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HOMENAGEM

Adail, puro talento Desenhista e sócio da ABI, o paulista Adail foi lembrado pelos colegas de profissão do Rio de Janeiro. DIVULGAÇÃO

nalistas que passaram pelo turbilhão da ditadura militar em busca de provocar a repressão vivida na época, Adail manteve uma linha de trabalho leve e a vontade de fazer humor pelo humor. “Raramente alguém vai ver um trabalho do Adail que seja agressivo. É um humor tranqüilo, até por conta do temperamento dele, que é um camarada muito humano e fácil de lidar ”, explica Graúna. Curiosamente foram seus desenhos que o salvaram de uma eventual prisão em 1972, durante a ditadura militar. Ao ser levado para um quartel durante revista dentro de um bar na Praça da Bandeira, Adail foi identificado por um dos oficiais que era desenhista amador. “Ele me reconheceu porque já havia levado alguns desenhos para me mostrar e disse aos outros que eu era jornalista. Então perguntei a ele: ‘Como é que eu te tratei quando você me mostrou seus desenhos? Ele sabia que eu o tinha recebido bem’. E foi liberado em seguida, acompanhado pelo oficial. A história marca uma característica marcante em sua carreira e na personalidade de Adail: a receptividade com os jovens cartunistas em busca de um lugar ao sol. “Ele tem esse lado muito legal, típico da geração, que é o carinho pelo jovem. Recebe desenhistas novos, conversa, incentiva o artista que está começando agora”, lembra Graúna. Durante o tempo em que trabalhou no Diário de Notícias, Adail colaborou em outras publicações. Em 1967, foi chamado – junto com outros grandes cartunistas da época – para publicar na sessão dominicial humorística do Jornal do Sports criada por Ziraldo: o Cartum JS. Foi a partir deste trabalho que Adail ficou reconhecido no cenário dos esportes e até hoje é chamado para ilustrar histórias e capas de livro sobre o tema. “Esse semanário fez tanto sucesso que acabamos sendo convidados para colaborar em O Cruzeiro. Ainda tenho essa circular, na qual o Ziraldo fala: ‘cartunistas do Brasil, dinheirinho à vista! Vamos nos

Adail com Guidacci na homenagem que aconteceu no 7° Encontro Anual dos Cartunistas Cariocas.

encontrar. Todo mundo de terno preto’”, conta, rindo e lembrando das inúmeras reuniões entre eles. Paralelo ao trabalho no Diário de Notícias, Jornal dos Sports e O Cruzeiro, Adail colaborou em outras publicações, como o Manequinho, do Correio da Manhã, Pasquim, O Dia, O Globo e o Jornal do Brasil. Aposentou-se na Última Hora, em 1991. Piadas leves

“Ele está há muito tempo na imprensa. Seus desenhos sempre tiveram certa elegância. Por isso, é consagrado até hoje e seu trabalho continua atual. Ele tem um desenho rápido, com piadas leves, populares, que o povo gosta de ver e ouvir. É um tipo de humor que alcança a todos”, diz o amigo cartunista Chico Caruso. Mesmo sem se render à era digital – já que é um dos raros cartunistas que ainda desenham com lápis, borracha e tinta –, seu trabalho sempre é lembrado. Em 1994, participou da exposição Imenso Cordão, mostra de caricaturas e ilustrações que

comemorou os 50 anos de Chico Buarque no Museu Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro. Junto com ele, outros grandes nomes do humor gráfico brasileiro tiveram suas obras expostas: Mendez, Nássara, Ziraldo, Guidacci, Claudius e muitos outros. Em outubro do ano passado, um de seus desenhos também entrou no livro e na exposição Noel é 100, que comemorou o centenário de Noel Rosa na Sala Leila Diniz, em Niterói. Recentemente começou a participar do grupo Caricatura Solidária e chegou a trabalhar em uma campanha em prol das vítimas das enchentes que varreram a Região Serrana do Rio em 2011. Adail, que é membro da ABI desde 1992, não pára. Desenha para capas de livros, faz caricaturas ao vivo e colabora no Jornal Espírita desde 1980. Currículo vasto que, se depender do desenhista, vai continuar crescendo. “Adail tem um talento incrível para desenhar e o faz com qualidade e rapidez impressionantes. Ele deve ser o único cartunista conhecido que se aventurou a

colaborar com uma publicação espírita. Ele tem esse perfil de descobrir, estar sempre levantando coisas novas”, conta o pedagogo e cartunista André Brown. Não só a qualidade do trabalho, mas também o seu caráter afável, fazem com que Adail seja sempre lembrado. No fim de 2011, ele e o cartunista Guidacci foram homenageados num evento que tem a cara da cidade do Rio de Janeiro. Foi durante o 7° Encontro Anual dos Cartunistas Cariocas, organizado pelo cartunista Ferreth em uma parceria com os amigos do bloco carnavalesco da Confraria do Peru Sadio, criado no Leme. No encontro, realizado no dia 10 de dezembro no bar Sindicato do Chopp de Ipanema, cada um recebeu uma placa comemorativa das mãos do Presidente da Confraria. Responsável pela homenagem, o cartunista Ferreth lembra como conheceu, e nunca mais esqueceu Adail. “Eu já conhecia o trabalho dele bem antes de conhecêlo. Chegou a me mandar uns ótimos trabalhos, assinados por um tal de Pinduca. Só depois fui saber que os dois eram a mesma pessoa”, conta, rindo. O amigo Guidacci que também foi homenageado, disse que teve contato com Adail no Pasquim e na Última Hora. “É uma pessoa muito carismática, muito fácil de lidar. Todos gostavam dele. Sempre teve a tônica do humor leve, que é de sua própria personalidade. Nunca foi de fazer ataques frontais, sempre apresentou um humor engraçado e traços leves. Essa característica de desenhos inteligentes, mas lights, percorreu a imprensa toda e ele manteve isso em todas as publicações”. Adail também tem uma outra paixão que passou a dedicar parte de seu tempo há alguns anos: a música. Compositor letrista, descreve em suas letras a lembrança de jornalistas e dos tempos de nostalgia. Mas também compõe músicas infantis, educativas, sobre dengue ou contra a corrupção. Adail nem pensa em se aposentar. Com seu desenho e sua música, ele somou as artes e completou seu talento, muito bem descrito pelo grande Nássara em um de seus trabalhos: “Casamento perfeito letra e música Além da arte plástica emoldurando: é o Adail”

JORNAL DA ABI 374 • JANEIRO DE 2012

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