visto pelo jornal como a única alternativa para manter no Brasil uma democracia. Os militares prometiam uma intervenção passageira, cirúrgica. Na justificativa das Forças Armadas para a sua intervenção, ultrapassado o perigo de um golpe à esquerda, o poder voltaria aos civis. Tanto que, como prometido, foram mantidas, num primeiro momento, as eleições presidenciais de 1966. O desenrolar da “revolução” é conhecido. Não houve as eleições. Os militares ficaram no poder 21 anos, até saírem em 1985, com a posse de José Sarney, vice do Presidente Tancredo Neves, eleito ainda pelo voto indireto, falecido antes de receber a faixa. No ano em que o movimento dos militares completou duas décadas, em 1984, Roberto Marinho publicou editorial assinado na primeira página. Trata-se de um documento revelador. Nele, ressaltava a atitude de Geisel, em 13 de outubro de 1978, que extinguiu todos os atos institucionais, o principal deles o AI5, restabeleceu o habeas corpus e a independência da magistratura e revogou o Decreto-Lei 477, base das intervenções do regime no meio universitário.


FOLHA IMAGEM

Destacava também os avanços econômicos obtidos naqueles vinte anos, mas, ao justificar sua adesão aos militares em 1964, deixava clara a sua crença de que a intervenção fora imprescindível para a manutenção da democracia e, depois, para conter a irrupção da guerrilha urbana. E, ainda, revelava que a relação de apoio editorial ao regime, embora duradoura, não fora todo o tempo tranquila. Nas palavras dele: “Temos permanecido fiéis aos seus objetivos [da revolução], embora conflitando em várias oportunidades com aqueles que pretenderam assumir a autoria do processo revolucionário, esquecendo-se de que os acontecimentos se iniciaram, como reconheceu o marechal Costa e Silva, ‘por exigência inelutável do povo brasileiro’. Sem povo, não haveria revolução, mas apenas um ‘pronunciamento’ ou ‘golpe’, com o qual não estaríamos solidários.” Não eram palavras vazias. Em todas as encruzilhadas institucionais por que passou o país no período em que esteve à frente do jornal, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade. Cobrou de Getúlio uma constituinte que institucionalizasse a Revolução de 30, foi contra o Estado Novo, apoiou com vigor a Constituição de 1946 e defendeu a posse de Juscelino Kubistchek em 1955, quando esta fora questionada por setores civis e militares. Durante a ditadura de 1964, sempre se posicionou com firmeza contra a perse-

Castello Branco é empossado: “Sem povo, não haveria revolução, mas apenas um ‘pronunciamento’ ou ‘golpe’, com o qual não estaríamos solidários”.

guição a jornalistas de esquerda: como é notório, fez questão de abrigar muitos deles na redação do GLOBO. São muitos e conhecidos os depoimentos que dão conta de que ele fazia questão de acompanhar funcionários de O GLOBO chamados a depor: acompanhava-os pessoalmente para evitar que desaparecessem. Instado algumas vezes a dar a lista dos “comunistas” que trabalhavam no jornal, sempre se negou, de maneira desafiadora. Ficou famosa a sua frase ao general Juracy Magalhães, ministro da Justiça do Presidente Castello Branco: “Cuide de seus comunistas, que eu cuido dos meus”.

Nos vinte anos durante os quais a ditadura perdurou, O GLOBO, nos períodos agudos de crise, mesmo sem retirar o apoio aos militares, sempre cobrou deles o restabelecimento, no menor prazo possível, da normalidade democrática. Contextos históricos são necessários na análise do posicionamento de pessoas e instituições, mais ainda em rupturas institucionais. A História não é apenas uma descrição de fatos, que se sucedem uns aos outros. Ela é o mais poderoso instrumento de que o homem dispõe para seguir com segurança rumo ao futuro: aprende-se com os erros cometidos e se enriquece ao reconhecê-los.

Os homens e as instituições que viveram 1964 são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva. O GLOBO não tem dúvidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do País. À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.”

Enfim, a primavera da mídia brasileira POR ALBERTO DINES Impensável, mas aconteceu. Com destaque, solenidade e brio, sem justificativas mornas, dubiedades ou disfarces, O Globo, carro-chefe das Organizações Globo, o maior grupo de mídia do Brasil e um dos mais importantes do mundo, admitiu – depois de discussões internas que duraram anos – que o apoio ao golpe militar de 1964 foi um equívoco. Também o apoio à ditadura que se seguiu ao longo dos 21 anos seguintes. A monumental e inédita autocrítica estava na edição digital desde a véspera, sábado (31/8). Na edição impressa (domingo, 1/9) ocupou duas páginas (14 e 15) com uma chamada discreta na capa, abaixo do cabeçalho, remetendo ao Projeto Memória, com a digitalização dos 88 anos de história do jornal. Não foi a única confissão. O jornal também reconheceu que a tíbia cobertura da campanha das Diretas Já resultou de um erro de avaliação político-jornalístico. Porém contestou as acusações de ter conspirado para derrubar Getúlio Vargas em 1954 e de tentar a manipulação dos resultados da eleição de Leonel Brizola para o Governo do Rio, em 1982 (Caso Proconsult).

O jornal pretendia lançar o Projeto Memória meses atrás, antes dos protestos de junho, mas assume que o clamor das ruas veio provar que o reconhecimento do erro era necessário. “A lembrança [do apoio aos militares] é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá-la. É História.” Disfunções da concorrência

Rebuliço nas redes sociais e blogs, agito no plantão dominical das Redações. Globonews e Rede Globo permaneceram caladas, no G1 um insignificante registro. A grande repercussão começará na primeira semana deste nono mês do ano, a Época Primeira, tempo primordial. Esta primavera pode mudar o País. Uma nova transparência da imprensa pode criar novos paradigmas para a sociedade. Três meses depois, a reverberação das ruas pode converter-se em mudanças efetivas. Indício concreto: o comunicado da Infoglobo Comunicação e Participações, a holding dos jornais Globo, Extra e Expresso, onde promete revisar sua política de venda de espaços publicitários. Em

outras palavras: abandonará as práticas de dumping que vinham impedindo a sobrevivência de qualquer jornal no Rio de Janeiro além desses. A promessa faz parte de um compromisso formal firmado com o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). O comunicado foi publicado no mesmo domingo (1/9), no caderno de Economia, numa página par ( 34), ocupando um quarto de página. Poucos repararam. Significa que o poderoso Grupo Globo admite a ingerência de uma entidade reguladora da concorrência sem abrir as baterias contra uma suposta “tentativa de cerceamento de liberdade de expressão”. É um avanço extraordinário. Abre caminho para que o mesmo Cade examine outras disfunções concorrenciais no campo da mídia tais como a propriedade cruzada de veículos eletrônicos e impressos numa mesma região.

que manteve contatos com a repressão e permitiu que a sua Redação fosse infiltrada por agentes dos chamados “órgãos de segurança”, na esteira da decretação do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968. Mas o fez de forma enviesada, sem a desinibição e a candidez do concorrente carioca. Ainda pode avançar. Sobretudo porque em matéria de diversidade política está à frente dos demais veículos de comunicação. Uma advertência se faz imperiosa: penitenciar-se do passado implica obrigatoriamente mudanças no presente. A contrição deve resultar, senão em reparação, pelo menos em superação. O cultivo da culpa e do remorso só faz sentido quando acompanhado por correções. A histeria ideológica que levou a imprensa a engajar-se numa quartelada desastrosa há quase meio século não pode ser repetida agora, ainda que motivações e pretextos pareçam distintos. Bater no peito é prova de consciência; estender a mão, sinal de maturidade

Motivações distintas

A Folha de S.Paulo também assumiu seus pecados políticos ao reconhecer

(Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa, em 3 de Setembro)

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FRANCISCO UCHA

DEPOIMENTO

LEONOR DE SOUZA PINTO

“A censura militar foi muito bem articulada” Pesquisadora luta para continuar projeto de digitalização dos documentos que censuraram e mutilaram o cinema brasileiro durante os anos de chumbo. P OR F RANCISCO U CHA

Se há uma coisa que tira nossa entrevistada do sério é alguém fazer pouco caso sobre a ação da censura militar instaurada no País depois do golpe de 1964, ou fazer piada com a atuação dos censores, muitas vezes tachados de ignorantes. Não, a censura não era burra. Nunca foi. Diz Leonor de Souza Pinto, nossa entrevistada, que não havia nada de improvisado e os censores tinham uma formação político-ideológica consistente. “As estruturas de repressão foram milimetricamente calculadas por um grande estrategista, Golbery do Couto e Silva, que também reorganizou e redirecionou a censura para que ela cumprisse o seu papel”, lembrou Leonor de Souza Pinto em depoimento ao Jornal da ABI. Leitora compulsiva, atriz, pesquisadora especializada na ação da censura durante a ditadura militar, Leonor criou um projeto inovador em 2005: o site Memória da Censura do Cinema 12

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Brasileiro (memoriacinebr.com.br), que coloca à disposição de qualquer um que tenha acesso à internet uma vasta documentação sobre a censura que mutilou filmes e dificultou a carreira de muitos cineastas no Brasil. Mas hoje, com apenas 13% dos documentos que estão disponíveis no Arquivo Nacional digitalizados, Leonor luta para continuar seu inestimável projeto. Para isso, depende de sua aprovação nas atuais leis de incentivo. Uma missão quase impossível. “Nosso projeto está censurado desde 2007. Censurado pelo mercado de incentivo cultural, porque parece que não interessa a nenhuma empresa. Não é vendável; é um projeto de utilidade pública, de resgate da história. Dependemos dos editais públicos dos governos”, lamenta a pesquisadora, que acordou para o Brasil criado pela ditadura depois de assistir ao filme Pra Frente Brasil, de Roberto Farias. Conheça essa história a seguir.

Jornal da ABI – Você já queria ser atriz desde criança? Como uma atriz se torna pesquisadora do cinema brasileiro? Leonor de Souza Pinto – Na verdade, tudo se liga. Gosto muito de ler e sou muito curiosa, desde menina. Era de uma família muito pobre, uma situação bem complicada. Mãe viúva, com três filhos pequenos – meu pai morreu quando eu tinha nove anos, o outro tinha dois e o mais novo ainda não havia nascido; mamãe estava grávida de sete meses. A gente morava em São Carlos, no interior de São Paulo. Minha família sempre incentivou muito a leitura e desde pequenininha liam para mim. Meu pai tinha uma empresa que estava começando quando morreu num acidente de carro, que se chamava Divulgadora Cultural Elo. A idéia dele era levar o conhecimento para o interior do País, tirar de São Paulo e levar para o interior bons livros e enciclopédias. Ele trabalhava com as Prefeituras tentando fechar vendas para as escolas e bibliotecas públicas. Quando morreu, deixou uma empresa que ninguém podia dar conta, porque minha mãe não trabalhava com ele, era dona de casa. Como não tínhamos dinheiro para comprar livros, com uns doze anos eu ia para a escola de manhã, saía correndo da escola e ia para a biblioteca pública e pegava um livro. Eu cuidava dos meus irmãos também. Lavava, passava, cozinhava, levava meus irmãos para a escola e ia buscar, porque minha mãe ia trabalhar. Então, lia o livro durante a noite. Deitava e ficava lendo até duas horas da manhã. Acordava cedo para ir para a escola, com o livro já lido. Eu lia um livro por noite. Se não fosse em uma noite, eram duas, mas era essa a mecânica. Era quase um vício, e era como eu me relacionava com o mundo, porque nós vivíamos numa sociedade muito opressiva para a situação em que a gente ficou. Li tudo, dos doze até os dezesseis anos. Mais velha, comecei a ler Jorge Amado, porque antes não podia, a biblioteca não deixava. Estudava literatura no colégio e lia rigorosamente tudo o que era citado nas aulas. Jornal da ABI – Você estudava em escola pública? Leonor – Sempre estudei em escola pública. Quando meu pai era vivo, eu estudava num colégio católico, o São Carlos – que, aliás, eu odiava. Mas depois que ele morreu eu fui para a escola pública e gostei. Estudei no Instituto Estadual de Educação Doutor Álvaro Guião, em São Carlos, que ficava num prédio de um quarteirão inteiro, uma coisa linda, majestosa. Conseguir entrar nesse Instituto era uma batalha. Quando eu tinha uns 15 anos, veio a tal reforma que o Governo fez, do segundo grau profissionalizante, e os alunos tinham que escolher uma área: Humanas, Exatas, Biológicas. Eu escolhi Humanas. Então, no primei-

ro ano, o diretor do Teatro Municipal de São Carlos foi ao Instituto dar uma palestra e convidar os alunos a conhecer o Teatro Municipal. É que havia em São Paulo um movimento de teatro amador fortíssimo e organizadíssimo. E existia um festival que se chamava Festival Estadual de Teatro Amador do Estado de São Paulo. As cidades tinham os seus teatros, os seus grupos de teatro amador, cada um montava a sua peça. Mas eu fui para essa palestra e ele explicou isso, e disse que existiam cinco ou sete grupos amadores ativos em São Carlos e todo ano cada um montava uma peça. Todo mundo se inscrevia e fazia uma fase eliminatória do Festival. E eu fiquei apaixonada por aquilo. E entrei para um grupo de teatro amador, fiz duas peças no primeiro ano. Isso foi em 1974. E foi aí que começam as coisas que vão me levar a descobrir a brutalidade da censura. Jornal da ABI – Você era adolescente e fazia teatro amador. Mesmo assim você teve problemas com a censura? Leonor – Sim. Mas eu nem sabia o que era ‘censura’. Eu só conhecia a biblioteca de São Carlos, meu colégio, minha casa e o teatro. Fora isso, o mundo, para mim, era nada. Mas tive o meu primeiro embate físico com a censura num dia, quando o diretor chegou e disse “Amanhã temos o ensaio para a censura”. E eu falei: “Mas o que é isso?” E ele: “Tem que ter, é a censura!”. Para mim isso era uma informação nova. E quando o texto voltou, havia umas partes marcadas com uns borrões pretos. E eu perguntei: “O que éissoaqui?”Eodiretorrespondeu:“Isso foi censurado”. E não perguntei mais nada. Quando a peça estava pronta, tinha que apresentar a montagem para a censura. Então, fui apresentada formalmente à censura em 1974. Jornal da ABI – Isso aconteceu muitas vezes? Leonor – Em 1975 entrei para um novo grupo de teatro amador: o São Sebastião. Nós íamos montar uma peça chamada Nova Peça, e o diretor chamou o Celso Brambilla, um estudante de Engenharia da UFSCar, para fazer o papel de um escritor. Mas deu um monte de problemas com esse Celso Brambilla, que eu nem sabia quem era. Eu não tinha nenhuma ligação com movimento político, nada. E quando íamos fazer o ensaio para a censura, o Celso resolveu que não ia participar, depois de ensaiarmos durante três meses! E começou com um discurso que, para mim, não fazia o menor sentido. Disse que era uma montagem reacionária. Ele e o diretor discutiram. E eu falei: “Eu não quero saber! Você vai fazer porque teve três meses para dizer isso! Ninguém te obrigou, você foi convidado e leu o texto. Se você não fizer, a gente não vai participar do festival e isso é sacanagem!” Enfim, foi uma pressão enorme, e ele resol-


A imprensa fez uma enorme campanha para que o filme Pra Frente Brasil fosse liberado para exibição pela Censura Federal.

veu fazer. Havia outros atores, mas nós dois segurávamos a peça inteira. Só que ele resolveu entrar em cena e ficar mudo. Não dizia a fala dele. O diretor ficou desesperado na coxia e, numa hora em que saí de cena falei com o diretor que ia dar um jeito. “Vou acabar com esse cara em cena. Ele vai ficar tão envergonhado que vai começar a dizer o texto”. Voltei para o palco e, como ele continuava sem falar, eu passei a dizer o texto dele e o meu. Como era uma peça de teatro de absurdo, cabia. Eu olhava para ele e ele não dizia, eu falava. E ele ficou parado, em choque, porque não esperava essa atitude. E eu fiz isso até o final. A peça foi desclassificada, mas foi ótimo a gente ter feito; foi uma grande vitória. No ano seguinte, eu fui para os Estados Unidos, porque ganhei uma bolsa de estudos do programa American Field ServiceAFS, que levava pessoas para estudar um ano lá. Fui em julho de 1976 e voltei em julho de 1977. Na volta, teve uma confusão com o vôo que ia levar os bolsistas daquele ano e a gente teve que ficar mais vinte dias em Nova York por causa desse atraso. Aborrecida, sem nada para ler – o que era um problema para mim – uma amiga, que havia conhecido nessa viagem, disse que tinha uma coleção da revista Veja e me ofereceu. Peguei as revistas e comecei a ler. E, para minha surpresa, quem estava na capa de uma delas? O Celso Brambilla! Foi um choque! Ele tinha sido preso numa manifestação no ABC Paulista, numa das famosas greves. Ele ficou preso mais de um ano e foi barbaramente torturado. Mas, tinham conseguido libertá-lo. E aquela reportagem falava da libertação dele, que saiu da prisão surdo e com problemas na visão, por tortura. Percebe? A minha história com a censura foi um quebra-cabeça num jogo no qual eu não tinha todas as peças. Naquela época, em 1975, quando o Brambilla fez aquilo na peça, já tinha a ver com uma opção política que ele estava fazendo naquele momento, e certas coisas já não se encaixavam. E como era tudo clandestino, ele não podia dizer nada. Tudo fez sentido, e eu nunca mais vi o Brambilla. Aí, vim para o Rio fazer faculdade de Teatro. No Rio, tinha a família do meu pai, que era carioca, mas fui morar sozinha porque, fazendo Teatro, eu virei a ovelha mais do que negra da família. Minha mãe enlouqueceu. Vim na cara dura fazer teatro. Fiz a UniRio, que na época tinha outro nome. Era na Praia do Flamengo 132, no prédio da Une. Vim para o Rio em 1979. Quando estava começando o terceiro semestre da faculdade, cheguei para a aula e, meia hora depois, a Polícia do Exército tirou todo mundo de dentro do prédio, inclusive a direção, em fila indiana, e destruiu o prédio, botou abaixo. Esse foi meu primeiro embate com a repressão, e aí eu me envolvi com o movimento estudantil, na batalha para conse-

guir um outro local para a gente. Foram uns dois meses de loucura, reuniões permanentes, vigília na Casa do Estudante Universitário, no Flamengo, passeatas, atos públicos, um esquema que não deu em nada e o prédio acabou demolido. As peças do quebra-cabeça que me faltavam começam a vir para a minha mão e eu passei a entender o que estava acontecendo. No dia do atentado ao RioCentro, eu só não estava lá porque não tinha dinheiro para o ingresso. Foi como se aquela capa da Veja tivesse aberto para mim um Brasil que eu não conhecia. O ‘clic’ final foi o filme do Roberto Farias, Pra Frente Brasil, que passou mais de um ano confiscado, depois de ser exibido no Festival de Gramado. Depois de uma megacampanha da imprensa, que já não estava mais sob censura prévia, fui à pré-estréia do filme no Roxy. Ali me deu o ‘clic’, porque Pra Frente Brasil fala exatamente da época em que eu morava em São Carlos lendo meus livros, torcendo pelo Brasil na Copa, cantando o Hino Nacional obrigatoriamente toda segunda às sete horas da manhã. A minha mãe tinha conseguido comprar o primeiro carro da vida dela, um Fus-

ca. A primeira coisa que ela fez foi, muito orgulhosamente, colar no vidro do carro “Brasil, ame-o ou deixeo”, e nós fizemos uma foto ao lado do carro. E eu me lembro do meu orgulho. Para mim era apenas uma declaração de amor ao Brasil, mais nada. Este é o país que vai pra frente era um hino que a gente cantava. Na minha época de movimento estudantil, íamos à noite à Saint Roman, que era onde ficava a sede do Pasquim, pegar os jornais e distribuir! Era uma ação revolucionária distribuir aqueles jornais! Eu tinha amigos que eram da Unidade, do MR8. Era o grupo de amigos que tinham a ver com aquela menina que eu conheci nos Estados Unidos, que era carioca e tinha feito a bolsa de estudos comigo. Quando eu vim para o Rio, entrei em contato com ela e entrei para turma dela. Jornal da ABI – Mas você foi perseguida ou presa? Leonor – Nunca, porque eu não participei de grupo político, nunca me filiei a ninguém. Eu era independente e era muito criticada por todos, mas não entrava para os grupos. Eu não conseguia concordar 100% com nenhum deles.

Jornal da ABI – Ao mesmo tempo ia fazendo peças? Leonor – Ah, sim. Nessa fase em que a gente fez esse movimento todo pelo prédio da Une, alguém disse que já que éramos uma escola de teatro devíamos fazer alguma coisa que tivesse a ver com a gente, e alguém trouxe uma peça do João das Neves, que eu só conhecia de nome. Não vi O Último Carro, que foi um grande sucesso, porque era menor de idade, ainda morava em São Carlos, e as pessoas tinham que ir a São Paulo para ver a peça. E todo mundo comentava sobre ela e eu salivava, mas não tinha dinheiro para ir. Quando vim para o Rio, assisti Mural Mulher. João das Neves, que era da Une, foi igualmente expulso quando incendiaram o prédio. Ele estava dentro do prédio e escapou pelos fundos, como todo mundo, pulando o muro. Depois escreveu uma peça chamada O Quintal, que conta exatamente o momento da invasão do prédio. Vieram com a peça e a sugestão de fazer leituras dramáticas nos atos; eu me candidatei e fiz parte dessas leituras dramáticas. A gente foi fazer uma convocação na Puc para um ato público, e alguém me disse que o João das Neves iria ver. Fizemos a leitura, João veio, se apresentou, falou com a gente, e fui embora para casa. Tempos depois, me falaram que o João das Neves estava me procurando. Ele ia montar uma peça chamada Café da Manhã, que veio a ser a última peça do Grupo Opinião, e lembrou de mim, da leitura de O Quintal, para um papel. Era uma peça completamente diferente de tudo que o João tinha feito antes. Era um drama intimista, psicológico. Ninguém entendeu nada, porque todos os críticos queriam uma peça de João das Neves, um outro O Último Carro. E caíram de pau. Tenho até hoje a matéria da Veja. Cláudio Bojunga, da Veja, veio ao Rio uma semana antes e bateu no teatro. A gente estava ensaiando. Alguém veio e disse: “O Cláudio Bojunga está aí e quer ver a peça”. E o João disse: “O Cláudio Bojunga é crítico, ele está convidado para a estréia”. “Mas ele quer ver agora”.“Absolutamente,nãovaientrar. É um ensaio, ele não pode ver”. E ele teve de voltar na semana seguinte para a estréia da peça. Conclusão: a matéria da Veja inicia assim: “Começa mal, mas consegue ficar muito pior”. Foi o título da crítica da Veja. Isso saiu no dia seguinte à estréia, então foi uma coisa feita na maldade mesmo. Jornal da ABI – Mas todos os críticos foram dessa opinião? Leonor – Não. Lembro muito bem da crítica do Yan Michalski, que foi meu professor na faculdade de teatro. A minha faculdade de teatro valeu a minha vida. A crítica do Yan eu considero correta. A peça realmente não era tão boa, mas tinha méritos, e o Yan faz uma crítica que é exatamente isso. Ele critica o que acha que não é bom, mas ressalta as qualidades da

direção, dos atores. Afinal de contas, não era possível que João das Neves, depois de uma vida no Teatro Opinião, fizesse um trabalho que “começa mal e consegue ficar pior”. Fizemos essa temporada, três meses no Teatro Sesc, e acabou ali. E assim, eu virei atriz profissional. Jornal da ABI – Como você se interessou pela pesquisa? Leonor – A pesquisa sempre foi uma coisa que me interessou. Minha primeira bolsa de pesquisa foi de Iniciação Científica do CNPQ para estudar o Teatro do Oprimido, que eu estava conhecendo pela primeira vez porque, com a anistia, o Boal (Augusto Boal) consegue voltar para o Brasil e apresenta o Teatro do Oprimido. Ele fez um seminário, era uma semana de laboratório sobre o Teatro do Oprimido, no Teatro Cacilda Becker. Eu me inscrevi, fiz esses laboratórios e foi maravilhoso. Certa vez, o Yan Michalski e o Roberto de Cleto, que era meu professor de interpretação, sugeriram que eu mudasse de curso, porque eu estava fazendo interpretação. E o Cleto falou assim: “Leonor, nesta faculdade você não tem mais nada o que aprender no curso de interpretação. Você já é uma atriz profissional. Está perdendo o seu tempo. Se você quer estudar, faça um curso que dê base ao seu talento de atriz. Faça Teoria Teatral.” – que era uma das cinco especialidades: Direção, Interpretação, Figurino e Maquiagem, Cenário e Teoria Teatral. Eu concordei e fui para a Secretaria e mudei de curso. Teoria Teatral, que era um curso totalmente teórico, monográfico, maravilhoso, e o Yan era um dos professores. E o CNPQ veio na seqüência disso, porque o meu orientador na bolsa do Teatro do Oprimido foi o Henrique Oscar da Silva Araújo, que foi também um grande crítico de teatro, já falecido. Lembro que fui pedir para a Bárbara Heliodora, que também era minha professora. Ela dava alguma cadeira em que pudesse falar de Shakespeare. Entrei na sala e falei “Oi Bárbara, quero fazer uma pesquisa no CNPQ...”. E ela: “Ah, mas que ótimo. Finalmente alguém desta faculdade vai fazer uma coisa teórica”. Eu falei: “Pois é, queria que você fosse minha orientadora”. E ela concordou: “Claro, claro. O que é que você vai fazer?” Eu falei: “Vou estudar o Teatro do Oprimido de Augusto Boal”. Ela recostou na cadeira e disse: “Não perca o seu tempo com essa bobagem!” (risos) Eu falei: “Mas Bárbara, não é uma bobagem. Até tem coisas com que eu não concordo, mas é um movimento importantíssimo que está chegando agora no Brasil, os primeiros grupos saíram agora”. E ela: “Você tem talento demais para perder com essa bobagem. Para isso, eu não serei sua orientadora. Se escolher algum outro tema, pode me procurar, mas este não”. Virou as costas e foi embora (risos). Aí, cheguei para o

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Laudos de censores proibindo a exibição dos filmes El Justicero, de Nelson Pereira dos Santos, e Guerra Conjugal, de Joaquim Pedro de Andrade.

Henrique Oscar e disse a mesma coisa e ele respondeu: “Ah, que bom! Vamos fazer!” E comecei. Eu fazia monografias, duas ou três por semestre, e fazia a pesquisa do CNPQ, fiquei um ano com essa bolsa. Jornal da ABI – Mas como passou a se interessar pelo audiovisual? Leonor – Foi bem mais tarde. Me afastei do teatro porque não dava dinheiro. Me chamavam para trabalhar sem salário, aquelas coisas de teatro, mas fui me aproximando do audiovisual. Aí me chamam para fazer novela na Globo. Comecei a fazer televisão e amei a linguagem, a coisa da rapidez, outros desafios que o audiovisual coloca, completamente diferente do teatro. Continuei fazendo traduções e fui para a Europa em 1993. Na França fiz a Faculdade de Letra Moderna na Universidade de Toulouse, onde meu trabalho de Mestrado foi Censura no Teatro. Lá nem se chama mestrado, o título equivalente é Diploma de Estudos Aprofundados, que é feito em um ano – não em dois, como aqui – com carga horária de aulas ao mesmo tempo em que se tem que desenvolver uma monografia, um projeto. Passando nesse curso, eles te admitem no Doutorado. Jornal da ABI – E como surgiu o projeto do site Memória da Censura no Cinema Brasileiro? Leonor – Eu morava na Europa quando a internet estava começando. Iniciei o doutorado no segundo semestre de 1997, e fiz até 2001. Eu tive bolsa da Capes para os dois últimos anos de doutorado. E foi isso que proporcionou a minha pesquisa de campo, porque eles pagaram; foi no Governo Fernando Henrique. Assim, eu pude voltar ao Brasil e ficar seis meses fazendo a pesquisa de campo. Fui a Brasília, ao Arquivo Nacional, e conheci todos os arquivos da censura ao cinema durante a ditadura militar e peguei o material que ia usar na tese. Voltei e fiz a tese. E foi um tiro certeiro, pois estava ali tudo o que eu precisava para provar que havia embasamento teórico e científico na censura enquanto montagem de um sistema patrocinador de um governo fascista. Que não havia nada de jocoso, improvisado e idiota. E tentei fazer uma amostragem dos filmes da minha vivência. Fui pegando filmes que eu tinha visto, como Pra Frente Brasil, que foi marcante, e montei um corpo de trabalho: alguns filmes do Nelson Pereira dos Santos – Memórias do Cárcere e Como era Gostoso o Meu Francês –, dois do Roberto Farias – Assalto ao Trem Pagador e Pra Frente Brasil –, do Carlos Diegues – Bye Bye Brasil. Ampliei um pouco com outros filmes e fiz o trabalho de doutorado. Voltei para o Brasil com isso pronto, com todos os documentos dentro de um baú que comprei para trazer da Europa toda a papelada. Porque fui para o Arquivo Nacional, tirei cópia de tudo, encadernei, e com

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aquilo fiz o doutorado. Fiz o que tinha que fazer. Sabia que esse trabalho era importante, porque tinha feito com seriedade, tinha embasado muito bem. Mas o que eu iria fazer com esse material importantíssimo? Um livro? Não daria para mostrar tantos documentos, relatórios do Deops, processos de censura num livro... Então, como as pessoas teriam acesso a todo esse material? Elas iriam pegar um avião e ir a Brasília pesquisar? Esse material tinha que estar disponível para o público! O livro apenas não seria suficiente. Então, pensei em, primeiro, dar acesso a esses documentos preciosos. Imagine a dificuldade de ir ao Arquivo Nacional, em Brasília; ficar dias dentro de um acervo cheio de fungos... Quantas pessoas vão lá para meter o dedo naquelas pastas? Comecei a perceber a grande importância da preservação, e me veio a idéia da digitalização, de colocar tudo na internet. Aí surgiu o programa Petrobras Cultural. Eu queria primeiro fazer um projeto que colocasse essa documentação disponível para as pessoas, na internet, de maneira que, independente de onde elas estivessem, pudessem acessar e, aí sim, eu publicaria o livro. Propus o projeto para a Petrobras meio às cegas. Eu intuía que era a coisa certa a fazer. Jornal da ABI – Tinha um orçamento? Leonor – Mais ou menos. Eu guardo toda a documentação do Projeto Memória. Fiz um microorçamento... Jornal da ABI – Faltou dinheiro no final? Leonor – Não. Eu fiz um orçamento de R$ 120 mil para o primeiro bloco do projeto, que era com todos aqueles cineastas com os quais eu tinha trabalhado na minha tese, mais a obra completa deles, que não estava na tese. Toda a filmografia deles. Eram 22 ou 23 cineastas e a filmografia deles dava três vezes a mais do que eu tinha usado na tese. O Minc cortou R$ 4 mil desse orçamento e eu desenvolvi esse projeto com R$ 116 mil. Foram dois anos de trabalho e o site Memória da Censura do Cinema Brasileiro foi para o ar em 2005. Jornal da ABI – Para dois anos de trabalho, esse orçamento que foi aprovado era pouco... Leonor –Foi pouquíssimo. Mas com isso eu refiz toda a pesquisa no Arquivo Nacional; voltei a Brasília e tudo. Jornal da ABI – E para o segundo bloco do projeto? Conseguiu mais verba? Leonor – No segundo bloco, não sei se cortaram alguma coisa, mas pedi R$ 245 mil e foi aprovado. E esse segundo bloco foi muito maior. Ele já está no ar também. O Projeto Memória foi idealizado concretamente em 2002, para inscrição no primeiro programa Petrobras Cultural, saiu o resultado

em maio de 2003, e foi lançado em dezembro de 2005. Depois a gente trabalhou mais dois anos e em outubro de 2007 a gente entregou o segundo bloco, que é a pornochanchada (veja matéria na página 16), o cinema da Boca do Lixo e o cinema marginal. Esses 14.400 documentos, a criação do site, a equipe inteira, a digitalização, o tratamento das imagens, a catalogação, a criação do banco de dados, o webmaster, o webdesigner, as idas a Brasília, hotel, hospedagem, pesquisa, isso tudo custou os R$ 245 mil mais os R$ 116 mil da primeira parte. Ninguém trabalhou de graça, porque eu não tenho o mau hábito de chamar profissionais para trabalhar de graça... isso eu não faço. Jornal da ABI – Por que alguns recortes de jornais disponíveis no site não têm boa resolução? Leonor – Quando a gente conseguir um patrocínio para continuar o projeto, é uma coisa que eu vou rever. Porque na época em que fizemos a digitalização desses documentos, em 2003, a internet não era rápida como hoje. Então tivemos que diminuir muito o tamanho do documento para facilitar o acesso. A resolução foi reduzida drasticamente para caber no site, para facilitar o download dos documentos. E uma das coisas que eu exigia era a rapidez no download. Queria que qualquer pessoa pudesse acessar o material porque, senão, eu estaria fazendo o oposto do que queria, que era democratizar o acesso. Por isso, algumas imagens podem ter sido reduzidas demais e perderam a qualidade, mas isso pode ser resolvido. Jornal da ABI – Quais os maiores problemas para finalizar o projeto do site? Em relação aos documentos que estão no Arquivo Nacional, há alguma falta? Leonor – Tudo o que existe no Arquivo Nacional dos filmes selecionados está no site. Só não tem a repetição. Porque, dentro de um processo há cópias: cada vez que uma página com um pedido qualquer ia de uma pessoa para outra, gerava uma cópia. A famosa burocracia... Então, os processos têm três ou quatro cópias do mesmo documento. A diferença neles está nas assinaturas e nos carimbos. O nosso objetivo, como

projeto de memória, foi o de resguardar a memória desse período da censura em relação ao cinema brasileiro. O que interessa é a informação, a preservação do conteúdo, e não da forma. Não interessa dispor quatro documentos iguais em que só mudavam as assinaturas. Nesses casos, cada documento foi analisado e escolhido aquele que contivesse todas as assinaturas para ser disponibilizado no site. Mas o processo de cada filme está completo em termos de conteúdo. A não ser que existam mais pastas que não estão catalogadas como deveriam porque, em teoria, o processo deveria ser um só. Mas o filme El Justicero, de Nelson Pereira dos Santos, provou que nem sempre esses processos estão catalogados juntos. O desse filme estava dividido em três ou quatro partes diferentes em lugares diferentes, que a gente localizou e hoje está completo. Mas, na maior parte dos casos, o processo é um só e é fácil de ver. Percebemos que, em se tratando da censura militar, não há regras, nada vale 100%, até porque as regras eram alteradas para atingir o objetivo que eles queriam e não havia nenhum pudor em mudar as próprias regras. Enfim, o que a gente achou está no site. O projeto pretende disponibilizar todos os documentos da censura dos filmes de longametragem exibidos no período da ditadura. O critério não é a data da produção, mas a da exibição porque, a partir de 1964, todo filme para ser exibido publicamente tinha que ter um certificado de censura e, portanto, tinha um processo dentro dos órgãos de censura. E tem mais uma coisa importante: no projeto para a minha tese, registrei todas as entrevistas com uma câmera digital e, um dia, esse material vai se transformar num produto audiovisual. São mais de trinta horas de entrevistas! Entrevistei vários diretores e três censores. Jornal da ABI – E o que disseram esses censores? Leonor – Que estavam fazendo o seu trabalho... Jornal da ABI – Foram todos aposentados? Leonor – E muito bem! As pesso-

as nem ficaram sabendo, mas tenho os Diários Oficiais nos quais foram publicadas as aposentadorias. Quando a censura foi extinta pela Constituição, o que eles iam fazer com centenas de funcionários daquele mega-departamento que não existia mais? Quem tinha tempo de serviço, foi “promovido” a Delegado federal e aposentado. Delegado federal é a carreira de salário mais alto. E aqueles que ainda não tinham tempo de serviço foram promovidos ao mesmo cargo, cumpriram os anos de serviço com esse título e, hoje, são todos aposentados com vencimentos régios! Um prêmio para quem serviu à ditadura. Com honras. Um deles, Coriolano Fagundes, foi diretor da Censura depois que a Solange (Solange Hernandes, chefe da Divisão de Censura da Polícia Federal) saiu. Chegou a diretor na época da abertura. Eu o entrevistei e é uma entrevista maravilhosa. Eu fui com uma equipe de filmagem e toda a equipe teve que aceitar Jesus! Jornal da ABI – Como assim? Leonor – É que ele agora é pastor protestante. Eu disse para minha equipe antes de entrar: “Quem não aceitar Jesus vai ser demitido!” (risos). Sobre a censura, Coriolano falou que estava fazendo o seu trabalho, que tentou salvar tudo o que pôde. A entrevista foi feita na residência dele, em Brasília. Ele abriu a casa dele para nós. No final da entrevista, disse: “Eu gosto muito de cinema. Vocês querem conhecer meu home-theater?”. E fomos todos para um quarto. Quando entramos lá, vimos espantados dezenas de prateleiras com cópias de filmes piratas! Não havia um dvd original. E ele mostrou isso, orgulhoso. Jornal da ABI – Voltando ao seu projeto, o que falta fazer? Quais os critérios para tentar finalizar esse projeto? Leonor – O critério é a importância da obra e a diversidade dos temas. Todos os cineastas que existirem no registro desse acervo do Arquivo Nacional serão incluídos. Vai haver uma seleção da obra de cada cineasta. Quem tiver um único filme estará representado com ele. No último levantamento que fiz, existiam 120 mil documentos. Temos hoje, no Projeto Memória, quase quinze mil documentos já disponíveis, cerca de 13% do que a gente pretende fazer. Agora, o que a gente pretende está censurado desde 2007. Censurado pelo mercado de incentivo cultural, porque parece que este não é um projeto que interessa a nenhuma empresa. Não é vendável; é um projeto de utilidade pública, de resgate da História. Dependemos dos editais públicos dos Governos. Jornal da ABI – Mas o Estado brasileiro não deveria apoiar projetos de resgate da memória como esse? Afinal, não foi o Estado brasileiro


Os censores não queriam nádegas e seios nus, conforme indica esta relação de cortes para o filme Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.

que perseguiu, torturou e matou pessoas por quase 24 anos? Que esmagou veículos de comunicação, destruiu carreiras promissoras de centenas de intelectuais e artistas... Leonor – Também acho. Agora, que não se entenda como uma ação paternalista, nem que o Estado faça, ele mesmo, projetos como o nosso. Também sou contra isso. A minha grande discussão é que o Estado tem um trabalho a fazer que é dele. No caso do acervo da Censura, é obrigação do Estado cuidar para que essa documentação física se preserve. Esse não é o trabalho do Projeto Memória. São duas coisas completamente diferentes. Acontece que o Governo não faz nem o que deveria fazer. Tem que ter a participação da sociedade civil. As coisas não podem ser feitas ao sabor do governante que está no poder, não podem ser feitas com o ministro que foi nomeado ontem, que é do partido X ou Y. Esse apoio deveria ser uma questão de política de Estado. O Governo é para cumprir uma política de Estado. O que é que o Estado brasileiro e o povo brasileiro querem fazer com esses registros? O Governo deveria ser um respeitador e zelador de uma política de Estado. Quando um governante sair, o próximo deve continuar. Porque esse material não é deste ou daquele partido. É meu e é seu. É do meu filho e do meu neto. Não há uma política de Estado para preservação dos registros, dos documentos. E quando aparece alguém que faz o que eu fiz, fica refém do Governo da vez. Um Governo achou que era uma maravilha e patrocinou minha bolsa. Veja, quando comecei isso tudo ninguém jamais tinha mexido nesse material. Jornal da ABI – A sua palestra na mesa dos diretores no Festival de Cinema de Ouro Preto (CineOP) foi a mais enfática com relação à mania do brasileiro de fazer brincadeira com os censores... com a censura na ditadura militar. A Censura não era burra. Por que se pensa o contrário? Leonor – Sou enfática e muito séria quando falo em público sobre a Censura depois do golpe militar porque tenho horror dessa coisa jocosa em relação à Censura. É uma visão perversa, como se aquilo não tivesse significado nada. É como se um lado, aquele que era censurado, fosse brilhante e maravilhoso; e o outro lado, o da censura, fosse composto de incapazes. Mas a Censura não teve nada de burra, nada de improvisado. Lembro sempre do Glauber quando digo isso, porque ele sofreu muito por causa de declarações que ele deu, e uma delas foi a história de que o Golbery era o gênio da raça. Isso crucificou o Glauber, e ele tinha toda a razão! Em nenhum momento Glauber foi generoso com o Golbery quando disse isso; ele estava simplesmente dizendo que as estruturas de repressão foram milimetricamente

calculadas por um grande estrategista, que foi o Golbery do Couto e Silva, que foi também quem reorganizou e redirecionou a Censura para que ela cumprisse o seu papel. O Roberto Farias pode falar das dezenas de vezes que foi para Brasília conversar com a Solange que, na época, era diretora da Censura, e que mantinha o Pra Frente Brasil na geladeira, porque apesar de não ter sido censurado o filme foi metido na geladeira e esquecido. Ele pode até rir daquilo hoje, mas em nenhum momento está dizendo que aquilo não afetou a vida dele. A Censura não foi burra. Existem várias piadas sobre censores; cada diretor de cinema conta uma. Mas, a princípio, a Censura pegou no susto, com o golpe. Nos dois primeiros anos, tudo foi feito meio aos trancos e barrancos, mas rapidamente eles se organizaram! Se pegarmos os pareceres dessa época, encontramos muita coisa moralista e idiota, como as pernas da Fernanda Montenegro, que foram censuradas em A Falecida. Isso foi censurado porque “depõe contra a família”. Então, a princípio, a Censura ficou trabalhando nos parâmetros que sustentaram o golpe: a classe média, TFP, a Campanha da Mulher pela Democracia, que foi criado dentro do IPES – Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, cuja função era zelar pela moral e os bons costumes. Começou assim. Se formos comparar os pareceres de 1964 a 1966 com os seguintes, percebe-se claramente que a coisa mudou. Eles instrumentalizam a Censura, com cursos de formação de censores, criam a carreira do censor, que exigia nível universitário. Os cursos são montados a partir de 1969, o candidato a censor era aprovado num concurso e ficava seis meses fazendo esse curso. E podia não ser aprovado. Esse curso incluía até tiro ao alvo! Imagine! Isso é para ver o nível em que a coisa chegou. E tinha teoria marxista, discutia-se O Capital, havia uma formação político-ideológica séria para combater o comunismo no Brasil. A Censura vai se moldando por aí. Junto a isso, eles começam a escrever o Brasil a partir das diretrizes da Censura. Isso não foi bobagem! Foi muito bem articulado! Essa geração inteira, que é a minha, caiu no limbo. O Cacá Diegues fala muito isso e está muito certo. A Censura veio num momento em que o cinema brasileiro já tinha o reconhecimento mundial, e o Cinema Novo foi importantíssimo para esse reconhecimento. Aqueles diretores continuaram a produzir de alguma forma. Mas a geração que veio depois, não! Jornal da ABI – A Embrafilme surge em 1969 para produzir filmes. Isso não parece uma coisa contraditória? Leonor – A Embrafilme faz parte dos planos do “Golbery, o gênio da raça”. Não teve nada de contraditório. O projeto da Embrafilme combi-

na perfeitamente, com a ajuda da Censura, ao Brasil que eles estavam criando. A Embrafilme financiava filmes que a Censura iria proibir dentro do País, mas que iam para o exterior. Não existia Censura para os filmes que iam para fora. Existia toda a perseguição do mundo, mas o interesse da Censura era ajudar o poder a montar o Brasil que ele queria aqui dentro. Lá fora, havia outra questão, e só um “gênio da raça” consegue essa articulação, que é: ‘aqui a gente reprime, mas lá fora, vamos passar a imagem de um País democrático’. E como a imprensa também sofre censura, isso foi um grande golpe de mestre. Com o AI-5 e a imprensa proibida, eles conseguiram o que queriam. Com a imprensa livre, não dava. Tudo o que aconteceu entre 13 de dezembro de 1968 e 1978, com o fim do AI-5, que é o período em que a imprensa fica calada, é também o período em que a Embrafilme financia. A televisão via satélite é projeto da ditadura, e é de 1969. Pelo satélite, a ditadura transformou a televisão num veículo que ela dominava. A programação ia para o Brasil inteiro com a mesma mensagem, e eles censuravam e produziam coisas que promoviam o Brasil que queriam criar. Enquanto que, para fora, mandavam os filmes maravilhosos, sem cortes. Era simples, uma coisa apenas burocrática, de entrar com um pedido na Censura que emitia um certificado para festivais. Jornal da ABI – Mas se um filme ganhasseumfestival,oboca-a-boca não fazia com que se criasse o interesse pelo filme, aqui dentro? Leonor – Estava tudo censurado. O filme voltava premiado e era interditado na Censura, como aconteceu com Terra em Transe. Ninguém ficava sabendo e a imprensa não podia dizer que fora censurado. O filme desaparecia. Jornal da ABI – Mas a imprensa divulgava a premiação... Leonor – A imprensa falava do prêmio, mas quantas pessoas eram atingidas por isso? Quando se pensa em um projeto fascista para um país, quem iria ler que um filme ganhou um prêmio era, como eles mesmos diziam, ‘meia-dúzia de ci-

neastas comunistas que andam por aí’. O povo não estava nem aí: tinha a televisão por satélite mostrando o que interessava. O jornalismo de televisão não dizia essas coisas, só os jornais impressos ou as revistas. É uma faixa de público muito restrita, afastando o grande público brasileiro do cinema nacional que não interessava no momento. Jornal da ABI – E os programas de tv que não interessavam à ditadura também eram censurados... Leonor – Totalmente. Roque Santeiro foi censurado inteiro. E muitos outros. Era uma loucura. Lembro da época em que a Globo fez Saramandaia. Existiram grupos de resistência dentro da televisão. Uma época, o Globo Repórter precisou de gente para escrever e chamou os cineastas. Durante um tempo, o Globo Repórter foi um núcleo de resistência, e era altamente censurado. Faziam programas inteiros, que conseguiam aprovar na direção da Globo. Eram filmados e acabavam inteiramente censurados. Dias Gomes foi muito censurado. A televisão foi muito censurada, muito mais até do que o cinema, porque eles conseguiram esvaziar o cinema. Com os cortes, os filmes ficavam ininteligíveis, e veio o conceito de que o cinema brasileiro era ruim. Depois de um tempo, não precisava nem ser censurado. Bastava ser brasileiro que ninguém ia ver. Jornal da ABI – Esse processo acabou com uma geração de cineastas e deixou de formar público para o cinema brasileiro... Leonor – E deixou de formar a geração seguinte de cineastas. Parou. A gente tem um abismo negro, de vinte anos. Depois veio o Collor! Quer dizer, foi um golpe em cima do golpe. Teve o golpe de 1964, que destruiu a aproximação do público com o nosso cinema, e em 1990 chega o Collor, que acabou com a produção cinematográfica. E essa geração acaba. Uma geração que não teve continuidade, nem no próprio trabalho, nem na formação da geração seguinte. Quando se começou a retomar as coisas, surgiram as leis de incentivo, projetos altamente burocráticos, veio a Ancine... e agora a Censura se impõe pela burocracia.

Jornal da ABI – Conseguir aprovar um projeto através dessas leis de incentivo é uma tarefa tão complicada que é necessário contratar a peso de ouro um “especialista” que entenda desse intrincado labirinto burocrático... Leonor – Virou uma loucura. A lei diz que, num projeto, pode ter 5% para captação. Então, em teoria, o vendedor do filme, que é a pessoa que vai às empresas, recebe 5% de comissão pelo que conseguir pegar. Mas ache alguém que trabalhe por 5%. Ninguém trabalha por tão pouco. Eles cobram 20%, 30%. Virou uma grande salada de corrupção, com o próprio Governo fechando os olhos para a corrupção que ele mesmo estimula, porque os produtores são obrigados a burlar o próprio orçamento que produzem para tirar mais comissão. Inflacionam o projeto, têm que mentir na prestação de contas, fabricar custos; virou uma fábrica de corrupção porque, ou se faz assim, ou não se faz cinema. Jornal da ABI – É por isso que hoje em dia se produzem tantos documentários? É um projeto que se aprova mais facilmente e não há necessidade de um orçamento tão volumoso... Leonor – E graças a Deus que a gente tem as câmeras digitais porque, se não, o cinema tinha acabado. Os documentários conseguem ser feitos porque são gravados com câmara digital, que é possível comprar. Não precisa mais do filme, das latas de negativos. Toda a produção do cinema foi muito simplificada e barateada pelo processo digital. Tornou possível a produção de documentários de baixo orçamento. Pega uma câmera, junta um pessoal e sai fazendo. Edita num computador. Isso foi um respiro. Jornal da ABI – E isso inclui também os antigos diretores... Leonor – É, estão todos fazendo. E por que estão fazendo? Porque resolveram que agora são documentaristas? Não. É porque agora eles têm que se submeter às leis de incentivo. Eles não são vendedores, são cineastas. Sabem fazer filmes, não sabem vender projetos! Jornal da ABI – É por isso que você e os diretores que estavam no CineOP falam que a Censura não acabou... Leonor – Exatamente, e não acabou. Quantos filmes Roberto Farias fez depois da Embrafilme? Nenhum. E não venha dizer que ele está na televisão, não. Ele não fez porque não conseguiu aprovar projeto algum. Hoje, a censura é essa! O cinema é feito em cima do que o patrocinador quer. O que eu mais ouço é “O patrocinador não gosta de roteiro fechado”. Por que não? Porque ele quer mexer. O patrocinador virou o censor. É uma barganha. O esquema não é realmente como dizem que é. É a Censura, só que com outra formatação.

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LANÇAMENTO

Como era sacana o meu cinema Filmes lançados em dvd revivem a era das pornochanchadas, que atingiu seu momento de glória durante a repressão militar. P OR C ELSO S ABADIN Imagine a seguinte história: Moisés, um menino israelense de brilhantes olhos claros, filho de poloneses refugiados da 2ª Guerra Mundial, chega ao Brasil com sua família e se encanta com as belezas do País. Conhece Recife, São Paulo e o Rio de Janeiro do início dos anos 1950. A cidade, ainda de ares provincianos, mantinha a beleza de um verdadeiro paraíso tropical, e prestes a despontar para o mundo como o berço da Bossa Nova, passa a ser o novo lar da família Goldszal. Certo dia, já adolescente, Moisés vê alguém se afogando em frente ao Copacabana Palace. Corre, salta no mar, e de lá retira um homem agonizante, mais assustado do que morto, salvando-lhe a vida. O afogado era o francês Fernand Legros, que mais tarde se saberia ser milionário, e um dos maiores marchands do mundo de quadros... falsificados. Agradecido, Fernand praticamente “adota” Moisés, e durante três anos carrega o rapaz a tiracolo em suas viagens pelo mundo. Ambos se tornam amantes. Moisés estuda artes e conhece grandes astros e cineastas internacionais. Retorna no final dos anos 1960 ao Brasil, onde se tornará roteirista, ator, diretor e produtor de cinema de muito sucesso. Fim. Provavelmente nenhum produtor, em sã consciência, aceitaria produzir um filme com o roteiro acima, sob a alegação de a história ser fantasiosa demais, inverossímil. Ledo engano. O caso é totalmente real: Moisés Abrão Goldszal é o nome verdadeiro do ator, roteirista, diretor e produtor de cinema Carlo Mossy, profissional de grande sucesso nos anos 1960, 1970 e 1980, que largou o estrelato por praticamente 20 anos (“por motivos pessoais”, afirma) e há dez voltou às luzes fazendo novelas, minisséries, ganhando um prêmio no Festival de Brasília, e agora tendo parte de sua obra reeditada numa caixa de dvds lançada pelo selo Canal Brasil. Se ainda não fizeram um filme sobre ele, fica registrada, por enquanto, a breve matéria a seguir. Após os três anos que passou viajando pelo mundo e fazendo contatos, Moisés Abrão decidiu que queria ser ator de cinema no Brasil. O primeiro passo foi arrumar um nome

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artístico “pois ninguém iria ver um filme estrelado por Moisés Abrão”, diz ele no programa de Jô Soares. A idéia do nome “Mossy” (Moisés, em hebreu, é Moshe) foi dada pelo ator britânico Alec Guiness, que ele conheceu na Europa. E “Carlo” foi uma maneira de tornar o nome singular, sem a pluralidade de “Carlos”, por exemplo. Feita a transformação, Carlo Mossy faz então um teste para participar do filme Copacabana Me Engana, de 1968, e encanta o diretor Antonio Carlos Fontoura (atualmente sucesso nos cinemas com seu filme Somos Tão Jovens), que lhe dá o papel principal do protagonista Marquinhos. Libertário, irresponsável e mulherengo, há em Marquinhos uma certa inspiração em Michel Poiccard, icônico personagem de Acossado, de Godard. O ar debochado e sensual de Mossy cai como uma luva no filme, que se transforma em rápido sucesso. Mossy faz então mais seis longas num período de três anos: Estranho Triângulo, Soninha Toda Pura, Lua de Mel e Amendoim, Viver de Morrer, Quando as Mulheres Paqueram e Oh, Que Delícia de Patrão!. Quase sempre interpretando garotões charmosos de nomes diminutivos: Loirinho, Serginho, Bentinho... Os duros tempos de AI-5 exigem filmes que passem longe, muito longe, dos grandes problemas socioculturais brasileiros, e a comédia erótica atinge seus momentos de glória. Não raro, o título e pôster do filme eram muito mais eróticos que o próprio filme em si. Em 1973, entusiasmado pelo sucesso que experimentava como ator, Mossy monta a sua própria empresa, a Vidya Produções Cinematográficas, e passa a assinar a produção de seus filmes com seu nome verdadeiro. Os longas da Vidya eram estrelados por Carlo Mossy e produzidos por Moisés Abrão Goldszal, sem que o público soubesse que eram a mesma pessoa. Logo no primeiro filme da

O traço inconfundível de Ziraldo ilustrou uma grande parte dos cartazes de pornochanchadas.

nova empresa, um grande sucesso: Como é Boa a Nossa Empregada, onde novamente faz um papel com nome diminutivo: Honorinho. Na própria produtora, além de atuar e produzir, arrisca-se também no roteiro, na direção, na direção de arte e até na parte musical, tornando-se um profissional polivalente na área do cinema, e recusando convites para a televisão. “Brasileiro é visceralmente sacana” Mossy foi apelidado de “O Rei da Pornochanchada” (“cargo” que, segundo muitos, divide com David Cardoso), mas o próprio ator/produtor questiona, em entrevista ao Jornal da ABI, o excesso de importância que muitas vezes é atribuído ao erotismo de seus filmes: “A sexualidade e/ou a nudez de belas atrizes em meus filmes não têm sido a tônica principal à contextualização dos mesmos. Se olharmos melhor e desarmados de preconceitos para com o cinema popular e de sucesso como tem sido a trajetória de meu cinema, podese notar que há, substancialmente, algo mais além da sacanagem embutida, fundamento pouco notado pelo espectador e pelos críticos”. E explica: “Sexo é objeto de filmes pornográficos, situação que não se apresenta nos meus filmes, que trazem apenas erotismo e sensualidade. E mesmo assim estes não são os fatores primordiais dos meus filmes, mas apenas mais um atributo à óbvia comercialização dos mesmos. Brasileiro, como é sabido e cientificamente comprovado, mediante toda sua formação antropológica pra não dizer exótica, já nasce pornochanchadeiro. Brasileiro é visceralmente sacana e não precedido de um comportamento hermeticamente intelectualizado”, afirma. Durante os anos 1970 e 1980, Mossy mantém uma média de um longa por ano (Quando as Mulheres Querem Provas, Lucíola o Anjo Pecador, Com as Calças na Mão, As Massagistas, etc), tanto em produções próprias como atuando em filmes de colegas. Para driblar a cen-

sura, filma, propositadamente, de 15 a 20% de cenas a mais, especialmente fortes, feitas para serem cortadas e assim poder negociar com os censores. “Inventei esta prática que acabou sendo seguida por colegas. Esses 20%, eventualmente cortados pelos censores que consideravam essas cenas amorais ou de conteúdo indesejado pela sociedade, não prejudicavam o filme”, afirma. Seu drama erótico Giselle, de 1983, é considerado uma das maiores bilheterias do cinema brasileiro, e há até quem arrisque dizer que se trata da maior de todos os tempos, mas os mecanismos de aferição daquela época não eram críveis o suficiente para sustentar a afirmação. De qualquer maneira, independente do número que Giselle tenha alcançado, Mossy deixa clara a sua opção pelo cinema comercial: “Sempre realizei meus filmes para esse publicão despojado de preconceitos falso-moralistas, e não para uma insignificante elite dita intelectualizada. Cinema é comércio, é indústria. Precisa ter retorno monetário significativo, e não apenas bonequinhos aplaudindo e agrados de amiguinhos. É importante lembrar que estamos no Brasil semianalfabeto, e não na Noruega. Haja vista as novelas de sucesso. Mas nada impede que se façam filmes de arte, culturalistas, herméticos, subjetivamente autorais e até abstratistas. Mas não é meu caso, pois seriam filmes muito fáceis de serem realizados, ainda mais através do famigerado outorgado erário público”, disse ao Jornal da ABI. O fato é que pouco tempo depois desse grande sucesso de público Mossy decide se afastar do cinema. “Por motivos pessoais; para pensar”, afirma. Após um hiato de quase duas décadas, um convite para fazer um pequeno, mas marcante papel em O Homem do Ano, de 2003, reacende a velha chama. E Carlo Mossy retorna ao audiovisual com a impetuosidade que sempre o caracterizou. Faz curtas, longas, novelas, minisséries de tv, e ganha um Prêmio Especial do Júri no Festival de Brasília do ano passado por sua participação no ainda inédito Boa Sorte, Meu Amor. E não pensa em parar: “Muitos projetos em andamento me seduzem, mas o principal é o longa Garota de Ipanema, o Bar, que tem um sabor todo especial: o etílico. O filme vai contar hilárias histórias acontecidas naquele trecho de Ipanema, entre 1960 e 1980. Ali se originou o jornal O Pasquim. Qual a importância de um bar na vida de um artista? Essa é a pergunta e a resposta do filme. Ninguém se inspiraria artisticamente numa leiteria, por exemplo”, brinca. Além de Garota de Ipanema, o Bar, que terá direção e produção do próprio Mossy, que também desenvolveu o roteiro junto com Flávia Orlando e Luiz Carlos Maciel, o cineasta diz que tem ainda um outro desejo no cinema: “Escrever roteiros e vendê-los bem caro a produtoras que se interessam à realização de bons e rentáveis filmes, pois o que se vê por aí são roteiros frágeis e insípidos em termos contextuais e de conteúdo, independentemente do gênero. Roteiros que resultam em filmes medíocres. Claro, com exíguas exceções”, alfineta.


DIVULGAÇÃO

para ser sucesso, o roteiro cria uma subtrama através da qual a mãe do menino seqüestrado (Helena Ramos) é ninfomaníaca, abrindo assim variadas possibilidades cênicas para que o espectador se delicie com a nudez da atriz, uma das mais requisitadas naquele período. De qualquer maneira, é notável como o filme consegue destilar boas doses de cinismo e ironia, pitadas de humor, ao mesmo tempo em que chega a explicitar uma violência bastante forte. Também ironicamente, O Seqüestro termina dedicando o filme a Frank Serpico, policial que lutou contra a corrupção nos Estados Unidos e cuja vida foi filmada em 1973. No elenco, além, dos já citados, Gracinha Couto, Mirian Pérsia, Adriano Reys, Otávio Augusto, Paulo Pinheiro, Maria Alves e Celso Faria, entre outros.

Os filmes do apogeu de Carlo Mossy Os cinco títulos que compõem a caixa de dvds lançada pelo Canal Brasil traçam um perfil de parte da sociedade brasileira em uma década. COMO É BOA NOSSA EMPREGADA (1972)

No período mais violento da ditadura, o cinema brasileiro, proibido de abordar temas sérios, se virava com comédias de apelo sensual que foram rotuladas de “pornochanchadas”. “Olhando hoje – diz Mossy – a gente percebe que de ‘porno’ estes filmes não tinham nada”, disse o ator/diretor no Programa Retratos Brasileiros, do Canal Brasil. De fato, eram comédias de um erotismo ingênuo, mas que causavam furor no reprimido público brasileiro, que corria para o escurinho do cinema para ver a simulação de uma cena de sexo ou mesmo uma bela mulher seminua. Como é Boa Nossa Empregada é uma destas famosas e típicas pornochanchadas. Dividido em três episódios (como faziam muitas vezes as comédias italianas da década anterior), trata-se do primeiro longa-metragem da Vidya Produções Cinematográficas, empresa de Mossy. Na verdade, são três episódios bem parecidos (Lula e a Copeira, O Terror das Empregadas e O Melhor da Festa), onde jovens protagonistas projetam em suas empregadas domésticas suas principais fantasias sexuais. Sexista, como deve ser toda boa pornochanchada, o filme traz o delicioso humor politicamente incorreto da época (num momento em que a expressão sequer existia), e não se faz de rogado ao destilar os preconceitos sociais e raciais que tão bem exprimiam (ou exprimem) a sociedade daquele período. Os jovens tarados por suas empregadas eram vividos por Pedro Paulo Rangel (então com 24 anos), Stepan Nercessian (19) e o próprio Mossy. Como sempre há um espaço, ainda que pequeno, para a crítica política, em determinada cena José Lewgoy desabafa: “País em desenvolvimento é fogo!”. Explicase: na época, a ditadura havia banido das escolas as expressões “subdesenvolvido” ou “de terceiro mundo”, para categorizar o Brasil, adotando a terminologia “em desenvolvimento” como sendo a oficialmente correta. O elenco era completado por Vilma Chagas, Lídia Mattos, Dilma Lóes e Jorge Dória, o ator que mais trabalhou com Mossy.

ESSA GOSTOSA BRINCADEIRA A DOIS (1973)

Comédia romântica das mais representativas do movimento hippie e seus ideais libertários. Tudo acontece ao redor do jovem casal formado por Beth (Dilma Lóes) e Carlos (Mossy). Ela, cansada das dificuldades da vida de modelo, rompe relações com a mãe ao abandonar a carreira e ir morar com o pobretão Carlos. Ele, totalmente avesso a qualquer tipo de trabalho, só quer saber de curtir a vida. Apenas amigos, Beth e Carlos não são namorados, e partem juntos para uma descompro-

GISELLE (1982)

missada viagem à Bahia. Mas chega um momento em que a garota começa a sentir ciúmes do amigo, e o troca por uma carreira “mais sólida”: ser chacrete. Com calças boca-de-sino, cabeleiras e colares gigantescos aos montes, o filme pode não ser nenhuma maravilha, dramaturgicamente falando, mas aos olhos de hoje transforma-se quase num documentário da juventude da época e sua negação dos valores “burgueses”. Mossy, sempre com bom tino comercial, coloca no elenco Vera Fischer, na época um dos maiores chamarizes de bilheteria do cinema brasileiro, com quem filma cenas de nudez em profusão. O elenco ainda tem Andrews Negri, Cléa Simões, Tereza Trautman, Lidia Mattos, Fátima Braun, Cláudio Oliane e participação especial de Chacrinha.

ÓDIO (1976)

De longe o filme mais perturbador da caixa, Ódio discute com vigor a eterna questão da “justiça com as próprias mãos”. Mossy interpreta um advogado que vê, impotente, um violentíssimo assalto em que os criminosos barbarizam toda a sua família. As cenas, fortíssimas, são capazes de embrulhar o estômago até das platéias mais acostumadas ao tema. O momento em que um dos assaltantes (Átila Iório) é submetido à abstinência de drogas até o limite do insuportável, só para citar um exemplo, é de uma crueldade ímpar no cinema brasileiro. Agredido e hospitalizado, o protagonista se recupera física, mas não psicologicamente do acontecido, e sai perambulando pelos subúrbios cariocas em busca de vingança. Que, como se sabe, é um prato que deve ser servido frio. Mesmo tomando como base o clássico mote do vingador solitário, típico do faroeste americano, Ódio traz uma forte dose de brasilidade ao enfocar questões bem nacionais (e atemporais) como a impunidade e a ineficiência da Justiça. Repare: não há a presença de nenhuma figura policial em todo o filme.

Ódio une um eficiente elenco, formado por Celso Faria, Cléia Simões, Jayme Barcellos, Wilson Grey, Eduardo Machado, Estelita Bell, Fátima Freire, Fernando José, Fernando Reski, Francisco Dantas, Heloísa Helena, entre muitos outros.

O SEQÜESTRO (1981)

A partir do livro homônimo de José Louzeiro e Valério Meinel, Carlo Mossy atua, dirige e produz O Seqüestro, filme policial com nuances de comédia que não economiza palavras ao denunciar a corrupção e a violência da polícia brasileira. A trama começa já em alta tensão, com a televisão noticiando o seqüestro do filho de um industrial. Na delegacia, o subdelegado interpretado por Milton Moraes esperneia: “Como é que é? Notícia de seqüestro pela televisão? Aqui na nossa jurisdição?”. E completa, indignado, para o seu colega: “Tá querendo botar uma televisão aqui na nossa delegacia e sair correndo atrás de tudo quanto é notícia que os putos dão?”. Vale lembrar que em 1981, época em que o filme foi feito, ainda não existia o noticiário Aqui Agora, muito menos os noticiosos policialescos estilo Datena. Começa então uma atabalhoada investigação sobre o caso, em que o delegado, corrupto e violento (ótima interpretação de Jorge Dória), não poupa críticas à imprensa. Na cena do crime, aliás, vêem-se em destaque carros de reportagem dos jornais Última Hora e Luta Democrática. Para ele, vale encontrar qualquer suspeito, apenas para aquietar os jornalistas, não importando se for preciso torturar cruelmente supostas testemunhas das quais arranca “confissões” mentirosas. Como era praticamente obrigatório que um filme brasileiro, na época, tivesse cenas de sexo

Sob o fundo de uma explosão atômica, o filme abre com um letreiro destacando que a nossa sociedade atual se equipara a Sodoma e Gomorra em sua decadência e promiscuidade sexual. E ressalta “desencontros, desamores, promiscuidades, procuras e frustrações através do sexo que, por modismo e desinformações, passou a ser algo sem nenhum valor”. Mais que uma “advertência”, este letreiro que introduz o filme é uma jogada publicitária destinada a atrair o espectador ávido por sexo. Naquele Brasil de João Figueiredo, o cinema nacional vivia os últimos momentos da era da pornochanchada e começava a ingressar na fase do sexo explícito, com filmes assumidamente pornográficos. Giselle fica no meio termo: é um drama erótico já sem a gaiatice da pornochanchada, mas ainda sem cenas explícitas de sexo. A personagem título é uma jovem alegre e desinibida (Alba Valéria) que após passar uma temporada estudando na Europa vai morar na fazenda de seu pai (Nildo Parente). A garota, sem muitos devaneios, logo se apaixona simultaneamente pela madrasta (Maria Lúcia Dahl) e pelo capataz (Carlo Mossy). Mais personagens entrarão na trama, abrindo espaço para uma maratona que envolverá os mais diversos tipos de atividades sexuais. A bilheteria foi um gigantesco sucesso. Ousado, e com nível de produção satisfatório para a precariedade da época, Giselle chega até a abordar a questão da pedofilia (obviamente não explicitada), ao mesmo tempo em que continua, bem ao estilo de Carlo Mossy, a direcionar sua metralhadora giratória contra a hipocrisia de uma sociedade que coloca as aparências acima de tudo, não importando se as estruturas familiares estão apodrecidas. Em determinado momento do filme, há uma estranha digressão de roteiro: Giselle se apaixona por uma guerrilheira comunista e começa a participar de reuniões secretas, com direito a pôster de Che Guevara na parede. Certamente era uma forma de tentar politizar o filme, e escapar das patrulhas que desqualificavam o cinema erótico. O elenco é completado por Ricardo Faria, Monique Lafond, Celso Faria, Zózimo Bulbul e Vinicius Salvatori, entre outros.

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LIBERDADE DE IMPRENSA

Emiliano José impõe nova derrota a torturador

Segundo seus advogados, Emiliano José estava sendo coagido.

Pastor da Bahia ajuizou dois processos contra o jornalista que o denunciou.

A Justiça do Estado da Bahia paralisou inquérito policial contra o jornalista Emiliano José, acionado pelo pastor da Igreja Batista Caminho das Árvores, Átila Brandão, ex-oficial da Polícia Militar, por ter sido apontado como torturador do Professor de História Renato Afonso no artigo A premonição de Yaiá, publicado por Emiliano no jornal A Tarde. O pastor move ação contra o jornalista no Juizado Especial Criminal e também registrou queixa-crime na 16ª Delegacia de Polícia, onde corria o inquérito, agora trancado por decisão da Juíza Silvia Lúcia Bonifácio Andrade Carvalho, da 6ª Vara Criminal. O habeas corpus obtido pelos advogados Maurício Vasconcelos e Rafael Teles apontou

No Dia da Pátria, jornalistas agredidos Em declaração pública, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão-Abert repudiou a violência sofrida por profissionais de imprensa durante as manifestações do feriado de 7 de setembro. Cinco repórteres foram hostilizados e agredidos quando cobriam os protestos no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Manaus. Os ataques partiram tanto de policiais como de manifestantes, com a intenção de impedir o registro dos fatos pelos profissionais de imprensa. O Presidente da Abert, Daniel Slaviero, acrescenta que “é inaceitável que se imponham limites, de qualquer ordem, à atividade jornalística pelo grave prejuízo que causam ao conjunto da sociedade, que tem violado seu direito fundamental de acesso à informação”.

CRACKERS CONTRA TV O grupo de crackers Anonymous invadiu por mais de uma hora e meia a conta no Twitter do jornal O Globo na tarde de 6 de setembro. Com a invasão, a publicação das Organizações Globo foi alvo de críticas e ofensas. O grupo também chegou a mudar as imagens de O Globo no Twitter. Uma imagem relacionada à censura foi colocada, assim como a de um militar com o logotipo da rede no rosto.

como autoridade coatora o delegado de Polícia titular da 16ª Delegacia de Polícia de Salvador. Os advogados relatam que o jornalista estava sendo coagido em decorrência da publicação de seu artigo. A Juíza acatou a tese dos advogados e entendeu que o jornalista estava sofrendo constrangimento ilegal devido aos dois procedimentos judiciais sobre o mesmo fato. Os advogados pediram liminarmente a suspensão do inquérito, o que foi aceito – “trancado”, no jargão judicial. Emiliano José apurou que durante a ditadura militar o pastor Átila, então oficial da PM, torturou o professor de História, que estava preso no quartel da PM dos Dendezeiros, no bairro Bonfim, o que é narrado no artigo. Além de Emiliano José, Átila também acionou na Justiça o jornalista Oldack Miran-

concessão de guarda irregular, que está sendo investigado pela Promotoria da Infância e Juventude. O caso foi noticiado pelo Diário de Pernambuco e, depois, por vários outros veículos. Ela é suspeita de envolvimento em esquema de tráfico de influência que teria beneficiado um casal não inscrito no Cadastro Nacional de Adoção. A Associação Nacional de Jornais-ANJ havia emitido nota de protesto contra a decisão da Justiça de proibir os jornais de citarem o político e seus familiares.

AÇÃO SUSPENSA O Presidente do Tribunal de Justiça do Paraná, Clayton Camargo, suspendeu a ação que proibia o jornal Gazeta do Povo de divulgar denúncias contra ele. Camargo é investigado pelo Conselho Nacional de Justiça por suposta venda de sentenças.

NARCO ESTADO, NÃO O Embaixador da Bolívia no Brasil, Jerjes Justiniano, anunciou em 3 de setembro uma ação judicial contra a revista Veja, cuja última edição acusa, sem provas, o país de ser um “narco Estado”. A revista revela que o representante assumiu o cargo diplomático há um ano com a missão expressa de fazer frente às denúncias contra os narcofuncionários. Tanto Justiniano como seu filho homônimo e também advogado foram citados na publicação como “defensores de traficantes de drogas”.

FIM DA CENSURA O Presidente da Assembléia Legislativa de PE, Guilherme Uchoa, anunciou a retirada da ação que impedia o Diário de Pernambuco, a TV Clube e o Jornal do Commercio de publicarem o nome ou a imagem dele. A pedagoga e advogada Giovana Uchoa, filha do político, foi denunciada em esquema de

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CPI DA ESPIONAGEM A Comissão Parlamentar de Inquérito da Espionagem aprovou em 3 de setembro, em sua primeira reunião, requerimentos solicitando proteção da Polícia Federal (PF) para o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, do jornal britânico The Guardian, e seu companheiro, o brasileiro David Miranda,

GUTO JADS/JORNAL GRANDE BAHIA

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da, que publicou as ocorrências no blog Bahia de Fato e nas redes sociais. É esta a segunda derrota do bispo. Em junho, a Desembargadora Telma Britto, do Tribunal de Justiça da Bahia, suspendeu a decisão da Juíza Marielza Brandão – que condenara o jornalista a retirar de seu site o arti-

e a disponibilização de assessores da PF para auxiliar nos trabalhos de investigação. A CPI foi criada para apurar denúncia de que o Governo dos EUA monitorou milhões de e-mails e telefonemas no Brasil, incluindo dados da Presidente Dilma Rousseff e de seus assessores próximos. Após a instalação oficial da CPI, foram eleitos a Senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e o Senador Pedro Taques (PDT-MT) para os cargos de Presidente e VicePresidente da Comissão, respectivamente. Vanessa Grazziotin indicou o Senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) para a relatoria da CPI.

Equador resiste à “Lei da Mordaça” Um grupo de 60 pessoas – políticos, jornalistas, escritores e ex-legisladores – apresentou uma nova ação junto ao Tribunal Constitucional visando à suspensão da Lei da Comunicação. A ação representa o segundo esforço judicial para revogar a lei. A ação alega que a “Lei da Mordaça” – como foi apelidada pela oposição – foi aprovada pelo Legislativo e vai contra a própria Constituição, que não coloca a comunicação como um serviço público, tal como dita a nova norma. Assim, a consideração da comunicação como um “serviço público” permite ao Estado fiscalizar as empresas de mídia privadas civil e criminalmente. Outro questionamento à lei é relativo ao artigo 1º, que estabelece que o Governo pode regular “o exercício de direito de comunicação”. De acordo com a ação judicial, esta medida é inconstitucional.

PRISÕES NO MÉXICO A ong Repórteres Sem Fronteiras (RSF) condenou a prisão de quatro

go em que cita o ex-oficial da PM como torturador do Professor Renato Afonso, em 1971. Ou seja, a Desembargadora derrubou a censura judicial. O agravo de instrumento foi apresentado ao TJ pelos advogados Luiz Viana Queiróz, atual Presidente da OAB/BA, e Jerônimo Mesquita.

jornalistas independentes em 1º de setembro, enquanto cobriam uma manifestação na capital do país contra a reforma educativa proposta pelo Presidente Enrique Peña Nieto. Gustavo Ruíz Lizárraga, da Agência Autônoma de Comunicação SubVersiones, filmava a prisão de alguns manifestantes quando as autoridades o detiveram e colocaram em um carro da Polícia, onde já se encontrava Pável Alejandro Noriega, de Multimedios Cronopios. Ruíz Lizárraga conseguiu entregar a um companheiro a câmera com a gravação de sua prisão antes de ser levado pelas autoridades. Foram apresentadas quatro acusações contra Ruíz Lizárraga: ataques à paz pública, ataques contra o exercício legítimo da autoridade, porte, fabricação e importação de objetos aptos para agredir e resistência de particulares. Estela Morales, da Regeneración Radio, e o jornalista independente Alejandro Amado Fraustro também foram detidos e liberados em 3 de setembro, após pagar fiança. Um quinto jornalista, Daniel Cruz, do diário Milenio, denunciou haver sido agredido pelas autoridades durante a cobertura da marcha, acrescentou a RSF.

VIOLÊNCIAS NA LIBÉRIA O jornal FrontPage Africa, da Libéria, teve suas operações interrompidas e Rodney Sieh, publisher e editor-chefe, foi preso por uma semana até ser transferido para um hospital por ter contraído malária. O FrontPage Africa escreveu sobre a prostituição de adolescentes, a pedido das Nações Unidas, e sobre o crescente comércio de cocaína de cartéis da América do Sul para a Europa através da África. Uma reportagem sobre mutilação genital feminina trouxe atenção internacional à repórter Mae Azango, fazendo com que ela e sua filha de

nove anos fossem ameaçadas de morte. O caso levou o Governo e organizações de desenvolvimento a agirem. O jornal também expôs casos de corrupção – o país está no topo do ranking de corrupção anual da organização Transparência Internacional.

PRISÕES NA RÚSSIA A Justiça decidiu que os dois irmãos chechenos suspeitos do assassinato da jornalista russa Anna Politkovskaya, em 2006, devem retornar à prisão. O advogado dos réus deve recorrer da decisão. A Juíza Maria Semenenko estabeleceu que os chechenos Djabrail e Ibraguim Makhmoudov retornem à detenção após violarem a ordem de não sair da capital, Moscou. Eles são os principais suspeitos da morte da jornalista e opositora do Governo, Anna Politkovskaya, ocorrida em 7 de outubro de 2006, na entrada de seu prédio, em Moscou. Outros dois chechenos, Roustam Makhmoudov e Lom-Ali Gaitoukaiev, e um antigo policial russo, Dmitri Pavliutchenkov, também são acusados de participar do assassinato.

ROLHA NO EGITO Um tribunal exigiu em 3 de setembro o fechamento de quatro emissoras de televisão, incluindo a estação local da Al-Jazeera e a rede da Irmandade Muçulmana, o grupo ao qual pertence o presidente islamita destituído Mohamed Mursi. Além da Al-Jazeera e da Ahrar 25, o tribunal administrativo do Cairo também ordenou o fechamento de outras duas emissoras islamitas: AlQuds e Al-Yarmuk. A programação de vários canais islamitas foi cortada horas após a derrubada e detenção de Mursi, em 3 de julho. Fonte: Tambor da Aldeia, ano VII, nº 37, 9 de setembro de 2013. Pesquisa e edição: Vilson Romero


DIREITOS HUMANOS

Justiça de Pernambuco adota censura prévia P OR I GOR W ALTZ

São 3.000 demitidos pelo Governo Collor que aguardam há 17 anos a implantação da anistia a que têm direito e que já foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal e pelo próprio Poder Executivo. Em mensagem que dirigiu em 4 de setembro à Presidente Dilma Rousseff, a ABI fez um apelo para que ela intervenha junto ao Ministério do Planejamento para solução de um problema que se arrasta há quase 20 anos: o enquadramento no regime jurídico único de 3 mil funcionários demitidos pelo Governo Collor de Melo, cujos direitos foram reconhecidos pela Lei nº 8.878/94. A providência depende da agilização dos procedimentos necessários pela burocracia do Ministério do Planejamento, que não se comove com a sonegação dos direitos desses trabalhadores do serviço público. A mensagem à Presidente da República está assim redigida: “Excelentíssima Senhora Presidenta, Inicialmente registramos o nosso reconhecimento quanto a inúmeras intervenções e medidas adotadas no Governo Lula e no seu Governo buscando corrigir a trajetória de perseguições e injustiças impostas nos Governos anteriores aos anistiados pela Lei nº 8.878/94. 2. Entretanto, em face do que vem sendo praticado pelas várias instâncias da administração pública no processo de retorno destes anistiados, propiciando tratamentos diferenciados, gerando na maioria desses servidores frustração e inconformismo, a Associação Brasileira de Imprensa vem postular a atenção de Vossa Excelência para a solução de tão grave problema. 3. Respeitosamente, entendemos que urgentes medidas devam ser adotadas de modo que se altere e corrija este cenário, em consonância com o desejado e compromissado anteriormente com este Governo. 4. Cabe ressaltar que Anistia, no seu entendimento literal e de inúmeros estudiosos do Direito, constitui-se, antes de tudo, em ato de perdão, de desculpa, de clemência, de indulgência, coletivo ou geral, cujo poder retroage ao momento exato. A lei de anistia é dotada exatamente do poder de retroagir os seus efeitos para perdoar o ato ilícito político, praticado no passado, exatamente no momento da sua prática, obviamente corrigindo os efeitos causados pelo ato, alterando o passado, com a intenção mesma de corrigir o presente e o futuro. É dos mais belos e dignos atos do Poder para com parcela de cidadãos que o constituíram. 5. Em 1994, após a promulgação da Lei nº 8.878, vários anistiados retornaram para suas empresas de origem. No caso das empresas extintas o retorno se deu para os órgãos da administração direta (Ministérios), as quais absorveram suas atribuições. Mais de 12.000 anistiados retornaram administrativamente em 1994 para a administração direta, sendo contemplados com o REGIME JURÍDICO ÚNICO. No decorrer dos anos, vários retornaram judicial-

FABIO RODRIGUES POZZEBOM/ABR

Veículos de comunicação do Estado de Pernambuco foram impedidos de publicar o nome do Presidente da Assembléia Legislativa de Pernambuco–Alepe, Guilherme Uchoa (PDT), em matérias sobre um polêmico caso de concessão de guarda de um bebê. A decisão foi expedida em caráter liminar em 31 de agosto pelo juiz plantonista do Tribunal de Justiça de Pernambuco, Sebastião de Siqueira Sousa. A decisão atingiu o Jornal do Commércio, o Diário de Pernambuco e a TV Clube, retransmissora da TV Record. Em caso de descumprimento da decisão, os veículos de comunicação teriam de pagar R$ 50 mil por citação. O Ministério Público de Pernambuco apresentou denúncia na 1ª Câmara Cível do TJ-PE em que afirma haver indícios de tráfico de influência em um processo de adoção no qual estaria envolvida a advogada Giovana Uchoa, filha do Presidente da Alepe. Segundo a Promotora da Infância e Adolescência de Olinda, Henriqueta de Belli, Giovana teria usado seus contatos na magistratura para favorecer um casal de amigos em um processo de adoção de uma menina. A guarda provisória teria sido concedida pela Juíza Andréa Calado, da Vara da Infância e Adolescência de Olinda, a pedido de Guilherme Uchoa. No pedido de liminar, Guilherme Uchoa – Presidente do Legislativo pernambucano por quatro mandatos consecutivos e aliado do Governador Eduardo Campos (PSB) – argumenta que não há comprovação de seu envolvimento no caso e que a veiculação de seu nome causa danos políticos e pessoais. Em sua decisão, o Juiz afirma que “tratandose de um homem público, Siqueira Sousa detentor de cargo importante no poder legislativo estadual, não há dúvida que tal imputação de tráfico de influência causa-lhe dano irreparável à imagem, constituindo-se em perigo evidente a demora na prestação jurisdicional, sendo imperiosa a cessação de tais associações de seu nome ao fato em questão, ante a inexistência de prova material que possa embasar essa afirmação”. O Jornal do Commércio e o Diário de Pernambuco informaram que vão recorrer da decisão tão logo o processo seja distribuído a um juiz titular. “Eu não entendo como hoje, em plena democracia, um presidente de um poder ainda tente embargar e censurar a imprensa, até porque a Constituição garante o direito de informar”, diz o diretor de Redação do Jornal do Commércio, Ivanildo Sampaio. As duas rádios, os dois portais e a emissora de televisão do Sistema Jornal do Commércio de Comunicação também foram censurados, segundo Sampaio. O mesmo vale para os demais veículos dos Diários Associados em Pernambuco, com uma emissora de tv, duas rádios e dois portais. Posteriormente, o próprio Guilherme Uchoa desistiu da censura prévia que propusera. (Ver na página 19). A Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco – OAB-PE divulgou nota na qual condena a “censura prévia”. A Associação Nacional de Jornais-ANJ também repudiou a decisão da Justiça, que avaliou como inconstitucional, uma vez que “diante de uma denúncia que caberia apurar limita-se a proibir a divulgação dos fatos”.

A ABI pede à Presidente Dilma que interceda junto ao Ministério do Planejamento em favor dos anistiados da Lei nº8.878/94

mente, sendo também enquadrados no Regime Jurídico Único. Vários pareceres, notas técnicas e decisões judiciais forneceram assim o conforto jurídico para tal ato. 6. Após o parecer da AGU-01/2007 e o Decreto nº 6.077/2007, a partir deste momento todos os anistiados retornaram ao regime celetista, gerando um desconforto dentro da administração direta. O Decreto nº 6.077, no seu artigo 3º, está ferindo a Lei nº 8.878 no seu artigo 2º, quando fala da transformação do cargo. O referido Decreto regulamentou até o que não existia no texto da Lei. 7. A Constituição dispõe no artigo nº 39 que dentro da administração direta o servidor deverá ser regido apenas por um regime, sendo este o Regime Jurídico Único – RJU. 8. Estudos comprovam que os funcionários regidos pelo Regime Jurídico Único têm um custo menor para o Governo, tendo em vista que o RGPS acrescenta o FGTS. 9. Em 2012, o TCU publicou um parecer garantindo a transposição de regime dos funcionários do Senado Federal que se encontravam regidos pela CLT para o Regime Jurídico Único – RJU, o que ocorreu. 10. A PGR, em seus pareceres, também sustenta que os anistiados que têm vínculo com a administração direta devem ser regidos pelo Regime Jurídico Único. 11. Este tratamento diferenciado dentro da administração direta está afetando um contingente de aproximadamente 3.000 funcionários e gerando: 11.1. Assédio moral, o qual já foi denunciado às Comissões de Direitos Humanos do Congresso e da OAB e está sendo elaborado documento para a Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas; 11.2. Em publicação em 2 de agosto de 2013 na página 203, o Supremo Tribunal Federal confirma a favor dos anistiados da Lei nº 8.878 que dentro da administração direta só pode haver um regime, no caso o regime jurídico único; 11.3. Nota Técnica da OAB declara que os anistiados que retornaram para a admi-

Os anistiados da Lei nº 8.878 têm esperança de que, como também anistiada, a Presidente Dilma determine o cumprimento da lei pelo Ministério do Planejamento.

nistração direta só podem ser regidos pelo regime jurídico único; 11.4. Uma ação civil pública foi ajuizada, conforme processo nº 30754.13.2012.4. 01.3500, patrocinada pela Defensoria Pública da União; 11.5. Várias Ações junto ao STJ, STF, TRT, que em geral trata da diferenciação de regime dentro da administração direta, correções salariais, tempo de serviço, assédio, tudo porque há funcionários no regime CLT e os outros funcionários regidos pelo RJU; 11.6. Ação do Ministério Público do Trabalho, porque o Governo não tratou corretamente o enquadramento dos funcionários que retornaram; várias Comissões do Congresso Nacional questionam a postura do Governo de não resolver a questão; a AGU, o Ministério do Planejamento, o STF e os recursos humanos dos Ministérios e o Ministério do Planejamento não estão preparados para trabalhar com dois regimes diferenciados, com isto gerando assédio moral a todo momento, pois a legislação para a CLT é diferente do RJU; 11.7. Está sendo criada na Câmara dos Deputados,no Senado Federal e em Assembléias estaduais uma frente parlamentar para cobrar a solução deste problema dos anistiados que retornaram para a administração direta. 12. Em resumo, todos os benefícios que o funcionário da administração direta possui os anistiados que retornaram para a administração direta não podem receber, como FG,FCT, substituição de chefia, férias divididas em três parcelas, auxílio funeral, etc. 13. É para essas relevantes questões, digníssima Presidenta Dilma Rousseff, que a Associação Brasileira de Imprensa encarece a atenção especial de Vossa Excelência, cuja adesão à causa da justiça fortalece nossa esperança de sua eficaz intervenção junto ao Ministério do Planejamento. Receba, Senhora Presidenta, as expressões do nosso carinho e da nossa admiração. Cordialmente (a) Maurício Azêdo, Presidente.”

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DIREITOS HUMANOS

Repórter de O Globo relata as horas finais da tortura de Stuart Angel pela repressão Stuart Angel era dirigente do MR-8 e foi preso por agentes da Aeronáutica em junho de 1971. Em matéria que ocupou duas páginas da edição de domingo, 22 de setembro, do jornal O Globo, o jornalista Chico Otávio relatou os últimos momentos de vida do líder do MR-8 Stuart Angel em 1971, morto nas dependências do Centro de Informações da Aeronáutica-Cisa. A matéria publica retratos de dois dos seis matadores de Stuart, quatro dos quais já morreram. A reportagem é transcrita a seguir, com seus títulos, subtítulos e outras informações. REPRODUÇÃO O GLOBO

Stuart Angel: verdadeiro nome do principal torturador é descoberto Vizinha de cela relata a agonia do preso político. RIO – Pardo, estatura mediana, suboficial. Por mais de quatro décadas, essas foram as únicas informações conhecidas sobre um dos principais torturadores dos porões do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa), que funcionava junto à Base Aérea do Galeão. Presos políticos que estavam na carceragem à época denunciam com freqüência a desenvoltura com que o suboficial “Abílio Alcântara”, de codinome “Pascoal”, participava dos interrogatórios sob tortura nas masmorras do Cisa. E dos guerrilheiros que por ali passaram e conheceram 20

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“Pascoal”, apenas um jamais saiu: Stuart Angel Jones. O ex-preso político Alex Polari de Alverga denuncia há 42 anos que presenciou o momento em que o amigo foi preso por agentes da Aeronáutica, na manhã de 14 de maio de 1971, em uma região do Grajaú, na Zona Norte do Rio. Entre eles, “Pascoal.” “Abílio Alcântara”, porém, nunca existiu. Serviu apenas para esconder a verdadeira identidade do sargento Abílio Correa de Souza. Após o cruzamento de depoimentos de ex-presos com informações em bancos de dados nacionais e in-

ternacionais, O Globo chegou ao verdadeiro nome sob o qual se escondia o agente. Souza chegou a fazer cursos de inteligência de combate e contraespionagem na conhecida Escola das Américas, no Forte Gulick, no Panamá, em 1968. De acordo com o relato dos presos, ele seria o braçodireito do coronel Ferdinando Muniz de Farias, o “dr .Luis” – homem de confiança do brigadeiro Carlos Affonso Dellamora, comandante do Cisa. Ambos já amplamente denunciados por Alex Polari.

AGENTE ESTUDOU CONTRAESPIONAGEM NA ESCOLA DAS AMÉRICAS Souza, de acordo com uma nova testemunha dos momentos finais da vida de Stuart, foi o último agente a falar com o filho da estilista Zuzu Angel, em sua agonia. A ex-presa política Maria Cristina de Oliveira Ferreira conta que não chegou a ver, mas ouviu os gemidos do dirigente do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), sua organização guerrilheira, ao longo da madrugada. Stuart murmurava seguidamente “vou morrer, vou morrer”. Em determinado momento, o suboficial Souza se aproximou. – O “Pascoal” falou pra ele: “Deixa de frescura, Paulo (codinome de Stuart no MR-8). Você não vai morrer ainda não. Toma aqui um melhoral”. Pouco depois ele silenciou e eu ouvi o barulho semelhante à retirada de um corpo — revelou Maria Cristina. Ela nunca foi ouvida antes sobre o assunto por ser acusada por ex-companheiros de militância de colaboração com o regime. – Depois do que aconteceu com Stuart, a carceragem foi imediatamente esvaziada. Todos nós fomos transferidos para outros lugares – recorda-se. Outro preso também confirma a liberdade com que Souza transitava pelos corredores da carceragem. Manoel Henrique Ferreira contou em relatório que integra o acervo do Brasil Nunca Mais que “Pascoal” pediu-lhe que reconhecesse a foto na carteira de identidade falsa com que Stuart foi preso. Em seguida, confirmou a prisão, sorrindo. Outros dois novos nomes de agentes surgem no caso. Os cabos reformados Luciano José Marinho de Melo e Cláudio de Almeida Aguiar integravam as equipes do Cisa em 1971. A eles foi confiada a missão de fazer o registro de nascimento do filho de uma presa do órgão,

no início de 1972, na 11ª circunscrição de Inhaúma, apesar de a criança ter nascido no Hospital da Aeronáutica. Os nomes deles constam na certidão de nascimento como testemunhas. Segundo outro preso, Luciano atuava como motorista das equipes de captura e, no dia em que Stuart foi preso, conduziu o carro no qual ele foi levado para um ponto onde estariam outros dois militantes do MR-8 – organização da qual Stuart era dirigente. Como os guerrilheiros não viram o preso, conseguiram sair do ponto ilesos, apesar do cerco. Procurado, Luciano disse que foi apenas motorista do gabinete do ministro da Aeronáutica até 1984, emprestado ao brigadeiro Dellamora exclusivamente para o registro da criança. Ele pediu e obteve anistia política em 2005 com base na portaria n.º 1.104-GM3/1964, que limitou o serviço dos cabos a oito anos. Desde 2011, o Ministério da Justiça está revisando o processo. O nome de Cláudio é listado como torturador no projeto Brasil Nunca Mais, em um inquérito de 1970. Aguiar foi procurado em três diferentes endereços durante um mês, mas não foi localizado. Entre os outros agentes envolvidos no desaparecimento de Stuart, pelo menos outros três também estudaram na mesma escola. O brigadeiro João Paulo Moreira Burnier, responsável pela organização e criação do Cisa e então chefe da 3ª Zona Aérea, fez cursos com nomes semelhantes aos de Abílio Correa de Souza em 1967: inteligência militar e contraespionagem. Com extenso currículo e 11 condecorações, entre elas a principal da Força, o Mérito Aeronáutico como Cavaleiro, o coronel Muniz de Farias também fez o Curso de Informações para Oficiais Superiores nos EUA. O capitão Lucio Valle Barroso, outro envolvido, estudou inteligência militar para oficiais em 1970 e é apontado como analista de informações do Cisa.

SNI ELABOROU DOCUMENTO DE 167 PÁGINAS DANDO STUART COMO MORTO Além dos militares da Aeronáutica, relatos de presos políticos e documentos inéditos localizados nos acervos do projeto Brasil Nunca Mais e do Arquivo Nacional em Brasília apontam que os policiais da Delegacia de Ordem Política e Social do Rio participaram ativamente das operações de captura de integrantes


Comissão Estadual da Verdade e parlamentares fazem visita histórica às antigas dependências do Doi-Codi P OR M ÁRIO A UGUSTO J AKOBSKIND

“O atual quartel Zenóbio da Costa, onde se localizava a antiga dependência do Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informações-Centro de Defesa Interna) foi palco no dia 23 de setembro, de um acontecimento histórico com repercussão nacional. Integrantes da Comissão Nacional e da Comissão Estadual da Verdade, parlamentares do Senado e a representação do Ministério Público Federal fizeram uma visita no local, conseguindo neutralizar a ação provocativa do Deputado Jair Bolsonaro, do PP-RJ. O parlamentar extremista tentou de todas as formas tumultuar a visita, chegando a agredir fisicamente o Senador Randolpho Rodrigues (PSOL-AP), além de destratar verbalmente a Deputada Jandira Feghali, do PCB-RJ. Os integrantes das Comissões se recusaram a realizar a visita, autorizada pelo Ministro da Defesa, Celso Amorim, caso Bolsonaro os acompanhasse, porque o parlamentar não integra nenhuma das Comissões que estavam presentes no quartel e estava lá com o visível objetivo de tumultuar e mesmo impedir a visita. Derrotado e isolado, inclusive pelos próprios militares, Bolsonoro limitou-se a observar de longe o trabalho que estava sendo realizado. Linguagem da Guerra Fria

Antes da visita, Bolsonaro concedia entrevistas utilizando a mesma linguagem da época da Guerra Fria, o que valeu comentário do Senador João Capiberibe (PSB-AP), segundo a qual o parlamentar representa um Brasil que ficou para trás e está vinculado às torturas da época da ditadura. “Esse é um Brasil que está superado”, disse, para em seguida elogiar a nova geração de militares, que nada têm a ver com o período das torturas e assassinatos, como os praticados nas dependências que estavam sendo visitadas. Superado o impasse, o Senador João Capiberibe, Presidente da Subcomissão da Verdade, Memória e Justiça do Senado, a Deputada Luiza Erundina (PSB-SP), Presidente da mesma Comissão na Câmara dos Deputados, Randolfe Rodrigues, o Presidente da Comissão Estadual da Verdade, Wadhi Damous, Álvaro Caldas, jornalista e integrante da Comissão Estadual da Verdade e Nadine Borges, também da Comissão do Rio de Janeiro, iniciaram a visita em companhia de autoridades militares. Jornalista mostrou o caminho certo

No interior do quartel, graças ao jornalista Álvaro Caldas, que esteve preso

duas vezes no Doi-Codi nos anos 1970, os integrantes das Comissões puderam percorrer o local certo onde pelo menos 800 presos políticos sofreram torturas e alguns, como o jornalista Mario Alves e o ex-Deputado Rubens Paiva, foram assassinados. Enquanto os militares apontavam no quartel uma área a ser percorrida, Álvaro Caldas mostrou o caminho certo onde os opositores do regime ditatorial foram torturados. O jornalista foi elogiado pelos integrantes das Comissões pela coragem e lucidez, que ajudaram o trabalho de reconhecimento. É bem possível que se ele não estivesse presente os integrantes das Comissões não teriam percorrido o caminho certo onde se pretende criar um Museu da Memória. Caldas, atualmente com 72 anos, observou que em relação há 40 anos houve mudanças, mas a estrutura das dependências continuou a mesma, daí ter lembrado o caminho certo. O jornalista admitiu que passou a madrugada acordado pela emoção em ter de voltar, quatro décadas depois, ao local onde passou os piores momentos de sua vida. Caldas lembrou que na primeira vez que foi preso e sofreu pesadas torturas. Posteriormente, quando trabalhava no jornal O Estado de S.Paulo foi seqüestrado covardemente em sua casa e levado novamente ao Doi-Codi. Para a Deputada Luiza Erundina, é vital o acompanhamento do trabalho das Comissões da Verdade pelos movimentos sociais e pela imprensa. “É fundamental a pressão externa sobre o Congresso para dar andamento aos trabalhos das Comissões na Câmara dos Deputados e Senado”. A parlamentar socialista observou ainda que “queremos justiça, mas esta só será alcançada com a reinterpretação da Lei de Anistia, porque não é possível colocar em pé de igualdade torturados e torturadores, que seguem impunes”. Do lado de fora do quartel permaneceram aguardando o final da visita integrantes de movimentos sociais, desde o Grupo Tortura Nunca Mais, a Comissão de Memória Verdade e Justiça do Rio e o Levante Popular da Juventude, além de ex-presos políticos que sofreram torturas nas dependências do Doi-Codi. Militares da reserva, punidos por atos institucionais, entre os quais o Comandante Santa Rosa, também acompanharam a visita do lado de fora. Jornalista, Conselheiro e Presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI

REPRODUÇÃO

do MR-8 – organização que Stuart dirigia – e que antecederam a prisão dele. Dois são apontados ainda como integrantes da equipe de interrogatório: Jair Gonçalves da Mota e Mario Borges de Araújo. Este chegou a receber a Medalha do Pacificador, honraria concedia pelo Exército em 1971. O Globo ainda obteve acesso a um documento inédito do Serviço Nacional de Informações (SNI) pertencente ao Arquivo Nacional demonstrando que o desaparecimento de Stuart foi amplamente documentado pela repressão. O informe número 1.008, produzido em 14 de setembro de 1971, tem como assunto: “Stuart Angel Jones – Falecido”. O documento tem conteúdo classificado como confidencial e 167 páginas. “Apenso, encaminho documentação para fins de prontuário referente ao epigrafado, bem como de outros elementos subversivos arrolados nos processos de apuração de delitos cometidos por alguns deles”, informa o texto, que, no entanto, apresenta apenas três páginas. Na “Informação Nº 4.057”, da Agência São Paulo do SNI, de 11 de setembro de 1975, o nome de Stuart aparece listado junto a outros 89 nomes de guerrilheiros mortos seguidos por datas das mortes. No caso dele, o dia apontado é 16 de maio de 1971, dois dias depois da prisão. O destino do corpo, no entanto, permanece desconhecido. Stuart Angel Jones integrava a direção do MR-8 e havia participado de diversas ações armadas; o interrogatório tinha um objetivo claro: descobrir o paradeiro do capitão Carlos Lamarca. No fim do ano, a cúpula da Aeronáutica foi substituída devido a pressões sobre o caso, após as denúncias da mãe de Stuart, a estilista Zuzu Angel. O desmonte final dos porões do regime, porém, não cortou os laços dos torturadores de Stuart. Pelo menos três deles (o coronel Muniz, o sargento Abílio e o cabo Cláudio Aguiar) trabalharam posteriormente na Transportadora Volta Redonda (TVR), uma das gigantes no setor do período. A sede regional da empresa, na Avenida Londres, Bonsucesso, era ponto de encontro dos agentes do Cisa. Burnier, Dellamora, Muniz e Abílio já morreram. Parentes do suboficial foram localizados na Zona Norte do Rio, mas disseram desconhecer sua atuação na Inteligência da FAB. De acordo com esses parentes, o agente jamais comentou o trabalho em casa, e a família nunca teve contato com seus colegas da Base. A Aeronáutica, que nunca admitiu a prisão do guerrilheiro, não quis comentar o caso. Por intermédio da Comunicação Social, informou que os documentos alusivos ao período do regime já foram entregues ao Arquivo Nacional.

Sobrevivente relata morte de Odijas sob tortura Militante do PCBR, Odijas Carvalho de Souza foi supliciado até à morte no Dops, no Recife, em 1971. Em depoimento à Comissão da Verdade da OAB/RJ, grupo criado para investigar abusos cometidos pela Justiça Militar durante a ditadura, o ex-preso político Carlos Gurgel relatou os bastidores da morte do militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Odijas Carvalho de Souza, e o procedimento presenciado por ele em auditorias militares. Preso em 7 de fevereiro de 1971, Gurgel foi levado para o Dops, no Recife, onde Odijas se encontrava. “Fomos submetidos a sessões de tortura por cerca de três dias e elas subitamente pararam. Depois viemos a entender que foi porque o Odijas tinha morrido. Na ante-sala pela qual tínhamos que passar para ir para nossas celas, podíamos ver as paredes todas salpicadas com seu sangue e as marcas de seu corpo”. Gurgel denunciou a morte do companheiro à Auditoria de Guerra da 7ª Região Militar, onde, conta ele, os relatos eram dificultados: “Os auditores tentavam impedir que essas denúncias fossem feitas. Sua postura era de considerar que aquelas informações eram falsas e desprezar qualquer relato”, contou. “Havia uma prática quase que à margem da ilegalidade na relação entre o Dops e as auditorias de guerra”, completa. As informações coletadas pela Comissão da Verdade da OAB/RJ são repassadas à Comissão Nacional da Verdade. O grupo já conta com depoimentos em vídeo dos ex-presos Jefferson Osório, dos irmãos Cid e César Benjamin, de Roberto Pittoli, Ivan Seixas, Artur Scavone e Rômulo Noronha.

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DIREITOS HUMANOS

Supremo e Executivo tratam com impiedade aposentados e pensionistas da Varig e Transbrasil Após contribuirem durante anos para ter uma aposentadoria digna, agora nem salário-mínimo eles recebem. ALCYR CAVALCANTI

P OR A LCYR C AVALCANTI “Treze aposentados ocuparam a sede da Aerus no centro do Rio. Estão confinados desde o final de junho e só pretendem sair quando seus direitos forem restabelecidos. Eles são pilotos, comissários de bordo, trabalhadores de companhias de aviação que contribuíram durante anos para um fundo de aposentadoria complementar, na esperança de uma aposentadoria digna no final de suas vidas. O grupo é liderado pelos diretores do Sindicato dos Aeronautas Zoroastro Ferreira e Marcelo Bona. Zoroastro tem 82 anos e atualmente recebe apenas 8% do que deveria receber. Após décadas de contribuição, os antigos trabalhadores da empresa recebem remuneração pífia: José Manuel da Costa, 67 anos, comissário de bordo, deveria receber R$ 8 mil de salário, mas recebe apenas R$ 600,00; sua esposa, Maria Irene, também comissária de bordo, recebe R$ 300,00 por mês; quando deveria receber R$ 5 mil mensais. Dos 22 mil trabalhadores que contribuíram para o Fundo Aerus, 852 morreram ao longo dessa disputa judicial, em que Executivo e Judiciário ignoram os direitos desses trabalhadores. A Varig foi fundada em 27 de maio de 1927 em Porto Alegre pelo alemão Otto Ernst Meyer com o nome de Condor, trocado pelo Presidente do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, para Viação Aérea RiograndenseVarig. A troca de nome foi feita porque Condor poderia ser associado a um símbolo nazista e porque vários funcionários da empresa eram nascidos na Alemanha mas naturalizados brasileiros. Para o pesquisador Felipe Fernandes Cruz não havia a menor dúvida quanto à influência nazista. Os primeiros pilotos fizeram treinamento sob a orientação da Luftwaffe, a máquina de guerra do nazismo. Um de seus primeiros colaboradores, Ruben Berta, passou a presidente em 1941, e anos depois conseguiu a transferência de seu controle acionário para uma fundação de funcionários da empresa, cujo nome foi mudado para Fundação Ruben Berta. A Varig foi durante muito tempo uma das companhias de aviação mais importantes do mundo, com mais de 120 aviões, com vôos para 36 países, 20 mil funcionários e rede hoteleira. Sua agonia começou no final do Governo Fernando Henrique, com o acúmulo de uma dívida enorme com a Infraero e com a Petrobras. Havia também uma dívida de 4,7 bilhões de reais do Governo Federal com a empresa. Veio o Governo Lula em 2009 e novas esperanças surgiram; afinal era um governo de trabalhadores, mas uma série de disputas internas aceleraram a crise, os bilhões de reais que salvariam o grupo Varig foram esquecidos e o Governo, para não pagar a dívida, tentou uma fusão da Varig com o grupo TAM Linhas Aéreas. O projeto da fusão fracassou.

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Revolta: Após décadas de contribuição, os antigos trabalhadores da Varig recebem remuneração pífia.

Em 20 de julho de 2006 depois de inúmeras tentativas de recuperação sua parte estrutural e financeira saneada foi transferida para a Varig Logística S/A através da VRG Linhas Aéreas. Em 9 de abril de 2007 é transferida para a GOL Linhas Aéreas e passa a se chamar VRG GOL. O Instituto Aerus de Seguridade Social foi criado em 20 de outubro de 1982 pela Varig, Cruzeiro e Transbrasil como instrumento de recursos humanos voltado para os profissionais de aviação, uma Entidade Fechada de Previdência Complementar. No final de 2012, para reduzir despesas, sua sede administrativa saiu da Praia do Flamengo para a Rua do Ouvidor, no Centro do Rio. Atualmente o Aerus está sob intervenção. Pilhas de processos, perfazendo 300 volumes e dezenas de milhares de páginas, estão na 1ª Vara Empresarial no Fórum do Rio, à espera de uma solução. Greve de fome José Manuel da Costa, 67 anos, ex-comissário de bordo, trabalhou 32 anos na Varig e recebe hoje R$ 600,00 quando deveria receber em torno de R$ 8 mil de salário; sua esposa, Maria Irene, também comissária de bordo, recebe pouco mais de R$ 300 por mês, quando deveria receber R$ 5mil mensais. José resolveu protestar de maneira inusitada em um lugar que conhece como a palma de sua mão, o saguão do Aeroporto Santos Dumont, em greve de fome contra o descaso das autoridades, à espera de uma decisão favorável do Supremo Tribunal Federal e conseqüentemente do Ministro Joaquim Barbosa obrigando a União a assumir os pagamentos, como foi decidido em

maio de 2013. A recusa em se alimentar e a decepção derrubaram José, que foi internado com pneumonia. Suas despesas agora são ainda maiores, e ele não sabe de onde virão os recursos. Mas ainda resta um fio de esperança, um parecer favorável ainda a tempo de gozar os benefícios, ao contrário dos 852 companheiros que faleceram ao longo da disputa judicial. Vinte e duas mil pessoas contribuíram para o Fundo de Pensão de Empresas do Setor Aéreo-Aerus, entre elas a Varig. O comissário de bordo é um dos milhares de aposentados que recebem uma aposentadoria ínfima, e mesmo assim corre o risco de ficar sem nada, o direito assegurado pode expirar logo. A demora na solução do caso tem tirado o sono daqueles que esperam um desfecho favorável onde a média de idade é de 75 anos. Barbosa diz não A Ministra do Supremo Tribunal Federal Carmem Lucia reconheceu que o Estado deve pagar indenização monetária de mais de R$ 3 bilhões para cobrir prejuízos causados pela política econômica para conter a inflação no final dos anos 1980, durante o Governo Sarney, e início dos anos 1990, com o Plano Collor. Para a ministra, “é importante que o Estado deva ser responsabilizado por atos lícitos quando dele decorrerem prejuízos ao concessionário em condição que o desiguala aos demais”. O Presidente do Supremo Joaquim Barbosa, em recente decisão, reduziu a chance de uma solução favorável para os milhares de aposentados. No dia 5 de julho ele indeferiu o pedido de tutela antecipada para que a União assumisse o pagamento das aposen-

tadorias, embora em 2012 o juiz Jamil Oliveira, da 14ª Vara Federal de Brasília, tivesse dado sentença favorável. Marcelo Bona, ex-funcionário da Transbrasil, culpa os Governos que se sucederam há décadas pela omissão deliberada, em não cobrar, em não fiscalizar, embora estimulem as aposentadorias complementares sempre sob a alegação de um déficit de recursos da Previdência Social. Para Marcelo, desde 2006, quando foi decretada a intervenção no Fundo, as aposentadorias diminuíram progressivamente até atingirem valores irrisórios. Alguns recebem menos que um salário-mínimo. A pior situação é dos 8.170 trabalhadores que aderiram ao Plano 01 da Varig, que só tem caixa para alguns meses. A maioria vive à míngua. Após terem vivido dias de glória na década de 1970, não têm dinheiro para comprar remédios para mitigar o sofrimento pelas perdas sucessivamente acumuladas. Durante a entrevista com Marcelo Bona ele mostrou no computador com o qual se comunica com companheiros aposentados, à espera de uma decisão favorável, a notícia da morte de mais um que não conseguiu resistir. Luciano Ferreira, de 68 anos, faleceu em Praia Grande de AVC hemorrágico. Foi mais uma cruz a ser colocada na longa fila de espera. Acordo, mas… As tentativas de resolver a crise que vai vitimando os aposentados remanescentes em busca de uma solução continuam. Suas aposentadorias em vez de complementar anos e anos de dedicação têm deixado milhares de pessoas à beira da miséria. No dia 16 de julho passado, os representantes dos aposentados Graziella Baggio e Zoroastro Ferreira Filho, com apoio dos Senadores Paulo Paim e Ana Amélia Lemos, estiveram reunidos em Brasília com o Ministro-Chefe da AdvocaciaGeral da União-AGU Luís Inácio Adams, e com Carlos Eduardo Gabas, Secretário-Executivo do Ministério da Previdência Social, em busca de uma solução. O Ministro-Chefe garantiu que o Governo tem interesse em realizar um acordo que vai resolver a questão que se arrasta há alguns anos, mas ressaltou que só será possível depois do julgamento da ação de defasagem tarifária. Para acelerar a decisão foi criado um Grupo de Trabalho Interministerial com representantes da AGU, da Previdência Social, da Presidência da República e dos milhares de aposentados que continuam à espera de reaver seus direitos. A crise da Varig vem mostrar as deficiências do setor aéreo nacional, que já foi um serviço bastante eficiente, mas que tem-se apresentado caótico, sendo considerado um dos piores do mundo, pondo em risco milhares de passageiros, principalmente em época de megaeventos, como a recente Jornada Mundial da Juventude, a Copa de Mundo e os Jogos Olímpicos de 2016.


Comissão da Verdade quer reabrir investigação sobre a morte de Dona Lyda

Coronel Jacarandá confessa que torturou no Doi-Codi e aponta três cúmplices

O atentado que a matou nunca foi esclarecido mas a OAB-RJ quer retomar as investigações.

Em sessão conjunta, a Comissão Nacional da Verdade e a Comissão da Verdade RJ tomam depoimento de torturador.

P OR C LÁUDIA S OUZA

REPRODUÇÃO

A Comissão Nacional da Verdade (CNV), a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-RJ) e a Ordem dos Advogados do Brasil-OAB-RJ realizaram em 27 de agosto uma solenidade na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC), em homenagem a Dona Lyda Monteiro, ex-secretária da OAB, que morreu ao abrir uma cartabomba endereçada ao então presidente da OAB, Eduardo Seabra Fagundes. O atentado, ocorrido há 33 anos, em 27 de agosto de 1980, nunca foi esclarecido. O crime aconteceu durante o Governo Figueiredo na chamada “Operação Cristal”, organizada por grupos extremistas de direita. O registro de ocorrência de n° 0853 da 3ª D.P. referese ao episódio como “ato de sabotagem ou terrorismo” e informa que, na explosão foi ferido José Ramiro dos Santos, outro funcionário da OAB. Lyda Monteiro chegou a ser socorrida, mas morreu a caminho do Hospital Souza Aguiar, no Centro do Rio. No mesmo dia 27, mais duas cartas-bomba foram entregues, no Rio de Janeiro, no Gabinete do Vereador Antonio Carlos de Carvalho (PMDB) e na sede do jornal Tribuna da Imprensa. O sepultamento do corpo da secretária da OAB ocorreu em 28 de agosto de 1980, no Cemitério São João Batista, Zona Sul do Rio, com grande participação de representantes de movimentos sociais e ampla cobertura da imprensa. Lyda Monteiro da Silva nasceu em 5 de dezembro de 1920, em Niterói, Rio de Janeiro, filha de Luiz Monteiro da Silva e Ludovina Monteiro da Silva. Em 1936, aos 16 anos, ingressou na OAB. Na época do atentado Lyda estava com 59 anos, e ocupava o cargo de Diretora do Conselho Federal da OAB-RJ. Era casada e tinha um filho. Durante a homenagem na Puc, Rosa Cardoso, Presidente da CNV, afirmou que a concentração de esforços em casos específicos e a parceria entre a Comissão Nacional e a Comissão Estadual da Verdade podem ser decisivos para a elucidação do caso. “Acredito que conseguiremos descobrir quem foram os assassinos.” Presente à cerimônia, Eduardo Seabra Fagundes, alvo do atentado, recordou detalhes sobre o contexto que envolveu a ação terrorista: “A OAB era uma das entidades mais atuantes na luta contra a di-

tadura, e exatamente por isso sofreu tantas represálias. Pouco antes daquele episódio tenebroso, a Ordem ficou sabendo que havia ossadas em Goiás, descobertas em um terreno baldio. Familiares de perseguidos políticos tinham certeza de que eram as ossadas de seus parentes e amigos. Fomos até lá, entrevistamos autoridades, a imprensa noticiou, e aquilo obviamente causou malestar. Coincidência ou não, poucos dias depois a bomba explodiu. Haverá uma relação de causa e efeito? Talvez sim, talvez não.” Wadih Damous, Presidente da Comissão da Verdade do Rio, afirmou que a entidade pretende reabrir o caso: “O inquérito que conduziu as investigações acerca da bomba endereçada ao Seabra Fagundes é uma farsa. Isso não é nenhuma novidade, isso já se dizia em plena ditadura. Não tenho a menor dúvida de que esse inquérito foi conduzido pelo SNI [Serviço Nacional de Informação] e pelo Doi-Codi [Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna]”. Para o advogado Luiz Felippe Monteiro Dias, filho de Lyda Monteiro, o atentado não foi investigado em razão de interesses políticos: “Partidos políticos fizeram acordos com o Governo para deixar de lado o atentado e garantir as eleições de 1982. Agradeço muito o apoio de todos e da Comissão da Verdade para elucidar este crime. Pela primeira vez sinto-me sem a responsabilidade que caiu sobre mim. A vida inteira eu fui vítima e investigador. Vítima e advogado. E não há coisa pior, Doutor Seabra deve saber, do que advogar em causa própria. Agora, tudo isso mudou.” O panorama político da época foi destacado pelo jornalista Chico Otávio, que também defendeu a apuração do episódio: “Tudo começa em 1968, 1969, com o início da chamada guerra suja. Sob a batuta do General Milton Tavares de Souza, chefe do Centro de Informações do Exército, foi dado início a um dos períodos mais bárbaros da História do nosso país, com torturas, mortes e desaparecimentos. Em quatro anos, pode-se dizer que a luta armada da esquerda foi praticamente exterminada. Precisamos entender a trajetória histórica que levou não só ao atentado na OAB como também ao atentado do Riocentro e a uma série de outros atos de terrorismo perpetrados por agentes do Estado”.

P OR C LÁUDIA S OUZA

O Coronel Walter Jacarandá, da reserva do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, admitiu no dia 14 de agosto ter participado de sessões de tortura no Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna–Doi-Codi, do 1º Exército do Rio em 1970. Ele prestou depoimento às Comissões Estadual e Nacional da Verdade na Assembléia Legislativa do Estado– Alerj. Jacarandá disse que integrava um grupo de operações especiais subordinado ao Doi-Codi, e que participou de sessões em que presos políticos eram submetidos a choques elétricos, espancamentos, afogamentos e outras formas de tortura. Contou o Coronel que entrou na repressão aos grupos políticos de contestação ao regime militar “por aventura”. Ele considera ter participado de “uma guerra” a “um movimento contrarevolucionário”. Questionado sobre a morte do jornalista Mário Alves em janeiro de 1970, sob tortura no Doi-Codi, Jacarandá inicialmente falou em excessos. Posteriormente, admitiu que “o excesso é a tortura e a tortura é o excesso”. Ele negou ter participado da morte de Alves, que era dirigente do clandestino PCBR. O depoente citou os oficiais da reserva Duleme Garcez (tenente e na época comandan-

te do Pelotão de Investigações Criminais), Luiz Mário Correia Lima (tenente) e Roberto Duque Estrada (tenente) como companheiros de atuação no DoiCodi. Os três também foram convocados pelas duas Comissões, mas enviaram petição, por meio de advogado, argumentando que já respondem pelos fatos investigados no Ministério Público Federal e na Justiça Federal. Os membros das Comissões disseram que os ausentes serão chamados para nova sessão. Se faltarem, poderão ser trazidos com auxílio de força policial. Um grupo de manifestantes iniciou protesto exibindo faixas pedindo punição para os torturadores, mas foram reprimidos pela segurança. O Deputado Gilberto Palmares foi obrigado a intervir para evitar que o conflito se generalizasse. O PC de Mário

Mário Alves de Souza era dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário–PCBR tendo saído do Partido Comunista Brasileiro-PCB, que não adotava a luta armada como forma de resistência à ditadura militar. O PCBR, fundado em 1968 em um sítio no interior do Estado do Rio, pregava uma revolução popular que destruiria o Estado burguês associado a uma ditadura militar, para ser formado um governo popular revolucionário.

Três denunciados não aparecem O Tenente Mario Correia Lima e os Capitães Dulene Aleixo Garcez e Roberto Duque Estrada, acusados de seqüestro e prática de tortura na época do período militar, não compareceram à audiência pública realizada pela Comissão Estadual da Verdade na Alerj. Os três foram representados por um advogado, que alegou que não haveria necessidade, já que eles tinham dado depoimento anteriormente. Somente o Coronel Jacarandá compareceu à Alerj e confessou ter praticado torturas que resultaram na morte do jornalista Mário Alves de Souza, nas dependências do DoiCodi do Rio de Janeiro, em 1970.

A Juíza Tania de Melo Heine, da Primeira Vara da Justiça Federal do Rio de Janeiro responsabilizou a União pelo seqüestro, tortura, morte e ocultação de cadáver de Mario Alves. Participaram como testemunhas o jornalista Alvaro Caldas, membro da Comissão Estadual da Verdade, que leu depoimento feito em 1979 por outros presos políticos, entre eles Antônio Carlos de Carvalho, Raimundo Teixeira, José Carlos Tórtima e Paulo Sérgio Paranhos. Além das testemunhas compareceram Rosa Cardoso, presidente da Comissão Nacional da Verdade, Wadih Damous, Presidente da Comissão Estadual RJ, e Lúcia Alves, filha de Mário, que fez um depoimento emocionado.

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DIREITOS HUMANOS DIVULGAÇÃO

A saga de uma família perseguida

Denise, ao lado de seu marido Leonardo: “É necessário promover a justiça, porque sem isso as violações bestiais contra os direitos humanos vão continuar.”

Uma história familiar que conta o drama de um país Comissão da Verdade e documentário premiado resgatam a trajetória de Eduardo Bacuri. P OR C ELSO S ABADIN

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quase uma centena de filmes e seriados de TV, além de roteirizar e dirigir o premiado Capitães de Abril, longa de ficção sobre a ditadura Salazarista. Assim, compartilhando roteiro, produção e direção, estas duas mulheres mergulharam no doloroso universo de outras duas mulheres, Denise Crispim e Eduarda, para a realização do documentário Repare Bem, que recebeu no último mês de agosto os prêmios de Melhor Longa-metragem Estrangeiro (trata-se de uma co-produção França/Itália/Brasil) pelos júris oficial e da crítica no 41º Festival de Cinema de Gramado. DIVULGAÇÃO

Bonito, alto, e dono de um par de olhos muito claros que chamavam a atenção de todos, Eduardo Collen Leite tinha porte e aparência de galã de cinema. Não era. De codinome “Bacuri”, foi um dos guerrilheiros mais temidos pela ditadura militar brasileira instalada em 1964. Sua militância começou ainda na adolescência, na Organização Revolucionária Marxista Política Operária-POLOP. Serviu o Exército, foi técnico em eletricidade, e ingressou na luta armada como membro da Vanguarda Popular RevolucionáriaVPR. Tornou-se líder da Rede Democrática, e mais tarde filiou-se à Aliança Libertadora Nacional-ALN. Após participar dos seqüestros de Nobuo Okuchi, cônsul do Japão em São Paulo, e de Ehrenfried von Holleben, embaixador alemão no Rio de Janeiro, Bacuri foi preso em 21 de agosto de 1970 por oficiais do Centro de Informações da Marinha-CENIMAR. Havia um mês que sua esposa, e também guerrilheira, Denise Crispim, já estava presa no Dops paulista. E grávida. Bacuri jamais sairia dos porões da ditadura, por onde permaneceu, sob intensa tortura, por 109 dias, até ser executado. O período é considerado o mais extenso já vivenciado por um preso político durante o golpe de 1964. Denise conseguiu se exilar no Chile, e pouco depois mudouse para a Itália, onde na medida do possível reconstruiu a vida. A filha, Eduarda, jamais viu o pai. Décadas depois, a história de Bacuri, sua esposa exilada e a filha que ele jamais viu

interessou à jovem Ana Petta, atriz teatral que por conta do episódio se tornou produtora de cinema: “Como meu pai foi preso no Congresso da Une em Ibiúna, em 1968, há muito tempo me interesso pelo tema da ditadura. Conversando então com a Maria, surgiu mais forte a idéia de contar esta história no cinema”, afirma. “A Maria” a quem Ana se refere é ninguém menos que a atriz, cantora e cineasta portuguesa Maria de Medeiros, mais conhecida do público brasileiro por sua atuação no filme Pulp Fiction – Tempo de Violência, mas cuja carreira no campo artístico é bem mais ampla. Ela atuou em

Numa cena tocante, Eduarda, que foi a primeira a ser entrevistada, se emociona ao mostrar para a câmera uma velha camisa branca de mangas curtas, única lembrança física de seu pai.

“Tudo começou com a vontade de falar sobre a nossa geração, sobre os filhos dos militantes dos anos 1960, os filhos desta resistência, e como os filhos dos perseguidos políticos também se transformaram involuntariamente em perseguidos políticos. Meu interesse era saber o que aconteceu com esta geração que nasceu exatamente durante a ditadura”, conta Ana Petta, que conheceu Denise e Eduarda através do trabalho da Comissão da Verdade. “Além de ter me convidado para o projeto, Ana fez as conexões com a Comissão da Verdade e até a locução dos textos daquelas cartas maravilhosas escritas pela Encarnación”, explica Maria. Encarnación Lopez se constitui praticamente num capítulo à parte dentro do filme. Ela era a mãe da Denise Crispim, e foi, segundo Ana, “uma descoberta que aconteceu durante o processo do documentário. Era uma história que não conhecíamos. Ficamos sabendo que Denise, além de ser mãe de perseguidos políticos, também é filha de perseguidos políticos, também nasceu clandestina. Ou seja, é a saga de uma família que praticamente viveu três gerações na clandestinidade”. As cartas que Encarnación deixou para a filha revelam “um talento literário extraordinário e um testemunho precioso”, no dizer de Maria de Medeiros. Além do forte viés familiar, Repare Bem foi pautado por marcantes laços interpessoais. “Primeiro conheci a Ana, e nasceu uma amizade”, conta Maria. “Depois fomos até a casa de Eduarda, no norte da Holanda, que foi a primeira pessoa que entrevistamos. Como ela tem duas filhas, eu fui também com minha família: meu marido e minhas duas filhas pequenas. As crianças ficaram brincando, meu marido ficou conversando com o marido de Eduarda enquanto eu fazia as entrevistas. E depois, para fazer as entrevistas com Denise, fomos a Roma, onde também nasceu uma outra relação afetuosa entre nós, Denise e Leonardo [atual marido de Denise]”, explica. O resultado, ainda segundo Maria, é um filme que ela considera “totalmente pessoal. Eu quis contar esta história pela experiência pessoal de cada um”. Este foi um dos motivos que fizeram com que a diretora optasse por não utilizar nenhuma imagem dos arquivos históricos brasileiros. “Estas imagens da repressão, das manifestações, da polícia a cavalo etc., já foram vistas em vários filmes brasileiros, eu não queria utilizá-las novamente”, explica. Optou-se então pelo uso apenas de imagens dos arquivos da família, bem como de objetos pessoais, documentos, fotos, casas, sempre com a carga afetiva que eles representam. Funcionou. A cena em que Eduarda se emociona profundamente ao mostrar para a câmera uma velha camisa branca de mangas curtas como a única lembrança física de seu pai é uma das mais tocantes do filme. Durante a coletiva de imprensa de Repare Bem no Festival de Gramado, alguém comparou o filme a uma sessão de psicanálise. Denise concorda, e acrescenta: “foi


Instrumento de pressão

Estilisticamente, a diretora Maria de Medeiros diz ter feito o filme para que “de fato ele fosse muito seco, muito enxuto. Isto porque o que estamos contando envolve muita água, muita lágrima, muita mágoa, muito sofrimento, muito sangue, e seria obsceno da minha parte se ele fosse um filme de grandes movimentos de câmera, grandes enfeites estéticos, não teria nenhum sentido”, teoriza. Já Denise acredita no filme como “instrumento de pressão” pela justiça. “Ou que pelo menos se comece a procurar justiça, porque a lei diz que os crimes da época da ditadura já prescreveram. Como a Anistia também anistiou os torturadores, parece que não se pode no momento fazer muita coisa para punir os criminosos”, lamenta. “O que precisamos agora no Brasil, além de conhecer a história, é promover a justiça, porque sem isso as violações graves e bestiais contra os direitos humanos vão continuar. É bom lembrar que no Brasil ainda se torturam presos”, ressalta, indignada. Ana Petta diz que a Comissão da Verdade “é uma panela de pressão que está sendo aberta aos poucos. Muita coisa ainda vai acontecer, muita coisa ainda vai ser revelada. A gente achava, por exemplo, que no Brasil não havia acontecido, durante a ditadura, casos de seqüestros de crianças. E hoje, com a abertura dos arquivos, já se sabe que houve vários casos de seqüestros de crianças para adoção. Repare Bem é apenas uma entra as muitas histórias que ainda precisam ser contadas”, encerra.

MARIO MIRANDA/AGÊNCIA FOTO

a primeira sessão de psicanálise que realmente começou a funcionar. Foram três dias muito dolorosos que a Maria me entrevistou, em Roma. Foi este ser humano muito especial, que é Maria, quem conseguiu me ajudar a, aos poucos, finalmente colocar tudo pra fora. Era doloroso, eu entrava em prantos, fica difícil até falar sobre isso agora. Foi muito importante. Eu estava colocando pra fora coisas que ficaram dentro de mim por 40 anos”, diz Denise, visivelmente emocionada. Ela conta que no exílio viveu uma identidade totalmente nova. “Os italianos só sabiam que eu era uma exilada política, nada mais. Ali eu me casei com Leonardo, passei a ser cidadã italiana, e nunca falava sobre o Brasil com ninguém. Ninguém conhecia minha história, e até hoje os pouco italianos que me conhecem também não sabem nada de mim. Sim, fazer o filme foi uma terapia, mas foi bem mais do que isso: de repente eu descobri que eu tinha a obrigação de falar. O Eduardo foi morto de uma maneira miserável, tantos outros companheiros também morreram, e eu tinha de documentar esta realidade, para que todos soubessem o que tinha acontecido. Pelo menos o meu pequeno pedaço de história pessoal eu podia mostrar para todos, documentar. A sociedade civil brasileira, como um todo, não sabe exatamente o que aconteceu naquela época. Tem um episódio ou outro que vem à tona, mas de uma forma geral a sociedade não sabe”, desabafa.

MARIA DE MEDEIROS

“A história de cada um de nós é a história do nosso país” Maria de Medeiros confessa que estava muito apreensiva antes de começar a filmar. “Sabia que ia abordar temas extremamente dolorosos, e eu tinha feito até então um único documentário, que era sobre um tema muito relaxado e divertido: as relações apaixonadas entre os críticos de arte e os artistas [Je T’aime... Moi Non Plus: Artistes Et Critiques, de 2004], onde eu entrevistei 61 pessoas, sempre com muita risada, muita descontração. E agora o caso era totalmente diferente, eu estava realmente assustada”, diz. “Para mim, Repare Bem é uma continuação de Capitães de Abril, filme que dirigi e que conta, ficcionalmente, a escalada da democracia em Portugal, depois de 48 anos de ditadura. Repare Bem é um documentário, sim, mas um documentário que é uma saga, com muita história, com muita paixão, e que conta o reforçar da Democracia no Brasil”, compara. A diretora revela que, para se preparar para filmagens de Repare Bem, assistiu novamente às nove horas do documentário Shoah, de Claude Lanzmann, um registro contundente sobre o massacre de judeus durante a 2ª Guerra Mundial. “Revi com muita atenção uma cena onde um barbeiro começa a contar sua história no campo de concentração, e de repente ele pára, não consegue mais falar, cai em prantos, e ao fundo se ouve a voz do diretor, gritando ‘você

tem que contar, você tem que contar!’. E eu pensando: ‘ai meu Deus, eu não tenho este temperamento, não vou conseguir fazer isso’”, explica Maria de Medeiros, com um sorriso nervoso. “Aprendi que é preciso dar um tempo para que as pessoas entrem por vontade própria no desejo de testemunhar”, diz. “A primeira vez que Eduarda rompeu a chorar, eu fiquei tão aflita, comecei a chorar também, desliguei a minha câmera e percebi que meu cameraman (trabalhávamos sempre com duas câmeras) também desligou a dele. Me abracei a Eduarda, chorei junto com ela, e depois pensei: ‘Que boba que eu fui. Não compete ao diretor fazer isso. Ela está oferecendo alguma coisa muito preciosa, um testemunho que ela está transmitindo além de mim, está transmitindo ao mundo, e eu desliguei minha câmera’. Houve momentos na casa de Denise, em Roma, que era uma choradeira atrás da câmera! E tínhamos de chorar baixo, para não interromper o fluxo da palavra da Denise. Quando a palavra se libera, é uma coisa preciosa que nos ultrapassa. Foi aí que eu aprendi. Sem a pressão do diretor do Shoah, mas aprendi que o papel do diretor e da câmera é receber o testemunho. E em Repare Bem, a história pessoal e individual desta família é a História do Brasil também. A história de cada um de nós é a história do nosso país”, finaliza Maria de Medeiros.

Uma verdade tão dolorida que parece ficção Prepare sua caixa de lenços e abra seus canais lacrimais: Repare Bem é um dos mais impactantes, emocionantes e emotivos filmes feitos sobre a época da ditadura militar brasileira. Com poucas imagens de arquivo, sem os clichês típicos do tema, e abusando da (acertada) opção de dar voz a quem quer (e precisa) falar. Basicamente, é um filme muito simples, de pouquíssimos depoimentos. Mas que depoimentos! O tema central é o guerrilheiro Eduardo Leite “Bacuri”, morto em 1970 nos porões da ditadura, e aqui radiografado por duas mulheres. Uma que o conheceu muito bem, e outra que nunca o viu vivo. Respectivamente sua companheira, a também guerrilheira Denise Crispim, e sua filha Eduarda, de quem Denise estava grávida quando Bacuri foi assassinado. A diretora de Repare Bem é muito mais conhecida do público brasileiro como atriz: trata-se da portuguesa Maria de Medeiros, que teve a coragem suficiente não apenas de se debruçar sobre um tema tão espinhoso, como também, e principalmente, de lançá-lo na tela de forma árida e contundente, sem subterfúgios, deixando fluir os impressionantes depoimentos das duas mulheres. Em alguns momentos, a verdade se torna tão dolorida que parece ficção. Relatos de torturas feitas dentro de jaulas de feras no zoológico de São Paulo, a descrição do torturador Fleury, as situações humilhantes vividas pelos prisioneiros, e várias outras “cenas” tangenciam até mais o gênero horror que propriamente o documentário. Justamente por sabermos que tudo aquilo foi realidade. A perplexidade cresce ainda mais quando o fio condutor da narrativa, sem deixar de lado o político, aborda também o familiar, ao retratar a dor de uma filha que, segundo suas próprias palavras, nunca teve um pai para a colocar no colo. E tudo isso sem jamais abrir espaço para o sentimentalismo barato. Repare também na belíssima utilização, estética e de conteúdo, do clássico Um Dia Muito Especial, de Ettore Scolla. Repare muito bem. (Celso Sabadin)

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CRISE

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ABRIL EM XEQUE A maior editora de revistas do País fecha quatro títulos e boatos dão conta de que mais sete publicações serão canceladas ainda este ano, inclusive Playboy. P OR G ONÇALO J ÚNIOR

A direção se apressou em divulgar nota em que não desmentia a suspensão, mas afirmava que não havia certeza sobre quais títulos parariam e quando. Na tarde do dia 1º de agosto, porém, fechou as revistas Gloss, Alfa e Lola e todas as suas equipes foram mandadas embora. Um dia antes, anunciou o fim da Bravo!, a única publicação do País dedicada exclusivamente à produção cultural. Também foram “descontinuados” (eufemismo para “fechados”) os sites da Contigo e o abril.com. Na mesma semana, mais de 150 funcionários foram demitidos nas Redações citadas e também no portal M de Mulher, nas revistas Info, Recreio, Contigo e Claudia e no site Bebê.com. As demissões atingiram também as revistas Quatro Rodas, Viagem & Turismo, Placar e Men’s Health. A Redação de Veja perdeu quinze pessoas. Mas há outras mudanças confirmadas que irão causar grande impacto no mercado. As tradicionais revistas Playboy e Capricho deixarão de ser impressas, embora suas versões digitais continuem a existir, enquanto Manequim e Viva serão fechadas até dezembro, sem continuidade virtual.

PROCESSO DE REORGANIZAÇÃO

Victor Civita, fundador da Editora Abril, segura uma prancha de provas de impressão da revista O Pato Donald, com a qual iniciou seu projeto editorial no Brasil.

A ABRIL MEMÓRI

s jornaleiros da cidade de São Paulo viveram na gestão de Gilberto Kassab (2008-2013) um pesadelo que ainda não terminou, com a chegada do Prefeito Fernando Haddad. Segundo levantamento do Sindicato dos Vendedores de Jornais e Revistas de São Paulo (Sindjor-SP), a cada dia útil uma banca fechou ou foi ameaçada de fechamento na capital paulista nos últimos seis anos. De acordo com a entidade, em 2007, eram mais de 5 mil unidades. Cinco anos depois, eram menos de 3,9 mil, pouco mais da metade do que existe em Buenos Aires, Argentina. Em 2012, a fiscalização se intensificou e o número de encerramento chegou a duas bancas por dia. A violência que afastou crianças e adolescentes desses espaços de convivência e difusão cultural, a mudança de hábito de leitura para as plataformas digitais, o surgimento de novos pontos de venda, em supermercados, livrarias e lojas de conveniência são algumas das causas para o encolhimento do setor, sem dúvida. O principal motivo mesmo, porém, é a legislação ultrapassada – permite a venda de fitas cassetes, mas não de cds e dvds – e a ação da Prefeitura, que, sob a justificativa de manter a cidade “limpa”, vem cassando os TPUs (Termo de Permissão de Uso) de dezenas delas a cada mês. O reflexo disso na sobrevivência das revistas pode ser fatal. O caso da Editora Abril, que no começo do segundo semestre assustou o mercado com centenas de demissões e fechamentos de revistas, é emblemático dessa nova realidade. Embora “especialistas” do setor culpem exclusivamente a internet pela queda dos leitores de papel, o problema é complexo e inclui em sua origem gestão de negócio, dificuldade de acompanhar as novas mídias digitais e queda na qualidade do conteúdo. Os fatos: maior editora brasileira de revistas, com títulos que circulam há mais de 50 anos – Capricho, O Pato Donald, Mickey, Manequim, Cláudia e Quatro Rodas – e conhecida pela excelência do que publica, a empresa viu seu nome ser envolvido em boatos a partir de junho de que cancelaria onze títulos, alguns deles consagrados historicamente, como Playboy, Manequim, Capricho e Contigo.

Em comunicado oficial, a Abril S.A. justificou que as “mudanças” focavam “no crescimento das Unidades de Negócios e convergem investimentos e esforços às marcas líderes”. Segundo o texto, em “linha com o processo de reorganização” que vinha sendo empreendido nos últimos meses, o Presidente do Grupo, Fábio Colletti Barbosa, anunciou naquele momento alterações nas estruturas editorial e comercial das Unidades de Negócios Abril Segmentadas, Veja, Exame e Negócios Digitais. Entre as principais mudanças na frente comercial estava a descentralização da Diretoria de Publicidade Centralizada, que passou a ser distribuída em cada uma das unidades de negócio. “As mudanças são importantes para focar investimentos e esforços nas marcas líderes nos vários segmentos em que atuamos, garantindo assim o crescimento e a relevância das publicações”, disse o comunicado. O documento trazia uma explicação de Barbosa: “A Abril encara esta fase como parte da evolução natural dos negócios e segue com a missão de difundir a informação, com excelência editorial, pi-


oneirismo e integridade”. A Abril Segmentadas, sob o comando da diretora-superintendente Helena Bagnoli, anunciou uma “revisão” do seu portfólio. Ou seja, a “descontinuação” de Alfa, Bravo!, Gloss e Lola, assim como o portal Club Alfa. As medidas incluíram ainda a reorganização das áreas editorial e comercial, que impôs o reagrupamento de títulos e a movimentação de pessoas. Assim, com menos pessoas em suas equipes, vários títulos foram agrupados por segmento e teriam um único diretor de Redação: Elle, Estilo de Vida e Manequim passam a ser comandadas por Dulce Pickersgill, enquanto Sérgio Xavier passou a dirigir a família de revistas formada por Men’s Health, Women’s Health, Runner’s World e Placar. Mônica Kato segue à frente das Femininas Populares e assumiu também o comando de Máxima. Bons Fluidos passou a reportar-se a Denis Russo Burgierman, diretor de Redação de Superinteressante e Vida Simples. Na frente digital da Abril Segmentadas, foi criada a Diretoria de Estratégia Digital, comandada por Guilherme Werneck (antes responsável por Desenvolvimento de Novos Negócios da MTV). Desde junho, a Abril começou a mexer de forma importante, quando a estrutura da empresa foi reformulada e diretores de Núcleo desligados. No mês seguinte, foi anunciado o fechamento do canal MTV para setembro. “Acredito muito na força do time que temos e na capacidade das pessoas que agora assumem novas posições”, observou Barbosa. “Temos talentos para enfrentar os muitos desafios que as transformações do setor representam neste momento. No fundo, estamos diante de oportunidades fascinantes e temos toda capacidade para aproveitá-las”, conclui o Presidente. O que causou estranheza foi que a reestruturação da companhia aconteceu dois meses depois do anúncio da divulgação de uma respeitável receita líquida de R$ 2,98 bilhões, alcançada em 2012. Já a receita publicitária da empresa foi de R$ 1,03 bilhão no período. Giancarlo Civita, que à época da divulgação dos resultados estava no cargo de Vice-Presidente do Conselho de Administração da companhia, destacou que “mesmo em ano de

cenário econômico complicado mantivemos firme a missão de difundir cultura, educação e entretenimento”. A parte digital da empresa também apresentou números satisfatórios. Foram 59 milhões de internautas que acessaram os sites da editora no ano passado. O da Exame.com teve crescimento de 86% e chegou a 53 milhões de pageviews.

CLIMA TENSO O ano parece ter sido tão bom que a Abril S.A. comprou a participação dos minoritários na empresa Elemidia e passou a ter 100% do negócio. Não faz muito tempo, o grupo fez aquisições por meio da Abril Educação, à qual pertencem marcas como Ática e Scipione, Anglo, Ser, Maxi, pH e GEO, os sistemas Anglo Vestibulares e o Curso e Colégio pH. O Jornal da ABI apurou que, de qualquer modo, o clima permanecia tenso na editora no começo de setembro, por causa dos boatos de novas demissões. E isso deve acontecer por causa dos números ruins em 2013 – o faturamento em todo o grupo despencou 40% e piorou no segundo semestre, apesar de a editora se manter com bom faturamento. A expectativa é que em dois anos o quadro de funcionários seja reduzido à metade. Ou seja, serão 2 mil demitidos como parte dos ajustes. Eles estão distribuídos em dois segmentos: educação, impressos e logística. A idéia é reduzir significativamente o tamanho da editora de revistas. Ao mesmo tempo, no esforço de enxugar as estruturas de sistemas, a editora deve sair do prédio atual, um dos cartões postais de São Paulo, na Marginal Pinheiros. E a terceirização deve se tornar uma constante. No primeiro dia útil de setembro, 30 funcionários foram demitidos e essa medida deve se tornar mensal, para não criar impacto público.

ADEUS EM SILÊNCIO Em tom emocionado, a Carta da Redação da última edição da revista Bravo!, escrita pelo Redator-Chefe Armando Antenore, recebeu o título de “O melhor jeito de dizer adeus”. O autor se referia a uma história de despedida que o escritor português José Saramago já contara diversas vezes tendo como protagonista o seu avô materno. Mas, a verdade é que esse editorial já dava pistas, aos fiéis leitores da revista, do que estava por vir, como deixa claro este trecho do belíssimo parágrafo final: “Há despedidas que não encontram tradução. O que falar diante de um amigo que se muda para bem longe, um amor que morre, um projeto querido que se interrompe? Às vezes, o melhor – o mais preciso e eloqüente – é dar adeus em silêncio.” Preciso, eloqüente e triste.

dentro do conceito da qualidade e da excelência editoriais. Foi assim desde que Victor Civita (1907-1990) lançou O Pato Donald, em 12 de julho de 1950 – e que não se sabe se continuará a ser publicada, depois de 63 anos e mais de 2,5 mil números editados. Bravo! era uma das poucas revistas culturais com tradição e reputação, lançada há 16 anos e um espaço interessante de discussão. Sem entrar na discussão sobre escolhas ideológicas em perí-

PREJUÍZO CULTURAL As notícias do fechamento das revistas da Abril trazem, de imediato, um lamento pelo prejuízo cultural que uma medida assim provoca num mercado que peca pelo número excessivo de títulos e pouco valor de conteúdo, muitas vezes. Assim como a Rede Globo, a história da Abril foi direcionada há mais de 60 anos

A edição especial comemorativa dos 35 anos da Playboy (número 423), lançada em agosto de 2010, teve quase 300 páginas. E agora, apenas três anos depois, a revista que faria 40 anos em 2015 deixará de circular?

odos turbulentos da História política brasileira, a qualidade fez nascer projetos de vanguarda como as revistas Realidade (1966) e Veja (1968) e assim deveriam ser conduzidas. O fim das revistas acontece num momento complicado do mercado editorial brasileiro, talvez o mais turbulento de sua história, uma encruzilhada que coloca em pontos antagônicos o admirável, temido, perigoso e ainda desconhecido mundo digital e as velhas formas de fazer jornais e revistas impressos que os olhos de pelo menos três gerações de brasileiros estão acostumados a ler. Tudo, ao que parece, aconteceu bruscamente, inesperadamente, e permite algumas reflexões para quem trabalha na imprensa ou faz revistas. A lição que se tira é aprender com o modo como a maior editora brasileira de revistas boiou num mar de icebergs nos últimos dez anos, sem conseguir acompanhar os novos tempos, sem definir que política de empresa ou editorial adotar diante da rede digital. Seu portal e sites demoraram a aparecer e nunca foram referências como fonte de notícia, como acontece com Uol e G1. Não consolidou, portanto, uma “tradição” em duas décadas de rede. A Abril não seduziu os internautas a tempo ou com eficiência. Demorou demais para se decidir também. Ao mesmo tempo, deixou suas revistas definharem, de modo decadente e ladeira abaixo, sem qualquer renovação gráfica e editorial. O exemplo mais gritante disso é a Playboy, que já foi uma instituição nacional masculina de informação e prazer – não necessariamente nessa ordem – e que perdeu sua importância jornalística ao trocar as impactantes e históricas entrevistas por conversas fúteis com astros passageiros ou efêmeros e pouco interessantes, principalmente do meio musical. E por abandonar as estrelas da tv por oportunistas fugazes de realities shows na hora de tirar suas roupas. Perdem o leitor e o próprio jornalismo. Sem as boas revistas da Abril, as bancas de jornal se tornam mais vazias de conteúdo, há muito infectadas por um jornalismo oportunista e irresponsável em boa parte dos títulos à venda. JORNAL DA ABI 393 • SETEMBRO DE 2013

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IMPRENSA

A BATALHA DA PLAYBOY CONTRA A CENSURA MILITAR Documentos inéditos das décadas de 1970 e 1980 revelam como a Editora Abril lutou contra a censura no regime militar para lançar no Brasil a mais famosa revista masculina do mundo. P OR G ONÇALO J ÚNIOR

Na manhã do dia 22 de maio de 1978, o então diretor da Editora Abril, Roberto Civita (1936-2013), enviou à chefe do Dedoc (Departamento de Documentação) da empresa um bilhete escrito que acabaria arquivado como o documento de uma época. Despretensiosamente, ele observou: “Acho que deveríamos ter um bom arquivo das nossas lutas com a censura para consultas/aproveitamentos futuros. Preciosidades como a revista anexa, arquivados junto com os layouts aprovados, vão deliciar nossos filhos e netos (e eventuais leitores da História da Abril).” O editor e empresário se referia ao número 26 de A Revista do Homem. Não poderia ser mais profético. A edição à qual ele se referia tinha chegado às bancas em setembro de 1977 e trazia, além de uma carta anexada com uma bronca do então Chefe da Censura Federal em Brasília, Rogério Nunes, carimbos e etiquetas em mais de uma dezena de imagens retratando mulheres nuas ou semi-nuas. Todas com a mesma mensagem: “Nessas condições, nenhuma foto será mais liberada nas próximas edições”. O recado era claro e seu tom autoritário retratava o clima pesado que pairava sobre o País. O Brasil vivia sob o regime militar desde 1964 e, de 1969 a 1980, a imprensa em diferentes graus foi obrigada a se submeter à censura prévia. No caso do assunto sexo, a censura foi imposta pelo famigerado decreto 1066, de 26 de janeiro de 1970, mais conhecido como Decreto Leila Diniz – teria sido motivado por uma entrevista que ela deu dois meses antes ao Pasquim, em que pregava o amor livre. Foi justamente nesse período que Roberto Civita resolveu levar adiante a idéia de lançar uma sofisticada revista masculina. Nascia assim a edição brasileira de Playboy, ainda que com pseudônimo, já que o título havia sido terminantemente vetado pelo então ministro da Justiça, Armando Falcão. A solução foi manter o padrão da publicação americana idealizada por Hugh Hefner em 1953, mas mudar o nome para Revista do Homem. Um minucioso trabalho de pesquisa e edição reconstituiu por meio de entrevis30

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ram mutiladas, seios e nádegas alterados e pelos pubianos maquiados ao mesmo tempo em que reportagens, artigos, entrevistas e até cartuns foram censurados. Lançada com uma festa que durou 30 dias no edifício sede da Editora Abril, quando a coelhinha Lívia Mund se encarregou pessoalmente de apresentar a publicação ao mercado publicitário, A Revista do Homem chegou às bancas em agosto de 1975 ainda livre das amarras da censura. Mas a alegria duraria pouco. A partir do número 3, o contrariado diretor da Censura Federal, Rogério Nunes, passaria a exigir que a revista fosse submetida a uma minuciosa inspeção na sede do órgão em Brasília, antes de ser enviada à gráfica. Assim, a cada mês, e por cinco anos, a editora Abril se A primeira edição de A Revista do Homem (acima) viu obrigada a enviar um represenchegou às bancas em agosto de 1975. Somente três anos depois, em julho de 1978, a publicação pôde finalmente tante para apresentar uma cópia da assumir sua verdadeira identidade: Playboy (abaixo), e revista que iria para a banca e negopassou a circular com o slogan de “A revista do homem”. ciar – foto a foto, texto a texto – o que poderia ou não ser publicado. No início e até 1977, essa missão coube ao diretor Waldemar Souza. “Era ele quem levava os tapas dos censores em Brasília, enquanto a gente ficava aqui em São Paulo fazendo uma ginástica tremenda para que sempre saísse um pouquinho a mais de nudez a cada edição”, recordou Mauro Ivan Pereira de Mello, na época diretor do Núcleo de Revistas Masculinas e coordenador do projeto que lançou A Revista do Homem. Depois, ir a Brasília passou a ser responsabilidade do editor, Carlos Roberto da Costa. “Eu ia com uma pasta cheia de fotos e, no meio, colocávamos o que chamávamos de ‘boi de piranha’, que nada mais eram que fotografias ‘exageradas’ de nus, com poses extravagantes, para que eles tivessem o que cortar. Assim, conseguíamos aprotas e documentos a árdua batalha que se var as que queríamos”, lembrou. travou entre os profissionais da Editora O ex-editor conta que Nunes era um Abril e os censores do regime militar para delegado imprevisível que fazia o tipo que a revista chegasse mensalmente de durão e que não admitia ter a sua autoriforma ininterrupta às bancas. Em nome dade de censor questionada. “Uma vez, da moral e da luta contra o fantasma do chamei-o de ‘você’ e o tempo fechou. Ele comunismo, fotos de belas mulheres fo-

ficou ofendido, como se eu tivesse ‘tomado liberdade’, o que ele não permitia. Exigiu então que eu me referisse a ele apenas como ‘doutor‘ ou ‘vossa excelência’. Fiquei vermelho na hora, pedi mil desculpas, disse que não quis ofendê-lo e passei a me policiar para não repetir a falha.” No meio do fogo cruzado

A negociação das fotos era o momento de maior tensão desses encontros, já que o editor se via no meio do fogo cruzado entre o Diretor de Redação Mário de Andrade, que não aceitava um “não” como resposta e queria que seu representante desse o máximo de si na negociação das imagens, e o censor, sempre inflexível: “O Mário, com suas broncas, sempre dava a impressão de que eu poderia ter conseguido mais, mas eu explicava que havia tentado todos os argumentos possíveis...”. Os encontros com Nunes aconteciam pela manhã e Costa conta que seguia sempre a mesma estratégia de ação. “Era preciso enrolar ao máximo até que chegasse a hora do almoço. Aí, era praxe levar o censor para almoçar em algum restaurante luxuoso de Brasília.” A conta, claro, quem pagava era sempre a Abril. “Eu tinha de convidá-lo, já que ele esperava por isso, num terrível jogo de pressão e chantagem. O Nunes gostava de ser bajulado e nós tínhamos de dançar de acordo com a música dele. Se ele tivesse, por exemplo, algum colega presente, o protocolo mandava que também o convidássemos.” Numa dessas vezes, o censor, entusiasmado com a visita de um amigo, liberou todas as fotos, inclusive as tais “bois de piranha” com nu frontal, o que era rigorosamente proibido. “Quando cheguei a São Paulo, mesmo com a autorização em mãos, fizemos uma reunião com o então diretor jurídico da Abril, Edgar de Sylvio Faria. Apesar do sinal verde da censura, ele aconselhou a não publicar as tais fotos porque isso nos traria problemas e a revista certamente seria apreendida.” Carlos Grassetti, diretor de Arte da revista na época, contou que o objetivo da equipe era negociar sempre para manter um canal aberto com os censores. “Tentávamos dessa maneira avançar um pouco a cada edição, embora eles deixassem bem


A famosa edição número 26 de A Revista do Homem (acima) foi motivo de bronca do Chefe da Censura. Devolvida para a Editora Abril com adesivos de advertência colados nas páginas, juntamente com uma carta, informava que “nessas condições, nenhuma foto seria liberada nas próximas edições”. Aqui, o busto nu de Nidia de Paula incomodou os censores.

claro o que podia e não podia sair, inclusive por meio de memorandos [leia texto a partir da página 33]. Mas foi dessa forma que fomos derrubando barreiras e ajudamos a acabar com a censura ao sexo na ditadura”, afirma. Quando não era possível, diz Grassetti, o jeito era cobrir parcialmente as garotas com véus, roupas, camisetas molhadas e até mesmo intervenções feitas com um spray chamado aerógrafo, capaz de esmaecer sutilmente mamilos e suprimir pelos atrevidos. Explorava-se também a composição e a luz no momento da realização das fotos. “Trabalhávamos com uma linguagem visual limitada e imposta pela censura e a criação fotográfica tinha de seguir essa determinação”, explicou Grassetti.

Em 1980 finalmente as revistas masculinas puderam publicar fotos com nu frontal. E a Abril não perdeu a oportunidade de lançar o especial As Garotas de Playboy: nudez total!

Responsável pela realização da maioria dos ensaios no início da revista, o fotógrafo Luis Tripolli concorda e lembra que seu desafio era acatar a cartilha da censura ao mesmo tempo em que deveria produzir ensaios sensuais. “Não chegava a usar apetrechos para esconder as partes ditas ‘proibidas’ das mulheres. Como eu sabia de antemão o que podia e o que não podia, usava o movimento do próprio corpo da modelo para atingir o objetivo desejado”, recordou. Enfim, uma pequena abertura

Em julho de 1978, durante o processo de abertura promovido pelo Governo do então General Ernesto Geisel, A Revista do Homem finalmente poderia deixar de lado o pseudônimo e se assumir como Playboy. Isso, no entanto, não significou o fim da censura prévia às revistas masculinas. Essa decisão só viria a ocorrer em fevereiro de 1980, quando os editores entenderam que, com a medida, estava liberado o nu frontal. Por conta do fechamento antecipado, a primeira edição, a de número 58, a trazer mulheres completamente nuas só chegaria às bancas em maio. Além da capa, com a aeromoça Vera fotografada por Arnaldo Klajn, o ensaio apresentava outras 18 aeromoças totalmente à vontade. Um marco histórico. No mesmo mês, a revista ainda produziria o especial As Garotas de Playboy com o sugestivo selo “nudez total” na capa e 100 páginas recheadas com fotos de belíssimas mulheres que haviam sido retidas pela censura feitas por um time de fotógrafos que incluía David Hamilton, Otto Stupakoff, Helmut Newton e o jovem J. R. Duran. Mas o fim da intervenção dos censores no dia-a-dia da revista não trou-

xe a tranquilidade que se esperava. Nos dois anos seguintes, com o País ainda em ebulição política em pleno processo de abertura, Playboy passaria a ser alvo de apreensões em todo o Brasil, devido a ações de juízes de menores assustados com a avalanche de revistas de sexo que de repente surgiam nas bancas. A publicação acabou incluída num balaio de títulos de qualidade duvidosa e que se mostraram produtos meramente oportunistas. “Não era uma pressão nacional, centralizada, porque fazíamos tudo de acordo com as determinações da censura em Brasília. Ocorre que alguns juízes de menores ignoravam isso e mandavam recolher de qualquer maneira, ainda que a revista só fosse vendida a maiores de 18 anos.

Eles simplesmente implicavam”, lembra Thomaz Souto Correa, diretor do Núcleo de Publicações Masculinas e Femininas da Abril na época. Playboy também chegaria a ser usada como pretexto para incêndios em bancas entre 1980 e 1981, provocados por grupos terroristas de extrema direita que se diziam contrários ao processo de abertura política. Em panfletos, condenavam os jornais alternativos que noticiavam com destaque a volta dos exilados políticos e da permissividade das revistas de sexo. Foi somente com o fim da ditadura, em 1985, que a revista pôde finalmente fazer o que sempre buscou desde o seu início: dar prazer ao homem, com tudo que há de melhor na vida – lazer, humor, informação, cultura e, claro, as criaturas mais belas do Brasil e do mundo: as mulheres. *Parte desta reportagem foi publicada pela Playboy na edição de agosto de 2010. Como o autor trabalhava noutra editora, teve de usar um pseudônimo para assiná-la, do seu avô, Manuel Risério, já falecido.

SEXO E COMUNISMO A censura à imprensa no Brasil vigorou de 1969 a 1980. Até 1975, foi feita de forma prévia nos jornais diários e revistas de informação semanais, por censores que ficavam nas Redações. Nos anos seguintes, prosseguiu da mesma forma em livros, revistas, televisão, cinema, teatro, música, dança e toda forma de arte que tratasse de política e sexo. A justificativa do governo militar, que havia assumido o poder em 1964, no caso das revistas de “mulher pelada”, era que “tais publicações e exteriorizações (da nudez) estimulam a licenciosidade, insinuam o amor livre e ameaçam destruir os valores morais da sociedade brasileira”, como afirmou o então Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, em janeiro de 1970. Na sua visão, o emprego desses meios de comunicação obedeceria ainda a um plano subversivo comunista, que colocaria em risco a segurança nacional. Durante os dez anos de vigência do Decreto-Lei 1.077, de 1970, que instituiu a censura a revistas e livros considerados imorais, mais de duas mil publicações sofreram algum tipo de censura, enquanto pelo menos três centenas de títulos das editoras Edrel, Art & Comunicação, GEP, M&C, Sublime e MEK foram definitivamente fechadas. Nem mesmo a edição norteamericana de Playboy escapou. A revista, que chegou a vender 40 mil exemplares em solo nacional, seria definitivamente proibida em 6 de fevereiro de 1970, pela Portaria 11-B.

Foi nessa mesma categoria que a Revista do Homem/Playboy foi inserida. De outubro de 1975, quando saiu o volume 3, a fevereiro de 1980, a revista se viu obrigada a submeter seu conteúdo a censores federais em Brasília e a seguir uma rígida cartilha sobre o que podia ou não ser veiculado quanto a fotos e textos. E permaneceu assim até quando finalmente caiu a necessidade de se submeter aos censores federais, em 26 de fevereiro de 1980. O veto ao nu frontal, com a liberação total dos pêlos pubianos, assim como nádegas e peitos em sua plenitude, seria revogado nas páginas de Playboy em maio daquele ano, na edição que trazia a “aeromoça” na capa. Foram ela e mais algumas colegas que protagonizaram o primeiro nu frontal da revista, um marco histórico. Mesmo com a liberdade da nudez por decreto, Playboy continuou a ser vendida em sacos plásticos lacrados e com a imagem da capa escondida até 1984. E ainda amargaria com a censura policial por dois anos, entre 1981 e 1982, promovida por juízes de Menores de todo País, que, impressionados com a proliferação de publicações de sexo, incluíram a revista entre os títulos que exploravam com oportunismo o fim da censura. O momento mais crítico aconteceu em 25 de maio de 1982, quando o editor-chefe Mário Escobar de Andrade foi intimado e fichado criminalmente numa delegacia, acusado de publicar revistas pornográficas.

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IMPRENSA A BATALHA DA PLAYBOY CONTRA A CENSURA MILITAR

Jornal da ABI – É verdade que Playboy começou a nascer em 1959? Roberto Civita – Sim, sem dúvida (risos). Foi uma longa gestação. Assim que retornei dos Estados Unidos, eu disse a meu pai que queria fazer três revistas: semanal de informações, quinzenal de negócios e a Playboy. Exatamente como era a americana, influente e que dava prazer ao leitor. Uma revista com mulher bonita sim, mas feita por grandes jornalistas e escritores. Não deu, naquela época. Mas o projeto ficou gestando em minha gaveta e eu voltaria a ele. O tempo passou, veio o que se chamava de “revolução”, com o governo militar de 1964, veio a censura, a célebre apreensão de Realidade, nossa revista mensal de informação que mudou o jornalismo no Brasil. Seguiram os difíceis anos de chumbo. E a Abril não tinha condições de fazer a Playboy. Mas um dia, sim. E às tantas, fui falar com alguém de Playboy nos Estados Unidos, não me lembro aonde, sei que disse que queria fazer a revista deles no Brasil. O grupo estava lançando as primeiras edições internacionais – França, Alemanha e Japão. Cheguei e disse a meu pai que tinha a possibilidade. O momento, portanto, pareceu-me 32

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PEDRO RUBENS

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revista Playboy começou a nascer em 1958, 16 anos antes de chegar às bancas, em agosto de 1975. Na época, com 22 anos, Roberto Civita voltava dos Estados Unidos, onde estudara Administração. Disse ao pai, Victor Civita (1907-1990), que gostaria de fazer três revistas com a marca Abril para que a editora entrasse na era das modernas publicações americanas e européias: uma seria semanal de informações; outra quinzenal de negócios; e a mensal, que seria a Playboy. A editora era, então, uma pequena e quase desconhecida empresa que publicava histórias em quadrinhos e fotonovelas. Mas tinha uma boa estrutura, com parque gráfico e começava a montar sua própria distribuidora, embrião da futura Dinap. O fundador da Abril concordou com o filho, mas sugeriu que esperasse. Não havia ainda fôlego financeiro para os elevados investimentos necessários, que implicariam principalmente na montagem de uma competente Redação – e os jornalistas que faziam bem revistas estavam no Rio de Janeiro, centro editorial do País. A Abril cresceu, a semanal que Roberto queria virou Veja (1968); a de negócios chamou-se Exame (1971) e a Playboy... virou A Revista do Homem, por causa da censura, que não aceitou seu nome original. Quando resolveu publicar a Playboy, Roberto Civita desconhecia que a versão americana estava proibida de ser vendida no Brasil desde fevereiro de 1970, por ordem da censura. Mas sabia que não seria fácil convencer a censura a aceitar a edição brasileira. Mesmo assim, seguiu em frente. Queria ter sua sonhada revista masculina. Na entrevista a seguir, ainda inédita, realizada em junho de 2010, ele conta como brigou contra a censura e as situações bizarras que enfrentou para levar informações e mulheres bonitas aos homens de todo País.

Em entrevista concedida em 2010 e ainda inédita, o Presidente do Grupo Abril fala como conseguiu emplacar a Playboy em plena ditadura.

ROBERTO CIVITA

“FIZEMOS UM PROJETO DE REVISTA À PROVA DE CRÍTICA” P OR G ONÇALO J ÚNIOR

perfeito. Conversei com meu pai e ele me disse que se eu quisesse seguir adiante na empreitada, a primeira coisa a fazer era escolher com quem falaria primeiro para pedir permissão: o Cardeal ou Ministro da Justiça, que era Buzaid [Alfredo Buzaid]. Jornal da ABI – De qualquer modo, deveria pedir a benção dos dois, correto? Roberto Civita – Sem dúvida, sem dúvida. Mas o Cardeal poderia ser deixado de lado. Eu disse a papai: prefiro convencer o ministro, pois com o Cardeal certamente seria uma conversa impossível porque o assunto era sexo. E meu pai não queria en-

crenca com a Igreja. Melhor, portanto, deixá-la de lado. E assim fizemos um boneco lindo do primeiro número que levamos para Buzaid dar a sua bênção. Foi um momento tenso, sabíamos que seria muito difícil conseguir. Os militares não queriam saber de sexo, nada de revolução sexual, de amor livre, essas coisas que se pregava na época, resultado da revolução sexual. Jornal da ABI – Fizeram o boneco com o nome Playboy? Roberto Civita – Sim, com o nome Playboy. Tinha entrevista, artigos, ficção de alto nível. Não tinha mulher pelada, mas garo-

tas sensuais, bem comportadinhas, para não ferir susceptibilidades. Era um projeto muito mais intelectual e sofisticado que qualquer revista que se fazia no Brasil naquele momento. E levei para Brasília pessoalmente. Não era só o padrão de qualidade que queríamos argumentar, mas que fosse aceita pelos generais moralistas porque não tinha nada ofensivo no quesito mulher pelada. Planejamos um projeto de revista à prova de crítica. No gabinete de Buzaid, falei de nossa pretensão e trouxe algumas edições estrangeiras da Playboy para ele ter uma idéia de como seria a edição brasileira. Espalhei os exemplares em sua mesa e perguntei qual


“A REVISTA SAIU, gostaria de ficar de presente para ver, ler em casa com calma ou mesmo no próprio gabinete. Como ele tinha estudado na Alemanha, ficou com o número da edição alemã. Disse que olharia e daria notícias sobre se autorizaria ou não sua publicação.

O GOVERNO EXIGIU QUE TUDO FOSSE EXAMINADO PREVIAMENTE, SOB AMEAÇA DE APREENDER AS EDIÇÕES NAS BANCAS. DURANTE TRÊS ANOS, A CENSURA NÃO NOS DEU TRÉGUA.”

Jornal da ABI – Demorou muito para responder? Roberto Civita – Levou uma semana. E não foi Buzaid que me retornou. Um dia, me liga um Coronel de Brasília – porque todo mundo naquela época tinha um coronel como assessor e não era diferente com o Ministro da Justiça. Não sei se ele era chefe de gabinete ou assessor de Buzaid. Lembro que me disse que o ministro mandara dizer que eu não poderia fazer nenhuma revista com esse nome Playboy no Brasil, seja qual fosse o conteúdo. Me desejou muito bom dia e desligou o telefone. Ele não disse nada em relação ao conteúdo. Vetou, pelo que entendi, só o nome. Jornal da ABI – Assim, curto e grosso? Roberto Civita – Sim, funcionava dessa forma. Rápido e mais ou menos claro, porque sempre criavam brechas para deixar dúvidas e se proteger de alguma bronca. O general não explicou o porquê do veto ao nome. Fui falar com Mauro Ivan, nosso diretor de revistas masculinas, e resolvemos fazer uma revista igualzinha a que mandamos para Buzaid – sofisticada, elegante e inteligente. Era um novo padrão de publicação masculina. E trocamos para A Revista do Homem. A revista saiu, o governo exigiu que tudo fosse examinado previamente, sob ameaça de apreender as edições nas bancas. Durante três anos, a censura não nos deu trégua. O problema era que, por mais que argumentássemos, ela colocava nosso título numa vala comum de tudo que se fazia com mulheres peladas, fossem elas vulgares ou não. Jornal da ABI – Em 1975, sem a censura prévia nas Redações dos jornais, o senhor percebeu que, com certo abrandamento, era finalmente o momento de ter a Playboy no Brasil? Roberto Civita – Sim. E aproveitei a oportunidade quando fui aos Estados Unidos e soube que a revista começava a se expandir pelo mundo, com as edições internacionais. Fui falar com a direção de Playboy e ficou tudo acertado. Jornal da ABI – O regime militar estava em guerra aberta contra o erotismo desde o decreto 1066, de janeiro de 1970. Como o senhor imaginou que conseguiria fazer a Playboy? Roberto Civita – A gente não pensava numa revista de sexo, mas algo para o homem moderno e esclarecido brasileiro, que buscava as boas coisas da vida. Eu me formei na Universidade lendo os editoriais de Hugh Hefner e me agradava muito a postura dele sobre a liberalização do sexo. Era uma coisa que parecia mais do que sensata,

mais do que oportuna, mais do que necessária. A nossa proposta em 1975 era um produto ainda mais sofisticado. É preciso lembrar que Playboy nunca foi uma revista pornográfica, mas elegante, mas entrou num bolo que não tinha nada a ver. Era só olhar. Mas a censura não fazia isso. Lembro que o professor Souza levava pessoalmente as fotos para serem avaliadas na censura. Tinha de levar também o diagrama para explicar onde sairia e em que tamanho. Tudo negociado. Mandavam maquiar os bicos de um seio, não podia aparecer toda a bunda etc.

Jornal da ABI – Por que a censura permitia que aparecesse um seio só e não os dois? Que diferença fazia se fosse um ou dois? Roberto Civita – A gente nunca entendeu e eles, os censores, nunca explicaram. Um seio na foto era admissível, dois já se caracterizava pornográfico, essa era a lógica deles. E nádegas só podiam aparecer em perfil, de lado. A solução que encontramos foi o uso da camiseta molhada, a garota vestia, molhavam o tecido e aquilo dava uma transparência que permitia ver os mamilos. Durante dois ou três anos, Playboy era a revista da mulher com a camiseta molhada. Até em Chicago eles faziam para nós fotos com camiseta molhada. E as apreensões nunca eram nacionais. Acontecia que juízes de menores de vários estados mandavam apreender, o que era uma dor de cabeça constante para nosso departamento jurídico. Era preciso entrar com processos diversos. Um general, Darley Coutinho, chamou-me certo dia em Brasília e me contou que o governo estava muito preocupado porque ele, o general, soube por um colega que um navio da Dinamarca se dirigia para o Brasil naquele momento carregado de revistas pornográficas, e ia contaminar o País com aquele material subversivo. Enquanto ele falava, eu pensava: “E o que eu tenho a ver com isso?” E ele prosseguiu: “O senhor sabe que isso faz parte do plano comunista para solapar as instituições brasileiras? Os alicerces da família brasileira?” Eu perguntei: “Mas porque a Dinamarca quer solapar nossas instituições?” Jornal da ABI – Sim, porque a Dinamarca não era comunista... Roberto Civita – Pois é. Ele explicou que o papel que usaram para imprimir as revistas foi fornecido pelos soviéticos. Aí ele me disse: “Você percebe o que está acontecendo? A ameaça contra o casamento? Eu achei melhor chamá-lo aqui para contar essa história em confiança para que o senhor se preocupe com as implicações disso para as nossas instituições”. Enfim, eu estava ali por causa da Playboy, que ele considerava pornográfica. E eu respondi: “Sim, general. Muito obrigado, general”. E saí do Palácio do Planalto dizendo para mim mesmo: “Não é possível que esses caras acreditem nisso”. Mas acreditavam.

A CENSURA EM 22 FLASHES A Redação de Playboy colecionou uma série de episódios curiosos e reveladores sobre o modo como a censura e a ditadura militar viam a sensualidade como ferramenta para tentar derrubar o regime. São histórias absurdas que iam desde a proibição da mostra de um mamilo feminino ao modo muitas vezes pessoal de cada homem da tesoura agir. E por se tratar de sexo, muitos desses episódios passaram a fazer parte do anedotário de um período de falta de liberdade e de caprichos em nome da moral e dos bons costumes. Confira mais de duas dezenas desses casos:

1 – PAUTA PARA IMPRESSIONAR MINISTRO A viagem a Brasília do diretor da Abril, Roberto Civita, para convencer o Ministro Armando Falcão a liberar a Publicação da Playboy no Brasil se transformou quase numa operação de guerra. Como a ditadura combatia a “licenciosidade” e a “pornografia” havia cinco anos, era preciso um esforço diplomático para que a operação desse certo. Civita levou na pasta quatro edições estrangeiras da revista – Estados Unidos, Japão, Alemanha e França – e uma pauta de oito laudas cuidadosamente estruturada apenas para impressionar o ministro. Adjetivações como “publicação séria”, “bem informada”, “atenta”, “bem humorada”, “bom gosto” e “inteligência” foram espalhados pelo texto para que passasse a idéia de que era uma revista refinada para o homem brasileiro – e não uma “publicação de mulher pelada”, como se dizia na época. O tema, aliás, foi tratado levemente em apenas nove linhas, no rodapé da página 6, tópico C. Não deu certo. Para Falcão, revista com o nome “Playboy” estava fora de cogitação.

2 – SONDAGEM NA CENSURA A Editora Abril assinou contrato com a Playboy para compra de seu material editorial e uso do nome em 13 de maio de 1975. No dia seguinte, o diretor responsável Edgar de Sylvio Faria mandou uma mensagem a Pompeu de Sousa, chefe da sucursal em Brasília da editora, na qual pedia que ele fizesse uma visita ao Coronel Moacyr Coelho, então chefe da censura, para “preparar terreno”, uma vez que utilizariam material da famosa revista americana que os censores sabiam que a venda da edição internacional estava proibida no País. Sousa deveria tratar de três pontos: “falar do próximo lançamento; entregar o material (promocional) anexo; e informar-se com ele se ele acha oportuno que

eu e Mauro Ivan o visitemos proximamente, munidos de boneco da revista e de maiores esclarecimentos”. O representante da editora, no entanto, recomendou a Faria que abandonasse a idéia porque poderia resultar num “sinal de alerta de que nossa publicação é problemática e, portanto, vai (pelo menos poderá) lhe criar problemas”.

3 – CORTES EM BRASÍLIA A dificuldade de estabelecer uma relação “amistosa” com a censura e a “inexperiência” da Abril em fazer revistas eróticas causaram uma série de transtornos por causa da Revista do Homem. A editora pensou que a publicação não precisaria de censura prévia, antes de ser impressa, como acontecia desde o começo do ano nos jornais e revistas de informação. O próprio censor Rogério Nunes havia informado isso, quando liberou a publicação do primeiro número. Bastou, porém, que a edição chegasse às bancas para provocar a convocação imediata do represente da Abril em Brasília, pela censura. Numa comunicação interna, o diretor Edgar de Sylvio Faria escreveu: “Confirmo que não há censura prévia na Revista do Homem (4.7.1975)”. Logo depois, porém, o diretor Waldemar de Souza verificou junto à Polícia Federal que, entretanto, a revista tinha mesmo de ser mandada a Brasília antes de ser montada e impressa.

4 – PRIMEIRO MANUAL DA CENSURA José Madeira, Chefe da Censura em São Paulo, repassou para a Abril em 31 de julho de 1975 a lista de proibições que já era aplicada nas revistas masculinas concorrentes Status (Editora Três) e EleEla (Bloch). O regulamento estava dividido em quatro partes, de acordo principalmente com as características do corpo da mulher: 1 – Seios: A exposição deve abranger UM SEIO APENAS, estando o outro não visível, mediante qualquer recurso técnico (tecido, espuma de sabão, flanco, corte, escurecimento etc.). A exposição de AMBOS OS SEIOS (como aparece em Homem nº 1) está totalmente PROIBIDA pelo Ministério da Justiça, que já forneceu instruções ao Diretor Geral do DPF/Brasília; 2 – Partes Genitais: É totalmente proibida qualquer forma de exposição, mesmo em sombra; 3 – Nádegas: A exposição deve ser diluída através dos recursos técnicos supracitados ou outros equivalentes; 4 – Palavrão: Está merecendo atenção especial do Ministério da Justiça. “Portan-

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IMPRENSA A BATALHA DA PLAYBOY CONTRA A CENSURA MILITAR

to, deve ser eliminado, mesmo que, aparentemente, haja ‘encaixe’ dentro da situação focalizada.”

11 – CENSOR É DOUTOR

5 – SEGUNDO MANUAL DA CENSURA Num ofício enviado à direção da Editora Abril, em 15 de setembro de 1977, o diretor do departamento de censura da Polícia Federal, Rogério Nunes, afirmava que não seriam permitidas fotografias “fixando: a) atos sexuais; b) nádegas completamente nuas; c) seios totalmente à mostra; d) região púbica descoberta (sem sunga, tanga, biquíni ou qualquer peça de vestuário; e) modelos em poses lasciva (sic); f) relacionamento de homossexuais; g) indumentária transparente, permitindo visualizar partes íntimas do corpo”. O último tópico procurava acabar com um recurso clássico de A Revista do Homem: o uso de camiseta molhada pelas modelos, o que permitia ao leitor visualizar bem os mamilos. Em seguida, na mesma mensagem, vinha uma bronca do censor: “A falta de observância dessas recomendações é revelada pela persistência dessa empresa em apresentar fotografias nas indicadas condições, apesar de cientificada das restrições a elas impostas”.

6 – CENSURA COM AUTENTICAÇÃO Irritado com a chegada às bancas da edição de setembro de 1977 da Revista do Homem, que teria quebrado a confiança junto à censura e exagerado na edição das fotos, o diretor da censura Rogério Nunes devolveu no dia 15 daquele mês um exemplar da revista com uma série de marcações. Na carta anexada, escreveu: “Para afastar dúvidas a respeito das limitações estabelecidas por este órgão, que tem a incumbência de fazer observar a legislação em vigor sobre a matéria, encaminhamos a Vossa Senhoria, em anexo, um exemplar da revista desta empresa posta em circulação, na qual estão devidamente assinalados e autenticados os tipos de fotos que, em nenhuma hipótese, serão liberadas nas futuras edições”. Além da etiqueta colada sobre as “partes” que desaprovava, Nunes ainda carimbou cada uma delas.

7 – CENSURA MAL-HUMORADA No jogo de gato e rato entre a Redação de A Revista do Homem e os censores, quem tinha mais astúcia levava a melhor – sempre com a vantagem para o segundo grupo. A censura, claro, sabia que os editores estavam sempre tentando enganá-la pelo método da insistência, da teimosia e do “não entendi”. Ou seja, continuava a apresentar fotos mais ousadas para que outras um pouco mais leves fossem liberadas. Em determinados momentos, o censor perdia a paciência e dava bronca. Em 4 de agosto de 1975, por exemplo, o diretor da Abril Waldemar de Souza fez um relatório para Edgar de Sylvio Faria sobre seu encontro em Brasília com José Madeira, um dos chefes da censura: “Encontramos o Dr. Madeira, de saída para o 34

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Os censores não se incomodavam só com as fotos. Desenhos também eram motivo de bronca, como esta ilustração de Afonso Giordano Neto, publicada na mesma A Revista do Homem número 26: os seios da moça, mesmo desenhados, não poderiam aparecer.

gabinete do Coronel Barreto e em péssimo estado de humor, tanto que após as apresentações formais, ele disse claramente: ‘NÃO ME AFASTAREI um centímetro do enquadramento legal. Lamento muito...’” O representante da Abril, no entanto, conseguiu contornar a situação: “Como sei que a disposição normal dele é, acima de tudo, colaborar, procurei acomodar o esquema ambiental e, pouco depois, retomamos o fio da meada de forma mais amena”.

8 – CORREIOS CENSURAM PLAYBOY “Revistas de mulher pelada”, rótulo que incluía até mesmo publicações como A Revista do Homem, estava à mercê de qualquer tipo de investida de censura moral durante o regime militar. Em 21 de fevereiro de 1978, a direção dos Correios do Piauí não só se recusou a transmitir por telex uma reportagem do jornalista Montgomery Holanda sobre prostituição em Teresina, como concluiu que tinha poderes para censurá-la, dentro do que ditava o Decreto-Lei 83.858, de 15 de agosto de 1979, que disciplinava “a linguagem de despachos telegráficos”. Ernani Araújo, diretor regional da ECT, justificou ao jornal Estado de S. Paulo que o texto “incluía palavras de baixo calão”, além de fazer referência à presença do arcebispo da cidade na inauguração, anos antes, “de um hotel de alta rotatividade”. A autoridade clerical, dizia a reportagem apreendida, teria sido fotografada ao lado de uma cama redonda de um quarto cheio de espelhos. Denunciava também pontos de drogas na capital piauiense e de que teria sido gasto dinheiro do Estado no financiamento da construção de um motel em Campo Maior.

9 – CENSORES NEGLIGENTES O trabalho do censor era estressante e precisava se mostrar vigilante e implacável para impor a autoridade que o regime achava necessária. Não se podia descuidar de jornalistas, essa classe infestada de co-

munistas, como se acreditava. Parecia ser essa a regra número 1. Se sofriam pressão dos editores para liberar fotos e textos, os censores podiam, por outro lado, ser severamente repreendidos ou punidos se seus superiores não gostassem de algo inconveniente que tenha “passado”. Na dúvida, o melhor era cortar ou proibir. Num relatório interno enviado a Edgar de Sylvio Faria em 10 de outubro de 1975, o diretor Waldemar de Souza falou de seu encontro com os chefes da censura Rogério Nunes e Coriolano Loiola em Brasília, que se queixaram do problema que A Revista do Homem criou para os dois, juntos a “autoridades superiores” ao publicar no número 3 fotos “em inteiro desacordo com o nível das fotos divulgadas pelas publicações similares”. O fato foi entendido como “não cumprimento e abuso das determinações recebidas”. Por isso, os dois “foram rotulados de ‘negligentes’ na determinação dos dispositivos legais, o que estremeceu a posição funcional de ambos”.

10 – MATEMÁTICA DOS VETOS E RETOQUES A Revista do Homem, antes de virar Playboy em julho de 1978, foi mais censurada do que se imagina. Um relatório interno produzido pelo diretor de Redação Mário de Andrade para a direção da editora constatou números reveladores apenas em treze edições da revista, a partir do número 3 (quando começou a censura prévia), e o especial de humor, que circularam entre outubro de 1975 e outubro de 1976. Nesse período, 606 linhas de textos foram vetadas (cerca de 30 laudas); 30 fotos parcialmente cortadas; 35 completamente vetadas; 59 imagens retocadas; e nove cartuns proibidos e três retocados. O corte mais grave na parte de texto até então tinha sido um trecho do artigo do Senador Teotônio Vilela, “Um modelo para o Brasil”, publicado no volume 7, no qual ele defendia a revogação do Ato Institucional 5 – embora ele mesmo já tivesse dito a mesma coisa pelos jornais.

Os documentos arquivados sobre a censura a Playboy permitem identificar os censores que se relacionaram diretamente com a revista. Segundo uma fonte da Polícia Federal, o mais famoso deles, Rogério Nunes, morreu no começo desta década. A maioria dos outros – nenhum teve seus telefones localizados em Brasília e em São Paulo – era formada por jornalistas que, por sobrevivência ou ideologia, empregavam-se como censores. Havia uma crença na Polícia Federal que esse tipo de profissional era ideal para trabalhar como censor porque tinha um nível de conhecimento e de capacidade de interpretação acima da média, uma vez que lidavam com informação. Eram eles: Moacyr Coelho, Rogério Nunes, José Vieira Madeira, Manoel Marcílio Nogueira, Armando Falcão, Fernando Falcão e Coriolano Loyola Fagundes. Madeira era jornalista por formação e, na posição de censor, passou a ser chamado de “Dr. Madeira”, assim como a maioria dos censores, que ganhou o título de “doutor”.

12 – TÍTULOS SUBVERSIVOS A Abril sabia que a marca Playboy era forte e certamente aumentaria as vendas se os leitores soubessem que ao menos trazia material da famosa revista americana. Se a censura teimava em negar o registro e a mudança do nome de A Revista do Homem para Playboy, a Abril encontrou uma série de artifícios usados nas capas para fazer o leitor perceber que muito do seu conteúdo era da publicação americana. Primeiro, A Revista do Homem ganhou um adendo em letras menores: A revista do Playboy. Depois, “Com o melhor da Playboy”. Por fim, em julho de 1976, a edição 36 inverteu tudo: Playboy – A revista do Homem. Por causa da censura, portanto, ganhou uma lacuna esquisita: é a única revista publicada em toda a história da imprensa brasileira que não tem os 35 primeiros números. Pelo menos com seu verdadeiro nome, exatamente como foi concebido. Uma aberração histórica, numa época de repressão e ditadura militar.

13 – REGISTRO NA CENSURA Uma ferramenta implacável da censura foi a portaria de 16 de fevereiro de 1970. Estabelecia que nenhuma revista poderia ser distribuída e vendida no Brasil se não tivesse sido registrada na Polícia Federal. As que traziam material “obsceno” ou “violento” – como algumas revistas em quadrinhos – deveriam mostrar na capa o número do registro, o nome e o endereço do editor e a frase em destaque “Proibida para Menores de 18 anos”. Até mesmo títulos infantis como Zé Colméia, Mickey, O Pato Donald, Mônica e A Pantera Cor de Rosa foram obrigatoriamente fichados. Como não pôde circular sua revista masculina com o


nome Playboy a partir de agosto de 1975, a Abril registrou em 1º de julho de 1975 o título Homem, sob o número 1439-P.209/ 73. Curiosamente, a mudança de nome para Playboy só aconteceu em 3 de junho de 1982, quatro anos depois de a A Revista do Homem dar lugar à Playboy – o número de registro permaneceu o mesmo.

14 – CAÇA INDISCRIMINADA AO SEXO Um relatório do departamento jurídico da Abril de 19 de junho de 1980 revela as preocupantes apreensões “indiscriminadas” de revistas adultas no centro de São Paulo – na região da Boca do Lixo, onde eram produzidos filmes de pornochanchadas. Os policiais recolhiam qualquer coisa que insinuasse mulher nua ou sexo: revistas em envoltórios plásticos ou não, abertas nas bancas ou não, eróticas ou “decididamente pornográficas”. Playboy, “que é envelopada e cuja exposição aberta nas bancas é rigorosamente proibida, o que é objeto de fiscalização nossa, também foi apreendida”, dizia o texto. A intenção do juiz de menores Nilton Silveira era coibir a explosão das revistas pornográficas, depois do fim da censura prévia ao sexo, que alguns jornaleiros teimavam em expor suas páginas abertas. Procurado pela editora, Silveira prometeu orientar seus agentes para excluir Playboy e se dispôs a devolver os exemplares recolhidos.

15 – APELO AOS JORNALEIROS Em setembro de 1980, misteriosamente a revista Playboy desapareceu da maioria das bancas do Rio de Janeiro tão logo começou a circular. A explicação: o Juizado de Menores havia mandado a polícia recolher todas as revistas que trouxessem “mulher pelada”. Na edição seguinte da publicação, o diretor de Redação Mário de Andrade anexou uma carta-protesto aos leitores cariocas para explicar-lhes o que havia acontecido. Tudo resultara de uma medida “discutível” de um “setor” do Juizado de Menores. “Playboy está – como sempre esteve – dentro da lei”, disse. “Não admitimos ser confundidos com publicações de baixa qualidade e que preferem o apelo fácil do sensacionalismo”. E ressaltou: “A Editora Abril já tomou medidas judiciais em defesa dos seus direitos e para que Playboy continue a chegar normalmente a você”.

râneos do terror”, por se tratar de tema político. E que só estavam sob censura prévia naquele momento “as matérias que versarem assuntos relacionados com a moral e os bons costumes”.

17 – CARTER NÃO PODE FALAR MAL DO BRASIL A Censura, não raro, criava situações absurdas, além dos cortes e das proibições que fazia previamente. A edição de outubro de 1976 da Revista do Homem publicou a tradução parcialmente cortada da entrevista com o então candidato democrata americano à Presidência da República Jimmy Carter, com o trecho onde fazia críticas à ditadura militar no Brasil. Desapareceram três linhas de uma das respostas. Como os jornais estavam livres de censura prévia desde janeiro do ano anterior, o corte foi amplamente denunciado e, o mais incoerente, reproduzido pela imprensa diária. E o texto censurado saiu assim: P - O Senhor disse que sua política exterior poria em evidência os seus valores éticos e morais. Não haverá tanto perigo numa política moralista quanto numa política demasiado pragmática? Carter – Eu disse que não deveríamos intervir militarmente, mas não vejo razão pela qual não devêssemos expor, pelo menos verbalmente, nossa aprovação às ligações que se desenvolvam democraticamente a (...). O nosso Governo deveria fazer justiça ao caráter e aos princípios morais do povo americano, e nossa política externa não deveria entrar em curtocircuito por causa de algumas vantagens momentâneas e temporárias. A resposta completa era: “Eu disse que no meu julgamento não devemos intervir militarmente. Mas não vejo razão para deixar de expressar nossa aprovação, pelo menos verbal, para com as nações que se desenvolvem democraticamente. Quando Henry Kissinger diz, como fez recentemente num discurso, que o Brasil tem um tipo de Governo compatível com o nosso, bem, isto é o tipo de coisa que desejamos mudar. O Brasil não tem um Governo democrático. É uma ditadura militar. Em muitos casos, tem sido altamente repressivo em relação aos prisioneiros políticos. O nosso governo deveria justificar o caráter e os princípios morais do povo americano e nossa política externa não deveria se contentar com vantagens temporárias”.

16 – CENSURA A TEXTOS A Censura não implicava apenas com as mulheres (semi) nuas de Playboy e demais revistas masculinas. Nos dois ofícios acima o diretor Rogério Nunes informa à Redação sobre cortes feitos nas reportagens submetidas à “verificação” junto à Polícia Federal. No ofício de 26 de maio de 1978, notificou que fizera censura parcial na matéria “Uma terrinha de presente”, que seria publicada no mês seguinte. Mais de um ano depois, em 10 de julho de 1979, a censura dava sinais de deixar a revista respirar. O que não significava menos vigilância. Nunes diz que não precisava censurar a matéria “Subter-

18 – EXÉRCITO DE RETOCADORES Numa época em que não havia programas como Photoshop para retocar e melhorar imagens e os computadores portáteis mal serviam para armazenar textos, a Editora Abril mantinha um batalhão de 120 pessoas que se revezavam 24 horas por dia, de segunda a domingo, para dar qualidade a suas imagens e levar o melhor produto possível aos leitores. Logo, alguns desses profissionais se tornaram mestres em usar substâncias químicas e pincéis para apagar das fotografias mamilos e pelos pubianos que não poderiam sair nas páginas da Revista do

Homem e, depois, da Playboy. “Era preciso ter muita paciência para fazer aquilo, além de sensibilidade”, recorda o editor de fotografia de Playboy, Sérgio Picciarelli, na revista desde o número 1 e que começou como retocador.

19 – MULHERES SEM MAMILOS “Retirar” ou fazer desaparecer o mamilo de uma foto poderia demorar até três dias. Os retocadores das fotos que deveriam ser censuradas eram muito bem pagos e vinham de setores como pintura, quadrinhos e caricatura. “Se não tivesse dom, o resultado ficava ruim”, conta editor Sérgio Picciarelli. Alguns deles eram tão especializados que cuidavam exclusivamente de detalhes do corpo. Havia quem retocasse só os mamilos, o olho, o cabelo, a região pubiana, as nádegas, de modo que não ficasse grotesco. Um recurso comum também era aplicar um pedaço de tecido sobre a parte proibida e fazer com que o leitor não percebesse a montagem. Antes do trabalho, a Redação mandava para o retoque a foto coberta com um papel vegetal, onde era assinalado o local a ser disfarçado ou maquiado.

20 – ENFIM, O NU FRONTAL Um ofício enviado pelo chefe da censura em Brasília, Rogério Nunes, no dia 26 de fevereiro de 1980, às Redações das principais editoras que publicavam revistas com nus finalmente acabou com a “censura moral e de costumes” na imprensa brasileira. Num texto truncado e pouco objetivo, o censor informava que, a partir daquela data, a verificação prévia das revistas de sexo estava suspensa por ordem do Ministro da Justiça. Como acontecera em janeiro de 1975, ao por fim à censura nos jornais e revistas, Nunes manteve a ameaça: “Os possíveis abusos e a inobservância das normas censórias vigentes serão atribuídos à exclusiva responsabilidade do editor”. Os editores, claro, entenderam que, a partir dali, o nu frontal estava liberado. E nunca se publicou, imprimiu e consumiu tantas revistas de sexo com mulheres totalmente peladas como no decorrer dos anos de 1980 e 1981. Playboy saiu com seu primeiro nu frontal na edição de maio, acompanhada de um especial de lavar a alma: As Garotas de Playboy, com cem páginas só com mulheres que a censura tinha vetado.

21 – EDITOR NA DELEGACIA Um dos momentos mais tensos e constrangedores da relação entre Playboy e a censura foi a intimação para que o editor Mário de Andrade comparecesse a uma delegacia em 1982, dois anos depois do fim da censura às revistas de sexo. Assim que se apresentou, acompanhado de um advogado da Abril, ele teve de “tocar piano” – deixar fichadas as digitais das duas mãos, como se faz com criminosos e suspeitos. Em relato de 25 de maio,

Andrade desabafou ao diretor Edgar de Sylvio Faria: “Acabo de retornar da delegacia de polícia, em Perdizes, onde passei por uma triste e constrangedora experiência (...). Por uma série de equívocos, ao invés de prestar, como se supunha, um depoimento sobre a linha editorial de Playboy, fui indiciado ilegitimamente num processo policial sobre apreensão de revistas ditas pornográficas em Santa Bárbara do Oeste”. O editor afirmou ainda ter passado pelo “vexame” de ser “interrogado e identificado com minhas impressões digitais tomadas como marginal”. O que mais o magoava era o fato de saber que ficaria para sempre fichado na polícia de São Paulo.

22 – APREENSÕES REGIONAIS Os juízes de menores de todo Brasil não estavam nem um pouco interessados em aceitar que o governo começava a ser mais tolerante com revistas de nus. Amparados no Código Penal de 1942, sem atentar para as normas que os editores obedeciam da censura em Brasília, como vender as revistas em pacotes “hermeticamente fechados” e para maiores de 18 anos, eles mandavam recolher de todas as bancas da cidade ou do estado qualquer publicação que trouxesse “mulher pelada”, com a justificativa de que “salvaguardavam” e protegiam crianças e adolescentes. Algumas des-

sas apreensões em massa aconteceram em Vitória (ES), Rio de Janeiro (RJ), Santos (SP), Belo Horizonte (MG), Salvador (BA) e Porto Alegre (RS). No mês de setembro de 1980, a Abril impetrou mandado de segurança contra um juiz de menores do Rio de Janeiro por baixar uma portaria que obrigava revistas de sexo a virem em plástico opaco que escondesse a imagem da capa. Só um ano depois, a Procuradoria Geral de Justiça se posicionou a favor da editora. Em 14 de abril de 1982, a Abril publicou uma nota de um quarto de página nos principais jornais cariocas informando que havia impetrado um mandado de segurança contra a Polícia Civil do Rio por abuso de autoridade, ao apreender exemplares de Playboy.

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

ANTOLOGIA

Vinicius e o sentido do jazz Saem pela primeira vez em livro os artigos e ensaios que o poeta escreveu a partir de pesquisas feitas nos cinco anos em que viveu em Los Angeles, na década de 1940. P OR G ONÇALO J UNIOR

Na edição de 21 a 27 de junho de 1953 do suplemento Flan, do jornal Última Hora, fundado dois anos antes pelo jornalista Samuel Wainer (1910-1980), uma “simpática” leitora não identificada pedia ao colunista Vinicius de Moraes (1913-1980) que explicasse o que significava o termo jazz. “Já li opiniões suas em vários lugares e agora no livro de Sérgio Porto, mas não chego a perceber direito quando uma música é jazz e não é jazz”, justificou a moça, curiosa. Vinicius era quase uma autoridade no assunto, quando se dispôs a atendê-la, com sua irreverência peculiar. Observou que gostava sempre de citar a resposta do cantor e ins-

trumentista Louis Armstrong (1901-1971) a um repórter americano que lhe fizera a mesma pergunta: “Companheiro, se você perguntar é que nunca vai saber”. Como a frase não queria dizer nada, ele arriscou sua definição assim: “Jazz, de início, é tudo o que não é Bing Crosby, Frank Sinatra, Doris Day, Johnnie Ray, Dick Haymes, Dinah Shore, Jo Sttaford, Billy Eackstine.” Não disse muita coisa, e acrescentou que, por outro lado, jazz era qualquer nota que saía do trompete de Armstrong ou de suas cordas vocais. Não que Vinicius fosse um ignorante na história do gênero e se limitasse a ser um observador atento do que acontecia naquele momento. Pelo contrário, tornara-se um Vinicius de Moraes (direita) posa ao lado do casal de amigos Marili e Nesuhi Ertegun que mantinham a lendária loja The Jazz Man, em Los Angeles. À esquerda, Vinicius em sua residência, na Califórnia.

pesquisador nas horas vagas. A verdade era que nem mesmo os americanos tinham uma resposta na ponta da língua pelo simples fato de que as muitas variações e vertentes do jazz confundiam a todos. O futuro autor de Garota de Ipanema, quando diplomata e ocupou o posto de vice-cônsul, viveu cinco anos em Los Angeles, na Califórnia, entre 1946 e 1950. Nesses cinco anos, conviveu com a colônia artística brasileira radicada em Hollywood, que tinha como estrela maior a cantora e dublê de atriz Carmen Miranda (19091955). E com nomes do cinema americano, como Orson Welles (1915-1985), de quem se tornou amigo. Foi nessa época que ele também se aproximou de um universo musical do qual se tornaria íntimo: o jazz. Havia muito tempo Vinicius conhecia por alto a sofrida história dos negros americanos e como parte disso se materializava em ritmos variados da música. Uma revolução que veio do cruzamento da cultura dos escravos e dos colonizadores europeus. Enquanto viveu na costa Leste americana, o futuro compositor da bossa nova mergulhou intensamente na cena musical de Los Angeles. Tornou-se frequentador assíduo de nightclubs, conheceu estúdios de gravação e acompanhou alguns grandes mestres em seus registros fonográficos. Tinha na cabeça os endereços das principais lojas de discos especializadas da cidade e as recomendava a todos. Tanta proximidade e a simpatia que lhe era peculiar fizeram que se aproximasse e até se tornasse próximo de 36

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dezenas de músicos, compositores e amantes desse gênero musical. Ele, um branco. Os outros, negros segregados pelo racismo, mesmo com a fama que a música lhes dava. Parte dessa experiência se materializava no lado jornalístico e de escritor de Vinicius, em artigos deliciosos, bem apurados e com insuspeitável conhecimento de causa, que ele publicava em revistas brasileiras. Principalmente em Flan e Sombra. A paixão pelo jazz também se materializava em textos em prosa e poesia dispersos – muitos deles permaneceram inéditos até 2013. Vinicius escrevia com prazer. Estava no olho do furacão e, sem querer, tornou-se uma testemunha da História. Tudo isso dá um valor único a seus registros. Reunida por Eucanaã Ferraz pela primeira vez, essa produção preciosa para os fãs do “Poetinha” e amantes ou estudiosos da música está no livro Jazz & Co, que sai pela Companhia das Letras, como parte das comemorações do centenário de Vinicius de Moraes. A edição, no formato quadrado dos antigos discos compactos, retoma a linguagem da era de ouro dos álbuns de jazz, de selos como Blue Note e outros. “Naquele tempo, Vinicius comprava discos de jazz continuamente e, mais que isso, fizera amizade com vários músicos”, observa Ferraz, em seu indispensável prefácio. Ele cita uma carta do poeta ao amigo Manuel Bandeira, de 7 de maio de 1950, para mostrar seu interesse pela música americana: “Jazz, você vai ver a coleção que estou fazendo. Pretendo mesmo, caso me dê a bossa, dar um pe-


“OUVI TUDO QUE HÁ queno curso ilustrado aí, num canto qualquer. Ouvi tudo que há de legítimo nesse país, sendo que fiz muita camaradagem com muito jazz-player famoso, como o velho Satchmo, Louis Armstrong”. A filha Susana Moraes, também citada no prefácio, contou que sua infância transcorreu ao som do jazz. “Era o que se ouvia – e se ouvia muito – em nossa casa.” Referia-se à época em que viveu com o pai, a mãe Tati e o irmão Pedro em Los Angeles, depois que Vinicius foi convocado para ocupar seu primeiro posto diplomático, como vice-cônsul do Brasil nos Estados Unidos. Susana tinha seis anos de idade e Pedro, quatro. Ela teve a oportunidade de viver experiências livres de preconceito, sob a vigilância de uma educação rigorosa, uma vez seus pais faziam questão de assinalar a estética, a ética, a moral e a direção política que o distinguiam. Com Vinicius, Susana foi duas vezes ao berço da música negra americana, New Orleans. Recordou ela: “Íamos lá quando ainda era terrível o racismo. Entrávamos sempre pela porta dos fundos, juntos com os músicos negros. Vimos Charlie Parker e isso era naturalmente um sonho para mim, às vezes acordada e às vezes dormindo”. Vinicius não restringiria seu convívio com o gênero musical ao período em que morou na Califórnia. Teve a oportunidade de conhecer depois o chamado “jazz hot”, em Paris, entre os anos de 1953 e 1956. O volume de 150 páginas de Jazz & Co é dividido em três partes. Na primeira, Vinicius fala da origem do jazz, o nascimento do subgênero spiritual, a Nouvelle-Orléans, o conceito do que é jazz, os mais importantes baladistas americanos e um perfil da blueswoman Bessie Smith (1894-1937). Na segunda, explica a relação entre jazz e cinema, as “sensações de 1945”, o significado da jam session. Por último, enfoca o jazz e a América, com artigos sobre Nova York e Hollywood. O livro traz ainda uma cronologia. Vinicius era tão meticuloso quando queria falar de jazz que dedicou vários artigos ao aspecto histórico. Fez pesquisas e voltou ao primeiro navio de escravos desembarcados no Sul dos Estados Unidos, no século 17, como ponto de partida das origens desse gênero musical eterno, como são o samba e o choro no Brasil. Escreveu ele, indignado, num dos textos: “No princípio do século 17 – ou para ser mais exato, no ano de 1619 – um fato aconteceu que iria determinar paralelamente uma das mais vergonhosas manchas e um dos mais genuínos padrões de arte que um país pode ter: procedente da África, o primeiro navio negreiro aportava em solo norte-americano.” O lado historiador de Vinicius fez questão de mostrar sua repulsa contra qualquer tipo de racismo. Anotou ele que a humilhação maior veio mais tarde para os negros americanos, nas partilhas e leilões em praça pública. “O comprador branco chegava e apalpava a carne negra

e nua, examinava as gengivas ao escravo. Tratava-se de uma coisa, não de um ser humano.” Os anúncios nos jornais falavam uma linguagem mais eloqüente: “Uma família tão valiosa, como nunca se viu, consistindo em um cozinheiro de cerca de 35 anos, sua filha de catorze e um filho parecendo oito. O lote poderá ser em conjunto ou em parte, como satisfizer ao comprador.” Na plantação, prosseguiu, praticamente todos os direitos eram negados aos negros. “Sua função era transformar o ouro branco em amarelo, com que aumentar o poderio de seus senhores. Era-lhes vedado aprender a ler e a escrever. Sua ração era uma cuia de milho indiano. O valor das mulheres mediase por sua capacidade para procriar. O amo era o dono absoluto. Pelo menos é o que diz o bispo Meade, da Virgínia, em seu livro de sermões recomendados.” Numa passagem, Vinicius descreveu as gradações de cor, do preto até o branco, passando pelo “creole”, e as prostitutas “descoloridas” dos bordéis da cidade-berço do jazz onde nasceram os criadores do gênero como Buddy Bolden, Jelly Roll Morton e Louis Armstrong. Era assim na New Orleans da virada dos séculos 19 e 20. Suas pesquisas o levaram a afirmar que os fundamentos do West coast e da bossa nova estavam mesmo no jazz. Ressaltou ele que a bossa nova era “uma filha moderna do samba tradicional, que teve o seu namoro com o jazz, sobretudo o chamado west coast”. Ele observou: “O negro está no seu elemento, e ao cantar pela primeira vez em inglês planta as raízes de uma nova forma de música, e certamente, a única forma de música considerável nos Estados Unidos: o jazz. Temos pois o primeiro elemento da formação do jazz: o spiritual, manifestação caracterizadamente coletiva. Essa consideração é importante em face do que vem depois. A esse elemento se vem juntar um outro: o work song.” Spirituals, blues, work songs, prisonsongs, hollers. Para Vinicius de Moraes, todas essas formas, saídas umas das outras, viviam à base de um fenômeno que iria acontecer mais tarde e que daria criação ao jazz tal como ele é entendido nos dias que correm: seu encontro com outras músicas, de outras procedências, numa cidade situada perto do Golfo do México, à margem do grande Rio Mississippi – a cidade de Nova Orleans. Segundo ele, o blues deve ser apontado como a matriz nuclear do gênero. E argumentou que Bessie Smith era, na sua opinião, a cantora máxima do ritmo. Ousou também ao afirmar que a verdadeira e orgânica influência do jazz no moderno samba brasileiro estava na liberdade da improvisação que criou para os instrumentos e também na orientação do uso do tecido harmônico, que, observou, “veste a melodia com uma graça e leveza desconhecidas no samba antigo mais escorado no ritmo e na percussão”. Temas que, sem dúvida, merecem um estudo aprofundado.

DE LEGÍTIMO NESSE PAÍS, SENDO QUE FIZ MUITA CAMARADAGEM COM MUITO JAZZPLAYER FAMOSO, COMO O VELHO SATCHMO,

LOUIS ARMSTRONG”

Louis Armstrong e Edmond Hall em 1956.

A cultura jazzística do amigo Guinle Não foi com a intenção de apenas agradar que Vinicius de Moraes fez uma série de elogios ao amigo Jorge Guinle (1916-2004), um dos herdeiros do cobiçado Hotel Copacabana, a respeito de seu conhecimento musical. Especialmente o jazz. Dele se podia dizer que ninguém no Brasil e muito pouca gente no mundo possuía a sua cultura e o seu cabedal jazzístico. Tanto que se dispôs a escrever o valioso prefácio de seu livro, Jazz Panorama, que Guinle lançou em 1953. A obra se tornou a primeira publicação básica sobre o assunto em língua portuguesa em que o autor “mostra muito conhecimento”, como diz o crítico de jazz Nelson Tolipan. “Conhecimentos teóricos, acumulados durante uma vida, e práticos, pelas inúmeras audições, presença constante que teve em inúmeras execuções jazzísticas, conversas com músicos e com amantes da matéria.” As referências que ele possuía sobre o assunto surpreendiam quem conhecia o milionário de longe, pela fama de bom vivant e conquistador de mulheres bonitas. Mas foi exatamente por não ter preocupações financeiras – orgulhavase de ter torrado uma herança de US$ 110 milhões – e viajar muito aos Estados Unidos que ele se aproximou do jazz. Conhecido como Jorginho Guinle, além de socialite e playboy, ele era um

milionário que viveu intensamente a época áurea e glamourosa do Rio de Janeiro, entre a década de 1930 e 1960. Dizia ter tido relações amorosas com diversas atrizes de Hollywood, as maiores, aliás. Como Rita Hayworth, Marilyn Monroe, Romy Schneider, Kim Novak, Ava Gardner, Susan Hayward, Jayne Mansfield, Marlene Dietrich e Janet Leigh. Residiu no hotel Copacabana Palace – fundado por seu tio, o empresário Otávio Guinle – até a sua morte. Gabava-se de nunca ter tido de trabalhar na vida. Contava com bom humor que gastou muito de sua fortuna em ininterruptas festas luxuosas, viagens pelo mundo, presentes e lindas mulheres. O seu respeitado Jazz Panorama ganhou nova edição e projeto gráfico recentemente pela editora José Olympio – ainda disponível nas livrarias. As novidades deste relançamento são a entrevista feita pelo jornalista e crítico de jazz Luiz Orlando Carneiro com o autor, que atualiza todo o universo jazzístico, uma nova discografia que propicia ao leitor a possibilidade de adquirir os cds com todas as músicas citadas, e o projeto gráfico composto por 54 imagens sobre o tema. O livro é descrito pela editora como um estudo essencial sobre o estilo musical que se baseia, primordialmente, no improviso, bastante apreciado pelos amantes da música.

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LEMBRANÇA

Artur da Távola inesgotável Após o lançamento póstumo de O Jugo das Palavras, viúva do escritor revela ter material para mais nove volumes de poemas, crônicas e ensaios inéditos em livro. P OR M ÁRIO M OREIRA

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me reconheçam um dia’. Tomara que consiga esse reconhecimento, porque os poemas são muito bonitos.” Em vida, Artur da Távola publicou apenas um livro de poesia. Seleção de crônicas

Além dos volumes de poesia, Mirian tem material de Artur da Távola pronto para dois livros de crônicas e ensaios e outros três dedicados à obra de compositores. Dos livros de crônicas, um será uma seleção das cem melhores publicadas na imprensa, desde o início dos anos 1970. “Como há muito tempo os livros dele não são reeditados, decidi fazer isso. É uma maneira de as pessoas lerem o que o Paulo Alberto chamava de ‘tavoladas’, as crônicas que tinham maior repercussão”, explica Mirian. O outro incluirá, além de algumas crônicas, um ensaio em que o escritor reuniu e consolidou os pensamentos presentes em diversas “tavoladas”. “Esse material foi selecionado em 1988, mas ele queria caprichar muito no livro. Me entregou as provas dias antes de morrer”, conta Mirian.

Música

Já os três volumes dedicados a compositores abordam as obras de Brahms, Schumann e Tom Jobim. “Sobre Ravel ele publicou e gostou muito”, conta Mirian. De acordo com ela, o marido “não vivia sem música” — que explica sua participação em diversos programas dedicados a essa arte, tanto no rádio quanto na televisão. Quando Senador, cargo que exerceu de 1995 a 2003, ele apresentava na TV Senado o programa Quem Tem Medo de Música Clássica?, em que explicava ao espectador obras de compositores eruditos. Na Rádio Roquette Pinto, que presidiu nos últimos dois anos de vida, Artur da Távola apresentava Esta Bossa Sempre Nova, aos domingos, e Mestres da Música, às terças-feiras. “A preferência por música clássica foi por influência do pai, um homem inteligente e melancólico”, conta Mirian. “Mas ele gostava de todo tipo de música. Era um didata, sem ser professoral, e sabia explicar muito bem.”

DIVULGAÇÃO

Lançado no início de julho pela Record, O Jugo das Palavras não é exatamente o “testamento literário” do escritor e jornalista Artur da Távola, como define a apresentação da editora na segunda orelha do livro. É, na verdade, apenas a pontinha de um iceberg que inclui material para pelo menos outros nove volumes de escritos inéditos do autor em livro, entre poesias, crônicas e ensaios. A viúva de Artur da Távola, Mirian Ripper, que trabalhava com ele nas preparação dos originais de suas obras, revelou ao Jornal da ABI que só de poemas há material para mais quatro livros, seguindo a organização preparada pelo próprio autor antes de morrer, em 9 de maio de 2008, aos 72 anos. A idéia, inclusive, não era a de uma publicação póstuma: “Embora bastante doente nos últimos tempos, ele tinha muita esperança de viver”. Mirian conta que mexeu em O Jugo das Palavras. “Procurei os poemas que se identificavam mais com ele, pelo menos para essa primeira apresentação, e redistribuí um pouco a ordem”, explica. Assim, constam desse volume 24 poemas, incluindo alguns dedicados a personalidades que o escritor admirava, como as atrizes Dina Sfat e Lilian Lemmertz, e os compositores clássicos Brahms e Debussy. “A única viva sou eu”, brinca Mirian, que figura entre os homenageados. A maior parte dos poemas, no entanto, tem a ver com o que ela define como a “busca existencial” do autor. Algo que, segundo ela, tem ligação com acontecimentos trágicos ocorridos bem cedo na vida de Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros – a identidade civil por trás do pseudônimo Artur da Távola, adotado em 1968, quando ele retornou do exílio no Chile e foi trabalhar com Samuel Wainer na Última Hora. Mirian Ripper conta que quando o escritor nasceu, sua irmã, de apenas cinco anos, estava internada no mesmo hospital, com uma apendicite não diagnosticada, e acabou morrendo logo depois do nascimento do bebê. “A mãe, Magdalena, ficou desesperada. O Paulo Alberto falava muito sobre isso. Embora ele rejeitasse essa idéia, sempre achei que no fundo tinha um sentimento de culpa pela morte da irmã.” O sofrimento de Távola por esse fato está registrado no Poema para a Dor Inaugural, um dos que integram o livro recém-lançado.

A morte do pai, quando Paulo Alberto tinha 11 anos, intensificou a necessidade de tentar entender os desígnios do destino. “Ele sentiu muito a perda. Esse é um tema muito recorrente na obra dele, a busca pelo que vem depois da morte. Dizia que gostaria de ter a fé como certeza, mas tinha só como esperança”, diz Mirian. Ela admite que podia ter incluído mais poemas no livro. “Confesso que me arrependi de não adensá-lo mais. Ficou bem fininho.” Tanto assim que pensa em reagrupar os poemas dos outros quatro volumes já planejados em apenas dois. “Isso ainda não fiz, mas é fácil, porque a divisão não é por temas.” Os originais de O Jugo das Palavras foram entregues à Record há cerca de dois anos, diz Mirian. O contato inicial foi com a então diretora editorial, Luciana Villas-Boas, que, segundo ela, cogitava editar a obra poética de Artur da Távola aos poucos, numa seqüência de lançamentos não muito espaçados. Com a saída de Luciana da editora, em março de 2012, houve uma reformulação interna e a Record definiu apenas a publicação do primeiro livro. “Quando assumi, há um ano, o livro já estava contratado. Aí me esforcei para que ele saísse no aniversário de cinco anos da morte do Artur da Távola”, explica a atual editora-executiva de ficção nacional da Record, Guiomar de Grammont. “A poesia dele me emocionou muito”, afirma. “O Paulo Alberto ficou muito ligado à crônica, mas, por incrível que pareça, seu sonho era ser reconhecido como poeta”, revela Mirian. “Ele sempre dizia: ‘Eu sou um bom poeta, oxalá

“Falei para ele que tinha que trabalhar mais o livro, porque estava muito pesado e um pouco repetitivo, às vezes dizendo a mesma coisa de maneiras diferentes. Ele concordou e nós iríamos trabalhar juntos nisso. Infelizmente, acabei tendo que mexer sozinha”, lamenta. “Mas resolvi encarar. Tirei coisas e desentranhei algumas crônicas que ele tinha juntado.” Essa obra já tem título, escolhido pelo próprio Artur da Távola: Da Vida Ensaio de Busca. “O que me dava força para mexer no livro é que ele tinha concordado. Também sempre fiz isso nos livros do Paulo Alberto e ele tinha confiança no meu trabalho, então me senti autorizada. Mas foi muito difícil. Custei muito a pegar, por todos os motivos. Depois entreguei a duas pessoas da minha confiança para lerem e a conclusão foi a mesma, que estava bom.” Esses dois livros de crônicas foram encaminhados à Record junto com O Jugo das Palavras, conta Mirian. Segundo ela, porém, a editora ainda não decidiu se levará adiante a publicação. Guiomar de Grammont confirma. “É uma coisa ainda muito incipiente, porque acabamos de lançar o de poemas. Tenho grande interesse em publicar, mas não está decidido.”


DIVULGAÇÃO

CINEMA

A poesia entre o jugo e o jogo

Sandro Panseri no filme de Ermano Olmi: Um belo mosaico de breves olhares.

“A decisão de ser transformou-me em mim. A liberdade de ser, esta me fez poeta.” P OR R ITA B RAGA

A leitura de O Jugo das Palavras desperta curiosidade, mas não necessariamente sobre o autor como advogado e jornalista, ou como professor ou político. Por ser conhecido também em outras instâncias, as várias faces de Artur da Távola – pseudônimo de Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros (19362008) – levam o leitor a encarar o complexo conceito de “humanidade” contido no ato de escrever e reconhecer a poesia. Este livro preparado pelas professoras Amaline Mussi e Mirian Ripper é um “testamento literário”. Reúne textos inéditos e revela paixões. Os versos perpassam as artes, os amigos, os amores e, inevitavelmente, nos inserem em sua incessante reflexão sobre a vida. As homenagens, por exemplo, denotam mais do que a intensidade das relações, ultrapassam a admiração. São retratos de um leitor atento, cuidadoso e libertário – alguém que se permite a volúpia de manipular palavras alheias, apropriando-se de sua seiva vívida, gerando novos frutos. Nisso, vale lembrar que a postura de Artur da Távola diante da poesia se reflete também no seu conceito sobre o que é o “novo”: “o novo não é o contrário do velho. O novo é o oposto das prisões que nos impomos.” Nota-se, portanto, que, além de tudo, essa publicação da Editora Record foi feliz em forma e conteúdo, com uma produção gráfica leve e coerente, inclusive, com a escolha do título. O tempo todo, a ambigüidade sofisticada, intrínseca ao fazer poético, dá provas de que o autor tem o atributo que Affonso Romano de Sant’Anna chamou de “invejável capacidade de comunicação”. O poeta Artur da Távola abre nossos olhos e ouvidos para a amplitude das vozes literárias. Como num encantamento, desdobra as letras e palavras, instiga leituras como é evidente nos versos dedicados (ou antes “absorvidos”) à poesia de Drummond: “No meio do caminho tinha uma perda./ Tinha uma perda no meio do caminho./ Tinha uma perda. / No meio do caminho tinha uma perda./ [...] Fui perda de mim mesmo/ procurado por toda a vida/ até que achado no poema/ do meu hoje encanecido./ Tudo porque/no meio do caminho tinha uma perda./ Tinha uma perda no meio do carinho”. (p.15) Enfim, como todo poeta, Távola é um ser humano denso que se apresenta em palavras, leituras e entrelinhas. Lê-lo já é relacionar-se com essa condição irreversível de estar no mundo. Fato que por si já nos torna úmidos de poesia. Por isso também, em tempos de relações fluidas, os versos impressionam desde o primeiro passo. Que o leitor esteja preparado para um obstinado manifesto poético – encruzilhada entre leitor, autor e “livro” – livro enquanto coisa também já irreversivelmente posta no mundo: “A poesia começa quando o poeta pensa que acabou o poema./ O poema não é a poesia. É somente um dos seus condutores, talvez até o mais aparelhado./ Toda poesia que cede ao poema frustrase./ Todo poema que cede ao verso perturba-se./ Todo verso que cede à beleza arrisca-se./ Toda beleza que domine o poeta ameaça-o de não alcançar a poesia. [...]/ A única liberdade possível ao poeta é a de buscar a poesia. /Ela quase sempre está onde o poema a oculta ao mesmo tempo que a proclama”.

O neo-realismo de Olmi Lançado em 1961, O Emprego traz uma forte dose de crítica social e mostra como o tema continua atual meio século depois. P OR C ELSO S ABADIN

Procurar o primeiro emprego é a primeira grande ilusão de um jovem. Encontrá-lo é a primeira grande decepção. Esta é uma das pequenas doces verdades percebidas no belo drama romântico italiano O Emprego (Il Posto), de 1961, lançado em dvd pelo Instituto Moreira Salles. Com o nome de O Posto, o filme chegou a ser exibido no Brasil quando de seu lançamento nos cinemas. Na época, o diretor Ermano Olmi ainda não era conhecido, o que só aconteceria na década seguinte, principalmente graças àquela que é considerada sua obra-prima: A Árvore dos Tamancos, de 1978. Carregado da simplicidade narrativa e da forte dose de crítica social que nortearam o cinema italiano do pós-guerra, O Emprego centraliza sua ação na simpática figura de Domenico. Jovem da classe operária que mora com a família numa pequena cidadedormitório próxima a Milão, Domenico procura um emprego “digno” na cidade grande. E por dignidade se entende horário comercial, função administrativa, escritório, gravata, patrão, patrões. Sua busca não será fácil. A entrevista e os testes que o aguardam para o tão sonhado preenchimento de uma vaga são carregadas de solenes pompas e circunstâncias, na vã esperança de seus empregadores tentarem convencer a todos que eles realmente têm alguma idéia do que estão fazendo.

Porém, Domenico parece se interessar muito mais pela bela Antonietta, garota que assim como ele também busca o “posto”, que propriamente pelo novo emprego. A simples possibilidade de trabalhar ao lado dela já parece ser todo o salário que o rapaz queria. Um dos grandes méritos do cinema neo-realista italiano foi a sua capacidade de enfocar fortes temas sociais sem perder a ternura, jamais. E isto acontece novamente no filme de Olmi. Domenico e Antonietta proporcionam um belo mosaico de breves olhares e doces sorrisos. Pequenos detalhes que constróem um grande filme. Um homem vê numa vitrine uma enorme garrafa de vinho cuja silhueta é idêntica à sua. Quem piscou, perdeu. As movimentadas e barulhentas ruas de uma Milão em transformação contrastam com a singeleza e o silêncio de um (muito) jovem casal que apenas inicia o descobrimento da vida. É o cinema humanista de Ermanno Olmi explodindo silenciosamente em cada fotograma. Nas cenas externas, percebe-se a preocupação de interferir o mínimo com a realidade das ruas. Cidadãos verdadeiros se tornam figurantes involuntários num cinema que se propõe a ser quase documental. Uma veracidade que se torna ainda mais eficiente com os jovens Sandro Panseri e Loredana Detto, respectivamente Domenico e Antonietta, que não eram atores profissionais e tampouco seguiram carreira.

Estabelecido o entrecho romântico, parte-se para o choque de realidade. Conseguir o emprego talvez nem tenha sido tão difícil, mas enfrentar a pequenez do trabalho burocrático e tentar se encaixar na superficialidade e na fragilidade das relações interpessoais construídas no ambiente profissional provavelmente será uma tarefa bem mais penosa para Domenico. A primeira que ele certamente terá ao longo de sua luta pela sobrevivência. Aproveitando o lançamento de O Emprego, o oitavo título de sua coleção de dvds, o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro realizou a Mostra O Cinema em Busca de Emprego, com a exibição de clássicos como Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica, A Terra Treme, de Luchino Visconti, O Ferroviário, de Pietro Germi, e A Classe Operária Vai ao Paraíso, de Elio Petri. A coleção de dvds do IMS foi lançada em 2012, com Shoah, de Claude Lanzmann. O segundo título foi La Luna, de Bernardo Bertolucci, seguido por Cerimônia de Casamento, de Robert Altman, e Conterrâneos Velhos de Guerra, de Vladimir Carvalho. Em julho, o IMS lançou um box com três filmes baseados em obras de Graciliano Ramos: Vidas Secas (1963) e Memórias do Cárcere (1984), ambos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, e São Bernardo (1972), de Leon Hirszman. Todos os títulos trazem livretos com textos críticos sobre os filmes.

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DESIGN

O som, a palavra e a fúria de Ziraldo Catálogo da exposição Os Zeróis revela a riqueza e a força criativa do cartunista como designer gráfico ao estilizar o alfabeto com impacto visual. P OR G ONÇALO J UNIOR

A letra Z bem poderia ser a marca registrada do escritor, cartunista e designer gráfico mineiro Ziraldo Alves Pinto. Assim como foi para o herói mascarado espanhol da literatura, dos gibis e do cinema, Zorro. Bastaria, no caso do artista brasileiro, um Z personalizado e todo mundo saberia a quem pertencia a autoria do desenho. Mas Ziraldo talvez seja o único habitante da Terra que pode ser facilmente identificado por qualquer uma das 23 letras do alfabeto. A, C, G, M, Q, Y, W ou Z. Em cinco décadas, ele criou seu próprio alfabeto visual, com tipos tão característicos e pessoais tão presentes na vida cultural e comercial do Brasil – em anúncios, por exemplo – que não é preciso muita informação para saber que ele está por trás daquele traço. São tipos reconhecíveis assim: arredondados por fora e com linhas retas na parte interna. A sutil relação que Ziraldo tem mantido com as letras e as palavras em português como recurso visual de cartuns ou em cartazes diversos de publicidade, claro, ainda precisa ser mais bem estudada. Até mesmo quando fazia seu lendário gibi A Turma do Pererê, publicado entre outubro de 1960 e abril de 1964 pela extinta editora O Cruzeiro, ele usava as letras como recurso narrativo. No estudo que publicou em 1971, o 40

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crítico de quadrinhos potiguar Moacy Cirne estimou que apenas nas histórias de sua revista em quadrinhos, seu autor fez – na verdade, criou – nada menos que 149 onomatopéias diferentes, num total de 765 que fizeram parte da coleção de hqs. Por onomatopéia entende-se a figura de linguagem na qual se reproduz um som com um fonema ou de uma palavra. Ou seja, ruídos, gritos, canto de animais, sons da natureza, barulho de máquinas, o timbre da voz humana fazem parte do universo das onomatopéias, tão comuns nas histórias em quadrinhos.

Um passo importante no sentido de compreender a importância de Ziraldo como designer gráfico dos mais originais e relevantes é observar a ampla produção de sátiras que ele criou nas décadas de 1960 e 1970 aos seus super-heróis de infância, de origem norte-americana, como Tarzan, Fantasma, Capitão América, Batman, Super-Homem, Tocha Humana e Capitão Marvel, entre outros da chamada Era de Ouro dos quadrinhos. Tipos fantásticos outros que acabaram por influenciá-lo a se tornar um desenhista de histórias em quadrinhos – gênero de arte gráfica que acabaria por levá-lo a se tornar não apenas humorista, chargista, cartunista e escritor de sucesso, como um dos mais atuantes designers gráficos de todos os tempos e ícone de pelo menos duas gerações de brasileiros. “Foram eles que me abriram as portas para o mundo”, frisa o artista. Toda essa produção foi reunida no ano passado numa megaexposição Os Zeróis, apresentada no Rio de Janeiro e Brasília, que veio acompanhada de um catálogo da Globo Livros. A expressão Zeróis vem da sonoridade da leitura rápida em português de “Os heróis”, em que a junção do “s” com o “he” resulta em “z”. São 258 páginas com todo o material que ele publicou na revista Fatos & Fotos e no Jornal do Brasil e no segundo semestre dos anos 1960. A série prosseguiu na década seguinte no semanário O Pasquim

e na Manchete, publicação semanal da Bloch Editores. Na maioria desses cartuns ou histórias curtas, quase sempre de uma página apenas, situações engraçadas dos superseres são realçadas por letras, palavras e expressões construídas de forma estilizada como parte do efeito ou da piada a ser construída. Aqui o som é representado graficamente como parte de um todo que compõe o riso procurado pela piada. “Muitas onomatopéias são trabalhos originais do artista, que vem desenvolvendo, ao longo dos anos, toda uma linguagem própria, buscando novos ritmos visuais


através do uso gradual de cores fortes, de linhas, traços e letras tridimensionais que parecem se movimentar numa projeção plástica dos sons”, avalia Maria Gessi de Sales, que assinou o texto de apresentação da exposição. Segundo ela, é como se os quadrinhos tivessem sonoridade. “Um trabalho intenso e contínuo que tem muito de lúdico e um tanto de obsessivo.” Por sua versatilidade, Ziraldo acaba por ter algumas de suas virtudes escondidas por outras. Ao apresentar seu livro Ziraldo 40/ 55, publicado em 1988, pela Editora Salamandra, Millôr Fernandes observou que em recursos plásticos é impossível usar um idioma que o colega e parceiro não fale. “Habita o mundo de todos esses loucos – Scarfe, Steadman, François, Gorey, Steinberg – expoentes de uma arte amadurecida no século e, como eles, se apropria de todo o acervo visual, popular e erudito, da cidade e do mundo – lugares-comuns, conceitos formados, verdades estabelecidas, idéias feitas – argamassados a uma semiótica moderna desvairada, sinais do tempo, fantasias – muita cor.” Os primeiros cartuns de Os Zeróis foram publicados a partir de abril de 1967, na Fatos e Fotos, da Bloch Editores. A idéia do artista era não só brincar ou sacanear com esses seres fantásticos dos quadrinhos, mas tratar principalmente de questões comportamentais de todos nós. “Neste livro, eles nos convidam para uma viagem no tempo, rumo às mudanças que

nos anos 1960 começaram a ser operadas”, explica o artista. No cartum, um famoso homem voador de capa vermelha despencava dos céus rumo ao estádio do Maracanã, enquanto Super-Homem comenta com a Supermoça: “Eu sempre achei que o Capitão Marvel fosse torcedor do América”. Ingênua e muito engraçada, como tem de ser muitas vezes a piada de um cartum. Havia, porém, muita malícia no modo como o artista brincava com esses personagens. Desses, correu o mundo o cartum mais famoso, de Jane pendurada prazerosamente no cipó que Tarzan ganhou na natureza, enquanto dava seu característico grito – e que fez muitos homens olhar a cena com aflição. Há outros geni-

ais e pouco conhecidos ou reproduzidos, como o da Mulher-Maravilha pedindo a Billy, na cama, que grite “Shazam!” de novo para que volte a ficar viril, depois de aparentemente terem transado. Genial mesmo foi ver Batman deitado no divã confessar para seu psiquiatra: “Doutor, no fundo, no fundo, eu sou um rato!” Segundo Ziraldo, destituídos de sua superioridade, transformados em uma espécie de caricaturas de si mesmos, esses Zeróis, despidos de sua aura de infalibilidade, revelam, enfim, aquilo “mais que humano em nós”, como diz a canção de Caetano Veloso. O autor esclarece: “Super-heróis com um zero à esquerda tornam-se Zeróis, seres risíveis, falíveis, que transitam num espaço intermediário entre o heróico e o bizarro, num sem lugar, onde todo disfarce perde o sentido e onde o propósito oculto revela seu lado mais frágil”. Havia sim, observa ele, propósitos políticos nesses cartuns ou quadrinhos, uma vez que a série estreou no momento em que o País começava a viver os momentos mais repressores do regime militar. “Ao ridicularizar a força e a onipotência dos superheróis, realizam, nas entrelinhas, uma crítica ao próprio governo ditatorial”, observou. Ziraldo fez bem mais. Sem se dar conta, no calor da hora, compôs com sua produtiva série um registro apurado do comportamento em sua época, com ênfase em tudo que havia de mais importante acontecendo no mundo e no Brasil: a revolução sexual, os movimentos civis em favor dos negros e dos homossexuais, a liberação feminina, os protestos políticos, a luta pela liberdade de expressão e contra a censura e os corajosos protestos estudantis. Muito desses pontos aparecem num único desenho em que a jornalista Lois Lane, de camisola, pergunta para seu eterno namorado Super-Homem quantas pílulas ela deve tomar para não engravidar: “Trinta?” Os Zeróis são apenas parte da tradição ziraldiana de brincar com o alfabeto. “Para o cartaz do Capitão América, ele explora brilhantemente o recurso das onomatopéias”, observa Ricardo Leite no livro

Ziraldo em Cartaz, publicado em 2009 pelo Senac Rio. “Com letras que representam apenas sons, conta-nos toda uma história. Nenhuma palavra exatamente. Letras dimensionais, com volumes e perspectivas que reforçam os movimentos. Cores e efeitos visuais da melhor art pop.” Leite lembra que, mais recentemente, no ano 2000, o artista criou uma série de cartazes para uma campanha antidrogas da Prefeitura do Rio de Janeiro e novamente utilizou a tipografia como recurso da ilustração. “Orientado pelo formato dos cartazes, desenhou uma variação da sua tipografia. As letras passaram a ter hastes mais alongadas no sentido vertical e ganharam formas menos arredondadas, mas preservavam os olhos – partes internas das letras – quadrangulados”. Esse novo alfabeto tipográfico, completou o pesquisador, terminou por ser completamente desenhado e tornou-se a tipografia oficial para os títulos usados nos mais de dois anos do jornal O Pasquim 21, por ele editado com o irmão Zélio Alves Pinto entre os anos de 2002 e 2004. Nos dois casos, lá estava o Ziraldo de sempre, com sua bem apurada sopa de letrinhas. Inconfundível.

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EXPOSIÇÃO

Um olhar sobre a América Latina Após percorrer França, Espanha e Estados Unidos, chega a São Paulo a exposição Fotolivros Latino-americanos. Entre os livros expostos, Doorway to Brasilia (acima) e Retromundo, aberto nas páginas 12 e 13 (abaixo): um panorama fotográfico político, social e antropológico da América Latina.

P OR C ELSO S ABADIN

São Paulo. Nos últimos anos, a desenfreada voracidade da sociedade de consumo, que sempre visa transformar todo tipo de manifestação cultural em compras rasas, conseguiu comprometer até o conceito de “livro de arte”. Geralmente patrocinados por grandes empresas em busca de benefícios fiscais através de leis de incentivo culturais, muitos dos chamados “livros de arte”, ultimamente, têm sido editados com a única finalidade de enfeitar mesas de centro de pessoas que jamais os lerão. Assim, é mais do que bem-vinda a exposição Fotolivros Latino-americanos, que o Instituto Moreira Salles de São Paulo promove até o final do mês de outubro. Esqueça as paisagens bucólicas, as fotografias de refinadas esculturas pagas pelo mecenato oficial, ou publicações “artísticas” sobre os benefícios da camomila selvagem patrocinadas por algum laboratório farmacêutico. Os fotolivros latinoamericanos desta exposição têm preocupações políticas, sociais e antropológicas, ou seja, são do tipo de que nenhuma socialite gostaria de ter na sua sala de estar. Com cerca de 50 publicações, 100 fotografias e oito vídeos produzidos a partir de imagens dos livros presentes, a mostra é dividida em uma introdução e seis temas. Um dos critérios de seleção foi o de contemplar apenas projetos nos quais o fotógrafo – obrigatoriamente latino-americano – tem um papel ativo na realização do livro, em conjunto com o designer gráfico e o editor. A introdução, denominada América Antes da América, apresenta o livro Amazônia, de Claudia Andujar e George Love, tanto ao vivo como através de belas projeções que podem ser apreciadas confortavelmente numa sala semi-escurecida. Os seis temas são: História e Propaganda, Fotografia Urbana, Ensaios Fotográficos, Fotolivros de Artista, Literatura e Fotografia e Fotolivros Contemporâneos. Na ala História e Propaganda são apresentados fotolivros de protesto e propaganda política que ajudam a documentar, em imagens, parte da História da América Latina. Com destaque para O Álbum Histórico Gráfico, que o fotógrafo mexicano Agustín Victor Casasola editou em 1921 42

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mostrando importantes fotografias documentais sobre a Revolução Mexicana da década anterior. Neste setor também pode ser visto o livro Candomblé (1957), de José Medeiros, com o registro de rituais secretos da cultura afrobrasileira. Em Fotografia Urbana, como o próprio nome sinaliza, o tema básico é a vida nas cidades latinoamericanas. Além de livros sobre Buenos Aires, Caracas, Cuzco, Cidade do México e São Paulo, a mostra também expõe o histórico Doorway to Brasilia, que o designer Aloísio Magalhães e o gravador Eugene Feldman publicaram um ano antes da inauguração da nova capital. O espaço dedicado aos apreciadores da fotografia como arte conceitual é o Ensaios Fotográficos, onde se destaca Sistema Nervioso, editado em 1975 e realizado a seis mãos pela fotógrafa Barbara Brändli, pelo designer John Lange e pelo escritor Roman

Chalbaud. O tema é a cidade de Caracas reinterpretada como um quebra-cabeça visual. Também merece registro Retromundo, de 1986, no qual o fotógrafo Paolo Gasparini contrapõe imagens da América Latina, Europa e América do Norte. O experimentalismo dos anos 70 ganha força na ala Fotolivros de Artista, que documenta alguns processos de criação fotográfica. Entre eles, Auto-photos (1978), da brasileira Gretta; Autocopias (1975), do venezuelano Claudio Perna; e Fallo Fotográfico (1981), do chileno Eugenio Dittborn. Já o tema Literatura e Fotografia mostra livros literários que também fazem a função de ensaios fotográficos, como o venezuelano Asfalto-Infierno (1963), do escritor Adriano González León e do artista Daniel González; e os poemas de Paranóia (1963), de Roberto Piva, que constituem uma incomum e alucinada visão da

cidade de São Paulo, fotografada por Wesley Duke Lee. Finalizando, Fotolivros Contemporâneos retrata o aumento da produção de fotolivros latino-americanos dos últimos anos, e registra como muitos deles foram influenciados por publicações mais antigas, como a fotografia urbana em Siesta Argentina (2003), de Facundo de Zuviría, e Noturnos São Paulo (2002), de Cássio Vasconcellos. A mostra tem curadoria de Horacio Fernández, historiador e professor na Faculdade de Bellas Artes de Cuenca, Espanha, e seu objetivo é apresentar os melhores fotolivros da América Latina desde os anos 1920 até hoje. Não se trata apenas de expor um recorte da História da fotografia no continente, mas também de exibir uma espécie de panorama estético, social e cultural da América Latina. De acordo com declarações de Fernández para a Folha de S. Paulo, “essas publicações passavam despercebidas porque se considerava que o importante era ter obras individuais, avulsas: “Os fotolivros se parecem mais com o cinema. Nos filmes, há cenas maravilhosas que podem ser gravadas e se tornar um pôster, mas cinema é o filme todo”. Fotolivros Latino-americanos é o resultado de pesquisas feitas em onze países – Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Nicarágua, Peru e Venezuela – ao longo de quatro anos (2008 a 2011). Horacio Fernández contou com o apoio de um conselho de curadores composto pelo argentino Marcelo Brodsky, o brasileiro Iatã Cannabrava, o inglês Martin Parr, a americana Lesley Martin e o espanhol Ramon Reverté. A exposição é uma coprodução do Instituto Moreira Salles, Le Bal (Paris), Ivory Press (Madrid) e Aperture (Nova York). O projeto também resultou em um livro, lançado pela Cosac Naify em co-edição com a editora mexicana RM, a norteamericana Aperture e a francesa Images em Manoeuvre. A exposição já percorreu França, Espanha e Estados Unidos.


PRECIOSIDADES

Enfim, juntos, numa hemeroteca exemplar Revistas e jornais brasileiros de todas as épocas têm um endereço certo: a Hemeroteca da Biblioteca Municipal Mário de Andrade. P OR C ELSO S ABADIN

Nasci, cresci e moro em São Paulo, cidade com a qual tenho uma relação muito mais de amor que de ódio. Sinto várias vezes por ano uma necessidade físicoemocional de caminhar algumas horas pelo Centro dela, como quem visita grandes amigos. Numa destas caminhadas, em junho passado, me deparei com uma novidade que não conhecia: numa galeria que liga a Bráulio Gomes com a 7 de Abril, bem junto a lojas que vendem notebooks usados, um balcão e alguns displays informativos sinalizavam que ali fica a Hemeroteca da Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Hemeroteca. Palavra estranha vinda do grego “heméra”, que significa “dia”, mais “théke”, que significa “depósito” ou “coleção”. Não faria sentido uma “coleção de dias”. Mas ao lembrarmos que a origem etimológica da palavra “jornal” passa pelo latim “diurnale”, que mais cedo ou mais tarde desembocará no francês “jour” (que é igual a “dia”), logo os neurônios entram em ação e acendem uma luzinha: hemeroteca é uma coleção de jornais. Por extensão, de revistas e demais publicações periódicas. Apaixonado por São Paulo, coleções, jornais, revistas e publicações periódicas (e nem tanto por notebooks usados), dirijo-me ao tal balcão da galeria, e peço informações. Um rapaz muito educado e solícito me diz que ali eu poderia pesquisar em milhares de jornais e revistas, de variados períodos históricos. Gratuitamente. Achei

bom demais para ser verdade e, jornalista escolado e escaldado, resolvi testar a informação. Como proceder? Eu deveria apenas e tão somente preencher ali mesmo (e não por internet, como virou moda) um pequeno formulário com meus dados pessoais e o objeto da minha pesquisa. Como estou finalizando um documentário sobre o ator e cineasta Amácio Mazzaropi, pensei que seria bom ter diante dos meus olhos os jornais paulistanos e algumas revistas brasileiras de junho de 1981, data da morte do famoso comediante. E assim fui preenchendo minha ficha. Enquanto preenchia, não pude deixar de ouvir um breve diálogo entre o jovem que me atendeu e um outro atendente, mais velho: – O senhor sabe que eu nasci em São Paulo, sempre vivi aqui e nunca fui ao Masp? – É mesmo? E quantos anos você tem? – 23. – Eu, que tenho 47, e também nunca fui? – Falta divulgação, não é? – Falta nada. Falta é vontade do povo procurar as coisas... Não pude deixar de sorrir e concordar com o velho atendente, que afinal não é tão velho assim. Preenchi o formulário e o rapaz, que nunca foi ao Masp, me disse: “Nós entraremos em contato com o senhor assim que sua pesquisa for concluída”. Agradeci, sorri, mas no fundo pensei, descrente: “Ahá! Taí a pegadinha. Isso vai demorar meses!”. Voltei para casa e esqueci. Menos de 48 horas depois, recebo um

telefonema de uma funcionária da Hemeroteca, igualmente atenciosa, dizendo que eu precisaria especificar melhor minha pesquisa, que dizia apenas “jornais e revistas” de junho de 1981. Por telefone mesmo definimos O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e, digamos, Manchete e O Cruzeiro? Perfeito. Comecei a achar que minha descrença inicial não se justificaria. E com razão: não foram necessárias nem outras 24 horas para que a mesma funcionária me telefonasse novamente solicitando o agendamento da minha visita. Sim, tudo é organizado e a visita é agendada. Marcamos para o dia seguinte, após o almoço, e durante este mesmo telefonema lembrei de perguntar como eu poderia ter uma cópia do material pesquisado. Fui informado de que, levando minha própria câmera fotográfica, eu poderia registrar livremente o que me interessasse. Continuava bom demais para ser verdade. Apareci na hora e local agendados. Numa sala bem iluminada e arejada, equipada com grandes bancadas, me esperavam três grandes caixas contendo o material solicitado, bem como luvas para manuseá-lo. “Só não separei a revista O Cruzeiro porque em 1981 ela já havia deixado de circular”. Achei a explicação muito justa. Fiquei horas me deleitando com as Folhas, os Estados e as Manchetes, onde tive a oportunidade não apenas de tomar contato com todas as informações de que eu precisava, como também com todo o contexto da época, lendo reportagens, editoriais e propagandas do período. Nada digital.

Era papel mesmo, de verdade, lindamente amarelado, que outras pessoas já haviam manuseado 32 anos atrás. Há ali uma carga emotiva que nenhum computador traz. Com minha pequena e nada profissional camerazinha fotográfica registrei tudo de que necessitava, com qualidade bastante razoável, assinando para tal apenas um termo pelo qual eu me comprometo a não utilizar as fotos com finalidade lucrativa. O que também me pareceu muito justo. Haveria também a possibilidade, caso eu necessitasse, de tirar cópias xerográficas. Para isso, um funcionário da Hemeroteca me acompanharia até a galeria do andar térreo (aquela das lojas de notebooks usados), e as cópias seriam feitas às minhas custas, numa copiadora de minha escolha. Porém, com uma ressalva: o transporte só é autorizado se o material a ser copiado estiver em condições de conservação que não comprometam sua integridade física, a critério do funcionário. Novamente justo. Um pouco de História

Hoje, o acervo de periódicos da Biblioteca Municipal Mário de Andrade é formado por cerca de 12 mil títulos de jornais e revistas, do século 19 até o momento atual. Tudo está acondicionado neste novo endereço, Rua Dr. Bráulio Gomes 125, desde dezembro do ano passado. Não há informações precisas sobre quando exatamente os periódicos começaram a fazer parte do acervo da Biblioteca Municipal, mas sabe-se que seu núcleo mais

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PRECIOSIDADES ENFIM, JUNTOS, NUMA HEMEROTECA EXEMPLAR

antigo nasceu a partir da Seção de Revistas e Jornais da hoje desativada Biblioteca do Estado de São Paulo. Esta seção foi criada em 1935 pelo historiador, jornalista e bibliófilo araraquarense Rubens Borba de Moraes. Grande especialista brasileiro em bibliotecas, Moraes foi diretor da Biblioteca Municipal de São Paulo, antes mesmo de ela receber o nome Mário de Andrade. Fundou o curso de Biblioteconomia da Prefeitura paulistana e a Escola de Sociologia e Política. Dirigiu a Biblioteca Nacional, o Serviço de Informações da Onu e bibliotecas em Paris e Nova York. Ao falecer, em 1986, deixou parte de seu rico acervo ao amigo José Mindlin. A Biblioteca Municipal de São Paulo foi fundada em 1925, na Rua 7 Abril número 37, endereço que ocupou até 1943, quando foi transferida para o novo, moderno e recém-construído edifício da Rua da Consolação, 94. Menos de 20 anos depois, o espaço físico do novo prédio já se mostrava insuficiente, obrigando, a partir de julho de 1965, que algumas coleções de periódicos fossem gradativamente deslocadas para a então Biblioteca Presidente Kennedy, atual Biblioteca Prestes Maia, localizada no bairro de Santo Amaro. Tratava-se de um espaço amplo, mas com infra-estrutura

inadequada para a preservação e para consultas. O atendimento ao público ficou prejudicado por vários anos, cenário que se complicou ainda mais a partir de 1991, quando uma ampla e longa reforma foi iniciada no prédio da Mário de Andrade. No ano seguinte, uma pequena equipe fixa foi designada para a organização do material e atendimento ao público, e durante dez anos os funcionários administraram problemas como falta de controle ambiental, luminosidade excessiva, poeira, falta de limpeza adequada, presença de insetos bibliófagos e deterioração do acervo. Em 2003, o material estava dividido entre seis andares da Biblioteca Prestes Maia e oito andares do edifício sede. Era preciso unificá-lo, para que a população pudesse ser dignamente atendida. Iniciaram-se então as negociações com o Governo de São Paulo para a 44

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aquisição do prédio do antigo Instituto de Previdência do Estado de São Paulo-Ipesp, que foi assim transformado em anexo da Mário de Andrade em 30 de março de 2006. Fim do problema? Ainda não. Como o espaço ainda teria de ser reformado e adaptado para abrigar a Hemeroteca, a equipe da Biblioteca, sob a direção de Luís Francisco da Silva Carvalho Filho, passou a preparar o terreno para a mudança. Em 2007, quando começou a reforma, a parte do acervo de periódicos que ainda permanecia na Mário de Andrade, com exceção da coleção de títulos raros e especiais, foi armazenada em outra biblioteca municipal, a Adelpha Figueiredo, no bairro do Canindé. Ali foi desenvolvido um projeto de higienização e acondicionamento de jornais e revistas que durou até final de 2008. Num segundo momento, aconteceram novas ações de preservação, como avaliação histórica e cultural das coleções que se encontravam na Biblioteca Prestes Maia, além da catalogação online de parte dessa coleção. Em dezembro de 2011, as coleções retrospectivas de periódicos gerais foram reunidas e armazenadas em um galpão onde passaram por um processo chamado desinfestação por atmosfera anóxia, através do qual retira-se o oxigênio e introduz-se nitrogênio. No período de janeiro a outubro de 2012, as coleções começaram a ser transferidas gradualmente para o atual edifício da Hemeroteca. Material para ver e pesquisar não falta, desde publicações da grande imprensa até periódicos de variedades, literários, femininos, esportivos, políticos, agrícolas, etc. Entre as revistas, estão O Cruzeiro, Manchete, Fatos & Fotos, Veja (coleção completa), a edição brasileira de La Saison, Claudia (também completa), Manequim, o Boletim do Instituto do Café, A Lavoura, O Jornal do Agricultor, isso sem citar as menos conhecidas, como O Lagarto, jornal da Sociedade do Tatu, que circulou no Rio de Janeiro em 1832 e 1833. Ilustradores e cartunistas podem se deliciar com A Semana Ilustrada, fundada em 1860, e com a coleção quase completa da Revista Ilustrada. Além das coleções propriamente ditas, o Anexo dispõe de espaço para atendimento à pesquisa em jornais e revistas impressas, microfilmadas e digitalizadas, e de uma sala para palestras e cursos. Há previsão de que as coleções da Onu e do Arquivo Histórico também sejam armazenadas e consultadas neste novo edifício, onde serão instalados laboratórios de digitalização e microfilmagem. O que não faz um passeio pelo Centro de São Paulo... Hemeroteca da Biblioteca Mário de Andrade Dr. Bráulio Gomes, 125/139 - Centro - São Paulo E-mail: hemerotecabma@prefeitura.sp.gov.br Atendimento por agendamento: das 10h às 18h Tel. (11) 3775-1402 / 3775-1401

LIVROS

Saramago volta às origens Relançamento de dois dos primeiros livros do escritor José Saramago leva à reflexão sobre o início do estilo do autor. P OR L ARISSA V ELOSO

No dia em que o escritor português José Saramago morreu, em 18 de junho de 2010, o filósofo lusitano Eduardo Lourenço se acercou de sua viúva, Pilar del Río. Ele trazia nas mãos uma sacola de loja com um livro, com o preço ainda colado na capa, e disse: “Coloque ao lado dele, porque neste livro está tudo. Eu insisto”. O exemplar acompanhou seu autor durante todo o velório. Quando ficou a sós com o corpo do marido, Pilar del Río colocou o livro dentro do paletó do falecido, e José Saramago foi cremado junto com uma de suas obras-primas, Memorial do Convento. Este episódio revela a importância de um dos primeiros livros do autor, que, junto com Levantado do Chão, foi relançado em agosto no Brasil pela editora Companhia das Letras. Publicada pela primeira vez em 1982, Memorial do Convento é a obra de Saramago mais vendida em Portugal, de acordo com a editora Caminho, responsável pelas edições do escritor no seu país natal. O romance mistura realidade e ficção para contar a história da construção do Palácio Nacional de Mafra, também conhecido como o Convento de Mafra, no início do século

18, por ordem do rei português Dom João V. As figuras centrais não são as grandes personalidades da história lusitana, mas Baltasar Sete-sóis, um trabalhador que perdeu uma mão na batalha, Blimunda Sete-luas, uma mulher que tem o poder de “ver as pessoas por dentro” quando está em jejum e um padre-engenheiro, que sonha em construir uma máquina na qual o homem possa voar. Este último também faz parte da realidade. Trata-se do padre Bartolomeu de Gusmão, que no século 18 construiu o primeiro protótipo de balão, conhecido como “passarola”. A construção da engenhoca é a espinha dorsal do livro, e na obra o padre é ajudado por Baltasar e Blimunda; a mulher é responsável por capturar as “vontades” dos homens, elemento que faz a passarola voar. Em oposição ao sonho do padre-voador, construído por meio dos sentimentos nobres dos homens, está a construção do Convento de Mafra, erguido como pagamento de uma promessa feita pelo Rei D. João V, que jurou realizar a obra se a rainha conseguisse lhe dar um herdeiro. Além do ouro e diamantes vindos da colônia, o convento foi erguido sobre o sangue de milhares de operários que sucumbiram no processo.

ARQUIVO FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO

Acompanhado de sua mãe, Saramago conversa com o Presidente da República, Francisco da Costa Gomes, durante o jantar de apresentação de Levantado do Chão, em 1980.


ARQUIVO FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO

Em 1998, em uma palestra na cidade de Turim, na Itália, o autor disse sobre sua obra: “O título que definiu (pelos vistos de uma vez para sempre...) que se me aplique o rótulo de romancista histórico é, sem dúvida, Memorial do Convento. O romance histórico é uma ficção sobre um dado tempo do passado, mas visto da perspectiva do momento em que o autor se encontra, e com tudo aquilo que o autor é e tem: a sua formação, a sua interpretação do mundo, o modo como ele entende o processo de transformação das sociedades”. De fato, o livro é carregado pela interpretação do autor, para quem os personagens mais importantes não são aqueles sentados no topo da pirâmide social. “Em Memorial do Convento da mesma maneira que em Levantado do Chão, José Saramago dá vida a personagens que, a seu ver, são dignos de nota e que afirmam seu papel de líderes ou mártires por meio de suas intervenções e ações, as quais despontam à revelia das condições impostas pelo sistema político, social e econômico”, diz Camile Tesche, mestre em Literatura Portuguesa pela Usp, autora da tese História e Poder: Uma Leitura de Levantado do Chão. Uma das passagens do livro que mais evidenciam este fato é o tocante trecho no qual Saramago se põe a citar os nomes dos operários do Convento de Mafra que foram esquecidos pela história. “Vão outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos os Baltasares, e haverá Joões, Álvaros, Antónios e Joaquins, talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, e Pedros, e Vicentes, e Bentos, Bernardos e Caetanos, tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixe-

mos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, tornálos imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino; Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra de cada um para ficarem todos representados, porventura nem todos estes nomes serão os próprios do tempo e do lugar, menos ainda da gente, mas, enquanto não se acabar quem trabalhe, não se acabarão os trabalhos, e alguns destes estarão no futuro de alguns daqueles, à espera de quem vier a ter o nome e a profissão”, escreve o autor. Para muitos, e para o próprio José Saramago, Memorial do Convento foi o livro que o lançou no cenário internacional. A obra já foi publicada em 37 países e traduzida para diversos idiomas, além de ter recebido o Prêmio Literário do Município de Lisboa e ser adaptada para o teatro. O livro também foi o primeiro que trouxe a Igreja Católica como um dos temas centrais, proposta que o autor iria repetir mais tarde em O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim e que lhe rendeu diversas críticas por parte dos religiosos. Em Memorial do Convento, Saramago também deixa claro o seu pensamento de viés comunista, ao retratar a luta dos operários. Crítica social

Mas é em Levantado do Chão, livro anterior lançado em 1980, que o escritor expôs toda a sua crítica social. A obra conta a história de três gerações da família Mau-Tempo, lavradores do Alentejo que são submetidos à exploração dos latifundiários desde o início do século 20 até a Revolução dos Cravos, em 1974. Inspirado pelo tempo que passara em Monte-

mor-o-Novo, onde conviveu com os trabalhadores da União Cooperativa de Produção Boa Esperança, Saramago procurava já retratar os rostos esquecidos pela História. Ano após ano, geração após geração, os Mau-Tempo são submetidos à exploração e à miséria, até que começam a se questionar sobre seu papel na sociedade. O livro é também um retrato das mudanças políticas em Portugal no século 20. “Quando escreve Levantado do Chão, José Saramago tem, ao redor de si, uma sociedade em crise, recém-saída de uma longa ditadura que durou mais de quatro décadas, vilipendiada por dificuldades financeiras, retardo cultural e opressão e manipulação ideológicas. Tem, ainda, os ecos de uma revolução que pôs fim a um regime totalitário, que, no entanto, não foi capaz de restituir direitos aos civis”, diz Camile. Apesar do cenário social, os Mau-Tempo não são apenas vítimas inocentes da sociedade. Saramago também trata sobre o conformismo, mesmo que este venha do lado do oprimido. “Realizado pelos regimes políticos, pelos sistemas de produção e disseminação da informação, pela religião, o poder faz parte do cotidiano das suas personagens e os impactos que ele produz sobre os modos de agir e pensar cumprem por revelar um jogo duplo entre a aceitação e rejeição dos aspectos éticos e morais determinados pelas esferas sociais. Assim, o romance, ao mesmo passo que denuncia condutas intoleráveis, como o uso da coerção moral e física, praticadas e autorizadas pelos governos, por exemplo, demonstra a parcela de responsabi-

lidade de cada homem e de cada mulher para a permanência de uma situação que lhes é pouco conveniente”, afirma a pesquisadora Camile Tesche. Nesse cenário, a ignorância exerce papel central na perpetuação da miséria dos Mau-Tempo, e a Igreja, retratada na figura do padre Agamedes, é apontada como cúmplice na tarefa de formar uma mentalidade propícia à exploração, como o autor faz questão de deixar claro em alguns trechos. “A grande e decisiva arma é a ignorância. É bom, dizia Sigisberto no seu jantar de aniversário, que eles nada saibam, nem ler, nem escrever, nem contar, nem pensar, que considerem e aceitem que o mundo não pode ser mudado, que este mundo é o único possível, tal como está, que só depois de morrer haverá paraíso, o padre Agamedes que explique isto melhor, e que só o trabalho dá dignidade e dinheiro, porém não têm de achar que eu ganho mais do que eles, a terra é minha, quando chega o dia de pagar impostos e contribuições não é a eles que vou pedir dinheiro emprestado, que aliás sempre foi assim, e será, se não for eu a dar-lhes trabalho, quem é que dará, eu e eles, eu que sou a terra, eles que o trabalho são, o que for bom para mim, bem para eles é, foi Deus que quis assim as coisas, o padre Agamedes que explique melhor, em palavras simples que não façam mais confusão à confusão que têm na cabeça, e se o padre não for suficiente, pede-se aí à guarda que dê um passeio a cavalo pelas aldeias, só a mostrar-se, é um recado que eles entendem sem dificuldade”, diz o narrador. Como os longos parágrafos sugerem, também é nesta obra que Saramago apresenta um estilo que iria lhe acompanhar durante toda a carreira literária. “Não há um único romance que seja ‘verdadeiramente saramaguiano’ ou que possa representar toda a vasta produção do autor. Por ser um escritor bastante ativo, José Saramago experimentou diversas técnicas e estratégias de composição, que ora são mais acentuadas, ora são mais atenuadas. Porém, é em Levantado do Chão que Saramago passa a lançar mão de dois expedientes que talvez sejam os mais conhecidos pelo grande público, que são o de introduzir as falas dos personagens sem utilizar travessões e o de construir longos parágrafos, nos quais diversas vozes se misturam”, explica a pesquisadora Camile Tesche. O livro, lançado em pelo menos 15 países antes de ser reeditado no Brasil, rendeu ao autor o Prêmio Internacional Ennio Flaiano, da Itália e o Prêmio Cidade de Lisboa.

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VIDAS

Radha Abramo, a contestadora

Publicidade perde o grande Petit Publicitário e artista plástico, Francesc Petit, sócio-fundador da agência DPZ, morreu no dia 6 de setembro, em São Paulo, aos 79 anos. Nascido em Barcelona, em 1934, o “P” da DPZ – agência de propaganda fundada por ele em 1968 com os sócios Roberto Duailibi e José Zaragoza – passou a viver no Brasil em 1952. Antes de fundar a DPZ, trabalhou na JWT, na McCann-Erickson e no Estúdio 3. Ele estava internado no Hospital Sírio Libanês, onde vinha recebendo intenso tratamento de um câncer localizado há um ano. Era um apaixonado pelo ciclismo. Dedicou diversos quadros à modalidade esportiva. Um dia depois de sua morte foi homenageado pela ESPN Brasil durante a transmissão da Volta da Espanha – uma das mais importantes provas da Europa. Em 2011, o controle acionário da DPZ foi comprado pelo Publicis Group, mas os sócios permaneceram no comando da empresa. A agência, uma das mais famosas do País, divulgou nota oficial de pesar pela morte de um de seus fundadores. “Lamentamos informar que nessa sexta-feira, às 12h20, recebemos a triste notícia do falecimento de nosso Diretor e querido amigo Francesc Petit Reig. (...) Aqui trabalhou nos últimos 46 anos, tendo criado centenas de campanhas de sucesso e formado inúmeros profissionais que o encaravam como um líder e mestre. Trabalhador incansável, dedicava-se 24 horas por dia às soluções sempre criativas e aos problemas que lhe eram apresentados, nunca temendo ser original e controverso. Tendo recebido uma educação artística que veio reforçar uma vocação revelada desde muito cedo, Petit caracterizavase pela exigência de qualidade no acabamento de toda obra, não importando o meio utilizado. Durante os últimos 50 anos, manteve grande amizade com José Zaragoza, seu conterrâneo que veio a conhecer no Brasil, e com Roberto Duailibi, com o qual trabalhara anteriormente em outras agências. Desde 1968 tornaram-se sócios da DPZ, empresa que ajudou a se tornar um exemplo de integridade e honradez profissional, conhecida em todo o mundo”, afirma o texto, que segue. “Desde a juventude engajou-se de corpo e alma na luta pela soberania e reconhecimento de sua terra natal, a Catalunha, e a ela dedicou diversos livros, particularmente para revelar seu encantamento com Barcelona. Naquela região, inclusive, restaurou uma casa antiga, onde costumava passar alguns meses todos os anos e de cuja arquitetura se orgulhava muito. Casado com Inês Mendonça Petit, que o acompanhou por mais de cinco décadas em todos os seus projetos de vida, 46

JORNAL DA ABI 393 • SETEMBRO DE 2013

CAROL CARQUEJEIRO/ VALOR/FOLHAPRESS

P OR P AULO C HICO

na pintura, arquitetura, restauração e literatura, Petit deixa as filhas Isabel, Luiza e Julia e cinco netos. Aos colaboradores da DPZ, clientes e amigos, deixa o exemplo de intenso amor à agência que ajudou a fundar e que se tornou ícone no mercado e a seus companheiros e o rigor na elaboração de seus projetos.” Após a notícia do falecimento de Petit, a Bombril, uma das marcas atendidas pela DPZ, emitiu nota sobre o profissional. “A Bombril se sente órfã no dia de hoje, este é o sentimento de todo o grupo, com o falecimento de Francesc Petit Reig, sócio da DPZ, e criador do ‘Garoto Bombril’, que marcou para sempre a história da empresa. Para Marcos Scaldelai, diretor comercial, marketing e P&D da Bombril, Petit foi um dos maiores nomes da publicidade brasileira e do mundo e sua invenção se confunde com a trajetória da própria empresa. Todos sentiremos 1001 saudades”. O ‘garoto’ a que se refere o texto foi interpretado por cerca de três décadas, e em inúmeros comerciais impressos e de televisão, pelo ator Carlos Moreno, tornando-se o mais popular e longevo personagem da publicidade brasileira. Inicialmente interrompida no início dos anos 2000, a campanha foi retomada em abril deste ano. Criada pela mesma DPZ, trazia Carlos Moreno de volta ao posto de ‘Garoto Bombril’, ocupando a tradicional bancada da marca com as humoristas Monica Iozzi e Dani Calabresa – ambas desempenhando o papel de ‘mulheres evoluídas’. Também por meio de nota, a agência Agnelo Pacheco ressaltou a competência de Petit e a falta que fará com sua ausência.

“Com a morte de Francesc Petit a publicidade não perdeu só um enorme talento, perdeu uma referência. Grandes marcas nasceram e cresceram com o talento do Petit, que contribuiu para a formação de talentos da nossa publicidade que trabalharam ao seu lado. E quem criou ao seu lado fala de como ele buscava incessantemente a originalidade. Encontrar talentos na direção de arte que usam a imaginação antes de buscar uma referência nos computadores está cada vez mais difícil. E quando um talento como o do Petit nos deixa, sentimos que a publicidade fica mais pobre”. Petit escreveu diversos livros, como Propaganda Ilimitada (pela Editora Futura), que traz informações preciosas aos que já estão ou pretendem ingressar na área. São cerca de 30 capítulos em que trata dos mais diversos segmentos dessa indústria tão competitiva: a conduta de um bom contato com o cliente, as dificuldades de criação de um designer ou de um diretor de comerciais na execução de um roteiro, o poder destrutivo de um leiaute ruim ou de um marketing canhestro e mentiroso, os desafios de uma renovação em marca tradicional. Todas essas são questões que passam pelo crivo do autor. Também é de sua autoria Faça Logo Uma Marca! (Novo Século-SP), em que conta ao leitor a história do surgimento do conceito de marca – comenta as melhores, lamenta as piores, discorre sobre comunicação visual. Fora da esfera da publicidade, escreveu Quem Inventou Picasso (Editora Arx) e Romance de Barcelona (Novo Século-SP). O corpo de Petit foi velado no Cemitério do Morumbi e depois trasladado para o Crematório de Taboão da Serra.

C ELSO S ABADIN

Ela levou os indígenas para Veneza. Não literal, mas culturalmente. Atuando como comissária adjunta da representação brasileira na Bienal de Veneza de 1986, a sempre inquieta e provocadora Radha Abramo decidiu, mais uma vez, quebrar barreiras. Além de trabalhos de artistas como Geraldo de Barros e Gastão Manoel Henrique, Radha colocou na bagagem rumo à Itália peças produzidas por comunidades indígenas brasileiras, rompendo os protocolos e paradigmas do tradicional evento veneziano. De quebra, ainda privilegiou, nesta mesma exposição, obras da sempre política gravadora Renina Katz, provocando assim o governo ditatorial brasileiro, que estava em seus últimos momentos. Assim, sempre contestadora e politicamente engajada, era Radha Abramo, jornalista e crítica de arte falecida em São Paulo no último dia 24 de julho, aos 85 anos. Radha foi uma das figuras mais ativas no cenário artístico brasileiro das décadas de 1970 e 1980. Escreveu críticas, lecionou e foi assistente cultural e artística da Fundação Bienal de São Paulo. Viúva do também jornalista Cláudio Abramo (1923-1987), Radha era profunda conhecedora das funções sociais e políticas da arte. Foi membro da Comissão Teotônio Vilela, da Associação Brasileira de Críticos de Arte-ABCA e do Internacional Council of Monuments and Sites-ICOMOS. Defensora da aproximação do grande público com a arte, Radha teve a atitude pioneira de encomendar obras artísticas para as estações do metrô paulistano. Foi também a responsável pelo desenvolvimento de vários projetos como diretora do Acervo Artístico-Cultural do Palácio do Governo do Estado de São Paulo, cargo que ocupou de 1985 a 1998. Entre seus livros estão O Metrô de São Paulo: 1987-1991 - Tecnologia e Humanização, em co-autoria com Marcello Glycério de Freitas, e Acervo Artístico Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo. Escreveu também sobre a obra de artistas com os quais conviveu, como Geraldo de Barros, Carlos Takaoka, Francisco Brennand e Alfredo Volpi. Radha deixa duas filhas, Bárbara e Berenice, e quatro netos, Maria, Alice, Anna Candida e Thomaz.


REPRODUÇÃO

Ruy Fernando Barboza, sempre bem-humorado Seus colegas lembram também de uma de suas características mais marcantes: o companheirismo. P OR P AULO C HICO

Múltiplas eram as atividade às quais Ruy Fernando Barboza se dedicava. Único era o seu talento. O advogado, jornalista e psicólogo, de 70 anos, morreu na madrugada de 11 de agosto, em decorrência de uma parada respiratória. Ele estava em Florianópolis, onde se recuperava de uma cirurgia para retirada da vesícula, realizada no dia 2 do mesmo mês. Em 2002, no Rio de Janeiro, Barboza foi atingido por uma bala perdida na região do quadril. Desde o incidente, já havia passado por 19 cirurgias e tinha a saúde debilitada. Assim o próprio jornalista se definia em seu blog Pensamentos Divergentes. “Nasci em Paranaguá, PR, em 1943. Mudamos para Londrina, PR, em 1947. Em 1965 concluí Direito na Usp. Em Sampa, ao chegar em 1961, não conhecia quase ninguém. Primeiro emprego decente foi na Folha, em 1963. Lá Woile Guimarães e outros generosos jornalistas me explicaram o que fazer. Simultaneamente com o jornalismo, atuei por um tempo na advocacia criminal. Mais tarde cursei mestrado em Comunicação, também na Usp – mas não defendi a dissertação. Fiz Psicologia (São Marcos) e formação em Psicanálise, Psico-

Oncologia e Análise Bioenergética. Planejei e implantei o curso de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina”. A partir do início, aos 19 anos, como redator na Folha de S.Paulo, Ruy Fernando Barboza passou por alguns dos mais importantes veículos do País. Trabalhou e ocupou cargos de chefia nas Redações de Quatro Rodas, Realidade, Nova, Veja, Exame, Cláudia e Playboy – na qual foi o primeiro redator-chefe. Atuou também em emissoras de televisão. Foi editor e apresentador de telejornais na antiga TV Tupi, Bandeirantes e TV Globo – onde apresentou Bom Dia São Paulo de 1981 a 1984. Em 2010, ocupou o cargo de diretor da Rádio e TV Justiça, do Supremo Tribunal Federal. Passou ainda pelo Canal Futura. O companheirismo, destacado pelos colegas nas redes sociais, era sua marca registrada. Assim como o bom humor. Barboza publicou, em 1º de agosto, em sua página no Facebook, o seguinte texto, em que dava notícias sobre a operação a que seria submetido: “Adeus vesícula. Setenta anos juntos, meu amor, sem nenhuma briga nem discussão. Apesar de todas as minhas traições e pecados – picanhas, torresmos, quibes, tártares, dendês e olivas, chantilis, castanhas e abacates a granel. A

tudo você, processando, perdoava. Até que um dia – a última quinta-feira – você teve morte súbita. Meu luto foi dos mais doloridos desta vida. E como o primeiro médico achou que era gastrite, foi uma semana gemendo, desesperado, desencantado da vida, sem dormir, só falando palavrão com minha voz fraquinha de moribundo. Bem, amanhã me torno definitivamente viúvo de você. Nunca vou te esquecer, nem a vida maravilhosa que você me proporcionou. Tomara que se existir céu haja um lugar de honra para as vesículas e sei que lá você terá um lugar de destaque, ao lado das do Orson Welles, Hitchcock, Tim Maia, Pavarotti e outras referências culturais de nós dois, minha eterna amada!”. Além do Jornalismo, Barboza também atuou como professor universitário e analista judiciário do Tribunal Regional Federal da 3ª Região – onde ingressou aos 50 anos de idade, por meio de concurso, e aposentou-se no ano de 2000. Barboza morava na Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Era editor da revista Retrato do Brasil e se dividia entre a capital catarinense e a cidade de São Paulo. O velório ocorreu no Cemitério do Araçá, na capital paulista, e foi seguido por cerimônia de cremação. Ele deixa quatro filhos.

Antonieta, a inovadora Ela colocou a moda prêt-à-porter num jornal de esquerda, nos anos 1960 Falecida no dia 3 de setembro, em decorrência de complicações renais, a jornalista Antonieta Santos foi homenageada pela ABI na missa de sétimo dia oficiada na Matriz Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, onde os Diretores Fichel Davit Chargel (Diretor Administrativo) e Henrique Miranda Sá Neto (Diretor de Cultura e Lazer) apresentaram condolências à família enlutada. Ainda muito jovem, ela participou do primeiro jornal de oposição à ditadura militar, nos anos 1965-1966. Jornalista com passagem por importantes veículos do Rio e São Paulo, como a Sucursal Rio do Diário de São Paulo, na qual trabalhou em 1962 sob a liderança de Léo Guanabara, que chefiava a Redação, e Raul Azêdo Netto, Antonieta era formada em Sociologia pela antiga Universidade do Brasil e foi uma das líderes do movimento singular que marcou a formatura de

sua turma, realizada na quadra da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, como protesto pela ojeriza do ditador Castelo Branco aos sociólogos. Ela trabalhou também no jornal Última Hora e no semanário Folha da Semana, primeiro periódico de oposição à ditadura militar instalada em 1º de abril de 1964. Repórter de Geral e muito criativa, Antonieta patrocinou destacada inovação num jornal de esquerda: o lançamento das coleções prêt-àporter pelo costureiro francês Pierre Cardin em 1966. Na Folha da Semana, cuja equipe passou a integrar a convite de Sérgio Cabral, Secretário de Redação, Nieta, como era carinhosamente chamada, teve como companheiros, além de Cabral, os repórteres Nilton Sapucai Maia e José Torres das Neves, os colunistas Octavio Malta, Otto Maria Carpeaux e Paulo Francis, os editorialistas Ferreira Gullar e João An-

tônio Mesplé, os analistas econômicos Fausto Cupertino e Armênio Guedes e os redatores e editores Anderson Campos, Arthur Poerner, Luiz Mário Gazzaneo e Maurício Azêdo. Na Gerência, Laudo Leite Braga. Lançada em 2 de setembro de 1965, a Folha da Semana circulou até 13 de dezembro de 1966, quando uma portaria do então Ministro da Justiça Carlos Medeiros Silva proibiu sua impressão e circulação em todo o território nacional. Antonieta foi casada com o cineasta Luiz Paulino dos Santos, roteirista e primeiro diretor de Barravento, depois concluído por Glauber Rocha. Com Paulino Nieta teve um filho, Francisco Paulino dos Santos, fotógrafo profissional e também sócio da ABI. Ela ingressou na ABI muito jovem, em 1969, com 24 anos, e teve como padrinho de sua filiação um jornalista que ela admirava demais: Edmar Morel.

Frost, o temível Ele deixou a Primeira-Ministra Thatcher em maus lençóis quando questionou, numa entrevista, o afundamento do navio argentino Belgrano durante a Guerra das Malvinas. P OR I GOR W ALTZ

O jornalista e apresentador de tv britânico David Frost, famoso por suas entrevistas com o ex-Presidente dos Estados Unidos Richard Nixon, morreu de um ataque cardíaco aos 74 anos de idade. O anúncio foi feito pela família do jornalista no dia 1º de setembro. Frost morreu no sábado, 31 de agosto, a bordo do navio de cruzeiro Rainha Elizabeth, segundo o comunicado da família. Familiares de Frost disseram estar “devastados”. “Um enterro familiar será realizado em um futuro próximo e os detalhes de uma cerimônia em sua memória serão anunciados no momento apropriado”, indicou a família, que pediu à imprensa respeito a sua privacidade. Em sua trajetória de 50 anos na televisão, Frost foi o único jornalista a ter entrevistado todos os seis premiês britânicos que ocuparam o cargo entre 1964 e 2007, além dos sete Presidentes dos Estados Unidos em exercício entre 1969 e 2008. O jornalista entrevistou nomes como Margaret Thatcher e Tony Blair, o líder palestino Yasser Arafat, o sul-africano Nelson Mandela e o americano Bill Clinton. Frost chegou a deixar a “Dama de Ferro” furiosa ao perguntar pelo afundamento do navio argentino Belgrano na Guerra das Malvinas, em 1982. Mas foram suas entrevistas em 1977 com o ex-Presidente americano Richard Nixon que o colocaram na história do Jornalismo. Em quatro encontros, que tiveram uma grande audiência, Frost conseguiu encurralar Nixon até que este reconheceu que havia “frustrado” os americanos e pediu perdão. Aquela foi a primeira vez que o republicano Richard Nixon admitiu ter cometido um erro desde sua renúncia, em 1974, por causa do caso Watergate. Estas entrevistas foram retratadas pelo filme Frost/Nixon, de Ron Howard, lançado no Brasil em março de 2009. O primeiro-ministro David Cameron reagiu à morte no Twitter: “meu coração está com a família de David Frost. Conseguia ser, como foi comigo, ao mesmo tempo amigo e um temível entrevistador ”, declarou o chefe de Governo.

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